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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE PONTA GROSSA SETOR DE CIÊNCIAS SOCIAIS E APLICADAS DEPARTAMENTO DE SERVIÇO SOCIAL

PRISCILA DE SOUZA

A DOUTRINA DE PROTEÇÃO INTEGRAL E A EFETIVIDADE DAS PRÁTICAS INSTITUCIONAIS PARA ADOLESCENTES EM CONFLITO COM A LEI EM PONTA GROSSA UMA AVALIAÇÃO DO PROGRAMA DE EXECUÇÃO DE MEDIDAS SÓCIO - EDUCATIVAS EM MEIO ABERTO, EM UM ANO DE ATENDIMENTO.

PONTA GROSSA

2004

PRISCILA DE SOUZA

A DOUTRINA DE PROTEÇÃO INTEGRAL E A EFETIVIDADE DAS PRÁTICAS INSTITUCIONAIS PARA ADOLESCENTES EM CONFLITO COM A LEI EM PONTA GROSSA UMA AVALIAÇÃO DO PROGRAMA DE EXECUÇÃO DE MEDIDAS SÓCIO - EDUCATIVAS EM MEIO ABERTO, EM UM ANO DE ATENDIMENTO.

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado como um dos requisitos para a obtenção do grau de Assistente Social, ao Departamento de Serviço Social, Setor de Ciências Sociais Aplicadas da Universidade Estadual de Ponta Grossa.

Orientador: Prof. ª Eulália Breus Rodrigues Silva.

PONTA GROSSA

2004

UNIVERSIDADE ESTADUAL DE PONTA GROSSA SETOR DE CIÊNCIAS SOCIAIS E APLICADAS DEPARTAMENTO DE SERVIÇO SOCIAL

ATA DE AVALIAÇÃO DE T.C.C.

do mês de novembro de dois mil e quatro, nas dependências do

Campus Central da Universidade Estadual de Ponta Grossa, reuniu-se a banca Examinadora composta pelos professores: Eulália Breus Rodrigues Silva (Presidente), Cleide Lavoratti e Angela Maria Giovanetti Vaz (Membros), para análise do Trabalho de Conclusão de Curso, sob o título: A Doutrina De Proteção Integral e a Efetividade das Práticas Institucionais para adolescentes em Conflito com a Lei em Ponta Grossa uma Avaliação do Programa de Execução de Medidas Sócio - Educativas em Meio Aberto, em um ano de atendimento, elaborado por Priscila de Souza, concluinte do Curso de Serviço Social. Aberta a sessão, a autora teve vinte minutos para a apresentação de seu trabalho sendo, posteriormente, arguida pelos integrantes da Banca. Após os procedimentos de avaliação, chegou-se aos seguintes resultados:

Aos

dias

Eulália Breus Rodrigues Silva (Presidente)

nota:

Cleide Lavoratti

(Membro)

nota:

Angela Maria Giovanetti Vaz

(Membro)

nota:

Nada mais

havendo a tratar, encerrou-se a presente sessão, da qua lavrou-se a presente ata

que vai assinada por todos os membros da Banca Examinadora.

O trabalho foi considerado aprovado com a nota final

Ponta Grossa,

de

de 2004.

Presidente

Membro

Membro

Observações:

DEDICATÓRIA

Dedico este trabalho aos adolescentes que por

estarem em conflito com a lei tive a oportunidade

de

conhecer

e

atender

em

medida

sócio

educativa de

LA

e PSC,

foram vocês que me

motivaram a escolher o tema deste trabalho e

também são vocês que motivam estudantes e

profissionais

na

luta

por

uma

infância

e

adolescência respeitada integralmente em seus

direitos para que não se tornem adultos sem

perspectivas e sem dignidade.

Dedico também à minha irmã Bianca que com 10

anos de idade já tem uma bela visão da realidade.

AGRADECIMENTO

O mérito da realização deste trabalho foi possível pela presença de DEUS,

em todos os momentos, pois me deu a vida, saúde, determinação e coragem, e

ainda, proporcionou que tantas pessoas contribuíssem que não será possível

numerar todas.

Meus pais Sidon e Berenice, cada um de seu jeito me ajudou com carinho,

amor e dedicação, sem vocês eu não teria chegado até aqui, pois me ensinaram a

ser quem sou hoje, obrigado.

Meus irmão Júnior, Ricardo e Bianca que me dão muito carinho e amor.

Os amigos e familiares, todos que direta ou indiretamente contribuíram para

que eu me sentisse bem neste período, em especial a Joice e a Márcia que oraram

pela realização deste trabalho e são minhas grandes amigas.

As amigas da turma, em especial a Kika, que compartilhou de tantas coisas

comigo que é difícil enumerar, a Dionéia e a Eloisa que me fizeram rir e brincar nos

horários de intervalo das aulas, e ainda, a Ana Paula e a Alessandra que fizeram

estágio comigo e compartilharam de tantas angústias, enfim, à turma do 4º ano de

Serviço Social, pois todos de alguma forma contribuíram para a minha formação.

Aos sujeitos da pesquisa que contribuíram para a construção teórica que

apresento, em especial a toda a equipe do PEMSE.

A Assistente Social Angela Vaz, por todo o conhecimento compartilhado.

A Doutora Lúcia Cortez que começou a me orientar e muito me ensinou.

A Professora, Orientadora, Mestra e Amiga Eulália Breus, que além de me

ensinar me ouviu em todas as minhas angústias e me incentivou.

RESUMO

A presente pesquisa teve como objetivo realizar uma análise sobre a efetividade das práticas

institucionais de atendimento das medidas sócio – educativas, a partir da Doutrina de Proteção Integral para adolescentes que praticaram ato infracional e são atendidos em meio aberto na comarca

de

Ponta Grossa, em um ano de atendimento do PEMSE. Assim, foi buscado em várias bibliografias

o

histórico da mudança no ordenamento jurídico brasileiro para atendimento de crianças e

adolescentes, que enfrentou três fases: a primeira, da colonização do Brasil e independência, que corresponde à fase da exploração de crianças abandonadas em Portugal e trazidas para a colônia, juntamente com escravos que ficavam na dependência da caridade da igreja; a segunda fase é a do primeiro e segundo código de menores, que foi quando se consolidaram leis próprias para os “menores” voltadas para a criminalização das crianças e adolescentes pobres, e também, houve a criação de instituições repressoras que no final desta fase serão alvo de discussões para a transformação da lei. Enfim, a fase atual com um Estatuto bem formulado, mas com práticas institucionais que ainda precisão ser repensadas. Para isso, foi apresentada brevemente a discussão sobre o ato infracional e as medidas sócio - educativas previstas no ECA, as quais, atualmente são alvo de debate na sociedade brasileira, principalmente as questões da redução da idade penal e, do aumento da medida de privação de liberdade que dão o respaldo para o entendimento das práticas institucionais para atendimento ao adolescente em conflito com a lei na comarca de Ponta Grossa

que ainda, dão a visão geral para a avaliação das práticas realizadas pelo PEMSE. E para esta avaliação, utilizou-se de coleta de dados nas instituições de atendimento que disponibilizaram todos

os dados possíveis, tanto numéricos quanto de opinião e na relação com os sujeitos significativos que

atuam na área pesquisada e também com os adolescentes que respondem determinações judiciais, e assim foi feita a análise quantitativa e qualitativa dos dados, que apresentaram a relevância do atendimento em meio aberto, que esta previsto no ECA, como a principal maneira para ressocializar o adolescente na vida familiar e comunitária, portanto, como as respostas encontradas revelam que este atendimento não tem sido efetivo, existe a necessidade de repensar e até mesmo se posicionar

frente o atendimento realizado para que seja cumprida a lei.

Palavras Chaves: Adolescentes, atos infracionais, práticas institucionais, PEMSE (Programa de Execução de Medidas Sócio – Educativas) e ECA (Estatuto da Criança e do adolescente).

SUMÁRIO

CONSIDERAÇÕES INICIAIS

8

CAPÍTULO I – HISTÓRICO DE MUDANÇAS NO ORDENAMENTO JURÍDICO

NACIONAL PARA O ATENDIMENTO DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES

14

1.1

INÍCIO DA DOUTRINA PENAL PARA “MENORES”

15

1.1.2 Contexto que consolida o primeiro Código de “Menores”

23

1.1.3 Contexto de busca e consolidação do segundo Código de “Menores”

34

1.1.4 Em vigor o Estatuto da Criança e do Adolescente e a Doutrina de Proteção

39

Integral

CAPÍTULO II – O ATO INFRACIONAL E AS MEDIDAS SÓCIO – EDUCATIVAS

PREVISTOS NO ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE

45

2.1 UM DEBATE EM QUESTÃO NA SOCIEDADE BRASILEIRA

45

2.2 AS PRÁTICAS INSTITUCIONAIS PARA ATENDIMENTO AO ADOLESCENTE

EM CONFLITO COM A LEI NA COMARCA DE PONTA GROSSA

2.2.1 Caracterização do Programa de Execução de Medidas Sócio –educativas –

86

PEMSE, em meio aberto

61

CAPÍTULO III – AVALIAÇÃO DO ATENDIMENTO PARA ADOLESCENTES QUE PRATICARAM ATOS INFRACIONAIS E QUE CUMPREM MEDIDAS SÓCIO – EDUCATIVAS EM MEIO ABERTO NO PEMSE NA COMARCA DE PONTA

GROSSA ATENDIDOS NO PROGRAMA

 

93

3.1 PERFIL

DO

PEMSE

E

DOS

ADOLESCENTES

ATENDIDOS

NO

PROGRAMA

93

3.1.2

Análise das entrevistas

 

109

CONSIDERAÇÕES FINAIS

125

REFERENCIAS

129

ANEXOS

136

TABELAS E GRÁFICOS

TABELA 1 – ATIVIDADES DESENVOLVIDAS PELA EQUIPE DO SAI

68 e 69

TABELA 2 – PROCESSOS ATENDIDOS PELO SAI

70

TABELA 3 – MEDIDAS PROTETIVAS APLIACADAS PELO SAI

71

TABELA 4 – NÚMERO DE ATENDIMENTOS POR IDADE (SAS)

77

– ESTUDANDO QUANDO CHEGARAM AO SAS

TABELA

5

NÚMERO

DE

ADOLESCENTES

QUE

ESTAVAM

OU

NÃO

77

TABELA 6 – NÚMERO DE ADOLESCENTES USUÁRIOS DE DROGAS (SAS)

78

TABELA 7 – ATOS INFRACIONAIS (SAS)

 

79

GRÁFICO

1

ATENDIMENTO

DAS

MEDIDAS

SÓCIO

EDUCATIVAS

(PEMSE)

94

GRÁFICO 2 – PRCESSOS ANALISADOS (PEMSE)

 

96

GRÁFICO 3 – FAIXA ETÁRIA (PERFIL)

97

GRÁFICO 4 – ESCOLARIDADE DOS ADOLESCENTES QUE NÃO ESTUDAM

(PERFIL)

98

GRÁFICO

5

ESCOLARIDADE

DOS

ADOLESCENTES

QUE

ESTUDAM

(PEFIL)

98

GRÁFICO 6 – RELAÇÃO CONJUNGAL (PERFIL)

 

99

GRÁFICO 7 – RENDA FAMILIAR (PERFIL)

 

100

GRÁFICO 8 – NÚMERO DE MEMBROS POR FAMÍLIA (PERFIL)

 

101

GRÁFICO 9 – SITUAÇÃO PROFISSIONAL (PERFIL)

102

GRÁFICO 10 – CONSUMO DE DROGAS (PERFIL)

103

GRÁFICO 11 – CONSUMO DE ÁLCOOL (PERFIL)

104

GRÁFICO 12 – ATIVIDADES DE LAZER (PERFIL)

105

GRÁFICO 13 – ATOS INFRACIONAIS (PERFIL)

106

CONSIDERAÇÕES INICIAIS

O tema apresentado no presente trabalho foi estudado e pesquisado devido

questionamentos, angústias pessoais e dúvidas que surgiram, a partir do estágio

curricular realizado no PEMSE (Programa de Execução de Medidas Sócio –

Educativas), em meio aberto, na comarca de Ponta Grossa.

A experiência de estágio foi extremamente importante, pois, a inserção da

pesquisadora no programa enquanto estágio de Serviço Social aconteceu no mesmo

período em que deram início as atividades do programa. E desta maneira, pode-se

dizer que “[

]

as inquietações que nos levam ao desenvolvimento de uma pesquisa

nascem no universo do cotidiano.” (MINAYO, 1994, p.64).

Neste sentido, no convívio diário junto aos adolescentes atendidos pelo

programa e na busca por uma prática que realmente atendesse ao que está previsto

no ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), houve a necessidade de fazer uma

avaliação da prática. Sendo que, o programa existe no Município a mais de um ano

e este atende especificamente às medidas sócio - educativas realizadas em meio

aberto, ou seja, as medidas de: LA (Liberdade Assistida), PSC (Prestação de

Serviço

à

Comunidade)

e

ORD

(Obrigação

de

Reparar

o

Dano),

que

são

determinadas para os adolescentes autores de ato infracional pela Autoridade

Judiciária.

Para isso, buscou-se um aprofundamento teórico, com base em autores que

discutem a questão do adolescente autor de ato infracional e, a mudança no

ordenamento jurídico brasileiro para atendimento da criança e do adolescente, a

qual foi historicamente construída.

O Objetivo deste trabalho foi realizar uma análise sobre a efetividade das

práticas institucionais de atendimento das medidas sócio – educativas, a partir da

Doutrina de Proteção Integral para adolescentes com prática de ato infracional

atendidos em meio aberto na comarca de Ponta Grossa em 2003 e 2004.

