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Aspectos dogmáticos da DCTF e prescrição do crédito tributário mal

declarado como "suspenso"


James Siqueira
Leonardo de Menezes Curty

Palavras-chave: Administração tributária. Constituição do crédito tributário. DCTF.
Sumário: Introdução - 1 O novo momento da constituição do crédito tributário no Brasil - 2 Da
arquitetura da DCTF - 3 Do poder de invalidação do status de exigibilidade do crédito tributário - 4
Do prazo-limite para o exercício do poder de revisão - 4.1 Do surgimento da actio nata - 5 Da
essência da alegação de prescrição e da vedação de comportamentos contraditórios (teoria dos atos
próprios) - 6 Conclusões

Introdução
No âmbito da União, tem-se observado em diversas situações cotidianas a especulação sobre as
consequências jurídicas de declarações firmadas pelo contribuinte que discrepam da realidade
processual no que toca, especificamente, o alcance de decisões judiciais que lhe aproveitariam.
Fala-se da situação em que o contribuinte interpreta equivocadamente o provimento judicial e
declara com erro a suspensão da exigibilidade do crédito constituído em Declaração de Créditos e
Débitos Tributários Federais (DCTFs), influenciando a postura do Fisco de cobrar ou não o seu
adimplemento. Uma vez realizada a cobrança judicial, em que pese o fato de o próprio contribuinte
ter reputado anteriormente a suspensão durante longos períodos, argui a ocorrência de prescrição.
As máximas da experiência forense têm informado a existência de inúmeros casos idênticos, que,
ressalvadas condutas comprovadamente dolosas, hão de ser considerados como erros de
interpretação jurídica do contribuinte sem a correspondente intervenção da Administração
Tributária.
A questão que se anuncia remete ao aprofundamento dos novos paradigmas jurisprudenciais,
notadamente aqueles oriundos do egrégio Superior Tribunal de Justiça (STJ). O que se pretenderá
a seguir é traçar uma linha divisória entre (i) o conceito de constituição do crédito tributário, sob a
lente das recentes produções jurisprudenciais, e (ii) a compreensão que se tem de status de
exigibilidade do crédito, quando este também é informado pelo contribuinte.
Com isso, objetiva-se apresentar possíveis soluções jurídicas acerca desses dois temas nas
hipóteses em que ambos estão sob o alvedrio do sujeito passivo.

1 O novo momento da constituição do crédito tributário no Brasil
Em consultas ao repositório oficial de jurisprudência do STJ, verifica-se que há tempos aquela corte
vem atribuindo à declaração do contribuinte a potencialidade de determinar a postura da
Administração Tributária.
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As decisões mais substantivas a esse respeito versaram sobre a
constituição do crédito tributário pelo próprio contribuinte, com esteio em DCTF e outras
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modalidades análogas no âmbito das demais unidades federativas.
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A consolidação desse pensamento, em boa medida, serviu como divisor de águas na sistemática
tradicionalmente aplicada às modalidades clássicas de constituição do crédito tributário. O
reconhecimento por parte do contribuinte quanto à existência e validade do crédito tributário
passou a ser admitido em uma zona de consenso entre os polos da relação jurídico-tributária em
que particular e Fisco figuram.
Na seara jurisprudencial, após reiterado julgados nesse sentido, o STJ finalmente editou a Súmula
nº 436, sedimentando que "A entrega da declaração pelo contribuinte reconhecendo o débito fiscal
constitui o crédito tributário, dispensada qualquer outra providência por parte do fisco".
Buscando sistematizar a nova dinâmica de constituição do crédito tributário, a doutrina também
evoluiu e passou a discernir sobre diferenciações entre constituição e lançamento do crédito
tributário até então pouco mencionadas na literatura jurídica. Este é o caso do Professor Leandro
Paulsen que atribui ao contribuinte a possibilidade de constituir o crédito tributário por meio de
DCTF sem que disso decorra, necessariamente, o ônus do Fisco de realizar o lançamento. Ou seja,
houve o desate entre o ato de constituição e o ato de lançamento do crédito tributário. Aliás, por
oportuno, tal distinção também é verificada em situações diversas, em que o contribuinte, por meio
de sua inequívoca conduta de reconhecimento do crédito tributário, termina por constituí-lo. Eis o
caso do depósito judicial, situação em que há constituição do crédito independentemente do
lançamento.
Assim, não se vê mais o ato de lançamento como a condição necessária à constituição do crédito
tributário, mas sim mero instrumento da Administração Tributária para formalizar o mencionado
crédito em situações extraordinárias, sobretudo em hipóteses em que o contribuinte revela-se
silente.
Com escoro no mesmo Paulsen, é admissível afirmar que atualmente a formalização do crédito
tributário pode ser feita tanto pelo contribuinte ao cumprir suas obrigações acessórias de apurar e
declarar os tributos devidos, como pelo Fisco por meio da lavratura de auto de lançamento. Admite
ainda o ilustre doutrinador a formalização do crédito tributário por ato judicial, nas ações
trabalhistas, no que diz respeito à cobrança das contribuições previdenciárias.
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Por tudo isso, é segura a afirmação de que, no novo contexto do Direito Tributário, o contribuinte
passou a atuar de forma cooperativa com a Administração Tributária, a ponto de influenciar as
iniciativas desta última quando da verificação, liquidação e cobrança do crédito por ela titularizado.
Em trabalho pioneiro, Denise Lucena Cavalcante destacou o caráter simbiótico entre o cidadão-
contribuinte e a Administração Tributária no que tange a constituição do crédito:

