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LILITH BALANGANDÃ:
FEMINISMO E NEGRITUDE NA POESIA DE ELISA LUCINDA
(Uma leitura de Eu te amo e outras estréias e O semelhante)
Marciano Lopes e SILVA (UEM) i

1. INTRODUÇÃO

Ponho o lenço do pescoço na cabeça


Molho os cabelos com calma
Uma mulher é uma espécie de alma com enfeite
Chega diante do espelho
adorna-se como uma árvore de natal
nem é natal
mas ela vai dar bola
Às vezes não varre o quintal
mas pinta as maçãs
blushes ruges
Às vezes não costura
mas realça as cortinas
cílios rimel lápis
Às vezes não conserta as portas
mas pinta as bordas das janelas
pálpebras delineador sombra

Mulher é uma Eva encantada


de espalhar-se por fora
em paraíso
batom cintura tesão juízo
pulseiras brincos balangandãs
são seus sonhos de fachada
que repetem o de dentro
que rondam a porta da casa
Invento de princesa
Durante todas as primaveras
um cardume de cinderelas
ainda insiste dentro dela.
(LUCINDA, 2006, p. 61-62)

O poema acima – cujo título é “Lilith balangandã” – representa muito bem as


tensões e estratégias que caracterizam a construção poética da identidade feminina e
negra na poesia de Elisa Lucinda.
Analisando o título, vemos que este apresenta um alto potencial subversivo, pois
sugere uma identidade feminina rebelde, contestadora do poder masculino e cristão,
assim como etnicamente negra. O primeiro aspecto se encontra presente na menção a
Lilith, e o segundo na palavra “balangandãs”, substantivo de origem africana que, no
presente caso, funciona como adjetivo. No entanto, essa identidade feminina subversiva

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e negra que se anuncia no título é muito atenuada – ou até mesmo dissolvida – no
transcorrer do poema por um discurso impregnado por imagens características de um
romantismo ingênuo, típico de conto de fadas, visto tratar a mulher como “Eva
encantada”, “princesa” e “Cinderela” – imagens que constroem uma identidade
feminina branca e dócil, castiça e cristã. Em outras palavras: o potencial subversivo da
eleição de Lilith como modelo feminino se desfaz numa retórica ingênua que
desconhece a dimensão filosófica existente no seu mito, ou que então tenta tornar-se
aceitável para o leitor mediano através da ocultação do seu caráter blasfematório,
reduzindo a contestação política ao poder patriarcal, branco e cristão, a uma atitude de
simples liberação sexual da mulher na sociedade burguesa. Mas o problema não é tão
simples assim. Tal conclusão seria correta e aplicável à sua poesia se nos limitássemos
exclusivamente ao poema “Lilith balangandã”, mas quando começamos a remexer com
atenção em seus demais textos, vemos que nem sempre a autora escreve uma poesia tão
bem comportada e que a necessidade de torná-la um produto mercadologicamente
viável (e, portanto, vendável) nem sempre termina por negar a identidade sugerida no
título em questão.

