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Ele dirigiu depressa pela extensa avenida que levava à casa dela.

Naquele moment
o, só queria chegar o mais rápido possível. O restaurante não seguraria a reserv
a por muito mais tempo, embora ele tivesse ligado pra avisar do pequeno atraso e
legante. Por ser o aniversário dela, eles teriam que ser logo os primeiros a che
gar. Bem antes de todos os amigos aflitos pelas novidades que brotaram nos ramos
de saudade regados pelo tempo cruel do dia-a-dia, que lhes permitia bem menos c
ontato agora que já eram gente grande.
Ele queria chegar rápido, pra evitar as discussões, pra evitar as explicações qu
e teria que dar a todos, para aproveitar, acima de tudo, cada segundo da noite d
e sono que aguardava ansioso, desde o momento em que acordara de uma madrugada t
urva para trabalhar. Era uma dorzinha de cabeça que sentia, da qual também não p
retendia mencionar. Tudo teria que ser fácil. Pegar Laura na casa dela, levá-la
ao restaurante, aguentar duas ou três horas de uma comida que ele não queria com
er e devolver sorrisos pra quem, tão-somente naquela ocasião, ele não queria sor
rir.
Ele queria chegar rápido para vê-la, como se fossem de novo dois adolescentes in
gênuos e apaixonados intimidados pelas amarguras da inexperiência, e como se não
houvesse passado, desde aqueles primeiros dias, apenas um par de anos. Mas tant
o mudara. A silhuetas de ambos já traziam apenas nas memórias os contornos juven
is de outrora, embora apresentassem ainda um vigor implacável, nos melhores dias
. Mas aquele nem era um dos melhores dias.
Ele queria chegar pra poder dizê-la da grande ideia que tivera, produto de um pe
nsamento que ficara horas a fio em engrenagens. Tanto que haviam discutido sobre
aquele assunto, meses atrás de maneira despretensiosa e utópica. Agora, para el
e era coisa séria. Tinha se tornado tão sério assim como as contas que passou a
pagar com o próprio dinheiro, tendo libertado, de uma vez por todas os pais do p
eso de sustentar mais um filho pela vida. Formar-se na faculdade teria sido dist
ante e tão diferente nos sonhos infantis. Neste momento, mais do que tudo, era s
ua realidade. Não só a formatura. Mas o emprego que conseguira quando já havia d
esistido - embora fosse ainda um bacharel recém-diplomado. O emprego, o carro, o
s planos de comprar logo um apartamento. Os planos de pagar prestações a perder
de vista por uma geladeira nova, um laptop e uma televisão maior e mais fina.
Ele queria chegar logo porque sabia que o grande momento do dia - auge da semana
, estava convencido - seria o momento exato em que colocaria seus olhos sobre os
dela. Os olhos sem maquiagem e cheios de dúvida. O corpo enrolado na toalha, at
rasada como deveria ser se fosse mesmo a Laura. Aquela Laura, sua Laura. Sua. El
e sabia que corria, ignorando até mesmo o vermelho dos semáforos nos cruzamentos
mais desertos com uma displicência tardia, para vê-la. E então toda a insatisfa
ção e frustração em relação ao movimento lento do destino se escorreria, se esva
ziaria até não restar mais nada no mundo. E valia a pena, mesmo que os segundos
insistissem em passar, mesmo que tivesse que ir para aquele restaurante, comer a
quela comida e rir para aquelas pessoas. Mesmo pela dor de cabeça insistente e p
ontiaguda.
E valeu. Quando se encontraram, um relâmpago de consciência invadiu as almas de
ambos e fez tudo fazer sentido. Talvez tenha passado despercebido pra ela, naque
le momento, mas seria algo de que iria se lembrar para sempre. Ele, de uma manei
ra um pouco diversa, nunca esqueceria. Assim como não haviam se amarelado as pág
inas da memória em que constava escrita em caligrafia imaculada as histórias dos
primeiros encontros. Chocolates belgas de sabores sofisticados, chocolates bran
cos de doçura incomparável, chocolates suíços de uma suavidade intensa e românti
ca...
- Você ainda não tá pronta.
- Claro que não, não tem nem cinco minutos que o povo saiu pro casamento.
- Tem certeza mesmo que não quer ir no casamento?
- Tenho, Eduardo. Já te falei. Ai, que saco, cadê meu brinco?
- É esse aqui?
- É. Brigada. Vou terminar de arrumar e já volto. Coloca uma música aí.
- Não precisa.
