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DIAGRAMA

EXIST~NCIA E PSICANALISE
EMMANUEL CARNEIRO
LEAO
crise, experiência, pensamento

FABIO PENNA LACOMBE


psicoterapia e verbalízação

tempo bsasileiro
Emmanuel Carneiro Leão

Fábio Penna Lacombe

Emmanuel Carneiro Leão

Licenciado em Filosofia pela Universidade de Friburgo


<Alemanha Ocidental), onde foi aluno de Martin Hei-
degger, Doutor pela Universidade de Roma, Professor
Titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Coordenador dos Programas de Pós-Graduação da. Esco-
la de Comunicação e Professor de Poética da Faculdade
de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Autor de vários trabalhos e monografias, membro fun-
dador do Centro de Antropologia Clínica.
EXISttNCIA E PSICANÁLISE
Fábio Penna Lacombe

:É formado em Psiquiatria pela Faculdade de Medicina


da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Psicotera-
peuta, membro da Sociedade Psicanalítica do Rio de
Janeiro.

tempo brasileiro
rio de janeiro - rj - 1975
cía gera, de acordo com a maior ou menor tolerância
trelas, assim também hoje se inventam sistemas de es-
às frustrações. A crítica das transferências e projeções,
trelas para empurrar pessoas.
de um lado, e o desenvolvimento correspondente da ha-
No fim do capo VI de seu livro, "Learning irom Bz-
bilidade técnica, de outro, produziram pouco a pouco o
perience", Bion faz uma observação penetrante a pro-
pensamento do cálculo, a forma de relacionamento ade-
pósito do pensamento, que calcula, e do pensamento, que
quada para se lidar com o inanimado. Na impossibilida-
pensa o sentido, na psicanálise. Depois de dizer que o
de da identificação e na angústia das frustrações se
esforço para escapar à experiência de contacto com
constroem outros caminhos de conhecimento. Por obser-
objetos vivos torna alguns pacientes incapazes de rela-
vação, por tentativa e erro, por experimento se desco-
cionamento a não ser com autômatos, prossegue Bion:
bre o que fazer com o inanimado, se determina para que
serve, de que é feito, como manipulá-Ia, transformá-Io, O Cientista, cujas investigações incluem a
adaptá-Io. Em sua origem, a ciência é um perfeito pen- matéria da vida, se encontra numa situação pa-
samento, que calcula. Seu vigor mora na oficina e no ralela destes pacientes. O colapso no equipa-
mento do paciente para pensar leva domínãn-
laboratório, onde o cálculo demonstra toda a eficiência, cia de uma vida mental, em que seu universo
não perde tempo com a espera do inesperado, onde não se povoa de objetos inanimados. A incapacidade
dos seres humanos, mesmo dos mais adianta-
há tempo a perder com interpretações, onde não interfe- dos, de fazer uso dos pensamentos, por ser em-
rem as transferências da angústia. brionária nossa capacidade de pensar, indica
que o campo das investigações, toda investiga-
O pensamento', que calcula, não é, pois, um aperfei- ção sendo em última instância científica é li-
mitado pela deficiência humana, aos fenôme-
çoamento do pensamento, que pensa o sentido. É todo nos que apresentam as características do inani-
mado. Nós supomos que a limitação psícótíca
um outro universo, com campo definido de referência, se deve à doença, não a do cientista... Parece
com modelos e técnicas exclusivas de processamento, que nosso equipamento rudimentar para "·pen-
sar" os pensamentos é adequado quando os pro-
com diferentes regras de operação, com epistemologia blemas se associam com o inanimado, mas não
própria de discurso. Sem crítica, qualquer transplante de quando o objeto da investigação é o fenõmeno
da própria vida. Diante da complexidade da
funções de um universo para outro gera discursos com mente humana, o analista deve ser prudente ao
formas características de insensatez. A utilização de mo- empregar um método científíco, mesmo o mais
estabelecido. Sua fragilidade pode estar bem
delos de identificação no universo dos fatos inventa es- mais próxima da debilidade do pensamento psí-
píritos, e por muito tempo o céu foi povoado de anjos cótico do que um exame superficial poderia
admitir.
com a missão de empurrar as estrelas. Por sua vez, a
utilização de modelos do cálculo no universo do sentido Que apelo de pensamento nos surpreende neste tex-
lnventa fatos ídeológícos, e hoje o mundo está povoado to de Bion? Trata-se de uma condenação da ciência
de seres metafísicos, como coloníalísmo, capitalismo, im- acusada de despersonalizar o homem e reduzí-Io a um
perialismo, comunismo. Assim como ontem se inventa- autômato incapaz de relacionar-se com a vida de seus
objetos? É uma denúncia da psicose de angústia do cál-
vam pessoas para empurrar constelações, sistemas de es-
culo que resultaria de uma ansiedade de arriscar uma

