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Vermelho Cultura Religiosa Ensino a Distância MANTENEDORA Comunidade Evangélica Luterana São Paulo - CELSP Rua

Vermelho

Cultura Religiosa

Ensino a Distância MANTENEDORA Comunidade Evangélica Luterana São Paulo - CELSP Rua Fioravante Milanez, 206
Ensino a Distância
MANTENEDORA
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SUMÁRIO

A

EXPERIÊNCIA RELIGIOSA

3

HINDUÍSMO

7

BUDISMO

14

ISLAMISMO

21

JUDAÍSMO

28

CONFUCIONISMO

35

XINTOÍSMO

40

TAOÍSMO

41

CRISTIANISMO

44

A

MENSAGEM CRISTÃ NAS PARÁBOLAS DE JESUS

55

LUTERO E A REFORMA

60

IGREJA LUTERANA E EDUCAÇÃO

70

AS RELIGIÕES DO BRASIL

79

CULPA E PERDÃO: UMA QUESTÃO EXISTENCIAL

90

A

RELAÇÃO ENTRE

97

FÉ E SAÚDE

97

 

ÉTICA

103

ÉTICA SOCIAL CRISTÃ APLICADA

110

REFERÊNCIAS

117

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Sumário

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Imagem 1: Wikipedia

A Experiência Religiosa

Imagem 1: Wikipedia A Experiência Religiosa Cultura Religiosa A EXPERIÊNCIA RELIGIOSA Você já deve ter passado

Cultura Religiosa

1: Wikipedia A Experiência Religiosa Cultura Religiosa A EXPERIÊNCIA RELIGIOSA Você já deve ter passado por
1: Wikipedia A Experiência Religiosa Cultura Religiosa A EXPERIÊNCIA RELIGIOSA Você já deve ter passado por

A EXPERIÊNCIA RELIGIOSA

Religiosa Cultura Religiosa A EXPERIÊNCIA RELIGIOSA Você já deve ter passado por alguma experiência

Você já deve ter passado por alguma experiência Religiosa. Se não passou,

alguém ao seu lado já deve ter contado algo que o levou a refletir sobre o assun-

to.

imagina e é universal.

Neste capítulo vamos ver que a experiência religiosa é mais rica do que se

Por Prof. Douglas Moacir Flor*

A religião tem estado presente no cotidia-

no através de diferentes manifestações.

Pode-se, sem entrar em detalhes por

ora, mencionar algumas áreas, alguns eventos e algumas práticas pessoais e sociais marcadas por

idéias, ritos e símbolos consagrados ao campo religioso.

Vamos utilizar aqui alguns pontos trabalha- dos pelo colega Ronaldo Steffen, estudioso do assunto, professor de Cultura Religiosa, publica- do no site da Universidade.

De uma forma bem simples, podemos repor- tar o leitor a algumas práticas familiares ligadas à tradição religiosa como o casamento, batismo, morte e velamento. São cerimônias religiosas tão tradicionais, que muitas pessoas, sem que se dêem conta, se envolvem. O que dizer de pessoas doentes ou com problemas mais sérios que bus-

cam ajuda divina como alternativa para a cura?

No esporte estamos acostumados, marcada- mente no futebol, com a cena de uma oração con- junta antes da entrada no campo. Numa decisão por pênalti, por exemplo, é comum a imagem de jogadores ajoelhados, rezando ou beijando sua santinha.

No campo musical não são raras as menções que se faz a personagens religiosos e até mesmo a sentimentos de ordem religiosa; no campo das artes somos conduzidos a milhares de imagens notadamente carregadas de simbolismo religioso dos mais diversos matizes. A literatura não tem deixado por menos e tem sido o mercado que mais cresce em termos de editoria nos últimos anos. O cinema tem sido pródigo nas temáticas de ordem religiosa. As novelas, fenômeno bra- sileiro que ganha o mundo, jamais têm deixado

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A Experiência Religiosa

A Experiência Religiosa Cultura Religiosa de lado alguma alusão, personagem e até mesmo a temática central

Cultura Religiosa

de lado alguma alusão, personagem e até mesmo

a temática central ligados a fatos eminentemente religiosos.

A nossa alimentação está em grande parte determinada por elementos de ordem religiosa;

o modo de expressar nossas idéias através da lin- guagem é, igualmente, em grande parte determi- nada por formas religiosas. O turismo religioso

é hoje um grande filão na arrecadação de divi-

sas para um município. A educação é fortemente marcada pelos valores que ela prega, quase sem- pre idênticos aos valores de ordem religiosa. A área da saúde, o trato com a dor, a vida e a morte foi e ainda é construída com suporte religioso. Nosso calendário, suas datas festivas e grandes

eventos, têm sua origem no meio eclesiástico. As diversas áreas do conhecimento humano, duma ou de outra maneira, têm-se ocupado com a te-

mática religiosa, como a Filosofia, a Psicologia,

a Sociologia, a Antropologia, a História, a Medi-

cina, a Física, a Arqueologia, a Geografia e assim

por diante.

A palavra Religião

Afinal, o que é religião? No texto a seguir temos uma definição que pode- rá ajudá-lo a entender o sentido.

Etimologicamente, o termo Religião surge na história da humanidade através dos autores clássicos, como Cícero, Lactânio e Agostinho, respectivamente, nas palavras re-legere, que sig- nifica reler, re-ligare, que significa religar, e re- eligere, que significa reeleger. Todos os conceitos nos dão a idéia de voltar a uma situação anterior, ou seja, ligar novamente a criatura com o criador. É exatamente esta tentativa de religar com o Ser Superior, através de um conjunto de crenças, nor- mas, ritos ou costumes, que dá origem às diver- sas religiões o fenômeno religioso propriamente dito. (KUCHENBECKER, 2000, 0.)

Apesar de seguidamente ouvir-se que reli-

gião é coisa do passado, as menções acima indi- cam uma direção contrária. Estão apontando para

o fato de que o ser humano preocupa-se com o di-

vino, aqui entendido no sentido daquilo que ocu- pa lugar de destaque ou o primeiro lugar na vida.

Conhecimento Religioso

Ainda tentando responder o que é religião, podemos dizer que religião é um batismo numa igreja cristã. É um ritual sagrado nas águas do Rio Ganges. É a adoração num templo budista. Pode ser um muçulmano ajoelhado e orando para o Alá. Ou os mesmos devotos do Islã peregrinan- do a Meca. Pode ser um Judeu diante do Muro das lamentações em Jerusalém. São tantas as menções que seria impossível citar todas.

O que pretendemos fazer é ligar os fatos. As ciências da religião procuram responder o que as atividades citadas acima têm em comum. Nós procuramos, como pesquisadores, investigar os rituais de uma perspectiva externa. Buscamos semelhanças e diferenças. Queremos entender como se dá o processo historicamente e o que isso representa para sociedade hoje.

Imagem 2: Arquivo ULBRAEAD
Imagem 2: Arquivo ULBRAEAD

1 - Batismo;

2 - Um monge budista;

3 - Peregrinos no Rio Ganges, na Índia;

4 - Muçulmanos orando;

5 - O muro das lamentações em Jerusalém

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Cultura Religiosa Por que estudar as religiões? Dependendo da experiência de cada um, as respostas

Cultura Religiosa

Por que estudar as religiões?

Dependendo da experiência de cada um, as respostas serão diferentes. Talvez você seja um religioso e não precise de tantas explicações. Mas, com certeza, muitas pessoas não se ligaram para a importância do assunto.

Jostein Gaarder, escrevendo O Livro das Re- ligiões, nos ajuda a responder a pergunta acima:

Um rápido olhar para o mundo ao redor mostra que a religião desempenha um papel bastante significativo na vida so- cial e política de todas as partes do globo. Ouvimos falar de católicos e protestantes em conflito na Irlanda do Norte, cristão contra muçulmanos nos Balcãs, atrito entre muçulmanos e hinduístas na Índia, guerra entre hinduístas e budistas no Sri Lanka. Nos Estados Unidos e no Japão há seitas religiosas extremistas que já prati- caram atos de terrorismo. Ao mesmo tem- po, representantes de diversas religiões promovem ajuda humanitária aos pobres e destituídos do terceiro mundo. É difícil adquirir uma compreensão adequada da política internacional sem que se esteja consciente do fator religião. (GAARDER)

Além disso, explica Gaarder, um conheci- mento religioso também pode ser útil num mun- do que se torna cada vez mais multicultural. Ain- da mais quando falamos em globalização, apesar de que o termo deva ser usado com cuidado. Muitos de nós viajamos pelo Brasil ou mesmo ao exterior, entrando em contato com as diver- sas culturas religiosas. Estes povos têm costumes diferentes que devem ser respeitados pelos seus visitantes. Se uma mulher estiver num país mu- çulmano, por exemplo, terá que observar o tipo de roupa que usará nas ruas. É claro que não pre- cisará andar com uma Burca, mas terá que cobrir seu corpo com roupas decentes.

Finalmente, acreditamos que o estudo das religiões pode ser importante para o desenvolvi- mento pessoal do indivíduo. As religiões podem responder várias das perguntas existenciais que fazemos como: de onde viemos, o que somos e para onde iremos.

Tolerância religiosa

Este é um dos pontos mais importantes na nossa caminhada. Tolerância é o respeito pelas pessoas que possuem diferentes pontos de vista em relação à religião. Não significa que precisa- mos concordar com tudo o que as outras religiões praticam e seguir os mesmos rituais. Cada um tem o direito de seguir aquilo que é melhor para si, pode ter uma fé sólida. Mas a tolerância não é compatível com atitudes como zombar das opi- niões alheias ou se utilizar da força e de ameaças. A Tolerância não limita o direito de fazer propa- ganda, mas exige que esta seja feita com respeito pela opinião dos outros (GAARDER).

O respeito pela vida religiosa dos outros, pelas suas opiniões e pontos de vista, é um pré- requisito para a nossa aula de Cultura Religiosa. Sem isso, é impossível começar, pois:

Com freqüência, a intolerância é resultado do conhecimento insuficiente de um assunto. Quem vê de fora uma religião, enxerga apenas as suas manifestações, e não o que elas significam para o indivíduo que a professa (GAARDER).

O respeito pela vida religiosa dos outros, pelas suas opiniões e pontos de vista, é um pré- requisito para a nossa aula de Cultura Religiosa. Sem isso, é impossível começar, pois:

Com freqüência, a intolerância é re- sultado do conhecimento insuficiente de um assunto. Quem vê de fora uma religião, enxerga apenas as suas manifestações, e não o que elas significam para o indivíduo que a professa (GAARDER).

O Alcorão, livro sagrado dos muçulmanos, de- termina que as mulheres devem se vestir de forma a não atrair a atenção dos homens, para isso é preciso esconder todo o corpo, utilizando trajes como o Xador ou a Burca. Trata-se de uma veste fe- minina que cobre todo o corpo. No caso da Burca, até o rosto e os olhos são cobertos. É usada pelas mulheres do Afeganistão.

Imagem 3: Wikipedia A Experiência Religiosa
Imagem 3: Wikipedia
A Experiência Religiosa

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A Experiência Religiosa

A Experiência Religiosa Cultura Religiosa Sincretismo Religioso No Brasil é muito interessante falar sobre religião.

Cultura Religiosa

Sincretismo Religioso

No Brasil é muito interessante falar sobre religião. Isto porque temos aqui uma pluralidade religiosa bem interessante. Além disso, encontra- mos o que chamamos de Sincretismo Religioso. Isso acontece quando misturamos elementos de várias religiões numa só. Sincretismo é o ter- mo que os historiadores denominam de fusão ou interpenetrações de religiões, ritos, crenças e personagens cultuais. Os cultos afro-brasileiros são um exemplo comprovado de sincretismo re- ligioso. Queremos mostrar como isso acontece através da fala de um pesonagem sertanejo do passado: Riobaldo Tatarana do Grande Sertão:

Veredas:

“Hem? Hem? O que mais penso, texto e explico: todo-o- mundo é louco. O senhor, eu, as pessoas todas. Por isso é que se carece principalmente de re- ligião: para se desendoidecer, desdoidar. Reza é que sara da

loucura. No geral. Isso é que é a

salvação-da-alma

gião, seu moço! Eu cá, não perco ocasião de religião. Aproveito de todas. Bebo água de todo rio Uma só, para mim é pouca, talvez não me chegue. Rezo cristão, ca- tólico, embrenho a certo; aceito as preces de compadre meu Que- lemém, doutrina dele, de Car- déque. Mas, quando posso, vou no Mindubim, onde um Matias é crente, metodista: a gente se acu- sa de pecador, lê alto a Bíblia, e ora, cantando hinos belos deles. Tudo me quieta, me suspende. Qualquer sombrinha me refres- ca. Mas é só muito provisório. Eu queria rezar – o tempo todo. Mui- ta gente não me aprova, acham que lei de Deus é privilégios, in-

Muita reli-

variável. E eu! Bofe! Detesto! O que sou? – o que faço, que quero, muito curial. E em cara de todos faço, executado. Eu? – não tres- malho!

Olhe: tem uma preta, Maria Leôncia, longe daqui não mora, as rezas dela afamam muita vir- tude de poder. Pois a ela pago, todo mês – encomenda de rezar por mim um terço, todo santo dia, e, nos domingos, um rosário. Vale, se vale. Minha mulher não vê mal nisso. E estou, já mandei recado para uma outra, do Vau- Vau, uma Izina Calanga, para vir aqui, ouvi de que reza também com grandes meremerências, vou efetuar com ela trato igual. Que- ro punhado dessas, me defendo em Deus, reunidas de mim em

Chagas de Cristo!

JOÃO GUIMARÃES ROSA

volta

Quem sabe você conhece alguém que se identifica com este personagem. É comum a

gente encontrar situações como esta. Nas aulas de Cultura Religiosa, quando perguntamos se nossos alunos têm alguma religião, muitos respondem: Sou Católico Apostólico Romano, não praticante. Isto significa que eles são Católicos por tradição, mas não vão à igreja aos domingos. Muitos são católicos, mas não deixam de ir ao terreiro ou ao Centro Espírita.

Conclusão

É importante ressaltar aqui a questão da to- lerância. Religião sem o devido respeito perde o sentido. Não é possível pregar algo e praticar ou- tra coisa. Por outro lado, a experiência religiosa é importante na vida de todo o ser humano. Se você ainda não passou por isso, busque entender um pouco mais do assunto. Leia, reflita sempre.

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Arquivo ULBRAEAD

Hinduísmo

Arquivo ULBRAEAD Hinduísmo Cultura Religiosa HINDUÍSMO Cerca de 13% da população mundial segue o Hinduísmo,

Cultura Religiosa

HINDUÍSMO

Cerca de 13% da população mundial segue o Hinduísmo, tornando-a uma das religiões com mais seguidores no mundo.

Por Prof. Ronaldo Steffen

com mais seguidores no mundo. Por Prof. Ronaldo Steffen OHM: é símbolo universal do Hinduísmo e

OHM: é símbolo universal do Hinduísmo e seu som impede sentimentos ruins e transmuta os pensamentos negativos em positivos.

História

É difícil identificar uma data para regis- trar o início do hinduísmo. Costuma-se atribuir a alguma data entre 1500 a.C.

e 200 a.C. Nesse período, um grupo de nobres

(denominados de arianos) dominou o vale do rio

Indo. Os nobres trouxeram suas crenças, forte- mente influenciadas por concepções religiosas

indo-européias (grega, romana e germânica). Esse período é denominado de período védico do hinduísmo em razão dos hinos recitados pelos sacerdotes. Esses hinos eram chamados de vedas

e significam “conhecimento”.

O sacrifício era importante para o culto aria- no. Faziam-se oferendas aos deuses a fim de se conquistarem seus favores e se manterem sob controle as forças do caos.

Achados arqueológicos no vale do rio Indo

indicam que houve uma civilização avançada na Índia, anterior à chegada dos indo-europeus, e

é certo que essa civilização também contribuiu para o hinduísmo moderno.

Num período posterior, provavelmente entre 1000 a.C. e 500 a.C., surgiram os Upanishads,

escritos em forma de diálogos entre o mestre e o discípulo. É nesse período que é introduzida a noção de Brahman, a força espiritual essencial sobre a qual se baseia todo o universo. É por essa razão que se diz que todos nascem do Brahman, vivem no Brahman e retornam ao Brahman por ocasião da morte.

Os “Upanishads” introduzem a idéia de “Brahman”. Todos nas- cem dele, vivem nele e na morte retornam a ele.

Hoje

O hinduísmo, embora originário da Índia, possui adeptos espalhados por todos os países a sua volta, em especial Nepal, Bangladesh e Sri Lanka.

Apenas em 1947 é que a Índia deixa de ser um Estado religioso e passa a garantir direito de expressão religiosa a todas as denominações re- ligiosas.

Nesse mesmo ano, a tensão entre hinduís- tas e muçulmanos em razão da independência

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Cultura Religiosa da Índia resultou na criação do Paquistão como um Estado muçulmano separado, dividido

Cultura Religiosa

da Índia resultou na criação do Paquistão como um Estado muçulmano separado, dividido em duas partes distintas, o Paquistão do Leste e o Paquistão do Oeste. Depois da guerra de 1971 entre a Índia e o Paquistão, o Paquistão do Leste se tornou um Estado independente com o nome de Bangladesh.

Ensinamentos

Deuses

A multiplicidade do hinduísmo também se

manifesta em seu conceito de transcendente. Há duas formas de compreender o tema: uma filosó- fica (Brahman é o princípio e a realidade última;

o universo em sua totalidade é um só com a di-

vindade; Brahman toma a forma de três divinda- des: Brahma, Vishnu e Shiva, respectivamente o Criador, o Mantenedor da criação e o Destruidor)

e outra popular, ou menos acadêmica (acredita-

se num grande número de divindades a tal ponto que quase todas as aldeias elegem sua divindade

local).

Deusas

O hinduísmo tem uma série de deusas. Al-

guns adotam a teoria de que essa abundância de deusas não passa da expressão de uma grande e poderosa divindade feminina, a Rainha do Uni- verso ou Deusa-Mãe. Sua manifestação mais conhecida é Kali, a deusa negra, adorada, sobre- tudo, no Leste da Índia e a quem se sacrificam animais. O alto status de Kali no mundo dos deu-

ses é evidente pelas imagens que a mostram piso- teando o corpo de Shiva.

A importância das deusas na religião india-

na é visível pela escolha da Mãe Índia (Bhárata Mata ou Bharthamata) como a divindade nacio- nal do moderno Estado da Índia. Na cidade de Varanasi há um templo especial que lhe é dedica- do. Ali, em vez de uma representação da deusa, está exposto um mapa da Índia.

Divindades menores

A maioria das aldeias tem seu templo dedi-

cado a Vishnu ou a Shiva. Esses deuses se con- centram nas questões maiores, universais e, em geral, são homenageados nos grandes festivais. Num nível mais doméstico, as pessoas costumam visitar pequenos templos dedicados a divindades menos importantes.

Embora não sejam tão poderosas como Vishnu ou Shiva, é mais fácil se aproximar delas para assuntos de menor importância, tais como os problemas pessoais.

Há deuses para as questões universais e deuses para as questões pessoais.

Os deuses menores por vezes exercem in- fluência em áreas específicas, como, por exem- plo, em certos tipos de doença. Muitos deles têm origem humana: podem ser heróis que morreram em batalha ou esposas que se ofereceram para serem queimadas na pira funerária do marido. Alguns deuses são espíritos malignos que foram

Conheça alguns deuses do hinduísmo Vishnu reencarnado também como Krishna Shiva, senhor da criação e
Conheça alguns deuses do hinduísmo
Vishnu
reencarnado
também
como Krishna
Shiva, senhor da criação
e destruição
Bharata Mata, divindade
nacional da Índia
Imagem 4: Umysl/Astrolog
Imagem 5: Yogacasaverde
Imagem 6: Wikipedia
Hinduísmo

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Hinduísmo

Hinduísmo Cultura Religiosa deixados para trás por homens maus. Ao cultivar esses espíritos como deuses, é

Cultura Religiosa

deixados para trás por homens maus. Ao cultivar

esses espíritos como deuses, é possível controlar

e neutralizar sua maldade.

classificações tiveram ampliação à medida que a organização se fazia necessária, de modo que se chegou a uma estratificação com quatro classes sociais: videntes, administradores, produtores e seguidores.

