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REVISTA

BRASILEIRA

DE

REVISTA BRASILEIRA DE São Paulo 2009
REVISTA BRASILEIRA DE São Paulo 2009
REVISTA BRASILEIRA DE São Paulo 2009

São Paulo

2009

Diretoria

A B R A L I C 2009-2011

Presidente

Marilene Weinhardt (UFPR)

Vice-presidente

Luiz Carlos Santos Simon (UEL)

1º Secretário

Benito Martinez Rodriguez (UFPR)

2º Secretária

Silvana Oliveira (UEPG)

1º Tesoureiro

Luís Gonçales Bueno de Camargo (UFPR)

2º Tesoureiro

Maurício Mendonça Cardozo (UFPR)

Conselho Fiscal

José Luís Jobim (UERJ, UFF) Lívia Reis (UFF) Sandra Margarida Nitrini (USP) Helena Bonito Couto Pereira (Universidade Mackenzie) Arnaldo Franco Junior (UNESP - S. J. do Rio Preto) Carlos Alexandre Baumgarten (FURG) Rogério Lima (UnB) Sueli Cavendish de Moura (UFPE)

Suplentes

Adeítalo Manoel Pinto (UEFS) Zênia de Faria (UFG)

Conselho editorial

Benedito Nunes, Bóris Schnaidermann, Eneida Maria de Souza, Jonathan Culler, Lisa Bloch de Behar, Luiz Costa Lima, Marlyse Meyer, Raul Antelo, Silviano Santiago, Sonia Brayner, Yves Chevrel.

A B R A L I C CNPJ 91.343.350/0001-06 Universidade Federal do Paraná Rua General Carneiro, 460, 11. o andar 80.430-050, Curitiba - PR E-mail: revista@abralic.org

REVISTA

BRASILEIRA

DE

REVISTA BRASILEIRA DE ISSN 0103-6963 Rev. Bras. Liter. Comp. São Paulo n.15 p. 1-195 2009
REVISTA BRASILEIRA DE ISSN 0103-6963 Rev. Bras. Liter. Comp. São Paulo n.15 p. 1-195 2009
REVISTA BRASILEIRA DE ISSN 0103-6963 Rev. Bras. Liter. Comp. São Paulo n.15 p. 1-195 2009

ISSN 0103-6963

Rev.

Bras.

Liter.

Comp.

São Paulo

n.15

p. 1-195

2009

2008 Associação Brasileira de Literatura Comparada

A Revista Brasileira de Literatura Comparada (ISSN- 0103-6963)

é uma publicação semestral da Associação Brasileira de Literatura

Comparada (Abralic), entidade civil de caráter cultural que congrega professores universitários, pesquisadores e estudiosos de Literatura Comparada, fundada em Porto Alegre, em 1986.

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta revista poderá ser reproduzida ou transmitida, sejam quais forem os meios empregados, sem permissão por escrito.

Editor Organizador Comissão editorial

Preparação/Revisão

Diagramação

Luís Bueno Maurício Mendonça Cardozo Luiz Carlos Santos Simon Benito Martinez Rodriguez Silvana Oliveira Luís Bueno Maurício Mendonça Cardozo

Patrícia Domingues Ribas Rachel Cristina Pavim

Revista Brasileira de Literatura Comparada / Associação Brasileira de Literatura Comparada – v.1, n.1 (1991) – Rio de Janeiro: Abralic, 1991- v.2, n.15, 2009

ISSN 0103-6963

1. Literatura comparada – Periódicos. I. Associação Brasileira de Literatura Comparada.

CDD 809.005 CDU 82.091 (05)

Sumário

Apresentação

Luís Bueno

Mauricio Cardozo

7

Artigos

Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto dos estudos portugueses e latino-americanos na Alemanha

Ligia Chiappini

9

A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria

Ferenc Pál

25

Tempos e contextos da literatura brasileira na Argentina e no exterior

Florencia Garramuño

49

Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita

Abel Barros Baptista

61

O ameríndio como personagem do Outro na literatura brasileira contemporânea: Órfãos do Eldorado e Nove noites

Rita Olivieri-Godet

89

Cânone literário e valor estético:

notas sobre um debate de nosso tempo

Idelber Avelar

113

O ensino de literatura brasileira por meio do Teatro do Oprimido:

uma experiência na Carolina do Norte Érica Rodrigues Fontes

151

As alunas e os contos: a narrativa curta brasileira num curso de escrita criativa nos Estados Unidos Heloisa Pait

173

Pareceristas

190

Normas da revista

191

7

Apresentação

Ao propor como tema os “Estudos de literatura brasileira no exterior”, a Revista Brasileira de Literatura Comparada procurou abrir um espaço para a discussão dos diferentes lugares e dinâmicas de estudo da literatura brasileira fora do Brasil, bem como de suas relações com o deslocamento da posição ocupada pelo Brasil no cenário político e econômico mundial nas duas últimas décadas. Respondendo a essa proposta inicial, os artigos que compõem este número da Revista formam três blocos di- ferentes, organizados a partir da dimensão que privilegiam em sua discussão. No primeiro bloco, o que se destaca é a dimensão por assim dizer institucional dos estudos brasileiros no exte- rior. O artigo de Lígia Chiapinni é o significativo balanço da experiência fundamental que representou a criação e rápida extinção da única Cátedra de Brasilianística de uma universidade alemã. Ferenc Pál e Florencia Garramuño, por sua vez, traçam amplos panoramas históricos – com um olhar atento ao futuro – dos estudos de literatura bra- sileira em dois países que se localizam a distâncias (não só geográficas) muito diferentes em relação ao Brasil: Hungria e Argentina. O segundo bloco é constituído por três trabalhos que privilegiam a dimensão da análise literária. Abel Barros Baptista, da Universidade Nova de Lisboa, ao concen- trar-se nas questões levantadas pelas leituras brasileira e estrangeira de Machado de Assis, vale-se do conceito de “hospitalidade” para discutir o estatuto do estudioso es- trangeiro de literatura brasileira. Rita Cavalieri Godet, da

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Revista Brasileira de Literatura Comparada, n.14, 2009

Universidade de Rennes 2, ao realizar cuidadosa leitura de obras de Milton Hatoum e Bernardo Carvalho, lança seu olhar para a representação que a ficção brasileira contem- porânea faz do ameríndio. Já Idelber Avelar, da Universida- de de Tulane, ao tomar partido de sua posição de professor brasileiro que atua nos Estados Unidos, convoca estudiosos tanto brasileiros como estrangeiros para retomar um tema fulcral da crítica: o do estabelecimento do valor. O bloco final nos traz dois relatos que investem na dimensão da experiência de professoras brasileiras nos Esta- dos Unidos. No primeiro deles, Érica Rodrigues Fontes trata de sua proposta de utilização dos fundamentos do Teatro do Oprimido de Augusto Boal como instrumento de apro- ximação de uma realidade que, em princípio, é estranha ao aluno estrangeiro. No artigo que fecha este número da Revista Brasileira de Literatura Comparada, Heloisa Pait conta como procurou superar as dificuldades de discussão de textos brasileiros em tradução no contexto de uma instituição que, apesar de ter grande tradição, enfrenta as dificuldades das pequenas faculdades americanas.

Luís Bueno

Mauricio Cardozo

9

Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto dos estudos portugueses e latino-americanos na Alemanha 1

Ligia Chiappini *

1 Em memória de Marlyse Meyer.

* Professora catedrática de Literatura e Cultura Brasileiras do Instituto Latino-Americano da Universidade Livre de Berlim, entre 1997 e 2010. Atualmente trabalhando na orientação de teses no mesmo Instituto, bem como na pesquisa, junto ao Centro de Pesquisas Brasileiras, do qual é co-fundadora.

resumo: Situação atual dos estudos de língua, literatura e cul- tura brasileiras na Alemanha, descrita a partir da experiência única da cátedra de Brasilianística que a autora ocupou por quase quinze anos na Universidade Livre de Berlim. A interrupção dessa experiência, a partir de 2010, confirmaria uma tradicional contradição na Alemanha entre um grande interesse pelo Brasil e um quase desinteresse por sua literatura.

palavras-chave: ensino e pesquisa, literatura brasileira,língua portuguesa, reforma curricular, encerramento cátedra.

abstract: The current status of the studies of Brazilian language, literature and culture in Germany is described by the author who occupied the only Chair in Brasilianistik ever created in Germany for almost fifteen years at the Freie University of of Berlin. The interruption of this experience in October 2010, do confirm a traditional contradiction in Germany between a great interest in Brazil and almost no interest in its literature.

keywords: teaching and research, Brazilian literature, Portuguese

language, curriculum reform, closure chair

A literatura proveniente da América Latina tem direito a ser considerada no mesmo nível que ou- tras literaturas, não deveria ser lida somente como veículo de informações sobre o país. Não é preciso acentuar que uma obra literária transmite muitos elementos procedentes de outra cultura na ficção e desperta para outras formas de viver e de pensar. Porém os preconceitos ou, digamos, os clichês, que influenciam o diálogo entre o autor traduzido e o

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Revista Brasileira de Literatura Comparada, n.15, 2009

seu leitor estrangeiro, são, ao que parece, difíceis de desaparecer na mente das pessoas. (Ray-Güde Martin)

Nos meios cultos da Alemanha, a língua portuguesa fica quase tão desconhecida como o pérsico ou o sânscrito.

(Johann Jacob von Tschudi)

O objetivo deste texto é resumir um pouco o percurso e a situação atual dos estudos de língua, literatura e cultura brasileiras e de suas diferentes modalidades na Alemanha, principalmente em Berlim, que conheço melhor, propondo para nossa reflexão alguns problemas que pude identificar em quase quinze anos de trabalho na Universidade Livre de Berlim, como a primeira, única e, até segunda ordem, última professora de Brasilianística da Alemanha. Esta ironia se esclarecerá no decorrer deste texto, que atualiza informações já divulgadas em algumas publicações ante- riores. 2 Brasilianistik, em alemão, significa Literatura Brasileira ou Filologia Brasileira, por analogia a outras áreas desses estudos, tais como a Germanistik, a Hispanistik, a Anglizistik, de mais longa tradição acadêmica. Na Universidade Livre de Berlim, ela se localizou na confluência do Departamen- to de Romanística com o Instituto de Estudos Latino- Americanos. E, nesse contexto, adotou o tratamento da literatura como manifestação cultural, abrindo-se a outras linguagens, do cinema, da televisão, da música popular, das artes plásticas, da poesia e narrativa orais. Para além da filologia mas com a filologia, pois esta não deve ser confundida com o estudo meramente formal dos textos em si mesmos, pelo menos na terra de Spitzer, Auerbach, Adorno e Benjamin, para citar apenas alguns dos grandes estudiosos de língua alemã que trataram dos textos em seus contextos e dos contextos nos textos. Mas o que parece simples no enunciado acima é, na verdade, muito complicado, pois a literatura brasileira

2 Por exemplo, no texto “Literatura e cultura no contexto dos estudos brasileiros na Alemanha: a cátedra de Brasilianística” (Chiappini, 2005)

Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto

11

3 Critérios e preconceitos que, aliás, tornaram a vigorar, por parte dos que nunca quiseram a cátedra de Brasilianística na Universidade Livre de Berlim e retardaram ao máximo a sua criação, processo que durou de 1988 a 1995, e por parte dos que provocaram, apoiaram ou facilmente aceitaram a sua extinção quinze anos depois.

ainda enfrenta dificuldades para ser reconhecida em sua autonomia (mesmo que relativa, como a de toda literatu- ra), tensionada entre os Estudos de Literatura e Cultura Latino-Americanos – hoje identificados com os Estudos

Culturais Norte-Americanos – e a Lusitanística, como par-

te da Romanística. Entre aqueles e estas, ela perde espaço e

visibilidade, mesmo em contextos nos quais se impôs como

necessária, depois de uma longa luta pela institucionaliza- ção da disciplina, caso do nosso Instituto. Em palestra realizada no primeiro simpósio inter- nacional promovido pela Brasilianística, “Brasil: país do passado?”, que se publicou posteriormente em livro com

o mesmo título, Dietrich Briesemeister (2000) faz um

balanço dessa luta, do início do século XIX ao final da dé- cada de 90 do século XX, que ajuda a entender a situação presente. Começa constatando nesse percurso um perma- nente desequilíbrio na visão do Brasil pelos estudiosos na Alemanha. Por um lado, seria esse País Tropical um paraíso

para geólogos, botânicos, sociólogos, geógrafos, etnólogos, que sempre por ele se interessaram, sobre ele pesquisaram

e escreveram. Por outro lado, e paralelamente, haveria um

semidesconhecimento cultural e, mesmo, uma ignorância quanto à “participação individual do Brasil na cultura universal”, vigorando “enfoques valorativos eurocêntricos

e critérios preconceituosos” (Briesemeister, 2000, p. 349). 3 Ainda segundo Briesemeister:

Os estudos brasileiros, no caso da literatura, sempre foi um apêndice de Portugal, nos departamentos de Romanística das Universidades, ou dos estudos hispanoamericanos, nos departamentos ou institutos latino-americanos. E aí também a situação piora dia a dia, com o português fazendo parte de uma estrutura que privilegia o espanhol (2000, p. 349).

O desconhecimento e o desinteresse não se manifes- tariam apenas na ausência ou invisibilidade da literatura, mas também na ignorância da dimensão que a própria lín- gua portuguesa tem no mundo, sendo ela frequentemente

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Revista Brasileira de Literatura Comparada, n.15, 2009

comparada ao sânscrito e ao romeno, como línguas mais ou menos exóticas e minoritárias:

Não obstante o número muito elevado e ainda o aumento da população mundial dos países lusófonos em quatro

o ensino torna-se imperdoavelmente

reduzido nas universidades alemãs. O português entra em competição com o espanhol como “terceira língua”, ficando atrás em relação ao número de alunos (Briesemeister, 2000, p. 350-351).

continentes (

),

Briesemeister reconhece algumas raras exceções a essa tendência ainda no século XIX, como a posição do austríaco Ferdinand Wolf, autor de Le Brésil Littéraire, publicado em 1863. Lamenta que esse exemplo não tenha sido seguido como merecia e acusa mesmo um possível retrocesso:

desde aquela obra singular de Wolf, não se fez muito nos países de língua alemã a favor da pesquisa, da valorização e da divulgação da literatura brasileira. Pelo contrário, constata-se até uma tendência regressiva em comparação com o posicionamento avançado do erudito austríaco (Briesemeister, 2000, p. 351).

A regra continuaria sendo o predomínio do interesse econômico, deixando as manifestações culturais sempre em segundo plano, como no contraexemplo do livro de Wilhelm Giese, O Brasil e a Alemanha: 1822-1922, em que a literatura é a grande ausente. Isso revelaria um grande desconhecimento tanto da dimensão quanto da qualidade desta. O mesmo fenômeno nota Briesemeister nos livros sobre literaturas latino-americanas, a maior parte dos quais, até há pouco tempo, deixava de fora o Brasil:

(O) Brasil continuou ausente das obras que tratavam da América Latina e, principalmente, de sua literatura, como no livro de Max Leopold Wagner, Die Spanisch-amerikanische Literatur in Ihren Hautströmungen, de 1924 (Briesemeister, 2000, p. 351).

Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto

13

Ainda nos anos 60 do século XX, falava-se freqüentemente em América Latina, mas quase sempre com referência ex- clusiva à América espanhola. Por exemplo, o livro de Michi Strausfeld, Materialien zur lateinamerikanischen Literatur (1976), só contém artigos dedicados a autores de língua espanhola (Briesemeister, 2000, p. 351-352).

Defendendo a necessidade dos estudos regionais e, ao mesmo tempo, a diversificação interdisciplinar, o mesmo autor resume “o largo caminho da institucionalização” (Briesemeister, 2000, p. 351) dos estudos portugueses e brasileiros na Alemanha, pontuando, em 1912, a fundação do primeiro Instituto Latino-Americano da Alemanha, em Aachen, pelo cônsul Heirich Schüler. Ainda antes da segunda guerra, a criação de três institutos que continu- aram existindo depois dela: o Instituto de Pesquisas sobre Ibero-América da Universidade de Hamburgo, o Instituto Ibero-Americano do Patrimônio Cultural Prussiano, em Berlim, o Instituto Português e Brasileiro da Universida- de de Colônia. Destaca também novos centros, como o Instituto de Cultura Brasileira, dos Frades Franciscanos, em Mettingen, o Instituto Geográfico da Universidade de Tübingen, o Centro Latino-Americano de Münster e, finalmente, o Instituto Latino-Americano, da Universidade Livre de Berlim, como primeiro centro de estudos interdis- ciplinares sobre América Latina numa universidade alemã, que só 25 anos depois de criado, ou seja, a partir de 1995, foi “dotado de uma cátedra (única no país) de literatura e cultura brasileiras.” (Briesemeister, 2000, p. 353) Essa foi realmente uma conquista significativa. Cria- da em 1989 e somente em 1997, depois de muitos prós e contras, ocupada pela autora deste texto, a cátedra mal completara um ano quando organizamos o simpósio internacional, no qual foi proferida essa conferência de Briesemeister, bem como a de Ray Güde-Mertin, da qual tiramos a epígrafe acima.

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Revista Brasileira de Literatura Comparada, n.15, 2009

Considerando as lacunas apontadas por esses e outros estudiosos, a Brasilianística no LAI dedicou-se sobretu- do ao estudo sistemático e à divulgação dos textos mais significativos da Literatura Brasileira, embora ela tenha trabalhado também com textos não canônicos e com tex- tos que só podem ser considerados literários em sentido amplo, tais como filmes, novelas de televisão, mitos, poesia oral, entre outros. 4 Mas isso não significou tratar os tex- tos isoladamente, havendo um esforço permanente para relacioná-los com seus contextos, implicando um diálogo constante da crítica, da teoria e da história literárias com

a linguística, a economia, a história e as ciências sociais,

numa predisposição e abertura para a inter/pluri/transdis- ciplinaridade. Por outro lado, a proposta sempre foi trabalhar com o Brasil sem deixar de levar em consideração a sua integração no mundo, a começar por tudo o que o une à América

Latina, sem desconhecer suas especificidades linguísticas

e históricas; essa foi sempre a direção buscada.

A Brasilianística concebeu-se, assim, tanto como

parte de uma hipotética Weltliteraturwissenschaft quanto da Romanística, da Lusitanística, da Literatura Comparada, dos estudos de teatro, artes e comunicações, bem como da Latino-americanística e em diálogo estreito com a Caribís-

tica, mas tudo isso sem esquecer sua base nos estudos de

literatura brasileira, que já constituem mais de dois séculos de um saber acumulado, o qual não podemos esquecer, como quem inventa a roda, a cada nova tendência teó- rica produzida nos centros universitários hegemônicos da Europa e Estados Unidos da América do Norte.

A Brasilianística concebeu-se, ainda, como “Altos

e baixos estudos” 5 de literatura e cultura e não como

Cultural Studies, porque estes muitas vezes tendem a con- finar o estudo dos textos e a própria literatura nos países considerados periféricos a um conjunto de informações superficiais e até mesmo estereotipadas das produções culturais, permitindo-se juntar num único seminário, de modo indiscriminado, arbitrário e puramente folclórico,

4 Para tanto, contou com uma ótima base linguística dos estudantes, que aprenderam português

brasileiro com Berthold Zilly

e outros excelentes mestres, encarregados de cursos de

língua, entre os quais, Zinka Ziebell, hoje também leitora na FU, Carlos Azevedo

e Carlos Ladeira, ambos

parcialmente financiados com auxílio do governo brasileiro.

5 O termo se deve a Marlyse Meyer, que, já nos anos 1970, valorizava com saudável distanciamento irônico os estudos culturais para além dos cânones literários, dedicando- se, entre outros, aos estudos sobre cordel e folhetim, muito antes de os Cultural Studies se terem transformado em moda na América Latina.

Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto

15

6 Como defendeu um colega norte-americano no jornal da Brazilian Studies Association (Brasa), associação de brasilianistas dos Estados Unidos. O jornal chama-se Fagulha e no número de 1997 estampou esse programa como alternativa aos programas tradicionais de literatura e cultura brasileira

aulas sobre descobrimentos, escravidão, Guimarães Rosa,

música popular brasileira e jeitinho brasileiro. 6 Finalmente, a Brasilianística sempre defendeu o espaço

e a possibilidade de os escritores brasileiros escreverem e publicarem literatura, como em qualquer parte do mun- do, entendendo que negar essa possibilidade em nome da democracia, como abertura para o não canônico, seria um efeito perverso da atitude libertária, mesmo que bem intencionada. Como já foi dito, com esse cargo de titular para a Bra-

silianística criou-se a possibilidade de os estudos brasileiros escaparem à situação de apêndice dos estudos portugueses ou hispano-americanos. Para entender a importância disso

– sobretudo porque no Brasil poucos percebem a diferença

entre as condições de trabalho de um professor e de um assistente ou de um leitor, para não falar dos professores horistas ou encarregados de cursos –, é preciso saber que

na Alemanha, onde a hierarquia universitária se mantém de modo muito rígido e conservador, um cargo de professor implica um espaço próprio e possibilidades bem maiores de fazer coisas que, aparentemente, todo docente universitário com doutorado poderia fazer, como permite o sistema bra- sileiro: desde orientar teses de doutoramento até coordenar projetos, promover eventos, assinar convênios e gerenciá- los. Isso tudo, mais o contrato permanente de trabalho, possibilita uma continuidade de produção teórica e prática no ensino e na pesquisa, tão importante na formação das novas gerações. No caso da Brasilianística, permitiu con- quistar um espaço autônomo para os estudos de literatura

e cultura, impedindo que se dissolvessem conteudística- e

redutoramente nas ciências sociais, embora vinculando-se estreitamente a elas, pois a literatura sempre foi estudada aí como parte da cultura e esta, como social e histórica. Por outro lado, o aprofundamento da pesquisa e do ensino

específicos da literatura e da cultura brasileiras preservou,

e mesmo intensificou, o intercâmbio interdisciplinar com os estudos hispano-americanos de literatura e cultura.

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Revista Brasileira de Literatura Comparada, n.15, 2009

É importante assinalar que o Instituto Latino-Ame- ricano, apesar de suas contradições, ou mesmo por causa

delas, parece ser o lugar institucional ideal para uma dis- ciplina desse tipo, pois permite não apenas aprofundar a interdisciplinaridade mas também desenvolver atividades que levem a superar culturalmente o tratado de Tordesilhas, concorrendo para a integração da América Latina. Entre- tanto, como vimos, a Brasilianística começou a funcionar

já num momento extremamente desfavorável, um ano

antes do balanço pessimista mas realista de Briesemeister, quando a Universidade começava a ser pressionada para ajustar-se às reformas neoliberais, ajuste esse que o autor antecipou e que logo iríamos começar a viver de modo vertiginoso, com a introdução das reformas curriculares nas universidades alemãs e europeias, no sentido acor- dado em Bolonha: generalização dos cursos de Bachelor e

Master e substituição dos cursos tradicionais de graduação.

O experiente professor e pesquisador já pressentia nessa

reforma novos entraves para os poucos progressos feitos na institucionalização dos estudos de língua e literatura brasileira, e mesmo portuguesa, na Alemanha, como a então recente criação da Brasilianística. Tais entraves iriam reforçar, segundo ele, aqueles identificados no passado, o que o levava a sugerir um tanto profeticamente que tudo tenderia a piorar:

O que impede quase insuperavelmente a independentização dos estudos brasileiros nas condições precárias do momento atual são as estruturas administrativas organizatórias da uni- versidade alemã, tanto na sua tradição, como no âmbito das reformas anunciadas para o futuro próximo (Briesemeister, 2000, p. 354).

E, realmente, piorou. A reforma universitária vinha junto com significativos cortes de orçamento, prevendo a extinção de postos e áreas inteiras. Nas Humanidades, uma das primeiras áreas atingidas foi o português. Apesar das várias realizações da Brasilianística – entre outras, a oferta de quatro a cinco cursos diferentes por semestre, a

Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto

17

7 As recentes reformas implicaram o fechamento de departamentos inteiros de português em toda a Alemanha. Em Berlim, a Universidade Humboldt encerrou mais radicalmente esses estudos. A Universidade Livre tem mais condições hoje de manter uma parte deles, mas o máximo que conseguiu foi fazê-los sobreviver como diploma complementar aos Bachalerados da Romanística, com um BA de estudos brasileiros e portugueses (valendo 60 pontos e não 90, como os outros), o que significa menos carga horária, menos disciplinas, menos professores:

ou seja, uma formação mais superficial na área.

8 O Master do Instituto prevê um primeiro ano comum, com cinco módulos obrigatórios

e alguns opcionais. Os

básicos são: Constituição da América Latina; Conceitos

e métodos da pesquisa sobre

América Latina; América Latina no contexto global;

Poder e diferença, além de um módulo para desenvolvimento de projetos. Num segundo ano, os alunos podem optar entre cinco áreas de concentração: Transformação

e desenvolvimento; Literaturas nas dinâmicas culturais da América Latina; Antropologia cultural; Brasil no contexto global: literatura, cultura

e sociedade; Relações de

gênero, formas de vida, transformações. Esse master começou em outubro de 2005,

quando os novos bacharelados

haviam começado e hoje

se evidencia em ambos a

necessidade urgente de serem repensados e reformulados

orientação de mestrados e doutorados, a organização de simpósios, ciclo de palestras e publicações, o estabeleci- mento e gerenciamento de convênios internacionais com outras instituições dedicadas à cultura e à língua brasileiras no Brasil e na Europa –, planejou-se e, em menos de cinco anos, decretou-se o seu desaparecimento no âmbito mais geral seja da Lusitanística, ao nível do BA, 7 seja no âmbito dos Estudos Culturais Latino-Americanos, ao nível do Master. 8 Ao nível do Bacharelado, a língua e a literatura bra- sileiras deslocaram-se para o departamento de Filologia Românica, como parte do BA de Estudos portugueses e brasileiros, enquanto a disciplina de Latino-americanística, da qual fazia parte a Brasilianística como uma subárea, passou para o mesmo departamento, mas estranhamente assimilada ao BA de Filologia Espanhola, o que significa, concretamente, a exclusão do Brasil da América Latina ou,

então, a assimilação de uma língua de quase 200.000.000 de falantes, o português brasileiro, ao espanhol da Amé-

rica. Motivos? Ao que parece, mais econômicos que científicos.

Não apenas a literatura brasileira se vê ameaçada. Os “dilemas da institucionalização” ameaçam também a variante europeia da língua e os respectivos estudos literá- rios e culturais específicos da lusitanística. Como também previu Briesemeister, “torna-se impossível conciliar as necessidades da diferenciação adequada com os critérios didáticos de aprendizagem e as relações histórico-culturais

dos países do mundo lusófono” (2000, p. 350). Ele enun- ciou, em face disso, uma necessidade que estamos longe de preencher:

Sem dúvida, a especialização é absolutamente necessária, inevitável e urgente, não só para garantir, em nível institu- cional, a qualidade da pesquisa científica, mas também para ajustar a formação profissional dos jovens universitários às

exigências de hoje (Briesemeister, 2000).

18

Revista Brasileira de Literatura Comparada, n.15, 2009

A restrição da oferta no ensino de português, na

variante europeia e nas demais, entretanto, não foi acom- panhada de uma diminuição da demanda, que continua

a crescer, mas está sendo canalizada, coerentemente com

a tradição de que nos falava Briesemeister, para cursos

destinados aos interessados das áreas consideradas mais

úteis, ligadas aos negócios ou às chamadas ciências sociais, não aos estudos de literatura e cultura ou aos estudos linguísticos, que eram contemplados normalmente no antigo currículo. No caso do Instituto Latino-Americano da Univer- sidade Livre de Berlim, há um paradoxo. Trata-se, como vimos, do instituto mais importante na Alemanha dedicado aos estudos sobre a América Latina, com uma tradição respeitável de estudos sobre o Brasil e que, recentemen- te, se propôs a criar um Centro de Pesquisas Brasileiras. Existindo desde meados da década de 1970, só em 1989, como vimos, esse Instituto conseguiu abrir um cargo de titular em literatura e cultura brasileiras, que quase dez anos depois, em 1997, após muitas idas e vindas, com tentativas de fechá-lo antes que começasse a funcionar e tendo funcionado dois anos com professores substitutos, veio a ser, finalmente, ocupado pela primeira colocada no concurso feito em 1990. E justamente agora, quando ex- pressivos resultados do trabalho aí desenvolvido começam

a aparecer, 9 corta-se a sua continuidade, pela extinção do

cargo após a aposentadoria da sua titular. Uma tarefa da Brasilianística, que por si só a justifica, consiste em, indo além do seu próprio gueto, ajudar a su- perar tanto uma suposta autonomia absoluta dos estudos filológicos quanto o preconceito de muitos brasilianistas das ciências sociais, para os quais a literatura é vista ora como uma joia supérflua, “sorriso da sociedade”, como queria o escritor brasileiro Afrânio Peixoto no início do século XX, ora como seu equivalente ao contrário: puro documento. Essa concepção ainda positivista da literatura e das artes embasa ou, pelo menos, justifica a criação de ba-

charelados disciplinares em que os estudos portugueses e

9 Veja-se a lista das publicações, eventos, cursos e projetos de pesquisa em nossa homepage: <http://www.lai.fu- berlin.de/studium/disziplinen/ brasilianistik/index.html>.

Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto

19

10 A cada ano, a Associação dos Lusitanistas alemães faz um balanço do desmonte dos estudos de língua e literatura em língua portuguesa e constata que ele prossegue, embora uma avaliação menos pessimista não veja isso como desmonte, mas como concentração desses estudos em algumas universidades em detrimento de outras.

11 Nesse conjunto, a partir do

semestre de inverno de 2010,

a Brasilianística voltou a fazer parte de uma só disciplina, servida por apenas um cargo de titular, que abrange toda

a América Latina e o Caribe,

como ocorria há quinze anos, o que configura necessariamente uma grande restrição, senão um lamentável retrocesso.

brasileiros têm menos pontos (60, contra 90 nos bachare-

lados principais) 10 e menos tempo ou nos Masters interdis- ciplinares, em que a literatura e a cultura submergem nos chamados estudos de área, perdendo sua especificidade,

o que implica a desconsideração total da questão estética,

pelo predomínio da análise conteudística ou a abordagem das condições de produção ou de recepção dos textos, ne-

cessárias e esclarecedoras mas externas a eles e, portanto, incapazes de dar conta da sua complexidade como objeto feito de palavras que são ao mesmo tempo coletivas e individuais. Em meio a tantas mudanças, o que tentamos, no nosso espaço cada vez mais restrito, foi resguardar o essencial, que é a capacidade de trabalhar intensivamente, com pro- fundidade, textos que constituem nosso objeto de estudo, pois o que se ensina, neste caso, mais que uma série de informações sobre eles, é uma atitude analítica, um método para que cada um produza seu próprio método. Mais que quantidade de informação, o que importa aqui é a quali- dade da formação, e esta não se faz sem um domínio da linguagem em que se expressa cada texto como produção simbólica. No caso da literatura, sem o domínio da língua

e dos métodos de leitura desenvolvidos pelas teorias da

literatura, pelo menos desde Aristóteles, o que não sig- nifica utilizá-los de modo acrítico ou extemporâneo, mas tampouco fazer tabula rasa do capital teórico e analítico aí acumulado. Atualmente, começa-se a rediscutir as bases do nosso Master de Estudos Latino-Americanos que se quer

interdisciplinar, mas não se sabe ainda muito bem o que

fazer dos estudos da cultura quando esses ultrapassam as

leituras meramente conteudísticas e passam a investigar o tratamento dado aos temas, bem como a historicidade das formas. De todo modo, aí se procura articular em torno

de certos temas, considerados prioritários, as diferentes disciplinas – Altamerikanistik (Antropologia e Arqueologia do continente americano), Lateinamerikanistik/Brasilianistik

(Literatura e Cultura Latinoamericanas), 11 História, Socio-

20

Revista Brasileira de Literatura Comparada, n.15, 2009

logia, Ciências Políticas e Economia. No caso da literatura,

o que precisava ser compreendido, mas dificilmente o é,

nesse diálogo das disciplinas, é que, quando ela aparece na sua complexidade, ao mesmo tempo como criação es- tética e como documento, pode dizer muito mais sobre a vida, principalmente se tratando do Brasil e da América Latina, onde, como reconheceu há muito Antonio Can- dido, tudo foi historicamente permeado pela literatura, “desde o formalismo jurídico até o senso humanitário”, chegando à “expressão dos sentimentos no âmbito fami- liar” (Candido, 1989, p. 180). Parece óbvio – mas nem sempre o óbvio é percebido como tal – que não é possível realizar um trabalho inter ou transdisciplinar sem respeitar os pressupostos epistemológicos e metodológicos próprios de cada disciplina. Quem estuda literatura e cultura num país como o Bra- sil sabe que não é possível fazê-lo a não ser estabelecendo

comparações. A teoria e crítica literárias aí já nasceram comparadas, mesmo que não quisessem sê-lo. E num país onde a literatura se forma sob a pressão e a certeza de que se está gestando com ela também a nação, não é possível estudá-la sem relacioná-la intimamente com a História, com a Sociologia, com a Política, com a Economia, com a Antropologia. Mas é verdade que isso se fez muitas vezes de modo implícito. O desafio, agora, é o de explicitar a comparação imanente, o que implica a busca de padrões

e categorias que permitem tratar adequadamente seme-

lhanças e diferenças. Ao mesmo tempo, trata-se de um desafio que é o desafio de todo trabalho interdisciplinar. Como devem ser abordados os objetos literários a partir da perspectiva dos estudos propriamente literários, a fim de que esse diálogo realmente seja um diálogo e não a submissão ou a diluição destes perante uma hegemonia das ciências sociais? Seja como for, é preciso reconhecer que, em Berlim, tivemos até quase o final de 2010 uma situação que se pode considerar de excelência na área dos estudos brasileiros, incluindo a literatura e cultura. Essa excelência deriva de

Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto

21

que, além de contarmos com uma professora para essa cá- tedra, contávamos também com um leitor extremamente competente tanto no ensino da língua brasileira quanto na tradução, crítica, teoria e história literárias, sem falar nos encarregados de cursos que ajudaram a ampliar e di- versificar a oferta de cursos desde o início. Essa excelência precisa ser defendida e potencializada, o que foi previsto no processo de criação do Centro de Pesquisas Brasileiras acima referido, mas isso parece difícil de ser conseguido, caso não se venha a compensar de forma consistente a perda da Brasilianística. A situação negativa que os estudos de literatura brasi- leira, no contexto dos estudos de português em geral, vêm enfrentando nos últimos anos, resumida ao longo deste texto, provocou periodicamente balanços extremamente negativos, dentro e fora da Alemanha. Eu mesma, com base no texto citado de Briesemeister, mas também num estudo de Walnice Nogueira Galvão e em informações divulgadas nos encontros bienais da Associação de Lusi- tanistas Alemães, reforcei esse tom pessimista em outras publicações, o que chegou a ser lido como nostalgia, mas que na verdade era realismo. Hoje em dia a situação começa a mudar, graças à organização da comunidade científica dos Lusitanistas e Brasilianistas, mas também graças à importância reconhecida do Brasil para as relações internacionais da Alemanha. Aqui e acolá há sinais de resistência que nos impedem de desanimar, como foi o caso do movimento iniciado pelos estudantes da Universidade de Jena, sob o mote de “Wir wollen Portugiesisch” (Nós queremos português). Pelo lado brasileiro, se antes havia pouco incentivo, hoje se financiam novos leitorados para compensar algumas perdas ou se estabelecem convênios que permitem preservar sobretudo os cursos de língua que sobreviveram nos novos currículos. Quanto à variante europeia do português, o Instituto Camões, cujo apoio aos leitorados parecia ter-se enfraquecido, volta a se fazer presente, financiando pelo menos parcialmente alguns leitorados, como ocorre atualmente na Universidade

22

Revista Brasileira de Literatura Comparada, n.15, 2009

Livre de Berlim e na Universidade Humboldt. Isso tudo

leva a juntar forças, num esforço de cooperar para vencer

a tendência a concorrer e dividir. Assim, no Bacharelado

de Estudos Portugueses e Brasileiros da Universidade Livre de Berlin, em que o português europeu é central, as outras variantes da língua são, desde o início, objeto de estudos comparativos. No que diz respeito à variante brasileira, com ajuda da Embaixada Brasileira, estamos fazendo um trabalho desde 2007 no sentido de conceber cursos de cultura brasileira para além dos tradicionais e panorâmicos cursos de civilização, produzindo e compilando tanto um material básico para iniciantes, que vai de mapas a dados numéricos e históricos, quanto outros mais complexos, tais como textos de e sobre literatura e cultura, entre eles os que tratam das manifestações culturais afro-brasileiras ou dos povos indígenas. Também uma antologia de textos curtos e atuais, de diferentes gêneros, em português brasi-

leiro, vem sendo preparada e sistematicamente atualizada, como instrumento ágil para proporcionar aos estudantes de português, desde o início da sua formação no bacharelado,

a experiência da variante brasileira. Assim, a partir dessa base, eles terão oportunidade de desenvolver um conheci- mento mais profundo e uma prática linguística mais ativa nos módulos mais avançados, em que se trabalha mais diretamente com o português do Brasil. Uma produção de material didático de caráter contras- tivo do português brasileiro com o português de Portugal

e de Angola, para ser usado no sistema do e-Learning, é

elemento de apoio básico nesse ensino. Dessa forma, os diferentes registros da língua portuguesa e suas variantes regionais e nacionais passam a ser considerados riqueza comum e não instrumentos para reafirmar hierarquias e justificar discriminações. No caso do Master de Estudos Latino-Americanos, também estamos produzindo um ma- terial contrastivo, desta vez com o espanhol, já que a maior parte dos estudantes tem conhecimento dessa língua. 12 Se pelo lado do ensino da língua esses são o panorama

e o desafio atuais, pelo lado da literatura talvez o desafio

12 Esse trabalho, que foi iniciado e prossegue no âmbito de um convênio com o Brasil, coordenado por Ligia Chiappini e mediado pela Embaixada Brasileira, vem sendo desenvolvido pelas Dras. Zinka Ziebell e Rosa Henckel.

Os estudos de língua e literatura brasileiras no contexto

23

seja maior. Pois se já poucos reconhecem a importância de estudar a língua portuguesa e suas variantes para a comunicação e outros usos meramente instrumentais, menos ainda se valoriza o conhecimento da língua como matéria e forma da e na literatura, porque esta também só interessa, como vimos, como documento ou como mer- cadoria, no caso do best-seller. A literatura mais exigente, que implica um grau mais alto de elaboração linguística,

é simplesmente demonizada ou ignorada, porque julgada

elitista, branca, ocidental. Desconsidera-se aí aquilo que Antonio Candido definiu como contraveneno, que a boa literatura carrega junto com as suas dimensões ideológicas conservadoras. No Instituto Latino-Americano tivemos por quase 30 anos um cargo pleno de leitor para Português Brasileiro e, por quase 15 anos, simultânea e pioneiramente, um posto de Professor para Literatura Brasileira, pois a Universidade

e

pareceristas externos a ela reconheceram a autonomia

e

a dimensão desta para comportar uma abordagem espe-

13 Alusão a um debate realizado no Instituto Iberoamericano de Berlim em parceria com o Instituto Goethe de São Paulo, em março de 2008.

cífica. Mesmo assim, ainda não conseguimos despertar o interesse de colegas e estudantes de outros departamentos da mesma universidade, que trabalham com clássicos da

chamada literatura universal. E, do ponto de vista editorial,

o quadro tampouco é positivo. Um exemplo disso é o caso

de Guimarães Rosa. Considerado muito difícil e tendo suas traduções em alemão esgotadas, dificilmente consegue ser republicado. O ano do seu jubileu, 2008, coincidiu com um debate sobre a literatura brasileira como um mau negócio. 13 Constatava-se aí que a literatura de qualidade estaria perdendo terreno para a literatura meramente co- mercial e para uma espécie de novo exotismo, expresso na representação espetacular do brutalismo nas favelas, que já em 1998 Ray Güde-Martin tematizava no trecho aqui escolhido como epígrafe. Mas, assim como Briesemeister, apesar do balanço negativo, termina seu texto de modo otimista, citando o crescente interesse de um certo público e a presença maior dos escritores cineastas e artistas brasileiros em encontros,

24

Revista Brasileira de Literatura Comparada, n.15, 2009

recitais, colóquios, semanas culturais dedicadas ao Brasil, bem como a atuação de colegas que ensinam, estudam, traduzem e comentam o melhor da literatura brasileira, além das associações que ajudam a manter a vitalidade do setor, podemos ainda, mais de dez anos depois, acreditar, apesar de todas as lacunas e retrocessos, que a indiferença pela Literatura do Brasil e o seu desconhecimento podem ser superados na Alemanha. Infelizmente, muito do diag- nóstico de Briesemeister ainda vale para o presente e a maioria dos brasilianistas alemães ainda “leva uma existên- cia profissional acadêmica, em certo modo esquizofrênica, rivalizante e paradoxal.” (Briesemeister, 2000, p. 354), mas continuamos apostando que o trabalho desenvolvido no espaço conquistado para a literatura brasileira no Instituto Latino-Americano da Universidade Livre de Berlim poderá ajudar a superar essa esquizofrenia, pelo reconhecimento das lacunas e a invenção de novos mecanismos que ajudem a preservar e a desenvolver o que já foi realizado.

