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Web Aula 1

O PENSAMENTO MÍTICO E O MITO NA


GRÉCIA
Para melhor compreendermos como nasce a Filosofia, é fundamental
entendermos primeiro como se dá e o que representa um tipo de
pensamento tão antigo quanto o próprio homem: o mito.
Compreender a questão do mito não implica em estabelecer um olhar
negativo, condenatório, mas na realidade, buscar as bases desta
forma quase natural, ou imediata, do homem dar respostas aos
problemas que o afligem. Na Filosofia, não entenderemos o mito de
forma pejorativa ou completamente negativa. Para nós, o mito é a
primeira forma de explicação que o homem encontra para aquilo que
ele desconhece. Todos os povos, todas as culturas possuem seus
mitos: egípcios, babilônios, caldeus, romanos, gregos... Hoje, ainda
transmitimos nossos mitos de geração em geração, tornando
plausíveis explicações que poderiam ser no mínimo constrangedoras
para os nossos filhos se recorrêssemos apenas à racionalidade. Por
exemplo, quando os pais recorrem ao mito da cegonha, buscam dar a
explicação para a indagação da criança, supondo que o interesse dela
é o mesmo que eles pensam como resposta: o sexo. O que a criança
espera é uma reposta à sua pergunta sobre sua origem, se ela é filha
deles na verdade e não um tratado de sexologia. Recorremos a vários
tipos de mitos, como o Papai Noel e Coelhinho da Páscoa, ou a mitos
de "heróis", buscando tranquilizar nossa realidade, nossos
sentimentos. Num determinado momento, contudo, o mito não
satisfará mais como resposta à criança que amadureceu e nem
tampouco será coerente com a realidade que ela observa. Neste
sentido, ela buscará uma explicação mais racional. Assim acontece
com o homem na história do pensamento. No início, tudo era
explicado através dos mitos, mas em determinado momento, é
preciso uma racionalidade maior, a necessidade de uma explicação
mais coerente e científica para os fenômenos.

PARA SABER MAIS

sobre a mitologia grega, acesse:


http://educacao.uol.com.br/historia/ult1690u33.jhtm

O mito, portanto, pode ser compreendido já de início, como a


primeira forma de explicação que o homem tem para os fenômenos
que contempla e para as realidades em que se encontra e, cujas
respostas, ele desconhece. Mas qual a definição de mito? Um olhar
apressado pode levar-nos ao "olhar negativo" sobre o mesmo, e o
mito aparece-nos apenas como sendo algo fabuloso, alegórico, sem
realidade. Podemos ver, por exemplo, no minidicionário Silveira
Bueno, a seguinte explicação: fato, passagem dos tempos fabulosos,
tradição que, sob forma de alegoria, deixa entrever um fato natural
histórico ou filosófico; (fig.) coisa inacreditável, sem realidade
(BUENO, 199-, p. 435). A definição não está errada, mas, dentro da
concepção filosófica, interessa-nos aprofundar um pouco mais esta
questão.

Vinda do grego mythos, a palavra mito é derivada de dois verbos,


especificamente: mytheyo (que significa contar, narrar, falar alguma
coisa para outros) e mytheo (que apresenta a ideia de conversar,
contar, anunciar, nomear, designar). A importância disto é que os
gregos entendiam o mito como sendo um discurso pronunciado ou
proferido para ouvintes que recebem a narrativa como verdadeira
porque confiam naquele que narra; é uma narrativa feita em público,
baseada, portanto, na autoridade e confiabilidade da pessoa do
narrador (CHAUÍ, 2002, p. 35). Este narrador ou presenciou os fatos
narrados, testemunhou-os pessoalmente, ou conheceu quem o fez e
recebeu dele a narrativa. Na tradição grega, quem detinha esta
autoridade eram os poetas, ou os chamados aedos e rapsodos. Eram
cantores ambulantes que apresentavam de forma poética os relatos
populares, recitando-os de cor em praça pública (ARANHA &
MARTINS, 2003, p. 79). Sua narrativa era respeitada porque se
acreditava que o poeta era um escolhido dos deuses. Estes, ao
escolherem-no, mostravam-lhe os acontecimentos passados e
permitiam que eles vissem a origem de todos os seres e de todas as
coisas, para que pudessem transmiti-las aos ouvintes (CHAUÍ, 2003,
p. 35). Portanto, sua palavra - o mito - é sagrada porque vem de
uma revelação divina. O mito é, pois, incontestável e inquestionável
(CHAUÍ, 2002, p. 35).

