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PROJETO CURRICULAR DO ENSINO FUNDAMENTAL, SEGUNDO CÉSAR COLL

Considerações sobre o Livro "Psicologia e Currículo", de César Coll.

Por Elias Celso Galvêas

Educador e escritor, César Coll também é professor das disciplinas "Psicologia


Evolutiva" e "Psicologia da Educação", na faculdade de psicologia da "Universidade de
Barcelona". O professor César Coll é um importante pensador que influenciou - de
maneira profunda e significativa - a reforma educativa ocorrida na Espanha, além de
figurar como uma presença marcante na reforma educacional brasileira - tendo sido,
inclusive, um dos consultores na elaboração dos nossos PCNs (Parâmetros
Curriculares Nacionais). Diversos são os livros desse autor que, publicados no Brasil, vêm
influenciando inúmeros educadores espalhados por todo o território nacional.

O EDUCADOR E ESCRITOR, CESAR COLL:

PRIMEIRA PARTE
Capítulo I
César Coll é um emérito pesquisador espanhol, com relevantes serviços
educativos prestados para seu país, principalmente no tocante à formulação e
implementação da reforma curricular. No Brasil, César Coll trabalhou como
consultor do MEC na elaboração dos "Parâmetros Curriculares Nacionais", a serem
aprovados pelo Conselho Nacional de Educação, e serviram como marco
referencial para o estabelecimento de diretrizes pedagógicas do "Ensino
Fundamental".
Os resultados de César Coll fundamentam-se principalmente nas teorias de
Piaget e Vigotsky, bem como Ausebel e Bruner, e traduzem uma proposta baseada
nos princípios construtivistas e psicopedagógicos, ou seja, uma interação entre a
pedagogia e a psicologia, como parâmetros da ação educativa. Em seu livro
"Psicologia e Currículo", César Coll se propõe (no Capítulo 4º) a formular um
plano curricular estratégico que procura abordar os conteúdos através do que é mais
geral e simples ao mais particular, detalhado e complexo; do assunto que possui
natureza mais concreta àquilo que é mais abstrato; o ensinar de forma psico-
genética e aprender de forma histórico-crítica.

Basicamente, o modelo de projeto curricular de Coll parte de uma discussão


sobre a finalidade da educação, das relações entre aprendizagem, desenvolvimento
e educação, atentando igualmente às funções do currículo em relação ao
planejamento do ensino, em linhas gerais.

Na elaboração de uma Proposta Curricular, César Coll considerou que as


seguintes exigências devem ser atendidas:
1. a proposta deve ser concreta, operacional, flexível e fácil de ser utilizada,
em um período razoável de tempo;
2. o projeto curricular formulado deve ser concreto, garantindo
continuidade através da estruturação ordenada e coerente de cada disciplina,
respeitando as diferenças de cultura locais (ou regionais), bem como os
diferentes níveis ou etapas da escolarização considerada obrigatória;
3. o modelo proposto deve ser flexível em relação às exigências
epistemológicas dos conteúdos abordados (língua materna e estrangeira,
matemática, Ciências, Estudos Sociais, Artes, tecnologia, educação Física, etc.).
Lembrando que epistemologia significa: "estudo crítico dos princípios,
hipóteses e resultados das Ciências já construídas, e que visa determinar os
fundamentos lógicos, o valor e o alcance objetivo delas. (...)"; e
4. a proposta deve ser baseada no modelo aberto de currículo, de modo que
tenha flexibilidade suficiente de adaptação em função do acelerado ritmo de
transformação dos tempos atuais, bem como se adaptar às características
gerais dos alunos em questão.

Além dessas exigências básicas, três aspectos devem ser considerados


imprescindíveis:

· Relacionar o currículo a um projeto social e cultural, dentro do contexto


da sociedade atual (componente sociológico). Isto equivale dizer que o
currículo não deve ser apenas de natureza puramente técnica;
· Viabilizar a concepção construtivista: como se ensina e como se aprende;
e
· Insistir na atenção à diversidade de capacidades, interesses e motivação
dos alunos - ênfase ao conceito de Inteligências Múltiplas, que está diretamente
relacionado às propostas construtivistas.

