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HISTÓRIA DA OCUPAÇÃO DA AMAZÔNIA

A M Ã E - D A - M A T A percorre a floresta chorando e se lamentando pela perda de seus


filhos. Sua aparição está associada a sentimentos de perda e dificuldades na vida:
morte de parentes, fome, situações de opressão ou escravidão, no âmbito familiar.
Desmatamento, invasões, conflitos entre grupos, no âmbito coletivo. No Acre, fala-se
na mãe-da-seringueira, localizando-se o drama num tipo social determinado, o extra-
tivismo da borracha, e dando forma humana ao espírito de uma árvore muito especial,
que sofre quando é cortada e fornece “leite” e sustento para a família, exatamente
como uma abnegada mãe.
cimento do território, que estava dividido em dois pelo Tra- mentos históricos da região. Como, por exemplo, no tempo O resultado de todo este processo histórico é a diversi-
SINOPSE DO VÍDEO tado de Tordesilhas. de riquezas dos coronéis, comerciantes e seringalistas, que dade cultural amazônica, formada pela presença de índios,
Imagens de fortes antigos, alguns preservados como o do contrastava com a simplicidade dos seringueiros atrelados negros, árabes, europeus, asiáticos e brasileiros de todas
O programa propõe uma viagem pela história da ocupação Presépio em Belém, no Pará construído para vigiar a “porta ao perverso sistema de aviamento – rede de crédito. as partes.
da Amazônia. O ponto de partida é o Museu Emílio Goeldi em de entrada” da Amazônia; outros em ruínas como o Príncipe Narram-se a grande leva de imigrantes europeus e nordes-
Belém (PA), onde o nosso apresentador recua no tempo, da Beira, em Costa Marques, Rondônia, nos contam a his- tinos; a construção da ferrovia Madeira–Mamoré, o declínio
com a ajuda da pesquisadora Edite Pereira, da área de tória da ocupação portuguesa durante a União Ibérica. da borracha e seus motivos; até o seu segundo ciclo, ocorri-
CONTEÚDOS DO VÍDEO
arqueologia, para tentar entender a origem da diversidade Ocupação esta movida pelo interesse nas riquezas escondi- do em 1941 durante a Segunda guerra mundial, que trouxe
étnica da região amazônica, fruto da miscigenação dos das na floresta, principalmente as chamadas “drogas do novamente para a região milhares de nordestinos. Uma filha
> POVOS ANTIGOS – COSTUMES, PINTURAS RUPESTRES E CERÂMICAS
povos antigos com os europeus e africanos. sertão” – conjunto de especiarias de grande valor para os de imigrantes nos conta a história de sua família que veio
Os vestígios encontrados, pinturas rupestres e cerâmicas europeus. Neste programa, conhecemos também outras para a Amazônia extrair borracha para promover a guerra. > TRATADO DE TORDESILHAS

nos ajudam a conhecer um pouco da vida dos povos que expedições que ajudaram na integração da região Norte e Sul Por fim, o programa relata a ocupação, realizada pelos > EXPEDIÇÕES PORTUGUESAS
habitavam a região até 11.200 anos atrás. Quando os europeus e a primeira expedição cientifica, conhecida como viagem militares, de repovoamento da região Norte, do qual a
> DROGAS DO SERTÃO
chegaram, encontraram uma enorme quantidade de grupos filosófica, que durou quase dez anos e resultou em uma das transamazônica é o maior símbolo. A promessa de dis-
> CICLO DA BORRACHA – SISTEMA DE AVIAMENTO
e tribos organizadas com uma cultura própria, da qual her- mais importantes coleções de história natural do Brasil. tribuição de terras atraiu milhares de camponeses bra-
damos alguns costumes como, por exemplo, o uso da mandio- O segundo bloco do programa é dedicado aos grandes ci- sileiros, principalmente nordestinos. Os grandes projetos > DECLÍNIO DA BORRACHA

ca e a confecção da cerâmica. Contudo, esses povos, nomeados clos econômicos que atraíram enormes quantidades de imi- agropecuários e os incentivos à exploração de madeira e > SEGUNDO CICLO DA BORRACHA
indígenas, foram ignorados pelos europeus, e escravizados. grantes para a região. A história do ciclo do “ouro negro” e minério fizeram crescer assustadoramente a taxa de des-
> PERÍODO DA DITADURA MILITAR –
A segunda parte da viagem nos revela os caminhos per- da borracha é contada com a ajuda da Companhia de Teatro matamento. As grandes obras não trouxeram a prosperi- GRANDES PROJETOS X DESMATAMENTO E TENSÃO SOCIAL
corridos pelos portugueses em suas expedições de reconhe- Metamorfose de Manaus, que dramatiza alguns aconteci- dade desejada e agravaram as tensões sociais.
A longa história do povoamento humano na Amazônia começa praticamente junto com a for-
MERGULHANDO NO TEMA mação da floresta que conhecemos hoje. Apesar de ainda não terem sido encontrados vestígios
concretos da presença humana na Amazônia durante o período compreendido entre 20.000 e
12.000 a.p. (antes do presente) foi, provavelmente, neste período que os primeiros grupos humanos
provenientes da Ásia chegaram de sua longa migração até a América do Sul. Eram grupos
nômades de caçadores-coletores que perseguiam as grandes manadas de animais.

PRIMEIROS HABITANTES FIQUE POR DENTRO


A Amazônia era então uma ampla extensão de savanas, com apenas algumas manchas de flores- Existem diferentes teorias
ta ao longo dos rios. Nesse ambiente proliferavam grandes animais como o mastodonte, a preguiça- acerca da ocupação pré-his-
tórica da América. As datas
gigante, o toxodonte, o tigre-dentes-de-sabre e diversos outros exemplares de megafauna, os quais
da presença humana variam
se supõe, serviam de base alimentar para os bandos de caçadores gregários e cujos fósseis podem
conforme a teoria, as mais re-
ser encontrados nos barrancos de muitos dos rios amazônicos, especialmente no Acre. centes pretendem recuar a an-
tiguidade do homem americano
entre 30.000 a 50.000 anos.
A origem também vem sendo re-
vista, provavelmente a migra-
ção teve somente procedências
mais diversas do que da Ásia.

PREGUIÇA GIGANTE, um dos


exemplares da megafauna que
habitavam a Amazônia pré-histórica.