Para tanto, buscou-se compreender a Doutrina de Proteção Integral inscrita

no ECA, e o processo de luta contra a criminalização da infância e adolescência

pobre brasileira percebendo como está previsto o tratamento do adolescente que

comete ato infracional e como se dão as práticas institucionais de aplicação das

medidas sócio – educativas para adolescente com prática de ato infracional em

Ponta Grossa, dando ênfase àquelas medidas aplicadas em meio aberto, pelo

PEMSE.

Tendo em vista estes objetivos, o primeiro capítulo deste trabalho, conta o

histórico da mudança no ordenamento jurídico brasileiro para atendimento da

criança e do adolescente e o processo de luta contra a criminalização da infância e

adolescência pobre brasileira que dão o respaldo para o entendimento das práticas

institucionais na atualidade.

O segundo capítulo, apresenta, primeiramente, a discussão sobre o ato

infracional e as medidas sócio - educativas previstas no ECA, as quais atualmente

são alvo de debate na sociedade brasileira, principalmente as questões da redução

da idade penal e do aumento da medida de privação de liberdade. Com base na

discussão de vários autores argumenta-se brevemente sobre estas questões, e

ainda, na segunda parte deste capítulo, são apresentadas as práticas institucionais

para atendimento ao adolescente em conflito com a lei na comarca de Ponta Grossa.

O terceiro capítulo trata da avaliação das práticas realizadas pelo PEMSE.

Para tanto, a metodologia utilizada para a pesquisa tem características qualitativas,

devido à complexidade do tema e a sua relação direta com o social, porém,

considera-se a pesquisa quantitativa, pois, os dados estatísticos são apresentados

para demonstrar a dimensão do atendimento do adolescente com prática de ato

infracional em Ponta Grossa, demonstrando o perfil do PEMSE e dos adolescentes

atendidos pelo Programa. Sendo que, de acordo com Richardson (1999), considera-

se que um método não exclui o outro, mas se complementam na relação feita pelo

pesquisador.

Para a coleta e análise dos dados utilizou-se a Revisão Bibliográfica, tomando

por base que a presente pesquisa é também teórica - conceitual, construída a partir

de um quadro teórico, na relação com os sujeitos e na consulta às bibliografias

existentes sobre o tema.

A pesquisa de campo foi realizada em duas etapas, primeiramente foi

aplicado um questionário com questões abertas, pois, entende-se por questionário, o

“[

]

conjunto de questões pré - elaboradas, sistemática e seqüencialmente dispostas

em ítens que constituem o tema da pesquisa, com o objetivo de suscitar dos

informantes repostas por escrito ou verbalmente [

]”

(CHIZZOTTI, 1998, p. 55).

Realizou-se esta técnica junto a representantes das instituições que atendem

adolescentes com prática de atos infracionais, escolhidos a partir da visita nos locais

que foram previamente programadas através do contato telefônico. As instituições

visitadas foram: a unidade do SAS (Serviço de Atendimento Social), a Casa

Sebastião Osório Martins, onde funciona o Programa de Semiliberdade, o SAI

(Serviço de Auxílio à Vara da Infância e Juventude), e a Central de Atendimento a

Criança e ao Adolescente.

Assim, estes sujeitos responderam livremente às questões propostas, sendo

que alguns responderam por escrito, com prazo para a devolução das respostas,

combinado entre pesquisador e sujeitos da pesquisa, e outros responderam em

forma de entrevista gravada e transcrita pela pesquisadora, e houve ainda, um caso

de reunião aberta em que toda a equipe de trabalho participou das respostas

livremente.

Estes

na

análise

das

respostas

serão

indicados

com algarismos

arábicos.

A segunda etapa da pesquisa de campo foi realizada no PEMSE, com os

profissionais e técnicos que atuam na execução das medidas sócio – educativas, e

com os adolescentes que cumprem as medidas sócio –educativas. Os profissionais

(duas Assistentes Sociais e uma Psicóloga), responderam ao questionário com

questões abertas, individualmente e serão indicados na análise das respostas, com

letras alfabéticas maiúsculas. Com os técnicos, as estagiárias de Serviços Social,

realizou-se uma reunião em que a observação participante foi utilizada como base

para

a

formulação

dos

dados,

educadoras sociais.

e

da

mesma

maneira,

foi

realizado

com as

A observação participante foi um instrumento utilizado em boa parte da

pesquisa, pois, o envolvimento do pesquisador com o grupo a ser pesquisado foi

“[

]

por inteiro em todas as dimensões de vida do grupo a ser estudado [

]”

(MINAYO, 1994, p. 60). Porém, com relação aos profissionais que atuam na área do

adolescente autor de ato infracional, teve-se apenas como prioridade à observação,

pois, existe “[

]

um distanciamento total de participação da vida do grupo.” (ibid,

idem).

Com os adolescentes que cumprem as medidas sócio – educativas no

PEMSE, em um primeiro momento procurou-se realizar uma avaliação, aproveitando

a própria reunião que o programa desenvolve com os adolescentes atendidos em

medida de LA, porém, os mesmos, não freqüentam com regularidade as reuniões

propostas, tendo em vista que estas são realizadas uma vez por mês, com uma

certa rotatividade, alterando o número e a diversidade de adolescentes em cada

mês.

Desta maneira, foram convidados os adolescentes para participarem da

reunião que normalmente acontece como parte do cumprimento da medida sócio –

educativa, mas, no dia marcado, 28 de setembro, compareceram dois adolescentes

e uma mãe de outro adolescente. Então, foi aplicados junto a eles, o questionário

com questões abertas, que foi respondido em forma de entrevista, sendo anotada as

respostas

imediatamente

pelo

pesquisador.

Da

mesma

maneira,

buscou-se

aleatoriamente, outro adolescente atendido em medida de PSC para se obter um

maior número de respostas para a avaliação do PEMSE. Estes na análise das

respostas, serão indicados por letras alfabéticas minúsculas.

As três categorias de sujeitos foram escolhidas com o intuito de dar rigor a

avaliação desenvolvida com relação às práticas institucionais de execução das

medidas sócio – educativas em meio aberto de Ponta Grossa.

O estudo documental

foi realizado a partir

de documentos, cadastros,

encaminhamentos e dados estatísticos coletados em fichas de levantamentos do

PEMSE; dados coletados nas visitas às instituições e em documentos escritos, leis e

projetos que embasam a prática profissional.

Portanto, entende-se que a presente pesquisa sobre as práticas institucionais

para adolescentes com práticas de ato infracional no Município, se faz necessário

para

a

compreensão

da

efetividade

dos

programas

que

atendem

estes

adolescentes, tendo em vista, o atendimento no PEMSE, que atende as medidas

sócio – educativas em meio aberto e que estas são enfatizadas no ECA como as

principais para a ressocialização do adolescente na vida familiar e comunitária.

Assim, a intenção é que este trabalho venha a contribuir para novas reflexões e

discussões sobre o tema, que é pertinente para o avanço no atendimento e

possíveis prevenções na prática de ato infracional realizada por adolescentes,

entendendo que estes estão em desenvolvimento físico e mental, e são sujeitos de

direitos, com prioridade absoluta, expressos na lei.

CAPÍTULO I

HISTÓRICO DE MUDANÇAS NO ORDENAMENTO JURÍDICO NACIONAL PARA

O ATENDIMENTO DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES

Partindo do pressuposto que a Doutrina de Proteção Integral é uma conquista

da sociedade brasileira, fruto de um cenário histórico que indica mudanças no

ordenamento jurídico, resultando na implantação de políticas de atendimento à

criança e ao adolescente. Pode-se dizer, através da bibliografia consultada que

diversos autores, indignados com a situação de maus tratos e omissões, vão

contribuir

para

os

avanços

alcançados

adolescente como cidadãos de direitos.

no

reconhecimento

da

criança

e

do

Desta maneira, pretende-se neste capítulo, rever as leis e práticas jurídicas

aplicadas à criança e ao adolescente que em um longo processo histórico, leva a

sociedade ao debate, elaboração e implantação do Estatuto da Criança e do

Adolescente que inscreve a Doutrina de Proteção Integral.

Para isso, se fez necessário, reportar-se à invasão portuguesa em 1500,

quando a população habitante sofreu imposição de costumes, sendo ditadas regras

sociais, morais e culturais, hostilizando a cultura e a vida social dos índios que foram

violentamente exterminados pelos colonizadores, gerando uma população órfã, que

fora atendida pelos jesuítas, juntamente com os filhos de escravos.

Nesta

fase,

de

acordo

com

Fucks

(1999),

crianças

e

adolescentes

abandonados eram trazidos de Portugal pelos colonizadores para serem explorados.

E, o mercado negreiro, comercializava e tinha um maior interesse por adolescentes

pagando até mais por eles. Sendo aqueles do sexo masculino mais rentável aos

senhores de escravos, devido a sua compleição física, e as adolescentes do sexo

feminino, eram exploradas, tanto para a satisfação sexual dos senhores, como para

a geração de escravos menos negros que se tornavam mais lucrativos para a

comercialização.

Na seqüência dos fatos, a assistência prestada às crianças abandonadas e

filhos ilegítimos, se deu basicamente 1 , neste primeiro momento de história do Brasil,

a partir da filantropia executada pela Igreja Católica e famílias beneméritas que eram

autorizadas pelo Poder Político da época a pedir esmolas para fazer caridade. E, o

mecanismo utilizado para receber essas crianças era a Roda dos Expostos que

tratava-se de:

] [

lados, que girava em torno de um eixo e ficava incrustado nos muros dos

conventos, por onde frades e freiras costumeiramente recebiam cartas, alimentos e remédios e onde, há muito, era costume colocar crianças enjeitadas. (SILVA, 1997, p.39).

um aparelho mecânico, formado pôr um cilindro, fechado por um dos

1.1 INÍCIO DA DOUTRINA PENAL PARA “MENORES” 2

Com a Independência em 1822, começam a ser formuladas leis próprias,

pois, até então, eram seguidas as Ordenações do Reino de Portugal. Surge então, a

Primeira Constituição em 1824, que segundo Nunes e Moor (2002), teve impacto

direto na organização das relações de poder entre governantes, sociedade e família.

Mesmo que, a estrutura familiar do período fosse organizada, pois as crianças e

1 Para saber mais sobre esse período, sugerimos a leitura de Rizzini (1995) e Silva (1997). 2 Essa terminologia “menor” começa a ganhar expressão neste período, sendo que, o menor será a criança e o adolescente das camadas empobrecidas, marginalizadas, e assim, este termo no decorrer do processo histórico vai ganhar uma conotação ideológica, separando crianças e adolescentes de menores, os primeiros aqueles inseridos nas classes sociais com melhor remuneração e os menores os vagabundos e delinqüentes. Por este motivo, estaremos inserindo no desenvolvimento do texto o termo “menor” entre aspas.

adolescentes ou faziam parte das estruturas nativas, ou, eram filhos de escravos:

condenados a estarem cativos desde o nascimento. Desta maneira, a ordem privada

muito ligada à filantropia exercida pela Igreja Católica era quem atendia a juventude

nesta época, pois esta, não representava um elemento de grande tensão para a

ordem política.

Posteriormente, em 1830 surge o Código Criminal, que de acordo com

Adorno (1993), apresentava dispositivos que se referiam ao “menor” sobretudo com

relação

à

responsabilidade,

sendo

naquela

época,

responsabilidade moral e do discernimento.

adotado

o

princípio

de

Assim, devemos considerar nesta Lei, o caráter de responsabilidade penal

atribuído aos menores de 14 anos, que citado por Rizzini (1995), o artigo 10, nº 1 da

Lei de 1830, apresentava que os menores de 14 anos que cometessem crimes e o

fizessem com discernimento, deveriam ser recolhidos em Casas de Correção pelo

tempo que ao Juiz parecesse, com tanto que o recolhimento não excedesse à idade

de dezessete anos.

Com relação aos menores entre 14 e 17 anos, de acordo com Nunes e Moor

(2002), era aplicada a pena de cumplicidade, sendo que, eqüivalia à pena que cabia

aos adultos na proporção de dois terços. E ainda, na faixa etária de 17 a 21 anos, só

eram considerados menores com relação à idade, mas a punição era a mesma dos

adultos.

Neste sentido, o primeiro Código Criminal procurava distinguir os menores,

para tentar diferenciar a ação sobre os mesmos, mas o caráter repressor do Estado,

talvez herdado das ações portuguesas, estava bastante presente. Desta maneira, o

atendimento

aos

menores

expostos,

abandonados

e

carentes

era

feito

exclusivamente de maneira filantrópica pela Igreja, que recebia verbas públicas.

Segundo Rizzini (1995), desde os primeiros anos de Império, surgiram

preocupações com relação à formação educacional das crianças, sobretudo a

educação religiosa. Porém, foi em 1828, através de agitações nas ruas do Rio de

Janeiro, apresentadas pela imprensa da época, que surgiram as primeiras medidas

de controle da educação.

As Escolas existentes na época eram na sua maioria particulares 3 , e para

contemplar um maior número de crianças, incluindo algumas pobres, se verificava

na paróquia, se por falta de recursos ou pela população pequena não fosse

justificada a criação de escola ou sua continuação, mas, existisse nas proximidades

do local escola particular bem conceituada, entrava-se em contato com o Inspetor

Geral, era ouvido o Delegado do distrito, e com a aprovação do Governo, fazia-se

um contrato com o professor dessa escola para a admissão de alunos pobres,

mediante uma gratificação.

