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Centro de Direito Internacional - Cedin Programa de Pós-Gradução Lato Sensu em Estudos Diplomáticos

JORNALISMO E SOFT POWER:

O poder das agências internacionais de notícias na América Latina

Ariane Cristina Gervásio da Silva

Belo Horizonte

2012

Ariane Cristina Gervásio da Silva

JORNALISMO E SOFT POWER:

O poder das agências internacionais de notícias na América Latina

Monografia apresentada ao Centro de Direito Internacional como requisito parcial para a obtenção do título de pós-graduada em Estudos Diplomáticos.

Belo Horizonte

2012

Dedico a os meus pais Nédina Maria e Geraldo Magela, minhas fontes de motivação e carinho. Aos meus irmãos Natália e Ariel Gervásio, pela tolerância, e ao meu namorado Carlos Frederico pelo apoio e inspiração.

Agradeço ao professores de Relações Internacionais e Jornalismo do UNI-BH por dividirem parte do conhecimento comigo e por me fazerem enxergar variações sobre a mesma realidade.

“Embora todos comecem a vida inserindo-se no mundo humano através do discurso e da ação, ninguém é autor ou criador da história de sua própria vida. Em outras palavras, as histórias, resultado da ação e do discurso, revelam um agente, mas esse agente não é autor nem produtor. Alguém a iniciou e dela é o sujeito, na dupla acepção da palavra, mas ninguém é seu autor.” (Hannah Arendt)

RESUMO

O objetivo deste trabalho é analisar se as notícias transmitidas por agencias internacionais podem atuar como soft power na América Latina, levando em consideração os novos desafios impostos pela era da informação e eventos como os atentados de 11 de Setembro. Nesse contexto, procura desvendar as relações de poder no mundo contemporâneo que vão para além da esfera do poder econômico e militar [hard power], desdobrando-se no chamado poder brando ou soft power, o tipo de poder que compreende a imagem, propaganda e cooperação de Estados por meio da cultura, valores e política interna e externa destacando o papel do jornalismo, em especial, o jornalismo internacional neste ambiente.

Palavras-chave: Soft power, América Latina, jornalismo internacional

SUMÁRIO

1

INTRODUÇÃO

07

1.1 Justificativa

09

1.2 Objetivos

11

1.2.1 Objetivo geral

11

1.2.2 Objetivos específicos

11

2

EXERCÍCIO DO PODER

12

2.1 Características do soft power

12

2.2 Estados Unidos e os recursos de soft power

16

2.3 Soft power pelo mundo

21

2.4 A prática do poder brando

26

3

JORNALISMO INTERNACIONAL E AMÉRICA LATINA

31

3.1 Jornalismo como referencial de mundo

31

3.2 Produção jornalística: Agenda Setting e Newsmaking

. 39

3.3 Prática jornalística na América Latina

47

4 ANÁLISE DE COMO AS AGÊNCIAS INTERNACIONAIS UTILIZADAS NA

AMÉRICA LATINA ATUAM COMO SOFT POWER

51

4.1 Soft Power e o jornalismo como referencial

51

4.2 Produção de notícias e distribuição de temas

53

4.3 Reflexos da distribuição do poder no jornalismo internacional

56

5

CONCLUSÃO

62

REFERÊNCIAS

63

1 INTRODUÇÃO

A Segunda Guerra Mundial desembocou em uma nova ordem política, caracterizada pela

bipolaridade. O poder ideológico, político e econômico passava a ser concentrado nas mãos

de duas potências, os Estados Unidos, capitalista e a União Soviética, socialista. Durante os

anos da Guerra Fria, a disputa socialismo versus capitalismo foi preenchida por incentivos e

sanções financeiras, grandes tensões militares sem embates diretos, intervenções pontuais em países estrategicamente importantes.

Hobsbawm (1995) considera a Guerra Fria a era de ouro do século XX – isso porque vivia-se uma pseudo-paz, pautada no equilíbrio de poder entre EUA e URSS. Mais do que o domínio econômico e militar das superpotências, a era de ouro também foi cenário da disputa tecnológica (expressa, por exemplo, na corrida espacial e na tecnologia nuclear), da prosperidade econômica (produção agrícola, produção de petróleo, bens de consumo) e da disputa ideológica entre EUA e URSS.

O domínio ideológico garantiria a continuidade da bipolaridade, traduzida em poder para as

duas potências e em benefícios financeiros e militares para os seus aliados – num contexto em que estes aliados reuniam algum potencial para questionar as superpotências tanto nos âmbitos político quanto econômico e cultural – haja vista as intervenções da URSS (via Pacto

de Varsóvia) na Hungria em 1956 e na Tchecoslováquia em 1968, bem como o apoio dos

EUA a diversos golpes de estado em sua “área de influência” na América do Sul nas décadas

de 1950-1970, além de pressão sobre os aliados europeus em processo e integração e competição econômica com Japão, “Tigres Asiáticos” e países membros da OPEP.

Nunca antes na história, capturar corações e mentes pareceu tão importante. Nesse contexto, assistimos ao surgimento de órgãos específicos de gestão estratégica de informação dentro dos governos com intuído de fomentar e gerir atrativos culturais, valores e modelos de políticas que agissem como atrativos dessas ideologias (NYE, 2004).

Segundo Nye (Ibid.), a União Soviética optou pela promoção da alta cultura – por meio da arte, música erudita, dança e esportes – ao passo que os Estados Unidos seguiram principalmente o caminho da cultura popular – indústria cinematográfica, bandas e músicos

famosos, por exemplo. Paralelamente, o advento da televisão e a popularização do rádio, como meios de comunicação de massa, incentivaram o surgimento em todo mundo de

radiodifusoras [em inglês broadcasters, emissoras de televisão e rádio], junto com agências

de notícias, públicas e privadas que distribuíam conteúdo noticioso alinhado ou com o ponto

de vista de seu país de origem concentrados na América do Norte, Europa e Ásia (O’KEEFFE & OLIVER, 2010)

Em 1989, com a queda do muro de Berlim e o fim da Era dos Extremos, assistimos à fase dodesmoronamento da pseudo-paz da Guerra Fria, resultando na consolidação da vitória capitalista sobre o socialismo, restando uma única potência no cenário mundial,os Estados Unidos (HOBSBAWM, 1995). Essa nova realidade ideológica reduziu consideravelmente a necessidade de fomentar e gerir atrativos culturais, valores e modelos de políticas a fim de conquistar corações e mentes.

A situação mudou em 2001, quando os Estados Unidos foram vítima dos ataques terroristas

de 11 de Setembro de autoria da organização fundamentalista islâmica Al-Qaeda. O medo gerado pelo terrorismo incentivou uma mudança brusca na política interna e externa americana durante a administração Bush. Entre as principais ações estão o lançamento da Guerra contra o Terror quando os EUA invadiram o Afeganistão para derrubar o governo talibã (2001 - ) e a Guerra do Iraque (2003 - ) fomentada pela suspeita de que aquele país teria armas de destruição em massa. Ambas as ações desembocaram numa impopularidade crescente do presidente Bush em casa e no exterior, bem como em descrença interna e externa nas políticas de suas administrações.

Nesse ambiente complexo em que o poder militar e o poder econômico não são suficientes para determinar influencia sobre o outro Estado, e sobretudo, no qual emergem novos atores e

relações, voltam à tona discussões sobre a capacidade de atração exercida por país, para além de relações de coerção e comando. Diante disso,Nye (Ibid.) sugere a diferenciação de hard power, o poder econômico e militar [coerção e comando] do soft power, definido pelo poder

de

atração que envolve cultura, valores e a política interna e externa.

O

soft power se torna mais robusto com a era da informação que, além de introduzir novos

maquinários – trazendo qualidade e facilidade de difusão – faz uso intensivoda internet como

principal meio, fazendo as informações circularem com mais facilidade (O’KEEFFE &

OLIVER, 2010). No cenário contemporâneo, as agências de notícias continuam sendo agentes importantes para a disseminação de notícias que envolvem a cultura, valores e a política interna e externa de seus países de origem.

Rodrigues (2001) destaca que o jornalismo é essencial como processo que torna uma situação acessível à população, sobretudo porque faz a transição do discurso esotérico – típico de cada área de conhecimento – para o exotérico, em princípio inteligível para todos os interlocutores. As relações entre os países são assunto do jornalismo internacional: “as editorias internacionais têm diariamente um mundo de notícias. No sentido próprio e também no sentido figurado” (NATALI, 2007, p.9).

Na cadeia produtiva jornalística, o uso de informações de agências está ligado a limitações financeiras e técnicas. Para Natali (Ibid.), por esse motivo, são notícias amplamente utilizadas por países fora do eixo do poder econômico – por exemplo, nos países latino-americanos – e via de regra, simplesmente reproduzidas.

Nesse sentido, uma análise da imprensa latino-americana reflete, de forma relevante, a distribuição de poder em escala global que também perpassa a análise da distribuição de informação, sobretudo pelo meio jornalístico [dotado de credibilidade e visibilidade] configurado como soft power. É nesse sentido que minha monografia propõe abordar a imprensa latino-americana no contexto global da geração e fluxo de informações.

1.1 Justificativa

Atualmente, a globalização, impulsionada pela era da informação, traz para o cotidiano das pessoas uma realidade paradoxal. Por um lado, o encurtamento das distâncias e o trânsito de informações cada vez mais veloz e intenso, por outro, uma infinidade de informações que precisam ser organizadas e interpretadas. Essa nova lógica de distribuição de informações afeta a vida de cada indivíduo, e em uma perspectiva macro, os países, alterando suas relações com outros Estados, organizações não-governamentais e organismos multilaterais.

A era da informação tem impactos sobre o poder econômico e militar, hard power, mas uma

influência ainda maior no soft power. O soft power - poder brando - é o poder de atração por meio da cultura, valores e rumos da política interna e externa, e é utilizado por um país para alcançar determinados objetivos. Essa esfera de poder está intimamente ligada à imagem,

propaganda e ao potencial atração voluntária de um país que podem ser potencializados ou destruídos de maneira volátil por esses novos mecanismos de distribuição de informação. Portanto, considero que o conceito de soft power, introduzindo nas Relações Internacionais por Nye (2004), pode ser aplicado ao jornalismo e seus processos de distribuição de notícias.

Em países considerados desenvolvidos e/ou em desenvolvimento, como é o dos países caso latino-americanos, o jornalismo tem limitações técnicas e financeiras (NATALI, 2007). Essas limitações refletem a realidade da região. A Comissão Econômica para America Latina, (CEPAL), previu um crescimento econômico de 3,7% em 2012, comparado aos 4,3% registrados em 2011, além disso, os investimentos na América Latina somam 20% do Produto Interno Bruto (PIB), enquanto em países da Ásia, por exemplo, o investimento chega a 40%.

Diante dessa realidade econômica [que não é recente] empresas jornalísticas locais recorrem

as notícias de agências internacionais como fonte de informação.

Para O’Keeffe& Oliver (2010) as agências de notícias se consolidaram como conglomerados de informação concentradas, em sua maioria, nos países desenvolvidos. Durante a cobertura de determinado acontecimento, os temas abordados e os critérios jornalísticos utilizados se desdobraram alinhados à política externa desenvolvida pelo país sede da empresa. Esse alinhamento é incorporado pela imprensa latino-americana, aceito pelos jornalistas locais e transmitido para a população (SANT’ANNA, 2006). Mais do que notícias, as informações transmitidas pelos meios de comunicação são dotadas de valores, ideologias, pontos de vista que podem gerar interpretações, e eventualmente guiar o público.

Nessa perspectiva, existem dois movimentos claros de informação: por um lado, as agencias internacionais atuando como representações, privadas ou públicas de seu país de origem; por outro lado, a imprensa latino-americana, que retransmite essas informações para o público local que determina direta ou indiretamente os rumos das políticas internas e externas de um país. Faz-se necessário, pois,analisar como as notícias de agências internacionais utilizadas pela imprensa latino-americana atuam como soft power, que numa perspectiva ampla, pode conduzir, influenciar e servir de instrumento de estratégia política de determinado Estado.

2.2 Objetivo

2.2.1 Objetivo geral

Analisar se as notícias de agências internacionais utilizadas pela imprensa latino-americana podem atuar como soft power.

2.2.2 Objetivos específicos

Analisar como o soft power pode ser aplicado à distribuição de informação.

Observar como o jornalismo, dotado de visibilidade e credibilidade, pode ser considerado soft power.

Identificar como a matéria veiculada pode atuar na propagação de ideais e

cultura, como forma de influencia indireta em âmbito local e global.

Observar a distribuição de poder global pela ótica da produção jornalística.

Identificar como o modo de produção jornalística é reproduzido em âmbito

internacional e na América Latina.

Apontar os temas freqüentes e os critérios jornalísticos utilizados na cobertura

internacional desenvolvida pela imprensa latino-americana, e como elas se refletem

em soft power.

2 EXERCÍCIO DO PODER

2.1 Características do Soft power

Para Nye (2004), o poder pode ser definido como a capacidade de fazer coisas e a habilidade de se obter os resultados desejados. Por natureza, o exercício do poder está diretamente ligado á relação de comando e coerção [poder tangível] que pode acontecer por meio de proibições, força, sanções, induções ou até pelo medo. Mas se o poder também envolve a capacidade de mudar comportamentos [poder intangível] “if you believe that my objectives are legitimate, I may be able to persuade you to do something for me without using threats or inducements.” 1 (NYE, 2004, p. 2)

Quando essa dinâmica do poder é transferida para o ambiente internacional, os Estados atuam de forma estratégica para obter os ganhos desejados. O poder tangível, hard power , é representado principalmente pelo poder militar – com base na força e às vezes no medo – e econômico – baseado em sanções, garantias, por exemplo. Por outro lado, a alteração de comportamento desdobra-se por meio de cultura, valores, intercâmbios ou políticas internas ou externas direcionadas, determinam o poder intangível ou soft power. (NYE, 2004)

Em âmbito global, o soft power [em português poder brando] é uma forma indireta de obter ganhos moldando a preferência dos outros longe da pressão econômica ou na força militar [hard power], por exemplo. O soft power é “the ability to establish preferences tends to be associated with intangible assets such as an attractive personality, culture, political values and institutions, and policies that the seen as legitimate or having moral authority. If a leader represents values that others want to follow, it will cost less to lead.” 2 (NYE, 2004, p.6). É um poder atrativo que utiliza como recursos baseados em valores comuns e utilizando diferentes tipos de moeda.

1 Se você acredita que meus objetivos são legítimos, eu posso ser capaz de persuadir você a fazer alguma coisa para mim sem usar artimanhas e incentivos.

2 A capacidade de estabelecer preferências tende a ser associada aos ativos intangíveis como uma personalidade atraente, cultura, valores políticos e instituições e políticas visto como legítimo ou tendo autoridade moral .Se um líder representa valores que outros querem seguir, custará menos para liderar.

As pessoas e os governos tendem a considerar a coerção e o comando como instâncias concretas, mensuráveis e previsíveis, considerando a esfera do hard power menos complexa que a esfera do soft power, que é mais subjetiva.

Mas alguns acontecimentos políticos como os atentados de 11 de Setembro e a Guerra do Vietnã impuseram novos desafios ao pensamento tradicional. Nesses dois momentos o poder econômico e militar americano foram insuficientes, tanto para ganhar a guerra, quanto para prever os atentados. (NYE, 2004)

Essas mudanças na esfera do poder, impulsionadas pela era da informação, propõe uma agenda política internacional baseada não só em questões militares e econômicas, mas também na eminência de questões transnacionais como crime internacional, mudanças climáticas, terrorismo, minorias que se distribuem em Estados e atores não-estatais. Essa tendência evidencia novas dimensões do jogo internacional:

Yet many political leaders still focus almost entirely on military assets and classic military solutions – the top board. They mistake the necessary for the sufficient. They are one-dimensional players in a three-dimensional game. In the long term, that is the way to lose, since obtaining favorable outcomes on the bottom transnational board often requires the use of soft power assets.