Não precisava. O barulho da simples existência de Laura vibrava sinfonias nos ou
vidos de Eduardo, apesar de todos os contratempos inconvenientes do cotidiano. E
la era tudo o que ele mais amava. As fotos dos dois ainda no início do namoro pr
egadas na parede da casa dos pais de Laura provocaram um riso, como sempre fazia
m, na face do jovem. Ali estava ele, gravado pra sempre na vida dela. Já pertenc
ia àquela família e se sentia em casa naquele lugar. Até o cachorro Reginaldo, f
alecido apenas alguns meses antes, já lhe considerava um amo.
- Tá bom esse vestido?
Azul. Um pouco curto, exatamente do jeito que ele gostava. Alças firmas e finas
sobre os ombros graciosos de Laura. Eduardo não conseguiu evitar o sorriso e se
surpreendeu no mesmo segundo com a maneira com que perdera, já há alguns minutos
, a total noção das horas, e também a simples necessidade de ter a noção. Não re
tomou a consciência adulta, no entanto. Apenas sustentou o riso, por segundos de
mais, até que Laura fechou a cara e saiu. Ele ensaiou uma perseguição, mas sabia
que não haveria como contornar as consequências daquele riso fora de hora.
- Tá lindo, Laura.
- Tá nada - ela disse, do lado de lá da porta de madeira que os separava, no fin
al do corredor, onde era o quarto dela.
O quarto de Laura era exatamente como sua personalidade: difícil de definir. Ent
re ursos de pelúcia e bonecas enfeitadas em caixas de plástico cor-de-rosa claro
, se exibiam pôsteres de bandas obscuras de hard rock e miniaturas de super-hero
ínas. Revistas de moda, comportamento e livros de García Marquez. Cada milímetro
cúbico daquela atmosfera comprovava aquilo que Eduardo não precisava se esforça
r para saber. Era louco por aquela garota. E sempre seria, não importa o que hou
vesse.
- Edu, acho que meu celular tá tocando lá na sala.
- Não tá não, não to ouvindo nada.
- Tá sim. Ele tá no silencioso.
Estava. Uma chamada perdida de Luciana sob as almofadas de crochê espalhadas pel
o tapete-de-ver-filme. Provavelmente a melhor amiga do casal já havia chegado ao
restaurante. Ansiosa como não podia deixar de ser, Luciana havia ligado. Não co
mpensava retornar a ligação, já que minutos mais tarde a amiga insistiria. E ins
istiu. E Eduardo desligou antes que a intuição de Laura a fizesse perceber, a me
tros de distância, através de paredes, que o seu celular estava vibrando novamen
te. Calmamente, o jovem colocou o aparelho no mesmo lugar em que achara, sob alm
ofadas.
- Não achei seu telefone, Laura.
- Deixa, depois eu olho, to terminando...
- Falta quanto tempo? - ele brincou?
No mesmo instante, ela abriu a porta.
- Melhor?
Eduardo era completamente incapaz de comparar Laura com ela mesma. Não importava
a roupa que vestisse, o perfume que usasse, a cor de cabelo que inventasse de u
sar: ela era sempre perfeita pra ele. Entretanto, o senso prático de Eduardo o a
visou rapidamente que era melhor ter uma reação verbal, ou mesmo corporal ou min
imamente nervosa, que não fosse desagradá-la.
- Bem melhor. Vamos?
- A gente tá atrasado, né?
- Só um pouco.
Por que diabos ele tinha que usar aquela sua maldita ironia estúpida justo naque
le momento? Foi o bastante para que Laura lhe soterrasse com aquele olhar que-nã
o-deve-ser-nomeado, tão comum. Teimosa, como ela só. Insistente, orgulhosa e rec
lamona. As melhores três piores características que alguém poderia ter. Alguém,
não! Ela, só ela. Ela que, com sua arrogância imatura, se recusava a assumir par
a ela - ainda menos para ele - que o que sentia por ele, não desde o início, mas
tempo o suficiente para ter certeza, era um amor inegável, absoluto e incômodo.
Laura demorara a verbalizar seus sentimentos, até que, sem querer, deixou escap
ar aquelas palavrinhas quando ele acabara de virar as costas, após a despedida,
num dos encontros do primeiro ano do carrossel de emoções que viveram.
