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UNIVERSIDADE F E D E R A L D O E S P Í R I TO S A N TO

Núcleo de Educação Aberta e a Distância

Química Orgânica I

Sandro José Greco


Valdemar Lacerda Júnior

Vitória
2010
Presidente da República Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação Revisor de Conteúdo
Luiz Inácio Lula da Silva Francisco Guilherme Emmerich

Ministro da Educação Pró-Reitor de Extensão Revisora Ortográfica


Fernando Haddad Aparecido José Cirillo

Universidade Aberta do Brasil Diretora Administrativa do Ne@ad Design Gráfico


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Universidade Federal do Espírito Santo Coordenador Adjunto UAB Ne@ad


Valter Luiz dos Santos Cordeiro Av.Fernando Ferrari, n.514 -
Reitor CEP 29075-910, Goiabeiras -
Rubens Sergio Rasseli Coordenador do Curso de Licenciatura em Vitória - ES
Química na Modalidade à Distância 4009 2208
Vice-Reitor e Diretor Presidente do Ne@ad Prof. Elias Meira da Silva
Reinaldo Centoducatte

Pró-Reitora de Graduação
Isabel Cristina Novaes

Dados Internacionais de Catalogação-na-publicação (CIP)


(Biblioteca Central da Universidade Federal do Espírito Santo, ES, Brasil)

_____________________________________________________________

Greco, Sandro José.
G791q Química orgânica I / Sandro José Greco, Valdemar Lacerda
Júnior. - Vitória, ES : Universidade Federal do Espírito Santo, Núcleo
de Educação Aberta e a Distância, 2010.40 p.
190 p. : il.

ISBN:

1. Química orgânica. I. Lacerda Júnior, Valdemar. II. Título.

CDU: 547

LDI coordenação Capa


Heliana Pacheco, Hugo Cristo e Lidiane Cordeiro e Weberth Freitas
José Otavio Lobo Name Editoração
Gerência Samira Bolonha Gomes, Thiago Dutra e
Isabela Avancini Weberth Freitas
Ilustração
André Wandenkolken, Lidiane Cordeiro e Impressão
Vitor Bergami Victor Gráfica e Editora GM

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S umário

Apresentação 4

Módulo I
Aula I 8

Aula II 29

Aula III 49

Aula IV 89

Módulo II
Aula I 116

Aula II 151
Apresentação

Um Breve Histórico da Química Orgânica

A associação humana com a química orgânica origina-se em tempos remotos, antes de Cristo.
Anterior ao surgimento do termo química orgânica as pessoas tinham contato com materiais
orgânicos, seus usos e suas transformações. Sabões eram produzidos a partir de gordura
animal e óleos de plantas. O açúcar cristalino sucrose obtido a partir da cana-de-açúcar e
os extratos de plantas usados como aromatizantes e perfumes eram artigos valiosos para os
nossos ancestrais.
Alguns corantes eram usados para tingir as roupas da alta sociedade, tais como o material
de cor violeta, “tyrian”, conhecido como violeta real e o ácido carmínico (vermelho escuro),
esse último obtido pela trituração de pequenos insetos (Coccus cacti L.). Egípcios antigos
também usavam o índigo para tingir tecidos.

H O HO OH
Br H O O CH3 O OH OH
N O
N OH
HO
N Br N
O H HO OH
O H
O OH
V IOLETA REAL “T YRIAN ” Í NDIGO Á CIDO CARMÍNIC O

Venenos, também eram conhecidos, por exemplo, coniina obtido da árvore Conium macula-
tum (gênero da Tsuga, família das pináceas) foi tomado por Sócrates quando ele foi senten-
ciado à morte.

N
H
C O N I I NA

Outra toxina, estruturalmente mais complexa, como a atropina era obtida a partir da planta
conhecida como beladona. Apesar de ser altamente tóxica em grandes quantidades, a atro-
pina é usada, até hoje, em pequenas quantidades para dilatar as pupilas e como um antico-
linérgico (bloqueia a ação do neurotransmissor acetilcolina).

6
CH3
N

O
O

OH
A TROPINA

Entretanto, a classificação dos compostos teve início a partir de 1700 com o estudo pio-
neiro de Carl Wilhelm Scheele isolando compostos orgânicos. Ele isolou ácidos graxos a
partir de gordura animal, ácido tartárico a partir de uvas, ácido lático a partir do leite,
ácido cítrico a partir do limão, uréia a partir da urina e muitos outros compostos orgâni-
cos. Contudo, nem Scheele e nem os outros Químicos da época tinham conhecimento da
estrutura dessas substâncias, ou seja, dos elementos que compunham essas substâncias.
Por conta disso, os compostos isolados eram distinguidos de acordo com a sua origem; os
compostos obtidos de plantas e de animais foram chamados de orgânicos, para indicar que
era originário de um organismo vivo. Aqueles obtidos a partir do reino mineral foram
classificados como inorgânicos.
Um grande progresso da Química Orgânica foi estabelecido por Antoine Lavoisier, que é
por muitos, denominado como o pai da química moderna. Em 1774 ele demonstrou que os
compostos orgânicos queimam (combustão) para produzir dióxido de carbono e água, signi-
ficando que eles são compostos constituídos principalmente por carbono, hidrogênio e talvez
oxigênio. Mais tarde ele mostrou que alguns compostos orgânicos derivados de animais
também continham nitrogênio.
Em 1808 John Dalton propôs a sua teoria atômica, tendo uma enorme contribuição para o
entendimento dos compostos inorgânicos. Essencialmente, a teoria de Dalton postulou que
os elementos são compostos de pequenas partículas indivisíveis chamadas de átomos e que
esses átomos se combinam em pequenas razões para formar os compostos químicos.
Apesar de a teoria atômica ter ajudado na explicação da composição de muitos compostos
inorgânicos, ela não foi muito útil para os compostos orgânicos muito mais complexos. Ao
contrário dos compostos inorgânicos relativamente simples, conhecidos como h 2 o, n o e no2

existe um grande número de compostos orgânicos, todos formados por poucos elementos,
porém, com uma vasta variedade de razões, como c2h2 , c2h4, c2h6 , c3h8 e muitos outros. Difi-
culdades como essa levou Jöns Berzelius, que cunhou o termo de química orgânica em 1808,
a escrever o primeiro texto dedicado ao assunto em 1827, interrogando se a teoria atômica e
outras leis químicas poderiam ser aplicadas aos compostos orgânicos.

7
Um dos princípios da teoria da força vital (Vitalismo), suportado por Berzelius e outros
químicos da época, era que somente os organismos vivos podiam formar os compostos or-
gânicos. Entre 1828 e 1850, uma série de compostos que eram claramente “orgânicos” foram
sintetizados a partir de fontes que eram tidas como “inorgânicas”. A primeira dessas sínteses
foi realizada por Friedrich Wöhler em 1828. Wöhler preparou o composto orgânico uréia
(inicialmente obtido a partir da urina) a partir do aquecimento de uma solução aquosa de
cianato de amônio.

O
Aquecimento C
NH 4 NCO H2N NH 2
C IANATO DE AMÔN IO U RÉIA

Apesar desse experimento contradizer totalmente o Vitalismo, uma grande comoção foi
causada na época pelo fato desses compostos possuírem a mesma fórmula molecular (ch4n2o).
Foi a partir desses compostos que Berzelius e Wöhler criaram o termo isômeros (diferentes
compostos com fórmulas idênticas).
Entre 1858 e 1861, August Kekulé, Archibald Scott Couper e Alexander M. Bulterov, traba-
lhando independentemente, lançaram as bases para uma das mais importantes teorias da
química: a teoria estrutural. Duas premissas centrais são fundamentais:

Os átomos nos compostos orgânicos podem formar um número fixo de ligações


usando os seus elétrons da camada externa (de valência). O átomo de carbono
é tetravalente, isto é, o átomo de carbono tem quatro elétrons na camada de
valência e pode formar quatro ligações químicas;

H
H C H
H

Um átomo de carbono pode usar um ou mais elétrons de valência para formar


ligações com outros átomos de carbono.

H H H H
H C C H C C H C C H
H H H H

A partir de então Kekulé definiu a química orgânica como a ciência que estuda os com-
postos de carbono.

8
Em 1874 as fórmulas estruturais originadas da teoria estrutural de Kekulé, Couper e Bul-
terov foram expandidas para três dimensões mediante os estudos independentes de J. H.
van’t Hoff e J. A. Le Bel. Eles propuseram que as quatro ligações do átomo de carbono no
metano, por exemplo, possuíam um arranjo tetraédrico onde átomo de carbono ocupava o
centro do tetraedro.

H
C H
H H
Em 1916 foram propostas por G. N. Lewis e W. Kossel as primeiras explicações da natureza
das ligações químicas:

Ligação iônica, formada pela transferência de um ou mais elétrons de um átomo


para o outro formando íons;
Ligação covalente, formada quando os átomos compartilham elétrons.

Em 1926, uma nova teoria sobre a estrutura atômica e molecular foi proposta indepen-
dentemente e quase simultaneamente por Erwin Shrödinger, Werner Heisenberg e Paul
Dirac. Essa teoria foi chamada de mecânica quântica, é a base para o entendimento atual
das ligações químicas nas moléculas e permitiu explicar melhor a relação entre estrutura
molecular e reatividade.
Atualmente a química orgânica contribui decisivamente para a criação de novas moléculas
como os novos materiais, plásticos, tintas, novas cores para as nossas roupas, perfumes
para usar, novos medicamentos para curar doenças entre outras utilidades. Algumas pes-
soas pensam que as atividades inerentes á química orgânica são antinaturais e seus produ-
tos perigosos ou nocivos. Entretanto, diariamente novas moléculas são construídas pelos
homens a partir de outras moléculas encontradas na Terra usando as habilidades naturais
inerentes ao nosso cérebro. O que não é natural? Para o químico orgânico essa é uma dis-
tinção sem sentido. Há compostos tóxicos e os nutritivos, estáveis e os compostos reativos,
mas existe apenas um tipo de química: a que vai para dentro de nossos cérebros e corpos
assim como a que vai para os nossos balões e reatores, nascida das idéias de nossa mente e
da habilidade de nossas mãos.

9
1 Introdução ao estudo dos
compostos do carbono
Aula 1

Ligação covalente e estrutura molecular

A ciência ensina, há muito tempo, que o ponto primordial para a interpretação das proprie-
dades de uma substância química passa inicialmente pelo reconhecimento e compreensão da
sua estrutura e das suas ligações químicas. A estrutura de uma substância está diretamente
associada à forma com que os átomos estão arranjados no espaço. Já o termo ligações quí-
micas descreve as forças que mantêm os átomos vicinais unidos. O objetivo desse módulo
é estudar mais aprofundadamente os orbitais e as teorias de ligação, a teoria da ligação de
valência e a teoria dos orbitais moleculares, a fim de entendermos a ligação covalente.

É necessário relembrar antes de começar:


Estrutura Atômica (Módulo 3 – Química Geral 1);
Estruturas de Lewis (Módulo 4 – Química Geral 1);
Princípios da estrutura molecular e a teoria r pe n v
(Módulo 5 – Química Geral 1).

1 Orbitais e teorias de ligação

Os orbitais, tanto atômicos como moleculares, serão objetos de estudo desse módulo. O modelo
mecânico quântico do átomo, que é a melhor maneira de explicar as propriedades dos átomos,
descreve os elétrons nos átomos como ondas eletromagnéticas. Sabe-se que a localização dos
elétrons de valência nos átomos é descrita por um modelo de orbital o que nos permite pensar
então nos orbitais como regiões do espaço em que há a probabilidade elevada de se encontrar
o elétron, ou ainda, como a descrição da propriedade de onda de um elétron em um átomo.
Duas aproximações bastante difundidas que explicam a ligação química baseadas
em orbitais são a teoria da ligação de valência (t l v ) e a teoria do orbital molecular (o m ).
A primeira foi desenvolvida em sua maioria por Linus Pauling e a sua abordagem está
intimamente associada à idéia de Lewis de ligar pares de elétrons entre átomos e pares de

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elétrons isolados localizados em determinado átomo. Já a segunda, desenvolvida princi-
palmente por Mulliken, descreve a combinação linear de orbitais atômicos para formar um
conjunto de orbitais que são propriedades da molécula, e então distribuir os elétrons das
moléculas dentro desses orbitais.
nota

A teoria de ligação de valência é geralmente o método de escolha para forne-


cer um retrato qualitativo, visual, da estrutura molecular e de uma ligação.
Além disso, essa teoria fornece uma boa descrição das ligações em moléculas
em seu estado de energia mais baixo, fundamental. Em contraste, a teoria do
orbital molecular é usada quando é necessário um retrato mais quantitativo
da ligação, principalmente se quisermos descrever moléculas em estados ex-
citados, ou seja, de energia mais elevada.

2 Orbitais atômicos

Erwin Schrödinger desenvolveu uma equação de onda para representar um elétron associa-
do com um núcleo atômico. A solução dessa equação de onda para o átomo de hidrogênio
fornece três tipos diferentes de números quânticos que juntos descrevem a orientação espa-
cial do elétron relativo ao núcleo.
nota

1 Número quântico principal (n). O número quântico principal pode tomar


como valor qualquer número positivo inteiro. O seu valor define a energia do
átomo de hidrogênio (e de outro átomo monoelectrónico de carga nuclear Z). À
medida que n aumenta o orbital torna-se maior e o elétron passa mais tempo
mais distante do núcleo.

11
2 O número quântico azimutal (l). O número quântico de momento angular, ou
azimutal, informa-nos sobre a forma das órbitas. Como o próprio nome indica,
o valor de l define o momento angular do elétron, sendo que o aumento do seu
valor implica o aumento correspondente do valor do momento angular. Deste
modo, a energia cinética do elétron é associada ao movimento angular e esta
dependente da energia total do elétron, pelo que é natural que os valores per-
mitidos de l estejam associados ao número quântico principal. Para um dado
valor de n, l pode ter como valores possíveis os números inteiros de 0 a (n − 1).
3 O número quântico magnético (ml). O número quântico magnético especi-
fica a orientação permitida para uma nuvem eletrônica no espaço, sendo que
o número de orientações permitidas está diretamente relacionado à forma da
nuvem (designada pelo valor de l). Dessa forma, este número quântico pode
assumir valores inteiros de -l, passando por zero, até +l. Para l = 0, que corres-
ponde ao subnível s, existe somente uma orientação (ml = 0). Já para l = 1, que
corresponde ao subnível p, existem três orientações permitidas, que surgem em
decorrência dos três valores de ml (+1, 0, -1). Os três orbitais p são denominados
px, py e pz e são orientados de acordo com os três eixos cartesianos (x, y e z).

A solução para essas equações de onda que descrevem o movimento do elétron em torno
do núcleo são usualmente designadas pela letra grega psi (ψ). Essas soluções são chamadas
de orbitais, por analogia às orbitas do modelo planetário clássico. Um orbital é uma função
matemática que tem um valor finito em torno do espaço.
A função de onda Ѱ não tem significado físico, mas o seu quadrado representa a densidade de
probabilidades de se encontrar o elétron (partícula) em uma dada região do espaço. O módulo
ao quadrado de Ѱ, no caso atômico, representa também a densidade eletrônica que descreve
as regiões, em torno do núcleo, mais prováveis de se encontrar os elétrons. No caso do átomo
de hidrogênio, contendo somente um elétron, Ѱ2 representa a densidade de probabilidade de
se encontrar o elétron em uma dada região em torno do núcleo. Assim, como os orbitais s têm
simetria esférica, a variação de ψ é a mesma em todas as direções, tendo o núcleo na origem
da esfera. A forma do orbital 2p pode ser representada, aproximadamente, por uma esfera
dividida em duas partes, uma negativa e outra positiva, com o nodo planar sobre o núcleo.

N ÓDO
1s 2s 2p

12
A solução da equação de onda para o átomo de hidrogênio com o seu único elétron no nível
quântico de menor energia (número quântico principal n = 1) descreve uma região esférica
de densidade de probabilidade de encontrar o elétron relativo ao núcleo. Esse orbital é deno-
minado de orbital atômico 1s e possui uma probabilidade maior do que 95% de encontrar o
elétron a uma distância de 1,7 Ao (170 pm) do núcleo.
y
z
N ÚCLEO
x

O R B I TA L ATÔ M I C O 1S

Quando a equação de onda é solucionada para um elétron no nível de energia imediatamente


superior (número quântico principal n = 2), a solução descreve duas regiões esféricas com alta
densidade de probabilidade de encontrar o elétron. Uma está mais próximo do núcleo, portanto
com menos energia, orbital 1s e o outro mais distante do núcleo, denominado orbital atômico
2s. Nesse orbital existe um ponto de probabilidade zero de encontrar o elétron (Ѱ0 =0) conhe-
cido como nódo. N ÓD O

N ÚCLEO

O RBITAL ATÔMICO 2S N ÓD O

No orbital 1s a densidade de carga (nuvem eletrônica) decresce à medida que se afasta do


núcleo. Isto significa que a probabilidade de encontrar o elétron em um dado ponto do es-
paço diminui à medida que se afasta do núcleo. No caso do orbital 2s a densidade diminui à
medida que se afasta do núcleo e fica igual a zero no ponto nodal. Em seguida, aumenta até
atingir um ponto de máximo e decresce novamente.
A solução para o elétron no segundo nível quântico de energia de um átomo de hidrogênio
descreve ainda três orbitais atômicos adicionais, ditos degenerados, pois possuem a mesma
energia. Esses orbitais atômicos conhecidos como 2p são simétricos sobre três eixos perpen-
diculares e possuem maior probabilidade de elétrons nas regiões (lobos) de ambos os lados
do núcleo e probabilidade zero de encontrar o elétron no núcleo (nódo). Esses orbitais são
designados como 2px, 2py e 2pz, onde x, y, e z são os eixos dos orbitais e correspondem as
coordenadas cartesianas tridimensionais.

y y y y

ψ+ ψ+
z z ψ+ z z
ψ+ ψ+
ou
x x x
x
ψ− P LANO NODA L P LANO NODA L
ψ−
ψ− ψ−

O RBITAIS 2p x 2p y e 2p z O RBITAL 2p O RBITAL 2p O RBITAIS 2p x 2p y e 2p z

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A densidade de carga para o orbital 2pz consiste de duas nuvens que têm a forma de uma
esfera achatada, sendo um posicionado acima do plano nodal e o outro, abaixo.

3 Orbitais Moleculares

A mecânica quântica providencia um modelo de configuração eletrônica para o átomo de


hidrogênio que serve como base para outros átomos. A idéia desenvolvida para um átomo
simples pode ser aplicada para interações entre outros átomos, isto é, para a formação de
ligações químicas. Veremos que as soluções obtidas para a equação de onda usada para des-
crever os elétrons de dois átomos individuais (orbitais atômicos) são combinadas para formar
os orbitais moleculares. O resultado da sobreposição dos orbitais atômicos é a formação de
uma nova função de probabilidade (orbital molecular) dos elétrons associados numa ligação
química, similares as descritas para os elétrons nos orbitais atômicos.
Por que ocorre a combinação (sobreposição) dos orbitais atômicos? A resposta é simples,
estabilidade, ou seja, o orbital molecular formado tem menos energia do que os orbitais
atômicos isoladamente. Em um átomo, sabemos que os elétrons são carregados negativa-
mente e por isso atraído pelo núcleo que é carregado positivamente. Os dois átomos de
hidrogênio aproximam-se um do outro a partir de uma distância infinita e os elétrons
de um átomo são atraídos pelo núcleo do outro átomo. Essa atração mútua aumenta coma
diminuição da distância entre os átomos. Entretanto, se os átomos continuarem a se apro-
ximar os núcleos carregados positivamente irão se repelir.
nota

Na combinação dos átomos existe uma distância ideal onde a energia poten-
cial assume valores mínimos. Essa distância é chamada de comprimento de
ligação: e é igual a 0,74 Ao para a molécula de hidrogênio. A energia neces-
sária para quebrar essa ligação é chamada de força de ligação.

Aumento da
H H energia potencial Aproximação dos orbitais atômicos

Repulsão
1s 1s H H
H-H
Combinação (sobreposição) dos orbitais
atômicos 1s dos átomos de hidrogênio Ponto de menor energia = distância ideal

E LÉTRONS C O M PA R T I L H A D O S D ISTÂNCIA ENTRE OS ÁTOMOS DE HIDROGÊNI O

Os átomos de hidrogênios separados possuem mais energia (são menos estáveis) do que a
molécula de hidrogênio. Portanto, os átomos se ligam mediante o compartilhamento de elé-
trons para formar mo3 Orbitais Moleculares

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4 Teoria dos Orbitais Moleculares (t o m )

O modelo mais simples quanto-mecânico aproximado para os elétrons de uma ligação quí-
mica deriva da combinação das funções de onda (ψ1 e ψ1) para os dois átomos de maneira
análoga à combinação descrita para a molécula de hidrogênio. A nova função de onda é uma
combinação linear de orbitais atômicos (c l o a ).
A teoria dos Orbitais Moleculares considera que os orbitais atômicos, do nível de valência,
deixam de existir quando a molécula se forma, sendo substituídos por um novo conjunto de
níveis energéticos que correspondem a novas distribuições da nuvem eletrônica (densidade
de probabilidade). Esses novos níveis energéticos constituem uma propriedade da molécula
como um todo e são chamados, conseqüentemente de orbitais moleculares.
nota

A efetividade da combinação linear dos orbitais atômicos deve satisfazer duas


condições primordiais: os orbitais atômicos devem ter energias comparáveis e
a sobreposição entre eles deverá ser significativa.

As funções de onda dos elétrons podem interagir de uma maneira construtiva, ou seja, os
orbitais atômicos envolvidos se combinam em uma mesma fase (mesmo sinal) ou de maneira
destrutiva, onde ocorre a combinação dos orbitais atômicos fora de fase (sinais diferentes).
A combinação construtiva dos orbitais atômicos aumenta a densidade de probabilidade do
elétron entre os núcleos e formam um orbital molecular ligante energeticamente favorecido.
Já o orbital molecular antiligante (representado com um asterisco) resulta da interação des-
trutiva dos orbitais atômicos e possui uma região de densidade de probabilidade zero (um
nódo) entre os núcleos.

Sobreposição construtiva

ψa (1s) ψb (1s)
+ σ 1s
+

a b a b
F UNÇÃO DE O N D A D O F U N Ç ÃO DE ONDA DO O RBI TA L MOLECULAR LIGANTE
ORBITAL ATÔ M I C O A O R B I TAL ATÔMICO B

Sobreposição destrutiva

ψa (1s)
+ σ∗ 1s
b +
a - -
ψb (1s)

F UNÇÃO DE ONDA DO a b
F UNÇÃO DE ONDA DO
ORBITAL ATÔMICO A ORBITAL ATÔMICO B
Nódo
O RBITAL MOLECULAR ANTILIGANTE

15
D ENSIDADE E LETRÔNIC A
a b
P OSIÇÃO NO EIXO INTERNUCLEAR

No exemplo anterior dois orbitais atômicos combinaram para produzir dois orbitais mo-
leculares. O número de orbitais moleculares deve ser sempre igual ao número de orbitais
atômicos que são combinados.
nota

No preenchimento dos orbitais moleculares com os elétrons são usados os mes-


mos critérios que foram usados para os orbitais atômicos:
1 Os primeiros orbitais moleculares a serem prenchidos com elétrons são os e
menores energias;
2 Os orbitais moleculares degenerados deverão ser primeiro preenchidos par-
cialmente com elétrons de mesmo spin. Posteriormente esses orbitais deverão
ser preenchidos, se assim houver necessidade, com elétrons de spin contrários;
3 Não mais do que dois elétrons com spins contrários poderão ocupar o mesmo
orbital molecular.

O orbital molecular ligante é energeticamente mais favorecido do que os orbitais atômicos,


enquanto que o orbital molecular antiligante é menos favorecido. Dois elétrons, um de cada
átomo, são acomodados no orbital molecular ligante. Já o orbital molecular antiligante perma-
Orbital molecular antiligante
nece vaziodonohidrogênio
estado fundamental da molécula de hidrogênio.
ψa (1s) - ψb (1s)

Ha Hb Orbital molecular antiligante


E NERGIA

do hidrogênio
Orbital atômico do Orbital atômico do
hidrogênio hidrogênio Nódo

ψa (1s) ψa (1s) + ψb (1s) + =


ψb (1s)
Orbital molecular ligante do
ψa (1s) ψb (1s)
E NERGIA

hidrogênio
H-H

+ =

ψa (1s) ψb (1s) Orbital molecular ligante do


hidrogênio

16
Pela combinação linear de um orbital 2s de um átomo A com um orbital 2s do átomo B,
obtemos aproximações dos orbitais moleculares σ2s, ligante e antiligante. O processo é com-
pletamente análogo ao empregado para os orbitais 1s dos átomos de hidrogênio, exceto pelo
fato de os orbitais atômicos 2s possuirem um plano nodal cada.

Nódo

Núcleo

O RBITAL ATÔMICO 2S

Combinação favorável entre orbitais atômicos 1s de dois hidrogênios produz um orbital mo-
lecular ligante que é cilindricamente simétrico sobre o eixo internuclear. Elétrons atribuídos a
tais orbitais moleculares possuem alta probabilidade de estarem localizados no volume entre os
núcleos. A ligação formada quando os dois elétrons ocupam esse orbital molecular no eixo inter-
nuclear é a ligação sigma (σ). O orbital antiligante associado a ele é denominado sigma estrela (σ*).

ψa (1s) ψb (1s) ψa (1s) + ψb (1s) Orbital molecular ligante da


molécula de hidrogênio
O RBITAIS ATÔMICOS 1S DO S OBREPOSIÇÃO DO PAR DE
HIDROGÊNIO ORBITAIS 1S

Dois tipos diferentes de orbitais atômicos podem também combinar para produzir o orbital
molecular de uma ligação sigma. A combinação de um orbital atômico 1s com um orbital atô-
mico 2p forma um orbital molecular ligante normalmente com forma diferente daquela obtida
por dois orbitais atômicos 1s ou 2p, porém, a maior probabilidade de encontrar o elétron é ain-
da simetricamente orientada em torno do eixo internuclear. O orbital molecular sigma ligan-
te ordinariamente acomoda elétrons atribuídos às ligações simples nas moléculas orgânicas.

+ x x
O RBITA L 2 P X Orbital molecular ligante da
ψa (1s)
ligação sigma

x
S OBREPOSIÇÃO DO ORBITAL 1S
COM O ORBITAL 2 PX

17
A combinação de dois orbitais p pode produzir resultados diferentes dependendo de quais
orbitais p são usados. Se o eixo x é o eixo de ligação, então dois orbitais 2px podem se sobre-
por apropriadamente se eles se aproximarem segundo um único eixo. Os orbitais moleculares
resultantes constituem, como antes, um orbital ligante (σx) com carga eletrônica acumulada
entre os núcleos e um orbital molecular antiligante (σ*x) com decréscimo de carga entre os nú-
cleos. Esses orbitais são também classificados como σ, porque são simétricos ao redor do eixo
de ligação. Eles são designados σx e σ*x para indicar que derivaram de orbitais atômicos px.

P L A NO N O D AL

E N ERGI A

-
O R B I TA L σ∗x
O RBI TA L 2 P X x
O R B I TA L 2 P X +

O R B I TA L σx

Outro importante tipo de ligação nas moléculas orgânicas é a ligação pi (π). Ligações pi
resultam da interação de orbitais atômicos p paralelos localizados em átomos adjacentes. A
sobreposição lado a lado em fase desses orbitais levam a formação do orbital molecular pi
ligante (π). Já a sobreposição fora de fase formará o orbital molecular pi antiligante (π*). Os
elétrons atribuídos ao orbital molecular π tem grande probabilidade de serem encontrados nas
regiões acima e abaixo do eixo internuclear.
Plano nodal
E NERGIA

Orbital 2py Orbital 2py Orbital molecular π∗

Orbital 2py Orbital 2py Orbital molecular π

nota

Os orbitais moleculares π são associados às ligações múltiplas nos compostos


orgânicos. As duplas ligações carbono-carbono e carbono-oxigênio são exem-
plos importantes. Quatro elétrons ocupam os orbitais ligantes dessas ligações
duplas. Dois elétrons são atribuídos na ligação σ localizados ao longo da
linha interatômica e dois elétrons completam o orbital molecular ligante π,
acima e abaixo do plano molecular.

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Para a construção dos orbitais moleculares, considera-se primeiro que os orbitais atômicos
estejam vazios. Faz-se a combinação destes formando os orbitais moleculares ligantes e an-
tiligantes. Os elétrons são então distribuídos nos orbitais moleculares seguindo as regras de
Hund e Pauli. Na figura a seguir aparece o diagrama de orbitais moleculares para moléculas
diatômicas homonucleares formadas com átomos do primeiro ou segundo período. Após a
distribuição de todos os elétrons, pode-se calcular a ordem de ligação para a molécula. Para
tal, basta diminuir do número total de elétrons que ocupam os orbitais ligantes da quan-
tidade de elétrons que ocupam os orbitais antiligantes e dividir por dois. O número obtido
representa a quantidade de ligações entre os dois átomos.
Considere-se, por exemplo, a formação da molécula do oxigênio. Cada átomo possui oito
elétrons, totalizando dezesseis. Estes elétrons devem ser distribuídos no diagrama conforme
mostrado na figura a seguir. Pode-se observar que dez elétrons ocupam orbitais ligantes (σ1s,
σ2s, σ2px , σ2py e σ2pz ) e seis orbitais antiligantes (π*1s, π*2s, π*2py e π*2pz). Note que no
preenchimento dos orbitais moleculares para a formação da molécula de oxigênio existem
dois elétrons desemparelhados em orbitais antiligantes π*2py e π*2pz o que explica perfeita-
mente as propriedades paramagnéticas da molécula de oxigênio.

Molécula de Oxigênio - O=O

σ∗ σ∗

π∗ π∗ π∗ π∗
2p π π
x y z x y z
x y z x y z
π π

σ σ

σ∗ σ∗
E NERGIA

2s

σ σ

σ∗ σ∗
1s

Orbital atômico σ Orbital atômico Orbital atômico σ Orbital atômico

Orbital molecular Orbital molecular

5 Teoria de Ligação de Valência (t lv )

A teoria da ligação de valência (t l v ) foi desenvolvida em 1927 por Heitler e London como
uma interpretação da teoria de Lewis sob o ponto de vista da mecânica quântica, ou seja, ela
descreve a formação da ligação química a partir da sobreposição dos orbitais atômicos de
valência, sem que ocorra, no entanto perda das características individuais destes.

19
nota

A força da ligação é proporcional à superposição dos orbitais atômicos.


Em conseqüência os átomos na molécula tendem a ocupar uma posi-
ção em que haja um máximo de superposição entre os orbitais.

Como exemplo descrevemos novamente a formação da molécula de hidrogênio (H 2), onde


para a formação da ligação ocorre a sobreposição de dois orbitais atômicos dos hidrogênios.
Por razões derivadas do princípio de Pauling, somente elétrons com spins emparelhados
podem contribuir para uma ligação na t l v .

+ + + + = + +

1s 1s H2

No exemplo acima, a ligação formada é denominada de ligação sigma (σ). Uma ligação σ
tem uma simetria cilíndrica ao redor do eixo internuclear, e os elétrons têm um momento
angular orbital zero sobre esse eixo.
Conforme descrito na teoria dos orbitais moleculares, uma ligação π surge do emparelha-
mento dos elétrons em dois orbitais p que se aproximam lado a lado. Um elétron em uma
ligação π tem uma unidade de momento angular sobre o eixo internuclear.
Cabe ressaltar que a sobreposição dos orbitais atômicos para formar a ligação π é menos
eficiente do que a sobreposição dos orbitais na formação da ligação σ, o que explica o fato
da ligação σ ser mais forte do que a ligação π.

6 Orbitais Híbridos

A extensão dos conceitos de orbitais atômicos para moléculas providencia uma correlação
interessante com as propriedades da molécula de hidrogênio, mas não é suficiente para rela-
tar muitas características de compostos orgânicos mais complexos.
Precisamos agora olhar diferentes formas de combinar mais de dois átomos ao mesmo tempo.
Para algumas moléculas como o H2S e PH3, que possuem todos os ângulos iguais a 90o, as liga-
ções são feitas diretamente com os orbitais atômicos p (que possuem ângulos de 90o) do átomo
central mediante a combinação simples com os orbitais atômicos 1s do átomo de hidrogênio.

(1 s) (1 s)

py py
H H
(1 s) px (1 s) px
H P H S

H
O R B I TA IS P DO ÁTOMO O RBITAIS P DO ÁTOMO
(1 s) pz
D E F ÓSFORO DE ENXOFRE

20
Entretanto, como podemos explicar os ângulos das ligações na molécula de água (104º), na
amônia (107º) e no metano (109º) através da combinação dos orbitais p dos átomos centrais,
que como mostrado anteriormente possuem ângulos de 90º com os orbitais 1s dos átomos de
hidrogênio? Além disso, como explicar as geometrias dessas moléculas onde as duas primei-
ras são quase tetraédricas e o metano tetraédrico?
Pauling e Slater desenvolveram um modelo modificado satisfatório para explicar as liga-
ções covalentes em moléculas mais complexas baseado na mecânica quântica introduzindo
o conceito de hibridação de orbitais.
nota

Hibridação de orbitais, em sua forma mais simples, nada mais é do que uma
aproximação matemática que envolve a combinação de funções de onda
individuais dos orbitais s e p de um mesmo átomo para obter novas funções
de onda correspondentes aos novos orbitais. Esses novos orbitais, tem em
proporções variáveis, propriedades semelhantes a dos orbitais atômicos
originais separadamente e são chamados de orbitais atômicos híbridos.

A. Carbono Tetraédrico – Orbital Atômico Híbrido sp3

O metano (CH4) é o hidrocarboneto mais simples que possui um átomo de carbono tetracoor-
denado. A molécula possui quatro ligações carbono-hidrogênio equivalentes com todos os
ângulos H-C-H idênticos e igual a 109,5º o que lhe confere uma geometria tetraédrica. Portan-
to, o metano deverá ter quatro orbitais moleculares equivalentes resultantes da sobreposição
dos orbitais atômicos do carbono com um orbital atômico de um dos hidrogênios. A pergunta
é como explicar essas propriedades?
O átomo de carbono tem, de fato, quatro elétrons no segundo nível quântico principal, mas
os dois elétrons atribuídos ao orbital atômico 2s são emparelhados e estão indisponíveis para
formar novas ligações. Uma maneira de conseguir quatro elétrons disponíveis para formar as
ligações do átomo de carbono com os átomos de hidrogênio existente na molécula do metano
é promover um elétron do orbital 2s para o orbital vazio 2p. Apesar da promoção do elétron
para níveis maiores necessitar de energia adicional, a formação de novas ligações pronta-
mente compensa essa energia. Dessa forma, quatro elétrons desemparelhados atribuídos aos
orbitais 2s e 2p estão agora disponíveis para formar as quatro ligações do átomo de carbono.

Estado Fundamental Estado Excitado

2p 2p
x y z x y z
Energia
Energia

2s 2s

1s 1s

Orbital atômico Orbital atômico


do carbono do carbono

21
Entretanto, ainda existe alguns problemas. Primeiro, se fossem usados diretamente orbital
atômico 2s e os três orbitais 2p do carbono para efetuar a sobreposição com os orbitais atômi-
cos 1s dos hidrogênios não seriam formados, obviamente, quatro orbitais moleculares ligan-
tes idênticos como ocorre na molécula do metano. Segundo, o orbital atômico 2p do carbono
não tem a geometria correta para permitir um arranjo tetraédrico dos átomos de hidrogênio
em torno do átomo de carbono. Isso deverá fornecer uma sobreposição inadequada entre os
orbitais atômicos o que acarretaria na formação de uma ligação fraca, o que não ocorre na
molécula do metano. Como solucionar esses problemas?
A formação de quatro orbitais atômicos híbridos sp3 para o átomo de carbono soluciona esses
problemas e explica satisfatoriamente as propriedades da molécula do metano. Nesse modelo,
quatro orbitais são misturados – hibridizados – e quatro novos orbitais atômicos híbridos
degenerados (mesma energia) são obtidos. Esses orbitais híbridos são chamados de orbitais sp3
para indicar que eles possuem um 1/4 do caráter de um orbital s e 3/4 do caráter de um orbital p.

E S TA D O F U N D A M E N TA L E STADO EXCITADO E STADO HIBRIDIZAD O

2p 2p Hibridação
x y z x y z

E NERGIA
E NERGIA

E NERGIA

2s 2s Orbitais híbridos sp³

1s 1s 1s

Orbital atômico Orbital atômico Orbital atômico


do carbono do carbono do carbono

y
Q U AT R O O R B I TA I S D E S S E S
O R B I TA L 2py
z SÃO FORMADOS

ψ−
ψ+ x 2s
O R B I TA L 2p x O R B I TA L 2pz
2s
O R B I TA L HÍBRIDO sp3
O R B I TA L 2p y

nota

O tratamento matemático da hibridação dos orbitais também mostra


que os quatro orbitais sp3 deverão ser orientados com ângulos de 109,
5º. Esse valor é precisamente a orientação espacial dos quatro átomos
de hidrogênio em torno do carbono na molécula do metano.

Para facilitar o entendimento nesse texto só serão mostrados os orbitais moleculares ligan-
tes formados pela sobreposição dos orbitais atômicos híbridos com outros orbitais atômicos
híbridos ou não. H
sp 3 H
A DICIONA 109,5º
C OMBINA SP ³ E 1 S
sp 3 QUATRO H
H
H C
C H
sspp 3 H
sspp 3 H
H

22
Os ângulos de ligações dos átomos de carbono no etano (C2H6), e de todos os alcanos, tam-
bém são tetraédricos como no metano. Um modelo satisfatório para o etano pode ser obtido
pelos átomos de carbono com hibridação sp3.
H L IGAÇÕES σ
H

C C H H
+ + 6 H C C

H L IGAÇÃ O Σ H
C ABONO SP³ C ABONO SP ³

A hibridação dos orbitais atômicos não é uma aproximação matemática exclusiva do áto-
mo de carbono. Baseado na geometria molecular obtido pelo modelo de repulsão dos pares de
elétrons da camada de valência (v s e p r ) pode-se por exemplo, atribuir hibridações sp3 para
os átomos de nitrogênio e oxigênio nas moléculas de amônia e metanol, respectivamente.
σ Csp3-H
H1s H
N H H
H H N H
H H C O C O
H
A MÔNIA H H H
H
sp3-O
3-Osp33 H
G EOMETRIA TETRAÉDRICA
3 σ Nsp3-H 1s
σ Osp3-H1s

B. Carbono Trigonal Planar – Orbital Atômico Híbrido sp2

O eteno (C2H4) é o hidrocarboneto mais simples que possui ema dupla ligação carbono-carbono.
Os seis átomos, dois carbonos e quatro hidrogênios são coplanares e possuem ângulos de liga-
ção de aproximadamente 120º. As ligações no eteno podem ser obtidas assumindo que o átomo
de carbono utiliza três orbitais atômicos híbridos sp2 e um orbital p. Os três orbitais híbridos
do carbono são obtidos através da combinação de um orbital atômico 2s e dois dos três orbitais
atômicos 2p. A maior densidade eletrônica (lobos dos orbitais) dos orbitais híbridos sp2 estão
coplanares entre si e perpendiculares ao orbital não hibridizado remanescente p, com ângulos
de 120º entre os seus eixos. Sua orientação é trigonal. A sobreposição dos orbitais atômicos
híbridos sp2 dos átomos de carbono no eixo internuclear forma a ligação σ carbono-carbono.
Já a sobreposição lateral dos orbitais atômicos p dos átomos de carbono dá origem a ligação π.
E STADO FUNDAMENTAL E S TA D O E X C I TA D O E S TA D O HIBRIDIZADO

2p 2p Hibridação
x y z x y z z
E NER GIA
E NERG IA

E NERG IA

2s 2s Orbitais híbridos sp²

1s 1s 1s

Orbital atômico Orbital atômico Orbital atômico


do carbono do carbono do carbono

23
O R B I TA L 2py
z

ψ−
ψ+ x +
2s
O R B I TA L 2p x O R B I TA L 2pz
2s
O R B I TA L 2p y

O R B I TA L H Í B R I DO sp2

S OBREPOSIÇÃO DE ORBITAIS P

120º π C p -C p

H H sp 2 H H
C C O RBITAL P 120º C sp 2 C C
sp 2
H H
120º H H
E TENO
σ C sp2-C sp 2

A interação entre os orbitais atômicos p paralelos dos carbono é melhor visua-


lizada quando construimos um modelo no plano do esqueleto σ da molécula do
eteno. Observe a diferença no formato do orbital molecular ligante de uma ligação
π, quando comparado com a ligação σ. Uma ligação σ tem simetria cilíndrica ao
redor de uma linha conectando os dois núcleos ligados. Já a ligação π tem um
plano nodal passando através dos dois núcleos ligados e entre os lóbulos do orbital
molecular ligante.

S OBREPOSIÇÃO DE ORBITAIS p σ Csp 2- H1s

π Cp- Cp
H H H H
H H
C C C σ Csp 2- Csp 2 C C C
H H
H H H H
π Cp- C p
σ Csp 2- Csp 2

σ Csp 2- H1s

Compostos orgânicos simples, como por exemplo a metanimina e o formaldeído possuem


respectivamente os átomos de nitrogênio e oxigênio com hibridação sp2. A geometria mole-
cular trigonal segundo o modelo v s e p r de ambos corrobora com essa hibridação.

π Cp- N p π Cp- O p
p p sp² p p sp²
H H H sp² H H H sp²
σ C sp 2- Nsp 2 N σ C sp 2- Osp 2 O
C N sp² C C O sp² C
H H H
H
M E TA N I M I N A sp² F O R M A L D E Í DO
DO
sp²
π Cp- N p π Cp- O p

24
C. Carbono Linear – Orbital Atômico Híbrido sp

O composto orgânico mais simples contendo uma tripla ligação é o etino (C2H2). Essa molé-
cula possui uma geometria molecular linear com ângulos de 180º contendo três ligações σ e
duas ligações π. Cada átomo de carbono forma duas ligações s com átomos de hidrogênio e
uma ligação s enttre eles. Portanto, dois orbitais atômicos híbridos com geometrias lineares
são necessários. Esses orbitais híbridos são formados pela hibridação de um orbital atômico
2s e um orbital 2p do carbono. Os orbitais atômicos p remanescentes são responsáveis pela
formação das ligações π.

E S TA D O F U N D A M E N TA L E S TA DO E X C I TA D O E S TA D O HIBRIDIZADO

2p 2p Hibridação
x y z x y z y z

E NERGIA
E NERGIA

E NERGIA

2s 2s Orbitais hibridos sp

1s 1s 1s
O RBITAL ATÔMICO
O RBITAL ATÔMICO O RBITAL ATÔMICO
DO CARBONO
DO CARBONO DO CARBONO

Orbital 2py
z
y-
y+ x
+ +
2s
2s Orbital 2px
Orbital 2pz
O RBITAL HÍBRIDO SP ² Orbital 2py

p Cpy - C py
Py

Pz pPyy pPyy
sp sp
sp
H C C H sp sp
sp
H s Cspsp-CCsp
sp
sp H
E T I NO pPzz pPzz

180°
p Cpz - Cpz

A ligação tripla pode também ser formada entre o átomo de carbono e outros elementos. A
mais importante é a ligação tripla CN presente no cianeto ou nitrila. Tanto carbono quanto o
nitrogênio são hibridizados sp conferindo às nitrilas uma geometria molecular linear, colo-
cando o par de elétrons desemparelhado do nitrogênio em um orbital sp também.

25
p Cpy - C py

H
pPyy pPyy
sp³
H3 C C N H sp³ sp³
sp
sp
C C ss CC sp
sp-Cspsp
-C N sp
A C E TO N I T R I L A sp³ pPzz pPzz
H

p Cpz - Cpz

7 Energia dos Orbitais Moleculares

Em geral, os orbitais moleculares de menor energia são os orbitais moleculares sigma ligan-
tes. Eles possuem baixa energia, pois a sobreposição dos orbitais atômicos ocorre no eixo
internuclear, sendo por isso muito efetiva. Por essa mesma razão os orbitais moleculares
sigma antiligantes são os mais energéticos. Os orbitais moleculares pi ligantes não são tão
estáveis quanto os orbitais sigma ligantes pois a sobreposição dos orbitais atômicos ocorre
lateralmente sendo por isso menos efetiva. Por razões semelhantes os orbitais pi antiligantes
possuem menos energia do que os orbitais sigma antiligante. Finalmente os orbitais não li-
gantes, ou seja, não é nem ligante e nem antiligante possuem energias intermediárias entre
os orbitais moleculares ligantes e antiligantes.

