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° ESTRUTURA DE CLASSES, ESTRATIFICACAO SOCIAL E RAGA A literatura contemporanea aborda a questio da raga e ‘das minorias raciais nas sociedades multirraciais das mais diversas perspectivas te6ricas. A dominacio e exploragio raciais sio interpretadas como um aspecto da proletarizacao do trabalho, sendo o antagonismo racial interpretado como conflito de classes. Em contraste com a reducao do antago- nismo racial a uma questo de classe, as minorias raciais sao também vistas como grupos internamente colonizados. Outrossim, na literatura da antropologia social, as minorias racials sio, com freqliéncia, tratadas como segmentos culturais de sociedades pluralistas. Na pesquisa de estratificaglo, a raca é mais uma dimensio do sistema de estratificagto social. Para alguns pesquisadores, a raga € uma dimensio muito peculiar por causa da adscrigio e da auséncia de mobilidade social, a0 passo que, para outros, a raga acarreta uma estru- tura sociorracial ou um sistema separado de estratificacao racial que prevalece sobre a estratificacao socioeconémica, sstio a seguir nao trara ordem a esse caos aparente. Pelo contritio, nela se conceituardo as relagdes entre raga € dois componentes basicos da estrutura social, a estrutura de classes € 0 sistema de estratificacao social. Uma tal concei- tuacao exige distingdes explicitas entre os conceitos de classe social e de estratificagao social. Para adiantar os principais argumentos do presente capi- tulo, pode-se afirmar, em primeiro lugar, que o estudo da estratificagao social (isto &, das desigualdades distributivas a0 longo de varias dimensdes) adquire um significado mais, sociolégico a0 ser a estratificagao analisada em relagdo As estruturas e processos sociais condicionantes, do que ao ser conceituada como um sistema autnomo. A teoria € a pesquisa da estrutura de classes € da estratificag2o social tem se desenvolvido a partir de suposigdes radicalmente diferentes, ‘embora, de fato, as duas ordens de fenémenos correspondam. a aspectos complementares da realidade social. Em segundo lugar, sera feita uma tentativa de mostrar como a raga opera ‘como um critério social mente relevante no preenchimento de posigdes na estrutura de classes, bem como nas dimensdes distributivas da estratificagao social. Duas perspectivas tedricas importantes tém se voltado para 0s problemas da desigualdade social € da divisdo da socie- dade em classes. A primeira é a teoria das classes, originaria da tradi¢ao marxista; a segunda é a teoria da estratificacao. Na tradig4o marxista, as classes sociais sao elementos funda- mentais de certos modos de produgao em que existe a proprie- dade privada dos meios de produgio e onde as relagdes sociais se organizam em tomo de um mecanismo basico de exploracio. Cada modo de producao implica duas classes fundamentais, relacionadas antagonicamente. Assim, as classes sociais so posigdes estriturais as quais os individuos sao alocados pelo sistema Genericamente definido, 0 campo da estratificagdo social refere-se as formas, fungdes e conseqtiéncias de sistemas de desigualdade social estruturada. Num sentido estitico, a estra- Lificagio social refere-se 4 distribuigao diferenciada de recom- pensas ¢ privilégios.' No sentido dinamico, a estratificacao social implica 0 processo individual de obtengao de status, bem como a transmissio intergeneracional de desigualdade social. A proxima parte examinara brevemente as principais supo- sigdes tedricas da abordagem da estratificagao social € da teoria das classes, As maneiras como a esfera da produgao condiciona a distribuicao do produto social serio entao discutidas. Finalmente, a dltima parte analisa as relagdes entre raca, estrutura de classes e os processos de estratili- cagdo € mobilidade social 7 A ABORDAGEM DA ESTRATIFICAGAO, E A TEORIA DAS CLASSES: SUPOSICOES BASICAS Pelo fato de grande parte dos escritos sobre estratificagio social tentar desenvolver novas categorias implicita ou expli- citamente elaboradas com o fito de criticar a teoria marxista das classes, avaliar as suposigdes e procedimentos mais, comuns da teoria da esttatificacdo pode esclarecer ambos os paradigmas. Um breve exame do paradigma posto em desafio, bem como daquele implicitamente proposto, fornecera uma base para discutir as relagdes entre a estrutura de classes ¢ 0 sistema de estratificagto social. Ao declarar a morte da classe enquanto conceito sociolé- gico, Robert Nisbet traca a questio te6rica, classe social versus Status social, até 0 século XIX. Assim, a visio tocquevilliana do regime moderno, com sua énfase na mobilidade de status, baseava-se “na suposico da erosto das classes e sua substi- tuicdo por grupos de status flutuantes, méveis, e por individuos a procura de status’? De Tocqueville 20s nossos dias, incluindo as distingoes de Weber, entre classe, status e partido, muita coisa tem sido esctita sobre estratificagio social. O vacuo entre a teoria funcio- nalista da estratificazo € 05 modelos causais de realizagao de status, recentemente desenvolvidos, tem sido preenchido por varias linhas de pesquisa relacionadas a estratificacao, ‘em reas tais como: hierarquias de status, poder e “casta e classe” em comunidades locais, elites nacionais, cultura e Psicologia das classes sociais, e desigualdades raciais e mobilidade social. Ao examinar esse vasto trabalho sobre estratificagao social desenvolvido nos Estados Unidos, Charles H. Page identifica uma pronunciada coloragiio de ‘classe médi com a tradicao cultural americana e reflexo dela: “um indivi- dualismo que resiste a interpretacdes estruturais de arranjos € processos sociais, um voluntarismo que rejeita explicagdes deterministas da acdo social, um pragmatismo que suspeita de teorias abstratas"? A combinacao da crenga no carter tnico da experiéncia histérica norte-americana com esse esforco culturalmente 98 condicionado de apreender a realidade social tem, como resultado, enfatizar hierarquias de status e procura de status ao invés dos con- tornos do poder econdmico e politico; focalizar a sistema de status da comunidade local — a tradicional “pequena cidade" americana — ao invés das divisbes de classe nacionais; pro- duzir investigagoes de mobilidade ocupacional e social resultados indicam a viabilidade continua — conquant tada — do Sono Americano de sucesso; ¢, geralmente, uma forte énfase em estudos empiticos destinados a testar propo- ssigdes de curto ou médio aleance acerca da estrutura social americana, a0 invés da preocupacio com teorias amplas de classe € sociedade.* Nao que 0 termo “classe” esteja ausente da abordagem da estratificacao social. Tal como utilizada pelos fundadores da sociologia americana, € na literatura mais recente, “classe” tem o significado convencional de grupos delimitados por Iatores econémicos, tais como renda ou ocupacio.° Contudo, a categoria nao decorre de uma andlise geral da estrutura do sistema social Comumente, 0 “econdmico” € interpretado como 0 comando diferencial sobre recompensas ou facili- dades no nivel do individuo. A recorréncia de atributos semelhantes entre certos grupos ou setores da populagao nao leva a uma andlise da estrutura que subjaz ¢ explica esses padroes. A persisténcia de vantagens diferenciais € normal- mente considerada como uma questo que afeta o individuo, presumindo-se também, as vezes, que esté ao alcance do individuo torné-la transit6ria; no é vista como um efeito inerente & estrutura social Visto que as relagdes entre classes econ6micas, inerentes a ‘uma estrutura de exploracio, sto desprezadas desde o inicio, a desigualdade toma-se um problema de comparacto entre unidades discretas ao longo de dimensoes diferentes, embora relacionadas — riqueza operacionalizada como renda, ocupagdes escalonadas de acordo com o prestigio, educacio, raca, padrdes residenciais e coisas semelhantes. Ao reduzit a classe a um conglomerado de varidveis individuais, a estru- tura de classes pode aparecer como separada, até mesmo divorciada, de fendmenos de ideologia e agao coletiva. O que esta abordagem realiza é uma passagem implicita dos problemas de classe para problemas de estratificacio. SBD / FFLCH / USP © tratamento usual da desigualdade na abordagem da icagdo permite descobrir algumas de suas suposicoes tas. Uma preocupacao com os valores americanos de igualdade e realizac4o permeia grande parte da literatura da estratificagao. O uso da possibilidade da realizacao como critério relative do grau de igualdade acentua a eliminagao da adscricao