Se Eduardo pudesse ter enxergado, mesmo que por um relance, sua vida agora, nunc
a teria acreditado que aquele tempo passado, então presente, era complicado. E e
la, com sua mania de simplificar, sempre embalsamava as angústias dele nos piore
s tempos. No início, ele acreditava que era ingenuidade aquela tendência da moça
de acreditar na autorregulação das coisas, de sempre crer na simplicidade da vi
da. Eduardo tivera provas, momentos depois, sobretudo nas adversidades menos gen
erosas, que não era ingenuidade, mas uma sabedoria imensa. E não era uma mania d
e simplificar as coisas, e sim de encarar a inevitável complexidade dos obstácul
os da vida de maneira serena. Como ele aprendera com ela...
- Tá meio frio, eu acho! Vou pegar uma blusa - ela disse, milímetros antes de cr
uzarem a porta da rua.
Laura deu meia-volta. Eduardo calculou, ingenuamente, 30 segundos para que ela e
ntrasse no quarto, localizasse o melhor agasalho para os ventos do meio do outon
o que amenizavam a insolitude do calor do último verão, e voltasse correndo para
ele, consciente do adiantado da hora. Ele sabia, e como sabia, porém, que 30 se
gundos nunca eram o bastante. Não que ela fosse, de maneira fútil, vaidosa. Mas
ela se cuidava. Sabia se vestir. Sabia exatamente qual peça de roupa usar, de ac
ordo com a formalidade da ocasião. Era tão linda, a sua menina.
Eduardo se sentou no sofá. O mesmo sofá onde assistiram tantos filmes juntos, en
tre beijos apaixonados, mãos sagazes e olhares desconfiados do pai de Laura. Ref
estelando-se no aconchego acolchoado daquelas memórias, pôde ouvir pensamentos e
m forma de canções. "If i could change the world, I would be the sunlight in you
r universe". Haviam sido os versos de Eric Clapton transcritos em letras engarra
nchadas sobre pautas de cadernos que a haviam conquistado, segundo o que Eduardo
acreditava. Ele é que não desconfiava que havia acontecido muito antes, quando
do primeiro olhar, a certeza na vida de uma Laura independente e sabidamente ins
ensível de que havia chegado a sua hora.
Para ela, ele era bem mais encantador do que ele jamais poderia crer. Seus cabel
os insistentemente desarmonizados, seu rosto de feições duras e, ao mesmo tempo,
doces. Sua atmosfera sutil, frágil, intelectual. Ela lutou batalhas perdidas co
ntra o sentimento que se desenvolvera como pólvora em chamas. Era inevitável. Os
dois eram inevitáveis. Mesmo pertencendo a mundos diferentes, com pensamentos,
gostos e molduras diferentes. Com culturas, bagagens e conteúdos diferentes. Era
inevitável que acontecesse. E aconteceu. Agora, anos depois, ele despretensiosa
mente caía no sono sentado no sofá, esperando por ela.
Laura saiu do quarto com um pouco de pressa. Sabia que já havia abusado da paciê
ncia de Eduardo. Sabia também que ele não queria ir para aquele restaurante come
r aquela comida e rir para aquelas pessoas. Sabia que há muitas noites ele não d
ormia bem, pensando nas frustrações presentes nos sonhos que ainda não havia con
seguido realizar. Era sede de vida, o que ele tinha. Vontade de que tudo acontec
esse ao mesmo tempo. O que é que iria ser do resto da vida se todos os sonhos fo
ssem realizados ao mesmo tempo?
Laura sorriu, olhando para ele. Num súbito, Eduardo acordou em um solavanco, sen
tindo a vibração do celular escondido embaixo das almofadas por debaixo da sua p
erna direita. Recobrando a consciência em milissegundos, ele pegou o celular. An
tes que pudesse se lembrar de qual era o procedimento-padrão naquela situação, L
aura - com o sorriso já escondido, como mandava ser sua personalidade - apanhou
o celular e atendeu.
- Oi, Lu. Não, a gente já tá chegando sim. É que o Eduardo esqueceu os documento
s do carro e a gente teve que dar uma volta pra buscar, na casa dele. A gente ch
ega em 10 minutos. Não, 5, já tamo aqui no cruzamento da Belisário Filho com a M
oura Neto. É. Beijo.
Os dois se olharam com uma cumplicidade que nunca poderiam explicar. Era inevitá
vel que sentissem um pelo outro... Mas o orgulho dela e o amor-próprio dele semp
re davam um jeito de pregar peças no amor.
- Pra que que você mentiu pra Luciana?
- Eu não menti, a gente já tá indo mesmo.
- Você falou que a gente ia chegar em 10 minutos.