Apesar de o mito pertencer à cultura dos mais diversos povos,


dedicaremos nossa atenção de forma especial aos gregos. O motivo
disto está em que, a Filosofia, no entendimento que nos interessa
abordar, é grega e fundamentou todo o pensamento Ocidental a
partir do pensamento grego. Veremos que a Filosofia nasce na
Grécia, e que somente lá houve uma sistematização do pensamento
de tal forma a propiciar a passagem deste pensamento mítico para o
que os gregos chamaram de logos, ou seja, a razão, a palavra, o
discurso racional.

A preocupação do mito não está na veracidade, no provar a


realidade, mas apenas e tão somente em explicá-la. Sem respostas
para os sentimentos, fatos e fenômenos que contempla, o homem
recorre a mitos e encontra respostas que lhe dão segurança. Saber o
que é o amor, por que o universo está estruturado como está, por
que a colheita foi boa ou não, são algumas das indagações que
tomam conta do homem antigo. Procurando respostas, os gregos
apresentaram seus mitos relacionados às genealogias. Tais
genealogias são compreendidas como teogonias e cosmogonias. A
palavra gonia, do verbo grego gennao (engendrar, gerar, fazer
nascer e crescer) e do substantivo genos (nascimento, gênese,
descendência, gênero, espécie), unida à palavra theos (deuses,
coisas divinas ou seres divinos), representa a ideia do nascimento, da
origem dos deuses, ou seja, teogonia. No caso da cosmogonia, a
mesma palavra gonia aparece unida à palavra cosmos (mundo
ordenado e organizado, o contrário de caos), o que nos remete à
ideia do nascimento e a organização do mundo a partir de forças
geradoras (pai e mãe) divinas (CHAUÍ, 2002, p. 36).

Para apresentar estas origens, do mundo e das coisas, os mitos


narram-nas de três maneiras: relatam o nascimento de tudo a partir
da relação sexual entre os seres divinos que governam o mundo e os
homens (mitos sobre o nascimento dos titãs, dos heróis, dos
humanos, dos animais, dos materiais da natureza e das qualidades,
como bem e mal, justo e injusto, o nascimento do amor através do
mito de Eros...), da luta entre estes deuses que afeta o mundo
humano (o ciúme das deusas na origem da Guerra de Tróia, por
exemplo) e das alianças destes com os homens (o mito de Prometeu,
que protegia os homens e lhes dá a "luz divina" como presente). Os
deuses gregos, neste sentido, eram antropomórficos (do grego
antropós = homem e morfo = forma), ou seja, criados à imagem e
semelhança dos homens, diferentemente da concepção judaico-cristã,
em que Deus nos fez a sua imagem e semelhança. Criando e crendo
em vários deuses - era uma cultura politeísta -, a relação que
estabeleciam com o divino era uma relação com a natureza. Por isso
o antropomorfismo, no qual estes seres divinos não se diferenciavam
muito dos homens em seus sentimentos e atitudes (eram bons ou
maus, invejosos, ciumentos, apaixonavam-se por humanos ou
humanas e protegiam os homens ou faziam deles seus joguetes...) e
representavam a própria natureza (a beleza, o amor, a colheita, a
fertilidade...).

