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NOTA LEGAL

Esta não é uma obra virtual autorizada. Portando armazenar, divulgar, imprimir pode
trazer responsabilidades legais perante o detentor dos direitos autorais da obra de
Gustavo Corção que não quer que o autor seja lido.

Os admiradores de Gustavo Corção talvez achem esse um risco pequeno a se correr.


Vale a pena ler Gustavo Corção!
Este livro inclui os principais escritos sôbre o
assunto até agora publicados pelo autor, a maioria
como artigos de ;ornal.
O primeiro trabalho apresentado aqui é a con-
ferência pronunciada por Gustavo Corção na sede da
V.D.N. em 1950, a nosso ver sua mais importante con-
tribuição pora uma formação cívica mais generosa,
mais equilibrada e mais fina do que aquela que se
nutre de orgulhos nacionais ou de ressentimentos
pessoais.
Os demais são escritos ou artigos que abordam
o mesmo tema sob outras perspectivas e que enca-
minham a formação do verdadeiro patriota para o
panorama internacional em que também se inscreve,
como contexto necessário, o problema inicialmente
trotado da relação do homem com suo pátria, seu
povo e sua família.
(*) "Conferência pronunciada na sede da U.D.N., em 1950.
Transcrita do livro "Fronteiras da Técnica" por licença
especial da editôra Agir."
No presente trabalho, como se vê pelo
título, pretendo comparar dois sentimentos e
duas atitudes morais que nascem da relação
entre o indivíduo e o país a que pertence. Em
ambos os casos como de antemão já se sabe,
existe uma valorização do vínculo que nos
prende a uma determinada comunidade políti-
ca marcando assim uma certa separação das
outras comunidades. Mas, apesar dessa seme-
lhança, que provém da identidade da coisa
sôbre a qual se aplicam nossas disposições,
pode diferir de um modo profundo o espírito,
a perspectiva e o critério que determinam a
valorização, como por exemplo diferem mo-
ralmente os sentimentos de atração por uma
mulher conforme seja desejada para espôsa ou
para amante.
O primeiro obietivo dêste trabalho é jus-
tamente o de assinalar o contraste moral que
pode existir, e que efetivamente existe, entre
dois indivíduos que exaltam a mesma coisa
com critérios profundamente diversos que nos
casos extremos chegam a se opor como à vir-
tude se opõe o vício.
Comecemos pois por encarecer essa neces-
sidade de bem distinguir o critério que preside
a uma determinada inclinacão afetiva, isto é,
comecemos por afirmar que' a mesma fôrça de
inclinação pode ser moralmente boa ou má
conforme o espírito que a governa. Esta é a
clave em que se coloca êste trabalho. Diremos
que o homem vive o intenso campo gravitacio-
nal criado pela comunidade política e tombém
pelos elementos físicos em que se instala essa
comunidade. O homem é atraído pela terra e
pelo próximo, mas essa fôrça não é puramen-
te física, ou melhor, não é determinada pelas
propriedades das coisas como no caso do fer- o segundo ponto refere-se ao vocabulá-
ro e do ímã. A gravitação a que nos referimos rio: ao sentimento bom, virtuoso, darei o no-
é de natureza moral e assim, na sua última me de patriotismoj ao vício darei o nome
determinação, cada movimento será bom ou de nacionalismo, mas devo logo acrescen-
mau, conforme seja governado por um espíri- tar que, a rigor, não me prendo demais à ques-
to virtuoso ou por um espírito vicioso. Exaltar tão do têrmo próprio. Poderíamos trocá-Ios
o Brasil não é necessàriamente bom. Pode ser desde que saibamos bem o que é a coisa e
bom, pode ser mau. E quem disser que é sem- quais são as características do que chamamos
pre bom já está sendo mau. l:ste é o primeiro de patriotismo e do que chamamos de nacio-
ponto a assinalar. nalismo. Não faço muita questão de fixar o
vocabulário; o que desejo é fixar idéias.
Mas seria de um mau gôsto imperdoável
escolher os nomes das coisas sem consultar o
seu uso corrente. Eu poderia, evidentemente,
escrever uma geometria em que a figura de
cinco lados se chamasse triângulo e a de três
se chamasse pentágono. Poderia, em casa, con-
vencionar que chão se chama teto e que teto
se chama chão, desde que continuasse a an-
dar, como todo o mundo, no chão, isto é, no
teto.
O que me interessa, qualquer que seja o
nome, é comparar as atitudes cívicas de um
Maurras, de um Mussolini, de um Plínio Salga-
do, de um Getúlio Vargas, com as atitudes cí-
vicas de um Kosciusko, de um Saldanha da Ga-
ma e de um Capistrano de Abreu. Mas obser-
vem agora que o têrmo nacionalismo, que é remos em autores muito respeitáveis, uma cer-
posterior a patriotismo, apareceu no mundo ta equiparação entre os dois têrmos, patriotis-
quando ganhou singular destaque a mentali- mo e nacionalismo, mas observem que êsses
dade que Mussolini, Salgado e Vargas tão bem mesmos autores, pressentindo o equívoco do
encarnaram. Mais exatamente o têrmo apare- vocábulo moderno, apressam-se a dizer que há
ceu, ou pelo menos foi lançado no uso corren- um bom e um mau nacionalismo, um justo e
te, com o "affaire Dreyfus", em que se conde- um exagerado nacionalismo.
nou um inocente, por superiores motivos na- Conforme já assinalei, o que me interessa
cionalistas. aqui é mais a coisa do que o nome, mas não
Quer isto dizer que eu chamo de naciona- oculto o meu desejo de obter também como
lismo o mesmo fenômeno que seus próprios en- sub-produto do esfôrço necessário a êste estudo,
tusiastas assim denominam. Concordo inteira- uma fixação de vocabulário. Teria uma grande
mente com Plínio Salgado que seja nacionalis- satisfação, embora seja isto secundário, se pu-
mo o seu ideal integra lista. A nossa divergên- desse lançar à execração o próprio vocábulo
cia não é de nomenclatura. Aceito-a, e justa- que tem servido de senha a idéias execráveis.
mente o que me proponho provar é que aquilo Vamos agora entrar na análise da questão,
que os Srs. Vargas e Salgado acham bom é mas antes disso, a título de ilustração, aqui dei-
na realidade mau, e que o entusiasmo dêles é xo uma lista de exemplos de fenômenos históri-
um vício. Vejam pois que não é minha, nem cos que caracterizam o nacionalismo e o pa-
inteiramente arbitrária, a atribuição de nomes. triotismo e que entrego, numa primeira apro-
Mas devo aqui abrir um parêntese para ximação desarrumada, ao bom instinto dos
dizer que o fenêmeno nem sempre tem a niti- leitores.
dez que se encontra quando se compara um
Kosciusko com um Mussolini. Na maior parte
das vêzes o problema é mais confuso, apresen-
tando uma composição de vício e de virtude
que exige uma análise cuidadosa e difícil. As
reaçães do homem comum são geralmente mis-
tas, vacilantes, disponíveis, e sua polarização
mais acentuada dependerá de um completo
conjunto de circunstâncias. E é por causa des-
sa enorme zona indistinta que o vocabulário
se tornou também um pouco neutro. Encontra-
cer o direito dos espanhóis, contribuiu para o
malôgro do tratado de Madri.

Camões, que no melhor de sua obra con- \


dena a expansão imperial, cuja glorificação '.
muitos pensam ser o objetivo de sua obra. Ve-
o "affaire Dreyfus" que levou o povo jam nos Lusíadas. (IV, 94-104) o episódio do .
francês, no princípio dêste século, a praticar velho do Restelo.
uma estridente injustiça contra um oficial judeu.
Foi por êsse tempo que apareceu o vocábulo "á glória de mandar, ó vã cobiça
nacionalismo. O espírito que dominava o pro- Desta vaidade a quem chamamos fama."
cesso pode ser sintetizado nesta mesma frase e depois:
com que os judeus condenaram Jesus: "mais
vale que morra um só do que pereça tôda a "Buscas o tncerto e incógnito perigo
nação". Razões de Estado recomendavam a Por que a Fama te exalte e te lisonje
injustiça. Chamando-te senhor, com larga cópia, l/L
Da fndia, Pérsia, Arábia e~ Etiópie. "9
. r cf\.\.

A vida de Kosciusko, o polonês que inces- Cherles Maurras. A "adion française".


santemente lutou pela libertação de sua' pátria
então invadida pelos russos. Batido pelos ini- Patriotismo
migos, que receberam socorro dos prussianos,
Kosciusko veio para a América. Foi patriota Soltando séculos para trás: Cornélia, a
no exílio como na pátria. Lutou na Guerra da mãe dos Gracos.
Independência ao lado de Washington.

A política do marquês de Pombal, cujo


anticastelhanismo cego, incapaz de reconhe-
Brasilidade, Hispanidade, língua brasilei-
ra. Vovô Indio. Anauê.

Péguy e Bernanos, morrendo o primeiro no


front em 1915 com uma bala no testa; vindo
o outro para o exílio no Brasil, "cuver so
honte".

o poema de Longfellow que Roosevelt


envia a Churchill, por telegrama, abrindo as-
sim com a poesia o caminho que será depois
percorrido pelos comboios de armas e muni-
ções.
longfellow, se aproximaria do nacionalista Hi-
tler que presenteou o nacionalista Mussolini
com as obras completas de Nietzsche.
E um êrro, e não pequeno, caracterizar
um problema moral pela medida das coisas
sôbre a qual se apiica; e é um êrro pensar que
a normalidade nesse domínio se pauta pela
Vamos agora marcar mais nitidamente a mediana eqüidistante entre uma deficiência e
diferença que existe entre as duas espécies de um exagêro.
fenômenos que acabamos de enumerar.
Basta pensar um pouco nos diferentes fe-
Começo por dizer que não há somente nômenos apresentados para descobrir, sem som-
uma diferença de grau como se poderia con- bra de dúvida, que êles não têm o mesmo es-
cluir quando se ouve dizer que o nacionalis- pírito, que não se norteiam pelo mesmo crité-
mo é um patriotismo exagerado. rio e que, por conseguinte, não se podem me-
Essa maneira de apresentar a questão dir ao longo da mesma escala.
pretende caracterizar o fenômeno mais pela E por isso não se pode dizer que o na-
extensão de sua matéria do que pela perspec- cionalismo seja simplesmente um exagêro de
tiva racional que em relação a ela se adota. patriotismo.
Com essa idéia, o patriotismo irá muito bem
Ao contrário, há entre os dois capítulos
até certo ponto - tantos graus centígrados de
uma oposição. No patriotismo, como veremos
ardor cívico - e o nacionalismo começa onde
melhor, há uma reta conformidade com um
é ultrapassada essa escala, estando assim pa-
justo critério; no nacionalismo uma oblíqua dis-
ra o verdadeiro civismo como a febre está
formidade causada por um injusto critério. Po-
para a saúde.
deríamos dizer, num paralelo que me parece
Fôsse assim, o problema consistiria em de- perfeito, que o nacionalismo se opõe ao pa-
marcar os limites dos sentimentos para evitar triotismo como a super:ltição que é um vício
que o patriota, num momento de maior entu- se opõe à religião que é uma virtude.
siasmo, se transformasse em nacionalista. Se-
Mas há dois modos de oposição em tôrno
ria isto o mesmo que dizer que um Saldanha das virtudes morais, sendo assim a virtude um
da Gama um pouco esticado daria um Floria- justo meio têrmo. A religião, virtude de justi-
no Peixoto; ou que o patriota Roosevelt, se ça pela qual prestamos o culto que é devido
em vez de ter enviado um poema tivesse te-
ao nosso Criador, é um justo meio têrmo en-
legrafado a Churchill as obras completas de
tre a incredulidade e a superstição. Nos dire- dade, e que, nesse sentido pode crescer e de-
mos que o irreligioso peca por deficiêncio, e ve crescer na direção do mais perfeitot sem
que o supersticioso peca por excesso; 'mas de
modo algum queremos dizer que .q" po~~ç~o
certa e virtuosa esteja numa médlà .'.equldls-
exagêro. °
que êssecrescimento possa ser chamado
que se pode chamar de exagêro
é o desvio para o lado que materialmente
de

se
tante dos dois extremos. Essa maneira de in- caracteriza por um transbordamento. Em ou-
terpretar o fato da virtude ser um justo meio tras palavras, chamaremos de exagêro, pejo-
têrmo é grosseiramente defeituosa e tem con- rativamente, o acréscimot não simplesmente por
tribuído em larga medida para reforçar as cô- ser acréscimo e sim por ser uma excrescência
modas posições. da mediocridade porque ne~- que rompe o equilíbrio e que arruína O crité-
sa interpretação
cão que é correlata à da virtude. °
não cabe a idéiade,perfe,-
,indivíduo
que procurasse a perfeição na linha prolonga-
rio. Em matéria de crença, por exemplot O cri-
tério é ciquêle' que nos é dado pela revelação
divina e que é em nós recebido pela razão ilu-
da da virtude estaria arriscado a tornqr-se um minada pela fé. Admitida a verdade católica,
viciado se ultrapassasse a linha mediemo tão eu direi que crê com justeza quem adere às
cômod~ e tão apreciada pela maioria dos ho- verdades reveladas por Deus e ensinadas pela
mens. Igreja, nem mais nem menos. Se recusa um dos
artigos peca por deficiência, por incredulida-
Ir à missa aos domingos, já que ossim o
de, mas convém notar cuidadosamente que
preceitua a Igreja, será bom. Mas ir à missa
não é pelo fato de crer em menos um artigo
todos os dias será um exagêro, e portanto um
que peca, e sim pelo fato de pôr em dúvida o
comêço de vício. critério fundamental que é a revelação divina
Convém esclarecer melhor o sen.tido em e a infalibilidade da Igreja. Mas também peca
que a virtude é um justo meio têrmo para que, se por sua conta acrescentar, como artigo de
com êsse instrumento aprimorado, não engrosse- fé, o temor no saleiro entornado; e peca pelo
mos nós a propaganda da mediocridade que mesmo motivo, ou seja, porque viciou, com
mata nos corações dos homens o gôsto pela êsse acréscimo, o critério fundamental.
perfeição. Há porém uma linha em que se pode e
A virtude é um equilíbrio, que pode ser se deve crescer sem que essa extensão seja
rompido por um desv~o num e n?utro:~entido, um vício. Ao contrório será uma perfeição. E
mas o que a caracteriza como virtude e a re- a linha que se oriento fielmente, inflexlvelmen-'
tidão, a conformidade com o que é certo, a te pelo critério da reveloção divinat mas vai
t

vertical que aponta para o zênite de uma ver- mais longe em fõrçot em profundidadet em con"
sequencia. o santo, por exemplo, fica rigoro- dia, e que a virtude consiste no baixo meio tê r-
samente adstrito àquele depósito de fé a que mo das coisas e não no elevado equilíbrio da
nada se pode tirar e nada se pode acrescen- razão. Sociólogos e psicólogos de renome, se-
tar, mas constrói mais alto, por êsse mesmo guindo consciente ou inconscientemente as
prumo comum, a tôrre de sua alma. idéias de Durkheim expressa em "Regles de
Não é mais religioso quem crê em mais Ia Methode Sociologique", alimentam êsse
coisas; mas é mais religioso quem crê melhor côro já volumoso do hino à mediocridade e,
nas coisas críveis. valendo-se de estatísticas, estabelecem a equi-
paração entre o conceito de normalidade e de
E nesse sentido que a virtude é um meio média.
têrmo, sendo um equilíbrio entre duas tendên-
cias viciadas mas equilíbrio de uma vertical Voltando ao nosso tema, depois dessa di-
que pode e deve crescer na sua justa direção. gressão provocada pela existência muito difun-
De outro modo, definida a virtude pelo meio dida dêsse êrro, diremos que à virtude do pa-
têrmo medido no nível das coisas sôbre as triotismo se opõem dois vícios, um por exces-
quais se aplica, haveria oposição entre o con- so, o nacionalismo, outro por carência, o in-
ceito de virtude e o conceito de perfeição, que ternacionalismo. Mas teremos todo o cuidado
se traduziria concretamente por um universal de não dizer, e sobretudo de não pensar que
apêlo à mediocridade. o nacionalismo é um exagêro de patriotismo.
Ninguém se arrisca a se tornar nacionalista
E é nesse sentido que a virtude se opõe por se tornar mais patriota. Mas qualquer um
ao vício como a vertical, a retidão do crité- se arrisca a se tornar nacionalista se deixar
rio, se opõe ao desvio. Nós diremos pois as- entortar-se o critério justo do patriotismo.
sim: o vício da superstição se opõe à virtude
da religião por excesso. Mas não diremos: a
superstição é excesso de religião. Porque nes-
ta última fórmula a idéia principal de oposição
fica eclipsada deixando crer que é na mesma
linha, na mesma escala prolongada que a virtu-
de se transforma em vício.
E curioso notar, entretanto, que êsse êrro é
hoje divulgadíssimo. Numerosas pessoas, não
somente contadas entre as de cultura menor,
pensam que a normalidade é sinônimo de mé-
ciddde .é bem limitada e distinta de outra ci-
dade; um país é uma realidade que tem fron-
teiras nítidas; fronteiras geográficas, lingüísti-
cas, históricas e culturais. O que porém im-
porta assinalar é que êsses limites da família,
da cidade, da nação, não podem ser barrei-
o patriotismo é uma virtude moral anexa ras morais que confiram ao grupo assim defi-
da justiça. Como tõdas as virtudes morais, tem nido o direito de procurar o bem próprio em
a universalidade que não conhece fronteiras, detrimento da justiça. Este é o ponto capital.
mas deve exercer-se concretamente no desejo e E é aqui, neste ponto, que melhor se eviden-
na promoção do bem comum de uma determi- cia a radical oposição entre o nacionalista e
nada comunidade humana definida por fron- o patriota.
teiras culturais, geográficas, lingüísticas e his- O patriota deseja a nitidez de suas fron-
tóricas. O homem procura o bem sob o duplo teiras; cultiva-a, exalta-a; mas ao mesmo tem-
ângulo do universal e do concreto. Se a idéia po, num aparente paradoxo, é capaz de com-
de justiça manda que se dê a cada um o que preender o patriotismo dos outros. Ele sabe
lhe é devido, de um modo geral, a virtude da perfeitamente que suas muralhas são porosas
justiça é inclinada ao exercício, ao particular, para o sentimento universal da justiça.
ao concreto, ao próximo. Segue-se então que
O nacionalista, ao contrário, se caracte-
o homem precisa de grupos que se escalonem
riza por um isolamento moral, e portanto imo-
em zonas concêntricas de densidade crescen-
ral. Ele deseja fronteiras refratárias, onde se
te. Em cada um dêsses grupos concêntricos -
detenham, como inúteis para aquela comuni-
nação, província, cidade, paróquia, família -
dade à parte, as lendas dos heroísmos distan-
há limites para mais intensa concretização da
tes, as histórias de homens como Kosciusko
vida moral, e em cada um dêsses grupos a
que lamentaram em polonês a servidão de sua
mesma idéia geral de justiça se manifesta de
terra natal.
um modo particular que vai mudando de as-
pedo de uma para outra dessas zonas da hu- Um patriota brasileiro, sendo realmente
manidade. O homem precisa dêsses limites e patriota, é capaz de chorar de emoção ouvin-
dessa descontinuidade, para a aplicação dos do contar histórias de patriotismo húngaro ou
mesmos princípios de justiça. chinês. Simpatiza intensamente com a dor de
Kosciusko ainda que. não saiba pronunciar o
Uma família é um todo bem definido e
esquisito :nome' d!'l sua cidade natal.
perfeitamente destacado de outra família; uma
E sabe, sendo realmente patriota, que po- meu coração de menino queria ser no meu
derá lucrar, e traduzir no coração as lágrimas Brasil como aquêles meninos da Florença e da
húngaras e o sangue polonês; e sabe que as- Lombardia.
sim, nesse exercício, pode tornar-se mais pa- Quando porém meus filhos tinham sete
triota e mais brasileiro. anos "O Coração" de D'Amicis tinha sido afas-
O nacionalista ao contrário, não achará tado das escolas. Haviam descoberto que o
graça nenhuma no heroísmo húngam ou chi- livro italiano Ihes impediria o desenvolvimen-
nês que lhe parecerá um cômico equívoco. O to da brasilidade. Haviam decretado que as
verdadeiro nacionalista, de um daqueles tipos tabuletas dos colégios fôssem traduzidas para
que há pouco enumeramos, achará esquisitís- o português - ou para a língua brasileira co-
simo e inteiramente incompreensível o amor de mo quiseram alguns. Depois mandaram distri-
um polonês pela Polônia. E nos advertirá, com buir nas escolas públicas o Sorriso do Presi-
sua ênfase peculiar, que a formação de um dente e a História do Menino de S. Boria.
Brasil forte e unido exige que suas crianças
Vejam bem a diferença, não só dos livros,
só conheçam heróis brasileiros, ainda que al-
mas dos dois espíritos.
gum dêles nunca tenha sido heróico.
Quando eu tinha sete anos minha ;mãe
I: claro que, em condições iguais, compre-
ende-se que os meninos devam conhecer me-
ensinava-me o patriotismo num livo italiano,
lhor as coisas de sua terra, da terra dos seus
"O Coração" de D'Amicis. Líamos juntos as
pais, porque é do conhecimento dêsse patri-
histórias do Escrevente Florentino e do Peque-
mônio que procede o amor do patriotismo.
no Vigia Lombardo, e muitas vêzes eu me de-
Mas pensar que o patriotismo só pode ser
tinha na leitura, com um nó na garganta, sen-
aprendido na língua do país e com fatos do
tindo, compreendendo a grandeza, a pureza,
país é tão insensato como pensar que a tem-
a beleza daquela dedicação que chegava ao
perança, a coragem e a castidade só podem
dom de si mesmo naqueles bons meninos de
ser adquiridas no vernáculo e com exemplo da
outras terras. E nesse curto instante de emo-
mais pura brasilidade; e é tão estúpido como
ção havia entre nós dois uma corrente de ge-
pretender que as virtudes domésticas do vizi-
nerosidade. A boa mãe, já ali, naquele instan-
nho sejam um mau exemplo para o desenvolvi-
te, naquele minuto de lição, começava a lon-
mento das virtudes domésticas de minha fa-
ga despedida de seu filho, incitando-o aos jus-
mília.
tos combates, como a romana Cornélia, obs-
cura Cornélia, apagada heroína; como tôdas O ponto central das distinções que esta-
as mães generosas. E eu, naquele tempo, no mos traçando é a radical incapacidade que
tem o nacionalista de opreender o teor moral
do patriotismo e sua dependência da iustiçai
e, por conseguinte, a total incapacidade de
simpatizar com o patriotismo alheio. Falta-lhe
o que Chesterton em Barbaria de Berlim tão
bem chamou senso de reciprocidade.
O nazismo foi sem dúvida a forma mais O patriotismo é uma forma de reverência
exasperada e mais extremada de nacionalis- que tem apoio na tradição. É um sentimento,
mo. Da completa falta de senso de reciproci- raro hoiet de respeito pelos antepassados. É
dade não há talvez melhor exemplo do que a um modo peculiart racional e afetivot de ver
famosa frase de Hitler diante de Varsóvia: no chão de uma terra o sinal de pés antigos.
É um modo especial de adivinhar numa paisa-
"Criminosa loucura a defesa desta cidade!"
gem os sinaist os comoventes sinais de anti-
gas mãos. É um modo sem igual de simpatizar
com dores passadas e de se alegrar com pas~
sadas alegrias. É ter uma história comum que
t

