Вы находитесь на странице: 1из 123

Apresentação

E ste é o seu livro de História do Brasil. Nele,


você encontrará os textos que serviram de base para os programas de TV.

Como aproveitar ao máximo este livro?

A primeira coisa que as pessoas que gostam dos livros fazem quando
compram um é folheá-lo sem pressa, sem maiores compromissos.

Sugerimos que você faça isso. Passe os olhos nele despretensiosamente.


Veja como as aulas estão organizadas.

Já nesse primeiro contato, você perceberá que as aulas seguem um


determinado modelo. Todas elas são divididas em seções. Há também algumas
interrupções no texto.

Vejamos o que significa cada uma das seções e o porquê dessas interrupções.

Cada aula é dividida em três seções.

l Na primeira seção, Abertura


Abertura, está enunciado o tema da aula. Muitas
vezes, um documento de época abre essa seção. Leia com atenção esse
documento. Nele estão contidas as questões que serão desenvolvidas no
decorrer da aula. Outras vezes, as aulas começam contando um determinado
caso que se relaciona, de alguma forma, com o tema da aula.

l Na segunda seção, Movimento


Movimento, o tema da aula é desenvolvido. Ali
aparecem os agentes sociais em ação, em movimento. O texto, em geral,
é dividido em três ou quatro itens. Em cada um deles, procura-se explorar
um determinado aspecto do tema. É também nessa seção que o texto sofre
algumas interrupções
interrupções, que têm por objetivo levar você a pensar sobre um
determinado assunto relacionado ao tema da aula:

® Em cada Pausa
Pausa, você encontrará um exercício-desafio para responder.
Consulte seus colegas e companheiros. Comente e discuta suas respostas.
Como diz o ditado, “duas cabeças pensam melhor que uma”...
® Em cada Em Tempo
Tempo, procuramos acrescentar alguma informação que
seja importante para o entendimento do texto. Por exemplo: dados
numéricos, trechos de documentos históricos significativos e assim por
diante.

l Com a terceira seção, Últimas Palavras


Palavras, finalizamos o texto e levamos
você para o tema da próxima aula.

Você vai reparar também que em todas as aulas há algum tipo de


ilustração: mapas, desenhos, fotografias. Todo esse material também
é importante para o seu estudo. Às vezes, uma boa imagem vale por muitas
palavras.

Queremos que você fique atento à interação entre texto e ilustrações.


Há algumas ilustrações que são importantes documentos de uma determinada
época.

É preciso que você as explore em seus mínimos detalhes. Perceba a época


em que a ilustração foi produzida, e guarde na memória o seu autor. Essas
ilustrações são patrimônios da nossa cultura. Cuidar delas e valorizar seus
autores é preservar nosso patrimônio.

Finalizado esse contato inicial com o seu livro, esperamos que você faça
muito bom proveito dele. Aceitamos, de bom grado, críticas, elogios e sugestões.

Os autores

REALIZAÇÃO - Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea


do Brasil (CPDOC) da Fundação Getúlio Vargas.

COORDENAÇÃO GERAL DO PROJETO - Helena Bomeny

CONCEPÇÃO E SUPERVISÃO - Aline Lopes de Lacerda, Américo Freire,


Helena Bomeny, Marly Silva da Motta, Mônica Almeida Kornis

AUTORES DO VOLUME 1 - Américo Freire, Helena Bomeny, Marly Silva da Motta

AUTORES DO VOLUME 2 - Alexandra de Mello e Silva, Alzira Alves de Abreu,


Américo Freire, Celso Castro, Dulce Pandolfi,
Fernando Lattman-Weltman, Letícia Pinheiro,
Marieta de Moraes Ferreira, Mário Grynszpan,
Mônica Almeida Kornis, Mônica Velloso

EDIÇÃO DO TEXTO ORIGINAL: Dora Rocha


A UA UL L AA

1
1
INTRODUÇÃO

Que História é essa?

Nesta aula Quem é você? Qual seu nome completo?


Qual a data de seu nascimento? Qual o número da sua carteira de
identidade? E da sua carteira de trabalho? E do seu título de eleitor?
Calma, calma. Isso não é um interrogatório, nem o preenchimento de
uma ficha de dados pessoais. São apenas perguntas que nos levarão a
entender o sentido desta aula.
Vamos pensar nessas perguntas... As respostas a todas elas encon-
tram-se em documentos escritos que informam sobre a sua vida. Esses docu-
mentos localizam seu nascimento no tempo e no espaço ; dão-lhe um número
com o qual você se identifica em todo o Brasil e para toda a vida; informam
para quem, onde e por quanto tempo trabalhou e qual o seu trabalho; dizem se
você é ou não um cidadão brasileir o e se está em dia com as obrigações
eleitorais. Enfim, fornecem dados sobre sua vida pessoal e sobre sua
história - a sua história de vida.

Sua história através do tempo

Com as informações que se encontram nesses documentos podemos saber


quando começa a vida de uma pessoa e quanto tempo passou desde que ela
nasceu. Esse tempo pode ser representado por uma linha: a linha do tempo da
vida dessa pessoa, que começa na data do seu nascimento. Vamos ver um
exemplo: Maria da Conceição nasceu em 1960, na Bahia. Em 1974, começou a
trabalhar com carteira assinada. Em 1985, mudou-se para São Paulo. Em 1990,
casou-se. E, em 1992, teve uma filha.

NASCIMENTO CASAMENTO

85 - MUDANÇA
74 - 1 º EMPREGO PARA S.PAULO 92 - FILHA

1 1 1 1
9 9 9 9
TEMPOTEMPOTEMPOTEMPOTEMPOTEMPOTEMPOTEMPO
6 7 8 9
0 0 0 0
Nessa linha do tempo, você poderá identificar os anos em que acontece- A U L A
ram fatos importantes para a vida de Maria da Conceição, para a história dela.
É claro que outros acontecimentos marcaram sua vida, pois esses foram
apenas exemplos. Alguns podem ter ocorrido em um mesmo ano, tornando esse 1
ano mais importante que outros.
Há também períodos que duram mais de um ano e que, por determinados
fatos, tornaram-se fundamentais para a história da vida dela. Podem ser anos ou
meses, ou até mesmo décadas (períodos de dez anos), em que aconteceram
mudanças importantes. Exemplo disso seria todo o tempo em que viveu na
Bahia e os anos que já mora em São Paulo. Tudo isso pode estar assinalado na sua
linha do tempo.

A história das sociedades

Da mesma forma que imaginamos uma linha do tempo para cada história
individual, podemos fazer uma linha para a história de uma sociedade, a
história de um povo. Assim como as pessoas, os grupos sociais (os povos) têm
sua história.
Como é muito mais longa que a história de uma só pessoa, a linha do tempo
da História normalmente não é marcada com anos, e sim com séculos , que
são períodos de cem (100) anos.
Costumamos numerar os séculos em algarismos romanos.

V A M O S R E C O R D A R O S ALGARISMO S R O M A N O S :

I ............... um VIII .......... oito XV ........... quinze


II .............. dois IX ............. nove XVI .......... dezesseis
III ............. três X .............. dez XVII ........ dezessete
IV ............. quatro XI ............. onze XVIII ....... dezoito
V .............. cinco XII ........... doze XIX .......... dezenove
VI ............. seis XIII .......... treze XX ............ vinte
VII ........... sete XIV .......... catorze XXI .......... vinte e um

O nascimento de Cristo é o marco inicial do nosso calendário, do calendário


que utilizamos para marcar o tempo. Portanto, o ano de 1960 está dizendo que
se passaram mil novecentos e sessenta anos desde que Cristo nasceu. Essa data
corresponde ao tempo que ficou conhecido como Era Cristã.

TEMPOTEMPOTEMPOTEMPOTEMPOTEMPOTEMPOTEMPO
7 6 5 4 3 2 1 0 1 2 3 4 5 6 7

ANTES D E CRISTO DEPOIS D E CRISTO


¬ A.C. D.C.
®

NASCIMENTO D E CR I S T O
A U L A As datas e os séculos

1 Agora que você sabe o significado de uma data e o que é um século, tente
responder a esta pergunta: como se sabe a que século pertence determinado ano?
Observe a linha de tempo abaixo:

MARCO ZERO
NASCIMENTO
D E CRISTO

SÉCULO I 100 SÉCULO II 200 SÉCULO III 300

TEMPOTEMPOTEMPOTEMPOTEMPOTEMPOTEMPOTEMPO
1 101 201

Como você pode ver, o marco zero é assinalado pelo nascimento de Cristo.
Passados cem anos (do ano 1 ao ano 100), temos o primeiro século do nosso
calendário - o século I. Do ano 101 ao ano 200, o segundo século - o século II. E
assim por diante.
O século é, portanto, uma centena de anos. Em vez de dizer "cem anos",
dizemos "um século"; 1.000 anos são 10 séculos; 1.500 anos são 15 séculos.
O século começa sempre no ano que termina em 01 01; e o século acaba quando
se completa a centena, que termina em 0000.
Para saber a que século pertence uma data, precisamos apenas verificar
quando se completará a centena.
Por exemplo, o ano da Independência do Brasil é 1822: no final daquele
século tivemos o ano de 1900, com dezenove centenas. Então, o ano de 1822
pertence ao século XIX, que começou em 1801 e terminou em 1900.
A descoberta do Brasil pertence ao século XV, porque 1500 é o ano em que
terminou o século XV.
Vamos ver a linha do tempo na História do Brasil e localizar nessa linha o ano
de 1822:

TEMPOTEMPOTEMPOTEMPOTEMPOTEMPOTEMPOTEMPO
XV XVI XVII XVIII XIX XX

BRASIL COLONIAL 1822 B R A S I L I N D E P E N D E N T E

SÉCULO XIX 1900

1822

1801
Estamos no século XX, quase chegando ao século XXI... Pense, agora: em A U L A
que ano chegaremos ao século XXI?
O século XXI começará no dia 1º de janeiro do ano 2001.
1
O que é História, afinal?

Até agora, falamos de História e de histórias de vida. Mas que História é essa
a que nos referimos com H maiúsculo? Afinal, o que é História?

História é o estudo da vida dos seres humanos em sociedade, ao longo do tempo.

Quer dizer, não se trata da vida de cada uma das pessoas, mas da vida dos
grandes grupos sociais que essas pessoas formam. Por isso, a História é
considerada uma ciência social.
Mas, o que interessa para a História? Interessa entender tudo o que fazem,
pensam ou realizam as pessoas dessas sociedades, desses grupos ou desses
povos. A História se interessa por todas as atividades humanas, por tudo aquilo
que as pessoas fazem, em grupo, durante a sua vida.
E a História estuda essas pessoas no tempo, isto é, os seres humanos e sua
vida em sociedade nas diferentes épocas. E também estuda essa gente no
espaço , ou seja, nos diferentes lugares em que vivem.

DIVISÃO DA HISTÓRIA GERAL

Para facilitar o estudo da História da Humanidade, costuma-se


dividi-la em períodos:
l Idade Antiga - Do aparecimento da escrita até o fim do Império
Romano Ocidental.
l Idade Média - Desde o fim da Idade Antiga até o fim do Império
Romano Oriental.
l Idade Moderna - Desde o fim da Idade Média até a Revolução
Francesa.
l Idade Contemporânea - Desde a Revolução Francesa até hoje.

TEMPOTEMPOTEMPOTEMPOTEMPOTEMPOTEMPOTEMPO
ANTIGA MÉDIA MODERNA CONTEMPORÂNEA

C E R C A D E 4000 A . C . 476 D .C. 1453 1789 HOJE


NASCIMENTO
D E CRISTO
A U L A

Fontes históricas
Nobres ou
escravos, Lembre-se do início desta aula. Seus documentos fornecem informações do
indígenas, brancos tempo e do lugar em que você nasceu. Então, eles fornecem informações sobre
ou negros, homens
a sua história. Os documentos escritos dão importantes informações para a
ou mulheres, todos
fazemos a História. Eles servem tanto para a sua história de vida quanto para a História de
História da uma sociedade ou de um povo. As informações escritas que são deixadas por
humanidade. grupos sociais revelam sua maneira de viver, de se identificar, de pensar, de se
Nesta colagem de divertir, de falar, de rezar e até de morrer.
ilustrações, foram Para quem quer conhecer a História desses grupos sociais, é fundamental ler
reunidas pessoas com atenção os documentos ou registros escritos por eles. Esses documentos são
que, como você, chamados fontes. São as fontes escritas.
fazem a História
Porém, nem só pelos documentos escritos se conhece a História de uma
do Brasil.
sociedade... Há outros tipos de fonte.
A História pode ser conhecida pelas lendas e canções que ficaram na
memória das pessoas e que passam de pais para filhos. A História de um povo
pode ser conhecida também por pinturas, esculturas e desenhos produzidos por
ele. Por fotografias, filmes, poesias que se sabem de cor e até pela maneira de
construir uma casa ou uma cidade. Pela arquitetura de suas igrejas, pelas roupas
que usavam. Todas essas coisas falam da História de um povo povo. Enfim, quase
tudo na vida tem a ver com a História...
Se todos esses elementos da vida das pessoas em sociedade interessam à
História e fazem parte dela, quer dizer que todos os homens e todas as mu-
História. Todos fazemos a História!
lheres fazem História
E que História é essa? A U L A

Se tudo é História, se todos fazemos História, como escrever ou estudar a


História? 1
Todo estudo, toda ciência, todo conhecimento se faz a partir do trabalho de
muitas pessoas que, ao longo do tempo, foram se dedicando a essa atividade.
Os cientistas sociais que se dedicam ao estudo da História são os historia-
dores. Eles escrevem a História a partir das perguntas que formulam sobre o
passado. Essas questões são uma forma de tomar consciência do que se vive hoje
e do que se viverá.
Elas não são sempre as mesmas, pois mudam a cada nova época ou
conforme os interesses e a especialidade do historiador. Os historiadores buscam
respostas pesquisando as fontes históricas.
São as fontes de época que lhes fornecem as pistas para responder aos
problemas históricos que formulam. Portanto, se as perguntas mudarem,
mudarão também os temas e a forma de contar a História. Uma nova pergunta
pode alterar toda a visão que determinada sociedade tinha do seu passado.
E nós, a que perguntas vamos responder no nosso curso?
Vamos tentar responder por que você tem uma certidão de nascimento
e um título de eleitor da República Federativa do Brasil, e por que você é um
cidadão brasileiro.
Será que no mundo todo sempre existiram países e cidadãos? Desde
quando existem na História os cidadãos brasileiros? Será que eles sempre
tiveram os mesmos direitos e deveres? Será que sempre existiu um país
chamado Brasil? Afinal, o que querem dizer as palavras cidadão e cida-
dania , tão faladas hoje em nosso país?
É o que veremos a partir da próxima aula. Ela abre nossa primeira Unidade
de estudos, que trata do Brasil Escravista e começa quando ainda não existiam
nem Brasil nem cidadãos brasileiros na História do mundo.
Esperamos que você goste de conhecer a História do Brasil, que é também
a sua História, a História que você faz ao trabalhar, estudar e viver no nosso país.

6
Todas as nossas aulas terminarão lembrando que o tempo não pára . Esta O tempo
parte será uma espécie de “cenas dos próximos capítulos”, mostrando que não pára
aquilo que estudamos em cada aula ajuda a entender o que veremos nas aulas
seguintes. Precisamos separar os tempos e os temas para estudar a História, mas
não podemos esquecer que, na realidade, a História é uma construção contínua
do relacionamento de todas as pessoas que a viveram, em cada época.

6
Exercícios
A U L A Relendo o texto

1 Nesta parte, você deverá fazer exatamente o que o título anuncia: reler o
texto. Você vai perceber que uma segunda leitura é sempre melhor que a
primeira, especialmente quando voltamos ao texto com algumas perguntas na
cabeça. Estudar História é aprender a perguntar. Vamos experimentar?
1. Releia A história das soci edades e responda: O que é um século? O que
sociedades
adotamos para marcar o século I? Por que estamos no século XX?
2. Releia Fontes históricas e responda: Por que os documentos escritos são
importantes para a História? Que outros tipos de fonte , além dos docu-
mentos escritos, são utilizados pelos historiadores?
3. Releia E que História é essa? e retire do texto trechos que falem sobre
como o historiador trabalha.
4. Dê um novo título a esta aula.

Fazendo a História

Nesta parte, você deverá imitar o historiador e construir o conhecimento


histórico. Para isso, oferecemos a você uma boa pergunta e alguns documentos
escritos de época. Vamos experimentar? De que século estamos falando?
1. Pero Vaz de Caminha escreveu ao rei de Portugal, em 1º de maio de 1500
1500,
sobre certas terras no Novo Mundo, às quais havia chegado a esquadra
comandada pelo navegador português Pedro Álvares Cabral:
“Pelo sertão nos pareceu, vista do mar, muito grande, porque,
a estender olhos, não podíamos ver senão terra com arvoredos
que nos parecia muito longa. Nela, até agora, não pudemos
saber que haja ouro, nem prata, nem coisa alguma de metal ou
ferro, nem lhos vimos. Porém a terra em si é de muito bons
ares, assim frios e temperados. As águas são muitas; infindas.
E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-
se-á nela tudo, por bem das águas que tem.”
Isso foi no século ..........
2. Em 13 de maio de 1888
1888, a Princesa Regente do Império do Brasil assinou a
seguinte lei:
“É declarada extinta a escravidão no Brasil. Revogam-se as
disposições em contrário.”
Isso foi no século ..........
3. Em 1988
1988, uma Assembléia Nacional Constituinte promulgou a atual Cons-
tituição do Brasil, que diz, em seu artigo 6º:
“São direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, o lazer,
a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e
à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta
Constituição.”
Isso foi no século ..........

6
AUU
A L AL A

2
2
MÓDULO 1
O encontro de
dois mundos

V amos falar de um tempo em que não havia Apresentação


Brasil nem brasileiros, como os entendemos hoje. Há milhares de anos, do Módulo 1
diversos povos indígenas viviam nas terras que formam o Brasil atual. Na
Europa, no século XV, o reino de Portugal avançava pelo mar em busca de
riquezas e de aventuras. Na África, povos muito antigos entravam em
contato com os europeus. E, no século XVI, a história de toda essa gente
acabou por se misturar, dando origem a uma nova sociedade na América.

Esta é a primeira aula de História do Brasil. Hoje, todos sabemos que Nesta aula
moramos num país chamado Brasil e que somos brasileiros. Nosso país fica na
América do Sul. Todos os brasileiros falam a mesma língua. Mas por que os
brasileiros, que moram na América do Sul, falam a mesma língua de quem nasce
em Portugal, que fica na Europa?

A Europa na Época Moderna

Para começar, vamos conhecer um pouco melhor o Portugal e a Europa de


uma época em que os europeus nem imaginavam que houvesse tanta terra do
outro lado do oceano Atlântico.
No século XV (1401-1500) - há cerca de quinhentos anos, portanto - a Europa
passava por grandes transformações nos modos de viver e pensar de seus
habitantes. Essas transformações eram tão marcantes que os próprios europeus
daquele tempo consideravam que estavam vivendo em uma nova era: a Época
Moderna. Que transformações eram essas e que tipo de novidades traziam?
Após séculos de insegurança, provocada principalmente por guerras que
haviam devastado a Europa, os europeus podiam deixar os castelos fortificados
sem medo de serem feridos e mortos. Com o final das guerras, também di-
minuíam os problemas da fome e das pestes. A produção agrícola crescia e, com
ela, a população européia.
A U L A O mercantilismo

2 O comércio com o Oriente, dominado pelos italianos e também pelos árabes,


trazia lucros enormes. Moedas de ouro e prata circulavam pelo mar Mediterrâ-
neo. Os europeus entravam na chamada Era Mercantil. As medidas tomadas
pelos governos da época tinham como objetivo aumentar a riqueza do país, o
que, naqueles tempos, significava acumular ouro e prata por meio da atividade
comercial. Isso ficou conhecido como política mercantilista .
Os reis da Época Moderna concentraram um poder absoluto em suas mãos.
Associando-se comercialmente com os burgueses e militarmente com os nobres,
tratavam de estimular tudo que trouxesse riqueza aos cofres reais.

Muitas transformações

Deus e a Igreja Católica dominavam a maneira de pensar dos europeus que


viveram há quinhentos anos. Porém, desde o século XIV, homens ligados ao
mundo da cultura, às universidades e à literatura defendiam o estudo das
ciências relacionadas ao ser humano. Exemplo disso é a História.

O Humanismo Esse movimento, conhecido como Humanismo, acabou por influenciar ou-
tros acontecimentos da vida dos europeus. O Homem, assim com H maiúsculo,
entendido como o ser humano de maneira geral, foi colocado no centro das
atenções. Intelectuais, médicos, artistas e religiosos começaram a se interessar
por ele, a pintá-lo, a descobrir como funcionava seu organismo e como funcio-
nava a natureza.

O Renascimento O Renascimento Cultural, que começou na Itália e depois se espalhou pela


Europa, foi um dos movimentos que sofreu a influência do Humanismo. Vários
de seus artistas ficaram muito conhecidos no mundo inteiro. Por exemplo: o
inglês William Shakespeare escrevia peças de teatro, como Romeu e Julieta, que
eram representadas nas ruas para um grande número de pessoas.

A Reforma protestante Ao mesmo tempo, muitas pessoas mostravam-se contrárias às regras


estabelecidas pela Igreja Católica Romana. Esse descontentamento deu origem,
no século XVI, à Reforma protestante , da qual surgiram as chamadas Igrejas
Protestantes. Entre outras, destacaram-se a Luterana, a Calvinista e a Anglicana.

A Contra-Reforma A Igreja Católica reagiu e adotou algumas reformas para impedir que o
protestantismo crescesse ainda mais. A reação da Igreja Católica ficou conhecida
como Contra-Reforma . Por isso foi criada a Companhia de Jesus, formada por
padres chamados de jesuítas, que se tornou muito importante, espalhando a fé
católica por todo o mundo.

Tantas transformações pareciam aumentar as possibilidades de viver e


pensar a vida. Era preciso também buscar novos caminhos, novos horizontes,
lançar-se a novas conquistas.
A chegada dos europeus à América foi uma das etapas do crescimento
comercial europeu, que era movido pela necessidade de aumentar a reserva de
metais preciosos e, principalmente, pelos lucros que vinham do comércio de
especiarias e artigos de luxo que chegavam do Oriente. Mas isso foi também um
salto para o desconhecido. Nessa grande façanha estavam misturados a cobiça,
o temor a Deus e o espírito aventureiro.
A conquista dos mares A U L A

Foi aí que Portugal entrou nessa História. No século XV, o comércio no mar
Mediterrâneo era controlado pelos italianos. E, vindos do Oriente, os turcos 2
avançavam em direção à Europa. Ficava cada vez mais difícil comerciar com o
rico Oriente pelas rotas do Mediterrâneo. A saída era navegar pelo oceano
Atlântico, conhecido na época como “Mar Tenebroso”.
Os portugueses foram os primeiros nessa expansão marítima. Encontravam-
se em vantagem porque, além do desenvolvimento de seus portos e de sua
navegação, já contavam com uma monarquia forte e capaz de arrecadar muitos
recursos. Logo no início do século XV, eles fizeram suas primeiras viagens,
conquistando a região africana de Ceuta, em 1415. A partir de então conquista-
ram várias ilhas do oceano Atlântico e pontos do litoral da África, que lhes
forneceram escravos para as primeiras plantações de cana-de-açúcar nessas
ilhas do Atlântico.
Em 1488, o navegador português Bartolomeu Dias contornou o cabo das
Tormentas, no extremo sul da África, que daí em diante teve seu nome mudado
para cabo da Boa Esperança. Dez anos depois, outro português, Vasco da Gama,
seguiu o caminho aberto por Bartolomeu Dias e conseguiu finalmente alcançar,
pelo mar, as Índias das especiarias e do rico comércio.
No entanto, foram os espanhóis que chegaram primeiro à América. Finan-
ciado pelos reis da Espanha, Cristóvão Colombo partiu com três caravelas na
aventura de contornar a Terra e chegar à Índia. Para a época, isso foi uma
Os europeus foram
ousadia, pois não se tinha certeza de que a Terra fosse mesmo redonda. descobrindo e
No dia 12 de outubro de 1492, Colombo encontrou terras que julgou ser a conquistando
Índia. A conclusão de que se tratava de um novo continente foi do navegador e novas terras,
cartógrafo Américo Vespúcio. Por isso, passou-se a chamar o novo mundo de durante os séculos
América. XV e XVI.
A U L A A conquista da América

2 Quando os europeus chegaram, o continente que hoje chamamos de Amé-


rica já estava ocupado há milhares de anos e contava com uma população
indígena muito grande e variada - os índios das Américas, ou ameríndios.
Esses habitantes primitivos das Américas viviam, na sua maioria, em
comunidades tribais. Porém, nas regiões dos atuais México e Peru, viviam duas
sociedades mais adiantadas e estabelecidas como impérios: a asteca e a inca,
respectivamente. Elas se constituíam num Estado organizado e tinham técnicas
desenvolvidas de produção.

As Américas
eram habitadas
por diversos
povos indígenas.

I NCAS

Suas cidades apresentavam construções grandiosas, como templos e palá-


cios, cujas ruínas podem ser visitadas.
Socialmente, existia desigualdade: a população vivia em comunidades, mas
devia prestar serviços ao imperador e pagar muitos tributos.
No início, o contato entre os europeus e as populações nativas foi marcado
pelo estranhamento. Durante séculos, cada povo que agora estava entrando em
contato havia desenvolvido sua própria história e criara maneiras completamen- A U L A
te diferentes de viver e pensar. Isso, então, só podia causar estranhamento nos
dois lados. Para os europeus, ver homens e mulheres nus era tão diferente
quanto era para os índios ver aquela gente que vestia roupas pesadas, usava 2
barba e montava animais desconhecidos, pois na América não havia cavalos.
Por sua vez, os europeus não entendiam por que o ouro não significava para
os povos da América a mesma coisa que significava para eles. A cobiça pelo ouro
- tão natural para os europeus - era incompreensível para os ameríndios. A
conquista violenta e a ocupação do território pelos europeus tratariam de
demonstrar quanto eram diferentes essas duas culturas.
Para dominar os Impérios Inca e Asteca, os espanhóis realizaram uma
verdadeira guerra de conquista. Muitas pessoas morreram, e a maioria dos
sobreviventes foi submetida a trabalhos pesados nas minas e plantações espa-
nholas da América. O contato com os portugueses não foi menos devastador.
A sensação de estranhamento deu lugar ao medo, do lado dos nativos, e à
dominação, por parte dos conquistadores. Ao longo do século XVI, verificou-se
um dos maiores genocídios da História. Isso aconteceu não só pela violência da
guerra de conquista mas pelo próprio contato com o homem branco, com suas
doenças, seus hábitos e costumes. A gripe - para a qual o organismo dos povos
americanos não tinha defesa - , assim como o álcool, fez milhares de vítimas.

Dessa enorme tragédia, alguma coisa nova foi se formando. Alguns historia- O tempo
dores já disseram que 1492, ano da descoberta da América por Colombo, deveria não pára
ser o início da Época Moderna. Desde então, alargaram-se as fronteiras do
mundo para ameríndios e europeus.
A América, o nosso continente, é o produto histórico desse encontro
violento. É por causa desse encontro que nós, brasileiros, falamos português e
temos uma enorme dívida a resgatar com os povos indígenas que, ainda hoje,
mantêm sua cultura em território brasileiro.

Relendo o texto Exercícios


Leia mais uma vez o texto da aula. Sublinhe as palavras que não entendeu
e veja o que elas significam, no dicionário ou no vocabulário da Unidade.

1. Releia A Europa na Época Moderna e Muitas transformações e resolva


os seguintes exercícios:

a) Faça uma lista das transformações econômicas ocorridas na Europa a


partir do século XV.

b) Faça uma lista das transformações culturais que aconteceram na Europa


a partir do século XV.

2. Releia A conquista dos mares e responda:

a) Como os portugueses chegaram às Índias?

b) De que modo os espanhóis alcançaram a América?


A U L A 3. Releia A conquista da América e responda: por que houve estranhamento
entre os nativos e os europeus?

2 4. Dê um novo título a esta aula.

Fazendo a História

Leia estes textos com atenção.

Documento A
“ Seus corpos são protegidos e apenas emerge o rosto. É branco como a
cal. Têm cabelos amarelos (...) Cavalgam em cima de animais gigantes e
assim, empoleirados, ultrapassam o nível dos tetos. Seus cachorros
também têm olhos enormes: têm olhos que derramam fogo e são de um
amarelo intenso (...)
Quando diante de um estouro, parte uma espécie de bola de pedra do interior
do pedaço, lança uma chuva de fogo e espalha uma fumaça pestilenta.
Despedaça tudo e torna pó como se fosse obra de algo prodigioso (...)
Quando a eles Montezuma ofereceu bandeiras de ouro e plumas, o sorriso
abria seu rosto. Agarravam o ouro como macacos e logo sentavam-se
satisfeitos como se seu coração tivesse se iluminado. O que é certo é que têm
muita sede de ouro. Como porcos esfomeados o procuram.”

Documento B
“E que não apenas não têm nenhuma cultura como não conhecem o uso
da escrita e não sabem ler: suas instituições e costumes são bárbaros.”

Os documentos A e B são da época da conquista espanhola na América.


Releia-os e, depois, faça os seguintes exercícios.

1. Quem poderia ter escrito o documento A ? E o documento B ?


2. Como os europeus viam os indígenas? Como os índios viam os europeus?
3. Quando julgamos uma cultura de acordo com a nossa própria cultura - e a
desvalorizamos -, estamos tendo uma posição etnocêntrica.

Etnocentrismo - valorização de uma cultura, desvalorizando uma outra. Por


causa disso, a diferença cultural é vista como inferioridade.

a) Por que existem diferenças culturais?

b) As diferenças culturais ainda existem? Dê exemplos.

c) O etnocentrismo existe ainda hoje no Brasil? Dê exemplos.

6
A UU
A L AL A

3
3
MÓDULO 1
O nascimento
do Brasil

N a aula anterior, vimos que muitas novida-


des chegaram à Europa nos séculos XV e XVI. Vimos também que, nessa época,
Nesta aula
a América foi conquistada e passou a fazer parte do mundo ocidental.
Logo no início da colonização, as Coroas portuguesa e espanhola tiveram
atitudes diferentes em relação ao Novo Mundo (a América). Os espanhóis Coroa:
avançaram para o interior em busca de ouro e prata - o que de fato conseguiram, palavra que quer
por meio de uma verdadeira guerra de conquista. Já os portugueses preferiram dizer “poder real
ocupar uma pequena faixa de terra e ficaram “arranhando o litoral, como ou monarquia”.
caranguejos”, segundo um cronista da época. E, nessa área, foram os primeiros
a introduzir a escravidão na América.
Nesta aula vamos buscar compreender como e por que a escravidão, que
entre os europeus praticamente havia desaparecido, renasceu com tanta força na
América portuguesa.

Do escambo à escravidão

Em suas terras da América, durante as primeiras décadas do século XVI,


Portugal apenas estabeleceu feitorias , que eram pontos de armazenagem e
troca de mercadorias.
E, como os metais preciosos não foram logo encontrados, as atenções se
voltaram para uma madeira muito procurada, que servia para tingir tecidos
na Europa: o pau-brasil , que os índios chamavam de ibirapitanga .
Com o desenvolvimento do comércio do pau-brasil, os comerciantes
portugueses passaram a utilizar a própria organização social dos povos
nativos. Para isso, os negociantes de pau-brasil - na época, chamados de
“brasileiros” - aprenderam a língua dos nativos e fizeram alianças com seus
chefes.
Desse modo conseguiram que os chefes destacassem seus homens para
cortar e transportar o pau-brasil. Em troca, forneciam objetos valorizados
pelos nativos: espelhos, tecidos, miçangas, utensílios de ferro para agricul-
tura e até armas.
Esse tipo de troca chamava-se escambo .
A presença cada vez maior dos franceses, que também se aliaram aos
indígenas, fez Portugal perceber a necessidade de ocupar definitivamente
suas terras na América.
A U L A O Tratado de Tordesilhas

3 Pelo Tratado de Tordesilhas, que Portugal e Espanha assinaram em 1494,


com apoio da Igreja Católica, a América passou a ser dividida entre esses dois
países. Mas o rei francês não reconhecia esse tratado e permitiu que os corsários
do seu país continuassem a explorar o pau-brasil. Para conter a ameaça francesa,
Portugal tratou de iniciar o processo de colonização das terras brasileiras.
Em 1530, foi enviada para a América a expedição colonizadora de Martim
Afonso de Souza, que, depois de fazer o reconhecimento da costa desde o cabo
São Roque até o rio da Prata, estabeleceu-se no atual estado de São Paulo. Ali
fundou, em 1532, a primeira vila portuguesa na América, que recebeu o nome
de São Vicente.

O meridiano do
Tratado de
A Coroa portuguesa resolveu estimular o cultivo da cana e a produção do
Tordesilhas
cortava a açúcar em terras do Brasil. Colonos portugueses haviam obtido sucesso com
América do Sul, esse tipo de produção nas ilhas do Atlântico mais próximas dos continentes
deixando apenas europeu e africano, usando em suas propriedades trabalhadores escravos
a pequena área levados da África.
da direita para Os portugueses conheciam, portanto, a tecnologia necessária para a cons-
Portugal. trução de engenhos de açúcar, relativamente complexa para a época. E também
O pontilhado sabiam aproveitar-se dos conflitos entre povos africanos, conseguindo com isso
mostra a rota de
Martim Afonso
trabalhadores escravos. Os cativos eram adquiridos por meio de troca com
de Souza. comerciantes africanos.
Resolveu-se, então, adaptar esse modelo à América. A Coroa estimulou a
vinda de colonos portugueses com “cabedal”, isto é, recursos para montar um
engenho. Esses colonos procuraram aliar-se aos nativos para garantir a própria
segurança e conseguir trabalhadores cativos.
A escravização indígena A U L A

A princípio, os colonos fizeram alianças com os índios para garantir a


própria segurança e conseguir mão-de-obra para a difícil empresa de preparar 3
as plantações. Com o crescimento dos engenhos, os colonos passaram a incen-
tivar os indígenas a atacar aldeias rivais em busca de escravos. Os moradores de
São Vicente tornaram-se fornecedores de escravos para os engenhos atacando
até os índios cristianizados das missões dos jesuítas.