O RBITAIS M OLECULARES
Maior energia
Sigma antiligante
Energia

Pi antiligante

Não ligante
Pi ligante
Menor energia Sigma ligante

Veja a seguir diagramas de níveis de energia dos orbitais moleculares de alguns compostos
orgânicos poliatômicos.
5 σ∗ 3 σ∗
7 σ∗
H H π∗ C-C π∗ C -O
Energia

H H
Energia

H C C H C C H O R BITAI S
Energia

H H π C-C C O
ATÔMICOS
NÃ O LIGANTES
H H H DO OXIGÊNI O
E TANO E T ENO π C -O
7σ F ORMALDEÍDO

26
Resumo e Palavras-chave

Um átomo é constituído de um núcleo carregado positivamente rodeado por um ou mais


elétrons negativamente carregados. A estrutura eletrônica de um átomo é melhor descrita
por uma equação de onda mecânico-quântica, onde se considera que os elétrons ocupam os
orbitais atômicos em torno do núcleo. A definição de orbitais atômicos consiste na região
em torno do núcleo onde há a maior probabilidade de se encontrar os elétrons. Esses orbitais
possuem diferentes níveis quânticos de energias e formas diferentes que podem ser descrito
pelos números quânticos obtidos a partir da solução da equação de onda de Shrödinger para
o átomo de hidrogênio. Por exemplo, os orbitais s são esféricos e os orbitais p são lobulares.
A configuração eletrônica de um átomo pode ser obtida através do preenchimento dos orbitais
atômicos adequados com elétrons, seguindo o princípio da construção.
As ligações covalentes são formadas quando um par de elétrons é compartilhado por mais
de um átomo. De acordo com a teoria de ligação de valência (tlv), o compartilhamento de elé-
trons ocorre devido à sobreposição de dois orbitais atômicos de valência, sem que ocorra, no
entanto perda das características individuais destes. Já na teoria de orbital molecular (tom)
as ligações resultam da combinação matemática de orbitais atômicos para formar os orbitais
moleculares ligantes e antiligantes que pertencem à molécula como um todo. As ligações
formadas mediante a sobreposição frontal de orbitais atômicos no eixo internuclear sendo
simetricamente cilíndricas são denominadas ligações sigma (σ). Já as ligações obtidas pela
sobreposição lateral dos orbitais atômicos p são chamadas de ligações pi (π).
Um modelo modificado satisfatório para explicar as ligações covalentes em molécu-
las mais complexas baseado na mecânica quântica utiliza o conceito de hibridação de
orbitais. Esses novos orbitais, tem em proporções variáveis, propriedades semelhantes a
dos orbitais atômicos originais separadamente e são denominados orbitais atômicos hí-
bridos. Quando o carbono ou qualquer outro átomo dorma somente ligações simples com
geometria tetraédrica, eles utilizam quatro orbitais atômicos híbridos sp3 equivalentes.
Nas ligações duplas com geometria trigonal planar são utilizados três orbitais atômicos
híbridos sp2 equivalentes e um orbital atômico p não hibridizado. A ligação tripla com
geometria molecular linear, os átomos utilizam dois orbitais atômicos híbridos sp equiva-
lentes e dois orbitais p não hibridizados. Esses orbitais sp3, sp2 e sp são obtidos mediante
a mistura – hibridação – interna, em proporções variáveis, dos orbitais atômicos s e p de
um determinado átomo.
Os orbitais moleculares podem ser organizados em diagramas de níveis de energia. Os orbi-
tais moleculares ligantes são sempre mais estáveis do que os não ligantes e estes por sua vez,
possuem menos energia do que os orbitais moleculares antiligantes. Os orbitais moleculares
ligantes sigma são menos energéticos do que os orbitais pi pois a sobreposição frontal dos
orbitais atômicos é mais efetiva do que a sobreposição lateral que ocorre nos orbitais atômi-
cos para formar o orbital molecular pi.

27
Ao término dessa aula você deverá ser capaz de:

Saber que os elétrons tem diferentes níveis de energia;


Como os elétrons são distribuídos nos orbitais atômicos;
Como os orbitais atômicos se combinam para formar os orbitais moleculares;
Por que as moléculas orgânica possuem estruturas lineares, trigonais e tetraédricas;
Correlacionar a forma das moléculas com a estrutura eletrônica;
Construir diagramas de níveis de energia dos orbitais moleculares para molécula
simples;
Predizer a localização dos pares de elétrons não ligantes e os orbitais vazios;
Identificar uma ligação sigma ou pi e entender como elas são formadas;
Identificar a hibridação de todos os átomos de uma molécula;
Identificar o tipo de orbital molecular ocupado por cada par de elétrons em uma
molécula e designar os orbitais atômicos que interagiram para formar aquele
orbital molecular;

Olhando a diante

Os mecanismos das reações orgânicas dependem dos orbitais moleculares;


Deslocalização eletrônica e conjugação;
Reatividade deriva das energias dos orbitais molecularres.

A t i v i da des
1ª Questão: Compare as estabilidades relativas das moléculas O2, O2+ e O2-, explicitando o
critério seguido.

2ª Questão: Considere as seguintes configurações eletrônicas de várias moléculas:

I σ 12sσ 1*2s σ 22sσ 2*2sσ 22pxπ 22pyπ 22pzπ 2*0pyπ 2*0pzσ 2*0px
II σ 12sσ 1*2s σ 22sσ 2*2sσ 22pxπ 22pyπ 22pzπ 2*1pyπ 2*0pzσ 2*0px
III σ 12sσ 1*2s σ 22sσ 2*2sσ 22pxπ 22pyπ 22pzπ 2*2pyπ 2*1pzσ 2*0px
VI σ 12sσ 1*2s σ 22sσ 2*2sσ 22pxπ 22pyπ 22pzπ 2*1pyπ 2*1pzσ 2*0px
V σ 12sσ 1*2s σ 22sσ 2*2sσ 22pxπ 22pyπ 22pzπ 2*1pyπ 2*0pzσ 2*1px

28
Leia atentamente o conjunto de afirmações que se seguem e classifique-as como Verdadeiras
(V) ou Falsas (F) justificando as razões da sua escolha:

a) A configuração I corresponde a uma espécie molecular diamagnética.


b) A configuração III representa uma espécie cuja ordem de ligação é 2.
c) A configuração V apresenta todos os elétrons no estado de mais baixa energia.
d) A configuração IV apresenta 4 elétrons efetivamente ligantes.
e) A configuração II apresenta 5 elétrons não-ligantes.

3ª Questão: As moléculas mostradas a seguir são substâncias com atividade farmacológica.


Assinale apropriadamente a hibridação de todos os átomos, exceto os átomos de hidrogênio
em cada uma dessas moléculas.

OH OH
H 3C O OH H
H
O N Cl
N O O2N
OH O Cl
O O
Metaprolol Warfarina Clorafenicol
Tratamento da hipertensão Anticoagulante Antibiótico
NH 2 O
CH 3 HO
HO
HS N
H
O CO 2H N HO
H HO
Captopril OH
Serotonina
Tratamento da hipertensão Neurotransmissor humano Vitamina C

4ª Questão: Os dois compostos a seguir são isômeros, isto é, eles são compostos diferentes
com a mesma fórmula molecular. (a) Por que essas moléculas não se convertem naturalmente
uma na outra? (b) A absorção de luz pela dupla ligação na molécula, favorece a interconver-
são dessas duas moléculas, explique essa afirmativa.

H R H H
C C C C
R H R R
trans cis
5ª Questão: Os antagonistas do receptor NMDA constituem-se em promissores agentes para
o tratamento da dor neuropática. Alguns desses agentes estão apresentados abaixo. Para
cada um deles identifique o tipo de hibridação adotada pelo(s) átomo(s) de nitrogênio(s), sua
geometria e diga ainda em qual orbital está localizado o para de elétrons não ligante. Justi-
ficando a sua resposta.
OH H O
OH N O
H 3C S N
N O N N
O N
S F H3C N
CH 3 H
HO O 3
2
1

29
6ª Questão: O linestrenol, um componente de alguns anticoncepcionais, mostrado a seguir.
Localize na sua estrutura um exemplo de cada tipo de ligação ou átomo a seguir: a) uma
ligação covalente muito polarizada; b) uma ligação covalente pouco polarizada; c) um átomo
de carbono sp, sp2 e sp3; d) uma ligação entre átomos de hibridação diferentes.

H 3C OH
C CH

Linestrenol

7ª Questão: O [2,2,2]-propelano, uma molécula pouco comum, está representada a seguir.


Considere os parâmetros estruturais dados e decida que esquema de hibridação descreve
melhor os átomos de carbono marcados com um asterisco. Que tipo de orbitais são usados
para formar a ligação entre eles? Você acha que essa ligação é mais forte ou mais fraca do
que uma ligação carbono-carbono, que geralmente tem comprimento igual a 1,54 Å?

CH2
H2C
H2C C * CH
2
H2C C CH2 1,60 Aº
*
120º
[2,2,2]-propelano

8ª Questão: Usando a Teoria das Orbitais Moleculares preveja os valores relativos das distân-
cias internucleares nas seguintes espécies: H2, H2+ e He2+.

9ª Questão: Das sobreposições entre os orbitais mostrados a seguir, uma é ligante, a outra
antiligante e a restante é não ligante. Correlacione os modelos esquemáticos de orbitais com
essas interações e explique a sua resposta.

+
- + - +
+

+
+

- B C
A

10ª Questão: Por que você acha que ninguém jamais foi capaz de preparar o ciclopentino
como uma molécula estável?

Ciclopentino

28
Aula 2

Ressonância e a Teoria do Orbital Molecular

Em todas as moléculas apresentadas até agora um modelo adequado de ligação covalente foi
obtido fazendo uma aproximação onde cada orbital molecular está localizado em apenas dois
átomos. Muitas vezes, entretanto, esses orbitais moleculares localizados não são um modelo
muito bom para descrever certas ligações covalentes. As situações em que a descrição de um
orbital molecular localizado não pode ser usada como um modelo adequado são as mesmas
em que estruturas de Lewis normais são inadequadas, ou seja, situação em que a ressonân-
cia (deslocalização eletrônica) é necessária para descrever uma ligação. Em tais moléculas é
necessário usar os orbitais moleculares deslocalizados (orbitais moleculares que incluem os
orbitais atômicos de mais de dois átomos) para descrever uma ligação. De fato, ressonância
e orbitais moleculares deslocalizados são apenas maneiras diferentes de descrever o mesmo
tipo de ligação química. Não é necessário aprofundar excessivamente os estudos sobre os or-
bitais moleculares deslocalizados, mas apenas uma breve discussão para facilitar o entendi-
mento sobre ressonância e quando ela deve ser usada.

É necessário relembrar antes de começar


Estruturas de Lewis
(Módulo 4 – Química Geral 1);
Ligação covalente e estrutura molecular
(Módulo 1 – Química Orgânica I);

1 Ressonância e Conjugação

Considerando o ânion formiato como exemplo, existem duas estruturas de Lewis equivalen-
tes (comumente chamadas de estruturas de ressonância) que podem ser escritas e ambas as
estruturas desse íon covalente estão corretas. A melhor forma de representar o ânion formia-
to é através do híbrido de ressonância das duas formas individuais e que possui as caracte-
rísticas de ambas as formas. Experimentos confirmam que as duas ligações carbono-oxigê-
nio são idênticas, com o comprimento da ligação assumindo um valor intermediário entre
uma ligação simples carbono-oxigênio e uma ligação dupla carbono-oxigênio e que a carga
(densidade eletrônica) é a mesma nos dois átomos de oxigênio, aproximadamente ½.

29
O O -1/2
O
H O H O
H O -1/2

Estrutura de ressonância A Estrutura de ressonância B Híbrido de ressonância

nota

As duas estruturas de Lewis individuais para o ânion formiato são denomina-


das formas de ressonância, essa relação ressonante é indicada por uma seta
de duas pontas ( ) entre ambas. Atenção é errado usar a seta de equi-
líbrio ( ) para representar as formas ressonantes. A única diferen-
ça entre as formas de ressonância é a distribuição dos elétrons de valência
π e não ligantes. Os átomos ocupam exatamente o mesmo lugar em ambas as
formas de ressonância e as conexões entre os átomos são também as mesmas.

A figura 1 mostrada a seguir, é uma tentativa de mostrar a sobreposição dos orbitais atô-
micos para formar os orbitais moleculares ligantes localizados no ânion formiato. Neste mo-
delo de orbitais moleculares localizados, um orbital p do átomo de carbono sobrepõe ao orbi-
tal atômico p do oxigênio para formar uma ligação π, correspondendo à estrutura de Lewis
A no esquema mostrado anteriormente. Nessa estrutura o átomo de oxigênio de baixo pos-
sui três pares de elétrons não ligantes. Sempre que um átomo tiver um par de elétrons não
ligante adjacente a uma ligação π, como ocorre no formiato, esse átomo usualmente assume
uma hibridação que coloca o par de elétrons não ligante em um orbital p, pois a sobreposição
desse orbital com o orbital atômico p da ligação π do átomo adjacente é estabilizante. É essa
sobreposição que possibilita a deslocalização eletrônica, ou seja, permite que a ressonância
ocorra. Nesse caso, o orbital p com o par de elétrons não ligante do átomo de oxigênio de
baixo sobrepõe igualmente bem com o orbital atômico p do carbono, e modo que a ligação π
poderia ser também mostrada usando esses dois orbitais com um par de elétrons não ligan-
te situado no orbital atômico p do oxigênio de cima. Isso corresponde a estrutura de Lewis B.

π Cp- Op Conjugação π Cp- Op Orbital p

O Orbital p O Orbital p O
H C H C H C
O O

O
O
H O
H O

Estrutura de ressonância A Estrutura de ressonância B

30
Devido à conjugação ou ressonância existente no ânion formiato, os três orbitais atômicos
p, um do carbono e dois dos oxigênios devem ser usados para formar o orbital molecular. Os
três orbitais atômicos interagem para formar três orbitais moleculares π deslocalizados. Dois
desses três orbitais moleculares deslocalizados contem os quatro elétrons: os elétrons π e o
par de elétrons não ligante do modelo localizado.

Planos nodais
Todos os orbitais estão
Maior C fora de fase
O Orbital antiligante
O
Plano nodal
Orbitais do carbono e do oxigênio
estão fora de fase
Energia

O O Orbital não ligante

Conjugação
C Todos os orbitais estão em fase
O O Orbital ligante
Menor

Como podemos observar, a teoria de ressonância foi desenvolvida a partir dos conceitos da
mecânica quântica. A teoria indica que um par de elétrons pode realmente contribuir para a
ligação de mais de dois núcleos. Tais elétrons ocupam um volume maior do que aqueles em-
pregados nas ligações comuns, localizadas. Um resultado muito importante dessa derivação
matemática é que os elétrons deslocalizados são energeticamente favorecidos, ou seja, a es-
pécie elétron deslocalizada – híbrido de ressonância – é energeticamente mais estável do que
qualquer outra estrutura de ressonância contribuinte. Essa estabilização, ou diminuição de
energia, é chamada de estabilização de ressonância.
nota

Em geral, é necessário usar a ressonância (ou orbitais moleculares deslocali-


zados) para qualquer molécula que seja conjugada, isto é, qualquer molécu-
la que possua uma série de três ou mais sobreposições de orbitais p paralelos
em átomos adjacentes.

O ânion formiato é conjugado, pois possui três orbitais atômicos p paralelos, sendo um do
carbono e dois dos átomos de oxigênio. Entretanto, se os orbitais não estiverem paralelos,
ou se existir um átomo extra separando-os, a sobreposição não é contínua e o sistema não é
conjugado. Alguns exemplos são mostrados a seguir.

31
Carbono com hibridação sp³ interrompe
a sequência de orbitais p paralelos

CH
CH CH
CH CH H
C H 2=C H -C H=C H-C H 2-C H=C H 2 H C CH C
CH
CH H
H ²

ões π
Duas ligaçõ
ligações Esta ligação π não está
conjugadas
conj gad conjugada com as demais

sp² sp²
C C
N
C C
H
N
H
nio conjugado
Orbital p do nitrogênio conjugad
j dod Orbital p do nitrogênio conjugado
rbono
com o do carbono com o do carbono

Par de elétrons não ligante do N em um


orbital p. O átomo de nitrogênio possui
hibridação sp².

2 Regras para Escrever Estruturas de Ressonância

Ressonância é um conceito muito importante na química orgânica. Ela irá nos ajudar, por
exemplo, determinar a reatividade de um composto e mostrar onde os sítios mais reativos de
uma determinada molécula estão localizados. As regras que serão mostradas a seguir servirão
como auxílio para escrever as estruturas de ressonância e determinar as suas importâncias.

r egr a 1

Para escrever estruturas de ressonância os núcleos dos átomos não podem ser movimentados; so-
mente elétrons p e π não ligantes em orbitais atômicos p podem ser movimentados.

Como vimos para o ânion formiato, as estruturas de ressonância são apenas diferentes
maneiras de arranjar as ligações π e os elétrons no meio de uma série de orbitais atômicos
p adjacentes que formam um sistema conjugado.

32
H2 C CH C N H2 C CH C N H 2C CH C N

Estruturas de ressonância da propenonitrila

H O H O H O H O

C C C C C C C C
( H 3C ) 2N C H (H 3C ) 2N C H (H 3C ) 2N C H (H 3C ) 2N C H

H H H H

Estruturas de ressonância do 3-dimetilaminopopenal

H H H H
C CH2 C C H2 C C H2
H 3C C H3 C C H2 C C
H H H
1 2
Esta não é uma estrutura de ressonância
Estruturas de ressonância de 1 e 2 pois um átomo de hidrogênio do
grupo CH ³ moveu-se

nota

As setas curvas ( ) são usadas para indicar o fluxo de um par de elétrons.


Por convenção, as setas sempre partem de onde os elétrons estão na estrutura
e indicam o destino deles na próxima estrutura.

r egr a 2
As formas de ressonância devem possuir estruturas de Lewis válidas e obedecer as regras gerais
de valência.

A regra do octeto se aplica para as formas de ressonância como para qualquer outra estru-
tura. Por exemplo, uma das estruturas mostradas abaixo para o íon acetato não é uma for-
ma de ressonância válida, porque o átomo de carbono possui cinco ligações e, portanto dez
elétrons de valência.

O O O
C C C
H3 C O H 3C O H3 C O

Estruturas de ressonância do íon acetato


Não é uma estrutura de ressonância válida
pois o átomo de carbono está com 10
elétrons na camada de valência

33
r egr a 3
O híbrido de ressonância é mais estável do que qualquer uma das formas de ressonância
contribuinte.

Em outras palavras, a ressonância conduz a uma situação de estabilidade. De maneira ge-


ral, quanto maior o número de estruturas de ressonância importantes, maior será a energia
de estabilização de ressonância consequentemente maior a estabilidade da molécula ou do íon.

r egr a 4
Estruturas de ressonância energeticamente equivalentes contribuem igualmente para o híbrido, e
um sistema descrito por elas tem uma grande energia de estabilização de ressonância.

Se todas as estruturas de ressonância tiverem ligações similares, como ocorre nos íons aceta-
to e alila, elas terão a mesma energia e contribuirão igualmente para a estabilização do híbrido.

O O O -1/2
Ligação formada C=O
C C C -1/2
H3 C O H3 C O H3 C O Ligação quebrada C=O

Estruturas de ressonância do íon acetato Híbrido de ressonância

H H H +1/2 Ligação formada C=C


C CH2 +1/2
H C C CH2 C CH2
H C H C Ligação quebrada C=C
H H H
Estruturas de ressonância do cátion 2-propenila (alila) Híbrido de ressonância

r egr a 5
As estruturas de ressonância podem ser energeticamente diferentes e, portanto, contribuírem de
maneira distinta para o híbrido de ressonância.

Se as estruturas ressonantes tiverem ligações diferentes, elas terão energias diferentes. A


de menor energia contribuirá mais para a estabilização do híbrido de ressonância. Por exem-
plo, a acetona pode ser convertida no seu ânion mediante uma reação com uma base forte.
O ânion resultante possui duas formas de ressonância: a primeira possui uma ligação dupla
carbono-oxigênio e uma carga formal negativa no átomo de carbono. Já a segunda, tem uma
ligação dupla carbono-carbono e uma carga formal negativa no átomo de oxigênio.

O -1/2 O Ligação formada C=C


O O
Base C Ligação quebrada C=O
C Forte H C C CH C H 3C CH2
H 3C CH 2 3 2 H 3C CH2 -1/2
H
Estruturas de ressonância do ânion da acetona Híbrido de ressonância

34
A questão primordial é saber qual das duas estruturas de ressonância irá contribuir mais
para o híbrido de ressonância. Basicamente o que precisa ser determinado é a estabilidade
relativa dessas estruturas de ressonância. As diretrizes mostradas a seguir auxiliarão na de-
terminação qualitativa dessas estabilidades relativas.

As estruturas de ressonância que possuírem o maior número de átomos com octetos com-
pletos serão mais estáveis e por isso contribuirão mais com o híbrido de ressonância;

H O H O H O H O

C C C C C C C C
( H 3C )2N C H ( H 3C )2N C H ( H 3C )2N C H ( H 3C )2N C H

H H H H
Todos os átomos com
Todos os átomos com
Carbono de seis elétrons octetos completos, porém
octetos completos
na camada de valência com separação de cargas
Mais estável Estruturas de ressonância do 3-dimetilaminopropenal

As estruturas de ressonância com menor separação de cargas com sinais opostos


contribuem mais para o híbrido de ressonância, pois a separação dessas cargas re-
quer energia. Consequentemente, as estruturas de ressonância nas quais as cargas
opostas estão separadas têm maior energia (menor estabilidade) do que aquelas que
não têm separação de cargas.

H O H O H O H O

C C C C C C C C
( H 3C )2N C H ( H 3C )2N C H ( H 3C )2N C H ( H 3C )2N C H

H H H H
Todos os átomos com
Todos os átomos com
Carbono de seis elétrons octetos completos, porém
octetos completos
na camada de valência com separação de cargas
Mais estável Estruturas de ressonância do 3-dimetilaminopropenal

Estruturas de ressonância do ácido fórmico

O O

C C
H OH H OH

Sem separação de cargas Cargas opostas separadas Distribuição eletrônica na superfície molecular
Mais estável

O mapa de potencial eletrostático calculado da densidade eletrônica do ácido fórmico revela


uma alta densidade de elétrons no átomo de oxigênio da carbonila do grupo carboxila o que
demonstra a importância da estrutura de ressonância de menor contribuição para o híbrido,
mesmo esta sendo a de maior energia.

35
nota

Nos mapas de potencial eletrostático como o mostrado anteriormente, as co-


res tendendo para o vermelho significam aumento da concentração de carga
negativa, enquanto as tendendo para o azul significam menos carga negativa,
ou mais carga positiva.

Dentre as estruturas de ressonância contendo separação de cargas, a mais estável


será aquela que tiver a carga negativa no átomo mais eletronegativo e carga posi-
tiva no átomo menos eletronegativo ou mais eletropositivo.

Estruturas de ressonância do
ânion do acetaldeído
O O -1/2 OH
C C C
H CH 2 H CH 2 H CH 2
-1/2
Híbrido de ressonância apa de potencial eletrostá
Mapa eletrostático

Carga negativa no átomo de oxigênio


que é mais eletronegativo

Mais estável

O mapa de potencial eletrostático calculado da densidade eletrônica do enolato do acetal-


deído revela uma alta densidade de elétrons no átomo de oxigênio da carbonila o que de-
monstra maior estabilidade da estrutura de ressonância com a carga negativa no átomo de
oxigênio mais eletronegativo.

3 Tipos de Interações de Ressonância

Os exemplos que serão discutidos a seguir ilustram os tipos de situações em que o conceito de
ressonância é aplicado. Em cada caso, existe uma série de orbitais atômicos p conjugados. Al-
guns desses orbitais p fazem parte de ligações covalente π, outros desses orbitais podem conter
um par de elétrons não ligante, um elétron não ligante somente ou até mesmo nenhum elétron.
Como vimos anteriormente a ressonância é importante também para ligações pi entre átomos
de diferentes eletronegatividades e para estruturas cíclicas contendo ligações π conjugadas.

A – Ressonância envolvendo um par de elétrons não ligante próximo a uma ligação π

No ânion acetato, um par de elétrons não ligante do átomo de oxigênio de baixo é movido
para tornarem-se elétrons p na segunda estrutura. Os elétrons p, por sua vez são movidos
para tornarem-se um par de elétrons não-ligantes no átomo de oxigênio localizado acima do
átomo de carbono. Estruturas de ressonância devem sempre ter a mesma carga total, nesse
caso, - 1. Essas estruturas de ressonância são equivalentes e contribuem igualmente para o

36
híbrido de ressonância. Com duas importantes estruturas ressonantes, o ânion acetato tem
uma grande estabilização de ressonância. Com isso, a molécula real – híbrido de ressonância
– é muito mais estável do que qualquer estrutura ressonante isoladamente.

O O O -1/2
C C C -1/2
H3 C O H3 C O H3 C O
Estruturas de ressonância do íon acetato Híbrido de ressonância

πCp - Op Conjugação Orbital p


πCp - Op
O Orbital p O Orbital p O
H3C C H3C C H3C C
O O

Orbitais moleculares calculados

No ácido acético, uma molécula neutra, uma estrutura de ressonância similar a primeira
estrutura do ânion acetato pode ser escrita. Porém, nesse caso, as duas estruturas de resso-
nância não são equivalentes, pois a primeira estrutura é totalmente neutra e a segunda pos-
sui cargas formais. Portanto, a primeira estrutura é mais estável e contribui muito mais para
o híbrido de ressonância do que a segunda. Consequentemente o ácido acético tem uma esta-
bilização de ressonância menor do que o ânion acetato e por isso é somente um pouco mais
estável do que a primeira estrutura ressonante.
Estruturas de ressonância do ácido acético
δ− O
O O
C δ+
C C H3 C OH
H3 C OH H3 C OH
Sem separação de cargas Híbrido de ressonância
Cargas opostas separadas
Mais estável

O ânion (enolato) obtido da desprotonação da acetona é estruturalmente semelhante ao ace-


tato, trocando apenas o átomo de oxigênio pelo grupamento metileno (CH2). Novamente os
mesmos tipos de estruturas ressonantes podem ser escritos. As estruturas de ressonância do
enolato da acetona não são equivalentes e contribuem diferentemente com o híbrido de resso-
nância. A segunda estrutura é a mais estável, pois a carga negativa está localizada no átomo
de oxigênio mais eletronegativo. Contudo ambas as estruturas desse ânion contribuem signi-
ficativamente com híbrido de ressonância o que lhe confere uma alta energia de estabilização
de ressonância. O diagrama a direita mostra os orbitais p paralelos conjugados desse ânion.

37
Conjugação Orbital p
O -1/2 O
O CH2
C C H3C C
C H 3C CH 2
H 3C CH 2 H 3C CH 2 -1/2 O
Estruturas de ressonância do ânion da acetona Híbrido de ressonância

B – Ressonância envolvendo um elétron não ligante próximo a uma ligação π

O radical alil (ou alila) possui um número ímpar de elétrons. Esse elétron desemparelhado
está em um orbital atômico p paralelo ao orbital p do carbono adjacente envolvido na forma-
ção da ligação π, estando, portanto conjugado. Esse radical possui duas estruturas de resso-
nância igualmente importantes. O átomo de carbono contendo o elétron desemparelhado não
possui octeto completo fazendo com que essa espécie radicalar seja instável, ou seja, extre-
mamente reativa. Contudo, devido a sua alta energia de estabilização de ressonância, o radi-
cal alil é torna-se mais estável do que se imaginaria analisando somente as suas estruturas
de ressonância isoladamente, sem levar em consideração a deslocalização.

H H

H C H H C H
C C C C
H H
H H
Estruturas de ressonância do radical alil
nota

A meia seta curva ( ) é usada para indicar o fluxo de um elétron. Nova-


mente, por convenção, a seta sempre parte de onde o elétron está na estrutu-
ra e indica o destino dele na próxima estrutura.

A combinação dos três orbitais p paralelos para formar os três orbitais moleculares no ra-
dical alil é mostrada na figura 5. O orbital molecular π ligante é formado pela combinação
dos três orbitais p com lóbulos de mesmo sinal superpondo-se acima e abaixo do plano dos
átomos. Já o orbital molecular π não ligante tem um plano nodal sobre o carbono C2). Por úl-
timo, o orbital molecular não π antiligante tem dois planos nodais: entre o C1 e o C2 e entre o
C2 e o C3 . As formas dos orbitais moleculares para o radical alil calculadas utilizando princí-
pios de mecânica quântica são mostradas ao lado dos orbitais esquemáticos.

38
Planos nodais
Todos os orbitais
CH2
estão fora de fase
Maior CH2 CH2
Orbital antiligante
2

Energia Plano nodal


CH Orbital não ligante
CH2 CH2

CH Conjugação
Menor CH
CH2 CH2
CH Orbital ligante

Orbitais
rbitais moleculares
eculares ψ esquemátic
esquemáticos Orbitais moleculares ψ calculados

C – Ressonância envolvendo um orbital p vazio próximo a uma ligação π

Na estrutura de Lewis do cátion penta-2,4-dien-1-ílio o carbono contendo a carga positiva


tem uma hibridação sp2 com um orbital p vazio. Portanto, esse íon possui uma série de cinco
orbitais p conjugados como mostrado a seguir. O diagrama da direita mostra o orbital mole-
cular referente à conjugação dos orbitais p.

Conjugação
Orbital p vazio

H H
H C C H C C H
C C C H C C C
H H H
H H
Hibridação sp²
Nesse diagr
diagrama
rama aalguns
Orbital Molecular
hidrogênios
hidrogênios foram omitidos
forram omitidoos

A deslocalização do par de elétrons π adjacente ao carbono sp2 para o orbital p vazio co-
loca a carga positiva no carbono central (Estrutura B). Novamente, a deslocalização dos elé-
trons π vizinhos para o orbital p vazio do carbono gera uma estrutura de ressonância onde
o carbono da esquerda tem a carga positiva (Estrutura C).

39
H H H H H H
H C C H C C H C C
C C C H C C C H C C C H
H H H H H H H H H
A B C

H H
δ+ C δ+ δ+
H C
C C C H
H H H
Híbrido de ressonância

As estruturas de ressonância A e C são completamente equivalentes e B é muito similar.


Todas essas três estruturas têm importantes contribuições para o híbrido de ressonância fa-
zendo com que o íon tenha uma alta energia de ressonância. Entretanto esse íon é bastante
reativo, pois se trata de uma estrutura contendo um átomo de carbono com apenas seis áto-
mos na camada de valência (chamado de carbocátion). Comparando-o com outro cátion es-
truturalmente similar que não contenha essa estabilização por ressonância o penta-2,4-dien-
1-ílio é muito menos reativo.

D – Ressonância envolvendo espécies cíclicas contendo ligações π

Uma estrutura simples para o benzeno foi proposta em 1865 por August Kekulé, criador da
teoria estrutural. Kekulé sugeriu que os seis átomos de carbono do benzeno pertencem a um
anel e estão ligados entre si por ligações simples e duplas alternadas, havendo um átomo de
hidrogênio ligado a cada carbono.
O fato de o benzeno apresentar todos os ângulos de ligação dos átomos de carbono iguais
a 120º, sugere que esses átomos possuem hibridação sp2. Nesses modelos, cada átomo de car-
bono possui uma hibridação sp2 com um orbital atômico p disponível para a sobreposição
com os orbitais p dos seus átomos de carbonos vizinhos, formando uma conjugação estendi-
da por todo o anel. Se considerarmos a sobreposição favorável desses orbitais p, isto é, todos
em fase, em torno do anel, o resultado é o orbital molecular calculado.

H H H
H H

H H
H H H

Todos os carbonos Orbitais


Orbit
tais p conju
conjugados
conjugad
ugaddos Orbital molecular
ecular ψ calculado
com hibridação sp²

Movendo os elétrons como mostrado a seguir na estrutura de ressonância A , forma a es-


trutura de ressonância equivalente B. As estruturas de ressonância A e B contribuem igual-
mente para o híbrido de ressonância fazendo com que o benzeno possua alta energia de

40
ressonância. Em concordância com essas estruturas de ressonância, experimentos mostram
que todas as ligações carbono-carbono do benzeno são idênticas com comprimentos iguais
a 1,40 Å , mais longas do que o valor típico de dupla ligação carbono-carbono (1,34 Å) e mais
curta do que a ligação simples carbono-carbono (1,54 Å).

H H H H
H H H H H H H H

H H H H H H H H
H H H H
A B
Estruturas de ressonância do benzeno Híbrido de ressonância

Moléculas como o benzeno, ou seja, um anel contendo orbitais atômicos p paralelos for-
mando um ciclo conjugado são especiais e muitas vezes são mais estáveis do que o esperado.
Para entender melhor essa estabilidade especial do benzeno, precisamos analisar os seus or-
bitais moleculares e as suas respectivas energias.
Sabemos que moléculas contendo uma série de orbitais atômicos p conjugados não podem
ser descritos muito bem por orbitais moleculares localizados que se estendem a somente dois
átomos ao mesmo tempo. Ao contrário, orbitais moleculares π deslocalizados distribuídos
por todos os orbitais p conjugados devem ser empregados. Para o benzeno todos os seis or-
bitais atômicos p combinam entre si para formar seis novos orbitais moleculares. Esses orbi-
tais são mostrados na figura 8.

ψ4,ψ5,ψ6 ã orbitais
são bit i moleculares
mooleculares antiligantes

H H
H H
ψ6
H H
ψ6 po
ppossuem
ossuem
m 3 plano
an s nod
planos ais
nodais
H H H H

ψ4 ψ5
H H H H
ψ4 e ψ5
Energia

p u 2 planos nodaiss cada


possu
possuem

Seis orbitais atômicos p H H H


H
contendo um elétron cada
H H

ψ2 H H ψ3 H H
ψ2 e ψ3 possuem 1 plano nodal cada
H H
H H

ψ1 H H

ψ1,ψ2,ψ3 são orbitais moleculares ligantes

41
No orbital molecular ligante de menor energia (ψ1) todos os orbitais atômicos p combinam-
se em fase, ou seja, não existe plano nodal (inversão de fase), portanto, é o orbital de menor
energia. Os subseqüentes orbitais moleculares preenchidos (ψ2 e ψ3), deverão possuir um pla-
no nodal cada. Como dividir os seis átomos de carbono do benzeno simetricamente com um
plano nodal? Existem duas maneiras, o plano nodal passando respectivamente pelos áto-
mos de carbono ou pelas ligações carbono-carbono. Esses orbitais possuem a mesma energia
e, portanto são orbitais degenerados. Esses três orbitais moleculares são ligantes. Os orbitais
moleculares seguintes (ψ4 e ψ5), sem elétrons, são orbitais antiligantes e possuem dois planos
nodais. Novamente existem duas maneiras de dividir simetricamente os átomos de carbono.
Esses orbitais moleculares também são degenerados. O orbital molecular antiligante de maior
energia (ψ6) possui três planos nodais e todos os orbitais atômicos p combinam-se fora de fase.
A estabilidade do benzeno é em parte atribuída à camada fechada de elétrons π onde todos
os orbitais moleculares ligantes estão completamente preenchidos com dois elétrons de spins
contrários. Nenhum elétron ocupa os orbitais moleculares antiligantes.
A partir dos orbitais moleculares do benzeno e ainda utilizando os princípios da mecânica
quântica pode-se calcular o mapa de potencial eletrostático da superfície de van der Waals
do benzeno. Pode-se ver que nessa representação, os elétrons estão distribuídos igualmente
pelos átomos de carbono através das faces de cima e de baixo (não mostrada) dos orbitais p,
corroborando com a deslocalização dos elétrons π na molécula do benzeno apresentada nos
orbitais moleculares.

A deslocalização eletrônica em muitas moléculas envolve combinações de diferentes tipos


de interações de ressonância. A seguir são mostradas as estruturas de ressonância do ânion
fenóxido que resulta da remoção do próton (H+) ligado ao átomo de oxigênio fenólico. Esse
ânion tem uma combinação de um par de elétrons não ligante (no átomo de oxigênio) pró-
ximo a um ciclo contendo duplas ligações conjugadas no benzeno. As estruturas de resso-
nância são uma combinação dos tipos mostrados nos itens 3A e 3D. O íon fenóxido tem cin-
co importantes estruturas de ressonância e, portanto uma grande energia de estabilização
de ressonância onde o átomo de oxigênio possui uma densidade eletrônica menor do que o
esperado se não fosse considerado a ressonância.

42
O H O
Base
- (H +)
Fenol Ânion Fenóxido

O O
H H H H

H H H H
H H
A B
Estruturas de ressonância equivalentes do íon fenóxido

O O O O O O δ
δ δ

δ
A C D E B
Estruturas de ressonância do íon fenóxido Híbrido de ressonância

As estruturas de ressonância A e B são provenientes da deslocalização dos elétrons π do


anel e, portanto são equivalentes. As duas contribuem igualmente para o híbrido de resso-
nância. Já as estruturas C, D e E obtidas a partir da deslocalização de um par de elétrons não
ligante vizinho a uma ligação π possuem a carga negativa no átomo de carbono menos ele-
tronegativo do que o átomo de oxigênio. Por essa razão, elas contribuem menos para o híbri-
do de ressonância do que as formas A e B.
Outro exemplo interessante são as estruturas de ressonância obtidas para a but-3-en-2-ona,
composto que possui uma dupla ligação carbono-oxigênio conjugada com uma dupla ligação
carbono-carbono. Essas estruturas de ressonância são obtidas a partir de uma combinação
dos tipos mostrados nos itens 3A e 3C.

O O O δ O
H C H C H C H C
3 C 2 CH 3 C CH 3 C CH 3 C δ CH3
1 C
C C C H H
H 4 H H H H H δ
A B C
Estruturas de ressonância da but-3-en-2-ona Híbrido de ressonância

A estrutura de ressonância A , possui todos os átomos com octeto completos, não possuindo,
portanto, carga formal, sendo por isso a estrutura mais estável e com maior contribuição
para o híbrido de ressonância. A estrutura da but-3-en-2-ona deve assemelhar-se com essa

43
estrutura de ressonância. Adicionalmente, a energia da molécula é semelhante com a da es-
trutura de ressonância com maior contribuição. Em outras palavras, esse composto tem pouca
energia de estabilização por ressonância. As estruturas de ressonância B e C, obtidas pela des-
localização de um par de elétrons π para um orbital p vazio adjacente, contribuem menos para
o híbrido de ressonância, entretanto, são importantes, pois essas estruturas mostram que os
carbonos 2 e 4 são deficientes de elétrons, controlando a reatividade química desse composto.

4 – Ressonância versus Tautomerismo

O termo tautomerismo designa uma interconversão rápida e reversível de isômeros associa-


do com um movimento de elétrons e de um ou mais átomos de hidrogênio. O exemplo mais
comum de tautomerismo envolve o deslocamento de um próton entre um átomo de carbono
e um átomo de oxigênio (tautomerismo ceto-enólico) ou um átomo de nitrogênio (tautome-
rismo imina-enamina).

O OH
H

Forma ceto Forma enólica

O tautomerismo não deve ser confundido com ressonância. Cada estrutura tautomérica é
capaz de existir independentemente e em muitos casos podem ser isoladas. Essas estrutu-
ras representam, portanto, compostos reais, enquanto que as estruturas de ressonância in-
dividuais não são. As duas setas em sentidos opostos ( ) usada para correlacionar os
tautômeros indicam uma relação de equilíbrio, ao contrário da seta dupla ( ) que in-
dica ressonância. É importante ressaltar ainda que na ressonância só há movimentação de
elétrons, enquanto que no tautomerismo, como foi dito anteriormente, há movimentação de
elétrons e de átomo.

Resumo e Palavras-chave

O método de ressonância é uma potente ferramenta conceitual que pode ser usada para in-
terpretar uma grande variedade de efeitos estruturais no equilíbrio químico e na velocidade
das reações. A ressonãncia explica a estabilização de uma molécula ou íon através da des-
localização de elétrons. Representações estruturais que descrevem a ressonância são gera-
das pela movimentação de elétrons não ligantes e elétrons envolvidos em ligações π ao lon-
go de um sistema conjugado sem alterar a posição do núcleo. As estruturas de ressonância
individuais não representam adequadamente a molécula real. Esta podem ser representadas
pelo híbrido das estruturas de ressonância individuais denominada híbrido de ressonância.

44
A estabilização de uma molécula ou íon proveniente da ressonância é chamada de energia de
ressonância ou de deslocalização e podem ser estimadas por vários métodos físico-químicos.
Ao término dessa aula você deverá ser capaz de:

Escrever as estruturas de ressonância mais importantes para qualquer molécula;


Escrever o híbrido de ressonância para qualquer molécula;
Assinalar a importância relativa dessas estruturas de ressonância para a contribui-
ção do híbrido de ressonância;
Estimar a energia de estabilização de ressonância dessas moléculas;
Representar a deslocalização eletrônica mediante setas curvas e através de orbitais
moleculares;
Diferenciar ressonância de tautomerismo;

Olhando a diante

A ressonância influencia diretamente na acidez e basicidade dos compostos orgânicos;


Química de compostos aromáticos;
Reações de adição eletrofílica em alcadienos;
Reações de adição conjugada e de substituição.

A t i v i da des

1ª Questão: Em muitas aminas, o átomo de nitrogênio possui hibridação sp3, com uma es-
trutura piramidal e ângulos de ligação próximos de 109o. Na formamida, o átomo de nitrogê-
nio encontra-se num arranjo planar, com ângulos de ligação próximos a 120o. Explique essa
observação experimental.
O

H NH2
Formamida

2ª Questão: Escreva estruturas de ressonância que mostrem a deslocalização dos elétrons


entre os grupos substituintes e o anel benzênico.
O N
O OH H 3C CH 3
O CH3 S OH N C
O

A B C D E

45
3ª Questão: Escreva um diagrama completo de orbitais para todos os orbitais p ligantes e
antiligantes do cátion cíclico de três membros mostrados a seguir.

4ª Questão: Mostre quanto extensivo são os sistemas conjugados das moléculas descritas abaixo.

H OH
N S O
R
O
N O
O
OH O
O
Antibiótico β-lactâmico
H 3C O OCH3
OCH3
Podofilotoxina
Fármaco anti-câncer

5ª Questão: Um número de pigmentos solúveis na água com a faixa de coloração entre o


verde/azul/violeta usado como corantes em comida são baseados em formas catiônicas do
tipo semelhante às mostradas a seguir. Explique porque essas estruturas mostram absorções
com longos comprimentos de onda e ainda porque as funcionalidades extras (grupo OH e o
ânion sulfonato) foram adicionadas na estrutura do corante 2.

CH3 CH3 CH3 CH3


H3C N N
CH 3 H3C N N
CH 3

HO
O O
S S
1- Estrutura geral do corante O O O O
Corante 2

6ª Questão: O piroxican (vendido no mercado brasileiro sob a marca Feldene) é um medi-


camento antiinflamatório não-esteroidal usado para aliviar os sintomas da artrite reuma-
tóide e osteoartrite, dismenorréia primária, dor pós-operatório. Ele atua como um analgé-
sico especialmente quando há um componente inflamatório. Também é usado na medicina
veterinária para tratar algumas neoplasias, como o câncer de bexiga, cólon e próstata. O
processo mostrado a seguir na estrutura dessa molécula é fenômeno mesomérico ou um
tautomerismo?

46
O O O O
S CH 3 S CH 3
N H N H
N N N N

O H O O O
H

7ª Questão: O enolato mostrado a seguir pode ser estabilizado por ressonância, confor-
me indica as três estruturas de ressonância. Qual dessas estruturas contribuirá mais para
a estabilidade do híbrido de ressonância? Explique a sua resposta.

O H O H O H
C C N C C N C C N
EtO EtO EtO
I II III

8ª Questão: Explique porque o aleno (1,2-propadieno) não é classificado como uma molé-
cula conjugada. Use a teoria de orbitais para embasar a sua resposta.

9ª Questão: Desenhe todos os orbitais moleculares p do 1,3,5 -hexatrieno e os compare


com os orbitais moleculares do benzeno (apresentado na figura 8). Que conclusão a cerca
da estabilidade dessas espécies você pode obter da comparação desses diagramas. Expli-
que a sua resposta.

10ª Questão: Para as estruturas mostradas a seguir, responda: a) das três estruturas de
ressonância, existe uma que não é uma estrutura de contribuição permitida. Indique-a e
explique a sua resposta. b) Coloque as estruturas remanescentes em ordem crescente de
contribuição para o híbrido de ressonância. c) Usando setas curvas mostre o movimento
dos elétrons que conecta essas estruturas de ressonância. d) Escreva a estrutura do híbri-
do de ressonância.

H 2C H 2C H 2C H 2C
N O N O N O N O
H 3C H 3C H 3C H 3C
A B C D

47
Aula 3

Acidez e Basicidade dos Compostos Orgânicos

As reações envolvendo ácidos e bases são extremamente importantes para a química orgânica,
visto que: muitas reações orgânicas são reações ácido-base ou envolvem uma reação ácido-
base em alguma de suas etapas; várias dessas mesmas reações orgânicas são catalisadas por
um ácido ou por uma base; permite-nos elucidar fatores importantes sobre a relação entre a
estrutura e a reatividade das moléculas orgânicas.
Discutiremos nessa aula as principais definições existentes para ácidos e bases orgânicos, al-
guns aspectos físico-químicos dessas reações, por mais assustador que isso possa parecer, mas
que na verdade não é. Esse estudo é imprescindível, pois as reações ácido-base são termodina-
micamente controladas, isto é, são equilíbrios químicos onde, por exemplo, alguns parâmetros
termodinâmicos poderão ser usados para estimar quanto do produto será formado quando uma
reação atingir o equilíbrio. E por último, mas não menos importante, veremos o importante
papel que o solvente exerce sobre as reações químicas e também quais os fatores estruturais
intrínsecos das moléculas que afetam a acidez e a basicidade dos compostos orgânicos.

É necessário relembrar antes de começar


Estruturas de Lewis
(Módulo 4 – Química Geral 1);
Equilíbrio químico
(Módulo 3 – Química Geral 2);
Ácidos e bases
(Módulo 4 – Química Geral 3);
Ligação covalente e estrutura molecular
(Módulo 1 – aula 1 - Química Orgânica I);
Ressonância e a teoria de orbital molecular
(Módulo 1 – aula 2 – Química Orgânica I).

1 Acidez e Basicidade segundo Brønsted - Lowry

Em 1923 Brønsted e Lowry propuseram, independentemente, um novo conceito para definir


ácidos e bases. Segundo eles, ácidos são espécies (íons ou moléculas neutras) doadoras de
prótons (H+) e bases, espécies capazes de aceitar (ou remover) prótons. Portanto, as reações
ácido-base de Brønsted-Lowry são reações de transferência de prótons. Como exemplo, para

49
ilustrar essa definição, tem a reação do lapachol, um produto natural da classe das nafto-
quinonas, abundante nos ipês, com uma base, nesse caso o hidróxido de sódio (NaOH), para
formar como produtos o lapacholato de sódio e água. Cabe destacar que o lapachol doa um
próton, portanto, segundo a definição de Brønsted – Lowry é o ácido da reação. Já o hidró-
xido de sódio está recebendo o próton doado pelo lapachol e por isso, segundo a definição é
a base da reação.