v~m de longe, cantada na mesma língua e vi-


vida no mesmo grande e permanente cenário.
Eu disse as dores e as alegrias evocados i
mas deixei passar a nota contraditória que re-
ge essas evocações e que põe um quê de tris-
teza nas alegrias de outrora e um quê de ale-
gria nas tristezas vencidas. Vejam por exem-
plo os monumentos públicos. São os nossos
mortos que vêm pôr um ar de festivo cemité-
rio nos bons iardins públicos onde brincam as
criançast o futurot em tôrno dos pedestais do
passado.
Mas os nossos primeiros antepassados são
pai e mãe. Não é pois fora de propósito di-
zer que o patriotismo começa pela reverên.cia
dos pais êsses elos vivos êsses nós entre dois
t t
mundos. A etimologia nem sempre é argumen- . ,.Existe· po.is, 5Gb êste ponto de vista,utrra~
to; freqüentemente é sofisma; mas aqui, nes- d~fe~ença radical, entre os dois espíritos. O pa.
t~lotJ5mo é uma reverência diante de uma rea.
te problema que hoie nos ocupa, a etimologia
IIdade que continua. O nacionalismo é uma
vale por definição. Pátria deriva de pai. Pa- exultação diante de uma idéia a ser realizada
triotismoderiva de uma lei natural que foi de uma coisa que não existe, sonho de uns pou~
elevada à dignidade de mandamento divino: cos, pesadelo de muitos.
honrar pai e mãe.
Patriotismo é pois a virtude da longa
continuação e da grande fidelidade. Funda-
menta-se no passado, como raiz, e valendo-se
do que houver de genuíno nesta tradição pro-
jeta-se para o futuro. O patriota deseja um
Brasil melhor, deseja com tôdas as fôrças da
virtude bem equilibrada a perfeição do seu
povo, de sua cultura, de suas instituições.
O nacionalista também deseja um Brasil
melhor, mas num outro sentido. Na verdade o
que êle deseja é um outro Brasil. Seu critério
está mais numa invenção do que numa conti-
nuação, é mais idéia do que realidade. Os di-
rigentes nazistas, no apogeu de seu delírio, já
pouco falavam de pátria, da Vaterland, da
terra de seus pais. Falavam da Idéia, lutavam
pela Idéia, morreram pela Idéia. Desejavam
realizar numa espécie de fotomontagem, com
materiÇlI colhido aqui e ali em lendas germâ-
nicas (porque o barro é necessário às modela-
gens mais ousadas), um nôvo Reich, como aqui
entre nós se desejou o Estado Nôvo e a Ida-
de Nova.
acidentais do país o sentimento de nacionali-
dade, priva-o do conteúdo moral. Para o ufa-
nista tudo se reduz a um sentimento bocó de
admiração pelo lote de mamíferos, de fôlhas
e de montanhas que por acaso histórico nos
foi adjudicado. O patriota se transforma no
irresponsável felizardo que tirou numa rifa o
Sendo o patriotismo uma virtude moral
Pão de Açúcar e a Vitória Régia.
anexa da justiça e inscrita na esfera do Quar-
to Mandamento, é óbvio, para os católicos,
que não pode haver vida cristã perfeita onde
faltar essa forma de piedade. Dai se segue
que um católico não pode desinteressar-se da
sorte de seu país, da sua história, de seus des-
tinos, e principalmente dos fatos políticos, sem
trair um preceito. l: vão o seu patriotismo se se
desloca dos dramas da convivência humana
para as preciosidades geográficas ou para o
campeonato de futebol.
Sendo o patriotismo uma virtude moral, é
claro que o sentimento mais se dirige para os
homens do que para as coisas. E mais uma fOI""
ma de fraternidade do que uma admiração
pela bacia hidrográfica do Amazonas.
Do ufanismo não se pode talvez dizer
que esteja na linha do nacionalismo; mas por
mais forte razão não está na linha do patrio-
tismo. E um fenômeno lateral que se alastra
na enorme zona neutra reservada à prolifera-
ção de tôdas as tolices. Mas, num certo senti-
do, pode.se mostrar que essa idéia meio vaga
e meio disponível pende mais depressa para o
lado mau porque, fundamentando nas riquezas
Umo das características mais torvas dessa
mentalidade idealista, no sentido clássico da
palavra, é o irrealismo que oscila entre a de-
mência, como fenômeno mental, e a impostu-
ra como fenômeno moral. O homem normal
também é idealista, se por tal se entende
quem tem ideais, mas ideais de perfeição,
Permitam-me insistir num ponto. Disse ideais concretos como diz Maritain, isto é,
atrás que não bastava apresentar o naciona- ideais que estão contidos nas coisas. Nesse sen-
lismo como um exagêro de patriotismo. Ora, tido é que nós desejamos, como ideal concre-
o que foi dito depois poderá induzir alguém to, a realização de uma nova cristandade com
em êrro, a ponto de pensar que o. nacionali~- tais e tais características. Charles Journet, paro
mo consiste em acrescentar barreIras morais exprimir êsse ideal, e assinalar sua nota de
onde já existem barreiras culturais, históricas profundo realismo, diz assim: "Une nouvelle
e geográficas. Seria assim um refôrço, ou, co- chretienté demande a naitre".
mo se costuma dizer, um exagêro. Em outras
palavras, o nacionalista seria injusto apenas Para nós também há um nôvo Brasil que
em relacão ao estrangeiro, sendo melhor pa- quer nascer, e que já existe em raízes nas as-
ra o na~ional, mas de um melhor que não é pirações, às vêzes desordenadas, que estão pe-
dindo os nossos esforços de coordenação e
permitido.
Cloroveitamento.
Ora, quero demonstrar-Ihes que não é as-
Mas o nacionalista tem outro tipo de idea-
sim. A mudança de espírito é completa, a, SU?- :ismo, onde a idéia domina a realidade. Ele
versão é profunda, a tal 'ponto que a p.ro~~.tO
não se atém às realidades históricas, lingüís-
matéria geográfica, histÓrica, cultural e Ilngu~s-
7icas, culturais e geográficas. No clima do seu
tica, a própria vida interna do país não é VIS-
idealismo mágico êle compõe, inventa, proje-
ta com os mesmos olhos por um e por outro.
ta, fabrica. As realidades, desde a geografia
Para o nacionalista, como já Ihes disse, até as almas, serão apenas a matéria com que
não importa o que as coisas são e sim o que deve ser montada sua obra de arte. Tudo está
deveriam ser à luz de uma idéia. Para o pa- à sua disposição. Se faltam heróis, inventam-
triota também importa o que as coisas devem se. Se a história é feia, modificam-se os fatos.
ser mas êsse deve ser moral está na linha das O próprio fenômeno da linguagem fica à mer-
re~lidades humanas que são perfectíveis e não cê dos decretos, e a própria geografia tor~
na linha de uma invenção. na-se plástica, ou para ser alongada em forma
de império, como sonharam Hitler e Mussoli- legítimo mentir em política, como é legítimo
ni, ou, na falta de material bélico apropriado, usar árvores de papelão no teatro.
para ser simplesmente mexida e remexida in- Em resumo, o que eu quero dizer é que o
ternamente nos nomes de cidades, como por nacionalista mais se parece com um cenógra-
exemplo Limeira do Rio Doce que ficou sendo fo, com um ator, e às vêzes com um palhaço,
Governador Benedito Valadares, e ltabira que do que se parece com um bom pai de família
se transforma em Presidente Vargas. que ama e reverencia o pequeno grupo huma-
Se estendêssemos o alcance de nossas in- no que dirige, ainda que seja pobre e feio.
vestigações, poderíamos mostrar que há sem- O ponto onde agora desejo chegar, se
pre na base do nacionalismo um profundo bem me entendem é o seguinte: Seria um êrro
sentimento de aversão pelo homem, uma náu- supor que o nacionalista é apenas injusto
sea, um desejo de reforma, não de reforma com os homens que vivem fora de suas fron-
moral, mas de reforma física que nos dê uma teiras. Não. Ele é principalmente injusto com
nova humanidade - como nos dizem os inte- os homens que vivem dentro de suas frontei-
gralistas - em lugar desta nossa antiga e fa- ras. O horror ao estrangeiro é sobretudo no-
tigante humanidade. civo para o nacional, o que aliás era de espe-
O nacionalismo é por isso um sentimento rar, porque a justiça não pode ser mutilada e
duro, implacável, destituído de ternura e opos- continuar a ser justiça. Quem faz acepção de
to à reverência. Concepção da vida e do mun- pessoa, protegendo esta em detrimento da-
do mais teatral do que moral, apetite de apo- quela, é injusto com ambos, aqui por excesso,
teose mais do que um desejo de humana feli- ali por deficiência. E, como nada se multipli-
cidade. O nacionalista acha absolutamente ne- ca e se reproduz mais ràpidamente do que a
cessário que o objeto do seu culto seja visto- injustiça, depressa se transforma um país na-
so e grandioso. Se os fatos o não ajudam, tan- cionalista numa sementeira de privilégios, de
to pior para os fatos. Ele não hesitará em lan- pistolões e de favoritismo. E logo após, como
çar mão das mais estridentes mentiras para su- fôrças de devastação física, a injustiça cria
prir a deficiência das realidades. Mentirá. Men- favelas, endurece o pão, turva a água, e falsi-
tirá com eficiência. Mentirá com método. Menti- fica o leite.
rá com entusiasmo, para manter acesa a flama No caso do Brasil, a xenofobia é algo tão
de ideal, como dizem os integralistas. E sobretu- estúpido que se torna cômico; e o desejo de
do mentirá com um esquisito sentimento de sin- nacionalizar a Light ou de restringir a imigra-
ceridade, por estar convencido de que é tão ção é algo tão cômico que se torna trágico.
Anos atrás, por exemplo, quatro irmãs de ca-
ridade canadenses tentaram desembarcar aqui.
Ofereciam-se para tratar de leprosos. Mas a
suscetibilidade do Estado Nôvo estomagou-se
com essa pretensão das quatro intrusas que vi-
nham ver de perto as nossas mazelas. Funcio-
nou ó bloqueio da burocracia e as filhas de
s. Vicente voltaram. Não passava a caridade Procurei até agora mostrar que a boa so-
nas alfândegas do Brasil. Fica assim eviden- lução dos problemas internos de um país exi-
ciado que o fato de traçar em tôrno das bar- ge um genuíno patriotismo com a nota essen-
reiras naturais um anel de injustiça não fun- cial de idéia universal da justiça e da solida-
ciona sàmente como um acréscimo de separa- riedade humana. Agora proponho-me demons-
ção, mas também, e principalmente, como uma trar que a boa solução dos problemas inter-
profunda deterioração daquilo mesmo que se nacionais exige um profundo sentimento de so-
deseja guardar. A cultura, fechada nesse cír- lidariedade humana com essa nota essencial
culo de isolamento moral, azeda e apodrece. de um genuíno patriotismo. Em outras pala-
A história se altera, e se cobre de figuras e vras, quero dizer que uma sociedade de na-
fatos parasitários com que se ilude e se ador- ções não poderá funcionar com representan-
mece a vigilância de um povo. O próprio idio- tes nacionalistas; funcionará mal com interna-
ma, em desrespeito aos seus fundamentos na- cionalistas; e só poderá dar resultados bons e
turais, torna-se jôgo de reformas ortográficas fecundos com representantes verdadeiramente
ou de brinquedo de nacionalização nas mãos patriotas.
de improvisados filólogos. E assim todo o pa- A idéia, aliás, é muito mais simples do
trimônio de um povo se corrompe quando lhe que à primeira vista parece; e deriva direta-
falta essa ventilação da universalidade moral. mente dêste postulado fundamental: uma so-
ciedade de homens se torna mais perfeita e
mais feliz, na medida em que se torna mais
fraterna. f nesta atmosfera da amizade cívica
que uma sociedade humana se torna verda-
deiramente humana e realiza o seu bem.
Ora, sendo o homem uma criatura racio-
nal, composta de corpo e alma espiritual, tem
de tomar consciência de seu bem, e procurar
racionalmente, aprendendo e exercitando, o
seu fim. Ressalva feita da clencia dos primei-
ros princípios que está em sua natureza, o ho-
. !" contração continua. Não é ainda no
a.mblto por demais esparso do município ou da
mem aprende tudo, exercita-se em tudo. Nem c~da?e que se. pode preparar aquela fina subs-
é anjo que vê num relance, e num relance es- tancla da amizade cívica.
colhe; nem é animal instintivo que recebe ao
nascer tôdas as disposições necessárias à rea- . On~e ser.á então que se prepara, com a
lização de seus fins. O homem, pelo espírito, devida intensidade, com a justa composição
tem de imprimir um cunho de racional idade a e~sQ atmosfera da fraternidade? Em que ga~
todos os seus atos propriamente humanos; sometros de amor se destila e se concentra
mas, por causa de sua animal idade, e por cau- êsse cordial oxigênio? Em que limites mais
sado precário equilíbrio em que se encontra, apertados, .mais. resguardados, podem os ho-
obriga-se ~ um exercício penoso, arrastado, mens exercitar efetivamente as regras dos en-
prolongado, para a aquisi~ão das necessárias contros?
virtudes. Só pode ser na Casa. Na casa de família.
Precisamos pois receber lições de tudo. ~a casa que se fecha, não para isolar-se da
Aprendemos a falar, aprendemos a ler, apren- c,d~de, como um covil de ladrões, mas para
demos a pensar, e aprendemos a amar. Tudo abrigar da chuva e do vento a boa sementei-
o que nos concerne está sujeito à lei da per- ra da amizade.
fectibilidade pela lição e pelo exercício. Apren-
de-se em chinês, em latim ou húngaro; mas só Em relação aos muros das casas de famí-
pode exercitar-se no concreto, isto é, num re- lia há porém um problema semelhante ao das
fronteiras das nações. Há casas patrióticas e
cinto que se isolei num grupo que se constitua
c?sas nacionalistas. Poderíamos também men-
à parte, como sociedade menor mais próxima
l

e mais densa, dentro da sociedade maior. Por clon~r as casas internacionalistas, onde entra
isso pede a natureza humana que o mundo e sal quem quer, onde todo o mundo faz o
do homem se divida em nações; que as nações ~ue lhe passa pela cabeça, e onde, em suma,
Impera tamanha tolerância que não seria im-
se dividam em províncias; que as províncias
próprio chamá-Ias casas de tolerância.
se dividam em municípios. E assim, uma suces-
siva contração, com graus de marcado descon- As nacionalistas são aquelas que mais abri-
tinuidade, se processa para que o homem en- gam uma quadrilha do que uma família. Não
contre o homem,e -nessa pequena liça, com porque sejam os seus membros ferozmente
um mundo ao redor inicie o brioso torneio da
l desunidos; antes porque são unidos ferozmen-
convivência. te. Unidos contra as outras casas.
Nesse ambiente, por mais educados que Eem ambasas hipóteses tanto se perde
sejam os hábitos, cor.spira-se contra a cidade. na família como na pátria.
Nesse reduto, nesse covil, em lugar da semen- I: de uma importância capital a compre-
teira cívica, o que se prepara é o favoritismo, ensão do estreito nexo entre os sentimentos fa-
o que se manipula é o pistolão. Nessa casa, miliares e os cívicos, e é essa compreensão
o de que se cuida é de arranjar empregos e que falta em tôdas as teorias, da direita e es-
vantagens para todos, desde que um tio ou um querda, que pretendem resolver o problema
cunhado logrem atingir uma altitude de poder da reestruturacão da sociedade sem a amiza-
que Ihes permita a distribuição privada da coi- de cívica e p~rtanto sem a casa que é a ofi-
sa pública. cina dessa amizade.
I: também postulado nosso que uma so-
ciedade é o que são suas famílias. Ora, é inú-
til disfarçar a situação em que hoje nos en-
contramos sob êsse ponto de vista. De um Io-
do vê-se a vertiginosa decomposição de nos-
sas melhores tradicões.As famílias se desman-
cham. Os casame~tos são cada vez mais efê-
meros. E as casas funcionam apenas como pla-
taforma de estação, como ponto de baldea-
cão entre as correrias do dia e as correrias da
~oite. De outro lado, entretanto, assistimos à
fossilização de nossas piores tradições. As fa-
mílias que resistem ao vento de destruição se
aglutinam com tôdas as fôrças do egoísmo, co-
mo se vivessem em terra de inimigos.
Os moralistas se inquietam com a instabi-
lidade dos casamentos e com as repetidas rei-
vindicações dos divorcistas; mas não se inquie-
tam na mesma proporção com o filhotismo e
com o pistolão. Ora, ambos os fenômenos,
cada um a seu modo, afligem a sociedade e
afligem a família. Escancarada, a casa se di-
lui; isolada da cidade, a casa se perverte.
lado, ferido, exausto, mal se distinguindo do
vencido; nas batalhas morais o vencedor sai
sempre mais forte do que entrou. Não é tro-
féu, botim, prêmio material o que aí se con-
quista, mas um nôvo vigor. Nas lutas morais,
ao contrário das físicas, quem vai resistindo e
Voltemos à nossa idéia de um mundo hu- vencendo, vai se tornando cada vez mais for-
mano formado de zonas concêntricas.· Em con- te, mais armado, mais ágil,. mais pronto. Daí
trações sucessivas chegamos à casa de famí- a imensa utilidade dêsse exercício em ambien-
lia que é (ou deve ser) o lugar onde se destila te fechado onde são múltiplas as oportunida-
a amizade cívica. O ar da amizade está ali des de lucro. E daí o terrível inconveniente de
(ou deve estar) em densidade maior e mais se armar a chamada harmonia familiar em
alta pressão. Por isso a casa se fecha. Escola, têrmos de evasão.
sala de armas onde se exercita a difícil esgri- Os moralistas de convencão referem-se
magem da justiça, a casa tem o recato neces- freqüentemente às doçuras da ~ida familiar e
sário a êsse aprendizado que não deixa de ao suave remanso do lar. I: mentira dêles.
ter o seu ridículo, como todo o aprendizado. São ufanistas da casa. Mentem como os idóla-
Por isso a casa é um segrêdo. Lá dentro, entre tras da Vitória Régia, ou como os locutores de
as quatro paredes bem opacas - contra as rádio pagos para dizer ao microfone, em sete
idéias arquitetônicas do Sr. Niemeyer - a fa- de setembro, que o país inteiro, de norte a
mília aprende e exercita, entre alegrias e afli- sul, está vibrando de ardor cívico.
ções, as regras dos atritos humanos. I: certo que a casa tem doçuras de mel;
Há muito esbarro no vaivém apertado da como é certo que tem agruras de fel. Tem tudo
vida familiar, muitos cachações, como dirá Ma- o que é do homem em mais espêssa e densa
chado de Assis - mas é nesses mesmos cho- humanidade. Às vêzes a atmosfera fica tão
ques cotidianos, e eu direi até nesse atrito con- sufocante, dentro de casa, que a rua se torna
tínuo, que cada um encontra as mais ricas um paraíso apetecido. Saímos a respirar um
oportunidades de exercer as virtudes. E quem pouco, para gozarmos o descanso das multi-
diz exercer, nessa matéria, diz adquirir. dões indiferentes, da humanidade neutra, dos
vultos que não nos cobram nada, dos rostos
A luta mora. tem uma característica que que não nos dizem respeito. E às vêzes· tem-se
vale a pena encarecer. Enquanto nas lutas fí- a impressão de uma irreparável destruição,
sicas, como nas guerras, o vencedor sai muti- de uma incompatibilidade sem remédio. Pare-
ce inútil lutar, tempo perdido insistir. E êsses
pensamentos uma vez que se instalem, vão
corroendo em nós aquelas mesmas reservas
em que deveríamos buscar a recuperação.
A fragilidade do matrimônio decorre de
uma desmedida exigência de felicidade, ou me- Mas voltemos ao nosso ponto de partida,
lhor, da aplicação dessa exigência a uma coi- à casa, à casa fechada para o exercício da
sa que não suporta tal pressão. Há uma inso- amizade. Disse que a casa é um segrêdo. De
lência nossa nessa impaciente cobrança de ven- fato o é. Ou deve ser. Deve ser uma. interio-
tura, e há sobretudo um equívoco, porque pre- ridade. Uma intimidade. Uma intimidade de
tendemos tirar da casa, do matrimônio, do afeições e uma intimidade de aflições. Um
amor humano, um infinito rendimento, quan- mundo de recato. Uma história escondida.
do é finita e sempre muito exígua a nossa pró- Mas dentro dêsse segrêdo que. abriga uma
pria contribuição. Depositamos com mesqui- família há um outro segrêdo que se escon-
nharia e queremos juros generosos, infinita~ de da família. Naquela gruta de pedra há
mente generosos. E no desejo dêsse absurdo uma concha fechada e dentro dessa concha um
balanço nós somos injustos com o próximo, e segrêdo maior, escondido na intimidade e no
injustos com Deus. Realmente, por mais esque- segrêdo da casa. Os esposos se escondem. Es-
sito que isto pareça, se alguém imagina que condem-se da casa, dentro da casa. Fecham-
a sua noiva, e mais tarde a espôsa, lhe possa se dentro do que já é fechado. Abrigam-se no
dar plena felicidade, não terá direito de quei- interior do que já é abrigado. E assim é que,
xar-se nos dias de decepções, porque foi êle, nesse último reduto, nesse último pôrto, nes-
inicialmente, o primeiro culpado de injustiça. se abrigo, nessa concha, preparam não só o
amor e a justiça, mas também o huto dessa
Só se restabelece o equilíbrio dêsse pro-
justiça e dêsse amor.
blema em que se põe num dos têrmos um de-
sejo aberto para o infinito, quando no outro Vejam, vejam senhores como o mundo do
têrmo se coloca a lembrança muito conscien- homem é feito de sucessivas e concêntricas
te, muito reverente, do depósito de sangue in- fronteiras que vão, desde aquelas que vemos
no mapa com rios e cordilheiras até a porta
infinitamente precioso que um Outro colocou à
fechada da câmara conjugal. Mas agora apre-
nossa disposição, e quando, conseqüentemen-
ciam o reverso do fenômeno: cada uma dessas
te, para êsse Outro orientamos todos os nos- muralhas é sucessivamente superada,' como
sos anseios de felicidade perfeita.
barragem de açude que se quer cheio para so estiver à janela pelas cercanias logo verá
que transborde em serviço. O dinamismo das que alguma coisa aconteceu, naquela casa,
fronteiras está voltado para fora. E agora, ve- naquele navio ancorado: porque no seu exí-
jam, vejam nessa nova direção como se ex- guo convés, em sinal de festa, tremula uma
pande o mundo do homem! carreira de fraldas ao vento - bandeiras bran-
cas de júbilo e de paz.
De fato, se é verdade que os esposos se
escondem, em compensação não há nada me-
nos escondido do que o fruto de seu segrêdo
e não há nada mais apregoado, mais publica-
do, do que a criança que nasce. Toca cem vê-
zes o telefone, êsse pequeno sino familiar do
natal dos homens. I: menino ou menina? Ex-
pedem-se cartões. Abrem-se as janelas. Como
se chama? <!uanto pesa? Com quem se pare-
ce? As vizinhas comentam; as criadas, esque-
cidas de tudo, enternecem-se, e varrem melhor,
lavam melhor, como se o filho, sendo da casa,
fôsse um pouco delas também; e as tias e as
avós emitem vaticínios, ou confirmam profe-
cias de que aliás ninguém mais se recorda.
O segrêdo tornou-se público. A porta mis-
teriosa foi arrombada por um ladrão recém-
nascido. E o aroma de alfazema que sai pe-
las frestas da casa, que se dilui no ar, no ar
da rua, da paróquia, da cidade, já é a primei-
ra suave emanação da amizade cívica, o oxi-
gênio das almas.
A casa nesse dia deu o seu fruto. Fêz a
sua entrega.
Nasceu hoje uma criança. Nem é preciso
telefonar para saber que naqoela casa nasceu
hoje uma criança. Vê-se de longe. Quem aca-
tou aqui desenvolvendo, para salientar a dife-
rença entre patriotismo, nacionalismo e inter-
nacionalismo, tem êsse duplo aspecto. Que-
rem u~s que o homem suba sem o vento da
justiça; querem outros que lá no alto se man-
Há certos fenômenos, de tal modo com- tenha sem cordão. Nós mostramos, de fora
postos, que à primeira vista parecem contra- para dentro, que o homem se prende volun-
ditórios e que, por isso, induzem fàcilmente tàriameilte em células concêntricas e livremen-
em êrro os observadores superficiais. Tomo um te obedece a êsses sucessivos limites. Agora, ao
exemplo tirado de André Gide, embora em contrário, na direção oposta, no sentido do
sentido diferente: o papagaio que o garôto bom vento da justiça, vemos crescer o mundo
empina no fundo do quintal. Papagaio de fle- do homem, da casa para a paróquia, da pa-
cha e papel. Em forma de pipa e com rabo de róquia para a cidade, da cidade para a pro-
duas tiras de pano. Um observador que nun- víncia~ da província para a pátria. E finalmen-
ca tivesse soltado um papagaio, ou que per- te, do pátria para um mundo realmente huma-
tencesse a essa esquisita raça de homens de no, universal, católico.
onde saem certos sociólogos ou certos peda- E em cada um dêsses limites se aplica a
gogos, vendo a pipa lá no alto, gingando ao mesma idéia aparentemente contraditória da
vento como que se debatendo para fugir, se- utilidade do limite e do imperativo do trans-
ria capaz de pensar que é o cordão que im- bordamento. E em cada um dêsses limites há
pede o papagaio de subir mais alto. Ora, é lugar para um dos dois erros que já assinala-
justamente o cordão, ou melhor, a esquisita mos. O nacionalista, por exemplo, pensará
aliança entre o cordão e o vento, que lhe per- que o bairrismo e a emulação entre as pro-
mite subir. O papagaio só consegue subir mui- víncias são ameaças para a unidade nacio-
to alto porque está prêso. Cortado o fio que nal. Se puder, mandará queimar em praça pú-
o retélm, ao contrário do que pensaria o nos- blica as bandeiras estaduais e destruirá a au-
so desvairado filósofo que apostrofa os limi- tonomia dos municípios, como aqui aconteceu
tes, sejam êles fronteiras ou dogmas, a pipa durante a ditadura, sem perceber que está
irá se espetar nas árvores, ou ficar ridiculamen- destruindo a nação.
te pendurada pela cauda nos fios telegráficos. O nacionalismo, de fato, destrói a nação;
Assim é a condição humana. Nós preci- transforma a diferenciada organicidade de um
samos de cordão -e de vento. A idéia que es- país num monólito sem vida; e, o que é pior,
destrói nos homens as suas últimas reservas de
que o patriotismo está para a democracia co-
cIvismo porque, quebrando as célu,las co~cê~-
mo o nacionalismo está para a demagogia.
tricas a autonomia estadual, a vida propna
Permitam-me uma breve análise dêsses dois
dos ~unicípios, e o segrêdo da casa, está .fur-
conceitos, que me parece aqui de alguma uti-
tando ao homem, uma por uma, as sucessl~as
lidade.
oportunidades de exercer o verdadeiro· patno-
tismo, que nasce na casa, qu~ s~ exp;a~de no.s A democracia e a demagogia têm alguma
bairros - amarrando-se em SinaiS proxlmos VI- coisa de comum. Ambas procuram exprimir o
síveis um campanário de igreja, uma paisa- voz do povo. Tonto na democracia como no
gem 'de infância - e que assim se alarg~, .se demagogia o que se procura é um tipo de go- /
dilata, detendo-se um instante em cada limite vêrno, umf formo de sociedade, uma norma. (Jv