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te. Aceítamos nossa mortalidade, como o dar-se de um
sentido, que reivindica de novo todas as nossas possibili-
identificação com a morte na vida? Somos convidados
dades com a novidade de uma primeira vez. Se não sa-
a arremeter contra a ciência e a técnica para podermos
bemos o que nos concerne na transitoriedade de nosso
Viver? mundo, se o sentido do predomínio do cálculo se retrai,
Entender assim é unidímensíonar ciência" técnica, é na angústia deste não saber e deste retraimento que
psicose. cálculo, vida, morte, pensamento, psicanálise. somos provocados a uma crescente libertação pela es-
Unídímensíonar é correr apenas numa dimensão, se- pera, na própria aceitação do cálculo, de um sentido
guindo o trilho de uma só bitola, Ora, enquanto díscor- inesperado.
remos numa bitola "Só,seja na do cálculo seja na do
Assim a aceitação da ciência e a espera do sentido
sentido, ,ainda não pensamos o bitolamento de nossos
se completam e, completando-se, nos abrem a possibi-
discursos. PresoS à oposição de uma ou outra alternati-
lidade de morarmos num mundo transitívo, oferecendo-
va, 'ainda não nos chegou a composição do pensamento.
nos a solidez de um novo solo de crescimento. É a via"
Pensar é compor oposições. No texto de Bion nos advém
gem do "e", em que aqui e agora nos envia o encontro
o apelo desta composição, o apelo de pensarmos a per-
de filosofia e psicanálise. A aceitação da ciência e a es-
tínência de cálculo e sentido. É o 'convite para encon-
pera do sentido nos encaminham no caminho da moder-
trarmos na própria fraqueza e indigência do pensamen-
nídade, em cujo seio, de um modo inesperado, nos, são
to a festa e a fecundidade do sentido. Assim como para
sei' psícótíco, o psíoótíco não é só psícótíco, assím como novamente restituídas as palavras pensadas de Nietzs:-
che: "é pr.eciso a angústia de ser um caOS !lara se ge-
para ser ciência, a ciência não é só ciência, assim como
rar uma estrela".
para ser técnica, a técnica não é só técnica, assim tam-
bém para não ser só psícótíco, o psicótico tem de ser
Rio de Janeiro, 23 de outubro de 1974.
psícótíco, para não ser só ciência, a ciência tem de ser
ciência, para não ser só técnica, a técnica tem de ser
técnica.
'Para nós, filhos precoces do pensamento, tardos em
pensar, os modelos e técnicas, as teorias e métodos do
cálculo nos concernem no próprio sentido de, nossa exis-
tência. Por isso sempre' dizemos "sim" e "não" tanto ao
cálculo, como ao sentido. Ao concordarmos e para con-
cordarmos com o cálculo, somos acordados por um sen-
tido incalculável. Nesta atitude os modelos e as teorias
deixam' de ser apenas ciência e técnica para virem a ser
o envio de um sentido, que, retraindo-se, nos atrai. A
transformação radical, operada em nossos relaciona-
mentes pela, modernidade, já não nos ameaça de mor-
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Sumário