A região da grande lavoura

Foi assim que, no litoral da América portuguesa, consolidou-se uma região


mercantil e escravista, transformada no ponto de partida para o Brasil de hoje.
O coração dessa região era o litoral do atual Nordeste, especialmente Pernambuco
e Bahia. Recife e Salvador tornaram-se portos importantes para a saída do açúcar
exportado e a entrada de escravos africanos e produtos europeus.
O plantio da cana aumentava, derrubando florestas e espantando os ani-
mais. Os engenhos produziam à plena carga, quase tudo com trabalho escravo.
Ali a cana colhida pelos cativos era beneficiada, transformando-se em cachaça,
melaço, rapadura e açúcar.

Na época do
Brasil colonial,
os engenhos de
açúcar produziam
a todo o vapor.

Nessas grandes propriedades que eram os engenhos, os escravos trabalha-


vam de sol a sol. Eles também abriam caminhos para o transporte de cana, faziam
esse transporte e empregavam sua própria força para movimentar as moendas.
Os bois e a água também eram usados para movimentar as moendas, que faziam
parte do setor de beneficiamento, localizado numa parte do engenho chamada
casa-do-engenho.
A U L A Aí trabalhavam pessoas assalariadas que conheciam as técnicas de produção
do açúcar. Mais tarde, essas técnicas também foram aprendidas pelos escravos.

3 O senhor de engenho morava junto com sua família na casa-grande, onde


trabalhavam os escravos domésticos. No final do dia, os escravos que estavam
nas plantações eram recolhidos às senzalas, onde ficavam até o reinício do
trabalho.
O engenho de açúcar compreendia uma moenda , onde se moía a cana e se
obtinha o caldo (garapa), e uma caldeira , na qual o caldo era fervido para que
toda a água evaporasse. No tendal das forcas e na casa de purgar , comple-
tava-se o processo.
O engenho era também o centro administrativo, político e social da fazenda.
Dali, o Senhor controlava a produção, recebia os compadres e batizava-lhes os
filhos, comandava a mulher, seus próprios filhos e netos, enfim, todos aqueles
que viviam às suas expensas. Da casa-grande, partiam as principais decisões da
política local e colonial.
No final do século XVI, o escravo africano havia se tornado a base da
expansão das plantações de cana-de-açúcar no Nordeste. No litoral nordeste do
Brasil, Portugal deu início à Afro-América que, depois, se expandiu para outras
áreas da América colonial.
Portugal consolidou também o Pacto Colonial, protegendo suas colônias e
impedindo-as de fazer comércio com outros países.

Matérias-primas ¶ Gêneros tropicais

Æ ðð ðð
Este quadro é uma

Ã
simplificação do COLÔNIA
que ocorria com o
Pacto Colonial.

ñ PACTO COLONIAL ò
A Metrópole
enviava produtos
manufaturados
para a Colônia

ñ ò
e comandava
o tráfico de
escravos.
Æ
Çïï ¶ ïï
Já a Colônia era
obrigada a
comercializar toda
sua produção METRÓPOLE
apenas com os
representantes da Manufaturas Escravos
Metrópole.

As colônias só poderiam produzir o que a Metrópole desejasse, só poderiam


vender seus produtos aos mercadores metropolitanos, que também seriam os
seus únicos fornecedores.

6
A lavoura de exportação não parava de crescer no Brasil colonial, passando OA tempo
U L A
a exigir cada vez mais terras e mais escravos. não pára
As fortunas acumuladas no comércio colonial foram se transformando, sem
parar, em escravos e engenhos - que eram a fonte de todo o prestígio no mundo 3
colonial.
Começava a se formar uma sociedade ao mesmo tempo mercantil e aristo-
crática, baseada principalmente no trabalho escravo, ou seja, uma sociedade
escravista.

Relendo o texto Exercícios


Leia mais uma vez o texto da aula. Sublinhe as palavras que não entendeu
e procure ver o que elas significam, no dicionário ou no vocabulário da Unidade.

1. Releia Do escambo à escravidão e faça o que é pedido a seguir.


a) Explique o que foi o Tratado de Tordesilhas.
b) Identifique uma razão para o início da ocupação definitiva das terras
brasileiras pelos portugueses.
c) Explique por que os portugueses usaram a cana-de-açúcar para coloni-
zar o Brasil.

2. Releia A região da grande lavoura e:


a) Descreva um engenho colonial do Brasil, no final do século XVI.
b) Explique como funcionava o Pacto Colonial.

3. Dê um novo título a esta aula.

Fazendo a História

Leia este documento com muita atenção.

“Servem ao senhor do engenho, em vários ofícios - além dos escravos de


enxada e foice que têm nas fazendas e na moenda, e fora os mulatos e
mulatas, negros e negras da casa, ou ocupados em outras partes -
barqueiros, canoeiros, calafates, carapinas, carreiros, oleiros, vaquei-
ros, pastores e pescadores (...) São finalmente necessárias, além das
senzalas dos escravos, e além das moradas do capelão (...) uma capela
decente com seus ornamentos e todo o aparelho do altar, e umas casas
para o senhor do engenho (...) e o edifício do engenho, forte e espaçoso,
com as mais oficinas e casa de purgar (...)”
Fonte: André João Antonil - Grandeza e Opulência do Brasil por suas
drogas e minas - 1711
1711.

Agora compare sua descrição do engenho, feita a partir da releitura do item


A região da grande lavoura , com a descrição acima, feita por Antonil em 1711.
O que você aprendeu de novo a partir da leitura desse texto escrito no
século XVIII?

6
A UA UL L AA

4
4
MÓDULO 1
Ocupação do interior
da Colônia

Nesta aula A tualmente, o Brasil é um dos maiores países


do mundo. Você tem idéia de como se formou esse território? A resposta para
isso está no estudo do nosso passado colonial. Nesta aula vamos voltar a esse
passado para descobrir como tudo aconteceu. Você verá como, ao longo dos
séculos, os portugueses foram ocupando o território brasileiro e formando o que
se chama de regiões coloniais . Mas será que, naquele tempo, nesse vasto ter-
ritório em formação, alguém se sentia brasileiro?

Este mapa
mostra o Brasil
no século XVI,
quando
começaram as
primeiras
atividades
econômicas e
teve início a
penetração pelo
interior.

Deixando de arranhar o litoral como caranguejos

No tempo da descoberta do Brasil, brasileiros eram os comerciantes de


pau-brasil, madeira que servia para fazer tinturas e que hoje está em extinção. E,
de acordo com o Tratado de Tordesilhas, o território que cabia a Portugal ficava
restrito a uma pequena parte do leste do atual Brasil.
Você já viu que os portugueses começaram a ocupar o território brasileiro a
partir do litoral, na época em que deram início ao plantio de cana-de-açúcar e à
construção de engenhos, usando trabalho escravo.
OCUPAÇÃO DO TERRITÓRIO A U L A

4
SÉCULO XVI l COLONIZAÇÃO NO LITORAL
1501-1600 l EXPLORAÇÃO DO PAU- BRASIL
l CULTIVO DA CANA- DE- AÇÚCAR

SÉCULO XVII l PECUÁRIA ESTENDE- SE PARA O INTERIOR E PARA O SUL


1601-1700 l BANDEIRAS DE APRESAMENTO DE INDÍGENAS
l BANDEIRAS DE MINERAÇÃO - DESCOBERTA DE OURO EM MINAS GERAIS E GOIÁS

SÉCULO XVIII l OCUPAÇÃO DA REGIÃO DAS MINAS


1701-1800 l DECADÊNCIA DA ATIVIDADE AÇUCAREIRA
l CICLO DO OURO
l AUMENTO DO TERRITÓRIO
l FUNDAÇÃO DE CIDADES NO INTERIOR

Conforme o povoamento da Colônia aumentava, desenvolviam-se outras


atividades, e o resultado disso foi a ocupação de novas regiões. Podemos desta-
car a criação de gado entre essas novas atividades. Os animais eram utilizados
para movimentar as moendas e para transportar cargas, o que transformou a
pecuária numa atividade complementar à da produção de açúcar.

Pecuária

Com o sucesso da lavoura do açúcar, que motivou a ocupação das terras do


litoral, o gado foi sendo levado para o interior, para o sertão do atual Nordeste,
partindo de Pernambuco, Bahia, Ceará e, seguindo o curso dos rios, até o
Maranhão e o Piauí.
Várias fazendas de tamanho médio, dirigidas e administradas pelos vaquei-
ros, foram surgindo à beira dos rios, dando origem à região pastoril.
Nesse momento inicial, a pecuária empregava o trabalho livre de índios e
mestiços. No século XVIII, também a pecuária passou a dar preferência ao
trabalho escravo. Famílias escravas cuidavam do gado que era recolhido aos
currais, especialmente nas grandes fazendas de criação de propriedade das
ordens religiosas.
Ainda no século XVIII, a pecuária também foi se desenvolvendo mais em
direção ao sul do país, voltada principalmente para o setor de transporte. Os
fazendeiros dessa região criavam tropas de mulas para o transporte do ouro que
havia sido descoberto em Minas Gerais.

Entrando pelo interior

Longe do gado e das fazendas, nos sertões mais escondidos, estavam os


povos indígenas. Lá também se instalaram as ordens religiosas pioneiras na
cristianização dos nativos.
Já sabemos que essas ordens, especialmente a Companhia de Jesus, - cujos
padres eram chamados de jesuítas -, tinham como objetivo expandir a fé cristã.
Para isso, nas Américas, criaram as missões , espécie de aldeias organizadas por
eles, onde os índios trabalhavam e aprendiam a religião e os costumes cristãos.
Na realidade, os jesuítas desenvolveram um tipo especial de colonização, e
muitas vezes entraram em conflito com os governantes portugueses, franceses
A U L A ou espanhóis. Não por acaso foram expulsos do Brasil no século XVIII, quando
Portugal se esforçava para aumentar seu controle sobre as terras do Brasil.

4
Drogas do sertão

Na região do vale do rio Amazonas, com mata densa e de difícil penetração,


as missões formavam a linha de frente da ocupação portuguesa. Ali, os índios
aldeados realizavam o trabalho de coleta de produtos florestais, e os jesuítas
exportavam para a Europa as chamadas drogas do sertão : canela, cravo, cacau,
castanha, entre outras. Essa era uma atividade muito lucrativa, que a Coroa
portuguesa tentou continuar, depois da expulsão da Companhia de Jesus do
Brasil. Nessas missões, os indígenas caçavam, pescavam e plantavam, além de
fabricarem todos os objetos necessários para seu dia-a-dia.

No século XVIII,
grande parte do
atual território
brasileiro já havia
sido ocupado.
A base dessa
ocupação eram as
atividades
econômicas.

São Vicente

Mas o vale amazônico não era a única região colonial onde, até o século
XVIII, havia pouca presença portuguesa e o controle da Metrópole era reduzido.
Este também era o caso de São Vicente (no atual estado de São Paulo), embora
fosse a mais antiga povoação portuguesa em terras do Brasil.
Mais afastada da Europa do que Pernambuco e Bahia, a região de São Vi-
cente não se desenvolveu como a da grande lavoura . Vivendo em situação de
pobreza, os habitantes de São Vicente começaram a se deslocar para o interior,
fugindo das invasões do litoral por estrangeiros, tão comuns no século XVI. No
interior, os vicentinos dedicaram-se à captura de índios, os quais eram utilizados
em suas fazendas e vendidos como escravos para a capitania do Rio de Janeiro,
onde a lavoura de cana-de-açúcar, no século XVII, estava se iniciando. Nos
sertões do sul do país eles enfrentaram os jesuítas, cujas missões atacavam com
freqüência para capturar os nativos. Ali, os índios já estavam habituados ao
trabalho regular e aos costumes dos europeus.
Muitas vezes, os vicentinos também eram contratados para recuperar escra- A U L A
vos fugidos e destruir seus acampamentos. E foi com a busca do ouro, no interior,
que São Vicente voltou a despertar a atenção da Metrópole.
4
Em busca do ouro

No século XVII, houve modificações importantes nas relações entre a


Colônia e a Metrópole. A partir desse momento, mais do que nunca interessados
na descoberta de metais preciosos, os reis portugueses vão utilizar-se dos
serviços dos bandeirantes, como ficaram conhecidos os vicentinos.
A região dos vicentinos, apesar de ter iniciado com sucesso o processo de
colonização, tornou-se, por volta do século XVI, uma região pobre e de popula-
ção reduzida. No início do século XVII, os vicentinos vão se dedicar à caça ao
índio e à busca de metais preciosos (ciclo do ouro de lavagem), penetrando o
interior do território.
O estímulo à busca do ouro não ocorreu por acaso. Vários fatores concorre-
ram para isso: a crise econômica portuguesa, a queda do preço do açúcar por
causa da concorrência da produção das Antilhas holandesas, o esgotamento das
minas da América espanhola, o que gerou profunda crise monetária na Europa.

Este mapa reúne


praticamente
todas as
atividades
econômicas
desenvolvidas no
território colonial,
durante os três
primeiros séculos
do domínio
português.
A U L A O reconhecimento da região, feito em 1668 por Lourenço Castanho, por
ordem do rei de Portugual, prosseguiu com o envio da bandeira de Fernão Dias

4 Pais. Só no final do século XVII é que se descobriram importantes jazidas. O ouro


foi encontrado simultaneamente em vários locais das áreas hoje ocupadas por
Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso.
As bandeiras eram verdadeiras expedições armadas que penetravam o
interior do território colonial. Quando financiadas pela Coroa portuguesa,
recebiam o nome de entradas. No final do século XVII, os bandeirantes desco-
briram ouro no atual estado de Minas Gerais. Como resultado disso, várias vilas
foram fundadas por gente que vinha de outros pontos da Colônia, e até da
Metrópole, e se estabelecia na região central.
No século XVIII, as minas de ouro, prata e diamantes deram a Portugal um
novo período de prosperidade.
Em 1763, o centro administrativo da colônia - que era em Salvador - foi
transferido para a cidade do Rio de Janeiro, porto mais próximo da região
mineradora. E ficou claro o predomínio dessa região sobre o Nordeste açucarei-
ro, que passava por grave crise em sua produção, sem contudo desativá-la.
A região mineradora foi responsável pelo grande crescimento popula-
cional da Colônia, fazendo, inclusive, com que o número de pessoas livres
superasse, pela primeira vez, o de escravos. Mesmo assim, a mão-de-obra
escrava predominava na região.
A vida urbana tornou-se mais intensa, mas aumentou o controle da Metró-
pole. Nunca o Pacto Colonial foi tão utilizado pela Metrópole e tão detestado
pela Colônia. Os impostos eram altos e as exigências metropolitanas cresceram.
A política colonial de Portugal sempre obedeceu aos objetivos mercantilistas
que vigoravam na Época Moderna. Seu território colonial estava fragmentado
em diversas regiões econômicas, de difícil comunicação entre si e, muitas vezes,
de difícil comunicação com a Metrópole. O controle que Portugal exercia sobre
cada região era maior ou menor, de acordo com o interesse dessa região para o
sistema colonial. Por isso, as regiões mais controladas eram aquelas ligadas à
exportação de gêneros que atendiam às necessidades do comércio europeu e
proporcionavam maiores lucros à Metrópole. As demais, aquelas que se
ligavam mais diretamente ao consumo do mercado interno, não eram tão
controladas e, ao mesmo tempo, apresentavam população menor.

6
O tempo Se hoje vemos um Brasil tão cheio de diferenças, naquele tempo as
não pára palavras Brasil e brasileiro tinham outros significados. Sabemos, agora, que
a própria área que hoje conhecemos como Brasil não corresponde ao primeiro
território de que Portugal tomou posse.
O movimento de ocupação acabou desrespeitando a marca inicial do
Tratado de Tordesilhas. Por causa disso, foram feitos vários outros tratados
entre Portugal e Espanha, no final do século XVII e ao longo do século XVIII.
A modificação das fronteiras foi constante e até batalhas foram travadas
por causa delas. Porém, nenhuma das regiões da Colônia se sentia brasileira .
A única noção de pátria que reunia as regiões coloniais era a de pátria
portuguesa. Este território americano, também conhecido como Brasil, fazia
parte do grande Império Colonial Português dessa época.
Relendo o texto Exercícios
A U L A

4
Leia mais uma vez o texto da aula, sublinhe as palavras que não entendeu e
procure ver o que elas significam, no dicionário ou no vocabulário da Unidade.
1. Releia Deixando de arranhar o litoral como caranguejos e Entrando pelo
interior e complete o quadro abaixo:
ATIVIDADE
REGIÕES LOCALIZAÇÃO M Ã O- D E- O B R A
ECONÔMICA

2. Releia Em busca do ouro e responda às perguntas:


a) Qual foi a importância das bandeiras para a expansão do território colo-
nial? Por que os bandeirantes capturavam indígenas?
b) Retire do texto trechos que apresentem importantes modificações na vida
da Colônia que ocorreram a partir da descoberta de metais preciosos.
3. Dê um novo título ao texto desta aula.

Fazendo a História
1. O documento abaixo descreve a expansão da pecuária na América
portuguesa.
“E porque as fazendas e currais do gado se situam onde há largueza de
campo e água sempre manente [permanente] dos rios ou lagoas: por isso
os currais da parte da Bahia estão postos na borda do rio de São
Francisco, na do rio das Velhas (...) e de outros rios, nos quais, por
informações tomadas de vários, que correrão esse sertão, estão atual-
mente mais de 500 currais.”
Fonte: Antonil, 1711
Retire desse documento um trecho em que o autor mostra as razões do gran-
de desenvolvimento da pecuária nas proximidades dos rios. O que você
aprendeu sobre o mesmo assunto, a partir da leitura do item Pecuária?

2. Leia o documento abaixo:


“A sede insaciável do ouro estimulou a tantos a deixarem suas terras e
a meterem-se por caminhos tão ásperos como são os das minas, que
dificilmente se poderá dar conta do número de pessoas que atualmente
lá estão (...) A mistura é de toda condição de pessoas: homens e mulheres,
moços e velhos, pobres e ricos, nobres e plebeus, seculares e clérigos, e
religiosos de diversos institutos, muito dos quais não têm no Brasil
convento nem casa.”
Fonte: Antonil, 1711
O que esse documento informa sobre as alterações no povoamento do Brasil
colonial a partir da descoberta do ouro?

6
A UA UL L AA

5
5
MÓDULO 1
O Brasil indígena

Nesta aula P reste atenção a estas palavras:

UBIRAJARA PIRACICABA GUARATINGUETÁ PIRAPORA


CUIABÁ ITAÚNA JACAREPAGUÁ IRACEMA
ARACAJU ITACOLOMI IPANEMA PIRARUCU

Provavelmente, você não acha que elas são estranhas, assim como não acha
estranho o hábito de comer farinha, tomar banho e dormir em rede. Pois saiba
que esses costumes, e também aquelas palavras, têm a mesma origem: a cultura
dos índios.
Nesta aula, vamos conhecer um pouco da vida e da influência desses primeiros
brasileiros, dos povos que habitavam nossas terras antes do descobrimento.

Os povos indÍgenas

Os índios são pré-colombianos, ou seja, habitavam a América antes da


chegada de Colombo. Estima-se que, por volta do ano de 1500, havia no Brasil
cerca de 5 milhões de indígenas, distribuídos em cerca de 900 povos, com língua
e costumes próprios.
Os principais povos indígenas eram:

POVO REGIÃO QUE OCUPAVA


OCUPA

TUPI- GUARANI LITORAL E ALGUMAS ÁREAS DO INTERIOR

JÊ OU TAPUIA PLANALTO CENTRAL

NU-ARUAQUE PARTE DA BACIA AMAZÔNICA

CARAÍBA NORTE DA BACIA AMAZÔNICA


O que mais nos chama a atenção na organização dos índios é a igualdade: não A U L A
há ricos nem pobres, não há patrões ou empregados, e ninguém passa fome por
não ter onde plantar, caçar ou pescar, isso porque a terra pertence à comunidade
e todos podem dela dispor pelo bem do grupo. Não existe a preocupação de 5
acumular riqueza, tudo o que produzem é para ser usado e consumido. A
educação das crianças indígenas se dá pela imitação dos adultos. Aprendem,
fazendo e brincando, a conhecer a flora e a fauna, o relevo e o clima. Jamais são
castigados por seus pais. Contando histórias e lendas, os mais velhos ensinam os
costumes e as tradições de cada tribo.

A influência da cultura indígena

Quando o português chegou


Debaixo duma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio teria despido
O português.
erro de português , poesia de Oswald de Andrade - 1925

Embora os portugueses tentassem modificar os nativos, impondo a eles


suas roupas, sua religião, sua maneira de trabalhar, sua língua, os indígenas
resistiram.

A cultura indígena
influiu bastante
no modo de vida
dos europeus que
vieram para cá.

Desse povo gentil, herdamos muita coisa, como palavras que hoje estão
perfeitamente incorporadas à nossa língua. O costume de dormir em rede ou a
técnica de fazer canoa com um tronco só, bem como a arte da cestaria e da
cerâmica e os diversos usos da mandioca na culinária, são importantes contribui-
ções indígenas à vida cotidiana. Os hábitos higiênicos dos indígenas, que
costumavam banhar-se diariamente, acabaram por influenciar os brasileiros,
que são o povo que mais toma banho no mundo. Nas artes, essa influência se
faz pelo uso de flautas e chocalhos na música, pelas cores alegres e variadas do
carnaval, pelas lendas e explicações do mundo, como a da Yara, a mãe d’água;
a do Curupira, protetor das matas e dos animais, e a do Saci-Pererê.
A U L A

O saber indígena no mundo de hoje

Passados quase quinhentos anos da chegada dos portugueses, os índios já


não são tantos. Vítimas do extermínio, das doenças e da falta de terras, restam
cerca de 240 mil pessoas distribuídas em apenas 180 povos. São ainda vistos
como incapazes e, por isso, tutelados pelo Estado. Até mesmo suas terras
pertencem à União.
Para superar e resistir à colonização e à destruição das matas, foi necessário
ao índio uma força que vem da própria natureza. Respeitar o meio ambiente,
trabalhar a terra com sabedoria e equilíbrio e dela tirar o sustento sem esgotá-la,
sempre foram dons dos povos indígenas.
Há muitos séculos os índios usam a floresta, caçando, colhendo, pescando,
sem depredar a natureza nem dizimar os animais. Eles costumam derrubar uma
pequena parte da floresta para iniciar uma roça. Essa área é abandonada após
dois anos, permitindo que o solo se recupere naturalmente.
O contato intenso com a natureza, levou os índios ao conhecimento do poder
curativo das plantas. Cuidam de picadas de cobras, têm remédios para engordar
e para emagrecer, usam métodos naturais de anticoncepção, além de tintas
vegetais que não fazem mal à pele.
Toda essa riqueza natural, patrimônio ecológico que está guardado nas
terras indígenas, é hoje objeto de acordos e tratados internacionais.
Você já ouviu falar da biodiversidade? A U L A

É o termo que se usa para designar a quantidade e a variedade de formas


vivas - muitas delas ainda não estudadas - que existem na natureza. 5
Na Mata Atlântica, por exemplo, a biodiversidade é tão grande que se pode
encontrar mais de cem espécies de seres vivos em um único metro quadrado.
Durante a conferência da ECO-92, no Rio de Janeiro, foi firmado um acordo
sobre a biodiversidade. Houve muita discussão em torno disso, pois os Estados
Unidos não aceitam que a exploração das riquezas naturais seja feita somente
pelos países em que elas se encontram. Segundo ecologistas de várias naciona-
lidades, o interesse norte-americano é “colher plantas das selvas e florestas dos
países em desenvolvimento, modificá-las geneticamente ou produzir remédios, para
depois mandar a conta das patentes e dos direitos intelectuais de todo este
patrimônio para os países produtores daquelas plantas.” (Jornal do Brasil de 7 de
dezembro de 1994).

A relação dos índios com o ecossitema

“ Vocês, brancos, são todos uns grandes loucos, porque atravessaram Ecossistema
o mar e sofreram grandes transtornos, como vocês disseram quando é toda a cadeia
chegaram aqui, e se empenham tanto em acumular para vossos filhos e de vida
para os que viverem depois de vocês. que existe em
Mas a terra que vos nutriu não será suficiente para também alimentar determinado
vossos filhos? ambiente.
Nós também temos pais, mães e filhos que amamos; mas nós, ao
contrário, somos seguros de que, depois da nossa morte, a terra que
primeiro nos nutriu, alimentará também a eles (nossos descendentes) por
isso repousamos sem preocupações.”
Palavras de um tupinambá , texto de Jean de Lery - século XVI.

Para as sociedades brancas, a terra é vista como uma mercadoria e uma fonte
de riquezas, mas, para os índios, ela é mais do que isso. Ela é a fonte de todas as
riquezas, pois é a fonte da própria vida e da existência. Há uma integração plena
do homem com a natureza e uma consciência de que, assim como a terra o
alimenta hoje, seu corpo alimentará a terra um dia.
Essa sabedoria indígena precisa ser hoje objeto de estudo que nos leve a
compreender melhor a natureza e a retirar dela os produtos que livrarão a
humanidade de doenças terríveis, como câncer e AIDS. E que, principalmente,
nos ensine a amar ainda mais o nosso planeta e a agredi-lo menos.

Os avanços tecnológicos, as diferenças culturais e sociais em relação à


civilização das cidades não tornam inferiores as sociedades indígenas.

O índio, como cidadão brasileiro, merece ter seus direitos respeitados e


suas terras demarcadas.

6
A U L A DADOS GERAIS SOBRE OS ÍNDIOS NO BRASIL

5
1. A PENAS DOIS ESTADOS OFICIALMENTE NÃO POSSUEM POPULAÇÃO INDÍGENA : P IAUÍ E R IO
GRANDE DO N ORTE.
2. NA REGIÃO AMAZÔNICA, ÀS MARGENS DO RIO SOLIMÕES, VIVE O MAIOR POVO INDÍGENA DO
B RASIL : OS T I C U N A S , COM 25 MIL PESSOAS . A Í , TAMBÉM , ESTIMA - SE A EXISTÊNCIA DE
QUASE VINTE POVOS INDÍGENAS QUE NUNCA TIVERAM CONTATO COM O HOMEM BRANCO , E
AQUELES DE CONTATO MAIS RECENTE , COMO OS I A N O M A M I S (R ORAIMA ), OS M A T I S , OS
KORUBOS , OS MARUBOS (A MAZONAS ) E OS ARARAS (P ARÁ ).

3. B EM PRÓXIMAS DOS GRANDES CENTROS URBANOS , ENCONTRAM - SE OUTRAS CIVILIZAÇÕES


INDÍGENAS , COMO OS G U A R A N I S
(S ÃO P AULO E R IO DE J ANEIRO ); K A I G A N G U E S (R IO
G RANDE DO S U L , P ARANÁ E S ÃO P AULO ), E OS T E R E N A S (MATO GROSSO DO SUL E SÃO
P AULO ). N AS PROXIMIDADES DE B RASÍLIA , REGISTRA - SE A MENOR POPULAÇÃO INDÍGENA :
QUINZE INDIVÍDUOS AVÁ- CANOEIROS , QUE NÃO TENDO MAIS PARA ONDE FUGIR , RESIGNAM -
SE A UM CONTATO ABRUPTO E IRRACIONAL COM A CIVILIZAÇÃO BRANCA , POR UMA QUESTÃO
DE SOBREVIVÊNCIA .

4. SÃO APENAS 240 MIL ÍNDIOS EM TODO O BRASIL.


5. A POPULAÇÃO ESCOLAR , RECENSEADA PELA FUNDAÇÃO N ACIONAL DO Í NDIO - FUNAI, É
DE 32.793 CRIANÇAS ÍNDIAS .

6. D O POTENCIAL MINERAL DA A MAZÔNIA BRASILEIRA JÁ MAPEADO PELO D EPARTAMENTO


N ACIONAL DE P ESQUISA M INERAL - DNPM, UM TOTAL DE 30% A 40% ESTÁ DENTRO DE
TERRAS INDÍGENAS . O S PRINCIPAIS MINERAIS EXISTENTES SÃO : OURO , FERRO , MANGANÊS E
CASSITERITA ; ALI TAMBÉM EXISTEM DIAMANTES .

7. NO PAÍS , ENCONTRAM-SE, APROXIMADAMENTE, 180 CIVILIZAÇÕES INDÍGENAS E MAIS DE 160


LÍNGUAS FALADAS .

Fonte: Centro Ecumênico de Documentação e Informação - CEDI (São Paulo).

O tempo É... o tempo não pára, mas também não anda só para a frente. Os 500 anos de
não pára colonização na América representaram o fim do mundo para centenas de
culturas indígenas com muitos milhões de pessoas.
A maior parte dessas culturas está perdida para sempre. Os sobreviventes
querem hoje defender suas terras e sua cultura. E, como conhecedores da
natureza, buscam preservar o meio ambiente e manter seu equilíbrio, pois, se
todas as florestas forem destruídas não serão só os índios que desaparecerão mas
todos os habitantes do planeta.

Exercícios Relendo o texto

1. Releia Nesta aula e depois converse com seus amigos e pessoas de sua
família e procure descobrir outras palavras de origem indígena.
2. Releia A influência da cultura indígena e comente quais dessas heranças
estão mais presentes no dia-a-dia do seu grupo de amigos e familiares.
3. Releia O saber indígena no mundo de hoje e estabeleça a relação dos índios
com a biodiversidade.
4. Releia A relação dos índios com o ecossistema e indique que lições da A U L A
sabedoria indígena podem contribuir para uma qualidade de vida melhor

5.
para todos.
Releia o quadro Dados gerais sobres os índios no Brasil e responda:
5
que riscos correm as populações indígenas atualmente?
6. Dê um novo título para a aula.

Fazendo a História

Declaração da Kari-Oca
Os povos indígenas das Américas, Ásia, África, Austrália, Europa e do
Pacífico, unidos em uma só voz, na aldeia Kari-Oca, expressamos nossa
gratidão coletiva aos Povos Indígenas do Brasil.
Inspirados por este encontro histórico, celebramos a unidade espiritual
dos Povos Indígenas com a Terra e entre nossos Povos.
Continuamos construindo e formulando nosso compromisso mútuo
para salvar nossa terra-mãe.
Nós, Povos Indígenas, apoiamos a seguinte Declaração com nossa
responsabilidade coletiva, para que nossas mentes e nossas vozes continu-
em no futuro:
Nós, Povos Indígenas, caminhamos em direção ao futuro, nas trilhas
dos nossos antepassados.
Do maior ao menor ser vivente, das quatro direções do ar, da água, da
terra e das montanhas, o Criador colocou a nós, Povos Indígenas, em nossa
terra, que é nossa mãe.
As pegadas de nossos antepassados estão permanentemente gravadas
nas terras de nossos povos.
Nós, Povos Indígenas, mantemos nossos direitos inerentes à auto-
determinação: sempre tivemos o direito de decidir as nossas próprias formas
de Governo, de usar nossas próprias leis, de criar e educar nossos filhos,
direito à nossa própria identidade cultural sem interferências. Continua-
mos mantendo nossos direitos inalienáveis a nossas terras e territórios, a
todos os nossos recursos do solo e do sub-solo, e a nossas águas. Afirmamos
nossa contínua responsabilidade de passar todos esses direitos às gerações
futuras.
Não podemos ser desalojados de nossas terras. Nós, Povos Indígenas,
estamos unidos pelo círculo da vida em nossas terras e nosso meio ambiente.
Assinado em Kari-Oca, no dia 30 de maio de 1992.

Fonte: Documento da Conferência Mundial dos Povos Indígenas, sobre


território, meio ambiente e desenvolvimento, durante a ECO-92.
1. Pela Declaração da Kari-Oca , percebemos que os índios desejam ser tra-
tados como povo , não como população . Como população, os índios têm de
se sujeitar às leis do país. Já como povo, eles têm direito à auto-determi-
nação dos povos , garantida pela Organização das Nações Unidas - ONU.
Que direitos são esses?
2. Para os índios, quais são as conseqüências da poluição dos rios, da invasão
de suas terras e da remoção de suas comunidades para outros territórios?
A UA UL L AA

66
MÓDULO 2
A escravidão
e o mundo rural

Apresentação N o Brasil escravista, eram múltiplas e diver-


do Módulo 2 sas as atividades dos homens e das mulheres, livres e escravos, nas cidades e no
mundo rural. Neste módulo vamos examinar essa diversidade e conhecer um
pouco mais sobre a vida no Brasil dos séculos XVIII e XIX.

Nesta aula O tempo não pára, dizemos nós ao fim de cada aula. Mas será que nós,
brasileiros do século XX, somos capazes de imaginar como era viver no Brasil do
final do século XVIII? O que significava viver numa Colônia escravista? Será que
conhecer esse modo de vida pode nos ajudar a conhecer um pouco mais a nós
mesmos e a este Brasil em que vivemos?
Para entender como viviam homens e mulheres, livres e escravos, residentes
no Brasil no final do período colonial, partiremos da história de um homem livre
e pobre da Colônia: Domingos Vieira de Carvalho. Sua história foi parecida com
a de muita gente daquela época.