e do privilégio herdado, mas permite também que outras formas de desigualdade sejam justificadas em termos de realizagio diferencial. Aqui o principio de igual- dade de oportunidades aponta uma safda para o dilema colo- cado pela escolha entre igualdade e realizacao. Enfatizar a igualdade de oportunidades implica um modelo normativo € uma nogao de justia social particulares [A] etitica meritocrdtica do sistema de classes (...) dé menos atengiio as desigualdades de recompensas associadas a posigdes diferentes que aos processos de recrutamento para essas posig6es. A objego inicialmente levantada € contra as restrig6es & oportunidad das pessoas talentosas, mas nnascidas no estrato inferior, melhorar 0 seu destino pessoal. Vista deste Angulo, a justiga social implica no tanto em igualdade de recompensas quanto em igualdade de oportu- ' nidades para competir pelas posigdes mais privilegiadas.” Isto contrasta agudamente com a tradicao igualitéria ¢ socialista, que censura a disparidade das recompensas ligadas as diferentes posigdes sociais. A suposigao central da estrati- ficacao é o valor da liberdade individual. Outrossim, 0 valor central da liberdade, vista como atributo individual, € afastado de relagdes concretas de dominacio entre homens reais € ‘grupos reais. Num sistema social modelado em iltima andlise sobre 0 mercado, as escolhas livres das unidades individuais subjazem & distribuigao desigual de variaveis continuas ou atributos descontinuos. Implicitamente, mesmo a desigual- dade mensurdvel remete para 0 dogma liberal da igualdade entre os homens come atores livres e cidadaos iguais, que fazem suas escolhas numa estrututa aberta de oportunidades. ‘Ao enfatizar a estrutura de oportunidades ¢ a0 escolher 0 individuo como unidade de anilise, a estrutura de posigdes dovsistema social torna-se uma questio dada € nao-proble- mitica. Portanto, os adeptos da abordagem da estratificacao 100 raramente tentam apresentar uma explicag3o sistematica, 20 invés de ad boc, de como a estrutura posicional da sociedade varia! Se a desigualdade social é um trago inevitavel e funcional mente necessario da sociedade, entio o l6gico € focalizar as formas de desigualdade € nao a explicacdo dela. Conseqtien- temente, a desigualdade social pode ser tratada como uma cestrutura auténoma € nao-problemitica, cuja existéncia é inde- pendente de outras estruturas e processos sociais.’ Nao apenas a estruturagio de posicoes que comandam recompensas dife- renciais € geralmente tida como nao-problemitica, como a andlise da forma, como outras estruturas e processos sociais, que condicionam a distribui¢io de oportunidades sociais, € também amplamente negligenciada. Ao ignorar a questio das origens estruturais da desigualdade social, 0 sistema de estratificagao é interpretado "como o resultado de capacidades diferenciais dos individuos de obterem recompensas por quaisquer habilidades € servigos negociéveis no mercado que estejam a sua disposicao”.”” Apesar dos estudos empiricos de estratificagao ¢ mobili- dade social revelarem processos reais em nivel do individuo, a principal falha da abordagem da estratificacao € que as, conclusdes acerca de grupos reais e do sistema social sao deduzidas de dados agregados relativos as caracteristicas de individwos nao relacionados € suas mudangas individuais de status. A imagem final da estrutura de estratificacao emerge de ligacdes estatisticas de atributos individuais com atitudes ou comportamentos. Na teoria marxista das classes, as transformagées da estru- tura de posigées no sistema social, a estrutura de classes, so determinadas pela transi¢ao entre diferentes modos de pro- ducao € pela dinamica de cada modo de produgao. No modo de producao capitalista, a explora¢o econémica na esfera da producao € as subseqtientes desigualdades distributivas sto, dada a teoria da mais-valia, aparentemente compativeis, com a troca de equivalentes entre individuos formalmente livres no mercado de trabalho. Implicito nesse proceso de ‘competicao no mercado, que convencionalmente se presume regular a distribuicao de recompensas materiais, encontra-se um mecanismo de exploragdo basico para a acumulacao de capital, a extracao de mais-valia. 101 Visto que a preocupacao central consiste nas relagdes de supra-ordenacao ¢ subordinacao entre agentes, em diferentes posicdes dentro do sistema produtivo € nas priticas sociais ou luta de classes emergentes dessas relagdes, a teoria das classes nao parte da anilise dos aspectos distributivos do sistema social. Portanto, ndo pode ser vista como uma tenta- tiva de explicar as desigualdades sociais procedentes de fontes diversas das relagdes com os meios de producao. , pois, um ‘erro considerar-se a teoria marxista como mais uma teoria da estratificaga0 social. Ao mesmo tempo que a tradicdo marxista sempre enfatizou que 0 processo produtivo condiciona o funcionamento do sistema distributivo, freqientemente negligenciou a andlise da esfera da distribuicao. 1ss0 ocorre apesar do fato de que alguns dos mecanismos basicos que reproduzem as relagdes de dominagao nas sociedades capitalistas industriais operam dentro do reino da distribuicao. Esse reino, por sua vez, tem sido a preocupacdo central da teoria e pesquisa da estratificagao. Nas consideracdes precedentes, duas diferencas bisicas entre a teoria das classes © a abordagem da estratificagao podem ser ressaltadas. A primeira refere-se A maneira como 98 conceitos de estratos sociais € classes sociais s4o cons- truidos. Na pesquisa de estratificag2o social os estratos sociais sio definidos por critérios quantitativos e mensurados por uma ou mais escalas que implicam uma ordem hierarquica. Na teoria das classes, a propriedade (ou falta de propriedade) nas relagoes de producao determina a base para as relagdes assimétricas de dependéncia ou exploragao entre classes sociais, Assim, os critérios quantitativos que estabelecem ordens na hierarquia da estratificacao nao implicam inte- racdo, mas o elemento de dependéncia entre classes sociais, sim.” A segunda diferenca basica ja foi discutida: na teoria das classes, a énfase € dada ao sistema de producao como 0 ponto de partida da andjise; na abordagem da estratificacio, 0 Ponto central consiste em medidas da distribuigio e consumo do produto social Um resultado da confusio entre as duas ordens de pro- blemas € que os analistas da estratificagao social, a0 enfa- tizarem a mobilidade social tém, com freqiiéncia, previsto a dissolucdo das fronteiras de classe e 0 desaparecimento 102 da luta de classes nas sociedades industriais adiantadas. Ao mesmo tempo, os autores marxistas tém se recusado a encarar as questdes levantadas pela estratificagio e mobi- lidade social. 1sso pode acontecer porque a representagao do sistema de estratificacio na consciéncia social esv: © conflito de classes; porque a mobilidade social esta posit vamente relacionada a persisténcia da estrutura de classes; ‘ou porque a énfase na mobilidade ascendente dentro da hhierarquia da estratificacao tende a preservar a estrutura basica de exploragao. AS RELACOES ENTRE A ESTRUTURA DE CLASSES E A ESTRATIFICACAO SOCIAL Tem sido sugerido que os processos de estratificagto ‘mobilidade social definem um campo mais relevante de atengio sociolégica quando a questio das relagdes entre o sistema de classes € a estratificagio social € colocada. No trabalho preliminar de Harold Wolpe, a explicacao do sistema de estra- ficagdo social deveria partir da perspectiva segundo a qual 4 estratificacao social 86 pode ser explicada ao se analisarem suas relagdes com as “estruturas € processos primérios" da sociedade. Visto que essas relagdes nao sto nem simples e nem mecanicas, elas 56 se tornam inteligiveis quando os fatores intermedidrios sio compreendidos. Esses fatores inter- medidrios so 08 processos que injetam a estrutura priméria no sistema de estratificagdo. A nogao de estrutura priméria coincide com o que € definido, dentro do paradigma marxista, como relagdes de classe no proceso produtivo.'