Onipotência e coisa em si / EMMANUEL


CARNEIRO LEÃO 7

Existência e psicanálise / EMMANUEL CAR-


NEIRO LEÃo .. " .. . . .. . . . . . . . . . . . .. 20

Aprender e ensinar / EMMANUEL CARNEI-


RO LEÃO......................... 38

Psicoterapia / FÁBIO PENNA LACOMBE . .. 47

Acting-out e verbalização / FÁBIO PENNA


LACOMBE 59

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Existência e psicanãlise solidez de vida e morte para vir a ser um solo de cres-
cimento. Só podemos viver por sermos mortais. Só po-
demos entristecer por sermos joviais. Assim também só
podemos ser indigentes de pensamento porque a solidez
de nosso ser nos destina o solo de pensar. Somente as
possibilidades que, de alguma maneira, temos, é que nos
podem vir a faltar.
A falta de pensamento vive numa fuga. Na fuga da
angústia de pensar. lt tão angustiante pensar que não
queremos nem ver nem reconhecer a indigência de pen-
A colocação de hoje nos propõe pensar num discurso
samento. Chegamos até a negar-lhe a possibilidade de
o sentido do encontro. já sempre dado, entre filosofia e
presença. Como é possível fugir de pensar numa época
psicanálise. No curso deste discurso espera-se que nos como a nossa, na era da ciência e da técnica? Como ee
advenha o inesperado: a gratuidade do silêncio que con-
pode falar hoje em indigência de pensamento, quando
vocou Nletzsche às palavras pensadas: ":S: preciso a an- por toda parte se multiplicam os sucessos do saber e
gústia de ser um caos para se gerar uma estrela". cresce o interesse pelo conhecimento? O que não nos
Não se trata de um propósito moderno de hoje. Jl: falta hoje, é pensamento. Em nenhum outro tempo se
um propósito velho de milênios. O que possui de sem- planejou com tantas perspectivas, se investigou tão far-
pre novo é apenas a necessidade de se propor sempre tamente, se investiu tanta energia e recursos em pes-
de novo, com a novidade de ser cada vez a primeira vez. quisas, como hoje em dia. Onde está a falta de pensa-
A novidade, que a velhice milenar do pensamento nos mento?
põe a pensar hoje, como a primeira vez, é o sentido do Resposta: por toda parte, nos próprios investimen-
cálculo, dominante na ciência e na técnica planetária tos de pesquisa, no próprio empenho de investigar. :s:
de nossos dias. que, quando planejamos, investigamos ou processamos
r---Vivemos uma época rica de produção e indigente de alguma. coisa, sempre contamos com dados e fatos. Pe-
t pensamento. Somos tão pobres que, nem como ausência, dimos as contas de propósitos calculados. Contamos com
conseguimos pensar a indigência. E no entanto, mesmo determinados resultados, ainda que não operemos com
na indigência, não nos abandona o vigor de pensar. números nem recorramos a máquinas de calcular ou aos
Acontece apenas que se nos apresenta de uma maneira serviços do computador. No cálculo mora todo planeja-
estranha. A maneira de um terreno baldio. A indigência mento e pesquisa, todo processarnento e investigação.
de pensamento não é uma pista de rolamento. Numa Por toda a parte somos hoje um pensamento que calcula.
pista de rolamento podemos morrer. Não podemos viver. E calcula com sempre maiores possibilidades, com pos-
Podemos passar. Não podemos morar. A indigência de sibilidades ca,da vez mais abrangentes Progressivamente 1
pensamento é um terreno baldio, por não lhe faltar o pensamento, que calcula, pula com sucesso de um