que atinge e vence, recuando um POUC? n.as de convivência de acôrdo com os aspirações·
bordas do limite para transpô-Io com mais for- de um povo. Mos agora vejamos a diferença.
ça - como o braço do arqueiro recu~ a fim A oposição. Enquanto o democracia procura
de que a flecha vá mais longe -. e assim co~- exprimir e representar um povo por suas virtu-
tinua êsse transbordamento sucessIvo que o di- des, o demagogia procura exprimi-Io e repre-
namismo da justiça impõe. sentá-Io por seus defeitos. Nesse sentido eu po-
Para o verdadeiro patriota, IStO é, para deria dizer, sem falsear a realidade, que hoje
um homem verdadeiramente sensato e retamen- são muitos, em nosso país, os que desejam bem
te afetivo, a tôrre da sua igreja e a paisagem representar o que nós temos de mau.
do seu bairro é o Brasil. E redprocamente, o Como se vê, o combate é desigual. Tôda
Brasil é a igreja e o bairro. Cada coisa é sinal nosso dificuldade - e esta é o nosso grande
da outra, conforme a perspeetiv~. E é_na d~- missão - está em conseguir representar bem o
pIa perspectiva que ambas. as cOisas.. sae;>reC:1s que nós temos de bom. E poro isto, mesmo com
e conexas. l: claro que o lusto equlllbno nao o risco do impopularidade - o que em políti-
é fácil. Essa, aliás, é uma das notas caracte~ís- ca é heroísmo! - e mesmo com a certeza de

'é ticas do que nós entendemos ~or demo~~ac!a:


um equilíbrio difícil entre dOIs deseqUlllbnos
Háceis. E êsses desequilíbrios são fáceis porque
derroto eleitoral, é preciso resistir 00 tôrvo
pendor do xenofobia, de ódio 00 estrangeiro,
de nacionalismo bocó, que foi uma dos he-
. agradam mais depressa aos povos do que a ranças mais tristes do Estado Nôvo.
esdrúxula proposta de lágrimas, suor e sangue. Há muitos problemas em que um partido
O problema que até agora ab~rdamo~ po- político realmente democrático deve sustentar
deria ser colocado em têrmos mOls gerOls de uma posição difícil. Este de que hoje trotamos
concepção política, e não seria difícil mostrar é um dêles. Trata-se de defender o patriotis-
mo contra o nacionálismo, eé inútil disfarçar
a gravjdade do vício que ficou gravado em
nosso povo. Esta defesa, como tentei provar;
tem dois aspectos complementares: em re-
lação à vida interna do país nós defendere-
mos a casa, a cidade, o município e o Estado;
em relação à vida externo, defenderemos o pa-
triotismo, tendo sempre em vista a universali·
dade da justiça. Eu insisto no caráter compó-
sito e difícil do problema, lembrando a ima-
gem do fio e do vento. E insisto na necessi-
dade de descer em contrações sucessivas para
poder subir em sucessivas dilatações.
O universo físico; segundo as modernas
teorias, é apresentado como qualquer coisa
que cresce em tõdas as direções. Os físicos nos
falam de um universo em expansão. Pois bem,
o universo dos homens, o universo das almas,
é também qualquer coisa que cresce. l:: um
universo de amizade em expansão. Mas o mun-
do do homem não cresce simplesmente como
uma nuvem se dilata; não cresce uniformemen-
te; não incha;.o mundo do homem cresce em
dois sentidos e em dois tempos, contraindo-se
e expandindo-se. O mundo do homem cresce,
e só pode crescer, à imagem de seu próprio
coração.
Vi outro dia o "filme" intitulado "último
Ato" que representa o episódio final da lou-
cura nazista. Fui com minha filha de dezes-
sete anos, e portanto transgredindo a proibi-
ção que estava marcado para os menores de
dezoito. A meu ver, entretanto, o "filme" de-
via ser exibido nos colégios secundários, para
que os nossos meninos de treze anos pudessem
apreciar o que aconteceu com os meninos de
treze anos na Alemanha nazista. Não sei di-
zer se o "filme" era bom, como obra de arte,
porque o tempo todo estive a misturar o que
via na tela com o que me corria na memória
despertada. O tempo todo, com um nó na gar-
ganta, estive a reviver aquêle período espan-
toso da vida do mundo e da minha própria.
lembrei-me de um cinema a que fui na Praça
Sêca em 1929 ou 30. Nesse tempo, como já
contei em outro lugar, andava eu tão mergu-
lhado na técnica que pouco sabia do que se
passava no Rio, e nada do que acontecia em
Roma ou Berlim. Ora, quando passaram um
"filme" documentá rio com uma cena em que
Hitler discursava, meu susto foi tamanho que
me levantei e fiz um pequeno tumulto na es-
curidão da sala: "Aquêle sujeito é um louco!"
Minha mulher puxou-me a aba do casaco e
fêz-me sentar.
Mais tarde foi na própria Alemanha, num minha mulher uma rosa escarlate colhida no
hotel de Berlim, a um modesto engenheiro seu ja;dim. Soube depois que morreram na
chamado Osterbind, que fiz a mesma nervosa guerrQ ..
e inútil advertência. Numa semana de estada
O leitor de certo já percebeu que eu estou
eu sentira no ar um cheiro esquisito, e adivi-
aqui a me gabar de ter adivinhado coisas.
nhara nas fisionomias uma espécie desconhe-
Acho que não é muito difícil prever o ribom-
cida de alienação e de euforia sonambúlica.
bo do trovão depois da evidência do relâmpa-
Uma tarde, num majestoso café de Friedrichs-
go. Mas não me defendo muito das suspeitas
trasse, vi a sala escurecer e ouvi estrugirem ri-
de presupção. Gabo-me dêsse sexto sentido.
bombos wagnerianos, entre relâmpagos lumi-
Publico-o e ofereço-o de graça aos homens do
notécnicos, enquanto os berlinenses de nuca
meu País, como o ofereci, inutilmente, àquele
raspada deglutiam saladas de batatas . com
engenheiro alemão, em sinal de amizade, e
inabalável convicção. Fui recebido por um en-
H em trocado sorriso e da rosa.
genheiro-chefe da "Telefunken como um jo-
vem tenente é recebido por um marechal. Tudo Vendo o "filme", com o permanente nó na
muito solene, muito hierárquico" muito pesa- garganta, eu revia os dias horrorosos em que
do. O marechal das telecomunicações recomen- os exércitos invencíveis de Hitlerse alastravam
dou ao pobre Osterbind que me mostrasse as pela Europa. Naquele tempo nós aqui também
estações de rádio e que, à noite, me levasse éramos totalitários e nacionalistas. Nossos guias
ao teatro onde havia um espetáculo com mil inspirados recebiam condecorações de Berlim,
mulheres nuas. Expliquei tImidamente que pa- e decretavam a traducão das tabuletas dos
ra meu gôsto eram demais, mas o super-ho- colégios franceses e inglêses. Decretaram de-
mem não entendeu ou não ouviu. Tocou uma pois o número obrigatório de música brasilei-
campanhia e fomos reconduzidos para um sa- ra nos concertos, que até hoje, para vergonha
lão de espera espessamente ata peta do, onde nossa, permaneceu obrigatório. Ora, eu per-
uns jovens gigantes louros nos ofereceram re- gunto ao leitor de quarenta anos, como um
vistas e charutos... Por isso, naquela tarde teste, se ainda se lembra da música que os in-
de despedida, quando o simpático Osterbind glêses, no auge do bombardeio de Londres,
me perguntou se gostara de Berlim, respondi- escolheram para o hino de sua vitória. Lem-
lhe que não, e tentei explicar-lhe. Lembro-me bram-se? Foi a Quinta Sinfonia de Beethoven.
bem do nariz dêle, que ficou alongado para Bem sabemos que os inglêses não são muito
dentro da xíca.ra de chá; e lembro-me de sua ricos em música, mas que diacho! Sempre po-
espôsa, que era bonita, que sorria vagamente deriam achar num Purchell alguns acordes pa-
sem entender nosso inglês, e que ofereceu à ra abrir o programa da B.B.C. Mas não. Fo-
ram buscar o hino no universal depósito, e por "Nunca mais esqueças, e nunca mais obedeças
humorístico e civilizado acaso, a escolha re· o tudo". Bom conselho. Sábio conselho. Por-
caiu na música da mais ardente das almas ale- que no verdade aquilo a que assistimos era o
mãs. fim de dois pavorosos crimes: o crime dos di-
rigentes que em nome do nacionalismo exas-
E eram essas pequenas coisas, o V da vi- peraram o sentimento coletivo; e o crime es-
tória, a Quinta Sinfonia, o pequeno armazém pantoso dos que obedeceram. Sim, o Crime
destruido com o seu cartaz dizendo depois de do Obediência. Será preciso lembrar que a
um terrível bombardeio: "More open than virtude da obediência é a que exige o mais
usually", o charuto de Churchill, a gaita do es- fino e intransigente dos discernimentos?
cocês do batalha de Alamein - eram essas pe- Mos o conselho do jovem oficial não pa-
quenas coisas enormes que nos alentavam na- rece estar ·.••ívo nos corações doze anos depois
queles dias de pesadelo. Sempre pensei que do queda do nazismo. O mundo esquece o
o humorismo podia vencer o nacionalismo; sem- que o mundo sofreu. Na mesma sessão em
pre pensei que o humanismo havia de prevale- que assistimos 00 "Oltimo Ato" havia dois "fil-
cer. E venceu. E prevaleceu. Ali estavam, no "fil- mes" documentá rios. O primeiro exibia os bri-
me", os cenas finais, os estertores do fanatismo lhantes festejos em homenagem 00 General
vencido. Ali estava o "Fuehrer" que esbofeteava Craveiro lopes; o segundo, muito bem filma-
os disciplinados generais, o chefe hidrófobo a do, apresentava cenas idas de esportes argen-
quem não se podia servir, sem perigo de vida, tinos patrocinados por Juan Perón. Havia um
um copo de Iímpida verdade. O môço do "filme" bonito certame hípico que se tornara, por de·
morre assassinado porque tentou dizer o ver- ereto, o esporte nacional dos argentinos. O
dade ao grande chefe. Minha filha, sentada na público não vaiou Craveiro; não vaiou Perón.
ponta do banco, angustiada, de vez em quan- A sala repleta estava abafada. Uma sonolên-
do perguntava: "Meu Deus! isso existiu?" E cia modorrava os espíritos. Os que não na-
eu lhe dizia que a realidade fôra ainda pior. moravam, tinham ido ao cinema para matar o
Expliquei-lhe depois que o drama de tôdas as tempo. Saímos. lá fora, diante do passeio pú-
blico, passava uma camioneta com um alto-
chefias é a solidão, o acesso difícil da verda-
falante roufenho a anunciar: "Frente Naciona-
de, e que a tragédia dêsses regimes de chefia lista! reunião na A.B.L" Mais tarde li no jorndl
absoluta é o satânico comprazimento no men- que aquêle é o nacionalismo do coronel Nemo
tira. Por isso têm de cair, e caem como se via Canabarro e que, na anunciada reunião, al~
no "filme". O jovem capitão assassinado dei- guns oradores, com arroubos de eloqüência,
xà seu último conselho a um soldado-menino: iriam denunciar a política de luís XV e de luís
XVI a propósito, creio eu, do perigo que cor·
rem nossas riquezas minerais.
A tarde estava maravilhosamente azul. Mi·
nha filha e eu íamos tristes. E 'se aquilo;' tor-
11

