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A fragilidade dos laços humanos

A OBRA:
BAUMAN, Zygmunt.
Amor líquido – sobre a fragilidade dos laços humanos.
Rio de Janeiro: ZAHAR, 2004

Em Assim falou Zaratrusta, Nietzsche profetiza que tos e fragmentários, em lugar de tentar produzir uma
somente um tipo de homem é capaz de livrar-se das imagem completa”. Remete-me, esse foco central do
garras dos tempos modernos. Consolidifica, então, o estudo, ao aforisma 489 de Humano, demasiado hu-
conceito central da filosofia nietzscheniana: o concei- mano, Indo profundamente demais:
to de super-homem. Porém, para que o homem al- Pessoas que compreendem algo em toda a sua
cance tal façanha, de acordo com Nietzsche, é neces- profundeza raramente lhe permanecem fiéis
sário tornar-se uma espécie de ermitão, viver anos e para sempre. Elas justamente levaram luz à
anos nas montanhas para, desse modo, buscar a refle- profundeza: então há muita coisa ruim para ver
xão dos re: repensar, refletir e redirecionar sua condu- (NIETZSCHE, 2000, p. 266).
ta sócio-cultural-econômica e até espiritual, quem sabe. Nos dois primeiros capítulos, Bauman (2004) es-
Para elaborar uma equação desse problema, miuça a fragilidade que o “líquido mundo moderno”,
com a pretensão de ter uma resposta para isso, o ho- de certa forma, impôs ao relacionamento humano.
mem não necessariamente precisa tornar-se um ser Em Apaixonar-se e desapaixonar-se, o autor atrela amor
introspectivo no seu mais alto grau e viver isolado, à cultura consumista. Hoje, amar é como um passeio
boa parte da vida, para se reencontrar. Pelo contrário. no shopping center, visto que “tal como outros bens
O próprio ambiente midiático deve, com todas as suas de consumo, ela [vida] deve ser consumida instanta-
armas de aprisionamento, servir como suporte ao neamente (não requer maiores treinamentos nem uma
super-homem de Nietzsche. O homem, contudo, ain- preparação prolongada) e usada uma só vez, “sem
da permanece refém desse meio e, por conseguinte, preconceito”.
acostumou-se a resolver problemas com base em clicks A cultura consumista do amor, então, serve de
e com base na velocidade do provedor. E é justamen- cenário para o segundo capítulo Dentro e fora da cai-
te sobre esse ponto que o sociólogo polonês Zygmunt xa de ferramentas da sociedade. O sentimento do
Bauman discute em seu livro Amor Líquido, publicado imediatismo oferece conseqüências à “líquida,
no Brasil pela Zahar, em 2004. consumista e individualizada sociedade moderna”. O
Os tempos modernos e, agora, os tempos pós- resultado de intensificação da velocidade globalizante
modernos (para alguns) causaram um estado de fu- é pontificada por Bauman (2004) na sentença: “a soli-
são na sociedade humana, de acordo com o estudo dariedade humana é a primeira baixa causada pelo
de Bauman (2004). Para ele, houve uma transforma- triunfo do mercado consumidor”.
ção do estado sólido para o líquido. Evidencia-se, en- Ora, a imposição ardilosa, configurada dentro da
tão, o conceito de “líquido mundo moderno” – algo aldeia global, transformou o relacionamento entre
similar à frase antológica de Marx: “tudo o que é sóli- humanos como o mais (im)perfeito produto ofereci-
do desmancha no ar”. do pelo mercado, haja vista os avanços na área gené-
Amor Líquido é, destarte, uma reflexão crítica do tica. Doravante, será concretizada a configuração, não
cotidiano do homem moderno, que ressalta “a fragili- somente interna como externa, da prole humana. Pais
dade dos laços humanos”. Dividido em quatro capítu- poderão montar seus filhos de acordo com a conta
los (Apaixonar-se e desapaixonar-se; Dentro e fora da bancária de cada um. Mesmo que essa realidade es-
caixa de ferramentas da sociedade; Sobre a dificulda- teja imbuída em um contexto diminuto, é assustador
de de amar o próximo; Convívio destruído), Bauman imaginar os limites da ganância humana. Deus não
(2004, p. 8) considera o “cidadão de nossa líquida está somente morto. Os homens querem seu trono.
sociedade moderna” como Der Mann ohne Quem seria, portanto, o responsável? De acordo
Verwandtschaften – o homem sem vínculos – e obje- com Bauman (2004), é o próprio homem mediante a
tiva, no livro, “traçar um painel de esboços imperfei- (des)configuração do líquido mundo moderno com-