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campo para outro. Passa de chance em chance. O pen- angústia de pensar. Por ísso, ao relato da estória, acres-
samento que calcula, não pode parar. Nunca chega à ( centou Platão as palavras pensadas:
serenidade do sentido. O pensamento, que calcula, não é
um J2ensame~ do sentid<Ç um pensamento, que pens-;-; "A mesma gozação vale para todos que se
dedicam à filosofia".
~ de si mesmo ou de qualquer cois~
r Há pois duas possibilidades, que brotam, se comple- Não é de hoje, desde sempre o pensamento do sen-
I mentam e se integram na estrutura do pensar: o pen- tido é um empenho de pensar com que não podemos
samento irrequieto, que calcula, e o pensamento sereno, fazer nada e do qual todos nós, na medida em que so-
~ pensa o sentido. ~ da angústia deste pensamento do mos escravos, sempre rimos. Na tempestade de nossas
sentido que estamos fugindo hoje e na fuga lhe senti- escravidões exerce a serenidade de um vigor íntempes-
mos a faltar iPor isso procuramos preencher o vazio com tívo. Pois, se com o pensamento do sentido não podemos
t_discussões sobre filosofia e psicanálise. fazer nada, resta ainda saber se o pensamento do sen-
·Contra o pensamento do sentido se tem acionado tido não faz alguma coisa conosco, levando-nos a sentir
sempre as virtudes do cálculo. Pensar o sentido paira a fossa da angústia, até mesmo no terreno baldio da
fora da realidade. Não dá pé. Vive num ócio de outro falta de pensamento em que se debate hoje nossa fuga
mundo. Não serve para bater um prego. É intempestivo. de pensar. Mas a íntempestívídade não é a única res-
Desta íntempestívídade já nos fala uma estória antiga. trição que sempre se faz ao pensamento do sentido.
Tão antiga que remonta aos prímórdíos do pensamento Também se alude à ascese de seu esforço. Para todas as
ocidental durante o Século VII a. C., na Grécia. Platão ciências, artes ou ofícios se exige muita paciência e um
a recolheu e nos' conservou no Diálogo Teeteto (175a longo aprendizado. Não basta ter olhos, dedos, material
et sqq) : e instrumentos para fazer um sapato. É preciso apren-
der com a experiência. E ninguém chia. Somente para
Conta-se de Tales que, ao olhar para cima, pensar o sentido é que não se toleram exigências. Todo
pensando o sentido dos astros, caiu numa fossa. mundo se julga com todo o direito de chutar. Pois todos
Uma escrava da Trácia, bela e galhofeira, o go-
zou, dizendo: aquele ali procura conhecer com não trazem na razão a medida da verdade, como se não
todo empenho as coisas do céu mas não possui trouxessem nos pés a medida do sapato.
olhos para des-cobrir o que tem diante dos pés
e debaixo do nariz. Por isso quando se sente que para pensar é neces-
sário aprender com a experíêncía, grande é a chiadeíra,
Como toda piada, esta estória não é s6 uma piada.
Logo se recorre a acusações de inutilidade ou a descul-
Não foi conservada, por cerca de dois mil e qUinhentos
pas de impossibilidade. Pensar o sentido excede as pos-
anos, apenas para fazer rir e nada mais. Trata-se de-
sibilidades do termo médio. ~ elevado demais para um
uma provocação para pensar a angústia de todas as consumo em massa. Em todas estas desculpas de impo-
piadas. No riso da piada nos advém a graça do pensa- tência se escamoteia uma culpa de onipotência. Pois,
mento. Ao fazer rir, convoca-nos a curtir O trabalho da como todo ofício, o pensamento do sentido não nos cai