A CULTURA DE FLORESTA TROPICAL


Mudanças climáticas e ambientais, ocorridas entre 7.000 e 6.000 anos, levaram ao aumento da
temperatura e da umidade do planeta, fazendo com que as florestas se expandissem. Começava
então uma segunda fase do povoamento humano da Amazônia, na qual as populações passaram a
contar com recursos alimentares mais diversificados e novas formas de organização social surgiram.
Essas novas práticas socioculturais, por volta de 5.000 anos atrás, deram origem à chamada
Cultura de Floresta Tropical, caracterizada por grupos que praticavam uma agricultura ainda

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incipiente, complementada pela caça, pesca e coleta de frutos e sementes da floresta. A partir Apesar de seu caráter pioneiro, a expedição de Orellana não deixou outros frutos que fossem
dessa nova organização social, os grupos pré-históricos amazônicos passaram também a fabricar duradouros. A região voltou a pertencer exclusivamente aos cerca de 5 milhões de índios (segun-
cerâmica e a ocupar alguns locais por períodos mais prolongados. Com isso, deixaram grandes do uma das estimativas existentes) que ali habitavam e que também haviam sido motivo da admi-
sítios arqueológicos que testemunham seu florescimento por toda a Amazônia. ração nos relatos de Carvajal, tal sua quantidade e organização. Muitas décadas se passariam
A partir do surgimento da Cultura de Floresta Tropical, a ocupação humana da Amazônia antes que novas investidas à região fossem realizadas.
alcançou o estágio de alta diversificação que os europeus encontraram ao começar a exploração da
O Eldorado
grande floresta. COLONIZAÇÃO PORTUGUESA
Este mito teve origem em Apesar de os espanhóis terem seus direitos garantidos pelo Tratado de Tordesilhas, não se inte-
relatos de Orellanas, que
des-creveu ter descoberto
CHEGADA DOS EUROPEUS: PRIMEIRAS EXPLORAÇÕES ressaram por povoar a Amazônia. Por sua vez, os portugueses não vacilaram em tomar a inicia-

uma região riquíssima em A terceira fase da ocupação humana da Amazônia corresponde ao povoamento europeu da tiva de seu efetivo controle. A Amazônia já começava a sofrer ameaças de invasão de ingleses,
ouro. Pesquisadores relaci- região. O lendário e mítico, rico reino do Eldorado. franceses e holandeses. A expulsão do Maranhão dos franceses que ali tentaram estabelecer a
onam a história com cerimônias Inicialmente, as duas superpotências da época, Portugal e Espanha, obedeciam à divisão terri- França Equinocial alertou os portugueses para a importância da defesa da região. Assim, coube a
de índios da Colômbia, que se
torial estabelecida pelo Tratado de Tordesilhas, com as bênçãos da Igreja Católica. Por esse acor- Francisco Caldeira Castelo Branco fundar, em 1616, na foz do rio Amazonas, o Forte do Presépio
banhavam com o corpo coberto
de ouro em pó. do, grande parte do que hoje conhecemos como Amazônia brasileira pertencia aos espanhóis. que, além de proteger possíveis invasões estrangeiras por via fluvial, deu origem à atual cidade de
“drogas do sertão”
Somente no final da primeira metade do século XVI, no entanto, os espanhóis deram início ao Belém e serviu como base para o povoamento da Amazônia.
Castanha, cacau, tabaco,
reconhecimento da região. Era necessário alargar os domínios portugueses para oeste, para assegurar a exploração das
FIQUE POR DENTRO sal-saparrilha, frutos exóti-
A primeira expedição européia ao grande rio que corta a região foi realizada entre 1540 e 1542 riquezas ocultas da floresta. Para tanto, foi organizada uma grande expedição, decisiva para a con- cos, peles de animais e ou-
Entre as muitas peripécias
pelo destemido navegador espanhol Francisco de Orellana. O escrivão dessa expedição, Gaspar de quista portuguesa da Amazônia. Coube ao capitão Pedro Teixeira, em 1637, o comando da expedição tros produtos animais e
narradas por Gaspar de
Carvajal, fez os primeiros registros escritos sobre a floresta amazônica e sua diversidade de am- composta por cerca de duas mil pessoas, sendo a grande maioria índios. Apesar das dificuldades vegetais coletados por índios
Carvajal, escrevente espa-
e caboclos.
nhol, tornou-se especial- bientes e culturas. enfrentadas, ela conseguiu estabelecer marcos de ocupação territorial portuguesa ao longo do rio.
mente famoso o feroz ataque Além da proteção contra outros europeus, os fortes também serviam para estabelecer núcleos
que um grupo de mulheres OS FORTES de São José de
de povoamento a partir dos quais pudesse ser estabelecida a colonização. Na Amazônia, os princi-
guerreiras realizou contra a Marabitanas e São Joaquim aju-
pais recursos explorados pelos portugueses foram a mão-de-obra indígena e as drogas do sertão, daram no estabelecimento de
expedição de Orellana. Os es-
panhóis ficaram surpresos com especiarias de alto preço no mercado europeu. povoações como a de Rio Branco.
a coragem e habilidade daque-
las mulheres que pareciam
comandar os homens que
lutavam junto com elas. Isso
fez com que Carvajal se re-
ferisse a elas como as len-
dárias Amazonas, que, desde a
Grécia antiga, povoavam a
imaginação européia. Fantasia
ou não, desde então este rio
ficou conhecido como o “río de
las amazonas”. Nome que, além
de batizar a maior bacia fluvial
do mundo, também nomeou sua
imensa floresta: Amazônia.

ILUSTRAÇÃO representando
as Lendárias Amazonas.

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ÍNDIOS CAIAPÓS
Passou a predominar por toda a Amazônia o uso de uma língua geral, de origem Tupi, que au- PA R A S A B E R M A I S
civilizados,Pará, 1914. xiliava na incorporação dos índios à empresa colonial. A mestiçagem foi estimulada dando Para saber mais sobre as co-
origem à população cabocla, tão marcante nas terras amazônicas. munidades quilombolas,
mergulhe no Capítulo 6,
Calcula-se que, em 1740, havia cerca de 50 mil índios vivendo em aldeias formadas por jesuí-
“Povos indígenas e comuni-
tas e franciscanos. O inevitável resultado do processo de escravidão, imposto pelo colonizador ou
dades tradicionais”, Caderno 3.
por meio da ação dos jesuítas, foi a redução maciça da população indígena amazônica.