3 (NYE, 2004, p.5)

Para sintetizar esse jogo tridimensional, Nye (2004) determina um espectro do poder, conforme anexo I, que indica o tipo de comportamento e os recursos utilizados. Há nações que detém um grande poder econômico que também exercem um grande poder da atratividade. Também há nações que exercem atração baseada no mito de invencibilidade imposta pelo poder militar ou nações que pautam seu poder de atração em causas como assistência econômica e peacekeeping, por exemplo. (NYE, 2004) Desta forma, o soft power é desenhado pela relação de legitimação da imagem transmitida ou políticas desenvolvidas:

When countries make their power legitimate in the eyes of others, they encounter less resistance to their wishes. If a country's culture and ideology are attractive , others more willingly follow. If a country can shape international rules that are consistent with its interests and values, its actions

3 No entanto, muitos líderes políticos se concentram, quase inteiramente, nos ativos militares e nas soluções militares clássicas – no topo do plano. Eles confundem o necessário pelo suficiente. Eles são jogadores unidimensionais em um jogo tridimensional. A longo prazo, essa é a fórmula para o fracasso, uma vez que a obtenção de resultados favoráveis no plano transnacional inferior requer muitas vezes o uso de ativos de soft power.

will more likely appear legitimate in the eyes of others. If it uses institutions and follows rules that encourage others countries to channel or limit their activities in ways it prefers it will not need as many costly carrots and sticks. 4 (NYE, 2004, p.10)

Para Nye (2004) o soft power de um Estado é ancorado em três recursos: a cultura, os valores políticos e a política externa. A cultura e suas manifestações atuam na formação do imaginário de determinada sociedade. Essa manifestação pode ser percebida tanto por meio

de produtos da indústria cultural e empresas transnacionais, quanto em esferas menores como

viagens, intercâmbios e contatos de pessoas de um país para o outro. A cultura pode funcionar como elemento de identificação – reforçando o soft power – ou de divergência – diminuindo o efeito do soft power – que podem variar de acordo com o contexto:

When a country’s culture includes universal values and its policies promote values and interests that others share, it increases the probability of obtaining its desired outcomes because of the relationships of attraction and duty that it creates. Narrow values and parochial cultures are less likely to produce soft power. 5 (NYE, 2004, p.11)

Os valores políticos e a política externa também são diretamente ligados ao contexto. Em alguns momentos as políticas de alguns países pode estar alinhada, facilitando trocas, e consequentemente, reforçando o soft power. Em âmbito interno, a mudança de partidos e estruturas políticas pode refletir na imagem do país em âmbito externo.

A influência política observada no soft power é diferente da influência observada no hard

power, que é bem maior. No hard power, o governo determina diretamente os rumos militares e econômicos do país. Independente da política interna e externa adotada pelo país, políticas impopulares são prejudiciais para o soft power. “Government policies can reinforce or squander a country’s soft power. Domestic or foreign policies that appear to be hypocritical,

4 Quando os países fazem seu poder legítimo aos olhos dos outros, eles encontram menos resistência aos seus desejos. Se a cultura e a ideologia de um país são atrativas, outros estarão mais dispostos a seguir. Se um país pode influenciar as regras internacionais que são consistentes com seus valores e interesses, suas ações irão provavelmente parecer legítima aos olhos dos outros. Se ele usa instituições e segue regras que incentivam outros países a canalizar ou limitar suas atividades da maneira que preferir, ele não vai precisar de recursos caros.

5 Quando a cultura de um país inclui valores universais e as políticas promovem valores e interesses que os outros compartilham aumenta a probabilidade de alcançar os resultados desejados por causa da atração e da função que esse efeito cria. Valores restritos e culturas provincianas são menos propensas a produção de soft power.

arrogant, indifferent to the opinion of others, or based on a narrow approach to national interests can underline soft power.6 (NYE, 2004, p. 14).

O soft power também acumula alguns limites e críticas: 1) O soft power depende mais do

contexto que o hard power porque está ligado a capacidade de interpretação dos receptores; 2)

o soft power é mais importante quando é disperso em outro país do que quando é

concentrado; 3) o soft power às vezes tem efeitos diretos em metas específicas. (NYE, 2004)

Nye (2004) esclarece que nos atentados de 11 de Setembro, além da preocupação com o soft

power, o mundo tem assistido a uma mudança do papel do poder militar a ainda novas facetas

do

terrorismo, ambos afetados consideravelmente pela era da informação.

O

terrorismo – caracterizado pelos ataques que disseminam intimidação e medo – cresceu e

tornou-se transnacional principalmente pelo progresso tecnológico que sustenta o sistema vital desses grupos – facilidade de transporte, trocas de informação, energia etc. (NYE, 2004) . Além disso, os grupos estão mais organizados e motivados, grande parte dessa mudança deve-se a presença da internet como meio de trocas e obtenção de informação . “Terrorists

also depend on getting their messages out quickly to a broad audience through mass media and the Internet.” 7 (NYE, 2004, p.22). A união dessas tendências aumenta proporcionalmente

a letalidade dos grupos terroristas, que acabam tendo mais acesso à armas biológicas e nucleares, por exemplo.

Na esfera militar, as novas tecnologias geram um efeito contraditório, por um lado a tecnologia traz equipamentos de precisão, inteligência, vigilância – com os Estados Unidos como única superpotência militar – mas por outro revelam um alto custo político e social. A predominância de países que seguem o modelo democrático – evitando o uso da força – geram ilhas de paz que acabam valorizando a importância do soft power. “The existence of such islands of peace is evidence of the increasing importance of soft power where there are

6 As políticas governamentais podem reforçar ou dissipar o soft power de um país. Políticas internas ou externas que parecem ser hipócritas, arrogantes, indiferente à opinião dos outros ou baseada em uma abordagem estrita aos interesses nacionais podem minar o soft power.

7 Terroristas também dependem do recebimento rápido de suas mensagens pelo público amplo por meio dos meios de comunicação de massa e Internet.

shared values about what constitutes acceptable behavior among similar democratic states.” 8 (NYE, 2004, p.20)

Para Nye (2004) o poder econômico, político e soft são importantes em graduações diferentes e em diferentes contextos. Contudo, a era da informação coloca o soft power em evidência, com relações cada vez mais intensas e próximas impulsionadas pela globalização, surgimentos de novos atores e a importância dos meios de comunicação:

This political game in a global information age suggests that the relative importance of soft power will increase. The countries that likely to be more attractive and gain soft power in the information age are those with multiple channels of communication that help to frame issues; whose dominant culture and ideias are closer to prevailing global norms (which now emphasize liberalism, pluralism and autonomy); and whose credibility is enhanced by their domestic and international values and policies. 9 (NYE, 2004, p.33)

2.2 Estados Unidos e os recursos de soft power

Depois da Segunda Guerra, os Estados Unidos se destacaram como modelo de Estado com um grande potencial de soft power. “Not only is America the world’s largest economy, but nearly half of the top 500 global companies are American, five times as many as next-ranked Japan. Sixty-two of the top 100 global brands are American, as well as eight of the top ten business schools.”( 10 NYE, 2004, p.33)

O potencial de soft power expressivo não quer dizer efetividade, isso porque o poder de

atratividade varia de acordo com a audiência. Para Nye (2004) esse fenômeno fica claro no pós 11 de Setembro, seguido pela Guerra do Iraque, que desembocou numa rejeição a política

do presidente Bush, um sentimento de antiamericanismo:

8 A existência das tais ilhas de paz é uma prova de crescente importância do soft power onde existem valores compartilhados sobre o que compõe um comportamento aceitável entre Estados com democracias semelhantes.

9 Este jogo político na era da informação global, sugere um aumento relativo na importância do soft power. Os países que tendem a ser mais atraentes e ganhar soft power na era da informação são aqueles com múltiplos canais de comunicação que ajudam a moldar questões; cuja cultura dominante e idéias são próximas as normas globais dominantes ( que atualmente enfatizam o pluralismo, o liberalismo e a autonomia) e cuja credibilidade é reforçada pelos seus valores políticos nacionais e internacionais.

10 Os Estados Unidos não é só a maior economia do mundo, mas quase metade das 500 maiores empresas globais são americanas, cinco vezes mais que o próximo da ranking, Japão. Sessenta e duas das 100 maiores marcas globais são americanas, assim como oito das dez melhores faculdades de administração.

Opposition to American policies is not the same as general opposition to the United States. Reactions to policies are more volatile than underlying reactions to culture and values. The image or attractiveness of a country is composed of foreigners attitudes on a variety of levels and types, of which reactions to American policy constitute only one. 11 (NYE, 2004, p.35)

A queda de atratividade também foi notada em mais quarto momentos da história americana

como: 1) Após a crise do Canal de Suez em 1956; 2) Nos anos 60 na iminência da campanha de desarmamento; 3) Durante a Guerra do Vietnã; 4) Durante o desenvolvimento de mísseis de médio alcance. (NYE, 2004, p.35-36) O fato é que a queda de popularidade ou medidas impopulares dos EUA refletiu diretamente nos seus objetivos políticos de maneira volátil.

Nye (2004) acredita que existem outras esferas que afetam a atratividade americana como os aos valores, sociedade e cultura, e ainda uma questão estrutural. No tocante aos valores, sociedade e cultura, a atratividade é variável de acordo com a identificação. Desta forma, uma sociedade com valores diferentes dos valores americanos não é atraída e tende a ser antiamericana.

Já o antiamericanismo estrutural está relacionado à imergência dos Estados Unidos pós Segunda Guerra. “The United States is the big kid on the block and the disproportion in power engenders a mixture of admiration, envy, and resentment.” 12 (NYE, 2004, p.38)

Junto a ideia de antiamericanismo estrutural e o monopólio americano, existe a impressão de que o mundo todo está tomado pela cultura americana, que ao ritmo da globalização, tornam

as marcas e empresas do país conhecidas mundialmente. Mas a globalização é um fenômeno

universal e também pode ser vivenciado com a mesma intensidade por outros países com força parecida e/ou semelhante de soft power. “Globalization’s contours are not solely American, though quite naturally its current effects reflect what happens in the world’s largest economy. To equate globalization with Americanization is to oversimplify a complex reality” 13 (NYE, 2004, p.40)

11 A oposição a política americana não é a mesma que oposição geral aos Estados Unidos. Reações às políticas são mais voláteis que relações subjacentes a cultura e valores. A imagem ou a atratividade de um país é composta de atitudes estrangeiras variando em níveis e tipos, das quais reações a política americana são apenas parte.

12 Os Estados Unidos é o big kid [destaque] do bloco e a desproporção do poder gera uma mistura de admiração, inveja e ressentimento.

13 O contorno da globalização não é unicamente americano, embora reflita

maior economia do mundo. Equalizar a globalização com americanização é simplificar uma realidade complexa.

naturalmente o que acontece na

De qualquer forma, a posição econômica favorável dos Estados Unidos propiciou maiores investimentos em redes de informação global tornando-o principal Estado na era da informação. Nesse contexto de globalização latente, Nye (2004) analisa o soft power americano, dividindo o conceito em três pilares: cultura, políticas e valores domésticos, e finalmente, estilo e substancia da política externa.

Segundo Nye (2004) é comum a divisão entre alta cultura e cultura popular. Durante a Guerra Fria, os Estados Unidos concentraram parte dos investimentos em alta cultura, sobretudo em intercâmbios acadêmicos e científico, museus, teatros e operas – incluindo trocas com a União Soviética:

Though the Soviet Union demanded a governmental agreement to limit the scope of such exchanges, some 50000 Soviets visited the United States between 1958 and 1988 as writers, journalists, officials, musicians, dancers, athletes, and academics. An even larger number of Americans went to the Soviet Union. 14 (NYE, 2004, p.46)

Ações de soft power focadas na elite intelectual tem maior efeito político, visto que esse grupo tem maior capacidade e interesse em tomar decisões políticas. Mas Nye (2004) defende que a cultura popular tem impacto significante no soft power americano, sobretudo, porque está diretamente ligada a rotina dos indivíduos e aos meios de comunicação de massa. Nesse aspecto, a indústria do cinema, dos esportes, shows, notícias e até das grandes marcas e indústrias são importantes para as políticas do país. “Popular entertainment often contains subliminal images about individualism, consumer choice, an other values that have important political effects.” 15 (NYE, 2004, p.46-47)

Segundo Nye (2004) com o fim da Segunda Guerra, a cultura popular americana ganhou espaço na Europa e ajudou na democratização daqueles países transmitindo valores como liberdade, vitalidade e modernidade. Esses valores se desdobraram durante a Guerra Fria e

14 Embora a União Soviética tenha exigido um acordo governamental para limitar o escopo dessas trocas, cerca de 50000 soviéticos visitaram os Estados Unidos entre 1958 e 1988, como escritores, jornalistas, oficiais de governo, músicos, dançarinos, atletas e acadêmicos. E um número ainda maior de norte-americanos foi para a União Soviética.

15 No entanto, desdém seja esquecido, porque o entretenimento popular muitas vezes contém imagens sobre individualismo, escolha do consumidor e outros valores que têm efeitos políticos importantes.

também foram responsáveis pela vitória dos EUA como potência hegemônica no início dos anos 90. A cultura popular americana também foi efetiva em outras metas políticas:

] [

of democratic governments in Latin America and parts of East Asia, the overthrow of the Milosevic regime in Serbia, pressure for liberalization in Iran, and the consolidation of an open international economic system, to name just a few. 16 (NYE, 2004, p.49-50)

including the undercutting of the apartheid regime in South Africa, the increase in the number

Apesar de atingir um público maior, a cultura popular americana é sujeita a variáveis: 1) Por não ser controlada diretamente pelo governo pode não produzir os efeitos esperados; 2) Pode ter efeitos contraditórios dentro do mesmo país, ter diferentes significações; 3) Os instrumentos de cultura popular não são estáticos estão sujeitos ao mercado e ao momento político. (NYE, 2004) Este último pôde ser observado na dinâmica de fluxo de informação, como notícias, por exemplo, em diferentes momentos da política americana:

In television news, however, there has been a clear political change. During de Gulf War, CNN and BBC had the field largely to themselves as they framed the issues. For example, Iraq’s invasion of Kuwait in August 1991 was described in terms of Iraqi aggression rather than recovering the lost providence of Kuwait, which is how the Iraqis saw it. (India framed its invasion of its ancient province of Goa the same way, and there was little significant international reaction.)By the time of the Iraq War, Al Jazeera and others were active competitors in framing the issues. For instance, the same image of moving forces could accurately be described by CNN as “coalition forces advance” or by Al Jazeera as “invading forces advance.” The net effect was a reduction in American soft power in the region when 2003 is compared with 1991. 17 (NYE, 2004,

p.54)

O fato é que a quebra no monopólio da notícia com o surgimento de outros veículos de comunicação, evidencia a inconstância da estrutura de soft power nos EUA.

Ao tratar das políticas e dos valores domésticos, Nye (2004) considera conceitos como democracia e direitos humanos fortes recursos de atração, mas não é o suficiente. Isso porque

incluindo a subcotação do regime do Apartheid na África do Sul, o aumento no número de governos

democráticos na América Latina e partes da Ásia Oriental, a derrubada do regime de Milosevic na Sérvia, a pressão para a liberalização do Irã, e a consolidação do sistema econômico internacional aberto, para citar apenas alguns exemplos.

16 [

]

17 No noticiário televisivo, no entanto, tem havido uma mudança política clara. Durante a Guerra do Golfo, CNN

e BBC tiveram um grande espaço para enquadrarem os problemas. Por exemplo, na invasão do Kuwait pelo

Iraque, em agosto de 1991, foi descrita em termos de agressão do Iraque ao invés de recuperar a província perdida do Kuwait que foi como os iraquianos viram. ( Índia moldou a invasão de sua antiga província de Goa

da mesma forma e não houve reação significativa da comunidade internacional.) Na época da Guerra do Iraque,

a Al Jazeera e outros concorrentes foram ativos ao enquadrarem os problemas. Por exemplo, a mesma imagem

de movimento das forças pode ser descrito pela CNN como “avanço das forças de coalizão” ou pela Al Jazeera como “avanço das forças de invasão”. O efeito de rede foi uma redução suave do poder americano na região no ano de 2003 em comparação com 1991.

os valores variam de acordo com o público, aquilo que é atrativo para uma audiência pode não ser para outra. “For example, American feminism, open sexuality, and individual choices are profoundly subversive to some, patriarchal societies.” 18 (NYE, 2004, p.55) Além disso, mesmo os indivíduos que alinham com os valores e a política dos EUA podem não aplicar esses conceitos em seus próprios países.