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f

do céu, à. maneira de um deus ex machina, nem se faz que é desta integração que filosofia e psicanálise rece-
por si mesmo, numa espécie rara de geração espontânea. berão as determinações de suas diferenças e as defini-
Tanto quanto o pensamento que calcula, é o dom de uma ções de sua recíproca. pertinência.
conquista. Não pensamos o sentido de graça. O sentido Toda obra madura do homem se planta na solidez
não se concede sem ascese, Exige paciência e serenidade de um solo, que situa o aqui e agora de encontros e
de exercício. Temos de aprender a esperar o inesperado: desencontros humanos. A paisagem, em que transcorre
que medre a semeadura da paciência e amadureça a se- a viagem, é a situação de nossa existência. Nenhuma.
renidade do crescimento. questão de qualquer encontro é posta arbitrariamente
Nesta paciência de esperar a serenidade, todos po- pelo pensamento. l1: sempre imposta pelo fato de uma.
demos seguir, cada qual à sua maneira e na angústia de situação da existência. Ora, sendo sempre feito, todo
seus limites, os caminhos do pensamento, que pensa o fato vive do Nada deixado pelo retirar-se do sentido.
sentido. Não é necessário voar para o espaço das estre- Por isso é da situação atual de nossa existência que o
las. l1:na fala que se dá o silêncio. l1:no conhecido que encontro de hoje recebe o nível e a direção em que corre
nos chega o desconhecido. l1: no ordínárío que estancla a linguagem de sua viagem.
o extraordinário. E nesta estância moramos todos nós.
O que há com a situação atual de nossa exístêncíaj
Por isso, para pensar o sentido, não precisamos emi-
Predomina em nossa época a serenidade do pensamento,
grar. Basta ficarmos na proximidade de nossos empe-
que pensa o sentido? Ainda imperam integrações radi-
nhos e desempenhos, deixando-nos conduzir pelo que,
cais, em cujo solo o homem encontra a cada passo soli-
retirando-se, nos afeta e nos atinge aqui e agora. Aqui:
dez para obras maduras? Ou só nos resta cada vez mais
neste encontro de reflexão sobre filosofia e psicanálise.
o pensamento do cálculo, em cuja voracidade tudo es-
Agora: na hora de um envio de nossa existência.
correga nas engrenagens das planificações globais e dos
O que se retira neste aqui e agora? - Não sabemos.
planejamentos niveladores, da organização desenfreada.
Nós não sabemos o sentido de nosso encontro. E trata-
se de uma experiência radical de não saber. Pois com e do processamento automático? O que nos está advín-
ela aprendemos o Nada de todas as nossas pretensões. do nos acontecimentos típicos da situação atual de nossa
Tanto da pretensão de saber como da pretensão de não existência?
saber. O sentido de nosso encontro se retira. E é justa- Há séculos se vem operando gradativamente uma
mente ao retirar-se que nos avia à viagem de filosofia revolução radical em todos os parâmetros decisivos da
e psicanálise. - Filosofia e psicanálise. Na retirada, so- história. O homem se vê cada vez mais transplantado
mos enviados à viagem de um "e" para um "e". De via- numa outra realidade. E: o transplante do pensamento
gem o e não é apenas síntagrna. l1: também desafio. que calcula. Dele nasce esta nova posição do homem no
Como síntagma, evoca simplesmente uma pertinência. mundo e para COm o mundo que designamos com o tI- \
Não a determina nem define. Como desafio, provoca a tulo de moderno: idade moderna, ciência moderna, ho-
solidez de uma integração originária. E originária, por- mem moderno, mundo moderno. Na voragem da moder-
'--- ----...loo

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nidade ~ oble~ cuja objetividade ministram e não explodir e se conservar a vida na terra, continua o
administram a ciência e a técnica planetárias. Tudo é perigo de se chegar ao paroxismo do aniquilamento.
processado em reserva de controle e de domínio. A na- Pois nesse caso, a revolução da modernidade poderá des-
tureza já não é senão um gigantesco reservatório, a truir tão radicalmente a humanidade do homem, que
fonte dos recursos para a indústria moderna. O homem um dia já não reste nem mesmo dia, mas somente o
se reduz a um sistema fechado de energia que funciona cálculo e a computação automática. Não podendo então
tópica e economicamente. A Linguagem se iguala às vi- nem morrer nem viver, o homem já não poderá tam-
cissitudes de lingua e discurso que uma coordenação de bém perder sua humanidade de fugir da angústia de
eixos, sincrônico e diacrônico, vai destilando. A comu- pensar.
nicação equivale às trocas de codüicação e descodüica- Hoje, no entanto, ainda nos é dado um mundo tran-
ç~o que, fazendo circular as informações, assegura um cado em sua auto-suficiência produtiva, onde o pensa-
lllvelamento assíntótíco dos repertórios.
mento do sentido se retrai. Os discursos se entregam
Vivemos um mundo freneticamente transitivo, cujas cada vez menos ao silêncio da fala. As coisas vão-se
estruturas de sustentação se esboroam em alta veloci- despindo de serenidade à proporção em que se revestem
dade. Por toda parte tudo passa e nada permanece. O de velocidade. TUdo se torna fugaz, transitório, substi-
tempo entre a criação de um novo conceito e seu esbo- tuível. Só o cálculo, indiferente a qualquer empenho,
roamento se torna cada vez mais diminuto. Toda esta- permite diferir sempre mais e sempre novas diferenças
tistica é sempre um número. Todo trabalho, uma renda. de indiferença. E no entanto, mesmo nesta paisagem
Todo tratamento, um resultado. Num mundo assim ín- sem sentido, a viagem do "e" ainda fala do sentido, ao
c~nstante, o homem se sente ameaçado de perder a gra- colocar Filsofoia e Psicanálise no curso da ciência e da
vídade de seu ser e levado a substituí-Ia pelo máximo técnica. Por que? - iPorque neste curso se torna cada
de transitividade. TranSitividade é o projeto Iundamen- vez mais inevitável a pergunta:
~ existê!'!!i.a moderna .• De uma existência trabalha- O que acontece com a psicanálise de viagem pela
~a pela provisoriedade de tudo e de todos, jogada pelo paisagem do cálculo onde se recolhe hoje todo o vigor
ntmo acelerado com que se modifica o relacionamento de nossa modernidade?
com as coisas, os lugares, as pessoas. Comparada com Resposta: Nos discursos teóricos e nos percursos clí-
esta poluição sorrateira da existência, a contaminação nicos, a psicanálise é um recurso constante ao sentido
do meio ambiente, as armas absolutas, a guerra de ex- que nos ocorre no silêncio dos próprios cálculos diferen-
termínio total pouco signilicam em força destrutiva. ciais da ciência e da técnica. Nestas condições, pensar
Uma afirmação leviana e irrefletida. De certo, mas só, o sentido da psicanálise já não será apenas examinar
na medida e enquanto prisioneiros do pensamento, que experiências clínicas à luz das teorias psicanalíticas, nem
calcula, não pensarmos o sentido de nosso tempo. Para somente criticar as teorias analíticas à luz de experiên-
o pensamento do sentido, mesmo no caso de as armas cias clínicas. Pensar o sentido da psicanálise será, so-
absolutas não detonarem, de uma guerra de extermínio bretudo, deixar-se questionar nas teorias e nas experíên-