OS AFRICANOS
Pela dificuldade de aprisionamento e pela vulnerabilidade às doenças, os índios não se
adaptavam a muitas atividades econômicas necessárias ao colonialismo. A partir da segun-
da metade do século XVIII, assim como em outras regiões da colônia, a carência da mão-de-
obra foi suprida, ou pelo menos amenizada, com a chegada dos negros trazidos da África na
condição de escravos. No Baixo Amazonas, os negros foram empregados nas construções,
cada vez mais numerosas, nas plantações de cacau, na agricultura de subsistência e na
pecuária. Mas também, como no Nordeste, o negro incorporou-se ao ambiente das casas
senhoriais e nas atividades domésticas. Poucos subiam o Amazonas. A colonização por-
tuguesa que os transportava ainda se concentrava nas proximidades da foz do rio. Assim, a
presença dos negros na população amazônica ficou concentrada no Pará e no Amapá. Os
escravos negros que conseguiam fugir se embrenhavam pela floresta e criavam pequenas
PA R A S A B E R M A I S ESCRAVIDÃO INDÍGENA comunidades conhecidas como quilombos.
Para saber mais sobre a De uma área com uma multiplicidade de povos ameríndios que seguiam seu desenvolvimento
questão indígena, mergu- próprio, a Amazônia havia se tornado, em menos de dois séculos, território anexo ao reino por- AMAZÔNIA PORTUGUESA
lhe no Capítulo 6, “Povos
tuguês. Além de serem capturados pelos soldados portugueses, os índios amazônicos passaram a O estabelecimento do Tratado de Madri e o início da administração de Marquês de Pombal em
indígenas e comunidades
sofrer a ação dos missionários de diversas ordens religiosas que se dedicavam a convertê-los à fé Portugal, ambos ocorridos em 1750, marcaram uma nova fase na qual a Amazônia brasileira foi,
tradicionais”, Caderno 3.
cristã – boa parte da ação jesuítica dizia respeito à produção de riquezas com o emprego da mão- em linhas gerais, definida. Tr a t a d o d e M a d r i
de-obra indígena. Vale lembrar que, nessa época, o conhecimento que se possuía do interior do continente ame- O Tratado de Madri é um dos
Os diversos povos amazônicos resistiram o quanto puderam, mas a “avalanche” européia ricano ainda era muito impreciso. O Mapa das Cortes, elaborado a pedido do rei de Portugal, mais importantes tratados
trazia muitíssimas armas desconhecidas. Além de uma tecnologia mais avançada, os brancos serviu de base para as negociações do Tratado de Madri e possuía forte distorção do curso dos de limites da história di-
plomática brasileira porque
trouxeram doenças contra as quais os índios não possuíam resistência. Sarampo, gripe, tuber- rios que cortam as terras a oeste do Brasil. Essas distorções eram propositais, puxando o traça-
estabeleceu não só as bases
culose e outras enfermidades rapidamente se alastraram entre os grupos indígenas da região, do dos rios para leste, diminuindo artificialmente a área pretendida pelos portugueses – e
territoriais do Brasil, mas tam-
dizimando aldeias inteiras diante de pajés que não sabiam como curar aquelas moléstias cumpriram perfeitamente o objetivo de desorientar os negociadores espanhóis. bém definiu o princípio que
desconhecidas. Não menos importante do que o Tratado de Madri para a inauguração de uma nova fase da nortearia todas as questões de
história amazônica foi a administração empreendida pelo Marquês de Pombal. Tão logo subiu ao limites surgidas posterior-
Q U A I S E R A M A S A R M A S PA R A L U T A R C O N T R A E S S A A V A L A N C H E ? mente: o uti possidetis, segundo
poder, ainda em 1750, Pombal pretendia tirar Portugal da situação de atraso que experimen-
Logo de início ficou claro que nem mesmo toda a tecnologia européia seria capaz de superar as dificuldades o qual a terra pertencia ao país
tava frente às demais potências européias e da dependência da Inglaterra, país do qual recebia de origem dos homens que nela
apresentadas pelo povoamento da Amazônia. As enormes distâncias, a selva impenetrável, perigos de diferentes
proteção contra a França e a Espanha. morassem.
naturezas perturbavam quem quer que tivesse coragem de ali entrar. As doenças palustres ganhavam fama, as
Pombal criou a Companhia Geral do Comércio do Grão-Pará e Maranhão que deveria oferecer
condições climáticas se revelavam extremas para os europeus e o imenso esforço necessário para a extração
preços atraentes para as mercadorias ali produzidas a serem consumidas na Europa, tais como
das riquezas ocultas na floresta tornaram a Amazônia um lugar indomável, indecifrável, impiedosamente sel-
cacau, canela, cravo, algodão e arroz. Começou também a introduzir na Amazônia a mão-de-
vagem no imaginário do colonizador. Um “inferno verde”.
obra escrava de origem africana.

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PRAÇA DA REPÚBLICA ,
Belém, c. 1910.

Em 1759, Pombal determinou a expulsão dos jesuítas de Portugal e seus domínios, com o con- Em 1835, irrompia no Pará a Cabanagem, marcada por ataques e a tomada de Belém, onde foi IGREJA, casario e traçado

fisco de todos os seus bens. Os missionários, e em especial a Companhia de Jesus, eram acusa- proclamada a independência do Pará em relação ao Brasil. A Cabanagem não foi simplesmente de ruas de Manaus

