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A revolução cubana e as esquerdas brasileiras

Daniel Aarão Reis Filho - Janeiro 1999

Quando se tornou vitoriosa, há exatamente quarenta anos, a revolução cubana,


assim como todas as autênticas revoluções, surpreendeu a América Latina e o
mundo. No entanto, apesar do estupor inicial, quase ninguém ousava questionar
seus princípios e programa.
Tratava-se de derrubar uma das ditaduras mais abomináveis do Caribe,
conhecida pela truculência e corrupção, a de Fulgencio Batista. Neste sentido, os
revolucionários apresentavam-se como, e de fato eram, em sua enorme maioria,
jovens lideranças democráticas. Por outro lado, havia também a proposta de
afirmar a autonomia de uma nação, recuperando a dignidade perdida numa
história que convertera Cuba num paraíso de jogatinas e tráficos, um bordel do
Grande Irmão do Norte.
Quem ousaria, publicamente, declarar-se contra tão nobres e elevados
propósitos?
Assim, desde fins de 1958, os próprios representantes diplomáticos dos Estados
Unidos começaram a sinalizar para o ditador que seu tempo chegara ao fim.
Nesta altura os barbudos, como eram então chamados os guerrilheiros, de
barbas grandes e desleixadas, gozavam de extraordinária popularidade no país e
de grande simpatia na opinião pública internacional. Não gratuitamente eram
apoiados por forças liberal-democráticas na América Latina e, principalmente,
nos Estados Unidos.
Foi portanto num clima de congraçamento e de confraternização quase
universais que se deu a entrada em Havana do Exército Rebelde. Um tempo de
festa e de euforia, de unanimidade, representado pela Cuba Libre, onde se
misturavam simbolicamente o rum cubano e a coca-cola norte-americana.
As esquerdas brasileiras, formalmente, saudaram, como todo o mundo, o triunfo
da revolução. Entretanto, segundo seus vários matizes, alimentaram
desconfianças, dúvidas e esperanças.
O Partido Comunista Brasileiro (PCB) desconfiava, e tinha suas razões. Com
efeito, se a vitória da revolução cubana e do seu programa nacional-democrático,
de um certo ângulo, podia ser analisada como a concretização da chamada
primeira etapa da revolução latino-americana, preconizada há décadas pelo
movimento comunista internacional para o continente, por outro lado, os
comunistas cubanos não haviam jogado um papel de destaque no processo e só
tardiamente tinham despertado para a força e, sobretudo, para o apelo popular
dos guerrilheiros. Além disso, não havia naqueles barbudos nada que os
assemelhase a lideranças burguesas, cuja presença era prevista e desejada na
tão decantada primeira etapa da revolução.
Entre as esquerdas comunistas que se opunham ao PCB, e que se queriam
revolucionárias, em contraposição à moderação reformista do partido de Prestes,
havia dúvidas quanto à consistência daqueles revolucionários, considerados
pequenos-burgueses, ou seja, por natureza instáveis, incoerentes, em suma,
vacilantes. Eram homens de grandes ousadias, mas seriam capazes de assumir
as tarefas revolucionárias com a consequência devida?
Por estas mesmas razões, foi entre os nacionalistas radicais e os católicos com
propósitos de justiça social que a revolução cubana suscitou mais esperanças.
Exatamente porque não fora dirigida pelos comunistas, quem sabe, aquele
processo não poderia desembocar numa terceira via, renovadora, combinando
radicalidade de métodos e objetivos sociais e democráticos, longe das tradições
encarnadas pelas revoluções socialistas vitoriosas?
Entre incertezas e esperanças, a revolução cubana acelerou os ritmos. Parecia
que os líderes revolucionários estavam levando a sério a realização de seu
programa.
O Estado norte-americano e as grandes empresas não entendiam o que estava
se passando. Afinal, até onde iriam aqueles cucarachas? Começou um jogo
pesado de pressões e de intimidações. O cerco, o bloqueio, o apoio explícito às
organizações contra-revolucionárias, a preparação e o desencadeamento, em
1961, de uma invasão — frustrada — para derrubar o poder revolucionário.