A urbanização e a industrialização no Brasil sofreu modificações ao longo do

século XIX, e consequentemente estas mudanças vão repercutir na organização das

políticas sociais e no campo das idéias liberais, sendo que, são feitas várias

atualizações nos conceitos sociais, e com isto, as famílias e seus membros vão

demandando novos atendimentos. Contudo, é neste contexto de divisão do espaço

urbano

que

surge a

"[

]

chamada 'periferia', onde habitavam negros libertos,

alforriados, nativos livres, aculturados e pobres." (NUNES e MOOR, 2002, p.469).

Outro ponto que devemos destacar nesta fase é com relação à prática médica

para a vida social urbana, que é colocado por Rizzini (1995), como sendo o período

3 Rizzini (1995), menciona dois decretos, o Decreto N.630, de 17 de setembro de 1851 e N.1.331-A, de 17 de fevereiro de 1854. Esses decretos tratam, do incentivo da criação de escolas particulares por pessoas aptas, com mais de 21 anos e moralmente capaz, e da inserção de crianças em escolas particulares bem conceituadas. (p.105 e 106).

da medicina higienista, voltada aos conhecimentos médicos de saneamento e de

higiene coletiva, aplicada aos diferentes segmentos sociais, no sentido de atender a

população independente da classe social, mas que fossem atingidos por alguma

epidemia.

Essa fase, da medicina higienista, de acordo com Rizzini (1995), tinha como

principal alvo a família, pois através dela buscava-se atingir a sociedade como um

todo, sendo assim, a criança como principal via de acesso à família. Esta vai chamar

a atenção das corporações médica e jurídica, que vão estabelecer uma correlação

de forças.

Neste sentido, ainda tomando por base Rizzini (1995), os médicos e juristas,

neste

período

histórico,

vão

se

voltar

expressivamente

sobre

a

criança,

e

desenvolvem novos saberes que vão demonstrar a importância da infância para se

obter um ideal de nação civilizada. Tendo em vista que, o movimento higienista não

teve grande expressão no período, com relação à legislação, mas, sem dúvida

contribuiu decisivamente no que se refere aos novos caminhos que iriam ser

tomados pelo movimento jurídico em relação à família e à criança.

Visualiza-se, a partir dos autores estudados que, até o momento histórico o

cenário político demonstra a ação repressiva do Estado em atender a criança e o

adolescente, porém, ocorrem significativas mudanças no ordenamento jurídico -

social na passagem do século XIX para o século XX.

Teve-se assim, de acordo com Rizzini (1995), Nunes e Moor (2002), o

período de transição do Império para a República. Período este que, além da

urbanização, surge o movimento abolicionista, no sentido de erradicar a escravatura

e paralelamente reestruturar o trabalho livre, através do assalariamento da força de

trabalho.

Neste

contexto,

ganha

espaço,

os

ideais

republicanos,

que

se

concretizam em 1889, com a crise do Segundo Reinado.

Outro ponto relevante, de acordo com Nunes e Moor (2002), é o surgimento

de uma classe média com novas demandas, sendo a idéia da imigração bastante

aceita neste contexto. Tem-se ainda, a partir de uma tensão política e social, em

1871, como conseqüência a Lei do Ventre Livre, que declarava livres os filhos de

mulheres escravas, e estes ficariam em poder dos senhores dos escravos até os oito

anos. No entanto, a liberdade era condicionada a vontade do senhor, e à medida

que estes os criavam, adquiriam o direito de usar do seu trabalho até os 21 anos, ou

então, poderia entregar os mesmos ao Estado, recebendo assim uma indenização.

Segundo

Rizzini

(1995),

somente

0,1%

dos

filhos

de

escravos

foram

entregues ao governo até 1885, demonstrando a ingenuidade desta lei em termos

de liberdade, no entanto, não podemos subestimar os significativos impactos

negativos desta lei, criminalizando os ex – escravos livres, que vão ser inseridos nas

camadas empobrecidas.

Neste contexto, a atitude filantrópica de caráter privado continua ganhando

espaço sem um respaldo político social do Estado, pois esta relação só se firmaria,

mais tarde com a Lei nº 1192, de 22 de dezembro de 1909, com o convênio do

governo com as instituições particulares e filantrópicas de assistência ao “menor”.

Referenciando, Nunes e Moor (2002), podemos dizer, sobre a questão da

criminalização dos ex – escravos livres, que houve um agravamento na realidade

social, a partir da abolição da escravatura em 13 de maio de 1888, sendo que estes

ex-escravos se tornaram alvo de controle, com as novas relações que se constituem

através da remuneração do trabalho, tendo horários limitados e sendo exercida a

liberdade perante a lei.

Nestas circunstâncias, se tem o aumento de jovens livres nas ruas, e isso vai

causar a preocupação nas autoridades da época, que segundo Rizzini (1995), irão

através

da Comissão de Constituinte e Legislação do Paço da Câmara dos

Deputados, aprovar o Projeto N 33-A, de Repressão a Ociosidade. Esse projeto dará

inicio ao ordenamento jurídico subsequente, de repressão à infância brasileira.

De acordo com Rizzini (1995), o Projeto de Repressão a Ociosidade, estava

entre vários projetos em discussão no período, que tinham por objetivo reafirmar a

legislação existente, pois a mesma se mostrava ineficaz. Assim, a intenção era de

revitalizar itens já contemplados na lei, buscando que fossem cumpridos, como de

fato passaram a ser, a partir da criação de instituições correcionais, previstas no

Código Criminal de 1830, para recolhimento de menores delinqüentes.

A grande preocupação em reprimir os ociosos se constituiu, no contexto de

transformações nas relações sócio - econômicas decorrentes da ordem capitalista, o

trabalho

passa

a

ser

caracterizado

ideologicamente

como

solução

para

os

problemas da sociedade, principalmente àqueles ligados a moral e aos bons

costumes. Contudo, a ociosidade, ou seja, o fato de não estar inserido no mercado

de trabalho, vai ser entendido como preguiça ou falta de vontade, e essa questão

será resolvida através da repressão como principal maneira de se alcançar uma

sociedade civilizada.

Nunes

e

Moor

(2002)

indicam,

que

cai

o

Segundo

Reinado

com

a

proclamação da República em 15 de novembro de 1889, Deodoro da Fonseca

assume o governo provisório com o compromisso de convocar a Assembléia

Nacional Constituinte, a qual aprovou a Constituição da República dos Estados

Unidos do Brasil, em fevereiro de 1891, com inspirações liberais.

Esta Constituição foi omissa no que se refere, a garantia de direitos, e

segundo

Nunes

e

Moor

(2002),

expressava

o

descaso

com

a

população

marginalizada, ou seja, com aqueles que estavam fora do jogo político e que eram

desfavorecidos economicamente, estando assim, mais vulneráveis aos trabalhos

informais. Considerando-se a legislação Imperial, anteriormente constituída, pode-se

dizer que esta lei teve avanços no que se refere à formalidade e possivelmente para

consolidar mudanças futuras, devido a nova ordem constitucional assumida pela

República.

A infância e a adolescência originária das classes menos favorecidas, cada

vez mais, são diferenciados e chamados de “menores” e, desta maneira, não

recebem atenção nesta Constituição de 1891. Segundo Nunes e Moor (2002), a

única referência feita, foi no artigo 35, incisos II, III e IV, sendo descritos, os objetivos

do país em desenvolver as letras, artes e ciências, a partir da criação de instituições

de ensino superior 4 nos estados e de ensino secundário no Distrito Federal.

Outro avanço legislativo nos primeiros anos de República foi o Código Penal

Brasileiro de 1890, que de acordo com Rizzini (1995), surpreendeu ao diminuir a

idade penal de 14 para 9 anos, sendo que, nesta época se expandia o debate sobre

privilegiar a educação em vez da punição. Portanto, se tem a irresponsabilidade dos

menores de 9 anos por ato de criminalidade. Levando-se em conta que no Código

anterior, as crianças com menos de 14 anos já entravam na aplicação da chamada

teoria do discernimento, e se estas agissem com discernimento eram recolhidas em

4 Sobre o Ensino Superior, procuramos na Constituição de 1891, mas não foi possível esclarecer a visão da época. Para tanto, seria necessário um estudo mais aprofundado do ensino neste período. Levando-se em conta que, este não é o objetivo do nosso trabalho, podemos esclarecer que atualmente o Ensino Superior é aquele instruído por professores capacitados, com especialização, mestrado e/ou doutorado e são fornecidos por Faculdades Universitárias, públicas ou privadas.

Casas Correcionais, temos então, uma pequena mudança, pois essa teoria agora só

era aplicada aos infantos entre 9 e 14 anos. E, os maiores de 14 anos continuavam

submetidos ao recolhimento a Casas Correcionais e na falta dessas Casas eram

submetidos às prisões junto com os adultos, ou seja, para estes a Lei continuou a

mesma do Código de 1830.

Com a passagem do século XIX para XX, a criminalização dos menores se

intensifica, e é citado por RIZZINI (1995) que internacionalmente esta discussão

ganha espaço, mas, em nosso país, devido ao caráter eminentemente repressivo,

voltado ao recolhimento de menores, se regulariza, a Lei N 947 de 29 de dezembro

de 1902. Esta Lei objetivava:

o poder Executivo

autorizado a criar uma ou mais colônias correcionais para reabilitação, pelo

trabalho e instrução, [

dos menores viciosos que forem encontrados e

como tais julgados no Distrito Federal. (ibid, p. 119).

Reformar o Serviço Policial no Distrito Federal, [

],

],

Toda a fomentação para a aprovação desta lei foi articulada através da

imprensa da época que divulgou a situação depravada de crianças misturadas com

adultos criminosos, mexendo substancialmente com a administração pública, que

desta maneira, instiga juristas e políticos do período a uma intensa discussão, no

sentido de buscar a criação de uma política institucional que atendesse as diferentes

categorias de “menores”, ou seja, a infância pobre e desassistida, e aquela

considerada delinqüente.

1.1.2 Contexto que consolida o primeiro Código de “Menores”

Alguns projetos foram historicamente importantes para a construção do

primeiro Código de Menores de 1927. Entre eles, o Projeto de Alcino Guanabara,

que é citado por Rizzini (1995), como sendo um importante Jornalista e Deputado,

Secretário da Liga Brasileira Contra a Tuberculose e por ter trabalhado como

inspetor de uma instituição para “menores”, apresentou o projeto à Câmara dos

Deputados em 1906.

Juntamente com ele, o jurista José Cândido Mello Mattos,

contribuiu para a elaboração deste projeto. Tendo em vista que, o projeto visava a

regularização da “[

(p. 121).

]

situação da infância moralmente abandonada e delinqüente."

Em 1912, outro Projeto foi apresentado à Câmara dos Deputados, por João

Chaves, este tendo como meta, a "[

]

providência sobre a infância abandonada e

criminosa." (ibid, p.123).

Ambos

os

Projetos,

de

acordo

com Rizzini

(1995),

tratavam questões

referentes: a criação de um tribunal e juizado específicos ao trato com os menores; a

questão do pátrio poder, o qual poderia ser suspenso, perdido ou devolvido. Tais

projetos resultam na criação de depósitos de “menores" em zona urbana, do Distrito

Federal, destinado a recolher aqueles que estavam aguardando o destino legal, e na

zona suburbana cria-se escolas de prevenção ou preservação, para ambos os

sexos.

Destaca-se ainda, a criação de escolas de reforma com duas seções; uma

industrial para menores processados absolvidos, e outra, agrícola para os menores

delinqüentes condenados. Levando-se em conta que João Chaves se preocupou

ainda, em criar um estabelecimento para menores anormais.

Os projetos acima citados possuem distinções no que se refere à idade penal.

O primeiro de 1906, traz a responsabilidade penal para a idade de 12 a 17 anos,

tratando os mesmos na lei do discernimento, já o projeto de 1912, fixa a idade penal

em 14 anos, porém, o fator menor idade só seria um atenuante às penas.

Cabe ressaltar que estes projetos não são regulamentados imediatamente,

mas durante 20 anos, vão sofrendo pequenas mudanças. Segundo Rizzini (1995),

dois fatores podem ter influenciado para que não fosse constituída uma lei definitiva

para “menores”. Um é o fato do governo não priorizar as questões relacionadas aos

“menores” neste período, e outro fato é a ocorrência da 1º Guerra Mundial, que

acaba desviando as atenções da urgência do problema infanto - juvenil no país.

O tema relacionado ao problema da infanto - juventude só volta a ser

discutido, e ainda, em termos internacionais, em 1916, e de acordo com RIZZINI

(1995), é quando se realiza em Buenos Aires o 1º Congresso Americano da Criança,

e desta maneira, sob a coordenação da Organização dos Estados Americanos

(OEA),

os

países

americanos,

se

organizam

sistematicamente,

através

de

Congressos realizados de quatro em quatro anos, para que exista um maior debate

sobre essa problemática. E este, se torna um grande momento, pois o debate sem

fronteiras, tendo fóruns em nível de políticas internacionais, une novas forças.

