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Encerrando nossa investigação sobre o

ser humano e sua relação com o

focalizaremos agora esse aspecto tão

caracteristicamente humano - o conhecimento

- que concentrou a atenção

debate filosófico por muitos séculos.

mundo,

de boa parte do

Você conhecerá uma série de reflexões

e distinções sobre esse tema que irlepois o

ajudarão a enveredar pela história da filosofia.

o conhecimento

Deta lh e d e Fiarão d o Camp a n á rio

de Gio t to repr ese nt a ndo Pl a tão e

Aristót e les (e . 1 3 37-1 339 )

d e i I a Robbi a .

O ser humano busca

con s t a nt e m e nte o conhecim e nto

si m e smo , dos outros e do mundo.

- Luca

Questões filosóficas

O que é conhecimento?

d e

Quais são os fundamentos

do conhecimento?

possível ° conhecimento Podemos conhecer tudo?

É

verdadeiro?

Conceitos-chave conhecimento, representação, verdade, sujeito, objeto, realismo, idealismo, empirismo, racionalismo, apriorismo, dogmatismo, ceticismo, criticismo

Unidade 2 Nós e o mundo

1156

GNOSIOLOGIA

A investigação sobre o conhecer

Homem do c onh e ciment o - [anu s z Kapusta.

Gnos iolo g i a é O campo de estudos filosóficos

que se dedica à questão do conhecimento. Essa área também é conhecida como teor i a do conheci me n -

t o , ep i stem o l og i a ou cr ít ica do con h ecimento .

M as o que é conhec i m e nto? O que queremos di-

zer quando f al amos em conhecimento? A pa l a v ra c o -

nh e c imen t o po d e t e r di s tintas a c epções , conforme o conte xt o . A nteriormente , f izemos a d istinção entre conhecim en to em um sentido geral (lato sensu) e em um sentido estri t o (strícto sensu), que é o conheci- mento v erdadeiro (reveja e s se trecho do capítulo 4). Ago r a, precisamos refinar um pouco mais nossa definição , tendo em vi sta a in v estigação deste capí- tulo. A ssim , va mos par t ir da concepção básica e co- mum de que conhecimento é a apresentação verídi- ca ou adequada de alg o (o ob j eto ) ao pensamento (o s uj e ito ), mesmo que de fo r ma parcial . Se, por e x empl o, algu é m diz " na v io " e aparece em meu espírito algo que corresponde ao objeto na- vio , eu tenh o um conhecimento , mesmo que vago.

M as se diz e m "na v io " e s urge em minha ment e algo

que não correspo n de ao o bjeto na v io, eu não tenho

um conhecim e nto , is to é , o objeto navio não se

apresenta em meu espírito de forma verídica (como ele é de v erdade) ou adequada . Isso parece s i mples , mas não é bem assim . Exis- tem graus distintos de conhecimento e também muito engano e ilusão naquilo que uma pessoa pen- sa conhecer , como apontaram D escartes e Sócrates (conforme v imos nos capítulos 2 e 3 , respectiva - mente), entre outros. É preciso, portanto , ir bem mais " fundo " nesse assunto e obter outras informa- ções sobre o pro ce s so d e con h ece r . Foi o que fizeram diversos filósofos , em sua bus- ca incessante por compreender a si mesmos e o mundo à sua volta . N esse processo , eles chegaram à con c lusão de que era necessário entender primeiro a própria f ac ul dade d e conhecer do ser humano, antes de confiar plenamente na percepção e com- preensão que alcançavam das coisas.

Questões básicas

Assim, desde a Antiguidade grega, grande parte dos pensadores voltou-se para o problema do co - nhecimento e as questões básicas que o envo l vem, dando origem a diversas gnos i ologias ou teorias do conhecimento. Nesse sentido, podemos dizer que existem tantas teorias do conhecimento quan t os foram os filósofos que se preocuparam com o problema, pois é impos- sível constatar total coincidência de concepções mesmo entre filósofos que habitualmente são classi- ficados dentro de uma mesma escola ou corrente. Apesar dessa diversidade , podemos dizer que as questões que concentraram a atenção desses teóri- cos foram principa l mente as seguintes:

• r e l ação sujeito-o b jeto - como é a ativ i dade do sujeito do conhecimento em relação ao objeto conhecido;

• fon tes pr imeiras - qual é a origem ou o ponto de partida do conhecimento;

• pro ce s s o - como os dados se transformam em ideias, em juízos etc . ;

• possibilid a d es - o que podemos conhecer de forma verdadeira.

