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CAPTULO 01 Como aprender a usar um corpo que no nosso?

? Toda vez que escrevo com pincel, caneta e papel, etc. toda vez que escrevo delato que este corpo no meu e nem sou eu quem escreve. Se fosse eu e fosse meu, ningum saberia uma linha sequer. Prazer no teria em ver os rostos na rua e no me reconhecer. Sou eu quem anda neles na rua. Meu mundo seria s cor, sem trao. Abrao isso, pinto, mas esse corpo no meu.

CAPTULO 03 Sempre dilogo. Sempre dialtica. No posso ser acusado de idiota. O que me conforta saber que ao mesmo tempo sou e no tenho eu. Sou homem onde quer que eu v. Sou homem com todas as orelhas, narizes e bocas. Nasci, morri cada dia um pouco mais e, como todos, tenho uma data definitiva, uma validade. E ela s ser transposta pelo que deixo e partilho, o que dei. Toda minha vida necessidade de estar viva e incapacidade de estar cheia. Sou homem em todo o prazer da minha finitude e vivo, sobrevivo e super-vivo no convvio com outros, com todos.

CAPTULO 04 (esse um trecho de um artigo acadmico) Comearei com a palavra experincia. Poderamos dizer, de incio, que a experincia , em espanhol, o que nos passa. Em portugus se diria que a experincia o que nos acontece; em francs a experincia seria ce que nous arrive; em italiano, quello che nos succede ou quello che nos accade; em ingls, that what is happening to us; em alemo, was mir passiert. A experincia o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca. No o que se passa, no o que acontece, ou o que toca. A informao no experincia. E mais, a informao no deixa lugar para a experincia, ela quase o contrrio da experincia, quase uma antiexperincia. O sujeito da informao sabe muitas coisas, passa seu tempo buscando informao, porm, com essa obsesso pela informao e por estar informado, o que consegue que nada lhe acontea.

CAPTULO 05 Tenho em mim todos os homens do mundo, todos os sonhos e ganhos de todos os homens do mundo. Sou crcere e encarcerado, sou limite e vo, sou a infinitude do sentido parco, do parco espectro cromtico que atinjo. Sou tambm filho das convenes, sou perseguido pelo pai, montado pela me. Sou produto final e inacabado, sou mais vcuo. A liberdade absoluta, falsa, no me acomete. Sou livre na medida em que meu corpo pede. E minha

liberdade se resume a poder escolher quais amarras me seguram a cada passo. E ainda assim, por deus! Meu corpo do homem e o homem sim pode ser chamado eu.