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A Concretização da Revolução Burguesa

Florestan Fernandes afirma que o conceito de Revolução Burguesa está intrinsecamente


relacionado ao desenvolvimento capitalista, que gera um conjunto de transformações sociais,
econômicas, tecnológicas, psicoculturais e políticas. É possível identificar tanto um ponto de
chegada quanto um ponto de partida, porém estes são difíceis de se identificar.
O autor acredita que não houve uma crise do poder oligárquico, e sim uma
recomposição da estrutura do poder, configurando-se em uma dominação burguesa, dando
início à modernidade no Brasil. Levando à separação da era senhorial da era burguesa.
A modernidade se dá de forma lenta e gradual, de maneira frouxa e imprecisa, não se
estendendo ao todo, mas de forma restrita, levando à continuidade das velhas formas que
reservavam privilégios. De acordo com o autor, a Primeira República preservou as condições
que permitiam, sob o Império, a coexistência de “duas Nações”, aquela que se incorporava à
ordem civil (a minoria da população), e a que estava excluída de modo parcial ou total (a
grande maioria). Florestan afirma que esta burguesia limitava a modernização apenas ao
âmbito econômico e empresarial.
A revolução não buscava envolver toda a nação, e ultrapassava os limites não para
alcançar a civilidade, mas sim para demonstrar civilidade. As antigas estruturas de poder
teriam algo de orgânico ao tentar se adaptar às mudanças do tempo, visando à permanência no
poder. Isto torna o efeito modernizador do tempo irrelevante, sendo um problema evidente na
vida nacional.
Para Florestan, uma peculiaridade da burguesia nacional em relação às outras burguesias
está no fato de que a dominação social burguesa se dá no campo político, enquanto que as
outras tentam criar instituições próprias de poder que permitam o controle social, utilizando o
estado apenas em arranjos mais complicados.
Através desse método, a oligarquia conseguiu manter seu poder através da transição,
modernizando-se quando necessário e irradiando-se quando as oportunidades surgiam. A
burguesia, para concretizar os seus objetivos, adota os mesmos métodos, exercendo-os por
toda a extensão territorial.
Esta situação, para Florestan Fernandes, colocava o país num ponto morto que o
entrava, em contraponto com a influência modernizadora externa. Esta, por mais forte que
fosse não se estendia ao campo da difusão de valores, técnicas e instituições instrumentais
para a criação de uma economia capitalista competitiva. Sendo assim o impulso modernizador
era anulado antes de se tornar elemento verdadeiramente revolucionário, capaz de converter a
modernização econômica em um salto histórico de maior relevância.
Florestan afirma que a burguesia se associa a procedimentos autocráticos. Havia um
acordo mantido entre as elites das classes dominantes de reforçar o caráter autocrático,
mesmo que se fosse contra a filosofia da livre imprensa, as bases legais da ordem e os
mecanismos do Estado representativo. Isso gerava um conflito que acontecia no interior dos
setores dominantes e dirigentes, contribuindo para o enfraquecimento da dominação burguesa,
evitando que ela se concretiza-se de maneira monolítica e invulnerável.
Através desse conflito, começa-se a efetivar o aparecimento de uma oposição no interior
da ordem. A eclosão do regime de classes pulverizou os interesses das classes dominantes e
ampliou o cenário de conflitos potencias, tornando possível o aparecimento de uma “oposição
de baixo para cima”, difícil de controlar e fácil de se converter em uma oposição contra a
ordem.
Florestan afirma que essas mudanças foram toleradas quando vindas do ápice da
sociedade, mas foram intolerantes com as mudanças vindas da base, mobilizando todas as
suas forças de repressão para inviabilizar que as forças populares se concretizassem, mesmo
que dentro da ordem e um espaço político próprio.
O autor afirma que a luta de classes e a repressão do proletariado foram o eixo da
Revolução Burguesa no Brasil. Partindo deste conceito, a oligarquia também definiu quem
deveria ser o inimigo comum no presente, assalariados e semiassalariados da cidade e do
campo. Assim, a burguesia conseguia proteger protegia as fontes de acumulação pré-
capitalista e o modelo de acumulação capitalista, possibilitando a revolução urbano-comercial
e a mudança para o industrialismo.