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LUZES, CÂMERA, AÇÃO!

É interessante tentar desmontar a máquina que sustenta o status do ídolo popular.


Muitas vezes, chegamos a atribuir virtudes extraordinárias aos nossos heróis. Fazemos isso
constantemente com a classe artística. Ou ainda, basta que um cidadão comum apareça na tela
da televisão, umas poucas vezes, que, imediatamente, passamos a manifestar por ele um
comportamento de idolatria e reverência: eis um novo superastro. Imagine-se, então, do que
não somos capazes de realizar diante de nomes já consagrados.
Dia desses, na condição de professor do curso de Jornalismo da Unorp, em São José
do Rio Preto, fui convidado a acompanhar alunos do respectivo curso em uma excursão aos
estúdios da TV Globo, São Paulo, a fim de que, lá, pudéssemos participar das gravações de
duas edições do Programa do Jô Soares. Uma delas exibida no dia 27/08 e, a outra, no dia
29/08/2002.
Apesar de toda a festa que tínhamos vontade de fazer, devido ao impulso de uma
euforia derivada da possibilidade de satisfação da curiosidade, procurei orientar aos alunos
sobre as particularidades que envolviam as gravações, sobre como se comportar com
eficiência para poder tirar o melhor proveito da visita aos estúdios. Enfim, na condição de
alunos de Jornalismo, orientei-os para que esquecessem um pouco a festa e se
conscientizassem da oportunidade única que lhes estava sendo proporcionada.
A nossa melhor expectativa era a de que os alunos pudessem fazer um passeio pêlos
estúdios globais e que verificassem pessoalmente aspectos que eventualmente dessem uma
melhor qualidade à sua formação profissional, que conversassem com os profissionais que já
atuam no meio, etc. Não foi possível. A equipe de seguranças impedia qualquer
movimentação brusca ou que não estivesse prevista. Não se podia caminhar pêlos
estacionamentos, não se podia permanecer na porta do estúdio, não era permitida a
permanência de pessoas não-fumantes na área de fumantes. Enfim, sair do estúdio era
praticamente proibido, a não ser que alguém pretendesse ir embora sem participar das
gravações. Ficamos nessa condição na sala de espera por aproximadamente quatro horas,
antes de ser dado o sinal verde para a entrada ao estúdio 3.
O sexteto foi bem intencionado. O grupo de músicos que acompanham as gravações
do Programa do Jô brincou com a platéia, que-brando o gelo, fazendo piadinhas,
descontraindo, criando um clima mais amistoso e festivo para o início das gravações.
Surge, de repente, uma voz do além: atenção estúdio, gravando! Começamos a bater
palmas, conforme o combinado com a produção. Sentimo-nos como ratos de laboratório. Os
músicos tocando. Entra o Jô Soares, cumprimenta a platéia. Fala com a câmera, grava trechos
de sua apresentação do programa. Interrompe-se. Grava-se. Repete-se. Acaba-se.
Enquanto Jô Soares entretém a platéia, aproximando-se e elogiando o nosso
comportamento festivo durante as gravações, agradecendo nossa importantíssima participação
e reiterando desejos de que pudéssemos voltar um outro dia, o sexteto desaparece
estrategicamente pêlos fundos do cenário através de saídas laterais. Jô Soares lança o famoso
"beijo do gordo" para a platéia, à essa altura, atônita e catartizada em tomo da esperança de
poder realizar, a qualquer momento, um contato imediato de 1° grau com o ídolo. Mas isso
não aconteceu. O Jô virou-se e, tchau, tchau. Rodeado pela produção e por seguranças, saiu de
cena, levando consigo as últimas esperanças do público.
Os artistas, de um lado, não têm que ser redentores ou contempladores de desejos dos
fãs. No entanto, de outro lado, as pessoas que ali estavam não estavam de favor. Deixaram um
dia e meio de suas vidas para participar das gravações. Os alunos de Jornalismo da Unorp
viajaram durante a madrugada, faltaram do serviço, bancaram os custos todos da viagem e da
própria alimentação. Queriam apenas saber como aquilo tudo funcionava, além de entrar em
contato com bons exemplos de brasileiros. Sim, porque o acesso aos maus exemplos lhes é
sempre garantido.
Resultado. Não pudemos tirar fotos com nossos ídolos, os futuros jornalistas não
puderam conhecer os bastidores dos estúdios. E, de quebra, tivemos a sensação de não ter
participado ao vivo do programa, uma vez que a atuação da platéia ficou restrita ao status de
massa de manobra, ou seja, adquiriu um caráter utilitário, servindo apenas para ilustrar as
gravações com palmas treinadas, risinhos e desilusões.

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