2. LILITH E A AFIRMAÇÃO DA SEXUALIDADE FEMININA

No atual cenário da poesia brasileira, a poesia de Elisa Lucinda encontra-se na


contramão da tendência aparentemente dominante, em que os poetas parecem estar mais
preocupados em demonstrar virtuosismo no domínio de técnicas e estilos já
consagrados, sem compromisso com qualquer bandeira estética ou política, conforme já
apontaram Heloísa Buarque de Hollanda (1998), na introdução a Esses poetas – uma
antologia dos anos 90, e Maria Iumma Simon. ii Distante da “poesia de invenção”,
vertente em que predomina a pesquisa estética, a autora volta toda a sua emoção e
criatividade para os motivos cotidianos – destacando-se os temas do amor e da
sexualidade – e para a elaboração de uma linguagem simples, extremamente coloquial e
fluida, possível de ser compreendida pelo mais humilde leitor. Ao fazer essa opção,
coloca-se ao lado de autoras como Cora Coralina, Martha Medeiros, Alice Ruiz e
Adélia Prado, poeta por quem Elisa apresenta uma simpatia declarada e cuja afinidade
se pode sentir na leitura de sua poesia, pois ambas constroem uma identidade feminina
que alia tradição e ruptura especialmente através da tensão entre religiosidade e
erotismo.
De maneira semelhante ao que acontece na poesia de Adélia, que em alguns
momentos de sua obra erotiza o amor pela natureza e por Cristo, a de Elisa também
afirma uma identidade feminina cuja religiosidade assume uma dimensão panteísta e se
encontra permeada de sensualidade. Nela, o amor é um sentimento cósmico que se
manifesta não somente através da elevação da alma, mas em todos e por todos os
sentidos transborda dos poros, é Eros explodindo em toda a sua dimensão sensorial e,
portanto, carnal. O que faz sem nenhum pudor (é importante observar que nisso ela se
distancia de Adélia, que é muito mais sutil na expressão da sensualidade). Exemplo
dessa atitude de ruptura com o cristianismo é o poema “Na salada da noite”. Nele, o
espaço da cozinha é duplamente profanado, pois o poema não somente menciona o ato
sexual de modo explícito como também faz uso de palavras vulgares (“xoxota” e “cu”):

Eu te amo
entre chicória e feijão-fradinho

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(...)
Beijo a torre de sua igreja,
subo no seu tronco,
minha viril árvore
(...)
Eu arrisco, meu petisco,
Escuto teu verbo
mesmo quando arisco
(...)
Meu corpo, meu peito
minha xoxota, meu cu,
eu te amo entre chuchus.
Eu te amo
em pepino, cebola, ameixa
e alface.
Amo em nós
o amor sem disfarce.
(LUCINDA, 2006, p. 212 a 214)
Não creio que seja necessário gastar muita tinta e saliva para demonstrar que o
poema citado é uma ofensa à moralidade cristã. Lembremos: é na cozinha onde se faz e
se reparte o pão (alimento sagrado), é na cozinha onde se reúne a família, é na cozinha
onde se encontra – em quase toda a casa popular – uma cópia do quadro da Santa Ceia
de Leonardo da Vinci. Não digo que muitos não façam ou pensem tais coisas em tal
local, mas como se sabe, pensar é uma coisa, mas falar e publicar é outra bem diferente.
“Livre pensar, só pensar” – como escrevia o Millôr se não me engana a memória.

Eva agora é a mãe


de uma primeira geração
Adão fértil
Adão negão
Adão cagão
(....)
Para mim Eva não teve nunca pecado original
não é a primeira
e nem será a última
Eva reluta
mas não consegue evitar
Doa-se.
(...)
Eva é o nome da minha gata
e habita de frutos o universo
Vida mia
Eva agora habita meu verso.
(LUCINDA, 2006, p. 59)

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Você me procura
você me busca
Adão invertido
Vertente veneno ativo
essa maçã que eu bebi;
inserpente me recomeço
nos teus braços, meu amor.

Toda delícia de te receber


quer dizer aceito
quer dizer rendida
quer dizer o prazer da caça
na mão do caçador
quer dizer a concordância da lebre
na mão do armadilhador
Eu Chapeuzinho te convido
a passear Lobo em mim
por minhas florestas
(...)
Contigo saio de mãos dadas
do original Paraíso
pra viver o Cinema Paradiso
da nossa emoção
saio achando a salvação
saio entendendo Deus
saio achando que essa idéia de Deus
da grande expulsão
foi um programão.
(LUCINDA, 2006, p. 126)
Nos poemas acima, respectivamente “Vida mia” e “Um inferno fora daqui”,
subverte-se tanto o discurso bíblico quanto o conto de fadas Chapeuzinho vermelho na
sua versão popularizada. Com respeito ao discurso cristão, a subversão é radical, pois
atinge o seu fundamento: a narrativa do Gêneses com seu mito do pecado original.
Contrapondo-se ao falocentrismo patriarcalista do discurso cristão, a poesia de Elisa
Lucinda absolve Eva do crime de ceder à tentação, reconhece nela a vocação divina
para doar-se à vida, ou seja, à reprodução, comparando-a a uma gata que protege e
amamenta seus filhotes. Entretanto, a ruptura maior com o discurso cristão não está em
absolvê-la, mas em ressignificá-la conforme o mito de Lilith, assim recuperando a
memória do que foi apagado no texto bíblico.
A transformação de Eva na sua rival pode ser percebida na sua comparação com
uma gata (animal cuja simbologia está repleta de sensualidade pagã), na comparação
com uma Chapeuzinho Vermelho que se compraz em ser caça do ‘lobo-Adão”, assim
como na atitude de debochar do castigo recebido por comer a maçã, considerando a
expulsão do Paraíso como “salvação”, ou seja, como caminho para a libertação da libido
reprimida.
Através do humor e da paródia, Elisa Lucinda inverte e subverte os valores
cristãos: rebaixa Deus e Adão, desdenha da sabedoria divina e da supremacia do gênero
masculino. Em contrapartida, eleva Eva à uma condição superior através de sua