Na prática popular, hoje, a casta é entendi- da como as possibilidades que alguém tem de se relacionar com coisas mais puras ou impuras. Essas possibilidades são determinadas pelas re- gras que conduzem cada casta: castas elevadas buscam cada vez mais distanciamento das coi- sas materiais; castas mais baixas se permitem a aproximação com as coisas da matéria. Duma ou doutra forma, se alguém quebrar alguma das re- gras de sua casta, restam-lhe os rituais de purifi- cação, sendo o mais conhecido o banho num dos muitos rios sagrados.

Os efeitos do sistema de castas e suas regras específicas influenciam di- retamente a base da divisão

de trabalho na comunidade.

Certas atividades e certos trabalhos são tão impuros que somente determinadas castas podem realizá-los. Essas castas têm o dever de

ajudar os outros a manterem sua pureza. Por outro lado, apenas as castas que pre- encham os requisitos de pureza podem se apro- ximar dos deuses mais elevados. Para que isso ocorra com mais facilidade, outras pessoas de- vem ser impuras. Entretanto, todos se beneficiam da limpeza dos puros, pois todos os hinduístas tiram proveito dos ritos que são praticados.

O sistema de castas deu um novo contexto à vida do indiano moderno. Assim, ser expulso de sua casta é o pior castigo imaginável e, por isso, só utilizado para crimes muito sérios. O nível mais baixo no sistema de castas é o dos intocá- veis ou sem-casta (também chamados de párias):

criminosos, lixeiros e curtidores de couro de ani- mais, por exemplo.

As complexas regras que controlam o con- trato social entre as castas eram muito rígidas. A Constituição da Índia, de 1947, introduziu, no en- tanto, medidas com a finalidade de banir a discri- minação por casta. Como não basta mudar a le- gislação para acabar com antigas divisões sociais

Ser humano

A concepção que o hinduísmo desenvolve

a respeito do ser humano está intimamente vin-

culada a uma compreensão ampla que privilegia os entendimentos sobre carma, reencarnação e o

sistema de castas.

Carma e reencarnação

O ser humano tem uma alma imortal que

não lhe pertence. Depois da morte, a alma volta a aparecer pelo renascimento, não necessariamen-

te em forma humana, podendo, também, vir a re- nascer num animal.

O conceito que expli-

ca esse eterno vai-e-vem da alma é o carma (“ato” ou “ação”) do ser humano, referindo-se tanto às ações como aos pensamentos, às

palavras e aos sentimentos. Desse modo, entende-se que

Reigiosa - mente, as cas - tas indicam o grau de pureza ou impureza de
Reigiosa
-
mente, as cas
-
tas indicam o
grau de pureza
ou impureza de
uma pessoa.

o

carma é determinante para

o

que irá ocorrer numa pró-

xima existência. Muito embora se possa concluir que o carma é uma punição ou uma recompensa das ações humanas, não é esse o modo de com- preender sua extensão. É como se ele fosse ape- nas uma lei natural da existência. Colhe-se aquilo que se planta, e é justamente isso que explica as diferenças entre as pessoas. O ser humano é res- ponsável por si mesmo e de posse do livre-arbí- trio está apto a produzir as mudanças necessárias com vistas a uma melhor existência posterior, quando renascer.

O sistema de castas

O surgimento do conceito de casta é confu-

so. O fato a ressaltar é a chegada dos arianos à Índia, com língua, cultura e traços fisionômicos (altos, pele clara, olhos azuis e cabelos lisos) di- ferentes. A diferença propiciou um sistema de identificação pela cor (varna, em sânscrito). As

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Cultura Religiosa e religiosas, o sistema de castas continua tendo um papel importante, em especial

Cultura Religiosa

e religiosas, o sistema de castas continua tendo um papel importante, em especial nas aldeias.

Vida e Morte

Durante o período védico, as doutrinas do carma e dos renascimentos eram vistas como algo positivo. Por meio dos sacrifícios e das boas ações, o ser humano podia garantir que viveria várias vidas. Mais tarde, o hinduísmo passou a considerar esse ciclo como algo negativo, como um círculo vicioso a ser quebrado. É possível, as- sim, distinguir três caminhos para a libertação: as vias do sacrifício, do conhecimento e da devoção.

A via do sacrifício

Como vimos, a palavra indiana para ”ato” é carma. Hoje ela é usada para denotar todos os atos humanos e até mesmo a coletividade desses atos. No período védico, o termo se referia basi- camente a atos religiosos ou rituais, em especial aos atos sacrificiais. Estes eram necessários para incrementar a fertilidade e manter a ordem uni- versal, além de propiciar a possibilidade de liber- tação do constante nascer-renascer, integrando- se de modo definitivo com Brahman.

A via da compreensão ou do conheci-

mento

A compreensão ou o conhecimento é apenas uma das formas de libertar-se do ciclo de renas- cimentos, pois se enfatiza que é a ignorância que aprisiona o ser humano a esse ciclo.

Compreender a verdadeira natureza da exis- tência, o oposto da ignorância, é, portanto, um caminho para a libertação. É apenas quando o ser humano adquire o reto conhecimento que ele é redimido da implacável roda da transmigração.

O reto conhecimento mencionado nada mais é do

que a compreensão de que a alma humana (atmã:

é o reflexo da alma universal e encontra-se nos

seres humanos, nas plantas e nos animais) e o mundo espiritual (Brahman) são uma e a mesma

coisa.

A via da devoção

Uma terceira rota para a salvação é a via da devoção, que é a dedicação que o ser humano de- vota a um deus e o seu agir desinteressado para com o seu semelhante. Essa proposta começou a difundir-se no Sul da Índia, por volta de 600 a.C. e logo se espalhou por toda a região da Índia. Já no século III a.C. esse caminho para a libertação encontrara sua expressão no Bhagavad Gita, um

As possibilidades de ciclo da vida. Tudo é determinado pelas ações do presente Imagem 7:
As possibilidades de ciclo da vida. Tudo é determinado pelas ações do presente
Imagem 7: Evilkittens
Hinduísmo

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Hinduísmo

Hinduísmo Cultura Religiosa poema catequético. Essa terceira tendência do hinduísmo é a que predomina na Índia

Cultura Religiosa

poema catequético. Essa terceira tendência do hinduísmo é a que predomina na Índia moderna,

e o livro Bhagavad Gita é o texto sagrado que

ocupa o lugar supremo na consciência do indiano médio.

Mundo

É

plural

O mundo não é uno, mas plural. Há diver-

sos mundos interconectados pela mesma razão.

É como se fossem infinitas galáxias, e cada uma

com o seu ponto de referência, como a Terra. Para dar uma dimensão superlativa ao conceito de infinitas galáxias, o hinduísmo entende que entre esse ponto de referência e o restante da ga- láxia há diversos outros mundos mais sutis, aci- ma, e mais grosseiros, abaixo. Os mundos sutis e grosseiros são os espaços ocupados pelas almas

e que por eles transitam conforme os méritos ad- quiridos ou não.

Cada mundo e galáxia têm ciclos diferentes de tempo. Há tempo que se expande e tempo que se recolhe, eterna e incontavelmente no mesmo movimento, estabelecendo os ciclos cósmicos.

É

meio

O mundo e suas galáxias têm uma razão. É

o espaço onde as almas individuais cumprem a

inexorável lei do carma até sua libertação. Ine- rente ao conceito de carma está que toda decisão do ser humano terá determinadas conseqüências. Não há fatalismos no universo.

Nos mundos mais grosseiros há uma percep- ção maior dos elementos sensoriais. Em razão

dos prazeres proporcionados, geralmente assen- tados no eu individual, o ser humano deve buscar

a libertação para mundos cada vez mais sensí-

veis, em direção ao EU absoluto, o Transcenden- te, até sua integração completa.

É moderado

O mundo e suas galáxias são o espaço onde

bem e mal, prazer e dor, conhecimento e igno-

rância se entrelaçam em proporções quase iguais. Não faz parte dos propósitos do universo ser um paraíso, mas o espaço onde o espírito do ser hu- mano pode viabilizar seu aprendizado de integra- ção ao Transcendente. É como se o universo per- ceptível servisse apenas para poder perceber-se que há outra realidade além dele.

É

maya

O mundo e suas galáxias são maya. A palavra maya possui a mesma raiz que mágica. Na mági- ca, o que vemos nem sempre é o que pensamos

ver. Assim é o universo. Enquanto em processo de constantes renascimentos, o ser humano pode cair no ardil de que a materialidade e a multipli- cidade são realidades independentes, quando, em realidade, são Brahman, o todo inclusivo de tudo

o que é e de tudo o que não é.

O mundo e suas galáxias podem ser a pri-

são do ciclo de constantes e infindáveis renasci- mentos do ser humano. O universo aí está para poder perceber-se sua unidade, que é Brahman. Mesmo que o ser humano não o perceba ou o perceba apenas parcialmente, ele continua sendo Brahman.

É

lila

O mundo e suas galáxias são o espaço lila

(“dança”) do Transcendente. É onde ele dança,

numa espécie de jogo, de forma incansável, in- finda, irresistível, mas absolutamente benéfica. É

o jogo que o Transcendente criou a fim de que o

finito seja superado e destruído pelo infinito.

Principais tendências

Escolas do pensamento hindu

Entre os séculos II a.C. e IV d.C., surgiram seis escolas ortodoxas da filosofia clássica hindu, descritas a seguir. Não eram grupos organizados, mas sistemas de pensamento que apresentavam perspectivas diversas, porém complementares, de métodos devocionais, interpretação das escri- turas e cosmologia.

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Hinduísmo

Hinduísmo Cultura Religiosa As 6 escolas ortodoxas da filosofia clássica hindu • Vaiseshika – Defende que

Cultura Religiosa

As 6 escolas ortodoxas da filosofia clássica hindu
As 6 escolas ortodoxas da filosofia clássica hindu

Vaiseshika – Defende que a libertação do ser humano se dá pela compreensão das leis da natureza.

Nyaya – A libertação do ser humano se dá pelo conhecimento por meio do raciocínio lógico.

• Sakhya – A libertação do ser humano ocorre quando se alcança a união da
• Sakhya – A libertação do ser humano ocorre quando se alcança a união da
alma individual com o Transcendente (moksha) por meio da consciência que
se desvencilha das preocupações mundanas e ma-
teriais. Ela acreditava numa libertação ascética
que acontece através de meditação e no domínio
das paixões
• Mimamsa – A libertação do ser humano dar-
se-á à medida que os escritos sagrados forem
adequadamente interpretados e, em decor-
rência, produzirem o justo agir (darma).
• Vedanta – A libertação do ser humano
é decorrência da correta compreensão
do Transcendente e dos conhecimentos
espirituais, possibilitada pela igualda-
de entre a alma individual e o Trans-
cendente. Isto é atingido por técnicas
transcendentes de controle de corpo
e
mente.
• Bhakti – A libertação do ser huma-
no é possível em razão das atitu-
des devocionais que permitem a
união entre a alma individual e
Transcendente, embora sejam
diferentes.
o
Templo hindu em Mysore - Índia
Imagem 8: Wikipedia

O pensamento hindu no ocidente

Em meados do século XX, surgiu na Europa e nos Estados Unidos um grande interesse pela espiritualidade oriental. Dentre as muitas razões para isso, podemos afirmar que o Ocidente ma- terialista, espiritualmente estéril, percebeu que a vida e o viver iam muito além dos reducionis-

tas aspectos biológicos. Esse interesse, que atin- giu seu ponto culminante nas décadas de 1960 e 1970, concentrou-se no budismo e no hinduísmo, com destaque para a ioga. Surgiram inúmeros movimentos que apresentaram o modo hinduísta de responder às questões da vida. Eram, em re- gra, movimentos centrados na personalidade de algum mestre (guru) carismático, venerado como se fosse um avatar. Dos movimentos que perma- neceram na ativa após a morte de seus fundado- res, destacamos:

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Cultura Religiosa Alguns movimentos que permaneceram na ativa após a morte de seus fundadores

Cultura Religiosa

Alguns movimentos que permaneceram na ativa após a morte de seus fundadores
Alguns movimentos que permaneceram na ativa após a morte
de seus fundadores

Meher Baba (1894-1969) – Foi o primeiro guru moderno de importância a con- quistar adeptos no Ocidente. Nascido na Índia, elaborou uma doutrina que sin- tetizava várias tradições religiosas, inclusive os conceitos de carma e samsara (“renascimento cíclico”). Ensinava que o estado de iluminação que liberta só se alcança por meio do amor puro, desinteressado.

Sociedade Internacional da Consciência de Krishna – Foi fundada em mea- dos da década de 1960 no Ocidente por A. C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada (1896-1977). Seus discípulos de túnica amarela procuram a iluminação por meio do estudo das escrituras védicas, em especial o Bhagavad Gita, e do canto de um mantra em louvor a Krishna e Rama (graças ao qual o movimento é popularmen- te conhecido como Hare Krishna). Praticam um ascetismo rigoroso, que inclui o celibato, a não ser com finalidade de procriação e dentro do casamento.

Meditação transcendental – Ensina um método simples de meditação que se baseia em um mantra pessoal (palavra ou frase) que, constantemente repetido, produz o efeito de reduzir o estresse e de promover a integração pessoal e, por conseqüência, a iluminação que liberta. Foi trazido para o Ocidente por Maha- rishi Mahesh Yogi, nascido em 1911, em fins da década de 1950 e alcançou po- pularidade quando os Beatles se tornaram seus adeptos.

Missão da Luz Divina – Fundado na Índia em 1960 e no Ocidente em 1971, proclamou um menino guru, Maharah Ji, nascido em 1958, o mais recente avatar do Transcendente. Ensina quatro técnicas de meditação que capacitam os devo- tos a se voltarem para dentro de si mesmos a fim de experimentarem o estado de iluminação: a Luz Divina, a Harmonia Divina, o Néctar Divino e a Palavra Divina.

Bhagwan Shri Rajneesh (1931-1990) – Também conhecido como Osho. Mi- nistra a doutrina do amor livre, da sexualidade desinibida e dos atos impulsivos, juntamente com uma forma de meditação dinâmica que visa liberar a energia da Terra. Uma das técnicas de liberação das energias reprimidas é o riso. Possui centros de meditação em todo o mundo. Só no Brasil são oito centros, além de um jornal de circulação nacional.

Perfil do Hinduísmo Fundador: não há fundador. Ano de fundação: as raízes do hinduísmo remontam
Perfil do Hinduísmo
Fundador: não há fundador.
Ano de fundação: as raízes do hinduísmo remontam a um período entre
1500 a.C. e 200 a.C.
Textos sagrados: Livro dos Vedas, que consiste numa coletânea de qua-
tro obras, das quais certas partes datam de 1500 a.C.
Estatística: hoje, cerca de 80% da população da Índia é hinduísta. O
restante divide-se entre muçulmanos (10%), cristãos (4%) e outros gru-
pos (6%). Em todo o mundo, os hinduístas perfazem cerca de 13% da
população mundial.
Hinduísmo

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Cultura Religiosa BUDISMO Uma religião e filosofia baseada nos ensinamentos deixados por Siddhartha Gautama, objetivando

Cultura Religiosa

BUDISMO

Uma religião e filosofia baseada nos ensinamentos deixados por Siddhartha Gautama, objetivando o fim do ciclo de sofrimento.

Por Prof. Ronaldo Steffen

História

A Índia antes do budismo

O mundo à época do nascimento de Siddartha era de mudanças. Por volta de 1500 a.C., a Índia passou a ser influenciada pela religião védica, trazida pelos guerreiros arianos. Possivelmente o processo sincrético ocorrido entre os arianos e os não-arianos tenha originado o hinduísmo

após séculos de evolução. Essas mudanças teriam ocorrido entre os anos 1000 a.C. e 200
após séculos de evolução. Essas mudanças teriam ocorrido entre os anos 1000 a.C. e 200 a.C. Além
das revoltas filosóficas contra o vedismo e o bramanismo, duas religiões surgiram na Índia: o jainismo
e o budismo. Acresce que nesse tempo surgiram duas grandes escolas
filosóficas: a Ajivakas, ou nihilistas, e a Lokayatas, ou materialis-
tas. Posteriormente, essas duas escolas opuseram-se ao hindu-
ísmo. Popular também à época do nascimento de Siddartha
era um movimento denominado Sâmara, uma espécie de
contracultura dos mendicantes religiosos, que optaram
pela renúncia ao mundo. Todos esses movimentos surgi-
ram no exato momento em que o ambiente da Índia era
um campo fértil para novas idéias.
Num período posterior, provavelmente entre 1000
a.C. e 500 a.C., surgiram os Upanishads, escritos em for-
ma de diálogos entre o mestre e o discípulo. É nesse perío-
do que é introduzida a noção de Brahman, a força espiritual
essencial sobre a qual se baseia todo o universo. É por
essa razão que se diz que todos nascem do
Brahman, vivem no Brahman e retornam
ao Brahman por ocasião da morte.
Estátua monumental de Buda
Estátua monum
em Kamakura - Japão
em Kamakura -
14
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Imagem 9: Zastavki
Budismo

Budismo

Budismo Cultura Religiosa O nascimento e vida de Siddartha O príncipe Siddartha cresceu em meio à

Cultura Religiosa

O nascimento e vida de Siddartha

O príncipe Siddartha cresceu em meio à for- tuna e ao luxo. Seu pai ouvira uma profecia de que seu filho ou seria um poderoso governan- te, ou abandonaria por completo o mundo. Esta última opção ocorreria caso o príncipe testemu- nhasse as mazelas e o sofrimento das pessoas. Para evitar essa situação, tentou proteger seu fi- lho, mantendo-o recluso aos limites do palácio e cercado de delícias e diversões. Casou-se jovem com uma prima e mantinha um harém de dan- çarinas.

Aos 29 anos, Siddartha experimenta uma situação que mudaria por completo sua vida palaciana. Embora proibido pelo pai, arriscou-

se a sair do palácio e viu, pela primeira vez, um velho, um homem doente e um cadáver em de- composição. A contradição se interpôs quando,

a seguir, viu um asceta com uma expressão de

radiante alegria. Percebeu que a vida de riqueza

e prazer não traduz uma existência plena e com

sentido. Questionou-se sobre a possibilidade de

haver algo que ultrapassasse a velhice, a doença

e a morte. Percebeu-se tocado por um profundo

sentimento de compaixão pelas pessoas e por um chamado a fim de libertá-las do sofrimento. Ato

contínuo, renuncia à vida prazerosa do palácio,

a sua esposa e filho e parte para uma vida de andarilho.

Da vida de abundância passa aos extremos dos exercícios ascéticos. Come cada vez me- nos; chega a alimentar-se apenas com um grão de arroz por dia. O que esperava conseguir era o domínio do sofrimento. Sem resultado, adota o

Dukkha é mais que sofrimento:

refere-se à ausên- cia de perfeição universal

Imagem 10: Cláudia Pastorius
Imagem 10: Cláudia Pastorius
Imagem 11: Travels Talash
Imagem 11: Travels Talash

A Árvore da Ilumi- nação, venerada por monges bu- distas, tem sido por séculos um lo- cal de constante peregrinação.

“caminho do meio”, a meditação. Após seis anos de meditação ascética, aos 35 anos, chega à ilu- minação (bodhi), à margem de um afluente do rio Ganges. Agora era um buda, um iluminado. Alcançara a percepção de que todo o sofrimento do mundo é causado pelo desejo. É apenas su- primindo o desejo que o homem pode escapar de outras encarnações e atingir a realidade última: o nirvana. Encontrara para si uma saída para a su- peração do sofrimento. Passo seguinte, Siddartha decide compartilhar sua percepção.

