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Caça, Caçador e Alienação

É interessante observar as pessoas comendo. Outro dia, num rodízio, enquanto o


garçom arrumava a mesa, ajeitava os talheres, e tudo mais, lancei meu olhar à toa em
direção aos comensais desprevenidos. Aquilo me pareceu orgíaco e lambuzado.
Nada há de comum e, paradoxalmente, de sobrenatural no ato de alimentar-se. O
ritual alimentar é um dos mais antigos. O que mudou é a aparência da perversidade que a
sociedade civilizada agregou a ele: a alienação do caçador em relação à caça.
Imaginem como não seria, lá nos idos da idade da pedra, quando o homem saía para
caçar. Empunhava seu machado de pedra, vestia sua pele de urso, envenenava as pontas de
suas zarabatanas, bebia líquidos mágicos e dançava movimentos rituais para atrair boa caça
e saía totalmente encorajado da caverna, pronto para matar ou morrer.
O curioso é que parece que nada mudou e tudo está diferente. Hoje e ontem está
tudo estranho e igual. A diferença, entretanto, é que no passado, todo o ritual era executado
pelo caçador, do começo ao fim. Atualmente, parte do ritual foi terceirizado. O matadouro
mata e limpa o animal a ser comido. A churrascaria tempera e assa. O garçom serve e
recebe a conta. O comensal, não empunha a zarabatana, palita os dentes.
O problema é que a figura do caçador ficou muito diluída. O papel de caçador está
distribuído na atuação de vários atores. E isso se torna um problema, na medida em que nos
esquecemos que o homem é um animal. Pode até ser classificado como racional, mas, ainda
assim, é animal. E, na condição de animal, não quer ser alimentado, quer caçar.
Alienado precocemente da satisfação de seus instintos, o homem desvia essa
natureza para ser satisfeita em outro apetite. Pratica esportes radicais, crimes, é perdulário,
promíscuo. Enfim, exercita tudo o que possa parecer a seu cérebro animal como uma
compensação pela civilização imposta anacrônica e artificialmente pela força do progresso.
Apartado de sua condição de caçador selvagem, o homem vai aos rodízios e tenta
satisfazer seu apetite de caça com garfo, faca e guardanapo. Usa roupas apertadas, cinto de
couro, sapatos de pelica, calças jeans. Não chega ao local do banquete de cipó, não faz mais
armadilhas para capturar a presa. Enfim, ele, o próprio homem, tornou-se presa de sua
comida e de sua máquina social de civilização artificial.