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SEM TTULO Como se comeasse pelo fim, o poema constri um espao de trs para a frente, trazendo consigo as imagens

da noite iluminadas de dia, e um raio de sol esvaziado de luz. Ento ponho-o na mesa que orienta a direo da casa: a cabeceira, para nascente, e as cadeiras em que ningum se vai sentar encostadas ao crepsculo. Vejo-o beber o fogo noturno, abrindo o tampo da mesa com a nitidez de um rumo. Sigo essa linha, que me faz levantar, atravessando a sala at porta. A, ainda olho para trs: mas nada feito. O poema empurra-me para fora, em frente, e leva-me para o mar onde um poema se afunda com a mar cheia
Nuno Jdice, Poesia reunida

O POETA Trabalha agora na importao e exportao. Importa metforas, exporta alegorias. Podia ser um trabalhador por conta prpria um desses que preenche cadernos de folha azul com nmeros de deve e haver. De facto, o deve so palavras; e o que tem esse vazio de frases que lhe acontece quando se encosta ao vidro, no inverno, e a chuva cai do outro lado. Ento pensa que poderia importar o sol e exportar as nuvens. Poderia ser um trabalhador do tempo. Mas, de certo modo, a sua prtica confunde-se com a de um escultor em movimento. Fere, com a pedra do instante, o que passa a caminho da eternidade; suspende o gesto que sonha o cu; e fixa, na dureza da noite, o bater de asas, o azul, a sbia interrupo da morte.
Nuno Jdice, Poesia reunida