dos de tentar criar um estado próprio dentro do reino português. uma revolta popular, era uma frente ampla que congregava burgueses nacionalistas insatisfeitos,
Pombal pretendia também consolidar o domínio português nas fronteiras do Norte e do Sul do militares que desejavam alcançar mais altos postos, políticos que queriam maior fatia de poder,
Brasil através da integração dos índios à civilização portuguesa. Essa jogada política garantiria o escravos que ansiavam pela liberdade, índios e mestiços movidos por séculos de dominação e Cabanagem
aumento das terras portuguesas de acordo com o Tratado de Madri. Por isso, proibiu a escravidão opressão portuguesa. Revolta que recebeu esse
indígena, transformou aldeias amazônicas em vilas sob administração civil e implantou uma legis- As lutas prosseguiram até 1840. No final, o saldo foi de 30 mil mortos entre rebeldes e legalis- nome devido a grande pre-
lação que estimulava o casamento entre brancos e índios. Consolidava-se assim a presença por- tas. Belém foi quase totalmente destruída e sua economia devastada. sença de homens simples,
que, por morar em cabanas,
tuguesa no imenso território que hoje constitui o Brasil. A Amazônia brasileira permaneceria ainda por muitos anos mergulhada em uma situação de
eram chamados ‘cabanos’.
grave decadência econômica e social. Somente com a criação da Província do Amazonas, em
AMAZÔNIA BRASILEIRA 1850, por desmembramento do Grão-Pará, e os primeiros movimentos de valorização da bor-
Na metade do século XIX, findo o período das “drogas do sertão” e iniciada uma ocupação mais racha extraída da seringueira, a região experimentaria um novo alento.
sistemática da Amazônia, temos uma nova base cultural estabelecida. A fronteira do território da
Amazônia brasileira permaneceria móvel até o início do século XX, quando os contornos políticos CICLO DO “OURO NEGRO”
do Brasil seriam definidos com a conquista dos territórios do Amapá e de Roraima, ao Norte, e do Outro momento marcante para a “criação” da Amazônia brasileira foi propiciado pela Revolução
Acre, no extremo Oeste. Industrial. A vulcanização da borracha, substância que só existia na floresta amazônica e que pas-
Estes extremos, especialmente as regiões dos altos rios, na parte mais ocidental da floresta, sou a valer ouro negro, o motivou uma intensa migração de homens vindos de todas as partes do Ouro negro
permaneciam como área de refúgio dos primeiros habitantes, os povos indígenas mais arredios mundo. Fascinados pela promessa de riqueza, novas levas de europeus atravessaram o oceano, Neste período o látex ex-
que não foram incorporados aos empreendimentos colonialistas, nem de Portugal nem da aventuraram-se em cidades e vilas até então isoladas na floresta. O contingente mais numeroso traído das seringueiras pas-
Espanha. Esta Amazônia profunda retinha suas riquezas em segredo e realimentava o mito do era de sírio-libaneses, especializados no comércio, mas vieram também italianos, franceses, por- sou a ser conhecido com
ouro negro, assim chamado
“inferno verde”. tugueses e ingleses em grande número.
pela cor escura das “pelas”
(bolas) de borracha defumada.
A CABANAGEM E A CRISE DA ECONOMIA COLONIAL A VINDA DOS NORDESTINOS
A adesão do Pará à independência do Brasil, em 1823, provocou forte frustração nacionalista da A borracha estava na floresta, espalhada em longas distâncias habitadas por índios. Era
parte da elite amazônica, que se ressentia de ter sido afastada das decisões políticas e econômi- necessário colhê-la nas árvores, ainda líquida, defumá-la até ficar sólida, transportá-la até as
cas do país. O poder, no Império brasileiro, continuaria concentrado nas mãos dos conservadores margens dos rios e daí para o comércio nas cidades, um trabalho penoso e perigoso, que só pode-
que exploravam o Pará desde o tempo da colônia. ria ser realizado por um exército de homens acostumados à vida mais rude. Esse exército veio do

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DECLÍNIO DO CICLO DA BORRACHA
A euforia econômica proporcionada pela borracha amazônica – que chegou ao posto de segundo
produto da pauta de exportações brasileira, só perdendo para o café – foi efêmera. Em menos de
três décadas a velha pirataria européia conseguiu destruir todos os sonhos de grandeza amazôni-
ca. Um biopirata inglês contrabandeou da Amazônia grande quantidade de sementes de Biopirataria
seringueiras para o Jardim Botânico de Londres. Rapidamente se descobriu que as mudas de Comércio ilegal de seres
seringueira obtidas das sementes contrabandeadas se adaptavam perfeitamente na Ásia. Logo os vivos. Para saber mais so-
bre as questões que envol-
ingleses implantaram enormes seringais de cultivo no sudeste asiático, racionalizando e moder-
vem a biopirataria, mergulhe
nizando a produção da borracha. Assim conseguiram reduzir de forma drástica os custos de pro-
no Capítulo 3, “Ecologia dos
dução, que, na Amazônia, eram extremamente altos, e derrubaram os preços internacionais. ecossistemas”, neste Caderno.
A rede de crédito do sistema de aviamento era como um castelo de cartas que desabou inteiro, uma
vez que foi rompido pelos grandes compradores internacionais.

E OS SERINGUEIROS?
Nas décadas de 1920 e 1930, milhares de seringueiros nordestinos abandonaram os seringais e voltaram derro-
AS CASAS AVIADORAS
tados para suas regiões de origem. A Amazônia brasileira se despovoou e entrou em um novo ciclo de decadên-
utilizavam os jornais para
cia econômica. Na crise, a agricultura passou a ser utilizada e isso fez com que práticas e conhecimentos dos anunciar suas atividades,
nordestinos se fundissem aos conhecimentos da agricultura indígena. como nestes, de 1884.

UMA ETAPA de preparação do Nordeste do Brasil, empurrado pela miséria e pelas grandes secas, como as de 1877 e 1878. Antes
látex. Todos os membros das que o século findasse, mais de 300 mil nordestinos, principalmente do sertão do Ceará, migraram
famílias participavam da
para a Amazônia.
tarefa de transformar o leite
da seingueira em látex. Nos seringais, esses homens valiam menos que os escravos. Na outra extremidade da sociedade
regional, os seringalistas e grandes comerciantes usufruíam da riqueza fácil proporcionada pela
borracha. Essa evidente contradição no quadro social do Ciclo da Borracha se devia a um perver-
so sistema de exploração, que consumiu a vida de milhares de homens. O sistema de aviamento se
constituía numa rede de créditos e se espalhou nos imensos seringais que foram abertos em todos
os vales amazônicos.

SISTEMA DE AVIAMENTO
SERINGUEIROS S E R I N GA L I S TA S CASAS AVIADORAS E X P O RTA D O R A S
Eram obrigados a comprar a Compravam a crédito (avia- Estabelecidas principalmente Na maioria de origem inglesa
crédito somente dos seus se- vam) das Casas Aviadoras, em Belém e Manaus, compra- ou alemã, as exportadoras se
ringalistas tudo de que nece- todas as mercadorias que ven- vam das firmas exportadoras capitalizavam nos bancos eu-
ssitavam para sobreviver: ali- diam para os seringueiros. as mercadorias que forneci- ropeus e norte – americanos BATALHA DA BORRACHA
mentos, roupas e ferramentas.
> Pagavam com a produção anual
> am aos seringalistas e pa-
> para financiar o sistema de Durante a Segunda Guerra Mundial, no final de 1941, os países aliados não tinham mais acesso Reservatório natural

Pagavam suas dívidas com a do seringal. gavam as exportadoras com a aviamento e obtinham um ex- à borracha asiática e necessitavam desta matéria-prima principalmente para a indústria bélica. As Seringueiras prontas para a
borracha produzida. produção dos seringais. traordinário lucro com a ven- produção de 800 mil tone-
autoridades norte-americanas entraram em pânico e voltaram suas atenções então para a
da da borracha nos mercados ladas de borracha anuais,
Amazônia, o grande reservatório natural da borracha. Entretanto, seriam necessários, pelo mais que o dobro das neces-
industrializados.
menos, cem mil novos trabalhadores para reativar a produção amazônica até o nível desejado. sidades norte-americanas.

