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A Morte da Lei

Fernando Carlos M. Rodrigues


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- Introdução ................................................................................................................. 2
- I - Deus e a Lei ......................................................................................................... 5
- II - O Nascimento da Lei ....................................................................................... 6
- III - A Função da Lei .............................................................................................. 9
- IV - Mandamentos da Lei e Mandamentos do Senhor .................................... 11
- V - Rompimento Necessário ................................................................................ 20
- VI - Rejeição ao Pecado e Processo de Restauração .................................... 23
- VII - Mas, e os Nossos Pecados? ...................................................................... 29
- VIII – A Mente Autojustificada ....................................................................... 34
- IX - O Relacionamento com os Legalistas ........................................................ 71
- X – Acerca do Mérito Humano ............................................................................ 80
- XI - A Inutilidade da Lei ..................................................................................... 88
- XII – Lei e Graça: Absolutamente Excludentes Entre Si ............................ 91
- XIII – A Verdade Que Liberta .......................................................................... 93
- XIV – Sempre Atuantes, Mesmo Diante das Dificuldades .......................... 95
- XV – O Mundo ......................................................................................................... 98
- Considerações Finais ............................................................................................. 99

SE SOIS GUIADOS PELO ESPÍRITO, NÃO ESTAIS SOB A LEI


(Gálatas 5:18)
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INTRODUÇÃO

- Por que a Nova Aliança é do Espírito e não da letra? (II Co 3:6)


- O que significa estar debaixo da Lei ou debaixo da Graça? (Rm 6:14)
- Por que quem está debaixo da Lei não pode estar debaixo da Graça?
- Por que a força do pecado é a Lei, e não a Graça? (I Co 15:56)
- A Graça incentiva o pecado? (Rm 5:20 – 6:2)
- A morte da Lei é uma licença para a libertinagem? (I Co 6:12)
- Por que a letra mata e o Espírito vivifica? (II Co 3:6)
- O que é Justiça da Lei e o que é Justiça de Deus? (II Co 5:21)
- O que é justiça que procede de lei e justiça que procede de fé?
- O que é a Lei de Cristo? (I Co 9:20-21; Gl 6:2)
- O que é “aperfeiçoar-se na carne”? (Gl 3:3)
- O que é a “Lei de mandamento carnal”? (Hb 7:16)
- O que é a “Lei do pecado e da morte”? (Rm 8:2)
- O que é o ministério da morte e da condenação? (II Co 3:7-9)
- Por que a Palavra da Cruz é escândalo e loucura? (I Co 1:23)
- Por que e como a lei domina o homem enquanto ele vive? (Rm 7:1)
- Por que o domínio do pecado é sobre quem está debaixo da Lei? (Rm
6:14)
- Por que a Lei desperta toda sorte de concupiscência? (Rm 7:8)
- O que foi decidido no “Concílio de Jerusalém” sobre a imposição da
Lei aos discípulos? (At 15:5-21)
- O que é “evangelho da circuncisão” e “evangelho da incircuncisão”? (Gl
2:7)
- Por que precisamos morrer para o estatuto da autojustificação (a Lei)
a fim de pertencermos àquele que ressuscitou dentre os mortos e
assim vivermos para Deus? (Rm 7:4; Gl 2:19)
- Qual o comportamento de quem busca justificação na justiça da Lei?
- Qual a opinião de Cristo sobre esse comportamento?
- O que é um legalista?
- O que é autojustificação?
- Deus disse: “Achei a Davi, filho de Jessé, um homem segundo o meu
coração, que fará toda a minha vontade” (At 13:22). Jesus é “o Filho
de Davi”. Se a igreja tem o mesmo conceito que Deus sobre Davi, por
que nela ninguém aconselha: “Seja como Davi”?
- Como é, afinal, um homem segundo o coração de Deus?
- Por que o apóstolo Paulo tratou de vários pecados na igreja (muitos
dos quais constavam claramente no estatuto mosaico), mas não se
referiu à Lei como referencial de acusação e condenação por esses
pecados?
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- Por que Paulo jamais citou a Lei como parâmetro de conduta para os
discípulos?
- Por que a Lei é fraca e inútil para o aperfeiçoamento? (Hb 7:18)
- Por que o poder de Cristo se aperfeiçoa na nossa fraqueza? (II Co
12:9)
- Por que as discussões e debates sobre a Lei são inúteis e fúteis? (Tt
3:9)
- Para Paulo, o que era “desfazer o escândalo da cruz”? (Gl 5:11)
- Por que, para Pedro, impor a Lei aos discípulos era “tentar a Deus”?
(At 15:10)
- O que significa: “A Lei não procede de fé”? (Gl 3:12)
- Se a Lei não procede de fé e “sem fé é impossível agradar a Deus”
(Hb 11:6), qual a utilidade da Lei?
- Se a justificação pela Lei anula o sacrifício de Cristo (Gl 2:21), por
que a igreja ainda exige a sujeição ao estatuto mosaico?
- O que é estar sujeito à Lei e o que é estar livre da Lei? (Rm 7:6)
- O que eu destruí e que, se eu tornar a edificar, constituir-me-ei
transgressor? (Gl 2:18)
- Qual a opinião de Paulo sobre a tentativa de conciliar Lei e Graça? (Gl
1:6-9; 5:11)
- O que é servir em novidade de espírito e não na caducidade da letra?
(Rm 7:6)
- Se Cristo veio para que tivéssemos vida em abundância (Jo 10:10), por
que sujeitar-nos ao ministério da morte e condenação? (II Co 3:7-9)
- Por que as cartas paulinas se caracterizam pelas advertências contra
o legalismo (justificar-se e servir na caducidade da letra/Lei) e
contra os legalistas (os que se autojustificam e servem na caducidade
da letra/Lei), e não pela neurose contra a transgressão da Lei?
- O que significa “ser achado em Cristo, não tendo justiça própria”? (Fp
3:9)
- A igreja deu ouvidos às advertências de Paulo ou “entronizou” os
legalistas, “judaizou-se” e adotou de vez o “outro evangelho” (mistura
de Lei e Graça), abominado pelo apóstolo dos gentios (Gl 1:6-9)?
- Por que, em vez de serem conhecidos pelo amor gratuito que deveriam
dispensar ao próximo, muitos cristãos são conhecidos pelo espírito
julgador, rotulador, isolacionista e desprezador do próximo?
- Se “a misericórdia triunfa sobre o juízo” (Tg 2:13), por que tantos
cristãos são conhecidos exatamente pela notória falta de
misericórdia e pelo duro juízo sobre o próximo?
- Por que a Lei suscita a ira (Rm 4:15)?
- Por que tantos cristãos odeiam tanto?
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Entre tudo o que há no Novo Testamento sobre a Lei, chamam a


