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Traças, Ácaros & Cia

OS GRANDES HOMENS
Da obra O Homem Estúpido ― L’homme stupide, Ernest Flammarion Éditeur,
Paris, 1919.
Charles Richet1
Tradução : Maristela Bleggi Tomasini2

Nessa multidão servil, cega, ignorante, que foi a humanidade do


passado e que é a humanidade do presente, às vezes, algumas inteligências
têm aparecido, serenas e audaciosas, antecipando o amanhã, descobrindo
verdades novas, amando a justiça, vagos clarões esparsos que lançam
alguma luz nas trevas de uma noite profunda.
Esses benfeitores, grandes pela audácia e pelo gênio, têm sido,
sem dúvida, recompensados pelos seus irmãos humanos?
Vejamos o que nos diz a história.
Sócrates, o sábio dos sábios, ousou, em pleno paganismo,
sustentar que as superstições mitológicas eram tradições ridículas; que se
devia conhecer a si mesmo e não ter outra regra de conduta que a
consciência e, como regra de crença, a razão. Mas ele foi vaiado pelas
multidões. Aristófano ridicularizou-o ultrajosamente no teatro. Pretensos
juízes acusaram-no de corromper a juventude, e ele foi condenado à morte.
A cicuta propiciou-lhe uma morte bastante suave, mas era a morte, de
qualquer forma.
Jesus Cristo, alma terna e mística, inacessível ao ódio, pregou o
perdão das injúrias, a piedade para com os infelizes e os pobres, a
igualdade dos míseros humanos diante do Pai Celeste. Doutrinas novas
que teriam devido mudar a face do mundo. Muito bem! Jesus Cristo foi
condenado a uma morte ignomiosa e dolorosa. Muito jovem ainda, esse ser
quase divino foi crucificado, metade como rebelde, metade como demente,
sob os aplausos de uma multidão bárbara.

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Cristóvão Colombo, sozinho contra todos, concebeu uma grande


coisa. Em torno dele, todo mundo acreditava que a Terra era chata como
um prato de sopa. Mas ele, ele compreendeu... Provido de alguns
miseráveis navios, ele ousou aventurar-se a mares desconhecidos. Sua
equipagem revoltou-se, mas ele se manteve à frente dos motins e, ainda
que parecesse ceder, obstinou-se em seu pensamento fecundo. Abordou,
enfim, uma nova terra. Um Novo Mundo foi adquirido para a velha
humanidade... E, como recompensa, ao seu retorno à Europa, ele foi
acorrentado, colocado na prisão, ameaçado de morte. Por milagre, escapou
aos suplícios. De qualquer sorte, morreu pobre, injuriado, exilado,
vilipendiado, traído.
Galileu concebeu e executou coisas maravilhosas. Ele inventou o
termômetro. Ele inventou o telescópio que lhe permitiu ver mundos
imensos até então insuspeitos, e compreender que ínfimo lugar tem nosso
planeta terrestre no vasto universo. Mas os homens têm um santo horror à
verdade. Galileu foi obrigado a ajoelhar-se diante da estupidez triunfante,
e ele arrastou, cego, os seus últimos dias numa prisão.
Gutemberg, que inventou a imprensa; Palissy, que criou a
paleontologia e a cerâmica; Jenner, que descobriu a vacina; Harvey, o
primeiro a realizar a verdadeira fisiologia experimental, tiveram todos as
suas existências envenenadas pelas proscrições, as perseguições, os
processos, as zombarias e a pobreza.
Michel Servet que, sem apoio, sem mestre, compreendeu que o
sangue circula para ir do coração direito ao esquerdo, passando pelo
pulmão, Michel Servet foi queimado.
Savonarola foi queimado. Queimado também o admirável Jean
Huss. Ambos tiveram a audácia de pregar uma moral pura a corruptos.
Lavoisier que, sozinho, fez nascer as duas mais belas ciências abordáveis
pelos mortais, toda a química e toda a fisiologia, Lavoisier, cujo nome
deveria ser considerado como o maior nome da ciência, Lavoisier foi
guilhotinado em praça pública em Paris.