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AS CASAS de comissões conti-
nuavam atuantes como mostram
os anúncios de 1942.
Na página ao lado: cartazes de
Jean Pierre Chabloz, para o Semta,
convocando trabalhadores para o
Ciclo da Borracha, 1943; e traba-
lhadores nordestinos, especial-
mente do Ceará, recrutados para
a “batalha da borracha”, durante
a Segunda Guerra Mundial.

Ficou acertado então que o governo americano passaria a investir fortemente no financiamento
da produção de borracha amazônica, enquanto ao governo brasileiro caberia o encaminhamento de
milhares de trabalhadores para os seringais, o que passou a ser tratado como um heróico esforço
de guerra. Só de Fortaleza, no Ceará, cerca de 30 mil flagelados da seca de 1941-42 foram envia-
dos imediatamente para os seringais.
Em todas as regiões do Brasil, aliciadores tratavam de convencer trabalhadores a se alistar
como soldados da borracha para auxiliar na vitória aliada. Dizia-se que “na Amazônia se junta di-
nheiro com rodo”. Os velhos mitos do eldorado amazônico voltavam a ganhar força no imaginário
popular, agora considerado o paraíso verde, a terra da fartura, onde a seca não tinha vez.
O contrato de trabalho, que não devia repetir os abusos do sistema de aviamento assinado entre
seringalista e soldado da borracha, quase nunca foi respeitado. A não ser para assegurar os direi-
FIQUE POR DENTRO
tos dos seringalistas. Todas as tentativas de implantação de um novo regime de trabalho, como o
Muitas famílias do sertão
fornecimento de suprimentos direto aos seringueiros, fracassaram diante da pressão e poderio das
nordestino tiveram que es-
colher se seus filhos par- casas aviadoras e dos seringalistas, que continuavam dominando o processo da produção de bor-
tiriam para os seringais como racha na Amazônia.
soldados da borracha ou então O crescimento da produção de borracha na Amazônia nesse período foi infinitamente menor do
seguiriam para o front para
que o esperado. Isso levou o governo norte-americano, tão logo a guerral chegou ao fim, a se
lutar contra os italianos e
alemães. Muitos preferiram a apressar em cancelar todos os acordos referentes à produção de borracha amazônica. Era o fim da
Amazônia. Batalha da Borracha, mas não da guerra travada por seus soldados.

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AOS SOLDADOS da borracha
PA R A S A B E R M A I S > O resultado destas frentes de expansão simultâneas foi a formação da maior fron-
caberia aumentar a produção de
teira pioneira da história da humanidade, com área total superior a 200 milhões de hectares (2 milhões de km 2),
látex na Amazônia recebendo em
troca isenção do serviço militar em apenas 40 anos. Esta é a região hoje conhecida como “Arco do Desmatamento”, envolvendo mais de cem
e tratamento de ex-combatentes. municípios. Nesta área, se encontram mais de 90% da área desmatada da Amazônia. A fronteira pioneira é a
região de maiores conflitos fundiários e de maior impacto sobre o meio ambiente.

O período do “milagre econômico” acelerou ainda mais a velocidade dos investimentos em infra-
estrutura. Teve início a construção da Transamazônica, que deveria integrar todo o sul da Amazônia
ao cortá-la no sentido leste-oeste, assegurando, pelo menos em teoria, o controle brasileiro da
região. A expansão da fronteira pioneira na Amazônia aconteceu simultaneamente em diversas
frentes, com a abertura de várias estradas e grandes projetos de colonização.

“TERRAS S E M H O M E N S PA R A H O M E N S S E M T E R R A”
Com este discurso o presidente Emílio Médici prometeu resolver o problema do Nordeste, oferecen-
do terras amazônicas. Estabeleceu então o PIN (Plano de Integração Nacional) segundo o qual deve-
riam ser reservados 100 km de cada lado da estrada para o assentamento prioritário de nordestinos.
Ao mesmo tempo, a Sudam começou a aprovar grandes projetos agropecuários e o Incra
(Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) aumentou o índice de distribuição de terras
PA R A O N D E F O R A M O S S O L D A D O S D A B A T A L H A D A B O R R A C H A ?
para os fazendeiros. Isso fez com que a taxa de desmatamento subisse assustadoramente.
Muitos, imersos na solidão de suas colocações no interior da floresta, sequer foram avisados de que a guerra
Apesar dos amplos financiamentos concedidos, na época – que abrangiam a mineração na serra
tinha terminado, só vindo a descobrir isso anos depois. Alguns voltaram para suas regiões de origem como
haviam de lá partido, sem um tostão no bolso. Outros conseguiram criar raízes na floresta e ali construir suas dos Carajás, a construção de hidrelétricas, a implantação do pólo tecnológico e industrial da Zona

vidas. Poucos conseguiram tirar algum proveito econômico dessa batalha incompreensível, aparentemente sem Franca de Manaus e a construção de rodovias – o resultado mais evidente da nova política desen-

armas, sem tiros, mas com muitas vítimas. volvimentista não foi a prosperidade econômica da Amazônia, mas a degradação e o acirramento
das relações sociais em toda a região.

PERÍODO DA DITADURA MILITAR: NOVA POLÍTICA


DESENVOLVIMENTISTA
O início deste período, em meados de 1960, trouxe novas e profundas modificações para a
Amazônia. Os militares, amparados por um suposto perigo eminente de internacionalização, inicia-
ram um período marcado pela implantação de grandes projetos que, segundo se dizia, visavam
desenvolver economicamente o Norte do país.

FIQUE POR DENTRO “INTEGRAR PA R A N Ã O E N T R E GA R ”


Esse era o discurso oficial do governo militar, estimulando um novo movimento de ocupação da
Foi nesta época que se criou
o conceito de Amazônia Amazônia a partir de grandes projetos mineradores, madeireiros e agropecuários. Para tanto, em
Legal. Os estados e cidades 1965, o presidente Castelo Branco anunciou a Operação Amazônia e, em 1968, criou a Sudam
que pertenciam a essa nova (Superintendência para o Desenvolvimento da Amazônia) com amplos poderes para distribuir
delimitação da Amazônia po-
incentivos fiscais e autorizar créditos para investimentos na indústria e na agricultura. O objetivo UMA DAS ETAPAS da construção da
diam participar do plano de
incentivos fiscais e obtenção principal era criar pólos de desenvolvimento espalhados por toda a bacia amazônica, expandindo a rodovia Transamazônica em Marabá
de créditos. fronteira pioneira. (PA), em 1983, marco de desperdício
da economia amazônica.