- Ai, não tem trânsito, Eduardo, a gente chega rápido.
- Mas eu não esqueci documento nenhum. Você sabe que eu não esqueci. A Lu também
sabe. Eu nunca esqueço. Eu checo meu bolso 20 vezes antes de pegar a chave do c
arro.
- Ai, Eduardo, esquece.
- A culpa foi sua. Cê não ia só pegar o casaco?
- Acontece que não se usa blusa de frio com vestido. Tive que mudar a roupa toda
.
- Laura, pra que? Vai tá lá só o povo de sempre.
- E daí? Eu não to vestindo pra eles.
- Tá vestindo pra quem, então? Pra mim? Eu conheço todas as suas roupas.
- Que pra você o que, Eduardo? Pra mim, ue.
- Então tá, vamo logo.
- Que que tem lá de comer? Eu to com fome? Não é melhor a gente comer aqui antes
?
- Não, Laura, vai atrasar mais.
- Mas o que que tem pra comer lá? Cê sabe que eu não gosto de comida de restaura
nte.
- Eu sei.
- Acho que eu vou comer um pedaço de frango do almoço.
- Acho que lá serve massa.
- Massa?
- É, massa. Tipo lasanha, sei lá. Massa.
- Massa engorda.
- E frango não?
- Ai, Eduardo, que chatice.
Laura foi para a cozinha, com uma naturalidade ímpar. Eduardo voltou a se sentar
no sofá, com a visível insatisfação de ter perdido uma discussão. Ele sabia, po
rém, que não adiantariam argumentos, naquele instante. "And you would think my l
ove was really something good, baby if I could... change the world", ele cantaro
lou baixinho, imitando a primeira vez que cantara pra ela, com aquele violão vel
ho e empenado em mãos, fingindo-se de rockstar quando ainda lhe restava tempo pr
a acreditar nos sonhos que a vida adulta descartava. Quando percebeu que a avent
ura da cozinha de Laura ia demorar mais do que cinco minutos, entregou-se às alm
ofadas, tomando o cuidado de desligar de uma vez por todas o telefone celular da
namorada, bem como o seu próprio. "If I could be king, I'd take you as my queen
..."
Eduardo sonhou por intermináveis eternidades com Laura. Há muito, todos os motiv
os impostos pela sua consciência pessimista para que o relacionamento dos dois n
ão pudesse dar certo, anos antes, eram apenas farelos pelo chão, como uma paisag
em em vista aérea. Quanto tempo ele ficou dormindo-acordado-sonhando naquele sof
á, nunca seria possível saber. Quando Eduardo recuperou goles de consciência, ab
rindo os olhos, estava escuro. Um filme qualquer com John Travolta estava passan
do na televisão. Ao seu lado, sob um cobertor, estava a mesma Laura linda, sem m
aquiagem, usando moletom de dormir, completamente satisfeita com o fato de apena
s estar ali, ao lado do namorado. Eduardo fechou de novo os olhos, antes que a g
arota pudesse perceber que ele estava acordado. Certamente, ela iria fechar a ca
ra e culpá-lo por terem se atrasado e jogar nele o fardo de uma noite perdida. C
ertamente, naquele instante, ele imaginou que ela havia percebido que ele já est
ava desperto e já preparava seu discurso... Mas ele foi, mais uma vez, surpreend
ido.
- Eu te amo - ela sussurrou bem de perto, totalmente ciente que ele já estava ac
ordado.
Eduardo abriu os olhos de uma vez por todas e fez questão de mostrar um sorriso
sincero e enternecido.
- Eu nem queria mesmo ir - ela continuou, sabendo que poderia ter evitado horas
de tempo perdido. Para ela - e para ele também, no fundo - aquele tempo nunca es
taria perdido, porém.
Eduardo aconchegou a cabeça no ombro de Laura e os dois, alheios ao filme na TV,
à turma no restaurante que, àquela hora, já poderia imaginar o que havia aconte
cido aos dois, e a tudo mais, imergiram no próprio sentimento inevitável, que os
unia.
- O que você acha de Anna? - ele reagiu, sonolento.
- Que? - ela não poderia fazer ideia do que ele estava falando.
- Anna. O nome da nossa filha, que a gente tava discutindo outro dia.
- Anna?
- É. Com dois enes. Fácil de escrever, ao mesmo tempo simples e sofisticado. E e
la vai ser a primeira da lista de chamada no colégio também.
- Eu gosto.
- Eu também.
Era inevitável amar. Era inevitável dormir. E dormiram.

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