Toda esta tradição mítica dos gregos foi construída, como já


apontamos, a partir da autoridade dos poetas. Os dois grandes
representantes desta tradição foram Homero e Hesíodo. Ao primeiro
atribuem-se duas grandes obras clássicas: a Ilíada e a Odisséia. A
Ilíada trata da Guerra de Tróia (Ílion é o original grego de Tróia) e a
Odisséia refere-se ao retorno de Ulisses (cujo nome em grego é
Odisseu) para casa, após a guerra. É bem verdade que não temos a
confirmação histórica de que Homero realmente as tenha escrito. O
mais provável é que tenha sido o compilador dos mitos e tradições
que se mantinham por gerações. O fato é que sua importância é
fundamental na construção desta tradição. E é exatamente esta
tradição, a chamada "tradição homérica" que Platão criticará quando
"expulsa" os poetas da sua "cidade perfeita". Homero representa o
ápice e a vitalidade de todo um impulso cultural dos gregos. É
considerado o "pai" da cultura helênica, pois dele deriva a ideia
marcante da mitologia grega: o destino, que comanda a vida dos
homens e dos deuses. E esta força, atrelada ao mito é a pergunta
básica na formação do pensamento ocidental: o que é essa força do
destino que domina tudo? Por isso, a originalidade de Homero
consiste no fato de ter legado à posteridade uma visão clara do
espírito grego, em que a existência humana é profundamente
permeada da presença do divino: cada momento da vida, nenhum
detalhe da vida parece ter sentido sem referência à divindade. O ser
divino não representa explicação, interrupção ou suspensão do curso
natural do mundo: é o próprio mundo natural (PAIM; PROTA &
RODRIGUEZ, 1999, p. 45). Durante os séculos homéricos, a narração
se organiza em torno dos personagens divinos, sendo os humanos
reduzidos a essências com o estatuto da quase-dependência. Por
isso, tudo se explica pelas cosmogonias e teogonias, conforme já foi
relatado.

Num determinado momento, contudo, o pensamento mítico começará


a ser questionado. Não perderão suas crenças, mas buscando
respostas de forma mais racional, os gregos darão nascimento ao
pensamento filosófico. Por que isto acontece na Grécia e não nos
demais povos? No Egito e na China, entre os Caldeus e Babilônios,
saberes também se construíram, mas nada como a Filosofia grega. O
que permitiu à Grécia desenvolver tal condição? É o que tentaremos
entender na próxima web aula. Antes disto, leia um fragmento de um
dos grandes mitos gregos.

FRAGMENTOS: UM PAI CRUEL

No alto da luminosa montanha grega do Olimpo, na qual o ar era claro


e transparente e onde reinava uma eterna primavera, habitava Cronos,
o rei do Universo, num magnífico palácio.

Cronos, chamado Saturno pelos romanos, era filho de Géia (a Terra) e


de Urano (o Céu), os quais haviam tido, antes, muitos filhos, chamados
os Urânidas: doze Titãs, seis varões e seis mulheres; três Ciclopes
(Brontes, Esteropes e Arges) e três Centímanos (Briareu, Cotos e
Gias), que haviam sido todos precipitados pelo pai no Tártaro, para que
não pudessem destroná-lo.

Cronos tomou por esposa a Réia, que se sentia muito infeliz porque
tinha tido muitos filhos formosos e o cruel marido os havia devorado.
Um oráculo anunciara ao feroz pai que seria destronado por um dos
filhos e ele tratava de evitar essa desdita, engolindo-os quando
nasciam.
A pobre mãe estava desesperada. Ao nascer-lhe um novo filho, ao qual
pôs o nome de Zeus, saiu do Olimpo com o menino nos braços envolto
no manto da Noite. Levou-o a uma gruta escondida na ilha de Creta e
confiou-o ao cuidado das Ninfas. Depois, tranqüila quanto à sorte de
seu último rebento, voltou aos altos cimos de sua régia morada e
apresentou ao marido uma pedra envolta em paninhos, que ele
engoliu, pensando que era o novo recém-nascido.

Titãs, Ciclopes e Centímanos.