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CENÁRIO DO DESMATAMENTO: DEGRADAÇÃO AMBIENTAL
"Lago de madeira", Cruzeiro provocada pelo garimpo de ouro
do Sul / AC. na Amazônia/Pará.

A FLORESTA: UM BEM AMEAÇ ADO


PA R A S A B E R M A I S > Em 1980, Wilson Pinheiro, presidente do Sindicato de Trabalhadores Rurais de
A ocupação ocorrida no período militar teve características distintas das anteriores. Antes, os
Brasiléia, foi assassinado, assim como outras lideranças populares, sem que a opinião pública brasileira sequer
colonizadores buscavam a região para explorar as riquezas da floresta, e agora querem a terra
tomasse conhecimento da situação.
para expandir a agricultura e a pecuária. O modelo de latifúndio dos seringais, até então dominante
na Amazônia, propiciava a permanência dos trabalhadores na floresta. O novo latifúndio, a fazenda
para criação de gado, promovia a chamada “limpeza do terreno”, ou seja, a retirada da floresta e Para responder a isso, em 1985 foi criado o CNS. Surge então uma forte consciência de que a CNS
do povo que lá vivia. devastação da floresta amazônica não era somente uma questão ambiental, mas social. O discur- Conselho Nacional dos Se-
Repentinamente, índios, seringueiros, ribeirinhos e colonos viram suas terras invadidas e devas- so de líderes como Chico Mendes começou a apontar na direção da formação de uma aliança dos ringueiros, entidade que,
tadas em nome de um novo tipo de progresso que transformava a floresta em terra arrasada. povos da floresta, que reunisse todas as populações tradicionais da Amazônia em defesa de seu apesar do nome, reunia
também outros setores popu-
bem comum: a grande floresta. Se índios e seringueiros haviam sido inimigos durante o primeiro
lares da Amazônia, tais como
A ALIANÇ A DOS POVOS DA FLORESTA ciclo da borracha, agora precisavam se unir para lutar contra o inimigo comum. os índios, os ribeirinhos, e os
A partir de 1975, as populações tradicionais da floresta começaram a se organizar e a desen- Porém, nem toda a notoriedade e legitimidade obtidas pelo movimento dos povos da floresta castanheiros, dentre outros.
volver diferentes estratégias de resistência. Foram fundados os primeiros sindicatos de traba- impediram que seus líderes continuassem a ser mortos. Em 1988, Chico Mendes foi assassina-
lhadores rurais no Acre e em outros estados da Amazônia. Em muitos lugares, os segmentos mais do dentro de sua própria casa, apesar da proteção de dois policiais que o acompanhavam 24
progressistas da Igreja Católica reforçaram a luta popular a partir das Comunidades Eclesiais de horas por dia.
Base. Intelectuais, artistas, estudantes e trabalhadores em geral criaram organizações civis e um Nesse momento, o movimento ambientalista mundial já havia tornado Chico Mendes uma figura
intenso movimento social se verificou nas cidades de várias regiões fortemente impactadas pela pública conhecida e reconhecida em todo o mundo por sua luta em defesa da floresta e de suas
política oficial. populações tradicionais. Sua morte desencadeou enorme pressão sobre os organismos financeiros
Não foi uma luta fácil, nem rápida. Apesar de os trabalhadores rurais possuírem formas pacífi- internacionais, que foram obrigados a rever seus critérios de investimento na Amazônia, levando o
cas de luta, como a realização de embates com a participação de mulheres e crianças para impedir governo brasileiro a mudar a política de desenvolvimento da região.
as derrubadas da floresta, os conflitos foram se tornando cada vez mais explosivos e perigosos. A Amazônia passou a ser respeitada por sua importância, não só para o Brasil, mas para o mundo.

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D E S A F I O S PA R A O D E S E N V O LV I M E N T O S U S T E N TÁV E L A Ç Õ E S PA R A U M F U T U R O S U S T E N TÁV E L

O resultado deste complexo processo de ocupação da Amazônia é um dos traços marcantes da Selecionamos para este capítulo dois exemplos de gestão que estão dando certo, com o objetivo PA R A S A B E R M A I S
região: a diversidade social. Alcançou-se a consciência de que a Amazônia não é somente um lugar de demonstrar ações inovadoras que vêm sendo implementadas na Amazônia pela mediação do Para saber mais sobre as
privilegiado da biodiversidade, mas também o lugar da sociodiversidade. governo federal, dos governos estaduais e de organizações da sociedade civil, tanto na formulação Unidades de Conservação e
Porém, ainda são poucos os que percebem que dentro dessa floresta, ao mesmo tempo indomá- de políticas públicas quanto na gestão de Unidades de Conservação. a história de Chico Mendes,
mergulhe no Capítulo 9,
vel e frágil, moram populações tradicionais que desenvolveram modos de vida compatíveis com as
“Áreas Legalmente Protegi-
características especiais desse ecossistema. A história da Amazônia nos revela, também, que esse R E S E R VA E X T R AT I V I S TA ( R E S E X ) C H I C O M E N D E S , N O A C R E das”, Caderno 3.
processo faz parte da construção de uma consciência ambiental e social mais equilibrada. A Reserva Extrativista Chico Mendes, criada em 1990, é a Unidade de Conservação desta
Apesar do imenso potencial, alguns fatores se colocam como desafios para o alcance dos obje- modalidade que conta com a maior extensão territorial: 921.064 hectares. A Reserva abrange seis
tivos de um desenvolvimento sustentável da Amazônia, e dentre eles destacamos: municípios acreanos: Assis Brasil, Brasiléia, Capixaba, Xapuri, Sena Madureira e Rio Branco.
> Baixos níveis educacionais, com parcela significativa de populações analfabetas e de crianças A Resex Chico Mendes possui um Plano de Utilização, elaborado por seus moradores e aprova-
sem acesso à escola. do pelos órgãos ambientais, cujo objetivo é assegurar a sustentabilidade da utilização dos recur-
> Grave quadro de desorganização fundiária, do qual derivam sérios conflitos pela posse da terra, sos naturais. É também através do Plano que os moradores manifestam seu compromisso em
determinando a expulsão de populações tradicionais que passam a engrossar frentes migratórias respeitar a legislação ambiental e que o órgão fiscalizador, o Ibama (Instituto Brasileiro de Meio
para a periferia das cidades. Ambiente) verifica o cumprimento do que foi acordado. Dessa forma, os moradores da Resex são
Diante desta situação, programas de inclusão social no meio urbano e rural, na Amazônia, os responsáveis pela implementação do Plano e pela gestão dos recursos naturais.
devem estar diretamente associados à geração de emprego e renda e à questão da sustentabili-
dade. A criação e consolidação de Reservas Extrativistas, Reservas de Desenvolvimento
CHICO MENDES, inesquecível
Sustentável e a Demarcação das Terras Indígenas são iniciativas que asseguram o bem-estar
seringueiro que dedicou
social e cultural das populações tradicionais e a manutenção dos estoques florestais e de biodi-
toda a sua vida à defesa dos
versidade por elas geridos. trabalhadores e dos povos
No entanto, devido às proporções territoriais da região, o controle e manutenção desses progra- da floresta.