H
H

Ácido Base

nota

Quando o hidróxido de sódio, um sólido cristalino composto pelos íons sódio


(Na+) e hidróxido (OH-) solubiliza em água a solução resultante é composta pe-

los íons supracitados solvatados pela água. Os íons sódio e outros cátions si-
milares tornam-se solvatados quando moléculas de água doam pares de elé-
trons não ligantes para seus orbitais vazios. Já os íons hidróxido e outros
ânions com pares de elétrons não ligantes tornam-se solvatados quando mo-
léculas de água através de seus átomos de hidrogênio positivamente polariza-
dos formam ligações de hidrogênio com ele.

Na O H

Segundo a teoria de Brønsted e Lowry a molécula ou íon que se forma quando o ácido per-
de o seu próton é chamada de base conjugada do ácido. Já a molécula ou o íon formado quan-
do a base aceita um próton (protonação da base) é chamada de ácido conjugado da base. No
exemplo descrito anteriormente, o íon lapacholato de sódio é a base conjugada e a molécula
de água é o ácido conjugado da reação ácido-base entre o lapachol e o hidróxido de sódio.

50
Par base-ácido conjugado
O O
OH O Na
+ NaOH O
+ H H
O Hidróximo de sódio O Água
Base Ácido Conjugado
Lapachol Lapacholato de sódio
Ácido Base Conjugada
Par ácido-base conjugado

nota

Quando uma solução de hidróxido de sódio é misturada com o lapachol, a re-


ação que ocorre é entre o átomo de hidrogênio ligado ao oxigênio da hidroxi-
la do lapachol e o ânion hidróxido. O cátion sódio que não participa da rea-
ção ácido-base é chamado de contra-íon ou íon espectador.

Assim, a equação química genérica mostrada a seguir pode ser atribuída para qualquer
ácido e qualquer base numa reação ácido-base, onde AH é um ácido e A- é a sua base conju-
gada e B é a base e BH+ é o seu ácido conjugado, isto é, todo ácido tem uma base conjugada
associada a ele e toda base também tem um ácido associado a ela.

Base Ácido Conjugado

Ácido Base Conjugada

Muitas substâncias possuem caráter anfótero, podendo se comportar como ácidos ou bases
de Brønsted-Lowry, desde que colocadas para reagir com uma base ou um ácido adequado.
Por exemplo, a água atua como base aceitando um próton do ácido clorídrico (HCl) e como
ácido doando um próton para a amônia.
H
O O +
H H + H -Cl H H Cl

H2O + HC l H3O + + C l-
Base Ácido Ácido Base
Conjugado Conjugada

Anfótero H
O +
H H + H N H N OH
H H H
H

H2O + N H3 NH4 + + OH -
Ácido Base Ácido Base
Conjugado Conjugada

51
Mesmo ácidos fortes podem funcionar como bases. Por exemplo, o ácido nítrico sofre pro-
tonação, ou seja, é a base quando reage com o ácido sulfúrico. Essa reação ácido-base é a
primeira etapa para obtenção do íon nitrônio, utilizado para realizar reações de nitração em
anéis aromáticos, que será estudado posteriormente.

-H
H

Ácido Base Ácido Base


Conjugado Conjugada

2 Acidez e Basicidade segundo Lewis

Segundo a definição de Lewis, uma substância é básica quando fornece um par de elétrons
para formar uma ligação química e o ácido é toda e qualquer substância capaz de aceitar
um par de elétrons para formar uma nova ligação química. As bases de Brønsted-Lowry são
também bases de Lewis, porém são incluídos na teoria de Lewis, além dos ácidos de Brønsted-
Lowry, os ácidos não próticos, como por exemplo, os metais e seus derivados, conhecidos
rotineiramente como ácidos de Lewis.
nota

Ácido de Lewis: espécie aceptora de elétrons e Base de Lewis: espécie doado-


ra de elétrons.

Os ácidos incluem, por exemplo, os elementos químicos como o boro e o alumínio que pos-
suem apenas seis elétrons na camada de valência e, portanto podem aceitar um par de elétrons
de uma base de Lewis (espécie doadora de elétrons) a fim de completar o seu octeto. Perceba
que tanto o átomo de boro quanto o de alumínio possuem hibridação sp2 antes da reação, ocor-
rendo uma reibridação para sp3 após a adição do quarto ligante (base de Lewis). Note ainda
que os dois produtos adquirem cargas formais nos metais e no átomo de nitrogênio e oxigênio.

Orbital vazio

B - sp 2

Base de Lewis
Orbital vazio

Al - sp 2

Base de Lewis Ácido de Lewis

52
Substância que possuem elementos metálicos contendo orbitais do tipo d vazios, tais como
MgBr2, Hg(CO2CH 3)2 , ZnCl2, FeCl3 e SnCl4 , entre outros, podem receber elétrons nesses orbitais
e portanto são considerados ácidos de Lewis. Esses ácidos de Lewis são frequentemente
utilizados para catalisar reações químicas. Comportamento semelhante é observado com os
metais de transição, como a platina, o paládio, o rutênio, entre outros lantanídeos.

Hg (CO2CH3 )2

Base de Lewis Ácido de Lewis

Br Mg Br

Base de Lewis Ácido de Lewis

Entre os ácidos de Lewis de fundamental importância para as reações orgânicas estão os


íons contendo um átomo de carbono com seis elétrons na camada de valência, chamados
de carbocátion ou carbênios e espécies similares com um átomo de carbono deficiente de
elétrons. Esses íons são espécies reativas em várias reações orgânicas.

Orbital vazio
zio
sp 2
sp 2
sp 2
p

nota

Uma mesma molécula pode atuar como ácido ou base de Brønsted-Lowry


(substância anfótera) e ser ao mesmo tempo um ácido ou base de Lewis. Por
exemplo, o metanol doa prótons quando reage com o íon hidróxido, funcio-
nando como um ácido de Brønsted-Lowry e recebe prótons quando colocado
para reagir com um ácido mineral, como por exemplo, HCl(aq.). Isso ocorre por-
que o átomo de oxigênio da molécula de metanol possui elétrons não ligantes.
Por último, o etanol pode doar seus pares de elétrons para o fluoreto de boro
(BF3) atuando neste caso como uma base de Lewis.

Moléculas contendo elétrons não ligantes, chamados de elétrons n, elétrons π e elétrons σ


podem funcionar como bases de Lewis e a força dessas bases dependerá da disponibilidade
desses elétrons para reagir com o ácido. Os elétrons envolvidos numa ligação σ são os de

53
menores disponibilidades, pois são mais fortemente atraídos pelo núcleo, pois este orbital
tem na região internuclear a maior densidade eletrônica. Já os elétrons π estão mais dispo-
níveis, pois a região com a maior probabilidade de encontrar os elétrons é perpendicular ao
eixo nuclear, ou seja, estão acima e abaixo do plano dos núcleos. Portanto, esses elétrons são
menos atraídos pelos núcleos se comparado com os elétrons σ. Os elétrons mais disponíveis
para realizar uma reação ácido-base são os não ligantes ou n, pois não estão envolvidos em
ligações químicas covalentes.

Os alcoóis e as olefinas são facilmente protonados por ácidos minerais, como o HBr, for-
necendo carbênios como intermediários. Este assunto será discutido posteriormente quando
estudarmos as reatividades dessas substâncias. Já o metano para ser protonado necessita de
condições especiais. Para que isto ocorra, é necessário o uso de um superácido (ácidos que
são mais fortes do que o ácido sulfúrico 100%), como por exemplo, o HF-SbF5 . O íon formado
é denominado metônio (CH5+) e uma de suas ligações C-H é protonada formando no cátion
uma ligação especial com três núcleos (centros) e dois elétrons.

H
H H

Elétrons n

Elétrons π

H
H
Elétrons σ

3 Aspectos Físico-Químicos das Reações Ácido-Base

As reações ácido-base em meio aquoso, habitualmente são rápidas e reversíveis, sendo, por-
tanto controlada termodinamicamente. Esse tópico tem como propósito discutir as relações
físico-químicas que governam a termodinâmica dessas reações.

54
A – A força de ácidos e bases: a constante de equilíbrio (K eq ) e a constante de acidez (K a) e de
basicidade (K b)

Em ordem, para se determinar a força de um ácido comparativamente com a água e esta-


belecer quão efetivo é esse ácido como doador de próton (ácido de Brønsted-Lowry) deve-se
analisar a constante de equilíbrio da reação. Tomando como exemplo a equação genérica a
seguir, onde ocorre a dissociação do ácido HA em água, a posição do equilíbrio é determina-
da pela constante de equilíbrio (Keq ) para essa reação.

Keq

Ácido Base Ácido Base


conjugado conjugada

K eq

Como indicado na equação da constante de equilíbrio mostrada anteriormente pode-se


correlacionar essa constante com as concentrações molares das espécies em solução. Quan-
do a água é usada como solvente, ou seja, soluções aquosas diluídas, ela está presente em
grande excesso e a sua concentração é essencialmente constante durante a reação e o termo
que expressa essa variação de concentração pode ser incorporado à K eq, transformando essa
grandeza na constante de acidez (Ka).

Ka

Quanto maior o valor de Ka,


Ka
mais forte será o ácido, ou seja,
mais dissociado ele estará

Como a concentração dos produtos na equação da constante de acidez é escrito no nume-


rador e a do ácido não dissociado no denominador, para ácidos muito fortes, os valores de
K a tendem ao infinito e o equilíbrio estará deslocado para a direita, ou seja, para a formação
dos produtos na reação direta e os ácidos são considerados fortes. Já para ácidos muito fra-
cos, o valor de K a tende a zero e o equilíbrio estará deslocado para a esquerda, ou seja, para
a manutenção dos reagentes na reação direta ou formação dos produtos na reação inversa e
os ácidos são fracos.

55
Como exemplo, podemos calcular a constante de acidez da dissociação do ácido acético em
água, considerando uma solução com concentração de 0,10 M .

A concentração do íon [H 3O+] medida experimentalmente nesta solução é de 0,00135 M .


Como a estequiometria da reação é 1:1, ou seja, cada molécula de ácido acético gera um íon
acetato e um íon hidroxônio, as concentrações desses dois íons são iguais ([H 3O+] = [CH 3CO2-]
= 0,00135 M). Após o equilíbrio, a concentração do ácido acético que não dissociou será a
diferença da concentração inicial menos a concentração dissociada ([CH 3CO2H] = 0,1000 M -
[CH 3CO2-] = 0,00135 M = 0,0986 M). Assim o valor de K a será igual a:

nota

Como as constantes de equilíbrio são em geral potências negativas, os quími-


cos normalmente usam o seu logaritmo negativo (pKa = - logKa), que são nú-
meros que variam de -12 a 50). No exemplo mostrado anteriormente, o valor
calculado da constante de acidez (Ka) da dissociação do ácido acético em água
numa concentração de 0,10 M a 25 ºC foi de 1,7 x 10-5. Esse valor pode ser con-
vertido para pKa (4,73) usando a fórmula supra citada.

Note que o ácido acético em água está pouco dissociado (K a << 1), portanto ele é um ácido
fraco. Pode-se ainda perceber que existe uma relação inversa entre a magnitude do pK a e a
força do ácido. Isto é, valores maiores de pK a são atribuídos a ácidos mais fracos, assim como
valores menores de K a.
Até esse momento consideramos somente a capacidade de um ácido em doar um próton, ou
seja, a força do ácido. Contudo, de maneira análoga ao estudo feito para os ácidos, pode-se
analisar a capacidade de protonação de uma base genérica (B:) em água, conforme esquema
mostrado a seguir. A constante de basicidade (Kb) é igual à razão entre as concentrações dos
reagentes e dos produtos. As bases fortes, assim como os ácidos, estão bastante dissociadas
e o valor de K b é maior do que a unidade.

56
Kb

Ácido Base Ácido Base


conjugado conjugada

Kb pK b

Matematicamente, pode-se estabelecer uma correlação direta entre a força de qualquer par
ácido-base conjugado. Para tal, devemos analisar as reações de dissociações de uma base e
do seu ácido conjugado em água, como mostrado abaixo.

Kb Ka

Base Ácido Ácido Base Ácido Base Ácido Base


conjugado conjugada conjugado conjugada

Kb pK b Ka pK a

O produto das constantes de equilíbrio para a dissociação da base e do seu ácido conju-
gado é igual ao produto iônico da água. Por exemplo, o pK a do cátion amônio (NH4+), ácido
conjugado, é igual a 9,26, enquanto que o pK b da amônia (NH 3), base, é 4,74. A soma dos dois
valores é necessariamente igual a 14. A partir dessa relação matemática chega-se a seguinte
conclusão: Quanto mais forte for o ácido, mais fraca será a sua base conjugada e vice-versa.

Kb x Ka

B – Correlação entre a energia livre de Gibbs (ΔGº) e a constante de acidez (K a)

A diferença de energia livre de Gibbs entre os reagentes e os produtos quando o equilíbrio


termodinâmico é atingido, determina a posição desse equilíbrio em uma reação química.
Essa variação de energia pode ser correlacionada com a temperatura (T) e com a constante
de acidez (K a) através da equação mostrada a seguir:

57
Onde R é a constante dos gases (1,987 cal. Mol-1. K-1), T é a temperatura de 298 K . Se assumir-
mos que pK a = - log K a, então chegaremos a equação aproximada abaixo:

nota

Valores de ΔGº negativos indicam reações cujo equilíbrio está deslocado para
a direita (Ka > 1; pKa negativo), ou seja, a formação do produto da reação dire-
ta é favorecida. Quando os valores são positivos (Ka < 1; pKa positivo) o equi-
líbrio é deslocado para a esquerda, favorecendo a manutenção dos reagentes
da reação direta.

Dois importantes parâmetros termodinâmicos contribuem para a diferença de energia


livre entre produtos e reagentes e, portanto para a posição do equilíbrio. A variação da en-
talpia (ΔHº), ou calor de reação, é associada com as diferenças nas energias de ligação entre
produtos e reagentes. A reação em que as ligações nos produtos são mais fortes do que a dos
reagentes, libera calor gerando uma variação negativa na entalpia (ΔHº < 0). Essas reações
são chamadas de exotérmicas. De maneira oposta, nas reações endotérmicas (ΔHº > 0) as li-
gações dos reagentes são mais fortes do que a dos produtos e calor deverá ser adicionado à
reação até atingir o equilíbrio.
O segundo parâmetro, a variação na entropia (ΔSº) consiste na diferença de organização ou
liberdade dos movimentos entre as moléculas dos produtos ou dos reagentes. Valores mais
positivos para a variação de entropia indicam um aumento da desordem quando os reagentes
são convertidos em produtos. A equação que descreve esses parâmetros é mostrada a seguir:

Diferenças relativamente pequena na magnitude da energia livre, leva a pequenas varia-


ções na posição do equilíbrio. Somente diferenças de cerca de 3 Kcal/mol (12 kJ/mol) entre
produtos e reagentes resultam na formação de cerca de 99% do produto no equilíbrio.

C – Relação entre a constante de acidez (K a) e o pH: equação de Henderson-Hasselbalch

Os ácidos em soluções cujo valor do pH é maior do que o seu pK a tornam-se mais solúveis
em água. Grupos iônicos aumentam consideravelmente a solubilidade de um composto, as-
sim como também o íon A- (base conjugada) é muito mais solúvel em água do ácido não

58
dissociado H-A . Dessa maneira, pode-se aumentar a solubilidade de um ácido neutro em
água, aumentando a concentração de sua base conjugada presente na solução. Para esse feito,
tudo o que se precisa fazer é aumentar o pH.
Um exemplo simples é a aspirina. Embora o ácido, por si só, não seja muito solúvel em
água, o seu sal de sódio é muito mais solúvel (aspirina solúvel é comercializada como um
sal de sódio ou de cálcio). Inversamente, se o pH da solução diminui, a quantidade da forma
neutra do ácido aumenta e a solubilidade diminui. Em ambientes ácidos, como o do estômago
(pH 1-2) a aspirina não será solubilizada e deverá precipitar da solução. Entretanto, no intes-
tino (pH = 5,0) e no plasma (pH = 7,4) o sal do ácido (base conjugada) deverá estar presente
em maior concentração nesses ambientes, aumentando a sua solubilidade.

Aspirina Sal de sódio da aspirina

Da mesma maneira, as bases orgânicas podem ser dissolvidas em soluções cujo pH seja
baixo. A papaverina, um alcalóide extraído do opium (Papaver somniferum) é normalmente
usado como vasodilatador cerebral e é, quase sempre, insolúvel em água. Porém, essa subs-
tância apresenta um átomo de nitrogênio do grupamento amina que pode ser protonado para
formar um sal mais solúvel. A papaverina é normalmente encontrada como cloridrato. Além
de tornar os alcalóides solúveis em água, a formação de sais protege essas substâncias da
degradação por processos oxidativos.

H H

Solúvel em água

A equação de Henderson-Hasselbalch, onde o pK a de um ácido é correlacionado com o valor


de pH do meio e com a concentração de suas espécies dissociadas e não dissociadas pode ser
obtida ao aplicarmos o logaritmo na constante de acidez de uma reação ácido-base. Esta equa-
ção permite prever a extensão da ionização de um ácido quando o valor de pKa é conhecido,
calcular o pH da solução de ácidos fracos, desde que sejam conhecidos os valores de Ka e as con-
centrações do ácido e sua base conjugada no equilíbrio ou ainda calcular a razão [ácido] / [base
conjugada] em solução tampão, desde que sejam conhecidos o pK a do ácido e o pH da solução.

59
Ka

Ácido Base Ácido Base


fraco conjugado conjugada

Ka

- log - logK a = p Ka
Ka

- log [ H3O +] = pH

Equação de Henderson-Hasselbalch

Segundo a equação de Henderson-Hasselbalch, o valor do pK a é igual ao valor do pH quan-


do o ácido está 50% ionizado.

Para qualquer ácido fraco, o ajuste do pH altera a proporção da forma ácida e da base con-
jugada. O gráfico a seguir mostra a concentração do ácido livre HA (curva azul) e da base
conjugada (curva vermelha) em função do percentual das concentrações totais em função
da variação do pH. Em valores de pH baixo, o composto existe quase que exclusivamente
como ácido HA não dissociado. Já em valores de pH alto a predominância é da base conjuga
A- , quando não há variação de pK a. Em valores próximos de pH e de pK a o composto existe
como uma mistura das duas formas.
-
% da base conjugada A
% do ácido HA

60
Uma aplicação interessante da equação de Henderson-Hasselbalch consiste na atribui-
ção do percentual de ionização de uma substância em um meio com o pH definido. Para
tal, pode-se atribuir à fração ionizada o termo α, de forma que, a fração não ionizada seja
100% - α. Desta forma, a equação para o cálculo do percentual de ionização de ácidos pode
ser descrita como a seguir:

Ácidos

Similarmente, para o cálculo do percentual de ionização de uma base pode ser escrita a
equação a seguir:

Bases

Sabendo-se que os principais compartimentos biológicos possuem pH definidos, as equa-


ções de Henderson-Hasselbalch podem ser empregadas na previsão do comportamento far-
macocinético (absorção, distribuição e excreção) de substâncias com atividades biológicas
importantes. Como exemplo, pode-se citar o piroxicam, um antiinflamatório não esteroidal,
que é um fármaco de natureza ácida. A absorção do piroxicam ocorre no trato gastrointesti-
nal, sob a forma não ionizada após administração oral. Uma vez a substância chegue à cor-
rente sanguínea ele se ioniza fortemente e é distribuído pelo organismo sob a forma ionizada.
No tecido inflamado, existe uma intensa atividade metabólica que acarreta na redução do pH
(~5). Nesse pH o fármaco novamente está, principalmente na forma não ionizada e, portanto,
apto à atravessar a membrana lipídica do tecido para desempenhar a sua função biológica.

pKa = 6, 3

61
Ácido

Mucosa gástrica
Muito absorvido

Mucosa intestinal
Muito absorvido

Plasma

Distribuição eficiente em H2 O

Tecido inflamado
Muito absorvido

D – A posição do equilíbrio em uma reação ácido-base

Para estimar a posição do equilíbrio em uma reação ácido-base, é necessário comparar os


valores de pK a do ácido e do ácido conjugado da base. O equilíbrio químico estará deslocado
para o ácido mais estável, ou seja, para a transformação que conduz à menor energia livre de
Gibbs. Um ácido ou uma base será capaz de se converter em seu par ácido ou base conjugado
se o processo for energeticamente favorecido (exergônico). Efetivamente, pode-se determinar
que a transformação irá ocorrer no sentido em que o ácido tiver o maior valor de pK a , ou
menor valor de K a pois como mencionamos anteriormente, a energia livre de Gibbs (ΔGº) tem
uma relação direta com o pK a do ácido e do ácido conjugado da base.

Um exemplo do uso dos valores de pK a para estimar a posição do equilíbrio é a reação do


amobarbital, um sedativo hipnótico, com o cianeto de sódio e com o hidróxido de sódio. Na
primeira reação, como o pK a do amobarbital é ligeiramente menor que o do ácido cianí-
drico (HCN) formado (ácido conjugado), ele é um ácido ligeiramente mais forte. Assim, no
equilíbrio a reação ácido-base terá ambas as espécies em quantidades apreciáveis, com o
equilíbrio ligeiramente deslocado para a direita. Já na reação com o hidróxido de sódio o
ácido conjugado formado é a água, com valor de pK a muito maior do que o do amobarbital,
portanto o equilíbrio estará deslocado quase que completamente para a formação da água,

62
ou seja, no sentido da direita. A diferença entre os valores de pK a dos dois ácidos é de 7,8
unidades fazendo com que a diferença de energia livre seja muito negativa. Portanto, o hi-
dróxido de sódio é uma base mais adequada para a desprotonação do próton do amobarbital.

pKa = 9, 1

pKa = 8, 0

pKa = 15,8

pKa = 8, 0

É possível também usar os valores de pK a dos ácidos para comparar a força das bases con-
jugadas. A base conjugada mais forte é proveniente do ácido mais fraco, ou seja, o ácido que
tem o maior valor de pK a. Por exemplo, o ácido cianídrico é mais fraco (pK a = 9,1) do que o
ácido clorídrico (pK a = -7,0), logo o íon cianeto (base conjugada do ácido cianídrico) é mais
forte do que cloreto (base conjugada do ácido clorídrico).

E – O efeito nivelador do solvente

Os ácidos fortes estão completamente dissociados em solução aquosa formando o hidroxônio


(H 3O+), e a respectiva base conjugada. Sendo assim, esses ácidos estão nivelados à força do
hidroxônio que é o ácido mais forte que pode existir em meio aquoso.

H3O + Efeito nivelador do solvente

63
Portanto, não é possível determinar a força relativa desses ácidos baseados exclusiva-
mente na reação de dissociação em meio aquoso. Só é possível afirmar que eles apresentam
valores de pK a menores do que 1,74, que é o valor para o hidroxônio.
De forma similar, as bases fortes estão completamente dissociadas em água para formar o
ânion hidróxido (OH-), que é a base mais forte que existe em solução aquosa. Todas as bases
mais fortes estão, portanto niveladas à força do hidróxido (pK a do ácido conjugado – H2O =
15,74) em meio aquoso.

H 2O

OH -
Efeito nivelador do solvente

Fica claro, analisando o efeito nivelador da água, que os valores de pK a em meio aquoso
são restritos a faixa entre os valores de pK a do hidroxônio (-1,74) e da água (15,74). Isso é um
ponto importante, pois se houver a necessidade de desprotonar uma substância com valor
de pK a alto, ou seja, desprotonar um ácido fraco (pK a 20-50) é impossível fazê-lo em água,
pois a base mais forte que se pode usar é o íon hidróxido. Portanto, para efetuar esse tipo de
reação ácido-base há a necessidade de se usar um sistema de solvente diferente do aquoso.
Por exemplo, na desprotonação do etino ou acetileno (pK a = 25) deve-se usar um sistema
cujo solvente é a amônia líquida e a base o amideto (NH2-) mais forte do que o íon hidróxido.

H 2O (l)
Equilíbrio deslocado
para a esquerda
pKa = 15,74
pKa = 25

NH 3(l)
Equilíbrio deslocado
pKa = 33 para a direita
pKa = 25

64
4 Fatores que Alteram a Acidez: Efeitos Estruturais e do Solvente

As variações na acidez e basicidade dos compostos orgânicos podem ser correlacionadas com
o efeito dos grupos substituintes presentes na estrutura dos ácidos e das bases, chamado de
efeito intrínseco ou estrutural e com o efeito do solvente.
As reações ácido-base podem ser efetuadas em fase gasosa, onde pode ser avaliada a dis-
sociação de qualquer ácido, do mais fraco ao mais forte ou em solução, cujos experimentos
são limitados pelo efeito nivelador do solvente.
Os dados de acidez e basicidade obtidos em fase gasosa servem para avaliar o efeito in-
trínseco do substituinte, visto que o efeito do solvente está ausente. Já em solução, além dos
efeitos intrínsecos, o efeito de solvatação deve ser levado em consideração.
Para as reações de dissociação de um ácido neutro H-A em fase gasosa, as variações de en-
talpia (ΔHº) são muito mais importantes do que as variações de entropia (ΔSº) e controlam a
energia livre de Gibbs (ΔGº) do processo de dissociação, que são muito desfavoráveis. Nessas
condições, a base conjugada (A-) está isolada, ou seja, sem solvatação, e a sua energia não é
afetada pelas interações com o solvente, como ocorre em solução. A estabilização depende
somente dos efeitos intrínsecos. Dessa forma, pode-se concluir que em fase gasosa os efeitos
intrínsecos afetam predominantemente o ΔHº da dissociação, conforme mostram os parâme-
tros termodinâmicos para a dissociação do ácido fórmico e do metanol, mostrados a seguir.

H H

∆H o ∆S o

É importante ressaltar que o efeito estrutural também está presente em solução, contri-
buindo para o valor de ΔHº, através da estabilização da base conjugada por diversos efei-
tos que veremos adiante. Entretanto, em solução, a solvatação também contribui de forma
importante para o ΔHº. Por isso que os processos mais favorecidos entalpicamente em fase
gasosa, não são necessariamente os mais favorecidos em solução. Além da mudança na
variação de entalpia, o efeito do solvente também influencia a variação de entropia, pois a
solvatação organiza os produtos fazendo com que ΔSº assuma valores negativos. Portanto,
em solução o controle da dissociação pode ser tanto entálpico quanto entrópico, dependendo

65
da contribuição de cada termo para a energia livre de Gibbs. Como exemplo, destacam-se os
parâmetros termodinâmicos para a dissociação do ácido fórmico e do ácido 4-cianobenzóico,
ambos com valores de pK a parecidos. O termo entálpico é mais favorecido para o ácido fór-
mico do que para o ácido 4-cianobenzóico, porém para o termo entrópico o favorecimento é
invertido. O balanço dos dois efeitos faz com que o ácido 4-cianobenzóico seja o mais forte.

pK a = 3,75

pK a = 3,55

Vários são os fatores estruturais que ajudam a estabilizar os ácidos conjugados ou as bases
conjugadas, entre destacam-se: a eletronegatividade do átomo ligado ao hidrogênio envol-
vido na reação ácido-base; o volume do átomo ligado ao hidrogênio; a hibridação; o efeito
polar (efeito de campo e efeito indutivo) e o efeito de ressonância. O entendimento desses
fatores é imprescindível para a compreensão da posição do equilíbrio nessas reações. Os
efeitos do solvente serão discutidos sempre que possível.

A – O efeito da eletronegatividade do átomo ligado ao hidrogênio

No grupo de compostos discriminados a seguir, onde todos os átomos ligados ao hidrogênio


pertencem ao segundo período da tabela periódica, é mostrada a acidez das ligações C-H ,
N-H , O-H e F-H em fase gasosa. Como se pode observar, o aumento da eletronegatividade do
átomo A- (base conjugada) conduz a um acréscimo na acidez, caracterizado pela diminuição
do valor de ΔGº. Isso significa que existe um aumento da capacidade de estabilização da car-
ga negativa gerada na base conjugada e esta estabilização aumenta a força do ácido, onde se
conclui que a eletronegatividade do átomo ligado ao átomo de hidrogênio gera na molécula
uma acidez intrínseca.

66
carbânion amideto

H H

alcóxido fluoreto

H
H

Força de ligação: C-H ~ 96-105 Kcal/mol; N-H = 107 Kcal/mol e F-H = 135 Kcal/mol

Aumento da Eletronegatividade Aumento da Acidez

pKa = 48 pKa ~ 38 pK a = 16 pK a = 3,2

A partir desses dados podem-se inferir algumas considerações importantes: a estabili-


zação do ânion A- pela eletronegatividade é um fator mais importante do que a força de
ligação H-A que vai dissociar, pois o ácido fluorídrico (H-F) é o ácido mais forte, apesar de
apresentar a ligação mais forte; a basicidade aumenta no sentido do fluoreto para o car-
bânion (basicidade - CH 3CH 2- > CH 3NH- > CH 3O - > F-), pois, como visto anteriormente, quanto
maior a força do ácido, mais estável (mais fraca) é a base conjugada; e por último que,
em fase gasosa, os valores de entropia são muito menores do que os valores de entalpia,
portanto, é a entalpia que controla o processo de dissociação. O fator intrínseco altera sig-
nificativamente o ΔHº; em solução, a ordem de acidez se mantém, como pode ser observado
através dos valores de pK a .
É importante destacar que as bases conjugadas, carbânion e amideto, devem ser gera-
das em um sistema de solvente diferente da água, a fim de se evitar o efeito nivelador do
solvente. Lembre-se que os valores de pK a do etano e da metilamina são muito superiores
ao da água (pK a = 15,7), portanto irão formar bases conjugadas muito mais fortes do que o
íon hidróxido.

67
B – O volume do átomo ligado ao hidrogênio

Quando se compara compostos da mesma coluna da tabela periódica, a força da ligação do


próton com esses compostos é o efeito dominante, portanto a acidez dos ácidos halogenídri-
cos não aumenta com a eletronegatividade do halogênio, mas com o seu volume. Ao descer
na tabela periódica, no grupo dos halogênios, por exemplo, há um aumento na acidez dos
compostos formados por esses átomos. Duas explicações plausíveis acerca do volume do áto-
mo podem ser atribuídas a esse aumento de acidez: a primeira é que o aumento do volume
do átomo de halogênio diminui a efetividade na sobreposição entre o orbital atômico 1s do
átomo de hidrogênio e o orbital p, sucessivamente maiores, (2p–F, 3p–Cl, 4p–Br e 5p–I) do
halogênio. A menor efetividade da sobreposição promove o enfraquecimento da ligação H-X
(X = halogênio); a segunda, diz respeito à densidade de carga, onde ânions maiores possuem
menor densidade de carga, o que explica a maior estabilidade do iodeto (ânion maior) se
comparado com o fluoreto (menor). Além disso, quanto mais fraca for a ligação H-X mais
estável será X- e sendo assim, esses dois efeitos são cooperativos.
Para corroborar com essas argumentações, a seguir são mostrados os dados termodinâmi-
cos para a dissociação dos ácidos halogenídricos em fase gasosa e em solução.

H H

H H

Força de ligação: H - F = 135 Kcal/mol; H - Cl = 103 Kcal/mol; H - Br = 88 Kcal/mol e H- I = 71 Kcal/mol

Aumento do Volume Aumento da Acidez

pK a = 3,2 pK a = -7, 0 pK a = -9, 0 pK a = -10,0

Aumento da Basicidade

68
A ordem de acidez dos ácidos halogenídricos não se altera em fase aquosa. A presença da
água facilita a dissociação dos ácidos através da estabilização por solvatação da base conju-
gada aniônica, diminuindo consideravelmente a energia livre de Gibbs de todas as reações.
Considerando o efeito de estabilização proporcionada ao ânion pela solvatação da água, o
fluoreto por ter maior densidade de carga (átomo menor) irá atrair eletrostaticamente, com
maior intensidade, as moléculas da água e deverá ser melhor solvatado, o que levaria a uma
inversão da ordem de acidez observada para a fase gasosa. Entretanto, uma solvatação mais
eficiente da base conjugada organiza melhor os produtos, desfavorecendo a entropia do sis-
tema. Assim espera-se que efeito entrópico causado pela solvatação em água desfavoreça a
dissociação do HF em relação ao HI , por exemplo. Como a ordem de acidez em solução não
se altera, quando comparado com a ordem em fase gasosa, pode-se concluir que o efeito
predominante do solvente ocorre no termo entrópico.
A mesma tendência na ordem de acidez pode ser aplicada para outras colunas da tabela
periódica, como por exemplo, os ácidos formados a partir das ligações com os átomos per-
tencentes ao grupo dos calcogênios (H2O - pK a = 15,7; H2S - pK a = 7,0 e H2Se - pK a = 3,9).

C – O aumento da superfície molecular

A estabilização da carga negativa em ânions provenientes de uma mesma função orgânica


em fase gasosa cresce à medida que a superfície molecular aumenta. Esse efeito ocorre de-
vido à polarização das ligações vizinhas sob a influência da carga negativa gerada na base
conjugada, permitindo que esses grupos recebam elétrons. O espalhamento dos elétrons au-
menta a distância média entre eles, diminuindo a repulsão eletrostática e consequentemente
a energia potencial da molécula. Para exemplificar esse efeito de estabilização é mostrado
a seguir os dados termodinâmicos para o processo de dissociação do metanol, etanol, iso-
propanol e terc-butanol em fase gasosa e os valores de pK a desses alcoóis em solução. Fica
evidente que em fase gasosa, a ordem de acidez depende do volume do alcóxido que se forma
como base conjugada e a acidez aumenta na ordem do metanol para o terc-butanol (menor
valor de ΔGº), pois nessa ordem também aumenta a superfície molecular.

69
Aumento da acidez
Aumento da acidez

pK a = 19,0 pK a = 18,0 pK a = 16,0 pK a = 15,8 Solvatação

Em solução aquosa, ocorre uma inversão da ordem de acidez, onde o metanol agora é o
mais ácido (pK a = 15,8) e o terc-butanol o menos ácido (pK a = 19,0) com o etanol e o isopro-
panol ocupando posições intermediárias, o que corrobora com o raciocínio. Essa inversão
da acidez ocorre devido a menor solvatação no átomo de oxigênio do ânion terc-butóxido,
devido ao maior impedimento espacial (estérico) proporcionado pelos grupos metilas ligados
ao carbono quaternário. Essa diminuição do efeito de solvatação diminui a estabilidade da
base conjugada no que se refere à entalpia do processo.
Nas aminas a ordem de acidez dos ácidos conjugados em fase gasosa também é direta-
mente proporcional ao volume da superfície molecular. A dispersão da nuvem eletrônica das
ligações com os substituintes existentes na molécula na direção da carga positiva no cátion
auxilia na estabilidade desse íon. Essa acidez, como nos alcoóis, pode ser chamada de acidez
intrínseca, pois a estabilização da carga é puramente estrutural.

H H Aumento da acidez

Aumento do volume da superfície molecular

Em solução aquosa, o efeito da solvatação favorece o íon (CH3)3NH+ para ser o mais ácido
da série, pois por possuir o maior número de grupamentos metilas volumosos o torna menos

70
solvatado, desfavorecendo a entropia da reação e consequentemente tornando-se menos estável.
A razão pela qual a entropia é desfavorecida consiste no impedimento estérico da solvatação, de
maneira que, quando grupamentos volumosos estão presentes, a água para formar interações
fortes e solvatar eficientemente o cátion deverá estar mais organizada. A princípio a ordem de
acidez em solução aquosa, levando em consideração apenas o efeito de solvatação seria:

H H Aumento da acidez

Diminuição do efeito de solvatação

Contudo, deve-se destacar que a ordem de acidez em solução aquosa desses sais de amônio
é o resultado do somatório do efeito intrínseco, discutido para o processo de dissociação em
fase gasosa, com o efeito de solvatação, discutido anteriormente. De forma que, a ordem de
acidez em água apresenta a seguinte tendência.

Aumento da acidez
H H
Aumento do volume da superfície molecular
e
Efeito de solvatação

D – O efeito da hibridação

Cabe lembrar que os alquinos, como por exemplo, o etino (pK a = 24,0), são mais ácidos do
que os alquenos (eteno - pK a = 44,0), que por sua vez são mais ácidos do que os alcanos
(etano - pK a = 48,0). Essa ordem de acidez das ligações C-H pode ser atribuída a um fator
intrínseco, que resulta do estado de hibridação do átomo de carbono. Para entender o efeito
da hibridação é necessário entender a influência do orbital atômico s nos orbitais híbridos
sp, sp2 e sp3. O orbital s está mais próximo do núcleo e por isso, tem menos energia do que o
orbital p. No ânion acetileto, base conjugada formada pela desprotonação do etino, o átomo
de carbono que contém a carga negativa, possui uma hibridação sp com 50% de contribui-
ção do orbital atômico s, está mais próximo do núcleo do átomo de carbono do que no eteno
(orbital híbrido sp2 com 33% de contribuição do orbital atômico s) e do que no etano (orbital
híbrido sp3 com 25% de contribuição do orbital s). Essa maior proximidade com o núcleo do
átomo de carbono permite uma maior estabilização eletrostática da carga negativa. Como
a capacidade de estabilização da carga negativa pelos orbitais híbridos segue a ordem sp >
sp2 > sp3 podes-se dizer que o orbital sp é o mais eletronegativo da série.

71
sp 3
NH3 (l)
C H
H
pKa = 48,0 pKa = 38,0
sp 2
NH3 (l)
C H
H
pKa = 44,0 pKa = 38,0
sp NH 3 (l)
C H H
pKa = 24,0
pKa = 38,0

As reações mostradas anteriormente, não podem ser feitas em água ou álcool, que são bem
mais ácidos do que o etino e reagem vigorosamente com o amideto de sódio para formar
amônia e hidróxido ou alcóxido de sódio, respectivamente. Novamente, usa-se um sistema
de solvente diferente para evitar o efeito nivelador do solvente.
Essa diferença de eletronegatividade devido a hibridação do átomo de carbono pode in-
terferir na ordem de acidez de uma série de outros compostos, como por exemplo, os ácidos
carboxílicos e os alcoóis.

O efeito da hibridação também é evidente na acidez de compostos nitrogenados protonados.


O pK a da nitrila protonada é próximo de 12 ( nitrogênio com hibridação sp), enquanto que o
íon piridínio é 5,23 (nitrogênio sp2) e o alquilamônio em torno de 10-11 (nitrogênio sp3).

sp 2
N

N N H
sp
sp 3

N
sp 2

Aumento do caráter s

72
E – O efeito polar

O efeito polar é a influência de grupos polares sobre a reatividade de um grupo funcional. Ele
pode ser dividido em efeito indutivo e efeito de campo.
A estabilização da base conjugada de um ácido é um fator importante que interfere direta-
mente na acidez do ácido. Qualquer átomo ou grupo que seja capaz de atrair a carga negativa
formada na base conjugada após a desprotonação do ácido pela base e, com isso dispersá-la,
ajuda na sua estabilização e, por conseguinte aumenta a força do ácido.
Nesse contexto, um efeito intrínseco importante é o efeito indutivo atrator de elétrons, que
se inicia com a polarização da ligação σ entre o átomo de carbono e um átomo mais eletro-
negativo do que ele, como por exemplo, N, O ou F. Essa polarização é o resultado de uma
distribuição desigual dos elétrons entre os átomos envolvidos na ligação onde a densidade
eletrônica fica mais próxima do átomo mais eletronegativo. Essa polarização inicial é poste-
riormente passada através das ligações σ adjacentes no esqueleto carbônico de forma a perder
gradativamente a intensidade à medida que se afasta do centro contendo a carga negativa.
Para exemplificar a atuação do efeito indutivo atrator de elétrons na acidez dos compostos
orgânicos, é apresentado a seguir os valores de pK a em água, de diversos ácidos clorobuta-
nóicos substituídos: inicialmente, pode-se verificar que o ácido 2-clorobutanóico (pK a = 2,8) é
significativamente mais forte do que o ácido butanóico (pK a = 4,8). Esse aumento significativo
da acidez pode ser atribuído ao efeito atrator de elétrons exercido pelo átomo de cloro, auxi-
liando na dispersão da carga negativa gerada na base conjugada através da polarização das
ligações σ. Outro ponto importante a ser notado é que o átomo de cloro no carbono C4 quase
não tem efeito sobre a acidez do ácido 4-clorobutanóico (pK a = 4,5), visto que o valor do seu
pK a é muito próximo ao do ácido butanóico, o que confirma a perda gradativa de intensidade
do efeito indutivo a medida que a polarização das ligações tornam-se enfraquecidas. A força
intermediária da acidez do ácido 3-clorobutanóico (pK a = 4,1) corrobora essas explicações.

R H H R

δ−
Cl δ+
δ+ δ+
δ+ δ+
Cl δ − δ+ Cl δ −

pK a = 4, 8 pK a = 4, 8 pK a = 4, 1 pK a = 4, 5

Efeito indutivo atrator de


elétrons

73
As análises feitas até o momento para o efeito indutivo foram baseadas somente no efeito
estrutural e podem ser usadas para prever a acidez de diversas substâncias, embora não leve
em consideração o efeito do solvente. A introdução de grupos polares nas moléculas altera
também o efeito de solvatação, como veremos, analisando a acidez em fase gasosa e em água
dos ácidos iodo, cloro e fluoroetanóico. Os dados em fase gasosa mostram que a acidez aumen-
ta na direção do ácido iodoetanóico, por gerar uma base conjugada, o ânion carboxilato, com
maior superfície molecular para a dispersão da carga. Esse fator é puramente intrínseco, visto
que o fator interferente é o volume do átomo de iodo que é maior do que os demais. É possível
notar, entretanto, que essa ordem é invertida em água, provavelmente devido a maior ental-
pia de solvatação do ácido fluoroacetato em relação aos outros carboxilatos da série.

X X H X X H
H H

X
I Cl
X

X pK a = 2, 90 pK a = 2, 85
X
F

pK a = 2, 70

Grupamentos fortemente atratores de elétrons, como o grupo nitro, amônio, nitrila e car-
bonila estabilizam intensamente o ânion formado pela desprotonação do ácido, aumentando
a acidez relativa do ácido, como mostrado a seguir para a dissociação em água de uma série
de ácidos carboxílicos substituídos por grupos atratores de elétrons.

O
O 2N (H 3 C) 3 N NC
pK a = 4,76 pK a = 1,7 pK a = 1,8 pK a = 2,4 pK a = 3,6

De modo contrário, grupos doadores de elétrons deverão diminuir a estabilidade da base


conjugada, pois em vez de ajudar a dispersar a carga negativa, eles contribuem para a sua
concentração. O efeito intrínseco proporcionado por esses substituintes é chamado de efeito
indutivo doador de elétrons. Os grupamentos alquilas, tais como o metila, etila, isopropila, en-
tre outros, são os mais comuns. Para exemplificar esse efeito é mostrado a seguir, os valores
de pK a em água do ácido metanóico (fórmico) e etanóico (acético). Alguns autores sugerem
também, que a diminuição da acidez em solução tem uma grande influência da solvatação.
A introdução de grupamentos alquila, e principalmente os mais volumosos, desfavorecem a

74
entropia do processo de dissociação, como já foi explicado anteriormente, quando foi discutida
a influência do aumento do volume da superfície molecular na acidez dos compostos orgânicos.

H H3C

pK a = 3, 7 pK a = 4, 8

Outra abordagem para o efeito polar considera o efeito produzido pelo grupo substituinte
sobre o centro da reação, ou seja, onde é gerada a carga negativa na base conjugada, ocor-
rendo diretamente através do espaço. Este efeito é denominado efeito de campo. O efeito de
campo, assim como o efeito indutivo, depende da interação entre dois momentos dipolares,
um deles é centro contendo a carga negativa na base conjugada, chamado de μ1, e o outro
gerado pelo substituinte (μ2). Essa interação forte de natureza eletrostática (ânion-dipolo),
que se dará através do espaço, domina a estabilidade do sistema e depende da distância e do
ângulo entre os dois dipolos. Se a estrutura molecular for rígida, a distância entre o ânion e
o substituinte não sofrerá alteração. Normalmente, a intensidade da interação ânion-dipolo
tem relação direta com a distância (r) e com a orientação entre eles, através do cosseno do
ângulo formado (cosθ) e do valor da interação eletrostática (μ). Quando a distância entre os
grupos é fixa, a orientação e o momento dipolo que variam em função do substituinte de-
terminam a acidez da molécula.

Molécula
X Cl
conformacionalmente
restrita Cl
CO2

Molécula
conformacionalmente pK aH = 6,1
restrita C
Cl
X Cl
CO2

pK aH = 5,7

No exemplo anterior, o número de ligações entre os átomos de cloro e o carboxilato é


igual. Se fosse considerado somente o efeito indutivo os valores de pK a das duas substâncias
deveria ser igual, sugerindo que nesse caso o efeito de campo é mais importante do que o
efeito indutivo. No primeiro exemplo o dipolo gerado pelos átomos de cloro está orientado na
mesma direção do dipolo do grupo carboxilato, fazendo com que o cosθ seja maior do que 90o
e, portanto aumentando a energia de interação entre os dipolos o que diminui a estabilidade
do carboxilato e consequentemente diminui a força do ácido.

75
F – O efeito de ressonância

O fenômeno da ressonância, discutido em detalhes na aula 2, é provavelmente o conceito


mais importante usado para relacionar a estrutura dos compostos orgânicos com diversas
propriedades químicas.
Um exemplo clássico para exemplificar o efeito de ressonância é a diferença de acidez
quando se compara o processo de dissociação de um álcool, um fenol e um ácido carboxíli-
co. Essa diferença pode ser atribuída à estabilização por ressonância das bases conjugadas
oriundas do ácido carboxílico e do fenol. Ao analisar os dados termodinâmicos destas rea-
ções em fase gasosa, fica evidente o efeito intrínseco (estrutural) proporcionado pelo grupo
carbonila do ácido carboxílico e pelo anel aromático do fenol na estabilização do carboxila-
to e do fenóxido, respectivamente, quando comparado com o etóxido.