nasse a acontecer? Se acontecesse no nosso


Brasil? l: claro que aquilo";
11 acontecendo
aqui no Brasil, não teria perigo de incendiar o
mundo porque não temos armas nem índole
guerreira. Seria apenas um desastre de uso in-
terno. Seria apenas um môfó nas olmas con-
finadas, ou um grelado no fundo de um cor-
redor, como disse o poeta português, e como
acontece na pátria infeliz dêsse mesmo poeta.
Por isso íamos tristes e apreensivos, com um
chumbo no coração, embora a tarde estivesse
radiosamente azul. Mas não é por engenho
nosso que o nosso céu ostenta uma pintura as-
sim tão perfeita e tão lisa. Saberemos nós res-
ponder à doçura daquele azul? Deus nos pro-
teja! Não é também por engenho nosso que
o petróleo apareceu em nossa terra, nem ain-
da por engenho nosso que se inventaram os
meios de extraí-Io e de utilizá-Ia. Saberemos
nós utilizar as riquezas e aprender a ciência
produzida pelo gênio universal? Saberemos
nós crescer sem apoucar os outros, dilatar o
Brasil sem incriminar os reis da França? Deus
nos ajude. Naquela tarde, entretanto, estáva-
mos tristes, porque de nosso o que se via, ali
na Cinelândia, era a arapuca nacionalista que
transformara o pobre Chopin num pássaro ca-
tivo (que falta faz o humorismo !), e pela qual
compreendemos que o petróleo nacional deve
sobrepor-se à música estrangeira.
Anos atrás, nos bons tempos em que os
partidos da resistência democrática procura-
vam nortear seus rumos por princípios e idéias,
pronunciei na sede da União Democrática Na-
cional, a pedido de seus dirigentes, uma con-
ferência intitulada "Patriotismo e Nacionalis-
mo", que mais tarde foi incorporada no vo-
lume de "Fronteiras da Técnica". O ângulo de
abordagem do problema era o da filosofia
moral, e o estudo procurava caracterizar as
virtudes ou vícios que fazem um cidadão soer
patriota ou nacionalista.
Como todos sabemos desde Aristóteles, o
bom desempenho dos atos humanos exige a
aquisição e o desenvolvimento de certos "ha_
bitus" estáveis, de certas faculdades enraiza-
das na alma do homem. Essas segundas natu-
rezas são as virtudes. A mesma clássica dou-
trina enumera as quatro virtudes fundamen-
tais: a primeira, a Prudência, é a virtude do
intelecto prático que preside as outras três,
chamadas virtudes morais no sentido estrito,
que se radicam na vontade, e que só funcio-
nam bem em conexão com a Prudência. São
elas, como sabemos, a Justiça, a Fôrça e a
Temperança. Cada uma dessas virtudes tem
um imenso campo de ação, e é costume dar
atmosfera de justiça. A paz é o fruto da jus-
nidode morcadapor unidade cultural e políti- tiça. A verdadeira paz, que é muito diferente
tro do mesmo quadrante, se especificam por da mera suspensão das operações bélicas, é
alguma matéria particularizada. Assim, por inseparável da justiça. "Justitia et pax oscula-
exemplo, diremos que a piedade filial é uma tae sunr'. Por isso, todo o grupo humano, que
virtude anexa da Justiça. A amicitia dos esco- deve zelar por sua unidade, tem de se orien-
IÓ!lticos, que hoje, chamamos de civismo, ou, tar pelo bem maior e universal. E por isso, os·
em sentido largo, de solidariedade humana, é vícios que se opõem à virtude da justiça são
também uma virtude anexa do Justiça. E assim aquêles que fomentam as inimizades e que
o patriotismo: é a virtude reguladora ~os at~s exasperam os ressentimentos.
humanos especificados pelos laços de convl-
Em regra geral há dois modos de rugir ao
vência que prendem os homens de uma comu-
equilíbrio da virtude. Há dois modos de des-
nidade marcado por unidade cultura e políti-
vio. No caso do chefe de família, por exem-
ca. Pela lei de um profundo realismo, e até di-
plo, há um modo de faltar ao dever por ne-
ria pela lei da Incomação que é a suprema
9 ligência, por abandono, por desinterêsse, por
concretização do Bem, nós nos devemos o to- anarquia; mas há também um modo (às vê-
dos mas a começar pelos mois próximos. As
zes mais grave) de ser viciado, que consiste
leis' morais são universais, mas o exercício de-
na prática do filhotismo, do nepotismo e de
las tem exigências de moior densidade nas re-
tôdas as modalidades de acepção de pessoa
lações mais próximas. A iustiça não tem fron-
que tornam odiosa para a sociedade civil a
teiras, mas o aprendizado e o exercício dela
sociedade familiar. Assim também, no que con.
se realizam em círOJlos concêntricos com gra-
cerne à pátria, haverá dois vícios opostos ao
dacões de densidade, mas com continuidade verdadeiro e bom patriotismo. E \,1m dêss€ls -
da' substdncia ética. Assiln as famílias são, ou
o que pretende servir à pátria com os ins-
devem ser viveiros de iusfic;a. Assim também
trumentos da inimizade e da agressividade,
as nações: Não pode ~ virtudes familia-
como se fôsse ela um fim absoluto - é o que,
res onde o bem da fall.rlO é pmcurado em de-
por seus próprios fautores, e não por mim, foi
trimento das outras. O obietNo dos grupos hu-
chamado de nacionalismo. O nadonalismo era
manos só pode ser o de coatribuir para o con-
pois, até anos atrás, um vício que se opunha
cêrto da universal solidariedade, só pode ser
à virtude do autêntico patriotismo. E digo que
o da cooperação para a paz universal; mas
note-se que Paz, aqui •. não quer dizer apenas era porque parece, a julgar pelos múltiplos-
ausência de tiros e de embairque de tropas, nacionalismos que hoje brotaram nos meios
não quer dizer apenas aursência de guerra, e mais diversos, que houve ou que pretendem
sim a boa convivência dos homens numa
que tenha havido uma ~ijn semântica do ira, a cólera, a indignação e a luta; mas tam-
têrmo. Cuidaremos disso .ais tarde. No mo- bém nenhum moralista autêntico chega à lou-
mento air.da nos servi.- ••• sentido que a cura de pensar que êsses acidentes, por mais
êsse têrmo emprestovmD. _ aIrós, seus pa- freqüentes que sejam, tenham fôrça para fir-
ladinos: Hitler, Musso1ini.PIinio Salgado e mar uma filosofia de essencial e programada
Vargas. inimizade. Ora, o nacionalismo é, ou era uma
O fenômeno é onIigD. Poderiomos dizer dessas atitudes do espírito marcadas pela con-
que tomou vulto no •••••_ •• , Gvilização Mo- vicção da essencial inimizade entre os homens.
derna, a partir da RetMO&~ e que foi, para Em âmbito internacional, é uma aplicação das
as nações, um fenômeno ••••• lgDc'o do surto filosofias do egoísmo, que marcaram a atmos-
do individualismo poro _ • HI5 Assim, como fera do mundo moderno, e que Hobbes formu-
se instaurou a filosofia ••• aIiciolização do lou com o conhecido apotegma: "Homo homi-
egoísmo dos indivíduos.-..-ou-se no mun- ni lupus".
do também a apologia •••• -AO das nações. O fenômeno é antigo, mas a consclencia
A filosofia e a teologip .1' - '6 ensinam que dêle e o vocábulo que o designa são relativa-
há um abismo de dir.6iiipIi 8IIre o amor de mente modernos. O têrmo "naciona Iismo" ga-
si mesmo, que é 0110 _~ e o egoísmo ou nhou destaque e entrou na moda com o famoso
amor próprio, que é a .- e G or:gem de to- e vergonhoso "affaire Dreyfus" em que se con-
dos os pecados. Essa.g til fundamental,
denou um inocente por elevadas razões, de in-
que Erich Fromm aam ••• éscobrir maravi-
terêsse nacional. Charles Maurras, da funesta
lhado, estêve escondidu _ ..- t ti da socieda-
de liberal burguesa. E pca== qIJe para muitos Action Française, também foi um convicto e
ainda continua escondillll _ tlilerença essencial consciente nacionalista. Mas foi o advento das
que existe entre o ••••••• 0 patriotismo e fórmulas mais agudas e dramáticas da políti-
isso que chamam de •• ie- 5 l, e que se ca- ca totalitária que deu ao têrmo o seu máximo
racteriza pelo fo ••••••••• Íllimiízode e pela esplendor. Para quem tenha um mínimo de
exasperação dos rcss5 ns Nõo há amor
E
memória política, é impossível ignorar que o
constituído de desanD_ .ao há justiça que têrmo "nacionalismo" tem sua história e sua
se alimente de iniuslipls. .Al:ide,1Iolmente, en- glória ligadas à filosofia totalitária, e mais es·
tende-se que um amor •••••• u.ldido com ira, pecialmente às formas fascistas. E por isso, se-
que um direito sejo.as- 5 com armas na
••
ria de esperar que o militante democrata, que
mão. O mundo é •••••••••••••• m moralista professa um sagrado horror pelas formas da
sensato tem a esh""" ••• deso,cooselhar a político totalitária, tivesse a mesma acentua-
da aversão ao vocábulo forjado naquelas ofi, nacionalismo nas ruas de Budapeste; nem pre-
cinas. tendo atingir os integralistas e os ex-integra-
Essa é a minha primeira reclamacão no listas que sob a mesma bandeira estão empol-
assunto. Acho que aquêles que militara~ sob O gados com os programas de desenvolvimento
estandarte das liberdades cívicas não deviam econômico. Mas dos democratas autênticos,
usar êsse vocábulo para designar suas posi- que um dia chegaram a entender e a sentir na
ções diante de tais ou quais problemas eC07 pele o valor das liberdades cívicas - o valor
nômicos. Mas pelo amor de Deus, leitor, não da liberdade de opinião, por exemplo - dês-
pense que minha reclamacão se estende aos ses eu reclamo não só o uso do vocábulo co-
que eram totalitários e co~tinuam sendo. Não mo também o uso das idéias que atrás dêle
tenho a desvairada esperança de convencer um se escondem.
totalitário, como não tenho a presunção de,
abalar o Pão de Açúcar; mas tenho a modes-
ta esperança de desejar que os democratas •.
continuem a ser democratas. E: só isso que juk
90 estar em meu alcance. Só isso, e nada mais.
Quando reclamei a propósito das homena-
gens tributadas ao representante do salazaris-
mo, o sr. Gilberto Freyre, em artigo num jor-'
nal, achou "hilariante" meu apêlo à sensibili-
dade dos democratas. O festejado sociólogo
enganou-se, creio eu, pensando que eu escre-
vi aquêle apêlo para todo o mundo e para êle'
mesmo. Não, eu não sou tão ingênuo assim.
Da maioria das pessoas que andaram atrás
do general Craveiro eu não esperava outra
coisa. Do sr. Gilberto Freyre eu também não
esperava que se considerasse alvejado por
meu artigo. Esteja pois à vontade, e ria-se com.
gôsto o sociólogo.
No que concerne ao nacionalismo eu tam-
bém não pretendo atingir os comunistas, em7
bora pudesse dizer-Ihes que fôssem pregar o
(Lç6L-L-a; - "OlnVd O'!tS 30 oaV1S3 O.)

OWSnnflll'9'lOl :I OWSIl'9'NOIJ'9'N
A palavra "nacionalismo", antes mesmo
da proliferação de nossos dias, tinha dois sen-
tidos, duas acepções diversas e de origens di-
ferentes. Na primeira acepção, de que já nos
ocupamos, nacionalismo significa exaltação
mórbida do sentimento de nacionalidade, ou
ainda, se me permitem essa abstrusa expres-
são, significa uma espécie de egoísmo coleti-
vo. 1:, como vimos, um vício que se opõe à vir-
tude do patriotismo. Em linguagem filosófica
costuma-se dizer: um vício que se opõe por
excesso, mas não se deve concluir daí que se
trate de um exagêro apenas, ou de um grau
excessivo de sentimento patriótico. Não. Mais
do que isso, é um desvio, uma perversão. Na
segunda acepção, que já basta para trazer
boa dose de ambigüidade aos debates, na~
cionaJismo significa política de socialização
dos meios de produção, sendo sinônimo de
estatismo e oposto de liberalismo. Em outra
oportunidade cuidaremos dessa segunda acep-
ção. Por ora ainda temos alguma. coisa a di-
zer do nacionalismo que se opõe à virtude do
patriotismo.
Mostramos antes que o fenômeno ma-
nifestou seu máximo vigor nas formas po-
líticas totalitárias, e mais particularmente
nas formas totulilíilias de inspiraçõo ou de gralistas do que pelos fautores do Estado Nõ-
tipo fascista. HiIIer e Mussolini foram des- vo, foi o de um naturismo com laivos de india-
vairadamente ~ Entre nós tivemos nismo. Nosso nacionalismo sempre foi mais
o Integralismo e o fsIodo Nôvo de Vargas. uma atitude de isolacionismo emburrado do
No fundo de lodos êmes Wrios fenômenos há que de agressividade belica.

visível conseqiiêDãa de
coletiva. E:sse i E' E f
..-a
sempre um agudo IeSISlE!IInmentocom a pre-
reaçõo neurótica
' • acumula numa co-
Proposto o ideal adequado ao específico
ressentimento, o profeta do nacionalismo trata
de prometer sua realização e a cura dos gran-
letividade cargas - ••••sei,entes de agressi- des males nacionais, desde que a multidão
vidade e de des.. 5FFiiiÇD pora com os outros consinta em se despojar, ao menos provisoria-
grupos nacionais.. I: _ tensão difuso, implí- mente, de certos direitos que não enchem bar-
cita, subjacente. •••••• _ que aparece um riga de ninguém. E aqui se estabelece o nexo
explicitador, Os •••••• SIIIrios de nacionalis- entre o nacionalismo e o totalitarismo.
mo tiveram seanpm • iAlJ técnica: a explo-
Para a reta filosofia política, que em sen-
ração, a exaspea ••••••••• ressentimento coleti-
tido tato chamamos democracia, o têrmo de
vo. O líder nac:ioee 57 .., sempre à mesmo
tõdas as atividades políticas é o bem-estar das
invariável recurso:: I e as multidões de pessoas, bem-estar que inclui, evidentemente,
que seus males •••• , ••••••• das outras na- os elementos econõmicos, mas que só merece
ções. E trata logo ••• ·••••• lIIIII'I ideal a ser rea- o nome de bem-estar humano se começa por
lizado. Se o país •••••• Ios.:::S tradições, co- considerar a humana dignidade. Na base de
mo a Itália, o ideal oovo Império Ro- tal política tem de haver um fundamental e
mano que devol. •• iiiIaIicncs o poder e a integral humanismo. Para o totalitário não é
riqueza de que ~.' E CIfOOcs.No caso da nas pessoas e, sim, no bloco, na nação, e às
Alemanha, o idool ••••••• fa,i também o do vêzes na Idéia, que reside o têrmo de tõdas as
domínio do mu. _ • .arivação buscava atividades políticas. E assim sendo, torna-se
bases na crenca ••• _ ~:oridade racial. admissível que o poder e a riqueza do bloco,
E cumpre not~r •••• _ ím,o:iente afirmação de todo nacional, sejam procurados em detri-
de superioridade •••• lIIiio p<Jssava de um mento da segurança das outras nações, e com
mecanismo psicolétlii'- de u,:lt:-:xorreção de prejuízo da liberdade dos cidadãos da própria
um sentimento de • fiaiall:de. Entre nós, na nação engrandecido. Há, portanto, uma in-
falta de grandezas.Ii"-'· e de uma razoá- trínseca injustiça na estrutura totalitária: injus-
vel base de uma ••• • Sü;::'eriori~ade ra~ tiça agressiva contra as outras nações e injus-
cial, o ideal pro~ __ eúxo pelos inte- tiça humilhante e vergonhosa contra a digni-
nós/proporções alannantes. Somos hoje um alguma coisa ao mundo/ à terra dos homens
País de miséria crescente. O trabalho de mui- a. êss~ te:rível e misterioso grupo de sêres ra~
tos é contrariado pela orientação calamitosa ClonQlS tao. pouco r~zoáveis que talvez seja/
que uns poucos vêm imprimindo aos destinos em todo o Imenso universo/ a única humanida-
do Brasil. Entende-se pois o ardor e o fervor de. O nacionalista/ ao contrário/ pensa que
aplicados na tarefa do recuperação econômi- nada deve ao mundo; ou então/ como se vê
ca que é a saúde físiaJ do País. Mas não se por aqui/ que o mundo lhe deve tudo.
entende que essa Iorefa se realize com indife-
rença da estrutura poIiIicu. e muito menos que
se faça com declarado sinIpotia/ com evidente
preferência pelos insII FRIos da política totali-
tária. Estamos, nesse CDSO, no êrro oposto ao do
liberalismo econônüc:D que ocredita no automa-
tismo dos fenômenos da -=nnomia/ e que desa-
conselha qualquer ialuwealÇÕO do Estado nes-
se domínio. O dirrJ ~ econômico fundado
na indiferença da __ político é já o primei-
ro passo para o ••••• islrlto, porque nessa
matéria não há equiMwrio possível em situação
intermediária. AüdI •• o fórmula fôsse boa
(mas não foi o que.m h lE" na Alemanha e

decimento material _
-.:I
na Itália)/ um paIriuIu. de alma bem formada
. não pode desejar •••• pcítria um engran:'
delrimento da univer-
sal concórdia e do ••••• Mdude humana. Mui-
to menos pode de •••. êSI5e engrandecimento
em troca de capihA,,"" que despem o ho-
mem de suas in5Ígllil& r.a minha Pátria/ pe-
lo que aprendi no a~ f -Fil!III[) e na democra-

cia/ não posso desEt-. e mo desejo realmen-


te uma prosperidade e _
figuração da RússiQ
po de contribuição •••
.a.m. poder com a con-
Nõo é êsse ti-
U8IIKlIS ao mundo. E
é preciso nõo escpB8' •• codo Pátria deve
(LÇ6l""""lM - "OlOVd OVS 3a OOV1S3 o.l

"'1511"1:>05 W3N '.,,33811 W:lN


o têrmo "nacionalismo" tem uma signifi-
l...:lção diferente daquela que representa iJllKJ
desvirtuação do patriotismo e que gera a ini-
mizade entre as nações: designa a doutrina,
de origem socialista, que recomenda a sociaH-
zaçiio dos meios de produção e que se opõe
à livre iniciativa das emprêsas particulares e
aos postulados da economia liberal. Nesse
sentido, os americanos do norte poderiam rei-
vindicar a nacionalização do próprio petróleo.
Nessa acepção do têrmo não há pois nenhu-
ma conotação aparente de xenofobia e de iso-
lacionismo nacional. O que se quer, sob a ban-
deira dêsse nacionalismo, é combater a estru-
tura clássica do capitalismo e da economia da
livre concorrência. Até onde julgo ter bem
compreendido, é êsse o nacionalismo de al-
guns colaboradores do "Diário de Notícias",
e creio que é êsse também o nacionalismo ra-
cional de alguns militantes da Frente de Reno-
vação. f entretanto lamentável que a ambi-
güidade do têrmo, e direi até a ambigüidade
da dialética empregada por êsses socialistas,
se preste às aproximações equívocas. Diante
da opinião pública, o antiamericanismo moti-
vado pelos postulados socialistas se aproxima
perigosamente do antiamericanismo suscitado
pela xenofobia e pelo ressentimento col,etivo.
E assim, aparecem de braço dado o asprrante da terceira posição, igualmente distanciada
ao totalitarismo e o militante que sempre se daqueles erros" diz muito bem Fábio Alves Ri-
opôs e sempre combateu o totalitarismo. E é beiro (A Ordem, abril, 1954). E acrescenta:
por essas e outros que eu acho qUê os verda- "Voltando 00 problema da socialização ou
deiros democratas deviam ser extremamente nacionalização lembremos com Pio XII que
cautelosos no uso do estandarte nacionalista, desde o Quadragesimo Anno é ponto pacífico
e chego até a achar que deviam ter uma sa- aceitar a Igreja a passagem para o direito pú-
grado aversão pelo vocábulo traiçoeiro. blico de certas categorias de bens que desse r-
viriam os legítimos interêsses da comunidade
Deixando de lado agora os inconvenientes se permanecessem nas mãos particulares". Po-
do ambigüidade do têrmo, consideremos o demos considerar o caso do petróleo brasilei-
problema da socialização no seu mérito. Come- ro como um bom exemplo de aplicação dessa
co por declarar que 000 tenho o menor empe- regra admitida. "O Papa atual - continua Fá-
~ho em defender os postulados do sociedade bio Alves Ribeiro - acrescenta entretanto que
liberal e da estrutura capitalista tal como se fazer dessa nacionalização a regra normal de
concretizou histõricamente dentro da socieda- organização pública da economia, seria inver-
de liberal. Não aaedito no automatismo dos. ter a ordem das coisas. (Alocução de 7 de
processos econômicos, no laissez.faire, e na maio de 1949 CIOS delegados da União Interna-
concepção de um Estado Gendarme a quem cional das Associações Patronais Católicas.
competiria apenas a defesa daq~eles. proces- "Rev. Ecl. Bras.", vol. 9, fase. 3). Lutando com
sos. Mas daí não se segue que simpatize com extrema decisão em defesa do indivíduo e da
todos os movimentos que se apresentam como família contra a voragem que na socialização
opostos do liberalismo econômico. Nem sem- de tôdas os coisas procura sorvê-Ios, bate-se a
pre quem se opõe a um êrro está certo .. O Igreja em particular igualmente pelo direito do
mundo pagou caro preço por essa gros.selra indivíduo à propriedade. (Radiomensagem ao
indistinção. No que concerne ao comunIsmo, Katholikentag de Viena)".
por exemplo, não tenho dúvida em. afirmar
que muitos formas de reação c~nsegul:am ser
Por aí, e pelo resto do citado artigo, que
vale a pena consultar, vê-se que o mais moder-
ainda piores. Nõo basto ser antlcomu~lsta pa-
ra estar certo. No problema que nos Interessa no pensarilento católico admite a prática da
não basta ter direito à nossa simpatia. socialização de certos bens, mas recomenda
grande reserva no que concerne às indevidas
"Nem liberal individualista, nem socialis-
extrapolações da regra. Em outras polavras,
ta, ocupa a doutrina social da Igreja incomo-
aceitamos a medida como quem aceita um re-
médio necessano em certos casos, mas não dois problemas estão ligados numa difícil in-
como quem vê nisso uma regra normal a ser teração, e é por isso qu'e se torna necessário
levada tão longe quanto possível. Sem recusar desenvolver ao mesmo tempo a sensibilidade
ao Estado o direito de intervir na marcha dos política e a sensibilidade econômica. Mutilada
processos econômicos, o pensamento católico brutalmente a questão chega-se às fórmulas
procura resguardar os direitos da livre inicia- dementes de uma boa solução econômica con-
tiva. A posição é delicada, e como disse Fá- seguida em troca de uma tirania, isto é, em
bio A. Ribeiro, incômoda. Mais fácil é errar
troca da capitulaçao e do desprêzo pelos di-
de um lado ou de outro, como aliás sempre
reitos do homem.
acontece com os problemas humanos.
Está muito longe ainda a conquista con-
Há nas tendências socialistas que reco-
mendam com entusiasmo as nacionalizacões solidada de um sistema elaborado até o deta-
um êrro curioso que se encontra também' nos lhe, mas desde já temos os princípios que de-
liberais. Empolgados pelos problemas econô- vem reger a pesquisa, e desde já podemos adi-
micos, que constituem sem dúvida alguma o vinhar a boa tendência. Como quem estivesse
mais direto e corpóreo dos problemas huma- a profetizar, diria que a história nos reserva
nos, o socialista faz abstracão da realidade uma curiosa surprêsa nessa matéria: a de mos-
política e das aflições, não ~enores, causadas trar, talvez pela voz de algum futuro Papa,
pelos abusos de poder. E então, para resolver que a doutrina social da Igreja está muito mais
esquemàticamente um problema de distribui- perto dos delírios de alguns anarquistas do que
ção de riquezas, concede tudo à ordem polí-
dos delírios dos totalitários. A mim me parece,
tica, e dá ao Estado um poder desmedido.
mas nisto eu imagino que contrario muitos
Ora, qualquer pessoa de mediano bom-senso
sabe que o poder é perigoso. Não é só a ri- católicos, que nós deveríamos ser particular-
queza e o apetite dela que gera injustiça e mente sensíveis às impertinências do poder.
produz sofrimentos; é, também, o poder. Não Nós deveríamos ser uma raça especialmente pre-
é só a riqueza que deve ser distribuída segun- venida contra os aparatos e prestígios do po-
do aquela fórmula lapidar de Bacon ("o capi- der. Mas isso é outra história que nos levaria
tal é como o estrume, só funciona bem quan- longe. No problema que agora nos interessa
do espalhado"); o poder também deve ser dis" basta dizer que nós não somos entusiastas dos
tribuído. O Estado sobrecarregado de funções programas. de nacionalização, porque temos
se desgoverna por diversos motivos, entre os sempre em mente o receio de ver passada a
quais avulta o da embriaguez do poder. Os medida do poder. E não temos um esquema
simples, que os aplique com um abaco, por- talitária. E assim sendo, posso dizer que na
que o prbblema é de· ordem prudencial, e não continuacão os dois nacionalismos se encon-
puramente técnico. tram - e' se encontram nos campos de concen-
tração, nos vagães de gases, e no amordaça-
No caso brasileiro parece-me de reful- mento da imprensa.
gente evidência que é pequena a capacidade
estatal. Os exemplos estão aí a gritar. Salta
aos olhos que nossos homens públicos têm re-
velado uma extraordinária e notável incompe-
tência, e que ultimamente essa situação se tem
tornado ainda mais evidente. Neste ponto eu
me dirijo aos militantes da oposição. E ou não
é verdade o fato a que acabo de aludir? Co-
mo se explica então que os mesmos militantes
da oposição, que tão bem conhecem a fraque-
za de nossos governantes, sejam os primeiros
a querer reforçar seu poder? Parece que o le-
ma pôsto em jôgo é o reverso do bom-senso.
Alguma coisa assim como: quem não pôde o
menos poderá o mais.
Resta-me ainda neste capítulo uma pon-
deração: a acepção dada ao têrmo naciona-
lismo foi aqui sempre a mesma, a do sociali-
zação, e portanto diferente daquela que repre-
senta uma desvirtuação do verdadeiro patrio-
tismo. Há entretanto um ponto comum entre as
duas, ou melhor, há no ideal de socialização
progressiva um certo pendor irresistível na di-
reção do totalitarismo. O crédito ilimitado aber-
to às possibilidades do Estado é justamente
uma das peças ess~nciais da mentalidade to-
i, V::>I.LNYW:lS OYÓnl0A:I
vwn oannlo::>o Y1I3.L
TERA OCORRIDO UMA
EVOLUÇÃO SEMÂNTICA?