mas requerem uma cooperação que passa pelo sistema de parcerias entre todas as organizações
e instituições envolvidas com a Amazônia.

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M O S A I C O D E U N I D A D E S D E C O N S E R VA Ç Ã O D O L A G O D E T U C U R U Í , N O PA R Á USINA HIDRELÉTRICA
de Tucuruí no estado do Pará.
O Mosaico de Tucuruí é uma demonstração de que é possível combinar diferentes modalidades
de conservação e assegurar que, tanto a natureza quanto a sociedade sejam beneficiados.
Na APA (Área de Proteção Ambiental) são permitidas atividades econômicas e de lazer, mas com
algumas restrições.
A criação deste mosaico de UCs (unidades de conservação) teve início a partir de uma demanda
das populações locais, que solicitaram a criação de uma Reserva Extrativista, visando proteger a
biodiversidade da região e regularizar a situação fundiária. Sérios problemas sociais e ambientais
foram causados quando foi fechada a barragem de Tucuruí e o nível das águas do Tocantins subiu
cerca de 60 m inundando uma grande área e desalojando cerca de 4.500 famílias.
A iniciativa das populações locais contou com o apoio da Eletronorte, empresa que construiu e
opera a usina. Em 1997, foram realizados estudos técnicos para fundamentar as propostas de cria-
ção das Unidades de Conservação. Em 1999, os moradores se mobilizaram contra a intensificação
das atividades econômicas predatórias sobre as florestas e estoques de peixes e pelo reconheci-
mento de suas posses nas ilhas do lago. Foi então criada uma comissão composta por diferentes
representantes. A comissão conseguiu criar mecanismos de gestão compartilhada dos recursos
naturais através de um mosaico de Unidades de Conservação.

PA R A S A B E R M A I S > O mosaico de Unidades de Conservação do Lago de Tucuruí é constituído de duas


Reservas Estaduais de Desenvolvimento Sustentável, criadas pelo governo do estado do Pará, a RDS Alcobaça,
com 36.128 hectares e a RDS Pucuruí-Ararão, com 29.049 hectares, que ficam, ambas, dentro do perímetro de
uma outra Unidade de Conservação de Uso Sustentável, a Área de Proteção Ambiental Lago de Tucuruí, com
586.667 hectares, e abrange todo o espelho d’água do lago e suas margens. Com isso, todo o lago criado pela
construção da Usina Hidrelétrica de Tucuruí é uma área legalmente protegida.

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TRABALHANDO COM O TEMA

As atividades sugeridas a se- S U G E S TÃ O PA S S O A PA S S O SEGUNDO MOMENTO origens. Organize com eles um esquema de perguntas que vise
guir estão relacionadas à pro- > ANTES DE ASSISTIR AO PROGRAMA | SENSIBILIZAÇÃO PARA O TEMA > Assista o programa com a turma. suprir as informações que considerem importantes. Ex: nome,
posta metodológica de edu- nacionalidade de origem, data aproximada em que vieram
cação ambiental apresentada I M P O R T A N T E > O número de aulas ou encontros necessários para TERCEIRO MOMENTO morar na região, motivo da mudança. Alerte quanto a tentar
no caderno 1 do kit. A leitura o desenvolvimento das etapas propostas aqui dependerá das dife- > Reflexões sobre as imagens e conteúdos do programa. montar as informações dentro de uma ordem cronológica, bus-
desse caderno ajudará no rentes realidades e interações com os alunos. cando construir uma árvore genealógica.
desenvolvimento de um projeto de educação ambiental que LEITURA DE IMAGEM