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ressignificação conforme os traços de Lilith, mulher que nasceu em igualdade com
Adão, pois também feita do barro, e que não aceitou a sua dominação, rebelando-se
contra a condição de tê-lo sobre si durante o coito, e revoltando-se contra o poder de
Deus.
É claro que o satanismo mórbido contido no mito de Lilith e tão presente na
poesia de Baudelaire e dos decadentistas não se encontra na poesia de Elisa Lucinda,
mas a atitude de negação ou contestação da moral cristã por ela se espalha, atingindo
momentos ofensivos como aquele que vimos acima em “Na salada da noite” ou
podemos ver no poema “Mistérios”, logo abaixo. No lugar da morbidez e do desencanto
que marcaram o citado satanismo, encontramos o riso popular da sátira menipéia, pois
novamente realiza-se uma inversão de valores que subverte o sagrado. Ao dessacralizar
o ritual da missa, os mistérios divinos, a noção de Direito e de Justiça divinas e o céu
concebido como paraíso distante, a poeta rebaixa-os na mesma medida em que eleva o
amor sexual:

Quando meu amor entra por trás


no meu céu
gosto de me virar toda em pescoço
giratório pra beijar ele direito.
Direito aqui também quer dizer
o lado que se arrepia quando
penso nisso
direito quer dizer também justo
no sentido de apertado
no sentido de encaixado
no sentido de justiça.
Esse assunto desse amor meu entrando
por trás no meu céu
É tão nobre, tão solene que nem posso dizer...
É assunto de missa.
(LUCINDA, 2006, p. 218)
A subversão do discurso cristão como estratégia para a construção de uma
identidade feminina atinge seu ponto culminante em Eu te amo e suas estréias no
poema “Com negra parecida” (p. 221), texto em que a afirmação da sexualidade
feminina se entrelaça com a afirmação de uma identidade negra. Nele, o sujeito lírico
feminino se dirige à imagem da Nossa Senhora Aparecida negra, mas, em vez de orar
para ela, lhe confidencia os segredos e ousadias de alcova em tom de conversa de
comadres. O tratamento carinhoso e íntimo e as reações da santa, que ele descreve como
decorrentes do desenrolar da narrativa erótica, humanizam-na. A insistência em saber
dos detalhes mais íntimos e as reações físicas que tem ao ouvi-los, reações que vão se
tornando mais intensas até atingir estremecimentos que sugerem um orgasmo, não são
atitudes nem um pouco condizentes com o comportamento que se espera de uma santa.
Santa que, no final, é comparada a uma Eva sexualmente liberada que, assim como
Lilith, trai Adão ao desejar, neste caso, um deus pagão e negro (Olodum).
(...)
Falei das posições
das intenções
no quarto de quatro

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nem reparei de imediato
que dentro do manto
a santa no ponto
suava enquanto eu falava
Cida indagava detalhes
sobre nossas majestades
toda reza minha
era fofoca da intimidade
(...)
queria o auê
os suores da trepação
queria centímetro por centímetro
o enredo da penetração
(...)
Ela me lembrava a negra Clarinda
me lembrava a velha amiga
Eva antiga
da tribo de minha vó
Santa por descaso
Santa por acaso
ela queria Olodum
ela queria um homem
ela queria um.
(LUCINDA, 2006, p. 221-222)