Zeus, a quem os romanos, mais tarde, chamaram Júpiter, cresceu


belo, forte e bom. Quando se tornou adulto, obedeceu ao que o Fado
havia estabelecido: subiu ao Olimpo, destronou o pai e reinou em seu
lugar. Mas os primeiros tempos do seu reinado foram turbulentos: ele
era jovem e, portanto, inexperiente. Num momento de generosidade,
pôs em liberdade os Titãs, monstros gigantescos, que, desde, muitos
séculos, haviam sido encarcerados nas entranhas da Terra por
Saturno. Eles, porém, em vez de ficarem agradecidos ao generoso
soberano, saíram de sua morada subterrânea e, julgando-se com mais
direito a reinar do que o próprio Zeus, assaltaram o Olimpo.

A luta contra os Titãs durou dez anos. Foi terrível e sem tréguas. Ao
ver que não conseguia dominá-los, Zeus recorreu ao auxílio dos
Ciclopes, irmãos dos Titãs, enormes gigantes de um olho só, no meio
da testa e, para assegurar a vitória, pôs igualmente em liberdade os
Centímanos (por ter cem mãos cada um). Desencadeou-se, então, uma
espantosa luta: os Centímanos atiravam enormes penhascos contra os
Titãs e os Ciclopes feriam-nos e queimavam-nos com raios de fogo. O
ardor e a cólera dos combatentes sacudiam toda a terra, desde os seus
alicerces, e seus gritos raivosos rasgavam o céu. Zeus, no meio da
peleja, resplandecente no seu carro doirado, animava os seus
defensores e lançava contra os inimigos poderosos raios,
acompanhados de relâmpagos e trovões.

Por fim, decidiu-se a vitória e os Titãs foram precipitados no tenebroso


Tártaro, por toda a eternidade.

Apenas vencidos os Titãs, Zeus teve de lutar novamente contra cem


gigantes, nascidos do sangue de Urano, aos quais sua mãe, a Terra,
incitou contra Zeus, para vingar aqueles; mas foram também
derrotados. Depois desta nova e dura luta, chamada a Gigantomaquia,
todos os deuses do Olimpo se submeteram a Zeus, que pode, então,
reinar em paz sobre o Universo.

MADEIRA, Marcos Almir (coord.). O livro dos nossos filhos: enciclopédia


para adolescentes. Volume primeiro. 2.ª ed. Rio de Janeiro: Editora
Alfa S. A., 1961.
No link abaixo, você pode ver um vídeo que ilustra um pouco o
fragmento apresentado, em que a mãe de Zeus engana Cronos, dando-
lhe uma pedra como se fosse o filho para ser devorado. O vídeo está
em inglês, mas a imagem é suficiente para entender, se comparada
com o texto anterior. O vídeo é do You Tube e é um fragmento do
game chamado "Deus da Guerra 2 (God of War 2)". Confira:

http://medievalx.blogspot.com/2008/03/greek-gods-series-zeus-sire-
deuses.html

Web Aula 2
NASCE A FILOSOFIA
Filha dos gregos, a Filosofia tem data e local de nascimento
específicos e, também, um "pai", considerado o primeiro filósofo
datado historicamente: Tales. Mileto, a cidade de Tales, ficava na
Jônia, atual Turquia, uma das colônias micênicas desenvolvidas após
a invasão dos dóricos. É exatamente aí, portanto, na Jônia, no século
VI a. C., que surge a primeira proposta filosófica. Neste sentido,
vamos entender o contexto de formação do povo grego e o processo
que levou ao nascimento do pensamento filosófico.