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Denis Papin viu sua embarcação incendiada e feita em pedaços


pelos barqueiros do Reno.
Descartes que, como Sócrates, ousou falar dos direitos da razão
humana, teve de fugir de sua pátria e morrer no estrangeiro. Espinosa, um
genial e ousado pensador, foi vítima de perseguidores cruéis. O mais
maravilhoso escritor francês, Victor Hugo, viveu vinte anos no exílio. O
sublime escritor espanhol, Cervantes, passou a metade de sua vida no
cárcere a nas prisões de forçados. O corpo de Molière foi jogado no lixo.
Um dos mais encantadores poetas latinos, Ovídio, foi
condenado a um longo exílio entre os bárbaros. Como Eurípides, André
Chénier pereceu no cadafalso, Chatterton morreu de fome. Voltaire, Sílvio
Pellico, Mickieviez conheceram, eles também, as prisões e o exílio. Sêneca
foi obrigado a matar-se. Um soldado bêbado matou Arquimedes.
Demóstenes e Cícero, ou seja, os maiores oradores de todos os
tempos, foram assassinados pela soldadesca.
E está é apenas uma enumeração incompleta.
Tais são as recompensas que os homens reservam aos mais nobres
representantes da espécie humana.
Quanto mais a multidão é medíocre e estúpida, mais ela
persegue com seu ódio aqueles que, ingenuamente, procuram atenuar sua
mediocridade e sua estupidez.

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1
Charles Robert Richet era filho de um cirurgião. Ele nasceu em Paris, em 26 de agosto de 1850 e ali morreu em 04 de
dezembro de 1935, sem assistir integralmente ao espetáculo da II Grande Guerra, detalhe providencial talvez. Ainda
enquanto estudante, assistiu aos cirurgiões Léon Clément le Fort (1829-1893) e Aristide Auguste Stanislas Verneuil (1823–
1895). Porém, servindo como interno em hospitais em 1872, iniciou experimentos relacionados ao hipnotismo. Durante os
dois anos seguintes, produziu numerosos transes em pacientes. Foi ele quem cunhou o termo metapsíquica para a pesquisa
parapsicológica. Esta experiência provavelmente o influenciou a abandonar a cirurgia e devotar-se à fisiologia.
Foi no campo desta estranha metapsíquica e do estudo dos fenômenos paranormais que Richet tornou-se mais conhecido
entre nós como entre seus contemporâneos. Sua obra veio a coroar as investigações mais ou menos convergentes recolhidas
ao longo de setenta anos. Seu Traité de Métapsychique, editado em Paris, 1923 por Felix Alcan, obra esta que infelizmente
eu ainda não tenho, embora já a tenha manueseado, resume o conhecimento da época nesse campo. Richet, ao longo de toda
sua vida, interessou-se vivamente pelos fenômenos ditos paranormais, tornando-se presidente do Instituto Metapsíquico
Internacional de Paris e mantendo estreitas relações com metapsiquistas de todo o mundo. Firme adversário da hipótese
espiritista, aportou a estas investigações — de caráter tão especial — toda a sua lealdade, vigor, clareza mental, tudo quanto
distinguiu sempre, de modo marcante, o seu trabalho. Sua obra comprometeu indiretamente a própria metapsíquica,
desferindo-lhe um golpe do qual não se recuperou jamais.
Chamado muitas vezes a investigar fenômenos curiosos, como o aparecimento de fantasmas, nada escapava ao sábio. Pode-
se imaginar sua atuação frente ao famoso caso da Villa Carmen, de Argel, onde a médium, uma tal Marthe Béraud, jovem
de excelente sociedade, produzia, no ano de 1904, a aparição de um fantasma chamado Bien Boa, fantasma de bigodes que
circulava em torno dos assistentes envolto num manto branco e que se desmaterializava sobre o piso. O caso provocou a
edição de mais um livro do Dr. Richet: Les Phénomènes Dits de Matèrisation de la Villa Carmen (Os Fenômenos Ditos de
Materialização da Villa Carmen), Bureau dos Anais de Ciências Psíquicas, Paris, 1906, onde teceu sérias objeções a respeito
do fenômeno.
Em 1878 Richet foi nomeado professor agregado da Faculdade de Medicina. Foi professor da Universidade de Paris,
Sorbonne, de 1887 a 1927.
Foi um homem de muitos talentos e interesses. Pesquisador da fisiologia, escritor, atraído pela aviação. Participou, inclusive
do desenho e da construção de um dos primeiros aviões. Dedicado pacifista, procurou demonstrar os malévolos efeitos da
guerra, publicando trabalhos sob o pseudônimo de Charles Epheyer. Escreveu também sobre filosofia, poesia e drama.
Durante a I Guerra, no fronte, investigou problemas relacionados à transfusão de plasma sangüíneo. Em 1926, recebeu a
Cruz da Legião de Honra.
2
Maristela Bleggi Tomasini é advogada e tradutora da língua francesa, com versões para o português, de três obras
publicadas: O Homem Delinqüente, de César Lombroso, Porto Alegre, 2001, Ed. Lenz, em conjunto com o Dr. Oscar
Antonio Corbo Garcia; As Transformações do Direito, Estudo Sociológico, de Gabriel Tarde, 2002, Ed. Supervirtual e A
Criminalidade Comparada, também de Gabriel Tarde, 2004, pela E-Books Brasil. mtomasini@cpovo.net