À época, Benares era um grande centro re- ligioso. É para lá que se dirige. Faz sua primeira pregação e desencadeia o que se denomina de rodas de instrução. Monges mendigos tornam-se seus discípulos e por aproximadamente 40 anos o seguem pelo Nordeste da Índia. Seus seguidores, desde o princípio, dividem-se em dois grupos: os leigos e os monges.

Por volta dos 80 anos, adoece e despede-se de seus discípulos. Daí para frente eles poderiam contar somente com o darma (“instrução”) que Siddartha lhes havia dado nos anos anteriores.

Uma vez que o budismo surge dentro do contexto hinduísta como um caminho individu- al para a libertação dos renascimentos, é natural que muitos de seus ensinamentos estejam marca- dos por esse pensamento. Destacam-se, de modo especial, os pensamentos referentes às doutrinas do renascimento, do carma e da libertação (ou salvação).

Deuses

Buda não negou a existência dos deuses. To- davia, acreditava que esta era transitória, assim como a existência humana. Embora eles vives-

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Budismo

Budismo Cultura Religiosa sem mais tempo que os seres humanos, também estavam atrelados ao ciclo de

Cultura Religiosa

sem mais tempo que os seres humanos, também estavam atrelados ao ciclo de renascimentos e em nada podiam ajudar os seres humanos a se redi- mirem de tal ciclo.

Outro aspecto a ressaltar diz respeito à ado- ração de demônios, espíritos e outras divindades. Todos são seres vivos e, se cultuados de modo correto, podem trazer vantagens para a vida neste mundo.

Ser humano

“Aquilo que você planta é o que colhe.” O ser humano é dono de seu destino: o que pensa e faz é determinante de seu futuro cósmico.

Para o hinduísmo, originalmente, todo ser humano, bem como todo o universo, possui uma única alma (atmã), que sobrevive de uma existên- cia a outra e é idêntica, total ou parcialmente, ao Transcendente universal (Brahman).

Buda rompe essa lógica. Nega que o ser humano tenha alma e rejeita a existência de um espírito universal. A alma é fugaz e fruto da ig- norância humana, que promove o desejo, funda- mental para a criação do carma individual.

Nessa dimensão, o budismo entende a vida humana como uma série de processos mentais e

físicos que alteram o ser humano de momento a momento. Tudo é transitório.

Vida e morte

A lei do carma

Para Siddartha, o Buda, o ser humano é es- cravizado por uma série de renascimentos. Como todas as ações têm conseqüências, o princípio propulsor que está por detrás do ciclo nascimen- to-morte-renascimento são os pensamentos dos seres humanos, suas palavras e seus atos (carma).

A idéia básica consiste em que tudo o que fi- zemos em determinada vida, ainda que passada, repercute e alcança-nos no presente. As ações de uma vida estendem-se a outra. O ser humano irá colher no presente aquilo que plantou no passa- do. Não há “destino cego” nem “divina providên- cia”. Daí a impossibilidade de escapar do carma. Enquanto houver um carma, o ser humano está fadado a renascer e manter-se preso à existência humana, não transcendendo. Em razão disso, tor- na-se imperiosa a busca por uma saída que seja capaz de produzir a libertação humana.

As quatro nobres verdades sobre o sofrimento

O denominado Sermão de Benares, que apresentou as quatro verdades sobre o sofrimento humano, ocorreu depois que Siddartha obteve o estado de iluminação.

As quatro nobres verdades sobre o sofrimento
As quatro nobres verdades sobre o sofrimento
1
1

Tudo é sofrimento

2
2

A

causa do sofrimento é o desejo

3
3

O

sofrimento cessa quando o desejo cessa

4
4

O

desejo cessa seguindo-se o caminho das 8 vias:

1
1

Entendimento justo

5
5

Sustento de vida justa

2
2

Resolução justa

6
6

Esforço justo

3
3

Palavra justa

7
7

Pensamento justo

4
4

Conduta justa

8
8

Meditação justa

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Cultura Religiosa

Cultura Religiosa

1
1

Tudo é sofrimento – Para o budismo,

o

sofrimento implica algo mais do que

 

mero desconforto físico e psicológico. Toda a existência é manchada pelo so- frimento, pois tudo é passageiro. Quem não percebe isso é cego. Isso, no entanto, não significa que o budismo negue toda a felicidade material e mental. A felicidade pode ser encontrada em muitos setores da vida, como na família, e em muitas coisas que estão à volta do ser humano. Porém, nada disso vai durar para sempre.

2
2

A causa do sofrimento é o desejo – O desejo é o mesmo que ânsia. Há três tipos de desejos: desejo pela sensualidade, de- sejo por ser/existir e desejo por não ser/ não existir. Resumida e metaforicamente, significa prender-se a algo no curso da existência como se ele fosse absoluta-

mente substancial para o ato de existir. É

o

desejo que produz a existência conti-

nuada e a necessidade do renascimento. Não é a transitoriedade da felicidade que causa o sofrimento, mas a atitude frente a ela, como o apego e a ignorância.

3
3

O sofrimento cessa quando o desejo cessa – A experiência de interrupção do sofrimento é tão real quanto a própria ex- periência do sofrimento. À interrupção do sofrimento dá-se o nome de nirvana.

O

nirvana é a cessação de mudança. O

nirvana pode apenas ser experimentado, mas não descrito. Resumidamente pode ser definido como a cessação dos apegos ou dos desejos e certamente não é iden- tificado com o céu. O nirvana não é um lugar real ou metafórico. Em vez disso, o pressuposto é que a dor e a cessação da dor são duas experiências reais realizadas

4
4

aqui e agora e, por isso, nirvana não é um estado futuro. Simplesmente é o estado em que o desejo cessa completamente.

O desejo cessa seguindo-se o caminho das oito vias – São elas:

1
1

Entendimento (ou percepção/vi- são) justo: para conhecer a natureza

e

a origem do sofrimento, a cessação

do sofrimento e o caminho que con- duz para a cessação do sofrimento.

2
2

Resolução justa: renunciar à mate- rialidade presente no mundo e não prejudicar ou odiar o semelhante.

3
3

Palavra justa: abster-se da mentira ou da calúnia, da injúria e dos me- xericos.

4
4

Conduta justa: abster-se de tirar a vida, roubar e praticar a luxúria.

5
5

Sustento de vida justo: abster-se de pegar ou comercializar armas, con- sumir álcool e tóxicos e de qualquer outra atividade que possa trazer pre- juízo a outros.

6
6

Esforço justo: é a vontade necessá- ria para estancar as más qualidades que afloram à mente, eliminar todas as que ali ainda estão e desenvolver bons estados mentais.

7
7

Pensamento justo: ter consciência do seu próprio corpo, dos sentimen- tos e das atividades da mente.

8
8

Meditação justa: é quando, priva-

do de luxúria e disposições erradas,

 

a

serenidade interna é desenvolvida

por meio da prática de meditação. Esta é a atividade que, em última análise, conduz ao nirvana.

Analise os oito caminhos como uma proposta de conduta ética e tire suas próprias conclusões.
Analise os oito caminhos
como uma proposta de
conduta ética e tire suas
próprias conclusões.
Para pesquisar e confrontar:
Como o cristianismo explica o
sofrimento?
Nirvana e céu são a mesma coisa?
Budismo

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Budismo

Budismo Ética Cultura Religiosa Com a decisão de Buda, depois de alcançar a iluminação, de tornar-se

Ética

Cultura Religiosa

Com a decisão de Buda, depois de alcançar

a iluminação, de tornar-se guia do ser humano,

passam a ser fundamentais para o budismo o amor e a compaixão. Não só as ações, mas tam-

bém os sentimentos e os afetos são importantes.

A caridade realizada não apenas afeta aos outros,

mas contribui para enobrecer o próprio caráter de quem a pratica.

Nessa dimensão, o budismo tem cinco re- gras de conduta:

As 5 regras de conduta do Budismo
As 5 regras de conduta do Budismo

Com relação às criaturas vivas: evitar toda maldade.

Evitar o roubo.

Não ser sexualmente promíscuo.

Falar apenas a verdade.

Evitar o uso de álcool e drogas.

Mundo

No mundo tudo é transitório. Nada é defi- nitivo e, por isso, essa transitoriedade deve ser abandonada para evitar-se todo e qualquer de- sejo. Notemos, no entanto, que, quando se fala em abandonar a transitoriedade da materialida- de constante no mundo, o que se tem em mente

é o apegar-se a essa materialidade como se ela

fosse capaz de resolver os problemas da natureza humana. A única saída para a transitoriedade do mundo é o nirvana.

Uma vez que o nirvana é o oposto direto do ciclo de renascimentos, e uma vez que ele não pode ser comparado a nada neste mundo, só é

possível dizer que o nirvana não é. Alcançá-lo só

é possível por meio do estado de iluminação e de nada adiantam, por si sós, as boas obras.

Embora o mundo não tenha autonomia, seja transitório e pleno de sofrimento, este é o espaço dado e no qual o ser humano pode chegar à liber- tação plena dos renascimentos.

Imagem 12: Neatorama Cachefly
Imagem 12: Neatorama Cachefly

O Caminho ao Nirvana: é como se os desejos fossem sendo apagados

Principais tendências

Os pensamentos de Buda foram transmiti- dos oralmente. O resultado foi o surgimento de, pelo menos, 18 escolas diferentes. As escolas re- lacionadas a seguir representam apenas as mais importantes ramificações do budismo no mundo moderno.

Budismo Theravada – É a mais antiga es- cola da tradição budista. Defende que cada ser humano é responsável sozinho pela sua própria iluminação. Apenas poucos alcançam esse esta- do. A sabedoria e a disciplina são virtudes valio- sas. Os rituais não são fundamentais, e sim a de- voção. Está presente no Sri Lanka, na Tailândia, em Mianmar, em Laos e no Camboja.

Budismo Mahayana – É o budismo das pessoas comuns. Enfatiza que qualquer pessoa pode alcançar o estado de iluminação que liberta. A compaixão e o amor pelos menos afortunados são mais importantes que a sabedoria.

Budismo Zen – É um amálgama da escola Mahayana com o taoísmo. Zen é o caminho da iluminação por meio da meditação e da vida sim- ples, evitando as teorias abstratas e favorecendo a experiência direta de um espírito “vazio” e aber- to. Há duas grandes escolas: a Rinzai Zen, que dá ênfase à iluminação espontânea, e a Soto, que enfatiza a concentração espiritual e corporal dis- ciplinada na meditação. As escolas Zen também enfatizam a pintura, a caligrafia e até a cerimô- nia do chá como expressões de um vínculo não interpretado com a natureza. Tornou-se popular

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Cultura Religiosa no Ocidente a partir da década de 1950, com o surgimento dos movimentos

Cultura Religiosa

no Ocidente a partir da década de 1950, com o surgimento dos movimentos holísticos.

Budismo da Terra Pura – É o culto de um buda ou bodhisattva que vive numa terra pura,

celestial. Seus devotos procuram renascer na Ter-

ra

Pura, onde alcançarão a iluminação libertado-

ra.

Budismo Nichiren – Também conhecido como Seita do Lótus, ensina que o budista verda- deiro é o que segue os ensinamentos contidos no Sutra do Lótus, escritura do século I d.C. A ênfa-

se é que Buda é eterno e cósmico, manifestando-

se incessantemente em budas terrenos. O maior grupo dessa tendência é o Nichiren Shoshu.

Budismo tibetano – Também conhecido

como lamaísmo, adota a doutrina do bodhisattva e o caminho gradual rumo ao estado de ilumina- ção por meio de rígidas disciplinas monásticas.

O grupo mais importante nessa tendência é de

Gelugpa, fundado em fins do século XIV d.C. Seu líder espiritual é o Dalai-Lama (“guru ocea- no”), cuja sabedoria é profunda e ampla como o mar. O Dalai-Lama é considerado a encarnação

de um bodhisattva, e cada dalai-lama sucessivo

é a reencarnação do anterior. A partir do século

XVII, o Dalai-Lama passou a ser também o lí- der secular do Tibete, até o país ser ocupado pela

China, em 1959, quando o Dalai-Lama passou a viver em exílio.

No Brasil, como podemos ver a seguir, po- dem ser identificadas três grandes escolas bu- distas. Devemos levar em conta que cada escola pode estar subdividida em vários grupos.

As três tradições fundamentais

As diversas escolas budistas existentes po- dem ser agrupadas em três tradições fundamen- tais. Ainda na Índia, desenvolveram-se diferentes correntes com interpretações específicas dos en- sinamentos de Buda. Desse budismo primitivo,

sobrevive até hoje a tradição Theravada. Simul- taneamente, a doutrina de Buda correu a Ásia e foi adaptada a diferentes culturas. O resultado é

a diversidade.

As 3 grandes escolas budistas Região de *Grupos Membros Alguns líderes Início Filosofia Consolidação no
As 3 grandes escolas budistas
Região de
*Grupos
Membros
Alguns líderes
Início
Filosofia
Consolidação
no Brasil
no Brasil
no Brasil
Theravada
Séc IV a.C.
Sul da Ásia (Sri
Lanka, Tailân-
dia, Mianmar,
Laos, Camboja)
A
figura do “vaículo pequeno” resume o espírito da
5
Menos de
Pushwelle
(Hinayana)
tradição Theravada, também chamada de Hinayana. Cada
um é responsável por guiar o próprio barco. Sozinho,
1
mil
Vipasse
o
praticante busca a auto-iluminação por meio da
meditação e de uma conduta condizente com a doutrina
de Buda.
Mahayana
Séc. I a.C.
Norte da Ásia
(China, Coréia,
Japão)
A
tradição Mahayana pode ser simbolizada pela figura do
85
Cerca de
“veículo grande”. O fiel não apenas busca a própria ilumi-
nação como pode contribuir para que todos a sua volta
evoluam espiritualmente. O bodhisattva (ser iluminado) é
220 mil
Monja Sinceri-
dade e Monja
Coen
o
timoneiro em um barco com muitos passageiros
Vajarayana
Séc. VII
Tibete
Os primeiros missionários a visitar o Tibete tiveram de
incorporar algumas práticas xamânicas da população na-
45
Cerca de
Lama Michel e
d.C.
3
mil
Segyu Rinpoche
tiva. A tradição Vajrayana, ou “veículo diamante” combina
a
ética Mahayana com doutrinas esotéricas do Tantrismo
*Números aproximados
Consultoria: Prof. Frank Usarski, programa de pós-graduação em Ciências da Religião da PUC de São Paulo.
Fonte: Revista Isto É, 2003.
Budismo

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Budismo

Budismo Cultura Religiosa Perfil do Budismo Fundador: Siddartha Gautama, identificado por seus seguidores como

Cultura Religiosa

Perfil do Budismo
Perfil do Budismo

Fundador: Siddartha Gautama, identificado por seus seguidores como Sakyamuni (pertencente ao clã dos Sakya), Buddha (“o iluminado”) ou Bhagavat (“senhor”). É tido como o quarto dos cinco budas encarnados. Não há certezas, as biografias men- cionam datas desde 624 a.C. até 410 a.C.

Data de nascimento: Livro dos Vedas, que consiste numa coletânea de quatro obras, das quais certas partes datam de 1500 a.C.

Local de nascimento: reino dos Sakyas, na cidade de Kapilavastu, próxima à fronteira atual entre a Índia e o Nepal.

Ano de fundação: estima-se que Siddartha tenha atingido o estado de iluminação por volta de seus 35 anos de idade.

Textos sagrados e reverenciados: os ensinamentos de Buddha não foram original- mente escritos por ele, mas transmitidos oralmente por seus seguidores. Ao surgi- rem os primeiros escritos, duas formas podem ser identificadas: o cânone sulista de Pali, da tradição Theravada (escrito no Sri Lanka por volta do século I a.C.), e o cânone nortista sânscrito, da tradição Mahayana. O cânone de Pali é composto por três obras (pitaka):

a) Sutra: os discursos de Buddha;

b) Vinaya: as origens das regras da disciplina monástica;

c) Abdhidharma: tratados escolásticos sobre a psicologia e a filosofia budis- tas. Já o cânone de tradição Mahayana crê que as doutrinas primeiras são incompletas e necessitam ser aperfeiçoadas com os tratados interpreta- tivos.

Estatística: atualmente é um dos quatro maiores grupos de tradição religiosa. Os nú- meros correspondentes a essa afirmação são difíceis de serem comprovados em vis- ta das diversas escolas budistas. Hoje é muito difundido no Sri Lanka e no Sudoeste da Ásia, embora esteja também presente na China, na Coréia e no Japão. Excluindo a China, estima-se que cerca de 200 milhões de pessoas professam a fé budista.

no Japão. Excluindo a China, estima-se que cerca de 200 milhões de pessoas professam a fé

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Cultura Religiosa ISLAMISMO Enquanto religião, o islã abrange todas as áreas da vida humana, pessoal

Cultura Religiosa

ISLAMISMO

Enquanto religião, o islã abrange todas as áreas da vida humana, pessoal e social.

Por Prof. Ronaldo Steffen

Imagem 13: Wikipedia
Imagem 13: Wikipedia

História

C om origem na Arábia, o islã está pro- fundamente relacionado com a cultura árabe. Ressaltemos, no entanto, que hoje

apenas uma minoria de seus seguidores são ára- bes. O islã está difundido por regiões da África

e da Ásia, em especial, e é seguido por cerca de 15% da população mundial.

A palavra árabe islam significa “submissão”.

É pertinente ao seu conteúdo que o ser humano

deve entregar-se a Deus e submeter-se a Sua von- tade em todas as áreas da vida. Esse entendimen- to sugere que, enquanto religião, o islã abrange todas as áreas da vida humana, pessoal e social.

É a terceira e última das religiões originadas

com Abraão, após o judaísmo e o cristianismo. Fruto de um “segundo casamento” de Abraão, agora com Hagar, Ismael dá origem aos muçul- manos.

De importância capital para a compreensão do islã é a figura de Muhammad, ou Mohammed, ou, ainda, Maomé.

A peregrinação (Hajj) a Meca é um dos “cinco pilares do islã”

Maomé

Nasceu em Meca, na Arábia, por volta de 570 d.C. Nascido numa das principais famílias da cidade, ficou órfão ainda criança. Criado por um tio, Abu Talib, foi trabalhar como condutor de camelos para Khadidja, viúva de um rico mer- cador. Quinze anos mais velha que Maomé, veio a ser sua esposa e exerceu grande influência no desenvolvimento religioso de seu esposo.

A Arábia Saudita hoje. Arquivo ULBRAEAD Islamismo
A Arábia Saudita hoje.
Arquivo ULBRAEAD
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Islamismo

Islamismo Cultura Religiosa A formação religiosa de Ma- omé Meca era um importante centro comercial e

Cultura Religiosa

A formação religiosa de Ma- omé

Meca era um importante centro comercial

e religioso da Arábia. Tribos nômades já adora-

vam, bem antes de Maomé, a pedra preta, objeto

de muitas peregrinações de beduínos. Era prática comum na região, também, cultuar muitos deu- ses e seres sobrenaturais, quase sempre ligados

a práticas animistas. Em geral, os cultos eram

tribais. Aliás, a tribo e a família eram estruturas centrais para o modo de vida dos nômades. Todo

o

sistema legal estava vinculado à tribo, originada

e

mantida pelos laços de sangue. Era recorrente

exercício da lei do “olho por olho”, quando um dos membros de uma tribo era assassinado por um membro de outra. Um cenário de constantes

o

e

sangrentas rixas fixou-se como prática comum.

Maomé foi fortemente influenciado pelos ideais judaicos e cristãos, espe- cialmente o monoteísmo.