Com a prevalência dos impostos diretamente calculados e pagos pelo cidadão-
contribuinte a Administração Fazendária fica sem controle direto do que deve ser
arrecadado. Porém, se levado em consideração o princípio da praticidade e da economia,
a arrecadação tende a ser bem mais eficaz quando a Administração se libera da
compl exa taref a de apuração do tri buto, ao t r ans f er i r es t e ônus par a o
cidadão-contribuinte, adotando fórmulas de cooperação.
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Este é mais um imperativo do Princípio da Praticabilidade da Tributação,
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motivado pela
necessidade de se atribuir eficácia jurídica a atos realizados pelo contribuinte em face da
complexidade da Administração Tributária e da sua impossibilidade de tratar com minudência todo
emaranhado de relações jurídicas em que desponta como interessada.
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Se cada ato do contribuinte
demandasse a chancela pontual do Fisco o sistema arrecadatório entraria em colapso, expondo os
dois elos da relação jurídico-tributária à insegurança jurídica. Presume-se a boa-fé do sujeito
passivo, razão pela qual se imputa às suas declarações a condição de verídicas até prova em
contrário. Acima de tudo, a adoção do Princípio da Praticabilidade repousa sobre um voto de
confiança entregue ao contribuinte e nos postulados da eficiência, contida no art. 37, caput, da
Constituição Federal.
A eficácia jurídica que marca a DCTF ombreia com a do ato administrativo de lançamento praticado
exclusivamente pelo Fisco, estando igualmente revestida pelo atributo da presunção de
legitimidade, sem o qual não seria possível cogitar da formalização do crédito tributário. Tanto isso
é verdade que, como se viu na doutrina mais festejada, o crédito constituído pelo contribuinte
prescinde de lançamento por parte do Fisco. Esse posicionamento também reverberou na
Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional quando da edição do Parecer PGFN/CAT nº 1.617/08.
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Se
a declaração do sujeito passivo fosse anódina, far-se-ia necessário o reforço pelo ato administrativo
de lançamento.
Mais ainda: se não grassasse sobre a DCTF apresentada pelo sujeito passivo a presunção de
legitimidade acerca do que nela está contido, a exemplo do que ocorre com o ato de lançamento
privativo do Fisco, não seria possível inscrever diretamente o crédito tributário em dívida ativa e
executá-lo, porquanto lhe faltasse a certeza necessária a todos os títulos executivos. Nada
obstante, sabe-se que a declaração do contribuinte, no atual estágio de desenvolvimento do Direito
Tributário, dispensa o Fisco de deflagrar processo administrativo fiscal para apurar o crédito
tributário já confessado.
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É a presunção de veracidade do ato praticado pelo particular que dá o
tom da executividade, na medida em que instrumentaliza a inscrição do crédito em dívida ativa.
E, justamente, pela aceitação do papel cooperativo do contribuinte no desenvolvimento do crédito
tributário, não é exagero afirmar que nesse contexto específico o ato do sujeito passivo tem
algumas das qualidades do ato de lançamento atribuível exclusivamente ao Fisco (art. 142, CTN).
Por isso que a declaração sobre a existência e exigibilidade do tributo inspiram credibilidade e
nascem sob o arco da presunção de legitimidade.

2 Da arquitetura da DCTF
Assentados os vetores de interação que informam a relação material de Direito Tributário, a
questão passa a ser a verificação do exato conteúdo do ato de constituir o crédito tributário.
No direito positivo a melhor referência a esse respeito reside no caput do art. 142 do CTN. Dele é
possível inferir que o lançamento, como ato constitutivo do crédito tributário, deve conter: (i) a
verificação da ocorrência do fato gerador da obrigação correspondente, (ii) a determinação da
matéria tributável, (iii) o cálculo do montante do tributo devido e (iv) a identificação do sujeito
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passivo. Prevê-se, ainda, a aplicação de penalidade, quando cabível.
Como é cediço, a DCTF oportuniza ao contribuinte informar aqueles quatro dados acima
relacionados; afasta-se apenas a possibilidade de aplicação de penalidade, pela inexistência de
autossanção tributária. Daí por que o documento tornou-se um substitutivo do lançamento,
passando a ser o marco regulador da constituição do crédito tributário, não se alijando, entretanto,
a possibilidade de fiscalização sobre eventuais omissões, com as cominações cabíveis. Nessa ordem
de ideias, é o Parecer PGFN/CAT nº 1.617/2008, que dispôs sobre a forma de contagem de prazos
prescricionais e os seus respectivos termos a quo.
O fato, porém, é que a DCTF revela-se um tanto quanto mais abrangente, não conformando-se,
apenas, às situações do art. 142 do CTN. Nela, além de serem descritos fatos relacionados à
constituição do crédito tributário, é chancelado ao contribuinte trazer outras informações de
enorme relevância para a consumação ou não da cobrança, que em tudo se relacionam aos arts.
151 e 156 daquele Diploma.
Apenas para relacionar alguns exemplos, a DCTF permite ao contribuinte informar a existência de
procedimentos de compensação pendentes de homologação ou já consubstanciados por meio da
interação de dados listados em PER/DCOMP (art. 156, II), o pagamento (art. 156, I) e causas
suspensivas da exigibilidade do crédito tributário, notadamente aquelas previstas no art. 151,
incisos II, IV, V e VI, todos do CTN.
É de se constatar que a DCTF está segmentada em duas dimensões distintas a respeito do mesmo
crédito tributário. No primeiro momento exige do contribuinte informações sobre a sua
constituição, em estrita consonância com o art. 142 do CTN. Trata-se de informações essenciais e
obrigatórias, sem as quais o crédito não se constitui e o documento se torna inócuo, porque
inidôneo. No segundo momento, após a superação de todas as fases de constituição do crédito,
advêm dados de natureza acessória, que respondem a contingências ocasionais, a depender de
fatos extrínsecos ao crédito tributário constituído. São as já referidas situações relacionadas nos
artigos 151 e 156 do CTN.
Tudo para concluir, neste primeiro instante, que a constituição do crédito tributário ocorre de
forma dissociada das informações que digam respeito ao status de exigibilidade e/ou extinção.
O fato, porém, é que tanto a constituição do crédito tributário como as informações sobre a sua
situação de exigibilidade são materializadas em um único documento, no caso a DCTF. Se assim o
é, não há dúvidas de que a forma de escrituração dessas duas situações jurídicas (constituição e
status de exigibilidade) produz exatamente os mesmos efeitos. Sendo inconteste a afirmação de
que, uma vez declarado, o crédito tributário está constituído pelo contribuinte, tal como
transmitido, por idêntica razão é possível dizer que as informações prestadas pelo mesmo
contribuinte acerca do status de exigibilidade do crédito são carregadas de presunção de
veracidade.
Assume-se, portanto, o paralelismo entre os fenômenos da constituição do crédito tributário e a
sustação dos atos de cobrança, sempre influenciados pela declaração do contribuinte. O tratamento
reservado à primeira situação, intermediado pela constatação de que a DCTF corresponde à
realidade até que fato diverso se interponha, há de ser comunicado à segunda.
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A abordagem abre, portanto, uma chave com duas questões: como é possível realizar a invalidação
de dados concernentes ao status de exigibilidade do crédito tributário declarados a partir de erros
do contribuinte e até quando é possível revisá-los.