No ano de 1916, em termos de legislação brasileira, foi aprovado pela lei

3.071, de 1º de janeiro, o Código Civil. Este demonstra uma preocupação referente à

violência familiar, principalmente em seus artigos 394 e 395, o primeiro artigo, nos

diz,

que

se “[

]o

pai, ou a mãe, abusarem de seu poder, faltando aos deveres

paternos, ou arruinando os bens dos filhos, cabe ao juiz, requerendo algum parente,

ou o Ministério Público, adotar a medida, que lhe pareça [

],

suspendendo até, [

],

o pátrio poder.” (BRASIL, 1959, p.115). E o segundo artigo diz, que pode o pátrio

poder,

ser

perdido

por

imoderadamente o filho; [

]

ato

judicial,

quando,

deixar em abandono; [

moral e aos bons costumes.” (Ibid, p.116)

pai,

ou

mãe;

“[

]

castigar

]

e praticar atos contrários à

Neste período histórico, o Brasil busca tornar-se uma República, continua

sendo urbanizado, de maneira mais decisiva do que no período Imperial. A

industrialização começa a tomar espaços concretos, e a mão-de-obra infantil,

demanda uma nova discussão.

Neste sentido, podemos perceber a visão da época, através das elucidações

de Rizzini (1995), que demonstra dentre as alternativas buscadas pelos políticos da

época, o projeto do Deputado Cândido Motta, citado em conferência da Ordem dos

Advogados Brasileiros -OAB/RJ, em 1916, e tinha como objetivo dividir "[

]

os

menores em classes 'escolar', 'industrial' e 'agrícola', de acordo com uma cuidadosa

seleção. Há várias referências indicando que os mais 'viciosos' eram encaminhados

para atividades agrícolas." (p.126 e 127).

Nota-se que, a proposta acima referenciada, expõe o “menor” para ser

utilizado como mão-de-obra, demonstrando uma legislação extremamente omissa,

apesar de haver projetos desde 1891 na Câmara do Rio de Janeiro, para regularizar

o trabalho infantil nas fábricas, mas estes não eram priorizados.

Na década de 1920, ocorreram vários fenômenos de aspectos social e

político, dentre estes, pode-se citar aqueles que revelam o caráter repressor do

Estado que vive uma crise de legitimidade, sendo que, segundo Nunes e Moor

(2002), as questões sociais na época, foram trabalhadas de maneira regional,

através da chamada política dos governadores, sendo utilizada a figura do coronel

como instrumento de agregação política. O país era dirigido pela hegemonia das

oligarquias cafeeiras paulistanas e com isso, temos o descontentamento por parte

dos militares de baixa patente, que através do movimento tenentista, vão se aliar

com os operários, que timidamente se unem para servirem de pressão política.

Todos

esses

fatos, além de

outros

vividos

no período, contribuíram para a

Revolução de 1930, que será discutido na seqüência dos fatos.

Ainda, na década de 1920, tem-se a aprovação da lei nº 2059 de 1924, que

cria o tribunal e Juizado de “menores”, sendo que o primeiro Juiz foi Mello Mattos,

que assume esta responsabilidade com a regulamentação da lei pelo decreto 3828,

de 25 de março de 1925. Neste mesmo ano, através do decreto nº 3228, foi criado o

Conselho de Assistência e Proteção ao Menor que objetivava auxiliar a ação do Juiz

de “menores”.

Como as políticas sociais raramente foram consideradas, o que se percebe é

que neste período, buscava-se controlar os focos de tensão social, com o objetivo

de sustentar a idéia de defesa social, num sentido de ideário cientificista ligado ao

positivismo, tendo, as leis para o “menor”, pouco tratando as causas da questão.

Porém, considerando-se a realidade até então estudada, pode-se perceber que as

propostas avançavam no sentido de buscar uma lei específica ao trato dos

“menores”.

Conseqüentemente, tem-se a primeira Lei para “menores”, em outubro de

1927, que se consolida com o decreto 17.943-A expressando "[

]

as leis

de

assistência e proteção aos menores." (RIZZINI, 1995, p.129).

Tendo em vista que, este Código surge, a partir de uma construção política de

propostas e constante busca por mudanças é inaugurada assim, a Doutrina da

Situação Irregular, voltada à prática de “[

]

proteção – repressão, compaixão –

repressão, despontava o critério da defesa social e das práticas eugênicas como

liame / fio condutor da atuação estatal, agregado a uma forte preocupação social,

que iria desencadear, inclusive, uma prática também assistencialista.” (NUNES e

MOOR, 2002, p. 472).

A Doutrina da Situação Irregular, ao firmar suas ações, se concretiza numa

intervenção estatal não só ao “menor” delinqüente, mas também ao “menor” pobre

em situação de carência social. Mas, esta intervenção estatal, sendo de cunho de

defesa social, para controle da desordem, pouco atendia aos interesses das

necessidades sociais dos “menores”.

A partir do Primeiro Código de Menores, não se utiliza mais a antiga teoria do

discernimento para responsabilizar ou não os “menores”, mas, responsabiliza-os e

distingue-os em três categorias:

- Aos “menores” de 14 anos, a medida aplicada era de contenção, juntamente

com os pais, ou seja, a criança não passava por processo penal, mas poderia ser

internada em Escolas de Reforma, pelo prazo de 1 a 5 anos.

- Na faixa etária, de 14 até 18 anos incompletos, o artigo 69, nos revela que

estes são submetidos a processo especial e a medida era o internamento em

Escolas de Reforma ou Preservação, no período de três anos, no mínimo, e sete

anos, no máximo. Sendo ainda previsto no art. 71, uma subdivisão desse grupo na

faixa etária de 16 a 18 anos, aplicando-se a medida até a regeneração, podendo ser

encaminhado

para

estabelecimento

de

“menor”

e

na

falta

deste,

para

estabelecimento de adultos, seguindo a separação adequada dos mesmos.

- Essa última faixa etária que compreende 18 a 21 anos só recebia a

atenuante de menoridade, mas, o processo penal, de acordo com o artigo 76 e 77,

era tal qual o dos adultos, sendo cumprida a pena no mesmo estabelecimento

penitenciário, mas com as devidas separações.

Contudo, o artigo 87, indica que os “menores” estariam sujeitos a regime

disciplinar e educativo, e assim, se dizia contrário ao regime penitenciário, porém,

tudo indica que o Código de Menores de 1927 privilegiava as medidas prisionais,

sendo pouco ou quase nada educativo.

Pode-se considerar ainda, no Código de Menores de 1927, o atendimento em

liberdade, tal regime de atendimento era conhecido como Liberdade Vigiada e era

descrito nos artigos 92 a 100, sendo que, consistia no “menor” permanecer na

companhia dos pais, tutor ou guarda, ou ainda sob os cuidados de um patronato,

tendo a obrigatoriedade de comparecer em juízo nos dias e horários designados

pelo mesmo. Porém, fica entendido, no artigo 92, inciso 4º, que este regime de

atendimento acontecia mediante algumas restrições estabelecidas pelo juiz, ou seja,

quando se fazia reparações, indenizações ou restituições, com pagamentos dos

custos do processo.

Neste sentido, quem era atendido no regime de Liberdade Vigiada, era quem

tinha recursos financeiros, pois o artigo 99, também demonstra que o adolescente

internado em Escola de Reforma, poderia passar a ser atendido em regime de

Liberdade Vigiada, mas somente com 16 anos; com período mínimo legal de

internação; sendo considerado regenerado moralmente; apto a ganhar a vida, ou

com possibilidades de subsistência por meio de outras pessoas.

Para entendermos o contexto em que o Primeiro Código de Menores é

executado, se faz necessário voltar-se aos acontecimentos históricos do Brasil,

sendo que, em 1930, ocorre uma revolução que desencadeia uma nova ordem

política com a tomada de Getúlio Vargas na presidência da república, assumindo

uma prática populista de caráter autoritário e centralizador. Desta maneira, se

concretiza

uma

formação

ideológica,

através

da

ação

protetora/paternalista,

demonstrando uma intervenção caracterizada por ações assistencialistas aos pobres

e sem valor social.

O Brasil, na Era Vargas, buscava bases fortes para sua construção política e

social e, a visão que permeava neste período, era que se fazia necessário uma

expansão do sistema de acesso a educação para formar um povo bem preparado de

maneira mais ampla.

Neste novo cenário político, acaba-se reconhecendo a situação da infância

como problema social, devido à expansão da pobreza no país, assim o Estado tem o

seu papel reformulado e passa a buscar a efetivação na mudança da política

assistencial implantada.

Buscando

concretizar

tais

idéias,

tem-se

decretada

e

promulgada

a

Constituição de 1934, que traz no decorrer de seu texto a expressão da declaração

e garantia de direitos, como podemos destacar em alguns de seus artigos que

demonstram essas novas iniciativas do Estado brasileiro, como, por exemplo, o

artigo 113, inciso 34, que descreve o seguinte texto: “A todos cabe o direito de

prover a própria subsistência e a da sua família, mediante trabalho honesto. O poder

público deve amparar, na forma da lei, os que estejam em indigência.” (BRASIL,

1978, p. 553).

Outro artigo, que se faz destacar é o 121, que declara a proteção social do

trabalhador, e no inciso 1º, proíbe a diferença salarial em uma mesma função de

trabalho, por razão de sexo, idade, nacionalidade ou estado civil, e proíbe ainda, da

mesma maneira, o “[

]

trabalho a menores de 14 anos; de trabalho noturno a

menores de 16; e em indústrias insalubres, a menores de 18 anos e a mulheres; [

]”

(BRASIL, 1978, p.554). No inciso 3º, disciplinam-se “os serviços de amparo à

maternidade e à infância, os referentes ao lar e ao trabalho feminino, assim como a

fiscalização e a orientação respectivas [

]”. (ibid, idem).

Neste sentido, pode-se destacar outros, quatro artigos da Constituição de

1934. O artigo 138, que incumbe a União, os Estados e os Municípios de amparar

desvalidos, com a criação e coordenação de serviços especializados e sociais;

estimulo à educação; amparo à maternidade e à infância; controle da mortalidade e

morbidade infantil, bem como, proteger a juventude da exploração, e do abandono

físico, moral e intelectual. O artigo 144 coloca a família num patamar de destaque,

sendo que na formalidade da lei, passa a ser alvo da proteção estatal, quando

constituída pelo casamento indissolúvel. E finalmente, os artigos 149 e 150, que

destacam a educação como um direito que deve ser de todos e organiza a mesma

num Plano Nacional de competência da União.

Seguindo o resgate histórico, percebe-se com Nunes e Moor (2002), que a

união da classe operária, serve como uma alavanca para o Estado reunir elementos

para concretizar o golpe de 1937. E, é quando se inicia uma estrutura para a

representação

sindical,

estende-se

o

número

de

direitos

aos

trabalhadores,

instalando-se no país um clima de temor, tendo em vista uma possível revolução

comunista, e entre outros fatos, se faz oportuno para Getúlio Vargas junto às tropas

da polícia militar fechar o Congresso, em 10 de novembro, e promulgar uma nova

Constituição que inaugura o chamado “Estado Novo”.

Esta nova fase, não se desvincula de seu período antecessor, mas ao

contrário, neste momento, as instituições e práticas até então formuladas, referentes

aos “menores” delinqüentes, se unem e ganham força.

Entretanto, a Constituição de 1937, no que se refere aos “menores”, apesar

de fortalecer o Poder Executivo e impor uma ditadura, vai dar a atenção a esta

população no modelo de controle do Estado, repetindo em sua maioria o texto

Constitucional de 1934, que de acordo com alguns autores estudados, tem um

diferencial em especial, no artigo 127, que merece destaque, pois, reconhece a

infância e a juventude, colocando-a como objeto de cuidados e garantias especiais

via Estado, o qual se ocupará das medidas que assegurem as condições físicas,

morais e de desenvolvimento das faculdades desses indivíduos. E, sofrendo a

Infância e Juventude com abandono de ordem moral, intelectual ou físico, aos

responsáveis pela sua guarda e educação implicará em falta grave, pois a eles cabe

o direito de dispor do auxílio e proteção do Estado para a subsistência e educação

da sua prole, em situação de miséria.

No final da década de 1930, início de 1940, a assistência social, torna-se a

base para a legislação no Brasil. Isto porque, em 1936, surge a Primeira Escola de

Serviço Social fundada em São Paulo e, em 1º de julho de 1938, através do decreto

lei nº525, cria-se o Conselho Nacional de Serviço Social. Na seqüência, foi instituído

o Departamento Nacional da Criança que subordinado ao Ministério da Educação e

Saúde foi regulamentado pelo “[

]

Decreto 2. 024, de 1940, que veio fixar as bases

para a organização dos serviços de proteção à maternidade, à infância e à

adolescência.” (RIZZINI, 1995, p.138).

O ano de 1940, ainda trouxe, outro fator importante para a questão do

“menor”, com a edição do novo Código Penal, que define no seu artigo 23 que, “Os

menores de 18 anos são penalmente irresponsáveis, ficando sujeitos às normas

estabelecidas na legislação especial.” (PONTES, 1968, p.55).

Para corresponder a essa nova definição penal, de acordo com Rizzini (1995),

é criado com o Decreto-lei nº 3799 de 1941, o Serviço de Atendimento ao Menor –

SAM, e sua atuação era diretamente ligada ao atendimento de “menores” desvalidos

e delinqüentes. No ano seguinte, é estabelecida pelo Governo Federal, a LBA –

Legião Brasileira de Assistência, com o objetivo de “[

]

socorrer famílias de

brasileiros convocados na guerra; contudo, previa estender o amparo aos mais

variados grupos.” (p.138).

Em 1944, através da visita de Darcy Vargas (primeira dama), ao SAM,

acontece

uma

aproximação

das

entidades.