Os revolucionários respondiam no taco a taco: reforma agrária radical,
nacionalização dos setores econômicos estratégicos, mobilização e armamento
da população. E, assim, num trânsito mal definido, pouco explícito, uma
revolução nacional-democrática transformou-se numa revolução socialista. A
crise dos foguetes, em outubro de 1962, quando o mundo se viu à beira do
desastre de uma guerra nuclear, consolidou o processo e as opções: Cuba
tornou-se um país socialista, firmemente ancorado no bloco soviético.
O furacão cubano, como assinalou J. P. Sartre, recorrendo à metáfora da
catástrofe natural, dava conta de um profundo processo de transformação social.
Uma revolução plebiscitada por um povo em armas, mobilizado em comícios,
ouvindo e aprovando com os fuzis no alto as caudalosas arengas e os decretos
revolucionários de Fidel Castro, não raro assinados em praça pública.
As esquerdas brasileiras viveram então uma conjuntura de crise política e de
intensas lutas sociais. De agosto de 1961 (renúncia de Jânio Quadros) a abril de
1964 (instauração da ditadura), foram quase três anos de agitação permanente
em torno da necessidade (ou não) de promover no país um conjunto de reformas
sociais, econômicas e políticas, as chamadas reformas de base. Um movimento,
até então, inédito na história republicana brasileira, envolvendo operários,
camponeses e escalões inferiores das forças armadas. Um medo pânico tomou as
elites sociais e políticas e as classes médias, que passaram a se preparar para
enfrentamentos decisivos.
Neste quadro a radicalização da revolução cubana entusiasmava as esquerdas,
autorizando e legitimando todos os sonhos. Os comunistas de diversas filiações
atenuaram suas críticas. Os do PCB passaram a apostar que a aliança com a
União Soviética haveria de enquadrar os delírios dos barbudos. Os dissidentes e
alternativos esqueciam antigos dogmas para se aterem aos avanços concretos da
revolução. Entre os nacionalistas alimentava-se a expectativa de que Leonel
Brizola poderia se tornar um Fidel Castro brasileiro. Também em nosso país uma
revolução nacional radical poderia abrir horizontes imprevistos. O ecletismo da
revolução cubana, seu descompromisso com tradições revolucionárias
consagradas, sua surpreendente consequência prática, ensejavam a possibilidade
de múltiplos apoios, cada um lia o que queria naquele processo rico e
multifacetado.
Foram tempos heróicos, em que tudo parecia permitido, desde que realizado com
audácia. Iniciou-se um fluxo ininterrupto de revolucionários brasileiros à Ilha
vermelha do Caribe do qual até hoje muito pouco se sabe: militantes das Ligas
Camponesas, da Ação Popular, do Movimento Nacionalista Revolucionário, todos
queriam conhecer o primeiro território livre de América, como então,
orgulhosamente, se auto-intitulava a Cuba revolucionária.
A grande questão era saber como Cuba sobreviveria ao cerco empreendido pelos
Estados Unidos. Uma saída era disseminar a revolução pela América Latina, o
que, ao mesmo tempo, aliviaria a pressão norte-americana sobre o Vietnã. No
contexto da formação de organizações revolucionárias internacionais — a
Tricontinental e a Organização Latino-Americana de Solidariedade, a Olas —,
preparou-se um projeto de guerrilha continental, com uma sede inicial — a
Bolívia — e um comandante — o próprio Che, cada vez mais descrente da aliança
soviética e da sobrevivência isolada da revolução cubana.
Nesta altura, em nosso país, um movimento civil-militar instaurara a ditadura
militar. Em contraposição, Cuba jogou, por um certo tempo, a carta do
nacionalismo revolucionário, apoiando Brizola enquanto este comprometeu-se
com o enfrentamento armado (guerrilha de Caparaó). Quando fracassou esta
alternativa, passou a auxiliar os movimentos comunistas dissidentes adeptos da
luta armada e da teoria do foco guerrilheiro em particular.
A morte do Che na Bolívia, em outubro de 1967, não arrefeceu esta política.