3 Do poder de invalidação do status de exigibilidade do crédito tributário
O caso não é o de subordinar a Administração Tributária à declaração do contribuinte, mas de
reconhecer que até a desconstituição da situação afirmada pelo particular são produzidos efeitos
jurídicos.
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Isso tanto em relação a crédito tributário constituído, quanto no que toca ao seu status
de exigibilidade, duas dimensões distintas do mesmo ato, como se viu.
Este ato já nasce eficaz por estabilizar a relação jurídico-tributária em todos os estratos de
desenvolvimento, desde a sua constituição até a sua oponibilidade, que advêm da declaração
firmada pelo contribuinte. Tal estabilização tem como matriz jurídica a confiança deferida ao
contribuinte, que impregna o ato por ele praticado com as notas presuntivas de veracidade.
Não se fala em convalidação e nem em invalidação daquilo que foi bem aperfeiçoado pelo
contribuinte.
Seria tautológico que a Administração Tributária se visse compelida a convalidar essa relação de
confiança a todo instante, até mesmo porque isso seria a negação do já mencionado Princípio da
Praticabilidade. Este primado, por sua própria ontologia, impõe que o Fisco somente atue nas
situações em que a confiança é rompida. É por imperativos lógicos que o poder de revisão da
Administração, em casos de incorreções na DCTF acerca do status de exigibilidade, limita-se às
situações de invalidação.
Via de regra, os atos subordinados à invalidação não produzem efeitos jurídicos. A despeito disso, a
mais evoluída doutrina admite também a hipótese de a invalidação gerar efeitos quando o ato,
uma vez extirpado, fulminar direitos de terceiros de boa-fé ou desembocar no enriquecimento sem
causa de quem a ele deu motivo. Por exemplo, é a lição de Weida Zancaner:

Entretanto, nem sempre a invalidação opera efeito ex tunc, como ensina Celso Antônio
Bandeira de Mello, modificando entendimento que mantinha sobre o assunto.
A invalidação operará efeito ex nunc, conforme salienta o jurista, quando a eliminação do
ato e/ou da relação jurídica por ele gerada produzir efeitos que atinjam terceiros de boa-
fé ou em virtude do princípio que veda o enriquecimento sem causa, notadamente
daquele que expediu o ato viciado.
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A União não pode ser debitada pura e simplesmente por ter agido de boa-fé, confiando no outro
polo da relação jurídico-tributária. E o pior: confiança subvertida no enriquecimento sem causa do
sujeito passivo que, ao deixar de recolher os tributos, teria acrescido o seu patrimônio sem motivo
legítimo para tanto.
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Por isso é acertada a orientação doutrinária que contempla a manutenção de efeitos do ato inválido
quando este for determinado por quem dele se aproveita.
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Nesses termos, o procedimento de invalidação está disciplinado na IN RFB nº 974/09, que dispõe
sobre a DCTF. De acordo com esta norma, o exercício do poder de invalidação da DCTF deve ser
realizado por meio de procedimento denominado "auditoria interna".
O ato normativo evidencia que a Administração Tributária deve intimar o contribuinte a prestar
esclarecimentos sobre eventuais incorreções ou omissões, sob pena de os valores apurados a partir
delas serem enviados para inscrição em Dívida Ativa da União. É o que se infere da conjugação dos
arts. 9º, caput, e 10º, §2º daquela IN.
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Obviamente, não seria necessário dizê-lo, fica garantido o
exercício ao contraditório.
Com isso, fica explicitado, em primeiro lugar, que a DCTF que contenha informações equivocadas
sobre o status de exigibilidade do crédito tributário, motivadas por vícios de interpretação, tem o
condão de produzir efeitos até o momento em que o Fisco realizar o seu juízo de invalidação sobre
o ato. Além disso, fica esclarecido que a forma de procedê-lo liga-se ao procedimento de "auditoria
interna" previsto na IN RFB nº 974/09.
Passa-se a analisar as questões que versam sobre o prazo.

4 Do prazo-limite para o exercício do poder de revisão
A primeira distinção a ser feita, com esteio no desate da constituição do crédito e do seu status de
exigibilidade, remete à natureza da norma a ser invocada em cada hipótese.
Supondo-se que o contribuinte não constituiu o crédito tributário em sua totalidade, tendo os
elementos listados no art. 142 do CTN como fio condutor, caberá Administração Tributária realizar
o lançamento suplementar. Isso, em linhas abrangentes, no prazo decadencial de cinco anos, a
teor do art. 173 do CTN.
Nas situações ditas marginais da DCTF, como aquelas que versam sobre o status de exigibilidade
do crédito, é igualmente possível à Administração Tributária realizar a revisão/invalidação. Nada
obstante, por não se tratar de constituição do crédito tributário, não se aplica a lógica e sistemática
do lançamento (art. 173 do CTN). Tanto é verdade que o dispositivo menciona, expressamente, a
locução "constituir o crédito tributário" atribuível à Fazenda Pública. Não se trata, a toda evidência,
das possibilidades contidas nos arts. 151 e 156 do CTN, que remetem ao status de exigibilidade do
crédito tributário, estando, verdadeiramente, no plano da sua eficácia e não de sua existência e
validade.
Nesse diapasão, desde logo se afasta completamente a regra contida no art. 173 do CTN. Este
dispositivo aplica-se ao flanco da DCTF que diz com a constituição do crédito tributário. É regra de
decadência. Não incide sobre as demais informações contidas no documento, tais como aquelas
relacionadas à representação legal da pessoa jurídica, o seu domicílio tributário e, sobretudo, ao
status de exigibilidade do crédito tributário, todas elas capazes de irradiar efeitos jurídicos e, por
isso, passíveis de revisão/invalidação por parte do Fisco.
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Não se coaduna com a sistemática do CTN "lançar" informações que não digam respeito à regra
matriz de incidência, na clássica definição de Paulo de Barros Carvalho. E, no particular, sem
qualquer margem de dúvidas, é possível asseverar que não é o caso da Administração Tributária
proceder ao lançamento suplementar para revisar incorreções ou inverdades consubstanciadas na
DCTF que sejam estranhas aos elementos contidos no art. 142 do CTN.
Afastada a regra geral de Direito Tributário plasmada no CTN, que não se refere à hipótese em
questão, e observando-se que a legislação tributária não dispõe especificamente a esse respeito,
torna-se lídimo recorrer às regras gerais de Direito Público.
De acordo com o Professor Celso Antônio Bandeira de Mello, nas situações em que a legislação não
preveja expressamente o hiato prescricional, o prazo é de cinco anos.
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A questão está positivada
no caput do art. 54 da Lei nº 9.784/99.
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Portanto, o prazo aqui também é quinquenal, mas por motivo e fundamentação diversos daquele
relacionado no CTN.