Assim, em relação às fontes do currículo, podemos observar três principais


vertentes contrastantes, mas não excludentes: os "progressistas"; os
"essencialistas"; e os "sociólogos".
Os progressistas "destacam a importância de estudar a criança a fim de
descobrir seus interesses, seus problemas, seus propósitos e suas necessidades" -
vertente psicopedagógica -, sendo estas informações de enorme importância para a
determinação dos objetivos curriculares.
"Os essencialistas, por seu lado, consideram que os objetivos devem ser
extraídos de uma análise da estrutura interna dos conteúdos de ensino, das áreas
de conhecimento" - tal vertente é geralmente formada por especialistas adeptos à
linha científico-cognitivista.
A tendência sociológica, por fim, acredita que a fonte de informação principal
para selecionar os objetivos curriculares encontra-se "na análise da sociedade, dos
seus problemas, necessidades" imediatas e de suas características estruturais
básicas.
Para a elaboração estrutural de um currículo de ensino moderno, todas as
tendências acima devem ser consideradas. Por isto, não se pode tentar compreender
cada uma de maneira isolada quando se analisa um projeto curricular, pois apenas a
conjugação das três vertentes que trarão importantes contribuições para a
concretização de um currículo adequado às necessidades gerais dos alunos.

Capítulo II
A elaboração de um projeto curricular pressupõe a tradução, em relação à
funcionalidade, de três princípios considerados básicos: (1) ideológicos; (2)
pedagógicos; e (3) psico-pedagógicos. Portanto, o currículo é um elo entre:

· a declaração dos seus princípios e objetivos gerais, bem como uma prévia
prescrição de sua aplicação operacional;
· a teoria educacional e a realidade do aluno e do meio ambiente que o cerca - o
que irá gerar a prática pedagógica observável no dia a dia;
· o planejamento educativo e a ação pedagógica;
· entre o que se prevê, ou seja, o que é prescrito, e o que realmente acontece em
sala de aula.

Segundo César Coll, em seu livro "Psicologia e Currículo":

"(...) o crescimento pessoal é o processo pelo qual o ser humano


torna sua a cultura do grupo social ao qual pertence [processo de
apropriação cultural], de tal forma que, neste processo, o
desenvolvimento da competência cognitiva está fortemente
vinculado ao tipo de aprendizagem específicas e, em geral, ao tipo
de prática dominante".

A finalidade primordial da educação é promover o crescimento


integral dos seres humanos, e isto significa educá-los para um
determinado tipo de sociedade. Isto pode acontecer de duas
maneiras:

1. uma pessoa educada é a que se desenvolveu, que evoluiu de


níveis inferiores no meio físico-social até a níveis superiores; ou
2. uma pessoa educada é a que aprendeu um conjunto de
conceitos, explicações e habilidades, práticas e valores que
caracterizam uma determinada cultura - e que, por isto permitem
a adaptação do indivíduo no seio de tal cultura.

Cada uma dessas interpretações pressupõe uma ação pedagógica


diferente e, portanto, currículos diferentes. Dentro de uma civilização
tecnologicamente avançada como a nossa, a ação pedagógica deve
potencializar as linhas naturais do desenvolvimento cognitivo e afetivo,
mais do que a aprendizagem específica o faria (Kohlberg).
De acordo com o enfoque cognitivo-evolutivo, o crescimento que a
ação pedagógica deve potencializar (ou catalisar) é o que segue as
linhas naturais do desenvolvimento, pois, numa sociedade
tecnologicamente avançada, existem sempre limites para a cognição
natural e informal de seus componentes.
Segundo Kohlberg e Mayer, a psicologia do desenvolvimento - que
enfatiza aprendizagens específicas - constitui o único ponto de partida
para as metas educacionais, constituindo-se a única forma existente
capaz de anular os efeitos reprodutores e conservadores da educação
formal. Porém, cabe observar que:

"Do ponto de vista da alternativa que interpreta o crescimento


educativo como resultado de aprendizagens específicas, critica-se o
enfoque cognitivo-evolutivo e denuncia-se o caráter circular de
seus argumentos: se as aprendizagens específicas introduzissem
modificações nos universais do desenvolvimento cognitivo (as
estruturas operatórias), estes deixariam de ser universais; o que os
define como tais é precisamente sua relativa impermeabilidade à
influência de fatores ambientais específicos".