Fase Gasosa
O O

H 3C OH H3C O + H + ∆G o = 341,1; ∆H o = 348,1; ∆S o = 23,5; Τ∆S o = 7, 0


Ácido acético Acetato (caboxilato)
OH O
+ H + ∆G o = 342,3; ∆H o = 350,4; ∆S o = 27,2; Τ∆S o = 8, 1

Fenol Fenóxido
C2H5 OH C2H5 O + H + ∆G o = 371,7; ∆H o = 378,3; ∆S o = 22,1; Τ∆S o = 6, 6
Etanol Etóxido

O íon acetato é mais estável do que o íon fenóxido, pois apresenta duas estruturas de
ressonância energeticamente iguais, distribuindo a carga negativa entre os dois átomos de
oxigênio, eletronegativos. Já para o fenóxido, podem ser escritas cinco estruturas de resso-
nância, entretanto, esse ânion é menos estável, pois em três estruturas canônicas a carga
negativa está localizada em átomos de carbono. Essas estruturas possuem mais energias, do
que àquelas em que a carga negativa está no átomo de oxigênio, contribuindo menos para
a estabilidade do híbrido de ressonância. No etóxido, não existe deslocalização eletrônica.
Note que em fase gasosa o único efeito existente é o efeito de ressonância, a pequena dife-
rença nos valores de ΔGº do ácido acético e do fenol mostra que o efeito do anel aromático é
quase tão importante quanto o da carbonila.

O δ
C δ
H 3C O
Híbrido de ressonância

O δ
δ δ

δ
Híbrido de ressonância

76
Os valores de pK a para essas substâncias obtidas em meio aquoso, mostra que não há in-
versão na ordem de acidez. A diferença na acidez entre o álcool, o fenol e o ácido carboxílico
em solução pode ser atribuída ao fator intrínseco, ou seja, o efeito de ressonância e ainda ao
efeito de solvatação dessas substâncias. O acetato, como dito anteriormente, apresenta duas
estruturas de ressonância com energias iguais onde a carga negativa está mais dispersa e
por isso, ele é menos solvatado. A menor eficiência na dispersão da carga no íon fenóxido,
quando comparado com o acetato faz com que ele tenha uma solvatação maior. O etóxido é
presumivelmente o mais solvatado dos três, pois a carga está localizada no átomo de oxigê-
nio. Essa diferença na solvatação das bases conjugadas afeta as entropias dos processos de
dissociação. O ânion menos solvatado (carboxilato), aumenta a entropia dos reagentes em
comparação com a entropia dos produtos, o que favorece o processo de dissociação.

H H

pK a = 4, 8 pK a = 16,0
pK a = 10,0

O aumento da acidez do ácido carboxílico pode ser atribuído também ao efeito indutivo
atrator de elétrons exercido pelo grupo carbonila, estabilizando a carga negativa no car-
boxilato via indução. Cabe ressaltar que muitas vezes é difícil separar o efeito indutivo do
efeito de ressonância no processo de estabilização dos ânions.
Outra série de estruturas em que o efeito de ressonância tem um papel preponderante é o
conjunto de fenóis substituídos mostrados a seguir. Em solução aquosa, o pK a do p-nitrofenol
é igual a 7,2, comparado ao do fenol (pK a = 10,0), enquanto que o 2,4-dinitrofenol tem um pK a
de 4,0 e finalmente o ácido pícrico com valor de pK a de 0,4.

H H H H

pKa = 10,0

pKa = 7,2 pKa = 4,0 pKa = 0,4

Efeito indutivo atrator


Estruturas de ressonância do íon p-nitrofenóxido de elétrons do grupo nitro

Capacidade de receber elétrons


do grupo nitro

77
Certamente, uma parte do efeito exercido pelo grupo nitro na estabilização da base conju-
gada pode ser atribuída ao seu forte efeito indutivo atrator de elétrons, mas a sua habilidade
em deslocalizar a carga negativa do ânion fenóxido também contribui para a estabilidade
do ânion. O efeito de ressonância e o efeito indutivo exercidos pelo grupo nitro na estabili-
zação da base conjugada pode ser confirmado através da comparação dos valores de pK a do
p-nitrofenol (7,2) com o do m-nitrofenol (8,36) e com o do fenol (10,0). O grupo nitro na base
conjugada do m-nitrofenol não estabiliza a carga negativa por ressonância, somente via
indução, e, portanto é o efeito indutivo atrator de elétrons do grupo nitro o responsável pela
diminuição do valor de pK a em praticamente duas unidades, comparado ao fenol. A diminui-
ção da outra unidade no p-nitrofenol pode ser atribuída ao efeito de ressonância.
As ligações C-H em alcanos são pouco ácidas, pois o átomo de carbono, pouco eletrone-
gativo, não estabiliza bem o carbânion formado na base conjugada. A presença de grupos
funcionais, adjacente a ligação C-H que vai dissociar, com habilidade para estabilizar a carga
negativa do carbânion por ressonância, aumenta a acidez desses hidrogênios (efeito intrín-
seco). Os principais grupos que estabilizam a carga negativa por ressonância são mostrados
abaixo. Todos eles possuem como característica química comum a presença de grupos insa-
turados vicinais ao carbono negativo. O orbital π destes grupos tem uma orientação paralela
ao orbital p do carbono negativo, gerando uma interação entre esses orbitais, propiciando a
ressonância e consequentemente à estabilização da carga.

Hα Hα Hα Hα Hα

N O C R C N C OR C NR2
O O O O
pK a ~ 10,0 pK a ~ 20,0 pK a ~ 25,0 pK a ~ 25,0 pK a ~ 25,0

Hα Hα Hα Hα
OR H
S C R
O O
C pK a ~ 49,0
pK a ~ 33,0 pK a ~ 41,0 H H
pK a ~ 43,0

A presença de um grupo carbonila adjacente a uma ligação C-H é suficiente para diminuir a
acidez desse átomo de hidrogênio, como mostra os valores de pK a acima. O pK a característico
de alcanos (49,0) passa para aproximadamente 20,0 em aldeídos e cetonas. Essa redução do
valor de pK a, ou seja, aumento na acidez, se deve ao fato de que nos alcanos, o carbânion
formado possui a carga negativa localizada no átomo de carbono, enquanto que nos aldeídos
e cetonas, essa mesma carga negativa pode ser deslocalizada para o átomo de oxigênio da
carbonila, gerando um efeito estabilizador de ressonância. O ânion obtido pela deslocaliza-
ção da carga negativa para o átomo de oxigênio recebe o nome de enolato e é muito mais
estável do que o carbânion proveniente do alcano.

78

NH3 (l)
R R H

pK a ~ 49,0 pK a = 38,0


NH 3 (l) R
R C H
C R C
O O O
pK a = 38,0
pK a ~ 20,0

O efeito de duas carbonilas sobre a acidez do H α da ligação C-H é cooperativo, pois o eno-
lato será estabilizado duplamente, tornando-se mais estável. Consequentemente substância
contendo uma ligação C-H vicinal a duas carbonilas, como a 2-4-pentanodiona (pK a = 8,84)
ou a qualquer outro grupamento atrator de elétrons, capaz de estabilizar a carga negativa
por ressonância, como a malonitrila (pK a = 11,2) e o dinitrometano (pK a = 3,63) tornam-se bem
mais ácidas. Esses compostos são chamados de metileno ativo.


H2O (l) R C R R
R C R
C R C C R
C C R C
O O
O O Na O O O O Na

pK a ~ 8, 0 - 12,0

pK a = 8,84 pK a = 11, 2 pK a = 3,63

Outro caso onde a ressonância influencia a acidez do carbono pode ser observado compa-
rando-se os valores de pK a do metano (~ 48), do tolueno (41,2), difenilmetano (33,0) e final-
mente do trifenilmetano (31,5). Esses valores de pK a demonstram que aumentado o número
de grupos fenila, diminui o valor do pK a, consequentemente aumenta a acidez da ligação C-H.
Isso é o que se espera pois, aumentando o número de grupamentos fenilas, a carga negativa
gerada na base conjugada pode ser estabilizada por mais anéis através do efeito de ressonân-
cia. Entretanto, pode ser notado também que com a adição sucessiva de anéis fenila, há uma
diminuição no efeito exercido sobre o pK a: o primeiro anel diminui aproximadamente oito
unidades o valor do pK a, o segundo sete e o terceiro somente uma unidade. A explicação para
essas observações experimentais deve-se ao fato de que para se ter uma deslocalização efe-
tiva da carga negativa, todo o sistema deve ser completamente planar. No caso do trifenil-
metano os três anéis não conseguem assumir uma disposição espacial coplanar em torno do
átomo de carbono, pois, os átomos de hidrogênio em posição orto de cada anel fenila tendem
a ocupar o mesmo espaço aumentando a repulsão estérica (espacial). Esse composto adota

79
uma forma espacial em hélice onde cada grupamento fenila está ligeiramente torcido em
relação aos vizinhos, diminuindo a efetividade da sobreposição dos orbitais e consequente-
mente a deslocalização eletrônica. Esse efeito é denominado inibição estérica da ressonância.

H H

H H H H H
H H
H H H H

pK a ~ 48, 0 Impedimento estérico dos átomos


de H nas posições orto dos anéis
pK a = 41,2 pK a = 33,0 pK a = 33,0

5 Fatores que Alteram a Basicidade: Efeitos Estruturais e do Solvente

Bases são substâncias capazes de receber um próton (basicidade de Brønsted-Lowry) ou de


doar um par de elétrons (bases de Lewis). Assim como na acidez, a basicidade dos compostos
orgânicos pode ser correlacionada com o efeito dos grupos substituintes presentes na estru-
tura das bases e a sua força com a sua estabilidade, ou seja, quanto mais estável ela for, mais
fraca será. Assim, uma base carregada negativamente é mais suscetível a receber um próton
de um ácido do que uma neutra; um composto em que a carga negativa está deslocalizada é
menos básico do que outro em que a carga está localizada. Foi visto na sessão anterior que
um ácido carboxílico é um ácido mais forte do que um álcool, porque no ácido carboxílico a
carga negativa formada pela desprotonação está deslocalizada entre os dois átomos de oxi-
gênio do carboxilato, contudo está localizada no átomo de oxigênio do alcóxido. Em outras
palavras, o alcóxido é uma base mais forte do que o carboxilato porque os seus elétrons
estão mais disponíveis para serem protonado.
Analisando uma base neutra, existem dois fatores que determinam a sua força: a acessi-
bilidade do par de elétrons e o quanto a carga positiva gerada pela protonação da base pode
ser estabilizada por efeitos intrínsecos ou pelo solvente.

80
A acessibilidade do par de elétrons em um átomo torna-se menor quando: esse átomo
estiver ligado a um grupo atrator de elétrons (efeito indutivo atrator de elétrons); o par de
elétrons estiver em um átomo com hibridação sp ou sp2, com maior percentual de caráter s;
quando estiver conjugado a um grupo atrator de elétrons; quando estiver em átomo muito
eletronegativo, como por exemplo o oxigênio e ainda quando estiver envolvido na manuten-
ção da aromaticidade de um sistema.
A seguir serão mostrados alguns exemplos de bases nitrogenadas neutras que explicam
esses fatores: Os valores de pK aH de alguns ácidos conjugados de aminas em que o átomo de
nitrogênio sofre o efeito indutivo de um grupo atrator de elétrons são mostradas a seguir. Os
grupamentos fortemente atratores de elétrons CF3 e CCl3 tem um largo efeito quando eles estão
ligados ao átomo de carbono contendo o grupamento NH2 , contudo ele perde intensidade quan-
do torna-se mais afastado. O efeito indutivo decresce rapidamente com a distância. Nunca é de
mais lembrar que os valores de pK aH fazem referência a acidez das aminas protonadas (ácidos
conjugados) e quanto mais fraco for o ácido, mais forte será a base, no caso, a amina. O gru-
pamento atrator de elétrons diminui a disponibilidade do par de elétrons para receber o próton.

Cl 3C Cl 3C F 3C F 3C H 3C
pK aH = 9,65 pK aH = 5,70 pK aH = 8,70 pK aH = 10, 6
pK aH = 5,50

Se o par de elétrons estiver em um átomo de nitrogênio com hibridação sp ou sp2 ele es-
tará mais fortemente atraído eletrostaticamente pelo núcleo tornando-se mais difícil de ser
protonado. Isso explica, por exemplo, porque o grupo nitrila não é tão básico e necessita de
um ácido forte para ser protonado.

pK aH = 10, 7 pK aH = 9,2 pK aH ~ -10,0

A anilina é uma base fraca em meio aquoso, o que pode ser avaliado pela força do seu ácido
conjugado (pK aH = 4,62) em relação ao ácido conjugado da amônia (pK aH = 9,25) ou da cicloexi-
lamina (pK aH = 10,68). Através dos dados obtidos em fase gasosa, a anilina é intrinsecamente
mais básica do que a amônia, pois a alta densidade eletrônica do anel aromático ajuda a esta-
bilizar a carga positiva do nitrogênio no íon anilínio. Além disso, esse íon possui uma super-
fície molecular maior, o que permite um melhor espalhamento da carga positiva. Com esse
resultado, é possível perceber que a diminuição da densidade eletrônica do nitrogênio pelo
efeito de ressonância, em outras palavras, a deslocalização do par de elétrons não ligante do
átomo de nitrogênio para o anel aromático, é um efeito secundário para o efeito intrínseco.

81
Isso pode ser explicado da seguinte maneira: para que haja a deslocalização os elétrons não
ligantes do nitrogênio deverão estar em um orbital p e, por conseguinte o átomo de nitrogê-
nio deverá possuir uma hibridação sp2. Com essa hibridação, a geometria do grupo amina é
muito próxima da trigonal planar onde os átomos de hidrogênios deveriam ficar coplanar ao
anel aromático. Porém esse arranjo aumenta a energia da molécula, devido ao aumento do
impedimento estérico. A fim de minimizar essa interação desestabilizadora os hidrogênios
do grupamento amino deslocam-se aproximadamente 40º em relação ao plano do anel aro-
mático, deixando o par de elétrons parcialmente conjugado, ou seja, prejudicando a sua so-
breposição com os orbitais p dos átomos de carbono do anel aromático.

H
H
H H

4 o
~ 40

H
H H
H

pK a = 4,62 pK a = 9,24

Em meio aquoso a ordem de acidez é invertida, pois agora é a dissociação do íon anilínio
que possui o menor valor de ΔGº. Desta maneira, a diferença de basicidade da anilina em re-
lação à amônia em fase aquosa tem sua origem no efeito de solvatação. O íon amônio é mais
solvatado do que o anilínio porque possui o maior número de hidrogênios capaz de fazer
ligação de hidrogênio com a água e por ser menos impedido estericamente. O anel aromático
mais volumoso dificulta a solvatação do grupamento amino. Do ponto de vista entálpico, a
maior estabilidade do íon amônio devido a sua maior solvatação desfavorece o seu processo
de dissociação. Já o termo entrópico mostra um favorecimento para o processo de dissocia-
ção do íon anilínio, pois o fato desse cátion ser mais estável (efeito intrínseco) faz com que
ele seja menos solvatado, aumentando a entropia dos reagentes, quando comparado com os
produtos (íon hidroxônio é mais solvatado do que o anilínio).

82
Ao contrário das aminas aromáticas, o grupo amida é completamente planar com átomo
de nitrogênio hibridizado sp2 e com os elétrons não ligantes em um orbital p. Esse arranjo
espacial permite uma sobreposição eficiente com o grupo carbonila, diminuindo a disponibi-
lidade do par de elétrons não ligante do átomo de nitrogênio e, portanto, tornando-o menos
básico (pK aH amida ~ 0-1).

-

δ+ R
R N
R
Híbrido de
ressonância

Devido a essa deslocalização, onde a maior densidade eletrônica está no átomo de oxigênio,
a amida não é protonada no átomo de nitrogênio. Se a protonação ocorresse no nitrogênio,
ele assumiria uma carga formal positiva adjacente ao carbono do grupo carbonila também
deficiente de elétrons, o que é energeticamente desfavorável. Dessa forma, a protonação ocor-
re no átomo de oxigênio, onde a carga positiva formada pode ser estabilizada por um efeito
de ressonância. O átomo de oxigênio é portanto mais básico do que o nitrogênio na amida.

H H
H

Energeticamente desfavorável

Ressonância estabiliza o ácido conjugado

As amidinas são equivalentes nitrogenados das amidas, onde um grupo C=NH substitui a
carbonila. Elas são muito mais básicas do que as amidas (pK aH amidinas ~ 12). Uma amidi-
na possui dois átomos de nitrogênio que podem ser protonados, um possui hibridação sp3
e outro sp2. Pelo efeito da hibridação, o átomo de nitrogênio com o menor % de caráter s
(sp3), portanto menos atraído pelo núcleo, deveria ser o mais básico e, portanto protonado
preferencialmente. Contudo, a protonação ocorre primeiro no nitrogênio sp2 por uma ra-
zão muito semelhante à protonação preferencial do átomo de oxigênio da amida: somente
ocorre deslocalização da carga positiva formada entre os heteroátomos se a protonação
ocorrer no nitrogênio sp2.

83
H H
N N

C C H

p K aH = 12, 4

Mais básicas que as amidinas são as guanidinas (pK aH = 13,6), normalmente uma base mais
forte do que o hidróxido de sódio. A protonação do átomo de nitrogênio com hibridação sp2
forma um cátion altamente estabilizado por ressonância, onde a carga positiva está distri-
buída pelos três átomos de nitrogênio.

H
N

C
H
H2N NH2
pK aH = 13, 6

Bases oxigenadas, normalmente são muito mais fracas do que as nitrogenadas devido à
diferença de eletronegatividade entre esses átomos. Porém, é importante conhecer alguns
valores de pK aH de compostos oxigenados pois muitas reações começam com a protonação de
um composto oxigenado.

Aldeído ou Cetona

Ácido carboxílico
H

Fenol

Ésteres carboxílicos
H

Álcoois
H

Éteres

84
Resumo e Palavras-chave

Acidez e basicidade estão intimamente relacionadas a fatores intrinsecos e de solvatação. Um


ácido de Brønsted-Lowry é todo e qualquer composto capaz de doar um próton (H+) e uma base
de Brønsted-Lowry é um composto capaz de receber um próton. A força de um ácido ou de
uma base pode ser expressa por sua constante de acidez (Ka) e de basicidade (Kb), respectiva-
mente, ou pelo seu logaritmo decimal negativo (pKa). Quanto menor for o valor de pK a de um
ácido, mais forte ele será e portanto, estará mais dissociado. A constante de acidez pode ser
diretamente relacionada com a energia livre de Gibbs, num processo termodinâmico onde o
equilíbrio estará deslocado para espécie mais estável. A equação de Henderson-Hasselbalch,
correlaciona o pK a de um ácido com o valor de pH do meio e com a concentração de suas
espécies dissociadas e não dissociadas. Ela pode ser usada, por exemplo, para calcular o per-
centual de ionização de fármaco em um determinado compartimento fisiológico. A força dos
ácidos e das bases fortes, que são completamente dissociadas em água para formar os íons
hidroxônio e hidróxido, respectivamente, é nivelada por esse solvente. Esse efeito é chamado
de efeito nivelador do solvente. Uma outra definição muito útil e mais abrangente sobre ácidos
e bases foi descrita por Lewis, onde o ácido de Lewis é qualquer composto capaz de receber
um par de elétrons e a base de Lewis é qualquer substância capaz de doar um par de elétrons.

Ao término dessa aula você deverá ser capaz de:

Entender porque algumas molécula orgânicas são ácidas e outras básicas;


Reconhecer os pares ácidos/bases conjugados;
Saber porque alguns ácidos são mais fortes do que outros;
Saber porque algumas bases são mais fortes do que outras;
Escrever a constante de acidez e o seu logaritmo decimal negativo para uma reação
ácido-base;
Estimar a acidez e a basicidade usando pH e pK a;
Estimar para que lado o equilíbrio estará deslocado usando o pK a e ΔGº;
Saber qual próton é o mais ácido em uma molécula orgânica mais complexa;
Saber qual par de elétrons é o mais básico em uma molécula orgânica mais complexa;
Correlacionar a acidez e a basicidade com a solubilidade;

Olhando a diante

Reações ácido-base estão envolvidas em diversos mecanismos de reações;


Catálise ácida e básica nas reações de grupos carbonilas;
Uso de ácidos de Brønsted-Lowry e de Lewis nas reações de substituição eletrofílica
aromática;
Reações seletivas a partir do uso de ácidos ou bases.
85
A t i v i da des
1ª Questão: Os fenóis mostrados a seguir possuem valores aproximados de constante de aci-
dez de 4, 7, 9, 10 e 11. Correlacione os valores de pK a com as respectivas estruturas e explique
a sua resposta.

2ª Questão: O composto mostrado a seguir, tem por razões óbvias, sido chamado de ácido
quadrático. O ácido quadrático é um ácido diprótico, com ambos os prótons sendo mais
ácido do que o ácido acético. No diânion obtido após a perda de ambos os prótons, todas as
ligações carbono-carbono tem o mesmo comprimento, bem como todas as ligações carbono-
oxigênio. Forneça uma explicação para essas observações experimentais.

3ª Questão: Um aminoácido possui tanto um grupo funcional ácido quanto um básico,


portanto, podendo, em solução aquosa, ocorrer uma reação ácido-base entre eles para
produzir uma espécie chamada zwitterion ou íon dipolar, como mostrado a seguir. Usando
uma tabela de pK a diga qual das duas espécies será favorecida no equilíbrio e justifique a
sua resposta.

4ª Questão: Coloque os compostos mostrados a seguir em ordem crescente de acidez. Expli-


que resumidamente a sua resposta.

5ª Questão: O ácido ascórbico (vitamina C) possui a estrutura mostrada a seguir. O próton


mais ácido da sua estrutura possui um pK a de 4,10, enquanto que o segundo próton mais
ácido tem um valor de pK a de 11,99. Escreva a estrutura da base conjugada que resulta da
primeira ionização e explique a sua escolha para o próton removido na primeira ionização.

86
6ª Questão: Seja um ácido orgânico de fórmula geral XCH2COOH , onde X poderá ser substi-
tuído por H , F, Cl, ou Br. Pergunta-se: em qual dos casos o ácido será mais fortemente disso-
ciado em solução aquosa?
a) X = H
b) X = F
c) X = Cl
d) X = Br
e) X = I

7ª Questão: A tabela demonstra as constantes de ionização ácida de substâncias orgânicas


em água a 25ºC. A partir dos dados da tabela, é incorreto dizer que:

Substância Ka
Ácido acético (CH 3COOH) 1,8 x 10 -5
Etanol (CH 3CH2OH) 1,0 x 10 -18
Fenol (C6H5OH) 1,3 x 10 -10
2-nitrofenol (C6H4(NO2)OH) 6,2 x 10 -8

a) o ácido acético é o ácido mais fraco das substâncias listadas na tabela quando estas estão
dissolvidas em água.
b) o etanol é o ácido mais fraco das substâncias listadas na tabela quando estas estão dis-
solvidas em água.
c) fenol é menos ácido que 2-nitrofenol em água.
d) o ácido acético é o ácido mais forte das substâncias listadas na tabela quando estas estão
dissolvidas no solvente polar.
e) o etanol é o ácido mais fraco das substâncias listadas na tabela quando estas estão dis-
solvidas no solvente polar.

8ª Questão: Em um recipiente, são colocados 1,0 mol de ácido acético (K a ≈ 10 –5), 1 mol
de ácido cloroacético (K a ≈ 10 –3) e 0,5 mol de KOH. Considerando o sistema após atingido o
equilíbrio, responda:
a) Quais substâncias serão encontradas no recipiente? E em que quantidades?
b) O KOH reage preferencialmente com um dos componentes presentes no recipiente. Qual
é o efeito responsável por essa preferência? Escreva a fórmula estrutural dos dois ácidos
orgânicos e mostre, por meio de setas, a atuação desse efeito.

87
9ª Questão: O monóxido de carbono (CO) é uma substância altamente tóxica, pois forma
complexos estáveis com o ferro da hemoglobina impedindo que essa proteína capture o
oxigênio molecular necessário para o processo respiratório. Na formação desse complexo, o
CO atua como:
a) Uma base de Lewis.
b) Um ácido de Lewis.
c) Uma base de Brønsted.
d) Um ácido de Brønsted.

10ª Questão: O pH do sangue humano é controlado por vários sistemas tampões, entre eles
um derivado do ácido sulfônico (BES) cujo pK a vale 7,1. A razão entre a forma protonada e a
forma desprotonada do BES no sangue normal, que possui pH = 7,1, é igual a:
a) 0,5.
b) 1,0.
c) 1,5.
d) 2,0.

88
Aula 4

Mecanismos das Reações Orgânicas

As reações orgânicas serão abordadas nos módulos subseqüentes através do estudo deta-
lhado da estrutura e da reatividade de cada grupo funcional. Contudo para um bom enten-
dimento da correlação estrutura-reatividade desses grupos funcionais, se faz necessário
introduzir alguns conceitos gerais importantes que irão posteriormente ajudar a esclarecer
os mecanismos dessas reações orgânicas. Novamente aqui, se faz necessário a introdução de
alguns conceitos básicos da termodinâmica e da cinética química, como digramas do perfil
energético reacional, ordem de reação, energia de ativação, entre outros.

É necessário relembrar antes de começar

Ligação covalente e estrutura molecular


(Módulo 1 – aula 1 - Química Orgânica I);
Ressonância e a teoria de orbital molecular
(Módulo 1 – aula 2 – Química Orgânica I).
Acidez e basicidade dos compostos orgânicos
(Módulo 1 – aula 3 – Química Orgânica I).

1 Mecanismo das Reações Orgânicas

A descrição detalhada, etapa por etapa, de um caminho na qual um reagente é convertido em


um produto é chamado de mecanismo de reação. Essa descrição inclui o movimento dos elé-
trons que leva a formação e a ruptura de uma ou mais ligações químicas e as relações espaciais
(estereoquímicas) dos átomos durante a transformação química. Uma boa descrição mecanís-
tica deve conter as variações estruturais e energéticas que ocorram em cada etapa da reação.

A. Nucleófilos e Eletrófilos

As reações orgânicas iônicas, onde as espécies reagentes possuem alta ou baixa densidade
eletrônica, consiste na maior classe de reações existentes na química orgânica. Os reagentes
podem ser divididos em dois grupos de acordo com o seu caráter eletrônico. Os reagentes com
alta densidade eletrônica são chamados de nucleófilos (afinidade por núcleo, ou seja, afinida-
de por carga positiva). Já os eletrófilos (afinidade por elétrons) são aqueles que possuem baixa
densidade eletrônica, em outras palavras, deficiente de elétrons. Os nucleófilos são comumen-
te, eletricamente neutros ou possuem uma carga formal negativa (negativamente carregados),

89
enquanto que os eletrófilos são espécies eletricamente neutras ou com uma carga formal
positiva (positivamente carregados). Em uma reação iônica um nucleófilo (Nu:) compartilha
um par de elétrons com o eletrófilo (E) no processo de formação de uma ligação covalente.

Nucleófilo Eletrófilo
H

Os nucleófilos são bases de Lewis, pois são espécies doadoras de par de elétrons e os eletrófilos
são ácidos de Lewis porque são aceptores de elétrons. Dessa forma é possível descrever muitas
reações orgânicas em termos de acidez e basicidade de Lewis. Entretanto, o mais comum na
química orgânica é descrever as reações iônicas em átomos de carbono, em termos de nu-
cleofilicidade e eletrofilicidade e reservar os termos acidez e basicidade para as reações com
prótons (H+). Alguns importantes nucleófilos e eletrófilos estão compilados na tabela a seguir.

90
B. Substratos e Reagentes

Os compostos orgânicos que sofrem uma mudança estrutural ou de um grupo funcional são
chamados de substratos. O segundo componente, muitas vezes uma espécie inorgânica o
reagente que irá reagir com o substrato. Um exemplo é a reação do cloroetano, o substrato
com o íon hidróxido, que é o reagente para produzir o etanol. Essa reação é chamada de
substituição nucleofílica.
Reagente Substrato

Quando duas moléculas ou íons sofrem uma reação do tipo iônica, uma das espécies deve
ser o nucleófilo e a outra o eletrófilo. A designação de substrato e reagente torna-se muito
arbitrária para reações em que duas moléculas orgânicas reagem. Normalmente é necessário
um conhecimento prévio do mecanismo da reação e das condições reacionais para a determi-
nação do substrato e do reagente. Como exemplo, podemos destacar a reação do etanol com o
propanal em meio ácido. O etanol é uma base de Lewis e, portanto o nucleófilo, pois possui dois
pares de elétrons não ligantes no átomo de oxigênio. O grupo carbonila do propanal é polar e
possui uma carga parcial positiva no átomo de carbono. A identificação da estrutura do produ-
to de reação indica que o átomo de oxigênio do etanol foi adicionado ao átomo de carbono da
carbonila do propanal. Nessa adição nucleofílica o etanol é o reagente e o propanal o substrato.

Reagente Substrato

C. Reações orgânicas e o movimento dos elétrons

Uma reação orgânica é uma sequência de etapas envolvendo elétrons ligantes e não ligantes
onde ligações químicas são quebradas e formadas. A descrição mecanística de uma reação
deve mostrar o movimento desses elétrons, que normalmente é designado por setas curvas.
Por convenção, o elétron se movimenta na direção da seta, ou seja, da espécie rica em elé-
trons para a espécie deficiente de elétrons.
Considerando a dissociação de um íon cloreto a partir de um átomo de carbono terciário.
Essa dissociação ilustra uma clivagem de ligação heterolítica em que o par de elétrons com-
partilhado na ligação covalente sigma (σ) move do carbono para o cloro, devido à diferença
de eletronegatividade entre eles. Dessa forma, o átomo de carbono torna-se um cátion e o
átomo de cloro um ânion.

91
Civagem eletrolítica da ligação σ

A formação de uma nova ligação é descrita de maneira similar. Em uma reação comum do
grupo carbonila, o íon hidróxido nucleofílico, por exemplo, forma uma nova ligação com o
átomo de carbono eletrofílico da carbonila. Nesse exemplo, o movimento síncrono do par de
elétrons ligante do átomo de carbono saindo para o oxigênio na carbonila, ocorre a fim de
evitar que o carbono exceda oito elétrons na camada de valência. Esse deslocamento eletrô-
nico é mostrado pela seta curva.

Outro tipo de movimento de elétrons envolve o movimento de um único elétron e é repre-


sentado por meia seta curva. A clivagem homolítica e as reações de formação de ligação a
partir de radicais livres são exemplos de como esses elétrons se movimentam.

A aproximação entre as moléculas reagentes para efetivar uma reação química pode ocor-
rer através da atração entre cargas opostas ou mediante a sobreposição de orbitais. Cátions e
ânion se atraem mutuamente por meio de forças eletrostáticas e isso pode ser suficiente para
a reação ocorrer. Quando um cloreto de alquila (RCl) reage com iodeto de sódio (Na I) em solu-
ção de acetona (propanona) um precipitado de cloreto de sódio se forma. Os íons sódio (Na+)
e cloreto (C l-) em solução são atraídos eletrostaticamente e se combinam para formar uma
rede cristalina de cátions e ânions alternadamente, formando um precipitado de cloreto de
sódio. Esse estilo de atração de cargas é raro nas reações orgânicas. Um modelo mais comum
de atração de cargas em uma reação orgânica ocorre entre uma espécie carregada (cátion
ou ânion) e uma molécula orgânica que possua um dipolo. Como exemplo, pode-se destacar
a reação entre o sal cianeto de sódio (NaCN) e um composto carbonilado como a acetona. O
cianeto de sódio em solução se dissocia para formar o cátion sódio (Na+) e o ânion cianeto
(CN-). A acetona possui um grupo carbonila que é polarizado, pois o átomo de oxigênio é
mais eletronegativo do que o átomo de carbono. Dessa forma, o ânion cianeto é atraído pelo
pólo positivo da carbonila. Muitas vezes não é necessário que o reagente seja carregado para
que uma reação orgânica se processe. A metilamina, uma molécula neutra, por exemplo,

92
reage com a acetona usando o seu par de elétrons não ligante. A alta densidade eletrônica
existente sobre o átomo de nitrogênio na metilamina é atraído pela parte positiva do dipolo
do grupo carbonila.

δ− δ−
δ+ δ+
Reagente
carregado
Dipolo C =O Dipolo C =O
Reagente
neutro

A polarização pode ocorrer também em torno da ligação σ. O elemento mais eletronegati-


vo da tabela periódica, o átomo de flúor atrai os elétrons da ligação σ para si polarizando a
ligação com o átomo de boro, deixando-o com uma carga parcial positiva. O pólo negativo
da carbonila da acetona, o átomo de oxigênio, é atraído pelo átomo de boro no BF3.

δ−
δ− δ + δ− δ−
δ+ δ+

Dipolo δ−
Dipolo C =O

Outras reações orgânicas ocorrem entre moléculas completamente neutras, ou seja, sem
carga e sem nenhum momento dipolo. Um exemplo bastante interessante é a reação de
compostos insaturados (alcenos, alcinos e alcadienos) com a molécula de bromo em solução
aquosa (água de bromo). Essa reação é um teste antigo usado para identificar qualitativa-
mente se uma determinada substância possui ligações múltiplas. O teste consiste em obser-
var se a cor marrom da água de bromo desaparece após a adição da amostra a ser testada.
Caso o teste seja positivo, significa que a amostra possui ligações múltiplas. A atração entre
essas moléculas não é eletrostática. De fato, é conhecido que a reação ocorre porque a mo-
lécula de bromo possui um orbital vazio disponível para aceitar elétrons. Esse orbital é o
orbital antiligante da ligação Br-Br (σ*). Esse é, portanto um caso de interação atrativa entre
orbitais, o orbital π de um alceno (nucleófilo) com o orbital σ* vazio da molécula de bromo
(Br2 – eletrófilo). As moléculas se atraem mutuamente devido a interação entre o orbital
vazio e o completamente preenchido, levando a formação de uma nova ligação.

Orbital π
preenchido
Orbital σ∗
vazio
Em muitas reações orgânicas a orientação dos orbitais dos nucleófilos e dos eletrófilos
exerce um importante controle. Para que uma nova ligação química seja formada no momen-
to da colisão das moléculas, os orbitais das espécies reagentes devem estar adequadamente

93
alinhados no espaço. Como exemplo, na reação entre a trimetilamina (Me3N) e o trifluoreto
de boro (BF3) somente o orbital sp3 do par de elétrons não ligante do átomo de nitrogênio
possui uma orientação adequada para efetivar a sobreposição com o orbital vazio do átomo
de boro e consequentemente formarem uma nova ligação química. Todas as outras colisões
entre as moléculas deverão ter orientações inadequadas para propiciar a sobreposição dos
orbitais e com isso, a formação da nova ligação e consequentemente a reação.

Orientação adequada para a


sobreposição dos orbitais Orientações inadequadas para a sobreposição dos orbitais

Outro fator importante é a energia dos orbitais, para que haja uma sobreposição efetiva entre
eles, a quantidade de energia destes orbitais deve ser preferencialmente igual ou pelo menos se-
melhante. Os elétrons são transferidos do orbital preenchido para o orbital vazio. Como natural-
mente os orbitais ocupados (orbitais ligantes) possuem menos energia do que os orbitais vazios
(normalmente orbitais antiligantes), os elétrons se movem de um orbital com menos energia para
um de maior energia e isso é parte da energia de ativação da reação. Se a diferença de energia
entre os orbitais for muito grande, dificilmente essa reação irá ocorrer em condições normais.

Novo orbital molecular antiligante Novo orbital molecular antiligante Novo orbital molecular antiligante

Novo orbital molecular ligante Novo orbital molecular ligante Novo orbital molecular ligante

Orbitais possuem uma pequena Orbitais possuem uma grande


Orbitais possuem a mesma energia
diferença de energia diferença de energia

É importante destacar que nos três casos ocorre uma diminuição de energia do par de
elétrons quando estes passam para o novo orbital molecular ligante, ou seja, quando ocorre
a sobreposição entre o orbital preenchido do nucleófilo e o orbital vazio do eletrófilo. Entre-
tanto, a diminuição de energia mais efetiva acontece no primeiro e no segundo caso onde os
orbitais possuem energias iguais ou pelo menos similares, o que favorece a reação.

94
Somente o orbital de maior energia ocupado ( h o m o – Highest Occupied Molecular Orbital)
do nucleófilo possui energia semelhante ao orbital de menor energia desocupado ( l u m o –
Lowest Unoccupied Molecular Orbital) do eletrófilo e por isso estes orbitais são os mais
relevantes para a transferência dos elétrons, consequentemente para a formação da ligação
e por sua vez para que a reação ocorra. Esses orbitais são denominados orbitais de frontei-
ra. De forma resumida para que uma reação ocorra e seja efetiva há a necessidade de uma
orientação adequada dos orbitais no momento da colisão entre as moléculas, que os orbitais
possuam energias pelo menos semelhantes e para isso, o nucleófilo deverá possuir elétrons
de alta energia, ocupando o h o m o e o eletrófilo um orbital vazio ( l u m o ) de baixa energia.
Para exemplificar, vamos considerar novamente a reação de um composto carbonilado, a aceto-
na por exemplo. A carbonila possui um orbital ligante de baixa energia que é o orbital π ligante.
Esse grupamento possui um dipolo porque justamente nesse orbital, os elétrons estão mais pró-
ximos do átomo de oxigênio, mais eletronegativo do que do carbono. Por essa mesma razão (ele-
tronegatividade do átomo de oxigênio) esse orbital possui uma energia excepcionalmente baixa
fazendo com que o grupo carbonila seja uma unidade estrutural estável. Esse orbital raramente
está envolvido numa reação química. Subindo para o próximo orbital na escala de energia,
encontramos dois orbitais degenerados que correspondem aos orbitais preenchidos pelos pares
de elétrons não ligantes do átomo de oxigênio. Esses são os orbitais ocupados de maior energia
(h o m o ) da carbonila e são eles que irão reagir com os eletrófilos. Quando consideramos o grupo
carbonila como um eletrófilo, isto é, a espécie que irá receber elétrons, deve-se visualizar o orbi-
tal de menor energia desocupado (l u m o ) que nesse caso é o orbital π antiligante (π*) da dupla li-
gação C=O. O nucleófilo, carregado ou não, deverá atacar o grupo carbonila no átomo de carbono,
simplesmente porque terá a melhor sobreposição com o componente mais volumoso desse orbital.

C O σ∗ C O

C O π∗ L U MO
C O π∗ L U MO
pequena diferença L U MO
de energia
pequena diferença
C O n de energia
C O n H O MO
H O MO

C O π C O

C O σ C O σ

H
CN NC H+

Nu E+

95
D. Intermediários reativos e o efeito eletrônico dos substituintes

Em um laboratório de síntese orgânica, um produto de reação pode ser preparado, isolado,


purificado e depois utilizado como material de partida para uma etapa subsequente em uma
síntese total. Esses produtos são muitas vezes chamados de intermediários sintéticos. Eles
são produtos estáveis formados durante uma síntese multietapas.
Outro tipo de intermediário, de suma importância no desenvolvimento de um mecanismo
de reação é o intermediário instável, ou seja, com tempo de meia-vida curto formado durante
o caminho reacional na conversão do material de partida no produto da reação. Muitas des-
sas espécies não são isoláveis. Existem muitos tipos de intermediários de reação que estão
envolvidos nas reações orgânicas. Nessa seção, iremos considerar os quatro intermediários
mais importantes, carbocátion, carbânion, radicais e o carbeno. Assim como os efeitos dos
substituintes sobre eles.
Os carbocátions são espécies cujo átomo de carbono está positivamente carregado, isto é,
são deficientes de elétrons e por isso instáveis, são tricoordenados e possuem uma geome-
tria planar. A descrição dos seus orbitais retrata três orbitais híbridos sp2 coplanares e um
orbital p vazio perpendicular ao plano. Com esse arranjo, o carbocátion assume uma maior
estabilidade, pois torna a distância entre os elétrons ligantes a maior possível (ângulos de
120 º), minimizando assim a repulsão eletrônica. O mesmo não aconteceria se o carbocátion
assumisse uma hibridação sp3 onde os ângulos entre os orbitais são menores (109º).

Estrutura planar Estrutura Tetraédrica


Orbital p Correto Incorreto

120º 109º
R C R sp 2 H 3C
R C sp 2 C C H3 Orbital sp³ C H3
p2 H 3C C
Carbocátion vazio
H 3C C H 3
Orbital p vazio
Menor repulsão entre Maior repulsão entre
os elétrons ligantes os elétrons ligantes

A ordem de estabilidade dos carbocátions metílico (CH3) < primário (R-CH2) < secundário
(R2-CH) < terciário (R3C) deve-se ao efeito doador de elétrons dos substituintes alquilas. A li-
beração de elétrons por parte dos grupos alquila, por sua vez é uma combinação do efeito po-
lar (polarização obtida pela diferença de eletronegatividade entre o carbono do carbocátion
com hibridação sp2 e os carbonos sp3 dos grupamentos alquilas) e o efeito de hiperconjuga-
ção. Esse último consiste na deslocalização dos elétrons de uma ligação σ C-H e/ou C-C dos
grupos substituintes em direção ao orbital p vazio do átomo de carbono. A deslocalização
eletrônica tem um aspecto estereoeletrônico peculiar uma vez que o alinhamento da ligação
C-H (ou C-C) com o orbital p vazio maximiza a deslocalização eletrônica.

96
σ C -H Hiperconjugação
Hiperconjugação
Polarização σ C -H σ C -H
C
R

Orbital p vazio
Orbital p vazio

Uma ligação C-H de cada grupamento metil deverá ficar paralela a um dos lobos do orbital
p vazio ao mesmo tempo, proporcionando o efeito de hiperconjugação. Dessa forma, é evi-
dente que o carbocátion terciário com três grupamentos alquila é o mais estável, pois tem um
número maior de efeitos de hiperconjugação ao mesmo tempo, estabilizando o carbocátion.
Uma estabilização mais efetiva ocorre quando os carbocátions estão adjacentes a ligações
π, como nos cátions alílicos e benzílicos. Nesses casos, ocorre uma conjugação genuína entre
os elétrons π e o orbital p vazio estabilizando fortemente o carbocátion por deslocalização.

Substituintes como os átomos de oxigênio e nitrogênio, que possuem pares de elétrons


não ligantes estabilizam fortemente os carbocátions. Isso é verdadeiro tanto para heteroá-
tomos com hibridação sp3 (oxigênio de éteres), quanto para heteroátomos com hibridação
sp2 (oxigênio de carbonila). Mesmo o átomo de flúor e outros halogênios estabilizam por
deslocalização os carbocátions.

N N O O F F

Os carbânions são espécies que possuem um átomo de carbono negativamente carregado.


Esse ânion, quando derivado de átomos de carbono saturado possui uma configuração pi-
ramidal, com o par de elétrons ocupando um dos lobos de um orbital híbrido sp3. Como o
orbital não ligante é ocupado, a estabilidade aumenta com o aumento do percentual do cará-
ter s. A ordem de estabilidade dos carbânions é carbono sp3 < sp2 < sp, e pode ser avaliada
em fase gasosa pela energia de suas reações com prótons, que é chamado de afinidade por
prótons. Essa ordem é consistente com a tendência de eletronegatividade conforme discutido
na acidez relativa de alcanos, alcenos e alcinos terminais na aula 3.

97
~109º
Orbital sp³
preenchido

Grupos atratores de elétrons como a carbonila, os grupos ciano e nitro estabilizam forte-
mente os carbânions como resultado dos efeitos de ressonância e polar de forma complementar.

Efeito polar
Efeito polar

N
Efeito de Efeito de
ressonância ressonância

Efeito de
ressonância

A estabilização por substituintes como o átomo de flúor (F) e o grupo hidroxila (OH) deve-se
exclusivamente ao efeito polar.
Os radicais livres provenientes do átomo de carbono possuem um elétron desemparelhado
em um orbital não ligante e por isso, assim como os carbocátions, são deficientes de elétrons.
É intuitivamente esperado que o radical livre do carbono assuma uma posição intermediária
entre o íon carbocátion (seis elétrons - um orbital vazio) e o íon carbânion (oito elétrons –
orbitais completamente preenchidos). Em consonância com isso, o radical alquila (radical
metil, por exemplo) deverá ser planar, portanto com hibridação sp2, e o elétron desempare-
lhado ocupando um orbital p. Outra possibilidade de geometria para o radical do carbono é
uma geometria ligeiramente piramidal com o elétron desemparelhado ocupando um orbital
híbrido sp3 com grande capacidade de oscilar rapidamente através de uma forma planar
(inversão) para outra estrutura quase planar. Em geral a estrutura ligeiramente piramidal é
obtida quando o átomo de carbono radicalar é substituído por heteroátomos.

Orbital p Orbital sp³

hibridação sp²
Hibridação sp³

Figura 7: Estrutura dos radicais livres do átomo de carbono.

98
nota

Anteriormente foram descritos os orbitais de fronteira homo e lu mo para as


moléculas orgânicas. Para os radicais, espécies químicas contendo um elétron
desemparelhado na camada de valência, o orbital parcialmente ocupado é
chamado de somo (Single Occupied Molecular Orbital).

Uma boa maneira de começar a discussão sobre o efeito dos substituintes nos radicais é
considerar a determinação mais comum para a estabilidade dos radicais. Essa estabilização
é muitas vezes definida através da comparação com a energia de dissociação da ligação (e d l )
C-H . A partir dessas energias pode-se ter uma idéia de quão fácil um radical pode ser forma-
do e consequentemente da sua estabilidade.

∆G = Energia necessária para a


cisão homolítica da ligação C-H

∆G = Energia necessária para a


combinação dos radicais

Isso é particularmente verdadeiro quando houver a possibilidade de comparação entre as


forças de ligação dos mesmos átomos, por exemplo, carbono e hidrogênio para diferentes
moléculas. Algumas tendências simples são aparentes, a força da ligação C-H diminui de in-
tensidade em R-H quando R vai de metil para primário, secundário e por último terciário. Os
radicais alquilas terciários são, portanto os mais estáveis e o radical metílico o menos estável.

