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A Favela é a nova Senzala

“Todo dia o sol levanta, e a gente canta ao sol de todo


dia” (Canto do Povo de um Lugar, Caetano Veloso)

No dia 20 de novembro, comemora-se o dia da consciência negra. Considerando-se


o dado histórico e lamentável da escravidão no mundo, é inevitável que façamos votos
íntimos de que isso não se repita nunca mais, e de nenhum modo.
Confortavelmente instalado em meu ataúde cerebral, pus-me a degustar
tranqüilamente um copo de leite Parmalat e, enjoado de zapear pela programação dos
canais da Sky, captadas pelo televisor Philips, vesti minhas calças Zoomp, apanhei as
chaves do BMW, comprei um lanche no drive thru do McDonald’s e, depois de andar muito
pelas ruas, abasteci o possante num posto da Texas Corporation – Texaco.
Circunspecto, voltei para o flat e liguei o computador IBM. Desiludido da noite, abri
o Explorer , naveguei por horas na Internet. Finalmente, abri o Word, um dos programas da
Microsoft, e desabafei neste texto: repensei o conceito de invasão bárbara.
Os poetas-compositores brasileiros são perspicazes. Herbert Viana, numa de suas
canções, diz que “a favela é a nova senzala”. Renato Russo, em outra, pergunta-nos, “que
país é este?”. Cazuza profetiza, “eu vejo o futuro repetir o passado, eu vejo um museu de
grandes novidades”. Caetano Veloso, na epígrafe, simplesmente encara essas coisas como
mera rotina. E essa usança nos lembra o compositor Humberto Gessinger, que reverbera
numa de suas letras, “o fascismo é fascinante, deixa a gente ignorante e fascinada”. Todos
eles parecem ter uma mesma razão: mudam os atores – as pessoas se sucedem, nascem e
morrem todos os dias -, mas o texto, o capítulo encenado na história, é sempre o mesmo.
O atentado terrorista nos Estados Unidos desencadeou no Brasil um curioso
atentado cultural. Noticiou-se pela mídia que um brasileiro nato queria que seu filho se
chamasse Osama Bin Laden. Tudo bem, a Constituição preserva a liberdade de pensamento
e, assim, tudo é fazível. Mas como proteger dos colegas o brasileirinho, dizendo-lhes que o
Osaminha não é um menino mau? Cabe lembrar também que é sob o mesmo rótulo da livre
manifestação de pensamento, que a programação das emissoras de televisão e a qualidade
do conteúdo estão nivelados por baixo. Exibem-se o nu em horário nobre, exploram a
violência cotidiana como espetáculo, expõem-se enredos de guerras e vinganças nos
desenhos animados. Será que a programação da TV está a serviço de alguma ideologia?
As grandes navegações do Renascimento são reeditadas via Internet. Impõem-nos
conceitos, palavras e idéias que nos dão a ilusão de propriedade de uma cultura que não é a
nossa. Esquecemos a embolada e o repente do nordeste, e passamos a cantar o funk e o rap.
Com isso, temos que o tema “escravidão” ainda é latente. A prisão ideológica é um
simulacro de liberdade engendrado pelo capitalismo. Suas correntes compõem-se de elos
lingüísticos e digitais, sedimentados pelo merchandising. A moda consumista é um museu
de coisas inúteis à cultura da matriz, e que são de lá deletadas e enviadas pra nós como se
fossem grandes novidades. A matriz neo-colonial exige que enviemos nossos melhores
cortes de carne, as melhores laranjas, os melhores grãos de café e de soja, além de deixá-los
cuidar da floresta amazônica e patentear nossas plantas medicinais.
O dia da consciência negra deve ser também o dia da consciência brasileira. Ou
colocamos a palavra “conscientização” realmente em prática, ou teremos de nos contentar
com a política das ações afirmativas e ver perpetuar-se nas favelas o estigma retórico da
falsa extinção das senzalas.

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