Resumindo, a controvérsia existente na interpretação do crescimento educativo


(como desenvolvimento) pode ser colocada nos seguintes termos: enquanto o
enfoque cognitivo-evolutivo considera que a meta primordial da educação deve ser
promover, facilitar e acelerar os processos naturais e universais do
desenvolvimento, o enfoque alternativo considera que a educação deve ser
orientada para a promoção das mudanças que dependam da aprendizagem.
César Coll considera que ambas posturas contêm parte da verdade, mas não
concorda com processos evolutivos e processos de aprendizagem "química" puros,
vistos isoladamente. Portanto, Coll confere ênfase à diferença entre Cultura e a
Educação. A Cultura engloba aspectos múltiplos: conceitos, linguagem, ideologia,
costumes, tradições, valores, crenças, tipos de organização familiar, econômica,
social, etc. - aspectos culturais estes que não podem ser ignorados na elaboração de
um currículo. Já a Educação, tanto no sentido formal quanto informal, designa o
conjunto de atividades em que um grupo propicia a seus membros a aquisição da
experiência social historicamente acumulada.

O CONCEITO DE CURRÍCULO

"(...) entendemos o currículo como o projeto que preside as


atividades educativas escolares, define suas intenções e
proporciona guias de ação adequadas e úteis para os professores,
que são diretamente responsáveis pela sua execução. Para isto, o
currículo proporciona informações concretas sobre o que ensinar,
quando ensinar, como ensinar e quando, como e o que avaliar.
(...)"

Que papel desempenha o currículo nas atividades educativas escolares? Qual


sua principal função ? A primeira função do currículo, sua razão de ser, é a de
explicitar claramente o projeto, o objetivo, as intenções e o plano de ação que
preside as atividades educativas escolares.

Os componentes do currículo podem agrupar-se em quatro capítulos:

1. proporcionar informações sobre o que ensinar;


2. proporcionar informações sobre quando ensinar;
3. proporcionar informações sobre como ensinar;
4. proporcionar informações sobre o que, como e quando avaliar.

O Projeto Curricular deve igualmente levar em conta cada um dos grandes


estágios do desenvolvimento cognitivo teorizado por Jean Piaget:

· sensório-motor: 0-2 anos, aproximadamente;


· intuitivo: 2 a 4/5 anos;
· pré-operatório: 4/5 a 7/8 anos;
· operatório-formal (per. Das operações concretas): 7/8 a 11/14 anos.

Deve-se levar em conta o que o aluno é capaz de aprender sozinho e o que


necessita da ajuda do professor. O ensino eficaz é aquele que considera o que já é
significativo para o aluno, respeitando o nível de desenvolvimento do mesmo, não o
deixando jamais acomodar, mas sempre o fazendo progredir em direção a novas
"zonas de desenvolvimento proximal". Se o novo material de aprendizagem se
relacionar de forma substantiva e não arbitrária com o que o aluno já sabe,
estaremos diante da aprendizagem significativa. Se, ao contrário, o aluno se limitar
a memorizar, sem estabelecer relações com seus conhecimentos prévios, estaremos
diante da aprendizagem repetitiva, memorística ou mecânica (Ausubel, Robinson,
Novak).

A aprendizagem significativa requer duas condições:

(a) o conteúdo deve ser significativo, isto é, ser utilizável pelo aluno,
quando necessário; e
(b) o aluno deve estar motivado. Ademais, cabe distinguir entre a
memorização mecânica e repetitiva, de escasso interesse, e a memorização
compreensiva - que é saudável e positiva.

- Aprender a aprender: o objetivo mais ambicioso da educação é o de realizar


a aprendizagem útil e significativa - para quem aprende - através de um confronte
de esquemas de conhecimento, que se constituem em estruturas de informações e
dados. Assim, o objetivo da educação passa a ser a modificação dos esquemas de
conhecimento, através da revisão, do enriquecimento, da diferenciação, da
construção e reconstrução de dados, da coordenação progressiva das informações,
etc. - sempre em conformidade com o modelo das estruturas cognitivas de
Piaget.
Entre as questões prévias na formulação do Projeto Curricular está a
"elaboração do currículo", que poderá oscilar em dois extremos: a concepção
centralizadora (fechada), em que o currículo estabelece prévia e minuciosamente os
objetivos, o material didático adotado e os métodos que os professores irão utilizar;
e a concepção descentralizadora (aberta), onde essas tarefas competem
exclusivamente ao professor ou a uma equipe de professores (descrição maniqueísta
de Wickens). César Coll dará preferência à concepção aberta de elaboração
curricular, posto que ela apresenta uma maior flexibilidade, o que permite ao
professor ser capaz de mudar suas estratégias no decorrer do processo educativo,
mudando o plano curricular de acordo com as necessidades vigentes.