Já à época de Maomé, apresentava-se um quadro de transição. A sociedade beduína nôma- de começava a dar lugar a uma sociedade urba- na mais fixa. Com isso, a religião e as práticas tradicionais passaram a ser revistas. Nesse hiato aumentou em muito a influência do judaísmo e do cristianismo. Com toda a certeza, Maomé foi fortemente influenciado pelo monoteísmo e pela noção de fim de mundo acompanhado de juízo final.

O judaísmo havia se estabelecido em toda a

Arábia depois da queda de Jerusalém em 70 d.C. Aos poucos, os judeus incorporaram a língua e o estilo de vida dos árabes, mantendo, porém, sua própria crença e seu culto mosaico.

O cristianismo, por sua vez, também havia

avançado por muitas regiões do Oriente Médio. Estados como a Abissínia (atual Etiópia) e mui- tas tribos beduínas tornaram-se cristãos. Com certeza o grupo que mais influenciou Maomé em sua formação religiosa foram monges e ere- mitas cristãos, que viviam isolados nos desertos da Arábia. Devotos e generosos eram pródigos na ajuda aos viajantes.

A recitação de Maomé resulta no Alcorão.
A recitação de Maomé
resulta no Alcorão.

Deus revela-se a Maomé

Era costume de Maomé retirar-se todos os anos para uma caverna aos arredores de Meca com o fim de meditar. Esse hábito também era prática corrente dos eremitas cristãos, que, di- ferentemente de Maomé, fundamentavam sua meditação em algum texto sagrado, em geral os Evangelhos da tradição cristã.

Aos 40 anos, Maomé teve uma revelação. Apareceu-lhe o arcanjo Gabriel com um perga- minho ordenando-lhe que o lesse. Maomé não sabia ler e, em vista disso, o arcanjo incitou-lhe a recitar o que ouvia.

Imagem 14: Wikipedia
Imagem 14: Wikipedia

Sura (capítulo) do alcorão

As recitações transmitidas por Maomé fo- ram reunidas num livro, o Qu´ran, o Corão, ape- nas após a sua morte. Assim como no judaísmo e no cristianismo, o islamismo também passa a ter seu livro sagrado.

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Islamismo

Islamismo Cultura Religiosa De Meca a Medina Após a revelação, Maomé começa sua pre- gação em

Cultura Religiosa

De Meca a Medina

Após a revelação, Maomé começa sua pre- gação em Meca. Proclama-se profeta e mensa- geiro de Deus. As famílias abastadas entende- ram essa pregação como manobra para usurpar

o poder político da cidade. Também as famílias

assentadas no tradicionalismo religioso se lhe opuseram por entenderem que, se abandonassem suas antigas crenças, estariam reconhecendo que seus antepassados foram pagãos.

A crise estava instalada. A situação de Ma- omé piora após a morte de seu tio e esposa. Al- guns de seus seguidores, residentes em Medina, mostraram-se dispostos a aceitá-lo na cidade. Assim, em 622 d.C. Maomé sai de Meca e vai para Medina.

Esse episódio é conhecido como hégira, que significa “rompimento” ou “partida”, mas jamais “fuga”.

Líder religioso e político

Em Medina, Maomé torna-se um líder reli- gioso e político. Sem perder de vista seu futuro retorno a Meca, procura se estabelecer financei- ramente por meio de assaltos a caravanas perten- centes às famílias ricas de Meca. O conjunto das atividades desenvolvidas por Maomé com vistas ao retorno a Meca é conhecido como jihad, hoje empregado para designar a guerra santa.

Na década seguinte, Maomé toma a cida- de de Meca por meios militares e diplomáticos. Ocupou, a seguir, grande parte da Arábia. Em

632 d.C., pouco antes de morrer, havia realizado

o feito de unir o país e torná-lo um só domínio,

no qual a religião tinha mais representatividade que os antigos laços familiares e tribais.

O Cisma no islã após Maomé

Após a morte de Maomé, a liderança do movimento foi assumida pelos califas, ou suces- sores. Os três primeiros califas eram parentes de Maomé. O quarto califa, Ali, genro de Maomé, casado com sua filha Fátima, era filho de seu tio, Abu Talib, que o havia criado.

Surgem os Xiitas e os Sunitas

O Cisma no mundo islâmico começa na

época de Ali. Sua liderança foi repleta de contro- vérsias, e ele acabou sendo assassinado por seus

adversários. Os seguidores de Ali defendiam e acreditavam que, por ser o parente mais próximo de Maomé, ele era o seu sucessor natural. Esses seguidores eram identificados como os Shiat Ali (o partido de Ali), ou xiitas, que formam a base da religião oficial do Irã de hoje.

Os xiitas entendiam que a liderança do mo-

vimento deveria ser concedida a um descendente direto de Maomé, enquanto o grupo divergente, facção bem maior que os xiitas, identificados como sunitas, julgava que a liderança cabia ao

indivíduo que de fato controlava o poder.

Após a morte de Ali, o califado teve sede em Damasco por algum tempo e, a seguir, instalou- se em Bagdá, onde permaneceu por 500 anos. Depois disso, a liderança passou para o sultão turco de Istambul. O último sultão foi derrubado em 1924 e, desde então, o mundo islâmico dei- xou de ter um califa como líder.

Sunitas

Xiitas
Xiitas
dei- xou de ter um califa como líder. Sunitas Xiitas 84 % 16 % Os dois

84 % 16 %

Os dois grupos reúnem a maioria dos adeptos do islamismo.

Ensinamentos

Deus

Não há Deus, senão Alá, e Maomé é seu pro- feta. Este é o resumo da fé islâmica: o monoteís- mo e a revelação dada a Maomé.

Monoteísmo

Alá não constitui um nome pessoal, mas, sim, a palavra árabe que significa “Deus”. Eti-

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Islamismo

Islamismo Cultura Religiosa mologicamente, a palavra alah se relaciona com a palavra hebraica el, que é

Cultura Religiosa

mologicamente, a palavra alah se relaciona com

a palavra hebraica el, que é utilizada na Bíblia para nomear o Deus dos hebreus.

que é utilizada na Bíblia para nomear o Deus dos hebreus. O termo “alah”, ára- be,

O termo “alah”, ára- be, e o termo “el”, hebraico, referem-se a “Deus”

O politeísmo é atacado com veemência, res-

saltando-se a crença num só Deus, que é criador

e juiz. Ele criou o mundo e tudo o que há nele.

No último dia irá trazer todos os mortos de volta

à vida para julgá-los.

Há uma forte ênfase no amor e na compai-

xão divinos. Embora Deus seja aquele a quem to- dos devem submeter-se, também é o que perdoa

e auxilia o ser humano. Este não merece nada de Deus nem pode invocar direitos sobre nada. A

salvação e a fé brotam somente da graça de Deus

e são coisas que os seres humanos podem apenas ter esperança de conseguir.

Revelação

Deus falou ao ser humano por intermédio de seu profeta Maomé. Ele é o último dos pro- fetas enviados por Deus à humanidade. Embora, de início, Maomé estivesse próximo às tradições judaico-cristãs, delas se distancia em razão de controvérsias tidas com os judeus sobre narrati- vas do Antigo Testamento.

O fundo histórico do movimento desencade-

ado por Maomé é encontrado em Abraão e seu filho, Ismael, antepassado dos árabes. Maomé ensinou que Abraão e Ismael tinham reconstru-

ído a sagrada Kaaba, que fora erigida por Adão

e destruída pelo dilúvio. Para Maomé, tanto os

judeus como os cristãos distanciaram-se do mo- noteísmo de Abraão.

Quando em Medina, Maomé ensinara que, ao orar, o rosto deveria estar voltado para Jeru- salém. Depois de rompidas as relações com os judeus, a orientação mudou: o fiel, agora, deve estar de frente para Meca ao orar. Por essa época

também, designou-se a sexta-feira como dia sa- grado da semana.

Imagem 15: Bhatkal
Imagem 15: Bhatkal

A Kaaba hoje em dia de peregrinação

Em relação ao cristianismo, a diferença acentuou-se na questão da Trindade. Além disso, houve divergência quanto ao papel de Jesus, que, para o cristianismo, é o Verbo (Palavra) revelado, enquanto, para o islamismo, a revelação é o pró- prio Qu´ran (Corão).

Ser humano

O ser humano possui um estatuto especial

e uma posição privilegiada no universo. A vida

é dádiva divina. O ser humano é criatura divi-

na perfeita e possuidor de uma alma que perdura após a morte.

A bondade lhe é inata por graça divina e não se perde por qualquer meio ou motivo. Não há a noção de um pecado herdado. O ser huma- no é sempre bom. Quando muito, ele se esque- ce de sua origem divina e da bondade que lhe é inerente. Para que isso não ocorra, o ser humano necessita constantemente reavivar suas origens e qualidades divinas.

O fato de ter sido escolhido por Deus para

que Ele se revele ao mundo, dá a dimensão exata dos grandes valores e qualidades humanas.

Vida e morte

Os cinco pilares

A vida de um seguidor do islamismo está

marcada por cinco passos bem definidos, deno- minados de Os cinco pilares, descritos a seguir.

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Cultura Religiosa Os cinco pilares do Islamismo: • Credo • Oração • Caridade • Jejum

Cultura Religiosa

Os cinco pilares do Islamismo:
Os cinco pilares do Islamismo:

Credo

Oração

Caridade

Jejum

Peregrinação à Meca

• Caridade • Jejum • Peregrinação à Meca Credo – “Não há outro Deus senão Alá,

Credo – “Não há outro Deus senão Alá, e Maomé é seu Profeta.” É a primeira coisa que se deve sussurrar ao ouvido da criança recém- nascida e a última a ser sussurrada no ouvido do moribundo.

Oração – Deve ser feita cinco vezes ao dia;

o pressuposto é estar ritualmente limpo das im-

purezas, causadas pelas funções corporais, o que

é obtido pelo banho em água corrente.

Imagem 16: Temple University
Imagem 16: Temple University

Mesmo em terras distantes mantém-se a obrigação das orações diárias

Caridade – É uma espécie de taxa sobre a riqueza e a propriedade, fixada em cerca de 2,5% sobre o montante; ela é destinada a usos sociais, objetivando diminuir as desigualdades entre ri- cos e pobres, sem interferir no princípio da pro- priedade privada. O islã não proíbe que se des-

frute a vida na terra, mas lembra que se deve ter sempre em mente o fato de que esta não passa de uma preparação para a vida que começará depois do julgamento divino.

Jejum – O Corão proíbe comer porco e be-

ber álcool. De resto, nada se proíbe. A exceção é

o jejum durante o Ramadan, mês em que Maomé

teve sua primeira revelação. Nesse período, entre

o nascer do sol e o pôr-do-sol, é proibido comer,

beber, fumar ou ter relações sexuais. Os viajan- tes, os doentes, as crianças e as mulheres grávi- das ou que estão amamentando são exortados a cumprir o jejum numa data posterior.

Peregrinação a Meca – Todo muçulmano adulto que dispõe de meios financeiros deve rea- lizar, pelo menos uma vez na vida, uma peregri- nação a Meca. Os peregrinos que para lá se diri- gem, passam a usar vestes brancas e caminham em torno da Kaaba por sete vezes. Outro mo- mento importante é quando os peregrinos vão ao monte Arafat e lá ficam, sem cobrir a cabeça, do meio-dia até o pôr-do-sol. Foi no monte Arafat que Adão e Eva se encontraram de novo, depois que foram expulsos do jardim do Éden. O ponto alto das festividades é o sacrifício de algum ani- mal (carneiro, bode, camelo, boi etc.). A finali- dade é relembrar que Abraão foi tão obediente a Deus que se dispôs a sacrificar seu próprio filho, Ismael. Deus foi misericordioso com Abraão e enviou-lhe um animal para que ele o sacrificasse em lugar do filho.

Peregrinação a Meca Imagem 17: BBC de Londres Islamismo
Peregrinação a Meca
Imagem 17: BBC de Londres
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Islamismo

Islamismo Cultura Religiosa Relações humanas - Ética e Política Quando as instruções do Livro não forem

Cultura Religiosa

Relações humanas - Ética e Política

Quando as instruções do Livro não forem suficientes, recorre-se a dois princípios:
Quando as instruções do Livro não forem
suficientes, recorre-se a dois princípios:

Princípio da similaridade ou analogia: busca-se no Corão um exemplo semelhante e capaz de sugerir uma decisão;

Princípio do consenso: uma decisão de consenso pode ser vista como lei a ser observada.

os xiitas adotam um terceiro princípio: o da revelação.

Não há no islã distinção entre religião e po- lítica, tampouco entre a fé e a moral. O Corão é suficiente para resolver todas as questões que envolvem os relacionamentos humanos.

Os xiitas acreditam que a revelação não está concluída e que seus líderes são os instrumentos divinos para as novas interpretações. Essa posi- ção contraria a dos sunitas, que afirmam que a re- velação veio apenas uma vez, em sua forma final.

As mulheres no islã

Há profundos contrastes no tratamento con- cedido a homens e mulheres na vida social e nas leis relativas ao casamento. Devemos, no entan- to, ressaltar que o Corão, em relação às mulhe- res, determina tanto obrigações (“os homens têm autoridade sobre as mulheres”) quanto direitos (o dote pago pelo marido, por ocasião do casamen- to, é propriedade da mulher e não pode ser usado sem o consentimento dela).

A mulher só pode ter um marido. Já o ho- mem pode ter até quatro esposas, desde que as possa sustentar. A poligamia é proibida na Tur- quia e na Tunísia. Outra particularidade com relação ao casamento e que é pouco conhecida, embora bastante difundida, é o casamento por contrato com tempo determinado. É utilizado, em especial, quando o marido fica por muito tempo fora de casa e tem por fim preservar a sus- tentabilidade da mulher.

O divórcio é possível, mas mas apenas quando iniciado pelo elo marido, que é o
O
divórcio é possível, mas
mas
apenas quando iniciado pelo elo
marido, que é o responsável
el
pelo lado financeiro do ca- -
samento. O marido também
tem o direito de punir fisi-
camente a mulher se ela for
desobediente.
A
excisão do clitóris
(mutilação genital femini-
na) não é obrigatória, mas
mesmo assim é praticada
com freqüência no Norte
da África. Não há no Co-
rão menção a essa prática,
bem como à tradição de
usar o xador, o véu.
O Xador (véu) usado
pelas mulheres da
religião islamica
Imagem 18: Najah Team

A morte

Após a morte, a alma do fiel muçulmano vai a um paraíso desfrutar dos seus deleites e contemplar o rosto de Alá. A alma do infiel, por seu turno, vai ao inferno. Aguardar-se-á o dia do juízo, quando as ações dos seres humanos serão definitivamente julgadas e receberão a devida paga. As almas dos mártires e dos profetas não passarão pelo juízo final, pois já estão no paraí- so. O ato final será a proclamação do islã como religião mundial, liderada por Jesus.

A crença num julgamento final após a morte

é necessária, segundo muitos muçulmanos, para

que o ser humano assuma a responsabilidade so- bre seus atos. A idéia de um julgamento cria um senso moral de dever que é relevante para a co- munidade.

Mundo

O mundo foi criado por um ato deliberativo

de Alá. Em decorrência, dois aspectos emergem:

o mundo da matéria é real e importante, e, por ser

obra de Alá, que é perfeito em bondade e poder, o

mundo material também o é.

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Cultura Religiosa Principais tendências Sunitas – Defendem que a unidade da co- munidade islâmica é

Cultura Religiosa

Principais tendências

Sunitas – Defendem que a unidade da co- munidade islâmica é muito mais importante que

a genealogia de seu líder. Acreditam que o pro-

feta morreu sem indicar um sucessor e que os lí- deres que o sucederam, os califas, representam

a sucessão legítima. Distinguem-se, ainda, pela

ênfase dada à inescrutabilidade racional de Alá

e à extensão limitada do livre-arbítrio humano.

Xiitas – Defendem que a unidade da comu- nidade islâmica só é possível reconhecendo-se que os descendentes do profeta são os líderes (imã) ou modelos naturais escolhidos por Alá. É particularmente importante para esse grupo não perder de vista que o terceiro líder, assassinado em 680 d.C. ao recusar-se jurar fidelidade ao ca- lifa regente, optou pelo martírio como forma de obediência às revelações dadas ao profeta. Essa lembrança manifesta-se no sentimento de luto que toma conta dos xiitas por ocasião da morte, quando em luta, de um de seus adeptos. Possuem um clero hierárquico organizado, no qual a as- censão se dá segundo o grau de cultura, sendo o mais alto nível o de aiatolá.

Sufismo – É o grupo islâmico com tendên-

cia mística e cuja característica mais marcante é

a renúncia ao eu por meio de hábitos devocionais

e pela convicção de que Alá é a verdade suprema da existência humana e o caminho para os esta-

dos mais elevados de consciência e iluminação.

O termo sufi designa “o que se veste com lã”,

numa referência possível às vestes dos primeiros

sufis.

Fundamentalismo islâmico – Defendem que a shari´ah (conjunto de regras islâmicas ex- traídas do Corão e dos ensinamentos de Maomé) tem validade eterna e deve ser seguida à risca.

O movimento surgiu por volta do século XVIII

como uma reação ao avanço ocidental e ao con- seqüente relaxamento dos princípios da shari´ah. Imaginam que será por meio de uma inserção cada vez maior na política que poderão ser res- tabelecidos os princípios islâmicos. Defendem

uma estrutura familiar patriarcal e entendem que

os postos militares e políticos só devem ser entre- gues a muçulmanos comprometidos com a comu- nidade islâmica e que aos empregados deve ser dado tempo para as orações diárias. Acreditam ainda que se deve solidariedade aos muçulmanos

no mundo todo e opõem-se ao homossexualismo e ao aborto.

no mundo todo e opõem-se ao homossexualismo e ao aborto. SÍMBOLO DO ISLAMISMO: Enquanto a estrela

SÍMBOLO DO ISLAMISMO:

Enquanto a estrela indica

o

caminho a seguir, a lua

o

ilumina. O símbolo é

utilizado para significar como o Islamismo guia

e ilumina o caminho dos seus seguidores.

Perfil do Islamismo Fundador: o profeta Muhammad (Maomé). Data de nascimento: 570 d.C. Local de
Perfil do Islamismo
Fundador: o profeta Muhammad (Maomé).
Data de nascimento: 570 d.C.
Local de nascimento: Meca, atual Arábia Saudita.
Ano de fundação: 622 d.C., em Meca.
Textos sagrados e reverenciados: Qu´ran (Corão), coleção das escrituras divinas
como reveladas ao profeta Maomé pelo arcanjo Gabriel, e Hadith, coleção de ditos
de Maomé e seus seguidores e que se perpetuaram com o decorrer do tempo.
Estatística: estima-se hoje em cerca de 1 bilhão e 300 milhões de adeptos distribuí-
dos por várias localidades: Turquia, Oeste da África, Sul da Ásia, Filipinas, Indonésia,
Índia, Oriente Médio, Europa e as três Américas. No Brasil, fala-se em 1 milhão de
adeptos.
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Cultura Religiosa Uma religião inteiramente ligada à história: JUDAÍSMO Por Prof. Ronaldo Steffen História O

Cultura Religiosa

Uma religião inteiramente ligada à história: JUDAÍSMO Por Prof. Ronaldo Steffen História O judaísmo é
Uma religião inteiramente ligada à história:
JUDAÍSMO
Por Prof. Ronaldo Steffen
História
O judaísmo é uma religião inteiramente
ligada à história. As narrativas bíblicas
começam com Adão e Eva e os relatos
calizada no atual Sul do Iraque, por volta de 1700
AEC. Seguindo orientação divina, Abraão saiu
de sua terra e foi em direção à terra indicada por
Elohim, a fim de formar um grande povo. Esse
povo ganhou um nome após uma dramática luta
entre Jacó, neto de Abraão, e um anjo de Elohim.
que apontam as conseqüências do pecado, mani-
O
anjo lhe dá o nome de Israel (o que venceu a
festadas no desejo humano de rebelar-se contra
Elohim (Deus). Segue-se a expulsão do paraíso.
Mais tarde, o mundo inteiro é destruído pelo di-
lúvio, salvando-se apenas Noé e sua família, jun-
tamente com todos os animais da Terra. Sodoma
Elohim). Os filhos de Jacó, mais tarde, vieram a
ser identificados como as doze tribos de Israel.
e
Gomorra, cidades sem Elohim, são aniquiladas,
a torre de Babel é derrubada por representar a
tentativa humana de chegar até o céu*.
e
Com José, um dos filhos de Jacó, as narra-
tivas bíblicas mostram como os israelitas foram
parar no Egito. Após serem escravizados, foram
retirados do Egito com a ajuda de Moisés, numa
jornada de 40 anos pelo deserto antes de chega-
rem à Canaã, a terra prometida.
Arquivo ULBRAEAD

De Abraão a Moisés

A fase histórica seguinte tem seu ponto de partida com Abraão, ao sair da cidade de Ur, lo-

Fato marcante da travessia acontece no mon-

te Sinai, quando Elohim dá a Moisés as duas tá-

buas da Lei com os Dez Mandamentos.