3. A NEGRITUDE (AS)SUMIDA E A POÉTICA DA SEMELHANÇA


Se por um lado é constante a presença de um sujeito lírico que se constrói
mulher especialmente através da afirmação de uma sexualidade livre e sem remorsos, é
interessante notar que raramente esse sujeito lírico se afirma negro. Quase não ocorre na
poesia de Elisa Lucinda o que Zilá Bernd (1987) considera como uma das mais
importantes características de um discurso da negritude: a presença de um “eu-
enunciador” negro. Aliás, não somente esta constante discursiva apontada por ela está
quase ausente como também as demais: a presença de símbolos da cultura afro-
brasileira, a recuperação da memória silenciada pela história dos vencedores, a escritura
de uma cosmogonia negra e a presença de um léxico, mitos e lendas de origem africana.
Como são poucos os poemas que apresentam uma identidade negra, vejamos por
inteiro os mais significativos começando por “Constatação”. Nele, o eu-lírico feminino
expressa sua semelhança com as mais diversas identidades regionais ou nacionais que
têm por traço comum a origem africana, tratando-os como “meu povo”. Aqui é
importante observarmos uma constante discursiva apontada por Zilá Bernd: a presença
de uma simbologia que expressa a luta e a resistência negras. No caso, instrumentos
musicais de percussão (tambor e conga) e uma dança afro-cubana (a conga) cumprem
essa função, assim como o ritmo – que lembra o som dos tambores – resultante das
anáforas.

Pareço cabo-verdiana
pareço Antilhana
pareço Martiniquenha

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pareço Jamaicana
pareço Brasileira
pareço Capixaba
pareço Baiana
pareço Carioca
preço Cubana
pareço Americana
pareço Senegalesa
em toda parte
pareço
com o mundo inteiro
de meu povo
pareço
sempre o fundo de tudo
a conga. O tambor
é o que nos leva adelante
pareço todos
porque pareço semelhante.
(LUCINDA, 2007, p. 86)
Em meio à esmagadora maioria de poemas que tem por tema o amor e a
sexualidade apenas quatro apresentam um sujeito lírico que se assume como mulher
negra e brasileira e que expressa a sua indignação e revolta contra o preconceito de cor,
a exploração sexual e a marginalização: “Profecia” (2007, p. 197),“Zumbi saldo”
(2007, p. 173), “Mulata exportação” e “Ashell, Ashell pra todo mundo Ashell”. Pela sua
importância, transcrevemos apenas os dois últimos, na íntegra:
“Mas que nega linda
E de olho verde ainda
Olho de veneno e açúcar!
Vem nega, vem ser minha desculpa
Vem que aqui dentro ainda te cabe
Vem ser meu álibe, minha bela conduta
Vem nega exportação, vem meu pão de açúcar!
(Monto casa pra você mas ninguém pode saber, entendeu meu dendê?)
Minha tonteira, minha história contundida
Minha confundida, meu futebol, entendeu meu gelo?
Rebola bem meu bem-querer, sou seu improviso, seu karaoquê;
Vem nega, sem eu ter que fazer nada. Vem sem ter que me mexer
Em mim tu esqueces tarefas, favelas, senzalas, nada mais vai doer.
Sinto cheiro doce, meu makulelê, vem nega, me ama, me colore
Vem ser meu folclore, vem ser minha tese sobre nego male.
Vem, nega, vem me arrasar, depois te levo pra gente sambar.”
Imaginem: ouvi tudo isso com calma e sem dor.
Já preso esse ex-feitor, eu disse: “Seu delegado...”
E o delegado piscou.
Falei com o juiz, o juiz se insinuou e decretou pequena pena
Com cela especial pra esse branco intelectual...
Eu disse: “Seu juiz, não adianta! Opressão, barbaridade, Genocídio
nada disso se cura trepando com uma escura!”