*Os méritos da proposta de Wolpe consistem no fato de ressaltar a inade- quagao te6rica € metodolégica de se tratar a estratificagao social como um sistema aut6nomo, determinado por suas Proprias variaveis, ¢ a necessidade de se explicar a estratifi- cago social em termos de suas relacdes com as estruturas sociais condicionantes. Genericamente falando, 0 modo de distribuigto tem lugar dentro de um arranjo existente de relagdes de produgao. Essas relagdes, por sua vez, presumem uma dada capacidade produ- tiva ou desenvolvimento das forcas produtivas. O proceso de obtencao de status individual ou mobilidade social ocorre 103 dentro dos limites da desigualdade distributiva. As principais linhas de determinacao tém sido apontadas de forma recor- rente na literatura marxista. O pr6prio Marx observou, na ‘Coniribuigdo a critica da economia politica, que: Acestrutura da distribuigao ¢ inteiramente determinada pela estrutura da produglo. A propria distribuicio & um produto da produsdo nao s6 no que diz respeito a0 objeto, apenas podendo ser distribuido o resultado da producto, mas também no que diz respeito & forma, determinando o modo preciso de participacao na producao das formas particulares da dist buigio, isto €, determinando de que forma o produtor ps pari na distribuicao."* No capitalismo, a repartic’o do produto social sob as formas de renda, lucro, juros ¢ salarios pressupde um con- junto de relagdes de produgao historicamente desenvolvidas. ‘A produgio determina, mas € também determinada. Neste sentido, a determinagio nao € nem unidirecional nem meca- nica. Contudo, € a estrutura da produgao que preside a forma de articulagao entre os diferentes momentos do processo unitario de produgio, distribuigio, troca e consumo. Indo um pouco além, Nicos Poulantzas, em sua interpre- tacio da teoria marxista das classes, distingue dois aspectos (que 86 existem em sua unidade) da reproducio ampliada das classes sociais. O primeiro e fundamental a reprodugao das posicdes (lugares) de classe ocupadas pelos agentes sociais, a determinacao estrutural de classes na divisto social do trabalho. O segundo aspecto € a teprodugao — distribuigio dos proprios agentes dentro daquelas posigdes. Para Poulantzas, esse segundo aspecto da reproducao das relagdes sociais, que coloca a questio de quem ocupa uma dada posigio, como € quando 0 faz, esta subordinado ao primeiro, isto é, a repro- dugdo das posigdes das classes sociais.” Nessa distingao aparentemente simples entre os dois aspectos da reprodugio das relagdes sociais capitalistas, 0 primeiro envolve quesides de estrutura de classes ¢ 0 segundo questdes de estratificagao € mobilidade social. Sob a aparente simplicidade escondem-se alguns dos problemas fundamentais € Mais controversos da teoria das classes: a determinacao estrutural das posigdes de classe, na sociedade capitalista, e 104 a transformagao da classe de posigdes objetivas, na estrutura da produgio, em classe como ator hist6rico, Quanto a determinagao estrutural das posigoes de classe, a pesquisa marxista tem analisado a tendente destruicao das posigdes de classe associadas a formas de producto pré-capi- talistas € subordinadas, como no caso da producao simples de mercadorias € da pequena burguesia tradicional, ¢ a criacao de novas posigdes de classe no processo de acumulacao € desenvolvimento capitalista.”* Centos desenvolvimentos recentes da teoria das classes podem ajudar a esclarecer as inter-relacdes entre a estrutura de classes e o sistema de estratificagao social. As questoes de interesse sao: (a) como a estrutura posicional no nivel das relagdes de producao € traduzida para o sistema distributivo da sociedade, isto €, como sto as posigdes de classe hierar- (by quicamente ordenadas na distribuicio do produto soci qual € a relagao entre as posigdes na producao ¢ distrib do produto social € a distribuigdo de produtos simbélicos, ou, para colocar a questio em termos weberianos, a distri- buicao de honta social; (c) que critérios de diferenciagao ou estratificagdo social esto envolvidos no processo de preen- chimento da estrutura posicional ¢ como esses critérios inte- ragem com a estrutura de classes. PRODUCAO E DISTRIBUICAO SOCIAL Em Marx, a determinacao da distribuigio pela produgio significa que 0 modo de distribuigio do produto social — por exemplo, na acumulagao de capital e saldrios, lucro € renda como formas de remuneracaio — corresponde a formas de producio historicamente determinadas. Assim, os salérios pressupdem o trabalho assalariado e © lucro pressupde 0 capital. Outrossim, 0 modo de distribuicao € uma traducao de relagdes de producao historicamente definidas. Assim, cada modo de distribuicao particular desaparece com 0 modo de producao que Ihe deu origem. No capitalismo, o atributo dicotémico, propriedade/nio propriedade dos meios de producdo, € acompanhado por distribuigées continuas de rendimentos. As relacdes de 305 distribuicao de renda entre classes diferentes variam dentro dos limites estabelecidos pela reprodugio ampliada do capital Em principio, o prego da forga de trabalho — incluindo 0 trabalhador assalariado que produz mais-valia, bem como 0 trabalhador assalariado que ajuda a realizar a mais-valia € ‘0s empregados do aparato de estado — é determinado pelo custo de formacao € reproducao da forca de trabalho." Nao. obstante, a diferenciacao dos salarios em qualquer momento dado corresponde a hierarquia do trabalho. Tal diferenciaga0 ocorre no contexto da reprodugio ampliada das relagoes sociais, isto 6, onde se operam as lutas sociais € as relagoes politicas ¢ ideolégicas de dominacio. Como aponta André Gorz, no interior das indtistrias de trabalho-intensivo, a fungio dos trabalhadores técnico-cienti- ficos é técnica ¢ ideol6gica, pois nio 86 eles sio encarregados do planejamento € organizacao do proceso de trabalho como também funcionam para perpetuar @ estrutura hierirquica da firma e a submissio do trabalho ao capital."*O mesmo raciocinio pode ser aplicado a toda a forga de trabalho. O processo da divisao social do trabalho, regido pelos requi- sitos da acumulacdo, cria as posigées que sio hierarquica- mente ordenadas na distribuicao de remuneracées, seguindo nao apenas critérios estritamente técnicos € econémicos — isto €, as qualificagdes exigidas para a realizagio de certas fungdes produtivas e nao produtivas — mas também de acordo com as fungées de reproduzir as relagdes de dom nacao ideolégica e politica Assim, a distribuigao do produto social nao € estritamente determinada pelas posigdes nas relagdes de producao, mas € também permeada pela légica da dominacio, pelo conjunto de processos essenciais destinados a manter a estrutura interna do proceso produtivo. Neste sentido, as redistri- buicdes de rendimentos entre classes € fracdes de classe podem resultar de Iutas ¢ movimentos sociais. Ao menos para © capitalismo, as recompensas materiais correspondentes as diversas posigdes sociais nao sio determinadas pela impor- tancia funcional destas para a sobrevivéncia de um sistema social abstratamente concebido, mas por sua importancia funcional na preservacao das relacdes de explorac4o econd- mica ¢ dominagio politica.” 106 PRODUGAO, DISTRIBUIGAO E RECOMPENSAS SIMBOLICAS Quais so as relagdes entre a produgio a distribuigio do produto social ¢ a disttibuicao de produtos simbélicos ou de prestigio? Weber introduziu a distingao entre as ordens econémica, social ¢ legal e ressaltoy 0 carater contingente das relagdes entre elas. Classes ow situagdes de mercado comum sao fendmenos da ordem econdmica; status € grupos de status sao as formas pelas quais a honra social se distribui numa comunidade, e pertencem 2 ordem social." Esses conceitos tipico-ideais de Weber destinam-se 4 configuracdo significativa de eventos hist6ricos ¢ ao estabelecimento de relagdes individuais de causa e efeito. Por causa do seu cardter polichist6rico, certas dificuldades emergem quando esses conceitos sao aplicados a determinadas situagdes hist6ricas. Para o conceito de classe, embora Weber as vezes usasse uum modelo dicotémico formalmente analogo a de Marx, a complexa classificagio de Weber dos tipos de propriedade servicos trazidos ao mercado resultou numa concepsao plura- lista das classes. Como observa Giddens, 0 conjunto de bens © habilidades que as pessoas podem possuit é altamente variavel. O ponto de vista de Weber poderia ser levado 2 sua reductio ad absurdum, através da suposicao de que cada individuo pode trazer ao mercado uma combinacao ligeira- mente diferente de habilidades ou posses, tornando possivel, assim, tantas classes quantos sejam os individuos concretos envolvidos em relagdes de mercado. De maneira semelhante, a relacdo weberiana entre a ordem social € 2 formacao ou existéncia de grupos de status é ‘obscura, pois Weber usa o termo “grupo de status’ ao se referir tanto as organizacdes sociais feudais ou patrimoniais quanto aos grupos de status no capitalismo modemo. A honra social ou 0 prestigio, isto é, a representacao de hierarquias sociais no nivel da consciéncia