Centenas de revolucionários brasileiros (da Ação de Libertação Nacional/ALN, da
Vanguarda Popular Revolucionária/VPR e do Movimento Revolucionário 8 de
Outubro/MR-8, entre outros) passaram então a realizar treinamentos de
guerrilha urbana e rural em Cuba. Trabalho acadêmico recente (Denise
Rollemberg) começou a desvendar este ainda obscuro processo, equivalente, nas
palavras de um então revolucionário brasileiro, a um vestibular para o cemitério.
Os cubanos não se limitavam a apoiar material e moralmente as tentativas
guerrilheiras. Como os russos e chineses, antes deles, tratavam de conseguir
influência e controlar direções políticas e organizações revolucionárias brasileiras.
Foi um tempo de tensões — como Cuba revolucionária iria sobreviver sem
revolução no continente latino-americano? O governo de Unidade Popular no
Chile pareceu abrir, enquanto durou, uma brecha. Sua derrota, em setembro de
1973, a fechou. Para quebrar o isolamento, Cuba passou a namorar governos
nacional-estatistas, quase sempre ditaduras militares (Alvarado no Peru, Torrijos
no Panamá, Torres na Bolívia). Aquilo era uma decantação. Ainda seria possível
associar Cuba com a utopia revolucionária?
Apesar de realizações incontestáveis, entre as quais se destacaria a
generalização de sistemas de saúde e educação públicos, de qualidade
excepcional, a revolução cubana esbarrava em limites que pareciam
intransponíveis. O isolamento em terras americanas, asfixiante. A aliança com os
soviéticos, impondo moldes e padrões ditatoriais, dificultando e mesmo
impedindo a eclosão da originalidade e do imprevisto que tinham sido as grandes
características de seus tempos heróicos. E a falta de tradições de auto-
organização na sociedade, inviabilizando o controle social do poder, permitindo o
desenvolvimento de aspectos às vezes caricaturais, como a permanência
indefinida de Fidel Castro no centro do poder, como se fosse um monarca.
Enquanto isto, as esquerdas brasileiras, liquidada a alternativa armada, na
primeira metade dos anos 70, seguiam evolução oposta: redescobriam os valores
democráticos e as virtudes da auto-organização da sociedade, e aderiam, em
larga medida, à crítica do socialismo realmente existente. Além disso, desde fins
da década, a ditadura militar, em boa ordem, metamorfoseava-se em regime
democrático e pluralista.
Como conciliar os antigos credos com as novas convicções?
Nas circunstâncias dos anos 80, frente à grande ofensiva do mal chamado
neoliberalismo, e, sobretudo, frente à desagregação fulminante do socialismo
soviético e de suas adjacências na Europa Central, a revolução cubana pareceu
adernar. Progressivamente, e no desespero, engavetou antigos dogmas
igualitaristas e nacionalistas e se abriu para o turismo e para o capital
internacional, mantendo, porém, a centralização política e o partido único. Para
as esquerdas brasileiras, envolvidas em lutas institucionais democráticas, tornou-
se cada vez mais dificíl lidar com a revolução cubana.
Exercitou-se o turismo ideológico, de solidariedade, suscitando entre críticos
impiedosos a maldosa asserção de que Cuba transformara-se na Disneylândia
das esquerdas. Pequenos grupos ativos ainda tentam manter a chama,
organizando eventos e atos públicos de apoio, mas uma grande parte observa
com constrangimento as últimas evoluções da política do Estado cubano e as
viagens de seu Líder Máximo.
Na luta desigual entre Golias (EUA) e David (Cuba), é quase insuportável não
olhar o pequeno com simpatia. Pode ser uma atitude generosa, mas já não tem
nada a ver com o internacionalismo revolucionário de antanho.
E assim, nas relações entre as esquerdas brasileiras e a revolução cubana, tão
marcadas em outros tempos pelo heroísmo e pela idéia da revolução, sobrou
uma certa melancolia. E uma atmosfera de naufrágio.
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Daniel Aarão Reis Filho é professor de História Contemporânea da UFF.

Fonte: Jornal da Tarde, 9 jan. 1999.