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Ó minha máxima lei, deixai de asneira
Não vai ser um branco mal resolvido
que vai libertar uma negra:
Esse branco ardido está fadado
porque não é com lábia de pseudo-oprimido
que vai aliviar seu passado.
Olha aqui meu senhor:
Eu me lembro da senzala
e tu te lembras da Casa-Grande
e vamos juntos escrever sinceramente outra história
Digo, repito e não minto:
Vamos passar essa verdade a limpo
porque não é dançando samba
que eu te redimo ou te acredito:
Vê se te afasta, não invista, não insista!
Meu nojo!
Meu engodo cultural!
Minha lavagem de lata!

Porque deixar de ser racista, meu amor,


não é comer uma mulata!
(LUCINDA, 2007, p. 184-185)

Ela mora num Brasil


mas trabalha em outro Brasil
Ela, bonita... saiu. Perguntaram: Você quer vender bombril?
Ela disse não.
Perguntaram: empresta tuas pernas, bunda e quadris para um clip-exportação?
Ela disse não.
Ela dormiu. Sonhou penteando os cabelos sem querer
se fazendo um cafuné sem querer...
Perguntaram: você quer vender Henê?
Ela disse nããão.
Ficou naquele não durmo não falo não como...
Perguntaram: você quer vender Omo?
Ela disse NÃO!
Ela viu um anúncio da cônsul para todas as mulheres do mundo...
Procurou, não se achou ali. Ela era nenhuma, tinha destino de preto.
Quis mudar de Brasil; ser modelo em Soweto.
Queria ser qualidade. Ficou naquele ou eu morro ou eu luto...
Disseram: Às vezes um negro compromete o produto.
Ficou só. Ligou a tv.
Tentou achar algum ponto em comum entre ela e o free:
Nenhum.
A não ser que amanhecesse loira, cabelos de seda shampoo
mas a sua cor continua a mesma!
Ela sofreu, eu sofri, eu vi.
Pra fazer anúncio de free, tenho que ser free, ela disse.

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Tenho que ser sábia, tinhosa, sutil...
Ir à luta sem ser mártir.
Luther marketing
Luther marketing... in Brasil!
(LUCINDA, 2007, p. 171-172 – o grifo é de minha autoria)
A quase ausência de um discurso da negritude na poesia de Elisa Lucinda parece
decorrer de uma visão que considera o discurso de denúncia da discriminação racial
como uma estratégia negativa na medida em que reafirma a condição de “mártir” dos
negros, apresentando-os como pobres coitados no e pelo processo histórico. Tal
interpretação pode ser inferida do trocadilho com o nome do líder Martin Luther King
Jr. nos cinco versos finais do poema “Ashell, Ashell pra todo mundo Ashell”, onde se
afirma que, para ser livre, é preciso “ir à luta sem ser mártir”. Ao invés do discurso
voltado para a denúncia da exploração e da opressão, o poema sugere ironicamente
como estratégia de luta a apropriação pelos negros das mesmas armas de dominação
utilizadas pelas elites na sociedade de consumo, ou seja, a incorporação das estratégias
de marketing e a busca de inserção no mercado como forma de sobrevivência.
A hipótese acima encontra respaldo em vários aspectos que caracterizam a
produção artística de Elisa Lucinda. Entre eles, o primeiro que salta aos olhos é o uso da
sua imagem pessoal na arte das capas dos livros Eu te amo e suas estréias e o
Semelhante, assim como na separação das partes internas do segundo, que é feita com
fotos que apresentam sua imagem – estratégia de mercado não muito freqüente na
edição de livros de poesia, mas comum na indústria cultural ligada aos mercados
fonográfico, assim como do teatro, do cinema e da televisão. Em outras palavras, a
utilização de imagens do rosto do artista, comum à realidade do show business, é uma
estratégia de marketing incorporada nas edições dos CDs e dos livros de Elisa Lucinda
lançados pela editora Record.
A estratégia de uso da imagem pessoal na capa de seus livros e CDs ganha mais
força mercadológica quando consideramos os fatos de que Elisa Lucinda é atriz de
cinema, teatro e TV. Contribui especialmente para a popularização da sua imagem a
participação em novelas da Rede Globo (Mulheres apaixonadas e Páginas da vida,
ambas de Manoel Carlos) e na Rede Record (Caminhos do coração). Além disso,
realiza espetáculos e workshops pelo Brasil e exterior – ocasiões em que apresenta a
dramatização dos seus poemas, cujo estilo predominantemente dramático condiz
perfeitamente com a realização de recitais e apresentações de palco – e possui, desde
1988, a Escola Lucinda de Poesia Viva na cidade do Rio de Janeiro.
Considerando esse quadro extremamente positivo para a realidade cultural
brasileira, pergunto: teria Elisa Lucinda conseguido publicar suas obras pela editora
Record se não tivesse livre trânsito no meio cultural dos artistas e produtores ligados à
Rede Globo? Teria ela alcançado o sucesso editorial (O semelhante encontra-se na 6ª
edição) e de público para seus espetáculos se não tivesse espaço no meio televisivo e
ainda seguisse a trilha de uma poesia comprometida com algum discurso da negritude?
Questões difíceis de responder com isenção, além de muito delicadas, principalmente
porque entramos no terreno pantanoso das conjecturas... Mas arrisco dizer que a escolha
de uma poesia voltada predominantemente para as temáticas do amor e do erotismo,
deixando de lado delicadas questões sociais como a do preconceito racial e da
exploração e segregação de classes não seja apenas uma escolha afetiva, mas uma
decisão parcialmente (ou bastante?) guiada pelo gosto dominante do grande público,