Geograficamente dispersa, a Grécia Antiga constituía-se por um


grande número de pequenas comunidades independentes, no mar
Mediterrâneo, desde a Jônia - atual Turquia -, na Ásia Menor, até o
sul da Itália. Apesar desta dispersão, havia uma certa unidade
cultural, expressa por uma língua comum, formas de organização
política semelhantes e mesmas crenças religiosas. A dispersão destas
comunidades deveu-se, em grande parte, às invasões em busca de
terras para cultivo, mas, também, devido aos conflitos entre dois
povos que praticamente formaram a cultura grega. Vindos da
Europa, os micênicos, um povo mais avançado culturalmente, chega
à Grécia por volta do ano 2.000 a. C. e, encontrando um povo mais
atrasado na região, logo se estabelece como a cultura dominante. Os
micênicos - ou aqueus, como também ficam conhecidos -
encontravam-se na idade do bronze e tornam-se uma grande
civilização, representada pela punjância da cidade de Micenas. Isto
prevalece até que, por volta do séc. XII a. C., os dóricos - povo
guerreiro que já dominava o ferro - invade a região e obriga o êxodo
dos micênicos em busca de novas terras. Emigrando para a Ásia
Menor - chamada Jônia, na época -, os gregos fundaram novas
colônias para fugir ao domínio dórico e preservar suas tradições.
Desta colonização surgem duas cidades que se tornaram grandes
centros culturais e econômicos: Mileto e Éfeso. Portanto, é nesse
conjunto de comunidades independentes que, no século VI antes de
Cristo, vai se formando um dos elementos que marcaram o
surgimento do pensamento ocidental: a racionalidade (PAIM, PROTA
e RODRIGUEZ, 1999, p. 45).

Para conhecer um pouco mais sobre a Grécia Antiga, ver um mapa da


região e um pouco da história deste povo, acesse o link abaixo:

http://www.suapesquisa.com/grecia/

Como já podemos perceber, a filosofia não nasce na Grécia


propriamente dita, mas na Jônia e na Magna Grécia, colônias desta
no Oriente e no Ocidente. Mas, por que nasce na Grécia e não nas
culturas orientais antigas, como Egito, Babilônia, China, Índia ou
entre os Hebreus? Sofreu influência destas pelo menos ou terá sido
apenas um "milagre" o que aconteceu na Grécia? Este é um ponto
que nos interessa discutir. Durante algum tempo, duas teses foram
defendidas para o fato de a Filosofia ter tido seu início na Grécia.
Uma considerava o fato um "milagre", ou seja, algo "a-histórico",
desconsiderando as condições sócio-econômico-culturais e políticas
que faziam parte da cultura grega. A outra considerava o nascimento
da Filosofia como sendo devida a "ensinamentos esotéricos que os
gregos adquiriram em suas viagens pelo Oriente, ou seja, a Filosofia
nasceu por influência dos povos orientais, sem mérito algum dos
gregos e não, novamente, por um contexto sócio-cultural próprio que
existia na Grécia. Estas duas correntes, portanto, "milagre grego"
versus influência oriental, estão desacreditadas academicamente. A
tese aceita atualmente defende o nascimento da Filosofia devido a
uma série de fatores sócio-político-econômico-culturais que
aconteceram somente na Grécia. Por isso, neste entendimento, não
foi possível o mesmo acontecer em outras culturas, não da forma
como se dá no Ocidente. Com isto, esclarecemos que, no
entendimento acadêmico, estamos falando da Filosofia Ocidental e
não das "filosofias orientais", que apresentam sua sabedoria e
importância. Num olhar mais depurado, não desenvolveram uma
sistematização do pensamento, de tal forma que permitisse o
nascimento do que viria a ser conhecido posteriormente como
ciência.