Consideremos agora um fenômeno singu-


lar. O fêrmo que doze anos atrás designava
uma idolatria detestada pelos democratas, ou
significava um programa de socialização dos
meios de produção apenas tolerado, tornou-
se hoje uma bandeira, um símbolo que mais
ninguém ousa recusàr. Tudo é nacionalismo.
Todos são nacionalistas. Ninguém tem cora-
gem de dizer pura e simplesmente que não é
nacionalista, porque se disser será apontado
à execração pública como entreguista. Em vez
de um ou dois nacionalismos temos uma ou
duas dúzias dêles. Para começar temos o na-
cionalismo dos comunistas e de seus ~impati,-
zantes que melhor fariam se fôssem pregá-Io
nas ruas de Budapeste. Temos o nacionalismo de
um grupo montanhês que, enquanto não enri-
quece o país, enriquece seus adeptos. Temos
o ingênuo nacionalismo chamado "racional"
da Frente de Renovação Nacional, definido co-
mo um programa de ação política que bem
podia ter outra designação. Temos o naciona-
lismo estudantil, que vê na Light o inimigo nú-
mero um do estudante brasileiro, quando a
mim, que sou professorr me parece evidente
que são outros os inimigos dos estudantes. Te-
mos o nacionalismo particularmente polariza- por. isso, é prec.iso buscar um outro têrmo que
do em tôrno das nossas riquezas minerais." Te- deSigne uma Virtude real, racional e eficaz.
mos o nacionalismo do general Lott, que foi ?u então pode-se dizer que o têrmo patrio-
recentemente procurado pelos artistas e técni- tismo, e o têrmo civismo que lhe é correlato,
cos do cinema nacional. Temos o nacionalismo serve apenas para designar o conjunto de ri-
relutante do Sr. Carlos Lacerda, que não teve tos que constituem a liturgia nacional. Real-
remédio senão adotar o têrmo adocado com mente, depois das experiências fascistas e de-
o adjetivo "patriótico". E temos o na~ionalismo pois do nosso Estado Nôvo, quando ~e fala
do .Sr. Amaral Peixoto. Sim, disse e repito, o em civismo pensa-se em bandeira, em hino na-
nacionalismo do Sr. Amaral Peixoto. No seu cional, em paradas de Sete de Setembro mas
discurso tão comentado, o prócer pessedista, não se pensa em bem comum e em am'izade
antes de entrar nos pormenores do problema, cívica, que.é uma. virtude anexa da justiça.
disse que era nacionalista, mas não acompa- Uma das cOisas mais cômicas do mundo, a meu
nhava as extremidades a que chegavam os ver, é êsse patriotismo dos sinais esvasiados.
exaltados. Não guardei precisamente as pala- Vale a pena reparar nas fisionomias dos verea-
vras do orador, mas guardei a conjunção que dores e dos deputados, dos mesmos que pas-
é a única coisa que o separa dos outros. Ha- sam o ano a fazer negócios e a cuidar de si
verá pois no Brasil de hoje "nacionalistas" e mesmos, na hora solene em que estrugem no
11nacionalistas, mas ... " a~ os acordes do Hino. Nesse momento são pa-
triotas. São cívicos. Diante da bandeira como
Diante disso eu pergunto: terão um deno-
diante do altar nas missas de sétimo dia fi-
minador comum todos êsses nacionalismo? Se-
cam compenetrados da excepcional idade 'das
rá de fundo residualmente totalitário? ou terá
circunstâncias, e assim, nesse curto instante pa-
ocorrido, nesses últimos anos, uma evolucão
gam à Pátria e a Deus o tributo de um senti-
semântica do vocábulo? '
mento bonito e sem grandes conseqüências.
Comecemos pela última hipótese. t possí-
Ora, se assim é, compreende-se a necessi-
vel que para muita gente o têrmo nacionalis-
d.ade de arranjar outro têrmo que designe a
mo tenha vindo preencher a lacuna deixada
virtude real e eficaz, a disposição permanente
pelo esvasiamento do têrmo patriotismo. Di-
rão que êsse antigo têrmo designa apenas um e conseqüente. E se o têrmo escolhido para
sentimento, um enternecimento, um estado afe- herdar o sentido clássico da virtude patriótica
tivo, um arrepio que dá na gente quando to- é nacionalismo, então todos nós temos de ser
cam o hino nacional, ou uma disposição de es- nacionalistas. Se nacionalista é o que trabalha
pírito inclinada à retórica e à poesia, e que, para o engrandecimento da pátria e para o
bem-estar dos brasileiros; se é o economist~ Um dos pontos nevrálgicos de todos aquê-
que busco o solução adequado 00 bem co- les nacionalismos, no momento, é o petróleo.
mum, se é o técnico brasileiro que se esforço É nacionalista quem prestigia a Petrobrás; e
por dispensar o mais depressa possível o tute~, relapso, traidor e entreguista, quem duvidar
10 cultural estrangeiro, se é o sábio que proc um só instante do sucesso econômico dessa
cura trazer uma contribuição que devolva 00 emprêsa. Oro, não me parece razoável usar
mundo um pouco do qué deve o Brasil ao mun- . um têrmo com o sufixo dos ideologias poro
do, se é o músico que tiro o melhor de si mes-. uma simples opção num coso singular e con-
mo para entrar no primeiro team universal, creto. E mais razoável tirar de um "ismo" o so-
se é o professor que se esmera nas aulas, o' lução par~ o problema do petróleo, do que
escritor que se esmero nos artigos mesmo sem tirar do petróleo um "ismo". Não sei se estou
ser suíço ou inglês, se é o estudante que resol- . sendo suficientemente cloro. O que quero di-
ve estudar ou o governante que resolve gover- zer é que não bosta o atitude diante de um
nar - então sejamos todos nacionalistas. coso concreto poro se aquilatar uma mentali-
Em suma, se houve uma evolução semân- dade ou uma integridade moral. Num coso
tico temos de aceitar o resultado do processo, singular pode haver concordância por motivos
e não vale o peno quebrar lanças poro restau- infinitamente diversos. A polarização de um
rar o valor antigo de uma palavra. quadro político em tôrno de um problema,
ainda que êle tenho a magnitude material do
Não me parece entretanto que o processo petróleo, significo sempre um empobrecimen-
evolutivo tenho chegado o um têrmo que nos to, uma diminuição do pensamento político.
obrigue à aceitação do nôvo sentido. E como Na filosofia político que professo não consi-
escritor tenho o direito de perturbar o meca- go identificar os destinos da pátria com os de
nismo e de denunciar o vocábulo que me lem- um empreendimento técnico, e admito sem di-
bro tonto miséria, tonta estupidez e tonta ver- ficuldade que uma pessoa, dotada de alto e
gonha. Não vale o pena lutar pela restauração
verdadeiro patriotismo, possa ter uma opinião
dos palavras nos seus primitivos sentidos, mes-
diferente sôbre a maneira que mais nos con-
mo porque seria indefinida essa luta; mas va-
Ie a pena lutar quando o processo evolutivo se vém para a exploração de nossas jazidos. Mas
faz com tão tremendas ambigüidades. Ou me- parece que poro os nacionalistas é inadmissí-
lhor, vale a pena pelejar para que as palavras vel essa tolerância. Para êles é artigo de fé
tenham algum sentido. No caso presente na- que deva ser estatal o monopólio, e que mais
cionalismo significo tanto coisa que por fim, ninguém tenha o direito de toldar a brasílica
não significo coisa nenhuma. pureza do mineral. E com êsse estado de espí-
rito, como é fácil imaginar, êles estarão dis-
<:a. Há casos, entretanto, em que o problema
postos a qua1quer facção política que desfral-
e moralmente neutro, como êste do petróleo,
de a bandeira e que prometa fazer dela o cen-
tro da política nacional. e e_m q,ue. o governante pode aceitar uma so-
luçao tecnicamente inferior para apaziguamen-
Publiquei recentemente minha opinião a t~ do~ e~pírit?s. Sem entrar no mérito da ques-
respeito da Petrobrás. Sou a favor. Sem gran- t~.,?. tecnlca, lá basta a consideração da tran-
de entusiasmo pelas declarações feitas pelo qUllIda?e pública para indicar uma política de
presidente dessa emprêsa, e sem pensar que encoralamento da Petrobrás. Mas por favor não
esteja nela a fórmula da salvação nacional e o Taçam ~êsse pr.oblema a pedra de toque de uma
remédio que dará aos nossos dirigentes o es- Ideologia'. Deixem-me ser simpático a essa
pírito e o devotamento pelo bem comum, e obra de engenharia sem ser obrigado a mar-
até sem esperar que em breve prazo serão to- char ao lado do Coronel Nemo Canabarro e
talmente brasileiras as octanas que me levam s~m s~r obrigado a ficar sério diante dos na-
para casa, sou a favor das medidas que pres- clonallsm,os .estud?ntis. Deixem-me desejar que
tigiam e que facilitam o desenvolvimento da ~o~sos tecnlcos tirem o máximo proveito das
Petrobrás. Mas ... não sou nacionalista. Arris- llçoes que estudam nos livros americanos nos
co-me a passar por um sujeito que não tem co- excelentes livros editados pela Mac Milla'n ou
ragem de ser contra a Petrobrás, como o Sr. pel~ M.ac Graw Hill, sem ser obrigado a me
Amaral Peixoto não teve coragem de ser na- sen.tlr Ilbe~tado da cultura estrangeira (o que
cionalista. Na verdade, e sem vislumbre de sena ~entlr~) e sobretudo -sem ser obrigado a
ironia, o que me leva a ser a favor da Petro- se: antlamencano (o que seria tolo). O que de-
brás é mais uma ponderação política do que seiO ~rden~emente, nesse capítulo, é que a Pe-
econômica: já que está feita, e que todos lhe trobras deixe de ser bandeira, fanal, lábaro,
dão tanto valor, então deve ser tocada para e se t?~n~ uma emprêsa tão produtiva e tão
frente com a máxima eficiência e com a maior bem dtrlglda como a detestada Standard Oil.
lealdade. Nem sempre é admissível que se
adote uma solução política para atender às
explícitas manifestações da opinião pública.
Meu credo democrático não tem a estupidez
de esperar que os problemas de govêrno pos-
sam ser postos a votoi nem posso admitir que
um governante adote uma medida contrária
ao bem comum para agradar à opinião públi-
Na verdade, estou convencido que há mais
do que um simples fenômeno lingüístico na pro-
liferação de nacionalismos que ocorre em nos-
sa terra. Certos indícios nos levam a cr:er que
atrás dêsses diversos nacionalismos subsiste,
ao menos como tendência, o denominador co-
mum da mentalidade totalitária. O mundo
contemporâneo, a par de algumas manifesta-
ções de desvairado apetite de liberdade, que
por sua exasperação já se tornam suspeitas,
sofre de um tédio, de uma espécie de cansaço,
como se pesasse no homem o difícil ofício de
ser racional e livre. E quando isto acontece,
quando o homem se fatiga de sua própria con-
dição/ o que aparece no domínio dos fatos
políticos é sempre a mesma invariável tendên-
cia para as formas totalitárias. O totalitarismo,
embora muitas vêzes se revista de aspectos de
exaltação, é sempre um fenômeno de depres-
são, de renúncia de brios, de demissão de di-
reitos. t em suma uma espécie de cansaço.
Ou uma espécie de covardia coletiva. Ao con-
trário/ a política verdadeiramente democrática
é sobretudo uma política viril que afirma e in-
transigentemente defende os valores humanos.
Vejamos alguns dos sinais que nos enchem
de apreensões. Para começar temos a escolha
do vocábulo que doze ou quinze anos atrás CICIO da paternidade que também, em certo
estêve intimamente associado aos campos de ponto da vida, tem de reconhecer a maiorida-
concentração, aos vagões de gases, e aos ju- de dos filhos. O êrro da política colonialista
deus transformados em barras de sabão. Co- praticada em nossos dias pelo Inglaterra ou
mo explicaremos, senão por um enfraquecimen- pela França é o de inoportunismo histórico.
to da sensibilidade democrática, a simpatia Terá valor ético negativo dado pelo falso jul-
com que tantos acolheram o vocábulo totali- gamento das circunstâncias; será um mal pelo
tário? Mas além dêsses temos outros sinais. fato de quererem aquelas nações contrariar a
No ano passado, quando ocorreu a coincidên- maioridade de alguns povos; mas apesar de
cia da revolução húngara com o coso de Suez, tud.o isto será sempre um mal muito menor,
vimos que boa parte da opinião pública, prin- mUito menos grave, do que as estruturas polí-
cipalmente aquela que se diz nacionalista, sen- ticas que se firmam no primado dos valores
tiu mais vivamente o aspereza da político co- nacionais sôbre os valores fundamentalmente
lonialista da Inglaterra e da França, do que a humanos. Para um democrata, como já disse,
desumanidade da política totalitária da Rús- não há salvação nacional e razão de Estado
sia. As ofensas feitas aos mais inalienáveis di- que justifique uma injustiça cometida contra o
reitos da pessoa humana foram equiparados, mais humilde dos cidadãos, porque o mais hu-
ou até julgados inferiores às injúrias feitas à milde dos cidadãos no cerne de sua persona-
soberania de uma nação. Ora, êsse modo de lidade, é maior do que a maior das nacões.
sentir que atribui valor absoluto à soberania O caso Oreyfus, na França, foi um exemplo tí-
nacional e valor relativo à dignidade huma- pico de fenômeno nacionalista, e foi muito
na, como se os homens fôssem feitos para as pior, mais clamorosamente injusto do que a
nações e não as nações para os homens, é tí- política colonialista dos franceses. Nós não
pica do nacionalismo totalitário. Para o de- ignoramos que coisas atrozes se passaram na
mocrata verdadeiro, cujo filosofia política se época dos colonialismos triunfantes, como por
funda na transcendência. da natureza e da sorte exemplo o caso do ópio na China, que pode
do homem, o colonialismo não é um processo ser considerado como um dos episódios mais
intrinsecamente mau. E ao contrário um pro- tristes da história da humanidade; mas seria
cesso que trouxe e pode ainda trazer enormes um êrro funesto apontar êsse fenômeno como
benefícios paro o mundo, desde que as nações uma decorrência lógica da política colonia-
colonialistas saibam reconhecer o seu caráter lista. Foi um acidente, como o caso Oreyfus
transitório e saibam ceder diante das reivindi- que também não pode ser imputado ao regime
cações de uma consciência nacional nascente. republicano pelo fato de ter ocorrido em sua
Há no fenômeno certa similitude com o exer- vigência. Ao contrário, as injustiças produzidas
pelo nacionalismo totalitário, como o dilúvio leiro,às vêzes com o concurso de verbas con-
delas que caiu sôbre os alemães, são decor- cedidas pelo tesouro nacional, o pior dos ser-
rências da subversão que está na raiz dêsses viços, que é o de convencer às multidões que
regimes. E portanto um sinal de enfraqueci- o nosso. atraso vem de fora, e que a causa
mento da sensibilidade democrática, em nos- principal de nosso sub-desenvolvimento está
so meio, a reação que boa parte da opinião nas manobras dos agentes internacionais e não
pública manifestou a propósito da revolução em nossa própria incúria, e não na irresponsa-
húngara e do Canal de Suez. Cumpre ainda bilidade de nossos dirigentes. Pretenderão os
assinalar que, com. malícia ou com a mais nacionalistas estimular os brasileiros com essa
cândida das inocências, os nossos nacionalis- técnica?
tas sempre favorecem o jôgo dos soviéticos e Não ignoramos a existência da cupidez e
sempre reservam suas irritações para a In- da ferocidade dos processos de competição co-
glaterra e para os Estados Unidos. mercial que em tôda a parte, aqui e acolá,
Tivemos depois a visita do General Cra- produzem a atmosfera de inimizade em que
veiro Lopes para provar que nossOs democra- o mundo se debate; não pretendemos, de mo-
tas, a começar pelos que mais ardorosamen- do algum minimizar os perigos da máquina
te militaram contra o Estado Nôvo, já não são capitalista que está montada para sugar o san-
muito sensíveis ao que há de triste e vergonho- gue do pobre; não sentimos nenhuma ternura
so numa ditadura. pelo remanescente da sociedade liberal que
nas suas contradições gerou os modernos tota-
Tudo isso leva a crer que atrás dos diver- litarismos. E evidente que devemos nos acau-
sos nacionalismos apregoados em nosso país telar, que devemos defender nossos bens, que
existe a tendência totalitária. Perdoem-me os devemos reagir contra as más influências que
leitores o tom profético que não consigo evi- travam nosso desenvolvimento; mas seria um
tar. A verdade é que sinto no ar um cheiro êrro funestíssimo esquecer que a primeira me-
de papel rasgado ... Sinto a morrinha da di- dida consiste em tomar consciência de nossos
tadura, a exalação fétida das explorações de descuidos e em trabalhar pelo soerguimento
ressentimentos, o bafio, o cheiro de môfo das cívico de nosso próprio povo. Porque é na mo-
antecâmaras que, como já foi dito por alguém, leza de nosso corpo político, na falta de de-
são sempre piores do que as piores câmaras. fesas morais, na negligência e no impatriotis-
E temo pelo futuro de nossa terra. O fato é mo de nossos dirigentes que está a triste ex-
que os sedutores das multidões se preparam, plicação de nossa permeabilidade e de nossa
e os que deviam reagir se despreparam. O f~-
passividade. Se os nacionalistas pretendem es-
to é que está sendo ministrado ao povo brasl-
timular os brasileiras com a técnica da. animo-
dêsse tesouro nos advém. Entre as riquezas
sidade estão completamente enganados, por-
com que o acaso nos brindou, temos agora o
que daí só virá a mania de perseguição e a
petróleo. Muito bem. Experimentamos as fôr-
neurose coletiva. O ressentimento exasperado
ças de nossa maioridade cultural. Afirmemos
não. é fecundo. Quando muito pode produzir
nossa capacidade de explorar os recursos na-
febris exaltações que são estéreis, ou que de-
cionais, sem ser preciso, para isto, insultar as
sencadeiam guerras, como aconteceu na Ale-
nações de língua inglêsa, e sem chamar de
m~nha nazista. Como porém não somos guer-
"entreguista" às môças que passearam e na-
relrC~s,.nem temos os maravilhosos apetrechos moraram os oficiais de marinha americanos.
homicidas, apesar da fortuna louca que dis-
Sendo muito relativa a nossa autonomia cul-
pendemos com as fôrças armadas, não há pe-
tural, êsses vitupérios tomam proporções de
rigo para ninguém, a não ser para nós mes-
uma espantosa cretinice. Sim, porque é preciso
mos. Não destruiremos o mundo com nossos
não esquecer que tôda a aparelhagem e tôda
estertores nacionalistas, mas talvez consigamos
a técnica para a exploração do petróleo fo-
destruir o Brasil. '
ram estudadas nos países estrangeiros. E em
A pregação da hora presente devia ser livros inglêses, americanos e franceses que os
outra, totalmente diversa, infinitamente diversa nossos nacionalistas terão de estudar, se al-
da pregação nacionalista que pretende nos in- gum dia resolverem estudar alguma coisa. Te-
culcar um ridículo orgulho. A pregação deve mos o petróleo. Muito bem. Mas con'vém lem-
ser a de uma briosa mas modesta e humilde brar que não foi por arte nossa que o mine-
tomada de consciência. Será preciso lembrar ral se formou. Temos o petróleo mas não te-
que só a humildade é veraz e que todo o or- mos, senão por empréstimo, por imigração es-
gulho é mentiroso? Será preciso lembrar que piritual, a ciência de extraí-Io e de adaptá-Io
só a verdade é fecunda e estimulante? A pre- ao uso. A parte que aos homens compete não
gação da hora presente deve ser sobretudo a fomos nós que a produzimos. Estamos apren-
de um apêlo à responsabilidade. Somos deten- dendo com os outros, estamos comecando a
tores de oito milhões de quilômetros quadra- aprender. E então será bom agradec~r. Será
dos, que representam uma fração muito apre- bom lembrar que o resto do mundo não se re-
ciável da superfície do planêta que talvez seja duz aos trustes e aos demais mecanismos de ex-
o único habitado por sêres racionais em todo ploração dos países sub-desenvolvidos. Se é
o universo. Antes de nos ufanarmos de tão verdade que existe êsse mecanismo, contra o
qual devemos nos acautelar, é verdade tam-
grande área, e de tudo o que nela se encon-
bém, e verdade maior, mais ampla, mais ge-
tra, convém sentirmos a responsabilidade que
nerosa, que existe um resto do mundo de onde
nos vem a muslca de Mozart e a penicilina, de
onde nos vem tudo o que constitui a v~da ci-
vilizada. Na vida das nações como na vida
dos indivíduos não é boa norma ver nos ou-
tros sàmente aquilo, que nos molesta. E pre-
ciso completar a desconfiança e a vigilância
com a parte mais ampla da gratidão e do res-
peito. E essa deve ser a estimulante e fecun-
da composição do remédio que o Brasil pre-
cisa tomar.
-=aso extraordinário desenvolvimento
trouxe ao mundo um nôvo conceito de
riqueza das nações. Não é mais no ouro e na
das téc-

profa, ces deux grands et fideles amis de


n.omme, como dizia um economista da era do
JDer"cantilismo, que reside a riqueza das na-
ções. Apesar do valor que ainda conservam
~as substâncias que são mais abundantes
aqui e mais escassas acolá, e que, por conse-
guinte, continuam a constituir vantajosos fatô-
~ econômicos para os países que as pos-
iUem, não é nelas que reside a parte principal
::b riqueza das nações. A parte principal é o
i'IIomem, é o saber do homem, é a medida do
domínio exercido pelo homem sôbre os ele-
mentos naturais. A grande tendência da econo-
:nia moderna é indubitàvelmente a da valori-
:Loção do know-how como primordial elemen-
;:> de qualquer equacionamento econômico.
Ora, se assim é, se a nossa principal ri-
queza tem de ser encontrada em nós mesmos,
em nossa capacidade técnica, em nosso sa-
::>ar, e nas demais virtudes humanas, então é
rorçoso reconhecer que o sub-desenvolvimento
do Brasil tem maior profundidade "e maior gra-
vidade do que pensam os alarmados economis-
tas. Mais do que econômico, nosso sub-desen-
volvimento é cultural. Quem já trabalhou em Ouvi outro dia um dêsses dizer que o know-
alguma das modernas técnicas, em nosso país, how se compra. Achei divertida a frase que,
poderá dizer com sinceridade que nada ou pelo uso da expressão inglêsa, confessava in-
quase nada encontrou que fôsse nosso, de ori- conscientemente a inassimilação da coisa com-
gem, como dizem que é o petróleo. Permita-me prada. Estive para dizer que seria melhor tra-
o leitor uma exibicão de títulos. Trabalhei lon- duzir a coisa do que comprá-Ia.
gos anos em ind6stria eletrônica. Esforcei-me,
com dedicados companheiros, por fabricar Tomada no sentido mais restrito, pode ser
aparelhos de telecomunicações tão bons como que se compre a técnica como quem compra,
os estrangeiros. Até hoje muitos dêsses apare- ::001 um utensílio, o modo de usá-Io; mas to-