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assim como pelos interesses da indústria cultural – os quais não costumam divergir dos
interesses das elites dominantes.
O fato, porém, é que apesar da sua aparência negra (indiscutivelmente
reproduzida na sua imagem pública) e de reconhecer-se como tal, Elisa Lucinda não
parece preocupada em se afirmar como afro-descendente em sua poesia e, por
conseguinte, não demonstra um compromisso permanente com uma poética engajada na
luta por uma consciência negra. Conforme vimos, raros são os momentos em que é
possível encontrarmos um sujeito lírico negro assim como a preocupação com o
racismo na sociedade brasileira. Por tal motivo, é discutível e temeroso afirmarmos que
a poesia dela seja um exemplo de “literatura negra” – salvo consideremos que o intenso
erotismo que subverte a moral cristã seja expressão da visão de mundo presente nas
religiões de origem africana. Erotismo pagão e panteísta que, nesse caso, estaria
expressando uma importante dimensão da sua identidade afro-descendente e, por
conseguinte, de um possível discurso da negritude nos dias atuais. Hipótese bastante
plausível, pois esse discurso de afirmação da sexualidade não se encontra marcado pela
idéia judaico-cristã do pecado original, expressando, em contrapartida, valores de uma
cultura que, “sendo essencialmente matriarcal, impõe sua resistência ao machismo” –
conforme observa Luiz Silva (Cuti) em seu artigo “Poesia erótica nos Cadernos
Negros”.
No lugar de uma orientação voltada para a expressão abertamente política e
crítica da negritude, a poesia de Elisa Lucinda encontra-se marcada por uma
religiosidade que considera todos os homens como criados à imagem e semelhança de
Deus, sendo, portanto, semelhantes entre si. É o que podemos ver nos poemas “Na
imagem da semelhança” (LUCINDA, 2006, p. 171-172), Mãe Água (Idem, ibidem, p.
50-53) e em “O poema do semelhante” (LUCINDA, 2007, p. 17-19). Nesse contexto, a
negritude surge de modo sutil, insinuando-se discretamente nas entrelinhas e nas
atitudes cotidianas, especialmente – ao que parece – através da expressão de uma
sexualidade feminina que renega a moralidade coercitiva do discurso cristão. Aliás, a
rejeição à instituição da Santa Igreja Católica, apresentada como hipócrita, é claramente
expressa no poema “Deus chora” (LUCINDA, 2006, p. 177).
O aspecto positivo da sua “poética da semelhança” é que ela abandona a idéia
de “raça” (embora a maioria dos militantes dos movimentos sociais de consciência
negra não concorde), há muito tempo considerado sem valor científico, o que permite
escapar das armadilhas de contribuir para a sua permanência no senso comum, assim
como de elaborar uma resistência que reproduza a atitude de rejeição da alteridade –
atitude que pode levar à elaboração de uma poética e uma identidade de gueto.
Entretanto isso poderia ser feito sem que a autora se restringisse a um ponto de vista
burguês – ou de classe média – que termina por silenciar e/ou ocultar identidades de
classes inferiores, especialmente se pensarmos que a maioria negra ou parda se encontra
nas classes mais baixas da sociedade brasileira. Ao privilegiar quase que
exclusivamente o amor e a sexualidade vivenciados na experiência de cidadã de classe
média e/ou alta, Elisa Lucinda deixa de lado a possibilidade de sua poesia aprofundar a
consciência social e política de seus leitores e especialmente de suas leitoras, uma vez
que desconsidera o fato de a identidade de gênero, a sexualidade e a liberação sexual
dependerem também da variável de classe. É muito fácil pedir para que se pare de falar
mal da rotina – conforme faz no poema “Termos da nova dramática (LUCINDA, 2006,
p. 78) – quando não se mora no subúrbio ou numa favela, quando não se tem que
acordar às cinco da madrugada, pegar vários ônibus ou um trem de metrô lotados para ir
trabalhar numa fábrica (ou em algum subemprego qualquer, como o de doméstica),