A trajetória de Domingos Vieira de Carvalho

Nasce na Bahia, no final do século XVII. Ali, casa-se com Maria


Cardosa, com quem tem dois filhos que não sobrevivem à primeira
infância. Viúvo, migra para o Espírito Santo, onde se casa com Ana
Gomes. Deste casamento nascem seis filhos legítimos que, segundo
o pai, já haviam falecido quando ele redige seu testamento em
Campos de Goitacazes, capitania da Paraíba do Sul, em 1704. Nesse
documento, Domingos não menciona o destino de Ana Gomes, mas
informa que ele deixara o Espírito Santo e se mudara para a vila de
São Salvador dos Campos de Goitacazes, onde se casara com Maria
Nunes. Com esta terceira esposa, Domingos tem mais quatro filhos.
Em seu testamento, Domingos afirma que seu único bem é uma
escrava mulata de idade avançada, chamada Antônia. Sua viúva,
Maria Nunes, pede à justiça um atestado de pobreza, a fim de evitar
a venda de Antônia para pagamento das dívidas do casal, no que é
atendida.
Mas as coisas se complicam para ela. Um filho de Ana Gomes, A U L A
nascido no Espírito Santo, tenta qualificar-se como herdeiro
no testamento, alegando ainda que Domingos era bígamo, pois
sua mãe estava viva. Alega, também, que, além da escrava, seu
pai possuía uma espingarda e um sítio, com roças de mandioca,
6
onde residia, que não haviam sido mencionados no testamento.

Esta é a história de Domingos, suas três esposas e seus filhos, conforme


podemos reconstituir a partir da leitura de seu testamento e de seu inventário,
realizados há quase trezentos anos, no atual município de Campos, no Rio de
Janeiro - que na época era a capitania de Paraíba do Sul. A partir dessa
reconstituição podemos aprender muita coisa sobre a economia e a sociedade do
Brasil colonial.
A primeira coisa que a gente descobre é que, além dos senhores de engenho
todo-poderosos, a região da grande lavoura tinha também pequenos lavradores
que viviam do plantio de mandioca, mas que, mesmo sem muitos recursos,
podiam contar com a ajuda de um escravo. Tanto a Bahia, onde Domingos casou-
se pela primeira vez, quanto a capitania da Paraíba do Sul, onde ele morreu,
foram importantes produtoras de açúcar na economia colonial. No entanto,
Domingos só plantava mandioca, cuja farinha vendia para os engenhos, para a
cidade de Salvador ou para a vila de Campos dos Goitacazes. A agricultura que
produzia para o mercado interno estava sempre na dependência das mandiocas
de muitos “Domingos” e cresceria ainda mais depois da expansão das minas, no
século XVIII.
Na história de Domingos, também dá para perceber a expansão das áreas de
agricultura escravista e a migração da população livre e pobre. As pessoas iam
se deslocando em busca de fortuna. E, nessa mesma época, milhares de
“Domingos” estavam se dirigindo para Minas Gerais em busca de ouro.
A partir da história de Domingos também se pode aprender a respeito dos
altíssimos índices de mortalidade infantil, que atingia tanto as crianças nasci-
das livres quanto as que nasciam escravas. Verificamos ainda a importância da
família para o migrante que se tornava lavrador. Casar-se também podia
significar a formação de alianças no local onde o migrante se instalava e a ajuda
dos filhos para o trabalho agrícola, até que ele pudesse comprar um ou mais
escravos. Domingos casou-se três vezes, talvez em busca de uma prosperida-
de que parece não ter conseguido.
Mesmo as
famílias mais
pobres queriam
ter pelo menos
um escravo.
A U L A A sociedade escravista

6 Na segunda metade do século XVIII, depois do declínio da mineração do


ouro, a agricultura escravista voltada para a exportação tornou a se desenvolver
no Brasil colonial. O plantio do algodão deu-se muito bem no Maranhão e
forneceu matéria-prima para as primeiras fábricas de tecido que começavam a
surgir na Europa. Novos engenhos de açúcar surgiram no Nordeste, no Rio de
Janeiro e em São Paulo. Na Bahia, chegou ao auge a cultura do tabaco, com o
qual eram comprados escravos na África. Nas primeiras décadas do século XIX,
expandiu-se a cultura do café no Rio de Janeiro, mais ou menos ao mesmo tempo
em que se proclamava a Independência do país.

Novos engenhos de
açúcar surgiram
no Nordeste, no
Rio de Janeiro e
em São Paulo.

Nos engenhos e nas fazendas

No final do século XVIII e nas primeiras décadas do século XIX, o Brasil


colonial era, antes de tudo, uma sociedade escravista. Os escravos estavam nos
engenhos e nas grandes fazendas, que possuíam mais de cinqüenta escravos
cada uma ou, às vezes, centenas deles. Estavam também nas pequenas e médias
propriedades dos lavradores de cana e dos plantadores de tabaco e de algodão.
Neste tipo de empresa, os cativos podiam ser apenas dez, raramente soma-
vam mais de vinte pessoas, entre o serviço da casa e da produção. Estavam,
ainda, na pequena produção de porcos, de milho e de mandioca, onde dividiam
a casa e o trabalho com os proprietários, os quais raras vezes possuíam mais de
cinco cativos. Muito freqüentemente, esses proprietários tinham apenas um
escravo, como no caso de Domingos, cem anos antes.
Tudo isso reforçava o sentido quase “natural” com que se encarava a
continuidade da escravidão, tanto na época da Colônia quanto, mais tarde, no
Império independente. Mesmo os libertos, ex-escravos que compravam ou
recebiam alforria , freqüentemente também se tornavam proprietários de escra-
vos. Todo homem livre se via como senhor de escravos em potencial, e a maioria
dos escravos vivia em propriedades com menos de vinte cativos.

O tráfico, um grande negócio

Um texto da época, escrito em 1781, dizia: “ É prova de mendicidade


extrema o não ter um escravo, ter-se-ão todos os incômodos domésticos, mas
um escravo a toda lei ” .
Por isso, o tráfico de escravos para o Brasil transformou-se num grande A U L A

6
negócio, controlado por comerciantes residentes nas cidades do Rio de Janeiro
e de Salvador. No mesmo período, o comércio interno também se tornava
bastante atraente para a Colônia.
A cidade do Rio de Janeiro ligava-se, pela navegação de cabotagem - aquela
que se faz sempre perto da costa -, a todas as demais regiões coloniais. O
comércio inter-regional crescia. Traficantes de escravos e outros grandes comer-
ciantes acumularam enormes fortunas, nesse Brasil do final do período colonial.

O prestígio do senhor de escravos

Mesmo ganhando um pouco menos de dinheiro que os comerciantes,


quem realmente tinha prestígio e importância era o fazendeiro e o senhor
de muitos escravos. No século XVIII, o padre jesuíta Antonil já dizia que
“ ser senhor de engenho é título a que muitos aspiram porque traz ser
servido e respeitado de muitos ” .

Os escravos que
executavam
tarefas dentro da
casa-grande
geralmente não
trabalhavam na
lavoura.

Depois das primeiras décadas do século XIX, tornar-se fazendeiro de café


era mais vantajoso economicamente e trazia grande prestígio. Muitos gran-
des comerciantes tornaram-se senhores de engenho e fazendeiros de café
nesse período.
Ao se tornar um país independente, o Brasil continuava sendo uma
sociedade essencialmente desigual. Cerca de 33% (um terço) de seus habitan-
tes eram escravos e menos de 10% das pessoas livres controlavam a maior
parcela da riqueza que o país produzia.

6
OA tempo
U L A A ordem escravista não sofreu grandes transformações com o processo de
não pára independência de Portugal, nas primeiras décadas do século XIX. A escravidão

6 permaneceu forte pelo menos até as décadas de 1830 e 1840. Nunca tantos
escravos africanos ingressaram no Brasil como nessas duas décadas. Só que a
forte pressão inglesa levou o governo brasileiro a terminar com o tráfico
negreiro, no ano de 1850. A partir daí, sem a entrada de novos cativos, as bases
da sociedade escravista brasileira começaram a ruir.

Exercícios Relendo o texto

Leia mais uma vez o texto da aula, sublinhe as palavras que não entendeu
e procure ver o que elas significam, no dicionário ou no vocabulário da Unidade.

1. Releia A trajetória de Domingos Vieira de Carvalho e retire do texto:

a) Um trecho que fale do deslocamento do agricultor em busca de melhores


condições de vida.

b) Um trecho que demonstre a importância da família para os agricultores


livres.

2. Releia A sociedade escravista e retire do texto trechos que demonstrem


a forte presença do escravo na sociedade brasileira do século XVIII.

3. Dê um novo título a esta aula.

Fazendo a História

Num inventário de 1869, a descrição dos bens de Francisco Pinto Ferreira,


a serem divididos entre os herdeiros, era a seguinte:
- uma casa coberta de palha, em terras de João Gomes da Cunha,
- uma cama marquesa,
- uma canastra (caixa) velha e
- um escravo de nome Felício, de 15 anos de idade.
(Cartório do 2º Ofício de Notas do Município de Silva Jardim - inventá-
rio post-mortem).

1. Descreva como vivia a maior parte dos homens livres e pobres no mundo
rural.

2. Francisco Pinto, assim como Domingos Vieira, possuía apenas um escra-


vo. Por que o fato de possuir um escravo era tão importante para agri-
cultores livres como eles? Consulte o item A sociedade escravista .

6
AUU
A L AL A

7
7
MÓDULO 2
O desenvolvimento
das cidades

P ara muitos historiadores, a colonização do


Brasil foi, em grande parte, um empreendimento urbano, apesar de a economia
Nesta aula
da Colônia ter se baseado na exportação de produtos rurais. O núcleo urbano foi
o ponto de partida para a ocupação da terra.
As cidades coloniais tinham a nítida finalidade de civilizar a Colônia. As
cidades eram o centro de difusão de hábitos e costumes da Metrópole.
Fundar cidades fazia parte da estratégia portuguesa de colonização, que não
visava apenas à exploração predatória mas à permanência e à fixação do homem
na terra. Foi a partir delas que o colonizador português exerceu o domínio
econômico e militar do território.
Nesta aula, vamos ver o papel das cidades no processo de colonização e a
herança cultural que elas significam.

Como eram as cidades no Brasil colonial

Além de serem parte integrante da estratégia portuguesa de colonização, as


cidades no Brasil colonial também serviram de entrepostos comerciais e sedes
do poder administrativo.
As primeiras cidades brasileiras foram fundadas junto ao mar, e isso tornou-
se uma marca da colonização portuguesa na América.

Até hoje, Parati


mantém o visual
arquitetônico que
adquiriu desde a
fundação, com
suas fachadas
simples, pintadas
de branco.
A U L A Com características diferentes das que marcaram as cidades da América
espanhola - que eram planejadas como um tabuleiro de xadrez, com ruas e

7 quarteirões retos e uniformes -, as cidades brasileiras foram resultado da


dinâmica do dia-a-dia, ou seja, de um crescimento desordenado.
Por isso, elas apresentavam certo naturalismo, obedecendo mais ao rigor do
relevo local que a planos geométricos. Rio de Janeiro, Salvador e Olinda são
exemplos de urbanização portuguesa no mundo colonial.
Embora a cidade colonial brasileira apresentasse uma certa desordem, em
todas elas havia a presença do poder religioso - representado por igrejas e
conventos de diversas ordens religiosas -, e do poder metropolitano - expresso
pela Câmara, pelas fortificações e pelo porto.
Na cidade não havia indústria nem imprensa. A cidade colonial tinha uma
vocação econômica notadamente mercantil. Nela, tudo se vendia e tudo se
comprava. Era o espaço do grande comércio de exportação de mercadorias da
Colônia e de importação de escravos.
A estrutura urbana era rudimentar. Somente algumas ruas eram calçadas e
iluminadas com lampiões a óleo de baleia. Não havia esgoto: os dejetos eram
transportados pelos escravos em tonéis denominados tigres . Por causa das
péssimas condições de higiene, as cidades eram freqüentemente assoladas por
febres e endemias. Não havia transporte público; as famílias mais abastadas
transitavam em carruagens ou liteiras. Na paisagem da cidade colonial, a mulher
branca quase não aparecia, pois só lhe era permitido o percurso da casa para a
igreja, onde quase sempre se cobria com véu.

São Luís

Olinda
Ao longo de Recife
todo o Brasil,
encontramos
Salvador
cidades que
tiveram origem no
período colonial.
Sabará
Vila Rica Mariana
São João del Rei
Parati Rio de Janeiro
São Vicente

Nosso patrimônio histórico-cultural

A maioria dos brasileiros de hoje não conhece a história da cidade onde


mora, não conhece a riqueza do país onde nasceu. No entanto, vive perto de um
patrimônio material e cultural originalíssimo, que define sua identidade como
brasileiro.
Conservar essa herança, esse patrimônio histórico-cultural, é uma tarefa de A U L A
todos os brasileiros, e não apenas do Governo. Afinal, esse legado pertence a
todos nós. Um povo sem passado não pode se constituir enquanto Nação, não
pode exercer plenamente seus direitos e deveres de cidadão. 7
Para garantir a preservação desse legado, a Constituição brasileira reconhe-
ce alguns bens históricos e culturais como patrimônio nacional . O último
censo, realizado em 1991, registrou que 74% da população brasileira vive no Bens
meio urbano. Em 296 municípios, existem bens tombados e calcula-se que 1/3 tombados são
da população (aproximadamente 50 milhões de pessoas) tenha contato, direto aqueles
ou indireto, com esses bens. Além disso, há trinta sítios históricos preservados conservados e
pelo governo federal. protegidos pelo
Governo.
Chama-se de sítio
A evolução das cidades histórico um local
onde ocorreu um
No final do século, as cidades brasileiras evoluíram rapidamente. O Rio de fato importante.
Janeiro já possuía 50 mil habitantes e, desde 1763, era sede da Colônia e porto por
onde se exportava a produção das minas de ouro. Salvador, antiga capital
colonial e importante centro de exportação do açúcar, contava 45.500 moradores.
Outras cidades populosas eram Recife, com 30 mil pessoas, São Luís do Maranhão,
com 22 mil, e São Paulo, com 15.500.
Na Região das Minas, graças à mineração, surgiram mais cidades, como
Mariana, Vila Rica (atual Ouro Preto), Sabará e São João del Rei. As cidades
criadas com a riqueza trazida pelo ouro foram abandonadas quando as minas se
esgotaram. Não houve outra atividade econômica que desse continuidade ao
progresso e à modernização dessa região.
No litoral do Rio de Janeiro, a cidade de Parati, que foi a primeira a escoar
o ouro das Minas, permaneceu praticamente inalterada. Pelas características de
sua arquitetura e pelo valor artístico e cultural que representam, Ouro Preto e
Parati são hoje consideradas patrimônio da humanidade pela Organização para
a Educação, Ciência e Cultura das Nações Unidas - UNESCO.

Depois da chegada
da Corte, a cidade
do Rio de Janeiro
prosperou e
expandiu-se.
OA tempo
U L A As cidades coloniais brasileiras nos deixaram um rico patrimônio histórico-
não pára cultural. Nesse período, surgiu o chamado estilo barroco colonial brasileiro ,

7 que até hoje podemos observar na arquitetura e na ornamentação das igrejas.


Mas não foi apenas a riqueza do barroco que marcou a beleza e as características
das novas cidades coloniais. A arquitetura adaptada ao clima tropical, a integração
com a natureza, o traçado tortuoso das ruas e a simplicidade de largos e praças
também fazem parte dessa herança. Preservá-la é manter vivas as origens de
nossa história e de nossa identidade cultural.

Exercícios Relendo o texto

1. Releia Como eram as cidades no Brasil colonial e indique as atividades


que se desenvolviam nas cidades.

2. Releia Nosso patrimônio histórico-cultural e responda: por que os bens


históricos e culturais são importantes?

3. Releia A evolução das cidades . Pesquise sobre as cidades coloniais, em


revistas ou em livros ilustrados, ou converse com alguém que conheça essas
cidades. Escreva suas impressões a respeito.

4. Dê um novo título a esta aula.

Fazendo a História

1. A partir destes versos do cronista Luís Edmundo, tire suas conclusões sobre
como era a limpeza urbana da cidade do Rio de Janeiro, no período colonial.

Natureza mãe! Natureza amiga!


O homem suja, o vento varre
A água lava e o sol enxuga!

2. Neste trecho de carta ao rei de Portugal, o Marquês do Lavradio, vice-rei do


Brasil de 1769 a 1779, relatava como eram as pessoas das cidades do Brasil.
Faça uma crítica a essa opinião do marquês.

“ A maior parte é gente da pior educação, de péssimo caráter. Afinal, são


negros, mulatos, cabras, mestiços... Um povo difícil de governar, que
vive provocando desordens e inquietações!”

6
A UU
A L AL A

8
8
MÓDULO 2
A luta dos escravos

A noção de escravidão é bastante antiga e


existiu em diversas sociedades ao longo da História. Significava um tipo de
Nesta aula
relação que se construía e se mantinha baseada na violência. Escravizar era tirar
uma pessoa da comunidade em que havia nascido e se criado, mudar seu nome,
separá-la da família e tratá-la como se fosse uma coisa, que podia ser comprada
e vendida e sobre a qual o senhor tinha plenos poderes.
Mas os escravos não eram coisas. Eram seres humanos capazes de, mesmo
escravizados, influir em seus destinos. Grande parte da pesquisa recente que os
historiadores vêm realizando sobre a escravidão tem demonstrado isso. No
entanto, mesmo antes dos historiadores, os senhores e os comerciantes de
escravos, no Brasil e na África, já sabiam disso. Nesta aula, vamos perceber como
a história da sociedade brasileira, no período escravista, foi escrita não apenas
pelos senhores de escravos, mas também pelos próprios escravos.

As fugas de escravos

Os anúncios de escravos fugidos estavam sempre presentes nos jornais das


principais cidades do Brasil no século passado, como este, publicado no Correio
Paulistano , em 4 de setembro de 1879.

ESCRAVA FUGIDA

Da casa n
nº 2 da rua das Flores nesta capital, (nascida na
África), fugiu a escrava Maria, com os signaes [sinais]
seguintes: alta, magra, de nação, 40 a 50 anos de idade,
trajando vestido e chale cor de Havana, levando um
tabuleiro de doces, visto ser quitandeira. Foi vista
conversando, tomando a direção de Juqueri ou a do Ó.

Essa era a forma que os proprietários encontravam para noticiar que seus
escravos haviam escapado e, assim, fazer com que fossem reconhecidos e
devolvidos. Muitas vezes ofereciam recompensa pela recaptura.
A U L A Segundo um antigo senhor de escravos, os cativos recém-chegados quase
sempre tentavam escapar, mas se perdiam na terra estranha e eram recapturados.

8 Esse senhor, um inglês residente em Pernambuco, recomendava que não se


devia ser severo com eles, pois assim os cativos logo tentariam adaptar-se.
Para um escravo, fugir de uma fazenda significava meter-se mato adentro,
numa terra desconhecida, sob a perseguição constante dos capitães-do-mato,
indivíduos contratados pelos senhores de escravos para recuperar os cativos que
escapavam. Assim como os feitores, que vigiavam o trabalho dos escravos nas
fazendas, os capitães-do-mato sobreviviam por causa da necessidade do uso da
violência para se manter a escravidão. De um jeito ou de outro, a sociedade
escravista dependia de um caríssimo aparato de vigilância. Fugas, castigos,
feitores e capitães-do-mato faziam parte do cotidiano dessa sociedade.

Os escravos que
chegavam da
África ficavam em
mercados, onde
eram adquiridos Comunidade escrava e alforrias
como uma
mercadoria
qualquer.
Era difícil escapar, mas sempre havia muitos tentando. Porém, a fuga não
era a única possibilidade de reação para o africano recém-chegado. Muitos deles
permaneciam nas cidades, onde era muito maior a mobilidade do escravo. Ali
aumentavam suas possibilidades de juntar dinheiro até que conseguissem
comprar a liberdade.
É surpreendente o número de africanos que, em apenas alguns anos,
aprenderam a língua portuguesa, juntaram dinheiro, compraram a liberdade e
até conseguiram fretar navios com outros companheiros e voltar para a África.
A U L A

No campo,
os escravos
trabalhavam sem
descanso, sob
o olhar atento
dos feitores,
encarregados de
vigiá-los.

Não foram poucos, entretanto, os que conseguiram criar raízes comuni-


tárias, familiares e mesmo religiosas na nova terra. As comunidades escravas
mais antigas e, especialmente os escravos nascidos no Brasil, chamados crioulos,
aprendiam desde cedo a viver na escravidão e buscavam usar suas relações
familiares e comunitárias para construir uma identidade que não estivesse
baseada apenas na condição de cativos.
Não se deixar vencer era também cultuar seus deuses, executar suas danças,
fazer sua comida, introduzindo sua própria cultura na cultura do dominador. O
acesso a pequenas roças e a outras formas de renda pessoal alimentava também
o sonho da compra da alforria. Alguns conseguiam. A possibilidade de insurrei-
ção e de fugas coletivas funcionava como pressão para conseguir uma negocia-
ção com os senhores.

Os quilombos e as cidades

Grande parte dos escravos que conseguiam fugir procurava embrenhar-se


em regiões de difícil acesso. Eles entravam pelas florestas, se estavam no campo,
ou iam para regiões afastadas do centro, se estavam nas cidades.
Nas últimas décadas da escravidão, as cidades haviam se tornado bem
maiores e a maioria da sua população livre era composta de negros e mestiços.
Um simples par de sapatos tornava-se, por vezes, o único sinal exterior pelo qual
era possível distinguir os livres dos escravos. Muitos cativos passaram a
simplesmente se dirigir às áreas mais populosas dos centros urbanos, confun-
dindo-se no meio de tantos outros negros e mulatos que circulavam nas ruas,
ruelas e becos de muitas esquinas e portas.
Antes disso, escondiam-se de preferência nas matas, atrás das muitas serras,
onde criavam os quilombos - aldeias de escravos fugidos que se organizavam
para garantir a subsistência e apoiar outras fugas, o que fazia crescer o grupo dos
rebeldes. O poder senhorial não poderia deixar de reagir aos quilombolas -
negros aquilombados -, organizando expedições para derrotá-los.
A capacidade de conhecer e explorar as divisões e fraquezas do poder
senhorial é um traço comum aos escravos africanos no Brasil, seja quando faziam
A U L A pressão para conseguir maior autonomia dentro do cativeiro, seja quando
fugiam para os quilombos, seja quando se rebelavam coletivamente contra o

8 poder senhorial.
O Quilombo dos Palmares é um exemplo dessa capacidade do africano para
usar, como sua maior arma, o conhecimento que conseguia a respeito da
sociedade que o escravizava. Com a guerra provocada no Nordeste pelas
invasões holandesas, milhares de escravos fugiram para a serra da Barriga, em
Alagoas. Ali, juntaram-se a outros que, desde o século XVI, haviam se estabele-
cido e espalhado em pequenas comunidades da região. Vivendo em mocambos
(aldeias), as comunidades de Palmares sobreviveram por cem anos, graças à
agricultura de subsistência e ao artesanato, trocando tudo que sobrava de sua
produção nos povoados próximos.

As revoltas de escravos

No final do século XVIII e nas primeiras décadas do século XIX, a expansão


agrícola na Bahia, com o açúcar, e no Rio de Janeiro, com o café, determinou uma
entrada maciça de africanos em ambas as regiões.
Esse período foi marcado por várias insurreições escravas, envolvendo
especialmente os recém-chegados da África.
As insurreições de escravos no Recôncavo Baiano e em Salvador se repeti-
ram, por décadas, desde o final do século XVIII até o grande Levante dos Malês,
de 1835. Eram insurreições planejadas, que envolviam diversos engenhos ou
tentavam reunir os africanos da cidade de Salvador com os dos engenhos
vizinhos. Elas aconteciam sempre em datas religiosas e festivas do calendário
cristão, quando diminuía a capacidade de repressão da sociedade escravista.
Se as insurreições escravas, que marcaram o final do período colonial,
exploravam as fraquezas da sociedade escravista, o poder senhorial também
soube explorar as divisões no mundo dos cativos. Essas insurreições foram
movimentos essencialmente africanos, que não conseguiram conquistar os
escravos crioulos e os negros e mestiços que já tinham conseguido a liberdade ou
que nasceram livres. Os escravos crioulos preferiam pressionar para ter acesso
à alforria, na maioria das vezes por meio de compra. Recorreram até mesmo à
justiça para consegui-la.

O tempo Nas últimas décadas da escravidão, a maioria da população livre do Império


não pára era composta de descendentes dos antigos escravos africanos, e as fugas dos
cativos remanescentes começaram a se tornar incontroláveis. Sem o tráfico,
ficava cada vez mais difícil manter por mais tempo a escravidão tal como ela
funcionava no Brasil nas décadas finais do século XIX.
Relendo o texto Exercícios
A U L A

1. Releia As fugas de escravos e retire do texto um trecho que apresente as


dificuldades que os escravos encontravam para fugir do meio rural. 8
2. Releia Comunidade escrava e alforrias e descreva as formas de resistência
dos escravos.

3. Releia Os quilombos e as cidades e As revoltas de escravos e explique como


sobrevivia a comunidade do Quilombo dos Palmares no seu dia-a-dia.

4. Dê um novo título a esta aula.

Fazendo a História

A História do Brasil no período colonial foi construída não apenas por


senhores mas também por escravos.
Leia este documento e retire do texto dois trechos que comprovem a
afirmativa acima. Comente sua resposta.

“Tratado proposto a Manoel da Silva Ferreira pelos seus escravos


durante o tempo em que se encontravam levantados [rebelados].. ”
(Santana de Ilhéus, por volta de 1789)

“ Meu senhor, nós queremos paz e não queremos guerra; se meu senhor
também quiser, nossa paz há de ser nessa conformidade (...)
- Em cada semana nos há de dar os dias de sexta-feira e de sábado para
trabalharmos para nós não tirando um desses dias por causa de dia
santo; e para podermos viver nos há de dar rede, tarrafa e canoas (...)
- Os atuais feitores não os queremos, faça eleição de outros com a nossa
aprovação (...)
- Podemos brincar, folgar e cantar em todos os tempos que quisermos
sem que nos impeça nem seja preciso licença.” ”

6
A UA UL L AA

99
MÓDULO 3
De que jeito se
governava a Colônia

Apresentação Já conhecemos bastante sobre a sociedade


do Módulo 3 escravista, especialmente em sua fase colonial. Pouco sabemos ainda sobre a
organização do poder político na antiga Colônia portuguesa.
Neste módulo, vamos conhecer essa organização social e política. Vamos
estudar também as transformações culturais, socioeconômicas e políticas que
estavam acontecendo na Europa no final do século XVIII. Assim vamos entender
de que modo o Brasil se transformou em um novo país em 1822. Ele se tornou a
única monarquia no meio das várias repúblicas que foram surgindo nas Améri-
cas, nessa mesma época.

6
Nesta aula Não era nada fácil possuir colônias na Época Moderna (séculos XVI, XVII e
XVIII). Precisava-se criar uma organização que garantisse a posse das colônias
e, ao mesmo tempo, sua exploração.
Nesta aula, vamos ver de que modo Portugal enfrentou esse desafio e, de tão
longe, organizou o governo de sua Colônia na América.

Medidas colonizadoras: capitanias e Governo Geral

Por volta de 1530, quando Portugal decidiu colonizar de fato o Brasil, a


monarquia portuguesa encontrava-se com graves problemas financeiros. Não
possuía dinheiro suficiente para montar um sistema político-administrativo na
Colônia. A solução encontrada para a ocupação do território foi a doação de
terras a nobres e a ricos comerciantes de Portugal.
As terras que pertenciam à Coroa portuguesa pelo Tratado de Tordesilhas
foram divididas em capitanias hereditárias, isto é, que passavam de pai para
filho. Quando recebiam essas faixas de terra, os donatários (homens que
recebiam as capitanias) eram obrigados a cuidar da defesa do território contra a
invasão estrangeira e os ataques indígenas, mas garantiam com isso uma série de
vantagens para a montagem de engenhos de açúcar. Assim, a Coroa esperava
resolver o problema da posse do território, sempre atacado por outros países
europeus, e obtinha, ao mesmo tempo, uma rentável fonte de lucro: o açúcar.
A fim de atraí-los para a Colônia, foram oferecidos poderes políticos e A U L A
administrativos aos donatários. Embora não fossem os proprietários de todo o
território da capitania, os capitães-donatários eram encarregados de administrá-
la. Poderiam doar pedaços de terra − as sesmarias − para quem tivesse cabedal
(isto é, recursos financeiros) e fosse católico. Deveriam pagar impostos ao rei, que
9
tinha o monopólio do comércio de tudo o que fosse extraído na Colônia, desde
madeira e ervas até metais preciosos.

Capitanias hereditárias

O sistema de capitanias hereditárias permitia à Coroa dividir com particu-


lares o custo da colonização e administração das novas terras. Mas todos os
poderes eram uma concessão real.
Só foram bem-sucedidas as capitanias de São Vicente e Pernambuco, cujos
colonos tinham mais recursos para construir engenhos e combater os índios. A
presença jesuíta e a escravização de índios cristianizados garantiram a ocupação
portuguesa e o sucesso de São Vicente. Já Pernambuco tornou-se uma região
pioneira na formação da sociedade escravista das Américas. Isso aconteceu
porque estava mais perto da Europa e havia mais recursos para a construção de
engenhos e a compra de escravos. Outros fatores que contribuíram para isso
foram a violência e a determinação com que os moradores combateram os
nativos que lhes eram hostis.

De todas as
PARÁ
capitanias
MARANHÃO (DIVIDIDA EM DUAS)

CEARÁ
criadas, apenas
Pernambuco e
RIO GRANDE
São Vicente
DE TORDESILHAS

ITAMARACÁ
conseguiram
PERNAMBUCO prosperar, e
transformaram-se
AMÉRICA DO SUL BAHIA DE TODOS OS SANTOS
em pontos a partir
ILHÉUS
dos quais se deu a
PORTO SEGURO
posse definitiva
MERIDIANO

ESPÍRITO SANTO
das terras
SÃO TOMÉ
SÃO VICENTE brasileiras para a
SANTO AMARO
Metrópole.
SÃO VICENTE

SANTANA

As demais capitanias não prosperaram. Muitas delas nem chegaram a ser


ocupadas. O sistema de capitanias não atingiu seu objetivo de povoar o vasto
território brasileiro.
Para Portugal, era difícil controlar a Colônia e, para os colonos, ficava
complicado arcar com todos os problemas que ocorriam durante a colonização.

Governo Geral

Em 1548, diante dessa situação, foi criado o Governo Geral, com sede em
Salvador, para defender o território dos ataques externos e internos e auxiliar os
donatários que estivessem em dificuldades.
A U L A O objetivo da criação do Governo Geral foi dar “favor e ajuda aos donatários”,
segundo o Regimento elaborado por D. João III em 17 de dezembro de 1548. Para

9 auxiliar o governador , foram criados cargos de capitão-mor da costa , ouvidor-


geral e provedor-mor da Fazenda.
O primeiro governador-geral foi Tomé de Souza, que chegou ao Brasil em
1549. Depois dele veio Duarte da Costa, em 1553. Finalmente, veio Mem de Sá,
Capitão-mor: que governou até 1572. A partir dessa data, o Brasil foi dividido em dois
militar governos, com o objetivo de melhor combater os estrangeiros e incentivar as
encarregado pesquisas minerais no país.
da defesa. Várias medidas foram tomadas também no sentido de reduzir a autonomia
dos colonos, como, por exemplo, a proibição de ocupar o interior sem uma
Ouvidor-geral:
licença real. Mas isso nem sempre era respeitado. A tentativa de manter a
encarregado da
colonização no litoral para facilitar a vigilância da Metrópole, assim como a
justiça.
escolha de Salvador como sede do Governo Geral, a meio caminho entre o norte
Provedor-mor: e o sul da Colônia, não diminuíram o isolamento em que viviam os colonos e não
encarregado das afetaram a autonomia e o poder que eles tinham em algumas regiões. Mas de
finanças. onde vinham esses poderes?

O poder dos “homens bons”

Já vimos a importância dos engenhos na economia colonial, principalmente


na fase inicial. Sua importância não era apenas econômica, mas também política.
À medida que os engenhos se desenvolviam, especialmente na capitania de
Pernambuco, foram-se fundando as vilas, que deram origem aos municípios. Os
senhores de engenho ganhavam cada vez mais importância e se faziam repre-
sentar nas Câmaras Municipais, que tinham como objetivo administrar o
município e todo o seu patrimônio. Só participavam delas os homens bons, que,
na época, eram os representantes dos proprietários de terra e de escravos, e
constituíam o poder político-administrativo dos colonos.
O senhor de engenho era respeitado e temido não apenas pelos escravos,
vítimas mais freqüentes de sua violência, mas pelos lavradores, feitores e
todos os que estivessem à sua volta. Quanto mais homens ele controlasse,
especialmente escravos, mais importante e respeitado se tornava para a
sociedade da região. A hierarquia era a marca dessa sociedade, cujo valor
maior era a propriedade de escravos e de terras e o controle de todos os que
vivessem no engenho.

Em qualquer
situação, quem
vinha em primeiro
lugar era o chefe
da família,
o patriarca.
Em primeiro lugar estava o patriarca, seguido de sua família e, por fim, os A U L A
empregados e escravos. E esse poder não se restringia ao engenho, estendendo-
se até as vilas, por intermédio das Câmaras.
9
O Brasil holandês e a União Ibérica

A primeira metade do século XVII foi um tempo de guerra no Império


Colonial Português. As Coroas de Portugal e Espanha uniram-se no período de
1580 a 1640.
Ao ser incorporado à Espanha, Portugal tornava-se inimigo daqueles que
até então haviam sido seus principais parceiros nos lucros da aventura colonial:
os holandeses. Os comerciantes holandeses financiaram muitos dos primeiros
engenhos no Brasil e eram os principais compradores europeus do açúcar que
Portugal levava de Pernambuco. Também as especiarias que Portugal comprava
nas Índias eram vendidas para negociantes holandeses.
Mas Espanha e Holanda estavam em guerra. Para a América portuguesa, o
resultado disso foram duas invasões holandesas no litoral do Nordeste, sendo
que a segunda durou cerca de 24 anos − de 1630 a 1654.
Até hoje nota-se a marcante presença dos holandeses no Nordeste, princi-
palmente na cidade de Recife, conhecida como a Veneza brasileira, graças às
obras do príncipe holandês Maurício de Nassau. Após um período de acordo
com os colonos, a Holanda passou a adotar uma política mais rígida em seus
domínios no Brasil, como a cobrança de empréstimos e intolerância religiosa. A
partir daí, os colonos, com apoio de Portugal − que já havia se separado da
Espanha − conseguiram expulsar os holandeses do Brasil, após nove anos de
conflitos.
Expulsos do Brasil, os holandeses trataram de criar um novo pólo produtor
de açúcar na região do Caribe, na América Central, também em bases escravistas.
Assim, a escravidão africana se espalhou pela América Central, e criou-se um
forte concorrente ao açúcar brasileiro.
Ao se separar da Espanha em 1640, Portugal não estava em boa situação
econômica, pois havia perdido grande parte das suas colônias no Oriente. Além
disso, o açúcar brasileiro enfrentava a concorrência do açúcar da América
Central, o que ocasionou uma significativa queda de preços. Como sair da crise?