Cada teoria do conhecimento constitu i , portan - to , uma reflexão fi l osófica que procura investigar as origens ou os fundamentos, as possibilidades , a ex - tensão e o valor do conhecimento . Apesar de constituir uma reflexão antiga, foi so - mente a partir da Idade Moderna que a gnosiologia passou a ser tratada como uma das discip l inas cen- trais da filosofia . N esse processo de valorização co -

I

laboraram de forma decisiva, além de Descartes, os filósofos John Locke e Immanuel Kant, conforme veremos adiante.

Representacionismo

A definição que demos antes de conhecimento (a apresentação verídica ou adequada de algo ao pen- samento) corresponde à interpretação predominan- te no pensamento moderno , que entende o conheci- mento como r epresen ta ção. Isso quer dizer que conhecer seria representar o que é exterior à mente. Seria obter uma "imagem" ou "reprodução" do mundo externo, projetada na consciência. Conhecer, por exemplo, um pássaro consistiria em formar uma representação , uma "ima- gem adequada " desse pássaro em nossa mente . Nesse entendimento, a mente constitui uma es- pécie de "espelho da natureza" - metáfora sugerida pelo filósofo estado- unidense Richard Rorty (1931- -2007), um crítico da interpretação representacionis- ta do conhecimento. A ssim, para conhecer as coisas como elas realmente são bastaria "polir" metodica- mente esse " espelho " (a mente e seus processos) , como tentaram f a zer a filosofia e a ciência moderna.

A condição humana (1935) - René Magritte . Acredita-se, em geral , que conhecimento perfeito é aquele em que a represent a çã o é idêntica à realidade.

1571

C apítulo 9 O conhecimento

CONEXÕES

1. Interprete essa pintura de Magritte. É possí-

v el relacioná-Ia com a concepção do conhe-

cimento como representação? Em sua opi- nião , a representação p e deria ser idêntica à realidade?

Relação sujeito-objeto

Portanto, de acordo com a visão tradicional e re- presentacionista do conhecimento, há basicamente dois polos no processo de conhecer :

• o sujei t o conhecedor (nossa consciência, nossa mente) ; e

• o o bj e t o conhecido (a realidade, o mundo, os

inúmeros- fenômenos) .

Dependendo do papel que cada teoria do conhe- cimento dá a cada um desses polos, dizemos que ela é rea li s ta ou idealista. Vejamos cada uma .

Realismo

De acordo com as teorias realistas do conhecimen- to, as percepçôes que temos dos objetos são reais, ou seja, correspondem de fato às características presentes nesses objetos, na realidade . Por exemplo: as formas e

cores que o sujeito percebe . no pássaro são cores e for- mas que o pássaro realmente possui em si. A concep-

ç ão do senso comum é basicamente realista. Assim, no realismo mais ingênuo (ou menos críti- co) , o conhecimento ocorre por uma apreensão imedia-

ta das características dos objetos, isto é, os objetos mos- tram-se ao sujeito que os percebe como realmente são, determinando o conhecimento que então se estabelece. Há, no entanto , outras formas mais críticas de rea- lismo, que problematizam a relação sujeito-objeto, porém mantêm a ideia básica de que o objeto é deter-

m i nant e no processo de conhecimento.

· Observação: Diversos pensadores contemporâneos questiona- ram o representacionismo, bem como as visões gnosiológicas que · polarizam sujeito-objeto. Esse questionamento deu origem a outras correntes de interpretações sobre o processo de conhecer, como · 0 pragmatismo (que veremos adiante) e a fenomenologia (que estudaremos no capítulo 16).

Idealismo

Por sua vez, para as teorias idealistas do conheci- mento , é o sujeito que predomina em relação ao ob-

Unidade 2 Nós e o mundo

j eto, is t o é , a percepção

1158

da r eali dad e é pr od u zida

p e l as n ossas ideias , pe l a n ossa cons c iência. Em ou -

tras pal av r as , os o b je t o s ser i am " co n s t ru í d os " de aco r do c om a ca p ac i dade de p ercep çã o d o s uj e i to .

Co m o con sequê n cia d es s a in t e rpre t a ção , o que

ex i s t e r e alm e nt e é a representação que o suj e it o faz

do o bj e to . P or exemplo: as for ma s e core s qu e o s u-

Análise e entendimento

j e i to p erce b e no pássaro n ada m a i s s ão qu e i de i as o u represe nt ações desses a t ributos; nã o e nt ra em q u es - tão se e l as r ealmente e x istem no p ássa r o. Ta mb é m no idea li smo h á p osições mais o u me n os rad i ca i s em relação à afi rma ç ã o d o suje i to como elem e nto de terminante ' n a r e l ação de co - nh ec imento .