E

assim,

as

atribuições

de

responsabilidades, se dividiram da seguinte forma:

] [

à assistência e a saúde; e a formação para o trabalho, ficou sob responsabilidade do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial – SENAI e do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial – SENAC. (VAZ, 2001,

p.37).

ao SAM, coube a recuperação dos menores; à LBA, questões referentes

Cabe aqui, uma ressalva, com relação ao decreto lei nº 6.026 de 1943, que se

estabeleceu a partir das questões relacionadas aos “menores” infratores, devido a

imputabilidade destes e, principalmente o crescente envolvimento em crimes e

delitos, gerando uma insegurança na população, que desta maneira, não sabe qual

atitude tomar frente a esta problemática.

Com este decreto, busca-se uma ação, segundo Rizzini (1995), que insere a

discussão sobre a periculosidade do menor, em ambiente familiar e social, como

uma

maneira

de

se

tentar

corrigir

os

desajustes.

Através

de

estudos

da

personalidade, verificado por médicos, psicólogos e pedagogos, verificava-se a

periculosidade do “menor”, que em caso de apresentar tais riscos, eram conduzidos

para um estabelecimento, que se julgava adequado, até a declaração do juiz de que

se encerrasse a periculosidade.

Essa classificação de periculosidade poderia incorrer em injustiça, pois, não

levava

em

consideração

somente

a

atitude

infracional,

mas

incluía

nesta

classificação aqueles que se encontravam em situação irregular, ou seja, inseridos

em famílias que não possuíam uma formação tradicional e até mesmo sofriam

instabilidade financeira. Assim, se efetiva neste decreto a lei de criminalização da

infanto – juventude pobre.

Na seqüência dos fatos, nota-se que até o momento, nas Legislações

Brasileiras, pouco se tem, de expressivo com relação à criança e ao adolescente.

Em 1946, uma nova Constituição é promulgada, e em relação às anteriores pouco

muda, no trato da esfera social, e tampouco na questão dos “menores”. O que se faz

destacar, tomando por base o artigo de Nunes e Moor (2002), é a modificação no

texto constitucional, sendo diminuídas as disposições de cunho autoritário, tendo em

vista que o país passava por um processo de busca por democratização, seguida do

período pós Vargas.

Um fato de grande expressão a nível internacional que se destaca, foi a

Declaração dos Direitos da Criança, que foi aprovada em 1959, na Assembléia Geral

da Organização das Nações Unidas – ONU. Este documento, sem dúvida vai

repercutir nas mudanças da lei, que trata da questão da criança e do adolescente no

Brasil, pois inúmeros avanços sobre esta temática foram conquistados. A criança,

passa a ser olhada no prisma de sua condição de desenvolvimento, sendo que,

possui: “[

]

imaturidade física, mental, precisa de proteção e cuidados especiais,

inclusive proteção legal apropriada, antes e depois do nascimento.” (NUNES e

MOOR, 2002, p. 477).

Este fato social global mexe com as estruturas governamentais, e nos

próximos 30 anos, a questão passou a ser tratada em vários segmentos de âmbito

social. Segundo Rizzini (1995), inúmeros debates a nível internacional, nas décadas

de 50 e 60, estimularam a criação de projetos; a imprensa passou a divulgar o

aumento da criminalidade e da violência por parte de “menores”; e, a inadequação

no atendimento institucional levou os envolvidos na questão do “menor” a entrarem

em um consenso para a extinção do SAM.

Em 1964, acontece o golpe que reimplantou a ditadura e o autoritarismo do

Estado

Brasileiro.

Assim,

ao

mesmo

tempo,

que

temos

a

crise,

temos

o

fortalecimento do modelo da doutrina da situação irregular. Sendo assim, como

conseqüência, o sistema de proteção e segurança dos “menores” foi tecnificado e

burocratizado, na idéia central de prevenção e controle, usando a punição e a

repressão, como a principal maneira de colocar o indivíduo em situação de

ajustamento social.

1.1.3 Contexto de busca e consolidação do segundo Código de “Menores”

A situação do “menor” passou a ser tratada como problema social, sendo

criada pela lei 4513/64 a Política Nacional de Bem Estar do Menor – PNBEM, que

passa a ser regida por preceitos de âmbito regional. E assim, com o intuito de

substituir a atuação do SAM, é criada pela mesma lei, a Fundação Nacional de Bem

Estar do Menor (FUNABEM), que será a executora desta política a nível Federal,

tendo em vários estados brasileiros as FEBENs que funcionavam, de acordo com as

normas da PNBEM, orientadas pela executora federal.

Desta maneira, podemos perceber que a instituição FUNABEM foi implantada

quase que nos mesmos moldes do antigo SAM, e “[

]

foi sofrendo mutações através

do tempo pela nova idéia da situação irregular, que então, se tornou hegemônica na

forma de tratar e de atender aos menores delinqüentes e desajustados.” (NUNES e

MOOR, 2002, p. 478).

O

período

que

se

segue,

é

marcado

pela

legalização

da

repressão

correcional, e avança no que se refere à formalização da intervenção estatal para os

“menores” infratores, pois os “menores” em situação irregular, vão ser atendidos pelo

Estado, através de uma intervenção de cunho benemérito. 5

Neste sentido, pode-se notar que inicia uma preocupação em atender de

maneira diferenciada, “menores” em situação irregular, e “menores” infratores. No

entanto, se reconhece através da lei 5.258 de 1967, que o fator de periculosidade

era um determinante suficiente para a intervenção, e até mesmo não se verificando

este fator, poderia ocorrer o internamento. Desta maneira, o “menor” que fosse

considerado infrator, ficava a mercê da ação do Juiz, que determinava a sentença

como bem lhe parecesse.

O ano de 1967 teve ainda a promulgação de uma nova Constituição, que

segundo Pereira Júnior; Bezerra; Heringer (1992), foi extremamente centralizadora,

e deu início a um processo que permaneceu por 20 anos no Brasil, que foi o período

da ditadura militar, caracterizado pela política social mantida de maneira estratégica,

sendo amarrada e subordinada ao controle social e o crescimento da economia.

Tendo como cenário o período da ditadura militar, entende–se que foi um

período de bastante repressão, e desta maneira, as questões ligadas ao trato de

crianças e adolescentes

não teriam sido diferentes. Neste sentido, busca-se

alternativas para um avanço na execução da PNBEM, e com o objetivo de

divulgação, implantação e capacitação desta política, foi criado em 1973, o Centro

5 Esse atendimento de intervenção estatal aos “menores” em situação irregular é muito bem demonstrado por Silva (1997), e inclusive o título de seu livro é “Os filhos do governo”, onde o autor revela como era o atendimento a estes “menores”, carentes abandonados, órfãos, que eram internados em instituições Estatais ou Privados, e ali, sofriam um distanciamento da realidade, para serem moldados uniformemente por estas instituições, perdendo suas identidades, sobretudo de referencia familiar.

de Estudos e Desenvolvimento de Pessoal (CEDEP), que vem buscar esforços para

mudar a situação da “menoridade” constituindo assim, “[

]

uma concepção integral

do jovem como construtor e beneficiário do sistema social em que vive”. (SÊDA,

1991, p.10).

No final da década de 1970, com questionamentos que emergiam da

sociedade civil, busca-se iniciativas de programas alternativos para atendimento de

crianças e adolescentes, pois as questões sociais que envolviam este segmento da

sociedade eram entendidas no conceito de incapacidade e dependência de outrem

(tido como de maioridade), e, de acordo com Sêda (1991), este conceito é herdado

de uma civilização paternalista que vive sob o impacto liberal e sofre constantes

transformações que moldam a cultura brasileira até os dias atuais.

Neste contexto, de indignações por parte da sociedade, começam a vir à

tona, denúncias sobre a prática de violência por parte de “[

]

policiais às crianças de

rua e de funcionários de órgãos oficiais (FUNABEM e FEBENs) a crianças e

adolescentes confinados em instituições públicas.” (MNMMR, 1991, p.13).

Internacionalmente a discussão e formulação de leis estavam bastante

avançadas. Podemos destacar, a Conferência Geral da Organização Internacional

do Trabalho – OIT, que reunida, em Genebra, em 1973, formula um importante

instrumento para a abolição do trabalho infantil, estipulando, através de várias outras

convenções, a Convenção da Idade Mínima para a admissão ao emprego.

E

assim,

como

resultado de Convenções

internacionais

e

do extremo

descontentamento com os maus tratos com a situação de crianças e adolescentes

no Brasil, o ano de 1979, foi constituído como o Ano Internacional da Criança e,

neste mesmo ano, foi promulgado o Segundo Código de Menores através da lei

6.697 de 10 de outubro. Essa lei trouxe mudanças e algumas substituições de

termos, como, por exemplo: “[

]

abandonado, delinqüente, transviado, exposto,

vadio, libertino, etc., para introduzir uma única categoria; a do menor em situação

irregular.” (SILVA, 1997, p. 52).

Faz-se relevante neste novo Código de Menores, destacar o artigo 38, que

trata da medida de Liberdade Assistida, que substitui a medida de Liberdade

Vigiada, e que passa a ser entendida como regime de atendimento para o “menor”

que tiver desvio de conduta, devido a sua grave inadaptação na família ou na

comunidade; ou ainda, quando este for autor de infração penal. O artigo 39 também

se destaca pelo fato de introduzir a colocação do “menor” em casa de semiliberdade,

como forma de transição para o meio aberto, sendo utilizado os possíveis recursos

comunitários, com o intuito de escolarização e profissionalização do menor.

Essas mudanças de termos e de novas ações demonstram a característica

assistencial presente neste Novo Código, sendo que, a partir dele, o Estado se volta

para o “menor” carente com a visão da ajuda bastante presente, buscando reverter o

quadro de ação correcional – repressiva, que agora passa a ser mantida apenas

para aqueles que cometem o ato infracional.

A inimputabilidade é conferida neste Código, de acordo com Rosa (2001),

como a fase de menoridade, sendo esta a fase em que se tem a dependência dos

pais e responsáveis, e “[

]

qualquer conduta irregular ou desviante [

]”,

seria

atribuída à situação “[

]

sócio – psíco - econômica do indivíduo e da sua família”. O

que vinculava imediatamente ao ato infracional “[

]

a condição de carência e

inadaptação do indivíduo na família e/ou na comunidade [

]” (p.194).

Neste contexto de vigência do Novo Código de Menores, o que se tinha em

termos de sociedade, de acordo com Rosa (2001), era uma busca por sua civilidade

através do processo de redemocratização com os movimentos sociais. Entretanto,

nesta fase, o país vive uma crise, após o chamado “milagre econômico” do início dos

anos de 1970, então, o que se tinha economicamente era o “[

]

aumento da

inflação, o crescimento da dívida externa e a redução do Produto Interno Bruto – PIB

]” [

(NUNES e MOOR, 2002, p. 480).

A Década de 1980 fica conhecida como a “Década Perdida” 6 , e isso devido a

queda da economia brasileira. Mas, também, segundo Ribeiro e Sabóia (1993),

devido este período ter um aumento nas taxas de escolarização, porém, com a

situação educacional de crianças e adolescentes pouco satisfatória, demonstrando

altos índices, de repetência e evasão escolar.

De acordo com Pillotti e Rizzini (1993), esta década, também teve um papel

importante no que se refere aos movimentos sociais, pois estes foram coadjuvantes

na orientação das soluções dos problemas mais

extremos das comunidades

empobrecidas, e um de seus principais desafios, foi formular políticas sociais de

caráter altamente participativo, sendo possível de serem aplicados na conjuntura

sócio – política, combinando democratização aliada a multidão de demandas

reivindicativas, tendo em vista ainda, a modernização do Estado que expressa o

limite de suas intervenções, passando muitas das atribuições de sua competência,

ao mercado.

Neste sentido, aparecem os primeiros movimentos de defesa da criança e do

adolescente no inicio da década de 1980, entre eles o pró – infância e adolescência

e o Movimento Nacional de Meninos e Meninas

de Rua – MNMMR. Esses

Movimentos aliados a “[

]

Frente Nacional de Defesa dos Direitos das Crianças e

dos Adolescentes; a Pastoral do Menor da CNBB – Conferência Nacional de Bispos

6 Este termo “Década Perdida” foi utilizado por vários autores ao se referirem à década de 1980, entre eles, RIBEIRO e SABÓIA, 1993, p. 17; ROSA, 2001, p.195.

do Brasil; [

];

e a Comissão Nacional Criança e Constituinte.” (ROSA, 2001, p. 196).

São, os protagonistas do artigo 227 e 228 7 , da Constituição Federal de 1988.

Portanto,

com

a

intensa

participação

da

sociedade

em

instância

governamental e não governamental, nas questões da criança e do adolescente,

houve uma Constituinte em 1987, antecedendo a aprovação da Constituição, e

assim, buscando uma aprovação mais democrática, teve a “[

]

criação de novas

regras e inscreveu na Constituição de 1988 um Novo Direito Constitucional Brasileiro

da Criança e do Adolescente.” (SÊDA, 1991, p.40).

1.1.4 Em vigor o Estatuto da Criança e do Adolescente e a Doutrina de Proteção

Integral.

No processo histórico de luta pelo Direito à Proteção Integral, temos o

envolvimento social e político dos movimentos sociais que se constituíram, a partir

da busca pela inclusão social e conquista de direitos. Assim, no decorrer da trajetória

histórica, visualiza-se o avanço das leis, e desta maneira, consolida-se, no dia 12 de

julho de 1990, através da lei 8069, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

O Novo Direito da criança e do adolescente é norteado pelo princípio da

Doutrina de Proteção Integral, ou seja: “[

]

convencionada pelos povos nas Nações

Unidas [

]

trata do exercício da autoridade e da liberdade, de direitos e deveres de

7 O artigo 227 nos diz: ”É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, a saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade, e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda a forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.” (BRASIL, 2003, p. 133). E o artigo 228: “São plenamente inimputáveis os menores de dezoito anos, sujeitos às normas da legislação especial.” (BRASIL, 2003, p. 134)

todos (integral): de pais, filhos, cidadãos em geral e servidores públicos (sejam estes

legisladores, executivos, conselheiros e juízes).” (SÊDA, 1995, p.33).