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receber um salário miserável e ter que retornar nas mesmas condições, chegando em
casa tarde da noite e extenuada, sem nenhum tesão para fazer amor, conforme podemos
ler no poema “Para além de tesão”, abaixo, do poeta Deley do Acari (apud ZALUAR,
1999, p. 339-340).

E aquela tesão da manhã


que rareou um pouco no dia
na cozinha e no tanque da madame
E aquela tesão da manhã
que rareou mais um pouco ainda
com o sufoco no ônibus Castelo-Acari
sem sequer eu saber se chegava viva ou não
E aquela tesão da manhã
que rareou ainda mais um pouco
com a fome não saciada
pelo pedaço de ovo com macarrão
e feijão requentado pra sobrar
mais um pouco pras crianças
almoçarem amanhã. Dividindo
o pouco, irmão com irmão.
E aquela tesão que pouco a pouco
se rareou mais um pouco
até ser quase só desespero
esse amor feito quase sem gosto
e com muito cansaço até o gozo
misto de orgasmo e aflição
esse amor feito dum outro jeito
de se amar que nos foi preciso encontrar
pra fazermos bem gostoso...
porque só a gente se amando,
se amando muito mesmo
para além das necessidades do espírito
e do corpo ou simplesmente paixão
para conseguir fazer amor gostoso
cansada e quase sem tesão.

4. REFERÊNCIAS

ACARI, Deley do. Poemas. In: ZALUAR, Alba; ALVITO, Marcos. (Org.) Um século
de favela. 2 ed. Rio de Janeiro: Editora FGV, 1999.

BERND, Zilá. Literatura e negritude na América Latina. Porto Alegre: Mercado


Aberto, 1987.

LUCINDA, Elisa. Eu te amo e suas estréias. Rio de Janeiro: Record, 2006.

_______. O semelhante. 6 ed. Rio de Janeiro: Record, 2007.

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HOLLANDA, Heloísa H. O. Buarque de. Esses poetas: uma antologia dos anos 90. Rio
de Janeiro: Aeroplano, 1998.

SILVA, Luiz (Cuti). Poesia erótica nos Cadernos Negros. Disponível em:
http://www.quilombhoje.com.br/ensaio/cuti/TextocriticoErotismoCuti.htm - Acesso em
13 de Junho de 2008.

                                                            
i
 Contato: etlopes@uem.br 
ii
  Comentário feito em mesa-redonda sobre “Teoria da poesia: discussões contemporâneas”, realizada no
XI SILEL e I Simpósio Internacional de Letras e Lingüística, eventos promovidos pela Universidade
Federal de Uberlândia, em 2006. 

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