atenção as várias afirmações paulinas de que morremos para a Lei, bem
como ela morreu em nossas vidas. Só pode estabelecer um relacionamento
com Cristo aquele para quem o estatuto da autojustificação morreu.
No cristianismo sempre houve um temor em se declarar que quem está
em Cristo não pode estar sujeito à Lei, bem como um verdadeiro pânico
diante da afirmação paulina de que a Lei (e qualquer referencial meritório
para justificação) morreu para quem está em Cristo. Há quem receosamente
chame a Lei de “a outra verdade”; ou de “a não-Graça”. Paulo a chamou
claramente de “a força do pecado” (durma-se com um barulho desses...).
Para Paulo, a palavra “lei” designava a Lei Mosaica e também qualquer
outro referencial legitimador da justiça própria do homem (fora da
justificação gratuita em Cristo, tudo é autojustificação humana por mérito
próprio, tudo é justiça que “procede de lei” e, portanto, anula a Graça de
Cristo). Esta busca de autojustificação procedente de lei domina o homem
enquanto ele vive, e para livrar-se de tal domínio, o homem natural precisa
confrontá-lo em um processo contínuo de renovação da sua mente
autojustificadora, exercitando a rejeição de qualquer justiça própria para
salvação e aprendendo a confiar apenas na Justiça de Cristo, ou Justiça do
Calvário, ou ainda Justiça de Deus, que provém de fé, e não de lei.
Mas a urgência dessa decisão geralmente encontra as pessoas em
momentos da vida em que muitos castelos já foram construídos ao longo do
caminho para a autojustificação. Abandoná-los ou derrubá-los nem sempre é
uma decisão fácil. É aqui que é travada a maior batalha do espírito contra a
carne, e só há um sobrevivente. Só há “vida na Graça” com a “morte da lei”...
Sem a morte da lei, o que existe é a busca de autojustificação por
justiça meritória, que procede de lei, seja antes ou depois da “conversão”.
Na cruz do Calvário, Cristo aboliu na própria carne toda forma de
legitimação da justiça humana para salvação (a Lei Mosaica e qualquer outro
parâmetro), por isso quem é justificado pela Graça vive pela fé na Justiça
do Calvário, mantém profunda e verdadeira comunhão com Cristo e frutifica
para Deus. Não ignoremos, portanto, as atitudes e artimanhas de mentes
ainda escravizadas ao jugo da Lei e que buscam justificação na sua justiça.
Quem está debaixo da Lei não pode estar debaixo da Graça, e vice-
versa. Quem busca justificação pela Lei não será justificado pela Graça.
Entretanto, o que mais sabemos sobre a Lei, além disso? O que é a Lei? Por
que foi dada? Que bem ou mal ela pode trazer? Pode a Lei salvar? Se ela é
ministério de morte e condenação, e não de salvação dos pecadores, há
alguma serventia para ela na igreja e na vida de quem está comprometido
justamente com o plano de Deus para o perdão e salvação da humanidade?
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I - DEUS E A LEI