O PROJETO CURRICULAR PARA O ENSINO FUNDAMENTAL DE


CESAR COLL - capítulos III e IV
Aprender não significa, apenas, tomar conhecimento e reter na memória. A
nova abordagem construtivista representa uma nova metodologia de construção do
conhecimento, no quadro da ação educativa e na interação do processo ensino
(professor)/aprendizagem (aluno). A preocupação fundamental não o simples
acúmulo de conhecimento, mas sim selecionar informações a fim de saber o que
fazer posteriormente com elas, ou seja, capacidade para administrá-las e gerenciá-
las.
Ao tratar de configurar o caráter prático da relação ensino/aprendizagem, a
idéia básica consiste em identificar: quem aprende, como se aprende, porque se
aprende e para que se aprende.
Existem duas formas de aprendizagem baseadas no desenvolvimento teorizadas
por Piaget: a aprendizagem repetitiva, memorística ou mecânica e a aprendizagem
significativa. Na aprendizagem repetitiva, o aluno se limita a memorizar, sem saber
para que serve o conhecimento. Na aprendizagem significativa, o aluno enriquece o
que já sabe (conhecimento prévio) com os novos conhecimentos, garantindo não só
a continuidade da aprendizagem, mas permitindo ir galgando níveis superiores de
conhecimento. Esse é o enfoque cognitivo-evolutivo, a ação pedagógica que visa a
potencializar as linhas naturais do desenvolvimento cognitivo e afetivo.

O QUE ENSINAR?
O Projeto Curricular proposto por Cesar Coll traduz uma visão do ponto de
vista do ensino e não propriamente da aprendizagem. O seu Projeto Curricular
compreende quatro capítulos: 1) o que ensinar; como ensinar; quando ensinar; e
que, como e quando avaliar.
Assim, as atividades educativas escolares caracterizam-se por ser atividades
intencionais, o que significa que tratam de responder a alguns propósitos
(objetivos) e a perseguir a consecução de algumas metas (resultados). Coll cita
Hameline, que propôs a expressão "intenções educacionais" para designar:

"os enunciados mais ou menos explícitos dos efeitos esperados em um


prazo mais ou menos longo e com maior ou menor certeza e interesse pelos
educadores, alunos, planejadores e responsáveis educativos, sem esquecer a
sociedade na qual ocorre o processo educativo".

A partir dai, Coll estabelece que uma das tarefas do Projeto Curricular é:

"proceder à análise, classificação, identificação e formulação das intenções que


presidem o projeto educacional".

Um bom Projeto deve conter:

- inventário e a seleção das intenções possíveis


- a formulação de objetivos educacionais para guiar e planejar a ação
pedagógica
- a organização e sequenciação temporal das intenções
- a avaliação, que consiste em verificar se a ação pedagógica corresponde às
intenções.

A questão básica, diz Coll, é passar das intenções à formulação, ou seja, da


formulação das intenções à formulação (enunciado) dos objetivos. Possivelmente, a
mais acurada classificação das intenções educativas é a de Hamelina: 1) finalidade;
2) metas educacionais,; 3) objetivos gerais: finais e intermediários; e 4) objetivos
específicos ou operacionais.
Por outro lado, Romiszowski enumera como vias de acesso à concretização
das intenções educativas: 1) o conteúdo, isto é, as matérias concretas; 2) as
atividades; e 3) os resultados, considerando, numa especulação esquemática,
três elementos: 1) o input (conteúdo); 2) o output (resultado); e 3) o processo
mecanismo que vai do input ao output.
Por outro lado, em sentido um pouco distinto, Bruner considera que os efeitos
desejáveis da educação não devem dar tanta ênfase aos conhecimentos específicos,
mas, sim, à aquisição de destrezas cognitivas. Segundo Bruner, o aluno deve ser
ensinado de tal forma que, no futuro, possa continuar aprendendo sozinho, isto é,
deve adquirir capacidade para identificar a informação relevante, interpretá-la,
classificá-la e relacioná-la com a informação adquirida anteriormente. Para tanto,
diz Bruner, sugere-se os seguintes objetivos educativos:

- desenvolver na criança um processo de colação de perguntas;


- ensinar uma metodologia de pesquisa;
- desenvolver a capacidade da criança para formular hipóteses e tirar
conclusões;
- e realizar discussões em classe, escutar os colegas e expressar suas
próprias opiniões.