4.1 Do surgimento da actio nata
Estabelecido e identificado o lustro prescricional, passa-se a analisar o termo a quo para a sua
contagem. Como ficou esclarecido no introito destas considerações, somente as hipóteses de
decisão judicial suspensiva da exigibilidade são relevantes.
Na dicção do art. 151, incisos IV e V, do CTN a suspensão da exigibilidade opera-se mediante
tutelas de urgência. Decisões dessa natureza, por definição, são precárias, na medida em que
podem ou não ser cobertas pelo manto da coisa julgada. A despeito disso, enquanto persistirem,
produzem seus regulares efeitos jurídicos, repercutindo na relação de direito material.
Transpondo essas afirmações para a realidade do crédito tributário, é exato dizer que o
contribuinte dá a conhecer da decisão judicial ao Fisco logo no primeiro instante que a invoca na
DCTF com o propósito de neutralizar a cobrança do crédito tributário constituído. E, assim atuando,
obtém exatamente esse resultado, mesmo que interprete equivocadamente a decisão que lhe
assiste.
A partir daquela comunicação o que há é a reiteração da tutela jurisdicional nas DCTFs seguintes
enquanto perdurem os seus efeitos jurídicos (reais ou pressupostos), sempre sob o signo
interpretativo do contribuinte. Trata-se, efetivamente, de uma postura permanente e continuada,
que susta a exigibilidade dos créditos tributários pretensamente atrelados à decisão judicial,
mesmo que os fatos processuais e as declarações estejam desconectados. E isso ocorre até que o
contribuinte deixe de declarar a suspensão na DCTF ou, em respeito ao poder de polícia da
Administração Tributária, esta última faça eclodir a chamada "auditoria interna" disciplinada na IN
RFB nº 974/09.
O aspecto relevante é legitimar a declaração do contribuinte, seguindo a lógica cardinal
estabelecida pelo STJ e pavimentada pela PGFN de que a afirmação do sujeito passivo sobre
determinado fato informador do crédito tributário pode chegar a ponto de constituir o crédito
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tributário, de tão dotada de presunção relativa de veracidade.
Então, conjugando-se a constituição do crédito tributário com as informações concernentes ao seu
status de exigibilidade, observa-se que numa sucessão de DCTFs (mensais ou trimestrais) o
contribuinte pode formalizar diversos créditos distintos, mas, enquanto a decisão judicial for eficaz
- pelo menos em sua ótica - informará um único fato suspensivo, que se protrairá no tempo até o
instante em que parar de ser comunicada. Este único fato estacionário, que permeará todas as
DCTFs do período de suspensão, é comum a cada crédito tributário constituído espontaneamente.
Nessa perspectiva, não se pode confundir a causa suspensiva da exigibilidade - una, objetiva e
extrínseca à constituição do crédito tributário - com os fatos imponíveis declarados nas diversas
DCTFs apresentadas durante tal e qual período. Por se tratar de um único fato estacionário,
diferido no tempo, a suspensão da exigibilidade é um verdadeiro amálgama de todos os créditos
constituídos sob o seu pálio.
Sendo assim, a exigibilidade entra em estado de letargia no primeiro momento em que o
contribuinte traz a notícia de decisão judicial que, no seu entender, atinge a oponibilidade do
crédito. Noutro giro, volta à sua plena desenvoltura a partir do momento que o mesmo declarante
deixa de informar aquele fato processual em DCTF. Eis o ponto em que se desborda a actio nata. A
pretensão jurídico-processual para que se exija o adimplemento do crédito tributário judicialmente
surge, efetivamente, com a mudança de comportamento do contribuinte que deixa de declarar o
fato obstativo da exigibilidade e dá movimento à Administração Tributária. Presume-se que a
situação até então descrita, que não haja passado pelo crivo da "auditoria interna", foi alterada no
plano dos fatos, sendo certo que, até aquele instante, prevaleceu a assertiva de que haveria
decisão judicial que amparasse a sustação da exigibilidade.
Observe-se que o sistema oferece elementos positivados que justificam essa reserva de tratamento
a comportamentos que se protraem no tempo pela reiteração de condutas homogêneas e
lastreadas no mesmo fato.
No ponto, é a Lei nº 9.873/99, que estabelece prazo de prescrição para o exercício da ação
punitiva pela Administração Pública Federal. Logo no art. 1º tem-se que prescreve em cinco anos a
ação punitiva da Administração Pública Federal, direta e indireta, no exercício do poder de polícia,
objetivando apurar infração à legislação em vigor, contados da data da prática do ato ou, no caso
de infração permanente ou continuada, do dia em que tiver cessado. Abstraindo-se o fato
de que subjaz ação punitiva e apuração de infração, porquanto a hipótese discutida seja de
natureza tributária e oriunda de erro interpretativo sobre o alcance de decisão judicial (o que
afasta o dolo e a feição de transgressão), o que sobressai é a conclusão de que o termo a quo para
a contagem do lustro prescricional somente é iniciado no dia em que a conduta permanente ou
continuada cessa. Esta é a perfeita caracterização do um único fato reiterado competência a
competência em DCTF.
Portanto, o prazo prescricional de cinco anos pode ter dois fatos como marco inicial: (i) a conclusão
da "auditoria interna", nos termos da IN RFB nº 974/09, em que se verifique a discrepância do
quanto declarado em relação ao processo e (ii) a mudança de comportamento do contribuinte que
não mais informa o fato alegadamente suspensivo da exigibilidade do crédito tributário, utilizando-
se do móvel da DCTF. Obviamente que o prolongamento desarrazoado da conduta do contribuinte
deverá ser elemento a despertar a atenção da Administração, sem que isso signifique, de forma
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alguma, que efeitos não sejam produzidos até que o ato seja efetivamente invalidado.
Caracterizada uma ou outra situação, nasce a pretensão jurídica da Fazenda Pública de recuperar,
judicialmente, toda a plêiade de créditos tributários constituídos ao longo do período em que o
próprio contribuinte interditou a cobrança. Esse interregno guarda relação com o tempo em que a
decisão judicial - fundamento para a suspensão da exigibilidade - pretensamente tiver operado
efeitos.
Naturalmente, longos hiatos podem ser abarcados, mesmo aqueles superiores a cinco anos, a
depender da paralisação a que o sujeito passivo render ensejo. Isto não implica, de forma alguma,
a extinção do crédito tributário pela prescrição, tendo em vista que a pretensão de cobrança
somente surgirá em uma das hipóteses anteriormente mencionadas, o que deve ser associado à
presunção de legitimidade das declarações feitas pelo sujeito passivo, sobretudo aquelas que, de
alguma forma lhe aproveitam, como é o caso da suspensão da exigibilidade por decisão judicial.
Não se trata de amesquinhar a verdade material, mas sim de permitir que o contribuinte declare
fatos relacionados à condição de exigibilidade do crédito, emprestando-lhe a presunção de
veracidade, infirmável por procedimento próprio. É dizer: pela concessão de atributos que
revestem o ato declaratório do contribuinte torna-se possível reconhecer que as informações
acerca do status de exigibilidade permanecem como verdadeiras até a ocorrência de um dos
eventos passíveis de invalidá-lo, tal como ocorre na dimensão da DCTF reservada à constituição do
crédito tributário (item II.b).
Os primados da confiança legítima que hoje permeiam a relação jurídico-tributária e guindam o
contribuinte no trabalho de apuração do crédito expõem a natureza de documento público que
define as feições da DCTF, submetendo-a, efetivamente, ao regime de Direito Público. Eis a razão
pela qual se torna possível cogitar que mesmo uma declaração baseada em um erro que contradiga
a verdade material tenha aptidão para produzir efeitos jurídicos, subordinando os dois polos da
relação jurídica, até que, naturalmente, advenha o ato de invalidação, tal como preceituado.
Esse tipo de reconhecimento não é inédito no âmbito da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional.
O Anexo I da Portaria PGFN nº 724, de 31 de agosto de 2005 estabeleceu procedimentos para a
certificação de regularidade fiscal. O ato atribui ao sujeito passivo, em casos de suspensão da
exigibilidade do crédito por decisão judicial, o ônus de comprovar a situação processual por meio de
certidão narratória. Sucessivamente, veio a Portaria PGFN nº 905, de 25 de setembro de 2006,
que deixou de exigir aquele documento, desde que o patrono do contribuinte assinasse um termo
atestando que a exigibilidade do crédito continuava sustada processualmente.
No exemplo temos que, ao exigir a certidão de objeto-e-pé para atestar a regularidade fiscal, a
Fazenda Pública está impondo ao contribuinte que demonstre o que ela própria já sabe ou deveria
saber, porque intimada judicialmente. Isso advém da sua impossibilidade material de controlar
todos os processos que administra, reclamando a adoção de técnicas que primem por soluções
práticas. Para amenizar essa dificuldade e não onerar excessivamente o contribuinte, pede-se-lhe
o mínimo, que é, justamente, uma declaração a respeito do status de exigibilidade do crédito
tributário.
Nessa linha, até que surja nova informação a respeito ou que a própria Administração examine a
correspondência da declaração com os fatos, o documento é dotado de presunção de veracidade,
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sem o quê nada justificaria a entrega da CD-PEN em favor do contribuinte.
Observe-se que o sujeito passivo pode equivocar-se ao apresentar a sua declaração, com esteio na
Portaria PGFN nº 905/05. A única alternativa que socorreria a Administração tributária seria a de
invalidar a CD-PEN com base em informações que já eram do seu conhecimento mas que cederam
em relação ao que declarado pelo contribuinte.
Mutatis mutandis, a situação da DCTF é rigorosamente a mesma. A legítima confiança, nas duas
situações, traz às partes (contribuintes e Fisco) bônus e ônus. No contexto de cooperativismo fiscal
não se parte mais da ideia de polarização de interesses, o que desconstitui a situação binária em
que para um ser beneficiado o outro deve ser prejudicado. O contribuinte declara erroneamente a
suspensão da exigibilidade e é beneficiado pela interdição da cobrança iminente; por seu turno, o
Fisco é beneficiado pela suspensão do prazo prescricional. Pela perspectiva do prejuízo, o
contribuinte perde a possibilidade de precipitar a contagem do prazo extintivo e o Fisco suporta as
consequências de não ter cobrado antes (o que pode significar a dilapidação do patrimônio do
sujeito passivo neste interregno), o que reforça a necessidade de a Administração Tributária
analisar as declarações apresentadas pelo contribuinte, com vistas a reduzir danos em potencial.
Em suma: credita-se uma confiança legítima no contribuinte; não apenas de que ele declarará o
fato imponível com retidão, mas também de que não contrariará suas posturas em juízo, como
seria o caso da alegação de prescrição após sucessivas afirmações de que a exigibilidade estaria
paralisada. Se esse raciocínio vingasse estar-se-ia cogitando de um sistema desequilibrado com
bônus mas sem ônus para uma das partes. É exatamente neste ponto que se invoca a Teoria dos
Atos Próprios.