1.

P

a ra q ue os f il ósofos investigam o p r ocesso do

3. Quai s são o s po l os tra dicionalmente id e ntifi -

co n hec im e n to?

cados no processo do c onhe c im en t o? E xpli -

2.

Anali se a r e l a ç ão ent r e co n hec i me n to e repre -

que cada um de l es e sua r e l ação.

sentação , de acordo com a tese representa -

4. Co n fronte o i deal i smo com o r ealismo.

c i on i sta.

Conversa filosófica

1. Realismo versus idealismo

Qua l doutrina fa z ma i s se n t i do . para v ocê, a rea l i sta ou a id e a li sta? P or quê? R ef l ita sob r e e ssa questão .

D epois re ú na-se com colegas e procure argume n t a r a f a v or d e súa p o sição .

FONTES PRIMEIRAS Razão ou sensação?

Ve j amos agora o u t r a q u es t ão b ás ica e n frentada

p e l a g n os i o l ogia: q u al é a fonte, o p o n to d e partida dos con h ecimentos? De onde se o r ig i nam as i deias, os co n ceit os , as r epresent ações?

D e a c ordo com as respostas da d as a esse prob l e -

ma , destacam - se basi c am e n te du as correntes fi l o - sóf i cas : o racionalismo e o empirismo. Mas existe

tam b ém um a terceira pos i ção , o apriorismo kan - tiano , qu e co nj uga e s sas duas corren te s. Vejamos cada uma.

Racionalismo

A palavra racionalismo d e riva do la t im rati o,

que significa " raz ã o ", e é e mpregada em div ersos se ntidos. No c ont ex t o d as te o r i a s do conhecimen to , raci on a li s m o d e si g n a a d o ut r in a qu e a tribui ex c lu s i- va co n f ian ça à razão humana co mo i nst r u mento capaz de co nh e c er a v er d ade . Co m o advert i a um

d os p r in c ip a i s fi l ósofos raciona list a s , R e n é Descar -

t es ( 1 5 9 6 -1 650) , não devemos nos deixar per s ua -

di r s enão pela evidência de no ss a r a zão ( co n fo r-

m

e vi mos no c ap ít ul o

2 ).

.

S

e gund o os r ac i o n a lis tas, a exp eriênci a se n soria l

é

um a f ont e per m anente de er r os e confu sões so br e

a

co mple x a r ea lid a d e d o m u n d o. So m e n te a razão

h

uma n a, tr abalhan d o com os princípios lógicos ,

po d e a tin gir o conhec im e nt o ver d a d e ir o , ca p a z de

ser u n i v e r salmen te aceito. Para o r a c iona li smo , os princíp i os l óg i cos f und a - me n tais seriam inatos , i sto é , já est a ri a m na mente

d o ser hu ma n o desde o nasci mento. D a í a r azão s e r

co n ce bida co m o a fo nt e b ásica d o c onh ecime n to.

Empirismo

A pala v ra empiri s m o t e m s ua orig e m n o g r ego

e mp e í r ia , qu e si g ni fica "ex p er i ê ncia " . A s t e o r i as e m -

pi r ista s def e nd e m a t e s e de que todas

ideias são prov e ni e nt e s d a ex periência e , e m últi ma instância , de nos sas percepç õe s s ensori ai s ( v i s ã o ,

audição , tato , pal a d a r , o lf a to ) .

U m do s pr i n c ip a i s d e f e nsores do empiris mo f o i

o fil ó s o f o i n g l ê s J oh n L oc k e ( 1 63 2-1704 ), qu e af ir-

mava qu e nada vem à mente sem t e r passado an - tes pelos sentidos .

as n o s sas

Loc k e entendi a ta mb é m que , ao nascermos, nos- sa ment e é c o mo um pap e l em branco (ou tabula

r a sa , e x p r ess ã o usad a pe lo pensad o r) , de s pro vi da de qualque r i deia. ( E studar e mo s o pensam e nt o de s se

f ilósofo c om ma i s detalhe no ca p ítulo 14.) E de onde pr ové m , e ntão , o vasto conjunto de

ideias que e x ist e na m e n te humana ? O filósof o r e sp o n- de: da expe ri ênc ia . A e xp e riê nc ia , s egundo Locke ,

s up re o conh e cimento por meio de duas o per a ções:

• sensação , qu e l e v a par a a mente as v árias e dis- tin t as perc e pções das c o is a s , sendo, por isso ,

b a stant e d e p en d en t e dos s e n t idos ;

Para o empiri s ta , todo conh e cim e nt o está ba s e a d o

n a e x pe r iênci a

s e nsorial . D e p e nde portanto, em última anális e, d e um ou mais dos c inc o sentidos.