Por volta de 1200 AEC, os israelitas con-

A jornada de Abraão Arquivo ULBRAEAD Judaísmo
A jornada de Abraão
Arquivo ULBRAEAD
Judaísmo

*Confira esses relatos no “Livro de Êxodo”, disponível em: http://www.sbb.org.br.

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Judaísmo

Judaísmo Cultura Religiosa quistaram parte de Canaã, convivendo com povos não israelitas. Foi a época dos

Cultura Religiosa

quistaram parte de Canaã, convivendo com povos não israelitas. Foi a época dos juízes que cuida- vam para que o povo respeitasse as leis dadas por Elohim. A luta com os filisteus, nesse período, foi o episódio determinante da necessidade da criação de um poder político centralizado.

Divisão das 12 Tribos de Israel Arquivo ULBRAEAD
Divisão das 12 Tribos de Israel
Arquivo ULBRAEAD

O reino de Israel

O ano 1000 AEC marca a introdução da mo-

narquia por meio de Saul. Davi e Salomão são os expoentes desse período. Com Davi, nascido em Belém, dá-se a unificação das tribos de Israel. Com Salomão, dá-se a construção do Templo de Jerusalém no século X AEC.

A prática de sacrifícios no templo, espécie

de oferenda, passou a ser uma forma mecânica de adoração. Surgem daí os profetas. Destaca-se

Amós, que viveu por volta de 750 AEC e ataca- va os males sociais, como a opressão dos pobres pelos ricos.

O exílio na Babilônia

Advertidos pelos profetas do juízo e da pu- nição divinos em razão do descumprimento das leis divinas, os israelitas, sem retroceder, viram o seu reino dividido em dois: o reino do Norte (Israel) e o do Sul (Judá). Em 722 AEC os as- sírios invadiram e devastaram o reino do Norte, que deixa de ter importância política e religiosa.

O reino do Sul foi conquistado em 587 AEC pelos babilônios, que deixaram como marca da ocupação a destruição do Templo de Jerusalém. Os habitantes do reino do Sul tiveram permissão para voltarem a sua terra em 539 AEC e daí em diante se tornaram conhecidos como judeus. O Templo de Jerusalém foi reerguido em 516 AEC.

Imagem 19: Escola Dominical
Imagem 19: Escola Dominical

O Templo de Jerusalém hoje

Ocupação estrangeira

Seguidas vezes, após o retorno da Babilônia, os judeus caíram sob o domínio político estran- geiro. Foi assim que, em 70 EC (Era Comum), uma revolta contra os romanos levou ao saque de Jerusalém. O Templo, que recentemente ha- via sido ampliado pelo rei Herodes, foi outra vez arrasado. Dessa época em diante se estabelece um novo formato do judaísmo, desvinculado do Templo e centrado na sinagoga. Muitos judeus estavam agora dispersos pelas terras do Mar Me- diterrâneo.

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Cultura Religiosa História mais recente A dispersão dos judeus provocada pelas di- versas ocupações permitiu

Cultura Religiosa

História mais recente

A dispersão dos judeus provocada pelas di- versas ocupações permitiu que eles, em muitas ocasiões e em diferentes lugares, assumissem pa- pel de grande importância e destaque, tanto nas letras como na economia (a religião lhes permitia ganhar juros emprestando dinheiro).

No entanto, o que mais tem marcado a dis- persão dos judeus é a constante campanha que diferentes países e culturas têm desencadeado com o fim de afastar os judeus de seus limites geográficos, em especial a partir da Baixa Idade Média. Por muito tempo o cristianismo encabe- çou a perseguição aos judeus sob a alegação de terem sido os judeus os culpados pela morte de

Jesus. Da França e da Inglaterra os judeus foram deportados nos séculos XIII e XIV; na Espanha

a perseguição dá-se no século XV, e os judeus

são expulsos desse país em 1492; em 1687, fo- ram proibidos de entrar no território da Noruega. Culmina o cenário de perseguição, na história recente, com o avanço nazista na Europa, entre 1933 e 1945.

Mesmo em épocas em que as perseguições explícitas não ocorriam, os judeus continuaram

a sofrer restrições: tratados como párias sociais; obrigados a adotar nomes de fácil identificação

e a residir em lugares específicos; proibidos de possuir terras e assim por diante.

Apenas em 1948 veio o reconhecimento mundial com um ato da ONU, que criou o Estado de Israel. Os primeiros passos foram dados no

fim do século XIX. Muitos judeus pensaram na possibilidade de voltar para sua antiga pátria e, assim, fugir das constantes perseguições de que eram alvo. Essa idéia foi chamada de sionismo. A princípio, muitos sionistas desejavam criar um estado laico, secular, mas os judeus ortodoxos conseguiram realizar o seu desejo de que o país fosse fundado com base na religião judaica.

Esse novo Estado tem vivido em contínuo conflito com o mundo árabe, também por causa dos milhares de palestinos que foram deslocados de suas propriedades na época da fundação de Israel.

Hoje as terras israelenses abrigam apenas cinco dos onze milhões de judeus

Ensinamentos

Deus

O judaísmo é uma religião monoteísta. Elo- him, o Deus único, é o criador do mundo e o se- nhor da história. Toda vida depende dele, e tudo o que é bom flui dele. É pessoal e tem preocupa- ção com as coisas que criou.

Quem é Elohim é algo que não pode ser expresso em palavras. O nome de Deus é repre- sentado pelas letras IHVH, um acrônimo que em hebraico significa “eu sou o que sou”. Esse acrô- nimo costuma ser lido como Jeová ou Javé, po- rém o nome real é tão sagrado que sempre se usa algum sinônimo, como “o Senhor” ou “o nome”.

Atual localização de Israel Arquivo ULBRAEAD Judaísmo
Atual localização de Israel
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Judaísmo

Judaísmo Cultura Religiosa Jeová é o criador e o sustentador do mundo. A idéia de que

Cultura Religiosa

Jeová é o criador e o sustentador do mundo. A idéia de que Elohim possa não existir é alheia a um judeu.

Particularmente específica na concepção de Elohim é a expectativa nutrida pela vinda de um messias (“o ungido”) que virá criar um rei- no de paz na terra. Historicamente, a expectati- va remonta à época do rei Davi, quando os reis eram ungidos ao subir ao trono. Desde o exílio babilônico, os judeus alimentam a expectativa da chegada de um messias, saído da linhagem de Davi. Esse rei ideal restabeleceria Israel como uma grande potência, e seu povo desfrutaria de eterna felicidade.

Até hoje essa expectativa continua viva. Nem todos os judeus, entretanto, identificam o Messias como uma pessoa; alguns falam numa “era messiânica” – um estado de paz na Terra, com destaque especial para Israel. Há alguns judeus que identificam a criação do Estado de Israel, em 1948, como o cumprimento dessa ex- pectativa.

O Messias para os Judeus:
O Messias para os Judeus:

Alguns esperam a vinda de uma pessoa;

Outros esperam uma era messiânica;

Outros identificam que essa era chegou com a criação do Estado de Israel legítima.

Ser humano

O ser humano, embora biológi- co, faz parte da essência divina e deve cumprir a missão de Elohim aqui na Terra.

O fato de que Elohim é um, e apenas um, reflete-se na existência humana. Toda a vida do ser humano deve ser consagrada. Não há linha divisória que separe o sagrado do profano.

Enquanto ser biológico, o ser humano faz parte do cosmo. No entanto, de tudo o que há no cosmo, o ser humano foi escolhido como parte da essência divina, ultrapassando os limites bio-

lógicos. Por isso, faz parte da missão divina no cosmo, realizando a mediação entre o Criador e a criatura. A tarefa mais importante do ser humano

é

cumprir todos os seus deveres para com Elohim

e

para com seus semelhantes.

Vida e morte

A vida e a morte de um judeu têm seus cami- nhos e atalhos traçados nas Escrituras Sagradas.

Os Escritos Sagrados

O chamado cânone judaico foi fixado por um concílio em Jabne por volta de 100 EC. São 24 livros divididos em três grupos:

Torá (a Lei): os cinco livros de Moisés.

Nevim (os Profetas): os livros históricos e proféticos.

Ketuvim (os Escritos): os demais livros.

Além da Torá, os judeus obedeciam às regras transmitidas oralmente. Conforme a tradição, no

monte Sinai, Moisés teria recebido a Lei Escrita

e a Lei Falada. A Lei Falada era proibida de ser

escrita, pois deveria adaptar-se às condições re- ais da vida em diferentes lugares e épocas. Após

a dispersão dos judeus, sob pena de perder-se a

tradição oral, decidiu-se registrar as orientações. Esse material se chama Talmude. Não é em si um livro de ensinamentos, e sim um texto usado pelos rabinos em seus ensinamentos, para orien- tação dos fiéis em situações concretas.

A sinagoga e o sábado

Desde o exílio, a sinagoga tem desempenha-

do papel primordial na preservação das práticas religiosas dos judeus. É nesse espaço que se en- contra a Arca, uma espécie de armário colocado sistematicamente na direção de Jerusalém e onde são guardados os rolos da Torá. Nas manhãs dos sábados (shabat), das segundas e das quintas- feiras, os rolos são lidos de tal forma que todo

o livro é lido no decurso de um ano. A sinagoga

pode abrir suas portas para os serviços religiosos três vezes por dia, desde que dez homens estejam

presentes. As mulheres não desempenham parte ativa no serviço religioso, pelo menos nos grupos

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Judaísmo

Judaísmo Cultura Religiosa ortodoxos. No entanto, encontram seu espaço nos rituais do Shabat. Imagem 20: Tiferet

Cultura Religiosa

ortodoxos. No entanto, encontram seu espaço nos rituais do Shabat.

Imagem 20: Tiferet
Imagem 20: Tiferet

A Arca numa Sinagoga.

O Shabat dura desde o pôr-do-sol de sexta-

feira até o pôr-do-sol de sábado. É uma relem-

brança do ato criador de Jeová que descansa no sétimo dia. O sábado se tornou uma festa sema- nal de renovação que ocorre em família. A espo- sa abençoa as velas do Shabat na mesa já posta,

e o marido abençoa o vinho e o pão. É mais um

grande momento para a união familiar judaica.

Quem olha hoje pelos cuidados da alimentação na família?
Quem olha hoje pelos cuidados
da alimentação na família?

As regras alimentares

É responsabilidade da mulher zelar pela ali- mentação da família. Há, para tanto, que respei- tar as regras definidas nos livros sagrados.

A carne só pode provir de animais que rumi-

nam e têm o casco partido, o que exclui o porco,

o camelo, a lebre, o coelho e outros. Das aves

pode-se comer as não-predatórias. Dos peixes pode-se comer os que possuem escamas e bar- batanas, excluindo-se polvos, lagostas, mariscos, caranguejos, camarões etc.

Toda comida feita de sangue também é proi- bida, já que a vida está no sangue. Os animais com sangue e permitidos para alimentação devem ser abatidos de forma que o máximo possível de san-

gue seja extraído. Além disso, é proibido comer derivados de carne juntamente com derivados de

leite. As frutas, as verduras, as bebidas alcoólicas

e não alcoólicas são permitidas.

A ética

O religioso e o ético se fundem na vida de

um judeu. Tudo pertence à Lei de Elohim. Além das 248 ordens afirmativas e das 365 proibições,

a vida do judeu ainda deve respeitar os costumes

e as práticas que se consolidaram ao longo de sua história.

Dentre as qualidades éticas recomendadas estão a generosidade, a hospitalidade, a boa von- tade para ajudar, a honestidade e o respeito pelos pais.

O dízimo (10%) faz parte do comportamen-

to de muitos judeus. Com relação aos pobres e necessitados, é curioso notar que o ato de dar es- molas não é considerado caridade, mas justiça. O dever de combater a pobreza é preceito bíblico a fim de cumprir-se a palavra de que jamais haverá pobre no povo escolhido. A mesma concepção é mantida em relação às viúvas, aos órfãos e aos estrangeiros.

Quando em determinada situação não hou- ver clareza sobre o que fazer ou se a atitude gerar conflito, prevalece a vida humana.

Dar esmola não é caridade, mas ato de justiça.
Dar esmola não é caridade,
mas ato de justiça.

As fases da vida

Nascimento, juventude, casamento e morte

são fases da vida, marcadas por costumes antigos

e ainda mantidos.

Circuncisão – Oito dias após o nascimen- to, os meninos são circuncidados e recebem formalmente seu nome. A menina também recebe seu nome na sinagoga uma semana após o nascimento.

Bar Mitsvá e Bat Mitsvá – No primeiro

sábado após completar treze anos, o meni- no é recebido como “filho do mandamento” (bar mitsvá). No ano precedente, ele é ins-

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Judaísmo

Judaísmo Cultura Religiosa truído nas leis e nos costumes judaicos, bem como aprende a ler o

Cultura Religiosa

truído nas leis e nos costumes judaicos, bem como aprende a ler o trecho da leitura da Torá que fará no sábado de sua recepção. Já a menina torna-se “filha do mandamento” (bat mitsvá) automaticamente ao completar doze anos. Por volta dos quinze anos, ela aprende o principal da história e dos costu- mes judaicos e, particularmente, empenha- se em aprender as regras alimentares, que é sua responsabilidade doméstica.

Imagem 21: Google Picasa Web
Imagem 21: Google Picasa Web

Cerimônia do Bar Mitsvá

Casamento – A família tem papel primor- dial na manutenção da cultura e da educa- ção judaicas. O casamento é o modo de vida ideal e o único tipo de coabitação permiti- do. Por princípio, judeu deve casar com ju- deu. O divórcio é permitido, mas, para que seja legítimo, deve ser sancionado por um tribunal rabínico e selado pelo marido, que dá à esposa a carta de divórcio.

Imagem 22: Tharwa Community
Imagem 22: Tharwa Community

Cerimônia de casamento

Enterro – O enterro deve ocorrer o mais rápido possível depois da morte. A cre- mação não é permitida. No cerimonial de sepultamento, não se usam flores nem mú- sica. O cemitério é sempre muito bem cui- dado em razão de ser o lugar onde os mor- tos descansam até a ressurreição.

Os festivais

As festas judaicas marcam não apenas mo- mentos de alegria. Elas trazem consigo uma for- te conotação histórica e religiosa e servem para marcar eventos que ressaltam a intervenção di- vina na vida do povo judaico, tanto no passado como no presente.

Rosh há-shaná (Ano Novo) – Celebrado

em setembro ou outubro, rememora Jeová como criador e rei, conduzindo as pessoas a se concentrarem na auto-análise e no ar- rependimento.

Iom Kippur (Dia do Perdão) – É o fim

do período de dez dias de arrependimento, iniciado no Ano Novo.

– Ocorre alguns dias após o Dia do Perdão e procura relembrar o período em que os ju- deus, durante sua peregrinação pelo deser- to, residiam em tendas.

Chanuká (Festa da Inauguração) – Re-

alizada em novembro ou dezembro, por oito dias, comemora a reinauguração do Templo de Jerusalém, ocorrida em 165 AEC.

Pessach (Páscoa) – Celebrada em mar- ço ou abril, relembra a passagem do anjo do Senhor “por cima” (pessach) das casas dos israelitas, quando no Egito, por ocasião da décima praga, matou os primogênitos egípcios. Tem a duração de oito dias e só se come pão sem fermento.

Shavuot (Festa das Semanas) – Ocorre

em maio ou junho e comemora a ocasião em que a Torá foi dada ao povo no monte Sinai.

Sukot

(Festa

dos

Tabernáculos)

Mundo

Reza o texto sagrado, registrado em Gênesis, capítulo 1, que Elohim criou o “céu e a terra” (o universo), o ser humano inclusive. Tendo conclu- ído sua obra criadora, emanada exclusivamente de sua inexplicável vontade, constata que o uni- verso é bom. A força da qual flui o ato criador é sua ordem, a partir do nada e concretizada por suas palavras. A soberania divina está realçada. Ele é o criador.

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Cultura Religiosa “A força da qual flui o ato cria- dor é sua ordem, a

Cultura Religiosa

“A força da qual flui o ato cria- dor é sua ordem, a partir do nada e concretizada por suas palavras.”

Uma vez criado, o universo continua a exis- tir por vontade divina e não por moto próprio. A força vem de fora, não de forma impessoal, mas pessoal e, ainda que o universo possua caracte- rísticas materiais evolutivas, percebe-se nesse processo a vontade divina presente no ato criador que lhe deu essa característica.

Tendências

O judaísmo é tanto uma identidade heredi-

tária e um modo de vida quanto um sistema re- ligioso. Essa colocação faz perceber a existência de uma diversidade de entendimentos.

A partir do século XIX, três comunidades

religiosas distintas, descritas a seguir, desenvol-

veram-se com opiniões divergentes acerca da im- portância da tradição e da teologia judaica.

Judaísmo ortodoxo – Mantém as crenças

tradicionais, inclusive a doutrina de que tanto a

lei bíblica quanto a lei oral são de inspiração di- vina, e obedece aos costumes e aos rituais tradi- cionais, com a rígida observância do Shabat e das leis de alimentação.

Judaísmo reformista – Surgiu no período

do Iluminismo e, menosprezando a autoridade talmúdica, realiza cultos simplificados no verná- culo, dando maior importância aos padrões éti- cos do que às leis rituais, grande parte das quais considera irrelevantes no mundo moderno.

Judaísmo conservador – Situa-se entre a

aceitação da autoridade das Escrituras e a per- missão de adaptação às mudanças dos tempos e das situações.

No século XX, outras tendências se acentua- ram, como a corrente liberal da Reforma Judaica e o Movimento Reconstrucionista, fundado por Mordecai Kaplan, que entende o judaísmo como uma “civilização religiosa”.

entende o judaísmo como uma “civilização religiosa”. A ESTRELA DE DAVI: Dois triângulos entrelaçados. Um aponta
entende o judaísmo como uma “civilização religiosa”. A ESTRELA DE DAVI: Dois triângulos entrelaçados. Um aponta

A ESTRELA DE DAVI: Dois triângulos entrelaçados. Um aponta para o alto e relembra tudo o que é sagrado. Outro aponta para baixo e relembra tudo o que é secular. Juntos representam a união indis- solúvel entre o sagrado e o secular.

a união indis- solúvel entre o sagrado e o secular. Perfil do Judaísmo Fundador: Abraão e
a união indis- solúvel entre o sagrado e o secular. Perfil do Judaísmo Fundador: Abraão e
a união indis- solúvel entre o sagrado e o secular. Perfil do Judaísmo Fundador: Abraão e
Perfil do Judaísmo Fundador: Abraão e seus descendentes Isaque e Jacó. Data de nascimento: por
Perfil do Judaísmo
Fundador: Abraão e seus descendentes Isaque e Jacó.
Data de nascimento: por volta de 1700 AEC (antes da Era Comum; é assim
que os judeus preferem identificar a cronologia antes de Cristo).
Local de nascimento: provavelmente em Ur, na Caldéia.
Ano de fundação: 1700 AEC.
Textos sagrados e reverenciados: a Torah, que descreve a criação do mun-
do e a fundação do reino de Israel, além de contar as leis divinas; o Tal-
mude, um conjunto de escritos jurídicos, éticos e litúrgicos, bem como de
histórias e lendas judaicas.
Estatística: fala-se em 15 milhões de adeptos, dos quais seis milhões es-
tão fora de Israel. No Brasil, estima-se em 130 mil adeptos.
Judaísmo

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Confucionismo

Confucionismo Cultura Religiosa CONFUCIONISMO Estas religiões orientais ou sapienciais buscam o caminho através da sabe-

Cultura Religiosa

CONFUCIONISMO

Estas religiões orientais ou sapienciais buscam o caminho através da sabe- doria e do conhecimento.