Apesar dos Estados Unidos estarem bem colocados em uma série de fatores internos que podem aumentar soft power – como educação, numero de livros publicados, uso de computadores e internet – está mal colocado em outros fatores – expectativa de vida, educação primária e acesso à saúde, por exemplo – que podem influenciar o poder de atratividade com algumas reservas:

Certainly a decline in the quality of American society or unattractive policies at home could reduce our attractiveness and that could damage our soft power. But when other countries share similar problems, comparisons are less invidious and less damaging to our soft power. 19 (NYE, 2004, p.58)

Para Nye (2004) até a crescente falta de confiança no governo, sobretudo na administração Bush, que afeta diretamente o conceito de democracia aos moldes americanos, não foi suficiente para alterar a política americana de forma considerável.

De forma paralela a política interna, a política externa também determinou a forma como o soft power americano foi construído de acordo com os interesses nacionais. Nesse aspecto pode ser definido pela substância – conteúdo da política – e pelo estilo – unilateralismo e multilateralismo. (NYE, 2004)

Sobre a substância, os Estados podem focar suas políticas de forma ampla ou estreita, sendo que “policies based on broadly inclusive and far-sighted definitions of the national interest are easier to make attractive to others than policies that take a narrow and myopic

18 O feminismo americano, a sexualidade aberta e escolhas individuais são profundamente subversivas em sociedades patriarcais.

19 Certamente o declínio em qualidade da sociedade americana ou as políticas internas pouco atraentes pode reduzir nossa [dos Estados Unidos] capacidade de atração que pode danificar o soft power. Mas quando os países compartilham problemas semelhantes, as comparações são menos injustas e menos prejudiciais para o nosso soft power.

perspective.” 20 ( NYE, 2004, p.61) Os Estados Unidos aumentam consideravelmente o poder de atração na promoção de bem público.

A política externa americana é predominantemente unilateral – ou seja, forcada nos interesses do país – e essa característica pode gerar conflitos com outros países e queda de atratividade. Neste aspecto, a política multilateral – focada no trabalho conjunto entre os países para uma causa comum em benefício interno e dos outros – poderia ter reflexos mais positivos sobre o soft power. (NYE, 2004) Em suma, a imagem dos Estados Unidos e sua atratividade acabam sendo definidas por diversos fatores que variaram durante a história e que determinarão o futuro do soft power americano:

It depends in part on culture, in part on domestic policies and values, and in parto n the substance, tactics, and style of our foreign policies. Over the years, these three resources have often produced soft power – the ability to get the outcomes America wanted by attracting rather than coercing others. All three are important, but policy substance and style are both the most volatile and the most susceptible to government control. In any event, we have seen that soft power is not static. Resources change with the changing context. 21 (NYE, 2004, p.68)

2.3 Soft power pelo mundo

Os Estados Unidos tem um recurso enorme de soft power e sabe usá-lo de forma efetiva, mas Nye (2004) acredita que outros países também são capazes de usar esse poder de forma eficaz. A União Soviética, atual Rússia, expandiu seu soft power durante a Guerra Fria numa disputa de áreas de influência com os EUA. A promessa quase utópica do comunismo fazia parte do imaginário das pessoas ao redor do globo e os partidos comunistas foram usados estrategicamente para servir aos interesses do governo. “The Soviet Union also spent billions on an active public diplomacy program that included promoting its high culture, broadcasting, disseminating disinformation about the West, and sponsoring antinuclear protests, peace movements, and youth organizations.” 22 (NYE, 2004, p.73)

20 Políticas baseadas em amplamente inclusivas e definições clarividentes do interesse nacional são mais fáceis de ser atrativas para os outros que as políticas que tem uma perspectiva estreita e míope.

21 Ele depende em parte da cultura, em parte das políticas domésticas e valores, e em parte da substância, táticas

e estilo das nossas políticas externas. Ao longo dos anos, esses três recursos muitas vezes produziram soft power

– a capacidade de alcançar os objetivos que os EUA queriam sem usar a coerção. Todos os três são importantes,

mas a substância política e estilo são os mais voláteis e os mais suscetíveis ao controle do governo. De qualquer

modo, vimos que o soft power não é estático. Recursos mudam de acordo com a mudança do contexto.

22 A União Soviética também gastou bilhões em um programa ativo de diplomacia pública que incluía promoção da sua alta cultura, radiodifusão, disseminação da desinformação sobre o ocidente, e patrocínio de protestos antinucleares, movimentos pacifistas, e organizações de juventude.

Alguns acontecimentos no período pós Guerra Fria renderam a URSS um forte poder de tração como a visita de Nikita Khrushchev aos Estados Unidos em 1959 – quando as pessoas pensaram que a URSS iria realmente enterrar os EUA – e o lançamento do satélite Sputnik quando pais europeus pensaram que a URSS iria encabeçar a corrida espacial (NYE,2004). A União Soviética também priorizou a demonstração de superioridade cultural e no sistema

educacional que refletiram, por exemplo, nos índices esportivos positivos e nas companhias

de balé mundialmente conhecidas, mas deixando de lado a cultura popular:

Popular culture, however, was an entirely different story. The closed nature of the soviet system and its constant efforts to exclude bourgeois cultural influences meant that the Soviet Union ceded the battle for mass culture, never competing with American global influence in film, television, or popular music. 23 (NYE, 2004. P.74)

Durante o período de abertura da União Soviética, glasnost, o soft power principalmente na Europa foi positivo, ainda sim é/foi um poder com efeitos limitados. “In science and technology, classical music, ballet, and athletics, Soviet culture was attractive, but the absence of popular cultural exports limited its impact.”( 24 NYE, 2004, p.75)

A situação é diferente na Europa, onde o soft power é mais efetivo. Para Nye (2004) a arte

européia, literatura, música, design e até mesmo a comida têm influenciado todo o mundo por anos. Essa ligação foi reforçada pelo processo de colonização:

[…] many European states have a strong cultural attractiveness: half of the ten most widely spoken languages in the world are European. Spanish and Portuguese link Iberia to Latin America, English is the language of the United States and the far-flung Commonwealth, and there are nearly 50 Francophone countries who meet at biannual summit at which they discuss policies and celebrate their status as countries having French in common. 25 (NYE, 2004, p.76)

23 Cultura popular, no entanto, era uma historio totalmente diferente. A natureza fechada do sistema soviético e seus esforços constantes para excluir influências culturais burguesas significavam que a União Soviética cedeu a batalha pela cultura de massa, nunca competindo com a influência americana em filmes, televisão ou música popular.

24 Em ciência e tecnologia, música clássica, balé e atletismo, a cultura soviética era atrativa, mas a ausência de exportação de cultural popular limitou seu impacto.

muitos Estados europeus têm uma atratividade cultural forte: metade das dez línguas mais faladas no

mundo é européia. Espanhol e português ligam a Ibéria a América Latina, inglês é a língua dos Estados Unidos e de vastas comunidades, e há cerca de 50 países francófonos que se encontram em uma cúpula semestral em que eles discutem políticas e comemoram sua qualidade de países que tem o francês em comum.

25 [

]

Nye (2004) destaca a importância de países europeus em diversas áreas como: 1) Ciência e tecnologia – incluindo Prêmio Nobel e número de sites hospedados; 2) Esportes – em especial o futebol; 3) Literatura – número expressivo de venda de livros; 4) Música – músicas de forte apelo popular e conhecidas mundialmente; 5) Turismo – França e os países vizinhos como rotas turísticas mundiais; 6) Marcas – a Europa junto com os Estados Unidos detêm a maior parte das marcas conhecidas mundialmente. O fato de existir uma união entre os países, a União Européia, já é um ponto favorável em soft power. “The ideia that war is now unthinkable among countries that fought bitterly for centuries, and that Europe has become an island of peace and prosperity creates a positive image in much of the world.” 26 (NYE, 2004, p.77)

O imaginário em torno da União Européia também criou referências fortes na área econômica, por exemplo. Durante a Guerra Fria, pesquisas realizadas em países do Leste Europeu apontaram a Europa Ocidental como um modelo político e econômico a ser seguido por eles. Tanto que, durante a abertura, grande parte dos países da Europa Ocidental alinhou sua política e suas leis domésticas conforme os padrões da Europa Ocidental. (NYE, 2004)

Nye (2004) acredita que em acontecimentos recentes como a Guerra do Iraque, o poder da atratividade europeu também mereceu destaque, sobretudo, quando os EUA defenderam a participação da Turquia na União Européia em 2002. A estratégia que foi entendida como uma tentativa de buscar apoio turco para as ofensivas no Iraque:

A measure of the European Union emerging soft power is the view that it is a positive force for solving global problems. In the wake of the Iraq War, Eastern Europeans and Turks gave to EU higher marks than the United States for playing a positive role on a variety of issues ranging from fighting terrorism to reducing poverty to protecting the environment. 27 (NYE, 2004, p.78)

Além do poder de atratividade cultural e em políticas domésticas, o soft power europeu também é pautado na política externa para o bem público global, não em sua totalidade, mas principalmente em assuntos relacionados ao direito internacional, mudança climática e

26 A ideia que a guerra é impensável entre países que lutaram cruelmente durante séculos, e que a Europa se tornou uma ilha de paz e prosperidade cria uma imagem positiva em grande parte do mundo.

27 Um parte do soft power emergente da União Européia é a ideia de uma força positiva para resolução de problemas globais. Na esteira da Guerra do Iraque, os europeus orientais e os turcos deram notas mais altas a União Européia que aos Estados Unidos por agir de forma positiva em diversos assuntos desde o combate ao terrorismo, redução da pobreza até a proteção ao meio ambiente.

tratados de direitos humanos. (NYE, 2004) A presença expressiva da EU nas operações de peacekeeping e de assistência humanitária também garantem um bom percentual de soft power. Para Nye (2004), o fato de a União Européia utilizar organismos multilaterais com mais facilidade que os Estados Unidos, é uma habilidade para fazer frente ao poder americano – num argumento de balanço de poder – e uma habilidade adquirida na própria natureza de negociações da EU. “The European preference for multilateral cooperation has generated a few successes that have increased Europe's soft power as well as its economic power.” 28 (NYE, 2004, p.81)

Nye (2004) acredita que há momentos em que a política pública européia pode estar alinhada com a política pública americana com quando os extremistas islâmicos da Al Qaeda defenderam uma posição anti ocidental. Dessa forma o soft power atua em duas linhas:

Not only can European soft power be used to counter American soft power and raise the price of unilateral actions, but it can also be a source of assistance and reinforcement for American soft power and increase the likelihood of the United States achieving its objectives. Soft power can be shared and used in a cooperative fashion. European promotion of democracy and human rights helps advance shared values that are consistent with American objectives. 29 (NYE, 2004, p.82)

Do outro lado do mundo, a cultura secular dos países asiáticos é um elemento diferencial no soft power desenvolvido por aqueles países. “The arts, fashion, and cuisine of Asia’s ancient cultures have already had a strong impact on the other parts of the world for centuries” 30 (NYE, 2004, p.83). Até os anos 50, a Ásia sofria de uma industrialização tardia e de um quadro crônico de pobreza e fome, neste contexto, a reconstrução do Japão pós-Segunda Guerra foi um exemplo importante para os outros países da região:

The real resurgence of Asia began with the economic success of Japan. Asian often refer to the image of geese flying in formation to describe the way that smaller countries like Singapore, South Korea, Malaysia, and others closely followed Japan’s strategy of targeting strategic industries for

28 A escolha européia pela cooperação multilateral gerou algum sucesso que aumentou o soft power na Europa, bem como seu poder econômico.

29 O soft power europeu não só pode ser usado para combater o soft power americano e aumentar o preço das ações unilaterais, como também ser uma fonte de apoio e reforço para o soft power americano e aumentar a probabilidade dos Estados Unidos atingir seus objetivos. Soft power pode ser compartilhado e utilizado de forma cooperativa. A promoção da democracia e direitos humanos europeus ajuda na promoção dos valores compartilhados que são consistentes com os objetivos americanos.

30 As artes, a moda e gastronomia das culturas antigas da Ásia já tiveram um impacto forte sobre outras culturas durante séculos.

development, financing major projects, exporting fiercely, and protecting infant industries. 31 (NYE, 2004, p.84)

Para Nye (2004) apesar do milagre econômico aliado aos valores asiáticos servir de argumento para a manutenção de governos autoritários e para manter a estabilidade política naquela região, o Japão é a única potência capaz de competir com Estados Unidos e Europa quando o assunto é soft power. O país ocupa papel de destaque em áreas relacionadas a tecnologia, e ao mesmo tempo, consegue manter a cultura nipônica fechada. Atualmente o Japão é referência em número de patentes registradas – primeiro lugar – vendas de músicas e livros, quantidade de sites hospedados – numericamente segundo maior do mundo – exportação de tecnologia, expectativa de vida etc. (NYE, 2004)

Mesmo com o abrandamento econômico dos anos 90, o Japão conseguiu expandir seu soft power, principalmente no que diz respeito a cultura popular, comida, equipamentos eletrônicos, arte, arquitetura e moda. O apelo dos produtos japoneses era diferenciado, por exemplo na indústria de vídeo games onde “Japanese images dominated children’s dreams quite handily over the last five years with their mix cuteness and power.” 32 (NYE, 2004, p.86). Mas nem sempre o destaque na área de ciência e tecnologia reflete em um soft power efetivo, como na experiência da NHK 33 em transmissões internacionais de notícia:

Japanese media tried to break into world news markets, and the government-owner NHK network began satellite broadcast in English. The venture failed, however, as NHK's reports seemed to lag behind those of commercial news organizations, and the network had to rely on CNN and ABC for content. 34 (NYE, 2004, p.88)

31 O real ressurgimento da Ásia começou com o sucesso da economia japonesa. Asiáticos muitas vezes se referem à imagem de gansos voando em formação para descrever a forma que países pequenos como Singapura, Coréia do Sul, Malásia e outros acompanharam de perto a estratégia do Japão de segmentação estratégica da indústria par ao desenvolvimento, financiamento de grandes projetos, exportações ferozes e proteção da indústria latente.

32 Imagens japonesas dominaram os sonhos das crianças ao longo dos últimos cinco anos com uma mistura de fofura e poder.

33 Nippon Hōsō Kyōkai, em ingles, Japan Broadcasting Corporation

34 A mídia japonesa tentou invadir o mercado mundial de notícias, a agência governamental NHK começou transmissões via satélite em inglês. O empreendimento fracassou, no entanto, como os relatos da NHK pareciam ficar atrás dos relatos de organizações de notícias comerciais a rede teve de contar com CNN a ABC como fonte de conteúdo.

Nye (2004) enumera três fatores que limitam o poder de atração japonês. Primeiro, por questões históricas, o Japão não tem a admiração dos países vizinhos como China e Coréia – uma situação similar a da Alemanha pós Segunda Guerra. Segundo, o os problemas demográficos e a uma sociedade culturalmente fechada com uma forte tendência anti imigração. Por ultimo, o japonês não é uma língua mundialmente utilizada e o os conhecimentos da língua inglesa entre os japoneses é bastante limitado.