• ref l exão, que consiste na s operações inte r nas d e nossa p rópria m e nt e , desen v ol v endo a ssim as id eia s p rimeiras forneci d a s p e los s entidos.

1591

C a pítu lo 9 O conh e c i ment o

Afirmo que estas duas, a saber, as coisas materiais externas, como objeto da sen- sação, e as operações de nossas próprias mentes, como objeto da reflexão, são, a meu ver, os únicos dados originais dos quais as ideias derivam. (LOCKE, Ensaio acerca do entendimento humano, p. 160).

Apriorismo kantiano

N e m todos os filósofos aderiram ao racionalismo

ou ao empirismo. Alguns buscaram um meio-termo para essas v isões tão opostas. É o caso do apr í or í s -

mo kantiano , formulado p e lo filósofo alemão Im- manuel Kant (1724-1804) . Kant afirma v a que todo conhecimento começa com a ex periência , mas que a expe r iênc i a sozinha não nos dá 0_ conhecimento. Ou s eja , é precis o um trabalho do sujeito para organizar os dados da ex- periência. A ssim, o filósofo buscou saber como é o

suj ei to a p r i or i, is t o é, o sujeito antes de qualquer

e xp eriênci a, e concluiu que o ser humano possui

ce r tas faculdades o u est r uturas (as quais ele deno- mina formas da sensibilidade e do entendimen - to ) que possibilitam a exp e riência e determinam o

conhecimento.

Para Kan t, portanto, a e xperiência forn eceria a matéria do conhecimento ( o s sere s do mundo), en- quanto a raz ã o o r ganizaria e ssa mat é ria de acordo com suas fo r mas própria s, com as est r uturas exis- tentes a p r ío r í no pensamento - da í o nome aprioris - mo . ( Estudaremos o pensamento de Kant com mais detalhe no capítulo 14.)

Ca t e dral d e Rou e n de manh ã ce do .

Ca tedr a l de Rouen ao meio-di a .

Cate dral de Rouen à lu z do sol.

N es s as p i n tur a s da c a tedr al de Roue n ( 1 8 9 2- 18 94) ,

ca t edr al t a l com o é a pre e n d id a

C laude Mon e t re tr a ta não a ca t ed ral (a c ois a e m si , no dizer d e Kan t ) , mas a

pe l o p int o r c o m a s va ria ç ões d e lu z de um dia (o f e n ô men o).

Un i d ad e 2 Nós e o mu n d o

Análise e entendimento

1160

5. Ao nascermos, nossa mente é como um papel em branco. Explique essa afirmação, quem a formulou e a que corrente pertence.

6. Somente devemos deixar-nos persuadir pela evidência de nossa razão. Comente essa frase.

Conversa filosófica

2 . Raz~ . o ou experiência

7. De que maneira Kant resolve o impasse criado

por racionalistas e empiristas?

"Penso, logo existo." Esse conhecimento a que chegou Descartes em suas Meditações está fundado na razão ou na experiência? Reúna-se com colegas para debater esse tema.

POSSIBILIDADES

O que podemos conhecer'?

Vejamos por último uma das mais importantes questões da gno s iologia : somos capazes de conhecer a verdade? É possível ao sujeito apreender o objeto? Afinal , quais são as possibilidades do conhecimento humano? As respostas dadas a essas questões levaram ao surgimento de duas correntes básicas e antagônicas na história da filosofia. Uma é o ce t icismo , que diagnostica a impossibilidade de conhecermos a verdade . A outra é o dogma t ismo , que d e fende a possibilidade de conhecermos a v erdade . Mas o que queremos dizer por v erdade? Que verdade é essa da qual tratam tantos pensadores? A palavra ve rd ade tem o sentido básico de uma cor-

respondência

lidade que se quer conhecer ou e x pressar . É o mes- mo que conhe c im en to ver d a d e i r o . No entanto , quando os di v ersos filósofos que tratam da temática do conhecimento falam em " co- nhecer a verdade " estão se refer i ndo não só a esse sentido básico, mas também - e principalmente - à ideia de conhecer como o objeto é em sua e s sência , ou seja, sua real id a d e i n trín s eca. T rata-se de co- nhecer o se r, a realidade essencial e meta física das coisas (conforme estudamos no capítulo 5) . Se , por e x emplo , um pássaro parece azul para algumas pe s soas e verde-azulado para outras , qual será a cor verdad e ira desse pássaro? Será possí v el

entre o que se pensa ou se diz e a rea-

conhecer a v erdade?