Por Prof. Moacir Douglas Flor

As religiões orientais

N este e nos próximos dois capítulos,

apresentaremos três Grandes Religiões

(Confucionismo, Xintoísmo e Taoís-

mo). Apesar de não serem populares no Brasil, consideramos interessante uma leitura e análi- se para nos darmos conta de como pensam ou- tros povos e a diversidade religiosa encontrada no mundo. É bom observar que o pensamento oriental é diferente do ocidental.

Confucionismo

Vocês devem estar observando hoje que a China está despontando em todo o mundo pelo seu crescimento econômico e aos poucos vem sendo reconhecida como uma grande potência mundial. Talvez o que você não saiba é que até 1911 a China foi uma potência imperial, onde o imperador reinava acima de tudo. O Imperador era considerado o representante do país diante do supremo deus Céu.

O que havia por traz de tudo isso era uma

ideologia confucionista. O conjunto de pensa- mentos, regras e rituais sociais, foram desenvol- vidos pelo filósofo K’ung-Fu-Tzu. No Brasil o conhecemos como Confúcio. Além disso, Con- fúcio formulou normas para a vida religiosa, para os sacrifícios e os rituais. ,

O confucionismo era, na verdade, uma re-

ligião estatal praticada pela elite e pelas classes dominantes, a qual, no entanto, nunca se disse- minou muito entre as massas, as camadas mais amplas da população. Da mesma forma que o imperador, em seu palácio em Pequim, ficava re- motamente afastado das pessoas comuns, o Céu era remoto e impessoal para a grande massa dos chineses pobres, trabalhadores e camponeses. A

Religião dos pobres era a adoração dos espíritos, particularmente dos antepassados, religiosidade carregada de magia e traços de outras religiões. (GAARDER, 2000, P.77)

Confúcio ensinando, re- tratado por Wu Daozi, Dinastia Tang Imagem 23: Wikipedia
Confúcio
ensinando, re-
tratado por Wu
Daozi, Dinastia
Tang
Imagem 23: Wikipedia

Quem foi Confúcio

Confúcio nasceu em 551. a.C., filho de pes- soas pobres, que desde cedo demonstrou um grande interesse que se referia à vida. Diz a his- tória que após iniciar sua carreira pública como um oficial de segunda classe no estado de Lu, aos

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Confucionismo

Confucionismo Cultura Religiosa 18 anos, tornou-se professor e começou a ensinar história, filosofia, ética, música,

Cultura Religiosa

18 anos, tornou-se professor e começou a ensinar história, filosofia, ética, música, poesia e boas maneiras. A idéia era mostrar aos seus alunos o princípio que ele sentiu necessários naquele mo- mento de decadência da ordem feudal chinesa.

Embora suas lembranças da infância con- tenham referências nostálgicas à caça, à pesca

e ao arco, sugerindo com isso que ele foi tudo

menos uma traça de livro, Confúcio dedicou-se cedo aos estudos e se saiu bem. “Chegando aos quinze anos de idade, forcei a minha mente ao aprendizado.” Com vinte e poucos anos, depois de ter ocupado vários cargos públicos insigni- ficantes, depois de ter feito um casamento não muito bem sucedido, ele se estabeleceu como professor particular. Essa era obviamente a sua vocação. A reputação de suas qualidades pesso- ais e sabedoria prática espalhou-se com rapidez, atraindo um circulo de discípulos entusiasmados. (SMITH, 1991, p. 156)

A carreira de Confúcio não foi um sucesso.

Sua ambição era bem maior. Alguns biógrafos

chegaram a criar a lenda de que, por volta dos 50 anos, Confúcio realizou uma brilhante adminis- tração durante cinco anos, avançando rapidamen- te de ministro de Obras Públicas para ministro da Justiça e primeiro-ministro, e fazendo de Lu uma província modelo. “A verdade é que os go- vernantes da época tinham medo da franqueza e integridade de Confúcio, tanto medo que nunca

o designariam para qualquer posição de poder.” (SMITH, 1991, p. 156)

Suas obras

O que marca a obra de um líder é a seu lega-

do escrito. Confúcio deixou várias obras escritas sobre sua filosofia de vida: O Shih Ching ( Li- vro de poesias), Li Chi (Livro dos ritos), I Ching (Livro das transformações), Shu Ching (Livro de história) e Ch’um Ch’íu (os anais da primavera e do outono).

A filosofia de Confúcio

A questão central na filosofia de Con- fúcio está na palavra “li”. Significa “cortesia”, “reverência”, “ritos e cerimônias” e o “posicio-

namento ideal na vida pública e privada”. “O Chinês mais moderno entende por “li” uma or-

dem social ideal, com tudo em seu devido lugar

e com todas as pessoas prestando respeito e re-

verência aos outros na hierarquia social” (STE- FFEN, 2000, p. 48).

De uma certa forma, a idéia era estabelecer

a ordem e acabar com a queda do respeito desen-

cadeada pela ordem feudal. Confúcio acreditava que, se cada um soubesse o seu lugar, poderia haver um comportamento de reciprocidade como um guia de vida. É aqui que vai surgir o dito “não faças aos outros o que não queres que te façam.

Há quatro coisas no Caminho da pessoa pro- funda, nenhuma das quais fui capaz de fazer. Servir ao meu pai, como esperaria que um filho me servisse. Servir ao meu governante, como esperaria que meus ministros me servissem. Servir ao meu irmão mais velho, como esperaria que meus irmãos mais novos os servissem. Ser o primeiro a tratar os amigos como esperaria que eles me tratassem. Essas coisas não fui capaz de fazer.

Político fracassado, Confúcio foi, sem dúvi- da, um dos maiores professores do mundo. Pre-

parado para ensinar história, poesia, governança, propriedade, matemática, música, adivinhação

e esportes, ele foi, à moda de Sócrates, um ho-

mem Universidade. Seu método de ensino tam- bém era socrático. Sempre informal, ele não fazia preleções; preferia conversa sobre os problemas apresentados por seus alunos, citando leitura e fazendo perguntas. Ele se apresentava aos alunos como um companheiro de viagem, comprometi- do com a tarefa de se tornar plenamente humano, mas modesto. Quanto ao ponto a que chegou no cumprimento dessa tarefa, ele mesmo cita:

Homem simples e humilde

Não havia nada de sobrenatural nele. Con- fúcio gostava de estar com as pessoas, de jantar fora, de cantar em coro uma bela canção e de beber, mas não em excesso. Seus discípulos re- lataram que, nas horas de folga, o Mestre tinha um comportamento informal e alegre. Ele era afável, mas firme, digno, mas agradável. Estava sempre pronto para defender a causa das pessoas

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Confucionismo

Confucionismo Cultura Religiosa comuns contra a nobreza opressiva de sua época; nas suas relações pessoais, ele

Cultura Religiosa

comuns contra a nobreza opressiva de sua época;

nas suas relações pessoais, ele rompia escanda-

losamente as linhas de classe impostas pela so-

ciedade e nunca menosprezava os alunos mais pobres, mesmo quando não podiam pagar as au- las. Era gentil, mas capaz de sarcasmos quando achava merecido. Falando daquele que começava a criticar suas companhias, Confúcio observou:

“É evidente que Tzu Kung tornou-se perfeito. Ele

tem tempo para esse tipo de coisa. Eu não tenho

tempo livre”.

Confúcio nunca lamentou a escolha que fez. Com alimento ordinário para comer, água para beber e o braço dobrado como travesseiro, ainda

tenho alegria em meio a isso e a tudo. As rique-

zas e honrarias adquiridas por meios iníquos não

significam para mim mais do que as nuvens flu-

tuantes, diz ele.

A glorificação veio após a sua morte. Entre

seus discípulos, o gesto foi imediato. Disse Tzu

Kung: “Ele é o sol, a luz, aos quais não há meios de se subir. A impossibilidade de igualarmos nosso Mestre é como a impossibilidade de alcan- çarmos o céu subindo por uma escada”. Em pou-

cas gerações, Confúcio era visto em toda a China

como o “mentor e modelo de dez mil gerações. O

que mais lhe teria agradado foi a atenção dada às

suas idéias. Durante dois mil anos – até o século

XX – toda criança chinesa chegou à sala de aula,

toda manhã, e lavantou as mãozinhas postas na direção de uma mesa que tinha uma placa com o nome de Confúcio. Praticamente, todo estudante chinês estudou cuidadosamente os provérbios de

Confúcio, durante horas à fio; o resultado é que

eles se tornaram parte da mente chinesa, chegan-

do até os analfabetos na forma de provérbios. O governo chinês também foi influenciado por es-

sas idéias, mais profundamente do que qualquer outra pessoa.

Pano de Fundo

É claro que os provérbios, por si só, não ex-

plicam o sucesso de Confúcio.

A Antiga China não era nem mais nem me-

nos turbulenta do que as outras terras. Do oitavo

ao terceiro século a.C., porém, a China testemu- nhou o colapso da dinastia Chou, que foi um go-

Alguns provérbios
Alguns provérbios

Verdadeiro filósofo não será aquele que, mesmo sendo reconhecido, jamais guarda ressentimento?

Não faças aos outros o que não queres que

te façam.

Não me entristece que os outros não me conheçam. Entristece-me não conhecer os outros.

Não esperes resultados rápidos nem pro- cures pequenas vantagens. Se buscares resultados rápidos, não alcançarás a meta final. Se te deixares desviar por pequenas vantagens, nunca realizarás grandes feitos.

As pessoas mais nobres primeiro praticam

o que pregam e depois pregam de acordo

com a sua prática. Se quando olhas dentro do teu coração não vês nada de errado, por que te preocupas? O que há para temeres?

Quando conheces uma coisa, reconhecer que tu a conheces; e quando não a conhe- ces, saber que tu não sabes – isso é conhe- cimento.

Ir longe demais é tão mau quanto ficar aquém.

Quando vês um homem digno, pensa quan- do poderás emulá-lo.

Quando vês um homem desprezível, exami- na o teu próprio caráter.

Riqueza e posição, eis o que as pessoas desejam; mas se não as conseguirem da maneira correta, nunca as possuirão.

Sê bondoso com todos, mas íntimo apenas dos virtuosos.

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Confucionismo

Confucionismo Cultura Religiosa verno de paz e ordem. Baronatos rivais ficaram em liberdade para fazer o

Cultura Religiosa

verno de paz e ordem. Baronatos rivais ficaram em liberdade para fazer o que bem entendiam, criando uma situação idêntica à da Palestina no

período dos juízes: “Naqueles dias não havia rei em Israel; cada homem fazia o que parecia certo

a seus próprios olhos”.

É necessário compreender o que havia de errado na socie- dade em que ele vivia.

A Guerra quase contínua desse período

começou dentro dos padrões do cavalheirismo.

O

carro de guerra era sua arma, a cortesia era

o

seu código e os atos de generosidade confe-

riam honra. Diante da invasão, o barão arrogante enviaria um comboio de provisões ao exército invasor. Ou, para provar que seus homens esta- vam além do medo e da intimidação, ele envia- ria, como mensageiro, soldados que cortariam a própria garganta diante do invasor. Tal como na era de Homero, guerreiros de exércitos inimigos

se reconheciam, trocavam desdenhosos cumpri-

mentos do alto de seus carros de guerra, bebiam juntos e à vezes trocavam armas antes de entrar em combate.

Na época de Confúcio, porém, a guerra in-

terminável degenerava; de cavalheiresca, tornara-

se o terror desenfreado do Período dos Estados

Combatentes. O horror chegou ao auge no século seguinte à morte de confúcio. Os combatentes entre carros de guerra deram lugar à cavalaria, com seus ataques de surpresa e reides súbitos. Em vez do ato nobre de manter os prisioneiros até receber o resgate, os conquistadores promo- viam execuções em massa. Populações inteiras, capturadas nos azares da guerra, eram decapita- das, incluindo velhos, mulheres e crianças. Le- mos descrições de chacinas de 60.000, 80.000 e até de 400.000 pessoas. Há relatos de vencidos atirados em caldeirões de água fervente e seus familiares forçados a beber aquela sopa humana.

A pergunta, nessa época, era: Por que conti-

nuamos nos destruindo? Talvez aí esteja a respos-

ta para compreendermos o poder do Confucionis-

mo. Confúcio viveu numa época em que a coesão social havia deteriorado até o ponto crítico.

Confúcio insistia que o amor ocupa um lu- gar importante na vida; mas também que o amor deve ser apoiado por estruturas sociais e por um etos coletivo. Bater exclusivamente na tecla do amor é o mesmo que pregar os fins sem os meios. Quando perguntaram à Confúcio certa vez, “de- vemos amar nossos inimigos, aqueles que nos causam mal?”. Ele respondeu: “De modo algum. Respondei ao ódio com a justiça e ao amor com a benevolência. Caso contrário, estaríeis desperdi- çando vossa benevolência.”

Respeito às tradições

O que chama a atenção nas religiões orien-

tais é o respeito que todos cultivam pelos mais velhos. A idade não é um peso, mas uma benção. A experiência é importante para os mais novos, que a buscam nas pessoas de maior vivência. As- sim também são conservadas as tradições, trans- mitidas pelos mais velhos. Sobre a socialização, o próprio Confúcio ensinou:

Deve ser transmitida dos velhos para os jovens, enquanto os hábitos e as idéias devem ser con- servados como uma teia ininterrupta de memó- ria entre os portadores da tradição, geração

Quando a continuidade das

após geração. (

tradições de civilidade se rompe, a comunida- de é ameaçada. A menos que essa ruptura seja consertada, a comunidade se esfacelará em

guerras de facções. Isso porque, quando a

) (

continuidade é interrompida, a herança cultural não está sendo transmitida. A nova geração se defronta com a tarefa de redescobrir, reinventar

e reaprender, por tentativa e erro, a maior parte

) Essa não é tarefa

daquilo que precisa saber. ( para uma única geração.

)

Tradição deliberada

A tradição deliberada segue, no esquema de

Confúcio, cinco termos chaves:

JEN: Etimológicamente uma combinação dos caracteres correspondentes a “ser humano” e “dois”, designa o relacionamento ideal que deve existir entre as pessoas. Traduzido das mais va- riadas formas (bondade, fraternidade, benevolên- cia e amor), talvez a melhor maneira de transmi-

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Confucionismo

Confucionismo Cultura Religiosa tir a idéia seja pela expressão “Sensibilidade do coração humano”. Jen envolve

Cultura Religiosa

tir a idéia seja pela expressão “Sensibilidade do coração humano”. Jen envolve simultaneamente um sentimento de compaixão pelos outros e de respeito por si mesmo, um sentimento indivisível da dignidade da vida humana, onde quer que ela apareça.

CHUN TZU: Se Jen é o relacionamento ideal entre seres humanos, chu tzu refere-se ao termo ideal nesses relacionamentos. Esse concei-

to tem sido traduzido como Homem Superior e O

Melhor da Humanidade. Talvez Pessoa Amadu- recida seja uma tradução tão fiel quanto qualquer outra. É o oposto de pessoa estreita, da pessoa mesquinha, da pessoa de espírito pequeno. So- mente quando aqueles que formam a sociedade se transformarem em chun tzus é que o mundo

poderá caminhar na direção da paz.

Se houver honra no coração, haverá beleza no caráter.

Se houver beleza no caráter, haverá harmonia no lar.

Se houver harmonia no lar, haverá ordem no país.

Se houver ordem no país, haverá paz no mundo.

LI: O terceiro conceito, li, tem dois signifi- cados. Seu primeiro significado é propriedade, a maneira pela qual as coisas devem ser feitas. As pessoas precisavam de modelos, e Confúcio que- ria direcionar a atenção delas para os melhores modelos oferecidos pela sua história social Pro- priedade é um conceito com amplo alcance, mas podemos perceber o âmago do interesse quando ele diz:

“Se as palavras não forem corretas”:

a linguagem não estará de acordo com a ver- dade das coisas. Se a linguagem não estiver de acordo com a verdade das coisas, os negócios não poderão ser concluídos com sucesso. ( ) Portanto, um homem superior considera neces- sário que os nomes por ele utilizados sejam fala- dos apropriadamente, e também que aquilo que ele fala possa ser transmitido apropriadamente. O que o homem superior requer é que em suas palavras nada haja de encontro.

Todo o pensamento humano avança por meio de palavras; logo, se as palavras forem oblíquas,

o pensamento não conseguirá avançar em linha

reta. Aí é importante aquilo que Confúcio cha-

mava de “Retificação dos nomes”. A retificação dos nomes, na Doutrina do meio, nas Relações Constantes, no Respeito pela Idade e pela Famí-

lia, esboçamos importantes aspectos específicos de li no seu primeiro significado: propriedade ou

o que é certo.

O outro significado da palavra é ritual, que

transforma o certo – no sentido daquilo que é cor- retor fazer – em rito. Quando o comportamento correto é detalhado em minúcias confucionistas,

a vida inteira do indivíduo se estiliza numa dança sagrada. A vida social foi coreografada.

TE: O quarto conceito axial que Confúcio procurou elaborar para seus conterrâneos foi Te. Significa Poder. Especificamente, o poder por meio do qual os homens são governados. Ele es- tava convencido de que nenhum governante con- segue reprimir todos os seus cidadãos o tempo todo, nem mesmo grande parte deles na maior parte do tempo. O governo precisa contar com

uma aceitação da sua vontade, uma confiança apreciável naquilo que está fazendo. Confúcio acrescentou que a confiança popular era de longe

a mais importante, pois “se o povo não tiver con-

fiança em seu governo, este não se sustentará”. Para ele, somente são dignos de governar aqueles que prefeririam não Ter de governar.

“Governar é manter-se reto. Se tu, senhor, dirigi- res teu povo em linha reta, qual de teus súditos se arriscará a sair dessa linha?

Quando o Barão de Lu lhe perguntou como gover- nar, Confúcio respondeu:

WEN: O conceito final na estrutura confucionista

é wen. Refere-se às “artes da paz”, enquanto diferencia-

das das “artes da guerra”, à música, à arte, à poesia, à soma da cultura no seu modo estético e espiritual. Con- fúcio considerava apenas semi-humanas as pessoas que eram indiferentes à arte. Mas o que atraía seu interesse não era a arte pela arte. Era o poder da arte de trans- formar a natureza humana na direção da virtude que o impressionava – seu poder de facilitar o interesse pelos outros.

Pela poesia, a mente é despertada; pela música, recebe-se o acabamento. As odes estimulam a mente. Elas induzem à autocontemplação. Ensinam a arte da sensibilidade. Ajudam a evitar o ressentimento. Fazem- no acreditar no dever de servir ao país e ao príncipe.

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Imagem 24: Gillesh Wordpress

Xintoísmo

Imagem 24: Gillesh Wordpress Xintoísmo Cultura Religiosa XINTOÍSMO Quando falamos do Xintoísmo normalmente nos

Cultura Religiosa

XINTOÍSMO

Quando falamos do Xintoísmo normalmente nos reportamos aos Japoneses, ricos pela sua forma de pensar, por sua cultura e também pelos seus valores religiosos.