Um ponto importante na elaboração do Projeto Curricular é a relação ou


interação entre o aluno e o conteúdo (matérias), que alguns autores chamam de
"encontro". Klafki propõe cinco critérios básicos para a seleção adequada do
conteúdo:

1) a importância da matéria em relação a sua representatividade;


2) sua relevância na vida atual dos alunos;
3) a influência que deverá ter na vida futura dos alunos; sua estrutura
material e significativa; seu grau de adequação ao nível de interesse e de
compreensão dos alunos - É difícil, porém, entender como isso poderia ser
feito em se tratando de uma turma com 30 ou 40 alunos, cuja origem, o nível
econômico, as vocações e os interesses bastante heterogêneos.

Para Schwab, a análise das matérias e de suas estruturas substanciais deve ser o
elemento orientador do planejamento do ensino. Já para Brugelmann, inspirado em
Eisner, os "currículos abertos" são os projetos de ensino que não aludem ao
comportamento final do aluno, limitando-se a indicar situações nas quais se
realizará a aprendizagem.

PARTE II

Elaboração do Projeto Curricular


De um modo geral, consideram-se duas posturas extremas em relação aos
currículos: uma postura centralizadora e uma descentralizadora. No primeiro caso,
temos o currículo completo e acabado, como minúcias de objetivo, contendo
matérias didáticas e métodos de ensino; os professores apenas executam o
currículo. É o que alguns autores chamam de "modelo fechado". No segundo
caso, a responsabilidade na formulação do currículo recai sobre o professor ou
equipe de professores, com inteira liberdade. É o "modelo aberto". No primeiro
caso o ensino é idêntico para todos os alunos, enquanto que no "modelo aberto"
concede-se grande importância às diferenças individuais e os objetivos são
definidos em termos gerais para permitir sucessivas modificações.
Optando pelo "modelo aberto", Cesar Coll propõe concretizar as intenções
educativas tendo como fonte (via de acesso) os resultados esperados e os conteúdos
(matérias).

QUANDO ENSINAR - o "feeling" do momento


A primeira questão de quando ensinar está evidentemente relacionada aos
diferentes ciclos de ensino obrigatório: Pré-Escola (3 a 6 anos), Ciclo Inicial de
EGB - Ensino Geral Básico (6 a 8 anos), Ciclo Médio de EGHB (8 a 11 anos),
Ciclo Superior de EGB (11 a 14 anos) e Primeiro Ciclo de Ensino Secundário (14 a
16 anos).
Embora mantendo a distinção entre análise de tarefas e análise de conteúdos,
Coll admite que ambas tem a mesma finalidade. A análise de tarefas está
relacionada com a lógica pedagógica, que consiste em estabelecer seqüências de
aprendizagem. Em linhas gerais, diz Coll, o procedimento a seguir e o seguinte:

"Em primeiro lugar, analisar as tarefas relacionadas aos objetivos;


segundo, estabelecer uma seqüência de atividades; terceiro,
averiguar se os alunos que observam esta seqüência aprendem
melhor que outros".

Gagné propõe a distinção entre cinco possíveis tipos de


aprendizagem escolar:

1) habilidades motores; 2) atitudes; 3) informação verbal; 4) habilidades


intelectuais e 5) estratégias cognitivas.