Vejamos, ent ã o, algumas das respostas dadas a essa pergunta . Destacaremos, além das correntes do ceticismo e do dogmatismo , uma t erceira posição , o criti c ismo , que tenta s uperar o impasse c r iado por essas po s ições antagônicas.

o violinista verd e ( 1923-1 9 24) - Marc C hagall. A relatividad e d a e xp e ri ê ncia sensori a l: c om o ex plicam

diversos estudiosos, a p e r ce pç ã o d a s cores não é ape n a s um

f e nômeno físico e neurológi co, mas tamb é m cultural.

Dogmatismo

U ma d outri n a é dogmática quando, como disse -

m o s, defende a possi b il i dade de atingirmos a verda-

d

e. E ssa i nt erpret ação pode segu ir d u as variantes:

dogmatismo ingênuo - ten d ênc i a predomi- nante no se n so com u m, co nf ia pl enamente nas possibilid a d es d o n osso co nhecim ento. Não vê proble ma n a re l ação s uj e i to c o nhe ce d or e o bj e t o conhecid o . Crê q u e, se m grande s dif ic u l d a d es, perceb e m os o m u n d o ta l qu a l e l e é;

do

gm atismo crítico - te nd ê nci a q u e defen d e

n o ssa

c a p ac i dade de conhecer a verdade me-

di

a nt e u m esforço conjugado d e n ossos sen t idos

e

d e n ossa i n tel i gência. Ass im , c o n fia que, po r

m

e i o d e u m trabalho metódico , rac i onal e cientí -

fi c o , o ser humano torna - se capaz de conhecer a

r eal id a d e do mundo.

Ceticismo

U m a d outrina é cética quando duvida o u nega a

p ossi bili da d e de con h ecermos a ve rd a d e. Essa inter-

pretaç ão t a mb ém pode seg u i r d u as ve rt entes básicas, uma ab so lut a e o u tra r e l ativa. Vejamos cada u ma.

Ceticismo absoluto

Muitos con si d eram o fi ló s ofo gr eg o Gó r gia s

( c . 485-380 a. C) o pai do ce tic ismo ab so lut o. Ele d e -

f e ndi a as s eg uin tes i d e i as: o ser não ex i s t e; se existisse, não pod e r íamos conhec ê -l o ; e se p ud éssemos conhe - cê-l o, n ã o p o d eríamos comun i cá - lo aos o u t r os. Outros

es tudio sos apontam o filósofo grego P i rro (365 - 275

a.C) co m o o fundador do ceticismo abso l uto . Por isso ,

c h a m a - se muitas v ezes o ceticismo de pirronismo . Pirr o afirmava ser impossível ao ser humano conhe - cer a verd ade de v ido a duas fontes principais de erro:

os s e ntidos - dizia o filósofo que n ossos co n heci -

m

e n tos são provenientes dos sentidos ( visão , au-

di

ção , o l fato , tato , paladar) , mas estes não são dig -

n os d e confiança, pois po d em n os i n duzir ao erro ;

a razão - ex pl icava Pirro q u e as diferen t es e co n-

tradit ó ri as o pi niões man if es t a d as pelas pess oas

s

obre os m es m os ass u ntos revelam os lim ites de

nossa inteli gênc i a. Jama i s a l ca nçar e m os cer t e z a de qualqu e r co i sa .

O

cet ici smo absoluto despe rt ou mu ita oposição.

S

e us críticos consi d eram - no um a dout r in a ra d ical,

e

st é ril e co n trad i tória . Ra di cal po r que nega tota l-

m e nt e a p ossibi l idade de con h ece r . Estéri l porque

n ão l eva a nada. Contraditória porque, ao dizer que

1611

Capítulo 9 O co nhecimento

na d a é verdadeiro, acaba afirma n do que pe l o m e n os ex i s t e algo de verdadeiro, ist o é, o co n hecimento d e

q u e nada é verdadeiro .

Ceticismo relativo

.

o ce ti c i smo re l at i vo , como o pr ó pr io no m e di z, con s ist e em negar apenas pa r cia lm e n te n ossa ca pac i - dade d e conh ecer a verda d e . O u seja, apr ese n ta um a posição m o d era d a em re la ç ão às possibilid a d e s d e conhe c im e nt o se com p ara do a o c etic i smo a bs o luto . Entr e as d outrinas q ue m a n i f e sta m u m ce tic i s m o

r e la t i vo, d est acamos as seg ui ntes:

• subjetivismo - co n s i dera o con h ecime n to um a

re l ação p u ramente subjetiva e pessoal e n t r e o

su j e i to e a realidade perceb id a. O conhecimen -

to

l imita-se às ideias e representações e l aboradas

pe

l o sujeito pensante , sendo im p ossíve l alcançar

a objetividade. O subjet i v ismo nasce com o pe n-

sam ento do grego Protágoras, sofista do séc u lo

V a.C, que dizia que " o home m é a medida de

todas as coisas ", o u seja , a ver d ade é uma cons -

t r u ção h umana , e l a não está n as coisas;

• relativismo - entende qu e não ex i s t e m verdades

ab sol u tas, mas apenas verda d es relativas , qu e

t ê m u ma valida d e limita d a a u m certo tempo, a

um d e t ermi n ado espaço so cial, en fim, a um co n-

te x to hist ór i co etc . ;

• probabilismo - p ropõe qu e no s s o c o nh ec ime n-

t o é in capa z de a ti ng i r a ce r tez a pl e n a; o que p o -

d e m os a l cançar é uma ver d a d e provável. Essa

p r o b abilidade pode ser d i g n a d e mai or o u me-

((ci

/l Ij! pus une (I(/llfll C

I sto não é uma maçã ( 1 964 ) - René Magr i t t e (Co l eção

pa r tic ul ar).

a coisa em s i .

Para os re l ativ i stas , a im age m d a co i sa n ão retrata

Unidade 2 Nós e o mundo

1162

nor cre d ibilidade,

certeza completa, da verdade absoluta;

mas nunca chegará ao nív e l da

• pr agm a t i s mo - apresenta uma concepção dos humanos como seres práticos, ativos , e não ape- nas como seres pensantes. Por isso, abandonam

a pretensão de alcan ç ar a v erdade , entendida

como a correspondência entre o pensamento e

a realidade. Para o pragmatismo, o conceito de

ve r dade deve ser outro : v erdadeiro é aquilo que

é útil , que dá certo, que serve aos i n t e resses das pessoas e m sua v ida prática . Nesse sentido, a ve r dade não seria a correspondência do pensa- mento com o objeto, mas a correspondência do

pensamento

com o objeti v o a ser atingido.

CONEXÕES

2. Relacione a capacidade humana de conhe- cer a v erdade em relação às seguintes áreas:

física , história, política, comportamento e ar- tes. Em sua opinião, cada uma dessas áreas se identifica mais com qual corrente: dog- mática , cética, r elativista, probabilista etc.? Justifique com e x empl o s .

Análise e entendimento

8. Que relação s e pode estab e lecer en t re v erda - de (ou conh e cimen t o v e r dadeiro) e represen- tação?

9. Para o filósofo francê s Jacques Maritain (1882- -1973), aqueles que duvidam plenamente d a possib i lidade de conhecer "s ó poderiam f iloso -

Conversa filosófica

3. S ens o comum e o c on h e cim ent o

A n oção de c on he c i mento do senso c omum

é , em geral, realista e dogmátic a , embo r a as

p e ssoas não se deem conta disso. V oc ê con- corda com essa afir m a ç ão? Fundamente s u a opinião. Depo i s reúna-se com colegas para debater esse assunto.

Para pensar

Criticismo

o critici s mo - teoria filosófica d e s e n v ol v ida por K ant - rep res ent a uma tenta t i va de sup eraç ão do impa s se criado entre o ceticismo e o d o gm atis- mo, assim como o f oi entre o e r r i p irismo e o racio- nalismo. Tal como o dogmat is m o , a c r edita na

po s sibilidade do conhecim e nto , mas se indaga sobre as reais condi ç õ es na s quais esse conheci- mento seri a pos s í v el. T r ata-se d e uma posição cr í - ti ca diante da possibilidad e de conhecer. O resultado de s sa postura le v a a uma distinçã o entre o que o nosso entendimento pode conhec e r e o que não pode. Ou s eja , o criticismo admit e a possibilidade de conhece r, mas esse conhecimen- to é limitado e ocorre sob condições específ icas , apresentadas por Kant na obra Críti ca d a razão pu r a (conforme v eremos no capítulo 14). Depoi s de Kant , mu ito s outros pen s ado re s

s e

d e b r uçaram sobre o problema do conhecimento ,

chegando a po s içõe s d iv e r s a s.

p e rceber , da mesma forma qu e nos outros t e mas

que e s tudamos antes, a questão do conh e cimento é mais um assunto que escapa a uma pala v r a f i nal e definitiva.

C omo você po de

f ar g u ar dando um si lên c io absoluto - mesmo

no in t er i o r de su a s a lmas " (In trod u ç ão geral à

filo s of ia , p. 1 2 0 ) . Comente e ssa afirmação.