Entendendo assim, que o Direito do “menor” até a Constituição de 1988,

esteve voltado somente a alguns infanto - juvenis, no sentido de alternativa para

aqueles que se entendessem por fracos e desprotegidos, porém, o ECA é voltado

para toda a população infanto - juvenil.

Rompe-se, então, o uso do termo “menor”, pois, agora todos que estiverem

na faixa etária de até doze anos de idade incompletos são crianças e os que

estiverem na faixa etária dos doze aos 18 anos de idade são adolescentes para

efeito da lei, sem discriminações.

O ECA, de acordo com Sêda (1995), vai além de dizer o que é justo, pois, não

fica somente na fala e na escrita de maneira retórica, mas define como buscar a

justiça quando alguém viola ou ameaça, a lei. Portanto, é alternativo, mostra o que

fazer e como fazer.

No Livro I do ECA, são descritas as garantias de direitos de crianças e

adolescentes, em especial, destacamos o artigo 4, que com o objetivo de efetivar os

direitos referentes à vida, á saúde, á alimentação, à educação, o esporte, o lazer, à

profissionalização, à cultura, à dignidade, o respeito, à liberdade e à convivência

familiar e comunitária; com absoluta prioridade, deve ser assegurado como dever da

família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público.

Contudo, o Livro II do ECA, apresenta linhas de ações e diretrizes para

planejar, coordenar e executar a lei, em especial no artigo 90, que refere-se às

entidades de atendimento que são responsáveis pela sua própria manutenção, bem

como, pelo planejamento e execução de programas de proteção e sócio - educativos

destinados a crianças e adolescentes. Sendo estas entidades governamentais e não

governamentais, deverão proceder a inscrição de seus programas, especificando os

regimes de atendimento (orientação e apoio sócio familiar, apoio sócio – educativo

em meio aberto, colocação familiar, abrigo, liberdade assistida, semiliberdade,

internação), junto ao Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente,

o qual

manterá

registro

das

inscrições

e

de

suas

alterações,

do

que

fará

comunicação ao Conselho Tutelar e à autoridade judiciária.

Ainda, pode-se considerar, segundo Sêda (1995), o fato de que, neste

processo de transição e mudança no Direito da Criança e do Adolescente, tem-se o

avanço no exercício da autoridade, que era vista como que exclusivamente na figura

do Juiz de “Menores”. Com o ECA, se tem o envolvimento dos setores organizados

da sociedade, ou seja, educadores, cientistas sociais, psicólogos, assistentes

sociais, médicos, servidores, juizes, promotores, policiais, lideranças comunitárias; e

assim, se percebe que a vida social se faz do exercício de autoridades e de

liberdades diversas, sendo assumido por cada indivíduo vários direitos e deveres,

portanto, se faz complexa.

Com essa diferença no exercício da autoridade, temos uma atitude mais

dinâmica nas ações, porém, existe uma complexidade maior para se exercer essas

ações,

exigindo

um maior comprometimento, confere-se esse posicionamento

também com Rizzini (1993), que chama a atenção dos “[

]

representantes das

ciências humanas, sociais, jurídicas e da saúde, [

]”

(p. 98), para que estejam

sensíveis às funções que os cabe executar, buscando desta maneira, a superação

de práticas excludentes tão calcadas historicamente nas práticas profissionais

dirigidas à infância e juventude do país.

O comprometimento entre os profissionais e a sociedade em geral, na

cobrança e fiscalização das práticas de atendimento à criança e ao adolescente é a

base que norteia o ECA, pois são estas ações que vão garantir o controle da

sociedade que, quando mobilizada em todas as esferas, regula o Estado e as

instituições que executam a Política de atendimento a essa população, garantindo a

execução desta lei.

Outra

proposta

assumida

pelo

ECA

é

a

da

descentralização

e

da

municipalização, que de acordo com Baptista (2002), acontecem a partir de um novo

posicionamento

do governo em relação às

questões sociais que podem ser

percebidas após a Constituição de 1988, e ao redimensionamento das relações do

Estado com a sociedade civil.

Desta maneira, é feita uma nova divisão nas atribuições e responsabilidades,

sendo distribuídas entre a União, o Estado e o Município, e são conferidas,

primeiramente na Constituição Federal (CF), em seu artigo 30; em seguida no

Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), em seus artigos 259 e 261; e ainda na

Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS), decretada em 7 de dezembro de 1993,

lei nº 8.742, em seus artigos 11 e 16.

Estas Leis, de igual forma, preconizam a atuação do Município com maior

peso de responsabilidade, sendo trabalhadas as questões sociais especificamente

em cada localidade, este deve assumir a organização e prestação dos serviços

públicos. Porém, deve contar com o Estado e a União, para obter o apoio técnico e

financeiro. E ainda, com o intuito de obter uma fiscalização, e serem deliberadas

ações

de

caráter

governamentais.

democrático,

são

criados

os

Conselhos

nas

três

esferas

O ECA é uma lei que procura tratar das questões da criança e do adolescente

de maneira integral, completa, para isso, possui 267 artigos que descrevem direitos

e deveres. E ainda, a partir do Estatuto foram criados Conselhos, Programas e

Projetos com o objetivo de executar, fiscalizar e direcionar as ações descritas na

Constituição Federal e no Estatuto da Criança e do Adolescente que foram

assumidas

a

organizada.

partir da

relação do Estado de direitos

com a sociedade civil

Tendo em vista todas estas questões, sabe-se que é por isso que muitos

estudantes e teóricos de diversas áreas se preocupam com a questão da criança e

do adolescente e o assunto não se esgota, pois as relações humanas se interagem

e possuem problemas de origem macrossociais, que por serem complexos, só

chegam a possíveis soluções, a partir de intensas discussões

nas

diversas

instâncias da sociedade, e assim, o envolvimento político se faz extremamente

importante para que se tenham conquistas no campo dos direitos.

Neste primeiro momento de aproximação com as mudanças no ordenamento

jurídico de atuação junto à população infanto - juvenil brasileira, se fez relevante

conhecer o contexto político em que as leis foram formuladas, para notar-se, os

impasses com avanços e retrocessos, conforme a política assumida pelo país.

A nossa proposta é discutir no capítulo II as medidas sócio – educativas,

previstas no Estatuto para o atendimento de adolescentes que cometem ato

infracional, e o debate dessas medidas na atual conjuntura. Pois, esta questão é

hoje alvo das principais divergências de opiniões, sendo bastante questionada a

imputabilidade

penal

para

menores

de

18

anos.

E

estas

divergências

vêm

demonstrar que, por mais que a lei inscreva a Doutrina de Proteção Integral, a antiga

Doutrina,

ainda

se

faz

bastante

presente,

e

isto,

por

falta

de

interesse

e

conhecimento do Estatuto da Criança e do Adolescente, por parte de alguns

segmentos

da

sociedade

que

insistem

em

não

considerar

as

crianças

e

adolescentes como sujeitos de direitos, mas ao contrário os consideram como

sujeitos da prisão.

CAPÍTULO II

O ATO INFRACIONAL E AS MEDIDAS SÓCIO - EDUCATIVAS PREVISTOS NO

ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE

2.1 UM DEBATE EM QUESTÃO NA SOCIEDADE BRASILEIRA

No ano em que o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), completa 14

anos de vigência, pode-se dizer, a partir das referências consultadas, que por um

lado, existem várias conquistas a serem comemoradas, assim como indica o

Procurador de Justiça do Paraná, Olympio Sotto Maior Neto, que “[

]

o Estatuto

conquistou seu espaço na proteção de crianças e de adolescentes em todo o

Paraná.” (FILHO, 2004, p.4). Mas, por outro lado, ainda existem muitas questões a

serem resolvidas para que se efetivem as propostas previstas no Estatuto.

Entre

tantas, percebe-se que a principal questão em atual debate na

sociedade brasileira é o envolvimento de adolescentes em atos infracionais. Isto se

dá, de acordo com Rosa (2001), devido às instigações reproduzidas pela imprensa

em seus vários veículos de comunicação, sendo estes um grande marketing para a

formação da opinião pública. A violência urbana tem sido um atrativo, e é mostrado

exclusivamente o seu lado mais escancarado, ou seja, o crime, tal como: o

latrocínio, o homicídio, o tráfico de drogas e o assalto.

Desta maneira, a opinião pública tem sido levada a olhar somente na ótica do

crime, e assim, fica parecendo fácil resolver o problema, até por que os problemas

sociais no Brasil, cada vez mais têm sido colocados como problema do indivíduo

e/ou dos indivíduos que vivem num contexto de violência e miserabilidade.

Vive-se, de acordo com Rosa (2001), em “[

]

um clima social que produz e

potencializa a violência [

]”

(p.184). No dia a dia algumas situações direta ou

indiretamente mexem, instigam e até fazem com que não haja uma sensibilização

com situações de “[

]

extermínio, tortura, exploração sexual, tráfico, pornografia,

prostituição, maus tratos, abandono, trabalho precoce penoso, desnutrição, expulsão

escolar, etc.” (Ibid, idem).

A questão do ato infracional cometido por adolescentes, é um problema

amplo, como qualquer outro problema de ordem social. E desta maneira, situações

que emergem na atual conjuntura brasileira, sobretudo de desemprego, com um

salário mínimo baixo que mal garante a sobrevivência da população que dele vive,

atrelado a uma política de segurança pública, com ações violentas e despóticas,

produzem medo e insegurança, e são fatores que contribuem para que a população

infanto – juvenil seja inserida num processo de falta de perspectivas.

Ora, vive-se em uma sociedade em que a lógica de sobrevivência é a lógica

de mercado, assim a discriminação dos indivíduos estigmatizados por sua condição

social, aparece como justificativa das disparidades da distribuição de renda e a falta

de oportunidade para todos.

As condições familiares e a atual situação econômica e social do país acabam

gerando:

A destruição de expectativas – sendo a marginalização e a delinqüência juvenil uma forma de contestação – quanto de uma legitimidade forjada pela própria juventude, cuja ação multidisciplinar de valorização do tempo livre e de emancipação social de condições de vida ultrapassada pretende construir um novo homem (POLCHMANN, 2000, P. 11).

Percebe-se também, de acordo com o autor acima citado, que a população

jovem, principalmente na faixa etária dos 15 aos 24 anos, segundo dados do Fundo

das Nações Unidas, de 2000, era estimada em 1,2 bilhões de pessoas no mundo, e

atualmente este número está em queda, e nos próximos 10 anos poderá chegar a

300 milhões de jovens incorporados a mais do total da população.

Polchmann (2000), apresenta a faixa etária dos 15 aos 24 anos que para ele

é a população jovem, e corresponde a 10 % do tempo de vida da população

brasileira é a faixa etária estratégica tanto no ponto de vista individual, quanto em

relação às perspectivas da nação.

Neste sentido, a juventude voltada à estratégia do tempo livre, requer que se

criem condições sociais de desenvolvimento para uma trajetória ocupacional, em

que, mecanismos adequados sejam criados para o financiamento desse tempo,

envolvendo a família, o público e o privado, que farão parte desse processo. Pois, há

de se admitir que existem ”[

]

duas possibilidades de utilização do tempo de

vida[

],

a do ócio positivo (lazer, educação e solidariedade) ou ainda com o ócio

negativo (violência, uso de drogas e do crime).” (POCHMANN, 2000, p. 22 e 23).

Tendo em vista que, esta é uma expectativa ligada principalmente ao

mercado de trabalho, e este é extremamente exigente, existe a necessidade de uma

maior participação social do jovem, sobretudo com relação à educação, pois esta é

entendida como a base para a formação cidadã e, além disso, pode levar a

qualificação profissional, se esta for entendida como um processo continuado, que

se inicia desde os primeiros anos escolares. Contudo, se faz necessário o estimulo a

cada estudante, para o mesmo desenvolver suas potencialidades, criatividades e

habilidades.

O indivíduo que ingressa no mercado de trabalho entre os 12 e 14 anos de

idade ou até mais cedo, muitas vezes possui diminuição no rendimento escolar e

acaba abandonando os estudos, assim, quando o adolescente é inserido no

mercado de trabalho, se tem a impressão equivocada que este, está obtendo

qualificação profissional, no entanto, devido ao abandono dos estudos, este acaba

contribuindo para a sua própria exclusão econômica.

Esta é uma situação bastante contraditória, pois a inclusão de crianças e

adolescentes em condições precárias de trabalho, ocorre principalmente com a

deficiência econômica familiar. No entanto, esta questão não deve ser entendida

equivocadamente e/ou superficialmente como uma escolha dos indivíduos, mas, ao

contrário,

com

uma

leitura

democrática,

pode-se

entender

que

esta

é

uma

conseqüência da reprodução das relações sociais, econômicas e políticas geradas

no sistema capitalista desigual do país.

Sendo assim, a população que se encontra a margem da sociedade, com

dificuldades de acesso a condições mínimas de sobrevivência e inclusão social, são

marcados com o estigma da marginalidade, que de acordo com Violante (1995), não

pode ser confundido com um traço de personalidade, pois se trata da inserção no

mercado de trabalho de uma parcela da população que é caracterizada “[

]

pelo

subemprego, pelo emprego intermitente e pelo desemprego.” (p.21).