Referências

BRIESEMEISTER, Dietrich. Os estudos brasileiros na Alemanha. In: CHIAPPINI, Ligia; DIMAS, Antonio; ZILLY, Berthold (Orgs.). Brasil, país do passado? São Paulo: Boitempo, 2000. p. 349-357.

CANDIDO, Antonio. Literatura de dois gumes. In: A educação pela noite e outros ensaios. São Paulo: Ática, 1989.

CHIAPPINI, Ligia. Literatura e cultura no contexto dos estudos brasileiros na Alemanha: a cátedra de Brasilianística. Martius- Staden-Jahrbuch, São Paulo, n. 52, p. 251-263, 2005.

25

A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria

Ferenc Pál *

resumo: O presente trabalho estuda as condições da recepção da

literatura brasileira na Hungria. Tendo-se inteirado da existência do Brasil e obtido muitas informações deste país nos séculos XVII

a XIX, o público húngaro formou uma imagem do Brasil a que a

literatura, traduzida muitas vezes para servir interesses privados ou políticos, não correspondia.

palavras-chave: imagem do Brasil, expectativas, exótico, recepção da literatura.

abstract: This study examines the reception of the Brazilian

literature in Hungary. The Hungarian (reading) public has got

a lot of information about this country during the XVII-XIX th

centuries, so formed an image about Brazil what the literature, translated for serving private or political interests, doesn’t suit to.

keywords: image of Brazil, expectations, exotic, reception of the literature.

* Departamento de Português, Instituto de Romanística, FL da ELTE (Faculdade de Letras da Universidade Eötvös Loránd) de Budapeste.

Brasil e Hungria: primeiros contatos

Os húngaros, se bem que de uma forma e em condições um pouco especiais, inteiraram-se da existência do Brasil no século XVII, quando o autor da epopeia nacional húngara Szigeti Veszedelem (“Desgraça de Szigetvár”), Miklós Zrínyi, escritor, político e eminente militar da época, exclamou

num libelo político as seguintes palavras contra a opressão turca: “Tenho notícias de que no Brasil há terras desertas em abundância, peçamos pois ao rei espanhol [sic!] uma província, façamos uma colônia tornando-nos cidadãos

26

Revista Brasileira de Literatura Comparada, n.15, 2009

[daquele país]”(Zrínyi, 1661/2009). 1 Podemos supor, sem nos atrevermos a tecer proposições freudianas, que a partir de então o Brasil devia ou podia existir no subconsciente húngaro como um lugar particular, distinto. Nos séculos posteriores houve notícias esporádicas do Brasil, em especial sobre a consequência do trabalho dos jesuítas húngaros, entre eles János Zakariás e Dávid Fáy, que participavam como missionários no levanta- mento topográfico e na descrição das terras brasileiras. 2 Um conhecimento mais intenso, no entanto, começou a difundir-se no século XIX. O Brasil e a Hungria, ou melhor o Império Austríaco, que a Hungria integrava, mantiveram contatos diplomáticos a partir de 1817, 3 e nos meados dos Oitocentos já havia um contato regular entre os dois países, primeiramente por causa da emigração, que se iniciou depois da abolição do tráfico de escravos em 1850. Entre os primeiros emigrantes supostamente havia também húngaros cultos, versados na literatura, porque na década de 1850 já temos notícias do Brasil que dizem respeito a atividades de magiares. Em seu número 44, de 30 de outubro de 1859, o semanário de Budapeste Vasárnapi Újság informa, na seção “Tárház” (“Depósito”), que “numa antologia geral, publicada no Rio de Janeiro, acham-se onze poemas húngaros” (Vasárnapi Újság, 1854-1860). Nos jornais e revistas húngaros da segunda metade do século XIX podemos ler muitas informações sobre o Brasil. Quanto à presença do Brasil e das coisas brasileiras no imaginário húngaro da época, as expectativas do público são bem ilustradas pelo mesmo semanário Vasárnapi Újság, cujas páginas trazem, em primeiro lugar, notícias interes- santes, algumas vezes abordadas de forma científica, sobre a curiosa flora e fauna brasileiras, 4 bem como relatos sobre viagens a esse país e nomeadamente ao Rio de Janeiro, 5 informando que a região atrai os visitantes com a beleza da sua vegetação, mas que, na questão do urbanismo, provoca má impressão aos viajantes europeus. Além de seus aspec- tos exóticos, as notícias também mostram o Brasil como parceiro comercial e cultural da Hungria. Nas notícias po-

1 “Ugy hallom Braziliában elég puszta ország vagyon; kérjünk spanyor királytul egy tartományt, csináljunk egy coloniát, legyünk polgárrá.”

2 É em parte resultado do seu trabalho o livro Itinerarium peregrini philosophi, Sinis, Japone, Cicincina, Canada et Brasilia definitum, editado em 1720 na Universidade Arquiepiscopal, em Tyrnavae, por Franciscum Szedlar e pela Sociedade de Jesus.

3 Cf. Ramirez, 1968. p. 243-

244.

4 “Tejfa” (Árvore que dá leite) “ Um relato sobre a fauna do rio Amazonas e do Rio Negro. Vasárnapi Újság, n. 14, 4 jun. 1854.

5 Andersen – Dr. Hegeds. “Utazás a föld körül” (Viagem em torno da Terra). Vasárnapi Újság, n. 29, 17 set. 1854.

A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria

27

6 Vasárnapi Újság, n. 27, 6 set.

1857.

7 Vasárnapi Újság, n. 42, 17 out. 1858.

8 II. Dom Pedro brazíliai császár (D. Pedro II, imperador brasileiro). Vasárnapi Újság, n. 47, 24 nov. 1889.

9 Vasárnapi Újság, n. 17, 29 abr. 1883.

10 “A vizi boa-kigyó” (A jibóia

– serpente da água). Hírmondó, n. 23, p. 274, 1969.

11 Uma comunicação da revista literária Nyugat,

prestigiosa revista literária de Budapeste da primeira metade do século XX, informa que o imperador tinha em grande estima a obra de Mór Jókai. No número 5 da revista, publicado no ano de 1928, Gyula Szini fornece em “Jókai:

Egy élet regénye” (“Jókai:

Romance de uma vida”) a seguinte informação sobre a curiosa visita de D. Pedro a Budapeste, no início da década de 1870: “[Mór Jókai] tem amigos soberanos. Dom Pedro,

o interessante imperador

brasileiro, hospedou-se intencionalmente no Hotel ‘Angol királyn’, e não no apartamento oficial, condigno

a um monarca, no Castelo de

Buda, a fim de poder ter um contacto mais íntimo e fácil com o seu parente espiritual, o bondoso Mór Jókai.”

12 Vasárnapi Újság, n. 49 a 52, dez. 1857.

demos ler informações sobre o cultivo e comércio do café, sobre o fato de que um comerciante húngaro transportou vinhos de Arad, cidade do sul da Hungria de então, para a

capital do Brasil, Rio de Janeiro; 6 também se informa que

a cantora Lagrange cantou uma ária do compositor hún-

garo Ferenc Erkel no Teatro da Ópera do Rio de Janeiro,

e que um aristocrata húngaro, László Alvinczy, morreu no Brasil. 7

No enorme número de revistas e jornais que saíram na Hungria do último terço do século XIX, juntamente com informações de caráter político, como foi, por exemplo, o

artigo de 1889 sobre a visita de Dom Pedro II à Hungria nos anos 1870, 8 ou informações sobre a proclamação da

República no Brasil e outros acontecimentos de política

interior, pretendia-se satisfazer a curiosidade do público leitor em relação ao exotismo. Essa demanda pelo estranho,

exótico, pitoresco, etc., satisfazem-na tanto os artigos pu- blicados nos jornais como os livros publicados nessa época. Em um artigo no Vasárnapi Újság, “Egy magyar tengerész Brazíliában” (“Um marujo húngaro no Brasil”), 9 Rthy Frigyes fala sobre o “povo estranho” que vive no Brasil, referindo-se dessa maneira à população negra, inexistente em território húngaro. Com estranhamento, também se fala na flora e fauna brasileiras. O artigo intitulado “A vizi boa-kígyó” (A jibóia – serpente da água), publicado no Hírmondó, 10 descreve alguns animais repulsivos do Brasil. Esta duplicidade da imagem ou dicotomia da re- cepção do Brasil também se observa na obra de Mór Jókai,

romancista romântico de fantasia profícua, aliás escritor

favorito do imperador D. Pedro II, 11 em cujas obras as aven- turas acontecidas no Brasil e certas peripécias econômicas andam de mãos dadas. No conto do escritor intitulado Tíz

millió dollár (“Dez milhões de dólares”), os personagens, envolvidos em aventuras rocambolescas, graças a um dono de barco brasileiro passam uma semana no Rio de Janeiro. 12 Mas, nos romances posteriores – para além de

meras referências a um ou outro fenômeno curioso, como em Az arany ember (O homem de ouro, 1873), em que se

28

Revista Brasileira de Literatura Comparada, n.15, 2009

lê sobre um sapo luminoso que “irradia uma luz fosfores-

às vezes tão

alto que sua voz suplanta a dos cantores e da orquestra na ópera” (Jókai, s/d) –, o romancista fala largamente sobre as relações comerciais entre a Austro-Hungria e o Brasil. No romance Fekete gyémántok (Diamantes pretos, 1870), por exemplo, escreve que “os peruanos e os brasileiros

sempre pagam com prata”. 13 E mesmo em Az arany ember

informa que “A capital do Brasil é o Rio de Janeiro. É de lá que transportam para cá o algodão e o tabaco, lá estão as minas de diamantes mais famosas”. 14 Na ficção fantástica A jövszázad regénye (O romance do século vindouro, 1872) também se leem divagações de teor econômico:

“Até não querermos mais do que a importação do café, do

o Japão

e o Brasil

isten (Onde o dinheiro não é deus, 1905), aparece a frase:

“A farinha era um produto húngaro, foi o paquete Adria que a transportou até o Rio de Janeiro”. 16 O Brasil, alvo da emigração húngara, e com um contingente grande de emigrantes na primeira metade do século XX, tornou-se um cenário real, onde as condições de vida e de trabalho eram semelhantes às da Hungria, como afirmavam muitos livros de não ficção dessa época. 17 Depois da Segunda Guerra Mundial, quando na Hungria aconteceu um câmbio de paradigma político, o Brasil, na década de 1950, tornou-se terreno de lutas políticas das forças populares contra o imperialismo e pela paz. Ao me- nos era assim que os órgãos políticos húngaros informavam seus leitores. 18 Contudo, a exigência ou a ânsia do exótico continu- ava a existir por parte do público, no que dizia respeito ao Brasil. Nos anos 1930 e 1940, quando por causa do enorme número de emigrantes húngaros o Brasil entrava no dia a dia húngaro 19 como um país “normal”, na ficção húngara de temática brasileira se registram ainda muitos elementos exóticos. Romances que se movem no universo das obras da literatura de cordel, como A brazíliai fenevad

15 Em seu último romance, Ahol a pénz nem

algodão e do petróleo [ ”

cente” e “canta de noite nos interiores, [

]

]

incluindo a China [

]

13 Segunda parte: “[

peruiak, brazíliaiak mind csupa ”

ezüsttel fizetnek

(Jókai, s/d).

]

a

14 Primeira parte: “A senki szigete” (“Ilha de ninguém”):

“Brazília fvárosa Rio de Janeiro. Onnan hozzák a gyapotot meg a dohányt, ott vannak a leghíresebb gyémántbányák” (Jókai, s/d).

15 Primeira parte: “Amíg

nem terjeszkedünk többre, mint kávé, gyapot és kolaj behozatalára [

Kína [

befoglalásával” (Jókai, s/d).

]

]

Japán és Brazília

16 “A liszt magyarországi termény volt, Rio de Janeiroig Adria gzös szállította” (Jókai, s/d).

17 DezsMigend: A brazíliai aranyhegyek árnyékában (Sob a sombra das montanhas de ouro brasileiras, Békéscsaba, 1926), Béla Bangha: Dél-Keresztje alatt (Sob a cruz do sul, Budapeste, 1934), Zoltán Nyisztor:

Felhkarcolók, serdk, hazátlanok (Arranha-céus, selvas, apátridos, Budapeste, 1935) e Lajos Wild: Tizenöt év Brazíliában (Quinze anos no Brasil, Arad, Vasárnap, 1936).

18 Sobre a situação interna do Brasil saíram artigos com títulos: “Brazília vezetszemélyiségei az atomfegyver betiltásáért” (Principais personalidades do Brasil defendem proibição de armas nucleares, Tartós Békéért, n. 23, p. 4, 11 jun. 1950), “A brazil nép lelkesen támogatja a békeegyezmény megkötését követelfelhívást” (O povo brasileiro apoia com entusiasmo o apelo por celebrar o acordo pela paz, Tartós Békéért, n. 23, p. 2,

A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria

29

10 jun. 1951); “A brazíliai Kommunista Ifjúsági Szövetség újjászervezése” (A reorganização das Juventudes Comunistas brasileiras, Tartós Békéért, n. 3, p. 11, jan. 1951), etc.

19 Cf. Boglár Lajos, 1997. O autor foi cônsul húngaro no Brasil entre 1928 e 1942.

20 Budapeste, 1940.

21 Budapeste:

FerencesVilágmisszió kiadása,

1942.

22 Budapeste: Nemzeti Figyel,

1944.

23 Cf. Pál, 1996, p. 19-33 e Pál, 2004a, p. 11-37.

24 Fazendo referência à “rivalidade” de Portugal e do Brasil, que sempre nos instiga a fazer cotejamentos, podemos mencionar que tradicionalmente, e em especial no século XIX, o Brasil estava mais representado na imprensa húngara do que Portugal, apesar de que alguns momentos da literatura portuguesa, por meio da obra e figura de Camões e de Pessoa, tenham um maior halo de conotações na Hungria. Cf. Pál, 2004c, p. 161-171.

25 Cf. Pál, 2004b, p. 121.

26 La force de l’âge. Em húngaro: A kor hatalma. Budapeste: Európa, 1965.

(A fera brasileira), de Tibor Magyar, 20 o livro de contos Villanó fények az serdmélyén (Luzes cintilantes no fundo da selva), de Mihály Witte, 21 e o Brazíliai nagybácsi (O tio brasileiro), 22 de um tal László György, têm muito desse exotismo. Outro Brasil, de aventuras na selva, se desenha nos romances do ex-naturalista Gábor Molnár, que em

1930 viajou à selva amazônica e, depois de perder a vista num acidente, regressou à Hungria e começou a escrever

ficção. O primeiro livro dele, intitulado Kalandok a brazíliai

serdben (“Aventuras na selva brasileira”), saiu em 1940. Nesse livro e nalguns outros que o seguiram ele não fez

senão relatar o que tinha experimentado e visto naqueles

dois anos que viveu no Brasil, e o fez num estilo vivo e

vigoroso. Mas, com o tempo, essas experiências colhidas da realidade ficavam em segundo plano, e o ambiente brasilei- ro de pequenas povoações à beira da selva e dentro da selva amazônica passou a ser palco de histórias movimentadas, mescla do relato de experiências pretensamente vividas e de histórias imaginadas.

Presença da literatura brasileira na Hungria

Podemos deduzir, do panorama histórico acima traçado, 23 que o público húngaro havia muito tempo tinha tomado conhecimento do Brasil e que esse país ocupava um lugar privilegiado na consciência húngara. 24 Assim,

lentamente passava-se a ter condições de formar do Brasil uma imagem diversificada e verídica que correspondesse

à realidade do país. Contudo, parece que há determinadas expectativas, preconceitos ou ideias fixas que orientavam e orientam

o gosto do público, que prefere relacionar o Brasil com o

exótico, o erotismo desenfreado ou requintado, as liberda-

des do carnaval e das praias do Rio de Janeiro, aventuras

entre os índios e na selva

Se dissemos em outra ocasião, 25 citando palavras de Simone Beauvoir, para quem “a literatura é a melhor via para se conhecer um país estrangeiro”, 26 no caso do

30

Revista Brasileira de Literatura Comparada, n.15, 2009

Brasil havemos de acrescentar que, independentemente do valor da obra e das intenções dos editores, só foram aceitas pelo público e tiveram êxito na Hungria as obras brasileiras que satisfizeram as expectativas acima enume- radas. Esse critério talvez seja muito rigoroso e restritivo mas, se queremos ultrapassar uma simples enumeração, à maneira positivista, das obras traduzidas da literatura brasileira, que representam uma matéria morta, existente mas sem influência, temos de estudar a recepção das obras brasileiras e ver quais delas tiveram impacto no meio hún- garo, partindo das ideias de Ricoeur, Gadamer ou outros teóricos que supõem alguma identificação conotativa com uma obra para fazê-la sair do âmbito do simples terreno denotativo. As primeiras informações da literatura brasileira che- garam por via dos verbetes das enciclopédias editadas na viragem dos séculos XIX e XX. Em A Pallas Nagy Lexikona (A grande enciclopédia da [Editora] Pallas) ainda não se encontra uma informação sobre a literatura do país no verbete Brazília, 27 mas a alguns poetas destacados (como Gonçalves de Magalhães, Gonçalves Dias e Tomás An- tónio de Gonzaga) a obra já dedica verbetes autônomos. No volume 3, de 1911, da Révai Nagy Lexikona (Grande enciclopédia de Révai) já se encontra um verbete em separado sobre a “literatura brasiliana” rezando que “a literatura brasiliana durante muito tempo foi apenas um ramo da literatura portuguesa e só nos últimos tempos começou a se desenvolver em rumo diferente” (Révai Nagy Lexikona, 1911). Nessa enciclopédia já é maior o número de autores com verbete autônomo (encontramos verbetes sobre os autores mais importantes ou renomados do Ro- mantismo, como Macedo, Álvares de Azevedo, Bernardo Guimarães, etc.). Nas enciclopédias posteriores, em especial nas enci- clopédias de literatura universal, encontramos informações cada vez mais sofisticadas sobre a literatura brasileira, até que, na iniciativa de grande envergadura da Világirodalmi Lexikon (“Enciclopédia da literatura universal”), publicada

27 A Pallasz Nagy Lexikona, v.

3.

A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria

31

28 “Az ápoló” (“O enfermeiro”). Világ, ano III, n. 46, p. 1-2, 23 fev. 1912. Na seção de folhetim, sem indicação do nome do tradutor.