10. Em que s entido o criticismo rep r e sentou uma

t enta t i v a

pelo ceticismo e pelo dogrnatismo?

de supera ç ão do impasse criado

4. Fa ls a ou m e nt iro s a

Consider a ndo o que voc ê aprendeu neste capí t ulo, pesqu i se em r e v istas , jornais, li v ros ou n a i n te rnet p e lo men o s duas frases: uma que v oc ê consid e ra fa l sa; outra que v ocê a c ha mentirosa. Depois apres e n t e-as a co l egas , jus- ti f icando p or qu e , para v ocê , cada uma delas não seria ver d a deira .

Os t extos que seguem t ra t am do tema da origem do conhecimen t o . L e ia - o s at entamen t e e re s ponda às qu e stões.

1 . A luz da razão

A c e rt e za d e pensar

1631

Capítulo 9 O conhecimento

"Assim, porque os nossos s e ntidos nos enganam às vezes, quis supor que não havia coisa alguma

] E , enf i m, c onsiderando que todos os m e smos pensa-

m entos qu e t em os qua nd o d e sp e rtos n os podem também oco r rer q ua n do do r m i m os, s em q u e haj a

n e nh u m, nes se caso, qu e seja ver d adeiro, r e so l vi fa z e r de c o nta que as coi sas q ue a t é en tã o hav i a m entr ado n o m e u espír it o não e r a m ma i s v erd a dei ras que as i l u sões de meu s s o nhos. Mas , log o e m

que fosse tal como eles nos fazem imaginar . [

seguida, per c ebi qu e , enq u a n to e u qu e r ia assim pensa r q u e tud o er a fa ls o , ser i a n ecessá ri o q u e e u, que pensava , fo s s e a l g uma coi s a. E , notando que esta verdad e : eu penso, logo existo era tão firme

e tão ce rt a qu e t odas as ma i s extrava g ant es s u posições do s cét i cos não ser i am capaz es d e a aba l a r ,

j u l g u e i qu e p od i a ace i tá- I a , sem esc r úpu l o, co m o o p r im e iro p r i nc ípi o da filosofia q u e p roc ur ava.

A

s u bs t ã nci a p e n s ante

D

epois, exa m inando com atenção o que e u era , e vendo que podia supor que não ti n h a corpo

a l gum e q ue n ão h av i a qu alq u er mundo, ou q u a l que r l ugar ond e e u ex i stisse, mas qu e n em por

i sso po d ia su por que n ã o e x i s ti a; e q ue, ao con t rá ri o , pe l o fa t o

d ar d a v e r dad e das o utras co i sas seg ui a -se m ui ev idente e m ui ce r t amente qu e e u exist i a; [

]

compr ee nd i por aí que era uma sub s tãnc i a cu j a es s ê nc i a ou natu r eza con s iste ape n as no pen s ar,

e qu e, para ser , n ão necessita d e n e nhum l ug a r , nem depen de de q u a l quer c oisa mater i a l . De

so r te q u e ess e e u , isto é , a a l m a , p ela qu a l sou o q ue sou , é i nteira men te d i st i nt a do corpo e ,

m es m o, qu e é m a i s fáci l de con h ece r d o q ue e l e, e, ai n da q u e e s te na da f oss e , e l a nã o de i xari a

de s e r t u do o que é.

me sm o d e eu p en sa r e m d u v i-

A id e i a d e D e us

Mas o q u e l e va mu i tos a s e persuadi r e m de que há d i f i culda de em con h ecer

a D eus e mesmo

ta mbé m e m conhece r o q ue é sua a l m a é o fato d e

n un ca e l evarem o es p íri to a l é m da s co i sas

s

e n síve i s e de es t arem de ta l modo a co st um ados a nada

co n sid e r a r senão i m a gin a nd o, q u e

é

um a fo r ma d e pen sa r par t icu l a r às coisas m a teri a is, qu e

tudo q u anto n ão é i mag i náv e l I hes

p

a re c e n ão ser in te l i g í v el . E isto

é assaz m a n i f e st o pe l o fato de o s próprio s fi l ó sofos terem por

m áx i ma, n as esc ol as, q ue n a da h á n o ent en d i men t o q ue não h a j a est a d o pr i meiram e nte n os

sentidos, o nd e todav i a é c e r to que as id ei as de D eus e da a l ma j amais estiv e ram. E me parece

q u e todos os que que r e m usar a imag i nação para co m preendê -Ias procede m do m es mo modo

que se, para ou v ir os sons ou sentir os odores , quisessem ser v ir-se dos olhos; exc e to com esta

d i ferença ainda: que o sentido da v ista não nos garante menos a v e rdade de seus objetos do

que os do olfato ou da audição; ao passo que a nossa i magi n ação ou os nossos se n t i dos nun ca

p oder i a m a ss eg u rar- n os de qualq u e r co i sa, se o nosso entendimento n ão i nt erv ie sse . "

DESCARTES, Discurso do método, q ua r t a pa r te; i nt ertí t ul os c ri ados pel os au t ores .