Aumento da estabilidade

Para os radicais, normalmente todos os grupos funcionais têm a capacidade de estabili-


zá-los. Tanto os grupos atratores de elétrons como a carbonila e o ciano, quanto os grupos
doadores de elétrons como a metoxila e o dimetilamino quando localizados no carbono ad-
jacente ao intermediário radical possuem efeito estabilizador. Esse efeito pode ser expresso
em termos de deslocalização (ressonância), isto é, as estruturas de ressonância descrevem
essas interações como sendo a deslocalização do elétron desemparelhado para esses subs-
tituintes. Para grupamentos insaturados, a ressonância é análoga ao radical alil. Já com
grupamentos doadores de elétrons uma estrutura dipolar está envolvida e implicam em um
grau de separação de cargas.

99
Efeito de
N Efeito de
ressonância
ressonância

Grupo atrator de elétrons Grupo atrator de elétrons

Efeito de Efeito de
ressonância ressonância
Estabilização pelo grupo dimetilamino
Grupo doador de elétrons Grupo doador de elétrons

O efeito de estabilização do radical oriundo de ambos os tipos de substituintes (atratores e


doadores de elétrons) também pode ser descrito em termos de orbitais moleculares (o m ). Nes-
se caso, a questão é como o elétron desemparelhado em um orbital p interage com os orbitais
do substituinte adjacente. Vamos considerar primeiro o que acontece quando um radical
encontra-se próximo a um grupo atrator de elétrons. Grupamentos como a carbonila (C=O) e
o ciano (C≡N) são atratores de elétrons porque possuem um orbital π* vazio com baixa ener-
gia. A interação desse orbital com o somo do radical forma dois novos orbitais moleculares.
Um elétron, do antigo s o m o , está agora disponível para preencher, pelo menos parcialmente,
os novos orbitais formados. Ele entra no novo somo que é mais estável, isto é, possui menos
energia do que o anterior e consequentemente o radical sofre uma estabilização, pois seu
elétron agora possui menos energia.

E N E R G IA
Carbonila

Orbital p Orbital π* do grupo


atrator de elétrons

S O M O do Energia do radical diminui, pois os


radical elétrons ocupam um novo orbital de
menor energia

N ovo S O M O

Pode-se analisar o que ocorre com grupos doadores de elétrons, como a metoxila e o dime-
tialamino, de maneira similar. O átomo de oxigênio do éter tem os seus pares de elétrons não

100
ligantes em orbitais n com energia relativamente alta. A interação desse orbital com o somo

do radical irá formar novamente dois novos orbitais moleculares. Três elétrons estão agora
disponíveis para ocupá-los. O orbital somo tem agora mais energia do que o seu antecessor,
porém o par de elétrons ocupa um orbital de menor energia. Como dois elétrons diminuíram
de energia e somente um aumentou, existe uma estabilização geral do sistema, mesmo tendo
o novo s o m o uma energia maior do que o anterior.

ENERGIA
N ovo S OM O
Aumento de energia do
Maior energia
elétron desemparelhado

Orbital p

Orbital n do oxigênio
da metoxila
S OM O do
radical
n O

Diminuição de energia do par


de elétrons n do oxigênio

O quarto intermediário reativo, menos comum, é o carbeno. Essa espécie, assim como os
radicais, é altamente reativa e possui seis elétrons: dois elétrons em cada ligação e dois elé-
trons não ligantes. Investigações detalhadas de um grande número de carbenos de diferentes
estruturas mostram que eles podem dividir-se em dois grupos, de acordo com a sua confi-
guração: (a) aqueles que apresentam elétrons desemparelhados e cujos ângulos das ligações
estão entre 130 e 150º, são denominados carbeno tripleto; (b) os que não possuem elétrons
desemparelhados e os ângulos das ligações são de 100-110º, são chamados de carbeno single-
to. Muitos carbenos como o CH2, podem ser encontrados em ambos os estados de spin, ainda
que o primeiro seja o mais comum.
Todas essas observações podem ser contabilizadas por considerar a estrutura eletrônica
do carbeno. Esse intermediário possui um átomo de carbono dicoordenado onde por isso
esperar-se-ia que ele tivesse uma geometria linear, como a do alquino, com um átomo de
carbono com hibridação sp.

101
O carbeno linear deverá ter seis elétrons para distribuir entre dois orbitais σ e dois orbitais
p de maior energia. Os dois elétrons nos orbitais p degenerados deverão permanecer desem-
parelhados, pois dessa maneira minimiza a repulsão eletrônica.

ENERGIA Orbitais σ∗

2p C
Orbitais p

2 sp C
H 2 1s H
Orbitais σ

Contudo, poucos carbenos são lineares: Muitos deles são arqueados contendo ângulos de liga-
ção entre 100 e 150º, sugerindo um estado de hibridação sp2 trigonal. Um carbeno com hibrida-
ção sp2 deve ter três orbitais sp2 com energias mais baixas e um orbital p de maior energia, onde
os seis elétrons são distribuídos entre eles. Existem duas maneiras de fazer essa distribuição:
a primeira delas, todos os elétrons estão emparelhados e cada par de elétrons ocupa um orbital
sp2 (carbeno singleto). A segunda, dois pares de elétrons ocupam os orbitais sp2 e os outros dois
elétrons estão desemparelhados, onde um ocupa um orbital sp2 e o outro um orbital p de maior
energia (carbeno tripleto). Essas duas possibilidades explicam a classificação descrita ante-
riormente para os carbenos com as duas possibilidades de arranjo dos elétrons (estado de spin).

Orbitais σ ∗ Orbitais σ ∗
ENERGIA ENERGIA

pC p pC p

sp 2 C sp 2 sp 2 C sp 2
2 1s H 2 1s H

Orbitais σ Orbitais σ

1 elétron em orbital p vazio


um orbital p

C C

1 elétron em 2 elétrons em
um orbital sp² um orbital sp²

102
Analisando os dois estados de spins pode-se visualizar a diferença entre os ângulos das
ligações C-H nos carbenos. No carbeno tripleto um orbital sp2 está parcialmente preenchido,
ou seja, com apenas um elétron e esse irá gerar uma menor repulsão com os pares de elétrons
ligantes das ligações σ C-H , aumentando os ângulos dessas ligações. Já no carbeno singleto
o orbital sp2 possui dois elétrons o que aumenta repulsão com os elétrons das ligações σ C-H ,
diminuindo os ângulos dessas ligações.

Somente 1 elétron Dois elétrons


menor repulsão maior repulsão

A tabela mostrada a seguir evidencia o efeito do substituinte no estado de spin dos carbe-
nos. Muitos tipos de carbenos existem com estado de spin tripleto, pois a estabilização ob-
tida pela diminuição da energia do elétron desemparelhado ao passar do orbital p, de maior
energia, para o orbital sp2 de menor energia não compensa a repulsão eletrônica existente
entre os elétrons emparelhados no orbital sp2 no estado singleto.

Carbeno Tripleto Carbeno Singleto


Ângulo de ligação 130-150º Ângulo de ligação 100-110º
Elétrons desemparelhados Elétrons emparelhados

:CH2 :CCl2

:CHPh :CHCl

:CHR :C(OMe)2

:CPh2 N N
C

E. Energética das reações orgânicas

O primeiro e mais importante fator que existe em qualquer reação química ou etapa ele-
mentar de um processo químico é que existe uma barreira de energia, também chamada de
energia de ativação, separando os produtos dos reagentes. A fim de converter os reagentes em
produtos, a energia do sistema deve ser elevada até que a sua energia total seja pelo menos
igual a da barreira de energia. Somente depois disso que os reagentes se transformam em
produtos, passando pela barreira de energia e posteriormente ocorrendo uma diminuição

103
na energia. Essa barreira de energia tem grande importância por dois motivos: primeiro, a
altura da barreira determina quão rápido os reagentes podem ser convertidos nos produtos
em uma determinada temperatura. Segundo, na altura máxima da barreira de energia, que é
chamada de estado de transição, existe uma descrição hipotética de um grupo de átomos, de-
nominado, complexo ativado, que é uma “ponte” estrutural entre os reagentes e os produtos,
possuindo assim características de ambos. Ao contrário de alguns intermediários, o estado
de transição não pode ser isolado ou detectado.

Estado de transição [ ]

Barreira de energia
ou
energia de ativação

O complexo ativado é uma coleção de átomos instáveis e por isso, com energia elevada,
que possui ligações químicas e distribuição eletrônica modificada quando comparado com
os reagentes e aos produtos. A estrutura do complexo ativado é determinada pelas ligações
e variações estruturais que devem ocorrer a fim de transformar os reagentes nos produtos.
Além disso, quanto mais distorcidas das geometrias normais e das distâncias das ligações
as estruturas dos complexos ativados, maiores serão as suas energias. Consequentemente,
mais energia deverá ser adicionada ao sistema para distorcer o reagente para a estrutura do
complexo ativado.
Como exemplo, vamos considerar uma reação bastante simples: a ionização do brometo de
ciclo-hexila terciário para formar um carbocátion e um íon brometo usando metanol como
solvente. O reagente é uma molécula totalmente covalente, ainda que possua a ligação entre
o átomo de carbono com o bromo polarizada. O produto tem um átomo de carbono trivalente,
carregado positivamente solvatado pelo metanol através de ligação de hidrogênio. A ligação
entre o carbono e o bromo é quebrada heteroliticamente com o bromo se distanciando do
esqueleto carbônico e por ser mais eletronegativo, levando consigo os elétrons da ligação
covalente para formar o íon brometo.

Solvatados

Entretanto, entre o reagente e os produtos existe um complexo ativado deve possuir fato-
res estruturais semelhante aos dois. Qualitativamente, o complexo ativado pode ser descrito

104
como sendo uma estrutura em que o bromo começa a afastar-se do carbono, distorcendo
(aumentando) o comprimento da ligação C-Br. O átomo de bromo começa a desenvolver uma
carga parcial negativa (δ-) quando o par de elétrons da ligação covalente começa a deslocar-
se para próximo dele. Pela mesma razão, o átomo de carbono terciário começa a desenvolver
uma carga parcial positiva (δ+). A ligação C-Br no complexo ativado é mais longa e mais
fraca do que nos reagentes, mas ainda existe alguma energia ligante entre eles. Já nos pro-
dutos ela está completamente ausente. Adicionalmente, devido à maior quantidade de carga
negativa assumida pelo átomo de bromo no complexo ativado, quando comparado com o
reagente, o solvente começa a se organizar em torno do bromo, porém essa interação não é
normalmente tão forte quanto no íon brometo do produto. Posteriormente, com muito me-
nos intensidade o carbocátion começa a solvatar o carbono terciário parcialmente positivo.

δ−
Br

C
δ+

As reações orgânicas são usualmente descritas em termos de um diagrama de energia


potencial que identifica a mudança de energia potencial associada à reação entre as molé-
culas à medida que avançam para os produtos. Esse diagrama denominado de diagrama de
perfil de energia plota a energia livre do sistema em função do progresso da reação, também
chamado de coordenada de reação. Entende-se por coordenada de reação a variação na geo-
metria das estruturas dos reagentes à medida que a reação se processa. Para cada etapa indi-
vidual na reação existe um estado de transição, que como dito anteriormente é o arranjo de
maior energia representando as moléculas reagentes para aquela determinada etapa. Para
as reações que ocorrem em mais de uma etapa, os intermediários são as moléculas ou íons
que são formados e depois reagem ainda no decurso da reação total. A diferença de energia
entre o estado de transição e os reagentes é denominada energia livre de ativação (∆G ‡) e
determina a velocidade da reação. Já a diferença de energia entre os reagentes e os produtos
é a variação de energia livre (∆G) referente à reação, que determina a sua posição no equilí-

105
brio. É importante ressaltar que se o produto tiver uma energia inferior a dos reagentes, o ∆G
assume valores negativos e a reação se processará espontaneamente no sentido da formação
dos produtos. Essa reação é dita exergônica. Por outro lado, se a energia do produto for maior
do que a dos reagentes, o ∆G será positivo e o processo é denominado endergônico.

Estado de transição 1
[ ]
Estado de transição 1
[ ]

∆G 1 ∆G 2

Intermediário
C

∆G
Energia livre

A energia livre de uma reação química é definida pela equação ∆G = ∆ H - T∆S, onde o ∆ H é
a variação de entalpia e ∆S é a variação de entropia para a reação. O termo da entalpia é uma
determinação da estabilidade da molécula e é determinada pela força da ligação química na
estrutura. O termo da entropia especifica a mudança na ordem (probabilidade) associada com
a reação. Finalmente, a energia livre da reação ∆G determina a posição do equilíbrio para
uma determinada reação: ∆G = -RT ln K , onde K é a constante de equilíbrio para a reação:

Um processo reacional envolvendo várias etapas também tem uma energia livre total da
reação determinada pela diferença de energia entre os reagentes e os produtos. Contudo, cada
etapa elementar corresponde a uma reação química a parte e, portanto, terá uma energia livre,
uma energia livre de ativação, um estado de transição e um complexo ativado correspondente
às variações químicas que ocorre nessa etapa do processo. A etapa com o estado de transição
de maior energia é chamada de etapa determinante da velocidade de reação, pois somente
ultrapassando essa energia de ativação que os reagentes podem ser convertidos nos produtos.
A etapa determinante, com isso define a velocidade com que os reagentes se transformam nos
produtos. As etapas no processo que antecedem a etapa determinante da velocidade da reação
participam da lei da velocidade da reação, pois contribuem para barreira de energia total do
sistema. Já as etapas posteriores não têm relação com a velocidade da reação. Cabe ressaltar
que não necessariamente a primeira etapa será sempre a determinante da velocidade de reação.

106
Etapa 2
[E T 2]

∆G 2 Etapa 3
[E T 3]
Intermediário
C
∆G 3

∆G
Energia livre

Produtos
E+F

Os dados termodinâmicos proporcionam uma maneira de expressar quantitativamente a


estabilidade, medida pela energia livre (∆G). Entretanto, ela não determina diretamente a
velocidade da reação. Agora se faz necessário explorar a relação existente entre a estrutura
e a reatividade. A descrição quantitativa da reatividade é denominada cinética química.
Os dados de experimentos cinéticos podem providenciar informações detalhadas sobre o
mecanismo de reação. A velocidade de uma reação pode ser determinada pela diminuição da
concentração dos reagentes ou pelo aumento da concentração dos produtos a uma determi-
nada temperatura em função do tempo. A extensão da reação é muitas vezes medida espec-
troscopicamente, pois essas técnicas espectroscópicas providenciam uma maneira rápida e
contínua de monitorar as variações das concentrações.
Esses dados são incorporados em uma equação matemática conhecida como equação da
velocidade. Essa equação correlaciona a velocidade com a concentração dos reagentes envol-
vidos na etapa lenta da reação e de todas as etapas a precedem, através de uma constante de
proporcionalidade chamada de constante de velocidade específica (k). Portanto, a velocidade
de uma reação poderá ser expressa matematicamente da seguinte maneira: velocidade = k
[A] [B]... Cada concentração tem um expoente chamado de ordem de reação relativo a um
determinado componente. A ordem cinética global da reação é a soma de todos os expoentes
na equação da velocidade. Em uma reação de primeira ordem, por exemplo, a velocidade
varia em função da concentração de um único reagente. Quando a velocidade da reação é
proporcional a concentração de dois reagentes ou ao quadrado da concentração de um rea-
gente, essa reação é dita de segunda ordem.
Quando os experimentos cinéticos mostram essa dependência simples, pode-se usualmente
deduzir que, em um nível molecular, somente uma molécula participa do estado de transição
para uma reação de primeira ordem e duas se combinam para formar o estado de transição de
uma reação de segunda ordem. Essas deduções são chamadas de molecularidade da reação. As
situações mais comuns para a cinética das reações orgânicas são mostradas na tabela a seguir.

107
Observações Cinéticas Dedução Mecanística

Expressão da velocidade Ordem Molecularidade Provável reação

k [A] Primeira 1 A→ [ ]‡

k [A][B] Segunda 2 A + B→ [ ]‡

k [A][A] ou [A]2 Segunda 2 A + A ou 2A → [ ]‡

É importante notar que a velocidade da reação e a constante da velocidade não são as


mesmas coisas. A velocidade da reação é uma determinação da quantidade de reagentes que
reagem em um determinado período de tempo. Já a constante de velocidade é um número
para uma reação específica sob condições específicas que correlaciona a concentração dos
reagentes com a velocidade com que eles são consumidos.
Para exemplificar, vamos considerar a reação do etóxido de sódio (um ânion – alcóxido
metálico - obtido pela desprotonação do etanol) com um cloreto de ácido, o cloreto de etano-
íla. O mecanismo dessa reação é processo simples de adição do etóxido à carbonila, seguido
de eliminação do íon cloreto com um intermediário tetraédrico. A cinética dessa reação é
de segunda ordem ou bimolecular, sendo portanto de primeira ordem para cada reagente.
A formação do intermediário é a etapa determinante da velocidade da reação, portanto, o
estado de transição da transformação dos reagentes no intermediário é o de maior energia.

Etapa
Lenta

[E T 1]
Etapa Lenta
[E T 2]

∆G 1 ∆G 2

∆G
Energia livre

108
Um fator importante a se destacar é a variação da velocidade de uma determinada reação
quando ocorre uma modificação na temperatura. Um aumento da temperatura aumenta a
energia cinética das moléculas e com isso mais colisões irão acontecer e também ocorrerá
uma maior probabilidade de colisões entre moléculas com energia suficiente para efetivar
a reação. O gráfico mostrado a seguir ilustra como a energia média das moléculas varia
com a temperatura. Para uma reação específica com energia de ativação ∆G ‡, um maior
número de moléculas com energia suficiente para superar a barreira de energia ocorre em
temperaturas mais elevadas.

T3 T2

T2
T3

∆G

A maior área sob a curva, que representa o número total de moléculas, ocorre quando a
temperatura é maior (T3). Isso quer dizer que nessa temperatura a maior parte das moléculas
possui energia suficiente para superar a energia de ativação.
Um catalisador aumenta a velocidade da reação mediante a diminuição da energia de ati-
vação. Solventes podem aumentar ou diminuir a velocidade da reação dependendo do seu
efeito sobre os reagentes e sobre o estado de transição. Reações em que íons são gerados, por
exemplo, se processa mais rapidamente em solventes polares, porque o estado de transição
iônico é estabilizado por interações dipolares favoráveis.
Um ponto importante, nesse momento, é correlacionar à estabilidade definida pela termo-
dinâmica com a reatividade descrita pela cinética. Os diagramas de perfil de energia são fer-
ramentas essenciais para essa conexão. A composição de um produto ao final de uma reação
pode ser governada por um equilíbrio termodinâmico do sistema. Quando isso acontece, a
composição do produto é governada pelo controle termodinâmico e a diferença de estabi-
lidade entre os produtos que podem ser formados, medida pela diferença de energia livre
∆G, determina a composição do produto. Alternativamente, a composição do produto pode
ser governada pelas velocidades concorrentes de formação dos produtos, que é chamado de
controle cinético. Essa diferença de velocidade está diretamente relacionada com a energia
livre de ativação ∆G‡ dos estados de transição que irão formar os diferentes produtos. Uma
ilustração clássica para exemplificar esses controles é a adição de HCN à butenona. Dois
produtos podem ser formados.

109
Adição rápida Adição lenta

Produto cinético Produto termodinâmico

Para formar o produto cinético, o íon cianeto deverá atacar diretamente a carbonila, en-
quanto que para a formação do produto termodinâmico o íon cianeto terá que atacar o alque-
no da butenona, que é menos eletrofílico. A segunda reação é mais lenta, entretanto, forma
o produto mais estável. As duas reações possuem um ânion alcóxido como intermediário.

CN H CN NC
O H O
OH O
CH 3 CH 3 CN CH 3 CN CH 3
Intermediário NC Intermediário
alcóxido alcóxido

Para facilitar o entendimento, as duas reações foram colocadas no mesmo diagrama de


perfil de energia, com os reagentes ocupando a sua parte central.

[E T 1]
Etapa lenta
[E T 1] [E T 2]
Etapa lenta
[E T 2]

∆G 3 ∆G 4
∆G2 ∆G1

CN
O
O
CH 3
CN CH 3
∆G 1
Energia livre ∆G 2
Produto cinético Energia livre
CN
OH Produto Termodinâmico
CH 3 O
∆G1 ∆G 3 ∆G 2 ∆G 1
CN CH 3

Ainda correlacionando aspectos termodinâmicos e cinéticos de uma reação, as velocidades


das reações químicas, como já vimos, são controladas pelo ∆G‡, portanto, informações sobre
a estrutura do estado de transição é crucial para o entendimento do mecanismo da reação.
Porém, esses estados de transição têm somente existência transitória, pois são muito instáveis.

110
Por isso, não é possível fazer uma determinação experimental que forneça uma informa-
ção direta sobre a sua estrutura. Hammond assinalou as circunstâncias em que é válido
relacionar a estrutura do estado de transição com a estrutura dos reagentes, intermediários
ou produtos. A sua declaração ficou conhecida como postulado de Hammond. Para etapas
individuais de uma reação o postulado de Hammond descreve: “se dois estados, como, por
exemplo, um estado de transição e um intermediário instável ocorrem consecutivamente du-
rante um processo de reação com quase a mesma quantidade de energia, sua interconversão
deverá envolver somente uma pequena reorganização da estrutura molecular”. Esse postulado
pode ser discutido com base no diagrama de perfil de energia.

[E T 1] [E T 2] [E T 3]

∆G Intermediário
∆G ou produtos
Reagentes

Reagentes ∆G

Intermediário
Intermediário ou produtos
ou produtos Reagentes

(Caso 1) (Caso 2) (Caso 3)

O caso 1 representa uma etapa muito exotérmica com uma baixa energia de ativação.
Decorre do postulado de Hammond que nessa etapa, o estado de transição deverá ser seme-
lhante ao reagente, pois os dois estão próximos em energia e podem ser interconvertidos por
uma pequena variação estrutural. Isso é mostrado no diagrama de energia potencial como
um pequeno deslocamento na direção do produto ao longo da coordenada de reação. Isto
significa que as comparações entre as séries estreitamente relacionadas de reagentes deverão
depender principalmente de suas características estruturais. O caso 2 descreve uma etapa
na qual a energia do estado de transição é muito maior do que os reagentes e os produtos.
Nesse caso, nem o reagente e nem o produto é um bom modelo para o estado de transição.
Outras informações são necessárias para descrever as características estruturais do estado
de transição. A comparação e uma série de reagentes de ter como foco primário o estado de
transição. Por último, o caso 3 ilustra uma etapa endotérmica, como pode ocorrer na forma-
ção de um intermediário instável. Nesse caso, a energia do estado de transição é similar a
do intermediário e com isso, o estado de transição deverá ter uma estrutura semelhante ao
intermediário. Os efeitos estruturais e dos substituintes podem ser interpretados em termos
do seu efeito na estabilidade do intermediário.

111
Resumo e Palavras-chave

O mecanismo de uma reação orgânica é a descrição etapa por etapa do processo de formação
e ruptura de ligações que ocorre durante a reação. Um mecanismo inclui variações estrutu-
rais que ocorrem e intermediários de reação que devem estar consistente com os dados expe-
rimentais. O movimento dos elétrons é o processo de quebra e formação de ligações químicas
representado por setas curvas que indica a origem do elétron e para onde se destina o elétron.
O mecanismo descreve um reagente rico em elétrons, uma base de Lewis, denominado de
nucleófilo e também um componente atrator de elétrons, um ácido de Lewis, chamado de ele-
trófilo. As características dos reagentes combinadas com as as classes de reação dão origem
a descrição da reação, isto é, adição nucleofílica, substituição eletrofílica, etc.
As reações orgânicas ocorrem tipicamente em uma única etapa ou em múltiplas etapas.
A energética de cada etapa são representadas pelo diagrama de perfil de energia. Uma das
etapas é a etapa determinante da velocidade da reação e pode ser experimentalmente de-
terminada pela cinética da reação. A diferença entre a energia dos reagentes e do estado de
transição é denominada energia livre de ativação. Já a diferença de energia entre reagentes
e produtos é chamada de energia livre. Essas enrgias estão diretamente relacionadas com a
composição dos produtos, que pode ser governada pelo controle cinético ou termodinâmico.
O estado de transição de cada etapa reacional representa uma descrição hipotética dos com-
ponentes da reação no ponto de maior energia de cada etapa.
Hammond assinalou as circunstâncias em que é válido relacionar a estrutura do estado de
transição com a estrutura dos reagentes, intermediários ou produtos. A sua declaração ficou
conhecida como postulado de Hammond.

Ao término dessa aula você deverá ser capaz de:

Identificar os nucleófilos e os eeletrófilos;


Distinguir uma cisão heterolítica de uma reação de uma cisão homolítica;
Escrever em um mecanismo de reação o movimento dos elétrons atravé da no-
tação de seta curva;
Identificar e utilizar os orbitais moleculares de fronteira numa reação porgânica;
Reconhecer os intermediários reativos de uma reação orgânica bem como os seus
efeitos estabilizadores;
Escrever diagramas de perfil de energia para reações orgânicas em uma única
etapa e para reações multi-etapas;
Identificar os principais componentes energéticos dos diagramas de perfil de
energia das reações;
Correlacionar a estrutura do estado de transição com a dos reagentes, interme-
diários e produtos;

112
Descrever o controle cinético e termodinâmico para as reações orgânicas;
Avaliar o efeito da temperatura na cinética da reação;

Olhando a diante

Cinética e mecanismos de diversas reações orgânicas.

A t i v i da des
1ª Questão: O mecanismo comumente aceito para o mecanismo de substituição eletrofílica do
grupo nitro em um anel aromático é mostrado a seguir. Assumindo que o produto nitroben-
zeno é mais estável do que o material de partida, responda:
a) Escreva um diagrama de perfil de energia para essa reação;
b) Marque o(s) estado(s) de transição no diagrama com o símbolo ‡;
c) Marque qualquer intermediário com I;
d) Escreva a(s) estrutura(s) do(s) intermediário(s) e mostre onde eles estão no diagrama;
e) Indique a energia livre de ativação ∆G‡ no diagrama;
f) Indique a energia livre ∆Go da reação no diagrama.

2ª Questão: Escreva um diagrama de perfil de energia para uma reação exergônica em três
etapas, onde o primeiro intermediário é mais estável do que o segundo e a segunda etapa é a
determinante da velocidade da reação. Indique o ∆Go, ∆G‡, a posição dos estados de transição
e dos intermediários.

3ª Questão: O equilíbrio entre um composto carbonilado e o seu hidrato normalmente favo-


rece o aldeído ou a cetona. Consulte livros de química orgânica para verificar o mecanismo
dessa reação e escreva o seu diagrama de perfil de energia, marcando a diferença de energia
entre os dois compostos. O que muda no perfil de energia para o hidrato da ciclopropanona
que é formado preferencialmente em relação à cetona.

4ª Questão: Na reação de adição nucleofílica à carbonila mostrada a seguir, o correspon-


dente diagrama de perfil de energia apresenta um intermediário e dois estados de transição.
Segundo o postulado de Hammond os estados de transição terão estruturas semelhantes a
quem? Explique a sua resposta.

113
[E T 1]

[E T 2]

∆G1 ∆G2

Intermediário

Reagentes

∆G1
Energia livre

5ª Questão: Na reação de adição eletrofílica de HC l ao 2-metilpropeno, a reação ocorre se-


letivamente. O produto formado é oriundo da adição do eletrófilo (H+) ao carbono da dupla
ligação do substrato mais hidrogenado e o nucleófilo (C l-) ao carbono menos hidrogenado,
essa orientação da adição é denominada regra de Markovnikov. Considerando que o interme-
diário dessa reação é um carbocátion, justifique essa seletividade. Construa dois diagramas
de perfil de energia para as duas possibilidades de reação e os compare. Isso auxiliará a
justificar a formação do produto da reação.

6ª Questão: O gráfico mostrado a seguir corresponde às mesmas reações realizadas uma


com catalisador e a outra sem catalisador. Identifique no gráfico essas reações e justifique
a sua resposta.

114
Reagentes

Podutos

7ª Questão: O gráfico mostrado a seguir descreve a reação de sulfonação do naftaleno sob


condições reacionais distintas, para formar produtos diferentes. Um produto é obtido sob con-
trole cinético e o outro sob controle termodinâmico. Identifique qual diagrama de perfil de
energia corresponde à condição reacional sob controle cinético e sob controle termodinâmico.
Energia

+ H2SO4
SO3H

H2O

SO3H
H2O

Coordenada de reação

8ª Questão: A estrutura mostrada a seguir é de um carbeno estável, obtido na forma de cris-


tal incolor e analisado por difração de raio-X. De acordo com a sua estrutura esse carbeno
pode ser considerado como singleto ou como tripleto? Explique a sua resposta.
Ângulo de ligação
102º

N N
C

9ª Questão: Os carbocátions e os radicais livres do carbono são espécies deficientes de elé-


trons. Contudo, ao contrário do primeiro, os radicais podem ser estabilizados tanto por gru-
pos doadores de elétrons, quanto por grupos atratores. Explique essa afirmativa.

10ª Questão: A ordem de estabilidade dos carbânions é carbono sp3 < sp2 < sp, e pode ser ava-
liada em fase gasosa pela energia de suas reações com prótons, que é chamado de afinidade
por prótons, conforme mostra a tabela a seguir. Explique esse resultado.

Afinidade por prótons (kcal/mol)


R- + H+ R-H

CH 4 H 2C=CH 2 HC CH
419, 4 408, 7 375, 1

115
2 Estereoquímica

Aula 1

Análise Conformacional

A ciência ensina, há muito tempo, que o ponto primordial para a interpretação das proprie-
dades de uma substância química passa inicialmente pelo reconhecimento e compreensão da
sua estrutura e das suas ligações químicas. A estrutura de uma substância está diretamente
associada à forma com que os átomos estão arranjados no espaço. Já o termo ligações quí-
micas descreve as forças que mantêm os átomos vicinais unidos. O objetivo desse módulo
é estudar mais aprofundadamente os orbitais e as teorias de ligação, a teoria da ligação de
valência e a teoria dos orbitais moleculares, a fim de entendermos a ligação covalente.

É necessário relembrar antes de começar:


Ligação covalente e estrutura molecular
(Módulo 1 – aula 1 - Química Orgânica I);
Ressonância e a teoria de orbital molecular
(Módulo 1 – aula 2 – Química Orgânica I);
Energética das reações químicas
(Módulo 1 – aula 4 – Química Orgânica I).

1 Conformação de compostos acíclicos

Confôrmeros são arranjos espaciais de um grupo de átomos de uma molécula que são ra-
pidamente convertidos em outra orientação espacial através da rotação de uma ligação σ.
A orientação específica de um determinado confôrmero é denominada conformação. Para
entender porque diferentes conformações existem, precisamos lembrar que a ligação σ é
proveniente da sobreposição dos orbitais no eixo nuclear, portanto, não existe nenhuma
orientação que comprometa a sobreposição desses orbitais. Portanto, eles existem porque
as posições relativas dos substituintes nos diferentes átomos, especialmente no átomo de
carbono, mudam com a rotação em torno do eixo da ligação.

116
H H H H
H
C C C C
H H H
H H H H
Rotação sobre a ligação σ

No processo de interconversão dos confôrmeros existe uma barreira de energia sobre a rota-
ção da ligação denominada barreira de rotação ou barreira torcional. A magnitude dessa bar-
reira de energia depende dos substituintes ligados aos átomos envolvidos na ligação σ que está
sofrendo o processo de rotação. A questão que agora teremos que responder é: Por que existe
uma barreira de energia sobre a rotação da ligação σ carbono-carbono? Para responder essa
pergunta, começaremos estudando a ligação carbono-carbono mais simples que existe que é
a ligação da molécula do etano. O etano tem duas conformações extremas que é a estrelada
e a eclipsada. Essas conformações são mostradas a seguir sob três diferentes pontos de vista.

Conformação Estrelada Conformação Estrelada

Visão Lateral Visão Frontal Visão Lateral Visão Frontal

Analisando aConformação
conformação estrelada e a eclipsada do etano,Conformação
Eclipsada a partir da visão frontal, pode-
Eclipsada

se entender porque essas conformações são assim denominadas. Na conformação eclipsada


as ligações C-H próximas ao observador bloqueiam completamente a visão das ligações mais
afastadas, como em um eclipse solar onde a lua bloqueia a visão do sol para a Terra. Na es-
trelada as ligações C-H mais afastadas
Visão Lateral Visãoaparecem
Frontal nasLateral
Visão lacunas entre as ligações C-H Visão
próximas,
Frontal

formando algo semelhante a uma estrela.


Existem basicamente dois métodos de escrever essas conformações: o primeiro consiste em
simplesmente escrever a visão lateral da molécula usando linhas cheias tracejadas em cunha
para representar as ligações que não estão no plano do papel. A linha cheia representa a

117
ligação que está mais próximo do observador, ou seja, saindo do papel para frente. Já a linha
tracejada representa a ligação mais afastada do observador, isto é saindo do plano do papel
para trás. Esse método é denominado cavalete.

H H H
H HH H H H H
H H H H H H
H H H H H H H
H
Conformação estrelada Conformação eclipsada

O segundo método consiste em escrever a visão frontal, olhando ao longo da ligação car-
bono-carbono. Essa visão é conhecida como projeção de Newman e está sujeita a algumas
convenções: a) o átomo de carbono mais próximo do observador está localizado na junção
das três ligações C-H da frente; b) o átomo de carbono de trás (que não aparece na visão
frontal) é representado por um círculo largo. O círculo representa a densidade eletrônica
da ligação carbono-carbono; c) As ligações do carbono mais afastado do observador são
escritas junto à borda do círculo e não a partir do centro dele; d) as ligações eclipsadas,
para facilitar a visualização, são escritas ligeiramente deslocadas como se a ligação tives-
se sofrido uma pequena rotação. As projeções de Newman das conformações estreladas e
eclipsadas do etano são mostradas a seguir.

Conformação estrelada Conformação eclipsada


Átomo de carbono Ligação C-H do
H mais afastado HH
H H carbono mais afastado
Átomo de carbono do observador para na borda do círculo
Ligação C-H do H
mais próximo H H H H
do observador carbono próximo H
H
começa no centro
do círculo
Conformação estrelada Conformação eclipsada
Átomo de carbono Ligação C-H do
H mais afastado HH
H H carbono mais afastado
Átomo de carbono do observador para na borda do círculo
Ligação C-H do H
mais próximo H H H H
do observador carbono próximo H
H
começa no centro
do círculo

As conformações estreladas e eclipsadas do etano não são idênticas em energia: a con-


formação estrelada é mais estável do que a eclipsada em 12,1 kJ mol-1 ou 2,9 kcal mol-1.
Esse valor corresponde à barreira de rotação. No curso dessa conversão, existem outras
conformações possíveis, com energias entre esses extremos e a partir desses dados pode-se
construir um gráfico de variação de energia do sistema em função da rotação da ligação
carbono-carbono. Para tal define-se o ângulo diedro (θ), muitas vezes chamado de ângulo
de torção ou ângulo torcional, como sendo o ângulo formado entre a ligação C-H do carbo-
no próximo ao observador e a ligação C-H do átomo de carbono mais afastado do observa-
dor. Na conformação estrelada θ = 60 º e na eclipsada θ = 0 º.

118
θ = 60°
0° θ = 0°
H θ = 60°
60

0
HH
H HH H H H H
H H H H
H H H H H H H H
H H

Conformação estrelada Ângulo


Ân
 l Diedro
ngulo Diedddro
Di
D Conformação eclipsada
θ = 60, 180 e 300º θ = 0, 120 e 240º

O diagrama de energia mostra a conformação estrelada como sendo o mínimo de ener-


gia potencial enquanto que a conformação eclipsada representa o máximo de energia. Isso
significa que a conformação eclipsada não é a mais estável, visto que qualquer rotação, por
menor que seja, deverá levar a uma conformação com menos energia. A molécula deverá,
portanto, passar a maioria do seu tempo na conformação estrelada ou quase estrelada e
apenas uma passagem transitória pela conformação eclipsada, durante a conversão de uma
conformação estrelada para outra.

Energia HH HH HH
kcal/mol-¹
H H H
H H H H H H
H H H

2,9

H H H
H H H H H H

H H H H H H
H H H
0
60 120 180 240 300 360

Ângulo diedro θ

Por que a conformação eclipsada possui energia maior do que a estrelada? A barreira torsio-
nal do etano não se deve somente a interações estéricas dos átomos de hidrogênio dos grupos
metílicos na conformação eclipsada, uma vez que esses átomos são pequenos e estão distantes
o suficiente para minimizar as repulsões estéricas (van der Waals). Estima-se que esse fator
seja responsável por apenas 10% da barreira de energia do etano. Interações eletrostáticas
entre as ligações C-H fracamente polarizadas também não são importantes. A maior contri-
buição em energia para a barreira de rotação foi atribuída à repulsão dos elétrons proveniente
de uma sobreposição desfavorável entre os orbitais ligantes das ligações σC-H na conformação
eclipsada. Contudo, outros cálculos teóricos sugerem que essa diferença de energia pode ter
origem também em uma interação estabilizadora entre o orbital ligante σC-H de um carbono
com o orbital antiligante σ*C-H do outro átomo de carbono (efeito de hiperconjugação), quando
esses orbitais estão exatamente paralelos, como ocorre na conformação estrelada.

119
Interação estabilizadora entre os orbitais
σC-H (preenchido) e σ∗C-H (v azio)
Repulsão entre os elétrons
dos orbitais ligantes σC-H H
σC -H H H
σC -H H H σC -H H σ∗C -H
H
H H H
H H

Conformação eclipsada Conformação estrelada

Naturalmente, a imagem real é provavelmente uma mistura de todos os três efeitos, cada
um contribuindo mais ou menos, dependendo do composto sob consideração.
A situação conformacional do propano é muito similar a do etano: Existem três mínimos
de energia indistinguíveis (conformações estreladas) e três barreiras de energia também sem
distinção, referentes às conformações eclipsadas no gráfico de energia potencial em função
do ângulo diedro. Entretanto, uma vez que a barreira de rotação agora envolve o eclipsa-
mento de um grupo metil (no lugar de um átomo de hidrogênio) com um átomo de hidrogênio,
a energia para a rotação da ligação carbono-carbono na conversão de uma conformação
estrelada para a conformação eclipsada no propano é de 14,2 kJ mol-1 ou 3,4 kcal mol-1. Pro-
vavelmente o incremento de 0,5 kcal mol-1 na energia da barreira de rotação do propano pode
ser atribuída à interação repulsiva de van der Waals entre o grupamento metil ligado a um
átomo de carbono e o átomo de hidrogênio ligado ao outro carbono (CH 3/H).

θ = 60 o
Energia H CH³ H CH³ H CH³ H 3C
H
CH3 H
kcal/mol-¹ H H
H H H H
H H H H H H H
H H H H
H H
H Conformação estrelada

3,4
θ = 0o
H CH 3 H 3C H

CH³ CH³ CH³ H H H


H H H H H H H H H H
H
H H H H H H Conformação eclipsada
H H H
0
60 120 180 240 300 360

Ângulo diedro θ

Uma situação conformacional diferente é encontrada na molécula do butano. Agora, dois


átomos de hidrogênio são efetivamente trocados por dois grupos metílicos mais volumosos.
Esses grupamentos são grandes o suficiente para ficar um no caminho do outro, isto é, os
fatores estéricos tornam-se uma contribuição significativa para aumentar a barreira de ener-
gia rotacional. Além disso, existem três ligações carbono-carbono em torno das quais pode
haver rotação; as ligações C1-C2 e C3-C4 possuem comportamentos semelhantes ao do propano,
porém a ligação C2-C3 possui características diferentes. Ao girar essa ligação observamos que
nem todas as conformações estreladas e eclipsadas possuem a mesma energia. As seis con-
formações adotadas pelo butano ao se fazer a rotação da ligação carbono-carbono central
são mostradas a seguir em intervalos de 60 º.

120
Energia
kcal/mol-¹
syn-periplanar
θ = 0o
H 3C CH 3
anticlinal anticlinal
H 3C C H 3 H 3C C H3
H H CH 3
H H H CH3
H
H H H
CH 3 H H H H H
H H H H H
H H 3C
Conformação eclipsada

4,5-6,1 syn-periplanar
3,6 θ = 180 o
H
CH3 H 3C H
CH3 0,9 CH3 H H
H CH 3 H 3C H H
H H H
H H CH3 H H C H3
H H CH3
H H
H H
sinclinal (gauche) Conformação estrelada
sinclinal (gauche) CH 3
anti-periplanar anti-periplanar
0
60 120 180 240 300 360

Ângulo diedro θ

O diagrama de energia em função do ângulo diedro para a molécula do butano mostra


três mínimos de energia, sendo que dois deles são equivalentes em energia e correspondem
as conformações sinclinais (gauche). A terceira, a conformação anti-periplanar, é a mais
estável (0,9 kcal mol-1), pois é desprovida das interações repulsivas de van der Waals CH 3/CH 3
existentes nas formas gauche. Existem também três barreiras de energia, onde duas delas
correspondem à diferença de energia entre a forma anti-periplanar e as formas anticlinais
(3,6 kcal mol-1). O acréscimo de energia dessas conformações anticlinais deve-se aos dois
eclipsamentos CH 3/H. A última barreira rotacional, a de maior energia (4,5-6,1 kcal mol-1),
envolve o eclipsamento CH 3/CH 3. Essa barreira retrata a diferença de energia entre a confor-
mação mais estável antiperiplanar e a conformação menos estável syn-periplanar.
Como no etano, as conformações eclipsadas do butano não são estáveis, visto que qualquer ro-
tação leva para uma conformação mais estável. A conformação anti-periplanar é a mais estável
de todas, pois os grupos metílicos, mais volumosos, estão o mais afastado possível um do outro.
Isso nos leva a acreditar que a molécula do butano sofre uma interconversão relativamente rá-
pida entre as conformações sinclinais e antiperiplanar, passando depressa por uma conformação
eclipsada. As conformações eclipsadas, que correspondem aos máximos de energia, represen-
tam o estado de transição para a conversão de um confôrmero mais estável no outro.
Cabe ressaltar que nem sempre a conformação anti-periplanar será a mais estável. Molécu-
las do tipo X-C-C-Y, onde X e Y são grupamentos fortemente eletronegativos, usualmente halo-
gênios, como por exemplo, o 1,2-difluoroetano prefere a conformação gauche em detrimento à
conformação antiperiplanar, em qualquer que seja o solvente, esse efeito é denominado efeito
gauche. Nessa conformação, cada ligação C-F está anti-periplanar a uma ligação C-H, propi-
ciando a sobreposição entre o orbital ligante σC-H e o orbital antiligante σ*C-F. Essa interação
estabilizadora compensa a diminuição da repulsão estérica existente quando os átomos de
flúor estão anti-periplanares.

121
H F F F
F H H
H
H H F σ∗C-F F
H H H σC -H
H H H H H
F F H H
Anti-periplanar Gauche
Menor repulsão
de Van der Waals Interação estabilizadora entre os orbitais
σC-H (preenchido) e σ∗C -F (v azio)

A diferença de energia que existe entre as conformações dos compostos alifáticos apre-
sentados aqui são relativamente pequenas. A energia intrínseca da molécula, a temperatura
ambiente, é suficiente para permitir a rápida conversão entre todas as conformações pos-
síveis. Também é verdade que em qualquer momento, as conformações mais estáveis estão
presentes em um percentual maior, enquanto que as percentagens são bem menores para as
conformações que correspondem aos máximos de energia. A baixa temperatura somente as
conformações que correspondem ao mínimo de energia estão presentes.

2 Conformação de compostos cíclicos

A estabilidade relativa dos anéis carbocíclicos saturados, denominados cicloalcanos, nos fornece
informações importantes sobe a sua conformação. Dados de calores de combustão mostram que
o ciclopropano é o mais instável, ou seja, possui maior energia, e o ciclo-hexano o mais estável.
A instabilidade relativa dos cicloalcanos de cadeias menores, como por exemplo, o ciclopropano
e o ciclobutano, é uma consequência direta das suas estruturas cíclicas, e por isso se diz que
essas moléculas possuem uma tensão de anel. Experimentalmente isso pode ser evidenciado
analisando os calores de combustão relativos dos cicloalcanos.
nota

O calor de combustão de um composto é a variação de entalpia da sua oxida-


ção completa. A oxidação completa de um hidrocarboneto significa convertê-
lo em dióxido de carbono e água. Isso pode ser realizado experimentalmente
por um calorímetro, que mede a quantidade de calor liberada na oxidação.
Se uma substância libera mais calor do que a outra na combustão, é porque
ela deve ter relativamente maior energia potencial, sendo consequentemente
mais instável.
CH4 + 2O2 → CO2 + 2 H 2O ΔHo = -803 kJ mol-1

Considerando que cada átomo de carbono de um cicloalcano possui hibridação sp3, então
cada ângulo de ligação deveria assumir valores de 109,45º. Entretanto, em um anel planar,
os átomos de carbono não podem se dar ao luxo de escolher o seu ângulo de ligação, visto
que os ângulos internos dependem somente do número de átomos no anel (representado
pelo correspondente polígono regular). Se esse ângulo difere do ideal, ele deve de alguma
maneira proporcionar uma tensão no anel. A tabela a seguir mostra os valores dos ângulos
internos para polígonos regulares e a indicação da tensão por átomo de carbono devido ao
desvio desse ângulo, quando comparado com o ideal tetraédrico (109,45º).
122
Número de Ângulo interno no anel planar 109, 5º - ângulo interno
átomos do anel (polígono regular) (determinação da tensão por carbono)

3 60º 49,5º
4 90º 19,5º
5 108º 1,5º
6 120º -10,5º
7 128,5º -19º
8 135º -25,5º

Analisando a tabela acima, podemos verificar que a maior tensão de anel ocorre no ci-
clopropano, mas diminui rapidamente a partir do ciclobutano e atinge o seu mínimo no
anel de cinco membros. Para esse último, se diz que a tensão de anel é mínima. Além disso,
verifica-se que a tensão de anel aumenta, apesar de menos rapidamente, quando o anel se
torna maior após o ciclopentano. Esses dados foram a base da teoria desenvolvida por Baeyer,
denominada teoria das tensões angulares, para explicar a tensão de anel dos cicloalcanos.
Porém, se faz necessário determinar a tensão de anel nesses compostos cíclicos experi-
mentalmente, para que se possa comparar com a predição teórica obtida para os anéis pla-
nares. Uma boa maneira de determinar a tensão nos anéis reais é usar o calor de combustão.
Inicialmente iremos analisar os calores de combustão para alguns alcanos acíclicos, pois
podemos assumir que eles são livres de tensão. Os resultados mostram que a diferença de
entalpia de combustão para qualquer par de alcanos na série é quase constante e assume
um valor próximo a -660 kJ mol-1 ou 157 kcal mol-1. Como a única diferença estrutural entre
esses alcanos é o acréscimo de grupamentos metilenos (-CH 2), essa diferença de energia pode
ser atribuída a cada grupamento -CH 2.