29 Világirodalmi Lexikon, v. 1, p.

1090.

entre 1970 e meados de 1990, figuram, além dos verbetes sobre a literatura brasileira e fenômenos literários ligados com o Brasil (como, por exemplo, o Modernismo), verbetes sobre 228 escritores brasileiros. Tratava-se de mera informação sobre as letras brasi- leiras, que ainda não se fazia acompanhar de traduções de obras para efetivo conhecimento por parte do público hún- garo. Assim, com relação ao modo como as letras brasileiras tornam-se de fato conhecidas na Hungria é bastante difícil identificar os fatores determinantes da expansão desse conhecimento: por um lado temos as primeiras notícias informativas; em seguida surgem as primeiras publicações de traduções que, na realidade, não são mais do que infor- mações gerais dessa literatura, e após esse conhecimento geral surgem ou podem surgir as obras com as quais o público leitor tem já um contato mais familiar. Parece-nos mais ou menos evidente que, até a publi- cação dos primeiros volumes da “Grande Enciclopédia de Révai”, quer dizer, até os anos 1910, não se traduzira obra brasileira alguma para o húngaro, dado que nessa enciclo- pédia não há referências a obras brasileiras publicadas em húngaro, nem encontramos em nosso trabalho de pesquisa nenhuma outra menção de obras traduzidas desse país. A primeira obra brasileira traduzida para o húngaro, segundo podemos afirmar hoje, foi um conto de Machado de Assis, publicado em 1912 no jornal Világ de Budapes-

te, com o título Az ápoló. 28 Temos outro texto brasileiro traduzido para o húngaro, incerto quanto aos dados bi- bliográficos: é um conto de Ottavio Brandão, publicado no (suposto) número 1 da revista intitulada Új Hang, de 1931, uma revista político-literária publicada em Moscou. Essa informação aparece na “Enciclopédia da Literatura

Universal”. 29 Infelizmente, não foi possível consultar, até o

momento da redação deste artigo, o número mencionado do periódico, de forma que não temos informação sobre qual dos contos do autor figura na revista. Por outro lado, há informações a respeito de um conto de Monteiro Lobato que saiu na revista ilustrada de lite-

32

Revista Brasileira de Literatura Comparada, n.15, 2009

ratura e artes intitulada Pásztortz (Fogueira de Pastores), editada na Transilvânia. 30 O conto Az élcfaragó (Fabricante de piadas) saiu na seção “Narradores Estrangeiros”, e foi acompanhado de uma nota que, além dos dados biográfi- cos, oferecia uma avaliação ponderada do autor: “Monteiro Lobato é o criador da moderna literatura nacional no Brasil. Tem por objetivo fazer um contraponto à literatura francesa, e, ao mesmo tempo, revelar as enfermidades da ”

(Pásztortz, 1930, p. 391). A apresen-

tação avaliativa do autor faz-nos supor que é trabalho de uma pessoa conhecedora da literatura brasileira e mostra a seriedade daquela revista, que reunia uma série de escri- tores da Transilvânia da época. Assim, é num parecer bastante generalizado que um livro de poemas, publicado em 1939, indica o primeiro momento da difusão mais abrangente da literatura bra- sileira na Hungria. Trata-se da seleção intitulada Brazília üzen (“Mensagem do Brasil”), traduzida por Paulo Rónai. 31 Este livrinho, que tem poemas de 25 poetas brasileiros da primeira metade do século XX, acompanhados de uma in- trodução que esboça o panorama da literatura (ou antes: da poesia) brasileira, é uma publicação que lança os alicerces para um conhecimento ulterior, não obstante passar quase despercebido. Afinal, os critérios da seleção dos textos já contavam, de saída, com um círculo reduzido de leitores. Paulo Rónai, no prefácio do livro, rejeitando satisfazer um gosto pelo exótico ou movido por um interesse folclórico, apresenta a poesia brasileira como manifestação “de um jovem povo com cultura, enérgico e em vias de desenvol- vimento, experimentando uma vida intelectual cada vez mais profunda” (Rónai, 1939, p. 8). Nos poemas da antologia prevalece um certo gosto ou “ar” parnasiano. Sobre a poesia de Olavo Bilac, o tradutor afirma: “Nos seus versos muito burilados, um pouco frios, falta o couleur locale, contudo eles contêm uma cintilação tropical indefinida” (Rónai, 1939, p. 8). A seleção deu preferência aos poemas de alto quilate poético, universali- zantes, relegando ao segundo plano aqueles que em versos

alma brasileira

30 Az élcfaragó. In: Pásztortz (Kolozsvár/Cluj), ano XVI, n. 17, p. 391-393, 24 ago. 1930. Sem nome completo do tradutor, indicado apenas com a abreviação: Szys.

31 Para os poucos que não conheçam seu nome, informamos que Paulo Rónai (1907-1992) é um literato húngaro que em 1940 trasladou-se para o Brasil como bolsista do governo brasileiro e nesta sua nova pátria desenvolveu variada atividade como tradutor, crítico e historiador de literatura.

A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria

33

32 Notamos, por outro lado, uma falta total de poemas da primeira fase do movimento modernista, que, parece, não correspondiam ao gosto do selecionador. Essa mesma antipatia pela literatura da vanguarda e/ou experimental também se nota, muito mais tarde, na sua colaboração para a Enciclopédia da literatura universal, na qual, por exemplo, não aparecem os representantes da poesia concreta, etc. Não sejamos, contudo, injustos com Paulo Rónai: em seu prefácio, ele fala sobre as dificuldades de obter livros do Brasil: pode ser que simplesmente não tivesse à mão todas as obras necessárias para uma antologia equilibrada.

33 É com estas palavras que o texto termina: “Agora desde escrivaninhas brasileiras, mãos brancas ou negras batem o sinal tranqüilizador, dizendo que estão de guarda; e da Europa maltratada bate-se a resposta: ‘Obrigado!’” (Bálint, 1939a, p. 7)

34 Bálint, 1939b, p. 31.

35 Para os leitores mais sagazes, que pensam descobrir uma incongruência de datas, assinalamos que o publicista pôde ler as traduções de Paulo Rónai antes da publicação do livro Mensagem do Brasil, em agosto de 1939, porque o tradutor publicara algumas delas em diferentes revistas, anteriormente.

desiguais e livres apresentavam cores e tons mais ásperos, mais modernos, como, por exemplo, os que Ronald de

Carvalho escreveu a respeito do Brasil. 32 Assim, dos 33 poemas do livro, reunidos em quatro pequenos ciclos, só oito do ciclo “Descobrimento do Brasil” evocam ambientes tipicamente brasileiros. Julgando-se objetivamente, pode-se dizer que tal princípio de escolha e apresentação dos poemas resultou do gosto intelectual urbano daquele momento. É essa mes- ma voz universal, e não as peculiaridades exóticas, que se frisa na recensão informativo-crítica do publicista György Bálint, escrita alguns meses depois da publicação do livro de poemas de Paulo Rónai.

Os livros de viagens ou os folhetos turísticos mostram só

o exotismo, no entanto os poetas informam sobre o essen-

cial. Esse essencial, esse “outro Brasil”, nós o encontramos

nesse livro de traduções novo e belo. [

] Todos os poetas

são aparentados, afinal; a mesma coisa que causa dor ou

alegria aos poetas crioulos, negros, índios e mestiços causa-

as também aos franceses ou húngaros. Suas vozes são afins

e universais

(Bálint, 1939, p. 7)

Nessas palavras do jornalista, escritas na véspera da Segunda Guerra Mundial, percebe-se também uma pre- ocupação com os valores da cultura ameaçados. Assim, suas palavras sobre a poesia brasileira têm uma mensagem

política para a atualidade de então. 33 Essa mesma posição

se reflete num outro texto dele, Brazíliai regény (Romance brasileiro), 34 escrito depois da leitura, em francês, do Dom Casmurro de Machado de Assis, que ele apresenta como romance por excelência, quase instituição nacional. O jornalista que, segundo ele mesmo diz, se familiarizara com o Brasil pela leitura das traduções de Paulo Rónai 35 chega à conclusão, um pouco precipitada (e, já sabemos, falsa), de que os brasileiros são gente feliz porque têm pre- ferência pela literatura pura, alheia aos trágicos problemas nacionais, ao contrário do que ocorre, por exemplo, com a literatura húngara. Suas palavras novamente refletem

34

Revista Brasileira de Literatura Comparada, n.15, 2009

uma perspectiva universalizante, porque ele sublinha que

o maior mérito desse livro é que não é “nada brasileiro”:

“Nada tem de exótico, a não ser que os criados sejam negros e um dos amigos do personagem principal sofra de hanseníase.” (Bálint, 1939b, p. 31) É curioso observar, nos intelectuais que formavam

o gosto literário daquela época, a falta de sensibilidade

diante do exotismo brasileiro, que se manifestava tão in- tensamente nas obras de ficção de temática brasileira dos escritores húngaros acima mencionados, ou ao menos dian- te dos problemas específicos do Brasil, aspectos que tanto marcaram, tempos depois, a visão da geração que travou contato amplo e profundo com as letras latino-americanas, incluindo as brasileiras, por meio dos escritores do boom, notadamente Alejo Carpentier, Rómulo Gallegos, Gabriel García Márquez, Juan Rulfo, etc. Assim, em outra resenha crítica a respeito de Brazília üzen (Mensagem do Brasil), publicada na revista literária Nyugat (Ocidente), o autor escreve: “não procuremos um exotismo exterior na poesia”. E justifica-se: “além dos poemas de costume, que deixam entrever uma influência francesa, encontramos, neste livro, alguns poemas de pompa estranha e surpreendentes. O estranho não se diz ”

com respeito ao couleur locale

(Nagy, 1939). Os poemas

caracteristicamente brasileiros passam quase despercebidos para o crítico. Como já mencionamos, essa atitude fundada no eurocentrismo e afastada do gosto geral do público leitor, que continuava interessado pelos momentos exóticos do Brasil, também deformou a visão dos intelectuais (e de seu público) de então, que não podiam ou não queriam observar da literatura brasileira senão aquelas obras que “demonstram que o espírito europeu não conhece frontei- ras e num tempo futuro, quando já não existir na Europa, povos mais novos e mais felizes irão retomá-lo na América” (Bálint, 1939, p. 31). Nesses anos aparecem mais duas obras literárias bra- sileiras: Paulo Rónai publica, em 1940, uma seleção de

A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria

35

36 Budapeste: Officina, 1940.

37 “Egy brazil bérház”. Trad. por Henrik Horváth. In Népszava (Budapeste), desde o n. 233, de 1940, até o n. 20, de 1941.

38 Esta edição de 1944 do romance de Azevedo (Budapeste: Anonymus) teve uma pequena edição fac-similada de 30 exemplares:

Azevedo, Aluizio. Hangyaboly. Budapeste: Íbisz, 2002.

poemas de Ribeiro Couto, com o título de Santosi Versek

(Poemas de Santos), 36 e o jornal Népszava publica em

folhetins O cortiço, de Aluísio Azevedo, com o título Egy brazil bérház (Um prédio brasileiro). 37 Depois, em 1944, essa tradução é publicada em forma de livro, com o título

Hangyaboly (Formigueiro). 38 A Segunda Guerra Mundial e o estabelecimento de um novo sistema político na Hungria, a “construção do socia- lismo”, indicam uma mudança de concepção na recepção e interpretação da literatura em geral e da literatura brasileira em particular. A literatura passa a ser uma arma da luta ideológica. Dessa forma, já não se procuram nela valores universais e eternos, senão uma resposta mais ou menos imediata à realidade circundante. Alteram-se também os horizontes da orientação literária: a literatura do “ocidente culto” (França, Inglaterra, parte ocidental da Alemanha, Estados Unidos, etc.) é considerada arte decadente e o lugar dela, ocupa-o a literatura socialista, em primeiro lugar a da União Soviética, dos países socialistas e a literatura progressista dos países das Américas, África e Ásia. Nesse novo horizonte cultural-literário, cabe ao Brasil um lugar privilegiado. Sendo, em aparência, mais independente em relação aos Estados Unidos do que os outros países latino-americanos, o Brasil torna-se um alvo privilegiado na luta contra o imperialismo ocidental. Por essa razão, os romances do primeiro período de Jorge Amado são publicados na Hungria e o autor, que circula entre Praga e a União Soviética, torna-se um escritor de presença contínua na imprensa. Por isso, o tradutor de Dona Flor e seus dois maridos, János Benyhe, pode escrever com plena razão, em 1970, no posfácio desse livro: “Dez ou quinze anos atrás talvez fosse supérfluo este posfácio. Jorge Amado foi o escritor estrangeiro mais conhecido e mais popular na Hungria” (Benyhe, 1970, p. 499). Entre 1947 e 1976 saíram quinze livros de Jorge Amado (dois no final dos anos 1940, cinco nos anos 1950, seis nos anos 1960 e três nos anos 1970, não contando as inúmeras reedições). 39 Sobre esses livros

36

Revista Brasileira de Literatura Comparada, n.15, 2009

foram publicadas 26 recensões críticas. 40 Mas o que mais demonstra a difusão da imagem de Amado como escritor politicamente comprometido e como “zoon políticon” é o grande número de escritos sobre a sua pessoa. Entre 1953 e 1975 saíram 16 artigos que diziam respeito a ele, e muitos com títulos altissonantes, como: “Os eminentes soldados da paz: Jorge Amado” ou “Jorge Amado sobre o movimento da paz brasileiro e sobre seu novo romance”. 41 Com a profusão com que os romances de Jorge Ama- do circulavam na Hungria (com tiragens de 40 a 80 mil exemplares), não é de estranhar que até hoje o Brasil apareça-nos tal como o escritor baiano o pintou. Tanto mais porque Jorge Amado foi o escritor brasileiro cujas obras satisfaziam as expectativas do público leitor com o seu latente erotismo, em especial a partir de Dona Flor e seus dois maridos, e a pintura do mundo colorido e exótico da Bahia. Sobre Jorge Amado, um dos primeiros escritos é uma recensão crítica de Terras do sem fim, publicada na revista científico-ideológica do partido comunista, Társadalmi Szemle (Revista Social), que estabelece as forçosamente necessárias linhas de interpretação dessa obra – válidas, in- diretamente, para os outros romances do mesmo autor:

Jorge Amado, Pablo Neruda e os outros escritores eminentes

mostram uma nova cara da América Latina. Não é o

exotismo, ou a imagem das selvas sem fim que prevalece em suas obras, mas sim a violenta luta de classes simbolizada pela batalha entre os coroneis do cacau e seus escravos. (-z. -l. 1950, p. 834)

] [

Compreende-se este tom altamente engajado porque se trata de um artigo de teor informativo que saiu numa revista teórica, mas as recensões publicadas nas revistas literárias também incorrem nesse tom politizado em que não há lugar para análises estético-literárias. Na revista literária intitulada Csillag, da Associação Húngara de Escritores, um dos historiadores de literatura daquele

39 Oferecemos uma lista completa das edições das obras de Jorge Amado em húngaro (entre parênteses indicamos as edições posteriores): Terras do sem fim (Szenvedélyek földje). Trad. Attila Orbók. Budapeste: Káldor, 1947 (uma segunda edição com o título húngaro Végtelen földek. Trad. Emil Hartai. Budapeste:

Szikra, 1950); Cacau (Arany gyümölcsök földje). Trad. Emil Hartai. Budapeste:

Szikra, 1949 (segunda edição:

Európa, 1975); Vida de Luís Carlos Prestes, o cavaleiro da esperança (A reménység lovagja. Életrajzi regény Luis Carlos Prestesrl). Trad. Emil Hartai. Budapeste: Révai, 1950; Seara vermelha (Vörös vetés). Trad. Marcell Benedek. Budapeste: Szépirodalmi, 1951; Jubiabá (Zsubiabá). Trad. János Benyhe. Budapeste:

Szépirodalmi, 1952; Mar Morto (Holt tenger). Trad. Sándor Tavaszy. Budapeste: Kossuth, 1960; (segunda edição: idem, 1961, terceira edição: idem, 1973); A morte e a morte de Quincas Berro Dagua (Vízordító három halála). Trad. Lajos Boglár. Budapeste:

Európa, 1961; Gabriela, cravo e canela (Gabriela, szegfés fahéj). Trad. Sándor Szalay. Budapeste: Európa, 1961 (segunda edição:

idem, 1975); A completa verdade sôbre as discutidas aventuras do Comandante Vasco Moscoso de Aragão, Capitão de Longo Curso (A vén tengerész). Trad. Sándor Szalay. Budapeste: Európa, 1963; Os pastôres da noite (Az éjszaka pásztorai). Trad. János Benyhe. Budapeste: Kossuth, 1967; Dona Flor e seus dois

A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria

37

maridos (Flor asszony két férje). Trad. János Benyhe. Budapeste: Európa, 1970; Capitães da areia (A kiköt

rémei). Trad. Sándor Tavaszy. Budapeste: Kozmosz Könyvek, 1971; Tenda dos Milagres (Csodabazár). Trad. András Gulyás. Budapeste: Európa,

1976.

40 Queremos notar como

curiosidade que do romance

A

completa verdade sôbre

as

discutidas aventuras do

Comandante Vasco Moscoso Aragão, Capitão de Longo

Curso, intitulado em húngaro

A vén tengerész (“O velho

marinheiro”), saído em 1963, escreveram-se entre maio e outubro daquele ano seis recensões informativas nos mais diversos órgãos de imprensa.

41 “A béke kiváló harcosai:

Amado Jorge”. Népszava (Budapeste), 30 maio 1953. “Jorge Amado a brazil békemozgalomról és új regényérl”. Szabad Nép (Budapeste), 18 dez. 1953.

42 Nagyvilág (Budapeste). Ano

IV, n. 8, p. 1173-1174, ago.

1959.

período assim descreveu os fundamentos de “A terra de frutos de ouro”:

O romance de Amado é um escrito combativo, comunista.

Seus heróis verdadeiros são o povo e o homem de novo qui- late, saído do povo e lutando contra os horrores do mundo imperialista: o homem comunista. [ ]

A apresentação dessa podridão não desce ao naturalismo,

é o reflexo verídico desta sociedade que requer amostras fidelíssimas da macabra dança do capitalismo. (Koczkás,

1950, p. 61)

Essa imagem estreita, unilateral, subordinada a fins eminentemente políticos é a que se apresenta quando, a

pretexto dos romances de Jorge Amado, fala-se sobre o Brasil. Algumas vezes o discurso ganha tons de hino, como na recensão sobre Seara vermelha, que saiu num semanário de literatura, Irodalmi Újság (“Jornal Literário”), em 1951:

Seara vermelha mostra o Brasil levantando-se”, pois “até

aos operários miseráveis chegou a esperança que estimula a viver: a esperança da nova vida, do socialismo” (L. I.

1951)

Ao final da década de 1950, essa imagem deformada do Brasil e de sua literatura começa a se matizar com diferentes tons. Além de Jorge Amado, vêm aparecendo outros escritores e, entre eles, alguns cuja obra tem outros valores, não apenas políticos. Assim saíram dois poemas de Jorge de Lima na revista de literatura mundial, Na- gyvilág (fundada na época do “abrandamento” do poder

totalitário). 42 E nas notas de viagens de um literato húngaro que em 1961 publicou as suas Impressões do Brasil, depois

de assistir ao congresso do PEN Clube no Rio de Janeiro, já se encontra um tom mais equilibrado. Para ele, a obra de Jorge Amado é uma fonte de informação antes sensorial que exclusivamente politizada sobre “esse peculiar mundo popular, de cuja beleza e intimidade gostei tanto quanto da sua rica fantasia e das suas múltiplas cores decorativas.” (Stér, 1961, p. 729)

38

Revista Brasileira de Literatura Comparada, n.15, 2009

Em suas andanças pelo mundo brasileiro, o guia desse literato húngaro é a monografia intitulada Geografia da fome, de Josué de Castro. Mas Stér tem bastante sensi- bilidade para ver e descobrir um Brasil excêntrico, mul-

tifacetado, de componentes culturais e étnicos múltiplos

e amalgamados, entre eles a música popular brasileira e a

sua melancólica melodia, ou o carnaval e seu simbolismo

popular, que Stér interpreta sob a influência do filme

Orfeu negro, do diretor francês Marcel Camus. Finalmente,

o viajante atreve-se a dizer aos húngaros que o Brasil não deve ser entrevisto como um mero panorama ou cenário

de fundo político, e que aos intelectuais compete a tarefa

e a responsabilidade de formar a consciência do grande

público. Com essa relativa abertura nos pontos de vista que começava a prevalecer lentamente a partir do início dos anos 1960 na política cultural e literária húngaras, começa

a diversificar-se a edição de livros e enriquecer-se a divulga-

ção da literatura brasileira. O autor mais divulgado ainda é Jorge Amado, mas em harmonia com a renovada temática da sua obra aparecem, também em húngaro, os romances mais divertidos dele, que cativam o público. O público requer já cada vez mais abertamente uma recepção cultural mais sofisticada e diversificada. Após os anos da ditadura forte e o total encerramento do país, motivado pela Guerra Fria, surge uma exigência por bens culturais anteriormente vedados, exigência que se vê satis- feita, mesmo que um pouco contraditoriamente. Essa nova forma de recepção do Brasil fora previamente preparada por livros publicados a partir dos últimos anos da década de 1950: As imagens do Rio, de Richard Katz, 43 O inferno verde, de Erich Wustmann. 44 Sob outro prisma, obras como Trópusi Indiánok között. Brazíliai útijegyzetek (Entre índios do trópico. Notas de viagem do Brasil), do etnólogo húngaro Lajos Boglár, apresentam o Brasil dos trópicos, da selva e dos índios, esti- mulando, assim, o interesse por outros aspectos desse país, sublinhados aqueles que o distinguem da Europa. Será essa

43 Riói Képek. Budapeste:

Táncsics, 1958.

44 A zöld pokol. Budapeste:

Táncsics, 1959.