5 Da essência da alegação de prescrição e da vedação de comportamentos contraditórios
(teoria dos atos próprios)
Na prática cotidiana, o que se começa a observar é o ensaio de alguns contribuintes no manejo de
alegações de extinção do crédito tributário em razão da prescrição, sob patente desconsideração
das declarações firmadas por eles mesmos em DCTFs. Ou seja, mediante erro de interpretação
jurídica da decisão jurisdicional que acolheria a sua pretensão, o sujeito passivo destaca a
suspensão da exigibilidade do crédito tributário por ele formalizado em DCTF, conta com a
insuficiência de recursos materiais da Administração para verificar o fato processual, obstrui a
atuação do Fisco pela presunção relativa de veracidade desta afirmação para, anos depois, cessada
a suposta causa de interdição da cobrança, aduzir que a Administração Tributária absteve-se de lhe
opor o crédito no lapso prescricional.
Dito de outra forma, o contribuinte, sorrateiramente, passa a ignorar os efeitos jurídicos de que
suas declarações são dotadas, colocando-as em rota de colisão com os paradigmas de coerência
jurídica a que deve obediência. A postura contraditória entre o que está contido nas DCTFs e as
alegações suscitadas em Juízo (ou mesmo administrativamente) geram danos potenciais à União,
porquanto representem a possibilidade de extinção do crédito tributário ainda exigível e o
enriquecimento sem causa do sujeito passivo.
Esse tipo de comportamento não se harmoniza com a chamada Teoria dos Atos Próprios, cujos
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matizes são a segurança jurídica, a proteção da confiança legítima e a boa-fé objetiva.
Obviamente, ainda ao tempo em que não houve a cobrança judicial do crédito tributário, é de todo
conveniente ao sujeito passivo invocar a suspensão da exigibilidade motivada por decisão judicial.
Isso pode ocorrer por anos a fio, sempre com a possibilidade de o Fisco revisar/invalidar a DCTF
por intermédio da "auditoria interna" (IN RFB nº 974/09) ou, quando não o fizer, a partir do
momento em que o contribuinte não mais declara a existência de decisão judicial.
Enquanto o contribuinte segue adotando um comportamento condizente com as afirmações que
declina no âmbito da DCTF, a segurança jurídica estará sempre preservada, independentemente do
tempo em que essa conduta se perfizer (o que pode se prolongar por anos). Nada obstante, a
brusca guinada de discurso, já no momento da cobrança judicial, expõe o credor fazendário à
intolerável instabilidade jurídica.
A segurança jurídica, além de poder ser extraída diretamente do texto constitucional, como
supraprincípio do Direito (art. 1º, caput, da CF/88), revela-se como o substrato de diversos outros
princípios caros ao sistema, tais como o da confiança legítima, o da boa-fé objetiva e o da
presunção de validade de atos. Este é o pensamento de Diogo de Figueiredo Moreira Neto.
15
Em reforço ao princípio central contido na Carta Republicana, a legislação infraconstitucional
contemplou a boa-fé na relação bilateral entre Administração Pública e administrado. É que a Lei
nº 9.784/99, em seu art. 4º, inciso II, prescreveu ser dever do particular "proceder com lealdade,
urbanidade e boa-fé" na relação jurídica de Direito Público.
16
Surge, nesse contexto, a já mencionada Teoria dos Atos Próprios, estabelecida no brocardo latino
nemo potest venire contra factum proprium, que tutela exatamente a confiança legítima e a boa fé
objetiva. Anderson Schreiber
17
sistematiza a aplicação do instituto com grata precisão:

A função do nemo potest venire contra factum proprium é, como já se esclareceu, a
tutela da confiança. Os pressuposto de sua aplicação devem, portanto, ser informados
por este fim. (...)
À luz destas considerações, pode-se indicar quatro pressupostos para aplicação do
princípio de proibição ao comportamento contraditório: (i) um fatum proprium, isto é,
uma conduta inicial; (ii) a legítima confiança de outrem na conservação do sentido
objetivo desta conduta; (iii) um comportamento contraditório com este sentido objetivo
(e, por isso mesmo, violador da confiança); e, finalmente, (iv) um dano ou, no minímo,
um potencial de dano a partir da contradição.

Transplantando a sistematização doutrinária para a hipótese em apreço, verifica-se que:
- a conduta inicial é a interdição da exigibilidade do crédito tributário em virtude de decisão
judicial precária, pelo contribuinte, por meio de DCTF;
- os efeitos atribuídos à declaração do contribuinte, quer pela jurisprudência, quer pela
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própria Fazenda Nacional, permitem concluir pela legítima confiança de que as informações
prestadas, pelo menos em princípio, são verdadeiras, ainda que passíveis de eventuais erros
de interpretação jurídica;
- o comportamento contraditório, violador da confiança, se configura no momento em que o
sujeito passivo alega a fluência da prescrição, desconsiderando as informações anteriormente
declinadas; e
- o dano ocasionado pela perda do crédito público determinada pelo comportamento
contraditório.
A esse propósito, a Teoria dos Atos Próprios tem sido largamente utilizada em todos segmentos do
Direito, notadamente na seara tributária. Há decisões judiciais que não admitem a adoção de
comportamentos contraditórios por parte da Administração Tributária.
18
Seria um enorme contrassenso acolher a tese em desfavor do Fisco e rechaçá-la quando o agente
da ação contraditória é o sujeito passivo, o que deixa entrever a correção desta teoria no caso em
comento.
Conclusivamente, a insurgência do sujeito passivo contra as situações jurídicas por ele mesmo
estabelecidas representa, indiscutivelmente, um venire contra factum proprium não tolerado pela
nova dinâmica que está a informar a relação jurídico-tributária, em que, pela praticabilidade, o
Fisco é levado a se fiar nas informações declinadas pelo contribuinte, dada a sofisticação do
sistema em relação ao aparelhamento material e humano de que dispõe.

6 Conclusões
Diante do que se expôs, é possível sintetizar o raciocínio da seguinte maneira:
A possibilidade de constituição do crédito tributário pelo contribuinte se inscreve no contexto de
maior interação entre sujeitos ativo e passivo da relação jurídico tributária, marcado pelas
chancelas da praticabilidade, segurança jurídica, confiança legítima e boa-fé.
Esses vetores passam a informar a conduta do contribuinte quando da constituição do crédito
tributário e, destacadamente, e da declaração sobre o status de exigibilidade plasmados nos arts.
151 e 156 do CTN.
A informação prestada de forma equivocada, por estar subscrita no eixo de uma relação bilateral,
tem o condão de repercutir de forma recíproca, evitando-se que as consequências daí advindas
sejam suportadas somente por um elo desta relação.
Assumida a distinção entre o que é a constituição do crédito tributário e o seu respectivo status de
exigibilidade, afere-se que a pretensão para promover a cobrança do crédito formalizado cuja
oponibilidade estava supostamente obstada por decisão judicial surge ou pelo manejo do
procedimento de "auditoria interna" ou pela mudança de comportamento do contribuinte.
Neste último caso, o prazo prescricional somente começa a fluir a partir do momento em que o
contribuinte deixar de mencionar o fato estacionário em suas DCTFs, fato este que abarca todo o
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período em que o crédito foi constituído com a exigibilidade suspensa, independentemente da
correta ou incorreta interpretação que se faça do decisum subjacente.
A evolução doutrinária no campo do Direito Público, acolhida pela jurisprudência, já não mais
admite comportamentos contraditórios capazes de esvaziar direitos de terceiros imbuídos de boa-
fé. Por isso, torna-se inadmissível a convivência de duas posturas colidentes: uma, com sede
administrativa, a informar que a União não poderia cobrar; outra, já nas plagas do Poder
Judiciário, a aduzir que a União deveria ter cobrado, devendo suportar os ônus da prescrição.
Veda-se o venire contra factum proprium.