Alcano acíclico CH3(CH2)nCH3 - ∆H combustão (kJ mol-1) Diferença (kJ mol-1)

Etano n=0 1560 -


Propano n=1 2220 660
Butano n=2 2877 657
Pentano n=3 3536 659
Hexano n=4 4194 658
Heptano n=5 4853 659
Octano n=6 5511 658
Nonano n=7 6171 660
Decano n=8 6829 658
Undecano n=9 7487 658

Um cicloalcano (CH 2)n pode ser considerado, como sendo um determinado número de gru-
pamentos metilenos unido. Se esses cicloalcanos forem livres de tensão, então o calor de
combustão deverá ser simplesmente n x 660 kJ mol-1. Se, entretanto, existir alguma tensão

123
no anel, esta o tornará menos estável, isto é existirá um acréscimo de energia, e, portanto, a
energia de combustão também será maior. A determinação do calor de combustão para uma
série de cicloalcanos é mostrado na tabela a seguir. A tensão de anel foi obtida fazendo a
seguinte subtração: n x ΔH combustão por CH 2 (kJ mol-1) – n x 660 (kJ mol-1).

Cicloalcano Calor de combustão Calor de combustão por Tensão do anel


n
(CH2)n (kJ mol-1) grupo CH2 (kJ mol-1) (kJ mol-1)

Ciclopropano 3 2091 697 115


Ciclobutano 4 2744 686 109
Ciclopentano 5 3320 664 27
Cicloexano 6 3952 659 0
Cicloeptano 7 4637 662 27
Cicloctano 8 5310 664 42
Ciclononano 9 5981 665 54
Cinclodecano 10 6636 664 50
Ciclopentadecano 15 9885 659 6

Analisando os dados de calor de combustão dos anéis carbocíclicos saturados podemos ob-
ter algumas conclusões importantes: a) a maior tensão de anel é de longe a do ciclopropano;
b) o anel com a menor tensão, ao contrário do que previa a teoria de cálculo de tensão de
anel através do desvio angular, é o cicloexano e não o ciclopentano; c) a tensão em anéis
maiores que o de seis membros aumenta até atingir o máximo em energia para n=9 e depois
volta a diminuir, isso também não foi previsto pela teoria baseado no desvio angular; d)
Cicloexano (n=6) e os cicloalcanos maiores (n ≥ 14) possuem calores de combustão por –CH 2
em torno de 658 kJ mol-1, o mesmo valor obtido para os alcanos acíclicos livres de tensão.
Então, porque existem discrepâncias entre a tensão de anel dos cicloalcanos calculada
pela teoria do desvio angular, proposta por Baeyer, quando comparada com a obtida pela
entalpia de combustão por –CH 2? A resposta é simples, exceto o ciclopropano, todos os outros
cicloalcanos não são planares.
Os fatores que contribuem para a tensão existente nos anéis dos cicloalcanos serão eluci-
dados analisando, em detalhes, a estrutura de vários desses compostos.

A. Conformação dos cicloalcanos pequenos (n = 3, 4 e 5)

Como acabamos de constatar o ciclopropano é muito menos estável do que o esperado para
três grupamentos metilenos. Por que isso acontece? Existem duas razões para explicar esse
dado experimental: a tensão angular e a tensão torcional.
A figura a seguir mostra a estrutura do ciclopropano. Podemos ver que o seu anel é com-
pletamente planar, onde todos os comprimentos das ligações C-C são os mesmos fazendo com

124
que os três átomos de carbono estejam nos cantos de um triângulo eqüilátero. Olhando ao
longo das ligações C-C podemos perceber que todas as ligações C-H estão eclipsadas, de modo
semelhante à conformação eclipsada do etano. Nesta conformação, o etano possui energia
maior do que na conformação estrelada e isto caracteriza a tensão torcional. O mesmo ocorre
no ciclopropano, com um agravante, a sua estrutura é planar e rígida, impedindo a rotação
das ligações C-C que poderia aliviar a tensão torcional.

1,510 Aº H
H H
H Visão ao longo da H 2C
H C ligação C-C
C 115º
C HH
H H H Projeção de Newman
1,089 Aº Conformação eclipsada

Outro fator que contribui para a tensão no anel do ciclopropano é o desvio angular, pois os
ângulos C-C-C no ciclopropano são iguais a 60º, diferentes em 49,5º do tetraedro regular (109,45º).
Essa compressão dos ângulos internos é denominada tensão angular. Esse desvio angular acar-
reta em uma sobreposição menos efetiva dos orbitais sp3 dos átomos de carbono no ciclopropano.

H
H
H C
C
H

C
H
H

A tensão total observada nesse anel é, portanto, a soma da tensão torcional, proveniente da re-
pulsão de van der Waals devido ao eclipsamento dos átomos de hidrogênio e da tensão angular,
oriundo da distorção dos ângulos. Em consequência, as ligações C-C do ciclopropano são mais
fracas (ΔHo = 65 kcal mol-1), do que as ligações C-C nos alcanos acíclicos (ΔHo = 90 kcal mol-1).
Isso torna esse carbociclo muito reativo, pois a quebra da ligação C-C alivia a tensão do sistema.
O ciclobutano por ser estruturalmente menos rígido do que o ciclopropano pode existir
em duas conformações distintas, uma planar e a outra dita “dobrada”. O anel planar tem o
mínimo de tensão angular possível, que ainda assim é alta (desvio de 19,5º), mas deverá ter a
tensão torcional máxima, visto que os quatro pares de átomos de hidrogênio dos grupamen-
tos metilenos estão eclipsados. A tensão torcional pode ser reduzida mediante uma distorção
na conformação planar de forma que o anel deixa de ser planar, adotando uma conformação
“dobrada”. Com isso, a tensão torcional diminui, mas a tensão angular aumenta. Apesar do
aumento da tensão angular a conformação preferencial do ciclobutano é a forma dobrada ou
forma de asa, cujo ângulo de dobra (θ) é igual a 28º.

125
H 1, 109 A o
H Visão ao longo da
107 o ligação C-C
H 88o H
Ângulo de dobra
θ = 28o 1,551 A o
Conformação planar
Ciclobutano Visão lateral mostrando os
hidrogênios eclipsados
Redução do
eclipsamento
H H
H
Visão ao longo da
H ligação C-C
H
H H
H
Redução do Conformação dobrada
eclipsamento Ligações C-H não estão
completamente eclipsadas

A conformação dobrada do ciclobutano pode ser interconvertida rapidamente para a outra


conformação dobrada no sentido inverso. A barreira de energia para essa conversão é de 1,45
kcal mol-1 ou 6,06 kJ mol-1. Essa barreira de rotação é alta o suficiente para estabelecer um
duplo mínimo de energia para as conformações do butano. Como resultado da conformação
dobrada do ciclobutano, os derivados monossubstituídos, como o brometo de ciclobutila, pode
existir como confôrmeros axiais e equatoriais. Estudaremos esses confôrmeros em detalhes
quando analisarmos as conformações do cicloexano.

H H H
H H
H H
H
H H
H H
H H
∆G = 1,45 kcal mol-¹ favorecendo a conformação equatorial

Os anéis de cinco membros são comuns na natureza: os anéis carbocíclicos dos esteróides, e
das prostaglandinas; os anéis contendo átomo de oxigênio, como no açúcar furanose, nucle-
osídeos, nucleotídeos e ácidos nucléicos; os anéis contendo nitrogênio, como no aminoácido
prolina e em alcalóides como a nicotina, entre outros.

H
H3C
O O O
CH3 CH3 OH
H 3C OH O OH
H O

H H HO
HO OH
HO OH
Diosgenina - esteróide Prostaglandina E1 Furanose

N H2
O H
N N
N
O OH
N CH 3
-O P O
H O HN N H N
O- Ácido nucléico Prolina Nicotina
H H
OH H

126
O anel de cinco membros carbocíclico, ciclopentano, quando planar, os seus ângulos inter-
nos deverão ser de 108º e, portanto, quase que totalmente livre de tensão angular, visto que o
ângulo ideal é de 109,5º. Por outro lado, a tensão torcional nessa conformação deverá ser con-
siderável (estimado em 10 kcal mol-1 ou 42 kJ mol-1) devido ao eclipsamento H-H dos dez átomos
de hidrogênio. Para minimizar essa tensão, assim como o ciclobutano, o ciclopentano sofre
uma distorção e torna-se não planar, gerando como tensão total para a molécula, uma tensão
torcional residual somada a tensão angular, que sofre um acréscimo de 60% do valor no anel
planar. A conformação de menor energia é resultante desses dois efeitos, sendo ela mais estável
do que a planar. Duas conformações dobradas, mais estáveis são possíveis para o ciclopentano,
a envelope e a meia-cadeira. A diferença de energia entre essas duas conformações é pequena,
sendo a conformação envelope mais estável por cerca de 0,5 kcal mol-1 ou 2,1 kJ mol-1. A barrei-
ra de rotação entre essas duas conformações também é muito pequena, e não é surpreendente,
portanto, que o ciclopentano tenha uma rápida interconversão entre essas conformações.

H
H
H H
104 o
H
1, 113 A o H 106
o H
H
1,546 Ao Projeção de Newman
Conformação envelope
do ciclopentano

H H
H H H H
H H H H
H H H H H
H H H
H H H H
H H H
H H H H H
Conformação Conformação Conformação
envelope meia-cadeia envelope

Assim como no ciclobutano, o confôrmero monossubstituído mais estável do ciclopentano


é aquele em que o substituinte ocupa uma posição equatorial no anel. A barreira de inversão
do anel é de 3,4 kcal mol-1 quando esse substituinte é um grupo metílico.

H H H
H
H
H H H
Ciclopentano monossubstituído
conformação equatorial é a
mais estável

B. Conformação do cicloexano

Os dados de calor de combustão mostram que o cicloexano é o único anel carbocíclico com
menos de 14 átomos de carbono que pode adotar uma conformação essencialmente livre de
tensão. Isso deve incluir a tensão torcional e a tensão angular.

127
Considerando que o anel do cicloexano assume uma conformação planar, todos os átomos de
hidrogênio adjacentes estarão eclipsados, o que leva a um aumento da tensão torcional. Nessa
geometria, o ângulo da ligação C-C-C será de 120º em vez de 109,5º, acarretando em uma tensão
angular, agora de expansão. Entretanto, se um átomo de carbono do anel se mover para uma
posição acima do plano e outro átomo, de lado oposto ao primeiro, se mover para baixo do pla-
no, os átomos de hidrogênios se deslocam o suficiente para assumir uma conformação estrelada
em relação ao seu vizinho. Além disso, o ângulo C-C-C diminui para valores de 111º, próximo do
ideal que é 109,5º. Essa forma estável do cicloexano é denominada conformação cadeira.

111o

Eclipsados H H H H
H H
H H
H 120o H H H
H
H H H
H H
H H H H
Cicloexano - conformação planar Conformação cadeira
Átomos de Hidrogênio eclipsados Átomos de hidrogênio em
conformação estrelada

A visão ao longo de duas ligações C-C no modelo tridimensional da conformação cadeira


do cicloexano, mostra claramente que não existe ligação C-H eclipsada. De fato, todas as
ligações são estreladas diminuindo o quanto possível a energia da conformação. Por essa
razão e pela ausência da tensão angular, diz-se que a conformação cadeira é livre de tensão.

H H
Visão ao longo da H C H2 H
ligação C-C
H C H2 H
H H
Projeção de Newman
Visão frontal da conformação
cadeira do cicloexano

A outra forma assumida pelo cicloexano é denominada de conformação bote. Nessa conforma-
ção, de maior energia, todos os átomos de hidrogênio estão eclipsados. Além disso, existe uma
interação particularmente desestabilizadora que ocorre entre as ligações C-H em “mastro”. Isso
explica porque a conformação bote é muito menos importante do que a conformação cadeira.

Interações C-H em “mastro”

CH2 H
Visão ao longo da H CH2 H
ligação C-C H

HH HH
Projeção de Newman

Visão frontal da conformação


bote do cicloexano

A conformação bote, mesmo sendo livre de tensão angular, é mais instável do que a con-
formação cadeira em aproximadamente 25 kJ mol-1 ou 5,7 kcal mol-1 de energia. Isso se deve

128
exclusivamente a tensão torcional. Como vimos anteriormente para o ciclobutano e para o
ciclopentano, as interações das ligações C-H eclipsadas na conformação bote do cicloexano
podem ser reduzidas, mediante uma distorção do anel. A essa conformação bote ligeiramen-
te distorcida damos o nome de conformação bote-torcido, que apesar de não ser tão estável
quanto à conformação cadeira, ela possui 19,7 kJ mol-1 ou 4,7 kcal mol-1 a menos de energia
do que a conformação bote . Ela é obtida quando as duas ligações C-C “centrais” sofrem uma
pequena distorção uma em relação à outra.

Distorção da ligação C-C

Visão ao longo da
ligação C-C

Distorção da ligação C-C

O cicloexano possui dois grupos de átomos de hidrogênio geometricamente diferentes: seis


deles se estendem para cima e para baixo ao longo de um eixo vertical que passa no centro
da molécula. Eles são chamados de axiais. Os outros seis átomos de hidrogênio se alternam
sobre um plano “equatorial” perpendicular ao eixo axial. Esses átomos de hidrogênios são
chamados de equatoriais.

H H H H H H
H H H H
H H
H H H H
H H H
H H H
H H
H H H H H H
H H H H H H
Hidrogênios axiais Hidrogênios equatoriais Conformação cadeira de cicloexano

Hidrogênios axiais
Hidrogênios equatoriais
Hidrogênio equatorial

Hidrogênio equatorial
Hidrogênios equatoriais

Hidrogênios axiais

O cicloexano pode sofrer uma inversão de anel passando de uma conformação cadeira para
outra. Essa inversão promove uma mudança evidente: o grupo de átomos de hidrogênios
axiais de uma conformação cadeira passa para equatorial na conformação cadeira invertida.
A mesma inversão ocorre com os átomos de hidrogênio equatoriais. Isto é, os dois grupos de
átomos de hidrogênio sofrem uma mudança de lugar. O processo de inversão da conformação
cadeira não ocorre uma única etapa. Inicialmente a primeira inversão forma um intermediá-
rio, a conformação bote-torcido, que numa segunda etapa com a mesma energia da primeira,
produz a conformação cadeira invertida.

129
Axial
H1 Equatorial
H1 H1
H2
H2
Equatorial H 2 Axial
Intermediário
Conformação Conformação Conformação
cadeira bote-torcido cadeira

O processo de inversão de anel completo do cicloexano pode ser dividido nas conforma-
ções mostradas a seguir. As setas vermelhas indicam a direção em que um determinado deve
se movimentar para formar a próxima conformação.

H1 H1 5 2
3 5
2 1 H1 Distorção da ligação
1 H2 4
2 3 1 H2 H2 C 2-C 3 e C 5-C 6
5 4 3 6
4 6 6
Conformação H1
Conformação Conformação bote-torcido 4 3 1 H2
cadeira meia-cadeira Intermediário 2
Estado de transição 6
5
Conformação bote
4 2 2 5 2 Estado de transição
3 4 5
1 1 H H1
H1 1 4
6 3 6 1 Distorção da ligação
5 3 6 C 2-C 3 e C 5-C 6
H2 H2

Conformação Conformação Conformação


cadeira meia-cadeira bote-torcido
Estado de transição Intermediário

O perfil de energia desse processo de inversão mostra que a conformação meia-cadeira


corresponde ao máximo de energia (estado de transição) indo da conformação cadeira para
a bote-torcido. A conformação bote verdadeira é o máximo de energia (estado de transição)
do processo de interconversão entre os dois confôrmeros bote-torcido. Posteriormente, o
segundo confôrmero bote-torcido é convertido na cadeira invertida, passando por outra
conformação meia-cadeira.

Energia -1 H1
kcal mol
H2 H1

H2

H1
H2

1 0 ,7 1 0 ,7

6 ,9
H1 H1
5,5
H2 H2
H1
H2 H1
H2

0 Processo de invasão de anel

130
nota

Na conformação meia-cadeira do cicloexano, quatro átomos de carbono adja-


centes estão no mesmo plano, aumentando a tensão angular do anel. A seguir,
são mostradas outras formas de escrever as conformações meia-cadeira e
bote torcido.

5 5 3 6 3
2 3 4 6
4 1
4 1 = 4 1 =
3 2 1
6 6 5 2 2 5
Conformação meia-cadeira Conformação bote-torcido

C. Conformações dos cicloexanos substituídos

Em um cicloexano monossubstituído existem duas conformações cadeira distintas: uma


com o substituinte na posição axial e a outra em que ele está na posição equatorial. Essas
duas conformações estão em um rápido equilíbrio químico e possuem energias diferentes.
Normalmente, o confôrmero com o substituinte na posição axial possui mais energia e,
portanto, está em menor quantidade no equilíbrio.

R K eq.
H R
H
Conformação cadeira Conformação cadeira
Substituinte R axial Substituinte R equatorial

A tabela a seguir mostra uma série de cicloexanos monossubstituído, com substituintes


variados, e a preferência do confôrmero equatorialmente substituído em relação ao axial-
mente substituído a 25 º C.

∆E conformações % conformação com


Cicloalcano (CH2)n Constante de Equilíbrio (Keq.)
equatorial – axial (kJ mol-1) substituinte equatorial

-H 1 0 50
-CH3 19 7,3 95
-CH2CH3 20 7,5 95
-CH(CH3)2 42 9,3 98
-C(CH3)3 > 3000 > 20 > 99,9
-OCH3 2,7 2,5 73
-C6H5 110 11,7 99

Por exemplo, no metil-cicloexano (R = CH 3), o confôrmero com o grupo metil na posição


axial possui 7,3 kJ mol-1 a mais de energia do que o confôrmero com o grupo equatorial. A
quantificação entre os dois confôrmeros equatorial e axial no equilíbrio pode ser feita com

131
o mesmo formalismo usado na termodinâmica, isto é, se ΔG º < 0, a conformação equatorial
é favorecida; e se ΔG º > 0 a conformação axial é predominante. A concentração molar dos
confôrmeros equatoriais e axiais é relacionada à constante de equilíbrio (Keq.) pela expressão:

R K eq.
H R
H
Confôrmero axial Confôrmero equatorial

[confôrmero equatorial]
Keq. =
[confôrmero axial]

A correlação existente entre ΔG º e a K eq. é descrita pela equação mostrada a seguir, onde
R = 1,986 cal mol-1 K -1 e T é a temperatura em Kelvin (K).

∆G o = - RT lnK eq.

Rearranjando a equação anterior, obteremos a seguinte expressão para a K eq..

K eq. = e ( ∆G o / R T )

a 298 k, quando ΔG º é determinado em kcal mol-1 a equação precedente pode ser reescrita como:

K eq. = e - 1,69∆Go

Cabe ressaltar que pequenas diferenças de energia livre resultam em uma conversão qua-
se completa do confôrmero axial no equatorial. O percentual do confôrmero equatorial no
equilíbrio pode ser calculado com a equação mostrada a seguir:

% confôrmero equatorial = 100 [K eq. / (1 + K eq. )

Para um derivado monossubstituído do cicloexano, o tipo de substituinte determina a di-


ferença de energia entre as conformações axiais e equatoriais. Usando os valores da variação
de energia livre entre os dois confôrmeros, nós podemos rapidamente calcular o percentual
de cada conformação cadeira que estiver presente no equilíbrio em qualquer temperatura.
Para alguns substituintes como o átomo de flúor, a razão entre as conformações axiais e
equatoriais não variam tanto da razão 50:50 obtida pelo cicloexano. Contudo, para grupos
mais volumosos, como o metil, somente uma pequena quantidade do confôrmero axial de-
verá estar no equilíbrio. A tabela a seguir mostra a diferença de energia entre as duas con-
formações para alguns substituintes.

132
Substituinte (R) ∆G o (equatorial - axial)
Energia Substituinte (R) (kcal
∆G o (equatorial mol-1)
- axial)
Energia (kcal mol-1)
-H 0,0
- F -- HF 0,0
-0,2 -0,2
- CN - CN -0,2 -0,2
- C l - Cl -0,5 -0,5
- B r -- BC r C H -0,5 -0,5
-0,5
R - C - OC CH H3 -0,6 -0,5
R H ∆G o - OC -HOH -1,0 -0,6
3
H ∆G o Produtos - OH - C O 2H -1,4 -1,0

Produtos R
- C O --2 CCHHH=C
3
H2
-1,7
-1,7
-1,4
H - C H -3 C H 2CH 3 -1,8 -1,7
de reação- C H=C H 2 3 2
R
Coordenada
- C H(C H ) -2,1 -1,7
H - C H -2 CCH 6H 5 -2,9
-1,8
- C (C H33) 3 -5,4
Coordenada de reação
- C H(C H 3 ) 2 -2,1
- C 6H 5 -2,9
- C (C H 3) 3 -5,4
A pergunta que temos que responder imediatamente é: por que o confôrmero com o subs-
tituinte na posição axial geralmente tem energia maior do que o equatorial?
Existem duas razões que explicam essa diferença de energia: a primeira delas é que o
confôrmero é desestabilizado pela repulsão de van der Waals entre o grupo substituinte
(R) e os dois átomos de hidrogênio (ou outros grupos) axiais nos átomos de carbono C3 e
C5 que estão do mesmo lado do anel. Essa interação estérica repulsiva é denominada inte-
ração 1,3-diaxial.

H H H H
H H H
H C H C H
H 1 H H
H 3 2 = 3 1 H
H H 2
H
4 H5 6 4 H5 6
H H H H
Interação 1,3-diaxial

O metil-cicloexano providencia um exemplo simples que ilustra o efeito da substituição


de um dos átomos de hidrogênio do cicloexano. Contudo, o efeito proporcionado por outros
substituintes será muito semelhante a esse: qualquer grupo mais volumoso que o átomo de hi-
drogênio em posição axial providencia interações 1,3-diaxiais aumentando a energia do con-
fôrmero. À medida que o volume do substituinte aumenta, essa interação se torna mais severa
e o confôrmero axial mais instável, sendo, portanto, menos favorecido no equilíbrio químico.
A segunda razão é que no confôrmero equatorial a ligação C-R está anti-periplanar a duas
ligações C-C, enquanto que na conformação com o substituinte R em axial a ligação C-R é
sinclinal (gauche) a duas ligações C-C. É importante lembrar que, da mesma maneira que a
interação gauche aumenta a energia da conformação sinclinal do butano em relação à con-
formação anti-periplanar, também ocorre um acréscimo de energia no confôrmero axial do
cicloexano devido a essa interação.

133
Projeção de Newman P r ojeção d e N ewm an

H R H R
H
H C H2 R H H 2C
H H
R = =
H C H2 H H 2C H
H
H H H
H H
As ligações em vermelho são anti-periplanares As ligações em vermelho são sinclinais (gauche)
(por questão de clareza, somente uma interação (por questão de clareza, somente uma interação com
com a ligação C-C é mostrada) a ligação C-C é mostrada)

Analisando os dados da tabela apresentada na página anterior podemos perceber que a


diferença de energia entre o confôrmero equatorial e axial do etil-cicloexano (ΔG º = -1,8 kcal
mol-1) é muito parecida com a diferença apresentada para o metilcicloexano (ΔG º = -1,7 kcal
mol-1). O confôrmero axial do etilcicloexano adota uma orientação em que a porção metílica
do grupamento etila se afasta do anel. Por isso, ocorre apenas um pequeno aumento na ener-
gia da interação 1,3-diaxial quando comparado ao metil-cicloexano. Em contrapartida, uma
interação gauche adicional é associada à introdução desse grupo metil extra.

H H H H H H H H
H H H H C H3 H
H C H C H H C H C C H3
H 1 H H 1 H H
H 3 2 H 3 1 H H 3 2 = 3 2 1 H
H = H 2 H H H
H
4 H5 6 4 H5 6 4 H5 6 4 H5 6
H H H H H H H H

Interação 1,3-diaxial Interação 1,3-diaxial


Metil-cicloexano Etil-cicloexano

Similarmente, a conformação axial do isopropil-cicloexano também adota uma orien-


tação em que as duas metilas do grupo isopropil se afastam do anel, fazendo com que as
interações 1,3-diaxiais com os hidrogênios axiais dos carbonos C 3 e C 5 não sejam muito
diferentes das existentes no metil-cicloexano. O pequeno acréscimo da energia livre de
Gibbs deve-se principalmente às duas interações gauche relacionadas à introdução de dois
grupamentos metilas extras.

H C H3 H C H3
H C H3 H
H C H C C H3
H 1 H H
H 3 2 = 3 2 1 H
H H H
4 H5 6 4 H5 6
H H H H
Interação 1,3-diaxial
Isopropil-cicloexano

Já o que ocorre quando um grupo terc-butil é introduzido no anel carbocíclico de seis


membros é bastante diferente. O confôrmero axial do terc-butil-cicloexano apresenta uma
forte interação 1,3-diaxial entre o terceiro grupo metil e os hidrogênios axiais que estão
nos carbonos C3 e C5. Por esse motivo, o confôrmero equatorial é largamente favorecido no
equilíbrio. Devido a esse favorecimento, o grupamento terc-butil é bastante utilizado para
estabilizar uma conformação particular de forma que seja possível estudar outros aspectos
da estereoquímica ou ainda efeitos conformacionais no anel de seis membros.

134
H H H H
CH 3 H CH 3
H H C
H C CH3 H C CH 3
H
H 1 H H
H 3 2 = 3 2 1 H
H H H
4 H5 6 4 H5 6
H H H H
Interação 1,3 - diaxial
terc-butil-cicloexano

A introdução de um heteroátomo, como por exemplo, o grupo metoxi do metoxi-cicloe-


xano diminui a diferença de energia entre os confôrmeros axiais e equatoriais. O átomo de
oxigênio da metoxila funciona como um elo afastando a metila do anel de maneira muito
semelhante ao que ocorre com o etil-cicloexano, diminuindo a interação com os átomos de
hidrogênios axiais que estão do mesmo lado.

H C H3
H O
H 3 1 H
H 2 H
4 H 5 6
H H
Metoxi-cicloexano

Diante do que foi exposto até agora, podemos concluir que a constante de equilíbrio não
depende do tamanho do substituinte, ma sim da sua interação com os hidrogênios axiais
da sua vizinhança.
Quando existem dois ou mais substituintes no anel, ocorre uma complicação adicional.
Além das conformações axiais e equatoriais, os substituintes podem estar para cima ou para
baixo relativo ao plano definido pelos seis átomos de carbono do anel. Quando esses substi-
tuintes estão do mesmo lado do anel são chamados de estereoisômeros com configuração cis.
O outro estereoisômero possui os substituintes em lados opostos ao plano do anel, isto é, um
grupo está acima do plano e o outro abaixo. Esse estereoisômero é denominado trans. Veja
o exemplo do 1,2-dimetil-cicloexano ilustrado a seguir.

CH3 CH3

CCHH3 3 CCHH3 3
cis-1,2-dimetil-cicloexano trans-1,2-dimetil-cicloexano
CH3 CH3
cis-1,2-dimetil-cicloexano trans-1,2-dimetil-cicloexano

Vamos agora considerar as formas cadeira desses isômeros. Se os grupos metilas estão do
mesmo lado do anel, isto é o cis isômero, e o substituinte no C1 está na posição axial, então
o grupo metil no carbono C2 deve ficar na posição equatorial.

135
CH 3 CH 3
CH 3
1 H 1 H
CH 3 CH 3
2
H
O primeiro grupo metil é colocado O segundo grupo metil, para respeitar a cis - 1,2 - dimetil - cicloexano
na posição axial do carbono Cl. configuração cis, deve também ser colocado
Esse grupamento está para cima. para cima e isso corresponde à posição equatorial.

nota

Na representação planar do cicloexano substituído, estamos olhando direta-


mente para o anel no plano da folha de papel e as ligações acima e abaixo
desse plano são representadas por linhas em cunha e tracejadas, respectiva-
mente. Cabe ressaltar que essas linhas não indicam nada sobre a conformação
do anel de seis membros.

Linha em cunha representa


uma ligação orientada para CH3
cima do plano do papel.
CH3
Linha tracejada representa
uma ligação orientada para
baixo do plano do papel.

Na configuração trans do 1,2-dimetil-cicloexano as metilas estão em lados opostos, logo


se colocarmos a primeira metila para cima no carbono C1, portanto, na posição axial, a
segunda metila deverá ser adicionada no carbono C2 para baixo. Esse segundo grupo metil
deverá ocupar uma posição axial também.

CH 3 CH 3
CH 3
1 H 1 H
H CH 3
2
CH 3
trans - 1,2 - dimetil - cicloexano
O primeiro grupo metil é colocado O segundo grupo metil, para respeitar a
na posição axial do carbono Cl. configuração trans, deve ser colocado
Esse grupamento está para cima. para baixo e isso corresponde à posição axial.

Cabe nesse momento ressaltar a importância da representação da estrutura do cicloexano


na forma cadeira, visto que ela possui muito mais informações do que a representação do
hexágono planar. Na forma cadeira é mostrada tanto a configuração quanto a conformação,
enquanto que na forma planar somente a configuração é descrita.
Uma vez escrito o isômero correto, podemos representar as duas conformações cadeiras
para esse isômero e responder qual confôrmero é o mais estável. Para o isômero cis-1,2-
dimetil-cicloexano uma conformação cadeira tem um grupo metil na posição axial e outro
na equatorial. Ao fazer a inversão do anel, o substituinte na posição axial passa a ficar na
equatorial e vice-versa. As duas conformações cadeira têm um substituinte na posição axial
e o outro na posição equatorial, sendo, portanto, iguais em energia. As interações 1,3-dia-
xiais são idênticas para os dois confôrmeros.

136
Axial Axial
CH 3 CH 3
K eq.
H CH 3
CH 3 H
H
H Equatorial Equatorial
cis - 1,2 - dimetil - cicloexano

Nas duas conformações cadeira do trans-1,2-dimetil-cicloexano existe uma grande dife-


rença de energia entre elas. O confôrmero que apresenta os dois grupamentos metilas em
posição equatorial é mais estável do que a conformação diaxial, porque o primeiro não apre-
senta interação 1,3-diaxial entre as metilas e os átomos de hidrogênios.

H CH 3 H
H
H K eq.
H CH3
H CH3
H
CH3 H
Confôrmero diaxial Confôrmero diequatorial
trans - 1,2 - dimetil - cicloexano

Podemos concluir então, que o confôrmero favorecido no equilíbrio será aquele com maior
número de substituintes na posição equatorial, pois assim as interações 1,3-diaxiais dos
substituintes com os respectivos hidrogênios são minimizadas. O exemplo a seguir do iso-
mentol ilustra essa máxima.
Axial
CH 3 H Equatorial Axial
Equatorial H
H 3C OH H
H OH H 3C
CH (CH 3)2 OH Axial
Isomentol H Equatorial H

Devemos agora analisar a situação em que os substituintes são diferentes. Por exemplo, para
o trans-2-bromo-cicloexanol não há problema, pois uma conformação cadeira terá os dois
substituintes na posição equatorial e na outra conformação esses substituintes estarão em po-
sições axiais, sendo a primeira muito mais estável. Porém, no caso do cis-2-bromo-cicloexanol
em que um substituinte está em equatorial e o outro em axial nas duas conformações cadeira,
o confôrmero favorecido no equilíbrio dependerá dos substituintes. Em geral, a conformação
favorecida será aquela em que o substituinte mais volumoso estiver na posição equatorial.
No exemplo citado anteriormente o bromo é mais volumoso do que a hidroxila e, portanto
a conformação mais estável terá o átomo de bromo na posição equatorial preferencialmente.

OH H
OH OH
H Br
Br H
Br H
trans - 2 - bromo- cicloexanol Confôrmero diaxial Confôrmero diequatorial

Axial
OH B r Axial
OH Equatorial
OH
H H
Br Br
cis - 2 - bromo- cicloexanol H Equatorial H

137
É importante lembrar que as regras de análise conformacional fornecidas anteriormente ser-
vem apenas como uma diretriz para tentar determinar a conformação mais estável. Entretanto,
em alguns casos não é fácil fazer essa determinação. Em oposição a essas incertezas, anéis
contendo grupamentos terc-butila são fáceis de decidir qual conformação será a mais estável.
Como vimos anteriormente, o grupo terc-butila fica preferencialmente na posição equatorial.

Axial
OH
Equatorial OH
H

H
Conformação favorecida, pois possui
o grupo terc-butil na posição equatorial,
fixando a hidroxila na posição axial.

D. Conformações dos heterociclos saturados: o efeito anomérico

A princípio, as conformações dos heterociclos de cinco e seis membros saturados seguem qua-
se os mesmos princípios conformacionais dos compostos carboxíclicos que nós vimos até o mo-
mento. Entretanto, temos que atentar para um detalhe, esses anéis contendo heteroátomos além
das ligações C-H, C-C, C-substituintes, os heteroátomos possuem pares de elétrons não ligantes
que deverão ocupar posições equatoriais e axiais. Alguns exemplos são mostrados a seguir.

Axial Axial Axial


Equatorial
S O Equatorial O
S H H
O Equatorial N
N
Equatorial Axial
Axial Axial
Ditiana Dioxano Morfolina Piperidina

Outro ponto a ressaltar sobre os pares de elétrons não ligantes dos heteroátomos nas con-
formações cadeira é o fato de que os elétrons representados pela cor azul estão paralelos às
ligações C-C e C-X (X = heteroátomo) e os elétrons em vermelho estão paralelos às ligações
C-H e C-R , se o anel tiver substituinte (R). O tetraidropirano mostrado a seguir ilustra essa
relação de paralelismo. Note que os substituintes próximos ao heteroátomo nas posições
equatoriais não estão paralelos a nenhum par de elétrons não ligante.

H H H
CH 3 CH 3 CH 3
O CH 3 H H H
CH 3
O O O
CH 3 CH 3 CH 3

Par de elétrons em vermelho Par de elétrons em azul


está paralelo às ligações está paralelo às ligações
C-H e C-CH3 axiais C-H e C-CH3 axiais

138
Um dos mais importantes heterociclos oxigenados saturados são os açúcares. A glucose é
o açúcar de ocorrência natural mais abundante e existe preferencialmente na forma de ß-D-
glucopiranose, mostrada a seguir. Não é surpreendente verificar, nesse momento, que na sua
conformação cadeira mais estável todos os substituintes estão em posição equatorial. Em um
primeiro momento, as regras da análise conformacional observadas anteriormente explicam
essa preferência conformacional da glucose. Para quatro das cinco hidroxilas (hidroxilas em
preto) a posição equatorial é convertida em axial através da inversão do anel. Porém, para
a quinta hidroxila (em vermelho) próxima ao átomo de oxigênio no anel a interconversão
equatorial-axial ocorre pela clivagem/re-formação do hemiacetal, pois nessa posição, co-
nhecida como posição anomérica, existe uma inversão de configuração.

Substituinte na posição anomérica


HO HO
O HO O
HO
HO OH HO
HO HO
OH

O H - equatorial 64% O H - axial 35%


Glucose - β-D - glucopiranose HO

HO OH
HO O
HO 1%
Hemiacetal

O que pode ser surpreendente é o fato de existir, por parte da hidroxila na posição ano-
mérica, apenas uma pequena preferência pela posição equatorial (64:35%). Maior surpresa
consiste no fato de que em alguns derivados da glucose a preferência dos substituintes na
posição anomérica seja a axial e não a equatorial. Especialmente se o substituinte for alta-
mente eletronegativo, como mostra os resultados ilustrados na tabela a seguir.

Derivado da glucose Substituinte % confôrmero axial

HO OR = H 36
HO O
HO OR = CH 3 67
HO OR
HO
O
R = OCOCH 3 86
HO
HO
HO R R = Cl 94

Podemos definir de uma maneira geral que os substituintes eletronegativos no carbono


anomérico dos derivados da glucose e em outros heterociclos, como por exemplo, no carbono
C2 do tetraidropirano apresentam uma preferência pela posição axial e a esse efeito inespe-
rado chamamos de efeito anomérico. Para grupos OH e OR essa preferência é comparável com
a preferência estérica pela posição equatorial e para grupos mais eletronegativos o efeito
anomérico é maior. Todos os três derivados halogenados do éster tribenzoato (X = F, C l e Br
e Bz = C6 H 5CO) da xilose, por exemplo, existe preferencialmente na conformação em que o
halogênio ocupa uma posição axial, mesmo que para isso os outros três grupamentos ésteres
também tenham que ficar na posição axial.
139
Éster benzoato da xilose
OBz X
O
BzO O
BzO X
O Bz
O Bz OBz
Todos os substituintes
na posição equatorial Todos os substituintes
na posição axial

Uma evidência do efeito anomérico pode ser obtida quando comparamos a preferência
do confôrmero axial no equilíbrio existente no tetraidrotiopirano, heterociclo contendo
um átomo de enxofre, quando comparado com o tetraidropirano, heterociclo similar com
átomo de oxigênio. No tetraidropirano a ligação C-S (1,82 Å) é significativamente maior do
que a ligação C-C (1,43 Å) e maior do que a ligação C-O (1,54 Å) o que diminui as interações
repulsivas 1,3-diaxiais no heterociclo contendo o átomo de enxofre. Dessa forma, o efeito
anomérico é quase que exclusivo nesse heterociclo e pode ser claramente percebido quan-
do o percentual do confôrmero axial aumenta no equilíbrio com o aumento da eletrone-
gatividade do substituinte (R).

Distância maior
H H H X

S X S H

X - equatorial X - axial
% de X - axial aumenta quando a
eletromagnetividade de X aumenta

O que obrigatoriamente temos que responder agora é: por que existe o efeito anomérico?
A origem do efeito anomérico é essencialmente estereoeletrônico. O heterociclo sofre uma
estabilização a partir da interação do orbital antiligante de baixa energia (σ* C-X) com os
elétrons do orbital não ligante do heteroátomo. No derivado clorado do tetraidropirano,
por exemplo, o heterociclo estabiliza com a sobreposição do par de elétrons não ligante
do átomo de oxigênio com o orbital não ligante (σ* C-X) da ligação C-X , conforme mostra
a ilustração a seguir.
Axial
ç de
Sobreposição
aralelos
orbotais paralelos
Equatorial
Equ

σ* C -C l
Cl

Mas essa estabilização só ocorre se o átomo de cloro estiver na posição axial! Se lembrar-
mos o que foi dito anteriormente, o par de elétrons não ligante do átomo de oxigênio na
posição equatorial é paralelo a ligações C-C do anel e não tem relação de paralelismo com
as ligações C-H e C-R , onde R é um substituinte, como por exemplo, o átomo de cloro. Sendo

140
assim, somente o par de elétrons axial do oxigênio consegue estabilizar a molécula, desde
que o substituinte eletronegativo também esteja na posição axial. Portanto, só o confôrmero
axial é beneficiado pela estabilização, e essa é a origem do efeito anomérico.

Equatorial
Equatorial
Alinhamento
Alinhamento inadequado
inadequado da ligação
da ligação
O O σ* C -σ* -C l com
C lCcom os pares
os dois dois pares de elétrons
de elétrons
σ* Cσ* l -CC ll C l
-C C não ligantes
não ligantes do átomo
do átomo de oxigênio.
de oxigênio.
AxialAxial

Podemos representar essa estabilização deslocalizando a densidade eletrônica do átomo


de oxigênio para o átomo de cloro. Compostos que exibem o efeito anomérico possuem uma
ligação C-X , onde X é o heteroátomo do anel mais curta e mais forte, em contrapartida a
ligação C-Cl fora do anel fica mais longa e mais fraca.

δ+
O O

Cl
C l δ-

E. Conformações de anéis fundidos: a decalina e os esteróides

A estrutura da decalina consiste em dois anéis carbocíclicos de seis membros fundidos,


ou seja, dois cicloexanos juntos através de uma ligação C-C em comum. Dois diastereoi-
sômeros são possíveis para a decalina; configuração cis se os átomos de hidrogênio na
junção do anel estão do mesmo lado em relação ao plano do anel e trans se estão em
lados opostos. Na cis-decalina o segundo anel se junta ao primeiro de modo que em um
ponto de conexão entre os dois anéis seja axial e o outro equatorial. Na trans-decalina o
segundo anel se junta ao primeiro de modo que ambos os pontos de conexão entre os dois
anéis sejam equatoriais.
H Esta ligação está na posição
H equatorial do anel 1
H
1
H
cis-decalina
2
Esta ligação está na
posição axial do anel 1
Decalina
H H
2
As duas ligações em vermelho ocupam
H 1 posições equatoriais no anel 1
H
trans-decalina

141
Quando o anel do cicloexano sofre uma inversão os hidrogênios equatoriais se convertem
em axiais e vice-versa. O mesmo ocorre com a cis-decalina, que possui junções entre os
anéis axial-equatorial. Essa inversão não é possível para a trans-decalina, pois, para ela
inverter a junção que é equatorial-equatorial deve se tornar axial-axial e dessa forma não é
possível manter os dois anéis fundidos.
Axial
Axial
H H
Axial H
H RotaçãoAxial
para ver
HEquatorial H frente
o anel 2 de H
H Inversão
H de anel Rotação para ver
H
Equatorial 1 anel
Inversão de o anel 2 de frente H Equatorial
H 1
1 1 Equatorial
2 2

2 2
H
H 2 H
X H
2 1 H
H
X H
1
H Impossível juntar as duas posições
axiais no anel de seis membros
Impossível juntar as duas posições
axiais no anel de seis membros
Os esteróides são uma importante classe de compostos que existe em todos os animais e
plantas com diferentes funções, como regular o crescimento (esteróides anabolizantes), a
orientação sexual (todos os hormônios sexuais são esteróides), agindo como mecanismo de
defesa em sapos e plantas. Os esteróides são definidos por sua estrutura: possuem um esque-
leto carbônico básico que consiste em quatro anéis fundidos, sendo que três deles são de seis
membros e um de cinco membros. Como na decalina, cada anel pode ter uma configuração
cis ou trans. Porém os esteróides possuem normalmente junções trans, exceto
H
no
CH 3 anel A com CH 3
B que pode ser cis. Exemplos como o colestanol (todos os anéis fundidos com configuração
HO
CH 3 H H
trans) e o coprostanol (junção A e B cis)
CH 3 são
H mostrados a seguir.
Equatorial H
Colestanol
HO C D
HB H
Equatorial A
H CH 3
Colestanol CH 3 CH 3 H
CH 3 H
C D Estrutura básica dos esteróides H
A B HO H H
CH H H H CH 3
Equatorial 3 HO
H
Colestanol Axial Coprostanol
Estrutura básica dos esteróides H
C D
H H
A B HO CH 3
CH H
Axial 3
Coprostanol
Estrutura básica dos esteróides H
F. Importância da conformação das moléculas
H H
HO
Axial Coprostanol

As variações do arranjo espacial envolvendo a rotação de ligação covalente sigma é bastante


relevante para o reconhecimento molecular de uma molécula, seja ela endógena ou exógena
pelos receptores biológicos e explica as diferenças de atividade biológica.
A acetilcolina, importante neurotransmissor do sistema nervoso parassimpático é capaz
de interagir com dois subtipos de receptores: os muscarínicos localizados no sistema ner-
voso periférico e os nicotínicos, localizados predominantemente no sistema nervoso cen-
tral. Os diferentes efeitos biológicos promovidos pela acetilcolina decorrem de interações
com diferentes arranjos espaciais dos grupamentos acetato e amônio quaternário presen-

142
tes em sua estrutura com o sítio receptor correspondente. As principais conformações as-
sumidas pela acetilcolina são a anti-periplanar e a sinclinal (gauche), sendo essa última a
mais estável, pois a alta densidade eletrônica do átomo de oxigênio da carbonila do grupo
acetato estabiliza eletrostaticamente a carga positiva do grupo amônio. O reconhecimento
seletivo dos bioligantes muscarina e nicotina por esses subtipos de receptores permitiram
evidenciar que a conformação anti-periplanar da acetilcolina está envolvida com a ação
nos receptores muscarínicos, enquanto que a conformação sinclinal é responsável pela
atividade no subtipo nicotínico.
O O
3,74 A o 3, 31 A o
Grupo acetato
H3C O H3C O
CH 3
H H O CH 3 H N (CH3)3
N
H H 3C O CH 3 H
H H
N (CH3)3 H
Grupo amônio
quaternário
Confôrmero Confôrmero
anti-periplanar Acetilcolina sinclinal

(H 3C)3N
H 3C N
N
H O H
OH H CH 3
Muscarina Nicotina

O dietilestilbestrol é um estrogênio sintético desenvolvido a partir de estudos que mos-


tram a importância de interações do tipo ligação de hidrogênio envolvendo grupos doa-
dores presentes nos compostos bioativos, como por exemplo, as hidroxilas no estradiol
com os receptores esteroidais. A distância entre as hidroxilas é um fator relevante para a
interação com o receptor. No estradiol e no dietilestilbestrol essa distância é igual a 14,5
Å . O derivado bis-hidrogenado do dietilestilbestrol possui uma atividade biológica muito
menor, pois para esse composto, contendo uma ligação sigma que pode sofrer rotação,
existem conformações no equilíbrio em que a distância entre as hidroxilas é menor do que
a necessária para a interação com o receptor.