As contradições sociais existentes na sociedade brasileira estão cada vez

mais

acentuando

as

condições

de

marginalidade

da

população,

pois

estas

condições se tornam úteis para a manutenção do sistema vigente. Desta forma,

quando crianças e adolescentes estão inseridos neste contexto, não possuindo

recursos de sobrevivência, e vivendo em condições de carências em níveis: social,

econômico e cultural, percebe-se que, mesmo existindo uma lei especifica para este

segmento

da

população,

e

esta

garantir

a

Proteção

Integral,

ainda

um

distanciamento entre a lei existente, e a garantia dos direitos expressos na mesma.

Esta realidade suscita inúmeros questionamentos, porém, com o intuito de

delimitá-los, pode-se apontar: a falta de vontade política e individual de segmentos

voltados

às

práticas

institucionais

ligadas

ao

atendimento

de

crianças

e

adolescentes, e de seus familiares, que devido a falta de recursos, e insensibilidade

criada pela própria sociedade, acabam por se acostumar com o consumismo e

individualismo imposto. E sem trabalhar as causas, continuam trabalhando com as

conseqüências da desigualdade.

O ato infracional cometido por crianças e adolescentes, de acordo com Volpi

(1997), pode ser entendido a partir de vários aspectos da problemática social, ou

seja, além de problemas sociais graves, as condições de saúde física e emocional,

conflitos referentes a condição de pessoa em desenvolvimento e ainda, aspectos de

estrutura da personalidade, devem ser considerados e analisados individualmente.

No ECA, o artigo 103, descreve o ato infracional, como a prática de crime ou

contravenção penal, ou seja, são delitos de conduta que estão especificados no

Código Penal Brasileiro. E, conforme nos indica Santana (2003), o crime é toda

conduta típica, antijurídica e culpável, sendo:

- Conduta: toda a ação ou omissão conscientemente dirigida a uma finalidade;

- Típica: que tem previsão na lei;

- Antijurídica: contrária ao direito, ilícito;

- Culpável: é o conjunto das condições necessárias para que possamos atribuir

a alguém a responsabilidade criminal ou penal.

A contravenção penal, de acordo com Liberati (2002), “[

]

é

o

ato ilícito

menos importante que o crime, e que só acarreta a seu autor a pena de multa ou

prisão simples.” (p.90).

Percebe-se

assim,

que

o

Estatuto

supre

em

uma

expressão

“Ato

infracional”, a prática de crime e contravenção penal exercida por crianças e

adolescentes. Assim, o Estatuto reconhece que crianças e adolescentes, podem

errar e até mesmo cometer crimes.

Mas, ao contrário do que a sociedade expõe, através principalmente dos

veículos de comunicação, sobretudo televisivos, os adolescentes não são os

principais autores de crimes e atos violentos, eles representam uma média de 10 a

12%

dos

infratores

brasileiros,

e,

demonstrados por Sotto Maior, que “[

podemos

visualizar,

através

de

dados

]

75% dos atos infracionais atribuídos aos

adolescentes são crimes contra o patrimônio, em sua maioria, furtos sem violência

ou grave ameaça.” (FIORI, 2002, p. 3).

Desta maneira, devido aos próprios veículos de comunicação disseminarem

reportagens equivocadas e muitas vezes com jornalistas despreparados para tratar

da questão de adolescentes que cometem ato infracional, tem-se bastante presente

a aparente idéia de impunidade.

Porém, o fato de, no artigo 104 do ECA, estar colocado que adolescentes,

menores de 18 (dezoito) anos são penalmente inimputáveis, não quer dizer que eles

não são responsabilizados por suas atitudes contrárias a lei. Pois, nota-se, esse

artigo tem uma segunda parte, e esta revela que crianças e adolescentes estão

sujeitos as medidas previstas na lei em questão.

De acordo com o Estatuto, para as crianças, são previstas medidas de

proteção (artigos 98 ao 102), e, a estas são assegurados somente direitos, e

geralmente são atendidas pelos Conselhos Tutelares. Contudo, aos adolescentes, o

Estatuto prevê além das medidas de proteção, as medidas sócio - educativas

(artigos 112 ao 128), que possuem caráter educativo como o próprio nome diz, de

reinserção social e de fortalecimento dos vínculos familiares e comunitários.

As medidas sócio - educativas são também alvo de bastante polêmica na

atualidade, e conforme nos indica Volpi (1997), existe uma dificuldade para o senso

comum, em admitir a união da segurança com a cidadania, e o fato de reconhecer

no

agressor

um

cidadão

é

um exercício

difícil,

e

por

vezes,

tratado

como

inadequado. Principalmente, pela idéia de segurança que permeia a sociedade

brasileira,

que

é

a

de

proteção

a

apenas

uma

parcela

da

população

economicamente melhor sucedida e que tem um patrimônio a ser zelado.

Estas medidas foram construídas com base em preâmbulos internacionais,

que se fizeram extremamente importante para que, a lei brasileira fosse considerada

uma das leis que melhor explicita a garantia do atendimento digno a crianças e

adolescentes.

Assim, se faz necessário, voltar-se aos preâmbulos internacionais para

entender como se chegou a ter no Brasil uma lei tão consistente na garantia de

direitos, sendo este um país tão desigual.

Têm-se assim, os princípios da Convenção Internacional Sobre os Direitos da

Criança (1989), que diz em seu artigo 40, que os Estados que reconhecem o direito

da criança, a quem se alegue, acuse ou declare culpada de ter infringido as leis

penais, cabe tratá-la de modo a promover e estimular seu sentido de dignidade e

valor, fortalecendo o respeito, aos direitos humanos e liberdades fundamentais de

terceiros,

observando

a

idade

da

criança e estimulando sua reintegração e

desempenho construtivo na sociedade. À administração da Justiça da Infância e da

Juventude, cabe considerar inocente toda a criança, enquanto não for provado o

contrário perante a lei; e esta tem o direito de beneficiar-se de:

] [

legal ou de outra natureza ao preparar e apresentar sua defesa. O princípio de que o recurso de procedimento legal e colocação em instituições deverá ser evitado sempre que possível e apropriado. (MINISTÉRIO DA JUSTIÇA;

todos os aspectos de um adequado processo legal, incluindo assistência

SECRETÁRIA DO ESTADO DOS DIREITOS HUMANOS; DCA; CONANDA, 2002, p.106).

As Regras Mínimas das Nações Unidas para a Administração da Infância e da

Juventude, conhecida como Regras de Beijing, de 29 de novembro de 1985,

destaca-se, em especial a regra nº 7, que revela como direitos dos jovens, as

garantias processuais básicas em todas as etapas do processo, como a presunção

de inocência; ser informado das acusações; não responder; ter assistência judiciária;

presença dos pais ou tutores; confrontação com testemunhas e interrogá-las e a

apelação ante uma autoridade superior.

As Regras Mínimas das Nações Unidas Para a Proteção de Jovens Privados

de Liberdade, de 14 de dezembro de 1990, chama a atenção em especial em suas

regras nº 2 e 3, que revelam a medida de privação de liberdade, como sendo o

último

recurso,

com

período

mínimo

necessário

e

ficando

limitada

a

casos

excepcionais. O objetivo dessas regras é a proteção aos jovens privados de

liberdade, voltando-se aos direitos humanos e de liberdades, combatendo assim, os

efeitos

nocivos

sociedade.

de

qualquer

tipo

de

detenção, promovendo a integração na

Com estas regras estabelecidas a nível internacional, incluindo as Diretrizes

das Nações Unidas para a Prevenção da Delinqüência Juvenil, de Riad, de 1 de

março

de

1988.

Tem-se,

a

nível

nacional,

o

estabelecimento

de

garantias

processuais ao adolescente que comete ato infracional, expressas nos artigos 110 e

111, do ECA, as quais dizem respeito a não privação de liberdade sem o devido

processo legal, entre outras, ao pleno e formal conhecimento da atribuição de ato

infracional, mediante citação ou meio eqüivalente; igualdade na relação processual,

confrontando-se com vítimas e testemunhas, produzindo todas as provas que cabem

a sua defesa; sendo estas: defesa técnica por advogado; assistência jurídica gratuita

e integral a quem necessitar, na forma da lei; ser ouvido pessoalmente pela

autoridade competente e solicitar a presença de seus pais ou responsáveis em

qualquer fase do procedimento.

Sendo estes direitos plenamente garantidos, o autor de ato infracional pode

receber pela autoridade competente as seguintes medidas sócio – educativas,

especificadas na seqüência, a partir do ECA, e de alguns autores como Volpi (1997),

Goiás(1999), Marques (1999), Milano Filho ; Milano (1996):

A Advertência, artigo 115 (ECA), trata-se de uma admoestação, censura

verbal, informativa, formativa e imediata feita pelo juiz competente e dirigida ao

adolescente que se compromete a modificar seu comportamento, juntamente com

seus responsáveis que farão parte do procedimento para que aconteça essa

mudança. Assim, se reduz a termo e é assinada pelas partes, como forma de

comprometimento com as normas legais.

Obrigação de Reparar o Dano, artigo 116 (ECA), é determinada quando o

ato infracional é atribuído ao patrimônio, então, deve ser restituído o bem e

ressarcida e/ou compensada a vítima. Esta medida considera que o adolescente

reconhece o seu erro e assim, o repara. Desta maneira, julga-se educativa, pois não

deve ser transferida para outra pessoa. Quando se manifesta a impossibilidade da

aplicação, pode ser substituída por outra medida que a autoridade competente

julgue mais adequada.

Concordamos com Marques (1999), que diz ser esta uma medida que pode

ficar no vazio, tendo em vista que o adolescente que comete o ato infracional, na

maioria das vezes não tem a possibilidade de ressarcir o dano e/ou compensar a

vítima. Contudo, a autora aponta uma interessante sugestão para o aprofundamento

na discussão da medida, sendo a pedagogia da participação, uma das possíveis

alternativas, que insere tanto a vítima como o adolescente e seus responsáveis,

buscando uma compreensão dos fatos que vá além das ações jurídicas e do

prejuízo econômico.

Prestação de Serviço à Comunidade, artigo 117 (ECA), consiste em medida

sócio - educativa de caráter pedagógico e socializante, tendo em vista, a realização

de tarefas gratuitas de interesse geral, conforme a aptidão do adolescente, pelo

período de até seis meses, cumprindo carga horária de no máximo 8 horas

semanais, levando-se em conta a freqüência escolar e/ou jornada de trabalho.

Os locais para a realização desta medida são ofertados pela comunidade

através de órgãos governamentais, clubes de serviços, entidades sociais, hospitais,

escolas, entre outros. Sendo, esta medida, aplicada exclusivamente pela Justiça da

Infância

e

da

Juventude,

sua

operacionalização,

deve acontecer

através

do

empenho de um programa, criado através de parcerias entre os órgãos executores e

a Justiça. Este programa objetiva uma melhor efetividade no que tange: aos

convênios com os locais da comunidade para a realização da medida; ao apoio a

estes locais e, ao acompanhamento do adolescente.

Desta

maneira,

poderá

ser

oportunizada

ao

jovem

uma

experiência

comunitária de valores e compromissos sociais.

A Liberdade Assistida, trata-se de uma das medidas aplicadas em meio

aberto, e esta possui um histórico evolutivo no que se refere a aplicação da lei para

adolescentes que cometem ato infracional, fato este, apresentado desde o Código

de Menores de 1927, sendo conhecida como medida de Liberdade Vigiada, e

posteriormente, com o Código de Menores de 1979, passou a ser entendida como

Liberdade Assistida 8 .

Atualmente o ECA, define a sua aplicação, nos artigos 118 e 119, como

sendo a medida mais adequada a ser cumprida, quando o Juiz entender, que existe

a necessidade de acompanhamento, auxílio e orientação ao adolescente. Esta

medida deve ser acompanhada por pessoa capacitada, recomendada por entidade

ou programa de atendimento, podendo ser profissionais, tal como, psicólogos,

assistentes sociais, pedagogos, ou até mesmo, pessoas que não possuem formação

de nível superior, pois fica a critério da instituição executora da medida e do poder

judiciário.

Porém, entende-se que, sendo o orientador de medida uma pessoa da

comunidade que possua alguma identificação com os adolescentes e se mostre

interessado, mesmo não possuindo formação acadêmica, ele pode perfeitamente

desenvolver esta medida sócio – educativa, desde que, receba instrução técnica,

através de uma equipe multidisciplinar, que faça parte do programa de atendimento,

buscando assim, uma melhor efetivação no acompanhamento do adolescente.

O orientador desta medida sócio – educativa, deve ter o apoio e supervisão

da autoridade competente, para acompanhar o adolescente no prazo máximo de

seis meses, podendo a medida ser prorrogada, revogada ou substituída a qualquer

tempo, deste que seja ouvido o orientador, o Ministério Público e o defensor.

8 O histórico da lei para “menores”, que demonstra especificadamente a medida de Liberdade Vigiada e posteriormente a de Liberdade Assistida nos Códigos anteriores ao ECA, estão descritas no Primeiro Capitulo deste trabalho.

Neste período, cabe ao orientador, juntamente com o Programa que executa

esta medida, promover socialmente o adolescente e sua família, inserindo-os,

conforme

a

necessidade,

em

programas

de

auxílio

e

assistência

social,

supervisionar o aproveitamento e freqüência escolar. Se este não estiver incluído em

estabelecimento oficial de ensino, deve ser promovida a sua matrícula, e ainda,

diligenciar buscando a profissionalização e a inserção do adolescente no mercado

de trabalho, apresentando sempre relatórios em conformidade com o cumprimento

da medida.