1
Apenas de forma exemplificativa, tem-se os REsps nºs 232.838, 281.867, 638.069 e 670.083.
2
TRIBUTÁRIO. TRIBUTO DECLARADO PELO CONTRIBUINTE E PAGO COM ATRASO. DENÚNCIA
ESPONTÂNEA. NÃO CARACTERIZAÇÃO. SÚMULA 360/STJ.
1. Nos termos da Súmula 360/STJ, "O benefício da denúncia espontânea não se aplica aos
tributos sujeitos a lançamento por homologação regularmente declarados, mas pagos a destempo".
É que a apresentação de Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais - DCTF, de Guia de
Informação e Apuração do ICMS - GIA, ou de outra declaração dessa natureza, prevista em lei, é
modo de constituição do crédito tributário, dispensando, para isso, qualquer outra providência por
parte do Fisco. Se o crédito foi assim previamente declarado e constituído pelo contribuinte, não se
configura denúncia espontânea (art. 138 do CTN) o seu posterior recolhimento fora do prazo
estabelecido.
2. Recurso especial desprovido. Recurso sujeito ao regime do art. 543-C do CPC e da Resolução
nº STJ 08/08.
(REsp nº 962.379/RS, Rel. Ministro Teori Albino Zavascki, Primeira Seção, julgado em
22.10.2008, DJe, 28 out. 2008).
3
PAULSEN, Leandro. Curso de direito tributário. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2008. p.
164.
4
CAVALCANTE, Denise Lucena. Crédito tributário: a função do cidadão contribuinte na relação
tributária. São Paulo: Malheiros, 2004. p. 28 e 29.
5
Regina Helena Costa leciona sobre a praticabilidade: "Portanto, a praticabilidade, também
conhecida como praticidade, pragmatismo ou factibilidade, pode ser traduzida, em sua acepção
jurídica, no conjunto de técnicas que visam a viabilizar a adequada execução do ordenamento
jurídico. Podemos afirmar, com fundamento nas lições de Teoria Geral do Direito, magistralmente
explanadas por Souto Maior Borges, que a praticabilidade é uma categoria lógico jurídica, e não
jurídico-positiva, na medida em que, em nosso entender, essa noção antecede o próprio Direito
posto, correspondendo a exigência do senso comum" (COSTA, Regina Helena. A praticabilidade e o
direito. São Paulo: Malheiros, 2009. p. 53).
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6
A jurisprudência das Cortes brasileiras tem adotando, sem qualquer hesitação, o Princípio da
Praticabilidade Tributária, mediante o reconhecimento de que a complexidade e sofisticação do
sistema tributário nacional impedem que todos os fatos imponíveis passem pelo crivo da
Administração Tributária. Ao decidir sobre a substituição tributária para frente no caso do ICMS, na
ADI nº 1.851/AL, o Supremo Tribunal Federal fincou o seu entendimento de que aquele método
fiscal era absolutamente praticável e assimilável à luz da Constituição Federal. O Min. Ilmar
Galvão, ao proferir o seu voto, teceu as seguintes considerações a respeito da praticabilidade ali
emergente: "(...) Na verdade, visa o instituto [substituição tributária para frente] evitar, como já
acentuado, a necessidade de fiscalização de um sem-número de contribuintes, centralizando a
máquina-fiscal do Estado num universo consideravelmente menor, e com acentuada redução do
custo operacional e conseqüente diminuição da evasão fiscal. Em suma, propicia ele maior
comodidade, economia, eficiência e celeridade na atividade estatal ligada à imposição tributária.
Não seria, realmente, de admitir que, diante desses efeitos práticos, decisivos para a adoção da
substituição tributária, viesse o legislador a criar mecanismo capaz de inviabilizar a utilização do
valioso instituto, como a compensação de eventuais excessos ou faltas, em face do valo real da
última operação, determinando o retorno da apuração mensal do tributo, prática que justamente
teve por escopo obviar."
7
"(...) b) apresentada a declaração pelo contribuinte (GFIP ou DCTF, conforme o tributo) não há
necessidade de lançamento pelo fisco do valor declarado, podendo ser lançado apenas a eventual
diferença a maior não declarada (lançamento suplementar);"
8
EMBARGOS DE DECLARAÇÃO - RECURSO ESPECIAL - OMISSÃO E CONTRADIÇÃO -
INEXISTÊNCIA. EFEITO MODIFICATIVO - IMPOSSIBILIDADE.
Os embargos declaratórios não constituem meio hábil ao reexame da causa, por isso que são
apelos de integração e não de substituição.
A ausência dos pressupostos legais autoriza a rejeição dos embargos, de cunho infringentes.
Consoante reiterada jurisprudência desta e.g. Corte é necessário prévio procedimento
administrativo de homologação, possibilitando amplo contraditório, em se tratando da existência de
débito objeto de compensação com exação declarada constitucional. Diversamente, quando o
contribuinte, através de autolançamento de débito fiscal, decl ara (DCTF) e não paga. Nesta
hipótese, efetivamente é desnecessária instauração de qualquer procedimento fiscalizador para a
inscrição da dívida e sucessiva cobrança.
Embargos rejeitados.
(EDcl no REsp nº 361.020/SC, Rel. Ministro Francisco Peçanha Martins, Segunda Turma, julgado
em 04.04.2006, DJ, 03 maio 2006. p. 178).
9
"Um ato é eficaz - conforme Celso Antônio - quando estiver apto para a produção dos efeitos
que lhe são típicos, isto é, aqueles efeitos visados pelo ato, que constituem sua razão de ser"
(ZANCANER, Weida. Da convalidação e invalidação dos atos administrativos. 3. ed. São Paulo:
Malheiros, 2008. p. 47).
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10
Op. cit., p. 53, 54.
11
No sentido de que atos inválidos podem vir a produzir efeitos, ainda que consubstanciados em
situações de fato inverídicas, é o Parecer/AGU GQ nº 118/98, aprovado nos termos do art. 41 da
LC nº 73/93, cuja ementa é a seguinte: "Ato administrativo anulado, após verificada a
irregularidade da documentação apresentada. Direitos de terceiros de boa-fé. Manutenção do ato,
ainda quando eivado de vício, desde que presentes o interesse público e a comprovada boa-fé de
terceiros interessados."
12
"Art. 9º A pessoa jurídica que deixar de apresentar a DCTF no prazo fixado ou que a apresentar
com incorreções ou omissões será intimada a apresentar declaração original, no caso de não-
apresentação, ou a prestar esclarecimentos, nos demais casos, no prazo estipulado pela RFB, e
sujeitar-se-á às seguintes multas:
(...)
Art. 10. Os valores informados na DCTF serão objeto de procedimento de auditoria interna.