REVISANDO

Você sabe explicar por que as teses do "milagre grego" e da


perspectiva da "influência oriental" como possibilidades do surgimento
da Filosofia não são aceitas academicamente?
Retomando a questão da formação da Grécia, alguns contextos então
contribuirão para uma construção diferente da cultura grega com
relação às outras culturas. No mesmo período, as outras civilizações
existentes apresentavam algumas características que, contrapostas à
cultura grega, podem nos ajudar a esclarecer porque estes últimos
apresentaram um terreno fértil para o surgimento da ciência
filosófica. Nas demais culturas geralmente existia uma casta
sacerdotal dominante, responsável pela interpretação dos livros
sagrados e de verdades reveladas, o que determinava o
comportamento moral, político e econômico do povo. A escrita era
restrita aos escribas - tratada como segredo e, portanto, acessível
apenas a iniciados -, proibida aos homens comuns, o que impedia a
ampla difusão e discussão de ideias. Religiões com dogmas e uma
certa teologia elaborada eram outros fatores que impediam o livre
desenvolvimento do pensamento, tornando a religião um instrumento
de poder. Aliado a isto ainda estava a cultura do poder vitalício do Rei
e a figura do súdito, o que impedia qualquer manifestação política ou
reflexão sobre a questão do poder. Pois bem, o contexto grego era
contrário a este modo de ser.

Com o fim do domínio dórico, nós vemos a reconstrução da sociedade


grega. Há um renascimento do comércio em torno do século VIII a.C.
e a tendência à formação de centros maiores ao redor da ágora, - a
praça pública - local das transações comerciais e das discussões
sobre a vida da cidade. É o nascimento da política. Esclarece-nos
Paim, Prota & Rodriguez (1999):

Vencendo o princípio de que todos são iguais diante da lei, a


discussão torna-se a forma normal de tratar-se não só a política mas
os acontecimentos em geral; prevalece a opinião de quem expõe
suas idéias corretamente e com argumentos válidos, quer dizer há a
supremacia do logos (que significa "palavra", "razão"). Assim que,
enquanto antes os fenômenos divinos, naturais e humanos
confundiam-se e eram vivenciados sem necessidades de explicação,
com a pólis, esses fenômenos tornam-se problemas, à procura de
explicação (PAIM, PROTA e RODRIGUEZ, 1999, p. 47).

Na estruturação política, cada comunidade grega era uma cidade-


Estado - a chamada polis -, autônoma, com a dimensão de pequeno
município. Na Pólis é que se efetua a conquista política do estatuto
cívico, da ordem da cidadania, na qual o destino de cada um é
definido não pela obrigação de lealdade à um chefe, mas pela relação
ao princípio abstrato que é a lei - primeira etapa. Num segundo
momento, a democracia se instaura em Atenas. Apresenta-se a ideia
de governo do povo ou governo no "meio" do povo, e não governo do
"povinho". O grego tem consciência de sua cidadania porque participa
da vida pública da cidade. Os destinos da pólis são de
responsabilidade comum de todos os cidadãos, acima dos quais não
há nada a não ser as leis que eles mesmos elaboraram. Escreve
HOWART (1984):

Pode parecer exagero, porém acredito que seja justo afirmar que as
realizações políticas e as experiências práticas de governo dos
gregos, nas quais se basearam todas as formas modernas de política
da Europa ocidental, pelo menos até a aparição do marxismo, não
poderiam ter acontecido em outro ambiente que não fosse o da pólis.
Conceitos tão familiares como, por exemplo, governo constitucional,
império da lei, democracia e, acima de tudo, cidadania, eram
completamente desconhecidos até que os gregos começaram a
experimentá-los (HOWART, 1984, p. 170-171).

O modelo de governo da pólis como esforço coletivo e exclusivo dos


cidadãos, até então desconhecida em outras civilizações, tem por
fundamento a ideia de que os deuses abandonaram os homens. E a
ideia do Destino, como força superior aos próprios deuses, sugere a
visão democrática de que a lei está acima dos indivíduos. É nesse
quadro que surge a reflexão filosófica, que busca uma lei universal,
acima de todas as coisas, que possa explicar o homem e o mundo
sem recorrer a forças divinas.