A idéia de hierarquia conceitual no processo de ensino, como desenvolvidas nos


trabalhos de Ausubel, é caracterizada por uma seqüência descendente, que parte
dos conceitos gerais, passa pelos conceitos intermediários e chega aos conceitos
específicos.
César Coll não concorda com essa hierarquização de conceitos, principalmente
por deixarem de lado aspectos importantes de uma técnica de trabalho escolar
(página 99). O inconveniente das hierarquias conceituais está não só na ampliação
do próprio conceito de conteúdo, como nos critérios de sua sequenciação.
Entretanto, Coll considera que o esquema mais completo e coerente de
sequenciação é o sugerido por Posner e Strike, com cinco grandes categorias de
relações: fatuais, conceituais, de indagação, de aprendizagem e de utilização.
Os teóricos da elaboração costumam apresentar sua proposta sobre a melhor
forma de organizar o ensino, utilizando a analogia de uma filmadora, cuja objetiva
permite passar do plano de conjunto (do geral) para o plano dos detalhes
específicos (para o particular). Daí que a elaboração de uma panorâmica global
(epítone) constitui o primeiro passo. Segundo a teoria da elaboração, os conteúdos
de ensino se classificam em três tipos fundamentais: conceitos, princípios e
procedimentos. O conceito designa o conjunto de objetos e situações, o princípio
trata das mudanças do objeto ou da situação(relações de causa e efeito) e o
procedimento se refere às ações destinadas a alcançar
uma meta.

Quanto à questão da sequenciação entre os diversos Ciclos, Coll admite que, do


ponto de vista prático, pode-se partir dos Objetivos Gerais para indagar:

"(...) que tipos de habilidades e de comportamento serão


necessários para a criança tornar-se um adulto ativo e interagir
com os demais membros da sociedade" (pag.119).
COMO ENSINAR?
Recapitulando as noções básicas anteriores, alguns autores (Ausubel, Novak)
consideram que: "o currículo ocupa-se apenas do que será ensinado e, assim, após a
definição e sequenciação dos objetivos e conteúdos, coloca-se a questão sobre
como melhor ensinar para atingir esses objetivos e o domínio dos
conteúdos/matérias" (pag.134).
Sob esse aspecto, Coll reafirma: "o que ensinar, quando ensinar e como
ensinar são três aspectos do currículo intimamente interrelacionados", embora
reconheça o papel específico de cada um no processo de elaboração do Projeto
Curricular. Nesse contexto, na perspectiva construtivista, é importante considerar a
questão da ajuda pedagógica que o professor pode dar ao aluno, o que leva a
formular uma série de princípios relativos à maneira de ministrar o ensino. Tais
princípios, incluindo no Projeto Curricular, devem considerar:

- as características individuais dos alunos.


- as características individuais estão sujeitas a evolução.
- o que o aluno é capaz de aprender depende, sobretudo, da ajuda
pedagógica.
- a verdadeira individualização consiste em ajustar o tipo de ajuda
pedagógica às características e necessidades dos alunos.
- O Projeto Curricular deve incluir critérios gerais e exemplificá-los, mas
não deve recomendar um método de ensino determinado.

O Princípio Da Globalização
Do ponto de vista psicológico, o princípio da globalização traduz a idéia de que
a aprendizagem não se realiza mediante simples adição de novos elementos à
estrutura cognitiva do aluno. A aprendizagem significativa é, por definição, uma
aprendizagem globalizada na medida em que o novo conhecimento se relaciona
com aquilo que o aluno já sabe.

"(...) Quanto mais complexas, variadas e numerosas forem as


relações estabelecidas entre o novo conteúdo da aprendizagem e os
elementos já presentes na estrutura cognoscitiva do aluno, mais
profunda será a sua assimilação e maior será a significatividade da
aprendizagem realizada, isto é, maior o número e maior riqueza de
significados poderão ser atribuídos à nova aprendizagem".

Assim, é importante lembrar que a seqüência elaborativa deve


incluir a realização periódica de resumos, de recapitulações, de sínteses
e revisões globais do material de aprendizagem. Temos, então, que as
questões relativas ao modo de ensinar, isto é, como ministrar o ensino
devem incluir dois princípios básicos: a concepção construtivista e os
critérios de ajuda pedagógica.
A Estrutura do Projeto Curricular

"(...) os objetivos gerais constituem um marco de referência útil


para o planejamento educacional, mas, devido à sua ambiguidade,
não oferecem diretrizes claras e precisas para o projeto de
atividades ensino/aprendizagem. Isto torna necessária, (...), a
formulação de objetivos concretos ou objetivos de aprendizagem,
definidos como enunciados relativos a mudanças válidas,
observáveis e duradouras no comportamento dos alunos". - (César
Koll, página 68).