Ao mesmo tempo, observa-se na Ásia o surgimento de países com amplo potencial de soft power, a Índia e a China. A China tem se destacado nos esportes e na área de ciência, por exemplo, com destaque nos projetos espaciais. Por outro lado, a Índia garante uma boa posição nos assuntos ligados à tecnologia e na indústria de entretenimento, principalmente no cinema. (NYE, 2004) Contudo, o soft power desses países é uma previsão para o futuro e tem como principal entrave a política interna e valores:

While culture provides some soft power, domestic policies and values set limits, particularly in China, where the Communist Party fears allowing too much intellectual freedom and resists outside influences. Both countries have a reputation for major corruption in government. India benefits from democratic politics, but still suffers from overly bureaucratized government. 35 (NYE, 2004, p.89)

Apesar do crescente soft power dos países asiáticos, e principalmente da emergência da Índia e da China como potenciais destaques de atratividade, Nye (2004) acredita que atualmente o nível de atração em toda a Ásia está muito distante do nível de atração da União Européia e dos Estados Unidos.

2.4 A prática do poder brando

Durante a apresentação do conceito de soft power , Nye (2004) deixa claro que o exercício desse tipo de poder é difícil porque foge da esfera governamental e os seus efeitos dependem diretamente da aceitação da audiência, apesar de muitas vezes trabalhar indiretamente moldando o ambiente político. “Moreover, sometimes dissemination of information can quickly produce or prevent a desired outcome. Generally, however, soft power resources are

35 Enquanto a cultura fornece algum soft power, as políticas internas e valores estabelecidos colocam limites, particularmente na China, onde o medo do partido comunista permite muita liberdade intelectual e resiste a influências externas. Ambos os países têm uma reputação de corrupção no governo. Mesmo com os benefícios da política democrática, a Índia ainda sofre com a burocratização do governo.

slower, more diffuse, and more cumbersome to wield than hard power resources.” 36 (NYE, 2004, p. 99-100) Os primeiros esforços de soft power aconteceram já no século 17 e 18. Nesta época, a França, por exemplo, conseguiu promover e cultura do país inclusive tornando o francês língua oficial da diplomacia. Durante a Primeira Guerra Mundial o foco passou a ser a propaganda com o pioneirismo da Alemanha e da Grã-Bretanha tentando alcançar a opinião pública americana nos primeiros anos da guerra. (NYE, 2004)

Apesar dos tímidos esforços de utilização da propaganda, a trajetória mundial do soft power mudou com o surgimento do primeiro meio de comunicação de massa, o rádio:

The advent of radio in the 1920s led many governments into the arena of foreign-language broadcasting and in the 1930s Communists in the Soviet Union and Fascists in Germany and Italy competed to promote favorable images of their countries an ideology to foreign publics. 37 (NYE, 2004, p.101)

A popularização do radio induz o aparecimento de várias emissoras pelo mundo 38 , ao mesmo tempo cresceu a preocupação dos governos com a imagem transmitida as audiências estrangeiras o que favoreceu o surgimento de setores governamentais exclusivos para esse fim. Nye (2004) destaca a experiência americana de criação da Divisão de Relações Culturais, em 1938, com objetivo de ganhar suporte da América Latina diante da influência alemã na região durante a Segunda Guerra Mundial. Em 1942, o presidente Roosevelt criou o Escritório de Informações de Guerra, OWI 39 , para tratar de informações precisas, enquanto o Escritório de Serviços Estratégicos atuava na disseminação de desinformação. Esses setores usavam as ferramentas de massa com eficiência. “The OWI even worked to shape Hollywood’s products into effective propaganda tools, suggesting additions and deletions to

36 Além disso, por vezes, a divulgação de informações pode de forma rápida produzir ou evitar um resultado desejado. Geralmente, entretanto, os recursos de soft power são mais lentos, mais difusos e mais complicados de manejar que os do hard power.

37 O advento do rádio na década de 1920 levou muitos governos para a arena da radiodifusão em língua estrangeira, e na década de 1930 os comunistas na União Soviética e os fascistas na Alemanha e na Itália competiram para promover imagens favoráveis dos seus respectivos países e ideologia para públicos estrangeiros.

38 Para mais detalhes ler capítulo 2 da presente monografia.

39 Sigla em inglês para Office of Wartime Information.

films and denying licenses to others . And Hollywood executives, motivated by a mixture of patriotism and self-interest, were happy to cooperate 40 .” (NYE, 2004, p.102)

A Guerra Fria e a popularização e desenvolvimento dos meios de comunicação forçou uma

divisão entre a mídia lenta da diplomacia cultural – artes, livros, intercâmbios e eventos – e a

informação rápida de rádios, filmes e TV (NYE, 2004). A paz pós Guerra Fria e o fim da necessidade das duas potências, EUA e União Soviética, buscarem áreas de influência resultou em uma queda considerável de investimentos – direto e indireto – em soft power.

O soft power voltou a tona com o 11 de Setembro e o novo ambiente internacional com a

iminência da era da informação. A informação é distribuída com um custo menor e em uma

quantidade nunca vista antes gerando um paradoxo de excesso:

When people are overwhelmed with the volume of information confronting them, they have difficulty discerning what to focus on. Attention rather than information becomes the scarce resource, and those who can distinguish valuable information from background clutter gain power. 41 (NYE, 2004, p.106)

Nesse aspecto, figuras como editores e líderes de opinião são importantes para guiar o olhar e a atenção da pessoa. Essa função de guia é pautada principalmente na credibilidade, assim merece atenção a figura que é respeitada como fonte de informação seja ela entre Estados, bem como na mídia, corporações, organizações governamentais e não governamentais e redes

de comunidades científicas. (NYE, 2004)

Para sustentar o exercício do soft power, Nye (2004) esclarece e importância da diplomacia pública. O conceito que muitas vezes é confundido com propaganda ou relações públicas, resume-se na promoção da imagem positiva com o objetivo de dar suporte a política de determinado país – em âmbito interno e externo, com relações de curto e longo prazo com ações diretamente ligadas ao Estado ou não.

40 Mesmo o Escritório de Informação de Guerra trabalhou para moldar os produtos de Hollywood para ferramentas de propaganda eficaz, sugerindo adições e exclusões em filmes e negando a licença para outros. E os executivos de Hollywood, motivados por uma mistura de patriotismo e interesse próprio, estavam felizes por cooperar.

41 Quando as pessoas são sobrecarregadas com o volume de informações que os confronta têm dificuldades de discernir onde prestar atenção. Atenção mais que informação torna-se um recurso escasso e aqueles que podem distinguir a informação valiosa em um ambiente de desordem ganham poder.

A primeira dimensão da diplomacia pública diz respeito as comunicações diárias de tomada

de decisões – interna ou externa – por parte de determinado governo e como ela repercute na mídia local, e consequentemente na opinião pública local. (NYE, 2004) A segunda dimensão concentra-se na comunicação estratégica de temas de interesse da política desenvolvida por determinado governo. Ou seja, a determinação e promoção de pautas cuidadosamente escolhidas em uma estrutura que pode ser comparada a de uma campanha. Nye (2004) ainda acredita na existência de uma terceira dimensão de diplomacia pública, a relação duradoura com indivíduos chave por meio de intercâmbios, trocas, seminários, conferências e acesso aos canais de comunicação.

Contudo, a efetividade da diplomacia pública depende diretamente da relação entre compreender e ser compreendido na mesma medida, principalmente porque perpassa filtros culturais. “ Soft power rests on some shared values. That why exchanges are often more effective than mere broadcasting.” 42 (NYE, 2004, p.111) .

A diplomacia pública tornou-se elemento essencial para garantir a segurança e a prosperidade

de uma nação em um ambiente globalizado com crescimento dos atores não-estatais e uma nova agenda muito mais ampla e diversa – crescimento de discussões sobre terrorismo, mudanças climáticas, expansão das ONGs, energia etc. “In this evolving environment, influencing publics, both domestically and internationally, has become a critical component in projecting a nation’s voice and identify internationally and conducting its foreign policy.” 43 (O’KEEFFE & OLIVER, 2010, p. 7) .

O’Keeffe & Oliver (2010) enumeram algumas atividades desenvolvidas para implementação da diplomacia pública: 1) Diplomacia cultural – por meio de eventos, passeios e atividades promovidas por institutos culturais; 2) Diplomacia educacional – bolsas de estudo, intercâmbios e viagens educacionais; 3) Programas de visitas – Mídia e visitantes ilustres; 4)

42 Soft power repousa em valores compartilhados. É por isso frequentemente as trocas são mais efetivas que a mera transmissão.

43 Nesse ambiente em evolução, públicos que influenciam, tanto domesticamente quanto internacionalmente, tornou-se um componente crítico na projeção da voz de uma nação, identificação internacional e condução de sua política externa.

Programas comunicacionais – relações públicas e midiáticas, gestão de informação e imagem e difusão de notícias.

A diferença entre a difusão de notícias 44 e os outros mecanismos de diplomacia pública é que ela oferece oportunidade ampla de aproximação com o público estrangeiro em base regular e constante (O’KEEFFE & OLIVER, 2010).

44 O’Keeffe & Oliver (2010) utilizam a palavra broadcasting reduzindo a análise a radiodifusão [difusão de informações via rádio e televisão] . Contudo, os conceitos e as ideias desenvolvidas pelos autores são aplicáveis no sentido amplo de difusão de informação, incluindo a informação noticiosa [notícias].

3 JORNALISMO INTERNACIONAL E AMÉRICA LATINA

3.1 Jornalismo como referencial de mundo

No discurso dos meios de comunicação de massa, o discurso midiático acaba por desempenhar um papel de referencial de mundo e de mediador social. Isso porque, segundo Rodrigues (2001), traduz discursos de diversos campos sociais especializados, (economia, ciência, internacional, ambiental) – discurso esotérico – para um discurso mais acessível, tendo, portanto, uma característica exotérica.

Dessa forma, o discurso esotérico é aquele gerado por áreas de conhecimento específicas e instituições, já o exotérico é o discurso midiático destinado à compreensão do grande público. “Ao contrário da natureza sacralizada do lugar de fala autorizado das outras instituições, a cena sobre o fundo da qual se recortam os lugares de fala dos enunciadores autorizados do discurso midiático é um lugar simbólico dessacralizado” (RODRIGUES, 2001, p. 221). A função exotérica do discurso midiático torna esse tipo de discurso facilmente entendido por qualquer espectador, com a garantia de visibilidade e credibilidade.

A visibilidade e a credibilidade das informações traduzidas de outras áreas de conhecimento é importante em um mundo que “the ease of global interconnectedness has created a public with an unprecedented ability to inform itself on international issues45 (O’KEEFFER & OLIVER, 2010). Diante disso, as notícias relacionadas a Estados e Não-estados desempenham papel estratégico na dinâmica internacional. Natali (2007) acredita que o jornalismo internacional se diferencia de qualquer outra editoria por tratar de acontecimentos em âmbito internacional no sentido próprio – por tratar de notícias vindas de vários países do mundo – e figurado – por receber diariamente uma infinidade de notícias.

45 A facilidade de interconexão global criou um público com uma capacidade sem precedentes para se informar sobre as questões internacionais.

Essa característica faz com que o fazer jornalístico dessa área seja extremamente especializado, pois: 1) Existem apenas controles internos sobre a qualidade da informação publicada – devido à distância geográfica as fontes envolvidas pouco se importam com as distorções voluntárias e involuntárias do jornalista; 2) O jornalista não tem acesso direto às fontes envolvidas no acontecimento - o acesso à informação é feito por intermédio de agências internacionais e cabe ao jornalista a pesquisa junto aos especialistas em seu próprio país e na internet; 3) O jornalista da área além de dominar o português, deve ter conhecimento de outras línguas (NATALI, 2007).

A principal matéria-prima para produção de matérias dessa editoria são os textos provenientes de agências internacionais, que tendem a hierarquizar os acontecimentos, assim como é feito na redação. Diante disso há uma tendência à homogeneização da informação baseada em critérios mais ou menos comuns que orientam as agências e os jornais na escolha das notícias. As temáticas mais freqüentes no noticiário internacional são: 1) guerras – algumas com mais visibilidade que outras, como o conflito no Iraque e as guerras civis em alguns países da África; 2) eleições em países vizinhos e países influentes mundialmente, visto que a mudança política no cenário internacional pode alterar ou influenciar a política interna; 3) epidemias com suas conseqüências políticas, econômicas e demográficas; 4) a comoção e imprevisibilidade decorrentes das tragédias. (NATALI, 2007).

Natali (2007) acredita que além da temática, os fatores geográficos e políticos são determinantes para a acessibilidade ao fato jornalístico. Geograficamente, a distância é um limitador. O veículo de comunicação não tem condições de enviar correspondentes para certos locais. Por outro lado, em muitos países não há sucursais das agências internacionais, apenas correspondentes. Há países cuja política interna impõe restrições à liberdade de imprensa, o que caracteriza o fator político como limitador.

Essa especialidade jornalística surgiu no início do século XVI. Apesar da bibliografia sobre o assunto ser limitada, há registros de que o banqueiro alemão Jacob Függer von der Lilie, enviava notícias sobre negócios com regularidade para toda Europa, sobretudo, em Augsburgo na Bélgica, pólo de seus negócios. As notícias englobavam assuntos que influenciavam diretamente o comércio como conflitos regionais orientados, muitas vezes, por questões teológicas, cotação de mercadorias, preços de apólices de seguro, pedágios, taxas, etc. Não por acaso, Függer é apontado como o criador do newsletter:

[

]

Függer e o seu embrião de newsletters impressas permitiu a manutenção de uma rede que

fazia as informações circularem por circuitos paralelos aos utilizados por duas redes previamente

existentes, a rede diplomática, que orientava monarcas, e a rede eclesiástica, que orientava dirigentes da burocracia da Igreja (NATALI, 2007, p.22).

A notícia deixou de circular de forma irregular no século XVIII, quando a atividade dos correios se tornou industrializada, ancorada na demanda feita por comerciantes e no aumento do número de cavalos e boas estradas. Portanto, Natali (2007) afirma que o jornalismo já nasceu internacional, mas como uma necessidade mercantilista e favoreceu o surgimento dos chamados agentes econômicos:

Ocorreu, na época mercantil, o florescimento rápido dessas folhas de notícias impressas que eram vendidas a quem quisesse comprar e não mais circulavam dentro de um mesmo conglomerado comercial e financeiro, como acontecia com a casa Függer ou outras que eventualmente tinhas

A boa informação impressa passou a ser comprada por um grupo

seguido seu exemplo. [

indistinto de pessoas que bem mais tarde seriam chamadas de agentes econômicos (NATALI, 2007, p.22).

]

Devido à localização geográfica, a Holanda e a Bélgica foram essenciais para expansão capitalista, e consequentemente a expansão das publicações de informações estrangeiras ligadas à política e economia. O fenômeno foi seguido na Suíça, Áustria, Hungria, Inglaterra e França. A história acaba por comprovar que: 1) o jornalismo, ao contrário do que se pensa, não nasceu na cobertura local, e sim, na internacional; 2) o comércio da informação nasceu para promover eficiência e poder por meio dos negócios; 3) a informação para o cliente ou leitor está assegurada pela periodicidade regular (NATALI, 2007).

Durante a consolidação do jornalismo internacional também houve situações de censura dos jornais. Entre os episódios mais importantes estão a censura sobre a imprensa alemã e inglesa durante a Guerra dos Trinta Anos entre 1618 e 1648. Diversos países censuravam notícias sobre a Revolução Francesa temendo que os ideais iluministas fossem absorvidos pelo país. Natali (2007) salienta que a censura ocorrida durante a solidificação da imprensa é similar à que aconteceu em episódios recentes como a ditadura militar no Brasil e o Terceiro Reich na Alemanha, funcionando como legitimação de uma ordem existente. Caracteriza-se como “uma espécie de acordo implícito entre governos e elites para que as decisões das cortes

absolutistas e o princípio da legitimidade do Estado não sofressem nenhuma forma de contestação interna ou externa” (NATALI, 2007, p.26).