OH

H 3C Rotação da ligação σ
OH
C H3
H 3C C H3
14,5 A o H 3C
HO

Dietilestilbestrol CH3

HO HO OH
H 3C OH
Derivado bis-hidrogenado
H do dietilestilbestrol
Menor que 14,5 Aº
H H Confôrmero inativo
HO
14,5 A o

Estradiol

143
Agora, vamos ver através de dois exemplos, como a conformação das moléculas afeta
diretamente a composição dos produtos formados e a velocidade de uma reação. Para tal
serão mostrados dois exemplos de reações envolvendo um processo de eliminação. Não
devemos, por hora, nos preocuparmos com os detalhes do mecanismo de eliminação, pois
o veremos de maneira aprofundada em um capítulo posterior. Em uma eliminação E 2 a
nova ligação π é formada pela sobreposição da ligação σ C-H com o orbital antiligante
σ* C-X , onde X pode ser, por exemplo, um halogênio. Para a sobreposição desses orbitais
ocorrer de maneira efetiva a ponto de formar uma nova ligação, eles devem estar no
mesmo plano. Existem duas conformações que satisfazem essa condição, uma tem o áto-
mo de hidrogênio e o átomo X syn-periplanr e na outra, em que esses átomos estão em
lados opostos é a anti-periplanar. Como já vimos a conformação anti-periplanar é a mais
estável por ser estrelada, todavia, o mais importante é que somente essa conformação
possui as ligações C-H e C-X totalmente paralelas, condição necessária para o processo de
eliminação E 2.

X H HX
Átomo X sai com ânion

X
σ* C-X
Conformação syn-periplanar
(eclipsada) σ C-H

X e H no mesmo plano Sobreposição dos H Átomo H sai


Ligações totalmente orbitais paralelos como próton
paralelas

X
X Ligação π formada

H
H
Conformação anti-periplanar
(estrelada)

Considere agora, o exemplo da reação de eliminação do 2-bromobutano com etóxido de


sódio como base e etanol como solvente, para formar o but-2-eno. Para esse haleto de al-
quila existem duas conformações onde os átomos de H e Br estão anti-periplanares. Porém,
uma delas é mais estável, pois não existe a interação repulsiva gauche CH 3- CH 3. Sendo
assim, o alceno formado majoritariamente tem os grupos metilas em lados opostos e é
proveniente da conformação anti mais estável do haleto de alquila onde os grupos metilas
também estão em lados opostos. Esse exemplo mostra claramente a influência da confor-
mação na composição dos produtos formados.

144
H
CH3
CH3 Et O Na, E tOH
H 3C + H 3C CH3
H 3C
Br
Majoritário

anti-periplanar
Br Br
H C H3 H 3C H CH3
Interação
H 3C CH3 H 3C
C H3 gauche H C H3
H Majoritário
H H
Minoritário Conformação anti-periplanar Conformação anti-periplanar
menos estável mais estável

Outro exemplo é a reação de eliminação dos cloretos de mentila e neomentila derivados


dos alcoóis terpenóides mentol e neomentol, respectivamente, para formar os alcenos cor-
respondentes como produtos de eliminação. Esses isômeros diferem apenas na configuração
dos átomos de carbono ligados ao cloro nos cloretos e à hidroxila nos alcoóis. Quando o
cloreto de mentila é tratado com etóxido de sódio em etanol, a reação de eliminação ocorre
lentamente para formar o 2-menteno como único produto. Sob condições similares o cloreto
de neomentila reage rapidamente e forma uma mistura do 2-menteno com o 3-menteno.

C H3 C H3 C H3 C H3 C H3

Et O Na, EtO H + Et O Na, EtOH


Reação rápida Reação 250 vezes
Cl Cl
C H( CH 3)2 C H( CH 3)2 mais lenta C H( CH 3) 2
C H( CH 3)2 C H( CH 3) 2
Cloreto de 25% 75% Cloreto de 100%
neomentila mentila

Para explicar os resultados apresentado acima, vamos considerar as conformações cadeira


mais estáveis do cloreto de neomentila e do cloreto de mentila. Como vimos anteriormente,
a conformação mais estável do anel cicloexano polissubstituído será aquela em que o grupo
mais volumoso ocupa uma posição equatorial, para minimizar as fortes interações 1,3-dia-
xiais com os átomos de hidrogênio axiais que estão do mesmo lado em relação ao plano do
anel, ou ainda, a conformação com o maior número de substituintes em posições equatoriais.
No caso dos cloretos de neomentila e mentila o grupamento isopropil deverá ficar preferen-
cialmente na posição equatorial por ser o grupo mais volumoso.
Para que a reação de eliminação do cloreto de neomentila via um processo bimolecu-
lar (E2) ocorra, o cloro é forçado a ficar em uma posição axial, pois assim, assume uma
conformação anti-periplanar com dois átomos de hidrogênio. Daí a formação de produtos
distintos. A velocidade dessa reação é maior, quando comparada com a reação do cloreto
de mentila, pois o arranjo espacial adequado do cloro (axial) para que a reação se processe,
ocorre na conformação cadeira mais estável, onde o grupo isopropil assume uma posição
equatorial. Portanto, essa conformação que é a ideal para reagir está em maior quantidade
no equilíbrio conformacional.

145
E tO C H3

Cloreto de neomentila H
Equatorial H 75%
H CH3 K - HC l
eq .
H H C H3 C H( CH 3)2
H C H3
Cl Cl H
Equatorial Reação rápida Axial - HC l
Axial 25%
Conformação mais estável, pois o grupo
Conformação menos estável i-Pr ocupa uma posição equatorial
pois o grupo i-Pr ocupa uma C H( CH 3)2
posição axial Duas ligações C-H anti-periplanar ao átomo
de cloro (axial). A eliminação é favorecida e
O Cl está em equatorial, portanto, não dois produtos podem ser formados
existe ligação C-H anti-periplanar para
que ocorra a eliminação

No cloreto de mentila, o átomo de cloro está em uma posição equatorial na conformação


cadeira de menor energia, impossibilitando o processo reacional, pois não existe ligação C-H
anti-periplanar. Para que a eliminação ocorra o átomo de cloro tem que necessariamente
ocupar uma posição axial e para isso deve ocorrer uma inversão de anel para formar a con-
formação cadeira de maior energia, com os três substituintes em posições axiais. A reação
deverá ocorrer nessa conformação menos estável, portanto, desfavorecida e por isso, em
menor concentração no equilíbrio químico. Isso explica a menor velocidade dessa reação.
Repare que na conformação reativa existe somente uma ligação C-H anti-periplanar, com
isso, um único alceno deverá ser formado.

Cloreto de mentila
H CH3 C H3
Cl
K eq . H
C H3 H
Cl Reação lenta H
H H H OE t C H( CH 3) 2
Conformação mais estável Conformação de maior energia
100%
Cl equatorial não ocorre E 2 Cl axial ocorre E 2

Resumo e Palavras-chave

A relação espacial entre átomos em uma molécula influencia profundamente nas proprie-
dades físicas e químicas dos seus compostos. Os isômeros que diferem somente no arranjo
espacial dos seus átomos ligantes são conhecidos como estereoisômeros. Os estereoisômeros
que se interconvertem a temperatura ordinária mediante rotação de ligação sigma são deno-
minados estereoisômeros conformacionais. O arranjo espacial específico dos átomos em uma
determinada molécula é chamado de confôrmero. Esses podem ser representados em forma
de cavalete ou em projeção de Newman. Aqueles que não são interconvertidos por esse pro-
ceesso são os estereoisômeros configuracionais. Esses isômeros são convertidos um no outro
mediante a quebra e formação de ligação química.

146
A rotação sobre uma ligação sigma de uma molécula acíclica tem, normalmente uma pe-
quena barreira de energia de rotação ou torcional devido à interações repulsivas de van der
Waals quando as ligações se aproximam no espaço. A rotação de uma ligação sigma gera
dois tipos de conformaçãoes com energias distintas: a conformação eclipsada e a conforma-
ção estrelada. A conformação mais estável é a estrelada pois, além de não apresentar repul-
são dos elétrons proveniente de uma sobreposição desfavorável entre os orbitais ligantes das
ligações σC-H vizinhas, possui uma interação estabilizadora entre o orbital ligante σC-H de um
carbono com o orbital antiligante σ*C-H do outro átomo de carbono (efeito de hiperconjuga-
ção), quando esses orbitais estão exatamente paralelos.
A rotação de uma ligação sigma em uma molécula cíclica é restrita devido à pequena
liberdade conformacional do anel. A tensão existente em um anel carbocíclico se deve ao
desvio do ângulo ideal entre os orbitais ligantes, deformação angular, conhecido como
tensão angular e ainda pelo eclipsamento dos átomos gerando uma tensão torcional. A
tensão angular é maximizada em anéis pequenos, como por exemplo, o ciclopropano e o
ciclobutano e tende a zero no cicloexano. O cicloexano apresenta uma série de conforma-
ções que não são planares, livre de tensão angular, sendo a mais estável a conformação
cadeira que não apresenta também tensão torcional. A conformação cadeira do cicloexa-
no apresenta dois grupos de átomos de hidrogênio distintos, os hidrogênios axiais e os
hidrogênios equatoriais. Os anéis carbocíclicos de seis membros substituídos apresentam,
quando os substituintes assumem uma posição axial, interações repulsivas denominadas
interação 1,3-diaxial.
Podemos definir de uma maneira geral que os substituintes eletronegativos no carbono
anomérico dos derivados da glucose e em outros heterociclos, como por exemplo, no carbono
C2 do tetraidropirano apresentam uma preferência pela posição axial e a esse efeito inespe-
rado chamamos de efeito anomérico. Esse efeito consiste em uma interação estabilizadora a
partir da sobreposição do orbital antiligante de baixa energia (σ* C-X) na posição anomérica,
com os elétrons do orbital não ligante do heteroátomo.
A estrutura da decalina consiste em dois anéis carbocíclicos de seis membros fundidos, ou
seja, dois cicloexanos juntos através de uma ligação C-C em comum. Dois diastereoisômeros
são possíveis para a decalina; configuração cis se os átomos de hidrogênio na junção do anel
estão do mesmo lado em relação ao plano do anel e trans se estão em lados opostos. Na cis-
decalina o segundo anel se junta ao primeiro de modo que em um ponto de conexão entre
os dois anéis seja axial e o outro equatorial. Na trans-decalina o segundo anel se junta ao
primeiro de modo que ambos os pontos de conexão entre os dois anéis sejam equatoriais. A
estrutura da decalina é encontrada também nos esteróides onde as junções dos anéis pos-
suem preferencialmente a configuração trans.
A conformação das moléculas interfere diretamente a velocidade da reação, a composição
dos produtos formados em uma reação e ainda na potência e no tipo de atividade biológica.

147
Ao término dessa aula você deverá ser capaz de:

Escrever e diferenciar as diferentes conformações de uma molécula acíclica e ali-


cíclica;
Estimar as barreiras de rotação das conformações das molécula acíclica e alicíclica;
Prever a diferença de energia entre os confôrmeros do cicloexano substituído e ain-
da determinar o percentual desses confôrmeros no equilíbrio químico;
Escrever as conformações cadeira, mei-cadeira, bote e bote torcido para o anel ciclo-
exânico e também distinguir as posições axiais e equatoriais quando pertinentes;
Identificar e aplicar o efeito anomérico nas moléculas, bem como correlacioná-lo
com a estabilidade das moléculas;
Usar o conhecimento de arranjo dos átomos em moléculas acíclicas e alicíclicas para
predizer e explicar as suas reações;

Olhando a diante

Como a conformação e o alinhamento dos átomos podem afetar as reações de


eliminação;
Como o alinhamento das ligações podem permitir que grupos de uma molécula se
movam através de ligações C-C (rearranjo) ou permitir que haja quebra dessas
ligações (reações de fragmentação);
Como o alinhamento dos orbitais controlam a reatividade (efeitos estereoeletrônicos);
Escrever adequadamente os anéis formados no estado de transição de algumas rea-
ções, como por exemplo a reação de aldol.

A t i v i da des
1ª Questão: Os dois análogos de açúcar mostrados a seguir fazem parte da estrutura de dois
compostos usados no tratamento de doenças de aves domésticas. Quais conformações deve-
rão ser as mais estáveis?
O C H3
OC H 3 HO

HO O C H3 H 3C O OH

2ª Questão: À temperatura normal, o 2-metilbutano existe principalmente em duas con-


formações em oposição em torno da ligação C2 e C3. Cerca de 90% das moléculas existem na
conformação mais favorável e 10% na menos favorável. (a) Calcule a variação de energia

148
livre (ΔG º, conformação mais estável – conformação menos estável) entre essas conforma-
ções. (b) Desenhe um diagrama de energia potencial da rotação em torno da ligação C2-C3 do
2-metilbutano. Faça o melhor que puder e atribua valores de energia relativa para todas as
conformações do seu diagrama. (c) Desenhe as projeções de Newman de todos os rotâmeros
da letra (b) e indique o(s) mais estável(is).

3ª Questão: O sistema de anel bicíclico fundido trans B é mais estável 2,61 kcal/mol do que
a estrutura análoga cis quando X é um grupo metileno (CH2). Entretanto, o acetal bicíclico
fundido cis A onde X é um átomo de oxigênio é 0,17 kcal/mol mais estável do que o isômero
trans B. Providencie uma explicação para a maior estabilidade de A , ilustrando as interações
que deverão contribuir para essa estabilidade.
H H

H X X X X = C H 2; ∆ G = -2, 61 k cal/m ol
X = O ; ∆G = +0,17 kcal/mol
X H
A B

4ª Questão: O composto 2-cloro-tetraidrotiopirano apresenta um ΔG º = + 1,5 para o equilí-


brio mostrado a seguir. Qual o percentual de cada confôrmero no equilíbrio a 25 º C. Forneça
explicações para o favorecimento de uma das conformações no equilíbrio. Dados R = 1,986
cal/mol. K .
Cl H

S H S Cl

A B

5ª Questão: Baseado nas propriedades do anel cicloexano, qual desses isômeros possui um
momento dipolo maior. Explique a sua escolha.
CH 3 CH 3
Cl
H 3C Cl H 3C

Cl
Cl

6ª Questão: As amidas assumem preferencialmente uma geometria planar, com uma barrei-
ra rotacional em torno de 20 kcal/mol, conforme mostra o processo a seguir.

O 20 kcal/mol O
R1 H
R N R N
H R1

A. A barreira rotacional em fase gasosa da N,N-dimetilformamida é aproximadamente 1,5


kcal/mol menor do que em solução. Explique.
B. A deslocalização eletrônica das amidas a seguir é mais favorecida do que na N,N-dime-
tilformamida? Explique a sua resposta.
O
R N
N O

149
7ª Questão: O que as energias de tensão mostradas a seguir sugerem sobre a origem da
tensão nos anéis de três membros?
H
O N

Tensão
( k cal/mol) 27,3 26,9 27,7

8ª Questão: Escreva os isômeros conformacionais do cis-1,2-dimetil-cicloexano e do cis-


3,4 -dimetil-cicloexanona. Enquanto os confôrmeros do cicloexano possuem energias iguais,
os confôrmeros da cicloexanona não são. Indique qual confôrmero é favorecido explicando
a sua resposta.

9ª Questão: A seguir é mostrada a conformação predominante para a D-glicose. Por que


não é surpreendente que a D-glicose seja o açúcar mais comumente encontrado na natureza?
(Dica: Procure estruturas de açúcares como a D-galactose e a D-manose e compare-as com
a D-glicose).
HO

HO O
HO OH
HO

10ª Questão: Qual o membro de cada um dos seguintes pares que você espera que tenha
o maior calor de combustão? a) cis- ou trans-1,2-dimetil-cicloexano; b) cis- ou trans-1,3-
dimetil-cicloexano; c) cis- ou trans-1,4-dimetil-cicloexano. Justifique as suas respostas.

150
Aula 2
Estereoisômeros Configuracionais

No capítulo anterior, descrevemos as conformações das moléculas que são interconvertidas


por rotação sobre uma ligação σ carbono-carbono (estereoisômeros conformacionais). Nele
também descrevemos os estereoisômeros cis e trans dos cicloexanos substituídos. Nesse ca-
pítulo enfocaremos os estereoisômeros configuracionais, que são moléculas com a mesma or-
dem de conectividade entre os átomos, porém diferem na orientação espacial de um grupo de
átomos e podem ser subdivididos em enantiômeros e diastereoisômeros. Esse capítulo começa
com a descrição dos estereoisômeros nos alquenos e nos cicloalcanos sem liberdade confor-
macional. A ligação π de um alqueno, assim como a ausência de liberdade conformacional
de um cicloalcano tensionado, impede a rotação sobre a ligação σ carbono-carbono, fazendo
com que os substituintes nessas moléculas tenham orientações diferentes. Os prefixos cis,
trans, (E) e (Z) são usados para descrever esses arranjos espaciais relativos. Posteriormente
descreveremos a estereoquímica de compostos saturados, começando com os que possuem um
carbono assimétrico, ou seja, um carbono que possui quatro substituintes diferentes. Essas
moléculas existem como estereoisômeros, pois existem duas orientações espaciais distintas
possíveis para os quatro substituintes. Em seguida estudaremos as relações estereoisoméricas
de compostos com dois ou mais carbonos assimétricos. O arranjo espacial dos átomos em uma
molécula quiral influencia diretamente nas suas propriedades físicas e químicas, nas proprie-
dades organolépticas, na sua atividade biológica entre outras propriedades.

É necessário relembrar antes de começar


Ressonância e a teoria de orbital molecular
(Módulo 1 – aula 2 – Química Orgânica I).
Energética das reações químicas
(Módulo 1 – aula 4 – Química Orgânica I).
Análise conformacional
(Módulo 2 – aula 1 – Química Orgânica I).

Classificação dos isômeros – uma breve revisão



Os isômeros constitucionais ou estruturais possuem a mesma fórmula molecular, mas dife-
rem na ordem de conectividade entre os átomos. As três categorias de isômeros constitucio-
nais são: isômeros de cadeia, de posição e funcional. Já os estereoisômeros possuem a mesma
fórmula molecular, a mesma ordem de conectividade entre os átomos, mas diferem no arran-

151
jo espacial de seus átomos. Os estereoisômeros podem ser subdivididos em conformacionais e
configuracionais. Os estereoisômeros conformacionais foram apresentados no capítulo ante-
rior e consiste na orientação instantânea dos átomos em uma molécula, os confôrmeros, que
podem ser interconvertidos através da rotação sobre uma ligação σ carbono-carbono. Já os
estereoisômeros configuracionais para ser convertido um no outro, precisa haver a quebra e
a formação de ligação química. Eles podem ser classificados em enantiômeros e diastereoisô-
meros. Os enantiômeros possuem uma relação objeto e imagem especular não sobreponível,
já para os diastereoisômeros não existe relação objeto/imagem e podem ser desmembrados
em aquirais - diastereoisômeros geométricos - e quirais. Um resumo de todos os tipos de
isômeros é apresentado na figura a seguir.

Possuem a mesma fórmula molecular,


mas estruturas diferentes

Possuem a mesma fórmula molecular, Possuem a mesma fórmula molecular a mesma


mas a ordem de conectividade entre ordem de conectividade entre os átomos, mas
os átomos são diferentes o arranjo espacial dos átomos são diferentes

H HH H H
H H H
H H H H

H 3C C H2 H 3C C H2

Aquirais Quirais

OH OH

OH OH OH OH

H O 2C
C O 2H

H O 2C C O 2H

152
Estereoisômeros Geométricos

A ligação π é caracterizada por uma alta densidade eletrônica acima e abaixo da ligação σ. A
sobreposição dos orbitais p paralelos dos carbonos torna a ligação mais rígida, impossibilitan-
do a rotação sobre a ligação dupla. Para que haja essa rotação, a ligação π deve ser quebrada
e posteriormente formada novamente. Como consequência dessa restrição conformacional,
dois estereoisômeros são possíveis para um alqueno dissubstituído. Esses estereoisômeros
são classificados como geométricos e um deles foi denominado por van’t Hoff em 1874 de
cis (palavra proveniente do latim, significando “no mesmo lado”) e o outro de trans (palavra
também oriunda do latim, que significa “através” ou “em lados opostos”). Tomemos como
exemplo o ácido fumárico e o ácido maleico, conhecidos desde o século dezenove por terem
a mesma composição química, os mesmos grupos funcionais, porém, com propriedades quí-
micas e físicas diferentes, sendo, portanto, estereoisômeros geométricos. O aquecimento do
ácido maleico promove uma reação de desidratação para formar o anidrido maleico, para
que essa reação ocorra, as duas carboxilas dos ácidos carboxílicos devem estar do mesmo
lado em relação ao plano da dupla ligação, sendo, portanto, esse o estereoisômero geométrico
com configuração cis. Nenhuma reação é observada para o ácido fumárico, o que podemos
concluir que os grupamentos carboxila estão em lados opostos à dupla ligação. Esse ácido é,
portanto o estereoisômero com configuração trans.

HO 2C C O 2H H O 2C
Não ocorre reação
C O 2H (Carboxilas em lados opostos)

(Carboxilas do mesmo lado)

H O 2C C O 2H H O 2C
Interconversão
CO 2H

Rigidez estrutu
estrutural
ural

C O 2H
H O 2C C O 2H H O 2C
H O 2C C O 2H

A interconversão entre os estereoisômeros cis e trans dos alquenos é possível desde que
a ligação π seja primeiro quebrada. Isso requer uma quantidade considerável de energia,
em torno de 260 kJ mol-1 ou 60 kcal mol-1, valor esse estimado pela diferença entre a força
da ligação dupla e a força da ligação simples carbono-carbono. Uma maneira de quebrar
a ligação π é transferir um elétron do orbital molecular π ara o orbital π* (transferência

153
de elétron do homo para o l u m o ). Dessa forma, o orbital molecular ligante e o antiligante
ficam com um elétron cada e a ordem de ligação é igual a zero, ou seja, não existe ligação
formada. Essa transferência de elétron do homo para o lu mo pode ser realizada através
de radiação eletromagnética com energia adequada, como por exemplo, a luz na região do
ultravioleta (UV ) do espectro eletromagnético. Portanto, incidindo luz UV a um alqueno
ocorre a promoção do elétron do orbital π ligante para o π antiligante e com isso promo-
vendo somente a quebra da ligação π, deixando a ligação σ intacta e permitindo a rotação
dessa ligação.

hν H O 2C
HO 2C C O 2H HO 2C C O 2H HO 2C C O 2H C O 2H

Luz UV quebra a ligação π , tornando


a rotação da ligação σ possível

HO 2C C O 2H HO 2C C O 2H

C O 2H HO 2C C O 2H
HO 2C
Elétron transferido para o
Energia necessária para hν
orbital π* cancela o elétron
promover o elétron do
do orbital π: O resultado é a
orbital π para o π*
quebra da ligação π

HO
O 2C CO 2H HO
O 2C CO 2H

HO 2C C O 2H HO 2C C O 2H

Os estereoisômeros geométricos também podem estar relacionados com os cicloalcanos


como, por exemplo, o ciclopropano, o ciclobutano e como vimos no capítulo anterior, no
cicloexano também. A rigidez estrutural proporcionada pelo sistema cíclico, assim como a
ligação π, impede a rotação da ligação σ. Os dois substituintes podem estar do mesmo lado
em relação ao plano do anel, estereoisômero cis ou em lados opostos, estereoisômeros trans
e não podem ser intercambiáveis sem a quebra e a formação de pelo menos uma ligação.

Mesmo lado
CH CH CH 3 Lados opostos

CH3

154
Quando um alqueno tem menos de dois átomos de hidrogênios, isto é, alquenos trissubs-
tituídos e tetrassubstituídos, eles também podem existir em duas formas estereoisoméricas,
porém, os prefixos cis e trans já não podem mais ser usados. No lugar, a relação espacial
entre os substituintes são designados pela letra E, de origem germânica (entgegem), que
significa “através” e pela letra Z , também de origem germânica (zusammen) significando
“juntos”. Essa designação da relação espacial se baseia em uma ordem de prioridades dos
substituintes ligados aos átomos de carbono constituintes da ligação dupla (C=C). Se os dois
substituintes de maior prioridade, um de cada átomo de carbono da C=C, estiverem do mesmo
lado em relação ao plano da ligação dupla, o composto será o estereoisômero geométrico Z.
Inversamente, se eles estiverem em lados opostos o estereoisômero geométrico será o E. Na
nomenclatura i u pa c dos compostos orgânicos, os descritores (E) e (Z) são incluídos como
prefixos, colocados entre parênteses, em itálico e conectado ao resto do nome por um hífen.

X W X
Qual dos substituintes Qual dos substituintes X
tem maior prioridade? Y Z tem maior prioridade? Z

Para determinar a prioridade dos substituintes, devemos aplicar um conjunto de regras


denominadas convenção de Cahn-Ingold-Prelog, que são baseadas na magnitude do número
atômico de cada átomo: O maior número atômico tem maior prioridade. Um par de elétrons
não ligante, muitas vezes encontrado quando um heteroátomo está ligado a um átomo de
carbono por uma dupla ligação, tem menor prioridade. Entre os átomos, o hidrogênio tem
menor prioridade. O conjunto de regras é resumido a seguir:

1. Analisar os dois átomos que estão ligados diretamente a cada átomo de carbono conecta-
do pela dupla ligação. Considerando cada final da dupla ligação separadamente, assinale a
maior prioridade para o elemento com o maior número atômico.

Nesse final da dupla ligação o átomo C C Nesse final da dupla ligação o átomo
de carbono tem maior prioridade, de cloro tem maior prioridade,
porque tem o nº atômico maior do Cl porque tem o nº atômico maior do
H
que o hidrogênio que o carbono

H 3C

Cl

2. Se o átomo ligado a um carbono da dupla ligação for um isótopo do mesmo elemento


também ligado a esse carbono, aquele que tiver maior massa será o de maior prioridade. Por
exemplo, deutério tem maior prioridade do que o hidrogênio.

155
D Cl

3. Se dois átomos de dois grupamentos distintos ligados a um dos carbonos da dupla ligação
forem os mesmos, deveremos analisar os próximos átomos dos respectivos grupamentos
que possuem os átomos idênticos. O grupo ligado ao átomo de carbono da dupla ligação que
tiver o átomo com o maior número atômico no primeiro ponto de diferença será o de maior
prioridade. Se os três átomos ligados aos átomos idênticos forem também iguais a mesma
análise deverá ser feita com o próximo grupo de átomos ligados aos carbonos subsequentes.

Nesse final da dupla ligação o átomo Nesse final da dupla ligação o átomo
C C
de carbono tem maior prioridade, de cloro tem maior prioridade, porque
porque tem o nº atômico maior do tem o nº atômico maior do que o
H Cl carbono
que o hidrogênio

H 3C

Cl

C
H C
C Cl C H OH 2C Cl
O
Átomos de carbono idênticos

O átomo de oxigênio do gruupo -CH 2OH


tem maior prioridade do que o átomo de
hidrogênio do grupo -CH3 , devido ao maior
número atômico do oxigênio

4. Se ligações múltiplas estiverem presentes, elas devem ser assinaladas como “equivalentes
de ligações simples”. Cada átomo da ligação dupla deverá estar conectado por ligações sim-
ples ao outro átomo em duplicata. A duplicação de cada átomo terminal da ligação múltipla
é descrita a seguir.

Representação da carbonila

Representação da carbonila

Representação da nitrila

Representação da ligação tríplice

156
Maior prioridade H
H 3C C H2
C C
H
H O
O

Maior prioridade

Estereoisômeros Enantioméricos

Uma reação muito conhecida que veremos posteriormente é a adição de nucleófilos à carbo-
nila (adição nucleofílica em compostos carbonilados). O grupamento carbonila possui tanto
o átomo de carbono, quanto o átomo de oxigênio, ligados por uma dupla ligação, e ambos
com hibridação sp2, assumindo, portanto, a forma geométrica trigonal planar. Essa geome-
tria deixa a carbonila com as duas faces, a da frente e a de trás, igualmente livres para o
ataque do nucleófilo.

Trigonal planar
Carbonila

Consideremos, por exemplo, o ataque do ânion cianeto (nucleófilo) à carbonila para formar
a cianoidrina. O cianeto pode atacar a carbonila se aproximando pela face da frente, for-
mando após a protonação do alcóxido formado como intermediário a cianoidrina, contendo
o grupo nitrila para frente do plano e a hidroxila para trás. Já o ataque do cianeto pela face
de trás, formará a cianoidrina após protonação do intermediário, com a hidroxila para frente
do plano e a nitrila para trás do plano. Repare que os produtos formados possuem a mes-
ma fórmula molecular, a mesma ordem de conectividade entre os átomos, mas um arranjo
espacial da hidroxila e da nitrila diferentes, portanto, esses produtos são estereoisômeros
configuracionais, pois não podem ser interconvertidos através de rotação de ligação σ.

Ataque do nucleófilo pela face da frente


O NC NC
O

Reação de
protonação
CN
Ataque do nucleófilo pela face de trás

CN
O CN HO CN

Reação de
protonação

157
Colocando os dois produtos lado a lado e tentando fazer uma sobreposição entre as duas
cianoidrinas formadas, de forma que todos os grupamentos coincidam, podemos verificar
que essas estruturas não se superpões, logo, não são idênticas.

HO CN
HO CN
C CH3
H C CH3
B H
B
Podemos notar também que existe uma relação de imagem especular entre as cianoidrinas
A e B: Se nós refletirmos a estrutura A em um espelho, veremos que a estrutura obtida será
idêntica a B.

Nova molécula
imagem especular Rotação sobre Terminando a rotação
Espelho esse eixo para colocar a cadeia
carbônica no plano

Essas estruturas diferentes, que são imagem especular uma da outra, não são superponível
são denominadas enantiômeros. O par de enantiômeros A e B são quirais, ou seja, são estru-
turas que não se superpõem a sua imagem especular.

nota

Quiralidade vem de quiral (palavra oriunda do grego chair, que significa mãos)
e é um atributo geométrico; diz-se que um objeto que não pode ser superposto
à sua imagem especular é quiral, enquanto que um objeto aquiral é aquele em
que a sua imagem especular pode ser superposta ao objeto original. Existem
vários objetos quirais, tais como as mãos. Essa propriedade é exibida também
por moléculas orgânicas.

COOH COOH

H C R R C H

NH2 NH2

Ser superponível é diferente de ser sobreponível. Quaisquer dois objetos po-


dem ser sobrepostos simplesmente colocando-se um objeto em cima do outro,
sejam eles iguais ou não. Superpor dois objetos (como na propriedade de su-
perposição) significa, ao contrário, que todas as partes de cada objeto devem
coincidir. A condição de serem superponíveis deve ser satisfeita para que duas
coisas sejam idênticas.

158
Consideraremos agora outra reação similar a anterior. A adição nucleofílica de cianeto à
cetona, para formar cianoidrina. O ataque pela face da frente e pela face de trás da cetona
pode novamente formar duas estruturas, que agora chamaremos de C e D.

Ataque do nucleófilo pela face da frente Ataque do nucleófilo pela face de trás

CN
O O
NC OH HO CN

CN

Diferentemente das cianoidrinas A e B, ao colocarmos a cianoidrina C na frente do espelho


e após girarmos a imagem especular obtida, vemos que a estrutura D resultante se superpõe
a C, sendo, portanto, espécies idênticas.

Imagem especular

Espelho

C =D

Para ter certeza de que tudo, até aqui, foi realmente entendido, façamos agora uma breve
reflexão: C e D são moléculas idênticas, enquanto que A e B são imagem especular uma da
outra. A reflexão no espelho não faz diferença para C ou D, pois elas são superponíveis às
suas imagens especulares. Portanto, elas não existem como enantiômeros. Estruturas que
são superponíveis a sua imagem especular são chamadas de aquiral. Já as estruturas A e B
são imagem especular uma da outra não superponível, por isso, são estruturas diferentes
denominadas enantiômeros. Os enantiômeros são quirais.
Qual é a diferença essencial entre a cianoidrina da acetona e a do propanal, que faz com
que a primeira seja superponível com a sua imagem especular e a última não? A resposta
é simetria. A cianoidrina da acetona tem um plano de simetria atravessando a molécula
pelo átomo de carbono central e os grupos OH e CN, dividindo-a em duas partes simétricas
(iguais), uma metila para cada lado.

Plano de simetria

159
Por outro lado, a cianoidrina do propanal não tem plano de simetria: o plano do papel tem
o grupo OH de um lado e o CN do outro. Já o plano perpendicular ao plano do papel tem um
átomo de hidrogênio de um lado e um grupo etila do outro. Esse composto é completamente
assimétrico e possui dois enantiômeros.

Essas metades
são diferentes

Essas metades Enantiômeros


são diferentes
Cianoidrina do propanal
Molécula assimétrica

nota

Um plano de simetria é definido como um plano imaginário que divide uma


molécula de tal forma que as metades resultantes sejam imagem especular
uma da outra. O plano pode passar pelos átomos, entre os átomos ou por am-
bos. Todas as moléculas que possui um plano de simetria é aquiral. O plano
de simetria é, portanto, uma ferramenta útil para identificar quiralidade ou
ausência de quiralidade em uma molécula.

A cianoidrina do propanal é quiral, pois não tem um plano de simetria. De fato, ela não
tem plano de simetria, porque possui um átomo de carbono tetraédrico com quatro grupos
diferentes, -OH , -CN, -H e –CH 2CH 3. Esse átomo de carbono é conhecido como carbono assi-
métrico. Outras denominações para esse carbono são: centro assimétrico ou estereogênico e
ainda estereocentro. Já a cianoidrina da acetona possui um plano de simetria e é por isso,
aquiral. O átomo de carbono central dessa cianoidrina não é assimétrico, porque tem apenas
três substituintes diferentes, -OH , -CN e –CH 3.

Centro estereogênico Substituintes


ou assimétrico iguais

A. Atividade ótica

Existe diferença nas propriedades químicas de dois enantiômeros? A resposta é não. Com-
postos enantioméricos, diferem somente na orientação espacial dos seus átomos. Tem, por-
tanto, as mesmas ligações químicas e por isso, possuem propriedades físicas idênticas. Eles
apresentam também propriedades químicas iguais quando reagem com substâncias aquirais.
Tomemos como exemplo, algumas propriedades físicas dos enantiômeros do 2-butanol.

160
Propriedade Física Enantiômero A do 2-butanol Enantiômero B do 2-butanol

Ponto de ebulição a 1atm (oC) 99,5 99,5


Massa específica (g mL-1 a 20 oC) 0,808 0,808
Índice de refração (20 oC) 1,397 1,397

Entretanto, veremos adiante que existem metodologias de diferenciação desses enantiô-


meros. Uma delas é examinar como cada enantiômero interage com outra molécula quiral,
como por exemplo, as diferentes velocidades de migração dos dois enantiômeros em uma
fase estacionária quiral durante uma cromatografia, a diferença de solubilidade em solven-
tes quirais, as diferentes velocidades de reação frente a reagentes quirais.
Outra maneira facilmente observável na qual os enantiômeros são diferentes é o compor-
tamento deles frente ao plano da luz polarizada. Quando um feixe de luz plano-polarizada
passa através de um enantiômero, o plano de polarização da luz gira. Além do mais, os
enantiômeros separados giram a luz plano-polarizada em quantidades iguais, mas em sen-
tidos opostos. Por causa desses efeitos, os enantiômeros quando isolados são chamados de
compostos oticamente ativos.
nota

A luz comum é um pacote de ondas eletromagnéticas que oscilam simulta-


neamente em todos os planos perpendiculares à direção do deslocamento dos
fótons, essa luz é chama de luz circularmente polarizada. Quando a luz passa
através de um material denominado polarizador, todas as ondas menos uma
são eliminadas, e o feixe resultante oscila em um único plano. A essa luz
denomina-se plano-polarizada.

Usaremos como exemplo a (+)-carvona e a (-)-carvona para explicar esse comportamento


dos enantiômeros e também para entendermos o funcionamento de um instrumento cha-
mado polarímetro. A (+)-carvona é o principal componente do óleo da semente de cominho
e é responsável por seu cheiro característico. A (-)-carvona, seu enantiômero, é o principal
componente do óleo de hortelã e também fornece o seu cheiro característico. Extratos de
ambos são usados como agentes flavorizantes em alimentos. Está claro que a diferença de
odores dessas substâncias tem uma relação direta com as suas estruturas tridimensionais.

161
Fazendo-se passar uma luz plano-polarizada através de uma solução da (+)-carvona ve-
rifica-se que ocorre um desvio da luz polarizada no sentido horário (+62º). Ao contrário, a
solução da (-)-carvona desvia o plano da luz polarizada no sentido anti-horário (- 62º). A ob-
servação do desvio do plano da luz polarizada é conhecida como polarimetria; essa medida é
a maneira mais simples de determinar se uma amostra é oticamente ativa ou não. Lembre-se,
para ser oticamente ativa precisa desviar a luz plano-polarizada e para desviá-la um enanti-
ômero deve estar em maior quantidade do que o outro, pois, como foi dito anteriormente, os
enantiômeros desviam a luz polarizada em quantidades iguais, mas em sentidos opostos. Se
a amostra tiver 50% de cada enantiômero não haverá desvio da luz plano-polarizada, visto
que o desvio proporcionado por um enantiômero anulará o desvio do outro e então a mistura
não será oticamente ativa. Essa amostra contendo quantidades iguais dos dois enantiômeros
é denominada mistura racêmica ou racemato e muitas vezes designados como (±) ou par dl.
Dessa forma, podemos chegar à importante conclusão de que uma substância quiral não será
necessariamente oticamente ativa.
As determinações polarimétricas são feitas em um polarímetro que é constituído dos se-
guintes componentes: Uma fonte de luz com um único comprimento de onda (monocromáti-
ca), normalmente é usado uma lâmpada de sódio, um filtro plano-polarizante, o mais comum
é o prisma de Nicol (bloco de cristal de calcite – CaCO3), um recipiente para acondicionamento
de amostra, onde uma célula contendo, normalmente, uma solução com a substância a ser
analisada é introduzida, e um detector com um indicador do ângulo de desvio do plano da
luz polarizada, que pode ser o olho humano ou uma célula fotoelétrica. O esquema mostrado
a seguir ilustra os componentes de um polarímetro.

Luz não-polarizada Luz


polarizada

Fonte de luz
Polarizador Tubo de amostra contendo Analizador Observador
moléculas orgânicas

Fonte: “Química Orgânica” tradução da 6ª edição Norte-Americana, John McMurry, 2005, editora Cengage Learning.

Nesse tipo de instrumento a luz é inicialmente polarizada antes de atravessar uma célula
contendo a amostra a ser analisada. Quando a luz age sobre as moléculas simétricas, para
cada posição de uma molécula existe uma posição de outra molécula que corresponderá
à imagem no espelho da primeira. Considerando que qualquer amostra líquida por menor
quantidade e/ou mais diluída que seja, contém um número muito grande de moléculas, en-
tão, para cada posição aleatória de uma molécula, será grande a probabilidade de existir
outra molécula cuja posição seja a imagem especular da primeira. Como resultado, o desvio

162
proporcionado por essas moléculas tendem a se cancelar. Por outro lado, a interação da luz
sobre uma molécula assimétrica não ocorrerá esse cancelamento, porque não se pode colocar
uma molécula assimétrica em posição que corresponda exatamente à imagem especular dela
mesma, ou seja, não existe sobreposição entre dois enantiômeros. O resultado é o desvio
do plano da luz polarizada, a que chamamos de rotação ótica (α). A medida desse ângulo
de rotação é feita pela rotação de outro polarizador, o analisador. Quando a amostra gira o
plano da luz polarizada no sentido horário (para a direita), a rotação ótica (α) é designada
pelo sinal de (+) ou pela letra d e amostra é chamada de destrógira. Por sua vez, se o desvio
ocorrer mo sentido anti-horário (para a esquerda), o ângulo a recebe o sinal de (-) ou a letra
l e a amostra é denominada levógira.
O ângulo final que uma amostra (líquido puro ou uma solução) de um composto gira o
plano da luz polarizada depende de uma série de fatores: o tamanho da célula (comprimento
do tubo contendo o líquido ou a solução da amostra), concentração da amostra, temperatura,
solvente e comprimento de onda da luz.

Densidade do líquido puro (g mL-1) ou Temperatura da


concentração da solução (g 100mL-1 ) medição

Comprimento
de onda (λ) Comprimento da célula - l (dm) Rotação ótica (α)

O ângulo (α) observado no polarímetro, a rotação ótica, quando dividido pelo comprimen-
to da célula (l) em dm e pela concentração da amostra (c) em g 100 mL-1 ou pela densidade do
líquido (d) em g mL-1 fornece a rotação específica [α] para o composto em questão.

Costuma-se indicar o comprimento de onda e a temperatura (como índice inferior e su-


perior, respectivamente). Isso se faz necessário, pois, como foi dito anteriormente o valor
da rotação específica varia com o comprimento de onda da luz e coma temperatura. Esses
índices servem, portanto, para especificar como a rotação ótica foi medida. Normalmente
as rotações óticas de uma amostra em solução são determinadas a 20 °C, usando solventes
como etanol ou clorofórmio e a luz usada é obtida a partir de uma lâmpada de sódio, com
comprimento de onda de 589 nm (raia D do sódio).

163
nota

Soluções excessivamente concentradas introduzem possibilidades de associa-


ções entre as moléculas que podem alterar a natureza do meio por onde está
passando a luz plano-polarizada, e com isso a relação apresentada entre α, l e
c deixa de ser linear fornecendo resultados discrepantes. Por razões semelhan-
tes, a mudança do solvente pode ter influência pronunciada na rotação especí-
fica de certos compostos. Por isso normalmente também se indica o solvente e
a concentração da solução, utilizados na determinação da rotação ótica.

Tomando como exemplo novamente as propriedades dos dois enantiômeros do 2-buta-


nol mostradas anteriormente, podemos perceber claramente a única diferença entre esses
dois enantiômeros.

Propriedade Física Enantiômero A do 2-butanol Enantiômero B do 2-butanol

Ponto de ebulição a 1atm (º C) 99,5 99,5


Massa específica (g mL a 20 º C)
-1
0,808 0,808
Índice de refração (20 º C) 1,397 1,397
Rotação específica [α]D25 -13,52º +13,52º

Uma amostra de uma substância oticamente ativa contendo um único enantiômero é


chamada de enantiomericamente pura ou ter um excesso enantiomérico de 100% . Por exem-
plo, uma amostra enantiomericamente pura do (+)-2-butanol apresenta uma rotação espe-
cífica ([α]D25) de +13,52º. Por outro lado, uma amostra que tem menos do que a quantidade
equimolar do enantiômero (-)-2-butanol exibirá uma rotação específica que será menor
do que +13,52º, porém, maior do que 0 º. Tal exemplo é dito ter um excesso enantiomérico
menor do que 100% . O excesso enantiomérico (e.e.), também denominado pureza ótica é
definido como a seguir:

Alternativamente a pureza ótica pode ser apresentada como sendo a rotação ótica (obser-
vada) relativo à rotação do enantiômero puro. Como os dois enantiômeros cancelam um ao
outro a rotação observada é o produto do (% enantiômeromaior - % enantiômeromenor) x [α]λ.
Se [α]λ for conhecido, a determinação do α permite que a pureza ótica e o excesso enantio-
mérico sejam determinados:

164
Existem várias outras maneiras de se determinar o excesso enantiomérico, incluindo es-
pectroscopia de Ressonância Magnética Nuclear (r m n ), cromatografia e eletroforese capilar.

B. Configuração absoluta

A quiralidade de uma molécula é descrita através da determinação da sua configuração ab-


soluta. Historicamente, o gliceraldeído foi o ponto de referência para descrever a configura-
ção de carboidratos e outras substâncias naturais de acordo com a convenção de Emil Fischer.
Os dois enantiômeros do gliceraldeído foram originalmente assinalados arbitrariamente com
as configurações D e L , como mostrado a seguir. Posteriormente, uma determinação da con-
figuração do tartarato de rubídio e sódio por cristalografia de raio-X e a sua correlação com
o D-gliceraldeído estabeleceu que o assinalamento arbitrário foi feito corretamente.

Na convenção de Fischer, a configuração de outras moléculas é indicada pelos descritores


D e L , que são assinalados mediante comparação estrutural com a molécula referência do
gliceraldeído. Para utilização dessa convenção, é comum usar fórmulas em projeção para
facilitar a comparação estrutural. Essas são representações planares definidas de maneira a
transcrever as informações tridimensionais da molécula, chamadas de projeção de Fischer. A
molécula é orientada de forma a colocar a maior cadeia carbônica, na conformação eclipsada,
alinhada verticalmente com o átomo de carbono terminal mais oxidado na parte superior da
projeção. As ligações verticais de cada carbono são direcionadas para baixo (o mais afastado
do observador) e as ligações horizontais são orientadas para cima (na direção do observador).
O cruzamento da linha vertical com a horizontal corresponde ao átomo de carbono do centro
estereogênico. As formas D e L do gliceraldeído são mostradas a seguir.

H OH 1
H
1
2 OH H OH
2
3
3
Projeção de
Newman Cavalete Projeção de Fisher

HO H 1
HO
1
2 H HO H
3 2

3
Projeção de Newman
Cavalete Projeção de Fisher

165
O assinalamento da configuração de qualquer outra molécula quiral na convenção de Fis-
cher é feita mediante a comparação com a projeção de Fischer do D- e L-gliceraldeído. A mo-
lécula é alinhada com a cadeia principal na vertical e o átomo de carbono mais oxidado na
parte superior da projeção, conforme a convenção de Fischer descrita anteriormente. O centro
estereogênico com o maior número (na parte inferior da projeção de Fischer) é comparado
com o carbono C2 do gliceraldeído. Se a configuração for igual a do D-gliceraldeído, a molé-
cula terá a configuração D, enquanto que se a configuração for semelhante ao L-gliceraldeído
a configuração será a L . Essa comparação é ilustrada a seguir para vários carboidratos.