social pode ser uma dimensio importante da estrutura social em termos da estruturacio do conflito ou consenso social. Nao obstante, sob a crescent burocratizagio e racionalidade de mercado do capitalista moderno, a persisténcia de grupos de status — 05 Junkers Prussianos, a aristocracia da nova Inglaterra ou, para esta questo, os “pobres sem reputago” — € de muito menor 107 importancia que o sistema de avaliages que resulta na percepcio de infimos diferenciais de prestigio e distingdes de status, Assim, a questo nao € tanto a de enumeracao das situagdes sob as quais a usurpacao de honra social dé lugar (ou nao) a monopélios econdmicos ¢ vice-versa, mas a do tipo de relagao que prevalece entre o sistema de avaliagao € agdes simbélicas € o sistema de posigdes na producao distribuigio. Para que a anilise de Weber ganhe seu peso total, como argumenta Pierre Bourdieu em seu bem elaborado tratamento das distingdes simbélicas, ela deveria ser reformulada: a0 invés de opor classes € grupos de status como unidades reais, que podem aparecer mais ou menos freqdentemente, depen- dendo do tipo de sociedade, elas deveriam ser vistas como unidades nominais (que podem ser encontradas na realidad), que sio o resultado de serem acentuados os aspectos econd- micos ou simbélicos, que sempre coexistem na realidade social.” Muitos dos atributos de uma classe social aparecem porque seus membros individuais entram, deliberada ou objetivamente, em relagdes simbélicas que, a0 expressarem as diferengas de situacao € posi¢ao segundo uma légica siste- mitica, tendem a transformar aquelas diferengas em distingdes significativas.”® Portanto, uma classe social nunca se define apenas pela sua situagdo e posico numa estrutura social, pelas relagdes objetivas que mantém com outras classes. Se, como observou Weber, as classes sto distinguidas pelas suas relacdes com a produgio € a aquisi¢io de bens, € 08 grupos de status pelos principios de consumo tal como expressos em estilos de vida especificos, entio: Isso significa que as diferencas propriamente econémicas so duplicadas pelas distingSes simbdlicas na maneira de usar esses bens, no consumo e ainda mais no consumo simbélico (ow ostentatério) que transmuta os bens em signos, as dife- rencas de fato em distingdes significantes ou, para falar como 0s lingdistas, em “valores”, privilegiando a maneira, a forma da ago ou do objeto em detrimento de sua funcio* Com base nas conclusdes empiricas de A. Davis, Gardner € Wafner, Bourdieu observou que opinito do individuo 108 quanto a sua propria posicao na hierarquia social, a hierarquia de posigdes sociais €, portanto, os critérios de hierarquia, é uma fungio de sua propria posico na hierarquia social. Segue-se que nem todas as classes sociais em cada sociedade sdo igualmente disponiveis para o jogo de manifestacao simbélica de diferencas de situagao e de posi¢ao. Essa con- clusio, por sua vez, introduz as possibilidades econdmicas ¢ sociais para a transformacao simbdlica de diferencas eco- némicas © sociais: © jogo das distingdes simbélicas se faz, pols, nos limites estreitos definidos pelas coergdes econdmicas ¢ permanece, por esse fato, um jogo de privilegiados das sociedades privi- legiadas que se podem dar ao luxo de dissimular as oposicoes de fato, isto €, de forca, em oposigdes de sentido.” Nesse sentido, apesar das dicotomias clissicas que inspi- raram os conceitos de sociedade “tradicional” e “moderna”, 0 progresso da racionalizacio ¢ a expansio de subsistemas de “ago racional-proposital”, € legitimo supor nao apenas a existéncia simultnea dos aspectos econdmicos ou instru- mentais € os aspectos simbélicos das ages, mas também o valor de uso € simbélico dos objetos. Essa distin¢ao implica também que 0s aspectos simbélicos de agdes e objetos de- veriam ser conceituados como parte imanente da dinamica de dominacao e reproducao ideolégica de hierarquias sociais. Agdes € objetos obviamente variardo em diferentes socie- dades. Nem a propriedade de terra ¢ escravos, nem a caca 3 raposa e demonstragées semelhantes de posigao aristocra- tica parecem adequar-se a uma sociedade em que a forca de trabalho € comprada como uma mercadoria, nem a obtencao de nivel educacional elevado parece adequada a uma socie- dade em que a ignorincia maciga tende a preservar a repre- senta¢io da hierarquia social como uma ordem determinada natural ou divinamente. Assim, a Gltima questdo: como € a estrutura posicional preenchida? Como as pessoas experi- mentam os critérios de estratificagao social? Como esses cri- térios agem sobre a estrutura de classes? 109 A ESTRUTURA DE CLASSES, MOBILIDADE E MOVIMENTOS SOCIAIS Levando-se em conta que a distribuicao dos individuos em posigdes é subordinada & reprodugao da estrutura posi- cional, uma forma de abordar 0 proceso de recrutamento & através de uma representagio abstrata de como esse processo tem sido estudado, Um modelo simples do processo alocativo pemitira introducao de complicagdes teéricas adicionais. © contexto pressuposto por esse modelo é uma sociedade capitalista adiantada, em que a maiotia da populagao econo- micamente ativa € de assalariados e em que o nimero de donos de propriedade produtiva € estatisticamente irrele- vante. Isto implicaria pequenas adaptacdes no caso de soci dades “menos desenvolvidas" ou “em desenvolvimento” A premissa valorativa do modelo nao é a igualdade, mas a igualdade de oportunidade. Esta fornece 0 quadro de refe- réncia para mensurar o desvio das observagées de uma condigo de independéncia entre status patemno e status |. Uma outra premissa € a de que os individuos agem racionalmente (a) formalmente, usando meios adequados 0s fins, e (b) substantivamente, maximizando recompensas, € utilidades. Outrossim, a estratificagao social € conceituada como 0 processo dindimico de obtengiio de status individual, As variéveis, consideradas numa sequéncia causal, podem ser: origem social ou status dos pais, QI ou habilidade mental, anos de educacao, ocupagio e renda. As técnicas de regressto e path analysis facilitam uma anilise causal do processo de estratificacao ou mobilidade. Coeficientes baixos indicariam um alto grau de indeter- minacio nas relagdes entre as variaveis e uma proporgio alta de variancia no explicada nas varkéveis dependentes. Inversamente, coeficientes elevados implicariam perfeita desigualdade de opprtunidades ou auséncia de mobilidade social.” Os insumos do modelo podem ser dados de um corte representativo da populacao total, ou dados de dife- rentes subamostras, tais como a de homens brancos ou de homens nio-brancos. * A légica (com freqiténcia) implicita do modelo €: in viduos orientados por interesses, diferentemente dotados no de recursos ou meios — alguns adscritivos, como origem. familiar, sexo, raca ou etnia; alguns adquiridos, como edu- cagio — candidatam-se a postos (ocupagées) dentro de uma estrutura de oportunidades nem inteiramente fechada nem completamente aberta. As posigbes so, por sua vez, meios para um fim, seja ele renda ou riqueza ou um nivel ¢ estilo de consumo. A representagao abstrata do modelo causal vai até af, Dentro desse reino de “liberdade, igualdade, propriedade € Bentham’, os atores atomizados, considerados em tetmos de seus atributos individuals, so abstraidos da estrutura jé dada de relagdes sociais que opera num plano alheio & vontade do individuo. ‘As complicagdes do modelo comegam quando se elimina a premissa de maximizacao de utilidades € a implicita teoria subjetiva do valor para, desta forma, evitar a falicia envolvida na passagem do individuo para o sistema social global.” Conseqiientemente, o individuo nao € mais considerado sob a 6tica de que sua qualificagao particular de recursos iniciais proporciona uma plataforma para otimizar as escolhas, visto que °C...) ao escolhermos como esséncia do homem a luta Por posses, tornamos impossivel a muitos homens serem plenamente humanos. Ao definirmos o homem como um apro- Priador infinito, impossibilitamos que muitos se qualifiquem. ‘como homens”. Voltamos, portanto, a sociedade capitalista adiantada. ‘Como foi argumentado por Macpherson, a sociedade de mer- cado € 0 estado democritico liberal s40 um composto hists- rico do estado liberal, a servico de uma sociedade de escolha, mas, de modo algum, democratic, a qual foi acrescentado 0 sufragio. Como tal, compdem um duplo sistema de poder: 0 primeiro implica que © governo “tem o poder de obrigar as pessoas a fazerem coisas que, no todo ou em parte, de outra forma nao fariam, e de impedir as pessoas