§1º Os saldos a pagar relativos a cada imposto ou contribuição, informados na DCTF, bem como
os valores das diferenças apuradas em procedimentos de auditoria interna, relativos às
informações indevidas ou não comprovadas prestadas na DCTF, sobre pagamento, parcelamento,
compensação ou suspensão de exigibilidade, serão enviados para inscrição em Dívida Ativa da
União (DAU), com os acréscimos moratórios devidos.
(...)"
13
Eis a lição do jurista: "isto posto, estamos em que, faltando regra específica que disponha de
modo diverso, ressalvada a hipótese de comprovada má-fé em uma, outra ou em ambas as partes
de relação jurídica que envolva atos ampliativos de direitos dos administrados, o prazo para a
Administração proceder judicialmente contra eles é, como regra, de cinco anos, quer se trate de
atos nulos, quer se trate de atos anuláveis" (MELLO, Celso Antônio Bandeira de. Curso de direito
administrativo. 19. ed. São Paulo: Malheiros, 2005. p. 98).
14
"Art. 54. O direito da Administração de anular os atos administrativos de que decorram efeitos
favoráveis para os destinatários decai em cinco anos, contados da data em que foram praticados,
salvo comprovada má-fé."
15
Curso de direito administrativo. 14. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2005. p. 78-79.
16
"Art. 4º São deveres do administrado perante a Administração, sem prejuízo de outros previstos
em ato normativo:
I - expor os fatos conforme a verdade;
II - proceder com lealdade, urbanidade e boa-fé;
III - não agir de modo temerário;
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IV - prestar as informações que lhe forem solicitadas e colaborar para o esclarecimento dos
fatos."
17
A proibição de comportamento contraditório, tutela da confiança e venire contra factum
proprium. 2. ed. Rio de Janeiro: Renovar, 2007. p. 132.
18
TRIBUTÁRIO - AÇÃO ANULATÓRIA DE DÉBITO FISCAL - PRODUTORA DE SEMENTES -
ALÍQUOTA REDUZIDA - ART. 278 DO RIR - ART. 30 DO DECRETO N. 81.877/78, QUE
REGULAMENTA A LEI N. 6.507/77.
1. É fato incontroverso nos autos que a recorrida encontra-se registrada no Ministério da
Agricultura como "produtora de sementes." É o próprio art. 30 do Decreto n. 81.877/78 que
conceitua produtor de semente como toda pessoa física ou jurídica devidamente credenciada pela
entidade fiscalizadora, de acordo com as normas em vigor. Tendo a recorrida obtido o registro
competente, não cabia à União indagar ou desclassificar essa situação jurídica sem o procedimento
adequado, a fim de excetuá-la da alíquota reduzida descrita no art. 278 do RIR (Decreto nº
85.450/80).
2. Ademais, ao assim pretender fazer, está a União inserida em patente comportamento
contraditório, vedado pelo ordenamento jurídico pátrio, pois a ninguém é dado venire contra factum
proprium, tudo em razão da caracterização do abuso de direito. Assim, diante da especificidade do
caso, sem razão a recorrente em seu especial, pois é o registro no órgão de fiscalização
competente, diante do reconhecimento da própria União do cumprimento dos requisitos legais, que
faz com que a pessoa jurídica ora recorrida seja qualificada como produtora de sementes.
Recurso especial improvido.
(REsp nº 396.483/PR, Rel. Ministro Humberto Martins, Segunda Turma, julgado em 02.08.2007,
DJ, 17 dez. 2007. p. 158).
TRIBUTÁRIO. IMPOSTO DE IMPORTAÇÃO E IMPOSTO SOBRE PRODUTOS INDUSTRIALIZADOS.
EXCEÇÃO TARIFÁRIA.
1. Afigura-se mais razoável a interpretação no sentido de que a exceção tarifária nº 013 em
momento algum foi revogada, tendo sua eficácia, inclusive, reafirmada pela resolução nº 04/02 da
CAMEX, pois a revogação de uma norma isencional deve ser interpretada sempre de forma literal e
nunca sistemática (art. 111, II, do CTN). Tal entendimento se coaduna, ainda, com o princípio da
vedação do comportamento contraditório ou "nemo potest venire contra factum proprium"
("ninguém pode se opor a fato a que ele mesmo deu causa"), eis que o Fisco não pode alegar em
sua defesa a negativa de uma consulta regularmente exteriorizada.
2. O contribuinte que, baseado em licenças regularmente concedidas, procedeu à importação de
bens, não pode, posteriormente, ser surpreendido com uma autuação em razão da mudança de
entendimento da autoridade administrativa fiscal sobre uma norma que já se encontrava em vigor
à época do deferimento das licenças de importação.
3. Assim, entre as duas exegeses possíveis: 1) revogação da Exceção tarifária nº 013 pela
Portaria MF nº 201/98 e repristinação da mesma pela resolução nº 04/02 da CAMEX, e 2) plena
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vigência e eficácia da exceção tarifária 013; deve prevalecer esta última, adotada pelo contribuinte
e reconhecida pelas Licenças de importação concedidas pelo DECEX, sendo ilegais os autos de
infração lavrados posteriormente pelos auditores fiscais responsáveis pelo desembaraço das
mercadorias descritas nas respectivas Declarações de Importação.
4. Recurso provido.
(TRF-2, AC nº 200150010000392, Rel. Desembargador Paulo Barata, Terceira Turma
Especializada, julgado em 25.09.2007, DJ, 07 nov. 2007).
Como citar este artigo na versão digital:
Conforme a NBR 6023:2002 da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), este texto
científico publicado em periódico eletrônico deve ser citado da seguinte forma:
SIQUEIRA, James; CURTY, Leonardo de Menezes. Aspectos dogmáticos da DCTF e prescrição do
crédito tributário mal declarado como "suspenso". Revista Fórum de Direito Tributário - RFDT, Belo
H o r i z o n t e , a n o 8 , n . 4 8 , n o v . / d e z . 2 0 1 0 . D i s p o n í v e l e m :
<http://www.bidforum.com.br/bid/PDI0006.aspx?pdiCntd=70692>. Acesso em: 25 fev. 2013.
Como citar este artigo na versão impressa:
Conforme a NBR 6023:2002 da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), este texto
científico publicado em periódico impresso deve ser citado da seguinte forma:
SIQUEIRA, James; CURTY, Leonardo de Menezes. Aspectos dogmáticos da DCTF e prescrição do
crédito tributário mal declarado como "suspenso¨. Revista Fórum de Direito Tributário - RFDT, Belo
Horizonte, ano 8, n. 48, p. 147-165, nov./dez. 2010.
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