lhos estão em funcionamento na rêde da Com- mada no sentido mais amplo e mais fecundo,
panhia Telefônica Brasileira, no Exército e no :10 sentido de patrimônio cultural capaz de
Departamento de Correios e Telégrafos. Tenho g:mhar raízes e vida própria, e capaz de pro-
portanto os títulos para informar que êsse im- duzir frutos novos com o sabor da terra em
portante ramo da técnica moderna está, em que medrou, o know-how não se compra. Cul-
nosso país, numa situação de total dependên- '":'",a-se. Adquire-se na imanência cultural de
cia. Não digo que esteja pouco desenvolvido uma sociedade estudiosa e operosa. Quando
pelo fato de existirem poucos estabelecimen- :'llu:to podemos admitir que se comprem as se-
tos industriais no ramo, ou por ser diminuta a :'entes.
sua produtividade. Não me refiro ao volume Além disso cumpre notar uma cômica im-
nem à eficiência. Nossa dependência é mais propriedade daquela frase. Faz parte da jac-
cultural do que econômica. Se nos tirassem das roncia dos ricaços a idéia de que tudo se com-
mãos os livros e os catálogos americanos ou pra. Temos todo o direito de rir, ou de zangar,
suecos, nosso trabalho sofreria um instantâneo qiJando ouvimos algum Babbit enunciar que
colapso. Por onde se vê que o estado atual de "udo por dinheiro se obtém. Quando porém a
nossa cultura, nesse como em outros ramos, é ':"':Jse é pronunciada por um pobretão que vive
o da transplantação que ainda não criou raí- = pedir dinheiro emprestado, já não sei qual
zes e não deu frutos próprios.
sé::I então a razoável e adequada reação.
Não podendo desconhecer êsse estado de Torno a dizer: quem trabalha em contato
coisas, que é gritante, o exaltado nacionalis- c:>m alguma das mais modernas técnicas, co-
ta pensa que a técnica fica sendo nossa uma .llnO por exemplo a das telecomunicações, sen-
vez que se comprem, com os equipamentos es- '\e o tremenda dependêncio, a situação real-
trangeiros, as necessárias instruções para uso. IIIIeI1fe colonial de nossa cultura. O que sabe-
mos fazer é de segunda mão. Nossa ciência é crever os segredos das almas torpes. No caso
traduzida, e freqüentemente mal traduzida. vertente entretanto, não consigo entender bem
Na Companhia Telefônica Brasileira, onde há o que se passa no espírito de um jacobino.
dez anos funciono como professor de equipa- Talvez padeça dessa incapacidade pelo fato de
mentos eletrônicos (porque fora da Escola Téc- ter estudado um pouco mais do que os estu-
nica do Exército não existe nenhum curso pa- dantes nacionalistas, e de ter trabalhado efe-
ra formar engenheiros dessa especialidade) ou- tivamente um pouco mais, para o desenvolvi-
vi de um dos alunos uma expressão que tra- mento técnico do país, do que tantos jornalis-
duz bem a nossa dependência técnica. "Nós tas e sociólogos que enchem a bôca, e às vê-
aqui somos tele-guiados", disse-me êle. E é zes a barriga, com o "desenvolvimento econô-
verdade. Quando muito sabemos repetir aqui mico" e com outras fórmulas de garantido su-
o que os outros fizeram em primeira mão. cesso.
Aprendemos a instalar os aparelhos fabrica-
Sempre que olho em volta de mim, mes-
dos fora, e até somos capazes de fabricar apa-
mo em casa e longe da atmosfera mais densa-
relhos semelhantes se tivermos ao nosso alcan-
mente técnica, e sempre que considero os ob-
ce os livros, os catálogos, e boa parte das pe-
jetos que me cercam - o relógio, a caneta, a
ças que outros para nós elaboraram. Alegre-
máquina de escrever, a vitrola Hi-Fi, e os dis-
mo-nos com êsses modestos resultados, recen-
cos, e a música escondida nos discos - um du-
tes; elogiemos os que deram os primeiros pas-
plo sentimento me acomete. O primeiro é de
sos de cada nova técnica; estimulemos os que
gratidão. Tenho vontade de agradecer aos in-
procuram acertar o passo pela marcha dos
visíveis inventores e aos invisíveis obreiros de
países de vanguarda; mas não levemos nos~o
todo êsse confôrto e de tôda a alegria que me
entusiasmo até a insanidade de pensar que já
proporcionaram. O segundo sentimento é o de-
estamos culturalmente independentes e que po-
sejo de retribuir e é nesse desejo que sinto em
demos cultivar o luxo de detestar os nossos
mim alguns ímpetos nacionalistas, pois não se
mestres.
trata de uma retribuição pessoal, de homem
Não consigo entender o mecanismo do para homem, mas de uma retribuição nacio-
sentimento que acompanha a exaltação nacio- nal, de cultura para cultura. E logo, por via de
nalista. Cada um de nós pode encontrar em si conseqüência, assalta-me um terceiro sentimen-
mesmo, nas profundezas da alma, as raízes to de encabulação. Vivemos num dos maiores
dos mais estúpidos e cruéis sentimentos; e é países do mundo. Temos oito milhões de quilô-
por isso que uma alma grande como de Dos- metros quadrados. Sessenta milhões de habi-
toievsky pôde, com tamanha naturalidade, des- ~ontes. Ora, poderemos nós afiançar que essa
gente e êsse enorme espaço tenham sido be- co do país. Há uma outra lei de aspec~o. pa-
néficos para os outros? Haverá pelo mundo radoxal - lei própria do mundo do esplflto -
quem nessas horas esteia agradecendo ao Bra- pela qual quem mais ?á ma.is g,a~ha. E é del~,
sil alguma contribuição cultural, algum benefí- e de suas conseqüências pSlcologlcas e moraIs
cio? Haverá na Alemanha quem esteja conva- que tiro a firme convic~ã~ de q2'e o: melh~res
lescendo de grave enfermidade graças a um incentivos para os brasileiros nao. sao ?q~eles
produto farmacêutico descoberto no Brasil? ditados pelo ressentimento, pelo Isolaclonlsmo
Haverá na França uma dona de casa que se e pela xenofobia. E é tamb_ém. dos mesmos
alegre com um utensílio inventado por nós? princípios que tiro a conclusao dustrad? pelos
Haverá na Groenlândia ou na Patagônia al- fatos e conhecida de todos os verdadeiros so-
guém que sinta engrandecida sua condição hu- ciólogos e economistas contemporâ.neos. Não
mana por obra de nosso gênio? é nas substâncias minerais ou vegetais que con-
siste a principal riqueza das nações. Pode-se
Veiam, amigos, que meu patriotismo, mo- aplicar ao conceito a doutrin~ de. ma!éria e
déstia à parte, é muito mais ambicioso do que forma' e é na forma, na raclonallzaçao dos
todos os programas nacionalistas, porque não bens :nateriais, no domínio que a inteligência
me contento com o desenvolvimento de uso in- exerce sôbre a natureza, é no trabalho huma-
terno. Não me contento com a autonomia. De- no é na competência, na qualidade e nas vir-
seio muito mais para o Brasil. E aqui, onde tudes dos cidadãos que consiste o elemento
parece que começo a delirar, está na verdade primordial da riqueza das nações. E é nesse
falando o mais trivial bom senso. Eu acredito, campo integralmente humano que devemos
e qualquer pessoa normal também acreditará trabalhar se realmente queremos que nossO
que a generosidade e a admiração são mais Brasil chegue a ser, não apenas um país com
estimulantes e fecundas do que a irritação e a divisas e com máquinas, mas uma nação be-
inveja. Essa é uma das leis do mundo do espí- néfica para os que nela habitam e benéfica,
rito. Dizia um velho padre alemão que nós te- por irradiação, para o resto do mundo.
mos poucos padres no Brasil porque não en-
viamos missionários brasileiros para fora. À
primeira vista parece absurda a idéia, porque
se enviarmos nossos padres para fora, pela lei
da quantidade ainda os teremos menos. Mas
o mundo do homem não se rege apenas pelas
leis da quantidade, como pensam os tecnicistas
que tanto falam em desenvolvimento econômi-
(096L-g-L '"OAOd 00 013MMO:>,,)

:lOVOH:J8fl W:JS :JOVOH:l811


o jornal de domingo passado trazia uma
notícia de Caracas e outra de Havana que bem
;,aduzem o fenômeno que poderíamos chamar
de estupidificação internacional. A primeira re-
feria-se ao apoio dado ao govêrno cubano de
Fidel Castro pelos 'legisladores venezuelanos,
e dizia assim: "Cuba tem o direito de determi-
"or livremente seu próprio destino". A segun-
da notícia contava-nos que o nôvo Conselho
Supremo da Universidade de Havana expulsa-
:-0 29 professôres de Engenharia, 19 de Direito
e 12 de Ciências Comerciais, "por atitudes
contra-revolucionárias" .
Analisemos aquela primeira proposição. A
primeira vista parece c1aríssima, banalíssima, e
muito condizente com as idéias em vogai mas
"m exame um pouco mais profundo nos mos-
~-a que a proposição não é tão clara quanto
;:>arece. E à medida que se aprofunda a pes-
::::Jisa diminui a claridade inicial do juízo. Que
::luer dizer "Cuba"? Que quer dizer "tem o
:freito"? Que quer dizer "determinar"? Que
quer dizer "livremente"? Que quer dizer seuR

próprio destino"? Começando pelo sujeito da


oração, achamos que o redator exagera
quando identifica a nação com o seu govêr-
",'Di e tanto é maior o abuso desta figura de
linguagem, que tom~.a parte pelo todo quan- :ie oplnrao pública se torna considerável. E
t~ menor e a tranqullJdade cívica que reina no nesses lugares, dados os abusos dos governa-
dito país. Amanhã ou depois, triunfando 01- :io,res, é quase certo que, logo após o triunfo
gu~ movimento Ncontra-revolucionário", Cuba --evolucionário ou a euforia da derrubada de
deixa de. ser Cuba, se hoje, para apoiar atitu- c.:m tirano, a parte mais importante e mais
des de Fldel Castro, os legisladores venezuela- =consciente da opinião pública esteja com a
~os acham que Cuba e Fidel Castro são idên- :xx>sição.
ticos. Tudo indica que a população cubana
~stá dividida: o càncelamento de liberdade de Há por conseguinte um grande abuso de
Impren~a-, .a expulsão de sessenta professôres ",:tguagem na identificação do país com o seu
unlversltanos, ~ob a sinistra alegação de te- "":
..:-bulento e provisório govêrnoi mas o maior
re~ tomad~ a!ltudes contra o regime, e as de- ::iOUSO contido na frase que estamos analisan-
maiS turbulenclas observadas em tôrno do caso :,:; reside na predicação de um direito que
cubano i~dicam claramente que não é muito :.uba teria de "determinar livremente" o seu
c1~ra a sltuaç~o. e que é bem possível que já =atino. O têrmo "livremente" deriva de "Iiber-
eXista uma opinião pública mais volumosa no ~:;de·, ora, o têrmo e o correlato conceito de
lado .da oposição. Sabemos que um país pode ::::.erdade são analógicos, e se aplicam primor-
perfeitamente ter a opinião pública defasada :=:mente aos atos humanos tomados individuol-
do poder e dominada pelos ocupantes do dito ~.;nte e pessoalmente. Analogicamente se es-
poder. Para que a oposição se torne eficaz e ::ldem até o domínio do mecônico, onde se
possa sair vi.toriosa, mesmo num país razoàvel- -_:::J de graus de liberdade, de queda livre,
mente .dedetlzado e democrático, é preciso que ~-::.. Num contexto onde aparece o têrmo "di-
ela sefa sensivelmente mais volumosa do que -~~to· trata-se evidentemente de uma liberda-
a _situação .. Em. regra geral o poder está nas :.: no sentido humano e ético, mas nesse co-
maos. da mlnona que já o detinha na situacão :;:,:;o que espanta, o que caracteriza a atmos-
antenor, e que só o deixa cair quando a' di- ~-::J cultural de nossos dias é o deslocamento
ferença de pressão da opinião pública se tor- . ::: sentido primordial do têrmo. Hoje está em
na .capaz de vencer os trunfos normais ou anor- . ::sa um tipo de sensibilidade estranho que
ma~s. do govêrno: a propaganda, a polícia, a :'; caracteriza por uma susceptibilidade extre-
facilidade de corrupção de consciências, os -:::nente delicada para o que cerceia a liber-
cargos, ete. Em países efervescentes e instáveis., ==oe dos governos ou das nações com êles
como Cuba, Venezuela, Brasil e outros menos .:entificadas, ao mesmo tempo que se demons-
amadurecido~, só vem à tona a oposição' -::: uma enorme indiferença em relação às li-
quando a diferença de pressão e de volume: :le~dades diretamente humanas e pessoais. Re-
clamam-se as liberdades de Cuba, do Egito, excede, e todo o mundo sente que tal limita-
do Congo, da Algéria, mas não. se reclamam ção é razoável porque antes de ser simples-
com a mesma veemência as liberdades dos mente filho, e sujeito ao pai, a criança é uma
professôres universitários cubanos ou simples- pessoa humana com direito mais alto. Como
mente dos cubanos. Também não se inclui no admitir então que um país, uma nação, cuja
rol das reivindicações libertá rias o homem rus- forma provém de acidentes históricos, cuja
so, o escritor russo, o jornalista russo. E para unidade é muito mais fraca do que a unidade
cúmulo dos disparates, aparecem como liber- familiar, possa fechar-se para o mundo e pos-
tadores de povos os que aprisionam o seu pró- sa, dentro de suas fronteiras, massacrar livre-
prio povo, e são apontados como reacionários mente as pessoas que tomam atitudes contra-
e pouco amigos da liberdade dos povos os que revolucionárias? Curiosa contradição! Curio-
sempre lutaram pelo fundamental direito do ho- sos disparates! t fácil ver, pelo que cremos
mem e pela verdadeira liberdade. Como pode ter provado, que os parlamentares venezuela-
Cuba determinar livremente seo destino se não '10S não estão apoiando Cuba e sim Fidel Cas-
pode viver livremente, ensinar livremente, es- tro. Ora, êsse apoio é tão impertinente, à luz
crever nos jornais livremente? O ideal desfral- do famoso princípio de autodeterminação dos
dado pelos parlamentares venezuelanos é uma povos, como a reprovação. Os cubanos não
espécie de círculo quadrado: Cuba será livre precisam do apoio explícito dos venezuelanos.
sendo escravos os cubanos, ou pelo menos boa Ninguém Ihes pedia a opinião. Ninguém
parte da sua população. Nós bem sabemos o lhes perguntou se deviam ou não deviam ex-
que quer dizer aquêle manifesto venezuelano, pulsar os professôres universitários. Se Cuba
que bem podia ser assinado por nossos nacio- se identifica com o seu ditador, e se Cuba as-
nalistas: ninguém tem o direito de intervir nos sim hipostasiada tem direito de livremente de-
negócios internos de Cuba. Essa afirmacão re- terminar seus destinos, cale-se o mundo, ou
pousa num princípio falso, e seria errôn~a ain- aprove-a o mundo com uma universal taci-
da que a vida interna do país transcorresse turnidade ou com um universal grunhido isento
na mais pura das liberdades cívicas. A Inglater- de qualquer pronunciamento aprovador ou re-
ra não poderia enunciá-Ia; e por muito mais provador. Não estou gracejando. Quem está
forte razão Cuba também não pode. Nenhu-
gracejando são os que dizem que "Cuba tem
ma sociedade é tão hermética, tão autônoma
o direito de determinar livremente o seu pró-
que possa reivindicar esta absoluta soberania
exterior. Numa família, que é uma sociedade prio destino", e o pior é que êles não sabem
mais diretamente ligada à lei natural, o pai que estão fazendo uma pilhéria de âmbito in-
perde o direito sôbre seos próprios filhos se se ternacional.
o princípio que julgam estar enunciando é a União Soviéttica é antinatural e contrário 00
simplesmente impensável, e faz parte do con- bem comum da humanidade. Poderá alguém
texto de tôda uma civilização que agoniza, e discordar desta premissa e preferir outro pa-
que ainda é sustentada em seus disparates jus- drão de felicidade humana baseada no ale-
tamente por aquêles que se julgam adiantados gria de ter a alma estampilhadaj mas duvido
e modernos. O isolacionismo intern'acional é que alguém possa apontar a incoerência, a es-
apenas a expansão das filosofias d? ~oís'!10 tupidez, o vazio de nossos corolários, como
pessoal, e é curioso notar que constituI o pior acabo de fazer, com certa facilidade, com aque-
pecado cometido pela nação americana do la proposição que todos engolem sem pensar
norte. País fechado sôbre si mesmo, produzin- mesmo porque parece que não há mais tempo
do para si mesmo, criando padrões de confôr- para pensar.
to para si mesmo, os Estados Unidos pecaram
pela indiferença que manifestaram e até hoje
ainda manifestam diante dos países totalitá-
rios cuja desprezível fraqueza não constitui pe-
rigo para êles. Ora, nos dias que correm~ os
que atiram pedras contra os Estados Unidos
são justamente os que apregoam a validez da-
quele comportamento isolado do mundo.
Num contexto doutrinário diferente, inspi-
rado por outra concepção da vida e do mun-
do, ninguém e nenhum grupo tem o dir~ito de
determinar o que julga ser o seu próprio des-
tino. A polarização de todos os atos é dada
pelo bem comum e não há direito humano que
possa prevalecer sôbre a universal destinação
comum do gênero humano. Dentro dêsse con-
texto eu direi que Cuba não pode aceitar ser
cabeça-de-ponte da União Soviético, e nós não
podemos admitir que algum ditador cubano
pretenda com tal atitude exprimir a vontade do
povo cubano, e isto por uma razão extrema-
mente simples: porque o regime que infelicita
(096l---<r-Ç '"OI\Od 00 013~~OJ,,)

'V~n.1'n::> OWSI1VNOI::>VN O
Tomando o adjetivo no sentido restrito que
concerne à vida da inteligência coletiva nas
ciências e nas arfes, pode-se dizer, creio eu,
que o nacionalismo cultural, em vez de ser um
setor ou um epifenômeno, como parece que
muitos pensam, é a própria alma dessa atitude
geral, dessa concepção do mundo e da vida
que hoje em dia é o credo das nações subde-
senvolvidas.
Entende-se que num certo ponto de sua
:"istória uma jovem nação tome consciência
mais viva e mais nítida de sua nacionalidade,
como se sabe que na vida individual há uma
estação crítica em que se arma, mais ou
menos aguda, a consciência da personalida-
de. O que não se entende é que seja jul-
gado bom, estimulante, fecundo, ete., o fa-
'0 de se transformar tal visão reflexa, tal
:Jreocupaçõo com a personalidade ou com a
:lccionalidade, uma espécie de narcisismo iris-
~alado e programado. Não há nada mais ridí-
,:ulo do que uma vida polarizada nesse tipo de
oreocupação reflexa, como por exemplo o su-
jeito que compõe um livro de versos para se
realizar, para alcançar sucesso, para afirmar
sua personalidade. Obra feita com tal critério,
orientada portal finalidade vista ao espelho,
do colonialismo cultural que ainda a prende
jamais salra coisa que preste. Em verdade não 00 imperialismo dos Cruzes e dos Chagas, e
há nada mais infecundo do que o amor pró- com tais critérios enveredar na procura das
prioe a vaidade. Podem funcionar como estí- causas do câncer, duvido muito que chegue a
mulo de arrancadas curtas, como as drogas algvm resultado apreciável, e creio que o lei-
com que se obtém de um cavalo uma veloci- tor \rne dá razão. Cientista desta espécie po-
dade maior de curto alcance à custa de sua derá atingir cargos públicos, poderá chegar a
saúde futura; mas para obras de maior alcan- Reitor de alguma Universidade Federal, Esta-
cee maior densidade o amor próprio e a preo- dual ou Municipal, mas a castíssima verdade
cupação do sucesso são venenos mortais. Não que mora nas essências das coisas, que são re-
pretendo, com isso, afirmar que os grandes ar- flexos da divina essência, não dará ao impuro
tistas foram sempre homens despojados de pesquisador o beijo de sua bôca.
egoísmo e totalmente esquecidos de si mes-
mos. Não; ai dêles, em regra geral são po- E o que digo para a esfera do indivi-
bres homens cheios de defeitos e como nós dual, proporções guardadas, vale para o do-
sujeitos aos critérios carnais. Digo, porém, que mínio do social. E: ridículo, sumamente ridí-
a vaidade dêles, se a obra é realmente larga culo, querer fazer, explicitamente, diretamente,
e bela, não entrou no ato criador. Existia an- orte ou ciência brasileiras. Sempre que encon-
tes. Vem depois. Mas estêve suspensa durante tramos numa sociedade esta bandeira do na-
a fecundação, a imposição de uma forma aos cionalismo cultural desfraldada em cada es-
sons ou às côres. No segredo ardente e amo- quina, podemos afirmar com segurança que
roso da criação, o vero artista esqueceu-se de :al país atravessa uma crise de adolescência
sua personalidade, dos prestígios do nome, e e corre o risco de tomar por progresso real o
entregou-se todo, de corpo e alma, à genero- prolongamento da imaturidade e do ressenti-
sidade feita à imagem e semelhança de Deus. mento. Todos os povos passam por experiên-
a que dissemos da arte aplica-se com cias semelhantes, em graus diversos, mas uma
igual rigor à pesquisa e à descoberta científi- coisa temos como certa: só há real e forte
ca. Suponhamos a existência de uma família posse de si mesma, só há real e fecundo pro-
Braga ou Silva preocupada primacialmente gresso, naquela sociedade que deixa esqueci-
com suas glórias passadas e com seus prestí~ do o problema da nacionalidade, e se aplica
gios presentes e futuros. Se algum membro de com todo o vigor nos problemas objetivos, nas
tal família ingressar, por exemplo, na pesqui- obras que a cultura em movimento reclama. A
sa médica, e procurar fazer uma ciência silva- nacionalidade é uma conseqüência, e não um
na ou braguense, ciência própria, emancipada programa cultural. Escrevam-se bons romances,
pintem-se bons quadros, estudem-se os fenôme- o atenção reflexa, o narCISlsmo social, perdu-
nos do mundo físico e do mundo vivo. Se tudo rará a crise, a caimbra, a infecundidade.
isto nascer com fôrça e perfeição nascerá um Aquêles poetas e p'rosadores a que se re-
conjunto de coisas, com certas marcas locais, feria Machado, para se desligarem da arcádia,
mais no domínio da arte do que no da ciência, que na idéia dêles representava a Europa-
que virá a merecer o nome de cultura brasilei- Mãe, ou o jugo da metrópole, caíram no india-
ra ou chinesa. nismo, como se indiano fôsse o fundo e a subs-
Num certo ponto de sua história, admite- tância de nossa civilização. Ou como se o
se, entende-se que uma sociedade faça um es- indio fôsse mais brasileiro, mais genulnamen-
fôrço e deixe de imitar servilmente a metró- -e nacional, do que os filhos dos portuguêses.
. pole colonizadora, passando a olhar em tôrno ~ para um discípulo dos filósofos descenden-
de si e a procurar no seu próprio meio a ma- -es de Aristóteles não deixa de ser cômico
téria que alimente as formas inventadas. "1otar que os tais indianistas serviam-se da ma-
:ériaíndia, mas determinavam-na com a for-
Foi o que aconteceu em nossa literatura ma nacionalista que é puramente européia e
do século passado, e que Machado de Assis, :>ascida com a nova civilização ocidental.
com luminosa argúcia, analisa no ensaio "Ins-
tinto de Nacionalidade" ("Crítica Literária", Há sempre proveito em lembrar a teoria
W. M. Jackson, 1938, pág. 131 e seg.). Quise- ::::ristotélica de matéria e forma, e em lembrar
ram os seguidores de Gonçalves Dias, Pôrto ~ue é sempre a forma o princípio determi-
Alegr~ e Magalhães criar uma literatura inde- -ante. A escolha do material com que o artis-
pendente. Mas "esta outra independência" diz :0 compõe sua obra, seja musicada seja pinta-
Machado de Assis, "não tem Sete de Setem- da ou cantada, não basta de modo algum pa-
bro nem campo do Ipiranga; não se fará num -o determinar um tipo, uma raça espiritual,
dia, mas pausadamente, para sair duradoura; Jma cultura. Virá dêsse material, dessa maté-
não será obra de uma geração nem duas ... ". -ia segunda, algum influxo adjetivo de CÔr ou
Acrescento eu, se me permitem, que não bas- sabor, mas o espírito continua o mesmo en-
ta a pausa e a paciência: para uma cultura quanto permanecem os eixos polarizadores. E
brasileira existir, realmente, é preciso que os enquanto a literatura, a nova e pseudo-inde-
homens desta grande nação se esqueçam da pendente literatura se contenta com trocar "o
/