A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria

39

45 Aki átment a szivárvány alatt. Budapeste: Kossuth, 1964.

46 Emberek és rákok. Budapeste: Kossuth, 1968.

47 Emberfarkas. Budapeste:

Európa, 1962. Aszály. Budapeste: Európa, 1967.

48 A többi néma csend. Budapeste: Európa, 1967.

49 Máglyák az serdben. Budapeste: Móra, 1970.

busca do diferente, do exótico que marcará e determinará

o interesse pelo Brasil nos anos subsequentes. Entretanto, publicam-se obras de autores comprome-

tidos, como as de Jorge Amado, já mencionadas: Quarto

de despejo, de Carolina Maria de Jesus, 45 O ciclo do caran-

guejo, de Josué de Castro, 46 São Bernardo e Vidas secas, de

Graciliano Ramos, 47 e ao lado deles saem romances como

O resto é silêncio, de Érico Veríssimo 48 e O Guarani, de José

de Alencar, embora este seja transposto para o húngaro em versão condensada, em uma edição para jovens. 49

Por outro lado, e de forma menos manifesta, aparecem obras das mais diversas naturezas, mormente direcionadas

aos intelectuais. Essa forma de publicação “velada”, um pouco contrária à política cultural oficial, caracteriza em primeiro lugar a revista de literatura mundial Nagyvilág e algumas antologias de poesia e de prosa. Destinadas a um público seleto, surgem nessas publicações, de forma espo-

rádica, muitos autores de valor da literatura brasileira. Publicações como Dél keresztje (Cruzeiro do Sul, 1957), Kígyóölének (Canto de matar cobras, 1973), Hesperidák kertje (Jardim das Hespérides, 1971), Járom és csillag (Jugo e estrela, 1984) divulgam a poesia latino-americana. Os poe- mas são acompanhados de notas biográficas e bibliográficas; dessa forma, em torno de 40 grandes poetas brasileiros são publicados na Hungria. Essas antologias seguem o princípio da antologia de Paulo Rónai, ou seja, selecionam os poemas apenas pelo seu valor poético e estético e não demonstram

o menor interesse em ilustrar o desenvolvimento da história

literária brasileira. Fazem falta, por exemplo, poemas que caracterizem os primeiros anos do Modernismo, ou do Concretismo e de outras tendências experimentalistas. Nesse mesmo contexto, publicaram-se contos de Graciliano Ramos, João Guimarães Rosa e Jorge Amado em antologias de prosa latino-americana: Ördögszakadék (Abismo de diabo, 1966), Dél-amerikai elbeszélk (Narra- dores latino-americanos, 1970), Az üldöz(O perseguidor, novelas latino-americanas, 1972).

40

Revista Brasileira de Literatura Comparada, n.15, 2009

Um dos grandes méritos da revista de literatura mundial Nagyvilág é a apresentação de autores e obras, de tendências e fenômenos literários, com base em critérios puramente poéticos ou estéticos. Em 1961, a revista traz informações sobre as atividades de Paulo Rónai no Brasil, frisando a importância do seu trabalho no conhecimento mútuo entre o Brasil e a Hungria (Gyergyai, 1961, p. 1566-1567). E é naquelas páginas que, em 1962, aparece um estudo sobre o romance brasileiro contemporâneo (Tavaszy, 1962, p. 1388-1391), assim como, em 1969, um ensaio sobre o desenvolvimento da literatura latino- americana (Benyhe, 1969, p. 1723-1731). Mencionamos também certas resenhas sobre os livros de Jorge Amado,

sobre romances como O tempo e o vento, de Érico Veríssimo,

e Irmão Juazeiro, de Francisco Julião.

O texto de recepção mais característico dessa época

é o necrológio de Guimarães Rosa que Nagyvilág publicou

em 1968. Nele se fala na “síntese dos mágicos elementos primitivos de mundos diferentes”, em “mitos de valor uni-

versal de conteúdo filosófico” (Rónai, 1968, p. 338-339) e

a linguagem engenhosa e estranha que o escritor compilou

para si e que se parece muito com a linguagem de James Joyce. Tal análise da obra de Guimarães Rosa só se tornou

possível graças à mudança de tom que marcou a imprensa política, única e oficial na Hungria de então. Assim, na re- censão informativa que a revista teórica Társadalmi Szemle publicou sobre Vidas secas, de Graciliano Ramos (Szllsy, 1967, p. 137), já se comenta a “exatidão sociológica” ao lado dos valores estéticos da obra, numa análise mais fle- xível e sutil do que se fazia nos anos precedentes.

A partir de meados dos anos 1970, sob a influência do

boom da literatura latino-americana em espanhol, relega-se

para o segundo plano a literatura brasileira, e em especial

a literatura chamada progressista. Na realidade, diminui

o interesse do público pelas obras brasileiras que tratavam de uma forma direta os problemas políticos e sociais. O exotismo dos autores do realismo mágico, a forte carga intelectual dos pós-modernos como Julio Cortázar e Jorge

A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria

41

Luis Borges, e a urdidura complexa dos romances políticos de autores peruanos ou mexicanos, tudo isso atrai mais o interesse dos leitores húngaros. Só obras de Jorge Amado, tais como Dona Flor e seus dois maridos ou Gabriela cravo e canela, continuam cativando novas e novas gerações de leitores.

50 Szalontai, 1984. Bodor, 1984. Cserti, 1984.

Novos aspectos da presença literária brasileira na cena húngara

Entretanto, surge, enquanto isso, uma nova geração de divulgadores das letras brasileiras, marcados por um gosto literário renovado e pelo objetivo de revelar aos

leitores húngaros os traços característicos e essenciais da literatura brasileira. Assim, entre 1983 e 1986, a Rádio Nacional Húngara realizou uma série de emissões, de meia hora cada uma, com o título Latin Amerika Irodalma (Literatura da Amé- rica Latina). Essa série apresentou uma visão panorâmica das literaturas do século XX naquele continente, com os fenômenos novos e característicos da literatura brasileira:

o Pré-modernismo e o Modernismo, a poesia concreta, a

moderna prosa experimental e a da grande urbe, fazendo conhecer ao público nomes que nunca haviam sido men- cionados antes, como Oswald de Andrade, Haroldo de Campos, Rubem Fonseca, Dalton Trevisan e Ignácio de Loyola Brandão, que com sua obra despertaram o interesse da elite intelectual. Nessa época, transcorreu uma significativa etapa do

processo de divulgação da literatura brasileira na Hungria:

a publicação do Macunaíma, de Mário de Andrade. A tra-

dução dessa obra conheceu um verdadeiro êxito editorial, pois em poucos meses esgotou-se uma tiragem de dez mil exemplares. O público, ávido do exotismo – até então condenado –, devorava o livro, que foi apresentado como um grande acontecimento cultural tanto pelos programas culturais de rádio e tevê quanto pelas recensões críticas. 50

Nessa perspectiva, em resenha cujo título menciona a cé-

42

Revista Brasileira de Literatura Comparada, n.15, 2009

lebre epopeia finlandesa e que qualifica Macunaíma como “Kalevala artificial da zona tórrida”, o crítico Pál Bodor frisa com entusiasmo a mistura feliz de elementos intelectuais e populares, a força primitiva da obra comentada:

Macunaíma é conseqüência da capitalização latino-ameri- cana irregular e tormentosa, da americanização que abraça aplastando a versatilidade étnica (lingüística, folclórica e etnográfica) de múltiplas cores e raízes e dos excessos inte- lectuais amotinados e revoltosos (Bodor, 1984).

A edição de Nove, novena, de Osman Lins, 51 revela certa perplexidade provocada por este câmbio de para- digma no gosto dos divulgadores. O autor do posfácio, ilustre estudioso e tradutor, evoca, um tanto indeciso, a obra nordestina de Jorge Amado, a ambientação sulista de Verissimo e as fortes cores mineiras de Guimarães Rosa, lamentando que “os enérgicos elementos linguísticos deste último faltem na obra de Osman Lins” (Benyhe, 1985, p. 211). Aqui aparece novamente, como referência, o ele- mento exótico, representado, neste caso, por Jorge Amado e Guimarães Rosa. Essas palavras do literato e tradutor János Benyhe no- vamente aludem às contradições da “oferta e da procura” da literatura brasileira na Hungria. Num debate transmi- tido pela rádio, um representante da velha estirpe pôs em confronto com a literatura de fortes cores brasileiras uma literatura classicizante, pastoril, que se cultiva nos recantos ocultos do Brasil e que conserva valores eternos, segundo ele. Tal princípio distintivo, que se mantém quase intacto desde a antologia de 1939, Mensagem do Brasil, predomina igualmente numa antologia de 1984, 52 a maior antologia húngara da poesia latino-americana publicada até os dias de hoje. O que surpreende é que a lista dos poetas moder- nos é quase igual à da seleção de meio século atrás (apenas Ascenso Ferreira, Raúl Bopp e Vinícius de Morais são os nomes novos) e assim mesmo há muitas coincidências na escolha dos poemas.

51 Kilenc és kilenced. Trad. Judit Xantus. Budapest: Európa,

1985.

52 Járom és csillag (Jugo e estrela), seleção, prefácio e notas por János Benyhe. Budapeste: Kozmosz, 1984. Na antologia aparecem poemas de Mário de Andrade, Augusto dos Anjos, Manuel Bandeira, Olavo Bilac, Raul Bopp, Geir Campos, Ronald de Carvalho, Vicente de Carvalho, Francisco Antônio de Carvalho Júnior, Antônio de Castro Alves, Raimundo Correia, Bernardino da Costa Lopes, João da Cruz e Sousa, Luís Delfino, Teófilo Dias, Carlos Drummond de Andrade, Ascenso Ferreira, Antônio Cândido Gonçalves Crespo, Alphonsus de Guimaraens, Sebastião Cínero dos Guimarãens Passos, Luís José Junqueira Freire, Jorge de Lima, Joaquim Maria Machado de Assis, Gregório de Matos, Cecília Meireles, Vinícius de Morais, Alberto de Oliveira, Rui Ribeiro Couto, Augusto Frederico Schmidt.

A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria

43

53 Boszorkányszombat (Mistério de sábado), sel. e notas de Paulo Rónai. Trad. István

Bárczy, Éva Faragó, Ferenc Pál, Paulo Rónai, Eszter S. Tóth, Ervin Székely. Budapeste:

Európa, 1986. Na antologia se encontram contos de Machado de Assis: Pai contra mãe; Lima Barreto: O homem que sabia javanês; Monteiro Lobato: O comprador de fazendas; Mário de Andrade: O peru de Natal; Aníbal M. de Machado:

O ascensorista; Rui Ribeiro

Couto: Mistério de sábado; João Alphonsus de Guimaraens:

Eis a noite!; Alcântara Machado: As cinco panelas de oiro; Luís Jardim: Paisagem perdida; Carlos Drummond de Andrade: Beira-rio; Orígenes Lessa: Roteiro de Fortaleza; Marques Rebelo: Caprichoso

da Tijuca; João Guimarães

Rosa. A terceira margem do rio; Aurélio Buarque de Holanda:

O chapéu de meu pai; Rachel

de Queirós: A donzela e a moura torta; Lygia Fagundes

Telles: Venha ver o pôr do sol; Oto Lara Resende: O retrato

na gaveta; Clarice Lispector:

Feliz aniversário.

54 Isaura, a rabszolgalány. Trad. István Bárczy. Budapeste:

Európa, 1987.

55 Zero. Trad. Ferenc Pál. Budapeste: Európa, 1990.

Outro livro dessa natureza, situando-se entre o pas- sado e o presente, foi a antologia Boszorkányszombat, de 1986, uma coletânea de contos 53 que reunia desde Pai contra mãe, de Machado de Assis, até Feliz aniversário, de Clarice Lispector. A seleção criteriosa, acompanhada de notas bibliográficas, foi recebida com entusiasmo da parte dos críticos, talvez porque saísse ao mesmo tempo em que a edição em húngaro de A escrava Isaura, 54 quer

dizer, no auge do interesse do público pelo Brasil, suscitado pela telenovela feita com base no romance de Bernardo Guimarães. Ao se reler a resenha dessas duas obras, vale a pena

meditar sobre a seguinte asserção: “A maioria dos contos mostra gente lutando com seu fado, gente que quase nunca triunfa, num mundo de senzalas e casas grandes, um país de tempo estancado, estagnado em cerimônias.” (Magyar Hírlap, 1987, p. 5). O grifado é nosso, porque novamente se faz referência à imagem de um país exótico, ou seja, a imagem do Brasil tal como vive no (sub)consciente das pessoas na Hungria. Com essa atitude pode-se explicar, talvez, o curio- so e célebre episódio em que telespectadores húngaros de A escrava Isaura, anciãos de um pequeno vilarejo do interior

do país, reuniram uma importante soma a fim de remir da escravatura aquela bela e talentosa jovem, inventada por Bernardo Guimarães havia mais de um século.

A partir do final da década de 1980 mudaram, no en- tanto, os hábitos de leitura e o gosto do público húngaro,

e as séries televisivas ocuparam lentamente o lugar dos

livros e da leitura. O grande público, outrora leitor ávido dos romances de Jorge Amado, afastou-se da literatura de valor, e passou a ler obras de Paulo Coelho, que atualmente

é o autor brasileiro mais popular (e quase exclusivo) na

Hungria. Nestas últimas duas décadas, com a liberalização da edição e do mercado de livro, houve possibilidade de publicar autores mais sofisticados. Dessa forma, saiu em

1990 o Zero, de Ignácio de Loyola Brandão, 55 que a crítica recebeu como fonte de informação privilegiada a respeito de um mundo caoticamente moderno (apud Wirth, 1991,

44

Revista Brasileira de Literatura Comparada, n.15, 2009

p. 11). Mais tarde saíram obras de outros escritores que descreviam a vida de grandes centros urbanos, como con- tos de Dalton Trevisan e de Rubem Fonseca, em revistas literárias. Com a mudança do gosto literário, os foros mais exi- gentes da literatura, como a revista Nagyvilág, passaram a conceder mais espaço à atual literatura brasileira. 56 Nesse sentido, foram traduzidos para um seletíssimo público-leitor poemas de dois representantes da poesia concreta, Haroldo de Campos e Décio Pignatari. 57 Esses livros de poemas obtiveram, de um conhecido poeta experimental, Endre Szkárosi, um parecer crítico, no qual ficou consignado o reconhecimento da independência criativa dos autores desse país dos trópicos:

poesia concreta no início dos anos

cinqüenta não é o primeiro exemplo de que nas circunja-

cências da zona cultural euro-americana criam-se uma nova linguagem e uma expressão autêntica que correspondem

às demandas intelectuais desta região (Szkárosi, 1999, p.

14).

A formação da [

]

Para além do material poético, a importância dessas duas antologias reside na demonstração de que a litera- tura brasileira tornou-se independente, e se pode dizer que seus motivos regionalistas já se manifestam sob forma universalizante. No presente momento, uma antologia bilíngue, publi- cada por iniciativa da Embaixada do Brasil e com o apoio do Ministério das Relações Exteriores, representa na Hungria a literatura brasileira. A modern brazil elbeszélés – Antologia do moderno conto brasileiro, selecionada pelo embaixador José A. Lindgren Alves, com introdução e apresentações dos autores pelo diplomata, é um bom manual para co- nhecer a prosa brasileira do século XX, segundo afirma um dos críticos do livro (Urfi, 2008). Na antologia figu- ram contos de dezessete autores, 58 dos quais as resenhas destacam Autran Dourado, Rubem Fonseca, e muito especialmente Guimarães Rosa, com o conto Duelo, pois

56 Esta revista publicou, no seu número de abril de 1991 (ano XXXVI, n. 4), o conto “Bolívar”, de Victor Giudice. No número de agosto de 1992 (ano XXXVII, n. 8), publicaram-se dois contos de Dalton Trevisan.

57 Haroldo de Campos:

Konkrét versek (Poemas concretos). Trad. András Petcz e Ferenc Pál. Seleção,

prefácio e notas de Ferenc Pál. Budapeste: Íbisz, 1997. Décio Pignatari: Vers-gyakorlatok (Exercícios de poesia). Trad. András Petcz e Ferenc Pál. Seleção, prefácio e notas de Ferenc Pál. Budapeste: Íbisz,

1997.

58 De Antônio de Alcântara Machado, Rachel de Queiroz, Guimarães Rosa, Antônio Fraga, Clarice Lispector, Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Autran Dourado, Ligia Fagundes Telles, Ingácio de Loyola Brandão, Márcio Souza, Rubem Fonseca, Adélia Prado, Raduan Nassar, Moacyr Scliar, Dalton Trevisan, Márcia Denser.

A imagem do Brasil e a literatura brasileira na Hungria

45

59 Budapeste. Trad. Ferenc Pál. Budapeste: Atheneum, 2000, 2005.

este é o único conto em que aparece o elemento exótico (apud Galamb, 2008). Isso distingue o conto de Rosa dos demais textos, que correspondem aos cânones universais, tanto nos temas elaborados como nos recursos artísticos de que lançam mão. Havemos de mencionar, além de Paulo Coelho, cujas obras inundam as livrarias, o nome de Chico Buarque de Holanda, que, com o romance Budapeste, 59 também está disponível nas estantes. Contudo, neste caso o fato de o escritor/cantor ter escrito um romance cuja ação decorre em parte em Budapeste é muito mais importante para os leitores húngaros do que os valores estéticos do livro. Resumindo, podemos dizer que neste momento a literatura brasileira está relativamente bem representada na Hungria, existem enciclopédias, antologias de poesia e de contos que informam detalhadamente sobre autores, tendências literárias, e assim podem informar e orientar os interessados. Contudo, falta um vivo contato com as

letras brasileiras – as primeiras obras literárias apareceram relativamente tarde e só raras vezes corresponderam às expectativas do público, que formou uma imagem do Brasil

a partir das informações obtidas dos livros de viagens, da imprensa e da mídia, e tacitamente sempre esperou que a

literatura correspondesse a esses estereótipos decorrentes de “preconceitos” devidos a circunstâncias históricas di- versas. Esse fato explica o êxito das obras de Jorge Amado

e

o êxito isolado de Macunaíma, de Mário de Andrade,

e

de certa forma a dificuldade da divulgação de autores

modernos cuja obra se afasta de uma imagem tradicional do Brasil.

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49

Tempos e contextos da literatura brasileira na Argentina e no exterior

Florencia Garramuño *

* Universidad de San Andrés/ Conicet.

1 Uma primeira versão

deste texto foi apresentada nesse evento, que marcou

o lançamento da base de

dados Conexões, cujo objetivo é mapear e reunir um amplo e inédito número de profissionais estrangeiros que estudam ou pesquisam temas e

autores da literatura brasileira. Agradeço a Claudiney Ferreira, Felipe Lindoso e João Cezar de Castro Rocha

o convite para participar do encontro.

resumo: O artigo discute diferentes momentos da difusão da literatura brasileira na Argentina, analisando os diferentes con- textos históricos e culturais como condições para a promoção da literatura brasileira no modo de se pensar hoje – na era da regionalização das culturas –, o modo como essa difusão, alicer- çada numa perspectiva de literatura comparada, poderia ajudar na construção de novas comunidades culturais.

palavras-chave: literatura brasileira, literatura latino-ameri- cana, regionalização, literatura comparada.

abstract: The article discusses particular moments in the di- ffusion of Brazilian Literature in Argentina, analyzing different historical and cultural contexts as conditions for the promotion of Brazilian Literature in Latin America. It seeks to think how today – in the era of the regionalization of cultures – a compara- tive literature perspective for the diffusion of Brazilian literature can help in the construction of new cultural communities.

keywords: Brazilian literature, Latin American literature, regionalization, comparative literature.