As reformas do Marquês de Pombal

A Metrópole passou a estimular, desde então, as entradas para o interior em


busca do ouro e outros metais preciosos. Com a descoberta das minas, nas terras
do atual estado de Minas Gerais, Portugal montou um sistema administrativo
centralizado, que se baseava numa fiscalização rígida e constante. A partir de
1750, essa centralização administrativa foi consolidada, principalmente, pelo
Marquês de Pombal − primeiro-ministro do rei de Portugal.
O centro administrativo da Colônia saiu de Salvador, sendo transferido, em
1763, para a cidade do Rio de Janeiro, mais próxima da região mineradora.
As capitanias particulares da região foram extintas e passaram para o
controle direto da Metrópole. Criaram-se as Companhias de Comércio do Grão-
Pará e Maranhão e de Pernambuco e Bahia − que sofreram forte oposição de seus
colonos até essas capitanias serem extintas. As companhias de comércio que-
riam estimular e controlar as atividades dessas áreas, por meio do monopólio.
A U L A Os jesuítas, verdadeiros colonizadores “concorrentes” na região amazônica,
foram expulsos da Colônia. As fronteiras com a América espanhola passaram a

9 ser negociadas entre Portugal e Espanha, e o mapa do Brasil colonial começou


a se aproximar do contorno do Brasil atual.

O tempo Ao longo do século XVIII, a região açucareira foi perdendo cada vez mais
não pára importância para a Metrópole, sendo superada pela região mineradora. Mas o
poder das famílias patriarcais não terminou. Os senhores de engenho ainda eram
temidos e respeitados pela população.
Enquanto isso, no Centro-Sul, a cobrança de impostos pela Metrópole foi se
tornando cada vez maior, e o Pacto Colonial começou a ser um problema para
os colonos dessa região. No final do século XVIII e no início do século XIX, novos
elementos entraram em cena na relação Metrópole-Colônia. Mas isto é uma
outra história...

Exercícios Relendo o texto


Leia mais uma vez o texto da aula, sublinhe as palavras que não entendeu e
veja o que elas significam, no vocabulário da Unidade ou no dicionário.
1. capitanias
Releia Medidas colonizadoras: capitanias e Governo Geral e responda:
a) Por que Portugal adotou o sistema de capitanias hereditárias para co-
lonizar o Brasil?
b) Quais os resultados do sistema de capitanias?
2. Releia O poder dos “homens bons” e responda:
a) Quem eram os homens bons ?
b) Que poderes eles tinham?
3. Releia O Brasil holandês e a União Ibérica e responda: quais os resultados
das invasões e da expulsão dos holandeses do Nordeste do Brasil?
4. Releia As reformas do Marquês de Pombal e responda: quais as medidas
adotadas por Pombal para aumentar o controle da Metrópole sobre a
Colônia?
5. Dê um novo título a esta aula.

Fazendo a História
Leia com atenção o texto abaixo e responda às perguntas.
“O ser senhor de engenho é título a que muitos aspiram, porque traz
consigo o ser servido, obedecido e respeitado de muitos. E se for, qual
deve ser, homem de cabedal e governo, bem se pode estimar no Brasil o
ser senhor de engenho, quanto proporcionadamente se estimam os
títulos entre os fidalgos do reino.”
Fonte: Antonil
1. Identifique no texto palavras ou trechos que mostrem a importância do
senhor de engenho.
2. Quem eram as pessoas que obedeciam, serviam e respeitavam os senhores de
engenho?
A UU
A L AL A

10
10
MÓDULO 3
Liberdade,
ainda que tardia!

E sse trecho de carta, mostrado abaixo, foi


escrito por um estudante brasileiro em Paris. A carta foi entregue a Thomas
Nesta aula
Jefferson, quando era embaixador da primeira nação independente das Améri-
cas, os Estados Unidos.

“SOU BRASILEIRO, E SABEIS QUE MINHA DESGRAÇADA PÁTRIA


GEME EM UM ESPANTOSO CATIVEIRO , QUE SE TORNA CADA DIA

MENOS SUPORTÁVEL . E STAMOS DISPOSTOS A QUEBRAR NOSSAS

CADEIAS E FAZER REVIVER NOSSA LIBERDADE, QUE ESTÁ COM -

PLETAMENTE MORTA E OPRIMIDA PELA FORÇA.”

Desde o descobrimento e ao longo do processo de colonização, o interesse


de Portugal em relação ao Brasil era bastante claro: a exploração mercantil da
Colônia. Afinal, a fase mercantilista previa a existência de áreas colonizadas,
dependentes e submetidas à Metrópole.
O Brasil não fugia à regra. Era uma colônia ligada a Portugal pelos fortes
laços do Pacto Colonial, que criava uma relação de dependência entre a Colônia
e a Metrópole.
No final do século XVII e início do século XVIII, esse sistema de exploração
começou a encontrar resistências e oposições, que tornaram claras as suas
contradições.
Pensadores europeus desenvolveram teorias econômicas, políticas e sociais,
que apontavam para uma nova maneira de ver o mundo: o liberalismo , base
ideológica do capitalismo atual.
As idéias liberais-burguesas, surgidas com o movimento do Iluminismo ,
tiveram como seus principais representantes alguns pensadores franceses como
Voltaire , Montesquieu , Rousseau.
Essas idéias marcaram o século XVIII como o “século das Luzes”. Elas
combatiam os direitos da nobreza e do clero, questionavam o poder exagerado
do rei (absolutismo) e defendiam os princípios de liberdade , igualdade e
fraternidade . E serviram de base para movimentos como a independência das
treze colônias inglesas da América do Norte - que se tornariam os Estados
Unidos -, a Revolução Francesa e a Inconfidência Mineira.
A U L A A Inconfidência Mineira

10 Durante o século XVIII, quando a atividade econômica da Colônia atingia


seus níveis mais altos, a Região das Minas fervilhava de riqueza, poder e idéias
de libertação. Os filhos das famílias mineiras mais prósperas podiam estudar na
Europa e, lá, entravam em contato com as idéias liberais-burguesas do Iluminismo.
Inconfidência: A inevitável comparação entre as condições políticas e econômicas existen-
falta de fidelidade tes no Brasil e as de outros países, como os Estados Unidos, criou aqui um clima
para com alguém, geral de revolta.
especialmente para
com o rei ou o
Governo;
conjuração; RAZÕES DA INCONFIDÊNCIA
deslealdade.

CAUSAS EXTERNAS

l Idéias iluministas - Os ideais da Revolução Francesa.


l Revolução Industrial - A necessidade de encontrar mercados e con-
sumidores para os bens produzidos em grande escala, desde a Re-
volução Industrial, forçou o estabelecimento do livre comércio, em
oposição ao Pacto Colonial.
l Independência dos Estados Unidos.
l Maçonaria - Sociedade secreta de liberais.

Observação - Os estudantes brasileiros tiveram contato com essas


idéias na Europa e as trouxeram para o Brasil. Assim, formou-se uma
consciência de libertação.

CAUSAS INTERNAS

l O mau governo de Luís da Cunha e Menezes (de 1783 a 1788).


l O monopólio dos comerciantes portugueses sobre as vendas de
alimentos, roupas e ferramentas, e os altos preços cobrados.
l A proibição de produzir quaisquer artigos na Região das Minas,
fossem alimentos, roupas ou ferramentas, e a proibição da explora-
ção do ferro e do salitre.
l O alto imposto cobrado sobre a produção do ouro e a derrama para
cobrar impostos atrasados.
l A impossibilidade de ascensão social dos negros e mulatos que exer-
ciam cargos importantes mas não eram reconhecidos.
l O rígido controle nas estradas para evitar o contrabando de ouro e
mercadorias, com penas severas aos infratores.

A chegada das idéias liberais ao Brasil coincidiu com a decadência das minas
e a conseqüente crise econômica. Portugal, no entanto, mantinha o mesmo ritmo
de exploração. Não aceitava a hipótese do esgotamento das minas, preferindo
acreditar no contrabando e na sonegação. Com o acúmulo de impostos atrasa-
dos, a Coroa decidiu executar a derrama .
A derrama A U L A

A derrama era a cobrança da diferença entre o imposto arrecadado e o


exigido pela Coroa, que exigia 100 arrobas, ou seja, 1.500 quilos por ano. Em 10
1765, faltaram 13 arrobas e foi feita a derrama para chegar no valor.
Em 1789 havia uma diferença acumulada de 596 arrobas. Para cobrá-la,
foram dadas instruções enérgicas aos encarregados. As casas seriam invadidas
e todos os objetos de valor encontrados seriam levados pelas tropas do Governo.
O descontentamento tomou conta da população que vivia na Região das
Minas. Mineiros, padres, militares e indivíduos da classe média prepararam um
movimento que seria deflagrado no dia da cobrança da derrama, aproveitando
a insatisfação popular.

O palácio do
governador, em
Vila Rica
(atual Ouro Preto,
em Minas Gerais),
era o símbolo da
dominação
portuguesa na
Região das Minas.

Entre outros, os poetas Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antônio Gonzaga,


os coronéis Domingos de Abreu Vieira e Francisco Antonio de Oliveira Lopes,
o padre Rolim, o alferes Joaquim José da Silva Xavier, chamado de Tiradentes,
participaram do movimento que ficou conhecido como Inconfidência Mineira .
Com muitos planos e pouca organização, os inconfidentes criaram um
projeto de reforma revolucionário:

l proclamação de uma república, com capital em São João del Rei;

l convocação militar de todo cidadão, em caso de necessidade;

l criação de indústrias têxteis e siderúrgicas;

l criação de uma universidade em Vila Rica;

l concessão de pensões às famílias pobres;

l doação de terras para aumentar a produção agrícola;

l adoção de uma bandeira com os dizeres: LIBERTAS QUAE SERA TAMEN.


Esse lema quer dizer: Liberdade, ainda que tardia.
A U L A Porém, o projeto dos inconfidentes não era muito claro em relação à
liberdade da mão-de-obra escrava.

10 Na realidade, os revoltosos não fizeram mais do que planos. Não houve


nenhuma preparação prática para a tomada do poder, nem mesmo para resistir
à derrama. Eles não se armaram, nem mobilizaram a população.
O fim da revolta foi marcado por denúncias feitas ao Governo pelo coronel
Joaquim Silvério dos Reis, em troca do perdão de suas dívidas com a Fazenda
Real. Informado do movimento, o governador, Visconde de Barbacena, suspen-
deu a derrama e mandou prender todos os implicados, que foram julgados e
condenados.

O alferes
José Joaquim da
Silva Xavier,
o Tiradentes, foi o
único condenado à
morte por causa
da Inconfidência
Mineira.

A pena de morte, imposta a todos os revoltosos, foi modificada para degredo


perpétuo, ou seja, expulsão sem volta, nas colônias portuguesas da África,
exceto para Tiradentes, que teve sua condenação mantida. Ele foi enforcado em
praça pública, em 21 de abril de 1792, com requintes de crueldade. O objetivo foi
demonstrar a força do governo português e evitar novas rebeliões.
Tiradentes foi o único executado, pois, além de assumir suas idéias, assumiu
também o fato de ter sido o único a pregar essas idéias para o povo. Foi também
o único que incitou a população. Por isso representava uma ameaça a mais.
A Conjuração Baiana ou Revolta dos Alfaiates A U L A

Em 1798 , aconteceu outra revolta, diferente da Inconfidência Mineira, mas


não menos importante. Foi a Conjuração Baiana ou Revolta dos Alfaiates, feita 10
por escravos, libertos, alfaiates, sapateiros, soldados, mulatos e brancos pobres.
Representou a luta da gente simples contra o abuso das autoridades e dos
comerciantes metropolitanos, contra o preconceito racial e social e contra a
escassez de gêneros alimentícios. Os revoltosos desejavam fundar uma repúbli-
ca e abolir a escravidão.
Por seu caráter popular, ou seja, pela grande participação do povo, é
considerada a primeira revolução social do Brasil.
Os líderes, os alfaiates João de Deus e Manuel Faustino dos Santos, e os
soldados Lucas Dantas e Luiz Gonzaga das Virgens, sofreram a mesma pena de
Tiradentes: foram enforcados e as suas partes ficaram expostas pelas ruas de
Salvador, para servir de exemplo.

PARA QUE SERVEM OS IMPOSTOS?

OS IMPOSTOS SÃO ARRECADADOS PELO GOVERNO PARA CUMPRIR SUAS FUN -


ÇÕES DE ADMINISTRAÇÃO , DE DEFESA , DE PRESERVAÇÃO E CONSERVAÇÃO , DE
EDUCAÇÃO , DE SAÚDE , DE PREVIDÊNCIA SOCIAL ETC .

OS IMPOSTOS DEVEM VOLTAR PARA OS CIDADÃOS EM FORMA DE SERVIÇOS E


BENEFÍCIOS : COMO A LIMPEZA URBANA , AS OBRAS PÚBLICAS , OS SERVIÇOS DE
SEGURANÇA , SAÚDE , EDUCAÇÃO E OUTROS .

A C OROA PORTUGUESA COBRAVA UM IMPOSTO MUITO ALTO SOBRE O OURO :


A QUINTA PARTE DE TODA A PRODUÇÃO . E ESSE IMPOSTO NÃO ERA UTILIZADO
NA C OLÔNIA . H AVIA MUITAS EXIGÊNCIAS E POUCOS BENEFÍCIOS PARA OS
MORADORES DO B RASIL .

S ÃO DUAS AS CONDIÇÕES PARA QUE O IMPOSTO SEJA LEGÍTIMO , ISTO É ,


ACEITO PELO CONTRIBUINTE :

A) QUE REVERTA EM BENEFÍCIOS PARA O CIDADÃO : EDUCAÇÃO , SAÚDE ,


DEFESA CIVIL ETC .;

B) QUE ESTEJA DENTRO DA CAPACIDADE QUE O CONTRIBUINTE TEM PARA


PAGAR . N ÃO DEVE SER EXAGERADO .

Q UANDO NÃO EXISTEM ESSAS DUAS CONDIÇÕES , A REAÇÃO PODE SER :


l SONEGAÇÃO ( NÃO PAGAMENTO );
l ENCERRAMENTO DE ATIVIDADES ( FALÊNCIA DE EMPRESAS );
l REVOLTA PARA DERRUBAR O GOVERNO ( NA DEMOCRACIA , ISSO É FEITO
PELO VOTO ; NO B RASIL COLONIAL SÓ E R A POSSÍVEL COM REVOLTAS
ARMADAS ).
OA tempo
U L A No século XVIII, com a divulgação das idéias liberais e com a Revolução
não pára Industrial inglesa, o Pacto Colonial passou a ser alvo de críticas tanto na Europa

10 quanto na América.
Os estudantes brasileiros em contato com essas idéias na Europa passaram
a divulgá-las na Colônia, onde o clima tenso, causado pela brutal exploração da
Metrópole, acabou por provocar revoltas, como a Inconfidência Mineira e a
Conjuração Baiana.
Outros países da América já estavam se libertando dos laços coloniais. Na
próxima aula veremos como a liberdade chegou ao Brasil.

Exercícios Relendo o texto

1. Releia Nesta aula e diga por que o século XVIII foi chamado de “século das
luzes”.

2. Releia A Inconfidência Mineira e relacione essa rebelião com os movimen-


tos iluministas europeus do século XVIII.

3. Releia A Inconfidência Mineira e A Conjuração Baiana ... Compare as


duas e diga qual delas teve maior participação popular. Por quê?

4. Releia A Inconfidência Mineira e A Conjuração Baiana ... e preencha o


quadro abaixo:

INCONFIDÊNCIA CONJURAÇÃO
MINEIRA BAIANA

DATA
DAT

LOCAL

GRUPOS QUE
PARTICIP
ARTICIP ARAM
TICIPARAM

REAÇÃO DA
METRÓPOLE

5. Dê um novo título a esta aula.

6
Fazendo a História A U L A

Leia com atenção o documento abaixo:


“ Art.1 - Os homens nascem e permanecem livres e iguais em direitos.
10
As distinções sociais não podem ser fundadas senão na utilidade comum.

Art.2 - O fim de toda associação política é a conservação dos di-


reitos naturais e imprescritíveis do homem. Estes direitos são a liber-
dade, a propriedade, a segurança e a resistência à opressão.

Art.3 - O princípio de toda soberania reside essencialmente na nação.


Nenhum corpo, nenhum indivíduo pode exercer autoridade que dela não
emane expressamente.

Art.4 - A liberdade consiste em poder fazer tudo o que não prejudica


outrem: assim, o exercício dos direitos naturais de cada homem não tem
limites senão aqueles que assegurem aos outros membros da sociedade
o gozo desses mesmos direitos. Tais limites só podem ser determinados
pela lei.

Art.5 - A lei não tem direito de proibir senão as ações prejudiciais à


sociedade; tudo o que não é proibido pela lei não pode ser impedido e
ninguém pode ser constrangido a fazer aquilo que ela não ordene.

Art.6 - A lei é a expressão da vontade geral; todos os cidadãos têm o


direito de concorrer pessoalmente ou pelos seus representantes para a
sua formação. Ela deve ser a mesma para todos, quer proteja, quer puna.
Todos os cidadãos, sendo iguais a seus olhos, são igualmente admissíveis
a todas as dignidades, lugares e empregos públicos, segundo a sua
capacidade e sem outra distinção, que a das suas virtudes e dos seus
talentos.”
Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, aprovada pela Assembléia
Constituinte da França em 26/8/1789.

1. Identifique no texto palavras ou frases que falem sobre a liberdade.

2. Identifique no texto palavras ou frases que falem sobre a igualdade.

3. Identifique no texto palavras ou frases que falem sobre a propriedade.

4. Indique, separadamente, os direitos do cidadão e as obrigações do governo.

5. Segundo o documento, qual é a relação entre o Governo e os cidadãos?

6. Você acha que seria possível obedecer a esta Declaração no Brasil colonial?
Justifique sua resposta.

6
A UA UL L AA

11
11
MÓDULO 3
Independência
do Brasil

Nesta aula N o dia 7 de setembro, comemoramos a Inde-


pendência do Brasil. Por isso, é feriado nacional. Todos nós sabemos que os
feriados significam algo mais do que apenas um dia de folga. Mas nem sempre
paramos para pensar sobre o significado daquela data, sobre a sua importância
para a nossa História.
Foi só a partir da Independência que o Brasil passou a ser considerado uma
nação, pois deixou de ser uma Colônia de Portugal e começou a se organizar
como um novo país - o Império do Brasil.
A Independência do Brasil fez parte de um movimento mais geral de crítica
ao poder absoluto dos reis europeus e de defesa dos ideais de liberdade e
igualdade que abalaram definitivamente o poder de controle das Metrópoles
sobre suas colônias na América. As idéias liberais, a independência dos Estados
Unidos e a Revolução Francesa exerceram grande influência na América e
contribuíram para a formação de vários novos países independentes. Quase
todos se tornaram repúblicas, apenas o Brasil adotou a monarquia, tornando-se
o Império do Brasil, em 7 de setembro de 1822.
Nesta aula, vamos ver como o Brasil fez sua independência. Como questão
central, a pergunta:
Por que Império do Brasil e não República do Brasil?

Quando o Brasil ainda era a América portuguesa

Para entender como aconteceu a Independência e perceber por que o Brasil


adotou a monarquia, convém recordar a situação da América portuguesa no
final do século XVIII e início do século XIX.
Naquela época, o Brasil já possuía um imenso território. Mas sua população
reduzida (cerca de 5 milhões de habitantes) estava distribuída irregularmente e
era mais concentrada no litoral.
O interior quase não tinha povoações. As comunicações eram difíceis e
demorava-se muito para ir de uma capitania a outra. As viagens, geralmente
feitas por mar, eram muito demoradas: levava-se, por exemplo, três semanas
para ir de Recife até o Rio de Janeiro. Por terra, gastava-se muito mais tempo,
pois praticamente não existiam estradas. Por isso, a penetração pelo interior do
território era muito pequena. Em algumas regiões, existia também a possibilida-
de da navegação pelos grandes rios, mas com viagens difíceis.
Assim, o isolamento entre as regiões permanecia muito grande. Além disso, A U L A

11
não existiam grandes cidades servidas por estradas bem conservadas. Nem o
Rio de Janeiro, capital da Colônia, com suas ruas estreitas, escuras e sujas,
oferecia melhores condições de comunicação com as demais regiões. A cidade
vivia fechada em si mesma.
Essa situação, no entanto, começou a se transformar depois da chegada da
Corte portuguesa ao Rio de Janeiro. O imperador francês Napoleão Bonaparte
mandou tropas para invadir Portugal, e a família real portuguesa resolveu
instalar-se no Rio de Janeiro e transformar a cidade em sede do seu governo. A
chegada da Corte portuguesa, em 1808, provocou grandes mudanças na vida da
Colônia e influenciou decisivamente no rumo dos acontecimentos que, depois,
fizeram parte do processo de independência do Brasil.

A Corte no Brasil

Quando D. João chegou ao Brasil, a Colônia que ele encontrou era algo que
nunca havia imaginado. Não era uma unidade, e sim um amontoado de focos
de colonização que lutavam por interesses locais. Foi por essa falta de unidade
que as rebeliões coloniais não obtiveram sucesso.
A chegada da família real e a instalação do governo português no Rio de
Janeiro fizeram a capital ganhar ares de Metrópole.

Esta cena mostra


a chegada de um
membro da
família imperial
ao Rio de Janeiro.
A cidade, que já
era capital da
Colônia, tornou-se
sede da Corte e
importante centro
de decisões.
Logo que aqui chegou, em 1808, D. João assinou a abertura dos portos do
Brasil às nações amigas . Era o fim do Pacto Colonial e da política de
monopólios. A partir de então, o Brasil podia fazer comércio com diferentes
países sem a intermediação de Portugal.
Essa medida favoreceu o comércio com a Inglaterra. Os mercados brasileiros
ficaram abarrotados de produtos ingleses. A elite da Colônia passou a consumir
produtos refinados, como tecidos e calçados, cristais e vidros, louças e porcela-
nas, todos trazidos por comerciantes ingleses.
Em 1810, D. João assinou os Tratados de Aliança e Amizade e de Comércio
e Navegação com a Inglaterra, por meio dos quais foram criadas tarifas alfande-
gárias que favoreciam o comércio dos produtos ingleses. Os produtos portugue-
A U L A ses continuariam pagando 16% de taxas sobre o valor de suas mercadorias; as
demais nações pagavam 24%, mas os produtos ingleses pagavam apenas 15%.

11 Além dessa vantagem comercial, os ingleses obtiveram do governo português


o compromisso de abolir lenta e gradualmente a escravidão, começando por
limitar o tráfico apenas às colônias portuguesas da África.
Como é fácil perceber, essas medidas representavam uma submissão da
economia colonial brasileira aos interesses da Inglaterra e, por isso, foram muito
mal-recebidas, principalmente pelos comerciantes portugueses, que perderam
seus privilégios para os ingleses. Os traficantes e proprietários de escravos
também não ficaram nada satisfeitos com a idéia da abolição gradual da
escravidão.

A Revolução Pernambucana

A transferência da Corte portuguesa para o Brasil não trouxe, como se


imaginava, vantagens para todos. Um bom exemplo disso foi o que ocorreu em
Pernambuco por volta de 1817. Os pernambucanos ficaram insatisfeitos com a
presença da Corte no Brasil. Na época, eles estavam passando por uma grave
crise na produção de açúcar e de algodão. Mesmo assim, eram obrigados a pagar
pesados impostos para sustentar a política expansionista de D. João na Guiana
Francesa e o luxo da Corte e de seus inúmeros funcionários.
Em Recife, capital da província de Pernambuco, a revolta era geral, e as
idéias liberais pipocavam nas diversas sociedades secretas. Isso foi crescendo a
tal ponto que, temendo a explosão de uma revolução, o governador de
Pernambuco ordenou a prisão de alguns membros dessas sociedades.
Mas essa atitude precipitou a revolução e, em março de 1817, os revoltosos
prenderam o governador e, em seguida, estabeleceram um governo provisório.
Esse novo governo recebeu o apoio de províncias vizinhas como Rio Grande do
Norte e Paraíba. Porém, o medo de que as idéias de liberdade dos líderes
revolucionários levassem à libertação dos escravos fez com que muitos fazendei-
ros retirassem o seu apoio.
A Corte não iria permitir que aquela rebelião ameaçasse a unidade do
Império que queria construir. D. João logo enviou reforços para reprimi-la,
temendo que se repetisse aqui o que tinha acontecido na ilha de São Domingos.
Lá, uma revolta liderada por escravos resultou não só na independência do país,
mas em algo muito importante: a conquista de sua liberdade.
Como podemos concluir, a defesa do liberalismo no Brasil terminava quan-
do se tocava na questão da libertação dos escravos.

De Reino Unido a país independente

D. João tomou algumas medidas que permitiram a formação de uma


estrutura econômica, política e administrativa mais autônoma, reunindo na
cidade do Rio de Janeiro um poderoso grupo de proprietários, comerciantes e
funcionários, para os quais interessava que o Império português se fixasse aqui
no Brasil. Além das vantagens econômicas dadas à Inglaterra, a Corte doou
sesmarias (terras) a comerciantes e funcionários da administração, favoreceu a
vinda de estrangeiros para se fixarem e trabalharem em terras brasileiras e abriu
estradas ligando o interior ao Rio de Janeiro. Enfim, tomou um conjunto de
medidas para integrar a capital às demais regiões do país.
Uma revolução cultural A U L A

No campo cultural, a presença da Corte no Brasil permitiu uma grande


abertura. O fim da proibição da instalação de gráficas junto com a criação da 11
Imprensa Régia permitiram a publicação de vários textos, o que resultou em
maior circulação de idéias, embora a Imprensa Régia só se interessasse por
fofocas da Corte e houvesse censura a tudo quanto fosse publicado pelas gráficas
particulares.
Além disso, foram criadas escolas destinadas aos filhos de famílias ricas,
entre elas a Academia Real de Marinha e a Academia Real Militar , destinadas
a formar engenheiros civis e oficiais para as Forças Armadas.
Criou-se a Academia de Belas Artes que teve como professores os membros
da chamada Missão Francesa, formada por escultores, arquitetos, pintores e
desenhistas vindos da França. Esses profissionais também deixaram importan-
tes registros (especialmente desenhos) sobre a vida cotidiana do povo brasileiro
naquele período.
Também vieram ao Brasil vários estudiosos europeus. Formaram expedi-
ções científicas que se embrenharam pelo interior. Alguns desses europeus
estudaram a fauna e a flora brasileiras, enquanto outros buscaram compreender
a origem do homem americano. Além de tudo isso, houve a criação da Biblio-
teca Pública e do Museu Real .

Colônia nunca mais

A essa altura, diminuía a sensação de dispersão e isolamento. A elevação do


Brasil a Reino Unido ao de Portugal e Algarves reforçava ainda mais a idéia
de que o Brasil finalmente deixara de ser uma Colônia. Era, naquele momento,
sede da Coroa portuguesa. Havia liberdade econômica, e a presença da família
real representava segurança para os grupos beneficiados pela política de D. João.
Para eles tornava-se cada vez mais forte a consciência de que era fundamental
manter o Brasil como sede do governo. Como a situação européia ainda era
perigosa (por causa de revoluções), também para a família real era interessante
permanecer no Brasil. Assim, havia naquele momento uma união de diferentes
interesses. E foi com esse sentimento que a elite colonial impediu que o Brasil
voltasse à antiga condição de Colônia, quando, mais tarde, D. João retornou
a Portugal.

A proclamação da Independência em 7 de setembro

Enquanto tudo isso acontecia, em Portugal houve a Revolução do Porto, que


exigia a volta de D. João e o retorno do Brasil à condição de Colônia. Era o ano
de 1820. D. João via-se novamente pressionado, sem saber que decisão tomar: se
ficava aqui, como queria a elite brasileira, ou se voltava para Portugal, conforme
exigiam os portugueses. Por fim, resolveu atender aos seus súditos portugueses
e retornou a Portugal. Mas deixou aqui um representante da família Orleans e
Bragança, seu filho D. Pedro.
Porém, as pressões continuavam: de um lado, os portugueses insistiam em
recuperar seus privilégios econômicos e sua dominação política sobre o Brasil;
de outro, políticos brasileiros apresentavam manifestos com milhares de assina-
turas reivindicando a permanência de D. Pedro no Brasil. Membros do Partido
Brasileiro queriam que fosse convocada uma Assembléia Constituinte para que
A U L A se fizessem leis mais adequadas às necessidades e aos interesses do país naquele
momento crítico. A imprensa não parava de divulgar artigos que defendiam a

11 Independência do Brasil.
Depois de muita indecisão e de muita pressão, D. Pedro resolveu romper
com o governo de Portugal. Em 7 de setembro de 1822, às margens do riacho do
Ipiranga, D. Pedro proclamou a Independência do Brasil. Em seguida, ele foi
aclamado pelo povo e sagrado pelo bispo para então ser coroado Imperador
Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil .

Esta ilustração
mostra parte de
um quadro maior,
no qual o pintor
criou uma cena
com D. Pedro à
beira do riacho do
Ipiranga, em São
Paulo, ao declarar
que o Brasil
se tornava
independente de
Portugal.

Como você pôde verificar, a Independência brasileira foi o resultado de


acordos entre o príncipe D. Pedro e os grupos beneficiados pela política de
D. João. Para os dois lados interessava, naquele momento, romper com
Portugal. A adoção do governo monárquico afastou qualquer ameaça de
retorno à situação de Colônia e assegurou a manutenção dos privilégios
obtidos anteriormente. Por outro lado, achava-se que a monarquia poderia
garantir a unidade do território e evitaria a explosão de revoltas nas demais
regiões da antiga Colônia.

6
Após a Independência, era preciso fazer novas leis, impor a autoridade OA tempo
U L A
do imperador sobre as províncias que não haviam aceito a Independência e não pára
conseguir que os países estrangeiros reconhecessem o Brasil como um novo
país. Em resumo, era necessário organizar o Estado independente e concluir 11
a obra de construção do Império do Brasil.

Relendo o texto Exercícios


Leia mais uma vez o texto da aula, sublinhe as palavras que não entendeu
e procure ver o que elas significam, no dicionário ou no vocabulário da
Unidade.
1. Releia Quando o Brasil ainda era a América portuguesa e retire tre-
chos que comprovem o isolamento das regiões brasileiras.

2. Releia A Corte no Brasil e identifique a importância da abertura dos


portos assinada por D. João em 1808.

3. Releia A proclamação da Independência em 7 de setembro e identifique


uma razão para a Revolução Pernambucana.

4. Dê um novo título a esta aula.

Fazendo a História
"Digne-se Vossa Majestade tomar em consideração que Portugal é um reino
de pequena extensão e escassamente povoado (...) que o ramo mais útil de sua
agricultura, que é o vinho, se acha em decadência pela abertura dos portos
do Brasil aos vinhos de todas as nações, que a nossa indústria se paralisou
consideravelmente com a livre entrada em Portugal e no Brasil dos produtos
ingleses, com cujos preços não pode competir; que o comércio decaiu
extraordinariamente não só pela mencionada abertura dos portos do Brasil,
que privou Portugal do comércio exclusivo com aquele reino, mas pela
concorrência de todas as nações marítimas sendo muito para recear que, se
as coisas assim continuarem, desapareça brevemente dos mares a bandeira
portuguesa."
Texto citado por J. H. Saraiva em História concisa de Portugal , p. 271.
O documento acima é uma carta que o governo português mandou a D.
João, descrevendo a situação de Portugal no ano de 1820. Leia-o atentamente,
consulte os itens finais do texto da aula e responda:
1. Como estava a situação econômica em Portugal?

2. Por que “desapareça brevemente dos mares a bandeira portuguesa”?

3. Como as elites portuguesas procuraram sair dessa situação? A recoloni-


zação do Brasil era uma alternativa?

4. Como as forças políticas no Brasil reagiram à tentativa de recolonização?

6
A UA UL L A
A

12
12
MÓDULO 4
Muitas cores e formas

Apresentação A nteriormente, quando falamos do encontro


do Módulo 4 de duas culturas, falamos de estranhamento. Como possuíam culturas diferen-
tes, ameríndios e europeus encontraram muitas dificuldades e, por isso, não
tiveram um bom entendimento.
Durante a formação do Brasil colonial, essa diversidade cultural ganhou
mais um colorido com a vinda dos escravos africanos. Além disso, existiam
profundas desigualdades sociais. Com tantas diferenças, será que a sociedade
escravista estava produzindo uma cultura própria, uma linguagem comum a
todos os povos que faziam parte dela?

Nesta aula Nesta aula vamos ver como se formou a cultura no Brasil escravista e
como ela se transformou, especialmente durante o período em que o país era
colônia de Portugal.