de fazerem coisas ‘que, no todo ou em parte, de outra forma fariam”. O segundo sistema de poder advém da transicio de uma sociedade de mercado simples para a emengencia de relagdes “gracas as quais alguns homens tém a capacidade de tirar de outros mais, do que os outros deles, ou de obter uma transferéncia cabal de alguns dos poderes de outros para si’.” Pois, como aponta ‘Macpherson a este respeito: m eo poder de umn homem deve incr o acess so sels de tao, endo sew poeres sto dininsdos quando se tem menet'do que Inte acto 20s mele de tho. Se blo tem aces, seus poderes sto ruaidor a aro ele desea de vier, menot que set salvo por agua dpenss tmror ao mercado conpettiv.Se pode ote algum scese ts lo pode obelo em wore de onda no sets ptetes Sho redid pea quantade dles de que tom que abit imo para bier o sfeto necesio, Huo ¢ extamente 4 Sivio in gue sma doe homens eat, © neces inte desta oa a soctedade de merxdo capi, Hes Goren, pea natict do sete, permit 9 wsateéaca taba de pare de seus podees ngurics que detem oe melas de abso \20es nao tornam os interesses dos ind privados mesos reas, mat seu conteddo e 08 mcioe de atendé-los sio moldados por condigdes sociais indepen- dentes do individuo. Sob esta tica, os processos de compe- ticao individual e mobilidade social sto restabelecidos dentro dos limites impostos pela reproducao das relacoes de classe; ‘0s marcos institucionais da sociedade — a familia, o sistema escolar e © mercado de trabalho — sao recompostos da sua reducao a um conglomerado de variaveis de intervalo. Um alto grau de desigualdade socal absoluta 6 um tiga Persstente da sociedade capa, sasim como 2 desigual dade de oportunidades. Dentro de cada sociedade o grau de desigaldade de oportunkdades pode variat com 0 are escente bibliografia assinala a tensio entre o prin- ciplo mentocrticoimplcto na noqao de igualdade de opor tunidades © os processos sociais orientados para a heranga de posigdes de classe, Se todo mundo estivesse inteiramente socializado nos valores de sucesso € realizagio, argumenta Parkin, a contrapartida necessaria seria a criacao de insatis- facto ¢ frustracdo entre os perdedores da corrida. Por esta outras razOes semelhantes, certos mecanismos sociais devem funcionar para reconciltar e regular as expectativas daqueles situados nas posigbes subordinadas da extonura de classes. Conseqiientemente, as pessoas nas diferentes posicdes de classe desenvolvem um pabitus de classes ou sistema de disposigdes inconscientes, que tende a ajustar as aspiragoes subjetivas As oportunidades objetivas.." az E aqui que os aparatos ideol6gicos, tais como a fami religiao € o sistema escolar, interpdem-se entre as diferentes posicOes na estrutura de classes e as oportunidades padront. zadas de mobilidade social ligadas a elas. Além dos efeitos de atributos adscritivos, tais como raga e sexo, tem sido suge. rido que as relagdes complementares entre familia e educagao ajudam a produzir e distribuir as caracteristicas — tragos de Personalidade, expectativas, habilidades técnicas € cognitivas, modos de auto-apresentacio e credenciais — que o mercado de tabalho traduz em desigualdades de renda e hierarquias ocupacionais.* Sob o rétulo legitimador de igualdade de oportunidades, imputada principalmente ao funcionamento do sistema educacional, os processos acima mencionados reproduzem a divisio social do trabalho de uma maneira que disfarca o grau em que as posigdes de classe so transmitidas de geracio em geracio, Se, como Macpherson declara, a sociedade capitalista envolve necessariamente uma transferéncia nitida de parte dos poderes de alguns homens para outros, como consegue © sistema legitimar ou ocultar essa transferéncia? Colocando @ questio em termos weberianos, que condigdes explicam o grau de “transparéncia” das relagdes entre as causas € conse. qliéncias da situagio de classe? H4 mais de um século, Marx observava que, numa socie- dade em que 0s produtos se tornam mercadorias, as relacoes Produtivas entre as pessoas assumem a forma de troca de coisas. Sob o fetichismo das mercadorias, as relagdes entre istas € trabalhadores aparecem como relagdes entre dois tipos de mercadorias ou fatores de producio, capital e trabalho. Essas relacoes de mercadorias mistificam as relagoes exploradoras como trocas entre equivalentes de trabalho salarios. Para a classe trabalhadora do capitalismo incipiente, 0 Processo de individualizacéo implicou experimentar a des. truisdo de formas pré-industriais de comunidade e coleti- vismo, bem como a destruicao de antigos direitos civis ¢ sociais. Em seu lugar, 0 capitalismo impés 0 “nexo mone- tério". As formas emergentes de solidatiedade, opostas a0 sistema de interesses individuais a0 qual a ideologia do capitalismo reduz a racionalidade da agio humana, t@m como ore componente fundamental a forma de representagao cons- ciente das relagdes sociais. As formas possiveis de represen- taco das relagdes sociais podem, assim, ser vistas como uma mediacio crucial entre posicées nas relacdes de producao sistemas alternativos de ago coletiva ¢ individual. No nivel da estratificacdo social € relacdes ideolégicas, a énfase na realizaco individual ou grupal nas diversas esferas de distribuigao corresponde as coagées objetivas da producio capitalista. De uma maneira reificada, dinheiro e propriedade tornam-se, assim, os principais critérios de hierarquizacao.® Como observa A. Preworski, as relagdes capitalistas de producio produzem simultaneamente uma consciéncia ime- diata dessas relagdes. Pelo fato de, nesse nivel, as relagdes sociais aparecerem de forma invertida como relagdes entre coisas, segue-se que: Os critérios de renda juntamente com os de riqueza, re: zacio educacional, prestigio das ocupagdes, carater do tra- balho, forma de remuneracio, local de trabalho, funciona divisao social do trabalho, poder, autoridade, estilo de vida, © auto-identificagio — todos esses eixos do arsenal burgués constituem diferencas reais; reais precisamente porque compreendem 0 arsenal ideol6gico da individualizagio.* Na medida em que as relagdes ideolégicas capitalistas forem eficazes na manutengio dessa representaco invertida, 08 atores sociais, quer individuos ou grupos, serio orientados no sentido de competir para melhorar sua posicio relativa naquelas dimensoes de estratificacao € diferenciagao social. Assim, a classe social como principio potencial de solidarie- dade esta em conflito permanente com principios alternatives de solidariedade, que nao estio baseados em posigdes nas relagdes de producio, Sob o disfarce de trocas competitivas entre parceiros formalmente livres e iguais, as relagdes ideolégicas capita- listas envolvem, como tendéncia dominante, nao a cons- ciéncia dos atores de sua condigdo social como funcao das relagdes de produgio, mas uma consciéncia imediata baseada em diversas dimensoes distributivas e probabilidades de vida,na esfera do consumo. Aqui, os sempre disponiveis exemplos dos homens que “se fizeram" partindo do nada mantém a visto de oportunidades abertas. 14 No entanto, 0s efeitos assimétricos das trocas competi- tivas resultam em sistemas de identificagdo e solidariedade coletiva — incluindo 0s da classe trabalhadora — que normal- mente implicam a estruturacao de clivagens politicas ao longo das linhas de dimensdes distributivas de estratificacio. Assim, a mobilidade’social — definida quer como a mudanca inter ou intrageneracional de posiga0 de classe, quer como a mudanca de posicao relativa nas dimensoes de estratificacio, que podem ou nao coincidir — ocorre através da competigao individual ¢ grupal pelas vantagens distributivas das dife- rentes posicoes na estrutura de classes. De qualquer maneira, © deslocamento individual ao longo de dimensdes distribu. tivas nao implica necessariamente uma mudanga de posi¢ao de classe, Inversamente, a passagem de fronteiras de classe pode nao necessariamente levar a mudangas substanciais na esfera da distribuigao. As sociedades capitalistas adiantadas absorveram, através de variadas combinagdes de repressto, cooptacao e redis- tribuiga0, os conflitos que emergiram das lutas e movimentos sociais dos thtimos cento ¢ cingilenta anos. As linhas de clivagem tém oscilado entre o principio de classe ¢ as varie- dades de tipos weberianos de solidariedade, tais como 0 Aistributivo, religioso, étnico e outros semelhantes. Embora essas lutas nao tenham conseguido destruir 0 modo de pro- ducao vigente, seus efeitos reestruturaram a estrutura de lasses, a alocacao do excedente econémico € a composi¢ao