2. As ideias são cópias das impressões e sensações

] quando analisamos n ossos pensamentos ou ideias, por mais complexos e sub l imes que se -

jam, sempre descobrimos que se resolvem em ideias simples que são cópias de uma sensação

ou sent i mento anterior. Mesmo as ide i as que , à primeira vista, parecem mais afastadas dessa

"l

or

i ge m m os t ram, a um exa m e mais ate nt o, ser derivadas dela. A i deia de D e u s, corre s p o n den do

a

um Ser i nfi nita m e nt e

in te li gen t e, sábio e bom,

su rg e das refl ex õe s qu e f aze mo s sobre as

o

p erações d e n ossa pr óp r ia m ente, a ument a n do s e m l imites essa s q ua lidad es d e b ond ade e

sab edo r i a . P odemo s p r ossegu i r e sse ex ame tanto qua n to dese j armo s , e sem p r e de s cobr i r e mos

qu e to d a s as idei as qu e e x amin am os são copi a d as de um a impr e ssão sem e lh a nte. Aqu e l e s que

a f i rm a m q ue essa p o sição n ão é un i ve rs a l m en t e v e r d a d eira , nem s e m

exc e çõe s , tê m ape n a s

um ú n ico e b asta nt e fác i l m étodo d e re fu tá-I a : apresenta r uma i de ia q u e e m sua o pi n i ão não

se j a der i vada dessa fo nt e. C aberá então a nós , se qu i se r mos susten t ar n ossa doutrina , i nd i car a

impressão ou percepção viva que lhe corresponda."

HUME, Investiga ç ão acerca do entendimento humano, seção li, p. 14.

Unidade 2 Nós e o mundo

1164

3. Da distinção entre conhecimento puro e empírico

A s fon te s do co n h e c i m e n to

"Não h á dúvida de que todo o n osso con h ec i men t o começa com a experiência [

] . Mas em-

bora todo o nosso conhecimento comece com a experiência, nem por isso todo ~ I e se or i gina justamente da experiência. P o i s poder i a bem acontecer que mesmo o nosso conhec i mento de experiê n cia seja um com p osto daqui l o que recebemos por impressões e daqui l o q u e a nossa própria facu l dade de con h e c ime n to (apenas provocada por impressões sensí v eis) fornece de _ s i mesma, cu j o acrésc i mo não d i stinguimos daq u ela matéria - prima antes que um longo exercíc i o nos tenha c h amado a atenção para e l e e nos tenha tornado aptos a abstraí - Io.

Os conh e cimentos a priori e a po s teriori

P ortan t o, é uma questão que requer pelo menos uma i nv estigação mais pormenorizada e q u e

não pode ser logo de s pach a da de v ido aos ares que ostenta , a saber, se há um ta l conhecimento

i ndependente da e x periênc i a e mesmo de todas as impressões dos sentidos . Ta i s conhecimen-

to

ou seja , na e x periência.

s de n om i nam - s e a priori e distingu e m - se dos e mpír i cos, q u e possuem suas fontes a posteriori,

[

daquela e x periência, mas absolutamente independente de t oda a e x periência . Opõem-se os

c onhecimento s empír i cos ou aqueles que são possí v eis apenas a posteri ori, isto é, por ex- per i ênc i a . "

] por conh e cimentos a priori e ntenderemos não os que ocorrem independente desta ou

KANT, Crí t ic a d a razão p ur a , Introdução; inte r títulos c r iad o s pe l o s a u tores .

1. Ident i fique a posição de cada um desse s três filósofos no que se refere à origem do conheci- mento. Justif i que sua resposta .

2. Como Desc a rt e s r e fu t a o emp i rismo usando como argumento a ideia de Deus e da alma?

3. De acordo com Hume, como d e s e n v ol ve mos a ideia d e D e us, r e futando o argumento de Des - cartes?

4. O que são, de acordo com Kan t, conhe c imentos a pr iori e conhec i mentos a posteriori? Qual

a sua origem? Procure e x emplos .

S. Após o ent e ndim e nto des s es três te x tos , o que v ocê pensa sobre a or i gem do conhec i men- to? Qual argumentação v ocê considerou ma i s con v inc e nt e? Discu t a com colegas e com o professor ou professora .