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cías clínicas pela provocação fundamental do "e", que objeto na psicanálise. Os casos são apresentados numa
continuamente convoca ao silêncio do sentido tanto o dís- língua técnica que confunde observação com interpreta-
curso das teorias como o percurso das clínicas. Este ção estilizada. A falta completa de métodos adequados
pensar não é um fazer: nem o fazer de um meta-dis- para testar hipóteses impede qualquer produção epíste-
curso, nem o fazer de um meta-percurso. ll: simplesmente mológíca de cbjeto. O resultado são protocolos, abundan-
um deixar fazer-se silêncio nos afazeres próprios da teo- tes em hipóteses explicativas, mas carentes de fatos tes-
ria, da clínica, do questíonamento. tados. Em conseqüência, as divergências de ínterpretação
Façamos um teste. Deíxemos que aqui e agora o clínica e de endereço teórico tendem sempre para um
sentido da psicanálise nos ponha à prova do silêncio num ímpasse epistêmico. Assim as diferenças entre uma inter-
meta-discurso em que se critica o estatuto epístêmíco pretação fálica de um dado material clínico e uma inter-
da teoria e da clínica psicanalíticas. pretação Kleíniana, que o refere diretamente ao seio, per-
Numa leitura objetiva, ambiente diz atmosfera, o manecem sem saída. Não há meio de se decidir o ímpas-
elemento em cujos limites a vida encontra condições e se. A interpretação em causa fica tão aberta como a pro-
recursos para nascer, crescer e morrer. No ambiente da núncia inglesa de tomate.
psícanálíse se vive uma cissiparidade em que a geração Uma segunda conseqüência é o lugar epistemológico
da nova vida se dá num vai-e-vem contínuo de posição, atribuído à própria história da psicanálise. O recurso, que
oposição e composição. De um lado, todos são cidadãos sempre de novo se faz, à literatura histórica, não encon-
de dois mundos: um mundo teórico de modelos e técnicas, tra paralelo em nenhuma ciência, somente na teologia,'
que abrange publicações, cursos, seminários, congressos, na filosofia e na poética. Pois em qualquer ciência, por
reuniões cintíficas e discussões de casos; e um mundo mais extensas que sejam as investigações precedentes,
terapêutica de tratamento e clínica, que inclui settings, in- por maiores que tenham sido as descobertas, é sempre
terpretações, transferências, atuações, reações, progres- indispensável submetê-Ias a um processo controlável de _
sos, resistências, melhoras, regressões. De outro lado, to- invalidação, a fim de poderem ser protocoladas, como teo-
dos falam duas línguas distintas: uma língua comum rias, e usadas na explicação de novos fatos. Este recurso
no mundo terapêutico e uma língua privada no mundo à história, como instância epistemológica, levou um epis-
teórico. Muitas vezes, os discursos teóricos da língua temólogo inglês a uma observação irônica sobre o estatu-
privada contrastam nitidamente, pela ingenuidade crí- to epistêmíco da psicanálise: "Muitas vezes as teorias
tica e pela insensatez epístemológíca, com os discursos psicanalíticas parecem demasiado com uma antiga man-
clínicos da língua comum, mesmo ao nivel de simples são que uma viúva piedosa se empenha em conservar tal
conversas informais, onde a comunicação se faz sem qual era no dia da grande perda".
grandes dificuldades. Por fim, a equivocação da psicanálise toma todo diá-
Para uma crítica epístemológtca a insensatez do dis- logo epistemológico impossível. Pois, se cada participante
curso teórico da psicanálise é conseqüência de uma ínge- de uma pretensa discussão científica só falar para os que
nuídade metodológíca fundamental. Não há produção de já concordam com ele, todo diálogo terá sido substituído