H OH HO H
2 2

H OH
HO H H OH HO H

Os aminoácidos encontrados nas proteínas têm configuração L , como ilustrado para a


alanina, serina e leucina.

H 2N H H 2N H H 2N H

A fim de obter bom resultado com estas fórmulas, deve-se lembrar que elas são projeções e
por isso, devem ser tratadas de forma diferente em relação aos modelos tridimensionais usa-
dos anteriormente nos testes de superposição dos enantiômeros. Como a projeção de Fischer
é planar, ela deverá sempre ser superponível a sua imagem especular, por isso é adicionada
uma restrição que consiste em não poder girar a fórmula fora do plano do plano do papel.
Também não se pode girar 90 º a projeção, pois assim estaremos interconvertendo um enan-
tiômero no outro. Contudo, a rotação de 180 º é permitida.

Giro de 180º no sentido Giro de 90º no sentido


horário no plano do papel anti-horário no plano do papel
Permitido Proibido

Como no caso das fórmulas representadas por linhas tracejadas e em cunha, é possível es-
crever várias projeções de Fischer do mesmo enantiômero, o que pode causar muita confusão.

166
Para verificar se duas projeções representam o mesmo enantiômero ou não, temos que en-
contrar uma maneira segura de converter uma projeção na outra de forma a manter a mesma
configuração absoluta ou obter o outro enantiômero. Isso pode ser feito mediante a troca de
posição dos substituintes: uma única troca entre dois substituintes converte um enantiôme-
ro no outro, enquanto um par de trocas de posição mantém a configuração absoluta original.
Esta operação leva simplesmente, a uma representação diferente da mesma molécula.

C O 2H

C O 2H C O 2H
Primeira troca Segunda troca

Temos agora, uma maneira simples de verificar se duas projeções de Fischer diferentes re-
presentam o mesmo enantiômero ou a sua imagem especular. Se a conversão de uma das es-
truturas na outra for o resultado de um par de trocas, elas serão idênticas. Se para a conversão
for necessário um número ímpar de trocas, as duas estruturas serão um par de enantiômeros.
Até hoje, o uso da convenção de Fischer é quase que inteiramente restrito aos carboidratos,
aos aminoácidos e aos compostos biologicamente importantes com estruturas semelhantes a
eles. O problema com o uso generalizado dessa convenção, é que não existe regra adequada
para decidir qual estereocentro se assemelha ao carbono C2 do D- ou L-gliceraldeído, quando
as estruturas não são similares aos compostos de referência. Como vimos, essa relação é
clara para os carboidratos e aminoácidos.
O sistema que substituiu a convenção de Fischer (D e L) e que é até hoje o mais usado, por
poder ser aplicado de uma maneira muito abrangente a uma grande diversidade de moléculas,
é o sistema usado na convenção de Cahn-Ingold-Prelog, que usa os descritores R e S.
Os descritores R e S são aplicados usando regras de sequência de prioridades para os subs-
tituintes ligados ao átomo cuja configuração se deseja assinalar. Essas regras são iguais às
apresentadas para a determinação da configuração E ou Z nos diastereoisômeros geométri-
cos. Os átomos substituintes são classificados segundo uma ordem decrescente de prioridade
que é baseada numa ordem também decrescente de números atômicos. Quando dois ou mais
átomos substituintes forem o mesmo elemento químico (em geral carbono) a determinação
da prioridade terá como base o próximo átomo ligado ao primeiro átomo substituinte e assim
por diante, até que se encontre uma diferença nos substituintes. Esse processo deverá ser
continuado até que a ordem de prioridade tenha sido estabelecida para todos os substituintes.
Quando um átomo estiver ligado a outro por uma ligação múltipla, essa deverá ser desmem-
brada em ligações simples. Depois de terminado o assinalamento da ordem de prioridade, a
molécula deverá ser vista numa orientação espacial tal que o substituinte de menor priori-
dade esteja para trás do centro estereogênico. Para facilitar a visualização, os outros três
substituintes deverão estar projetados na direção do observador. Esses substituintes poderão
ter um dos dois arranjos possíveis: ocorre a diminuição da prioridade dos substituintes no
sentido horário e nesse caso a configuração é assinalada como sendo R (do latim rectus, que

167
significa direita). De modo oposto, se a prioridade dos substituintes diminui em sentido anti-
horário assinala-se a configuração S (do latim sinister, que significa esquerda).
A configuração do enantiômero do 2-butanol mostrado a seguir é descrita como sendo
S. O átomo de maior prioridade ligado ao carbono assimétrico é o oxigênio e o d menor
prioridade é o átomo de hidrogênio. Os dois substituintes remanescentes possuem átomos
iguais (carbono) e a escolha entre eles para determinar o de maior prioridade é feita através
da comparação dos ligantes. O grupo metil tem (H,H,H), enquanto que o etil possui (C,H,H);
portanto, o grupo etil tem maior prioridade do que o metil, visto que o átomo de carbono tem
número atômico maior do que o hidrogênio. A ordem de prioridade completa é OH > C2 H 5 >
CH 3 > H . Quando essa molécula é vista do lado oposto ao substituinte de menor prioridade (H),
os grupos remanescentes apresentam uma prioridade decrescente no sentido anti-horário,
sendo, portanto, o enantiômero S.

3 2

3 2
4 H
1
Ordem decrescente H para trás do 1
de prioridade centro assimétrico
Sentido anti-horário

Outro exemplo interessante é a determinação da configuração absoluta do ácido 3-hidroxi-


2-metilpropanóico. A primeira etapa é expandir a estrutura de forma que todas as ligações
múltiplas dos grupos funcionais sejam representadas pelos seus equivalentes contendo so-
mente ligações simples.

C O 2H C OH O C OH
O O
C

Posteriormente usamos as regras de prioridade para assinalar a prioridade de cada grupo


(-CO2H > CH2OH > CH3 > H) e em seguida giramos a molécula de forma a colocar o grupo de menor
prioridade para trás do carbono assimétrico. Como a prioridade decrescente apresentada é anti-
horária, esse enantiômero apresenta configuração S.

3 3 3
H
2
1 2
4
1 1 2
Sentido anti-horário

168
A determinação da configuração absoluta de um carbono assimétrico em
uma molécula cíclica segue as mesmas regras de sequência de prioridades
para os substituintes ligados ao átomo cuja configuração se deseja assina-
lar, usada para os compostos acíclicos. Uma maneira fácil de visualizar os
substituintes ligados ao estereocentro é passar através dele uma linha que
divida o anel em dois (para anéis com número par de átomos de carbono,
essa operação deverá seccionar um dos átomos do anel). Posteriormente é
atribuída normalmente a ordem de prioridade, como se fosse um composto
de cadeia aberta. Como exemplo, veremos a determinação da configuração
absoluta do estereocentro na molécula da (+)-carvona citada anteriormente.

Esses dois grupos são


claramente diferentes

X X 3 X
X X X
3
1 1
2
Carbono
assimétrico 4

2
Quatro substituintes diferentes Rotação da molécula para
X = metade do grupo -CCH3 colocar o hidrogênio para trás

Portanto, a (+)-carvona consiste no enantiômero com a configuração R


e a (-)-carvona é o enantiômero S. Nesse momento é importante ressaltar
que não existe nenhuma relação direta entre os descritores configuracio-
nais R e S e a rotação do plano da luz polarizada. Isto é, existem enan-
tiômeros que possuem a configuração absoluta R e desviam a luz plano-
polarizada para a direita (+) e outras com configuração S que também são
destrógiras. O mesmo pode acontecer para as substâncias levógiras, ou
seja, desviam a luz plano-polarizada para a esquerda e podem ter confi-
guração absoluta R ou S. O que podemos afirmar é que se um composto R
desvia a luz plano-polarizada para a direita (+), o seu enantiômero (S) des-
viará a luz para a esquerda (-). Alguns exemplos são mostrados a seguir.

169
Vejamos agora como determinar a configuração absoluta de uma substância representada
em projeção de Fischer. Inicialmente procedemos de maneira semelhante ao que fizemos até
agora, ou seja, usamos as regras de prioridade para assinalar a prioridade de cada grupo. Em
seguida, verificamos se a ordem de prioridade decrescente apresentada gira num sentido ho-
rário ou anti-horário, contanto que o grupo de menor prioridade esteja na “ligação” vertical,
pois essa, como já foi descrito anteriormente, representa os átomos ou grupos de átomos que
estão mais afastados do observador.
3

1 H 2

Se o grupo ou o átomo com a menor prioridade estiver na “ligação” horizontal, isto é mais
próximo do observador, a resposta obtida a partir da ordem de prioridade decrescente apre-
sentada será oposta à resposta correta. Por exemplo, se a ordem descrita girar no sentido
horário sugerindo uma configuração absoluta R , esse composto será na realidade o enantiô-
mero S. O inverso também é verdadeiro.

( S)
2
1

Estereoisômeros Diastereoisoméricos

Os enantiômeros por terem uma relação de imagem especular um com o outro possuem pro-
priedades físicas e químicas iguais, exceto a rotação do plano da luz polarizada. Entretanto
outros tipos de estereoisômeros podem ser quimicamente (e fisicamente) muito diferentes.
Por exemplo, os ácidos insaturados fumárico e maleico, mostrados anteriormente, são dias-
tereoisômeros geométricos e por serem estruturalmente muito diferentes possuem proprie-
dades físicas e químicas muito diferentes.

H O 2C C O 2H H O 2C
CO 2H
cis-Ácido maleico cis-Ácido furmárico
(Carboxilas do mesmo lado) (Carboxilas em lados opostos)
Ponto de fusão = 299-300 o C Ponto de fusão = 140-142 o C

Um tipo de estereoisomerismo semelhante pode ocorrer em compostos cíclicos contendo


um plano de simetria. Os estereoisômeros cis e trans do 4-tec-butil-cicloexanol também
possuem propriedades físicas e químicas diferentes.

170
cis-terc-butil-cicloexanol trans-terc-butil-cicloexanol
Ponto de fusão = 82-83 oC Ponto de fusão = 80-81o C
Plano de simetria Plano de simetria

Os estereoisômeros que não possuem uma relação de imagem especular um do outro são
chamados de diastereoisômeros. Os dois pares de estereoisômeros mostrados anteriormente
não são imagens especulares uns dos outros e, portanto, são diastereoisômeros. Podemos ob-
servar ainda que ambos são aquirais. Contudo, nem todos os diastereoisômeros são aquirais,
vejamos o exemplo a seguir. O 3-fenil-2-butanol possui dois estereocentros e não possui pla-
no de simetria, portanto, é um composto quiral. Quatro estereoisômeros podem ser escritos.

Imagem especular Imagem especular

Espelho Espelho
A e B ; C e D são enantiômeros

D iastereoisômeros
Enantiômeros Enantiômeros

Podemos ver claramente que dentre os quatro estereoisômeros, existem dois pares de enan-
tiômeros. Porém qual é a relação existente entre um par de enantiômeros e o outro? Após gi-
rar as imagens especulares B e D, percebemos que um enantiômero de um par não representa
a imagem especular de nenhum dos enantiômeros do outro par. Isto é, o estereoisômero A
não é imagem de C e D, assim como B também não é. O mesmo vale para C e D em relação
a A e B. Vimos anteriormente que os estereoisômeros que não são imagens especulares um
do outro são denominados diastereoisômeros. Logo, a relação existente entre os pares A e B
com C e D é diastereoisomérica.

171
Analisando os estereoisômeros do 3-fenil-2-butanol, podemos concluir que os diastereoi-
sômeros quirais só podem surgir quando as estruturas tiverem mais de um estereocentro.

* *
* *

Diastereoisômeros
Enantiômeros Enantiômeros

* *
* *

* = Estereocentros * = Estereocentros

Outro exemplo de estereoisômeros diastereoisomérico ocorre com a efedrina e a pseudo-


efedrina. A efedrina é um aminoálcool similar aos derivados sintéticos da anfetamina que
pode ser encontrada em certas plantas da família das efedráceas, muito utilizada como des-
congestionante nasal e em medicamentos para emagrecer, pois ela acelera o metabolismo
queimando mais gordura (através da termogênese - produção de calor), porém causa uma
forte dependência. Através de suas estruturas podemos ver que não existe uma relação de
imagem especular entre essas substâncias, pois, somente um dos dois centros estereogênicos
na efedrina é invertido na pseudo-efedrina.

HO OH
* *
* *

nota

Ambos os compostos são produzidos na forma enantiomericamente pura pela


planta. Os enantiômeros naturais desses diastereoisômeros (efedrina e pseu-
do-efedrina) são a (1R,2S)-(-)-efedrina e (1S,2S)-(+)-pseudo-efedrina.

R S
S S

A seguir são apresentados algumas propriedades físicas da (1R ,2S)-(-)-efedrina e (1S,2S)-


(+)-pseudo-efedrina naturais e dos seus respectivos enantiômeros sintéticos (1S,2R)-(-)-efe-
drina e (1R ,2R)-(+)-pseudo-efedrina.

172
Substância Ponto de fusão (ºC) [α]D20

(1R,2S)-(-)-efedrina (Natural) 40,0 – 40,5 - 6,3º


(1S,2S)-(+)-pseudo-efedrina (Natural) 117,0 – 118,0 + 52,0 º
(1S,2R)-(-)-efedrina (Sintética) 40,0 – 40,5 + 6,3º
(1R,2R)-(+)-pseudo-efedrina (Sintética) 117,0 – 118,0 - 52,0 º

Ao se falar de diastereoisômeros quirais como a efedrina e a pseudo-efedrina, necessa-


riamente representamos um dos enantiômeros de cada diastereoisômero. Isso porque pre-
cisamos incluir informações estereoquímicas às suas estruturas para poder distinguir os
enantiômeros. Outra possibilidade é representar a mistura racêmica dos dois enantiômeros.

Diastereoisômeros *
*

Enantiômero Enantiômero Mistura Racêmica

Quando representamos a estereoquímica de uma molécula diastereoisomérica, estamos es-


crevendo a estereoquímica relativa. Porém, quando falamos do enantiômero de um dos dias-
tereoisômeros estamos representando a estereoquímica absoluta. A estereoquímica relativa é
usada quando relacionamos os estereocentros de uma molécula com os de outra.

Diastereoisômeros

Estereoquímica Absoluta

Estereoquímica Relativa

Compostos Meso

Pasteur realizou a primeira separação de enantiômeros usando um composto obtido durante


a preparação de um vinho. O ácido tartárico (ácido 2,3-di-hidroxibuatnodióico) é um com-
posto com dois carbonos quirais que se deposita como um sal de potássio (tartarato de po-
tássio) durante a fermentação do suco de uva. Biot demonstrou que o ácido tartárico obtido
a partir do vinho é usualmente dextrógiro e que além dele também foi obtido nesse processo
um composto que não possui atividade ótica, chamado por ele de ácido racêmico. Todavia, o
ácido racêmico tem a mesma composição química do ácido tartárico.
Pasteur observou que os cristais de sódio-amônio do ácido racêmico possuíam duas dife-
rentes formas: uma estrutura “destra” e a outra “sinistra”. Com o auxílio de um microscópio
ele separou manualmente as duas formas cristalinas e observou que uma girava o plano da
luz polarizada para a direita (dextrógira) e a outra para a esquerda (levógira). Misturando

173
quantidades iguais dos ácidos oticamente ativos obtidos a partir dos sais separados, Pasteur
demonstrou que o ácido racêmico é uma mistura de quantidades iguais do ácido tartárico
dextrógiro e levógiro, isto é, uma mistura racêmica. O tartarato é o único sal conhecido
que os seus enantiômeros depositam em diferentes formas cristalinas diferentes. Entretanto
esses cristais diferentes só são formados em temperaturas inferiores a 25 º C.

Cristal “destro” Cristal “sinistro”

O ácido racêmico representa apenas dois dos isômeros esperados para o ácido tartárico.
Podemos predizer que uma substância com dois estereocentros pode levar a um máximo de
quatro possibilidades de estereoisômeros, contudo, somente três isômeros são atualmente
encontrados: os dois enantiômeros que são oticamente ativos e formam o ácido racêmico e
um estereoisômero oticamente inativo.
nota

Podemos calcular o número máximo de estereoisômeros possíveis a partir da


fórmula: estereoisômeros = 2n , onde n é o número de centros assimétricos.

O ácido tartárico ilustra outra importante propriedade geométrica dos diastereoisômeros:


moléculas com dois ou mais centros assimétricos não são necessariamente quirais. Essas mo-
léculas que possuem dois ou mais estereocentros e são aquirais são denominadas compostos
meso. Moléculas meso possuem um plano de simetria.
180o
R S
R S

Imagem especular
Grupos OH cis

180o
R S
S R

Grupos OH trans Imagem especular

R R
R S

Enantiômeros ?

S S
S R

Grupos OH cis Grupos OH trans

174
Enquanto o par de estruturas A e B são claramente enantioméricas, se olharmos cuida-
dosamente as estruturas C e D veremos que de fato, elas não são enantiômeros, mas sim es-
truturas idênticas. Para provar isso, basta girar 180 º a estrutura C, em sentido horário, para
cima no plano do papel. Veremos que a estrutura obtida é exatamente a estrutura D.

R
S
H
Igual a D

Como podemos ver, os ácidos (R,S) e (S,R)-tartárico não são enantiômeros, pois eles repre-
sentam a mesma molécula. Esses compostos mesmo contendo dois estereocentros são aqui-
rais, visto que possuem um plano de simetria. Para facilitar a visualização desse plano de
simetria, basta fazer uma rotação de 180 º sobre a ligação central.

Girar 180 o o lado


direito da molécula

Plano de simetria Oticamente inativo

Concluindo, os três estereoisômeros encontrados para o ácido tartárico são mostrados a se-
guir: dois enantiômeros oticamente ativos, quando analisados isoladamente e um composto
meso oticamente inativo.

Girar 180 o o lado


direito da molécula

Plano de simetria Oticamente inativo

Algumas propriedades físicas dos estereoisômeros do ácido tartárico estão compiladas na


tabela mostrada a seguir. Podemos reparar que as propriedades dos enantiômeros são idên-
ticas, exceto o desvio do plano da luz polarizada, porém, diferentes das do composto meso.
Outra observação interessante é que o ponto de fusão da mistura racêmica é maior do que os
pontos de fusão dos enantiômeros isolados. Isso ocorre porque as atrações intermoleculares
entre os enantiômeros dentro da estrutura cristalina são mais fortes na mistura racêmica do
que nos enantiômeros separados.

Substância Ponto de fusão (ºC) [α]D20 Solubilidade em H2O (g/100 mL)

(+)-Ácido tartárico 170 + 11,98º 147 (25º C)


(-)-Ácido tartárico 170 + 11,98º 147 (25º C)
(±)-Ácido tartárico 206 0 25 (25º C)
meso-Ácido tartárico 140 0 120 (25º C)

175
Os mesmos princípios estereoquímicos são aplicados também aos compostos cíclicos. Por
exemplo, os dois centros quirais do ácido ciclopropano-1,2-dicarboxílico proporcionam três
estereoisômeros para a molécula: um par de enantiômeros trans e uma forma cis que tem um
plano de simetria e, portanto é um composto meso.
Grupos carboxilas trans Grupos carboxilas cis

Espelho Plano de simetria


Composto meso
Ponto de fusão = 175 oC Ponto de fusão = 139 oC
Rotação Específica = ± 84 o Rotação Específica = 0

Outros Tipos de Moléculas Quirais



Embora o átomo de carbono assimetricamente substituído seja o tipo mais comum de estere-
ocentro em compostos orgânicos, vários outros tipos de centros assimétricos são encontrados.

A. Compostos com outros átomos estereogênicos tetravalentes

Qualquer molécula contendo um átomo central ligado a quatro substituintes diferentes em


uma geometria tetraédrica deverá ser oticamente ativa. Dentre esses átomos centrais encon-
tramos o nitrogênio e o fósforo nos sais de amônio e fosfônio quaternários, respectivamente.
O óxido de fosfina também é tetraédrico e é quiral se todos os três substituintes forem dife-
rentes, incluindo o oxigênio. Outros átomos dessa categoria são o Si, Ge e Sn.

R1 R4
O
R4 N R3 P R3 P
R2 R1 R1
R3 R2 R2

Sal de amônio Sal de fosfônio Óxido de fosfina

B. Compostos com átomos estereogênicos trivalentes

Não tão evidentes são os casos de compostos contendo enxofre e fósforo trivalentes,
incluindo os sais de sulfônio, os sulfóxidos e as fosfinas. Os heteroátomos nessas estru-
turas são piramidais (aproximadamente tetraédricos), com o par de elétrons não ligante
ocupando um dos cantos de um tetraedro. Como a barreira de energia para a inversão de
configuração dessas moléculas tetraédricas são relativamente altas, eles podem ser obtidos
como enantiômeros puros.

176
Sulfóxido Íon sulfônio Fosfina

I nv ersão lenta

Compostos nitrogenados trivalentes também são aproximadamente tetraédricos. Nesse


caso, entretanto, a barreira de inversão é pequena, e os compostos não podem ser separados
como enantiômeros puros a temperaturas normais.

Inversão rápida

C. Compostos com rotação restrita

Certos compostos que não possuem átomos assimétricos podem ser quirais, porque eles têm
uma estrutura que pode ser esquematicamente representada como na figura mostrada a se-
guir. Para esses compostos, podemos escrever dois planos perpendiculares onde nenhum dos
dois pode ser cortado por um plano de simetria. Se ambos os planos puderem ser cortados
pelo plano de simetria, a molécula deverá ser superponível a sua imagem especular. Essas
moléculas serão mostradas na de alguns exemplos que veremos a seguir.

A
A
B
B
A diferente de B

Bifenilas contendo quatro substituintes volumosos nas posições orto não podem sofrer ro-
tação na ligação central devido ao impedimento estérico. Alguns desses compostos chegam
-1
a ter uma energia de ativação (barreira de rotação) superior a 22 kcal mol . Nessas moléculas,
os dois anéis aromáticos estão em planos perpendiculares, e se eles forem assimetricamente
substituídos então a molécula será quiral. Esses estereoisômeros são conhecidos como enan-
tiômeros conformacionais ou atropisômeros.

177
Impedimento
Estérico

Impedimento
Estérico
Espelho

Nos alenos, o átomo de carbono central possui uma hibridação sp. Os dois orbitais p re-
manescentes de cada carbono são perpendiculares entre si e se sobrepõem com os orbitais p
paralelos a eles do átomo de carbono adjacente, fazendo com que as ligações formadas por
essas sobreposições quem em planos perpendiculares. Portanto, os alenos se enquadram no
modelo de substâncias representado pela figura anterior e assim como as bifenilas, só serão
quirais se os dois lados da molécula forem assimetricamente substituídos.

Aleno Espelho

Aleno oticamente inativo Aleno oticamente inativo Aleno oticamente ativo

Outros tipos de compostos semelhantes às bifenilas e aos alenos que são similarmente qui-
rais se apresentarem substituintes diferentes são os spiranos e as moléculas contendo uma
dupla ligação exocíclica.

Spirano Composto com a dupla


ligação exocíclica

Proquiralidade

Uma molécula é proquiral se ela puder ser convertida da forma aquiral para a quiral em uma
única etapa. Como exemplo, usaremos a reação de adição nucleofílica do cianeto ao propanal
para formar a correspondente cianoidrina (2-hidroxi-butanonitrila), mostrada na seção de
estereoisômeros enantioméricos.

178
NC O NC OH
CN
Reação de *
protonação
Proquiral
Quiral

O enantiômero da 2-hidroxi-butanonitrila que será formado depende de qual face do grupo


carbonila planar irá sofrer a reação. A distinção das faces da carbonila é feita através dos
descritores estereoquímicos re e si. Para nomear essas faces procedemos de maneira seme-
lhante às regras usadas para os descritores R e S. Inicialmente estabelecemos a ordem de-
crescente de prioridade dos três substituintes ligados ao átomo de carbono sp2 trigonal plano,
usando os mesmos critérios descritos anteriormente. Em seguida determinamos o sentido
dessa ordem de prioridade; caso o sentido dessa prioridade decrescente seja o horário a face
da carbonila é denominada re (similar ao descritor R dos estereoisômero), em oposição, se o
sentido for o anti-horário a face da carbonila é designada como sendo si (similar ao S). No
exemplo particular da reação do cianeto com o propanal, a adição do nucleófilo pela face re
forma o (S)-2-hidroxi-butanonitrila. Já a adição pela face si da carbonila dá origem ao outro
enantiômero. Dessa forma, podemos dizer que as faces dessa carbonila são enantiotópicas,
pois a adição do nucleófilo irá formar produtos enantioméricos.

Faces enantiotópicas
do propanal
Sentido horário Sentido anti-horário
1

2 2 3
3

Face re Face si
O HO
OH O CN CN

CN

Ataque do nucleófilo pela face re Ataque do nucleófilo pela face si

Em adição aos compostos contendo átomos com hibridação sp2 e geometria planar, as
substâncias contendo átomos com hibridação sp3 e geometria tetraédrica também podem
ser proquirais. Um átomo com um orbital híbrido sp3 pode ser um centro proquiral se, ao
trocar um dos grupos ligados a ele, um centro assimétrico for formado. A glicina é o único
α-aminoácido sem um centro quiral, porém, trocando um dos prótons do átomo de carbono
central por deutério, um carbono assimétrico será criado. Sendo assim, o carbono do grupa-
mento metileno (-CH 2) proquiral.

179
H Trocando um próton D

por deutério

Proquiral Estereocentro

Assim como as faces enantiotópicas de uma carbonila podem ser nomeadas pelos descri-
tores estereoquímicos re e si, também é possível assinalar os grupos enantiotópicos de um
átomo de carbono sp3 tetraédrico proquiral. Ainda seguindo os mesmos critérios descritos
para o sistema R e S, o grupo enantiotópico que forma, após a troca, um estereocentro com
a ordem decrescente de prioridade no sentido horário deverá ser chamado por pro-R. De
maneira semelhante, o estereocentro formado com a ordem de prioridade girando em sen-
tido anti-horário é denominado pro-S. Cabe ressaltar que, como o estereocentro é gerado
artificialmente mediante a troca de um dos átomos de hidrogênio do grupo metileno por um
grupo G, devemos assumir que G tem prioridade imediatamente superior ao H e que ele não
afeta a ordem de prioridade dos demais substituintes.

4
H G
3 3 G H4
H H H H

1 2 1 2

Proquiral Novo estereocentro é S, então Proquiral Novo estereocentro é R, então


o H em vermelho é pro-S H em azul é pro-R

Separação de enantiômeros - Resolução



Uma vez que nas células e organismos vivos estão envolvidas reações de materiais enantio-
mericamente puros, como os carboidratos, aminoácidos e d n a , muitos compostos de ocorrên-
cia naturas existem na forma de enantiômeros puros. Ao contrário, as reações químicas mui-
tas vezes produzem misturas racêmicas. Isso sempre ocorre se são usados somente substratos,
reagentes, catalisadores e solventes racêmicos ou aquirais. Os produtos enantioméricos de
uma reação química podem ser enantiomericamente enriquecidos ou até mesmo obtidos na
forma enantiopura somente se materiais de partida, reagentes, catalisadores ou solventes
quirais forem utilizados.
Uma mistura racêmica pode ser separada nas suas duas formas enantioméricas. O processo
de separação de uma mistura racêmica nos seus enantiômeros é conhecido como resolução e
pode ser realizado de várias maneiras diferentes.
Historicamente, o método usual de resolução era o uso de um reagente enantiomericamente puro,
muitas vezes um material de ocorrência natural, como agente de resolução. Quando uma mistura
racêmica de um composto A (R,S-A) reage com um enantiômero puro B (R-B) por exemplo, os dois
produtos formados são diastereoisoméricos, nomeados, nesse caso, R,S-AB e R,R-AB. Como os
diastereoisômeros possuem propriedades físicas distintas, eles podem ser separados por cristaliza-
ção ou cromatografia. Posteriormente a separação dos diastereoisômeros, a reação original, isto é de

180
A com B, pode ser revertida para obter R-A e S-A enantiomericamente puros ou enriquecidos. Esse
conceito é resumido no esquema a seguir.

1:1 Mistura racêmica

Reage com R-B

Diastereoisômeros separados
Reação reversa
retirada de R-B
Enantiômeros puros ou enriquecidos

Para facilitar o entendimento, vejamos agora um exemplo real de uma resolução de enantiômeros
usando um reagente quiral como agente de resolução. O aminoácido mostrado a seguir foi obtido
na sua forma racêmica, mediante uma síntese de Strecker (reação que estudaremos em capítulos
futuros). Contudo, o interesse nesse aminoácido era avaliar a sua atividade no sistema nervoso cen-
tral e para isso se fazia necessário analisar a atividade de cada um dos enantiômeros isoladamente.

Síntese de Strecker

Inicialmente o aminoácido racêmico foi transformado no seu respectivo anidrido racêmico, usan-
do para tal o anidrido acético como reagente. Essa reação foi realizada com o objetivo de facilitar
a reação com o agente de resolução, pois o anidrido é uma espécie mais reativa do que o ácido
carboxílico original.

*
Anidrido acético

Para a etapa de resolução foi realizada a reação da mistura racêmica do anidrido com o sal de
sódio do mentol, um álcool de ocorrência natural enantiomericamente puro para formar dois ésteres
diastereoisoméricos. Um dos diastereoisômeros mostrou-se mais cristalino que o outro (isso se
deve ao seu ponto de fusão mais elevado), o que permitiu a cristalização da mistura. Dessa ma-
neira foi possível isolar um dos diastereoisômeros na sua forma pura. Evaporando o solvente da

181
solução contendo o outro diastereoisômero (chamado de água mãe) foi possível obter o outro dia-
stereoisômero menos cristalino também na sua forma pura.

( )-Anidrido

Agente de resolução

Diastereoisômero A Diastereoisômero B

Diastereoisômero A Diastereoisômero B Evaporação da


“água mãe”

Ponto de fusão = 103 - 104°C Ponto de fusão = 72,5 - 73,5°C

Após a separação dos diastereoisômeros os ésteres foram hidrolisados, separadamente, mediante


reação, sob aquecimento, com uma solução aquosa de KOH. Os ácidos obtidos são enantiômeros,
como mostra as suas rotações específicas e os seus pontos de fusão idênticos.

Ponto de fusão = 103-104 oC Ponto de fusão = 72,5-73,5 o C


Diastereisômero A Diastereisômero B

Hidrólise Hidrólise

Enantiômero A Enantiômero B
o
Ponto de fusão = 152-153 C Ponto de fusão = 15215-154 o C

182
Finalmente, uma hidrólise mais vigorosa da amida (ebulição por 40 horas com uma solução aquosa
de NaOH 20%) forma os aminoácidos enantiomericamente puros necessários para o estudo biológico.

A cHN A cHN

Enantiômero A Enantiômero B
o
Ponto de fusão = 152-153 C Ponto de fusão = 152,5-154 o C

Hidrólise Hidrólise

H 2N H 2N

Enantiômero R Enantiômero S

Outra maneira de resolver enantiômeros é usar um material quiral em um processo de separação


físico. Atualmente, muitas separações de enantiômeros são feitas usando cromatografia com coluna
quiral. A resolução por cromatografia depende da adsorção diferenciada dos enantiômeros pela
fase estacionária quiral contida na coluna cromatográfica. Uma fase estacionária torna-se quiral,
ligando-se um composto enantiomericamente puro, normalmente um aminoácido.

Porção do aminoácido
O
H
N NO2
* N
O H

NO2

Sílica - fase estacionária aquiral Sílica derivatizada - fase estacionária quiral

A cromatografia com uma fase estacionária quiral é especialmente importante quando os en-
antiômeros a serem resolvidos não apresentam grupos funcionais suscetíveis à formação de de-
rivados (usualmente ésteres e sais) necessária para a resolução clássica descrita anteriormente.
Por exemplo, os dois enantiômeros de um análogo do tranquilizante Valium tem atividades bi-
ológicas diferentes. Para estudar a ação biológica desses compostos é necessário obtê-los enan-
tiomericamente puros. Essa resolução foi feita passando uma solução da mistura racêmica através
de uma coluna cromatográfica contendo como fase estacionária sílica ligada a um derivado de
aminoácido quiral. O (R)-(-)-enantiômero mostrou menor afinidade pela fase estacionária, sendo,
portanto, menos adsorvido. Consequentemente, esse enantiômero foi eluído mais rapidamente,
isso é, passou pela coluna mais rapidamente. O (S)-(+)-enantiômero por ter uma interação maior
com a fase estacionária demorou um tempo maior para sair da coluna. Um esquema representa-
tivo desse processo é mostrado a seguir.

183
Valium - Tranquilizante Derivado-(R)-enantiômero Derivado-(S)-enantiômero

Esquema de uma cromatografia Introcução na coluna dos dois Início da eluição


enantiômeros

Mistura racêmica Eluente


1. Fase Estacionária 2. ReS 3. (fase móvel)
RS S
Quiral R

Durante a eluição Enantiômero R separado Enantiômero S separado

4. 5. 6. 7.
S

R S
S
R

R S

Existem outros métodos de separar enantiômeros, dentre eles podemos destacar: a resolução
cinética, que depende da diferença na velocidade de reação dos enantiômeros com o agente de
resolução (reagente quiral); outro método é a resolução enzimática. Essa metodologia é baseada na
habilidade de uma enzima (proteína catalisadora) em distinguir os enantiômeros R e S ou os grupos
pro-S e pro-R de um composto proquiral. Dessa forma, a enzima que é quiral, irá reagir preferen-
cialmente ou exclusivamente com um dos enantiômeros.

Quiralidade e a atividade biológica



Diversas substâncias usadas como fármacos, apresentam em suas estruturas um ou mais carbonos
assimétricos. A supressão da quiralidade nesses fármacos leva muitas vezes, ao desaparecimento
da atividade biológica. Adicionalmente, a inversão da configuração absoluta do estereocentro tam-
bém pode levar a perda da atividade biológica ou a uma modificação importante dessa atividade. A
seguir são mostradas substâncias quirais contendo um ou mais carbonos assimétricos que ilustram
essa correlação entre a configuração absoluta do estereocentro e a atividade biológica.

184
(S)-ketamina (R)-ketamina (S)-talidomida (R)-talidomida
Anaestético Alucinógeno Teratogênico Sedativo

(±)-fluoxetina - Prozac® (S)-fluoxetina (S)-ibuprofen (R)-ibuprofen


Antidepressivo Previne a enxaqueca Analgésico/Anti inflamatório Inativo
6R
5R

(R)-propranolol
(S)-propranolol
Anti-hipertensivo 2S
Inativo (2S, 5R, 6R)-penicilina V
Efeito colateral: Antibiótico
Inibe a conversão do hormônio Enantiômero - (2R, 5S, 6S) - inativo
tireóide tiroxina à triiodotironina

(+)-limoneno (-)-limoneno
Odor de laranja Odor de limão
(S,S)-aspartame (S,S)-aspartame
Sabor doce Sabor amargo

Por exemplo, a talidomida é um sedativo leve e pode ser utilizado no tratamento de náuseas, mui-
to comum no período inicial da gravidez. Quando foi lançado, era considerado seguro para o uso
de grávidas, sendo administrado como uma mistura racêmica. Entretanto, um fato desconhecido na
época era que o enantiômero S possuía uma atividade biológica teratogênica, ou seja, levava a uma
má formação congênita, afetando principalmente o desenvolvimento dos braços e das pernas do
bebê. O uso indiscriminado dessa substância na forma racêmica levou ao nascimento de milhares
de pessoas com graves defeitos físicos.

185
Outro exemplo de como a quiralidade pode afetar as propriedades biológicas de uma molécula
é o racemato da fluoxetina, uma medicação usada no tratamento da depressão. O enantiômero S,
entretanto, funciona muito bem no combate à enxaqueca.
As drogas provenientes de fontes naturais, obtidas diretamente ou após modificação química, são
normalmente quirais e existem na forma enantiomericamente pura. A penicilina V, por exemplo,
um antibiótico isolado do fungo Penicillium, tem configuração absoluta 2S, 5R e 6R dos centros
assimétricos. O seu enantiômero, de origem sintética, não possui nenhuma atividade biológica. Os
fármacos sintéticos podem ser produzidos na forma racêmica ou na forma quiral. Muitos deles, en-
tretanto, são racêmicos. O ibuprofen, por exemplo, é produzido e comercializado na forma racêmi-
ca, apesar de somente o enantiômero S ser bioativo. Embora, o enantiômero R possa ser lentamente
convertido na sua forma ativa no organismo, o enantiômero inativo parece diminuir substancial-
mente a velocidade com que com que o enantiômero S faz efeito (de 12 para 38 minutos).
O aspartame, um adoçante sintético, é muito utilizado no Brasil e no mundo. O estereoisômero
S,S é doce, enquanto que o seu enantiômero possui um sabor amargo. Essa diferença nos sabores
sugere que os sítios receptores na língua para essas substâncias são quirais e apenas um enantiôme-
ro específico se encaixará em seu sítio específico. O mesmo pode ser dito para os enantiômeros do
limoneno e os seus receptores no nariz. Uma substância bioativa pode exercer a sua atividade de
várias maneiras, dentre elas, através da interação com estruturas biológicas chamadas de receptores,
que são proteínas quirais altamente organizadas espacialmente. Devido a essa quiralidade, imagina-
se que para interagir com elas, o arranjo espacial da estrutura da substância biologicamente ativa
deve ser bem definido. Os arranjos das duas espécies devem ser complementares. Existem vários
modelos que explicam essa interação, um deles é mostrado através do esquema a seguir.

C C

Não encaixa

Fonte: “Química Orgânica” tradução da 6ª edição Norte-Americana, John McMurry, 2005, editora Cengage Learning.

O modelo mostrado anteriormente foi proposto em 1933 por Easson e Stedman. Eles pro-
puseram que as diferenças na atividade biológica entre os enantiômeros resultam da reativi-
dade seletiva destes estereoisômeros com os receptores e que a interação enantiômero-receptor
requer pelo menos três pontos de encaixe. Esse modelo ficou conhecido como modelo de
três pontos. Através do esquema anterior podemos perceber claramente que somente um dos
enantiômeros é capaz de atingir a orientação correta para permitir que todos os três grupos
funcionais encaixem nos seus sítios na superfície do receptor. O outro enantiômero que só tem
dois pontos de encaixe pode ser inativo biologicamente ou ter a sua atividade bastante redu-
zida. Isso pode ser ilustrado analisando a atividade vasopressora (aumento da pressão arterial)

186
da adrenalina ou epinefrina. Com a (R)-(-)-epinefrina os três pontos de interação com o sítio
receptor são o anel aromático substituído, a hidroxila e o grupo amônio secundário protonado.
Todos os três grupos funcionais interagem com os seus sítios ligantes complementares na
superfície do receptor, produzindo a interação necessária para estimular o receptor. Com a (S)-
(+)-epinefrina somente duas interações são possíveis. A hidroxila ocupa uma região do espaço
que não interage com o receptor. O mesmo acontece com a N-metildopamina. Portanto, não é
surpreendente que a resposta vasopressora proporcionada pela N-metildopamina e pela (S)-(+)-
epinefrina sejam menores do que a obtida com a (R)-(-)-epinefrina.
A A A

H O H O H O
O H A O H A O H A

O H B HO H B HO H B

N CH3 CH3 N CH3


H H H
H H H

C C C

Resumo e Palavras-chave

As relações espaciais entre os átomos de uma molécula pode ter uma profunda influência nas
propriedades físicas e químicas dos seus compostos. Isômeros que diferem somente no arranjo
espacial dos seus átomos ligantes são conhecidos como estereoisômeros. Os estereoisômeros que
não são convertidos um no outro através de rotação de ligação sigma são denominados este-
reoisômeros configuracionais. Moléculas que possuem duplas ligações ou estruturas cíclicas podem
existir como estereoisômeros geométricos. A isomeria geométrica é decorrente da rotação restrita
dos grupos substituintes nessas moléculas. Devido a impossibilidade de interconversão rápida dos
isômeros geométricos eles são considerados estereoisômeros configuracionais. Compostos cujas
moléculas possuem algum tipo de assimetria podem ser quirais e levar a um tipo de estereo-
isomeria que é normalmente detectado pela atividade ótica. O estereoisomerismo cujas estruturas
não são superponíveis à sua imagem especular são chamados de enantiômeros. Os enantiômeros
possuem propriedades químicas e físicas iguais, porém, desviam o plano da luz polarizada em
quantidades iguais mas para direções opostas. Esses enantiômeros são denominados dextrógiros,
quando desviam a luz plano-polarizada para a direita e levógiro quando o desvio ocorre para a
esquerda. A configuração absoluta do carbono assimétrico ou estereocentro pode ser indicada
pelos descritores D e L proposto por Fischer ou pelo sistema que usa os descritores R e S proposto
na convenção de Cahn-Ingold-Prelog. As misturas racêmicas ou racematos são misturas 50:50
dos enantiômeros R e S e podem ser resolvidos por diversas técnicas, como por exemplo, o uso
de um reagente quiral, conhecido com agente de resolução ou por cromatografia contendo uma
fase estacionária quiral. Algumas moléculas têm mais de um centro assimétrico. Os enantiômeros
apresentam configuração opostas em todos os estereocentros, entretanto os diastereoisômeros têm

187
a mesma configuração em pelo menos dos centros. Um composto com n estereocentros pode ter
no máximo 2n estereoisômeros. Os diastereoisômeros apresentam propriedades físicas e químicas
diferentes e podem ser separados facilmente. Os compostos meso possuem estereocentros, mas
são aquirais porque possuem um plano de simetria. A quiralidade não é exclusividade do átomo
de carbono assimétrico, ou seja, com quatro substituintes diferentes, diversos outros átomos ou
moléculas podem ser quirais. Como exemplo, podemos citar os átomos de nitrogênio e fósforo es-
tereogênicos tetravalentes, os átomos estereogênicos trivalentes e os compostos com rotação restrita.
Uma molécula é considerada proquiral se ela puder ser convertida da forma aquiral para a quiral
em uma única etapa de reação. Um átomo proquiral com hibridação sp2 tem duas faces e essas são
3
designadas como re e si. Um átomo de carbono sp é um centro de proquiralidade somente se a
troca de um dos substituintes iguais resultar na formação de um centro assimétrico. O átomo cuja
substituição leva à formação do estereocentro R é chamado de pro-R e aquele em que a substitu-
ição leva à formação de um estereocentro S é o pro-S. Diversas substâncias usadas como fármacos,
apresentam em suas estruturas um ou mais carbonos assimétricos. A supressão da quiralidade
nesses fármacos leva muitas vezes, ao desaparecimento da atividade biológica. Adicionalmente,
a inversão da configuração absoluta do estereocentro também pode levar a perda da atividade
biológica ou a uma modificação importante dessa atividade.

Ao término dessa aula você deverá ser capaz de:

Escrever as forma tridimensionais das moléculas;


Escrever e identificar as moléculas com imagem especular;
Usar os descritores D e L e R e S para identificar as configurações absolutas dos este-
reoisômeros;
Identificar os planos de simetria nas moléculas;
Identificar e diferenciar enantiômeros e diastereoisômeros;
Identificar os compostos meso;
Resolver enantiômeros;
Identificar e nomear os átomos proquirais de uma molécula;
Correlacionar a forma das moléculas com as atividades biológicas;
Escrever a estereoquímica das moléculas.

Olhando a diante

Reações estereosseletivas;
Reações que controlem a geometria dos alcenos;
Controlando a estereoquímica com compostos cíclicos;
Síntese assimétrica;
Bioquímica;

188
A t i v i da des
1ª Questão: Assinale a configuração R ou S de cada um dos compostos mostrados abaixo.

2ª Questão: A epinefrina natural, [α]D = -50 é utilizada na medicina. Seu enantiômero é


medicinalmente inútil e, na verdade, tóxico. Suponha que você recebeu uma solução cujo
rótulo diz conter 1g de epinefrina em 20 mL de líquido, mas cuja pureza óptica não está es-
pecificada. Quando você a coloca em um polarímetro (tubo de 10 cm) e obtém uma leitura de
-2,5º. Qual é a pureza óptica da amostra? Ela é segura para uso medicinal?

3ª Questão: Estão mostrados a seguir as projeções de Newman para o (R,R)-, (S,S)- e (R,S)-
2,3-diclorobutano. (a) Correlacione as projeções com as respectivas configurações absolutas.
(b) Qual fórmula é um composto meso?

4ª Questão: As estruturas mostradas a seguir são representações do 3-fluoro-2-fenil-2-


pentanol. Mostre a relação estereoquímica de cada estrutura com o (2R , 3R) -3-fluoro-2-
fenil-2-pentanol.

5ª Questão: Especifique todas as configurações das unidades estereogênicas que compõem


os estereoisômeros mostrados a seguir.

6ª Questão: O composto mostrado a seguir racemiza com base. Por quê?

189
7ª Questão: O D-galacitol é um dos compostos tóxicos produzidos pela doença galactosemia.
O acúmulo de altos níveis de D-galacitol provoca a formação de catarata. A projeção de Fis-
cher dessa substância é mostrada a seguir. Desenhe uma estrutura tridimensional para o D-
galacitol. Em seguida, desenhe a sua imagem especular e a converta para a projeção de Fischer.
Por último, diga qual é a relação estereoquímica entre o D-galacitol e a sua imagem especular.

8ª Questão: O mevacor é usado clinicamente para reduzir os níveis séricos do colesterol. Já


o butaclamol é um potente antipsicótico utilizado no tratamento da esquizofrenia. Indique
os carbonos assimétricos de cada uma dessas estruturas.

9ª Questão: Uma substância tem rotação específica de -39 º. Uma solução dessa substância
(0,187 g/mL) tem rotação observada de -6,52º quando colocada em um tubo de polarímetro de
10 cm de comprimento. Qual é o percentual de cada enantiômero na solução?

10ª Questão: Indicar se as estruturas são enantiômeros, diasterioisômeros ou idênticas e


representá-las nas suas formas estendidas.

190