Em dezembro de 2009, o Instituto Itaú Cultural

realizou o I Encontro Internacional Conexões Itaú Cul- tural – Mapeamento da Literatura Brasileira no Exterior, em São Paulo. 1 O evento estava destinado a mapear os brasilianistas que trabalham pelo mundo fora, com o alvo de construir novos laços e conexões entre aqueles que trabalham sobre e com a literatura brasileira em universi- dades e diversas instituições estrangeiras e fazê-los refletir em conjunto sobre o estado atual da literatura brasileira

no exterior. Quais seriam os problemas e os impasses com

50

Revista Brasileira de Literatura Comparada, n.15, 2009

que os pesquisadores do Brasil se confrontam ao se encon- trarem distantes do Brasil, dos livros, dos arquivos, dos documentos, assim como da própria cultura brasileira? O encontro não só congregou professores e pesquisadores de universidades de diferentes países (Argentina, Inglaterra, Estados Unidos, França, Espanha, Alemanha e Japão, entre outros), mas também convocou tradutores e editores de literatura brasileira no exterior, que abriram um diálogo fecundo sobre os dilemas da difusão da literatura brasileira em extrema coincidência com os debates que preocupam os pesquisadores, tanto que muitas vezes duas, e até três das identidades profissionais (pesquisador, tradutor, editor) reunidas no encontro encontravam-se numa mesma pes- soa. O encontro foi frutífero não só em termos profissionais e de contato – pelo fato de fazer se conhecerem pessoas que trabalham com problemas afins –, mas também em termos de difusão da literatura brasileira, já que a partir dele se iniciaram muitos trabalhos em conjunto entre diversos pesquisadores, tradutores e editores. Do ponto de vista da pesquisa sobre a literatura brasileira, talvez o mais produtivo do encontro tenha sido a grande quantidade de perguntas teóricas que de- sabotoaram das discussões e debates, a partir das quais é possível vislumbrar uma transformação em andamento de um conceito de literatura e de cultura brasileira que leva em conta sua colocação na paisagem transformada de um mundo contemporâneo no qual fronteiras e limites são redesenhados cotidianamente, rearranjando regiões, comunidades e preocupações que não teriam como não influir numa disciplina tão sensível à sociedade e à cultura como o é a dos estudos literários – ou de quaisquer dos diversos ramos da arte. Uma dessas questões – e a que me parece mais pre- mente, já que condiz com muitas das características da literatura mais contemporânea com as quais a minha própria pesquisa vem lidando há algum tempo – é a da situação complexa da difusão de uma literatura brasileira contemporânea que já não parece poder ser contida nos

Tempos e contextos da literatura brasileira na Argentina

51

parâmetros que definiram a instituição literária no passa- do. Um grande número de textos brasileiros – assim como também de textos de outros países e regiões – põe em cena um extravasamento espantoso dos limites e fronteiras que tinham definido o literário como um tipo de discurso ancorado numa certa especificidade institucional. Entre esses parâmetros hoje extrapolados, a própria noção de literatura como instituição nacional fortemente ligada a certos padrões de constituição de uma identidade nacional

é talvez um dos limites mais evidentemente ultrapassados,

embora não seja o único. O filho da mãe, de Bernardo Carvalho (Carvalho, 2009), aparece como o exemplo mais extremo desse afastamento da problemática do nacional na

literatura brasileira contemporânea que, no entanto, habita um número cada vez maior de romances contemporâneos

– brasileiros, vale a pena ressaltar, ou não. Até que ponto esse extravasamento de problemáticas nacionais – “especi- ficamente brasileiras” – deveria modificar também a forma de encarar as próprias ferramentas e conceitos para se

pesquisar e ensinar a literatura brasileira no exterior? Se a literatura contemporânea já não se arrosta exclusivamente

à discussão de uma identidade nacional e se, pelo contrário, parece se propor cada vez mais fortemente como imagi- nação de comunidades e coletividades que desconhecem

a ferrenha ligação entre território, língua e nação –como

proporia Giorgio Agambem (2001) –, parece evidente que, para a difusão e promoção dessa literatura brasileira no estrangeiro, fomentar e alicerçar uma discussão dessas novas “comunidades imaginadas” – para usar em um sentido mais complexo o conceito de Benedict Anderson (1983) – seriam estratégias mais sensíveis ao que essa nova literatura pareceria estar discutindo. E é nesse sentido também – uma vez que a literatura brasileira no exterior está sempre se relacionando com as formas da literatura dos países nos quais essa literatura está sendo difundida, traduzida, pesquisada e, no contato com essa cultura diferente, novos problemas surgem – que a ideia mesma da difusão e promoção da literatura brasileira

52

Revista Brasileira de Literatura Comparada, n.15, 2009

no exterior compartilha muitos dos problemas que têm se associado nos últimos anos à discussão da literatura comparada, principalmente a partir de discussões como as elaboradas por Emily Apter em The translation zone ou Gayatri Spivak em Death of a discipline sobre os modos de se pensar a literatura comparada – a disciplina, os seus problemas, e as suas ferramentas – na era da regionaliza- ção da economia global e, com ela, também das culturas. Na proposta de Apter, a noção de tradução –linguística, mas também cultural – tem um papel fundamental no programa de uma “nova literatura comparada”. Segundo ela, “in naming a transnational process constitutive of its disciplinary nomination comparative literature breaks the isomorphic fit between the name of a nation and the name of a language” (Apter, 2003, p. 243). Também Spi- vak tem elaborado algumas noções interessantes – e bem complexas – sobre o problema da literatura comparada na contemporaneidade, propondo uma colaboração entre os estudos de área (“area studies”) e a literatura comparada que poderia tentar “to figure themselves – imagine the- mselves – as planetary rather than continental, global or wordly” (Spivak, 2003, p. 72). Outra das questões tem a ver com a possibilidade de se pensar a difusão – e, com ela, os “difusores” – da literatura brasileira no exterior noutros termos que já não só do ponto de vista de uma transmissão, divulgação ou propagação de uma literatura ou de um saber que existiria feito e pron- to no Brasil e que os pesquisadores só transmitiríamos, deslocando-o em outros contextos. Seria uma forma de produzir um saber novo, diferente do já conhecido, que se aproveitaria dessa mesma migração e deslocamento como uma forma de produzir saberes “outros” que despontariam ao se confrontar a literatura brasileira com um contexto estrangeiro ao que essa literatura interpelaria de uma forma diferente. 2 E aí a pergunta que surgiu é a de se uma institui- ção como o Itaú poderia, e como, não só atender à difusão da literatura brasileira, mas também intervir na produção

2 A apresentação de Victor Mendes, professor de University of Massachusetts Darthmouth, apontou, no encontro Conexões, para esta possibilidade.

3 O livro de Sorá estuda

quatro períodos importantes:

o

primeiro estende-se desde

o

século XIX até os anos

1930, quando se cristaliza, da mão das políticas culturais do Estado Novo de Getúlio Vargas (1937-1945), a ideia de uma “auténtica cultura nacional brasileña” que inicia o segundo período. Na primeira etapa veem-se os vínculos estreitos entre diplomacia e tradução e resulta

Tempos e contextos da literatura brasileira na Argentina

53

surpreendente pela espantosa atualidade das traduções:

Esaú e Jacob, de Machado de Assis, por exemplo, cuja primeira edição no Brasil é

de 1904, foi traduzido para o espanhol só um ano depois, em 1905. Essa sincronia é, por sua vez, evidência de um intenso diálogo entre a literatura argentina

e brasileira no período,

principalmente durante os anos do Romantismo. É no segundo período, no entanto, quando a tradução mostra

seus vínculos com as políticas estatais e com as a alianças políticas e ideológicas de esquerda que nasceram do exílio na Argentina de Luiz Carlos Prestes e Jorge Amado. Um terceiro período, que Sorá denomina mercantil, vai de 1945 a 1985 e exibe

a hegemonia do mercado

na seleção e produção da

tradução. Caberia ressaltar

a importância que nos anos

sessenta adquirem questões ideológicas e o tipo de problemas para os quais os estudos sociais brasileiros vão

ser tomados como modelos

a observar, como se pode

concluir da relevância que os temas do desenvolvimento econômico e social adquiririam nesse momento. Por último, um quarto período, que Sorá denomina de internacionalização, inicia-se em 1985, quando as relações entre a cultura argentina

e brasileira resultam em

grande parte da mediação de intercâmbios internacionais nas feiras de Frankfurt, Barcelona, e dos circuitos construtores do mercado editorial internacional.

de esse “saber outro” que, no caso, estava se produzindo

gerado precisamente por aquele encontro. Algumas dessas questões dizem respeito a um mape-

amento qualitativo da literatura brasileira no exterior que seria bem interessante fazer, além do mapeamento quan- titativo. A identificação dessas questões e a elaboração

de respostas para elas, assim como a criação de redes de

pesquisadores e de contatos e fluxos de saberes é, sem dúvi-

da, um dos grandes ganhos de encontros daquela natureza em termos teóricos, além do fato pragmático – também importante – de facilitação dessa rede e desses contatos. Fica claro que, ao se falar da difusão da literatura brasileira no exterior, é importante analisar os tempos e contextos dessa difusão, levando em conta as diferentes condições de possibilidade que esses tempos e contextos têm oferecido para o conhecimento da literatura brasileira em países estrangeiros. O antropólogo Gustavo Sorá começou a pensar

algumas dessas questões para o contexto da Argentina durante o século XX no seu importante livro Traducir el

Brasil (2003). Partindo de uma pesquisa empírica sobre

as traduções de escritores brasileiros para o espanhol re- alizadas na Argentina, Sorá demonstrou que a tradução de autores brasileiros tem sido muito mais importante

e constante na Argentina – segundo algumas variáveis

históricas – do que na maioria dos outros paises. 3 Mas a pesquisa demonstrou também outra consequência mais

relevante – e lamentável – ainda para a história cultural

da Argentina e do Brasil: a de que a efetiva tradução de

autores brasileiros na Argentina não tem sempre ajudado

a reduzir o mútuo desconhecimento entre os dois países.

A pouca reedição e circulação desses livros é um dado

incontestável: dos canônicos e importantíssimos livros brasileiros traduzidos pela Biblioteca La Nación – uma

importante editora universalista – nas primeiras décadas

do século XX, por exemplo (autores como os já na época

afamados Machado de Assis, José de Alencar ou Aluísio Azevedo), nenhum deles teve reedição alguma, muito

54

Revista Brasileira de Literatura Comparada, n.15, 2009

embora muitos dos títulos dessa mesma editora que pro- vinham de diferentes tradições literárias europeias tenham sido reeditados ano após ano. A debilidade institucional da

Argentina em termos de bibliotecas, arquivos e instituições dedicadas ao desenvolvimento do conhecimento sobre o Brasil não contribuiu, por outro lado, para “atualizar” e manter vivo o conhecimento do Brasil que esses livros traduzidos poderiam – e deveriam – ter acarretado. Fica claro a partir da leitura do importante livro de Gustavo Sorá, portanto, que o significado dos livros tra- duzidos em suas dimensões históricas depende das formas nas quais esses livros são recebidos e apropriados por seus leitores, assim como das posições no campo intelectual dos agentes tradutores e dos pesquisadores, e que os problemas da tradução não dizem respeito só a duas culturas nacionais específicas, mas respondem a uma configuração interna- cional de redes de relações linguísticas, demonstrando, como diz Sorá, que “las fuerzas de internacionalización de los mercados desde fines de los años ochenta remataron el distanciamiento entre dos ‘culturas nacionales’ cuya vigencia editorial es regulada en aduanas muy lejanas” (Sorá, 2003, p. 221). Era claro – a pesquisa demonstrava – que houve con- dições para uma tradução bem rica naquele momento, mas que na verdade ela não acarretou consequências de peso para o efetivo conhecimento da literatura brasileira na Argentina ou nos países de fala espanhola nos quais esses livros brasileiros poderiam passar, desde esse momento,

a ser lidos. Se pensarmos na relação entre os escritores

argentinos da época e a literatura brasileira, ou entre os críticos argentinos e a literatura brasileira, fica evidente que essas traduções não fizeram com que a literatura ar- gentina se alimentasse da brasileira nem que a brasileira se alimentasse da argentina, nem, tampouco, que a literatura brasileira ficasse conhecida na Argentina fora do interesse de algumas pessoas específicas. Um momento mais bem-sucedido dessa difusão foram

– sem dúvida – os anos 60 e 70 do século XX, quando a

Tempos e contextos da literatura brasileira na Argentina

55

literatura brasileira pegou carona no boom da literatura latino-americana – que, lembremos, foi construído parti- cularmente por uma editora de origem espanhola, a Seix Barral – e compartilhou com ela o seu momento de fama internacional. É claro que, na época, o contexto político da América Latina, com a Revolução Cubana e as instituições

que iriam se criar, fez com que a difusão da literatura brasi- leira tivesse um impacto mais forte nas literaturas de língua espanhola. É por esses anos que o que tinha sido conhecido até então como “Concurso literário hispano-americano” foi

se denominar, com a entrada dos autores brasileiros, como

“Concurso literário latino-americano” e, logo em seguida, tomou o nome de “Premio Casa de las Américas”, que

premiou autores brasileiros e contou no júri com escritores

e intelectuais brasileiros da talha de Antonio Candido, Chico Buarque ou Davi Arrigucci Jr. Em depoimento em Havana, Antonio Candido disse sobre o prêmio:

Para nós, brasileiros, geralmente tão separados dos irmãos de fala espanhola, Cuba tem sido a grande mediadora, ao criar a possibilidade de entendimento que se forma aqui e

se desenvolve fora, e ao tecer uma rede fraternal que abraça

o continente com suas possibilidades de compreensão e intercâmbio (apud Cabañas e Fornet, 1999, p. 181).

Quando a Editorial Siglo XXI publica América latina

en su literatura, em 1972, a presença da literatura brasileira no volume é incontestável, tendo ele artigos como os de Antonio Candido, José Guilherme Merquior, Antonio Houaiss, Haroldo de Campos, ou Emir Rodríguez Monegal

e outros críticos latino-americanos que fazem referência

à literatura brasileira, ou de tantos outros que, sem falar

exclusivamente da literatura brasileira, colocam em relação

a literatura hispano-americana e a brasileira referindo-se

a autores como Alencar, Machado, Casimiro de Abreu,

Guimarães Rosa, Clarice Lispector e tantos outros escrito- res brasileiros citados e analisados nesses textos (Moreno,

1972).

56

Revista Brasileira de Literatura Comparada, n.15, 2009

Para aqueles que, no fim da década de 1980, estudá-

vamos literatura na universidade argentina, esse livro foi

a descoberta de que a literatura brasileira existia numa

sintonia de problemas com a literatura latino-americana e que ela própria podia se converter em um campo de estudo

e pesquisa para nós, os latino-americanos que queríamos e pretendíamos construir uma América Latina grande, que víamos representada na canção de Gilberto Gil com letra de Capinam, Soy loco por ti América, que dançávamos e

cantávamos com fervor nas festas da época. E essa América Latina grande não se preocuparia tanto com a questão da identidade nacional ou regional, mas se assemelharia com

a corrupção das unidades homogêneas que Caetano Veloso comemorava em Língua – canção que também dançávamos

e cantávamos ainda com mais fervor, se possível. Basta

lembrar o refrão de Língua para ouvir uma alusão leve a essa América Latina, que Caetano repetia gozoso:

Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó

O que quer? O que pode esta língua?

Vamos atentar para a sintaxe dos paulistas

E o falso inglês relax dos surfistas

Sejamos imperialistas! Cadê? Sejamos imperialistas! ( )

A

língua é minha pátria

E

eu não tenho pátria, tenho mátria

E

quero frátria. 4

O leque que uma história da difusão da literatura brasileira no exterior abre é bem complexo e não seria

possível esgotar, em um único artigo, as discussões que um problema como esse abre. Uma questão que, no entanto,

é importante ressaltar é até que ponto essas condições, na

época, colaboraram ou não para uma difusão efetiva, inten- sa, perdurável, da literatura brasileira na América Latina. Segundo Pablo Rocca, “ningún crítico hispanoamericano coetáneo de la nacionalidad que fuere se encargó, como Monegal o como Rama, con tanto interés y persistencia de

4 “Soy loco por ti América” foi composta sob o efeito da morte do Che Guevara e gravada em Tropicália, em 1967. “Língua”, composta por Caetano Veloso, aparece em Velô, em 1984. Na canção, Caetano retoma uma frase famosa de Fernando Pessoa em “A minha pátria é a minha língua”, do Livro do desassossego, de Bernardo Soares (Pessoa, 1982).

Tempos e contextos da literatura brasileira na Argentina

57

5 Um trabalho mais abrangente sobre as relações entre Emir Rodríguez Monegal e Angel Rama com o Brasil pode se encontrar no livro de Rocca, Ángel Rama, Emir Rodríguez Monegal y el Brasil. Montevideo: Ediciones de la Banda Oriental, 20

la literatura brasileña” (Rocca, 2006a, p. 56), o que é bem

pouco para um campo de crítica latino-americana que tem

sido bastante rico e produtivo. 5 Eu acrescentaria que tanto

o trabalho de Rama como o de Rodríguez Monegal sobre

a literatura brasileira talvez não tenham comparação, no

campo intelectual latino-americano, sobretudo o de Rama,

com a contribuição deles para a literatura latino-americana em espanhol. O que também é evidente é que o diálogo entre críticos de fala espanhola e portuguesa também tem sido, apesar do diálogo entre Rama e Candido e outras poucas honrosas exceções, bastante pouco produtivo. Se esses tempos e contextos hoje são bem diferentes, como se deveria pensar a difusão da literatura brasileira na era da globalização e das culturas pós-nacionais ou transnacionais? Como as diversas instituições de pesquisa

e ensino da literatura brasileira poderiam contribuir para uma discussão dessas questões que, levando em conta

as condições atuais da globalização, possa se inserir no contexto contemporâneo para tirar desse processo as boas qualidades, aprofundá-las, e interromper aquelas outras propriedades que levam ao apagamento das diferenças e

à imposição de lógicas homogeneizantes? Queremos con-

tinuar defendendo uma identidade da literatura brasileira ou pretendemos abrir esse conceito? Como poderíamos pensar e contribuir para a difusão da literatura brasileira no exterior partindo da inspiração do título da coletânea Nenhum Brasil existe (Rocha, 2003), tomado de emprés- timo de um verso de Drummond? Qual seria a literatura brasileira desse Brasil nenhum que quereríamos difundir, e como deveríamos fazer essa difusão? Hoje, quando a palavra de ordem é a redução dos orçamentos no contexto da crise global, há evidência im- portante sobre a multiplicação dos estudos comparativos entre as literaturas e as culturas do Brasil e da Argentina, e, em um sentido mais geral, sobre as literaturas latino- americanas, que, tendo abandonado a preocupação pela identidade latino-americana, incorporam nesse estudo as

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Revista Brasileira de Literatura Comparada, n.15, 2009

culturas do Brasil sem os empecilhos do purismo linguístico ou historiográfico do passado. Hoje existe uma série dentro de uma editora argen- tina (a Corregidor) especialmente dedicada à publicação

e tradução de literatura brasileira que vem, há quase dez

anos ininterruptos, publicando clássicos como Oswald de Andrade ou Graciliano Ramos e literatura mais contem- porânea, como Ana Cristina Cesar ou Leminski. Mas não só. Também grande parte das maiores editoras argentinas

e multinacionais vem publicando em Buenos Aires, com

muito mais frequência, autores brasileiros contemporâneos

e clássicos: a nova edição que o Fondo de Cultura Econô-

mica fez de um livro que era inencontrável nas livrarias argentinas, Os sertões, de Euclides da Cunha, junto com livros como A descoberta do mundo, de Clarice Lispector, ou os vários romances de João Gilberto Noll e Adriana Hidalgo, ou Um amor anarquista e os vários textos que Beatriz Viterbo vem publicando, assim como outros muitos, tanto de ensaios, como o Balanço da bossa, de Augusto de

Campos, ou Literatura e vida literária, de Flora Sussekind, demonstram uma presença cada vez maior da literatura brasileira no catálogo de editoras argentinas. Mais impor- tante do que o número de volumes publicados, no entanto,

é o fato de esses livros estarem hoje influenciando uma

escrita literária argentina que tem se nutrido deles e que,

por sua vez, também está nutrindo os escritores brasileiros.