Selvagens e pagãos

Ao traçar um perfil da cultura brasileira, devemos levar em consideração


três importantes influências na organização social: a do índio, basicamente
comunitária; a do negro, de religiosidade forte e marcante; e a do branco
colonizador, de padrões europeus.
O descobrimento da América, em 1492, e o descobrimento do Brasil, em
1500, provocaram um verdadeiro choque na cultura européia. Encantados, os
primeiros portugueses que desembarcaram aqui encontraram uma terra coberta
de vegetação exuberante, com flores, árvores e frutos nunca vistos e animais
completamente desconhecidos, de todos os tamanhos e cores - uma verdadeira
festa para os olhos.
O espanto foi grande quando os portugueses viram que os povos indígenas
viviam nus, enfeitados com penas coloridas, colares feitos de sementes e lindos
desenhos pintados pelo corpo. Eram alegres, curiosos. Dançavam, cantavam,
trabalhavam em suas roças e faziam potes de cerâmica e cestos de palha. Era uma
gente que levava vida completamente diferente dos europeus.
Os portugueses devem ter se perguntado: “Como entender essa outra A U L A
cultura?” E logo perceberam que, para dominar esse povo, era preciso co-
nhecê-lo, conhecer sua maneira de viver.
12

Os indígenas
cristianizados
começaram a
freqüentar as aulas
dadas por padres
jesuítas, que até
fizeram uma
gramática da
língua tupi.

Os diferentes artistas, escritores e sábios da Europa tentaram explicar o que


era este Novo Mundo. Para eles, a América representava o paraíso na Terra, um
mundo de seres mágicos, cheio de mistérios e perigos, povoado por seres
humanos completamente selvagens e distantes de Deus, que deveriam ser salvos
e civilizados.
E os africanos, que chegavam ao Brasil como escravos, também trouxeram
muitas culturas diferentes. Com eles também vieram seus deuses, suas comidas,
seus costumes, suas músicas e danças, suas artes e, com isso, uma maneira
diferente de viver em família, de mostrar sua visão do mundo. Os portugueses
consideravam os negros bárbaros e pagãos. Por causa desse ponto de vista,
justificavam a escravidão.
Para os senhores de escravos, os africanos não tinham cultura, e tudo que
faziam de diferente não passava de selvageria, feitiçaria e superstição. E foi
assim que os portugueses começaram a impor sua fé e seus hábitos aos escravos.
Mas acontece que é muito difícil controlar completamente uma cultura, pois
ela faz parte da vida das pessoas. As crenças e as formas que uma pessoa tem de
pensar e perceber o mundo não podem ser totalmente destruídas. Transfor-
mam-se ao longo do tempo e, com essa transformação, modificam a cultura de
uma sociedade. Portugueses, indígenas e africanos (dominadores e dominados)
precisavam se entender e se comunicar.
No dia-a-dia, as diferentes formas de viver e de perceber o mundo se
misturavam, e o resultado disso era uma coisa nova, que deu origem às muitas
cores e às muitas formas da cultura colonial brasileira. Deu origem a uma cultura
cheia de diferenças, mas capaz de garantir a comunicação, a convivência e, em
alguns casos, até o conflito entre aqueles homens e mulheres que formavam a
sociedade escravista no Brasil.
A U L A Confronto e convivência na cultura do Brasil escravista

12 No século XVI, a vida era muito difícil para todos os habitantes do Brasil
colonial, especialmente para os negros e índios escravizados. No entanto, até os
senhores de terra e de escravos enfrentavam dificuldades. Para eles, não era fácil
a adaptação ao clima, aos novos alimentos e à vida numa terra desconhecida.
A população ficava bem espalhada, e, muitas vezes, o vizinho mais próximo
morava a vários quilômetros de distância. Quase não havia estradas de terra, e
as que existiam eram ruins.
De vez em quando, batia a saudade de Portugal naquela gente acostumada
à vida nas cidades européias da época, pois o dia-a-dia na Colônia não tinha
nenhum atrativo.
E mesmo as casas dos donos de fazenda eram simples e de chão batido. Claro
que era uma situação diferente da do escravo, porque haviam escolhido vir para
o Brasil, mas essa escolha não era simples.
Geralmente os portugueses que vinham para o Brasil eram gente pobre, sem
terras, sem títulos de nobreza nem fortuna. Vinham para cá justamente por isso.
E, nessa situação, isolados nas fazendas e roças, conviviam no cotidiano com os
trabalhadores indígenas, africanos e mestiços.

Toda a alegria
dos escravos
revelava-se nas
festas de rua, que
eram organizadas
ou surgiam
espontaneamente
em dias
consagrados a
santos ou nas
colheitas e feiras
regionais.

Os portugueses eram os senhores e davam as ordens. Mandavam e castiga-


vam. Obrigavam seus escravos a se batizarem na Igreja Católica, proibindo que
mantivessem suas religiões. Mas não podiam vigiar e controlar o tempo todo. E
os escravos africanos iam para a lida na lavoura cantando suas cantorias de
trabalho; as amas-de-leite e as escravas que cuidavam dos filhos dos senhores
entoavam canções e contavam histórias da África; nas festas permitidas pelos
senhores, os cativos dançavam e enfeitavam-se como se estivessem em sua terra,
e lembravam sua língua.
Era comum uma fazenda possuir escravos africanos que vinham de povos
diferentes e até mesmo rivais. No Brasil eles descobriram como eram parecidas
as suas línguas e crenças religiosas de origem. Foi por isso que, aqui, os escravos
passaram a se aceitar de uma maneira que seria impossível em sua terra natal.
Como já vimos, muitas palavras que hoje fazem parte da nossa língua vieram A U L A
da África, trazidas pelos escravos. Durante essa convivência entre dominadores
e dominados, a cultura africana que os escravos trouxeram foi sendo transforma-
da, mas também se misturou à cultura dos portugueses, criando novas maneiras 12
de viver.
Do mesmo modo, os índios introduziram muitos elementos nessa vida
cultural. A construção de casas de taipa é um exemplo disso.
A técnica dessa construção foi ensinada pelos nativos e até hoje é usada no
interior do Brasil. O indígena também ensinou como conseguir e preparar boa
parte dos alimentos consumidos no tempo em que o Brasil era Colônia. Afinal,
eles conheciam a terra, os recursos, o tipo de construção mais adequado - para
manter o interior da casa fresco no calor e protegido no inverno e na época de
chuvas -, os frutos comestíveis, a mandioca boa para cozinhar ou fazer farinha,
a caça adequada para comer. Com isso, introduziam a sua cultura alimentar, a
sua técnica de construção, a sua arte.
Ano após ano, em meio à luta dos escravos, à resistência indígena e à
dominação dos senhores portugueses, o dia-a-dia foi criando uma cultura
própria: a cultura do Brasil escravista.
Podemos definir essa cultura como tudo aquilo que fazia parte da vida
daquelas pessoas e que, de alguma forma, contribuía para que elas se entendes-
sem e conseguissem se comunicar, apesar das diferenças. E, nesse quadro geral,
também podemos dizer que o conflito e a convivência eram as duas faces de uma
mesma moeda.

Algumas manifestações da cultura popular colonial

Quando os primeiros portugueses vieram para cá, chegaram com eles os


padres da Igreja Católica. Esses padres, quando procuraram converter (cate-
quizar) os índios brasileiros para a religião católica, tiveram que, antes, conhecer
sua cultura e sua língua. Só assim podiam se aproximar e fazer com que os
nativos os compreendessem, atraindo-os para a sua religião.
Foi por isso que começaram a representar peças de teatro sobre cenas da
Bíblia e histórias de santos, fazendo cerimônias religiosas com muita música,
cânticos, roupas e enfeites religiosos, velas acesas, incensos, e muitos padres
como celebrantes. Criavam um espetáculo grandioso, “de encher os olhos”,
como se diz.
Essas peças, conhecidas como autos religiosos (ou, simplesmente, autos)
foram a origem do teatro brasileiro. E, com a cristianização de muitos índios e
africanos, vários elementos da cultura desses povos começaram a fazer parte das
peças teatrais.
O teatro religioso era bem popular e nas festas sempre havia um espaço para
as apresentações que, em geral, eram feitas pelos habitantes das pequenas
cidades do Brasil colonial. Nos autos, era comum ver uma “virgem maria”
mestiça, um “são francisco” índio e um “jesus cristo” com a cara e a cor do povo
daquela região.
Nas festas religiosas o povo exibia sua música, suas danças e seu gosto por
alegorias e enfeites. Quanto mais cores, melhor. Nessas ocasiões, vestia-se a
melhor roupa e até se calçavam sapatos, que eram guardados para tais comemo-
rações. Fora do calendário religioso, existiam festas que celebravam as colheitas,
com danças e folguedos nas feiras onde se ia comprar ou vender o gado, ou
simplesmente folias nas poucas horas de folga, quando se cantava e dançava.
A U L A Mesmo os senhores de escravos mais rigorosos sabiam que a tristeza não

12
era boa companheira e que precisavam ter alguma tolerância em relação a
essas brincadeiras. Foi a partir daí que se desenvolveram as muitas festas do
boi e as folias negras, como as Congadas, nas quais os africanos representa-
vam seus reis e suas rainhas.
Em geral, quase não houve trabalhos literários no Brasil desse período. A
maioria da população era analfabeta e, entre os que sabiam ler, os livros
religiosos eram os mais lidos, principalmente a Bíblia. Os padres formavam
o setor mais instruído da população.

Ouro e cultura no Brasil colonial

A partir do século XVIII, a mineração do ouro, como já se viu, trouxe riqueza.


Surgiram cidades, apareceram novos tipos de trabalhos e serviços e, nesse
período, aumentou a presença do governo português no Brasil. Tais elementos
novos mudaram bastante a sociedade e, portanto, a cultura.
As igrejas e casas ricas ganharam uma decoração cheia de enfeites. As festas
passaram a ter mais brilho, mais luxo, mais ostentação. Havia mais dinheiro e,
principalmente, ouro em circulação.
Da Europa vieram influências importantes para o novo gosto cultural.
Ornamentação de luxo, objetos de ouro e prata, tecidos finos, bordados nas
toalhas e nas roupas eram privilégio dos que tinham fortuna.
Os membros da elite colonial brasileira aderiram a essas modas e deram-
lhes as cores e os ingredientes da cultura do Brasil colonial: mais detalhes
ainda na decoração das igrejas, nos enfeites das roupas, e mais cor e brilho nas
alegorias das festas.
Tudo isso passou a ser incorporado às tradições populares. As pessoas
começaram a valorizar as cerimônias religiosas mais cheias de paramentos. E as
missas mais concorridas passaram a ser celebradas por vários padres, ricamente
vestidos, nas igrejas que os artistas negros e mulatos construíram e para as quais
fizeram esculturas de madeira e ouro.
Dando asas à imaginação e interpretando a seu modo a tradição católica, os
artistas e trabalhadores decoraram as igrejas da Região das Minas de tal modo
que até hoje maravilham a todos.
Esse período ficou conhecido como barroco mineiro ou barroco brasi-
leiro , marcado por um estilo vistoso e cheio de detalhes luxuosos.
Levados para o trabalho nas minas, os muitos escravos, negros libertos e
mulatos continuaram a viver suas tradições, com suas danças, cantos e celebra-
ções, fazendo a História do Brasil do século XVIII.
A partir de suas danças surgiram o lundu , o coco , o samba de roda , que
logo se tornaram populares, mas causaram espanto e desagrado entre os
estrangeiros e os religiosos mais conservadores.

O tempo A riqueza da sociedade mineradora fez também surgir uma cultura da elite.
não pára Os filhos das famílias mais ricas eram mandados para estudar na Europa,
especialmente em Portugal, na Universidade de Coimbra. Lá, entravam em
contato com a literatura européia. Surgiram, então, nossos primeiros escritores.
Na Europa, esses jovens da elite entravam em contato também com
novas idéias que pregavam maior liberdade, criticavam a Igreja Católica e,
principalmente, discutiam o colonialismo, como a forma pela qual um país
dominava o outro.
No Brasil, os efeitos dessas idéias provocaram rebeliões, conflitos e um A U L A
aumento da oposição a Portugal. Essas idéias chegaram até a provocar em
algumas pessoas o desejo de acabar com a escravidão, como queriam os rebeldes
da Conjuração Baiana de 1798. 12
Relendo o texto Exercícios
Leia mais uma vez o texto da aula, sublinhe as palavras que não entendeu e
procure seu significado, no dicionário ou no vocabulário da Unidade.

1. Releia Selvagens e pagãos e identifique no texto os trechos que explicam


como os portugueses consideravam a cultura dos indígenas e dos africanos.

2. Releia Confronto e convivência na cultura do Brasil escravista e identi-


fique no texto como, apesar da dominação portuguesa, as culturas indígenas
e africanas influenciaram a sociedade colonial.

3. Releia Algumas manifestações da cultura po popular


pular colonial e retire do
texto duas dessas manifestações da cultura popular.

4. Releia Ouro e cultura no Brasil colonial e identifique algumas característi-


cas culturais do período conhecido como barroco mineiro.

5. Dê um novo título a esta aula.

Fazendo a História

Os textos a seguir são trechos da carta de Pero Vaz de Caminha, mandada


ao rei de Portugal, dando conta do descobrimento e da posse das terras do Brasil
pela esquadra de Pedro Álvares Cabral, em 1500. Leia os dois e, depois, responda
às perguntas.

“ Todavia, um deles fixou o olhar no Colar do Capitão e começou a


acenar para a terra, como que querendo dizer que ali havia ouro. ”

“ Parece-me gente de tal inocência que, se nós entendêssemos a sua fala


e eles a nossa, seriam logo cristãos, visto que não têm nem entendem
crença alguma.”

1. Esses dois pequenos trechos da carta de Pero Vaz de Caminha informam


sobre quais objetivos da colonização portuguesa?

2. Você concorda com o trecho da carta que diz que os índios “não têm nem
entendem crença alguma”?

6
A UA UL L AA

13
13
MÓDULO 4
Fé, festa e fervor

Nesta aula N esta aula, trataremos da religiosidade po-


pular no Brasil colonial. Falamos de cultura na aula passada e já aprendemos
que a religião, além de ser um componente básico na cultura de qualquer
povo, foi um elemento especialmente importante na formação cultural do
Brasil escravista. Tendo em vista, de um lado, o poder da Igreja Católica e, de
outro, as muitas tradições religiosas no Brasil colonial, como seria a religio-
sidade popular naquela época?

A Igreja Católica em tempo de expansão e conversão

As Grandes Navegações, que trouxeram os portugueses ao litoral brasileiro


no ano de 1500, tinham uma justificativa religiosa e missionária: era preciso levar
o cristianismo a todas as partes do mundo onde ele ainda não havia chegado,
para converter e, portanto, salvar os que não conheciam aquela que era conside-
rada a verdadeira fé.

Logo que os
portugueses
desembarcaram,
houve a celebração
da primeira missa,
caracterizando,
já de início,
a religião que iria
predominar na
Colônia.
A necessidade e, principalmente, o dever de expandir a religião católica A U L A
funcionou nessa época como um enorme estímulo à participação nas viagens dos
descobrimentos. Existiam interesses econômicos nessa expansão, mas também
havia uma fé real na importância do crescimento do número de fiéis da Igreja 13
Católica.
O encontro com diferentes grupos indígenas que habitavam o Brasil causou
surpresa e espanto aos navegadores portugueses, entre os quais estavam repre-
sentantes da Igreja Católica. Logo essa surpresa deu lugar à determinação de
converter todos os índios, considerados como infiéis, de acordo com a visão
católica.
Do século XVI ao século XIX, o tráfico de escravos trouxe para o Brasil muitos
africanos, retirados à força de suas casas, separados das famílias e de sua terra
natal e tratados como mercadorias pelos traficantes de escravos.
Embora a Igreja Católica não combatesse a escravidão africana, passou a
considerar os africanos cativos como almas que podiam ser salvas pela conver-
são. Muitas vezes, os escravos eram batizados antes de serem embarcados ou
durante a sua sofrida viagem nos navios negreiros. Ou, então, recebiam o
batismo na chegada ao Brasil, nos mercados de escravos ou na casa de seus
senhores. Para os escravos, tornar-se cristão não era uma questão de escolha:
antes mesmo de receberem as primeiras informações sobre a nova religião, eram
forçados a aceitá-la.
A Igreja Católica chegou ao Brasil com os primeiros portugueses e, desde o
início, assumiu uma atitude firme no sentido de fazer valer sua fé, suas regras e
sua moral. Era uma Igreja que se via dentro de uma “guerra santa” contra todos
os que não acreditavam nela. E, numa guerra, muitas vezes as armas são a
violência, a repressão. Essa Igreja guerreira via como possíveis inimigos todos
aqueles que não eram cristãos, e os combatia duramente. Porém, a realidade do
Brasil colonial - cheio de índios, africanos, caboclos, mulatos e brancos não
católicos - foi se mostrando de tal maneira viva e poderosa que acabou por
transformar esses planos de “guerra santa”, que não eram só da Igreja mas
também do governo português.

Índios e africanos tinham religiões próprias

Os grupos indígenas do Brasil, apesar de falarem línguas diferentes e de


terem costumes diferentes, possuíam elementos comuns nas suas religiões,
pois adoravam as forças da natureza, faziam cultos aos seus antepassados e
acreditavam em deuses que protegiam suas atividades principais: a caça, a
lavoura, a guerra. E realizavam festas para esses deuses com o objetivo de
agradá-los ou agradecer-lhes algum benefício, acreditando na influência
deles na sua vida cotidiana.
Os escravos negros trazidos para cá vieram de diversas regiões da África.
Falavam línguas diferentes e estavam acostumados a viver de diversas manei-
ras. Na religião, também existiam grandes diferenças: havia escravos muçulma-
nos, que acreditavam em Maomé e adoravam o deus Alá; e havia uma maioria
de cativos que adotava outras religiões.
Tais religiões acreditavam nas forças da natureza e em seus elementos, e sua
fé estava voltada para o poder do espírito de seus mortos e para os deuses que
um dia haviam sido humanos e que protegiam aqueles que nasciam com sua
herança espiritual - os seus “filhos” na Terra.
Entre os portugueses que vieram para o Brasil no início da colonização
(século XVI), também existiam diferenças sociais. Alguns poucos eram altos
A U L A funcionários do governo, representando o rei de Portugal; outros, igualmente
em pequeno número, eram nobres que receberam terras no Brasil ou represen-

13 tantes de comerciantes ricos; havia alguns padres e uma maioria de portugueses


pobres - agricultores, artesãos, que viam nesta terra uma possibilidade de
melhorar de vida. E quase todos esses portugueses pobres trouxeram de sua terra
uma forte fé católica, mas essa fé manifestava-se de uma forma diferente da fé
dos seus patrícios ricos.
A Igreja Católica dos portugueses pobres era uma Igreja de festas religiosas
com danças e músicas, e seus fiéis carregavam amuletos, santinhos e medalhas
de proteção, valorizando muito os santos. E as histórias de vida dos santos
estavam repletas de sentimentos e atitudes muito parecidos com os dos homens
comuns ou cheias de acontecimentos mágicos e maravilhosos.

Nossa Senhora
do Rosário era
a padroeira
dos escravos,
que faziam
festas animadas
para ela.

A religião na vida social da Colônia

Esses grupos tão diferentes passaram a conviver no Brasil colonial, desde o


século XVI. No começo não eram muito numerosos, com exceção dos índios. E
a população estava espalhada pelas fazendas e pelas poucas e pequenas cidades.
Nesses primeiros tempos de vida colonial, o ponto de encontro entre os habitan-
tes do Brasil era a missa dos domingos e as festas religiosas que aconteciam
durante o ano.
Essas comemorações, portanto, tornaram-se muito importantes para a vida
das pessoas, principalmente as mais pobres. Esse era o espaço que existia para
conhecer outras pessoas, fazer amizades, arrumar pretendentes e para se divertir
e celebrar a vida.
Para os escravos, as missas e festas católicas eram, em geral, um momento de
alívio para o sofrimento cotidiano e a possibilidade de um pouco de divertimen-
to. Cada vez mais, os escravos foram transformando as festas católicas em festas
deles, misturando suas formas de festejar, suas danças, seu jeito de cantar. Além
de festejar os santos e o Deus dos cristãos, os escravos também cultuavam seus
deuses antigos.
Mas esses cultos precisavam ser escondidos e, na maioria das vezes, disfar- A U L A
çados dentro do culto católico, que era a única forma de religião aceita. Ainda
assim, apesar de toda a proibição, preservaram suas canções religiosas em
línguas africanas e seus toques de tambores sagrados, os conhecimentos neces- 13
sários para a sobrevivência das suas religiões e a força da fé que tinham nos seus
deuses. Tudo isso foi mantido, passando dos pais para os filhos, dos filhos para
os netos e adiante.
Os índios que foram integrados à sociedade colonial trouxeram de suas
religiões também o gosto pelas festas vistosas e a crença em entidades da
natureza, presentes nas florestas, nos rios e nas tempestades. Esses seres mágicos
se misturavam à figura dos santos na imaginação dos indígenas e também
passaram a fazer parte das muitas histórias que o povo criava e contava.
Deuses indígenas, deuses africanos e santos católicos: todos eles se mistura-
vam no dia-a-dia do povo do Brasil colonial, criando um catolicismo próprio, de
caráter mestiço, festeiro, resultado de toda essa mistura que se realizava sob o sol
dos trópicos.

As irmandades: expressão do catolicismo popular e mestiço

Especialmente no século XVIII, uma antiga tradição portuguesa começou a


crescer, ganhar força e também novos significados no mundo colonial: as
irmandades religiosas. Tais irmandades eram associações de fiéis, os quais, sem
serem padres ou religiosos de profissão, organizavam-se para render culto a um
determinado santo, para o qual erguiam um altar dentro de uma igreja que já
existisse e, principalmente, realizavam muitas festas e procissões em sua honra.

Os escravos se
uniam para
também criar
suas irmandades,
as quais
organizavam
desde festas e
folias até enterros.

As irmandades dividiam-se do mesmo jeito que a sociedade colonial: havia,


separadamente, irmandades de brancos, de pardos e de pretos.
Das irmandades de pardos, faziam parte negros e mulatos livres, que assim
marcavam sua diferença em relação aos escravos e aos libertos.
Das irmandades de pretos, faziam parte escravos e libertos, especialmente
os nascidos na África, para os quais a participação em uma irmandade significa-
va uma forma de integração direta na vida religiosa, promovendo eles mesmos
suas festas, procissões e cultos. Além disso, era também uma forma de se
organizarem. Por intermédio das irmandades, eles se ajudavam, inclusive
juntando ou conseguindo dinheiro para comprar a liberdade de seus membros.
A U L A Boa parte da religiosidade popular também era compartilhada por membros
das elites. As procissões religiosas da época reproduziam a hierarquia da

13 sociedade colonial. As irmandades de brancos, pardos e pretos reproduziam, no


campo religioso, as desigualdades sociais.

Fé e festas

A riqueza que resultou da exploração do ouro tornou a sociedade colonial do


século XVIII mais dada à ostentação e ao luxo. As irmandades religiosas, mesmo
as de pessoas pobres, passaram a fazer suas festas com muitos enfeites, alegorias,
bandeiras, tudo feito com tecidos vistosos, com muitas peças e detalhes doura-
dos. Nos enterros, os membros das irmandades gastavam o dinheiro que tinham
e que não tinham, contando para isso com a ajuda da família, dos amigos ou dos
companheiros de irmandades, para realizarem cortejos fúnebres cheios de
pompa. Também se costumava deixar, em testamento, dinheiro para ser gasto
com as missas para a própria alma. E, quanto mais padres pudessem rezar essa
missa, quanto mais cânticos tivesse, quanto mais enfeitada estivesse a igreja,
melhor. Não só os ricos, mas principalmente os pobres, davam um enorme valor
a essas cerimônias.
Por que será que isso acontecia? Por que tanta importância às festas para os
santos, aos ritos fúnebres igualmente festivos, com tanta encenação, luxo e
brilho? Por que se gastava tanto com essas cerimônias, a ponto de serem feitos
sacrifícios durante toda a vida para cobrir seus gastos?
Há muitas explicações válidas e a história da formação do povo brasileiro na
época colonial mostra muita coisa...
Em primeiro lugar, as pessoas acreditavam que, dessa forma, agradavam a
Deus e mais ainda, aos santos de sua devoção.
Isso ainda é assim até hoje. Quem não viu, não se lembra ou não ouviu falar
de festas de São João ou Santo Antônio bem animadas, bem enfeitadas, com
muita fartura e muito colorido, em cidades de gente muito pobre, que gasta todas
as suas economias para homenagear os santos? E as Folias de Reis, as Folias do
Divino, que o povo do interior faz tanta questão de celebrar, mesmo em tempos
difíceis?
Em segundo lugar, o destaque dessas festas, fosse para os santos, fosse
para homenagear um morto, dava importância a quem as promovia e a quem
era homenageado. Ora, numa sociedade tão desigual e opressora, tornava-se
fundamental ganhar um espaço digno, pelo menos por meio da religião,
principalmente no caso da grande maioria de pobres e escravos. E como
garantia, acreditavam também, tudo representava uma bênção e uma boa
passagem para a outra vida. O que era muito desejado, para compensar a
vida tão dura neste mundo.
Mas nem tudo era catolicismo na sociedade do Brasil colonial no século
XVIII... A religiosidade popular era muito variada. As religiões que vieram da
África permaneceram no conhecimento do povo, embora estivessem escondidas
das autoridades. Muitas senhoras e senhoritas brancas, que iam à missa aos
domingos e se diziam católicas fervorosas, freqüentavam adivinhos e sacerdotes
dos cultos de origem africana para ouvir conselhos e pedir consolo para suas
aflições. E entre os negros - escravos ou libertos - era mais comum ainda a fé e
o culto aos deuses de seus antepassados.

6
No século XIX, em nome do progresso e da civilização, cresceria a oposição OA tempo
U L A
aos excessos das festas religiosas populares e aos costumes de enterrar os mortos não pára
nas igrejas das irmandades. Os primeiros cemitérios públicos do país foram
construídos nesse século. Também a Igreja Católica tentaria disciplinar as 13
manifestações religiosas, separando festa e fervor.

Relendo o texto Exercícios


Leia mais uma vez o texto da aula. Sublinhe as palavras que não entendeu
e procure seu significado, no dicionário ou no vocabulário da Unidade.
1. Releia A Igreja Católica em tempo de expansão e conversão e retire do
texto os objetivos religiosos da expansão européia na América.

2. Releia Índios e africanos tinham religiões próprias e identifique as tradi-


ções religiosas indígenas, africanas e européias que estavam presentes no
início do processo de colonização portuguesa no Brasil.

3. Releia A religião na vida social da Colônia e retire do texto um parágrafo


que resuma as diversas contribuições que formaram o catolicismo colonial.

4. Releia As irmandades: expressão do catolicismo popular e mestiço e


Fé e festas e explique com suas palavras o que era uma irmandade e como
elas se organizavam.

5. Dê um novo título a esta aula.

Fazendo a História

Na Folia do Divino cantavam-se os seguintes versos:


“O Divino Espírito Santo
É um grande folião
Amigo de muita carne,
Muito vinho e muito pão.”
Versos da “Festa do Divino”, registrados por Melo Morais Filho em
seu livro Festas e tradições populares do Brasil, citados por João José
Reis ao falar dos festejos religiosos no século XVIII, na Bahia.

Agora, responda:
1. Lendo estes versos, que idéia eles passam para você, sobre o Divino Espírito
Santo?
2. Será que esta maneira de falar sobre os gostos do Divino Espírito Santo
correspondia à imagem que a Igreja Católica procurava divulgar naquela
época?
3. Como você explica essa diferença entre a maneira que o povo tinha de falar
sobre o Divino Espírito Santo e a visão da Igreja?

6
A UA UL L AA

14
14
MÓDULO 4
A cara do Brasil

Nesta aula N o início da colonização do Brasil, ainda no


século XVI, quando começou o cultivo da cana-de-açúcar, a sociedade brasileira
foi se formando de maneira muito peculiar.
As relações entre o colonizador branco, o escravo africano e o índio nativo
foram condicionadas pelo sistema de produção econômica - a monocultura da
cana-de-açúcar - e pela escassez de mulheres brancas. Nesta aula, vamos estudar
como ocorreu essa grande mistura.

A integração e a miscigenação raciais

Os portugueses que vieram para o Brasil, inicialmente, não trouxeram suas


mulheres e filhas, pois achavam perigoso para elas. Aqui, convivendo durante
anos com os indígenas, começaram um primeiro processo de miscigenação. Os
mais ricos, e donos de engenhos, após construírem suas casas de fazenda,
As mulheres mandavam vir mulheres de Portugal para com elas se casar.
negras tiveram Com a vinda dos africanos, a miscigenação prosseguiu em ritmo mais
filhos mulatos acelerado. As restrições morais da religião católica não eram muito obedecidas na
ou cafuzos,
distante colônia, e brancos uniam-se com índias e negras sem casamento.
desde que a
escravidão As negras foram as principais companheiras dos brancos no período coloni-
africana al, pois a sua utilização como escravas domésticas facilitou esse contato. Algu-
instalou-se no mas negras alcançavam a liberdade para si e para seus filhos. Assim, uma
Brasil. camada de mulatos livres foi se formando ao lado dos caboclos.
Um dos mais destacados estudiosos brasileiros, o pernambucano Gilberto A U L A
Freyre, escreveu no seu famoso livro Casa-grande & senzala a seguinte passa-
gem sobre essa questão:
14
“ Vencedores no sentido militar e técnico sobre as populações indíge-
nas; dominadores absolutos dos negros importados da África para o
duro trabalho na bagaceira, os europeus e seus descendentes tiveram,
entretanto, que transigir com índios e africanos quanto às relações
genéticas e sociais ”.

Gilberto Freyre nos fala da miscigenação . Para ele, a sociedade patriarcal da Miscigenação:
colonização portuguesa no Brasil promoveu a mistura de raças e a mistura de cor. cruzamento inter-
Os tipos mais característicos dos mestiços brasileiros são o mulato , resultado da racial, ou seja,
mistura entre brancos e negros; o mameluco , originado das relações entre casamento entre
brancos e indígenas; e o cafuso, fruto da mistura de negros e índios. pessoas de raças
diferentes. Os
filhos são mestiços.
O patriarcado

O patriarcado é um tipo de organização social na qual o chefe da família tem


poderes absolutos sobre a esposa e os filhos. No Brasil colonial, servos e escravos
faziam parte integrante da família, e os filhos do sexo masculino, mesmo
casados, continuaram vivendo sob o domínio do patriarca.
As relações entre a casa-grande e a senzala não se definiam apenas pela
dominação do branco sobre o negro mas também por um código moral pouco
rígido, que acabou por promover a miscigenação no Brasil ou, como no dizer de
Gilberto Freyre, a nossa “morenidade”...

O branco português

Os portugueses, por sua localização na península Ibérica, descendem de


povos bastantes miscigenados. Sua cultura e seu tipo físico são resultantes de
misturas que se deram por milênios. Isso porque a península Ibérica foi invadida
e ocupada por muitos povos, como os fenícios, os romanos e os mouros. Assim,
a língua portuguesa é uma língua latina porque provém da língua dos romanos,
o latim. E há muitas influências mouras na arquitetura, na culinária, na música
e até na língua portuguesa.
Mais do que qualquer outro povo, os portugueses tinham uma especial
tolerância racial que lhes permitia conviver e miscigenar-se. Talvez por serem
tão poucos e pelo fato de seu país ser tão pequeno é que se lançaram para a grande
aventura de conquistar e colonizar terras distantes.
Devemos considerar que, quando iniciaram a colonização no Brasil a partir
de 1532, os portugueses já haviam tido uma experiência de mais de cem anos na
África e na Índia.
A política colonizadora portuguesa chegou até mesmo a incentivar o
casamento entre lusos e nativos, conquistadores e conquistados, para consti-
tuírem família, um dos pilares da colonização.
Flexibilidade, permeabilidade e adaptabilidade marcaram a aventura colo-
nizadora portuguesa nos trópicos. O mesmo não aconteceu com outros povos
que por aqui estiveram.
A U L A Os holandeses, por exemplo, permaneceram cerca de quarenta anos em
Pernambuco. A integração racial e cultural desse povo aos nativos foi quase nula.

14 A aspereza da língua, a sobriedade e a severidade da religião protestante


dificultavam a miscigenação e o contato com as culturas.

Hoje, a população
brasileira é
uma espécie de
“amostra” de
diferentes tipos
raciais, como se
revela neste
quadro de
Tarsila do
Amaral.

A colonização portuguesa nos legou um povo mestiço, resultante da


assimilação de todas as raças.
O que aconteceu nos Estados Unidos foi muito diferente. Lá também
chegaram milhares de indivíduos levados da África para serem escravizados.
Ao contrário do colonizador português, porém, os puritanos ingleses não se
misturaram, não se miscigenaram com outras etnias, nativas ou africanas. Essa
é uma das razões da origem do intenso racismo nos Estados Unidos, cuja
segregação só foi abolida legalmente em 1954.

A interpenetração das culturas

Cultura: O colonizador branco se apossou das terras e impôs aos habitantes nativos
conjunto dos elementos da sua cultura, como a língua, a religião e o modo de produção. Os
valores materiais e portugueses usaram sua superioridade tecnológica, como o uso da pólvora e dos
espirituais criados metais, para impor também sua maneira de viver e de pensar, como se essa fosse
por um povo: a melhor. No entanto, a cultura portuguesa não resistiu ao contato com as
língua, religião, culturas indígenas e africanas sem que também se misturasse, pois, na realidade,
técnicas, as culturas não são superiores umas as outras, são diferentes.
experiência Gilberto Freyre comenta: “Diz-se que o brasileiro foi colonizado pelo portu-
de produção guês. Esse conceito é convencional. Contra ele tenho sugerido outro. O negro no
e de trabalho, Brasil não foi colonizado, foi colonizador ” . Para esse autor, o negro no Brasil
arte e teria agido com sutileza e inteligência, suavemente, sem aspereza, para conse-
organização guir domínio sobre seus dominadores.
familiar e social. Prova disso é a cozinha brasileira. Resultante de influências européias,
africanas e ameríndias, foi misturada pela mão negra, que acabou impondo o seu
tempero ao gosto do dominador.
As religiões indígenas e negras não foram exterminadas pelo catolicismo A U L A
mas fundiram-se, formando diversos tipos de culto, que receberam o nome de
religiões afro-brasileiras. Nelas, os deuses africanos confundem-se com santos
católicos. E isso ficou conhecido como sincretismo religioso . 14
Mesmo a própria língua portuguesa adquiriu palavras e expressões indíge-
nas e africanas, o que resultou num “amaciamento” da língua, tornando-a
diferente do áspero português falado em Portugal.
As técnicas portuguesas também foram enriquecidas por conhecimentos e
práticas de seus escravos, pois vieram da África técnicos em minas, artífices de
ferro, pecuaristas, comerciantes de panos, entre outros.
E a música, então? Ao som dos atabaques e tantãs, surgiu o batuque. Com
chocalhos e maracas indígenas, o ritmo ganhou contraponto. Com as violas e
cavaquinhos portugueses, temos a melodia e o esplendor da música popular
brasileira, com o seu ritmo incomparável e uma diversidade melódica e temática
única no mundo.
Tal música corresponde a uma dança cheia de molejo, sensualidade e graça.
É assim que o brasileiro dança, com o “balanço” da cor, nos terreiros, nas
gafieiras, nos pagodes, oloduns e lambadas, na explosão do carnaval.