Entre os séculos XIX e XX o jornalismo amadureceu impulsionado pela tecnologia - desde o código Morse à televisão - e ganhou status de mercadoria. Os jornais e revistas passaram a ser entendidos como produtos e os órgãos de imprensa sujeitos à economia e às regras de consumo. Baseados nesse princípio, durante a Guerra Civil norte-americana (1861-1865) surgiram os pools de cobertura, precursores do que seriam as agências internacionais. Uma equipe ou um repórter gerava material para uma série de empresas jornalísticas. “Um texto distribuído a centenas de jornais que assinavam os serviços de uma agência sai incomparavelmente mais barato que um texto produzido por um correspondente ou enviado especial cujos custos são inteiramente cobertos por um jornal ou por uma revista” (NATALI, 2007, p.31).

Nesse contexto de minimização de custos na cobertura surgiram agências como a francesa Agence France Presse (AFP), a alemã Reuters, a americana Associate Press (AP) e durante a primeira metade do século XX, a italiana Agenzia Nazionale Stampa Associata (ANSA) e a alemã Deutsche Presse-Agentur (DPA). Sem dúvida, um dos maiores impactos na produção de notícia acontece com o surgimento do rádio e da televisão - considerados os primeiros meios de comunicação de massa – no início do século passado. Contudo, os custos de implantação fizeram com que as primeiras difusoras de notícia fossem vinculadas ao governo, e consequentemente, funcionavam como mecanismo de promoção de diplomacia pública. Essa associação entre informação e governo ao longo da história foi reforçada pelo contexto histórico:

Over this 80-year history, the style, presentation and rationale for international broadcasting have

evolved, sharped by global events threats and conflicts. Colonial imperatives, World War II, the

Cold War and the War on Terrorism have each had very significant roles in the way government-

sponsored international broadcasting has developed and been used as an instrument of public

diplomacy 46 (O’KEEFFE & OLIVER, 2010, p.6)

46 Ao longo destes 80 anos de história, o estilo, apresentação e as razões para a difusão internacional evoluíram moldadas pelos eventos globais, ameaças e conflitos. Imperativos coloniais, a Segunda Guerra Mundial, a Guerra Fria e a Guerra contra o terrorismo tiveram cada uma, função importante no patrocínio governamental desenvolvido na radiodifusão internacional e utilizado como instrumento de diplomacia pública.

O governo britânico começou as transmissões de rádio por meio da British Broadcasting Corporation (BBC) em 1922, por televisão em 1932. O nascimento da agência britânica foi impulsionado pela necessidade de aproximação entre o Reino Unido e suas colônias utilizando a língua inglesa. O’Keeffe & Oliver (2010) acreditam que a promoção da língua também perpassa a consolidação da Radio France Internacional (RFI) de 1932 e da TV5 Monde, de 1984 e da France 24 em 2006. Enquanto, a agência alemã Deutsche Welle (DW), criada em 1953, produz conteúdo jornalístico focado na promoção da cultura alemã e no modelo de democracia e liberdade proposta por aquele país.

Em 2006, o surgimento da Al Jazeera propõe uma cobertura dosada e com a África e o Oriente Médio como referenciais. A rede, sediada no Qatar, produz notícias em árabe e inglês com um nível razoável de independência:

Rather than representing the interests of Qatar to the world, Al Jazeera aims to represent the interests and meet the information needs of Arab world. The strict Qatari censorship laws in place when the current Emir came to power have been wound back, leaving Al Jazeera as one of the few media services in the region which provides a credible source of news, but from a non-Western perspective, in contrast to the BBC/CNN international news services 47 (O’KEEFFE & OLIVER, 2010, p.12)

Por outro lado, as grandes corporações de notícias governamentais como a Korean Broadcasting System (KBS), fundada em 1961, e a Japan Broadcasting Corporation (NHK) 48 , fundada em 1925, propõem uma cobertura focada da desmistificação da cultura oriental. As agências de notícias chinesas – Xinhua, 1931, China Central Television (CCVT), 1958 – e são integralmente elementos de diplomacia pública que segundo Moses apud O’Keeffer & Oliver (2010) tem o investimento orientado em dois pilares:

Firstly, it is using its media resources to impress and remind the world that it cannot be taken advantage of again following the humiliations of the 19th and the first half of the 20th centuries.

47 Ao invés de representar os interesses do Qatar para o mundo, a Al Jazeera tem como objetivo representar os interesses e atender as necessidades de informação do mundo árabe. As leis de censura rígidas do Qatar foram travadas quando o emir chegou ao poder deixando a Al Jazeera como um dos poucos serviços mediáticos da região que proporciona uma fonte confiável de notícias, em uma perspectiva não ocidental, em contraste com os serviços de notícia da BBC e CNN.

48 Sigla em japonês para Nippon Hōsō Kyōkai

The second is the endeavour to depict China as an attractive, internationally responsible and respected member of the global community. 49 (O’KEEFFE & OLIVER, 2010, p.12)

Ao todo, cinco razões que levam um governo utilizar a difusão de notícias como diplomacia

pública: 1) fornecer fontes credíveis de informação e ideias – especialmente em possessões coloniais; 2) ter acesso e influenciar cidadãos que residem fora forçadamente; 3) preservar línguas além do inglês; 4) conter a expansão da língua inglesa nos produtos midiáticos e culturais e 5) projetar os valores, cultura, idéias e expertise de determinado país. (O’KEEFFE

& OLIVER, 2010)

A forma de compreensão do ambiente internacional também muda com o tempo. No início do século XX, com o término da Segunda Guerra, o mundo dividiu-se sob a influência de duas potências: os Estados Unidos, capitalistas e a extinta União Soviética, socialista. Nesse período, o noticiário internacional procurava identificar os envolvidos em determinado acontecimento como países aliados ou inimigos dos EUA e da URSS. Esse fenômeno ocorreu sobretudo, nas guerrilhas latino-americanas. Apesar das mudanças de compreensão do ambiente internacional, o leitor dessa editoria é altamente especializado e o jornalista deve tomar cuidado para não ser partidário na cobertura:

Esse leitor tem um grau de exigência para com seu jornal que deve ser respeitado por meio da obediência a certos princípios como o pluralismo de fontes às quais damos a palavra, e o apartidarismo, que consiste sobretudo em não implantarmos um clima de polarização que se tornou anacrônico após a Guerra Fria, mas desta vez tomando a única superpotência como suposta bandida dentro de um mundo habitado por diferentes mocinhos (NATALI, 2007, p.55).

O impacto é maior com a disseminação de conteúdos cada vez mais complexos e

diversificados. Atualmente, as agências de notícias públicas e privadas se descrevem como difusores de informação multimídia, fornecendo conteúdo noticioso – em texto, fotos, vídeos,

áudio – principalmente por meio da internet. “Broadcasters describe themselves as

49 Em primeiro lugar, ele está usando seus recursos midiáticos para impressionar e lembrar ao mundo que não pode ser explorado como nas humilhações do século 19 e na primeira metade do século 20. O segundo é o esforço de retratar a China como um membro atraente, internacionalmente responsável e respeitado na comunidade global. Entrevista com Russ Moses, Deam, The Beijing Center, Pequim. Fevereiro de 2010.

"multimedia broadcasters" and content providers and most place the development of their online and multimedia presence as strategic priority.” 50 (O’Keeffe & Oliver, 2010, p.23)

Natali (2007) acredita que a demanda por melhor qualificação do profissional cresceu na mesma medida em que cresceu a exigência dos editores internacionais. Isso porque o jornalismo internacional passou a ser feito pelos próprios jornalistas da redação, não pelos correspondentes – jornalistas fixos em determinado país – e pelos enviados especiais – jornalistas enviados para determinado local apenas para cobertura de um determinado fato.

Além da redução de equipes em outros países, as empresas jornalísticas economizam com o uso da internet. “Ela fez com que o redator abandonasse seu papel passivo diante dos telegramas das agências. Deu a ele um poder de intervenção inimaginável à elaboração mais pessoal de um texto noticioso” (NATALI, 2007, p.57). Pelo novo meio o jornalista não fica restrito a informações fornecidas pelas agências internacionais, ele pode complementar a matéria com informações de banco de dados de sites oficiais ou procurar fontes e fazer entrevistas por e-mail ao invés do telefone. Portanto, além de significar economia na redação,

a internet pode ser o diferencial para o profissional tornar seu texto mais atrativo.

Mesmo com os mecanismos de atração e intervenção utilizados pelos jornalistas – nas

agências e as redações – é difícil prever a efetividade do jornalismo como diplomacia pública

, mas existem elementos que podem ajudar a identificar o grau de efetividade, são eles: 1)

credibilidade construída na independência; 2) segurança financeira; 3) legislação de proteção;

4) direção estratégia; 5) longevidade. 51 (O’ KEEFFE & OLIVER, 2010)

A credibilidade por meio da independência é construída pela maior ou menor interferência estatal. Nesse aspecto, uma agência chinesa pode ter mais credibilidade que uma agência francesa ou americana, por exemplo. Esse elemento está diretamente ligado a legislação de proteção que é o grau de liberdade de atuação previsto por lei que o meio e/ou jornalista tem e como isso interfere no produto final:

50

Emissoras se descrevem como “emissoras multimídia” e provedores de conteúdo é o espaço para desenvolver sua presença online e multimídia como estratégia prioritária.

51 Diz respeito as agências de notícias especificadamente.

[

]

the BBCWS, DW, RNW, NHK and VOA expressly protect the broadcasters’ (or journalists’, in

the case of VOA) editorial independence in the governing statutes; for Al Jazeera, the independence is in the broadcaster’s code of ethics. While the legislative and governing frameworks in France are silent on editorial independence, the French broadcasters believe themselves to be strongly independent, editorially, from government (which holds a reciprocal

view). 52 (O’KEEFFE & OLIVER, 2010, p. 33)

A segurança financeira, garante a produção, cobertura e distribuição da notícia ao redor do

globo. No caso de agências privadas, o capital é garantido principalmente pela publicidade,

nas públicas o gasto com a instituição é previsto pelo governo podendo variar de acordo com

a situação financeira – interna e externa – de um país. (O’KEEFFE & OLIVER, 2010)

A direção estratégica envolve a cooperação entre governo e agências, principalmente públicas, para metas específicas. Contudo, é um recurso dosado porque cabe os

]governments [

independence by irrevocably protecting that independence and respecting it.” 53 (O’KEEFFE

& OLIVER, 2010, p.35-36). Outras tendências estratégicas impostas pela era da informação é

a expansão das agências para novos mercados e inserção de novas mídias. A expansão de

cobertura e distribuição geográfica é estratégica financeiramente para as agências privadas, e politicamente para as agências públicas. Enquanto a introdução e diversificação de mídias aproximam os interlocutores e expande os canais de transmissão de informação – rádio, impressos, internet, televisão e mídias móveis como celulares e tablets. (O’KEEFFE & OLIVER, 2010) E a longevidade diz respeito principalmente ao contexto de surgimento da agência e seu tempo de existência, desta forma a agência que mantém vínculos mais fortes com o público – língua, proximidade geográfica, relação histórica – e mais tempo de existência (O’KEEFFE & OLIVER, 2010).

maintain this fine balance between strategic cooperation and editorial

A BBCWS [BBC World News], DW, RNW [Radio Netherlands Worldwide] NHK e VOA protege

expressamente independência editorial das emissoras (ou jornalistas, no caso da VOA) em seus estatutos; Para Al Jazeera, a independência está no código de ética da emissora. Enquanto os quadros legislativos e administrativos na França estão calados sobre a independência editorial, as emissoras francesas acreditam serem fortemente independentes, editorialmente, do governo (que tem uma visão recíproca).

52 [

]

53

governos preservar esse delicado equilíbrio entre a cooperação estratégica e independência editorial através da proteção irrevogável dessa independência e respeitando-a.

[

]

3.2 Produção jornalística: Agenda setting e Newsmaking

A teia jornalística é complexa, o processo entre o fato e a notícia que chega até o público está

sujeito a influências do processo de produção jornalística e do próprio fazer jornalístico. Wolf

(1995) aponta duas hipóteses para compreender esse processo, a agenda-setting e a teoria do newsmaking.

A compreensão dessas teorias perpassa os novos paradigmas da comunicação entendida como

um processo circular e contínuo, em que os meios de comunicação e a sociedade atuam reciprocamente, modificando informações. Além disso, os meios de comunicação de massa têm efeitos a longo prazo, efeitos cumulativos (WOLF, 1995).

Nesse contexto, a hipótese da agenda-setting parte do pressuposto de que a mídia tem um impacto considerável na vida das pessoas. Para Shaw apud Wolf (1995), mesmo assim, ela não manipula, mas orienta o público oferecendo um repertório de assuntos que ele deve saber ou pensar sobre 54 :

Os mass media, descrevendo e precisando a realidade exterior, apresentam ao público uma lista

O pressuposto fundamental do

agenda-setting é que a compreensão que as pessoas têm de grande parte da realidade social lhes é fornecida, por empréstimo, pelos mass media. (WOLF, 1995, p.130)

daquilo sobre o que é necessário ter uma opinião e discutir [

].

Os meios de comunicação constituem uma realidade simbólica ancorada em três características: 1) a acumulação – entendida como a capacidade de criar e manter relevância de determinado assunto; 2) consonância – os meios de comunicação tem processos produtivos semelhantes que resultam em informações semelhantes; 3) onipresença – representada tanto pela difusão quantitativa dos meios de comunicação quanto pelo conjunto de acontecimentos

e opiniões que os mass media propagam no arcabouço temático do público (WOLF, 1995).

De qualquer forma, a agenda acaba sendo definida pelos interesses pessoais e interpessoais do sujeito pois “realça a diversidade existente entre a quantidade de informações, acontecimentos e interpretações da realidade social, apreendidos através dos mass media, e as experiências em primeira mão, pessoal e directamente [sic] vividas pelos indivíduos (WOLF, 1995, p.131).

54 SHAW, E. Agenda-Setting and Mass Conimunication Theory. Gazette (International Journal for Mass Communication Studies), vol. XXV, n.º 2, 1979.

Outros fatores também influenciam no poder de agenda de determinado assunto, um deles é o meio utilizado. Cada meio de comunicação foca de forma diferente um fato ocorrido. Wolf (1995) destaca que a informação veiculada na televisão, por exemplo, tem menos poder de agenda que a informação escrita que é mais sólida, visível e constante, consequentemente, dotada de maior possibilidade de lembrança. “As notícias televisivas são demasiado breves, rápidas, heterogêneas e acumuladas numa dimensão temporal limitada, isto é, são demasiado fragmentadas para terem um efeito de agenda significativo”. (WOLF, 1995, p.133)

O poder de agenda também depende da experiência das pessoas. Nesse aspecto, é diretamente ligado aos efeitos cognitivos e às predisposições do indivíduo sobre determinada temática. Roberts apud Wolf (1995) esclarece que o processo de agenda é uma relação quase dialética entre as impressões do indivíduo sobre determinado fato e as informações fornecidas pelos mass media 55 :

A hipótese do agenda-setting defende que os mass media são eficazes na construção da imagem da realidade que o sujeito vem estruturando. Essa imagem – que é simplesmente uma metáfora que representa a totalidade da informação sobre o mundo que cada indivíduo tratou, organizou e acumulou – pode ser pensada como um standard em relação ao qual a nova informação é confrontada para lhe conferir o seu significado. Esse standard inclui o quadro de referência e as necessidades, crenças e expectativas que influenciam aquilo que o destinatário retira de uma situação comunicativa. (WOLF, 1995, p. 137)

O público ainda tem diferentes níveis de conhecimento sobre determinado tema: 1) conhecimento superficial que inclui somente o título da área como economia, política ou meio ambiente; 2) conhecimentos mais articulados que dão base para, por exemplo, análises sobre causas e conseqüências de um fato; 3) conhecimento específico que favorece comentários complexos e detalhados como argumentações, prós e contras de determinada situação (WOLF, 1995). Nesse último, se determinado assunto se torna central – ganha mais destaque nos meios de comunicação – mais a pessoa precisa da mídia para se agendar.

