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Porque a Alegria Acabou, Piquito?

“Se Deus me pôs na terra para trazer alegria, para fazer rir, para ser um
palhaço engraçado, vocês podem ter a certeza que isso eu fiz. E com muito
amor”.
(Piquito, Poloni - SP, 23 de Maio de 2002)

Conversando com um amigo, um dia desses, num evento musical, ele contou-me uma história linda.
É bela não porque é diferente. Seu, encantamento, deveras, está justamente na revelação óbvia daquilo que
mais nos falta hoje em dia: a trajetória da alegria.
A história relata a vida de Osmar dos Santos, que nasceu em Campo Largo - PR, em uma barraca de
circo mambembe, em 31 de maio de 1934. Descendente de pais e avós circenses, aos 04 anos seu pai já o
vestia e pintava à maneira tradicional dos palhaços. Aos 05 anos foi escolhido para interpretar seu primeiro
papel em uma peça teatral no circo.
Devido ao fato de as escolas não aceitarem crianças nômades – e até mesmo por um certo
preconceito –, nunca freqüentou o banco escolar, fato esse que lhe abriu as portas do mundo, onde
encontrou o autodidatismo total.
Driblando as encruzilhadas da vida, Osmar, aos 16 anos e já atendendo por Piquito, apreendeu e
viveu a essência do circo. Tornou-se, então, o palhaço oficial, ou seja, a alma do circo. Ao lado dessa
condição, desenvolveu as habilidades de acrobata, trapezista, malabarista, equilibrista, enfim, conheceu
tudo aquilo que a prática circense pudesse lhe ensinar.
No curso normal da trajetória da alegria, faltava a Piquito, entretanto, o domínio da secreta arte de
fazer gente sorrir. Queria aprendê-la. Afinal, pensava, havia professor para tudo, porque não haveria para o
ofício de palhaço. E não o encontrou. Aos poucos foi aprendendo que ser palhaço é uma condição de
nascença, uma espécie de sina que só acompanha alguns predestinados, é uma espécie de estrela-guia.
Em seu íntimo, com o passar do tempo, adivinhou três qualidades básicas para obter sucesso na
profissão que adotara: dom, inteligência, e presença de espírito.
Para o autodidata Piquito, ter dom para ser palhaço é o mesmo que saber transformar um
personagem normal em algo fantástico, incrível. Ter inteligência resumir-se-ia no saber fazer do
constrangimento a matéria-prima do riso. E a presença de espírito, sintetiza o palhaço, consistiria no
domínio consciente da magia, do surpreendente e do encantamento que ainda habitam o íntimo do homem,
fazendo-o esquecer-se que cresceu, e lembrá-lo de que ainda pode ser criança, bastando, para isso, que
sorria, sorria de tudo, e, principalmente, que sorria muito de si mesmo.
Piquito ainda guarda na memória um pouco dos rastros históricos dos pequenos circos. Eles estão
acabando, diz. No entanto, é com nostalgia que ele recorda a década de 50, quando os circos, ao chegarem
nas cidades, se constituíam no maior evento do ano. As cidades paravam, as praças se enchiam de gente
disposta a ser feliz. Precisamos continuar dispostos a ser felizes.
Refletindo sobre esse passado glorioso, Piquito revela uma lucidez crítica que transcende sua
condição fanfarrona de palhaço, alcançando os bastidores da seriedade filosofal. Acredita Piquito que
diversos fatores contribuíram para que o circo se encontre nessa situação atual de decadência. Dentre essas
razões, ressalta a chegada maciça da televisão, a partir dos anos 70, e os altos custos atuais de manutenção
de uma troupe de bons artistas. Os pequenos circos, lamenta o palhaço, estão em extinção, os grandes,
conclui, conseguem sobreviver às custas de muito patrocínio.
Hoje, depois de 52 anos “pintando a cara” (como se diz no jargão do circo), e, há 10 anos fora da
vivência rotineira do picadeiro, faz pequenas apresentações nos circos que ainda resistem e rastejam
temporariamente pela região. No baú da vida, entretanto, guarda com muito carinho a roupa de palhaço, a
bengala, o chapéu, o nariz vermelho e o sapatão, que aguardam ansiosamente o momento da chamada
ancestral que eternamente soará em seus ouvidos: “respeitável público, com vocês, Piiiiquiiiiitoooo!”... e
também se ouve, mentalmente, o som da banda tocar a conhecida melodia do proscênio.
Enquanto isso, nossos olhos de criança sorriem de alegria, e o olhar adulto lacrimeja de saudade.

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