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Os flagelos, na verdade, so uma coisa comum, mas difcil acreditar quando se abatem

sobre ns. Houve no mundo tantas pestes quanto guerras. E contudo, as pestes, como as
guerras, encontram sempre as pessoas igualmente desprevenidas. (...) Quando estoura
uma guerra, as pessoas dizem: No vai durar muito, seria idiota. E sem dvida uma
guerra uma tolice, o que no a impede de durar. A tolice insiste sempre, e compreendla-amos se no pensssemos sempre em ns. Nossos concidados, a esse respeito, eram
como todo mundo: pensavam em si prprios. Em outras palavras, eram humanistas: no
acreditavam nos flagelos. O flagelo no est altura do homem; diz-se ento que o flagelo
irreal, que um sonho mau que vai passar. Mas nem sempre ele passa e, de sonho mau
em sonho mau, so os homens que passam e os humanistas em primeiro lugar, pois no
tomaram as suas precaues. Nossos concidados no eram mais culpados que os outros.
Apenas se esqueciam se ser modestos e pensavam que tudo ainda era possvel para eles,
o que pressupunha que os flagelos eram impossveis. Continuavam a fazer negcios,
preparavam viagens e tinham opinies. Como poderiam ter pensado na peste que suprime
o futuro, os deslocamentos e as discusses? Julgavam-se livres e nunca algum ser livre
enquanto houver flagelos.
Albert Camus - em A Peste.

"Haver uma fbula, uma loucura, um vcio que no possua um nome, um


emblema, uma mscara grega?" (O Homem Revoltado)
Da caixa de Pandora, na qual fervilhavam os males da humanidade, os gregos fizeram sair a
esperana em ltimo lugar, por consider-la o mais terrvel de todos. No conheo smbolo
algum mais emocionante do que este. Porque a esperana, ao contrrio do que se cr, equivale
resignao. E viver no resignar-se. (...)" Albert Camus, in Npcias. Conto, O vento em
Djemila. Crculo do Livro (Licena Editorial). ditions Gallimard, por Npcias, 1950.