A outra teoria apontada por Wolf (1995), o newsmaking, tem como principal premissa a análise das rotinas produtivas dos jornais buscando compreender como as notícias são produzidas e mais critérios de seleção que tornam um simples fato uma notícia. Nesse aspecto, merece destaque o conceito de gatekeeper, o porteiro ou selecionador.

55 ROBERTS, D.The Nature of Communication Effects, in Schramm W. -Roberts D. (eds.), 1972.

Lewin apud Wolf (1995) mostra que no interior de cada grupo social há zonas que podem funcionar como cancelas ou porteiros que orientados por um sistema objetivo de regras tendem a bloquear ou liberar determinada temática ou informação. 56 No caso dos gatekeepers “há um indivíduo ou um grupo, que tem o poder de decidir se deixa passar a informação ou se a bloqueia” (WOLF, 1995, p. 162).

Esse conceito foi utilizado para analisar o fluxo de notícias dentro das instituições jornalísticas. Um estudo desenvolvido por White apud Wolf (1995) apontou que de dez despachos de agências de notícias apenas um se torna notícia 57 . A pesquisa de White indicou que entre as explicações mais utilizadas para a recusa do material estão falta de espaço para o assunto no veículo, falta de interesse jornalístico e presença de histórias mais relevantes e assunto distantes da realidade do jornal e do público. Pode-se observar que o processo de seleção e filtragem está diretamente ligado a características do processo produtivo do jornalismo e da instituição – em toda a cadeia, desde a coleta até a difusão da informação – do que à subjetividade do profissional. Portanto, diretamente ligados à linha editorial, à política dos jornais e à própria cultura da profissão enraizada nos profissionais.

Os filtros tendem a dar autonomia à profissão e atuam como forma de evitar a chamada distorção involuntária. Essa seleção utilizada pelos meios de comunicação de massa influi diretamente na forma como o público enxerga a realidade social:

Dos mass media – que constituem um núcleo central de produção simbólica, na sociedade actual [sic] – é necessário conhecer-se não apenas os sistemas de valores, de representações, de imaginário colectivo [sic] que eles propõem, mas também o modo, os processos, as restrições e as limitações em que tudo isso acontece. (WOLF, 1995, p.165)

A teoria do newsmaking orienta-se tanto pela cultura do profissional jornalista e a organização do trabalho, quanto pelo processo produtivo. Entre o conceito mais importante da cadeia produtiva está a noticiabilidade definida como “o conjunto de elementos através dos quais o órgão informativo controla e gere a quantidade e o tipo de acontecimentos, de entre os quais

56 LEWIN, K. Frontiers in Group Dynamics. 11. Channels of Group Life: Social Planning and Action Research. Huaman Relations, vol. 1, n.º 2, 1947. p. 143-153.

57 WHITE, D. M. The "Gatekeeper". A Case Study in the Selection of News. Journalism Quarterly, vol. 27, n.º 4, 1950. p. 383-390.

há que seleccionar [sic] as notícias, podemos definir os valores/notícia como componente da noticiabilidade” (WOLF, 1995, p. 175).

Os valores/notícia são critérios mais ou menos comuns utilizados pelas instituições jornalísticas para a seleção dos acontecimentos que têm habilidade para se tornar notícia. Para Wolf (1995) esses critérios acompanham o fato durante todas as instâncias do processo de produção, por conseqüência são rotineiros e devem ser aplicados com rapidez. Além disso, os valores/notícia podem ganhar novas áreas quando necessário ou podem simplesmente sofrer alterações.

Os critérios também derivam de considerações relativas a: 1) características substantivas ou conteúdo – característica do acontecimento que o torna notícia; 2) produto jornalístico – conjunto de processos de produção e realização; 3) público – imagens que o jornalista tem dos destinatários; 4)concorrência – relações entre os meios de comunicação existentes no mercado (WOLF, 1995).

No tocante às características substantivas pode-se destacar o nível hierárquico dos indivíduos envolvidos no acontecimento, seja esse indivíduo de alguma organização governamental ou simplesmente outras organizações e hierarquias sociais. Outro ponto importante é o impacto do fato sobre a nação e o seu interesse nacional, quando é levada em consideração a capacidade do acontecimento influenciar no interesse do país. Galtung – Ruge apud Wolf (1995) considera que o fato deve ser significativo, ou seja, suscetível de ser interpretado no contexto cultural do leitor ou ouvinte 58 – diretamente ligado à proximidade geográfica ou cultural.

Para Wolf (1995) a quantidade de pessoas envolvidas também é determinante para notícia, visto que, quanto maior os envolvidos em um desastre e mais nomes importantes envolvidos em um evento, maior a visibilidade. Por outro lado, também deve-se a fatores socioeconômicos envolvidos, um acidente envolvendo um número menor de europeus, por exemplo, tem maior probabilidade de se tornar notícia que um acidente envolvendo 200 asiáticos.

58 GALTUNG, J.; RUGE, M. The Structure of Foreign News», Journal of Peace Research, vol. 1, 1965. p. 64-

90.

E finalmente a relevância quanto à evolução futura do acontecimento, ou seja, fatos que tem

uma duração prolongada e repercutem além daquelas informações iniciais. É o caso das notícias que rendem suítes – desdobramentos – nos jornais como uma cobertura especial, série de reportagens, eleições etc. Gans apud Wolf (1995) enumera outros requisitos de noticiabilidade 59 : 1) história de pessoas comuns encontradas em situação insólita, ou a vida privada de pessoas públicas; 2) histórias que envolvem inverso de papeis; 3) histórias de interesse humano; 4) histórias de feitos excepcionais e heróicos.

Nas considerações relativas ao produto jornalístico Wolf (1995) destaca a disponibilidade facilidade com que um assunto é coberto – e se o produto está de acordo com as possibilidades técnicas e organizacionais e com as limitações do próprio meio de comunicação. Também são levados em consideração os aspectos que se referem à notícia como resultado de uma ideologia de informação, baseada principalmente no dito bad news is good news – notícias ruins são boas notícias. “Naturalmente um dos princípios fundamentais do jornalismo é que, quanto maior, mais insólito ou mais sangrento é o espetáculo, maior é o valor/notícia” (WOLF, 1995, p.186).

O produto jornalístico também precisa ser atual, de preferência mais próximo ao momento de

veiculação do noticiário. Essa característica depende diretamente do meio utilizado e a periodicidade dele:

O quadro temporal estabelecido pela freqüência da informação e pelo seu formato, determina igualmente o frame em que é avaliada a <<actualidade>> [sic] ou não de um acontecimento. A periodicidade da produção informativa constitui, por si própria, o quadro de referência em que os acontecimentos do mundo são captados. (WOLF, 1995, p. 186)

Segundo Gans apud Wolf (1995) ainda relativo ao produto é à qualidade das histórias que seguem a cinco critérios 60 : 1) ação – quanto mais ilustrada visualmente mais realce terá a notícia; 2) ritmo – caso a notícia seja desprovida de ação ela precisa de outros pontos que a

59 GANS, H. The Creator-Audience Relationship in the Mass Media: an Analysis of Movie Making. In Rosenberg B.-White D. (eds), Mass Culture. The Popular Arts in America, Free Press, Glencoe, 1957. p. 315 -

324.

60 Idem

tornem atraentes; 3) caráter exaustivo – fornecer detalhes e diversos pontos de vista do fato; 4) clareza de linguagem – evitar que o leitor ou telespectador não entenda o acontecimento noticiado; 5) equilíbrio – composição equilibrada do noticiário. Diante da importância do meio de comunicação para disseminação de informação, há critérios de valores/notícias inerentes ao formato proposto em cada meio:

O valor/notícia do formato diz respeito aos limites espácio-temporais [sic] que caracterizam o produto informativo. Do ponto de vista da selecção [sic] dos acontecimentos noticiáveis, este critério de relevância facilita e confere maior rapidez à escolha, dado que impõe uma espécie de pré-selecção [sic], ainda antes de serem aplicados os outros valores notícia. (WOLF, 1995, p. 190)

Ou seja, o valor/notícia do formato permeia uma relação entre o tempo, o texto e a imagem. Para Galtung – Ruge apud Wolf (1995) o tempo pode ser determinado pela freqüência porque quanto mais a freqüência do acontecimento se assemelhar à freqüência do meio de comunicação mais provável será sua seleção como notícia 61 . Assim, o passo a passo de uma investigação policial pode facilmente ser notícia em um jornal diário, enquanto fatos de última hora podem ser notícias primeiramente no rádio. Já o texto é essencial em todos os meios, contudo, a imagem é essencial para a televisão e para alguns assuntos de jornal impresso que são importantes jornalisticamente.

Na prática o jornalista no exercício diário da profissão raramente leva em consideração os anseios do público. Nesse aspecto, os critérios ligados ao público são relativamente difíceis de ser identificados por dois motivos: primeiro, há pouco interesse direto nas pesquisas de audiência e segundo, a prioridade é a informação, e não satisfazer o leitor ou telespectador. Essa preocupação se resume em notícias que o espectador se identifique, notícias de serviços e finalmente, notícias ligeiras que não oprimam o espectador – sem pormenores, histórias deprimentes e sem interesse (WOLF, 1995). Há ainda um mecanismo chamado de proteção, quando alguns fatos não são noticiados ou são noticiados sem detalhes “provocariam traumas ou ansiedade no público ou feririam sua sensibilidade ou seus gostos” (WOLF, 1995, p.192).

Os critérios relativos à concorrência levam em consideração a atual competição entre os veículos de comunicação. Gans apud Wolf (1995) acredita que a concorrência dá origem a

61 GALTUNG, J.; RUGE, M. The Structure of Foreign News», Journal of Peace Research, vol. 1, 1965. p. 64-

90.

três tendências que refletem diretamente nos valores/notícias 62 : 1) competição dos concorrente em torno das notícias, por conseqüência, informações exclusivas 2) pode acontecer de uma notícia ser selecionada com medo de que o concorrente faça o mesmo ou a busca pelo furo; 3) existência de semelhança na cobertura dos veículos, portanto, cada um procura apresentar a notícia da melhor forma. Nesse último a “competição tem também como conseqüência o contribuir para o estabelecimento dos parâmetros profissionais, dos modelos de referencias” (WOLF, 1995, p. 193).

Além dos valores/notícia, que permeiam todo processo de construção da notícia, Wolf (1995) aborda três fases principais da rotina produtiva: a escolha, seleção e apresentação. Na fase de escolha dos acontecimentos noticiáveis estes têm que se encaixar nos valores/notícia relacionados ao produto, ao formato, à instituição e ao meio de comunicação:

A fase de recolha dos materiais noticiáveis é influenciada pela necessidade de se ter um fluxo constante e seguro de notícias, de modo a conseguir-se sempre executar o produto exigido. Isso leva, naturalmente, a que se privilegie os canais de recolha e as fontes que melhor satisfazem essa exigência: as fontes institucionais e agências. (WOLF, 1995, p.197)

As fontes nos veículos são organizadas a partir das características do procedimento produtivo e são escolhidas sob os seguintes aspectos: 1) a oportunidade antecipadamente revelada; 2) a produtividade – fontes institucionais e que fornecem materias sufucientes para confecção da notícia; 3) credibilidade – fonte que detenha informações verdadeiras; 4) garantia – honestidade da fonte; 5) respeitabilidade – fontes oficiais que tenham ações e opiniões oficiais (WOLF, 1995).

As agências de imprensa constituem-se como fontes de informação por questões estratégicas. Os veículos de comunicação, em sua maioria, não têm condições de enviar um repórter ou manter um correspondente no local do acontecimento, portanto, a agência presta um serviço viável economicamente. Além disso, as agências acabam “por alertar as redacções [sic] para tudo que acontece no mundo e é a partir desse conhecimento que as redacções constroem [sic]

62 GANS, H. The Creator-Audience Relationship in the Mass Media: an Analysis of Movie Making. In

Rosenberg B.-White D. (eds), Mass Culture. The Popular Arts in America, Free Press, Glencoe, 1957. p. 315 -

324.

a sua própria cobertura” (WOLF, 1995, p. 208). Por outro lado, a utilização de material de agências por vários veículos provoca homogeneização e a uniformidade de informações.

Outra forma de colher informações são as agendas de serviços, constituída por um conjunto

de

fatos previstos e determinados antecipadamente, fazendo com que o órgão de informação

se

organize com antecedência para o trabalho. “Trata-se, obviamente, de acontecimentos

previstos no tempo, fixados antecipadamente em agenda; por isso na sua maioria, são factos [sic] que se situam na esfera político-institucional-administrativa ou judiciária” (WOLF, 1995, p.212).

A fase de seleção ocorre desde a coleta do material por meio dos repórteres e agências,

passando pelos filtros de escolha até a veiculação nos meios de comunicação de massa. Esses critérios de seleção são complexos e se desenrolam ao logo do ciclo de trabalho,ou seja, já estão regulamentados e estabilizados no meio profissional e organizacional (WOLF, 1995).

A

última fase, a apresentação, envolve as transformações sofridas pelo acontecimento dentro

do

órgão de informação até a veiculação da notícia para o grande público. Para Altheide apud

Wolf (1995) se o público conhecesse essa fase transpareceria a idéia de que os veículos criam

a notícia e não a relatam 63 . É nessa instância do processo que se localizam os trabalhos de edição e adaptação do conteúdo para o formato proposto por cada meio de comunicação. Na apresentação, o acontecimento volta a se organizar:

todas as fases anteriores funcionam no sentido de descontextualizar os factos [sic] do

quadro social, histórico, económico [sic], político e cultural em que acontecem e em que são interpretáveis (isto é, no sentido de <<curvar>> os acontecimentos às exigências de organização do trabalho informativo), nesta última fase produtiva, executa-se uma operação inversa: recontextualizam-se esses acontecimentos mas num quadro diferente, dentro do

formato do noticiário. (WOLF, 1995, p.219)

] [

Wolf (1995) acredita que teorias como o newsmaking derrubam as propostas de explicar os meios de comunicação de forma linear. As novas pesquisas mostram tendência à heterogeneidade dos modos de seleção e de apresentação das notícias.

63 ALTHEIDE, D.Creating Reality. How Tv News Distorts Events, Sage, Beverly Hills, 1976.

3.3 Prática jornalística na América Latina

Para Piernes (1990), a informação era uma arma estratégica que os impérios europeus tinham para colonizar a América. O melhor exemplo foi o México, cujo império Asteca, apesar de sua poderosa máquina bélica, foi derrotado pelas tropas do espanhol Hérnan Cortés. Como oposição ao imperialismo europeu, surgiram nomes como Simón Bolívar e José de San Martín que iniciaram os movimentos de independência em toda América Latina. Mesmo com a promessa de integração e independência proposta por Simón e Martín, meios de comunicação como rádio, televisão e jornais não promovem entre os países latino-americano intercâmbio informacional."A integração latino-americana, sonhada, desejada, clamada, só será consolidada quando os povos latino-americanos se conhecerem melhor. E isso só será possível com uma comunicação de massas que sustente esse ideal" (PIERNES, 1990, p. 9)

Contudo, Piernes (1990) identifica que a deficiência no intercâmbio de informação na América Latina não é culpa apenas do processo colonizatório, mas de interesses mesquinhos, incompetência, falta de recursos ou de imaginação das nações que pouco fazem para melhorar a comunicação regional. Há também um fato cultural guiado pelos problemas sociais latinos:

A comunicação é um bem social do tipo essencial que deve chegar ao povo puro, sem

mistificação, sem infiltração ideológica, sem interesses econômicos. [

informação é tão prioritário quanto o direito à alimentação, à saúde, à educação, à moradia.