da populacao excedente relativa, RACA, CLASSE E ESTRATIFICAGAO A seguir, a distincao te6rica entre estratificagdo social e estrutura de classes sera aplicada & questo da estratificacao racial. O capitulo precedente discutiu as deficiéncias da abor- dagem sociol6gica convencional em que a raca, como critério para a alocacdo de posi¢des sociais e formagao de grupos, é vista como incompativel com o industrialismo. A perspectiva que explica a situagao social da populac2o negra apés a aboligdo, em termos do legado escravista e sobrevivéncias do antigo regime, foi também criticada. us A perspectiva marxista ortodoxa, por sua vez, também subestima a questao da raca e racismo, Nessa abordagem, exposta originalmente no trabalho de O. C. Cox, a situagao, dos negtos € outros grupos racialmente subordinados tende a ser explicada quase exclusivamente pela sua posi¢ao econd- mica como classe trabalhadora, Preconceito ¢ discriminago raciais so, nesta perspectiva, mecanismos manipuladores utilizados pelas classes dominantes capitalistas a fim de explorar as minorias raciais € dividir 0 proletariado. O racismo 0 preconceito, como epifendmenos de relagdes econdmicas, sto inerentes € necessirios & preservacao do capitalismo. Ha, como resultado, ganhos liquidos para os capitalistas € perdas para todos os trabalhadores. Essa redugo do antagonismo racial a relagées de classe explica a escassa adequacio entre teoria ¢ realidade, em termos de falsa consciéncia dos traba- Ihadores. O exemplo mais grotesco, mas ndo obstante real, do fracasso da solidariedade inter-racial é a improbabilidade de qualquer alianca dos trabalhadores sul-africanos brancos € seus colegas negros contra a burguesia estabelecida de lingua inglesa ¢ a mais recente faccAo capitalista estatal de “Afrikaners”. Deve-se lembrar que o lema unificador do partido comunista sul-africano foi: “Trabalhadores do mundo inteito, uni-vos para defender uma Africa do Sul branca.”* Outra fonte de erro no cilculo politico dessa abordagem mecanicista € que os negros nao sio monoliticamente classe trabalhadora. Desde a aboli¢ao, 2 populacio negra nas antigas sociedades escravistas das Américas tem estado na retaguarda do capitalismo industrial. Durante varias décadas apés a abo- licao, os negros ficaram concentrados nas regides agricolas mais atrasadas como parceiros, pequenos arrendatéi camponeses € moradores. Durante esse periodo, no Brasil ¢ nos Estados Unidos, ondas sucessivas de imigrantes europeus ocuparam as posicdes abertas pela expansio dos setores regides capitalistas. Com © movimento das reas de plantacao para favelas e guetos citadinos, os negros, longe de pene- trarem no ceme da classe trabalhadora industrial, aglome- ravam-se em torno de siias camadas inferiores em mercados instaveis e irregulares de trabalho nao qualificado.” A teoria colonial, que vé os grupos racialmente subordina~ dos como minorias internamente colonizadas, rompe com os ‘quadros conceituais preexistentes, Essa teoria esta enraizada nas relagdes opressor-oprimido © colonizador-colonizado 16 geradas pela expansio européia imperialista, durante o final do século XIX, € na dinamica da descolonizagto, apés a Segunda Guerra Mundial. O carter assumido pelas relagdes raciais nos Estados Unidos, durante as duas iltimas dé- cadas, precipitou a penetracto da teoria colonial no cendrio americano, onde foi uma resposta 2 faléncia das teorias convencionais sobre relacdes raciais. Ataca diretamente a tendenciosidade assimilacionista das teorias académicas € a reducio marxista convencional da dinamica inter-racial a forcas de classe e exploracao de classe. Robert Blauner conceituou as pessoas de cor nos Estados Unidos como uma coldnia intema, baseado na presenca de ‘um conjunto especifico de circunstincias que todas as situagées coloniais parecem ter em comum. A primeira circunstancia é ‘uma entrada forcada na sociedade mais ampla ou no dominio metropolitano. A segunda € a sujeiclo as varias formas de trabalho ndo-livre, restringindo grandemente a mobilidade social e fisica do grupo e sua participacao na arena politica. Esta segunda circunstancia inclui a experiéncia da minoria racial de ser controlada, administrada e manipulada por membros ou instituicées do grupo dominante. A terceira circunstincia € a politica do colonizador, que limita, trans- forma ou destréi valores, orientacdes € modos de vida ori- ginais, © componente final da situacdo colonial € 0 racismo, empregado como principio de dominagio social, através do qual o grupo visto como inferior ou diferente em termos de supostas caracteristicas biol6gicas € explorado, controlado oprimido por um grupo supraordenado.* Num certo sentido, a novidade da teoria colonial consiste em que ela ditige a atencao para os ganhos cumulativos (tanto ‘econémicos quanto nao-econdmicos) dos brancos, advindos da dominacao racial. Outrossim, a preeminéncia atribuida aos aspectos culturais ¢ politicos do racismo levou a uma redefi- nigao do campo tebrico das relagdes raciais. No quadro da teoria colonial das relagdes raciais, o privi- légio racial do branco distingue a opressio racial da explo- raglo de classe ¢ ctia os nexos racionais para as priticas racistas. “A presenca de privilégio indica que através de processos econémicos, culturais, politicos e psicolégicos os brancos puderam progredir as custas e por causa da presenca de negros."? 47 Em suma, 0 conceito de privilégio racial sugere que, além da exploracao econémica, o grupo dominante branco extrai uma certa “mais-valia” psicoldgica, cultural e ideolégica do colonizado. 5 limites da perspectiva colonial, como instrumento para entender € transformar o mundo social, so estabelecidos pela situagdo histérica a qual esta perspectiva € aplicada. Nos casos do colonialismo europeu, o resultado légico da luta anticolonialista foi a expulsio do colonizador. No caso dos Estados Unidos, considerando 0 fracasso passado e a invia- bilidade futura de uma ‘volta a Africa” e de movimentos separatistas, 0 processo de descolonizagao, a despeito das formas presentes ¢ futuras, nao repetiré os padres que se seguiram ao colonialismo europeu A principal limitago da abordagem colonial das minorias raciais advém, tanto te6rica quanto praticamente, da auséncia de um modelo explicito da exploracao de classe ¢ das relagdes entre estrutura e dominacao de classes e opressio e estrati- ficagdo raciais. Visto que a exploragao de classe € a opressao racial coexistem nas sociedades capitalistas multirraciais, quando € acentuada quer a exploracdo de classe quer a opressio racial, 0 outro aspecto permanece como elemento residual e inexplicado. Os desenvolvimentos teéricos prosseguem sem. se aproximarem de uma explicacao integrada de ambos os processos. Este € 0 caso da teoria das classes que enfatiza as forcas de classe descuidando do antagonismo racial, € também da teoria colonial que enfatiza o racismo enquanto negligencia a dinamica de classe. Na discussto a seguir é feita uma tentativa de preencher a lacuna entre as duas teorias. A estrutura do argumento sera simplificada, de modo a esclarecer seus componentes basicos. 0s exemplos cléssicos do colonialismo europeu e da situagao em que a exploracao de classe ¢ a opressao racial coincidem quase perfeitamente — como nos sistemas escravistas do Novo Mundo — so excluidos do enfoque principal do tratamento a seguir. A teoria das classes € © modelo colonial sao formalmente analogos em alguns aspectos importantes, Ambos implicam um mecanismo de exploragio de um grupo subordinado e ns ‘uma base ideolégica para as relacdes de dominacao vigentes. A justificagao da dominagao de classe reside na ideologia da troca de equivalentes na sociedade civil, cuja contrapartida encontra-se no conceito liberal do estado como represen- tando 0 interesse geral da sociedade, como o contrato entre vontades individuais livres ¢ iguais. A legitimacao da domi- nacao racial € de uma natureza radicalmente diferente, Apesar das formas € conteddos mutaveis — da escraviddo humana como ‘o fruto negro do pecado” pasando por um sistema de lei em que o escravismo torna-se ‘um elemento racional € harmonioso”, ¢ a teoria racista “cientifica” do fim do século XIX até a atual parafernilia de testes de QI — a esséncia da justificagao da dominacao racial € que ela exclui os nao- brancos do universalismo burgués, com base em sua alegada humanidade incompleta Historicamente, a interagao das duas ordens de justificagto ideolégica é complexa. Como P. van den Berghe observou: As idéias igualitatias ¢ libertérias do Tuminismo difundidas pelas revolusdes americana € francesa conflitaram, eviden- temente, com o racismo, mas paradoxalmente contribuiram também para o seu desenvolvimento. Defrontados com a gritante contradigio entre 0 tratamento dos escravos & ovos colonizados e a reidrica oficial de liberdade e igual- dade, europeus ¢ norte-americanos brancos comecaram @ dicotomizar a humanidade entre homens e sub-homens (.. (0 desejo de preservar as formas lucrativas de discriminagio ¢ exploracio ¢ a ideologia democratic tomou necessario negara humanidade aos grupos oprimidos.