E existe também, hoje, um diálogo muito mais intenso entre

a crítica argentina e a crítica brasileira. O caso da poesia contemporânea é muito significativo. A revista Tsé Tsé vem publicando uma série de livros e de poemas, traduzidos e não traduzidos, e lançando dentro de sua editora livros completos de alguns poetas brasilei- ros contemporâneos, como o caso do Sublunar, de Carlito Azevedo, ou No se dice, de Marcos Siscar. Tanto esses livros como o contato fluido dos poetas argentinos e brasileiros em festivais diversos, realizados tanto na Argentina como no Brasil, evidenciam-se numa escrita poética que se nutre desses contatos. Basta ler alguns poemas de Carlito

Tempos e contextos da literatura brasileira na Argentina

59

Azevedo ou Marília Garcia para ver que essas influências têm andado nas duas direções. Os livros da coleção Vereda Brasil têm instalado um conhecimento importante dos autores publicados, já que, além de publicar o livro traduzido, cada volume traz estudos

preliminares e bibliografias que ajudam os livros traduzidos

a se instalarem no mercado e, mais importante ainda, na

cabeça dos leitores. As verbas para projetos de cooperação internacional e para trabalhos comparativos têm aumentado exponencial- mente na Argentina, sobretudo na Secretaria de Ciência e Técnica do Ministério de Educação da Argentina, que, em parceria com a Capes do Brasil, tem financiado e continua financiando pesquisas desenvolvidas por universidades argentinas e brasileiras em conjunto. É importante, nesse contexto, lembrar que difusão não implica um trajeto de uma só via, mas que é uma viagem de ida e volta, e em várias direções, que desenham uma encruzilhada de fertilização cruzada, e que essa difusão acontece num contexto global de poder e conhecimento que influencia crucialmente a paisagem intelectual. Pensar a difusão da literatura brasileira de uma pers- pectiva de literatura comparada transformada, que já não esteja procurando as identidades de uma literatura como referentes de uma identidade nacional, mas que, pelo contrário, se fundamente na relação dessa literatura brasileira com as outras literaturas, talvez seja hoje uma estratégia para transformarmos, na medida de nossas fracas

possibilidades, o papel da literatura brasileira, e com ela

o papel da literatura em geral – nesse novo mundo a cuja transformação estamos assistindo.

Referências

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VELOSO, Caetano. Velô. Polygram, 1984.

61

Ideia de Literatura Brasileira com propósito cosmopolita

Abel Barros Baptista *

Resumo: O ensaio procura rever o problema da relação da literatura brasileira com a noção de literatura e a literatura mundial. Partindo de uma noção que valoriza a literatura sobre a língua, elemento de exclusão, regressa ao caso de Machado de Assis para intervir no debate sobre o conflito entre local e universal na sua obra e a respectiva recepção fora do Brasil.

PalavRas-cHave: literatura brasileira, literatura mundial, nacionalismo literário, cosmopolitismo, Machado de Assis.

aBstRact: The essay aims at a revision of the problem of the relation between a national literature, as it seems to be the Brazilian case, and the very idea of Literature, as a notion wi- thout nation. Arguing for an idea of literature superseding the language, as a way of exclusion, reviews the case of Machado de Assis in order to step into de debate on universal versus local and on the problem of the international reception of his work.

KeywoRds: Brazilian literature, world literature, literary nationalism, cosmopolitism, Machado de Assis.

* Universidade Nova de Lisboa

Outside of a dog, a book is a man’s best friend; inside of a dog, it’s too dark to read.

1.

Groucho Marx

Pedir a um português que escreva sobre os estudos de literatura brasileira em Portugal, e ademais como parte dos “estudos de literatura brasileira no exterior”, não deixa de envolver particularidades curiosas. A mais imediata

será o sublinhado duma diferença dentro da língua: no português europeu, não ocorre essa acepção de “exterior”

62

Revista Brasileira de Literatura Comparada, n.15, 2009

como conjunto de países constituído por todos os que não são o nosso. Usamos “o estrangeiro”, e diríamos “estudos de literatura portuguesa no estrangeiro”. Mas talvez dis- séssemos “estudos de literatura brasileira no estrangeiro” mais depressa do que estudos de literatura brasileira “fora do Brasil” ou “no exterior do Brasil”; a mesma construção valendo, aliás, para outras literaturas, seja a inglesa, a alemã ou a italiana: como se houvesse uma substantivação de “o estrangeiro” que o “exterior” já não alcançou. Digamos que há sempre o “estrangeiro”, e sempre se sabe o que é: o “exterior”, por seu lado, requer determinação. Convenhamos que não há enorme diferença entre as duas palavras, estrangeiro é exterior e, até pela etimolo- gia, significa o que é de fora ou vem de fora. Mas exterior excede estrangeiro e, enfim, pode nem ser estrangeiro. Daí que a modalidade portuguesa, no confronto com a brasileira, permita, até estimule jogos de palavras fáceis: a formulação “nem todos os que vivem no estrangeiro são estrangeiros” resultaria em disparate se transposta meca- nicamente para “nem todos os que vivem no exterior são exteriores”. 1 Isto, falando de cidadãos; já tratando-se de difusão de uma literatura nacional ou de estudos de uma literatura nacional, o jogo de palavras, como todos, ao suspender a familiaridade, atrai a atenção para a definição do exterior como estrangeiro, a determinação do interior como nacional, a orientação do interior para o exterior, a orientação do estrangeiro para o doméstico, a interferên- cia do exterior no interior, no nacional, no que é nosso, etc. Se dissermos que “nem todos os estudos de literatura portuguesa conduzidos no estrangeiro são estrangeiros”, a frase talvez não pareça logo o absurdo que é: o que serão, propriamente falando, estudos “estrangeiros”? Já a formulação “nem todos os estudos conduzidos no exterior são por isso exteriores” faz figura mais de problemática do que disparatada. Ademais, suspensa de uma referência que destrince exterior de interior, promete alguma coisa pertinente. Com efeito, tratando-se de estudos, parece mais pertinente delimitar “exteriores” do que “estrangeiros”,

1

Também se usa em Portugal

a

o

coloquial e em regra requer

um “fora” de referência para

o nosso primitivismo pôr os

olhos. E é curioso que um dicionário on line de português para brasileiros (Prata, 1993) tenha necessidade de esclarecer que a locução “deitar fora” não significa “dormir fora de casa” mas “jogar fora”, sem se aperceber de que “jogar fora”, por outro lado, é também locução portuguesa, do domínio do futebol, e que significa precisamente “jogar fora de casa” por ser o oposto de “jogar em casa”. O verbete completo diz isto: “Não significa, absolutamente, que a pessoa vá dormir fora ou, pelo menos, dar uma deitadinha na casa de um amigo ou amiga. Nada disto. Deitar fora é jogar fora. Você verá várias placas em Portugal, dizendo: Por favor, deite no lixo! Não leve ao pé da letra.” Disponível em: <http://www.

marioprataonline.com.br/obra/

literatura/adulto/dicionario/

framegranda_a.htm>.

locução “lá fora”, mas advérbio indica registo

2 Claro que estão disponíveis várias descrições alternativas, mormente as cínicas ou as que derivam do sublinhado de traços de degradação do ideal cosmopolita. Por exemplo, sugerindo que académicos medíocres procuram longe escritores obscuros para fazerem carreira sem controlo nem concorrência. Ou a versão da pilhagem que Roberto Schwarz ofereceu no ensaio a que mais adiante me referirei, “Leituras em competição”: uma “guarda

Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita

63

avançada” do “centro” pilha as obras da “periferia” para as incluir em repertórios internacionais, vai a “terras distantes” à procura do que a faz menos provinciana e por

isso não se importa de ignorar

a história e o contexto, desde

que obtenha proventos fáceis (cf. Schwarz, 2006, p. 66).

3 Certa tradição académica chama “portugueses” justamente àqueles estudos de língua, literatura ou cultura portuguesa que no estrangeiro são conduzidos por não portugueses; mas estes, como cidadãos, evidentemente não se tornam portugueses. O mesmo se passa de resto com

os brasileiros: um brasilianista

é alguém que se dedica aos

“estudos brasileiros”, e as universidades em princípio não confundem brasilianistas com brasileiros. Isto, que vale para as pessoas, não parece valer para as organizações nem para os estudos. Um “Instituto de Estudos Brasileiros”, cheio de brasilianistas ou cheio de brasileiros, tanto pode estar sediado em Roma como em S. Paulo. Talvez se possa inferir do exemplo que os estudos, porque de algum modo se dedicam ao Brasil, são brasileiros sem serem brasileiros e que se chamam brasileiros precisamente na medida em que estão no exterior do Brasil e num interior que não se chama Brasil.

4 Colho esta expressão na tradução para português da conferência proferida por Michael Wood num colóquio sobre Machado de Assis na Universidade de Princeton, em janeiro de 2009 (Wood, 2009, p. 187).

talvez porque, kantianamente guiados pelo ponto de vista

filantrópico universal, não acreditamos que os estudos pos- sam ser domésticos ou nacionais sem ao menos aspirarem

à condição universal. Pode, aliás, residir nessa aspiração

a razão última por que muitos académicos se dedicam a

estudar a literatura de países onde não nasceram, onde não viveram, aonde nunca foram, ou que só visitaram jus-

tamente porque se interessaram pela respectiva literatura

– talvez alguma convicção de que a literatura, tendo país,

no sentido em que pertence a este ou àquele aglomerado nacional, em rigor não tem país, e ainda querendo tê-lo muito fortemente, é sempre pouco para quem vive neste ou naquele aglomerado nacional. 2 Então, esses académi- cos, que viajam por causa da literatura que não se fez na sua terra, ilustram este princípio estranho: as pessoas têm necessidade de viajar porque as ideias e os estudos, não se

prendendo a nenhum espaço delimitado por fronteiras, não podem nem precisam de viajar. Nesse sentido, aqueles que, literal ou figuradamente, vão de um país a outro por causa da literatura, nunca serão estrangeiros, mas hóspedes, e em princípio hóspedes de honra, quase cidadãos honorários. 3 Note-se que, sem eles, é provável que hoje pagássemos a Berlusconi para ler a Divina comédia, modalidade decerto muito inconveniente de prestar tributo ao princípio de nacionalidade em literatura. Dir-se-á, por outro lado, que estes que viajam, filan- tropos embora, se deslocam sempre para o território que outros, por sua vez, chamam interior, casa, espaço domésti- co, e que provincianismo é ver o exterior só como exterior, não como “o lar de outras pessoas”. 4 Sem dúvida. Estamos sempre em algum lugar – em algum local. A imediata con- sequência a extrair seria que o universal não existe, pela

simples razão de que ninguém o pode habitar. A segunda consequência é que, sem universal em que se apoie, o cosmopolita pode estar condenado à errância eterna, o maior risco, sendo o menor, mas mais quotidiano, o de se

ver obrigado a esbarrar em regras que lhe são adversas ou

a tolerar convicções que lhe repugnam.

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Revista Brasileira de Literatura Comparada, n.15, 2009

Eis o dilema: aquele académico que viaja para outro lado por causa da literatura, e no propósito do estudo dela, deve pretender tornar-se interior apesar de estran- geiro ou, antes, esforçar-se por se manter exterior porque estrangeiro? Qualquer estudo implica legitimidade e reco- nhecimento, que ou provêm do interior da instituição em que se trabalha ou do exterior dela, ou até de ambos: o reconhecimento decisivo do brasilianista, da importância do seu estudo e da relevância da sua pesquisa, há-de vir do exterior ou de algum interior do Brasil? Ou o factor decisivo estará antes nesse outro interior que é a instituição exterior, não brasileira, que ao brasilianista lhe paga essas viagens e esses estudos? E em nome de quê, de que padrões ou critérios, essa instituição o avalia? Acaso da capacidade de se tornar estrangeiro para não ser estrangeiro no país da literatura que estuda? Outra pertinência da distinção entre “exterior” e “es- trangeiro” residiria então em que o “exterior” tem aptidão superior à de “estrangeiro” para referir situações que en- volvem instituições, disciplinas ou paradigmas. Trabalhar no exterior de um paradigma pode ser mais perturbador do que trabalhar no exterior de uma disciplina ou de uma instituição; trabalhar no interior de um paradigma pode ser condição necessária para trabalhar no interior de uma disciplina e de uma instituição. Em todo caso, o interior tornou-se demasiado escuro para que se consiga ler nele com nitidez. A impossibilidade do interior bem circuns- crito decorre da dissolução da autonomia numa rede de instâncias por definição exteriores, fundações, agências governamentais, outras universidades, editoras, centros de pesquisa, numa rede tendencialmente tão diversificada no mapa como similar nos padrões e critérios de avalia- ção. Exterior deixou de significar estrangeiro: no mundo universitário, desde logo, o interior não é nacional senão depreciativamente, e o reconhecimento do pesquisador ultrapassa já não apenas a nação, mas as próprias discipli- nas. Eis outra forma de dizer que o universal não existe:

porque o local se tornou impossível.

Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita

65

5 O presente ensaio conclui um percurso de estudos machadianos inaugurado há mais de vinte anos com uma análise de “instinto de nacionalidade”, que o leitor interessado pode encontrar no meu livro A formação do

nome. Duas interrogações sobre Machado de Assis (Baptista, 2003, p. 21-111; edição portuguesa de 1991). O artigo de Roberto Schwarz atrás citado, e a que voltarei mais adiante, sendo uma reacção

à fortuna crítica de Machado

fora do Brasil e ao que ele

chama “leitura internacional”, supostamente em competição com a “leitura nacional”, é suficiente para mostrar que se mantêm a actualidade crítica e

a energia polémica da análise que propus do ensaio de Machado.

Ora, uma literatura, como a brasileira, que se represen- ta hegemonicamente como construção que circunscreve

o interior para que coincida com o nacional, não podia

senão ser muitíssimo sensível à diferença entre exterior e

estrangeiro. E há-de ser particularmente sensível à presen- ça do estrangeiro no seu interior – e sobretudo à projecção desse interior no exterior indeterminado do “estrangeiro”.

O que se deve então legitimamente exigir ao brasilianista?

Que estude e divulgue o Brasil de que a literatura brasileira fala ou, antes, estude e divulgue a razão de a literatura falar do Brasil? Que se interesse pela realidade nacional brasileira ou, antes, pelo interesse da literatura brasileira pela realidade nacional brasileira? Que se torne porta-voz de uma literatura entendida como representação do Brasil, no sentido mimético e no diplomático, ou, antes, analise o processo por meio do qual no Brasil se procurou construir uma literatura entendida como representação do Brasil? Proponho designar cosmopolita a perspectiva que estabelece essas distinções e argumenta em favor do se-

gundo termo da alternativa, que preserva a relação com a literatura, enquanto o primeiro a subordina a uma qual- quer relação com o Brasil. O propósito cosmopolita leva em conta o desejo de criação de uma literatura a que os brasileiros possam chamar sua, mas postula que tal desejo não se confunde com o que eles ou todos nós chamamos literatura brasileira – nem é o único guia, muito menos o melhor, para a conhecer. O propósito cosmopolita não consiste, portanto, em negar a nacionalidade da literatura brasileira em nome de uma natureza intemporal e transcultural da literatura;

tampouco em afirmá-la ou sequer reconhecê-la: consiste, sim, em reconhecer o desejo de nacionalidade, delimitá-

lo historicamente, desnaturalizá-lo e, enfim, identificá-lo como uma das forças da literatura moderna em acção no Brasil, como, aliás, noutras nações. Filiando-se, enfim, na linhagem que o primeiro grande espírito cosmopolita do

Brasil, Machado de Assis, inaugurou com o célebre “ins- tinto de nacionalidade”. 5

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Revista Brasileira de Literatura Comparada, n.15, 2009

2.

Auerbach perguntava num dos seus últimos ensaios, “Filologia e Weltliteratur” (1952), se é possível algum senti- do para Weltliteratur mantendo o termo na visão de Goethe, isto é, relacionando-o tanto com o passado quanto com o futuro e considerando o próprio estado do mundo:

O nosso planeta, o domínio da Weltliteratur, está a diminuir e a perder diversidade. No entanto, a Weltliteratur não se refere apenas ao que é genericamente comum e humano:

antes considera que a humanidade é o produto das rela- ções frutuosas entre os seus membros. A pressuposição da Weltliteratur é uma felix culpa: a divisão da espécie humana em muitas culturas (Auerbach, 1969, p. 2)

A dificuldade é manter a tarefa da filologia diante do processo de estandardização da vida humana à escala

global, que Auerbach detecta e cujo termo pleno, sublinha, seria de um só golpe a realização e a supressão da própria noção de Weltliteratur. Não cabendo aqui sequer tentar resumir o argumento que ocupa a parte central do ensaio,

o

meu propósito, ao convocá-lo, é citar o desfecho dele,

o

modo como, sem nenhum paradoxo, acaba a declarar

que “a nossa casa filológica é o planeta, já não pode ser

a nação” (Auerbach, 1969, p. 17), e mais do que isso, a

formular certo programa de urgência: “devemos regressar, em circunstâncias notoriamente diversas, àquilo que a cultura medieval pré-nacional já possuía: a noção de que

o espírito não é nacional” (Auerbach, 1969, p. 17). Espírito? Humanidade? O vocabulário não é segura- mente de hoje: ou parece hoje muito pouco cosmopolita. O colorido kantiano do meu título, num modo que sequer é propriamente paródico, pode também desnortear, ou causar

estranheza pelo desuso: o melhor bem? o bem comum? o bem supremo? E, no entanto, há por aí qualquer coisa de urgentemente actual, que apresento nesta formulação de-

certo precária, como se se tratasse de um programa político:

o propósito cosmopolita consiste em reafirmar, na noção

Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita

67

moderna de literatura, a concepção visionária daquela felix culpa como abertura dum espaço de hospitalidade incondi- cional. Não um espaço superior e restrito, para onde alguns poucos afortunados são cooptados, pela Unesco ou pelo sucesso comercial, formando alguma espécie de cânone supranacional ou literatura internacional; não um espaço homogéneo, universal, sem fronteiras nem conflitos, onde o espírito vagueia livre; não um espaço essencial de onde derivem e se deduzam todos os espaços, mais restritos e nada essenciais – mas o espaço que se abstém de limitar e impor condições à entrada e estada do estrangeiro, aquele que não pode deixar de ser reconhecido e não pode deixar de se reconhecer como estrangeiro, e designadamente dele espera a responsabilidade de circunscrever ele próprio a sua incompreensão e a sua ignorância. Nos estudos literá- rios, o propósito cosmopolita define o princípio teórico e político que nos orienta a aproximação a qualquer texto com a ideia de que o que há de nobre e de emancipador na noção de literatura é o que nos anima a pressupor que cada texto foi escrito na previsão do estrangeiro que um dia o virá a ler e estará à altura de o ler precisamente na medida em que for capaz de circunscrever os limites da própria incompreensão sem perder de vista o privilégio de habitar a mesma casa, que é a mesma não porque seja desde sempre e essencialmente a mesma, antes porque a caracteriza a hospitalidade incondicional. O fundamento da hospitalidade não é a natureza humana nem alguma ideia genérica de humanidade, mas uma ideia de literatura definida precisamente pelo propósito cosmopolita: digamos que o ensaio de propósito cosmopolita é o que se aproxima da literatura presumindo que o que a constitui é o propó- sito cosmopolita! Ou, em termos menos circulares, o que se aproxima da literatura animado da convicção de que o propósito cosmopolita é inerente à noção de literatura – um propósito constitutivo da literatura moderna. Essa concepção da literatura poderia receber outro nome – tradução –, não fosse o traço decisivo do carácter incondicional da hospitalidade. Decerto é quase de tra-

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dução que se trata, mas passando entre os polos extremos que a definem: a tradução visa necessariamente à inteligi- bilidade sem restos – e por isso a hospitalidade é possível –, mas nunca opera o transporte unívoco de um conteúdo prévio – e por isso a hospitalidade é incondicional. A ideia da literatura como hospitalidade incondicional recusa tanto o universalismo como morada última que apaga todas as línguas, quanto o nacionalismo da língua cioso do núcleo essencial insusceptível de tradução. A literatura é uma linha que passa entre esses dois polos, força que cria unidades além deles e tensões por causa deles: unidades apesar das tensões, tensões não obstante as unidades. E não há razão para que essa ideia não seja válida no quadro da mesma língua, ou do que com tanta facilidade se chama “a mesma língua”. A língua, eis justamente o que separa:

porque é a língua que permite reconhecer o estrangeiro como estrangeiro e sobretudo quando fala a mesma língua, ou quando fala a nossa língua. O sonho emancipador aqui seria, então, que a lite- ratura unisse o que a língua separa, que a literatura se constituísse morada de encontro, de cruzamento, de estada

e exercício da hospitalidade sem condições. O espírito é o

espírito da hospitalidade, o bem comum é o da literatura e da partilha da literatura, e nesse sentido, como se compre- ende, somos sempre estrangeiros diante de qualquer obra de literatura. A definição de literatura podia, aliás, ser esta:

faz de quem dela se aproxima um estrangeiro e pelo mesmo gesto oferece-lhe todas as condições para que se instale à vontade. Como se o esperasse – e a melhor descrição de literatura é essa, em que ela espera e depende do estran- geiro para se constituir –, desde sempre destinando-se ao mundo.

3.