Entretanto, o direito a informação tem caído no ranking das prioridades humanas latino- americanas, superado pelos impactos psicológicos que representam a fome, o analfabetismo, a mortandade e a promiscuidade. (PIERNES, 1990, p. 10-11)

O direito de todos a

]

Os latinos americanos também têm pouca oportunidade de replicar as informações a respeito da região, aceitando-as passivamente. "Este direito à réplica é exercido pelos setores minoritários da sociedade, que têm o privilégio do acesso ao manejo da máquina" (PIERNES, 1990, p.11). Piernes (1990) aponta que apesar dos países latinos terem alcançado a independência, eles são impedidos de intensificarem suas relações (empresariais, econômicas, cientificas) por países de maior desenvolvimento e isso se reflete também na produção de notícias:

O especialista norte-americano Al Hester realizou em 1978, um estudo baseado no controle

informativo da agência AP [Associated Press] durante 14 dias. Chegou a conclusão de que pelo

canal principal desta agência norte-americana se emitiram 71% de notícias sugeridas de países desenvolvidos e 29%de nações em desenvolvimento. A proporção de notícias entre nações desenvolvidas e em vias de desenvolvimento é especialmente significativa quanto se recorda que as duas terças partes da população mundial se encontra nos países subdesenvolvidos. (PIERNES, 1990, p.17)

Para Piernes (1990), a informação na América Latina é tratada de forma inadequada não só pelos grandes centros de poder, mas pelas empresas jornalísticas e pelo próprio jornalista. Negando o pensamento colonialista, um grande passo foi dado pela agência de notícias latino- americana LATIN (1970-75) uma das poucas tentativas de disseminação da informação das Américas para o mundo. A empresa acabou sendo sufocada pela agência britânica Reuters.

Em 1875, o material de agências transnacionais foi utilizado pela primeira vez na América Latina quando “o diário Jornal do Commercio do Rio de Janeiro se convertia no cliente pioneiro da Reuter-Havas, que no século passado compartilhava o controle informativo mundial, antes da avalancha das agências norte-americanas.”(PIERNES, 1990, p.79).

Houve uma verdadeira corrida entre França, Alemanha e Grã-Bretanha para que se convertessem em potências de disseminação de informação até a inserção dos Estados Unidos no cenário das agências transnacionais de notícia em 1848 com a Associated Press. A princípio limitou-se a cobertura dos Estados Unidos, Canadá e México, após a Primeira Guerra estendeu-se pela América Central e do Sul.

Piernes (1990) acrescenta que a chegada da United Press em 1907 criou uma nova organização na área de cobertura das agências visto que a UP permaneceu paradoxalmente como aliada da América Latina com um posicionamento antiimperialista. De forma geral, o perfil informativo da América Latina ficou com as agências United Press e Associate Press, Reuteres e Agence France Presse (PIERNES,1990).

Contudo, durante os cinco anos de existência, a LATIN destacou-se como uma boa tentativa latino-americana contra as grandes agências transnacionais, pois “a curta vida de LATIN demonstrou que se pode, sempre e quando exista a decisão política, levar a cabo o empreendimento para que a América Latina rompa as ataduras de sua dependência informativa dos Estados Unidos e a Europa.”(PIERNES, 1990, p.82)

Além da LATIN, existem tentativas de agências nacionais em alguns países como: Brasil, Argentina, Equador, Colômbia, México, Nicarágua, Panamá etc. Em 1984, foram catalogadas 24 empresas informativas nesse perfil (PIERNES, 1990). Piernes (1990) propõe, portanto, uma integração informativa que supere interesses políticos:

A meta suprema da estratégia da integração informativa da América Latina não passa pelas

peripécias da política interna, mas deve estar para além das fronteiras nacionais para poder conter

o “livre fluxo da informação”, manipulado pelas grandes agências transnacionais, que chega permanentemente à América Latina. (PIERNES, 1990, p.89)

Para Sant’Anna (2006) os órgãos de imprensa latinos tendem a importar o recorte jornalístico utilizados pelas agências, com um produto voltado para eleitores norte-americanos e europeus. Mesmo com a convergência de mídias e o processo de globalização latente com objetivo de encurtar distancias, a comunicação é colocada em segundo plano:

A comunicação tem sido, através dos tempos, a maneira pela qual os povos desenvolveram sua

capacidade de trocar, enviar, receber mensagens, idéias, enfim, de dialogarem entre si. A convergência tecnológica e a globalização comunicativa permitiram tecnicamente que a distância

entre os povos se tronasse fator secundário (SANT’ANNA, 2006, p. 2).

Nesse contexto, a universalização social, econômica e cultural proposta pela globalização acaba por reforçar e ampliar as diferenças refletindo diretamente na difusão da informação na América Latina, que é marginalizada nos noticiários do Brasil e do mundo. Scharamm apud Sant’Anna (2006) lembra que “historicamente as informações dos países subdesenvolvidos são relativamente pouco conhecidas” 64 . As matérias veiculadas sobre a região têm o perfil jornalístico com as seguintes características: 1) fatos inesperados; 2) negatividade do fato; 3) probabilidade pequena ou rara de repetição da ocorrência; 4) situação cultural familiar; 5) padrão de conflito semelhante (SANT’ANNA, 2006).

Mesmo com aproximadamente meio milhão de jornalistas no mundo, 17% são latino- americanos que “alimentam-se, quase que exclusivamente, em quatro grandes agências e retransmitem esses valores para terceiros” (SANT’ANNA, 2006, p. 3). Esse comportamento

64 SCHARAMM, Wilbur. Comunicação de Massa e Desenvolvimento – O papel de informação nos Países da Informação nos Países em Desenvolvimento. Rio de Janeiro, Bloch, 1970.

editorial tem três motivos: 1) herança cultural absorvida pelos profissionais da imprensa; 2) cobertura das agências transnacionais prejudicial aos interesses latino-americanos; 3) interesses políticos e econômicos indiferentes ou contrários à integração latina (SANT’ANNA, 2006).

Finalmente, Sant’Anna (2006) acredita que a conduta dos profissionais da área de comunicação juntamente com os efeitos às avessas dos avanços tecnológicos e a globalização ajudam a multiplicar um modelo de imprensa na América Latina alinhado com o pensamento praticado nas nações de primeiro mundo e nas agências internacionais.

4 ANÁLISE DE COMO AS AGÊNCIAS INTERNACIONAIS UTILIZADAS NA AMÉRICA LATINA ATUAM COMO SOFT POWER

4.1 Soft power e o jornalismo como referencial

Por sua própria natureza, o jornalismo se concentra na esfera do soft power porque está longe

dos processo de coerção e comando apresentados pelo hard power e por utiliza-se dos meios

de comunicação para as metas necessárias. No caso dos Estados, a promoção de cultura,

políticas internas e externas e valores, no caso das redações, notícias que desenrolam e criam

mecanismos de atuação alinhados ao surgimento dos meios. Não por acaso, os Estados

utilizaram meios como o rádio e a televisão, atualmente a internet, como forma de influenciar

e disseminar suas idéias.

O diferencial do jornalismo em detrimento dos outros tipos de soft power como os

intercâmbios, ações culturais (eventos promovidos por embaixadas e consulados), ações de

política interna e externa ou visitas, por exemplo, é que o discurso é dotado de caráter

exotérico – traduz o vocabulário específico de várias áreas de conhecimento e instituições –

facilitando o acesso à informação e tornado-se referencial. Essa essência referencial desdobra-

se em credibilidade e visibilidade.

Essa relação de tradução do discurso também é elemento essencial no soft power que também

depende da relação entre compreender e ser compreendido e da capacidade de interpretação

dos interlocutores. Seja em escala menor, como na língua, ou em escala maior como os

valores da nação. Os valores dentro do jornalismo são ainda mais complexos porque além de

envolver valores da sociedade a qual as empresas e jornalistas estão inseridos, também

refletem valores da própria cadeia produtiva. Nesse aspecto podemos destacar a ação do

gatekeeper na seleção dos acontecimentos, as escolhas do jornalista, a linha editorial do

veículo ou o trabalho do editor, por exemplo.

O soft power traz a tona a importância de termos como diplomacia pública que muitas vezes é

confundido com propaganda e relações publicas, mas compreende principalmente a promoção

de uma imagem positiva para dar suporte a política de um país. O fato do jornalismo ser

aproximação diplomática de base regular e constante dialoga com a hipótese do agenda

setting que determina a realidade simbólica dos meios de comunicação como ancoradas nos

efeitos de acumulação, consonância e onipresença. O discurso jornalístico consegue manter a relevância de determinados assuntos, passam por processos semelhantes de apuração de notícia que fazem com que os veículos tenham cobertura de temas semelhantes e os meios de comunicação tornam a informação onipresente.

As três dimensões da diplomacia pública acabam fomentando acontecimentos que podem

gerar notícias e consequentemente, soft power. A primeira dimensão da diplomacia pública,

diz respeito às comunicações diárias dos governos e é voltada principalmente para o público

interno. Se o fato tiver interesse jornalístico irá repercutir na imprensa local e também será assunto nas agências internacionais – por serem notícia de seu país de origem – e reproduzida pelos jornalistas latinos.

A segunda dimensão compreendida pela comunicação estratégica, os governos definem

racionalmente os assuntos que deverão merecer destaque da imprensa e agendar a população, mais em função da campanha e da publicidade dada à demanda, que pela sua essência. Também tem desdobramentos na imprensa local, em agências e consequentemente na imprensa latino-americana.

A terceira dimensão da diplomacia pública que é expressa na relação a longo prazo com

indivíduos chave por meio de intercâmbios, trocas, seminários, conferências e acesso aos canais de comunicação. Pode ter desdobramentos na imprensa local, mas os desdobramentos são mínimos nas agências de notícias pela prática imediatista de uma cobertura jornalística.

A agência internacional privada, pelo próprio vínculo, atua diretamente como mecanismo de promoção de soft power. Mesmo que o poder de atração por meio de diplomacia pública não fique claro, pode ser expresso na linha editorial, no ponto de vista sobre as temáticas, na atuação dos próprios gatekeepers no processo de seleção ou na figura do editor para a apresentação do tema.

Por outro lado, as agências privadas atuam como mecanismo de soft power indireto por não terem ligação com o governo. Mas o mercado com a imposição da concorrência e da lucratividade faz com que assuntos ligados à diplomacia pública também façam parte da pauta desses veículos.

Tanto as agências internacionais quanto os veículos de comunicação latino-americanos, ao organizar as informações e torná-las acessíveis ao público, também atuam sobre o paradoxo

do excesso gerado pela era da informação. Nessa lógica a figura do gatekeeper não só atua na

seleção de notícias, mas na organização dos assuntos que o mundo deve prestar atenção.

A análise do jornalismo por meio de agenda-setting permite compreender a maneira com que uma informação oficial ou ações de política interna ou externa podem repercutir entre os interlocutores. Isso quer dizer que o indivíduo que não tem conhecimentos articulados sobre determinado assunto pode ser mais vulnerável aos efeitos de soft power que a pessoas que possuem conhecimento articulado. As pessoas que possuem conhecimentos articulados podem ter reações mais críticas e realistas sobre o assunto em questão, portanto, menos vulneráveis aos efeitos de soft power. Em função disso, existe dentro do jornalismo uma editoria responsável pela veiculação de notícias em âmbito internacional com profissional especializado, a editoria internacional.

4.2 Produção de notícias e distribuição de temas

Para um assunto de interesse de determinado Estado se desdobrar em soft power por meio de notícia, o acontecimento deve atender a alguns critérios de seleção utilizados na cadeia produtiva jornalística, os valores/notícia. Vide regra são valores mais ou menos comuns que orientam a seleção de notícias nas agências, nas redações latino-americanas e no resto do mundo.

Sobre o conteúdo, o que tem mais desdobramentos como soft power são aqueles que o fato tem impacto na nação [no caso, na América Latina] e são de interesse nacional [dos países

latino-americanos]. Desta forma, algum acontecimento que se aproxime da realidade latino- americana – seja em âmbito político, econômico ou cultural – seria notícia na região, contudo, a efetividade do soft power seria relativa. Logo, algo que transmite imagem negativa resultará

na

não atratividade.

O

nível hierárquico dos envolvidos também é relevante. Figuras de expressão nacional e

internacional são formadoras de opinião, portanto, arrastam uma multidão de seguidores, fãs admiradores ou até opositores. Os países que concentram as maiores agências internacionais geralmente tem nomes de expressão nas artes e na política que atuam como importante fonte

de soft power. As ações humanitárias de um artista, uma descoberta de um cientista importante ou o prêmio recebido por um atleta pode atuar como forte atrativo. Esse mesmo

efeito é identificado nos valores notícia de histórias de interesse humano [histórias diferentes

e que chamam atenção], feitos excepcionais e heróicos e vida privada de pessoas públicas.

Todos esses envolvem pessoas influentes e valores, portanto, quanto maior a identificação entre a personalidade e a população mais efetivo é o soft power.

A evolução futura do acontecimento, que resulta na repercussão do assunto por vários dias no

nas redações latino-americanas e nas agências, desdobra-se na potencialização do soft power positivo ou negativo envolvido na notícia.

A

análise sobre o poder de atração de soft power é mais qualitativa que quantitativa, portanto

o

valor/notícia que define a notícia pela quantidade de pessoas envolvidas no acontecimento

é

a que tem menos desdobramentos como poder brando no jornalismo.

Com o advento da internet, com conteúdos colaborativos e multimidiáticos [sites de vídeo, blogs, redes sociais], as notícias ligeiras, situações insólitas e inversão de papeis também acabam passando pelos olhares dos gatekeepers e vez ou outra ganham dimensões mais de entretenimento do que notícia e não atuam diretamente como atrativo.

As considerações relativas ao produto jornalístico são vistas de forma diferente pelas agências

e pelos veículos latino-americanos. Os recursos disponíveis para as agências de notícias

possibilitam uma cobertura ampla in loco com os equipamentos e tecnologias necessárias para

a transmissão. Essa característica possibilita a cobertura independente da qualidade das

histórias, para a mídia necessária [impresso, TV, radio ou web] no menor tempo possível.

A falta de recursos comum nas redações latino-americanas representa um desafio na cobertura

internacional. Os veículos não têm condições de manter um correspondente ou uma equipe nos locais necessários, e mesmo o envio dos chamados enviados especiais é limitado. A falta de recursos também recai sobre as tecnologias necessárias para a produção e transmissão de conteúdo tornado o crivo da escolha dos assuntos de cobertura, tempo e mídia disponível muito mais acuradas. Mas tanto no caso das agências como nas redações latino-americanas, a internet surgiu como ferramenta essencial para minimizar os custos de produção e transmissão de informações.

Outro critério relevante é a concorrência. Nas redações latino-americanas, que apenas reproduzem conteúdo de agências internacionais, a concorrência e a busca pelo furo e fontes exclusivas não existe nas editorias internacionais. Nas agências internacionais públicas, a ausência do lucro não motiva concorrência, por outro lado, a pressa por apresentar o ponto de vista do Estado para algumas metas específicas, a diplomacia pública, sim. Entre as agências internacionais o furo e a busca por fontes exclusivas fazem diferença. Esses dois pontos podem colocá-la a frente do seu concorrente resultando em lucro e em ganho de credibilidade.

Os critérios relativos ao público não são claramente identificados. Cada interlocutor tem uma personalidade e tal pesquisa, bem como um estudo sobre a efetividade do soft power só é possível por meios de estudos de recepção.

Assim como nas redações, os acontecimentos também são hierarquizados na editoria internacional, tanto das agências como nos veículos de imprensa latino-americanos. Das temáticas mais comuns – guerras, eleições, epidemias e tragédias – todas passam em maior ou menor grau por informações e fontes instituições estatais e pelos governos.

Os assuntos ligados à guerra em especial, perpassam também o ambiente do hard power sob forma de coerção ou proteção militar, portanto, recebem atenção especial no ambiente internacional. No caso de guerras civis, por exemplo, as informações sobre repressão violenta aos grupos ou violação de direitos humanos podem ser mal recebidas pelo público latino que tem uma tradição de ser um povo pacífico. Por outro lado, ações de peacekeeping transmitem imagem positiva. Da mesma forma que uma revolta provocada por minorias de caráter socialista, por exemplo, pode ganhar a simpatia de países como Venezuela ou Cuba. Mesmo nas guerras externas, essas relações se repetem, mas de modo geral guerras tendem a causar um impacto negativo de soft power. Sendo um caso ou outro, a interpretação assim como toda ação de soft power dependerá do contexto.

