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Homens e Deuses: um conflito de atitudes

Simão, como fazia todos os dias, se levantou às seis horas da manhã para trabalhar.
Mal viu o café da manhã sobre a mesa. Sueli, sua esposa, como sempre, o fizera com muito
carinho. No entanto, ele passou pela porta do quarto das crianças com a mesma pressa com
a qual passou pela mesa, e, aos gritos, deu um aceno de adeus, saindo com o carro pelo
portão, no jardim defronte à casa.
Dirigindo apressadamente, Simão distraiu-se e passou por um semáforo fechado.
Nem se deu conta disso. Virou pela contra-mão numa viela próxima do centro da cidade, ao
lado da guarita da Polícia Militar. Era um atalho. Sempre fazia o trajeto. Não notou que
havia uma viatura estacionada na esquina da conversão proibida e que um policial emitia
uma multa para um outro distraído e, por esta razão, saiu novamente ileso.
Seu dia não podia começar melhor. Tanta sorte não era de se rejeitar. Iniciou seu
expediente e percebeu que um colega de trabalho, que operava a prensa ao lado da sua,
estava muito preocupado. Como eram amigos de longa data, aproximou-se e, com jeitinho,
fez com que o amigo lhe contasse o que se passava.
Jorge lhe disse que havia sido demitido há 18 dias e que estava apenas cumprindo os
dias finais do aviso prévio. Confessou-lhe também que as coisas não iam bem em casa e
que, para complicar ainda mais a situação, sua esposa o evitava, os filhos brigavam e, quase
todos os dias, desde que passara a cumprir o aviso prévio na empresa, distraía-se ao trânsito
e que constantemente tem levado pesadas multas.
Simão afagou Jorge num abraço. Pediu que fossem juntos, os dois e as famílias de
cada um também, a uma igreja. Jorge estranhou o convite do amigo, pois Simão nunca ia a
igrejas e demonstrava acreditar pouco em “coisas” espirituais. Entretanto, Simão explicou-
lhe que, em momentos assim, não é importante mostrarmos a Deus o tamanho de nossos
problemas, mas aos nossos problemas o tamanho do nosso Deus. Simão, falando assim ao
amigo, que, a essa altura da conversa já o olhava com lágrimas nos olhos, tentava prestar
bastante atenção no que dizia.
No outro dia pela manhã, Simão levantou-se mais cedo, abriu a janela do quarto,
olhou para as estrelas que ainda resistiam ao romper do dia no céu, agradeceu à beleza de
mais um amanhecer, sentou-se com a esposa, saboreou o melhor café da manhã de sua vida.
Passou pelo quarto dos meninos, beijou a testa de cada de cada um. Ajeitou-lhes a coberta,
apagou o abajur. Despediu-se da esposa com um abraço apertado.
Chegando àquela curva, notou uma confusão de viaturas e ambulâncias. Porém,
desviou-se do tradicional trajeto e chegou ao serviço. A sirene soava. Ia começar novo dia
trabalho. Poucos minutos depois, o encarregado da repartição desliga a chave geral das
máquinas. Reúne todos os funcionários e comunica que naquele dia não haverá expediente
pela manhã. Jorge havia morrido num acidente. Fora tolhido por um caminhão tanque,
quando tentava chegar mais rapidamente seguindo pela contra-mão do fluxo de trânsito, na
ruela próxima à Fábrica.
Chorando silencionsamente, Simão pensou que, às vezes, a vida parecia injusta.
Refletindo consigo mesmo, pensou que em algumas situações, não bastava o homem
acreditar em Deus, mas que era preciso fazer com que Deus acreditasse nas atitudes
renovadoras do homem.

Marcelo Pessoa
Mestre em Letras e Professor Universitário

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