Por Prof. Moacir Douglas Flor

O caminho dos deuses

A penas para cultura geral vamos tecer

algumas considerações sobre o Xintoís-

mo, que tem grande influência sobre a

cultura japonesa. A partir desta religião podere- mos entender a força de um povo, sua seriedade, seus compromissos e sua devoção.

Primitivamente, a religião Xintoísta era cha- mada de Kami-no-michi, que é traduzido por “o caminho dos deuses”. Em chinês, a mesma expressão é shen-tao, de onde procede a palavra shinto ( em português, xinto).O Xintoísmo é uma religião peculiar por sua expressão de amor japo- nês pelo seu país e suas instituições. Este aspecto da história sagrada está descrito no Kojiki, data- do do século VIII. (STEFFEN, 2000, p.50)

O Kojiki diz que as ilhas japonesas foram criadas por Izanami e Izanagi, que também ha- bitaram a terra como numerosas divindades, das quais os japoneses são descendentes . A família real é descendente de Jimmu Tenno ( cerca de 660 a.C.), o primeiro imperador humano, neto de Ni-ni-go, neto de Amaterasu, a divindade femi- nina Sol. No Shinto, Amaterasu é reconhecida como a primeira no panteão das divindades, mas não é a única. É apenas uma entre muitos. O Xin- toísmo primitivo via o Japão como a terra dos deuses, o que explica o caráter nacionalista da religião. Acreditam que todos os japoneses têm origem divina, mas em especial o imperador, que é descendente da própria deusa do sol.

Principais ideias

O mito da origem japonesa parece ser uma resposta animista primitiva à natureza. A multi-

Torii (monumento xintoísta) de hiroshima, Japão

plicidade de deuses japoneses pode ser atribuída a condições civis primitivas, quando a nação era habitada por um grande número de clãs indepen- dentes, cada um com seus próprios deuses e prá- ticas religiosas.

As cerimônias religiosas ajudam a evitar acidentes, promovem a cooperação e o contato com os Kamis, e geram o contentamento e a paz para o indivíduo e a sociedade. As cerimônias são feitas tanto no próprio lar, como nas grandes festas anuais do templo – Morada dos Kamis.

Os preceitos do Shinto
Os preceitos do Shinto

O Shinto, “o caminho dos deuses”, pode ser des- crito como um modo ideal de comportamento. O seu sistema ético inclui os seguintes preceitos:

Lealdade ao imperador

Gratidão

Coragem diante da morte

O serviço aos outros

acima dos inte-

resses próprios

Verdade

Polidez até mesmo com os inimigos

Controle das manifestações de sen- timentos e honra, que significa o ato de preferir a morte do que a desgraça. Os acontecimentos da Segunda Guerra Mundial nos mostram um pouco desses conceitos quando os pilotos japoneses corajosamente jogaram seus próprios aviões para atingir o alvo e acabar com o inimigo.

Quatro elementos estão sempre presentes nestas cerimônias:
Quatro elementos estão sempre
presentes nestas cerimônias:

Purificação

Sacrifício

Oração

Refeição Sagrada

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Taoísmo

Taoísmo Cultura Religiosa TAOÍSMO Se as idéias de Confúcio são estimulantes para governan- tes sérios, o

Cultura Religiosa

TAOÍSMO Se as idéias de Confúcio são estimulantes para governan- tes sérios, o Taoísmo apresenta
TAOÍSMO
Se as idéias de Confúcio são estimulantes para governan-
tes sérios, o Taoísmo apresenta uma visão transcendente das
preocupações com a vida.
Por Prof. Moacir Douglas Flor
Lao Tsé
O s problemas éticos, sociais e políti-
cos estão no centro das discussões da
maioria das religiões orientais. É a op-
apanhadas em redes; as que nadam, em armadi-
lhas de vime; as que voam, atingidas por flechas.
Mas o dragão está além do meu conhecimento;
ele sobe ao céu nas nuvens e no vento. Hoje vi
Lao-tsé, e ele é como o dragão”.
Arquivo ULBRAEAD

ção pelo ser e não pelo ter. Apresenta uma visão

diferente da vida. É uma cultura oposta ao que estamos acostumados a viver no ocidente. Se- rão recomendadas leituras complementares para quem tiver interesse maior em conhecer melhor as idéias de Lao-tsé – o grande e velho mestre.

A origem do Taoísmo é apresentada com o nome de um homem chamado Lao-tsé. Suposta- mente nascido por volta de 604 a.C. As histórias sobre a vida deste homem são muito variadas. Alguns historiadores não têm nem certeza se ele realmente existiu. Algumas lendas são fantásti- cas, como aquela que diz “ter sido ele concebido por uma estrela cadente, permaneceu no ventre materno por 82 anos e já nasceu velho, sábio e com os cabelos brancos”. (SMITH, 1991, P.193)

Lao-tsé se traduz como “o velho”, “o ve- lho amigo”, ou “o grande e velho mestre”. Era contemporâneo de Confúcio. Um historiado Chinês relata que Confúcio ficou intrigado com o que ouvira a respeito de Lao-tsé e, certa vez, o visitou. Sua descrição sugere que aquele estra- nho homem o desconcertou, enchendo-o porém de respeito. “Eu sei que um pássaro pode voar; sei que um peixe pode nadar, sei que os animais podem correr. Criaturas que correm podem ser

Imagem 25: MSN Encarta
Imagem 25: MSN Encarta

Templo Taoísta nas Filipinas

O Livro Sagrado

Uma boa idéia do início do Taoísmo, como conta a tradição, é o que lemos no texto de Hus- ton Smith, que assim coloca:

A história tradicional conta que Lao-tsé, entristecido com o seu povo pela relutância em cultivar a bondade natural que ele prega- va e buscando maior solidão para os seus úl- timos anos de vida, montou nas costas de um búfalo e galopou para o oeste, na direção do

atual Tibete. No passo de Hankao, uma senti- nela, percebendo o caráter incomum daquele viajante, tentou convencê-lo a retornar. Não obtendo êxito, pediu ao velho que, ao menos, deixasse um registro de suas crenças para a civilização que estava abandonada. Lao-tsé, concordando com o pedido, recolheu-se du- rante três dias e retornou com um magro vo- lume de 5.000 caracteres intitulado Tao Te King, ou O Caminho e o seu Poder. O livro pode ser lido em meia hora ou durante toda

a vida, e continua a ser, até os dias de hoje,

o texto básico do pensamento Taoísta. Um li- vrinho de apenas 25 páginas e 81 capítulos. (SMITH, 1991, P.194)

O Tao Te King tem sido traduzido como O

Caminho e seu Poder.

O Taoísmo Filosófico tem como objetivo ali-

nhar a vida cotidiana da pessoa ao Tao. O cami- nho básico para fazê-lo é aperfeiçoar uma vida de

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Taoísmo

Taoísmo Cultura Religiosa wu wei. Wu Wei Significa pura eficácia e quie- tude criativa. O conceito

Cultura Religiosa

wu wei. Wu Wei Significa pura eficácia e quie- tude criativa. O conceito mais tradicional signi- fica não-ação ou inação. Mas devemos cuidar para não entender como atitude vazia, ócio. O Taoísmo, na concepção de muitos, implica passi- vidade e não atividade. Para um sábio taoísta, a ação mais importante é a “não ação”. Enquanto Confúcio desejava educar o homem por meio do conhecimento, Lao-Tse preferia que as pessoas permanecessem ingênuas e simples, como crian- ças. Enquanto Confúcio ansiava por regras e sis- temas fixos na política, Lao-Tsé acreditava que o homem deveria interferir o mínimo possível no desdobramento natural dos fatos. Confúcio queria uma administração bem-ordenada, mas Lao-Tsé acreditava que qualquer administração é má. “Quanto mais leis e mandamentos existirem, mais bandidos e ladrões haverá”, diz o Tao Te King.

Para Lao-Tse o estado ideal era a pequena comunidade ( a aldeia ou a cidade pequena) que, segundo ele, já existia nos tempos antigos. Ali as pessoas viviam em paz e contentes, sem interesse em guerrear contra seus vizinhos, como fizeram mais tarde as províncias chinesas. O líder devia ser um filósofo, e sua única tarefa era que sua passividade e seu distanciamento servissem de exemplo para os outros.

Os significados do Tao
Os significados do Tao

No Taoísmo tudo gira em torno do Tao, que literal- mente significa caminho. Este caminho pode ser entendido de três maneiras:

1
1

O Tao é o caminho da realidade última. É de- masiado vasto para que a realidade humana possa sondá-lo. De todas as coisas, o Tao cer- tamente é o maior.

2
2

O Tao é o caminho do universo, a norma, o rit- mo, o poder propulsor de toda a natureza, o princípio ordenador por trás de toda a vida.

3
3

O Tao se refere ao caminho da vida humana, quando ela se harmoniza com o Tao do univer- so.

Lendo o Tao Te Kin

A pessoa precisa deixar o Tao fluir para den- tro e para fora de si mesma, até toda a sua vida

se tornar uma dança na qual não há febres nem desequilíbrios. Wu wei é a vida vivida acima da tensão:

Encha a tigela até a borda

E ela vai derramar

Fique sempre afiando a faca

E ela vai cegar ( Cap.9)

Wu wei é a materialização da maleabilidade, da simplicidade, da liberdade – uma espécie de pura eficácia na qual não se desperdiçam movi- mentos em discussões ou exibições externas.

A pessoa pode caminhar tão bem que

nunca deixa pegadas

Falar tão bem que a língua nunca come-

te deslizes,

Calcular tão bem que não precisa de ábaco. ( cap.27)

Uma eficácia dessa ordem obviamente exi- ge uma capacidade extraordinária, o que é trans- mitido pela lenda Taoísta do pescador: com um simples fio, ele conseguia puxar para a terra pei- xes enormes, porque o fio havia sido fabricado com tanta perfeição que não tinha um “ponto fraco”. A capacidade taoísta raramente é notada, porque vista de fora, wu wei – nunca forçando, nunca sob tensão – parece não exigir praticamen- te nenhum esforço. O Segredo está na maneira pela qual ele busca os espaços vazios na vida e na natureza, e se move através deles.

A água era o paralelo mais próximo ao Tao do mundo natural. Era também o protótipo do wu wei. Os chineses observavam a maneira pela qual a água se adapta ao ambiente e procura os lugares mais baixos. Por isso:

O bem supremo é como a água,

Que alimenta todas as coisas sem esforço. Ela se contenta com os lugares baixos, que as pessoas desdenham.

Por isso, ela é como o Tao. ( cap. 8)

Mas a água, apesar de se acomodar, tem um poder que não é conhecido pelas coisas duras e quebradiças. A água abre caminho além das fron- teiras e por baixo dos muros divisórios. Seu flu- xo suave acaba dissolvendo as rochas e levando embora as orgulhosas montanhas que pensamos eternas.

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Taoísmo

Taoísmo Cultura Religiosa Nada no mundo É tão suave e maleável como a água No entando,

Cultura Religiosa

Nada no mundo

É tão suave e maleável como a água

No entando, para dissolver o duro e inflexível Nada a suplanta.

O

suave supera o duro;

O

gentil supera o rígido.

Todos sabem que isso é verdade, Mas poucos o põem em prática.

A pessoa que incorpora estas virtudes, diz

o Tao Te King, “Trabalha sem trabalhar”. Ela

age sem tensão, persuade sem argumentação, é eloqüente sem floreios e alcança resultados sem

violência, coersão ou pressão. Enquanto o agen-

te mal seja percebido, sua influência é de fato

decisiva.

Quando o bom líder governa,

O

povo mal percebe que ele existe.

O

bom líder não fala, age.

Quando ele termina o trabalho,

O povo diz: “fomos nós que fizemos so-

zinhos.”( cap. 17)

Uma última característica da água, que torna apropriada sua analogia com o wu wei, é a clare- za que ela alcança ficando parada. “Água lodosa deixada parada”, diz o Tao Te King, “ficará lim- pida.”

Valores taoístas

O Taoísta rejeita todas as formas de auto-

afirmação e competição. O mundo está cheio de pessoas determinadas a ser alguém ou causar problemas; pessoas que querem avançar, se des- tacar. O Taoísmo não vê utilidade nessa ambição. “O machado abate primeiro a árvore mais alta”.

Aquele que se põem na ponta dos pés Não tem firmeza. Aquele que se apressa Não vai longe. Aquele que tenta brilhar Tolda sua própria luz. ( cap. 24)

As pessoas deveriam evitar a estridência e a

agressividade não só em relação aos outros, mas também em relação à natureza. No taoísmo exis-

te um naturalismo profundo e um respeito muito

grande pela natureza. Tanto que quando falamos

na escalada do Everest, por exemplo, nós ociden- tais dizemos que o Everest foi conquistado. Os orientais diriam que este ato foi o de fazer amiza- de com o Everest.

Aqueles que querem dominar o mundo

E moldá-lo à sua vontade

Nunca, percebo, terão sucesso.

O mundo é como um vaso, tão sagrado

Que, à mera aproximação do profano, Se danifica,

E quando estendem a mão para pegá-lo,

ele se perdeu ( cap. 29)

Yin Yang

Outra característica do Taoísmo é a sua no- ção da relatividade de todos os valores e, como idéia correlata, a identidade dos opostos. Nesse aspecto, o taoísmo está ligado ao tradicional sím- bolo chinês do yin/yang:

Essa polaridade resume to- das as oposições básicas da vida: bem/mal, ativo/ passivo, positivo/negativo, claro/escuro, verão/inver- no, masculino/feminino. Mas as metades, embora estejam em tensão, não são francamente opostas; elas se contem- plam e se equilibram uma à outra. Cada uma invade o hemisfério da outra e faz sua morada no recesso mais profundo do domínio de sua parceira. E, no fim, ambas se resolvem no cír- culo que os cerca, o Tao em sua totalidade. A vida não se dobra sobre si mesma, e chega, completando o círculo, à percepção de que tudo é um e tudo está bem. (SMITH, 1991, p.

de que tudo é um e tudo está bem. (SMITH, 1991, p. 210) O Taoísmo segue

210)

O Taoísmo segue seu princípio da relativida- de até seu limite lógico, colocando a vida e a mor- te como ciclos complementares no ritmo do Tao.

Há o globo,

O alicerce de minha existência física

Ele me gasta com trabalho e deveres, Dá-me repouso na velhice,

E me dá paz na morte.

Pois quem me deu o que necessitei na vida

Também me dará o que necessito na mor- te. ( Chuang Tzu )

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Imagem 26: Stock XCHNG

Cristianismo

Imagem 26: Stock XCHNG Cristianismo Cultura Religiosa CRISTIANISMO Baseada na vida e nos ensinamentos de Jesus

Cultura Religiosa

CRISTIANISMO Baseada na vida e nos ensinamentos de Jesus de Nazaré, o cristianismo é hoje
CRISTIANISMO
Baseada na vida e nos ensinamentos
de Jesus de Nazaré, o cristianismo é hoje a
maior religião mundial.
Por Prof. Ronaldo Steffen
CRISTO REDENTOR: Monumento
brasileiro construido na cidade
do Rio de Janeiro em 1931, sim-
bolizando a fé cristã nacional
História
O contexto da Palestina

Depois da época dos reis Davi e Salomão, Israel entrou em decadência. Das doze tribos ori- ginais só restavam duas (Judá e Benjamim). As outras haviam sido extintas desde 722 a.C. As duas tribos restantes, por sua vez, foram subme- tidas, sucessivamente, aos impérios babilônico, persa, grego e, em 63 a.C., reduzidas a provín- cias romanas. No decorrer desses fatos, os judeus continuaram a ter esperança de que um novo rei, ou messias, da linhagem de Davi, haveria de vir.

Acrescenta-se ao quadro da época uma con- dição econômica desfavorável. A saída era bus- car fora da Palestina os mecanismos necessários para a sobrevivência. Era a diáspora, que perdu- rava desde o cativeiro babilônico (587 a.C. a 539 a.C.). O desejo, com certeza, de estarem nova- mente juntos na mesma terra não tinha desapare- cido entre os judeus.

Desfavorável, ainda, era a presença de He- rodes como rei. Embora semita, era visto como uma extensão do poder imperial romano, que governava com mão-de-ferro. Imperdoável para o judeu foi a destruição do templo que Herodes promoveu na conquista de Jerusalém. Um rei ju- deu, ungido a exemplo de Davi e Salomão, era uma esperança latente.

O desejo de um rei judeu ungido era alimentado: • pela dissolução das tribos de
O desejo de um rei judeu ungido
era alimentado:
pela dissolução das tribos de Israel;
pela diáspora;

pelo rei Herodes.

Jesus

Jesus de Nazaré

Os Evangelhos dizem pouca coisa sobre a vida que Jesus levou durante 30 anos em Nazaré com seus pais, José e Maria. Somente dois Evan- gelhos narram fatos relativos ao seu nascimento. Em contrapartida, os quatro têm a preocupação de apresentar os três anos de sua vida pública, centrando-se na proclamação da mensagem sal- vadora.

Jesus nasceu em Belém antes da morte de Herodes, o Grande (ano romano de 749), prova- velmente no ano romano de 754, correspondente ao ano 6 a.C. Em sua juventude, o reino judaico estava sob o controle direto de um oficial do im- pério romano. Aos 30 anos, início de sua prega- ção pública, suas idéias baseadas nas escrituras judaicas despertaram interesse em alguns e pro- vocaram rejeição em outros.

baseadas nas escrituras judaicas despertaram interesse em alguns e pro- vocaram rejeição em outros. www.ulbra.br/ead 44

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Cultura Religiosa Jesus, como Cristo, assenta seus discursos bem distantes das idéias nacionalistas-revo- lucionárias de

Cultura Religiosa

Jesus, como Cristo, assenta seus discursos bem distantes das idéias nacionalistas-revo- lucionárias de seu contexto

Aos 33 anos, foi acusado de blasfêmia por um tribunal religioso judaico. Sentenciado à morte por um funcionário romano, Pôncio Pila- tos, foi crucificado publicamente nos arredores de Jerusalém.

Imagem 27: Hyeros Cristianismo
Imagem 27: Hyeros Cristianismo

Cristo, de Guido Reni, obra impregnada de idealismo classicista, da mesma forma que a pintura de temática mitológica do mesmo autor. (Museu de São Telmo, San Sebastián, Espanha)

Jesus, o Messias

A palavra messias significa “o ungido”, numa referência à maneira como o rei de Israel era ungido com óleos ao subir ao trono. Traduzi- da para o grego, messias é christos. Dessa forma, Jesus Cristo é o nome que reconhece em Jesus o esperado Messias.

Desde o princípio, sua mensagem esteve centrada no reino de Deus, no conceito de um Pai amoroso, no seu próprio sacrifício expiatório, no arrependimento e na fé. Embora se anunciasse como o Cristo, evitou que as pessoas o soubes- sem, porque temia que o termo fosse colocado em associação com as aspirações nacionalistas- revolucionárias latentes. Só quando a hora da morte se aproximou é que assumiu sua messiani- dade, pois via nessa morte sacrificial a sua glória suprema, enquanto o Cristo de Deus.

Jesus, o Ressuscitado

O nascer e o morrer integram o ciclo nor- mal da existência humana. Ressuscitar, porém,

constitui algo totalmente fora da experiência das pessoas. A ressurreição de Jesus quebra, assim, a seqüência natural dos fatos existenciais. Inaugura um novo ciclo no existir do ser humano, pois a sua ressurreição é a garantia da nova vida pronta e consagrada ao mundo amado por Deus.

A ressurreição do Cristo ga- rante nova vida ao mundo amado por Deus.

Jesus, a Ascensão

Uma vez ressuscitado, Jesus subiu ao céu e está à direita do Pai. A expressão subiu ao céu não significa estar num lugar geograficamente definido. Igualmente, estar à direita do Pai é ape- nas expressão da posição de honra que é dada a Jesus, que, antes, fora humilhado até à morte.