“" Assim, o cardter nao disfarcado da justificagao da dominacio racial coloca um problema de legitimacao diferente do da dominacao de classe. Dado 0 desenvolvimento hist6rico particular de cada sociedade multirracial, obter a aquies- céncia dos grupos racialmente subordinados exigiu combi- nag6es variadas de forca e persuasto moral, indo de um maximo de dependéncia da coercao estatal legalizada, como nos sistemas de apartheid e “Jim Crow”, até o maximo de dependéncia na ideologia, como no Brasil € outros paises latino-americanos."" Capitalismo, escravismo € racismo sao indubitavelmente relacionados ao processo de expansio internacional européia us eA ascensio da burguesia 20 poder, embora as relacées sejam mais complexas que as de causa e efeito. Como argu- menta Genovese, se é verdade que 0 escravismo produziu 0 racismo, o preconceito racial no Novo Mundo surgiu de varias fontes € influencias que tinham jé condicionado os europeus 2 uma visto negativa do negro, muito antes do desenvolvi- mento do escravismo nas Américas. Outrossim, embora 0 escravismo tenha dado origem ao racismo, a qualidade intensidade deste variaram nao apenas em termos da expe- rigncia hist6rica e ecol6gica particular de cada sociedade do Novo Mundo, mas também de acordo com as tradicoes nacionais, religiosas € étnicas dos escravizadores.* Com a abolicao do escravismo, 0 racismo, como construcao ideol6gica e conjunto de priticas mais ou menos articuladas, foi preservado e em alguns casos até mesmo reforcado. A preservacdo do racismo, independentemente do contetdo irracional do preconceito racial, serviu aos interesses (ma- teriais ou niio) daqueles que dele se beneficiaram. A questao é, entdo: quem se beneficia do racismo € como? Esta questio, por sua vez, leva diretamente as relagdes de raca € racismo com a estrutura de classes, a estratificag4o € a mobilidade social A proposicao mais geral é a de que a raga opera como um critério com uma eficicia propria no preenchimento, por nao- brancos, de lugares na estrutura de classes e no sistema de estratificagio social. Para esclarecer em que sentido a raca ‘opera como critério independente, a distinco de Poulantzas entre os dois aspectos da reprodugio ampliada das classes sociais — isto 6, a reproducio das posigdes (lugares) de classe ¢ a reproducao e distribuigao dos agentes entre essas posigdes — deve ser lembrada, A raga, como atributo social- mente elaborado, esta relacionada principalmente ao aspecto subordinado da reproducao das classes sociais, isto 6, a teproducao (formacao ~ qualificacdo ~ submissio) ¢ distri- buicdo dos agentes. Portanto, as minorias raciais nao esto fora da estrutura de classes das sociedades multirraciais, em que as relagées de producio capitalista — ou quaisquer outras relagdes de producto no caso — sto dominantes Outrossim, 0 racismo, como construcao ideolégica incorpo- rad& em e realizada através de um conjunto de priticas ma- teriais de discriminagdo racial, é 0 determinante primario 120 da posicao dos nao-brancos nas relagdes de produgao e distribuicao ‘Como se verd, se 0 racismo (bem como 0 sexismo) torna-se parte da estrutura objetiva das relagbes politicas e ideolgicas capitalistas, entéo a reproducao de uma divisto racial (e sexual) do trabalho pode ser explicada sem apelar para preconceito € elementos subjetivos.® Em qualquer época e lugar especificos, apés a abolig&o do escravismo, os negros ocuparam um certo conjunto de posicoes nas rela¢des de producio e distribuicio. A evidencia disponivel sugere também que essas posicées foram (€ so) diferentes daquelas ocupadas pelos brancos, Uma das causas hist6ricas para essa diferenca foi a localizagao periférica dos negros em relacdo aos centros mais dinamicos do desenvol- vimento capitalista. Esta desvantagem inicial constitui um dos legados reais do escravismo, Tendo sido introduzidos em sistemas de producdo historicamente desenvolvidos (em diversas locagdes geogréficas), quase todos os negros na forca de trabalho foram explorados como parceiros ou arren- datdrios, ou como assalariados indusiriais ou de servicos. Assim, 0 Unico fator excepcional € a possibilidade de uma taxa de extracdo de mais-valia ou trabalho excedente, acima da média regional ou nacional, Da mesma maneira, 0 modo de produgo capitalista em desenvolvimento relaciona-se a sistemas de producio baseados em relagdes pré-capitalistas de produgo. Embora a tendéncia a longo prazo seja no sentido da dissolugao destas tihtimas, esses sistemas de produgao atrasados podem ser preservacios durante um longo tempo. Esses sistemas atrasados funcionam, geralmente, mas nem sempre, como reservatérios e produ- tores de forca de trabalho para o setor capitalista. Embora se trate de um caso de outra parte do mundo, H. Wolpe mostra como as reservas sulafricanas possibilitam a economia capita- lista evitar o pagamento de saldrios indiretos — previdéncia social, salério-desemprego, servigos de satide e educacionais etc. — assim “permitindo ao capitalismo pagar a forca de trabalho abaixo do seu custo de reproducio, (tornando possivel) uma oferta de forga de trabalho que € produzida € reproduzida fora do modo de produgao capitalista”."* Seja como for, a populac2o negra tem sido explorada econo- ‘micamente; os exploradores foram principalmente classes ou a fragdes de classe economicamente dominantes brancas, indo de rentistas da terra até o capital monopolista. Os benefi- cidrios da exploracao econémica foram identificados. Estes resultados podem ser facilmente incorporados as mais simples versoes do modelo dicot6mico da teoria das classes. Contudo, a teoria colonial afirma que a opressio racial beneficia nao apenas 0s capitalistas, mas também a maioria da populagao branca — isto é, aqueles brancos sem propriedade dos meios de produgio. A saida deste impasse teérico € que, efetivamente, a opressio racial beneficia capitalistas brancos e brancos nao-capitalistas, mas por razdes diferentes. Em termos simples, os capitalistas brancos beneficiam-se diretamente da (super) exploragao dos ‘negros, a0 passo que os outros brancos obtém beneficios mais indiretos. A maioria dos brancos aproveita-se do racismo € da opressio racial, porque Ihe di uma vantagem competitiva, vis-a-vis @ populacio negra, no preenchimento das posigoes da estrutura de classes que comportam as recompensas ma- tetiais e simb6licas mais desejadas. Formulado mais ampla- mente, os brancos aproveitaram-se € continuam a se aproveitar de melhores possibilidades de mobilidade social e de acesso diferencial a posicdes mais elevadas nas varias dimensdes da estratificacio social. Essas dimensdes podem ser conside- radas como incluindo elementos simbélicos, mas no menos concretos, tais como honra social, tratamento decente e equi- lativo, dignidade e o direito de autodeterminagao. £ precisamente essa situagio que Blauner chama privilégio racial ou desvantagem desleal, situag3o preferencial ou um. sistematico “sair a frente” na corrida pelos valores sociais. A. nogio de privilégio racial pode ser relacionada ao conceito de posse (tenure), de Stinchcombe, definido como um direito socialmente defensével a um fluxo de recompensas que nao depende do desempenho competitivo. Nascer branco numa sociedade multirracial constitu uma espécie de posse. Eviden- temente, até que ponto,uma pele clara pode ser uma posse, varia com a percentagem de ndo-brancos na populacio total, 2 intensidade do racismo e a existéncia de leis raciais impostas pelo estado. Mais uma vez, 0 caso tipico € a Africa do Sul, pois nascer branco sob o apartheid constitui indubitavelmente uma posse, tipica das democracias Herrenvolk, a0 passo que nascer negro tem representado, até agora, um Onus duradouro, 122 Em termos dos processos de estratificacao ¢ mobilidade social, se as pessoas entram na arena competitiva com os mesmos recursos, exceto no que se refere a filiacdo racial, 0 resultado (posi¢ao de classe, ocupacio, renda e prestigio) dar-se-4 em detrimento dos nao-brancos."