procura considerar, trabalhar e avaliar as particularidades de PRIMEIRO MOMENTO Este programa mostra um resumo da história da região amazônica, QUINTO MOMENTO
cada contexto. Questionando o porquê e para que implementar > Pergunte aos alunos quem já ouviu falar em árvore seus ciclos e as pessoas que fizeram parte dessa história. > O professor irá construir, em uma folha de papel pardo,
uma proposta dessa natureza. genealógica e se sabem o que é. Deixe que eles falem o que Uma forma de realizar a “leitura de imagem” é lembrar com os alunos uma linha do tempo da história da ocupação da Amazônia a par-
É importante lembrar que as atividades que se seguem são pensam ser isto. como o programa começa, e ir, cena a cena, reconstruindo-o e regis- tir das informações trazidas pelos alunos.
apenas algumas sugestões possíveis de estruturar o modo > Junto com o grupo construa o conceito do que é arvore trando e discutindo as informações associadas a cada cena. Registre > Pergunte as datas das viagens dos antepassados mais anti-
tudo no quadro. Assim, estaremos “reconstruindo”, cronologicamente,
como trabalhar no cotidiano da sala de aula com esses temas, genealógica. gos que conseguiram pesquisar. Marque na linha (deixe um
a história da Amazônia.
aliados a uma prática educacional que valoriza a interdiscipli- > Distribua uma folha em branco para cada aluno e peça que pequeno espaço inicial da linha em branco) a data mais antiga, a
Para ajudar nesse processo, o professor pode evocar algumas imagens
naridade, a transdisciplinaridade e a expressão dos conteúdos escrevam na parte de baixo do papel o nome de cada um e o origem desse antepassado e o motivo de sua mudança. Faça um
para que os alunos lembrem dos conteúdos associados a elas. Por
através de diferentes linguagens artísticas. lugar onde nasceu. Depois, que puxem para cima duas linhas e paralelo com o momento histórico. Continue perguntando quem
exemplo: quais mapas aparecem no programa? O que é falado sobre
Esperamos que essas sugestões de atividades se somem escrevam na ponta de cada uma o nome da mãe e do pai (ou dos tem exemplos de uma data próxima à anterior e vá selecionando
eles? Ou ainda: quais são os fortes que aparecem no programa? Você
ao trabalho já desenvolvido por cada instituição e educador... responsáveis) e os seus lugares de origem. os exemplos conforme o seu interesse para construir uma linha
conhece algum deles? Lembrar das imagens é mais fácil e ajuda a
que sirva como inspiração para que cada um crie e recrie da > Divida ao meio o quadro negro ou uma folha de papel pardo, do tempo que ilustre o processo de ocupação da Amazônia.
lembrarmos dos conteúdos.
sua forma. com um traço e peça para que cada um leia em voz alta a sua > Quando a linha estiver completa, até o presente, pergunte
Organizamos as sugestões de duas formas diferentes. A pri- naturalidade e a dos seus pais. Escreva de um lado as naturali- se alguém sabe quem morava na Amazônia antes da data mais
QUARTO MOMENTO
meira segue passo a passo um processo de trabalho com uma dades dos alunos e do outro as dos pais. antiga marcada na linha do papel. Converse um pouco sobre os
proposta determinada, na qual as etapas são cuidadosamente > Façam, em conjunto, uma análise dos locais de origem que > Relembre com a turma a primeira atividade e faça um para- primeiros habitantes. Faça com que marquem na linha a
descritas exemplificando um desencadeamento de idéias. A se- apareceram e o número de vezes que cada uma delas aparece. lelo com o programa assistido. existência desses habitantes e proponha que a turma se orga-
gunda sugestão indica outras possibilidades de trabalho com o Levante questões que ajudem a refletir sobre os resultados > Sugira que cada um pesquise um pouco mais a sua árvore nize em grupos para pesquisar mais sobre os diferentes mo-
tema que podem complementar a proposta principal, substi- apresentados. genealógica, realizando entrevistas com os parentes para ten- mentos históricos do processo de ocupação da região, com o
tui-la ou somente provocar novas idéias nos professores. tar descobrir os seus antepassados mais distantes e as suas objetivo de produzir um livro com essa história.

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BIBLIOGRAFIA
> Divida a linha do tempo em grupos e peça que cada um procurando torná-la mais clara e esteticamente agradável. No BENCHIMOL, Samuel. Amazônia: Formação social e cultural, Manaus: Valer / Universidade do Amazonas, 1999.
COMISSÃO PRÓ-ÍNDIO DO ACRE (org.). História indígena. Rio Branco (RR): Comissão Pró-Índio do Acre, 1996.
fique responsável por pesquisar o período que lhe coube e lugar do seu próprio nome podem elaborar um auto-retrato.
CUNHA, Euclides da. Um paraíso perdido (org. Leandro Tocantins), Rio de Janeiro: José Olympio / Governo do Estado do Acre, 1986.
escrever um capítulo da história. > Convidem toda a escola e os pais dos alunos para a inaugu- CUNHA, Manuela C. e ALMEIDA, Mauro B. (orgs.). Enciclopédia da floresta – O Alto Juruá: práticas e conhecimentos das popu-

ração da exposição. lações, São Paulo: Companhia das Letras, 2002.


MARTINELLO, Pedro. A “Batalha da Borracha” na Segunda Guerra Mundial e suas conseqüências para o Vale Amazônico, São Paulo:
SEXTO MOMENTO
Ufac, 1988 (Cadernos Ufac n.1).
> Cada grupo deverá ler para a turma o texto produzido. A lei- OUTRAS SUGESTÕES MARTINS, Edílson. Amazônia, a última fronteira, Rio de Janeiro: Codecri, 1982.

tura pode respeitar a ordem cronológica da linha do tempo. > Montar com a turma uma peça teatral que dramatize o MORAN, Emilio F. A ecologia humana das populações da Amazônia. Petrópolis (RJ): Vozes, 1990.
PROUS, André. Arqueologia brasileira, Brasília: EdUnB, 1992.
> Peça para que cada grupo releia o seu texto procurando dar processo histórico de ocupação da Amazônia.
RENARD-CASEVITZ, France-Marie. História Kampa: Memória Ashaninca, organização de Manuela C. Cunha in História dos índios
atenção à correção ortográfica e que façam um desenho ilus- > Propor que cada aluno faça a sua linha do tempo, desde quan- no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

trando a história contada. Se preferir, pode trocar os textos do nasceu até o dia presente, lembrando as suas datas mais mar- SMITH, Anthony. Os conquistadores do Amazonas: quatro séculos de exploração e aventura no maior rio do mundo, São Paulo:
Best Seller, 1994.
entre os grupos de modo que cada um corrija um texto produzi- cantes. Essa linha pode misturar textos, desenhos e fotos.
do por outro grupo. > Elaborar com a turma um grande painel com o mapa da Ama-
> Juntem os textos para formar um livrinho. zônia que expresse o resultado do processo histórico de ocupação
da Amazônia: a diversidade étnica de sua população amazônica.
Misturar técnicas diferentes, como desenho, pintura e colagem.
DICA > Existem várias formas de juntar os textos e desenhos; gram-
peando, colando, amarrando com barbante ou similar. O acabamento
pode ser de pano, folhas secas ,papel colorido, reciclado, etc. Deixe a I M P O R T A N T E > As atividades práticas/teóricas e a proposta pe-
dagógica sugeridas nesse capítulo mesclam conteúdos de diferentes
sua imaginação livre para criar. Não esqueça da capa e da folha dos
disciplinas. Elas podem fazer parte de um projeto integrado, quando
autores e referências bibliográficas.
cada educador desenvolve suas especificidades ou ser desenvolvidas
por um único educador.
É importante elaborar um projeto de trabalho que estabeleça metas e
SÉTIMO MOMENTO objetivos, criando um encadeamento das atividades, passo a passo,
> Proponha, como forma de socialização do trabalho, uma mesmo que durante o trabalho ele seja alterado. A intenção e o profunda-
exposição com a linha do tempo construída com um pedaço da mento do trabalho dependerá das prioridades e necessidades do grupo.
história de cada livrinho produzido pela turma e as árvores Esteja aberto para as propostas e demandas dos alunos, todo pla-
nejamento pode e deve ser revisto e avaliado.
genealógicas elaboradas por cada um.
> Sugira que cada aluno reveja a sua árvore genealógica,

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