Jesus está em toda parte e em qualquer lugar com sua divindade e humanidade completas, en- chendo os céus e a terra.

Tela Pentescostes – El Greco d.C. 1600 – Museo del Prado, Espanha Imagem 28: Arte
Tela Pentescostes – El Greco d.C. 1600 – Museo del
Prado, Espanha
Imagem 28: Arte e História
Cristianismo

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Cultura Religiosa Origens e primórdios Em Jerusalém O advento do Espírito Santo sobre os após-

Cultura Religiosa

Origens e primórdios

Em Jerusalém

O advento do Espírito Santo sobre os após-

tolos no dia do Pentecostes judaico, isto é, 50 dias depois da Páscoa, marcou o início histórico do cristianismo.

O Pentecostes tornou-se para o cristianismo

a renovação da aliança, semelhante à ocorrida no Monte Sinai quando Javé apareceu a Moisés. Os apóstolos foram tomados pelo Espírito San- to, passando a pregar o que Jesus fizera e o que lhes ensinara. Dirigiram-se primeiramente aos judeus, vindos de toda a parte, reunidos em Jeru- salém para a festa e primeiros destinatários dessa nova aliança, considerada a consolidação da an- tiga. Esses primeiros cristãos eram todos judeus, praticavam a Lei e acrescentaram observâncias

inéditas, como o batismo e a repartição do pão.

Em Antioquia e por toda parte

Logo surgiram obstáculos. Podem ser enu- merados três, pelo menos, sendo um de ordem interna e dois de caráter externo.

Internamente, os primeiros cristãos, de tra- dição judaica, julgavam que, antes de serem ba- tizados, os novos convertidos deveriam ser cir- cuncidados. A questão foi resolvida no Concílio de Jerusalém, com a presença dos apóstolos, aceitando-se o batismo cristão sem a imposição da circuncisão.

Duas situações externas criaram embaraços ao avanço do cristianismo:

identificação do cristianismo, por parte da liderança judaica da época, como mais uma seita que deveria ser desestimulada e banida;

os impedimentos levantados pelo império ro- mano, entre os quais se destaca a ênfase dada pelo cristianismo à igualdade entre todos, in- clusive em relação aos escravos.

Impedimentos à expansão cristã:

a exigência da circuncisão aos convertidos;

a compreensão de que seria apenas mais uma seita;

o entendimento cristão da igualdade de todos os se- res humanos.

A conseqüência imediata foi a saída dos cristãos de Jerusalém. Espalham-se por toda a Palestina e Síria e fazem de Antioquia o novo

As viagens missionárias de Paulo faz do cristianismo uma religião mundial: Arquivo ULBRAEAD Cristianismo
As viagens missionárias de Paulo faz do cristianismo uma religião mundial:
Arquivo ULBRAEAD
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Cultura Religiosa Os Escritos do Novo Testamento:

Cultura Religiosa

Os Escritos do Novo Testamento:
Os Escritos do Novo Testamento:

Cristianismo

À tradição oral dos ensinamentos de Cristo acrescentaram-se os escritos identificados como Novo Testamento, consolidados até o ano 100 d.C. O conjunto da obra é formado por:

QUATRO EVANGELHOS: Mateus, Marcos, Lucas e João;

ATOS dos Apóstolos;

21 CARTAS: Romanos, Coríntios (1 e 2), Gálatas, Efésios, Filipenses, Colossenses, Tessalonicenses (1 e 2), Timóteo (1 e 2), Tito, Filemon, Hebreus, Tiago, Pedro (1 e 2), João (1, 2 e 3) e Judas;

UM TEXTO APOCALÍPTICO: Apocalipse.

centro expansionista do cristianismo. Jerusalém conservaria uma comunidade judaico-cristã até o ano de 66 d.C.

As primeiras comunidades cristãs se desen- volveriam em torno da bacia do Mediterrâneo, durante o período apostólico. Éfeso, Filipos, Tes- salônica, Corinto, Roma e Alexandria foram os primeiros grandes centros do cristianismo, reco- nhecidos como núcleos apostólicos.

Papel importante na expansão do cristianis- mo deve-se a Paulo, convertido por volta de 32 d.C. Ele não apenas divulgou o cristianismo pelo mundo greco-romano, como também é responsá- vel pelos fundamentos da teologia cristã.

Pedro teria sido martirizado em Roma, em 65 d.C., depois do incêndio da cidade sob Nero; Paulo em 66 d.C., também em Roma; João em Éfeso, por volta do ano 100 d.C., e Marcos teria se instalado em Alexandria depois da morte de Pedro.

A evolução até Constantino

A organização

Do século II ao século IV, o cristianismo se estendeu a todas as cidades da costa do Medi- terrâneo e inseriu-se no interior dos continentes. Implantou-se, assim, tanto no Oriente como no Ocidente. Os grandes centros cristãos do sécu- lo I tornaram-se modelos para a organização das

comunidades que iam surgindo. À frente de cada comunidade (igreja) estava o bispo, uma espécie de vigilante, que também era o pastor e o mestre. Seus auxiliares eram os diáconos e os presbíte- ros. De início todos os bispos eram denominados de papa, e só a partir do século IV o termo é atri- buído exclusivamente ao bispo de Roma.

No início todos os bispos eram chamados de “papa”.
No início todos os bispos eram
chamados de “papa”.

As perseguições

Ainda que mal compreendido, o cristianis- mo era tolerado, como o eram todas as religiões no império romano. As perseguições eram espo- rádicas, em especial na Ásia.

O culto ao imperador impunha os limites e os determinantes das perseguições. Prestar culto ao imperador, o que um cristão não fazia, era con- siderado gesto de civismo. A recusa representava uma ameaça ao equilíbrio religioso, rompendo as relações entre os deuses e o império.

Causa das perseguições: os cristãos não cultuavam o imperador. Isso punha em risco as relações entre os deuses e o império.

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Cristianismo

Cristianismo Cultura Religiosa De forma sistemática, as perseguições ocor- reram por volta de 249 d.C., com

Cultura Religiosa

De forma sistemática, as perseguições ocor- reram por volta de 249 d.C., com Décio e depois com Galiano e Valeriano. As ações se faziam

principalmente contra os bispos e os cristãos de alta posição, a fim de privar o cristianismo de seus dirigentes. A última perseguição geral foi ordenada em 303 d.C. por Diocleciano em nome da união imperial, temendo, possivelmente, que

a organização cristã se tornasse um outro estado

dentro do império. Em 311 d.C., um edito de to- lerância, liderado por Constantino, concedia uma trégua ao cristianismo sob a condição de que nada se fizesse aos cristãos que fossem contrá- rios à disciplina.

Por fim, em 313 d.C., ainda sob o coman- do de Constantino, o Edito de Milão concedia a liberdade religiosa aos cristãos e punha fim às perseguições.

Em 313 d.C, sob Constantino, chegam ao fim as perseguições aos cristãos.

O império cristão

Desde 305 d.C., Constantino já era senhor da Gália, da Espanha e da Bretanha e, em 312 d.C., tornou-se imperador. Sua aproximação aos cristãos remonta a seu pai, que, em período de perseguição sob Diocleciano, protegeu e salvou muitas pessoas. Os dois editos, o de 311 d.C. e o de 313 d.C., tinham um ingrediente político bas- tante forte, além de proteger os cristãos. O fato é que, livre das perseguições, o cristianismo cairia sob o controle do imperador.

Constantino vislumbrava na aproximação

com o cristianismo a culminância do processo de unificação do império. Havia uma só lei, um só imperador e uma só cidadania. Por que não tam- bém uma só religião? Protegida por Constantino,

a Igreja Cristã cresceu rapidamente: isentou o

clero dos encargos públicos, concedeu à Igreja o direito de receber legados, proibiu o trabalho aos domingos nas cidades e o sacrifício pagão em ca- sas particulares, erigiram-se grandes templos em Roma, Jerusalém e Belém. Além disso, transfe- riu a sede do império para Bizâncio (depois Nova Roma e, por fim, Constantinopla), no Oriente, a

parte mais cristianizada do império. O laço im- perial com o Ocidente era a figura do bispo de Roma, ao redor do qual gravitava a vida.

Imagem 29: Revista Gallileu
Imagem 29: Revista Gallileu
Em 381 d.C., o cris- tianismo é declara- do religião oficial do império.
Em 381 d.C., o cris-
tianismo é declara-
do religião oficial
do império.

Com Constantino, O Grande (275-337 DC), uma só lei, um só imperador e por que não uma só religião a fim de uni- ficar o império?

Após a morte de Constantino em 337 d.C., o processo de aproximação entre Igreja e Estado foi se consolidando e tomou sua forma final com Teodósio, em 381 d.C., com a declaração do cris- tianismo como a religião oficial do império.

De Constantino ao Grande Cisma

Embora unificado, o cristianismo tinha suas diferenças regionais. Uma das mais marcantes foi entre o Oriente (sede em Constantinopla) e o Ocidente (sede em Roma). Várias razões podem ser alinhadas para o afastamento progressivo en- tre as duas sedes cristãs.

A língua

A tentativa de implantar uma única língua no império, o latim, fracassa.
A tentativa de implantar uma
única língua no império, o
latim, fracassa.

Até o século III, o espaço geográfico forma- do pela bacia do Mediterrâneo conhecia o grego. O avanço do latim no Ocidente teve como conse- qüência inevitável o recuo do grego. Ao fundar sua nova capital, Bizâncio (depois Nova Roma e, mais tarde, Constantinopla), o imperador Cons- tantino queria fazer dela uma nova Roma, com uma administração que utilizasse o latim. Não deu certo: o Oriente não se latinizou. Sem língua

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Cristianismo

Cristianismo Cultura Religiosa comum, os problemas emergiram, e os acertos esbarravam nas questões lingüísticas, em

Cultura Religiosa

comum, os problemas emergiram, e os acertos esbarravam nas questões lingüísticas, em espe- cial os acertos teológicos.

Os concílios

A partir do Concílio de Nicéia (325 d.C.),

as discussões tornaram-se constantes. Os Concí-

lios de Éfeso (431 d.C.), Calcedônia (451 d.C.)

e Constantinopla (553 d.C.) foram ocasiões de confronto em detrimento da conciliação.

As discussões religiosas distan- ciam o Oriente do Ocidente.
As discussões religiosas distan-
ciam o Oriente do Ocidente.

As discussões religiosas eram agravadas em razão da primazia da sede de Roma, que Cons- tantinopla queria compartilhar. Podem ser acres- centadas as questões referentes às imagens, nor- mais no Ocidente, mas rejeitadas por parte dos cristãos orientais, e ao celibato, obrigatório no Ocidente, porém exigido no Oriente apenas para os bispos

A política fiscal

O imperador Justiniano (482 d.C.-565 d.C.)

contribuiu muito para o agravamento das divi- sões religiosas. Nas províncias ocidentais re- conquistadas aos bárbaros, ele impôs o fisco e a administração detalhista do Oriente. O Ocidente não rejeitou apenas essa prática, mas também o poder imperial. As populações passaram a adotar como prática comum tratar diretamente com os bárbaros, rejeitando todas as orientações e obri- gações impostas por Constantinopla.

O Cisma

Finalmente, em 1054, ocorre o episódio fi- nal da separação em decorrência de uma recusa de reconhecimento mútuo entre os legados do

papa e do patriarca Miguel Cerulário. Essa recu-

sa provocou uma excomunhão mútua, e cada uma

das partes do cristianismo passou a construir sua

própria tradição.

Tentativas de reunificação

Após o Cisma, os contatos prosseguiram. Os imperadores do Oriente (ou bizantinos) solicita- ram ajuda ao Ocidente para lutar contra o avanço do islamismo. O apelo às cruzadas, lançado pelo papa Urbano II, em 1095, foi motivado, em parte, para atender às solicitações orientais.

Imagem 30: Cultura Brasil
Imagem 30: Cultura Brasil

Cruzadas: Guerreiros cristãos contra muçulmanos

As primeiras cruzadas foram organizadas com a ajuda oriental. No entanto, logo se perce- beu que os orientais ora apoiavam o Ocidente, ora os muçulmanos. Uma tentativa de corrigir essa distorção ocorreu em 1204, durante a Quarta Cruzada, quando o Ocidente saqueou Constanti- nopla e estabeleceu um passageiro império lati- no. À medida que o avanço islâmico se concre- tizava, fortalecia-se a esperança de um retorno à unidade religiosa do cristianismo. As esperanças, no entanto, dissiparam-se em 1453, quando a ca- pital do Oriente caiu nas mãos dos otomanos. Era o fim da Igreja Cristã Bizantina, que se divide, a partir daí, em Igrejas nacionais

Do Cisma ao século XVI

O Cisma deu origem, com sede em Roma, à

Igreja Católica Apostólica Romana e, com sede em Constantinopla, às Santas Igrejas Católicas Ortodoxas Orientais.

A unidade ocidental, por sua vez, não era

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Cristianismo

Cristianismo Cultura Religiosa concisa, e não tardou o surgimento de vozes dis- cordantes aqui e acolá,

Cultura Religiosa

concisa, e não tardou o surgimento de vozes dis- cordantes aqui e acolá, especialmente no que to- cava à detenção do poder: a Igreja ou o Estado? Vislumbrava-se a necessidade de reformar a Igre-

ja cristã ocidental. A Inquisição nesse cenário foi

uma tentativa religiosa que, por fim, serviu como instrumento de pressão e eliminação das vozes discordantes.

No Ocidente continuam as vo- zes discordantes, e a Inquisição serviu apenas como forma de reprimir os dissidentes.

O desejo de reforma cedeu lugar à indispen- sabilidade desse processo, especialmente após a Guerra dos Cem Anos (1337-1453) e a abertura da sociedade às novas técnicas: redescoberta da Antigüidade, exploração do mundo, renascimen-

to do grande comércio, aparecimento da impren- sa. A esse clima de efervescência contrapunham- se a pouca instrução dos ministros religiosos, a ausência constante dos bispos de suas dioceses e

o Cisma, já mencionado, provocando um enfra-

quecimento cada vez mais acentuado do cristia-

nismo ocidental.

Arquivo ULBRAEAD
Arquivo ULBRAEAD

A divisão geográfica do Império Romano em 1054 d.C.

Não bastasse isso, durante todo o século XIV, os monarcas europeus se enfrentaram e tomaram como refém a hierarquia da Igreja. De 1309 a 1327, os papas se instalaram em Avignon, sob influência francesa. A volta do papa a Roma, em 1378, provocou uma eleição pontificial dissi- dente em Avignon. Os Estados da Europa, e com eles a cristandade, dividiram-se em torno desses

dois papas sem poderes.

A crise chegaria ao fim em 1417. Os Estados

conseguiram se entender, convocando o Concílio de Constança, sob a presidência do imperador da Alemanha. Houve concordância em restabelecer a unidade da Igreja, depondo os papas em exercí- cio e propondo um único papa para a cristandade ocidental.

Imagem 31: Site da Universidade Estácio de Sá
Imagem 31: Site da Universidade Estácio de Sá

INQUISIÇÃO: Tela de Goya (pintor espanhol 1746-1828)

Ainda assim, a reforma necessária era cons- tantemente adiada.

No início do século XVI, os papas deixa- ram-se levar, a exemplo de outros príncipes, pe- las lutas políticas e pela renovação arquitetônica em Roma.

O projeto de reforma da antiga basílica im-

punha despesas consideráveis. Para suprir as ne- cessidades, o papa Leão X (1513-1521) recorreu ao sistema de indulgências, criado no ano 1000. De forma reducionista, os fiéis, com o pagamen- to de uma quantia em dinheiro, podiam substituir as penas impostas pelo confessor aos pecados co- metidos após o batismo, como o jejum, as rezas, as peregrinações e assim por diante. Não tardou que os excessos na venda das indulgências apa- recessem. Em 1476, outro decreto papal determi- nava que a indulgência também tinha o poder de remir as almas do purgatório.

Explodiam por toda a Europa movimentos que exigiam um retorno às Escrituras. Assim foi na Grã-Bretanha, com John Wyclif, e na Boêmia, com João Hus. Nos Países Baixos, Erasmo dedi- cou-se à revisão da Bíblia, partindo do texto gre- go. O momento era de reforma, e nesse cenário surge a Reforma do século XVI, destacando-se a figura de Lutero.

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Cultura Religiosa Ensinamentos Atualmente, há três grandes matrizes do cristianismo: catolicismo romano, catolicismo

Cultura Religiosa

Ensinamentos

Atualmente, há três grandes matrizes do cristianismo: catolicismo romano, catolicismo ortodoxo e protestantismo. Internamente, cada uma dessas três matrizes se desdobra em inúme- ras outras correntes. Essa é uma dificuldade em afirmar um único pensamento cristão.

Apesar das divergências, há, em linhas ge- rais, algumas concepções que permeiam os gru- pos cristãos: a figura de Jesus, a Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo iguais em natureza e dig- nidade), a criação divina do mundo a partir do nada, a vinda do reino de Deus no fim dos tem- pos e o amor a Deus sobre todas as coisas, entre outras.

Em razão dos limites desta obra, optamos por mencionar apenas alguns dos temas citados.

Deus

Com seus fundamentos no judaísmo, o cris- tianismo preservou a crença num único Deus, criador do universo e de tudo o que nele há, po- dendo intervir conforme a Sua vontade.

Ainda herança do judaísmo, o cristianismo manteve muitos dos atributos divinos, como a onipotência, a onipresença e a onisciência. Me- rece, no entanto, um destaque um outro atributo divino: o do amor de Deus, que se estende sobre todas as pessoas, estabelecendo uma relação pes- soal entre o Criador e a criatura.

A relação de Deus com suas criaturas é pessoal, por meio do amor.
A relação de Deus com suas
criaturas é pessoal, por
meio do amor.

A trindade

A partir do Concílio de Nicéia (325 d.C.), a doutrina da Trindade passa a fazer parte do pensamento cristão. Um só Deus em três pessoas distintas e inseparavelmente unidas: Pai, Filho e Espírito Santo, assim como confessado no Credo Apostólico.

Não há concordância com relação ao tema.

Percebem-se, de modo geral, dois grupos discor- dantes: externamente ao cristianismo, judaísmo e islamismo divergem do cristianismo; interna- mente, há grupos nascidos no pensamento cris- tão, mas que afirmam a existência de apenas duas pessoas: o Pai, que deve ser adorado, e o Filho, sem nenhum direito à adoração.

Jesus

Esse é um tema candente. O monoteísmo cristão difere dos demais por ser o único que defende e proclama a realidade de um homem- Deus, Jesus Cristo, possuidor de duas naturezas iguais entre si: a divina e a humana.

Fazem parte das crenças no Cristo Jesus a importância de Sua mensagem de amor ao Pai e ao próximo e Sua encarnação, que vem libertar os seres humanos de seus pecados por meio de Sua morte expiatória na cruz e oferecer a vida eterna por meio de Sua ressurreição.

Ser humano

É único

O pastor e professor Leopoldo Heimann as-

sim se expressa: “o ser humano, como animal ra- cional, não é produto do acaso, mas é uma criação divina, criado segundo a imagem de Deus. Para conceder a vida eterna a este ser humano, Jesus Cristo foi crucificado no Calvário e ressuscitou ao terceiro dia.”

O diferencial do ser humano, nesse contex-

to, é que é a única criatura divina que recebeu a imagem e semelhança de Deus. Há, no entanto,

grupos dentro do cristianismo que colocam o ser humano, a natureza e Deus em nível de igualda- de.

Criado à imagem e semelhan- ça de Deus, o ser humano recebeu a alma vivente.
Criado à imagem e semelhan-
ça de Deus, o ser humano
recebeu a alma vivente.
É
mordomo da criação
Ao ser humano, criado à imagem divina, foi
dada a tarefa de cuidar da criação divina. Gêne-
Cristianismo

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