mágoa da inferioridade, e trabalhem pela pu- ca1adoe a pastôra" dos Gonzagas pela fle-
ra perfeição do objeto, sem a obsessão da na- ch~-e-i>elo tacape, não há mudança de eixos:
cionalidade. Ao contrário, enquanto perdurar há apenas mudança de assunto.
t: claro que será mais genuína a arte que
nascer de uma expenencia própria, e como
não temos entre nós pastôres nem cajados, me-
lhor será que olhemos em tôrno de nós e ob-
servemos com agudeza o que nos está ao al-
cancei desta autenticidade, desta forma de
veracidade nascerá, por via de conseqüência,
a marca da nacionalidade sem ser preciso fo-
calizá-Ia intencionalmente. E não há necessi-
dade, para ser veraz e autêntico, de ir pro-
curar nas selvas o que nos diferencia total-
mente da metrópole. O indianismo, feitas as
contas, é tão ridículo e falso como as faixas
da Arcádia de que desejávamos fugir. Sem fa-
zer apêlo ao hilemorfismo aristotélico, ou usan-
do-o com o instinto do gênio, Machado de
Assis, nas páginas 138 e seguintes do mesmo
estudo, chega à mesma conclusão, com uma
vantagem a seu favor: teve de resistir a uma
tendência que estava na moda, como também
teve de resistir ao realismo dos Flaubert e Zola
que ditavam leis no prestigioso mundo de·
além-mar. Por essas e outras é que Machado.
é o nosso maior valor, e o mais brasileiro dos
nossos autores.
Sem valer-se de Aristóteles, ou usando as
conclusões do gênio com o instinto do gênio,
eis o que dizia Machado de Assis no seu estu-
do sôbre o "instinto de nacionalidade" que no
século passado determinou em nossa cultura
uma orientação naturista, indianista, que por
isso seria mais brasileira: - "Devo acrescentar
que neste ponto manifesta-se às vêzes uma
opinião, que tenho por errônea: é a que só
reconhece espírito nacional nas obras que tra-
tam de assunto local, doutrina que, a ser exa-
ta, limitaria muito os cabedais da nossa litera-
tura. Gonçalves Dias, por exemplo, com poe-
sias próprias, seria admitido no panteon na'
cional; se excetuarmos os "Tymbiras", os ou-
tros poemas americanos, e certo número de
composições, pertencem seus versos pelo assun-
to a tôda a mais humanidade, cuias aspirações,
entusiasmo, fraquezas e dores geralmente can-
tam; e excluo daí as belas "Sextilhas de Frei
Antão", que essas pertencem unicamente à li-
teratura portuguêsa, não só pelo assunto que
Çl poeta extraiu dos historiadores lusitanos,
~as fté pelo estilo que êle hàbilmente fêz an-
tiqutído. O mesmo acontece com seus dramas,
nenhum dos quais tem por teatro o Brasil. Iria
longe se tivesse de citar outros exemplos de
casa, e. não acabaria se fôsse necessano re- na, ampla, elevada, correspondente ao que
correr aos estranhos. Mas, pois que isto vai ser ela é em outros países. Não a temos".
impresso em terra americana e inglêsa, per- Tudo isto que Machado diz em seu notá-
guntarei simplesmente se o autor do "Song of .'el ensaio refere-se à relação que existe entre
Hiawatha" não é o mesmo autor da "Golden ""acionalidade e literatura. Podíamos estender
Legend" que nada tem com a terra que o viu !Jas reflexões aos outros domínios da ar-
nascer, e cujo autor admirável éi e pergunta- -ei mas não cremos que possa existir uma re-
rei mais se o "Hamlet", o "Othelo", o "Júlio ::ção de nacionalidade, uma caracterização
César", a "Julieta e Romeu" tem alguma coi- '::::01, regional, um gôsto da terra, no domínio
sa com a história inglêsa ou com o território ~:Jis universal das ciências. Quem clama por
britânico, se, entretanto, Shakespeare não é, ,rna sociologia brasileira, por exemplo, esta-
além de um gênio universal, um poeta essen- -:: acertado se pede maiores e mais cuidado-
cialmente inglês. Não há dúvida que uma lite- sos estudos sociológicos sôbre os fatos e fenô-
ratura, sobretudo uma literatura nascente, de- -enos locais, se reclama aplicação da univer-
ve principalmente alimentar-se dos assuntos s;:: ciência sociológica à terra brasileira, como
que lhe oferece a região; mas não estabeleça- ~·5s reclamamos, mais de uma vez, o incre-
mos doutrinas tão absolutas que a empobre- -ento dos trabalhos de geografia e cartogra-
çam. O que se deve exigir do escritor, antes .:::: que ainda estão em estado quase embrio-
de tudo, é cerfo sentimento íntimo, que o tor- -,::~io, ou como desejamos, de um modo geral,
ne homem do seu tempo e do seu país, ainda ::.;e surjam matemáticos e físicos entre os nos-
quando trate de assuntos remotos no tempo e s;::s compatriotas. A sociologia brasileira será
no espaço. Um notável crítico da França, ana- :;"':Jsileira pela matéria tratada, pela concreti-
lisando há tempos um escritor escocês, Masson, ::::ção do fato estudado, e não, de forma algu-
com muito acêrto dizia que do mesmo modo -:I pela forma e pelos princípios e leis. De
que se podia ser bretão sem falar sempre do ::Jolquer modo a expressão "sociologia bra-
toio, assim Masson era bem escocês, sem di- s eira" nos parece infeliz, como infeliz, e até
zer palavra do cardo, e explicava o dito acres- ~.eio cômica seriam estas outras: "geometria
centando que havia nêle um "scottismo" inte- ::~osileira", "fisiologia brasileira", 11astronomia
rior, diverso e melhor do que se fôra apenas :;-asileira", etc., embora admitamos a proprie-
superficial". E depois dessas sábias observa- :::,:Jde delas em certos contextos especiais. Se
ções, Machado dizia com certa amargura: i:Jorém a expressão procura exprimir realmen-
"Estes e outros pontos cumpria à crítica esta- "'e~~a espécie brasileira, uma forma brasilei-
·0 de sociologia, como se depreende de alguns
belecê-Ios, se tivéssemos uma crítica doutriná-
sentimento íntimo, que o torne homem de seu
contextos nacionalistas, então elo não posso de tempo e do seu país ... tI
não porque seja es-
uma tolice equiparado o tontos outros produ- ta o suo primeira e dominante preocupação.
zidos em tal atmosfera. O artista verdadeiro é o que mergulha profun.
Em matéria controvertido, onde existem damente na realidade que o envolve, ou o que
diversos correntes, diversos teorias s~bre .0 mergulha profundamente - se me permitem tal
mesmo assunto, pode-se falar de uma filosofia verbo para exprimir tão singular experiência
alemã, pensando em Kant por exemplo, ou - nomeio circundante e no contraparte dêsse
numa sociologia francesa pensando em Dur- meio que já foi inviscerada e que constitui os
kheim. A denominação nacional, nesses casos, profundidades de sua alma. O que importa é
não posso de um recurso de c1assifi~açã<:>e não ser verídico, veraz, verdadeiro nessa experiên-
de uma intenção realmente naclonalJzadora cia de confronto com o realidade singular con-
daquelas ciências, sendo. evidente, ness.es ~a- creto que se oferece como matéria primeiro
sos, o caráter de precariedade ~ue t?IS tltu- paro as elaborações do experiência poético.
los sugerem. Só haverá uma soclologlO fran- Em página admirável sob o ponto-de-vista do
cesa e outro espanhola ou árabe enquanto espiritua!idade, embora discutível sob o pon-
houver divergências e controvérsias quanto to-de-vista da história natural, São Francisco
aos eixos universais de tal ciência human? de Sales se refere às abelhas do Hellesponto
Nesse sentido, sociologia brasile~ra I que~:rla que produziam um mel venenoso por causo dos
dizer ticontribuição de algum not?vel s.~c'olo- flôres mortais que sugavam. O mel e o abe-
go brasileiro, ou de alguns n~t.áv~IS sO~lOlogo; lha são sempre os mesmos, mas há o gôsto
de mesma nacionalidade à ClenCla unlvers~1. que depende dos f1ôres, há o sabor que vem
De modo algum a nacionalidade pe~.etr?ra o do terra, há o timbre, o sotaque, o particula-
âmago da ciência, porque só há clencla do ridade que remonto aos ensaios do infância.
universal. A nacionalidade entro no obro poético invo·
luntàriamente, inconscientemente, como nela
Já com as artes acontece coisa diversa.
entram os coisas profundas, o humus espiritual
Sendo ainda uma pesquisa da ver~ade, mas
dos nossos primeiros ensaios, os primeiros mê-
de uma verdade investida de singularidade co~-
dos, os primeiros amôres. Tudo isto se prende
creta e travestida em esplendor de belez~ nao
à terra, à língua que se falo, ao estilo com qúe
é o côr local o primeiro coisa o s~r :ons,dera-
um povo se alegro ou se queixo. Tudo isso são
da, não é o nacionalidade a pm~elra preo-
joisas que vêm por via de conseqüência, são
cupação nem, como acab~u d:. d,z,~r Macha~
.. coisas que decorrem do tempo e do espaço, e
do de Assis, o assunto obrlgatorlo .. O ~ue se
por conseguinte do matéria de nosso incarna-
deve exigir do escritor, antes de tuClo, e certo
ção. Não devem ser buscadas como fim, não
devem constituir programa, sob pena de cair
num mortal ridículo quem justamente preten-
de ser sublime.
Creio que já disse, mais de uma vez, que
a diversidade de grupos humanos, e entre êles
as nações, têm a remota finalidade de expri-
mir tôda a riqueza virtualmente contida na de-
finição do homem. As nações diferenciadas
existem para essa epifania do humano, e sen-
do assim a idéia da unidade domina a idéia
da diversidade. Fazem parte de um concêrto,
onde as nacionalidades entram como tímbres,
e a natureza humana, una, universal, entra co-
mo idéia central da grande sinfonia. Em outras
palavras, as nações existem na linha da gene-
rosidade das naturezas e não na linha da re-
tração, do isolamento, como pretendem os na-
cionalistas.
Já observei que nos lugares onde se dis-
cutem os problemas do Brasil, e onde se co-
mentam os mais graves desatinos e os mais es-
tridentes escândalos, é invariável costume da
maior parte dos homens de responsabilidade
arrematar o rol de crônicas calamitosas com
esta sentença que cobre todos os pecados da
República: liMas eu creio no futuro do Bra-
sil". Todos crêem no futuro e no glorioso desti-
no desta terra, ainda que os sinais de que dis-
põem, no presente, sejam de natureza a indu-
zir outros sentimentos. Todos crêem, ou dizem
crer, porque parece estabelecido, parece uni-
versalmente admitido que seria pecado cívico
não crer ou declarar suas apreensões com ba-
se nos sinais fornecidos abundantemente pelo
noticiário. Já ouvi êste acorde final nos luga-
res em que se reúnem homens conspícuos
e responsáveis, e onde êsses homens, por
diferenças de raça espiritual, de orientação,
de filosofia, divergem ôsperamente em tôr-
no da direção que segue a coisa pública! Na
hora da distenção dos nervos, da pancadinha
no ombro, do arremate da cordialidade esgar-
çada, lá vem a jaculatória cívica: "Creio nos
destinos do Brasil",.
Até ontem, antes de pôr em ordem estas ver, a' falar, a gesticular, a produzir. Poderão
idéias, eu sentia, um mal-estar enorme por me até progredir na arte de fazer foguetes. Pode-
julgar mau patriota, porque não achava em rão construir usinas hidrelétricas mais possan-
mim convicção para pronunciar com os outros tes que a Pátria assassinada até então cons-
a fórmula sacramental, e não a achando não truíra.
a pronunciava, e não a pronunciando ficava
Com o tempo, em cima do mesmo territó-
com aquêle pêso de culpa indefinida que às vê-
rio antigo, mudam-se os costumes, morre o úl-
zes é mais incômodo do que a carga de uma
timo vestígio da piedade com que naquela ter·
culpa nítida. Ontem livrei-me do complexo
ra ainda se reverenciava o Rei do universo, e
quando observei que são os patifes que usam
por fim substitui-se a língua. As Pátrias mor-
com maior galhardia aquela espécie de espe-
rem, de esgotamento natural ou de maus tra-
rança nacional, e que foram êles que espalha-
tos de seus filhos. Morrem e não têm alma imor-
ram a insidiosa doutrina que diviniza a Pátria
tal corno o mais humilde de seus filhos. Sob
e que aproxima a esperança nacional da Espe-
êste ponto-de-vista com os critérios da eterni-
rança teologal infusa, que não pode ser feri-
dade, a história é um sôpro e os grandes dra-
da sem gravíssimo pecado.
mas nacionais são ainda mais efêmeros do que
O bom-senso já me dizia que uma Pátria, /--os dramas pessoais. Há entretanto, mesmo à
como já tem acontecido com muitas pelos sé- luz da eternidade, uma missão, uma função
culos da história, pode dar com os burros '"com que cada coisa efêmera deixa uma mar-
n'água. t claro que o chão, a base territorial, ca eterna. Na minha mais profunda convic-
os rios, e as cordilheiras ficam: mas a pátria, ção, cada grupo humano está aqui neste cor·
se por tal coisa se entende um conjunto histó- roussel planetário para se desincumbir de de-
rico com tais e quais tradições orientado para terminadas coisas relativas à sorte e à nature-
tais e quais missões no mundo, se por Pátria za do homem. E é neste sentido que se torna
entendemos mais êste aglomerado afetivo e particularmente trágico o malôgro de uma na·
moral dotado de certas características que vi- ção. E é neste sentido que me inquieto e que
sam a ser a glória e a beleza do conjunto da não acho em mim voz para acompanhar o cô-
espécie humana, então pode perfeitamente ro cívico que formula seu ato de perfeita es-
acontecer que uma Pátria desapareça, ou se perança depois de ter' mostrado que tudo vai
querem uma imagem mais brutal, pode acon- de mal a pior.
tecer que uma Pótria tombe assassinada numa Por que será que inventaram essa Esperan-
esquina do tempo. Em cima de seu território os ça Nacional com ares de Esperança Teologal?
homens que a assassinaram continuarão o vi- E por que será que são justamente os que mal-
baratam os recursos pátrios que mais enfàtica- destinos gloriosos da Pátria. Pois se são inaba-
mente declamam sua fé cívico? A razão, Jeitor, láveis tais destinos e tais glórias! A Esperan-
é extremamente simples. Escorados nes~ogran- ca Nacional elevada à altura de fé intocável,
de e indefectível esperança nos gloriosos des- transformada em virtude teologal, tem esta
tinos do Brasil, êles podem fazer o que quise- curiosa contradição: tira dos homens públicos
rem sem perigo de falha de tão alevantado qualquer cuidado. A palavra mágica garante
objetivo. Podem roubar em Brasília e no resto o futuro de tudo no Brasil então comamos e
do Brasil, podem entregar o dinheiro da Le- bebamos. E sobretudo, por causa das dúvidas,
gião Brasileira de Assistência aos bancos dos mandemos para os bancos da Europa e da Amé-
cunhados do Presidente da República, podem rica do Norte as prodigiosas somas obtidas
roubar no trigo a ponto de escandalizar o pró- com as metas presidenciais.
prio ministro do sr. Leonel Brizola, podem man- Ao contrário disto, os que não têm confi-
dar para o estrangeiro torrentes de dinheiro, anca inabalável e incondicional nos gloriosos
dêste pobre dinheiro ralo que é o sangue ralo de~tinos da Pátria, êsses tratarão de trabalhar,
do pobre brasileiro, podem gastar come o de- de fazer fôrca, de cumprir o dever, de denun-
putado Joffily em sua amistosa carta ao Pre- ciar os escâ'ndalos, tudo isto com o objetivo
sidente diz que gasta esta nova classe" nas-
II
/patriótico de trazer uma contribuição para a
cida neste nôvo Brasil
II
ll
, podem botar fora ( \
I. glória
.
e para a nqueza d o Brasl.'1 O cunos.o,
.
50000 dólares por mês e por cabeça em gas- 'meus amigos, é que nos chamem de derrotls-
tos de um super-café-society com um requinte tas e de pessimistas! O fato de acharmos ser
de grosseria e de estupidez que só o muito di- preciso trabalhar e vigiar para um dia sermos
nheiro pode dar, podem distribuir cartórios pe- grandes é apontado como derrotismo mórbi-
la família, e empregar centenas de parasitas do pelos que clamam incondicional confiança
nas câmaras municipais e centenas de parasi- nos destinos da Pátria, e desde já sacam por
tas em tôdas as repartições do país, e em tô- conta sua grossa parte da glória e da riqueza.
das as organizações do país, e em tôdas as
Espero que desta vez o leitor entenda bem
organizações estatais, e para-estatais, podem
o pensamento de um pobre escriba que se
delapidar, pilhar, roubar, e ainda por cima
cansa de dizer, como o hino francês, que a
atrapalhar os que desejam trabalhar, desen-
Pátria está em perigo.
corajar os honestos, desanimar os cumprido-
res do dever, e até ridicularizar os que traba-
lham quatro horas por semana. Tudo isto pode
ser feito serenamente, sem remorsos, sem afli-
ções cívicas, por que crê inabalàvelmente nos
(0961-v-vl '"OAOd 00 013~~OJ,,)