* No caso dos negros das Américas, a desvantagem inicial condicionada pelo escravismo, acrescida da continua operacio do processo de competicao desvantijosa so os elementos centrais para explicar 0 seu auto-recrutamento nos setores subordinados da estrutura de classes ¢ a reproducio de desi- gualdades raciais. Quanto as dinamicas de mobilidade social inter € intra-generacional — deixando de lado os casos sempre presentes de cooptaco € movimentos ascendentes controlados — os efetivos, conquanto temporal ¢ espacial- mente variveis, tetos para a mobilidade dos nao-brancos, ajudam a definir o nivel abaixo do qual os brancos nao podem cair, ao mesmo tempo que Uma proporcio substancial de pessoas é desqualificada da contenda por posicdes no topo da hierarquia social. Se se aceitar, seguindo Althusser, que as ideologias tm uma existéncia material, visto que sto efetivadas nas insti- tuigdes € nas suas priticas € rituais, entao a discriminacao racial, como fonte imediata de beneficios para a maioria de brancos nas sociedades multitraciais, torna-se a efetivacao da ideologia racista que permeia a maioria das instituigdes da sociedade. R. S. Franklin e S. Resnik enumeram quatro fontes ou mecanismos de discriminacdo racial: 1. Convengdes, estatutos e priticas, impostas pelo aparato do estado, 2. Preferéncias sociais da comunidade, que vao de encontro a liberdade dos individuos no grupo dominante, que se recusam ou nao desejam discriminar os negros. 3. Esteredtipos derivados da cultura e outras fontes, que operam para produzir generalizagdes acerca do carter, habitos de trabalho e capacidades dos negros. Isso leva a priticas de exclusao por certas inddstrias e de certos empregos. 4. Circunstancias do mercado que tornam a discriminagao economicamente hicrativa para grupas especificos, cujo preconceito pessoal com selagao aos negros pode ser, de fato, apenas nominal. 13 Como observam esses autores, apenas o primeiro tipo de discriminacao remove o peso da escolha do individu. Em contraste, apenas 0 tetceiro tipo (os esterestipos) ativa 0 preconceito racial. Os tipos 2 € 4 mostram que, uma vez que se torna um datum objetivo da sociedade, o racismo pode forgar os individuos a discriminar com base em simples calculos racionais — i-e., evitar afrontar outros brancos ou “perturbar @ operacio eficiente” — sem estarem motivados pelo preconceito. Estes processos, por outro lado, vio de encontro ao indi jamente a sentimentos € as vezes combina-se com outros fendmenos (...) que formam 0 dominio de interesse pai ou mais amplo ‘duo vé-se com freqiiéncia na necessidade de discriminar, mesmo quando isto nao envolve uma expressio de seus "gostos” pessoais.” Em suma, a raga, como traco fenotipico historicamente ela- borado, € um dos critérios mais relevantes que regulam os mecanismos de recrutamento para ocupar posigdes na estru- tura de classes e no sistema de icacdo social. Apesar de suas diferentes formas (através do tempo e espaco), 0 racismo caracteriza todas 5 sociedades capitalistas multir- raciais contemporaneas. Como ideologia € como conji de icas cuja eficdcia estrutural manifesta-se numa di do trabalho, 0 racismo é mais do que um reflexo epifenoménico da estrutura econdmica ou um instrumento conspirat6rio usado pelas classes dominantes para dividir os trabalhadores. Sua persisténcia hist6rica nao deveria ser explicada como mero legado do passado, mas como servindo aos complexos e diversificados interesses do grupo racialmente supraordenado no presente. 124 NOTAS Ver STOLZMAN; GAMBERG, Marssc lass analysis versus strfic as general approaches to Soc ara ‘manter a distingio Teta por A. Stinchcombe, entze competéncias e posses culturalmente valoradas. De acordo com esse autor, 0 conceito de posse refere-se a um diteito defensavel, a um fir de recompensas que nio depend do desempenho das pessoas. Ver STINCHCOMBE. The structure of stratification systems, v.15, p. 327 NISBET. The sociological tradition, ch. 5, p. 180. © PAGE. Class and American socfology: from ward to ross, p. XVII dem dade er izagdo, ver MILNER JR. The dlusion of equality, p. 11-20. 7 PARKIN. Class inequality and political order, p. 13. " Uma dificuldade correlatarelaciona-se & conceituagio dos mecanismos ide alocagio de recompensas diferenciais 2s posigoes no sistema social Observar o debate js classico em torno da teoria da estratificagao sot de Davis-Moore © a controversa nogio de “importancia funcional de posigses sociais” » Esse ponto é enfatizado por WOLPE, Suucture de classe et inegalité sociale, p. 186 ¥ STOLZMAN; GAMBERG, op. 109. A nog de estratifcagto social baseads num modelo de competicio de mercado pode s influente tabalho de Weber e seu conceito de ‘stuagao de clas Ver, por exemplo, STOLZMAN; GAMBERG, op. cit, p. 106 se ponto é mais desenvolvide por WOLPE, op. leressante discussao acerca dos aspect MARX. Contribuigdo & eritica da economia politica, p. 213, POULANTZAS, 4s lasses soctats no capitalismo de hoje, p. 30 cenfatiza 0 fato de que a mobilidade social pode perpetuar a estrurura de classes, a0 invés de provocar sua dissolugao ou desaparecimento, Poulantzas Ao problema de como as classes, como conjuntos de posigdes abjetivas, ‘omnamse classes-em-luta a teoria marxista oferece duas respostas ‘mentais: uma resposta determinista, em que a classe em si emerge espon- taneamente das posigbes objetivas na producao; e uma respasta voluntarista, 15 partido. A visto de uropéia implicava uma passagem c conflto industrial para o politico, uma visio que permaneceu na perspec- tiva determinisia. post Lenin via claramente que as nevessidadies econt ttabalhadora, Num recente © provocador art voluntarista S40 rejeitadas, ¢ € apresentada uma posicao "determinista" em que as classes com atotes histéricos “lo ** GORZ. Divisio social do trabalho, hierarquia e luta de classe, p. 183, ste ulkima ponto foi desenvolvida por Rafuel Bayce em teorico para la interpretacion de las relaciones racial: TUPERY, 1975. omscisa unifatorial ficagao em cla im pouco a dizer. de Marx. Quanto as. 5 em detrimento da ext brado por agueles fa aquisigao € racio de classe € de importinc predominante 520 cegularmente os perfodos de tansformagao técnica econdmica." WEBER. Class, satusand party, p. 22. GIDDENS. dean de cases dassoredades anangadas p. 9, Notes, ® BOURDIEU. Condigio de classe e posicao de classes, p. 51-76. ® tbidem, p. 63-64. 1 p. 74-75. De acofdo com esse autor, a simbolieas orga a distingdo entte mobilidade estrusural e de circulagao nao € considerada, 126 » Ver DOBB. The trend of modesn economics, p. 38:82, especialmente p. 64, MACPHERSON, The real world of democracy, p. 54 Iidem, p. 39, 42 Ibidem, p43. Ver PARKIN, op. p. 58-68. 0 habitus de classe & definido como um cientes, formado P ‘esruturas abjetivas ‘O'mercada de bens simbalicos, p. 160-161, 2 Ver BOWLES. Understanding unequal economic opportunity, p. 346-356; ind the reproduction of the social division of labor, dlivergentes de imigrantes e minotias fem: BLAUNER, Racial oppression n America, cap. 2. Para um breve relato do sistema de trabaliio dominante no sul dos Estados Unidos, apos a ‘emancipagio, ver: EDWARDS. The tenant system and some changes since ‘emancipation, p. 20-26. S* BLAUNER, op. cit, p.53, 84. Para um. da idéia de os negros amen "uma nagto dentro da naga explorations in Southern and Afro-american hi PRAGER. White racial privilege and social change, p. 133. °° BERGHE, Race and racism, p. 17-18. “No € surpresa que no Brasil, onde o liberalism fez uma enteada es 26ide no pensamento e na pritica dos grupos dominantes, e onde a rmocracia racial” 6 oficialmente sancionada como a ideologia nacion persuasio trabalhe a contento, na medida em que cada um se acomod Seu lugar (por causa da falta de alternativas) ou respeite a regra de mobi- lidade e comperigao individual 27 “GENOVESE, op. cit, p. 56; € The world the slavebolders made, cap. 1 IL “© Isso parece ser 0 que Blauner tern em mente a0 falar acerca do *racismo institucionalizado". De modo semelhante, 0 “principio colonial do trabalho” launer pode ser rebatizado, dentro deste quadro conceitual, como ‘divisto racial do tabalho! ‘““ WOLPE. The theory of internal colonialism: the South African case, p. 244 raciaise Gnicas as dindmicas de diferentes modes erelagdes de produgto. © Para simplificar as coisas, 08 mecanismos de promogao diferencial do grupo “S FRANKLIN; RESNIK. The political economy of racism, p. 17-18. © Ibidem, p. 32. pape A EVOLUCAO DAS DESIGUALDADES RACIAIS NO. BRASIL