Nas relações ou nos primórdios das relações entre

a literatura portuguesa e a brasileira, há um exemplo de

Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita

69

6 Trata-se de “Futuro literário de Portugal e do Brasil”, originalmente publicado na Revista Universal Lisbonense, em 1947, e retomado nos Opúsculos (Herculano, 1986, p. 199-204).

7 Permito-me remeter o leitor interessado para o comentário deste ensaio de Herculano que apresento em O livro agreste (Baptista, 2005, p. 25 et seq.).

propósito cosmopolita pouco conhecido, o de Alexandre Herculano. Herculano escreveu uma longa carta a D. Pedro II sobre A Confederação dos Tamoios, de Gonçalves de Magalhães. Datada de 6 de dezembro de 1856, permaneceu inédita, a pedido do próprio Herculano, e surgiria apenas em 1947, pela mão de Alcindo Sodré, no Anuário do Museu Imperial.

Hoje pode ler-se no volume da edição crítica dos Opúsculos dedicado aos assuntos de literatura (v. Herculano, 1986, p. 212-221). Anos antes, Herculano publicara um ensaio

a propósito dos Primeiros cantos de Gonçalves Dias, que

viria a ser incluído, a servir de prólogo, na 2.ª edição dos

Cantos. 6 Este texto, porém, trata das consequências para a literatura portuguesa do aparecimento da brasileira, mais do que da poesia de Gonçalves Dias: é um ensaio centrado na metáfora do jovem, o Brasil, que se ergue para criar o novo, embaraçando o velho decrépito, Portugal, atolado

no passado. Um ensaio escrito por um português – e que o assume expressamente. 7 Ora, o primeiro traço que distingue a carta é que Her- culano, para dar a opinião sobre o poema que D. Pedro II

lhe pedira, define com outra palavra a sua condição relativa

à nação brasileira, invocando-a até como fundamento da

incredulidade que fere a capacidade crítica: estrangeiro. Escreve Herculano:

V. I. M. estranhará talvez que eu comece por uma declaração de incredulidade que prejudica a crítica especial do poema ou pelo menos a subordina a considerações superiores, tornando-se por isso relativa em vez de absoluta. Duvido, e muito, de que nesta nossa época o poema épico seja possível na Europa, e mais ainda que o seja na América. Duvido também de que um estrangeiro possa avaliar sob todos os aspectos uma composição de semelhante natureza (Herculano, 1986, p. 213).

Não é imediatamente perceptível o que faz o “es- trangeiro” na análise de Herculano, e a carta merece um estudo demorado que, tanto quanto sei, ainda não teve.

70

Revista Brasileira de Literatura Comparada, n.15, 2009

Limito-me aqui a observações rápidas que me conduzem ao meu ponto. Desde logo, o “estrangeiro” não está onde se espera- va. Herculano reputa impossível a epopeia – e sublinha que nenhum dos “sumos poetas contemporâneos” a tentou – em virtude das próprias exigências do género, que se sobrepõem às condições actuais em que o poeta eventualmente o tenta. Claro que o argumento envolve um juízo sobre essas condições que não se confunde com

a noção das exigências do género: “a nossa geração não é

épica”, razão fundamental por que “a poesia é hoje quase

exclusivamente lírica e dramática”. E o Brasil, entretanto, apresenta certa especificidade que Herculano também não negligencia: diz ele que as eras heroicas e as gerações épicas do Brasil seriam as do primitivo Portugal, “se uma raça outrora única, não constituísse hoje duas nacionali- dades distintas” (Herculano, 1986, p. 215). Por outro lado,

a nacionalidade brasileira não pode encontrar nos índios um substituto para os primitivos portugueses:

aqueles [chefes índios] que se conservaram fiéis às tradi- ções da pátria americana não têm identidade nem unidade nacional com os brasileiros de hoje, e os que traíram os interesses da sua gente e a religião dos seus antepassados para se aliarem com os conquistadores, são, poeticamente considerados, uma completa negação da generosidade e do heroísmo da epopeia (Herculano, 1986, p. 215).

Em suma, o que seria adequado à epopeia não é nacional, e o que se tornou nacional é indigno da epopeia. Esta dificuldade, considera-a Herculano insuperável:

Duvido que o génio pudesse vencer estas repugnâncias, porque as reputo insuperáveis. O que, porém, sei de certo é que ele não poderia vencer a desarmonia do espírito público. O Brasil é um império novo; mas os brasileiros são apenas europeus na América. Não é, sob todos os aspectos, a sua civilização o mesmo que a nossa? Não se confunde a classe média do Brasil com a classe média da Europa, a um tempo

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ardente nas suas paixões e céptica e fria nas suas opiniões e ideias? Como estabelecer aí uma harmonia entre o poeta épico e o público, que seria impossível aqui? (Herculano, 1986, p. 215)

Sublinhe-se que o “aqui” é a Europa, não apenas Portugal. E sublinhe-se, acima de tudo, que o juízo de Herculano sobre a epopeia não depende de ele ignorar ou recusar a originalidade brasileira, mas justamente de a considerar e estar convicto de que a pode descrever com exactidão no que à epopeia diz respeito. O aspecto decisivo é que, ainda que Herculano defendesse que a epopeia seria possível no Brasil, por causa disto ou daquilo, o próprio exercício do juízo havia de mantê-lo na mesma casa daqueles que escreveriam essa epopeia, ou havia de trazer estes para a casa em que ele os avaliasse – ou seja, nesse juízo, a consideração da originalidade do Brasil não faria de Herculano um estrangeiro. Isto não é o mesmo que dizer que a originalidade do Brasil está de antemão subordinada pela consideração das exigências do género épico: é, antes, o mesmo que dizer que desta não decorre nenhuma barreira que relativize ou desqualifique o juízo como juízo de estrangeiro. Onde se constitui, então, a barreira que define o estrangeiro? Aí deparamos com a surpresa: a barreira é a própria língua. Desde logo na diferença de estilos. Escreve Herculano:

Pelo que respeita às formas externas do poema, recai aí a outra dúvida de que no princípio falei a V. I. M. Pode sempre o estrangeiro avaliar bem a frase, as comparações; a verdade descritiva de um poema? Creio que não. Embora a língua seja idêntica entre dois povos; há locuções que num país se tornaram plebeias, antipoéticas, e que noutro são elevadas ou pelo menos toleráveis (Herculano, 1986, p. 218).

Seguem-se exemplos de frases que a um ouvinte por- tuguês pareceriam “baixas e triviais”, podendo não o ser para um brasileiro: exemplos de como Herculano, nesse

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particular, considera o seu juízo “portanto, incompetente”. Outro aspecto, as comparações: “Das comparações tiradas de entidades privativas da América ainda a crítica da Eu- ropa está menos habilitada para ajuizar” (Herculano, 1986, p. 218). A incompetência, porém, é decorrente da estipu- lação de uma unidade prioritária: “Há, todavia, coisas em que a crítica da Europa e a da América tem de concordar.

É acerca dos prosaísmos, das imperfeições de metro, das

incorrecções gramaticais” (Herculano, 1986, p. 219). Numa palavra, a avaliação da epopeia defronta-se com a barreira da língua, que, apesar de transnacional,

se torna nacional. A língua deixa o estrangeiro à porta:

sendo a mesma, é também o que separa e o que pode separar sem deixar marca, quando é a mesma ou quando se presume a mesma. Contudo, Herculano não postula sequer a unidade poética da língua – como não postula nenhum princípio de relativização poética em função da diferença linguística. Justamente a unidade poética do género circunscreve a área de incompetência ao mesmo tempo que a subordina: nem defesa da unidade intemporal

transnacional da língua para efeitos de epopeia, nem condução do reconhecimento da diferença à renúncia

e

a

um princípio de avaliação inerente ao próprio género

e

portanto independente das particularidades locais.

É

isto, creio, o paradigma do propósito cosmopolita na

avaliação literária. Delimitar a barreira, circunscrever a área de incompetência e ponderar o conjunto: a própria

definição da crítica podia ser dada nesta tríade, que forma

o propósito cosmopolita. Herculano não precisa proceder

a uma expedição etnográfica para responder à solicitação

de Pedro II: chega-lhe o conhecimento da possibilidade de

a mesma palavra não ser a mesma palavra. E não precisa

rever a noção de epopeia, já de antemão aberta à possibi- lidade da diferença local. O que cabe no seu propósito é não deixar que o juízo se torne absoluto quando tem áreas de incompetência, nem fazer alastrar a incompetência à negação do juízo inteiro.

Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita

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O propósito cosmopolita é a voluntária subordinação

a alguma noção de literatura pela comunidade dos que se

reclamam dela: é a aceitação da impossibilidade de nacio-

nalização plena das formas literárias, antigas ou modernas,

é o reconhecimento da estabilidade e da transportabilidade das formas diante das modalidades de apropriação, de en- raizamento, de particularização. O reconhecimento da di-

ferença local é inerente, por isso, ao propósito cosmopolita,

e aliás nem haveria necessidade de propósito cosmopolita

sem reconhecimento da diferença. Mais radicalmente, não há literatura moderna sem incompetência declarada do estrangeiro: é nela que se decide a possibilidade de a literatura se erguer acima das condições particulares em que surge. É na incompetência reconhecida mas circuns-

crita do estrangeiro que a literatura finalmente se cumpre como literatura.

E isto é válido ainda quando a literatura se define

sobretudo como assunto nacional. O caso particular da Confederação dos Tamoios atesta-o bem. Alexandre Her- culano não foi apenas certeiro nas apreciações contidas na carta, mas deixou eloquente exemplo de crítica literária em que o propósito cosmopolita nem sequer é incompatível com a instigação à “nacionalização” da poesia do Brasil, já enfaticamente presente no ensaio sobre Gonçalves Dias. A própria dependência da noção de literatura nacional em que Herculano escreve as suas apreciações do poema de Gonçalves Magalhães comprova que o propósito cosmo- polita se caracteriza pela dependência de uma noção de literatura capaz de tornar globalmente partilhável a própria ideia de enraizamento no local nacional. Ferdinand Denis, no seu Resumé, deve ter sido o pri- meiro a expor uma ideia de literatura brasileira do ponto de vista cosmopolita, quer dizer, subordinada a uma ideia de literatura. Já a repetição de Denis pelo grupo da Niterói inaugurou a ideia de literatura brasileira do ponto de vista brasileiro, quer dizer, subordinada a uma ideia de Brasil. Repegando a antinomia de início, Gonçalves de Maga- lhães interiorizou Denis, não no sentido superficial de ter

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assimilado a lição do estrangeiro, mas no mais decisivo de ter tornado doméstico o que era cosmopolita, isto é, de ter tornado dependente de uma pátria o que em si mesmo não tinha pátria – uma ideia de literatura. E pôde fazê-lo pre- cisamente porque essa ideia era cosmopolita e se oferecia com a generosidade de quem trabalha para o bem comum, para o ideal partilhável de uma literatura moderna formada pela livre agremiação das particularidades expressas em literaturas nacionais. Num trabalho recente, Paulo Franchetti mostrou como

o programa literário de Magalhães depende da ideia de que

o Brasil estaria num segundo momento da sua história, aquele em que “tomava consciência da sua especificidade e

se constituía plenamente como nação”. Daí que a oposição

antilusitana e anticlássica, que definem o romantismo de Magalhães, coincidissem num “gesto de afirmação nacio- nal e política da nova nação” (Franchetti, 2006, p. 115). Apesar da adopção da França como matriz cultural, em nome das ideias de liberdade e de universalidade, os dois postulados básicos de Magalhães, que Franchetti identifica, estruturam claramente uma posição anticosmopolita: o pri- meiro é o do “instinto oculto”, a força com que a natureza da terra guiaria a transformação completa da literatura em literatura plenamente brasileira; o segundo diz que “os temas, as formas e as técnicas da literatura europeia se não obstruem, ao menos dificultam a expressão do caráter nacional na produção letrada do país”. Franchetti mostra de forma convincente como a articulação desses postula- dos determinou decisivamente a historiografia e a crítica literária posterior (Franchetti, 2006, p. 121 et seq.). E de facto, desde aí, estruturou-se um dispositivo anticosmopo- lita de equívocos, a saber: a) a confusão que dissolve toda

e

qualquer diferenciação literária em “carácter nacional”

e

a redução de todos os factores de diferenciação a um

único, a influência da realidade local; b) a crença em que

a representação da realidade local, sendo por virtude des-

sa influência uma inevitabilidade, determina a literatura

consciente ou inconscientemente e de modo distintivo;

Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita

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c) a confusão do local com o nacional, que já Machado

denunciou, mostrando que querer ostentar certa cor local

e querer tornar nacional uma literatura não são projectos

necessariamente coincidentes; d) a confusão do projecto de construção de uma literatura nacional, projecto de

afirmação política e de natureza prescritiva, quaisquer que sejam as formas com que historicamente se reedita, com

a própria nacionalidade da literatura; f) enfim, a crença

num processo contínuo e irreversível – “instinto oculto”, “tradição afortunada” ou “formação”, consoante os voca-

bulários –, em direcção a uma etapa final de nacionalização definida pela harmonia entre literatura e terra, cultura

e nação, literatura e sociedade, modernidade artística e

modernidade social, etc. O sintoma desse dispositivo de equívocos é a persisten- te oposição entre o local e o universal, cuja fortuna brasilei- ra decorre do obscurecimento da diferença entre a noção de literatura como projecção subordinada a um ideal cosmo- polita de literatura e a noção de literatura como projecto subordinado a um ideal nacional de país construindo-se dotado de literatura “própria”. Nesse preciso ponto, facilita outra confusão, a do propósito cosmopolita com o pendor para o universal. Mas a oposição do local ao universal é sobretudo um instrumento do projecto de circunscrição nacional da literatura. A estipulação do local por oposição ao universal representa sempre o privilégio do local, do que está antes da literatura e que logo transforma o universal em mero repertório de temas e formas: é uma figura da oposição da realidade à literatura e da subordinação da literatura pelas representações naturalizadas da realidade. Daí o efeito decisivo da sua persistência: local e universal, na narrativa da “formação”, tornam-se polos em tensão de

um mesmo processo da literatura em direcção ao nacional,

o processo pelo qual a nação se revela a si mesma pela sua

literatura. Nesse sentido, a oposição do local ao universal sobrevive por meio da oposição do consciente ao incons- ciente e do voluntário ao involuntário: aqueles escritores que se distanciam do projecto de nacionalização da lite-

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ratura brasileira ou lhe permanecem indiferentes acabam, tarde ou cedo, por nele ser harmoniosamente integrados, ou como nacionalistas involuntários ou como cultores de nacionalismo literário “mais profundo”. Eis como a oposição entre local e universal se revela instrumento de poder, de domínio de uma doxa interpretativa inimiga da diferença cosmopolita: confundindo o cosmopolita com o

universal, dissolve-o num processo que não admite exterior, onde não há efectiva alternativa para o nacional, o mesmo

é dizer, onde não há lugar para o estrangeiro.

4.

É impossível ignorar que o ideal de entendimento universal inerente ao sonho emancipador da literatura moderna ruiu há muito. Mas como ler Machado sem levar em conta esse ideal, esquecendo-o ou desprezando-o? Também não é possível, não apenas porque a obra macha- diana se estruturou e destinou no âmbito definido por esse ideal, projectando-se para um horizonte indeterminado no tempo e no espaço, mas ainda porque é a esse mesmo ideal que a grandeza de Machado remete o leitor cosmopolita, exigindo, porém, a sua reformulação. Daí que Machado de Assis seja o óbvio, quer dizer, o incontornável ponto de crise do paradigma hegemónico

de autorrepresentação da literatura brasileira. Desde logo,

a ausência conspícua de empenhamento no local desafia

a imaginação e acaba por torná-lo prisioneiro inevitável

da ideia do “nacional mais profundo” ou do “nacional in- consciente”, ambas destinadas a bloquear a possibilidade de leitura cosmopolita da obra machadiana. Acresce que qualquer dessas ideias acaba por tornar manifesto que o propósito final de uma e outra é subordinar a inteligibili- dade e avaliação da obra machadiana à possibilidade de certa comunidade que se designa como brasileira a declarar “inteiramente brasileira”. Mas, de um modo ou de outro, há sempre uma linha de fuga por meio da qual Machado

se torna escritor sem pátria.

Ideia de literatura brasileira com propósito cosmopolita

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Veja-se o exemplo de Antonio Candido. Quando, na Formação da literatura brasileira, escreve que Machado “se embebeu meticulosamente da obra dos predecessores”; que a “sua linha evolutiva mostra o escritor altamente consciente, que compreendeu o que havia de certo, de definitivo, na orientação de Macedo para a descrição de costumes, no realismo sadio e colorido de Manuel Antônio de Almeida, na vocação analítica de José de Alencar”; e quando precisa, logo a seguir, que Machado “pressupõe a

existência dos predecessores, e esta é uma das razões da sua grandeza” e “o segredo da sua independência em relação aos contemporâneos europeus, do seu alheamento das modas literárias de Portugal e França” (Candido, 1981, v. 2, p. 117-118), Antonio Candido não está apenas a situar Machado no quadro nacional, limitando-o ao processo da “formação da literatura brasileira”: está a recusar o ponto de vista cosmopolita, precisamente porque estipula que a inteligibilidade e a originalidade de Machado decorrem do modo como ele próprio, “altamente consciente”, se inseriu nesse processo. Nessa descrição, a “formação” de Machado como escritor decorre essencialmente em ambiente domés- tico e o estrangeiro não é mencionado senão para sublinhar

o alheamento e recusa que o excluem do processo.

Já quando fala de Machado nas Universidades da Flórida e do Wisconsin, quase 10 anos depois da Formação, dir-se-ia que o mesmo Antonio Candido se muda para o lado adverso, isto é, o cosmopolita. Depois de dizer que “o que primeiro chama a atenção do crítico na ficção de Machado de Assis é a despreocupação com as modas do- minantes e o aparente arcaísmo da técnica”, notando que

o

escritor “cultivou livremente o elíptico, o incompleto,

o

fragmentário”, acaba explicando que se tratava de uma

forma de manter na segunda metade do século XIX “o tom caprichoso” de Sterne e de criar algum eco do “conte philosophique à maneira de Voltaire” (Candido, 1995, p. 26). Já não se estranhará, depois disso, que as descrições comparativas da página seguinte, em vez dos nomes de

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Alencar ou Macedo, convoquem Kafka, Dostoiévski, Gide, Proust ou Faulkner. O segundo Candido é melhor ou pior do que o pri- meiro? Dir-se-á que se complementam, que o primeiro valoriza o local, o segundo, o universal, polos necessários de qualquer descrição rigorosa da obra machadiana, etc. A verdade, porém, é que o segundo Candido não tem lugar para o primeiro, e este não admite o outro. Decerto An- tonio Candido, crítico inteligente e informado, não teria duvidado de que o seu auditório na Flórida ou no Wis- consin havia de permanecer razoavelmente indiferente se ele insistisse em explicar-lhes que a grandeza de Machado decorre de ter estudado Macedo e superado Alencar: não porque os desconhecesse, mas porque o protagonista dessa explicação não seria nenhum deles, nem sequer Machado, seria a narrativa da “formação da literatura brasileira” – a narrativa que precisamente os constitui estrangeiros diante de Machado. Em vez disso, o que Candido faz não é diluir a originalidade de Machado de Assis tornando-o aceitável ou tolerável pelo estrangeiro ignorante das coisas brasileiras, nem valorizar o universal em detrimento estratégico do lo- cal: generosamente, deveríamos interpretar a diferença do

segundo ensaio à luz de um princípio de filantropia literária, digamos assim, que consiste em procurar tornar inteligível

e apreciável um escritor a quem quer que se interesse por

escritores e literatura, ou seja, em fazer que o estrangeiro, diante da sua obra, não depare com nenhuma barreira que torne absoluta a sua condição de estrangeiro. Como quer que seja, no “Esquema”, Candido não apela a nomes familiares, seja Sterne ou Voltaire, mas a uma tradição comum, a do romance europeu e da noção de literatura que representa. É aí que o propósito cosmopolita

pode actuar, e por isso é aí que a incompatibilidade entre as duas perspectivas salta inexorável. Para o mesmo fenóme- no – a distância de Machado das “modas literárias” do seu tempo –, Candido oferece duas descrições incompatíveis,

a da Formação, que o dá consciente dos predecessores e

a querer superá-lo, e a do “Esquema”, que o dá a recu-

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perar uma linha do romance europeu que essas “modas” interromperam: a primeira desenha uma linha contínua,

a segunda refere uma linha quebrada; a primeira postula