Outras condições histórico-sociais também foram proporcionando o


questionamento do mito. O renascimento comercial citado exigiu do
homem grego o "lançar-se ao mar" para encontrar novos mercados.
Com o desenvolvimento das viagens marítimas, os gregos começam
a confrontar os fatos reais com as tradições míticas. Chegando às
ilhas e regiões que constituem o pano de fundo das epopéias e dos
relatos poéticos, o grego não encontra as "divindades" e as
"criaturas" citadas pela tradição. Singrando os mares, não encontra
as sereias e nem tampouco é confrontado com Posseidon. Em Creta
não depara-se com o Minotauro, mas sim, com um povo que está
disposto a comercializar também, como nas demais regiões.
Questionamentos surgem sobre a veracidade do mito e a
possibilidade ou não de encontrar novas explicações para os fatos e
fenômenos antes entendidos apenas de forma mítica. Concomitante a
isto, há a invenção da moeda e um desenvolvimento da escrita
e do calendário. Criada pelos sumérios, a escrita ganha novo
sentido com os gregos que se descobrem capazes de expressar seu
pensamento não mais de forma verbal apenas, mas a partir da
concepção do alfabeto e da construção fonética, de forma mais
elaborada, por escrito. Estes fatos exigem uma abstração do
pensamento, um maior rigor na formulação das ideias e,
consequentemente, uma mudança cultural. O grego descobre que
não precisa trocar as mercadorias através de coisas concretas (um
cavalo por um boi, por exemplo), mas sim, que é possível uma troca
abstrata (um cavalo por 20 moedas, por exemplo). É o
desenvolvimento da capacidade de elaboração do pensamento de
forma diferente. O calendário produz condições semelhantes ao
permitir uma observação sobre os dias e as estações do ano e, desta
forma, a percepção da natureza em seu curso, desmistificando a ação
divina sobre os fenômenos da natureza (como no caso de a colheita
ter sido boa ou ruim devido ao "deus" e não às condições climáticas
ou época do ano). Por fim, o surgimento da vida urbana, que
impulsiona este renascimento comercial e diminui o prestígio da
classe aristocrática, proprietária de terras, faz nascer a política, que
exige a construção de uma nova relação social, como já foi explicado
anteriormente.

Por todos estes fatores, portanto, e não por um "milagre" ou por


"influência do oriente" como já esclarecemos, é que, no século VI
a.C. Tales inicia a jornada que se tornará a grande aventura na
História do Ocidente: o pensamento filosófico.

As mudanças começam a acontecer. Em torno do século V a.C., o


homem, como cidadão-guerreiro, que fala e que combate, aparece
como assumindo o seu destino. Nesta época, os gêneros culturais
mudam de sentido e de estilo. A tragédia, antes fundamentalmente
religiosa, torna-se cerimônia política. A história-geografia se afirma.
As descrições lendárias e as genealogias míticas dão lugar a
paisagens e costumes analisados e descritos com precisão. No campo
da medicina, surge um apelo pela investigação das causas das
enfermidades e não mais aos recursos ambíguos da adivinhação. Na
física, o grego passa pouco a pouco das especulações mágicas para o
estudo das relações fenomenais. A "arte da palavra", por sua vez,
deixa de ser privilégio das famílias nobres para ser o meio pelo qual
todo cidadão dispõe, pelo menos em direito, para fazer valer suas
opiniões e interesses.

O mito, contudo, não perdeu sua beleza, seu sentido que propiciou
todo este progresso. É uma forma diferente de olhar a realidade.
Hesíodo fala, em suas obras, do "abandono dos deuses" com relação
aos homens. Há um princípio de "secularização" do pensamento. O
homem não precisa mais recorrer aos deuses para explicar o mundo.
Na Teogonia - de Hesíodo - o homem encontra-se sem deuses,
abandonado, mas livre para agir e pensar. Entre os séculos VIII e V
a.C., portanto, desenvolve-se o esforço para a construção de uma
sociedade justa, propiciada pelas condições históricas próprias do
mundo grego. É neste contexto que nasce a filosofia e aparecem os
primeiros filósofos, os chamados pré-socráticos.

PARA SABER MAIS

Veja um rápido panorama dos pré-socráticos ao helenismo para


enriquecer nossa discussão sobre o nascimento da Filosofia. Acesse:

http://educacao.uol.com.br/filosofia/ult3323u22.jhtm