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por um sistema de espelhos, em que cada imagem é refle- verso de díscurso ' com base na epistemologia de um ou-
tida ao infinito. Assim, se numa discussão científica de tro universo de discurso. Um fantasma só pode ser fan-
casos, os analistas, que antes e depois falavam uma lín- tasma, sendo invisível. Uma tinta só pode ser tinta, sen-
gua comum, sem nenhuma dificuldade, têm de falar uma do visível. Pretender que não existem fantasmas por não
Iíngua privada, a psicanálise está trancada realmente se poder ver nenhum, equivale a pretender que um fan-
numa sala de espelhos. tasma não seja fantasma mas tinta.
O que se retrai aqui e agora nesta crítica epístemolõ- O que Freud descobriu; não foi uma nova hipótese
gica da psicanálise? dentro do universo de discurso da medicina de seu tem-
po, para explicar a origem e o desenvolvimento das neu-
Talvez nos acenem as palavras da poesia: sentados
roses. Não se tratava de uma nova etiologia que expli-
nos ouvidos', escutamos um verdadeiro vazio - a estra-
casse a neurose pela frustração sexual. Com uma tal ex-
nheza do poder. O mar ecoa no ondear das ondas. O som
plícaçâo, a psicanálise não teria mobilizado tanta resis-
ressoa no coro das águas. Aqui e agora, nada sobre nada.
tência e ansiedade, nem ontem nem hoje. O que Freud
Nem mesmo um buraco. Somente a fossa da angústia.
descobriu, foi um novo universo de discurso. Neste novo
O sentido da psicanálise se retrai, e, retraindo-se, nos
universo todo discurso era revolucíonário, por mais co-
atrai ao silêncio do discurso. Contraídos pelo silêncio, lo-
muns que fossem a gramática e o vocabulário utilizados,
go buscamos nos distrair da angústia, abstraindo do me-
por mais correntes que tenham sido os modelos e as re-
ta-discurso epístemológíco outro meta-discurso, que nos
gras empregadas. É este novo universo, que lhe possibi-
protraía a perda de poder. Há epistemologia e epistemo-
litou formular, com a língua vigente na ciência de seu
logía, Na psicanálise, a epistemologia é outra. Não existe
tempo, as idéias revolucionárias sobre a dinâmica in-
uma epistemologia com jurisdição normativa para todos
consciente.
os discursos. Há tantas epístemologías quantos jogos de
linguagem e universos de discurso. Os modelos, as técni- Para a medicina, um sintoma é um fato. Ora, sendo
cas, as teorias, os discursos, os métodos e testes de inva- sempre feito, todo fato resulta de causas. É um efeito.
lidade, toda a produção de objeto resultam sempre de Por isso para o novo universo, a neurose não é um sin-
um jogo particular da linguagem, pertencem sempre a toma mas um sentido. Todo sintoma pertence ao uni-
um determinado universo de discurso. O significado e va- verso de discurso dos fatos e, é como tal que se torna
lor, a objetividade e verdade, a existência e invalidade são objeto de pesquisa e tratamento de ciências fatuais. A
sempre especificos e exclusivos de cada universo. A fí- medicina é uma ciência de fatos. Quando um médico
sica possui objetos, que lhe são peculiares, métodos, que diz que a medicina só conhece o homem da sola dos
lhe são exclusivos, técnicas, que lhe são próprias. De tu- pés até aos cabelos da cabeça, está dizendo, sem dúvida,
do isso só se põde falar em cada um de seus respectívos uma verdade. A questão é apenas saber sobre que está
registros. Assim como é uma insensatez pretender deter~ dizendo uma verdade. Decerto, não está falando sobre
minar pelo sistema cgs a objetividade do inconsciente, a verdade do homem, mas a partir dela sobre a verdade
assim também é igualmente insensato criticar um uni- da medicina. 1P0is a verdade sobre que se fala, nunca é