O Regime de Semiliberdade, artigo 120 (ECA), trata-se de medida restritiva

de liberdade, porém, não é tão extrema quanto à medida de privação de liberdade,

pois o adolescente não fica totalmente privado de seu direito de ir e vir. O Juiz pode

aplicar esta medida, desde o início, ou como forma de regressão da medida de

internação para a medida em meio aberto.

Da mesma maneira que no regime de privação de liberdade, as questões

educacionais, consistem em oportunizar o acesso a serviços e a organizar a vida

cotidiana. Com este propósito, os programas de semiliberdade, devem aprofundar a

relação com serviços e programas sociais e formativos, os quais instruam para a

educação e profissionalização, que são obrigatórios para o cumprimento desta

medida.

Neste sentido, se faz necessário que estes programas e serviços sejam

encontrados na comunidade, para que o adolescente possa realmente organizar a

sua vida cotidiana, e se envolva com a comunidade de modo digno, visando a sua

ressocialização.

A Internação é descrita, nos artigos 121 ao 125 (ECA), e devido a sua

existência ser muito anterior ao Estatuto, esta acaba por se consolidar com uma

bagagem ideológica herdada dos Códigos Penais, por tratar-se de uma medida

antiga, que sofre profundas mudanças, sobretudo no que se refere a lei, que em

todo o processo histórico, foi altamente repressiva e punitiva, mas que através do

ECA, busca inserir nas práticas institucionais uma ação de caráter sócio – educativo.

No artigo 121, do ECA, esta medida é definida como Privação de Liberdade e

está sujeita aos princípios da brevidade, excepcionalidade e respeito a condição

peculiar de pessoa em desenvolvimento. Ao apropriar-se, dos estudos de Milano

Júnior; Milano (1996), entende-se que, o princípio de brevidade, corresponde ao

tempo de duração da internação, definido no artigo 121, § 2º e 3º, do ECA, como

medida que não comporta prazo determinado, mas deve ser reavaliada, com

decisão fundamentada, no máximo a cada seis meses, sendo que, o período de

internação não deve ser superior a três anos.

O princípio da excepcionalidade corresponde à aplicação da medida, que

deve ocorrer somente nos casos de infração com violência ou grave ameaça à

pessoa, como nos informa, o artigo 122 (ECA), e nos casos de reincidência no

cometimento de infrações graves, ou ainda, no descumprimento reiterado e sem

justificativa de medida anteriormente imposta. Neste último caso, trata-se da

aplicação da medida de internação, como forma de não permitir que o adolescente

não cumpra a medida anteriormente imposta, que pode ser medida de Liberdade

Assistida, ou Prestação de Serviço a Comunidade, entre outras, neste caso

especifico, o prazo máximo da internação é de três meses.

O respeito da condição de pessoa em desenvolvimento, consagrado também

na Constituição Federal, em seu artigo 227, § 3º, inciso V 9 , deve ser considerado

9 O artigo 227, § 3º, inciso V, diz: “obediência aos princípios de brevidade, excepcionalidade e respeito à condição de pessoa em desenvolvimento, quando da aplicação de qualquer medida privativa de liberdade;” (BRASIL, 2003, p. 133)

principalmente para um bom desenvolvimento educativo na medida de internação,

que segundo o artigo 123, do ECA, realizar–se-á em entidade exclusiva para

adolescentes, em local diferenciado daquele destinado ao abrigo, sendo seguida

rigorosamente as separações por critério de idade, compleição física e gravidade do

ato infracional.

De acordo com Volpi (1997), a contenção, não é a medida sócio – educativa

em si, mas, trata-se da condição para que ela aconteça, ou seja, a restrição de

liberdade significa uma limitação do pleno direito de ir e vir, e nem um outro direito

constitucional, além desse, deve ser restringido.

Desta forma, pode haver condições de inclusão aos adolescentes numa

perspectiva cidadã, pois ao contrário de restringir, devem ser possibilitados os

direitos, conforme nos indica o Estatuto, no artigo 124: os direitos ao ensino e a

profissionalização; às atividades culturais, esportivas e de lazer; ser tratado com

respeito e dignidade; permanecer internado na mesma localidade ou naquela mais

próxima ao domicílio de seus pais ou responsáveis; receber visitas, pelo menos

semanalmente; corresponder-se com parentes e amigos, ter acesso a objetos de

higiene e asseio pessoal; receber assistência religiosa, segundo sua crença; e entre

outros direitos conquistados, ajuda-los na busca e resgate de sua auto - estima e

valores humanos.

Para

isso,

comunicabilidade,

o

adolescente

exceto

quando

em

for

hipótese

expresso

alguma

poderá

pela

autoridade

ficar

sem

judiciária

a

suspensão temporária de visita, inclusive de pais ou responsáveis, existindo motivos

sérios e fundados de sua prejudicialidade aos interesses do adolescente.

Finalmente, o artigo 125 (ECA), que incumbe o Estado de zelar pela

integridade física e mental dos internos, adotando medidas adequadas de contenção

e segurança.

Apropriando-se de boa parte do conhecimento sobre as medidas sócio –

educativas, tem-se clareza que são priorizadas na lei, as medidas em meio aberto.

Contudo, existem projetos em discussão entre deputados federais, que dizem

respeito ao rebaixamento da idade penal, para 16 anos, e para que o princípio da

brevidade seja desconsiderado, aumentando o período de internação de três para

vinte e sete anos, propondo ainda,

que após os

18 anos, o jovem deve ser

transferido para uma ala especial em presídio comum.

Esta discussão em trâmite no congresso, demostra a falta de clareza da lei

em vigor, em especial por parte dos representantes políticos do país que fazem

propostas sem fundamentos e que buscam ofuscar a realidade. Se estivessem em

discussão no congresso os orçamentos públicos para evitar o envolvimento de

crianças e adolescentes na prática de atos infracionais, seria mais coerente, com o

que diz o Estatuto.

Trabalhadas as medidas sócio – educativas em meio aberto (Liberdade

Assistida, Prestação de Serviço a Comunidade e Obrigação de Reparar o Dano), de

maneira eficaz, envolvendo a sociedade em seus órgãos públicos e privados; sendo

destinado orçamento público a este fim, para que o adolescente e sua família sejam

inseridos num contexto de recursos, e sobretudo, adquirindo dignidade humana e

respeito a valores universais, consequentemente, adolescentes envolvidos em ato

infracional, poderiam ao menos não reincidir, e assim as unidades de internação não

precisariam receber tantos adolescentes, o que desenvolveria um trabalho também

mais eficaz nestas unidades.

Atualmente, se tornou mais que evidente que os centros de reabilitação e as

FEBENs, não ressocializam, e muito menos educam. Isso acontece, entre outras

questões, por não serem respeitados os limites de adolescentes por unidade de

internação, as repartições por idade, ato infracional e compleição física.

E

quando,

são

respeitados

estes

limites,

não

existindo

vagas

para o

adolescente ingressar em uma unidade de internação, ele vai para uma unidade de

internação provisória, que de acordo com o ECA, em seus artigos 108 e 183, é a

unidade destinada aos adolescentes que aguardam a sentença judicial, a qual, eles

não devem permanecer, mais do que quarenta e cinco dias. Ou ainda, este

adolescente acaba recebendo uma medida em meio aberto, mas, não existindo na

comunidade, locais específicos para o tratamento de usuários de substâncias

psicoativas;

escolas

dispostas

a

receber

estes

adolescentes;

programa

de

acompanhamento e auxílio familiar, entre outros, este adolescente pode e vai voltar

a cometer ato infracional, e desta maneira, acaba sendo inserido em um processo de

reincidência.

Esta é uma realidade que o país vem enfrentando e, atualmente mais de

“[

]10.000

são internos de instituições de apoio a menores infratores. No estado do

Paraná, 150 estão em instituições provisórias e de semiliberdade, 80 ainda estão

detidos em delegacias.” (CORAZZA, 2004, p. A-8).

Tendo como referencia as leis que embasam o Estatuto da Criança e do

Adolescente, o próprio estatuto e a proposta de alguns autores para o atendimento

ao adolescente em conflito com a lei. Na seqüência serão apresentadas, as práticas

institucionais para atendimento ao adolescente em conflito com a lei, na Comarca de

Ponta Grossa.

2.2 AS PRÁTICAS INSTITUCIONAIS PARA ATENDIMENTO AO ADOLESCENTE

EM CONFLITO COM A LEI NA COMARCA DE PONTA GROSSA.

A partir do conhecimento adquirido através da bibliografia pesquisada, tem-se

clareza que a relação teoria – prática desenvolvida no campo de estágio possibilita

ao pesquisador o entendimento da aplicação das medidas sócio – educativas no

município de Ponta Grossa, pois, além da vivência, enquanto estagiária do PEMSE

em meio aberto, procurou-se conhecer as práticas institucionais voltadas aos

adolescentes que cometeram ato infracional no Município.

Para isso, foram realizadas visitas em algumas destas instituições, como: a

unidade do SAS (Serviço de Atendimento Social); a Casa Sebastião Osório Martins,

onde funciona o Programa de Semiliberdade; o SAI (Serviço de Auxílio à Vara da

Infância e Juventude); a Central de Atendimento a Criança e ao Adolescente, e

ainda, a Delegacia do Adolescente, e a Vara da Infância e Juventude.

Nestes locais, houve abertura e acesso por parte de representantes e equipes

de atendimento, mas também, dificuldades e privações por parte de autoridades.

Realidade

esta

demonstrada

na

atendimentos destas instituições.

seqüência

em

que

estarão

descritos

os

A cidade de Ponta Grossa possui atualmente aproximadamente 300.000

habitantes, trata-se de uma cidade de médio porte, se comparada às demais cidades

do Paraná. Nestas condições, trata-se de uma cidade que possui um dos maiores

índices de pobreza do Estado, acabando por se estruturar a pequenos passos,

numa

realidade

que

também é

contemplada

no

histórico

das

mudanças

no

ordenamento jurídico do país 10 . Portanto, as praticas institucionais aos adolescentes

em conflito com a lei no município acabam por demonstrar, entre outras, as

características da falta de estrutura e vontade política por parte de alguns atores

responsáveis pela efetivação do atendimento à população que vivência e atua em

um contexto de violência.

A delegacia especializada 11 foi criada, a partir da resolução nº 122/89 de 19

de maio de 1989, inicialmente conhecida como Delegacia de Proteção ao Menor, e

após a consolidação do Estatuto da Criança e do Adolescente passou a ser a

Delegacia do Adolescente.

De acordo com a delegada Cláudia kruger, “[

]

a delegacia tem como

principal objetivo concluir cada Boletim de Ocorrência que é feito, sendo feito todas

as investigações e requerimentos que estes demandam.”

As atribuições da autoridade policial estão descritas no ECA, em seus artigos

172 ao 179. Nestes termos, a Delegacia do Adolescente de Ponta Grossa possui

uma autoridade policial que administra e preside os atendimentos de ato infracional

de

adolescentes, a

qual, colhe

depoimentos

e faz atendimentos

ao público,

acompanha diligências, ou seja, faz investigações oficiais (pesquisa, aplica e

executa serviços judiciais). E ainda, informa a imprensa sobre as ocorrências,

preservando a imagem do adolescente, para que não seja violado o seu direito.

Conta com um escrivão de polícia, que segundo a delegada, “[

] possui as

mesmas atribuições que o delegado, e está somente subordinado hierarquicamente,

10 O histórico das mudanças no ordenamento jurídico do país está descrito no capitulo I, deste trabalho.

11 A caracterização da Delegacia do Adolescente foi construído, a partir, de uma visita feita até a delegacia do adolescente, no mês de maio do corrente ano, quando juntamente com outra acadêmica do curso de Serviço Social, houve a oportunidade de conversar com a delegada Claúdia Kruger, que a 6 anos ocupa o cargo.

além de fazer o registro dos Boletins de Ocorrências.” E um investigador, que tem a

função de cumprir diligências e mandado de busca e apreensão, faz atendimento no

local e ao público, verificando situações particulares, entregando intimações e

fazendo o contato entre a Delegacia e a Vara da Infância e Juventude.

Os procedimentos da Delegacia do Adolescente ocorrem quando a Polícia

Militar traz o adolescente até a 13º Subdivisão Policial (SDP), e/ou o Boletim de

Ocorrência (B.O.) da própria Polícia Militar, ambos os B.O. (o da Polícia Militar e o

da Polícia Civil), serão anexados ao processo, sendo ainda protocolados na 13º

SDP. Na seqüência, deve ser chamada a vítima queixosa, ou, a mesma vai até a

delegacia espontaneamente e, se for o caso, deve ser a mesma encaminhada para

exames periciais, e em seguida, chama-se o adolescente autor da infração e

testemunhas,

se

existirem.

E

somente

depois

de

concluída

a

apuração

ou

procedimento investigativo do ato infracional é que em forma de documento vai ser

encaminhado para a Vara da Infância e Juventude.

Na Vara da Infância e Juventude o documento de procedimento investigativo

vai

se

chamar

procedimento

de

ato

documentos aos autos 12 .

infracional,

e

assim,

junta-se

todos

os

Os documentos encaminhados à Vara da Infância e Juventude podem voltar

para a Delegacia, e isto acontece quando o Juiz solicita que sejam feitas diligências

complementares. Neste caso, serão realizados novas apurações e atendimentos.

12 Os autos são os documentos que descrevem todo o processo judicial. Portanto, autos e processos acabam sendo denominações que especificam os documentos colhidos em t