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petitivo. Hoje, mais do que nunca, o homem necessi- substituir “fracassos”, “frustrações” e até “conquistas”
ta de produtos pré e/ou fabricados. Até mesmo o tem- com a agilidade e velocidade da Internet. Bauman
po livre e as férias são programadas por meio de tais (2004) utiliza como reflexo da metamorfose da rela-
produtos impostos pelo mercado. Destarte, é justa- ção humana o testemunho de um universitário polo-
mente dessa lógica que o sociólogo polonês trata na nês que afirma categoricamente que dentro do líqui-
metade final de Amor Líquido. do mundo moderno tudo se resolve na base do delete
Em Sobre a dificuldade de amar o próximo, o au- – um simples toque no mouse e tal como um passe
tor perscruta a atmosfera do relacionamento humano de mágica, os problemas desaparecem. Basta limpar
pelo conceito bíblico de amar ao próximo como a si a lixeira e pronto.
mesmo. Segundo Bauman (2004), “o amor próprio é Intensifica-se, de maneira avassaladora, a substi-
construído a partir do amor que nos é oferecido por tuição de contatos físicos. Tudo acontece hoje somente
outros”. Evidencia-se a construção de amar a si mes- àqueles que estão conectados. O resultado não pode
mo somente quando há o mesmo sentimento – no ser pior e está traduzido no subtítulo do estudo de
caso, amor – manifestado por outros que “devem nos Bauman (2004): “a fragilidade dos laços humanos”. A
amar primeiro para que comecemos a amar a nós partir do momento em que os verdadeiros cidadãos
mesmos”, finaliza. perceberem o tamanho do labirinto onde se encon-
Finalmente, no quarto e último capítulo de Amor tram e se mobilizarem para solucionar o problema é
líquido, o autor reflete sobre a vertiginosa indústria que se dará o primeiro passo rumo à socilialização
do medo que criou um novo espectro: o da xenofo- humana. Senão, mesmo com a capacidade do homem
bia. Os imigrantes são acusados como sendo os prin- em se adaptar aos imbróglios, a sociedade continuará
cipais causadores da epidemia financeira do líquido correndo atrás do próprio prejuízo. Tudo isso nos re-
mundo moderno, hoje. São eles, segundo a indústria mete ao pensamento de Antonio Gramsci (ano): “sou
do medo, que dão à sociedade os graves males dos um pessimista pela inteligência, mas um otimista por
Estados-nação. Somente os imigrantes são os crimino- desejo”.
sos. E é dentro dessa tangente xenofóbica que a mídia
encontra sua menina dos olhos de ouro. Ou seja, a
pauta, dentro dessas redações, são e continuaram sen-
do as mesmas. Roubos, assassinatos e, principalmen-
Jorge Marcos Henriques Fernandes
te, atentados terroristas são reflexos da invasão é mestrando em Comunicação e Cultura Midiática junto à Universidade
imigratória de indivíduos oriundos de países periféri- Paulista.

cos e/ou miseráveis. Exemplos, não faltam no noticiá- Rua José Bonani, 226
Bel recanto - Taubaté-SP
rio internacional. CEP 12031-260
Qual é, então, o papel dos meios de comunicação Email: jmhfernandes@uol.com.br
de massa nesse ambiente líquido moderno? Ora, a
atmosfera midiática protagoniza justamente a sociali-
zação do homem dentro da líquida razão moderna.
Hoje, os seres humanos buscam contatos com seus TRAMITAÇÃO
pares mediante um mundo virtual em que podem, Texto recebido em: 08/07/2005
segundo a imposição do próprio sistema de irmanda- Aceito para publicação: 06/10/2005
de do final do século XX e início do terceiro milênio,

Rev. ciênc. hum, Taubaté, v. 11, n. 2, p. 173-174, jul./dez. 2005. 174