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a verdade a partir da qual se fala. Do contrário já não
nos proporciona informações que de outra maneira nos
haveria nem homem, nem medicina para falar. seriam inacessíveis.
Descobrmdo que a neurose não é um sintoma (mas Percorrendo todo "um arco, que se estende deste a
um sentido), Freud transcende o universo dos fatos e identidade de si mesmo até as coisas, a identificação
cria para o discurso da psicanálise um novo universo, o realiza a dinâmica fundamental do relacionamento hu-
universo do sentido. Um sentido não é o produto de mano tanto filogenética como ontogeneticamente. O
causas mas a criação de um sujeito. A lógica e epíste- pensamento arcaico, seja primitivo ou infantil, 'cons-
rnologta do sentido vivem um outro Joso da Linguagem. titui o primeiro estágio de íntegraçâo no processo da
E é segundo as regras deste Jose que não pode haver dis- identificação humana. A vida do homem primitivo, por
tinção clara entre observação e interpretação. Só se exemplo, depende em larga escala de sua capacidade de
exige clareza a respeito de quem está dizendo o quê. se identificar, na luta pela existência, com amigos e ini-
Por isso, se o discurso do fato pergunta em termos de migos, para obter as respostas necessárias à sobrevivên-
"como" e responde em termos de causalidade-probabili- cia. Nas críticas das transferências, com a correção pro-
dade, detenninação-indeterminação, o discurso do sen- gressiva das projeções, pela angústia da onipotência, e
tido pergunta em termos de "por quê"? e responde em no desabrochar do pensamento, que calcula, com. a pro-
termos de criatividade na dependência. Esta diferença dução crescente de instrumentos, pela angústia da im-
provém da Linguagem em jogo. Pois nos discursos de potência, se foi desenvolvendo à identificação em novos
todas as suas línguas a Linguagem joga sempre com níveis de profundidade. Assim 11, observação dos fatos,
o animado e o inanimado. No jogo com o inanimado, o que sempre inclui uma percepção da diferença, é uma
discurso discorre sobre a atividade-comportamento e identificação, que recuperou a ausência, interpretando
fala de determínação-Indetermínação. No jogo com o a angústia da perda. Sendo essencialmente mn processo
animado, o discurso recorre ao sentido da atitude e fala ,de escutar e elaborar evidências de identidade, a inter-.
de identidade. pretação não é uma percepção de tatos. Exige uma ati-
As categorias de animado e inanimado são decisivas tude de atenção flutuante às peripécias da identifica-
para o universo de discurso do 'sentido. :É que a frontei- ção. Por isso em oposição a um fato, a interpretação nun-
ca poderá ser demonstrada nos moldes do discurso axío-
ra entre vida e não vida marca os limites de nossa ca-
mátíco-dedutívo, nem submetida a testes nos moldes do
pacidade de identificação. Na identificação, sentimos o
discurso empíríco-dedutívo. Para sua formação o ana-
que um ser deve ter para viver. Na identificação, com-
lista necessita de análise. O 'conhecimento critico da
preendemos a atitude e o sentir-se do ser vivo. A rea-
identificação constitui a única via de acesso ao sentido
lidade das informações assim obtidas depende da capa-
do sujeito, que só existe criando subjetividade.
cidade de se tolerarem díterenças e, pela crítica da trans-
Limitadas pela identidade, as relações de ídentífíca-
ferência, de se manter a identificação dentro dos limi-
ção estão sempre sujeitas às tempestades de transferên-
tes da identidade. Dentro destes limites, a identificação
cias e projeções, que a angústia de onipotência-impotên-

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