S:lOjVN SV W3.LSIX:I :100 \QIVd


Andei êstes dias pensando no problema
do um e do mútiplo que divide as filosofias e
as mentalidades. Nas filosofias de inspiração
nominalista, infensas às idéias universais, pre-
domina a tendência de valorizar a diversida-
de; nas filosofias de inspiração aristotélico-to-
mista, ao contrário, ensina-se que a perfeição
de uma' coisa deve ser procurada na sua maior
unidade, desde que saibamos distinguir entre
unidade vista do lado da forma e uniformida-
de tomada do lado da matéria.
f errado, e meio tolo, atribuir à diversi-
dade, ao pluralismo, um título de nobreZCI
e dizer, como diz o professor Anísio Tei-
xeira, que uma sociedade se torna mais evo-
luída na medida em que se torna mais comple-
xa e mais diferenciada. Chega a dizer que ha-
veria vantagem, para o Brasil, se em lugar da
predominância católica nós tivéssemos uma
coleção maior, um estoque mais variado de
credos. Ora, parece-nos fácil provar a falta de
consciência de tal opinião. Afirmando o que
afirma, o conhecido autor de livros sôbre pe-
dagogia professa, simplesmente, um total ce"
ticismo religioso, e deseja a diversidade dos
credos como se nenhum dêles pretendesse con-
ter verdades, e de fato as contivesse. Duvida-
mos que o professor Anísio Teixeira desejasse rosa vale também para o homem. A perfeição
poro o Brasil, poro o desenvolvimento, poro o da humanidade-essência se realiza na huma-
emancipação econômico e cultural do Brasil, nidade-existência. A riqueza da idéia "homem",
um plura/ismo científico, uma diversidade de que Deus concebeu e criou, não cabe num só
opiniões o respeito do funcionamento do fí- indivíduo, não se esgota no mais belo, no mais
gado, dos causas do câncer, e dos proprieda- ta/entoso dos homens. Foi preciso deixar o his-
des do triângulo retângulo. t: cloro, amigo lei- tória correr; foi preciso deixar nascer um Mo-
tor, que também nós desejamos o pluralismo no zart, um Gauss, uma Catarina de Siena, um
campo do direito de pesquisar; mas é c1arís- Paulo de Tarso, um Einstein, e muitos outros
simo que só diremos que há progresso científi- exemplares mais obscuros; foi preciso deixar
co na proporção em que se unificam os conhe- nascer o rapaz que dias atrás me contava que
cimentos e as opiniões. não aceitara um trabalho com o triplo de sua
Há entretanto certas diversidades que têm remuneração atual, porque precisava fazer
uma significação de riqueza e de perfeição, " certas coisas" que sua consciência desaconse-
além daquela que tem o título precário de di- Ihava; foi preciso multiplicarem-se os talentos,
reito de pesquisa e de opinião. A variedade as inclinações, os vocações, as nomeações de
de indivíduos concretos dentro de uma espécie, Deus, paro que a vasto multidão, numa espé-
a variedade das rosas, por exemplo, é uma ri- cie de longo e ardoroso discurso, explicasse
queza, é, digamos assim, um belo esfôrço que aos astros,· aos amigos, aos anjos, a tôda o
as existências concretas realizam para expri- criação, o que é êste ser espantoso, absurdo,
mir o conteúdo total de uma essência. Para co- incongruente, maravilhoso, que um dêles defi-
nhecer um pouco o que é uma rosa, qual é o niu como "animal racional". A definicão essen-
pensamento de Deus que ganha corpo na rai- cial é breve, mos o explanação, paro ~orrespon-
nha das f1ôres, é preciso ter visto muitas péta- der â profundidade de tão singela definição,
las, muitos matizes, muitas racas diferentes do teve de ser extensa como a história da huma-
mesmo sonho divino. A dive"rsidade aí é um nidade.
discurso, é um poema que se estende para com Essa diver'sidade, que é uma explicação,
muitas palavras dizer uma coisa. No fundo da uma demonstração prática e existencial de uma
questão como se vê, há sempre o primado da natureza definida por uma fórmula universal -
unidade, mas no caso que tomamos como essa diversidade que pertence à didática de
exemplo a diversidade não tem o sentido me- Deus, é boa, é excelente, e nem sequer represen-
lancólico, amargo, que tem o do diversidade ta uma tolerância, uma expectativa, um alarga-
de opiniões toleradas enquanto não se acha a mento à espera de uma unidade maior. Não. A
verdade única de uma coisa. E o que disse da
diversidade do multiplicação de indivíduos do
mesmo espécie, 00 mesmo tempo que dilata os país, falando uma só língua. A transcendental
limites do definição fortifico os vínculos do uni- utilidade, a finalidade dos noções tem de ser'
dade interno do coisa. Ao contrário do que procurada mais alto e no mesmo direção em
penso o nominalista, nós sentimos ainda mais que se explica a diversidade dos homens. Além
forte o unidade do natureza humano quando da variedade de pessoa para pessoa, a idéia
passeamos pelo imenso jardim onde nasceram de homem~ pensado e criado por Deus, preci-
E? desabrocharam os flôres do humanidade. Ca- sa do varIedade de grupos. Existem noções
da vez mais entendemos, sentimos, penetramos ~om tímbres culturais diferentes, como existem
a idéio de um ser que pelo gênero pertence à Instrumentos diversos no mesmo sinfonia. E ca-
animalidade e pela espécie pertence àracio- d.a nação traz ao mundo a contribuição pre-
CIOSO de um tímbre, de um matiz, de um odor
nalidade.
que compõe a grande apoteose do plano de
E o que dizemos para os homens diremos Deus, no centro da qual está o Cruz do Sal-
também para as nações. A variedade delas é vador como grande síntese do pensamento de
uma riqueza, desde que seja vista naquela Deus sôbre o Homem, ou melhor, do pensa-
perspectiva que enriquece e fortifica a unida- mento de Deus tornado Homem.
de. Para que existem as nações? Para si mes-
Em palavras mais frias diremos que as na-
mas? para serem poderosas potências arma-
ções têm vocações diversas na partitura, e idên-
das de engenhos mortíferos e enfeitadas com
ticas no objetivo final que é a glória de Deus
bandeiras e hinos? Para serem temas de dis-
e a exposição universal das obras, e feitos do
cursos? Para trazerem côres diversas à carto-
homem, que se completará no dia do juízo fi-
grafia, e tornarem os mapas mais agradáveis?
nal. Por ~í se .vê que as nações, não só para
Para que existirá o Brasil? Parm o sr. Negrão
as trocas ImedlOtas de utilidades, existem umas
de Lima ser embaixador dêle em outra nacão
para outras numa grande e essencial solida-
que por sua vez manda embaixadores par~ o
riedade. E é nessa perspectiva que deveriam
Brasil? Existirá o Brasil, como nação, como
ser armados todos as problemas nacionais e
pátria, para as crianças de colégio fazerem
não no ":lesquinha e tola perspectiva do eg~ís-
composições patrióticas, e para os construtores
mo coletivo que foz do nação um fim em si
de Brasília se encherem de lucro à custa da
mesmo.
mesma idéia ensinada nos colégios? Existirá
para o hino, para a bandeira? E qual será, nessa ordem de idéias, o ra-
Parece-nos claro que, se fôsse paro tais zão de ser do Brasil? Qual será o vocacão co-
serventias, melhor seria que houvesse um só letivo, o vocação nacional dêste povo que an-
do perplexo, tonto, sem saber o que fazer de
seu imenso território, e do tipo de almas que vocação e que se desvia dos caminhos de DelJs.
aqui vive, trabalha, canta, chora e ri. E ri, e Rasguem as vestes os fariseus do nacionalis-
chora, com um sotaque espiritual diferente dos mo materialista (aliás outro não há), dêe-me os
outros povos. E dança como o francês ou o títulos que quiserem: ouso dizer que prefiro
russo não sabem dançar. Dizem que o Gar- vê-Io apagado do mapa, afundado na terra,
rincha, assistindo a um jôgo dos russos, sorria tragado pelo mar do que instalado num de-
com ar de certa superioridade, e quando lhe senvolvimentismo que nem sequer traz a feli-
perguntaram se não estava com mêdo do trei- cidade material, animal, das multidões, e que
nadíssimo time soviético, respondeu: - Não. volta as costas ao chamamento de Deus e à
tles são duros de cadeiras. E era verdade. Eles esperança dos homens.
não tinham os requebros de nossa astúcia
física, a flexibilidade de nossa graça felina. E
certamente serão duros de cadeiras em muitas
outras coisas em que somos graciosos e ágeis.
A verdade manda confessar que, fora do
futebol, pouca coisa trouxemos para a tal apo-
teose da essência humana. Qual será a rique-
za de que estamos incumbidos? Qual será a
partitura que devemos executar no maravilho-
so concêrto que tem por ouvintes as hierarquias
dos anjos?
Por mais insensata que possa parecer tal
idéia aos que vivem estudando os chamados
problemas brasileiros, é nesta perspectiva pro-
fética, teológica, metafísica, que deveriam es-
tarsituadas tôdas as pesquisas. Há problemas
imediatos, como o socorro devido às vítimas
do nordeste, mas há o grande problema da
vocação, da direção geral, que anda esqueci-
do, ou que está sob a ameaça de uma trágica
apostasia. E aqui - deixando para outro dia a
continuação desta louca conversa - ouso di-
zer o que penso de um Brasil que trai a suo
vwn
OY:)VZI1IAI:> :Ia
VINO~V 'Ia soxoa"~Vd
PARADOXOS DA AGONIA
DE UMA CIVILIZAÇÃO

O mundo moderno, por ser um cadinho de


grandes transformações que implicam mudan-
ças de eixos ideológicos e de critérios de va-
lores, é compôsto de uma contraditória mistu-
ra dos valorestlntigos, que ainda esperneiam
desesperadamente, com os novos valores que
surgem aqui e ali com a fragilidade das coi-
sas pequenas mas com a fôrça das coisas nas-
centes. Há assim, para cada problema, um con-
fronto em tensão de dois sistemas de valores
e de idéias, vivido às vêzes dentro do mesmo
grupo - juventude católica por exemplo - ou
até dentro da mesma pessoa. E fácil, prever a
coleção de paradoxos, de disparates que tal
atmosfera cultural pode produzir; mas não é
nada fácil descobrir a regra didática, catequé-
tica, apologética que nos permita atingir as
pessoas ou grupos vítimas de tais contradições.
Tomemos a questão relativa ao convívio
das nações e à política exterior dos países: te-
mos de um lado a posição clássica deixada por
um Jean Bodin na França ou por um Hobbes
na Inglaterra e aperfeiçoada por quatro sécu-
los de civilização individualista, burguêsa, ca-
pitalista, ou que outro nome queiram dar a
tal estatuto, segundo o qual cada país, ou ca-
da Estado se hipostasia numa pessoa suprema éles que apesar de seus vinte anos de imatu-
com atributos de autodeterminação e auto-su- ridade pertencem ao passado, e andam com
ficiêcia mora" ou com uma absoluta sobera- cinzas na bôca e na alma. Alguém poderá nos
nia que é uma espécie de divinização do Es- objetar que não há idéia mais em vogal rei-
tado; de outro lado temos as idéias realmente vindicação mais publicado, mais faladal do
características dei nova era, opostas ao fecha- que a das independências dos povos submeti-
mento nacionalista, contrárias ao princípio da dos ao jugo do colonialismo ou ameaçados
oficia.lização do egoísmo individual ou coleti- pelas pressães econômicas. Isto é verdade.
vo, e já formuladas pelos melhores e mais ge- Mas o fato de estar no cartaz do presente,
nerosos pensadores do tempo. Depois de Berg- com grande destaque, não prova que a idéia
son, temos em Maritain, Mortimer Adler, John é um comêçoçle vida novaj pode ser um es-
Nef, Robert Hutchins os verdadeiros represen- trepitoso anúncio de falecimento. Muitos per-
tantes do mundo nôvo que quer nascer, que sonagens, como tão bem assinalou Chesterton,
está nascendo, que aspira à unidade política, só aparecem nos jornais quando morrem. As-
à solidariedade moral e não simplesmente à sim também é possível que o entêrro das
solidariedade dos blocos de interêsses econô- idéias seja mais falado e movimentado do que
micos. Realmente, se alguma coisa existe de o nascimento. Os nascimentos, apesar do as-
nôvo, de característico do tumultuoso século pecto social e publicado que logo tomam,
em que vivemos, é essa tendência às formas guardarão sempre certo recato em atenção ao
políticas supra nacionais fundadas no direito do mistério do ato genesíaco. Além disso, cumpre
homem; e se alguma coisa existe de caracte- notar que êsse vento de independências encon-
rístico dos séculos idos e vividos é o pseudo- trará em muito coração uma ressonância de
princípio da soberania exterior ou da autode- generosidade que se exprime mal, que usa os
terminação dos povos, que alguns ainda con- jargões do grupo sem perceber suas contradi-
tinuam a enunciar cândidamente como se esti- ções. O grande vento do século - permitam-
vessem a dizer verdades incontestáveis e Ina- me êsse otimismo de quem sempre apostou nas
baláveis. reservas da humanidade - parece-se com aquê-
le que soprou no dia do primeiro pentecostes:
Um dos primeiros paradoxos que quero
é um vento de amor e de unidade. O mundo
assinalar nesta ordem de idéias é o que nos
está cansado das filosofias de inimizade que
proporcionam os moços do nacionalismo exal-
não só constatam que há maldade e miséria
tado quando nos classificam de reacionários, no mundo como além disso doutrinam que es-
êles que são os agentes, os reflexos galvâni- sa é a própria substância do ser humano. O
cos de um regime em estertôres de agonia, mundo está cansado do egoísmo como fôrça
de consolidação das instituições. O mundo está da pessoal e individual, que tem fechamento
cansado das diplomacias sem amizade univer- físico e metafísico mais perfeito do que a vida
sal, das políticas internas e externas sem pola- de um grupo, por mais forte razão se aplica à
rização para a humana e relativa felicidade vida nas nações. O desejo da amizade inter-
neste vale de lágrimas. O mundo está cansa- nacional diminui na exata proporção em que
do das mentiras, dos mitos, dos oficialismos, cresce o desejo das autonomias nacionais, e
das vazias liturgias do poder, do ritual da im- assim se vê que os nacionalismos traduzem,
portância balofa, do nada que infla os balões não o ideal de uma unificacão mundial na ba-
e os eleva na vida pública pela exquisita fôr- se da compreensão e da a~izade, mas o ideal
ca do vazio. Obscuramente queremos todos inteiramente superado dos compartimentos es-
~ais sinceridade, mais pureza, mais autentici- tanques de valores éticos e apenas comunican-
dade. Nos meios menos dotados, ou mais pre- tes de valores econômicos. Por aí se vê como
cipitamente atirados nas lides que formam a é cômico, tristemente cômico o contraste entre
opinião pública, os rapazes bons que quer~m o entusiasmo juvenil e a secura das fórmulas
formular sua generosidade pegam no ar a Jn- que trazem nas bandeiras. Seria mais compre-
dependência do Congo, ou dizem com a ~ai.or ensível que o defensor do ideal da auto-deter-
seriedade do mundo que Cuba tem o dIreIto minação dos povos, da independência do Con-
de determinar seu próprio destino, sem perce- go ou da livre determinação dos destinos cuba-
berem a cômica contradição que existe entre a nos fôsse um personagem frio e metálico, uma
fórmula e a intencão. E êste é um dos mais di- espécie de filósofo eletrônico, e não um môço
vertidos paradox~s de nosso tempo: a solida- imberbe a emprestar suas primeiras sofregui-
riedade é apregoada em têrmos, com frases dões a tão mesquinho ideal, ou pelo menos a
que deixam os grupos humanos a quem elas tão ambígua bandeira.
se destinam isolados no sepulcro de suas so- Não posso me furtar à tentação de ainda
beranias. Sim, o princípio da auto-determina- dizer alguma coisa relativa aos têrmos, à cons-
cão como tem sido enunciado, é incompatível trução verbal dessas frases que estão pintadas
~o~ a idéia de uma sociedade mundial verifi- nas grinaldas fúnebres de uma civilização em
cada pela amizade. Se na vida individual al- agonia. Deixem-me rir da auto-determinação
guém me afirma que é juiz supremo de seus no que tem de "auto" e no que pretende de
atos e que não deve dar contas a ninguém, a "determinação". Deixem-me rir daquilo que os
não ser daqueles que por sua feição exterior
parlamentares mandaram dizer inutilmente aos
exigem assentimento alheio, a conclusão ime-
cubanos: Cuba tem o direito de determinar li-
diata que tiro é que essa pessoa não quer s~r
vremente o seu próprio destino. O salmista diz
amiga de ninguém. E isto que é verdade na VI-
que Deus se ri das nações que pretendem COI-
sas vãs. Deve ser terrível êsse riso de Deus,
quando pensamos que Hitler também quis deter-
minar os destinos do povo alemão. Há em todo
o fraseado da filosofia individualista aplicada
ao convívio das nações uma ressonância teo-
lógica que me deixa bastante apreensivo, e
que me parece ser uma usurpação ditada pelo
Demônio. Dizem os teólogos que o Príncipe das
Trevas, na sua técnica de perdição das almas,
procura imitar o próprio Deus. t o símio de
Deus. Diremos nós que nos tempos modernos
- hoie em agonia - a mais endrúxula e teme-
rária imitação de Deus, ou macaqueação de
Deus, foi feita pelos Estados auto-suficientes e
soberanos. 11Quare fremuerunt gentes, et po-
puli meditati sunt inania?"
o PROBLEMA DA UNIFICAÇAO
POUTICA DO MUNDO
o PROBLEMA DA UNIFICAÇÃO
POLfTICA DO MUNDO

Muita gente anda pensando que a melhor


maneira de ser moderno, de pertencer ao seu
tempo - como se isso precisasse ser obtido
graças a uma:-receita ou a uma atitude pro-
curada - cOflsiste em se deixar conduzir por
idéias esquerdistas e até por uma declarada
simpatia pelo oriente soviético. A novidade
dos tempos presentes, segundo tal teoria, ou
tal concepção da vida e do mundo, estaria no
transistorizado regime que está sob o coman-
do do sr. Kruschev. Com êste diapasão no ou-
vido, qualquer rapaz estará apto a tomar po-
sição em estética, em política e em filosofia,
e terá a satisfação de imaginar que assim na-
mora ou fica noivo de uma bonita e jovem
"Weltanschauung" que além das prendas pró-
prias ainda assegura ao noivo o dote do su-
cesso e do prestígio. Enganados pela "maquil-
lage", ou vítima da própria miopia, os rapa-
zes acabam casando-se com sua tataravó, co-
mo naquele conto de Edgar Poe em que o he-
rói cai neste êrro pela vaidade que o impedia
de usar óculos.
Na verdade, como já dissemos o na-
cionalismo, a exaltação do princípio ou pseu-
do-princípio da autodeterminação dos povos
são quinquilharias de uma civilização ca-
quética que só não morreu de todo pelo rável, podendo até ao contrário acirrar os
fato de se haver congelado na Rússia numa ódios. Em si mesma a trama de interdependên-
forma e numa cristalização que são as perfei- cios econômicas é neutra, e o clima em que
ções máximas do capitalismo e do individualis- ela se desenvolveu, as filosofias de inimizades
mo burguês. O mundo moderno é um mundo que a regaram, produziram o monstro que
duplo. Soma de estertôres de agonia com es- ameaça devorar o mundo do homem. Diz as-
tertôres de nascimento. E não é no oriente que sim: "Uma interdependência essencialmente eco-
brilha a estrêla da novidade do século, é aqui nômica, sem nenhuma reforma fundamental
mesmo, no nosso bom ocidente, e mais, no correspondente das estruturas morais e políti-
ocidente americano. As Américas continuam a cas da existência humana, só pode impor, em
ser o Nôvo Mundo e é aqui, e sobretudo nos virtude de necessidade materiais, uma interde-
Estados Unidos, dentro daquele grande povo pendência política parcial e fragmentária e de
que pouco a pouco se desvencilha da supers- crescimento muito lento. Essa forma de inter-
estrutura ianque, estúpida e egoísta, é aqui, dependência será recebida com relutância e
"diante dos olhos distraídos" de muitos obser- hostilidade, porque navega contra o vento da
vadores, como diz Julian Marias, que está ger- natureza enquanto as nações viverem na supo-
minando, nascendo uma nova civilização. E sição de sua plena autonomia política. Enquan-
quem quiser antecipar o gôzo que dará um dia to essa interdependência essencialmente econô-
a flor desabrochada encontrará em Maritain, mica se basear na estrutura e sôbre fundo da-
no maior filósofo dos tempos modernos, que quela autonomia política plena e subentendida
melhor soube auscultar o coração do povo das nações, não fará senão exasperar as exi-
americano, uma luminosa previsão. Leiam no gências competitivas e o orgulho das nações.
seu grande livro "O Homem e o Estado", tra- O progresso industrial só tende a acelerar êsse
duzido por Alceu Amoroso Lima e editado processo, como o demonstrou o professor John
pela AGIR, o capítulo final intitulado "O pro- Nef no seu livro "0 Caminho da Guerra To-
blema da unificação política do mundo". Par- tal". Eis por que temos o privilégio de contem-
tindo das reflexões de Mortimer Adler conti- plar hoje em dia um mundo cada vez mais eco-
das em "How to Think about War and Peace", nômicamente uno e cada vez mais dividido
pelas exigências patológicas de nacionalismos
e de Emery Reves no seu estudo "la commu-
opostos".
nauté économique", Jacques Maritain mostra
que o estreitamento das relações econômicas Em nota ao pé da página, logo à abertu-
e as interdependências de mesma natureza são ra dêste importante capítulo, Maritain se colo-
inaptas para assegurar ao mundo uma paz du- ca no contexto da grande questão, e revela a
quem nem talvez sonhasse com o assunto o O admirável e profético capítulo se desen-
fervor com que vem sendo tratado o proble- volve com considerações e precisões que não
ma da unificação do mundo dentro do país podem ser condensadas nestas poucas linhas.
que, por seus defeitos, educou seus filhos na É preciso lê-Io todo, depois de ter lido o livro
auto-suficiência e no isolacionismo. Refere-se inteiro, e é preciso, para adivinhar a grande-
Maritain com particular carinho ao admirável za das idéias nêle contidas, ter o coracão aber-
movimento da Universidade de Chicago che- to, pouco que seja, para o doloros~ e estri-
fiado pelo Reitor Robert M. Hutchins, que tem dente alarido do mundo moderno.
a originalidade de ser um filósofo realista, dis- O que se ouve é o fracasso final, o fra-
cípulo de Aristóteies e de Santo Tomás. Oco- casso de dimensões planetárias da civilizacõo
mêço do movimento foi marcado por uma con- baseada no egoísmo tanto na sua forma libe-
ferência que Maritain qualifica de admirável ral como na sua forma socialista. O que se
e que infelizm,ente não tivemos oportunidade ouve é a resposta aos ódios, aos pecados, às
de conhecer. Foi publicada em 1949 com o tí- atrocidades antigas, dada em têrmos de ódio,
tulo: /1St. Thomas and the World Men". de pecado e de apetite de atrocidade. O na-
Na mesma nota em que confessa ter res- cionalismo dos ressentidos é tão ruim como o
tringido o material citado aos poucos livros do foi o nacionalismo dos triunfantes, e tão de-
grupo de Chicago, que mais de perto se pren- testável são as reivindicações colocadas no
dem às perspectivas filosóficas do autor, Ma- pauta do ressentimento como foram as expo-
ritain se defende de alguma eventual crítica liações colocadas na pauta da avidez do lu-
de provincianismo mencionando os autores que cro. Não é êsse o diapasão que poderá garan-
pelo mundo se preocupam com o agudo pro- tir ao mundo uma paz duradoura ou até livrá-
blema: Maclver, Carr, Clarence Streit, Cord, 10 da destruição total. Só alguma coisa novo,
Meyer, Kelsen, Herbert Hoover, Culbertson, realmente nova, como só a verdade pode ser
Goodrich, Hambro, Wood ward e a comissão e de um modo indestrutível e inoxidável, ~
Shotweii. Menciona as fortes objeções apresen- derá pacificar o mundo e libertá-Io do pesa-
tadas por Walter Lipmann e Reinhold Niebuhr, delo das tristes soberanias em choque. Vale a
e lembra os livros de Julia E. Johnsen, "United pena ler o livro e o capítulo de Maritain para
Nations or World Governement e Federal começar a entender que sàmente num mundo
World Governement", assim como o inquérito unificado poderão as nações rea!isarem me-
geral empreendido pela "Duke University", lhor suas diferenças culturais, seus matizes e
sob a direção do professor Hornell Harf. seus perfumes de humanidade.
Nesse meio tempo o alarido continua e o
mundo produziria uma risada cósmica se hou-
vesse além das constelações uma arquibanca-
da de arcanjos que atentassem em nossas pan-
tomimas. E o caricatural paradoxo se prolonga
com esta situação grotesca em que os moços
tem idéias velhas, e os velhos são os porta-
estandartes das idéias realmente novas; e o
malentendido, a petulância e arrogância ga-
nham volume de voz; e alguns jovens que aca-
baram de engulir meia dúzia de fórmulas cruas
Pág.
se julgam capacitados para criticar e até para
Patriotismo e Nacionalismo 7
ensinar, amigàvelmente, a quem talvez seja
mais lúcido do que êles e certamente mais es- Remember . . . . . . . 55
tudioso. Nacionalismo e Patriotismo 63
Nacionalismo e Totalitarismo 73
Nem liberal nem socialista . 83
Terá ocorrido uma evolução semântica? 93
O denominador comum .. 103
A riqueza das nações . 113
Liberdade sem liberdade . 123
O nacionalismo cultural . 133
Nacionalidade e cultura .. 141
A esperança no Brasil . . 149
Para que existem as nações? . 157
Paradoxos da agonia de uma civilização 167
O problema da unificação política do mundo 175