Os processos eleitorais agem mais sobre os governos e instituições e menos sobre a opinião pública. As eleições que envolvem países próximos ou expressivos com a vitória ou participação de políticos com orientação democrática e uma tendência multilateral acabam por promover impacto positivo de soft power na América Latina. Isso porque a maioria dos países da região mantém regimes democráticos e com políticas multilaterais e essas características geram identificação de valores e política.

Em caso das epidemias – tanto doenças quanto demográficas – o impacto do soft power de um Estado recairá na forma com que ele trata o fenômeno principalmente sobre mecanismos de controle, prevenção e combate e sobretudo, controle das fronteiras. Tanto no caso de doenças quanto demografia os principais impactos são no turismo e imigração nos países podendo ter desdobramentos na economia. Um bom exemplo foi o surto da Influenza A-H1N1 em 2009 que resultou na queda do número de turistas no México, Estados Unidos e Canadá. Mas de forma geral, uma política de controle bem sucedida não causa grandes danos em termos de soft power.

O caráter inesperado de uma tragédia faz com que esse assunto seja o mais distante da

interferência do Estado com impacto menor sobre o soft power. Contudo, em casos de catástrofes naturais, acidentes aéreos, crimes de repercussão, por exemplo, a eficiência do Estado em lidar com a adversidade – socorro as vítimas, apuração dos fatos, investigação e punição – pode gerar ou não um impacto positivo em âmbito internacional. Independentemente da temática, o impacto da notícia como mecanismo de soft power irá variar de acordo com o contexto.

A práxis jornalística na América Latina também é determinante para identificar o soft power

de outros países na região. Ao fazer uso freqüente das agências de noticias, por limitações

financeiras e técnicas, os jornalistas latino-americanos acabam por interiorizar a mesma lógica

de produção e hierarquização de informação. Portanto – se as agências públicas de forma

direta e privadas de forma indireta – reproduzem informações locais e com determinado ponto

de vista e sobretudo, com um foco marginalizado da América Latina, esse conteúdo é reproduzido podendo aumentar a efetividade do soft power. A inexistência de uma agência regional que reforce o ponto de vista, os valores e a cultura dos países da América Latina reforça essa tendência.

4.3 Reflexos da distribuição do poder no jornalismo internacional

Nye (2004) concentra as ações efetivas de soft power nos Estados Unidos, em primeiro lugar, seguido de União Soviética (atual Rússia), Europa e Ásia com o destaque no Japão e no desenvolvimento de outras potencias regionais estrutura que reflete também a organização histórica e atual do mundo.

A história do jornalismo internacional apresenta a atividade de transmissão de informações

como um fenômeno de natureza burguesa porque o transito de informações sobre economia e política era necessário para o desenvolvimento das atividades de comércio. Essa lógica favoreceu o surgimento das primeiras agencias de notícia no velho mundo, a Europa. Não por acaso, as primeiras agências de notícias surgiram a partir de investimentos privados e focavam, sobretudo, no único meio de comunicação da época, a imprensa.

A busca de novos mercados consumidores e o descobrimento de novas terras desaguara na criação das colônias de países europeus na América. A porção norte da América colonizada predominantemente pelos britânicos e franceses, e a porção centro-sul povoada predominantemente por espanhóis e portugueses. O domínio se deu de forma diferente entre a porção norte e sul. Apesar de manter relações de exploração, as colônias francesas e inglesas do norte tinham um caráter predominantemente desenvolvimentista [considerando a vitória das colônias do norte na Guerra de Secessão ou Guerra Civil Americana] que desdobrou rapidamente na independência dos Estados Unidos (1775-1783) e na Revolução Industrial ( século XVIII), por exemplo.

Por outro lado, as colônias do centro-sul da América sofreram com um processo de colonização focada no comercio dos recursos naturais, exploração da mão de obra, e especialmente na colonização espanhola, a dizimação da população local. Os processos de independência na América Central e do Sul começaram a acontecer depois da Independência Americana, e em lugares como o Brasil, ainda existiu o sistema de monarquia antes da consolidação da República em 1889.

O

foco diferenciado da colonização na América do Norte levou os Estados Unidos à dianteira

da

cobertura jornalística na América. Nas colônias espanholas e portuguesas esse processo foi

inibido pela gestão da informação imposta na relação de dependência, superioridade e exploração, que refletiram naturalmente no processo de desenvolvimento das cadeias produtivas.

Esse padrão de colonização na América Latina poderia levar a conclusão de que a imprensa latino-americana utilizaria conteúdo de agências portuguesas ou espanholas [caso elas existissem] tanto pela proximidade colonizador versus colonizado e o interesse dos

colonizadores nessa relação, ou como forma desses impérios conservarem a cultura, a língua ou os costumes de seus países na sua extensão no Novo Mundo. Mas historicamente, a priori, essas colônias foram colônias de exploração sem o intuito de funcionar como extensão desses impérios.

Esse vácuo de transmissão de notícias em âmbito internacional acabou sendo preenchido pela agência britânica Reuter-Havas que já dominava o serviço de telégrafos, naquela época o principal meio de transmitir informações da Europa. A agência européia passou a dividir espaço com a estadunidense Associated Press (1846), e futuramente a United Press (1907), com o diferencial dos chamados pools de cobertura de acontecimentos de expressão – a princípio nos EUA, Canadá e México , depois se estendendo para toda America Latina. Os Estados Unidos tornar-se referencia na distribuição de informações que refletiam a liberdade e modelo econômico do país para os países latino-americanos, traduzindo, portanto uma relação de soft power.

Mesmo com um conteúdo em línguas que não português e espanhol e sem qualquer identificação histórica e política com os países latino-americanos, as agencias internacionais ocuparam as redações e essa tendência de manteve até a Segunda Guerra Mundial. O trânsito da informação na América Latina mudou de perfil com a iminência da guerra, e, sobretudo, com o surgimento do rádio e da televisão como meios de comunicação de massa. O interesse de países latinos em obter informações sobre os desdobramentos diplomáticos no velho continente e ainda a tendência nazi-fascista na Europa desdobraram em um boom de órgão oficiais de informações e agências de comunicação vinculadas ao governo do país de origem. São desse período as agências internacionais privadas AFP, ANSA, DPA e as agências fomentadas pelos governos como a RFI e a VOA 65 , por exemplo com conteúdos radiofônicos e a BBC com conteúdos radiofônicos [e futuramente televisivos] e a DW com conteúdo misto.

Apesar da imprensa escrita ter um poder de memorização de informação maior – por ser dotada de solidez, visibilidade e constância – a informação falada ou televisionada [broadcasters] apresentando mais leveza ou mesmo fragmentação da informação,

65 Voice of America [em português: Voz da America] serviço de radiodifusão oficial do governo dos Estados Unidos.

representava um ganho a favor da veracidade. Escutar a voz de uma fonte oficial ou ver as imagens de uma guerra refletia diretamente sobre o impacto e a efetividade da informação.

Nesse momento, as agências, em especial as de natureza privada, funcionaram como forma de barrar a influência nazi-fascista na América Latina, sobretudo, com a divulgação de atos do governo e conteúdo partindo ponto de vista dos países de origem – o ponto de vista determinado pelos filtros jornalísticos e interferência menor ou maior do governo. Por outro lado, as agências privadas viviam buscando o furo e da exclusividade que agem diretamente nos lucros de vendas e negociações.

O contexto histórico força a associação com o termo diplomacia pública com a transmissão de

notícias principalmente sob a aplicação de das três dimensões sistematizadas por Nye (2004). As comunicações diárias, a comunicação estratégia e a relação duradoura que refletem na imprensa local tornam-se assuntos de agenda por meio da ação dos gatekeepers [em termos da teoria de agenda setting], são repercutidos pelas agências de notícias locais e consequentemente, retransmitidos para América Latina.

O fim da Segunda Guerra marcou o surgimento de duas potências os Estados Unidos e a

União Soviética com o deslocamento de poder de uma perspectiva multipolar para bipolar onde o hard power e o soft power dialogavam todo o tempo. Nesse cenário o soft power ganha destaque na promoção da ideologia socialista e capitalista que dividiam o mundo. Enquanto a o processo de distribuição de notícias americano já estava consolidado – e tomou proporções maiores com outros elementos da cultura de massa como filmes, música e grandes marcas – a distribuição de notícias soviética não foi expressiva mesmo com a presença de Cuba e outros núcleos socialistas que pipocavam em forma de guerrilhas na América Latina. Os motivos do fraco soft power soviético [atualmente da Rússia] se desdobraram no universo noticioso. Além da falta de uma agência privada ou pública expressiva, tem como desafios a língua, uma cultura fechada e ainda a promoção de outros elementos de soft power com menos impacto como é a alta cultura.

Com o fim da Guerra Fria, e a vitória dos Estados Unidos e do capitalismo, a lógica de distribuição de informação continuou refletindo a distribuição de poder mundial. De modo geral, a imprensa latina tendia a utilizar conteúdo de veículos americanos e europeus que naquela altura já tinham a seu favor a um direcionamento estratégico – direto no caso de

agências públicas e indireto no caso das agências privadas – longevidade, legislação de proteção do jornalista e credibilidade, mas com variações no que diz respeito a segurança financeira. Enquanto as agências privadas seguiam a lógica do mercado em busca de vendas e publicidade. As agencias públicas, em conseqüência dos tempos de paz dos anos 90, sofreram com as quedas bruscas de investimentos por parte dos Estados que refletiram diretamente no soft power daqueles países.

Mesmo as tentativas de consolidação de uma agência de notícias própria como foi o caso da LATIN (1970-75). Que automaticamente cumpriria o papel de aproximação com a cultura regional, promoção da cultura e das línguas – predominantemente português e espanhol – não deu certo. A tentativa recente ficou a cargo da TeleSUR 66 (2005) uma emissora multi- estatal fundada pela parceira entre Argentina, Venezuela, Uruguai e Cuba e sediada na Venezuela disposta e fornecer conteúdos sob a perspectiva dos povos do sul. Enquanto, sua natureza profundamente ligada aos governos de esquerda latino-americanos age como direção estratégica e garante a segurança financeira, atua de forma negativa sobre a credibilidade.

O uso de conteúdo de agências internacionais como solução para os entraves financeiros e

limitações técnicas do jornalismo na América Latina com o advento a internet, nos anos 2000,

se tornou ainda mais comum. Dessa forma, alguns processos da cadeia produtiva apontados

por Wolf (1995) como a apuração, ou seja, coleta de informações, seleção pode ser feita pela web. Além disso, o conteúdo para apresentação em jornais impressos, rádio, TVs e internet, passou a ser transmitido e compartilhado em plataformas multimídia disponíveis nos sites dessas empresas.

Não é possível notar presença expressiva das agências asiáticas durante a história latino- americana como a da japonesa NHK [iniciou as atividades no rádio em 1935 e TV em 1950], a sul coreana KBS [em rádio 1927, em TV 1961] e as chinesas Xinhua e CCVT. Em parte pode refletir as diferenças culturais, grande diferença entre as línguas, política [socialista] como no caso das agências chinesas. Mesmo com a iminência da China como país em desenvolvimento – em uma situação similar a brasileira, fazendo parte dos BRICS – e suas agências a Xinhua e CCTV ainda não emplacam conteúdos regularmente na imprensa latina.

66 Televisión del Sur mais informações disponíveis em http://www.telesurtv.net/

Mesmo com a nova configuração de poder trazendo para transmissão de notícias atual agências como a Al Jazeera e os conteúdos multimídia e veiculado em várias línguas de outras agências mundo afora, as agências de notícias latino-americanas ainda recorrem as agências de notícias dos Estados Unidos e Europa.

5 CONCLUSÃO

A agências de notícias internacionais atuam como soft power na América Latina em todas as

instâncias de produção das notícias – desde a seleção do acontecimento, passando pela transmissão do conteúdo via agências e a apresentação da notícia. O discurso jornalístico dotado de credibilidade e visibilidade atua de forma positiva para a propagação da cultura, valores e políticas internas e externas nas audiências regionais.

A função de referencial de mundo atribuída ao jornalismo também tem papel importante na

gestão do chamado paradoxo do excesso imposto pela era da informação. Em um ambiente onde as informações transitam de forma rápida e em grande quantidade, a figura

do gatekeeper como selecionador dos acontecimentos, determina os fatos devem receber

atenção do público. Mas a efetividade do soft power também perpassa o conhecimento do público sobre o assunto noticiado, portanto, se o interlocutor tem conhecimentos específicos sobre o assunto noticiado tende a ser mais crítico e menos susceptível.

A natureza exotérica do discurso jornalístico minimiza diferenças de entendimento entre

emissores da informação e interlocutores, mesmo na editoria internacional com o desafio da língua. A maioria das agências divulga conteúdos em várias línguas – inclusive português, espanhol e francês - e os jornalistas da editoria internacional nas empresas latino-americanas se tornam cada vez mais hábeis tecnicamente para lidar com as particularidades dessa especialização.

A diferenciação entre agências de notícias públicas e privadas reflete diretamente sobre as

notícias disseminadas e consequentemente, no poder de atração. As agências de notícias

públicas noticiam um conteúdo mais estrito a política e cultura do seu Estado de origem que

as agências privadas.

Na editoria internacional, as notícias com forte atração para soft power estão ligadas aos valores/notícia de interesse nacional, hierarquia dos envolvidos, histórias de interesse humano, feitos excepcionais e heróicos e vida privada de pessoas pública. O valor/notícia que

diz respeito à quantidade de pessoas envolvidas não tem efeitos sobre o soft power, enquanto

a evolução futura do acontecimento pode funcionar como potencializador de um atrativo.

Todas as temáticas freqüentes da editoria internacional permeiam diplomacia pública de um governo. Merece destaque o efeito das guerras, seguido por eleições, epidemias e tragédias, respectivamente. Por uma questão histórica e de proximidade cultural as notícias de agências de notícias da Europa e dos Estados Unidos é mais forte, e por uma questão econômica e política, a América Latina não foi berço de grandes agências de notícias.

As redações na América Latina tendem a reproduzir o ponto de vista de agências e a sustentar

a lógica de distribuição de notícias focada na cobertura de países desenvolvidos. Todas as instâncias de produção e transmissão de notícias via agências internacionais refletem a distribuição de poder – principalmente econômico – em âmbito global. Enquanto a América Latina viveu uma relação de dependência de sua metrópole, hoje a relações entre empresas jornalísticas latino-americanas e as agencias de notícias também é de dependência.

Esse estudo não prevê se os impactos das agências como soft power são bons ou ruins para as políticas interna e externa desenvolvida por cada país da América Latina, contudo, a informação deve ser considerada bem essencial e mecanismo de mudanças nas relações de exploração, de desigualdade e diferenças. Nesse aspecto, faz-se necessário a mudança dos valores que orientam os profissionais de jornalismo que atuam na América Latina, direcionando seus conteúdos para uma cobertura mais equilibrada onde os interesses dos países latino-americanos predominem e promovam a diminuição dos problemas crônicos da região.

REFERÊNCIAS

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Paralelo, 1997. Cap. 11, p. 217 – 233.

SANT’ANNA. Francisco. América Latina: um tema fora da pauta. Biblioteca On-line de Ciências da Comunicação. 2002. Disponível em: < http://www.bocc.uff.br/pag/santanna- francisco-america-latina.pdf >. Acesso em: 2 fev 2012.

WOLF, Mauro. Teorias da comunicação. 5. ed. Lisboa: Presença, 1999.

QUADRO 1 – PODER

ANEXOS

Hard Soft coerção indução agenda atração setting comando cooperação Espectro de comportamento força
Hard
Soft
coerção
indução
agenda
atração
setting
comando
cooperação
Espectro de comportamento
força
pagamentos
instituições
valores
Recursos mais prováveis
sanções
subornos
cultura
políticas

Fonte: NYE, Joseph. Soft Power: The Means to Success in World Politics. Nova Iorque:

Public Affairs, 2004. p. 8.