É imensa a diversidade de povos africanos e indígenas que se encontraram O tempo


em terras do Brasil: benguelas, bantos, congos, angolas, monjolos, mandingas, não pára
são apenas alguns dos povos africanos representados no Brasil. Além dos
brancos portugueses, os franceses e holandeses deixaram um pouco de suas
cores no Brasil Colônia ao se miscigenarem no Maranhão e em Pernambuco,
respectivamente. No século XIX, também os alemães vieram colorir esse quadro,
seguidos de italianos, poloneses e ucranianos. Já no século XX, vamos ter
também sírios-libaneses, japoneses, chineses e coreanos misturando-se com as
gentes do Brasil.

Relendo o texto Exercícios


1. Releia A integração e a miscigenação raciais e faça um quadro com os
mestiços que correspondem aos cruzamentos raciais que ocorreram no
Brasil colonial.

2. Releia O patriarcado e procure explicar como era esse tipo de organização


social.

3. Releia O branco português e compare as relações raciais dos colonizadores


portugueses com as dos puritanos ingleses da América do Norte.
A U L A 4. Releia A interpenetração das culturas e identifique influências negras e
indígenas na cultura brasileira.

14 5. Dê um novo título a esta aula.

Fazendo a História

1. Leia estes versos em voz alta. Verifique quais as palavras que você conhece
e quais as que você usa.

vatapá, farofa, abaré


acarajé, caruru, angu
mingau, canjica, tutu
feijoada e mocotó.

banguela, batuque, banzé


caçula, cochilo, cafuné
macumba, mandinga, ebó
quitute, quindim de iaiá.

Tonin, Tetê, Dondon


nenem, sinhá, papá
maínha, bambanho, mimi
pipi, bumbum, cocô

Brasil, aprende a ser negro ,


música de Milton Nascimento
e Fernando Brandt.

2. Gilberto Freyre escreveu:

“(...) as Antônias ficaram Dondons, Toninhas, Totonhas; as Teresas,


Tetés; os Manuéis; Manés; os Franciscos, Chicos, Chiquinhos, Chicós;
os Pedros, Pepés; os Albertos, Bebetos, Betinhos. Isto sem falarmos
das Iaiás, Ioiôs, das Sinhás, das Manus, Calus, Bembéns, Dedés,
Marocas, Gegês. ”
.
a) Faça uma lista de nomes de pessoas que você conhece, com seus apelidos.

b) Compare sua lista com a lista de seus colegas.

c) Numa folha grande, desenhe e pinte, como se fosse um cartaz, seu apelido
ou o nome pelo qual você gosta de ser chamado. Use sua criatividade.
Depois, compare seu trabalho com o dos seus colegas.

6
A UU
A L AL A

15
15
MÓDULO 5
O início do Império

E m toda a América, o século XIX foi um Apresentação


tempo de independências e abolições. Nesse quadro, o Brasil não foi exceção. do Módulo 5
Neste último módulo vamos ver de que modo se construiu e se consolidou
em nosso país uma monarquia que foi, ao mesmo tempo, constitucional e
escravista.
Também vamos acompanhar como, a partir do conflito entre cidadania e
escravidão, desfez-se, pouco a pouco, a sociedade escravista no Brasil.

6
No dia 7 de setembro de 1822, D. Pedro proclamou a Independência do Brasil Nesta aula
com o apoio de grupos brasileiros e portugueses. A partir dessa data, teve início
um momento decisivo na vida do novo país. Era hora de definir como seria
organizado o novo Estado, como seriam as relações entre o poder central e as
províncias e, finalmente, quais seriam os direitos e deveres do povo brasileiro.
Quem era o povo brasileiro? Será que, a partir daquele momento, todo
mundo passava a ser considerado cidadão?
Afinal, quem era considerado cidadão no Império do Brasil?

As lutas políticas no 1º Reinado

A separação de Portugal, anunciada por D. Pedro em setembro de 1822, foi


recebida com entusiasmo em muitas cidades brasileiras. Menos de três meses
depois, o príncipe português foi coroado Imperador do Brasil, e começava o
período que ficou conhecido como 1º Reinado.

L I N H A D E T E M P O D O IMPÉRIO

TEMPOTEMPOTEMPOTEMPOTEMPOTEMPOTEMPOTEMPO
1 º REINADO REGÊNCIAS 2 º REINADO

1822 1831 1840 1889


A U L A Como acontece na maioria das vezes na História, homens e mulheres que
comemoraram a proclamação da Independência do Brasil possuíam diferentes

15 motivos. Entre os portugueses que moravam aqui, havia, na Corte, um grupo


que tinha boas razões para festejar.
Esse grupo era quase todo composto por comerciantes e altos funcionários
que tinham vindo para o Brasil junto com a família real. Essas pessoas sentiam-
Dinastia: se ameaçadas com as mudanças em Portugal, desencadeadas pela Revolução do
série de reis que Porto. Temiam uma possível recolonização do Brasil e, com isso, a perda de seus
pertencem à privilégios políticos e sociais, adquiridos durante o governo de D. João VI, como
mesma família. cargos importantes, terras, títulos de nobreza.
Não foi à toa, portanto, que apoiaram D. Pedro e a emancipação política
brasileira. Seu principal objetivo, a partir daí, seria fortalecer o novo impera-
dor . Contavam ainda com a possibilidade de uma futura reunificação das
Coroas portuguesa e brasileira sob as ordens da família real portuguesa: a
dinastia Bragança. Esse grupo passou a ser conhecido como Partido Português ;
de forma depreciativa, alguns brasileiros os chamavam de “pés de chumbo”,
pois eram favoráveis ao absolutismo e não desejavam mudanças.
Entre os brasileiros, dois grupos políticos desempenharam importante
papel na proclamação da Independência e, por isso, também possuíam fortes
razões para comemorar. Eram os democratas , liderados por Gonçalves Ledo, e
os aristocratas , liderados por José Bonifácio de Andrada, ministro do primeiro
governo brasileiro.

OS PARTIDOS POLÍTICOS - DO 1º REINADO ATÉ 1870

1º REINADO PERÍODO REGENCIAL 2º REINADO

PARTIDO PARTIDO
PORTUGUÊS RESTAURADOR

PARTIDO PARTIDO
REGRESSISTA CONSERVADOR

PARTIDO
ARISTOCRATAS LIBERAL
MODERADO

PARTIDO PARTIDO PARTIDO


BRASILEIRO PROGRESSISTA LIBERAL

DEMOCRATAS PARTIDO
LIBERAL
EXALTADO
O grupo dos democratas, formado por intelectuais, advogados e jornalistas A U L A
da cidade do Rio de Janeiro, acreditava que seria possível conciliar monarquia
e democracia, isto é, a nova forma de organização política do Brasil deveria
basear-se na vontade da maioria da população, e nunca na autoridade do 15
imperador, que deveria apenas representar um símbolo de unidade do país.
A soberania, isto é, o mais amplo poder era da nação e, para governar,
D. Pedro I deveria jurar previamente sobre a Constituição brasileira, a ser
elaborada por um órgão representativo da nação: a Assembléia Constituinte.
O grupo dos aristocratas de José Bonifácio, que reunia os principais repre-
sentantes das províncias, discordava inteiramente das propostas de Gonçalves
Ledo e seus seguidores.
Esse grupo temia a descentralização do poder sugerida pelos democratas.
Alegava que essas propostas poderiam resultar em desordens sociais e na
quebra da unidade do país, do mesmo modo que estava ocorrendo naquele
momento nas repúblicas hispano-americanas que eram antigas colônias espa-
nholas na América.
Os aristocratas defendiam uma monarquia que tivesse o poder limitado por
uma Constituição, mas que deveria preservar a autoridade do imperador .
Assim sendo, os aristocratas não concordavam com o juramento prévio à
Constituição.
Os dois grupos, mais os membros do Partido Português, participaram da
eleição para a primeira Assembléia Constituinte brasileira, que iniciou os seus
trabalhos em maio de 1823. Antes disso, os democratas, em razão de suas
discordâncias com os aristocratas, foram perseguidos e afastados da vida
política a mando do ministro José Bonifácio.

A Constituinte de 1823

Durante a Constituinte, excluídos os democratas, a luta pelo poder se deu


fundamentalmente entre o Partido Português e o grupo de José Bonifácio. A
situação em Portugal aumentava a tensão política.
D. João VI, que voltara para lá, retomou o poder absoluto, fato que agradava
ao grupo português e ameaçava o brasileiro. Para os primeiros, abria-se a
possibilidade de uma reunião das Coroas portuguesa e brasileira, algo inteira-
mente inaceitável para os brasileiros, que, buscando preservar a independência,
passaram a elaborar propostas com o objetivo de diminuir o poder dos portugue-
ses no Brasil e limitar o poder do imperador.
Por exemplo:
l os estrangeiros seriam inelegíveis, isto é, não poderiam ser votados para
cargos de representação nacional;
l o imperador não poderia governar também outro reino;
l a Câmara dos Deputados, na qual os brasileiros contavam com maioria, não
poderia ser dissolvida.
Além disso, o grupo brasileiro sugeria medidas como o voto censitário, ou
seja, votariam apenas aqueles que possuíssem determinada renda anual, o que
impedia a maior parte da população de participar das eleições.
Com exceção do voto censitário, o conjunto de propostas desagradou ao
Partido Português e ao imperador que, no final de 1823, fechou a Constituinte.
Para elaborar a lei máxima brasileira, “digna dele e do Brasil”, como disse ao
dissolver a Constituinte, D. Pedro I nomeou uma comissão que, em pouco
tempo, produziu a Constituição de 1824.
A U L A A Constituição de 1824

15 Em suas linhas gerais, a Constituição outorgada por D. Pedro I se manteria


em vigor por todo o período monárquico. Ela procurava combinar as novas
idéias liberais com elementos do Antigo Regime, como o poder pessoal do rei,
a união entre Igreja e Estado e a manutenção da escravidão.
Constituição Acima dos três poderes que as repúblicas liberais adotaram, justamente
outorgada: aquela para que não houvesse a concentração de poderes nas mãos de uma só pessoa,
aprovada pelo foi criado o poder moderador. Isso dava o direito de o imperador intervir nas
imperador, sem decisões dos poderes legislativo e judiciário. O executivo era exercido pelo
passar por uma próprio imperador e por seus ministros.
Assembléia
Constituinte. PODER MODERADOR
(DOM PEDRO I)

CONSELHO
DE ESTADO

PODER PODER PODER


LEGISLATIVO EXECUTIVO JUDICIÁRIO

SUPREMO
CÂMARA DOS
SENADO TRIBUNAL
DEPUTADOS
D E JUSTIÇA

Vamos ver outros itens:

GARANTIA DOS DIREITOS INDIVIDUAIS: LIBERDADE, INTEGRIDADE FÍSICA


E PROPRIEDADE DE TODOS OS CIDADÃOS BRASILEIROS
Em nome do direito de propriedade, entretanto, mantinha-se a escravi-
dão. Obviamente os escravos, considerados propriedades, não eram cida-
dãos brasileiros.

UNIÃO ESTADO- IGREJA


A religião católica era oficial. Apesar de serem toleradas outras práticas
religiosas, os católicos possuíam privilégios: apenas eles poderiam ser funcioná-
rios do Governo e concorrer a cargos eletivos. As autoridades da Igreja eram
nomeadas pelo imperador.

ESTADO UNITÁRIO
Embora o território fosse dividido em províncias, elas praticamente não
possuíam autonomia. Seus governantes eram nomeados diretamente pelo
poder central. O centro político do Império, a Corte, era a cidade do Rio de
Janeiro, de onde se governava o Brasil.

SISTEMA ELEITORAL BASEADO NO VOTO INDIRETO, MASCULINO E CENSITÁRIO


Os votantes, que deviam ganhar acima de 100 mil réis anuais, escolhiam os
eleitores, que deviam receber mais de 200 mil réis anuais, os quais, por sua vez,
elegiam deputados e senadores, fazendo uma lista tríplice a ser apreciada pelo
imperador, os quais deveriam receber, no mínimo, 400 ou 800 mil réis, respecti-
vamente. Apenas homens livres com mais de 25 anos de idade poderiam votar.
Não havia impedimentos quanto ao voto do analfabeto. Como era comum no
mundo todo naquela época, as mulheres foram excluídas do direito de votar.
Apesar dessas restrições, o número de eleitores tendeu a crescer ao longo do
Império, e já ultrapassava 13% da população livre, isto é, excluídos os escravos,
em 1872. A participação eleitoral diminuiu a partir de 1881 para 0,8% da A U L A
população, uma vez que nesse ano foi introduzida a proibição ao voto do
analfabeto.
15
A Constituição de 1824 produziu vários efeitos. O primeiro deles foi nítido:
o fortalecimento do poder do imperador, que passava a controlar totalmente a
nova ordem política. Isso reduziu o espaço de atuação dos grupos brasileiros,
tanto na Corte como nas províncias. Esses grupos demonstrariam, em pouco
tempo, seu descontentamento com tal situação.
Além disso, a Constituição estabeleceu um conjunto de regras que, em vez
de assegurar a igualdade de todos perante a lei, produziu mecanismos que
mantinham ou reforçavam as diferenças políticas e sociais. Passaram a existir os
cidadãos ativos , com direito de voto mas hierarquizados segundo sua renda; os
cidadãos passivos , com direitos reduzidos, que não participavam das eleições
mas possuíam direitos civis; e, finalmente, os não-cidadãos , aqueles inteira-
mente fora das preocupações do Estado, como os indígenas e escravos.

A crise do 1º Reinado

Causou profundo descontentamento a dissolução da Assembléia Consti-


tuinte e a forma como D. Pedro I impôs sua autoridade sobre as mais importan-
tes lideranças políticas das províncias.
Para os representantes políticos dos antigos “homens bons”, a atitude do
imperador lembrava muito os velhos conflitos com a Metrópole portuguesa.

A Confederação do Equador

A principal reação à Constituição de 1824 foi a Confederação do Equador ,


revolta iniciada ainda naquele ano, na província de Pernambuco. Os represen-
tantes pernambucanos na Constituinte, com a dissolução daquele órgão pelo
imperador, retornaram à província e denunciaram o caráter absolutista do
governo central. Foi nesse clima que a Câmara da Cidade de Recife, liderada por
um frade, Joaquim do Amor Divino Caneca conhecido como Frei Caneca,
recusou-se a aceitar o texto da Constituição de 1824. Seus principais argumentos
foram: a Constituição era excessivamente centralizadora e não garantia a liber-
dade das províncias; o texto constitucional não era liberal, porque criara o Poder
Moderador que era a “chave mestra da opressão da nação brasileira”, segundo
Frei Caneca; e ainda, o texto era ilegítimo, pois havia sido criado não por um
órgão representativo da nação, e sim pela vontade do imperador.
Recife foi sede da
Confederação do
Equador, que
surgiu em protesto
contra a
Constituição
outorgada
em 1824.
A U L A Em pouco tempo, os recifenses partiram dos discursos para a ação e, em julho
de 1824, tomaram o poder na província. Logo receberam o apoio da Paraíba, do

15 Ceará e do Rio Grande do Norte. Criaram, então, uma república denominada


Confederação do Equador.
Haveria um governo central e ampla autonomia dos estados. Além disso,
estabeleceu-se a suspensão do tráfico de escravos no porto de Recife. Os líderes
revolucionários consideravam que esse comércio estava “ em completa oposição
aos princípios do Direito Natural, e às luzes do Século” .
A ação revolucionária assustava agora não apenas o governo central mas
também os grupos dominantes locais, senhores de terras e escravos, e comer-
ciantes. A base de apoio ao movimento, então, começou a reduzir, o que facilitou
a violenta repressão, vitoriosa em novembro de 1824. As principais lideranças
que não conseguiram fugir foram fuziladas.

O absolutismo de D. Pedro I

D. Pedro I teve também dificuldades externas. As novas repúblicas hispano-


americanas não reconheceram imediatamente seu governo. Também duvida-
ram de suas idéias liberais e de sua oposição a Portugal.
Já a Inglaterra procurou trabalhar no sentido de promover um rápido
reconhecimento do governo brasileiro. Para tal, pedia um bom preço: a renova-
ção, por quinze anos, dos Tratados de Aliança e Amizade, assinados em 1810,
quando a Corte portuguesa ainda estava no Brasil.
Como você deve recordar, esses tratados cobravam uma pequena tarifa
alfandegária dos produtos ingleses que ingressavam nos portos brasileiros. Esse
novo acordo, assinado pelo governo brasileiro, por um lado garantiu o reconhe-
cimento inglês, mas, por outro, criou uma forte dependência econômica brasi-
leira dos produtos manufaturados britânicos.
A situação política tendeu a se tornar mais tensa ao longo do ano de 1830.
Ocorriam revoluções na Europa e o absolutismo terminava em países importan-
tes, como a França. Criava-se um clima que tornava cada vez mais ilegítimas as
medidas autoritárias defendidas por D. Pedro I, a exemplo de suas exigências
para impedir a liberdade de imprensa. Também o envolvimento do imperador
na sucessão portuguesa, desejando colocar sua filha no trono português, desa-
gradava a diversos setores que se uniram no combate ao imperador.

O imperador
Pedro I e, à direita,
seu filho Pedro de
Alcântara, menor
de idade quando
seu pai abdicou.

O quadro político tornou-se crítico com o assassinato do jornalista de


oposição ao governo Líbero Badaró. No início do mês de abril de 1831, surgiram
boatos de que o imperador novamente fecharia a Câmara e passaria a governar
de forma ditatorial. Dias depois, em 7 de abril, setores populares se concentraram
no Campo de Santana, no centro do Rio de Janeiro, para protestar contra o A U L A
governo. As tropas militares deram força ao movimento. E D. Pedro I, sem apoio
militar ou político, foi obrigado a renunciar em nome de seu filho D. Pedro de
Alcântara, que ainda era menor de idade. 15
A renúncia do imperador representou uma vitória expressiva dos grupos O tempo
políticos ligados às diversas regiões brasileiras. Afastado o governante portu- não pára
guês e extintas as ameaças de reunificação a Portugal, era agora o momento de
recomeçar a construção do Estado, segundo os interesses desses grupos. Mas
será que havia unidade no Partido Brasileiro?
Quase dez anos após a proclamação da Independência do Brasil, a ameaça
de recolonização parecia distante, mas a unidade do novo país ainda não se havia
consolidado.

Relendo o texto Exercícios


Leia mais uma vez o texto da aula, sublinhe as palavras que não entendeu
e procure ver o que elas significam, no dicionário ou no vocabulário da Unidade.

1. Releia As lutas políticas no 1 º Reinado e A Constituinte de 1823 e


identifique os principais grupos políticos que existiam no momento inicial
do Primeiro Reinado.

2. Releia A Constituição de 1824 e identifique três características dessa


Constituição.

3. No mesmo item, identifique os principais resultados dessa Constituição.

4. Releia A crise do 1 º Reinado e cite quais foram os principais problemas


enfrentados por D. Pedro I.

5. Dê um novo título a esta aula.

Fazendo a História

CONSTITUIÇÃO POLÍTICA DO IMPÉRIO DO BRASIL

Leia o seguinte artigo da Constituição de 1824 e responda à questão que se


segue:
Art. 91 - São excluídos de votar nas Assembléias Paroquiais:
I-Os menores de vinte e cinco anos (exceto os casados, Oficiais Militares,
Bacharéis e Clérigos).
III-Os criados de servir, os criados da Casa Imperial que não forem de galão
branco e os administradores das fazendas rurais ou fábricas.
V-Os que não tiverem de renda líquida anual cem mil réis por bens de raiz,
indústria, comércio ou empregos.

1. Quem era cidadão no Império do Brasil?


A UA UL L AA

16
16
MÓDULO 5
O Império se fortalece

Nesta aula A luta contra o autoritarismo de D. Pedro I


não havia sido fácil. Foram praticamente nove anos de conflitos entre o impera-
dor e as elites brasileiras. Para essas elites, após a vitória sobre o imperador, cabia
consolidar seu predomínio no Estado brasileiro. Mas será que essas elites, das
diversas regiões brasileiras, conseguiam chegar a um acordo?
Como conciliar seus diferentes interesses em um único Estado do Brasil?
Nesta aula vamos procurar responder a esta questão.

Tempo de moderação

O caminho estava aberto para os grupos que depuseram o imperador. Era o


momento de ocupar espaços e definir as principais medidas. Novamente, não
havia consenso entre eles. Para alguns, como Evaristo da Veiga, era hora da
moderação, da prudência, da ordem. Veiga era um dos líderes entre os chamados
liberais moderados , grupo bastante próximo dos grandes proprietários de
terras e de escravos do Rio de Janeiro. Para eles, o fundamental era assegurar a
continuidade da economia agroexportadora baseada no regime escravista.
Como a Constituição de 1824 garantia seus interesses, o fundamental era
preservá-la em um clima de tranqüilidade política, sem rupturas, em paz.

Na expansão da
lavoura de café, a
base do trabalho
era escrava.
Para os liberais
moderados, era
importante manter
o regime escravista.
Já para outro grupo político, a Constituição era antidemocrática. Mudanças A U L A
se mostravam necessárias. Defendia, em geral, uma monarquia baseada no
federalismo, isto é, numa nova ordem política fundada na descentralização do
poder e na ampliação da autonomia das províncias. Seus membros eram 16
identificados como liberais exaltados . Reuniam os diversos interesses provin-
ciais descontentes com a política da Corte e os antigos democratas na cidade do
Rio de Janeiro. Alguns deles chegaram, até mesmo, a defender o fim da
monarquia e a instauração de um governo republicano.
Finalmente, havia outro grupo que defendia o retorno do imperador
D. Pedro I. Era o grupo dos restauradores .
Quem dominou o poder nos primeiros anos da Regência − período entre a
renúncia de D. Pedro I, em 1831, e a posse de D. Pedro II, em 1840 − foram os
moderados. Mas esses anos não foram tranqüilos. Logo após a abdicação de D.
Pedro I, tropas do exército se rebelavam contra o governo e, com apoio dos
democratas, exigiam a punição e a deportação (expulsão do país) dos indiví-
duos ligados à antiga ordem. Ao mesmo tempo, tropas mercenárias, ligadas aos
restauradores, faziam movimentos pela volta do imperador.
O governo moderado respondeu a essas ameaças reduzindo rapidamente
o contingente do exército, de 30 mil, antes de 1831, para apenas 10 mil em agosto
do mesmo ano. Ao mesmo tempo, criou uma força militar paralela − a Guarda
Nacional −, que passou a ser controlada principalmente pelos grandes proprie-
tários de terra em suas localidades. Assim, os antigos grupos democratas
ficavam separados dos exaltados, que se ligavam aos interesses das províncias.
Percebendo que a crise política não seria resolvida sem um acordo entre os
diversos grupos políticos em conflito, os moderados, ainda no poder em 1834,
resolveram promover um acordo.
A Constituição de 1824 foi modificada e as províncias obtiveram um pouco
de autonomia. Essa medida agradou aos exaltados. O Senado e o Poder
Moderador foram mantidos, atendendo aos interesses dos restauradores. Essas
e outras medidas faziam parte do Ato Adicional de 1834 que, em poucas
palavras, foi a fórmula que os moderados encontraram, na tentativa de dar
tranqüilidade política ao país.

As rebeliões regenciais

Mas “o tiro saiu pela culatra”. A relativa descentralização do poder, conce-


dida pelo Ato Adicional, aumentou as pretensões de autonomia das províncias.
Com as elites políticas em conflito, os cidadãos passivos, ou seja, homens livres
pobres e os não-cidadãos, os escravos, apareceram também na cena política.
Eram as rebeliões regenciais. Vamos ver suas principais características.

Cabanagem (Grão-Pará, 1835-1840)

Na Amazônia, a luta foi promovida pelos cabanos − populações ribeirinhas


− contra a repressão desencadeada pelo governador nomeado pelo governo
central e, também, contra a manutenção dos privilégios dos portugueses na
região. O movimento chegou a tomar a cidade de Belém entre os anos de 1835
e 1836, durando até 1840. As autoridades imperiais, apenas com muita repres-
são, conseguiram derrotar o movimento que passou a ser conhecido como
Cabanagem . Os cidadãos passivos assustaram as elites dirigentes imperiais.
A U L A Revolução Farroupilha (Rio Grande do Sul, 1835-1845)

16 Já no extremo sul do país, quase ao mesmo tempo em que ocorria a


Cabanagem, deu-se um movimento de características bem diferentes daquele
ocorrido na Amazônia. Agora, eram os pecuaristas gaúchos que se levantavam
contra o governo central. Os motivos da rebelião foram os seguintes: 1) o
descontentamento com a política imperial de importação do charque (carne
salgada que servia para alimentar especialmente escravos) da Argentina e do
Uruguai que, por ser mais barato, concorria com o charque gaúcho (que sofria
uma pesada carga de impostos); 2) a falta de autonomia política, uma vez que o
governo central impunha o nome do governador da província.
Em 1834, o novo governador nomeado, além de aumentar os impostos,
resolveu criar uma força militar ligada diretamente a ele. Assim, no ano seguinte,
o movimento armado começou. O governador foi deposto e os revoltosos
dominaram toda a província do Rio Grande do Sul. Chegaram a dominar
também Santa Catarina e, nessas duas províncias, foram criadas as Repúblicas
Rio-Grandense e Juliana.

Os farrapos
criaram até um
brasão para
sua República
Rio-Grandense.

Era a Guerra dos Farrapos . O movimento durou dez anos e o governo


central só conseguiu pacificá-lo em 1845. Para isso, o governo imperial utilizou,
além da força das armas, a anistia aos revoltosos e a diminuição dos impostos.
Assim, para a classe dominante gaúcha, o tratamento foi bastante diferente
daquele dado aos cabanos. Em vez de massacre, houve concessões. Para o
governo dos moderados, era importante que reinasse a paz entre os diversos
grupos dominantes do país.

Sabinada (Bahia, 1837-1838) e Balaiada (Maranhão, 1838-1841)

Além desses movimentos, ocorreram, durante a década de 1830, outros


levantes. Foi o caso da Sabinada , na Bahia, que exigia mais autonomia
provincial, e da Balaiada , no Maranhão, onde os cidadãos passivos (vaqueiros
e artesãos) rebelaram-se contra o governo local.

O tempo saquarema

As notícias que chegaram à Corte a respeito das rebeliões nas províncias


foram recebidas com apreensão. Para a maioria das elites políticas, a des-
centralização política havia sido a principal causadora da “desordem”, da
“anarquia”. Era dessa forma que as elites se referiam às rebeliões.
Exatamente nesse momento, consolidava-se a expansão da lavoura do café
no Rio de Janeiro. Em pouco tempo, o café tornou-se o principal produto de
exportação do país e, como resultado, o grupo dos cafeicultores cresceu em
importância social e política.
A U L A
Cabanagem

16
Balaiada

GRÃO - PARÁ MARANHÃO CEARÁ RIO GRANDE


DO NORTE
PARAÍBA
PIAUÍ
PERNAMBUCO
ALAGOAS
SERGIPE
MATO GROSSO BAHIA
GOIÁS
Sabinada

MINAS GERAIS
ESPÍRITO SANTO

SÃO PAULO RIO DE JANEIRO o


ic
nt
Oceano Pacífico

A
tlâ As revoltas
SANTA CATARINA
a no marcaram o
ce
RIO GRANDE DO SUL O período da
Regência, entre o
Guerra dos Farrapos
primeiro Império
e o segundo.

Essa nova situação, marcada, de um lado, pelo medo das revoltas nas
províncias e, de outro, pelo fortalecimento econômico do Império, fez com que
recomeçasse a “dança dos políticos”, isto é, os grupos anteriormente denomina-
dos moderados, restauradores e exaltados reorganizaram-se em outras bases.
Para grande parte dos políticos, era o momento de combater o que chama-
vam de “vulcão da anarquia” presente nas rebeliões. Surgia, assim, um no-
vo grupo político, defensor da imediata centralização do poder e do retorno
à ordem − eram os regressistas .
Seus maiores defensores foram três políticos fluminenses muito ligados aos
interesses do café em expansão: Joaquim José Rodrigues Torres, Paulino José
Soares de Souza e Eusébio de Queirós. Conhecido como Trindade Saquarema ,
esse grupo controlou por bastante tempo o poder no Brasil imperial.
Aqueles que discordavam dos regressistas e mostravam-se favoráveis à
descentralização ficaram conhecidos como progressistas. Estes, no entanto, não
tiveram condições de barrar o regresso. Em 1838, chegava ao poder, como
regente, o regressista Pedro de Araújo Lima. Seu governo procurou atuar no
combate às rebeliões e também na defesa da ordem e da centralização.
Em maio de 1840, Araújo Lima conseguiu aprovar uma lei que reduzia
consideravelmente a autonomia das províncias, obtida com o Ato Adicional. Em
julho daquele mesmo ano, D. Pedro II, com 14 anos, assumia o trono brasileiro.
Era a antecipação da maioridade − mecanismo encontrado para restabelecer a
centralização do poder, prevista na Constituição de 1824.
Após a antecipação da maioridade, ocorreram ainda, ao longo da década de
1840, movimentos contrários ao governo central em Minas Gerais, São Paulo e
Pernambuco. No entanto, a tendência desses anos foi, cada vez mais, o fortale-
cimento da proposta centralizadora defendida pelos regressistas, que passaram
a ser chamados de conservadores .
Os progressistas, logo denominados de liberais , chegaram ao poder algu-
mas vezes nesse período. Continuaram defendendo suas propostas des-
centralizadoras; mas, quando alcançavam o poder, não conseguiam colocá-las
em prática. Tanto é que se dizia na época que não havia “nada mais conservador
do que um liberal no poder”.
A U L A Os partidos políticos do 2º Império

16 Em 1850, o Estado imperial estava consolidado. As revoltas haviam sido


sufocadas. Dois partidos políticos revezavam-se no poder: o Liberal e o
Conservador.
Os liberais reuniam os interesses provinciais ligados à produção para o
mercado interno e um pequeno grupo de jornalistas e profissionais liberais que,
na cidade do Rio de Janeiro, sempre haviam defendido uma ampliação da
participação política.
Entre os conservadores, estavam os representantes políticos da lavoura do
café e a elite do Estado imperial − juízes, magistrados das altas cortes do Poder
Judiciário, presidentes de província, ministros de Estado etc.
Os Partidos Liberal e Conservador acomodavam também as rivalidades
locais entre as famílias dos poderosos senhores de escravos.
O Poder Moderador − exercido pelo imperador −, ao formar os ministérios,
decidia, de fato, pelo revezamento dos partidos no poder.
Em 1868, o senador Nabuco de Araújo resumia a vida política no Império da
seguinte maneira:

“O Poder Moderador pode chamar a quem quiser para organizar minis-


térios; essa pessoa faz a eleição porque há de fazê-la; esta eleição faz a
maioria (na Câmara). Eis o sistema representativo do nosso país”.

Portanto, era de fato o imperador D. Pedro II, e não o voto popular, que agia
como árbitro (juiz) dos projetos políticos concorrentes.
De maneira geral, foi o Partido Conservador que deu o tom da política
imperial. Os interesses cafeeiros do Sudeste (especialmente do Rio de Janeiro)
tenderam, portanto, a predominar. Mas o Partido Conservador era bem mais que
uma representação direta desses interesses.

O tempo O Império do Brasil definiu-se nas décadas de 1830 e 1840. Foi vencedor o
não pára projeto que defendia a monarquia centralizada, que limitava a participação
popular e garantia a lavoura escravista.
Um dos primeiros problemas que o Império consolidado teve de enfrentar
foi a questão do tráfico de escravos. O direito de propriedade ainda justificava
a escravidão, porém, o ato de escravizar tornava-se moralmente insustentável.
O século XIX não foi um tempo apenas de independências. Foi um tempo
de abolições.
Relendo o texto Exercícios
A U L A

Leia mais uma vez o texto da aula, sublinhe as palavras que não entendeu
e procure ver o que elas significam, no dicionário ou no vocabulário da Unidade. 16
1. Releia Tempo de moderação e compare os projetos dos liberais moderados,
dos liberais exaltados e dos restauradores.

2. Releia As rebeliões regenciais e complete o quadro.

REBELIÃO LOCALIZAÇÃO CAUSAS CARACTERÍSTICAS

CABANAGEM

FARRAPOS

SABINADA

BALAIADA

3. Releia O tempo saquarema e compare os projetos dos regressistas e dos


progressistas.

4. Dê um novo título a esta aula.

Fazendo a História

“Fui liberal: então a liberdade era nova no país, estava nas aspirações de
todos (...) Hoje, porém, é diverso o aspecto da sociedade: os princípios
democráticos tudo ganharam, e muito comprometeram; a sociedade que
então corria risco pelo poder, corre risco pela desorganização e pela anarquia.
Como então quis, quero hoje servi-la, quero salvá-la; por isso sou regressista.”
Trecho de discurso do deputado Bernardo Vieira de Vasconcelos, 1838.