Conforme destaca César Coll, as finalidades do sistema educacional


são as afirmações de princípio sobre as funções que este deve
desempenhar. Os Objetivos Gerais do ensino obrigatório são as
finalidades do sistema educacional atribuídas ao conjunto do ensino
obrigatório. Os Objetivos Gerais de Ciclo definem as capacidades que
os alunos devem ter adquirido ao final do ciclo correspondente do
ensino obrigatório. Esses objetivos contemplam pelo menos cinco
grandes tipos de capacidades humanas: cognitivas ou intelectuais;
motoras; de equilíbrio pessoal (afetivas); de relação interpessoal; e de
inserção e atuação social. Os Objetivos Gerais de Área indicam as
capacidades que o aluno deve ter adquirido em cada área curricular ao
final do ciclo correspondente. Em princípio, os Objetivos Gerais de
Área referem-se ao conjunto da área curricular, sem delinear conteúdos
específicos da mesma.
Do ponto de vista da orientação didática, o Projeto Curricular deve
incluir um resumo das opções básicas que caracterizam a concepção
construtivista da aprendizagem escolar e da intervenção pedagógica.
Neste resumo figura também uma perspectiva de conjunto sobre o que,
como e quando avaliar nas três modalidades de avaliação inicial,
formativa e somativa. Daí que tradicionalmente, nos Projetos
Curriculares do ensino obrigatório, dá-se importância máxima ao tipo
de conteúdos denominados "fatos, conceitos e princípios".
Quanto aos conteúdos propriamente, eles podem se resumir em
fatos discretos, conceitos, princípios, procedimentos, valores, normas e
atitudes.
Conceito designa o conjunto de objetos. Princípio é o enunciado
que descreve como as mudanças ocorrem em um objeto ou em um
conjunto de objetos, em relação com as mudanças que ocorrem em
outros objetos ou situações. Exemplos: a lei da gravidade, o ciclo
natural da água, o funcionamento do sistema respiratório, a lei da oferta
e da procura, o teorema de Pitágoras, etc. Procedimento é o conjunto
de ações ordenadas e finalizadas, isto é, orientadas para a consecução
de uma meta. Exemplos: construção de um plano, elaboração de um
resumo, confecção de um plano de observação etc.

Do ponto de vista do processo de elaboração do Projeto Curricular,


a seleção dos conteúdos - que já devem figurar no primeiro nível de
concretização - exige que sejam respondidas as seguintes
perguntas:
- Que fatos, conceitos e princípios, levar em conta nesta área
curricular para que o aluno adquira, no final do ciclo, as
capacidades estipuladas pelos Objetivos Gerais da Área.
- Que procedimentos considerar nesta área curricular para que
o aluno adquira, no final do ciclo, as capacidades estipuladas pelos
Objetivos Gerais da Área?
- Que valores, normas e atitudes inserir nesta área curricular
para que o aluno adquira, no final do ciclo, as capacidades
estipuladas pelos Objetivos Gerais da Área?

Após a identificação dos principais elementos do conteúdo, bem


como das relações entre os mesmos e as estruturas correspondentes, o
terceiro passo consiste em estabelecer uma sequenciação que respeite
os princípios da aprendizagem significativa. Consiste, basicamente, em
ordenar os elementos em uma seqüência que proceda do mais geral
para o mais detalhado e do mais simples para o mais complexo. Os
conteúdos do primeiro nível de cada ciclo proporcionam uma visão de
conjunto muito abrangente das áreas curriculares. Essa panorâmica
global é delineada progressivamente nos níveis posteriores até atingir o
grau de detalhe e profundidade requerido pelos Objetivos Gerais de
Ciclo e de Área.

Da Concretização do Projeto Curricular


O primeiro nível de concretização do Projeto Curricular de um
ciclo do ensino obrigatório define o que ensinar (conteúdos e objetivos
finais das diferentes áreas curriculares) e oferece critérios-guia sobre
como ensinar e avaliar (orientações didáticas), porém ainda não diz
nada sobre quando ensinar, sobre a sequenciação e a temporização dos
aprendizados ao longo do ciclo. O segundo nível de concretização do
Projeto Curricular consiste em estabelecer - para cada área curricular -
nítidas seqüências dos principais elementos de conteúdo.

