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O que devemos esperar do jornal A Tarde?

O que devem esperar do jornal A Tarde seus leitores e funcionários – principalmente os


da redação? Desde ontem, várias pessoas têm se manifestado pela internet, muitas
sugerindo a readmissão de Aguirre Peixoto como forma de o jornal corrigir o erro
cometido com o desligamento sumário do profissional. Parece-me ser essa a pior das
soluções. Uma justiça rasteira, calcada no “olho por olho, dente por dente”, como se o
fato de o jornal ser obrigado a “engolir” a presença do repórter na redação (o jornal e os
empresários que seriam responsáveis pela demissão) encerrasse a questão. Não encerra.
Além disso, voltar ao jornal, sobre o rastro quente, não seria bom a Aguirre, pois
levantaria robustas suspeitas de que houve algum tipo de submissão. Ele é jovem e
talentoso, e em breve encontrará um empregador melhor que A Tarde.

Gostaria de ampliar mais a discussão. O que está em jogo, não é um posto de trabalho,
não é apenas o desamparo inaceitável, praticado pelo jornal, a um repórter que foi à rua
transformar em matérias pautas produzidas pelo próprio jornal. Em jogo está a
credibilidade do veículo, pois a atitude de A Tarde faz respingar suspeitas em toda a sua
equipe de reportagem.

Enxergo assim a máxima estabelecida pela empresa com a demissão de Aguirre: não
está apto a trabalhar neste jornal o repórter que contrariar frontalmente os interesses
dos nossos anunciantes. Então, um breve exercício de lógica me faz chegar à seguinte
conclusão: “todos os repórteres de A Tarde, pelo fato de não serem demitidos, estão
preocupados em, ao escrever suas matérias, não contrariar frontalmente os interesses
dos anunciantes do jornal”.

Ou seja, a partir de agora, cada repórter de A Tarde poderá ser observado com olhos
mais ou menos desconfiados. Neste ponto é que refaço a pergunta inicial: O que devem
esperar do jornal A Tarde seus leitores e funcionários? Penso que o mínimo e o máximo
que todos devem e podem esperar é que o jornal faça uma retratação pública, admitindo
que errou, reconhecendo a presente promiscuidade entre editorial e comercial,
comprometendo-se, perante seus leitores e colaboradores, a rever seus métodos e a
tomar medidas saneadoras que evitar novos atentados à liberdade de expressão e
imprensa, e que ajudem a reconstruir a credibilidade do veículo. Menos que isso é
menos que nada.

Isaac Jorge
Jornalista