O documento acima é um discurso feito na Câmara dos Deputados por um


importante líder regressista. Leia novamente O tempo saquarema e Os par-
tidos políticos do 2 º Império e responda:

1. Quem eram os regressistas?


2. A quem Bernardo de Vasconcelos denomina de “sociedade”?
3. Quem promovia a anarquia, para o deputado?
4. Qual era o risco que a “sociedade” corria?
5. Qual foi o resultado do regresso?

6
A UA UL L AA

17
17
MÓDULO 5
O fim da escravidão

Nesta aula “É declarada extinta a escravidão no Brasil.


0 Revogam-se as disposições em contrário.”

Essas duas frases estão na lei que acabou com quatro séculos de escravidão
no Brasil. Aprovada pela Câmara dos Deputados, com apenas 9 votos contrários
entre 92, a chamada Lei Áurea foi assinada pela Princesa Isabel em 13 de maio
de 1888.
Depois da libertação, a festa. Comemorações, discursos de vitória, folia -
como não poderia deixar de ser... Afinal , tinha sido uma longa história de lutas
e de busca de liberdade dentro do estreito campo da escravidão - que, por isso
mesmo, foi se alargando com o tempo. O sonho fora alimentado e tornado
possível.
O desejo de liberdade esteve sempre presente, como podemos perceber na
longa história da escravidão africana no Brasil, cheia de acontecimentos e
histórias que demonstram a não-aceitação do cativeiro.
Mas, se isto é verdadeiro, como e por que foi apenas no século XIX que a
sociedade brasileira pôde finalmente propor e realizar a abolição definitiva da
escravidão? É o que vamos procurar entender nesta aula.

O quadro internacional

O século XIX não foi um tempo apenas de independências. Foi um tempo de


abolições. Até então, mesmo que de naturezas diferentes, a ordem social na
Europa, na América ou na África via como uma coisa natural as desigualdades
entre as pessoas.
Desde o final do século XVIII, entretanto, novas idéias surgiram, e as pessoas
passaram a considerar a liberdade um direito natural , promovendo revoluções
contra o Antigo Regime na Europa. As idéias de liberdade e de igualdade,
propagadas pela Revolução Francesa no final do século XVIII, chegaram a
várias partes do mundo. No Haiti ocorreu uma grande rebelião negra que levou
à independência desse país e à abolição da escravidão em toda a ilha de São
Domingos.
No Brasil, alguns movimentos associaram a idéia da abolição à luta pela
independência, como a Conjuração Baiana de 1798.
A Inglaterra combate o tráfico A U L A

Mas, além das idéias, havia grandes interesses internacionais mudando o


quadro externo. A Inglaterra tornara-se o primeiro país industrializado no 17
mundo (Revolução Industrial), e esse mundo jamais seria o mesmo. Com a
industrialização, um novo colonialismo surgiria em breve na África e na Ásia.
Na primeira metade do século XIX, por exemplo, interessava aos empresá-
rios ingleses manter os africanos na África, trabalhando para suas empresas de
exploração agrícola naquele continente. E, já que nas colônias inglesas produ-
toras de açúcar havia sido extinta a escravidão, também não interessava a
concorrência do açúcar brasileiro, barateado pelo trabalho escravo. Todas essas
razões levaram a Inglaterra, a maior potência da época, a combater com persis-
tência o tráfico de escravos.
Os interesses escravistas no Brasil do século XIX ainda conseguiam justificar
a escravidão em nome do direito de propriedade , mas foi ficando cada vez mais
difícil arranjar justificativas para o tráfico de escravos (que significava escravi-
zar um africano nascido livre).

Para inglês ver

Desde o reinado de D. João VI, o Brasil vinha se comprometendo com os


ingleses a interromper o tráfico de escravos pelo oceano Atlântico. Em 1831, o
jovem Império do Brasil chegou a assinar uma lei tornando esse tráfico ilegal.
Apesar disso, nenhum desses compromissos foi cumprido, e as proibições
não saíram do papel. Eram, como se dizia, “para inglês ver” (quer dizer: eram só
para iludir os ingleses). O tráfico continuava e a escravidão também, mesmo com
as pressões inglesas e a fiscalização feita por patrulhas marítimas, que procura-
vam navios negreiros pelo oceano Atlântico.
As forças políticas no Brasil, representadas pelos fazendeiros escravistas,
impediam qualquer medida mais efetiva em direção à abolição.
No entanto, as muitas pressões sobre o governo brasileiro acabaram por
levar à proibição de fato do tráfico de escravos para o Brasil, em 1850.

As ações dos escravos

No Brasil escravista, a luta para conquistar maiores espaços de liberdade era


constante por parte dos escravos. As notícias de rebeliões negras em outros
países, as idéias de liberdade e de igualdade que passaram a circular, o quadro
internacional de combate ao tráfico negreiro, tudo isso deu novo conteúdo a
essas lutas durante o século XIX.
As primeiras décadas desse século foram marcadas por uma série de
rebeliões negras no Brasil, organizadas por escravos e ex-escravos, reunidos em
torno de laços de origem na África e por ligações religiosas.
Tais revoltas encontravam um cenário perfeito nas cidades, onde a presença
de escravos ganhando a vida nas ruas, junto com outros negros e mulatos livres,
tornava cada vez mais difícil o controle sobre a população cativa. Uma das
importantes rebeliões desse período foi a Revolta dos Malês , em 1835, na ci-
dade de Salvador, Bahia.
Com a proibição do tráfico em 1850, a situação agravou-se. O preço dos
escravos aumentou. Assim, os pequenos proprietários passaram a vender seus
A U L A cativos para os cafeicultores da região Sudeste. A subida dos preços da mão-de-
obra escrava levou também a uma situação em que menos senhores podiam

17 possuir escravos, diminuindo o apoio da sociedade à escravidão. O tráfico


interno de escravos, também chamado de tráfico interprovincial , movimentou
milhares de escravos dentro do Brasil, especialmente após 1850.
Essa movimentação teve conseqüências dramáticas para muitos escravos
que foram separados das famílias que haviam formado, sendo retirados de um
ambiente no qual muitas vezes já tinham estabelecido relações pessoais e
familiares. À custa de muita luta e negociação, alguns escravos haviam criado
regras de convivência que não eram tão marcadas pela vigilância e pela punição.
Esses escravos não aceitaram facilmente as novas condições impostas a eles
nas fazendas de café. Nas novas áreas cafeeiras, teve início uma onda de atos de
rebeldia e insubordinação por parte dos escravos, criando um clima de in-
segurança e desordem. Foi a onda negra do Brasil no século XIX.

O movimento abolicionista

Desde o começo do século XIX, algumas vozes protestavam contra a escra-


vidão no Brasil, adeptas de uma opção mais moderna para o país do seu tempo.
Ser moderno significava parecer-se mais com a Inglaterra ou com a França
(países com industrialização em marcha acelerada), adotar o trabalho assalaria-
do, ter acesso à tecnologia da época. A maioria dessas vozes era de intelectuais
brasileiros que escreveram livros e fizeram discursos aconselhando o fim da
escravidão. No entanto, apontavam para um final gradual, a longo prazo, e
cuidadoso, para não gerar nenhuma revolta nem desordem.

Esta gravura da
época mostra um
soldado negro,
livre, horrorizado
com os açoites que
ainda eram
aplicados aos
escravos.

Ao longo daquele século, as mudanças externas e internas no país - que


trouxeram o crescimento urbano, a melhoria dos transportes, das comunica-
ções e a prosperidade da lavoura do café - fizeram com que algumas pes-
soas mudassem sua forma de pensar. Na década de 1870, surgia o movi-
mento abolicionista, que passava a pregar o fim imediato da escravidão, sem
esperar mais. Para isso, organizaram-se em sociedades, associações, grupos
pró-abolição. Esses grupos faziam propaganda nas ruas, em manifestações
que visavam comover a população e atraí-la para a causa.
O movimento abolicionista cresceu e ganhou adeptos. Poetas, advogados, A U L A
escritores, jornalistas, políticos, se juntavam às vozes que reivindicavam a
abolição. Em São Paulo, Rio, Recife, Salvador e, a partir de 1880, em quase todas
as maiores cidades do Brasil, foram criados clubes e associações abolicionistas. 17
Ilustração aboli-
cionista, que faz
crítica à Lei de 1885,
com os seguintes
dizeres: QUADROS DA
ATUALIDADE! O MINISTRO-
FAZENDEIRO, EXPLICANDO O
PROJETO AOS LAVRADORES:
VOCÊS COMPREENDEM QUE,
SENDO EU LAVRADOR, NÃO
PODIA DEIXAR DE TRANQÜI-
LIZAR A LAVOURA, GARAN-
TINDO A PROPRIEDADE ES-
CRAVA E FIXANDO- LHE UM
VALOR. PODEM, POIS, CON-
TINUAR A CONSIDERAR O
ESCRAVO UM ANIMAL COMO
QUALQUER OUTRO E SUJEITO
A SER COMPRADO, VENDIDO

Alguns grupos mais radicais, como os Caifazes em São Paulo, passaram a ETC., PELO MENOS NESTES
DEZ ANOS. É O QUE LHES
organizar e a apoiar as deserções em massa dos escravos, dando estímulo para
GARANTE O MEU PROJETO.
que fossem contratados como assalariados pelos fazendeiros, que viam suas
propriedades se esvaziando. Em São Paulo, área mais nova e próspera da
expansão cafeeira, concentravam-se os cativos comprados no tráfico
interprovincial. Em 1887, os próprios fazendeiros paulistas começaram a conce-
der alforrias em massa, para impedir a deserção ou para legalizar a situação dos
escravos que já os haviam abandonado.
De São Paulo, as deserções em massa e as alforrias coletivas, como
tentativa de manter o controle da situação, espalharam-se para as outras
províncias cafeeiras (Rio de Janeiro e Minas Gerais). Não havia mais capitães-
do-mato que chegassem. Até o Exército recusou-se a reprimir os escravos que
desertavam. Apenas uns poucos fazendeiros, em Minas Gerais e no Rio de
Janeiro, ainda se opunham às alforrias, na esperança de receber uma indeni-
zação pela “propriedade” que lhes escapava das mãos.

As ações do poder público

Há muito tempo o governo vinha sendo pressionado do ponto de vista


internacional. Além disso, desde a primeira metade do século XIX, enfrentava
inúmeras rebeliões e ações de protesto dos escravos.
Ao mesmo tempo, setores dominantes da sociedade brasileira tinham sua
riqueza assentada no trabalho escravo. E tanto o Estado português, antes da
Independência, como os governantes do Império do Brasil, após a Independên-
cia, precisavam do apoio desses setores.
Mesmo assim, as transformações que marcaram a vida política e econômica
do país e o quadro internacional levaram o governo brasileiro a abolir o tráfico
negreiro em 1850, apesar do voto contrário das províncias cafeeiras.
A U L A Foi também com o voto contrário de todos os representantes das províncias
cafeeiras (Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo) que o Congresso Imperial

17 aprovou a Lei do Ventre Livre , em 1871. Essa lei tornava livres todos os filhos
de escravos nascidos daquela data em diante. A partir de então, cresceram as
alforrias e o movimento abolicionista. Para conter essa pressão, o governo
aprovou a Lei dos Sexagenários, em 1885, que libertava os escravos com mais
de 60 anos e estabelecia um prazo de treze anos para que o governo libertasse
todos os escravos, indenizando seus proprietários.
As deserções em massa, a partir de 1887, mudaram os rumos do processo.
Quando foi assinada a Lei Áurea, em 13 de maio de 1888, não mais havia escravos
de fato no Império do Brasil.

O tempo Nada além de liberdade foi concedido aos ex-escravos. Diante da liberdade,
não pára entretanto, abriam-se novas possibilidades não apenas para os libertos mas
também para um país chamado Brasil.
Apesar da pressão dos últimos senhores de escravos, não se indenizou a
perda da propriedade escrava. E, com uma rapidez impressionante, os últimos
cativos se misturaram à imensa maioria de descendentes de africanos que já
formava a população livre do país. A eles viriam se somar milhares de imigrantes
estrangeiros: portugueses, italianos, espanhóis, japoneses, alemães, entre ou-
tros, especialmente em São Paulo e no Sul do Brasil.
Com a abolição, a ordem escravista, em crise desde a metade do século XIX,
finalmente terminava. Agora, todos os brasileiros eram livres e, portanto,
cidadãos pela Constituição Imperial.
Mas quem era esse povo brasileiro? Quais os seus direitos? O que significa-
va, na prática, essa cidadania? Essas são questões que a liberdade colocava e que,
ainda hoje, estamos respondendo em nosso país. Será delas que trataremos na
segunda parte do nosso curso.

Exercícios Relendo o texto

Leia mais uma vez o texto da aula, sublinhe as palavras que não entendeu
e procure ver o que elas significam, no dicionário ou no vocabulário da Unidade.
1. Releia O quadro internacional e identifique os motivos que levaram a
Inglaterra a pressionar o Brasil a abolir a escravidão.
2. Releia As ações dos escravos e identifique dois tipos de ação dos escravos
que contribuíram para desestabilizar a escravidão no século XIX.
3. Relendo esse mesmo item, explique, com as suas palavras, o que esse texto
chama de onda negra .
4. Releia O movimento abolicionista e explique por que alguns fazendeiros
paulistas começaram a conceder alforrias em 1887.
5. Releia As ações do poder público e identifique as medidas tomadas pe-
lo governo brasileiro que, a partir de 1850, prepararam a abolição.
6. Dê um outro título a esta aula.
Fazendo a História A U L A

1. A poesia que você vai ler a seguir saiu publicada num jornal da cidade de
Campos, situada ao norte do atual Estado do Rio de Janeiro, em março 17
de 1888 (dois meses antes da Lei Áurea).
Leia com atenção! Ela mostra bem o ponto de vista de um ex-senhor de
escravos sobre as deserções de seus escravos, às vésperas da abolição.

“Bandalheira! Cachorrada! Fui ver pretos na cidade


Acabar com a escravidão! Que quisessem se alugar.
Já parece caçoada Falei com esta humildade:
ou forte especulação! Negros, querem trabalhar?
Eu sou emancipador Olharam-me de soslaio,
Mas não sou conspirador e um deles, feio, cambaio,
Nem também senhor feroz. Respondeu-me arfando o peito
Sabe de uma coisa, parente, Negro, não há mais não:
Estamos sem nossa gente, Nós tudo hoje é cidadão.
Não sei o que será de nós. O branco que vá pro eito.”

Se você não entendeu alguma palavra da poesia, veja no dicionário e, então,


leia mais uma vez. Agora responda:

Por que o autor do texto lamenta o fim da escravidão?

2. O texto abaixo foi escrito por um líder do movimento abolicionista no Brasil,


Joaquim Nabuco, na década de 1880. Neste pequeno trecho de seu livro
O Abolicionismo , o autor expressa sua opinião sobre a escravidão no Brasil.

“A escravidão, por felicidade nossa, não azedou nunca a alma do escravo


contra o senhor, falando coletivamente, nem criou entre as raças o ódio
recíproco que existe naturalmente entre opressores e oprimidos. (...) O
homem de cor achou todas as avenidas abertas diante de si.”

Agora responda:

a) Você concorda com a visão de Joaquim Nabuco, encontrada nesse tre-


cho, sobre a relação entre senhores e escravos no Brasil?

b) Após a abolição, o negro encontrou “todas as avenidas abertas diante


de si”?

6
A UA UL L AA

18
18
MÓDULO 5
Da Monarquia
à República

Nesta aula O s anos finais do Império não foram marca-


dos apenas pelas discussões abolicionistas ou pelas constantes rebeliões de
escravos. Outros movimentos questionavam a ordem monárquica e propu-
nham outras formas de governo.
O Império era escravista e tinha uma sociedade rigidamente hierarquizada,
na qual a maioria da população era excluída das decisões políticas. Teria a
República ampliado a participação política?
Nesta aula vamos procurar compreender quais os projetos políticos que se
apresentaram a partir do final do Império e durante o período inicial da
República; quais os conflitos que se estabeleceram entre eles; e qual foi o projeto
vencedor.

O Manifesto Republicano

Corria o ano de 1870 quando os republicanos publicaram o seu Manifesto,


que reuniu intelectuais e políticos de diversas províncias e fez surgir inúmeros
partidos republicanos - os PRs - organizados por província. Apesar das várias
tendências presentes no movimento republicano, dois elementos unificavam as
posturas que se juntaram no Manifesto de 1870: a idéia de federação e a idéia
de progresso
progresso.
O princípio da federação estabelecia que cada província deveria escolher
seu próprio governo e decidir sobre ele. Uma das críticas do Manifesto à
monarquia era justamente a excessiva centralização política do Império, espe-
cialmente a partir de 1840.
E essa excessiva centralização não conseguira resolver os constantes proble-
mas regionais, que apareciam sob forma de motins ou rebeliões.
O federalismo era colocado como um princípio natural, já que “a topografia
do nosso território, as zonas diversas em que ela se divide, os climas
vários e as produções diferentes, as cordilheiras e as águas estavam
indicando a necessidade de modelar a administração e o governo local,
acompanhando e respeitando as próprias divisões criadas pela natureza
física e impostas pela imensa superfície do nosso território ” (Manifesto
Republicano).
Ao mesmo tempo, os republicanos identificavam a Monarquia com o atraso
econômico do país e defendiam a República como o regime do progresso
progresso.
O Manifesto ganhou muitos adeptos: a imprensa, os clubes e os partidos A U L A
republicanos (que se multiplicaram). Além dos estudantes e profissionais
liberais, os grandes proprietários paulistas ligados ao café também apoiavam
o movimento, sendo a base do Partido Republicano Paulista (PRP) uma das 18
mais atuantes.

Deodoro
da Fonseca é
homenageado
pela população do
Rio de Janeiro,
após a
proclamação da
república.

São Paulo tornara-se a mais próspera região cafeeira do Império, mas a


rigidez e a centralização da Monarquia impediam que seus interesses predomi-
nassem politicamente.
Também os militares engrossavam a fila dos republicanos, especialmente os
oficiais do Exército, que consideravam sua corporação desprestigiada pela
Monarquia.
A partir do Manifesto, o movimento republicano pode ser dividido basica-
mente entre dois grupos de idéias.
O primeiro grupo - liderado por Quintino Bocaiúva, principal redator do
Manifesto - propunha a implantação pacífica da República. Esse grupo, compos-
to basicamente pelos cafeicultores paulistas, acreditava que, por meio de
reformas no regime imperial, seria possível chegar progressivamente ao regime
republicano.
Um segundo grupo - liderado por Silva Jardim - desejava uma revolução
popular que instaurasse o novo regime, mas suas idéias foram consideradas
radicais e combatidas pela direção do Partido Republicano.

Terceiro Reinado?

Os anos finais do Império foram uma tentativa de promover reformas


evitando que a Monarquia fosse identificada com o atraso, como queriam fazer
crer os republicanos. Desde a metade do século XIX, as cidades vinham crescen-
do, impulsionadas pela expansão da lavoura do café. As ferrovias substituíram
o transporte feito por carros de bois e por barcaças; modernizaram-se os
processos de beneficiamento do açúcar e do café; foram instaladas indústrias de
tecidos, de calçados, de chapéus, de alimentos, de metalurgia e de construção
naval; e aumentou o movimento financeiro e comercial, especialmente na Corte,
ou seja na cidade do Rio de Janeiro, cujo porto era, então, o mais movimentado
do país.
A U L A A escravidão fora abolida. Era preciso realçar a modernidade do Império e
promover reformas.

18 Em julho de 1889, um novo gabinete, chefiado pelo Visconde de Ouro Preto,


assumiu o governo. A propaganda republicana espalhava-se pelo país. Nem
mesmo a abolição parecia salvar a Monarquia da crise que surgiu a partir dos
diversos impasses com os mais fortes setores sociais; apenas entre os populares
ela ainda encontrava apoio.
Preocupado, o Visconde de Ouro Preto colocou para o Imperador a neces-
sidade de mudanças que demonstrassem “que o atual governo tem elasticidade
bastante ” e que era possível evitar o pior “empreendendo com ousadia e firmeza
largas reformas na ordem política, social e econômica, inspiradas na escola
democrática. Reformas que não devem ser adiadas para não se tornarem impro-
fícuas [inúteis]. O que hoje basta, amanhã talvez seja pouco ”.
As reformas foram propostas mas não se realizaram. O novo ministério
propôs que municípios e províncias fossem autônomos; que o Senado deixasse
de ser vitalício; que o crédito aumentasse e a produção fosse estimulada. No
entanto, cresciam os conflitos e as insatisfações na sociedade brasileira.
Chefes políticos locais desejavam ver-se livres da centralização imposta pela
Monarquia; fazendeiros politicamente influentes sentiam-se prejudicados pela
abolição, pois haviam perdido o grosso de seu investimento - os escravos - sem
nenhuma indenização; os militares sentiam-se desprestigiados por um regime
que sempre privilegiara os civis. Desse modo, o movimento republicano foi se
expandindo e ganhando adeptos suficientes para fazer esquecer a idéia de um
3º Reinado e derrubar um governo que, apesar de tudo, havia conseguido o apoio
popular com a abolição da escravidão.

A República

Em 15 de novembro de 1889, foi proclamada a República por um golpe


militar contra a Monarquia, articulado por civis e militares na casa do marechal
Deodoro da Fonseca, que seria, então, o primeiro presidente da república.
Aristides Lobo definiu como inexistente a participação do povo na procla-
mação da república. Em carta ao jornal Diário Popular de São Paulo, ele dizia
que “o povo assistiu àquilo bestializado, atônito, surpreso, sem conhecer o que
significava. Muitos acreditavam sinceramente estar vendo uma parada”.
Quais as mudanças que a República trouxe? Quais as expectativas que
vinham com ela? Em primeiro lugar, a expectativa de ampliar a cidadania, a
liberdade e o desenvolvimento.
Tradicionalmente, a idéia de república (do latim res publica = coisa pública),
estava associada a essas expectativas.
Mas como os republicanos no Brasil entendiam a cidadania?
Os republicanos históricos, ou seja, aqueles que iniciaram o movimento de
1870, dividiam-se entre liberais conservadores, que defendiam o federalismo e
uma economia liberal com restrições à participação política popular, e os
radicais, que defendiam uma maior participação popular.
Alguns grupos civis e certas lideranças militares defendiam a noção de
cidadania proposta pela doutrina positivista, para a qual os cidadãos tinham
direitos civis e sociais (como o direito a aposentadoria, por exemplo), mas não
necessitavam de direitos políticos (participar politicamente, votar e ser votado).
Neste caso, os adeptos do positivismo é que deveriam formar o governo em
nome do progresso e da verdadeira ciência.
Uma terceira concepção de cidadania defendia a intervenção de todos os A U L A
cidadãos nos negócios públicos por meio da formação de partidos políticos. Esse
foi o caso, principalmente, dos partidos socialistas que tentaram se organizar na
primeira década republicana. 18
A primeira Constituição da República foi promulgada em 1891 por uma
Assembléia Nacional Constituinte eleita para esse fim. Ela estabeleceu o princí-
pio do federalismo, ou seja, da autonomia dos estados, que poderiam eleger
diretamente seus próprios governantes e estabelecer suas próprias leis, desde
que fosse respeitada a Constituição Federal.
O direito de voto era universal para os homens, alfabetizados, maiores de
21 anos, que se alistassem . Mas o voto não era secreto, não era obrigatório, e as
mulheres e os analfabetos não votavam. De acordo com a nova Constituição, a
educação básica não era um direito dos cidadãos, nem um dever do Estado.
Assim, o número de eleitores continuou, de fato, tão restrito quanto no tempo do
Império.
O Poder Moderador foi extinto, assim como a vitaliciedade dos senadores,
que passavam a ser votados como os deputados federais.
A nova Constituição estabeleceu também o presidencialismo. Ao contrário
do tempo do parlamentarismo imperial, no qual o poder executivo era exercido
por um primeiro-ministro, indicado pelo Imperador entre os políticos do partido
mais votado no parlamento, agora o poder executivo da União era exercido por
um presidente da República, eleito diretamente pela população.

Os ideais
republicanos
permanecem
até hoje na
nossa bandeira,
com o lema:
“ ORDEM E
PROGRESS
PROGRESSOO”.

O país, portanto, modificara-se a partir do novo texto constitucional. Agora,


o país possuía um sistema político mais descentralizado e mais representativo,
pois todos os governantes eram eleitos pela população. Mantiveram-se, no
entanto, importantes restrições à participação política popular.

A ordem oligárquica

Os primeiros governos republicanos, em geral, muito pouco fizeram para


ampliar ou estimular a participação política da população. As fraudes tornaram-
se comuns, e não era nada fácil, para aqueles que detinham a cidadania política,
fazer respeitar o resultado das urnas.
A U L A Havia a população das cidades, especialmente a da capital - o Rio de Ja-
neiro -, com maior acesso à alfabetização e com diversos grupos de oposição

18 (monarquistas, positivistas) em constante atividade.


Havia os militares, que ocuparam os primeiros governos republicanos:
Deodoro da Fonseca (1889/1892) e Floriano Peixoto (1892/1894). Mas os milita-
res nem sempre estiveram de acordo com os republicanos civis ou mesmo em
acordo entre suas diferentes armas. Durante o governo do marechal Floriano
Peixoto, oficiais da Marinha (monarquistas) fizeram um levante conhecido
como Revolta da Armada, que deixou a capital sitiada durante algum tempo.
A República precisava construir um novo pacto social que garantisse a
ordem e a estabilidade do novo regime. Para aqueles que estavam na liderança
econômica do país (isto é, paulistas e mineiros ligados ao setor exportador), era
preciso conter a influência política dos grupos localizados na capital, não apenas
a dos setores populares mas também a dos grupos de oposição civil e militar. A
solução encontrada pelo presidente Campos Sales (1898/1902) foi neutralizar a
capital, fortalecendo os estados, que passaram a ter maior ou menor influência
no governo central de acordo com sua força política.
Por meio de uma política de compromissos com as forças políticas estaduais
e municipais, São Paulo e Minas Gerais vão dominar a política nacional,
caracterizando o que ficou conhecido como Política dos Governadores.
O funcionamento da política mencionada por Campos Sales baseava-se,
assim, numa troca de interesses entre as oligarquias locais e o governo federal.
Os coronéis - chefes políticos nos municípios - garantiam apoio ao candidato
oficial nas eleições estaduais e federais e recebiam autonomia nas decisões do
próprio município. Os grupos dominantes dos estados apoiavam o presidente,
que defendia seus interesses e lhes garantia autonomia nos negócios estaduais.
Desse modo, os conflitos no interior dos estados tinham de resolver-se sem
intervenção federal e, quase sempre, no interior de um único partido republica-
no (os partidos republicanos estaduais). Definiam-se, assim, as oligarquias
estaduais (grupos que controlavam o poder político nos estados), a partir do
controle político do eleitorado rural.

6
O tempo Dessa forma, neutralizavam-se também as multidões urbanas e os grupos
não pára de oposição civis e militares. Por todo o período que ficou conhecido como
Primeira República (1889/1930), poucas vezes houve mais de um candidato à
presidência. Quando isso ocorreu, as cidades (e também os militares) voltaram
à cena, como veremos principalmente no próximo módulo.

Exercícios Relendo o texto

Leia mais uma vez o texto da aula, sublinhe as palavras que não entendeu e
procure ver o que elas significam, no vocabulário da Unidade ou no dicionário.

1. Releia O Manifesto Republicano e retire trechos que mostrem as críticas


dos republicanos à monarquia.

2. Releia Terceiro Reinado? e responda: qual foi a reação do Império a essas


críticas?
3. Releia A República e explique a frase: “Era agora um país com um sis- A U L A
tema político mais descentralizado e mais representativo”.

4. Releia A o rdem o ligárquic a e explique por que este período da nossa 18


história (1889/1930) ficou conhecido como República Oligárquica.

5. Dê um novo título a esta aula.

Fazendo a História

Reproduzimos abaixo trechos da Constituição Brasileira de 1889, aprovada


logo após a proclamação da República.
Leia o documento com atenção, a fim de melhor entender as leis que regeram
o Brasil durante a Primeira República.

TÍTULO II
DOS ESTADOS
Art. 63 - Cada estado reger-se-á pela Constituição e pelas leis que adotar,
respeitados os princípios constitucionais da União (Poder Central).
TÍTULO III
DO MUNICÍPIO
Art. 68 - Os estados organizar-se-ão de forma que fique assegurada a
autonomia dos municípios, em tudo quanto respeite ao seu peculiar
interesse.
TÍTULO IV
DOS CIDADÃOS BRASILEIROS
Art. 70 - São eleitores os cidadãos do sexo masculino, maiores de 21 anos
que se alistarem na forma da lei.
Parágrafo 1 - Não podem se alistar eleitores para as eleições federais ou
para os estados:
1. os mendigos;
2. os analfabetos;
3. as praças de pré, excetuando os alunos das escolas militares de
ensino superior (...)

Agora responda:
1. Como deveria se dar a relação entre estados, municípios e União, de acordo
com a Constituição de 1891? (consulte os Títulos II e III da Constituição).

2. Segundo a Constituição de 1891, a quem era reconhecido o direito de ser


eleitor brasileiro?

3. A quem era negado o direito de participar das eleições federais ou estaduais?

4. A República conseguiu atender às expectativas de participação popular?


Por quê?

5. Hoje, como podemos participar das decisões do país? Dê exemplos recentes.

6
Vocabulário
da Unidade 1

Atenção! abolicionismo - Conjunto de idéias que defendem o fim da escravidão.


Quando houver abolicionista - Que é a favor da libertação dos escravos.
mais de um Afro-América - Regiões das Américas em que houve a presença da escravidão
sentido bem
africana.
diferente para uma
palavra, as várias alforria - Liberdade concedida pelo senhor ao escravo.
definições aristocrático - Nobre; relativo à nobreza.
aparecem Assembléia Constituinte - Conjunto de deputados e senadores responsáveis
numeradas. pela elaboração da Constituição de um país.
Quando autonomia - Liberdade; independência
houver sentidos bígamo - Aquele de tem duas esposas.
semelhantes, as
brasão - Emblema; insígnia.
definições estão
separadas por caçoada - Zombaria; graça.
ponto e vírgula (;). cambaio - Quem tem pernas tortas.
canibalismo - Costume de comer carne humana.
capital - 1. Sede política e administrativa. 2 . Qualquer riqueza investida na
produção ou no comércio para produzir lucro.
capitania - Cada uma das primeiras divisões administrativas do território
brasileiro que deram origem às províncias do século XIX e aos estados de hoje.
cativo - Escravo; que não tem liberdade.
Câmara dos Deputados - Órgão que reúne representantes eleitos pelos cidadãos
para criar e aprovar as leis do país.
cidadania - Participação nas decisões e na vida do país; pleno gozo dos direitos
civis e políticos pelos cidadãos.
cidadão - Habitante de um país, região ou cidade que tem direitos e deveres civis
e políticos em relação ao Estado.
Colônia - Território dominado por outro país, a Metrópole.
conspirador - Aquele que trama secretamente contra algo ou alguém; aquele que
conspira.
Constituição - A lei máxima de um país; conjunto de leis que rege um país.
cristianizar - Tornar cristão; ensinar o modo de viver e pensar dos cristãos.
demografia - Estudo da população.
deserção - Ato de abandonar um partido, uma causa, uma guerra, um exército.
donatário - Aquele que recebeu o direito de explorar uma capitania, em troca de
deveres com a Coroa.
eito - Roça onde trabalhavam os escravos.
elite - Minoria privilegiada e dominante numa sociedade ou num grupo.
emancipação - Liberdade, independência.
escambo - Troca de um produto por outro produto, sem que entre dinheiro nessa
negociação.
especiaria - Tempero, como orégano, canela, pimenta, entre outros.
especulação - Negócio em que uma das partes abusa da fé da outra; exploração.
exportação - Venda para o exterior, para outros países.
feitoria - Posto de armazenagem e troca de mercadorias.
fidalgo - Nobre.
genocídio - Destruição de um povo, de uma tribo; matança de muita gente de
uma mesma etnia.
hereditário - Que passa dos pais para os filhos.
hierarquia - Ordem e subordinação de poderes ou grupos. (Por exemplo: na
hierarquia do Exército, um general está numa posição superior em relação a um
coronel. O general tem mais poder e autoridade.)
império - Monarquia cujo chefe tem o título de imperador ou imperatriz.
indenizar - Dar uma compensação financeira por alguma coisa que foi retirada
de alguém.
insurreição - Revolta.
inventário post-mortem - Relação de bens deixados por alguém que morreu.
jesuítas - Padres da Igreja Católica que faziam parte da Companhia de Jesus.
legitimidade - Qualidade do que é legítimo, autêntico; legal (isto é, de acordo
com a lei); autenticidade.
legítimo - Que é legal ou aceito por todos como verdadeiro.
locador - Aquele que aluga algo para outra pessoa (cobrando o aluguel).
locatário - Aquele que aluga algo de outra pessoa (pagando o aluguel).
manufatura - 1. (Antigamente) Fábricas que produziam artigos com máquinas
ou ferramentas muito simples, pouco sofisticadas. (Hoje) Estabelecimento
industrial; fábrica; indústria. 2. Trabalho feito à mão.
martírio - Sofrimento.
Metrópole - 1. País ou nação que domina um território, o qual se torna sua
Colônia. 2. Cidade muito grande, cuja influência atinge todas as pequenas e
médias cidades que estão ao seu redor, formando uma região metropolitana.
missionário - 1. Religioso que ia para as missões na América, a fim de cristianizar
os índios. 2 . Membro de seita religiosa que divulga (prega) sua crença para quem
não a conhece.
missão - 1. Aldeia organizada por padres missionários e habitada pelos índios,
na qual os religiosos ensinavam os costumes cristãos e a própria religião católica.
2. Encargo; incumbência.
mobilização - Organização e manifestação da população para lutar, reivindicar,
protestar ou apoiar alguma coisa.
monarquia - Tipo de governo ou regime político no qual o chefe tem o nome de
rei ou monarca.
monetário - Referente à moeda, ao dinheiro.
monopólio - Controle exclusivo sobre o comércio ou a produção de mercadorias
por parte de um país, de uma empresa ou de um grupo de empresas.
opressão - Domínio violento sobre alguém ou sobre um povo.
outorgado - Concedido; permitido. (No caso da Constituição de 1824, ela foi
outorgada porque veio diretamente do imperador D. Pedro I, sem passar por
uma Assembléia Constituinte, sendo, por isso, imposta ao país.)
paróquia rural - Divisão territorial no campo, administrada por um pároco
(padre) responsável por cuidar dos interesses da Igreja naquela área.
patriarca - Chefe de família, em geral o mais velho, do sexo masculino, com
muita autoridade sobre todos.
plebeu - Aquele que não é nobre; gente simples, do povo.
possessão - Área dominada e, por vezes, colonizada pelo dominador.
promissor - Que promete dar bom resultado.
província - Divisão administrativa do Brasil no tempo do Império, que
corresponde aos estados de hoje.
recolonização - Retorno à condição de Colônia.
remunerar - Pagar a alguém por um serviço.
república - Forma de governo na qual o poder vem do povo, por intermédio de
seus representantes eleitos.
rito ou ritual - Conjunto de regras e de cerimônias que são praticadas em uma
religião.
senado - (Antigamente) Órgão de representação das províncias no Parlamento
Imperial. (Hoje) Órgão de representação dos estados no Congresso Nacional
(composto de Câmara dos Deputados e Senado).
senzala - Local de moradia dos escravos.
sesmaria - Lote de terra doado pela Coroa portuguesa ou pelos donatários de
capitanias aos colonos, no período colonial.
soberania - Poder; autoridade suprema.
soslaio - Esguelha. (Olhar de soslaio: olhar de lado, olhar de esguelha.)
subsistência - Sobrevivência.
tarifa - Imposto; taxa.
tráfico - Comércio.
urbano - Relativo à cidade.
voto censitário - Voto baseado na renda do indivíduo.
Bibliografia
da Unidade 1

ALENCAR, Francisco (e outros) - História da sociedade brasileira, Rio de


Janeiro, Ao Livro Técnico, 1985.
CARDOSO, Ciro F. S. (organizador) - Escravidão e abolição no Brasil: Novas
perspectivas. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1988.
CARVALHO, José Murilo de- A Monarquia brasileira. R. Janeiro, Ao Livro
Técnico, 1993.
CASTRO, Hebe Maria Mattos de - Ao sul da História. Lavradores pobres na
crise do trabalho escravo. São Paulo, Brasiliense, 1987.
COSTA, Emília Viotti da - Da senzala à Colônia . São Paulo, LECH, 1982.
CUNHA, Manoela Carneiro da - História dos índios no Brasil. São Paulo,
Companhia das Letras, 1992.
FALCON, Francisco C. - Mercantilismo e transição. São Paulo, Brasiliense,
1984. Coleção “Tudo é História”. 5ª edição.
FREYRE, Gilberto - Casa-grande & senzala . Rio de Janeiro, Editora José
Olympio, 1934.
HOLANDA, Sérgio Buarque de (organizador) - Coleção “História geral da
civilização brasileira”, A época colonial , Tomo I. São Paulo, DIFEL.
LARA, Sílvia H. - Campos da violência: escravos e senhores na capitania do Rio
de Janeiro. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1988.
MATTOS, Ilmar R. d (e outros) - História - 1ª série do 2º grau. Rio de Janeiro,
Francisco Alves, Edutel, 1977.
MATTOS, Ilmar R. de (e outros) - Brasil: uma História dinâmica. São Paulo,
Nacional, 1972.
MOTA, Carlos Guilherme - 1822. Dimensões . São Paulo, Perspectiva, 1972.
MENDONÇA, Paulo Knauss de - O Rio de Janeiro da pacificação. Rio de
Janeiro, Biblioteca Carioca, v. 18, 1991.
REIS, João José e SILVA, Eduardo - Negociação e conflito: a resistência negra
no Brasil escravista. São Paulo, Companhia das Letras, 1989.
SOUZA, Laura de Mello e - O diabo e a Terra de Santa Cruz. São Paulo, Companhia
das Letras, 1986.
TERENA, Marcos - Cidadãos da selva: a História contada pelo outro lado .
Rio de Janeiro, Gráfica do Jornal do Brasil, 1992.