Do ponto de vista do processo de elaboração do Projeto Curricular,


o estabelecimento do segundo nível de concretização implica os
seguintes passos:

1 - Identificar os principais componentes dos blocos de


conteúdo selecionados no primeiro nível de concretização;
2 - Analisar as relações entre os componentes identificados e
estabelecer as estruturas de conteúdo correspondentes;
3 - Propor uma sequenciação dos componentes de acordo com
as relações e estruturas estabelecidas e as leis da aprendizagem
significativa.

CONCLUSÃO E CONSIDERAÇÕES FINAIS


Resumindo os conceitos e apreciações formulados em seu livro,
"Psicologia e Currículo", Cesar Coll apresenta, como conclusão, um
"modelo" ideal de currículo. A idéia é facilitar o seu processo de
elaboração, buscando estabelecer um marco comum para o en-sino
fundamental obrigatório. Os princípios básicos são:

1) A educação designa um conjunto de práticas mediante as


quais o grupo social promove o crescimento dos seus membros.
2) A finalidade da educação escolar é a de promover certos
aspectos do crescimento pessoal considerados importantes no
marco da cultura do grupo, inclusive por meio de uma ajuda
específica.
3) O Projeto Curricular preside e guia as atividades educativas
escolares, explicitando as intenções que estão em sua origem e
proporcionando um plano para concretizá-las. O Projeto
Curricular é um instrumento para a prática pedagógica que
oferece guias de ação aos professores, responsáveis diretos pela
educação escolar.
4) O Projeto Curricular está aberto às modificações e correções
que surgem com sua aplicação e desenvolvimento.
5) O Projeto Curricular alimenta-se de quatro fontes básicas de
informação, e tipos de análise: sociológica e antropológica;
psicológica; epistemológica; e pedagógica.
6) O Projeto Curricular adota uma estrutura essencialmente
aberta, deixando ampla margem de atuação ao professor, que deve
adaptá-lo a cada situação particular conforme as características
concretas dos alunos e outros fatores presentes no processo
educativo.
7) O Projeto Curricular reflete uma concepção construtivista
da aprendizagem escolar e de intervenção pedagógica, cuja idéia
diretriz é que os processos de crescimento pessoal implicam uma
atividade mental construtivista do aluno.
8) As intenções educativas concretizam-se no Projeto
Curricular, definindo o tipo e grau de aprendizagem que o aluno
tem de atingir a propósito de determinados conteúdos.

As Necessidades Educativas Especiais dos alunos devem receber o


tratamento curricular adequado mediante adaptações do Projeto
Curricular Básico à natureza e características dessas necessidades.
As Necessidades Educativas designam as ações pedagógicas que
devem funcionar para que os alunos possam ter acesso ao currículo. As
Necessidades Educativas Especiais são as específicas, fruto das
características diferenciais do aluno.
As necessidades educativas comuns a todos os alunos são
satisfeitas mediante as Ações Pedagógicas Habituais que, tomadas em
seu conjunto, delimitaram o que costuma ser chamado de "educação
ordinária". A adaptação do Projeto Curricular Básico às necessidades
educativas dos alunos é uma exigência do modelo de currículo adotado,
que é aplicado tanto à Educação Ordinária quanto à Especial.
Um bom Projeto Curricular não é o que oferece soluções prontas,
fechadas e definitivas aos professores, mas, sim, aquele que lhes
proporciona elementos úteis para que possam elaborar, em cada caso,
as soluções mais eficientes e adequadas em função das circunstâncias
particulares nas quais exercem sua atividade profissional.
Estimular a inovação e a criatividade pedagógicas, favorecendo um
âmbito integrador e coerente é, sem dúvida alguma, a finalidade que
deve ser perseguida por todo Projeto Curricular. Não é suficiente
dispor de Projetos Curriculares cuidadosamente elaborados,
cientificamente fundamentados, e empiricamente contrastados; também
é preciso impulsionar seu desenvolvimento, convertê-los em
verdadeiros instrumentos de trabalho e de indagação.

Trabalho realizado pelo Professor Elias Celso Galvêas, em 1997,


para a Universidade Santa Úrsula.

Bibliografia:

- Livro "Psicologia e currículo", por César Coll.

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