6
Gabaritos das aulas
1 a 18

AULA 1 - Que História é essa?


Relendo o texto
1. Século é um período de 100 anos. O nascimento de Cristo foi adotado para
marcar o início do século I. O ano de 1995 pertence ao século que terminará no
dia 31 de dezembro de 2000, quando se completarão vinte centenas de anos,
desde o nascimento de Cristo. Estamos, portanto, no século XX.
2. Os documentos escritos são importantes, porque eles nos fornecem informa-
ções sobre formas de viver e pensar de homens e mulheres que viveram no
passado. São importantes para conhecer a História de uma sociedade ou de um
povo. Além dos documentos escritos, existem histórias e canções passadas de
pais para filhos; pinturas, esculturas e desenhos; fotografias, filmes, poesias;
arquitetura e roupas da época.
3. “Os historiadores escrevem a História a partir das perguntas que formulam
sobre o passado”.
“Os historiadores buscam respostas pesquisando as fontes históricas.”
4. Resposta livre.
Fazendo a História
1. XV 2. XIX 3. XX

AULA 2 - O encontro de dois mundos


Relendo o texto
1. a) Crescimento da produção agrícola; aumento do lucro do comércio com o
Oriente; crescimento da riqueza dos países com o acúmulo de ouro e prata
conseguidos pelo comércio.
b) O Homem transformou-se no centro das atenções dos pensadores e artistas.
O Renascimento Cultural concretiza essa tendência.
2. a) Diferentes viagens foram feitas pelos navegadores portugueses, todas
iniciadas pelo Oceano Atlântico. Os portugueses, primeiro, conquistaram Ceuta
na África, depois foram conquistadas ilhas no Atlântico e pontos do litoral da
África; depois foi contornado o Cabo das Tormentas no extremo-sul da África e,
por fim, Vasco da Gama chegou às Índias.
b) Enquanto Portugal alcançava as Índias contornando o continente africano, os
espanhóis, querendo atingir o Oriente em linha reta, chegavam à América,
continente desconhecido dos europeus até então.
3. Durante séculos, cada povo havia desenvolvido sua própria maneira de viver
e de pensar. Os índios estranhavam, nos europeus, as roupas, a barba, os cavalos,
a cobiça pelo ouro. Os europeus estranhavam, nos índios, a falta de roupas, a
ausência de noção de propriedade e uma religião completamente diferente do
cristianismo.
4. Resposta livre.
Fazendo a História
1. Documento A : um indígena americano.
Documento B : um europeu, português ou espanhol.
2. Os europeus viam os indígenas como bárbaros, ou como selvagens, primitivos,
sem cultura. Os indígenas comparavam os europeus a animais (macacos e
porcos) por causa da cobiça pelo ouro.
3. a) As diferenças culturais existem porque existem experiências de vida
diferentes. Cada sociedade tem uma história própria, produzindo culturas e
realidades diversas.
b) Sim. Os exemplos deverão mostrar as diferenças, na forma de pensar, de
festejar, nas expressões da arte, etc. Essas diferenças podem existir dentro do
próprio Brasil: entre os indígenas e outros brasileiros; entre nordestinos e
sulistas. Existem também diferenças entre o Brasil e outros países.
c) Sim. Existem alguns grupos ou expressões culturais que são consideradas
inferiores por outros grupos. Exemplos de grupos: negros, indígenas. Exemplos
de expressões culturais: religiões de origem africana ou manifestações popula-
res, como o funk.

AULA 3 - O nascimento do Brasil


Relendo o texto
1. a) O Tratado de Tordesilhas foi um acordo entre os reis de Portugal e Espanha
com relação ao descobrimento de terras. Por uma linha imaginária, chamada
Meridiano de Tordesilhas, dividiram o mundo ao meio, ficando metade para
Portugal e metade para a Espanha. Esse acordo foi assinado na cidade espanhola
de Tordesilhas, em 1494.
b) Os portugueses tiveram de ocupar o território brasileiro porque os reis de
outros países, como a França, a Holanda e a Inglaterra, não reconheciam o
Tratado de Tordesilhas. O rei da França chegou a dizer que “desconhecia o
testamento de Adão no qual ele dividia a mundo entre Portugal e Espanha”. Por
outro lado, reconheciam a posse das terras efetivamente ocupadas. Assim, para
evitar a invasão de suas terras, os portugueses trataram de colonizá-las.
c) Os portugueses usaram a cana-de-açúcar para colonizar o Brasil porque já
tinham plantações rentáveis de cana em outras possessões. Nessa época, o
açúcar tinha grande valor e dava bom lucro, sendo chamado de “ouro branco”,
pois rendia mais do que a exploração das minas.
2. a) O engenho colonial era uma grande propriedade produtora de açúcar para
exportação. Usava mão-de-obra escrava. Produzia seus alimentos e animais de
tração. O centro administrativo e de poder era a casa-grande, onde o senhor de
engenho morava com sua família.
b) O Pacto Colonial era um sistema de controle político e econômico que a
Metrópole exercia sobre as colônias, que só podiam vender, comprar ou fazer
qualquer negócio com os mercadores autorizados.
3. Resposta livre
Fazendo a História
Além do trabalho na lavoura, na casa do engenho ou na casa-grande, existiam
escravos ocupados em ofícios diversos, como barqueiros, canoeiros, calafates
(que tapam fendas em barcos ou janelas de madeira), oleiros (fabricantes de
peças de barro, louça ou cerâmica), carapinas (carpinteiros), carreiros (guias de
carros de bois), vaqueiros, pastores e pescadores.

AULA 4 - Ocupação do interior da Colônia


Relendo o texto
1.

REGIÕES LOCALIZAÇÃO ATIVIDADE MÃO-DE-OBRA


ECONÔMICA

PASTORIL SERTÃO NORDESTINO PECUÁRIA OU TRABALHO LIVRE DE


CRIAÇÃO DE GADO BRANCOS, ÍNDIOS E
MESTIÇOS NO INÍCIO;
EXTREMO SUL TROPAS DE MULAS DEPOIS ESCRAVOS
AFRICANOS

VALE VALE DO RIO DROGAS DO SERTÃO INDÍGENAS


AMAZÔNICO AMAZONAS

VICENTINA SÃO VICENTE APRESAMENTO DE TRABALHO LIVRE DE


ÍNDIOS; BUSCA DE BRANCOS, ÍNDIOS E
OURO MESTIÇOS

MINERADORA REGIÃO DAS MINAS METAIS PRECIOSOS ESCRAVOS AFRICANOS

2. a) Nessas expedições, os bandeirantes penetravam o interior do território


colonial. Eles aprisionavam os indígenas para vendê-los como escravos.
b) “Várias vilas foram fundadas”.
“ A região mineradora foi responsável pelo grande crescimento populacional
da Colônia, fazendo, inclusive, com que o número de pessoas livres superasse,
pela primeira vez, o de escravos.”
“A vida urbana tornou-se mais intensa, mas aumentou o controle da Metrópole.”
3. Resposta livre.
Fazendo a História
1. “Largueza de campo e água sempre manente dos rios e das lagoas”.
A pecuária cresceu impulsionada pela lavoura açucareira, tornando-se uma
atividade complementar a ela, na região nordestina. No extremo sul, a criação
de mulas cresceu para servir às atividades na Região das Minas.
2. O documento fala sobre o grande deslocamento de população para a Região
das Minas. Em busca do ouro fala sobre outras alterações no povoamento da
Colônia, como, por exemplo o número de trabalhadores livres superar, pela
primeira vez, o número de escravos.

AULA 5 - O Brasil indígena


Relendo o texto
1 . Há muitas palavras e nomes, de pessoas, de lugares e até de ruas. Exemplos:
Ajuricaba, Anhangüera, Araraquara, Embu-Guaçu, Guararapes, Iara, igarapé,
Itaporanga, Itapuã, Manaus, mandioca, Maracanã, Pacaembu, surucucu, etc.
2. Além de tomar banho diariamente, talvez você goste de dormir em rede ou de
comer farinha de mandioca. Porém há muito mais para você descobrir!
3. Os índios conhecem mais e melhor a vida nas florestas e a respeitam; utilizam
com sabedoria os recursos disponíveis, como alimentos e remédios.
4. Já que ecossistema é toda a cadeia de vida que existe em determinado
ambiente, a destruição de uma espécie pode afetar muitas outras. Os índios
sabem disso e estão perfeitamente integrados a seu ecossistema. Utilizam-no
sem depredá-lo.
5. Os povos indígenas estão ameaçados pela invasão de terras, pela poluição dos
rios, pelo contato com os que querem explorar as riquezas de seu território ou,
então, com pessoas que desejam “salvar” a alma deles, ensinando-lhes religiões.
6. Resposta livre.
Fazendo a História
1. Os direitos de decidir as próprias leis e a própria forma de governo e o de
manter sua língua, sua religião, seus costumes e suas tradições. O direito a seu
território e a todos os recursos ali disponíveis.
2. Por causa da poluição dos rios e da invasão de terras, os índios não podem
mais pescar, caçar e coletar seus alimentos, o que altera completamente seu
modo de vida. Além disso, a terra, para eles, é sagrada. Há uma ligação, uma
identificação espiritual com o local que habitam. Sair desse lugar, ou vê-lo
degradado, significa a morte de sua raça, o fim de sua cultura.

AULA 6 - A escravidão e o mundo rural


Relendo o texto
1. a) “Viúvo, migrou para o Espírito Santo.”
b) “Deste casamento nasceram seis filhos legítimos, segundo o pai, falecidos
quando redigiu seu testamento já em Campos dos Goitacazes, Capitania da
Paraíba do Sul.”
2. “Os escravos estavam nos engenhos e nas fazendas, que possuíam mais de
cinqüenta escravos cada uma e, às vezes, centenas deles. Estavam também nas
pequenas e médias propriedades dos lavradores de cana e dos plantadores de
tabaco e de algodão.”
“Estavam, ainda, na pequena produção de porcos, do milho e da mandioca”.
“Mesmo os libertos, ex-escravos que compravam ou recebiam alforria,
freqüentemente também se tornavam proprietários de escravos.”
3. Resposta livre.
Fazendo a história
1. Viviam na maior simplicidade, como se vê pela herança apresentada: uma
casa coberta de palha, uma cama marquesa, uma canastra velha e um escravo.
2. Porque escravo era símbolo de prosperidade e riqueza na sociedade colonial.
E fazer trabalhos manuais era serviço de escravos e um desprestígio para o
homem branco.

AULA 7 - O desenvolvimento das cidades


Relendo o texto
1. As cidades tinham papel de destaque servindo como entrepostos comerciais,
e no campo político representavam a sede do poder administrativo. O Rio de
Janeiro, sede do vice-reinado desde 1763, era um porto por onde se escoava a
produção das minas de ouro. Não só as funções administrativas e o comércio
externo mostravam o dinamismo dessas cidades, mas também o papel que
ocupavam no abastecimento interno e no comércio entre os portos. Além disso,
as cidades representavam um espaço no qual era possível crescer socialmente,
apesar de escravista.
2. Os bens históricos e culturais contribuem para a formação da cidadania e da
identidade nacional. Eles refletem os conhecimentos, as realizações e as transfor-
mações que produziram o Brasil que conhecemos e o povo que somos.
3. Resposta livre.
4. Resposta livre.
Fazendo a História
1. Pode-se concluir que as cidades eram sujas e sem saneamento, com muitos
focos de mosquitos e de ratos, com esgotos a céu aberto. E que mau cheiro!
2. O povo reagia às opressões e à exploração que sofria. O governo português
não investia em educação nem dava nenhum tipo de assistência. Não havia
nenhum direito social nem político. Ao criticar o povo, o vice-rei está mostrando
a sua própria incapacidade administrativa e o seu preconceito. A revolta nada
tem a ver com a cor das pessoas, e sim com as condições de vida a que eram
submetidas e com a falta de oportunidades.

AULA 8 - A luta dos escravos


Relendo o texto
1. “Para um escravo, fugir de uma fazenda significava meter-se mato adentro,
numa terra desconhecida, sob a perseguição constante dos capitães-do-mato,
indivíduos contratados pelos senhores de escravos para recuperar os cativos
que escapavam.”
2. As formas de resistência dos escravos eram muitas: mantinham sua religião,
seus deuses, suas danças e batucadas; mantinham a língua, os costumes e as
tradições. Além disso, lutavam capoeira, fugiam e formavam quilombos; com as
insurreições, conseguiam negociar com os senhores. Mas, principalmente,
conservavam o sonho de comprar a liberdade com alguma renda extra.
3. No Quilombo dos Palmares, os habitantes moravam em aldeias (mocambos),
vivendo da agricultura de subsistência e do artesanato, trocando os excedentes
com os povoados próximos.
4. Resposta livre.
Fazendo a História
Qualquer dos trechos pode ser retirado do texto. O comentário deve mostrar a
capacidade de negociação entre escravos e senhores. A negociação foi uma das
formas de luta dos escravos, assim como a rebelião, que, no caso deste documen-
to, provocou a negociação. Nesse sentido, os escravos também tinham poder de
ação dentro do sistema escravista e na construção da História do Brasil.

AULA 9 - De que jeito se governava a Colônia


Relendo o texto
1. a) Porque Portugal encontrava-se mal financeiramente e o sistema de capita-
nias hereditárias foi uma forma de dividir os custos da colonização com
particulares.
b) Apenas as capitanias de Pernambuco e São Vicente prosperaram, e o sistema
de capitanias promoveu a dispersão administrativa, o difícil controle da Metró-
pole e a autonomia dos colonos.
2. a) Eram os representantes dos proprietários de terras e escravos.
b) Eles tinham o poder político-administrativo na Colônia.
3. As invasões dos holandeses marcaram as cidades do Nordeste, e sua expulsão
fez com que eles montassem um novo pólo açucareiro na América Central,
fazendo com que o açúcar ali produzido concorresse com o açúcar brasileiro.
4. Mudou a capital da Colônia de Salvador para o Rio de Janeiro; extinguiu as
capitanias particulares, que ficaram sob controle direto de Portugal; criou as
Companhias de Comércio do Grão-Pará e do Maranhão e de Pernambuco e
Bahia; expulsou os jesuítas da Colônia; negociou as fronteiras do Brasil colonial
com a América espanhola.
5. Resposta livre.
Fazendo a História
1. “traz consigo o ser servido, obedecido e respeitado de muitos.” (...) “bem se
pode estimar no Brasil o ser senhor de engenho, quanto proporcionadamente se
estimam os títulos entre os fidalgos do reino.”
2. A família, os empregados (lavradores e feitores), os escravos; todos os que
vivessem no engenho.

AULA 10 - Liberdade, ainda que tardia!


Relendo o texto
1. No século XVIII surgiram idéias novas que revolucionaram as relações sociais
e as relações de produção. Associou-se a idéia de “luz” a essa nova forma de
pensar, que utilizava a razão e valorizava o ser humano. As novas idéias iriam
“iluminar” os caminhos da humanidade.
2. Os estudantes brasileiros na Europa tiveram contato com as idéias iluministas.
Por meio de livros e jornais, trazidos clandestinamente, essas idéias espalharam-
se pela Colônia e serviram de inspiração para os revoltosos.
3. A Conjuração Baiana foi mesmo uma rebelião do povo. Dela participaram
escravos e negros livres, trabalhadores e pequenos comerciantes. Já a Inconfi-
dência Mineira ficou apenas nos planos de alguns poucos letrados e membros
da elite; não houve participação popular.

4.

INCONFIDÊNCIA CONJURAÇÃO
MINEIRA BAIANA

DATA 1789 1798

LOCAL REGIÃO DAS MINAS BAHIA

GRUPOS QUE ELITE COLONIAL, ESTUDANTES, COMERCIANTES, PADRES,


PARTICIPARAM PADRES E ESCRITORES PROFISSIONAIS LIBERAIS,
ALFAIATES, SOLDADOS E
LIBERTOS

REAÇÃO DA PRISÃO DOS CONJURADOS; PRISÃO, DEGREDO,


METRÓPOLE DEGREDO E JULGAMENTO E ENFORCAMENTO DE QUATRO
ENFORCAMENTO DE LÍDERES
TIRADENTES

5. Resposta livre.
Fazendo a História
1. “Os homens nascem e permanecem livres.”
“A liberdade consiste em poder fazer tudo o que não prejudica outrem.”
“A lei não tem o direito de proibir senão as ações prejudiciais à sociedade. Tudo
o que não é proibido pela lei não pode ser impedido e ninguém pode ser
constrangido a fazer aquilo que ela não ordene.”
2. “Os homens nascem e permanecem livres e iguais em direitos.”
“A lei é a expressão da vontade geral (...). Ela deve ser a mesma para todos, quer
proteja, quer puna. Todos os cidadãos, sendo iguais aos seus olhos, são
igualmente admissíveis a todas as dignidades, lugares e empregos públicos.”
3. “O fim de toda associação política é a conservação dos direitos naturais e
imprescritíveis do homem. Estes direitos são a liberdade, a propriedade, a
segurança e a resistência à opressão.”
4. Direitos do cidadão: liberdade; propriedade; segurança; resistência à opres-
são; concorrer, pessoalmente ou pelos seus representantes, para a formação da
lei; admissão às dignidades, lugares e empregos públicos.
Obrigações do governo: conservar os direitos naturais do homem; proibir as
ações prejudiciais à sociedade; manter a mesma lei para todos.
5. O governo nasce da vontade do povo e existe para garantir os seus direitos.
6. A relação colonial é oposta às idéias de liberdade e de igualdade. É uma relação
desigual entre Colônia e Metrópole, entre colonos e colonizadores e conta ainda
com a escravidão. Na Colônia, não há espaço para a escolha de quem governa,
o que é determinado pela Metrópole, e o governo não existe para garantir os
direitos da Colônia, mas sim para garantir o monopólio da Metrópole.

AULA 11 - Independência do Brasil


Relendo o texto
1. “reduzida população distribuída irregularmente pelo território.”
“comunicações difíceis”.
“Não existiam grandes cidades e nem no Rio de Janeiro, capital da colônia, havia
facilidade de comunicação com as demais regiões do Brasil.”
2. A abertura dos portos do Brasil às Nações Amigas significou o fim do Pacto
Colonial e da política de monopólios. O comércio com a Inglaterra aumentou e
a elite colonial passou a consumir produtos refinados, trazidos pelos ingleses.
3. Foram várias as razões, como, por exemplo, a insatisfação dos pernambucanos
com os impostos que deveriam pagar; os recursos humanos exigidos para
sustentar a política expansionista de D. João na Guiana Francesa; a prisão de
membros de sociedades secretas ordenada pelo governador de Pernambuco.
4. Resposta livre.
Fazendo a História
1. A situação econômica de Portugal estava muito ruim; suas principais ativida-
des econômicas haviam entrado em decadência.
2. Porque Portugal já não era mais uma potência, como na época das grandes
navegações, e a Inglaterra espalhava seus produtos pelos portos de Portugal e
do Brasil.
3. As elites portuguesas queriam a volta do monopólio, e a recolonização do
Brasil seria uma solução, proposta pela revolução do Porto em 1820.
4. Convocaram uma Assembléia Constituinte e defenderam a independência do
Brasil, mantendo aqui o príncipe D. Pedro. A independência foi feita, adotou-se
a monarquia e evitou-se a recolonização.
AULA 12 - Muitas cores e formas
Relendo o texto
1. Índios e africanos eram igualmente vistos como bárbaros e pagãos pelos
portugueses. Consideravam que eles não tinham cultura, que tudo que faziam
de diferente não passava de selvageria, feitiçaria e superstição, e lhes impuseram
a sua fé e seus hábitos.
2. Os africanos trabalhavam cantando suas cantigas de trabalho; as amas de leite
cantavam cantigas de ninar e contavam histórias africanas; nas festas, dançavam
danças africanas e enfeitavam-se como se fazia na África. Além disso, muitas
palavras das línguas africanas passaram a fazer parte da nossa língua. Já os
indígenas influenciaram a sociedade colonial com a maneira de construir suas
casas, com suas comidas e sua arte.
3. Os autos religiosos ou teatro religioso; as congadas ou folias negras.
4. Cerimônias religiosas paramentadas; missas com padres ricamente vestidos;
esculturas de madeira e ouro; estilo vistoso e cheio de detalhes.
5. Resposta livre.
Fazendo a História
1. A busca do ouro e a conversão dos índios ao cristianismo.
2. Resposta livre. Atenção para o fato de os indígenas terem crenças diferentes
diferentes.
Com esta pergunta é possível promover um debate entre colegas, trabalhando
a questão da diferença e do respeito entre os diferentes grupos culturais.

AULA 13 - Fé, festa e fervor


Relendo o texto
1. Os objetivos religiosos eram “levar o Cristianismo a todas as partes do
mundo”; “necessidade e, sobretudo, dever de expandir a religião católica”;
determinação de converter todos os índios, considerados infiéis, à fé católica.
2. Indígenas
Indígenas: adoravam forças da natureza, faziam cultos aos antepassados;
acreditavam em deuses que protegiam suas atividades, como a caça, a lavoura
e a guerra; faziam festas para esses deuses a fim de agradá-los ou obter algum
benefício deles; acreditavam na influência dos deuses na vida cotidiana.
Africanos
Africanos: os muçulmanos acreditavam em Maomé e adoravam o deus Alá;
outros acreditavam nas forças e nos elementos da natureza, em deuses que
protegiam seus “filhos” na Terra e no poder dos espíritos dos mortos.
Europeus
Europeus: fé católica; festas religiosas com danças e músicas; amuletos,
santinhos e medalhas de proteção; valorização dos santos.
3. “Deuses indígenas, deuses africanos e santos católicos: todos eles se mistura-
vam no no dia-a-dia do povo do Brasil Colonial, criando um catolicismo próprio,
de caráter mestiço, festeiro, resultado de toda essa mistura que se realizava sob
o sol dos trópicos.”
4. As irmandades eram associações de fiéis que se dedicavam ao culto de um
santo. Eles construíam um altar para esse santo dentro de uma igreja e faziam
festas e procissões em sua homenagem. As irmandades eram divididas em
irmandades de pretos, pardos e brancos.
5. Resposta livre.
Fazendo a História
1. O Divino Espírito Santo estava ligado à idéia de fartura.
2. Existia diferenças entre a pregação oficial da Igreja Católica e a religiosidade
popular, que associava a religião ao cotidiano.
3. Os vários grupos sociais da colônia tinham experiências de vida diferentes. O
povo tentava tornar mais “familiar” a imagem sizuda, séria, que a Igreja
procurava passar à população. Era o dia-a-dia de cada grupo que terminava por
dar esse aspecto popular às idéias passadas pela Igreja.

AULA 14 - A cara do Brasil


Relendo o texto
1.
BRANCO + NEGRO MULATO

ÍNDIO + BRANCO MAMELUCO

NEGRO + ÍNDIO CAFUZO

2. É uma organização familiar e social, na qual o grande pai, ou patriarca, é o


chefe absoluto para todos os assuntos: sociais, políticos ou religiosos. Seu poder
atinge a comunidade que está submetida a ele e a sua família.
3. Os ingleses, em sua maioria, levaram as próprias famílias para as colônias.
Além disso, a religião protestante puritana era muito rígida com relação à
sexualidade. Por isso houve pouco cruzamento inter-racial, em comparação com
o que ocorreu nas colônias portuguesas.
4. Existem influências negras e indígenas na nossa língua, na culinária, na
música, na religião, nas técnicas e, também, nos costumes e nas tradições da
nossa gente.
5. Resposta livre.
Fazendo a História
1. Resposta livre
2. Resposta livre.

AULA 15 - O início do Império


Relendo o texto
1. O “partido português” ou “pés de chumbo”, os democratas e os aristocratas.
2. Pode-se escolher entre: divisão do governo em quatro poderes (executivo,
legislativo, judiciário e moderador); garantia dos direitos individuais a todos os
cidadãos brasileiros; união entre o Estado e a Igreja; Estado unitário; sistema
eleitoral baseado no voto indireto, masculino e censitário.
3. Fortalecimento do poder do Imperador; redução do espaço de atuação dos
brasileiros da Corte e das províncias; reforço das diferenças políticas e sociais;
divisão entre cidadãos ativos, os passivos e os não-cidadãos.
4. A Confederação do Equador, em Pernambuco, contra a Constituição de 1824;
o não-reconhecimento da independência pelas repúblicas vizinhas (hispano-
americanas); crise econômica; dependência econômica em relação à Inglaterra.
5. Resposta livre.
Fazendo a História
1. Os brasileiros católicos maiores de 25 anos, militares, bacharéis e clérigos, com
renda anual de mais de cem mil réis.
AULA 16 - O Império se fortalece
Relendo o texto
1. Para os liberais moderados , era fundamental assegurar a continuidade da
economia escravista de agroexportação, preservando a Constituição de 1824.
Para os liberais exaltados , era preciso uma Monarquia baseada no federa-
lismo. Queriam a descentralização do poder e maior autonomia às províncias.
Os restauradores queriam a volta de D. Pedro I ao Brasil.

2.
REBELIÃO LOCALIZAÇÃO CAUSAS CARACTERÍSTICAS
CABANAGEM AMAZÔNIA REPRESSÃO DO PROMOVIDA PELOS
GOVERNADOR NOMEADO CABANOS (POPULAÇÕES
PELO GOVERNO CENTRAL RIBEIRINHAS); TOMOU A
E MANUTENÇÃO DOS CIDADE DE BELÉM; FOI
PRIVILÉGIOS DOS REPRIMIDA COM
PORTUGUESES NA REGIÃO DIFICULDADE PELAS
AUTORIDADES IMPERIAIS

FARRAPOS RIO GRANDE DO SUL DESCONTENTAMENTO DEPOSIÇÃO DO


COM A POLÍTICA GOVERNADOR DO RIO
IMPERIAL DE IMPORTAR O GRANDE DO SUL; DOMÍNIO
CHARQUE, DE SANTA CATARINA; O
CONCORRENDO COM O MOVIMENTO DUROU DEZ
CHARQUE GAÚCHO, E A ANOS E FOI PACIFICADO
FALTA DE AUTONOMIA PELO GOVERNO DO 2º
POLÍTICA IMPÉRIO (1845), POR MEIO
DE NEGOCIAÇÕES E DA
ANISTIA

SABINADA BAHIA FALTA DE AUTONOMIA VAQUEIROS E ARTESÃOS


PROVINCIAL SE REBELARAM CONTRA
A AUTORIDADE LOCAL

BALAIADA MARANHÃO FALTA DE AUTONOMIA


PROVINCIAL

3. Os regressistas defendiam a centralização imediata do poder e o retorno à


ordem. Os progressistas defendiam a descentralização.
4. Resposta livre.
Fazendo a História
1. Os regressistas eram o grupo que defendia a centralização do poder como
forma de evitar as rebeliões provinciais.
2. A sociedade a que o autor se refere é, sem dúvida, a elite do Império,
preocupada com a “desordem” provocada pelas rebeliões.
3. Aqueles que se rebelavam e que defendiam a descentralização.
4. A “sociedade” corria o risco da “desordem”; com a ameaça da separação das
províncias, do questionamento da ordem escravista e do aumento da participa-
ção popular.
5. O resultado do regresso foi uma monarquia centralizada, que limitou a
participação popular e garantiu a lavoura escravista.

AULA 17 - O fim da escravidão


Relendo o texto
1. A Inglaterra queria manter a população africana na África, trabalhando para
suas empresas agrícolas ali instaladas; o açúcar brasileiro concorria com aquele
produzido nas colônias inglesas, onde não mais se utilizava a mão-de-obra
escrava.
2. As fugas individuais e coletivas e as insurreições.
3. A onda negra foi uma onda de atos de rebeldia e insubordinação por parte dos
escravos, que criou um clima de insegurança e de desordem.
4. Os fazendeiros paulistas alforriavam os escravos para impedir as deserções em
massa e legalizar a situação dos escravos que já os haviam abandonado.
5. Para preparar a abolição, o governo do Brasil criou, a partir de 1850, várias leis:
a Lei da Proibição do Tráfico, a Lei do Ventre Livre e a Lei dos Sexagenários.
6. Resposta livre.
Fazendo a História
1.
1.Porque não consegue alugar pretos que trabalhem para ele. Com a abolição, os
negros não eram mais escravos, e sim cidadãos iguais aos demais.
2. a) Não foi bem assim, levando-se em consideração que aconteceram muitos
conflitos entre escravos e senhores, que levaram não só à negociação mas às
insurreições e mesmo às ações individuais de escravo contra senhor.
b) A abolição não significou a abertura de possibilidades irrestritas aos negros,
que, ainda hoje, ao lado de outros grupos sociais discriminados, lutam por mais
espaço na sociedade brasileira.

AULA 18 - Da Monarquia à República


Relendo o texto
1. As críticas geravam em torno da excessiva centralização política do Império,
sem se conseguir resolver os problemas regionais e o atraso econômico.
2. O governo imperial pôs em prática uma série de reformas, como a implantação
de ferrovias, o incentivo à indústria e a abolição da escravidão. As propostas de
descentralização não chegaram a ser efetivadas.
3. Por causa do Federalismo, as províncias, que passaram a ser os estados,
podiam escolher seus presidentes e ter suas próprias Constituições.
4. Porque o poder estava nas mãos do grupo de fazendeiros de café: a oligarquia
cafeeira.
5. Resposta livre.
Fazendo a História
1. Os estados deveriam respeitar a autonomia dos municípios, e a União deveria
respeitar a autonomia dos estados.
2. Aos cidadãos do sexo masculino que tivessem mais de 21 anos de idade e
soubessem ler.
3. Às mulheres, aos mendigos, aos muito pobres, aos analfabetos e aos soldados.
4. Não, porque o sistema excluía a grande maioria da população, composta pelas
mulheres e pelos analfabetos.
5. Hoje, o voto é mais abrangente e a população também pode se manifestar por
intermédio de diversas associações, de sindicados, de passeatas, de abaixo-
assinados etc.

6
Para suas anotações
Para suas anotações

Похожие интересы