Existe, a respeito da Lei, uma idéia absolutamente equivocada, mas


profundamente enraizada no subconsciente dos cristãos. Para o cristianismo
em geral, Jesus Cristo é a encarnação de Deus, mas a Lei Mosaica também é
vista como uma personificação divina. Cristo é Deus em forma humana, e a
Lei seria Deus em linguagem humana; Deus em forma de mandamentos e
ordenanças, para que a nossa mente limitada possa compreender mais
facilmente, de forma prática, a complexa e desejável santidade divina. A Lei
- um conjunto de mandamentos absolutos, generalizados e imutáveis, com
nauseante cheiro de condenação - seria a personificação de um Deus
igualmente absolutista, generalizador, inflexível, e sedento de condenação.
A Lei seria, portanto, “Deus explicado”, “a bula de Deus”, ou ainda “o DNA
de Deus” e, conseqüentemente, o caminho mais óbvio para ele (mais óbvio e
confiável até do que o perdão em Cristo, que parece meio incerto e
duvidoso...).
É isso que acontece em todas as religiões, onde se busca a ilusória
perfeição humana, ou um “contato do humano com o divino”, e as regras
(leis) para se conseguir tal intento são a essência do próprio deus. Mas isso
nada tem a ver com o Evangelho de Jesus Cristo. Trazer esse raciocínio
para a vida cristã acarreta muitos problemas para quem quiser andar na
plenitude da Graça de Deus. Tal idéia precisa ser definitivamente arrancada
do nosso espírito, sob pena de não compreendermos a essência do Evangelho
de Cristo, pois, nele, DEUS NÃO É A LEI e A LEI NÃO É DEUS.
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II - O NASCIMENTO DA LEI

Não é necessário estar debaixo da Lei Mosaica (sujeito a ela, como os


judeus) para estar sujeito ao julgamento divino; ou seja, não é passivo de
julgamento somente quem está debaixo da Lei Mosaica (Rm 2:12-15). A lei
que primeiro acusa o homem, de forma implacável, é a sua própria
consciência, desde o jardim do Éden, quando ele quis ser conhecedor do bem
e do mal (Gn 3:5). Tal conhecimento o fez conscientemente responsável
pelas conseqüências de suas decisões, que, a partir daquele instante,
poderiam ser tomadas à revelia da vontade de Deus. A partir dali já se fazia
conhecer a “norma da lei” (Rm 2:15), que domina o homem enquanto ele vive
(Rm 7:1), e o padrão de julgamento gerado por essa consciência do bem e do
mal é o seu principal acusador, pois antes de transgredir a Lei Mosaica
(quem debaixo dela está), o homem transgride a lei da própria consciência
(Rm 2:1). Mas Deus já havia explicado, de forma bastante clara, concisa e
direta, aonde a lei da consciência levaria o homem (Mas da árvore do
conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela
comeres, certamente morrerás – Gn 2:17). Por isso, é exatamente a
consciência do homem que Deus quer restaurar e renovar, livrando-a da
escravidão ao pecado, para que ele volte a ter sintonia e comunhão com o
seu Criador.
A nossa consciência é o alvo do aperfeiçoamento no amor de Deus (Rm
12:2). É uma consciência pura que o apóstolo Paulo aponta como alvo daquele
que nasceu na Graça (At 24:16). É ela que inspira cuidados em nosso
relacionamento com os irmãos mais “fracos” (I Co 10:23-31). É ela que nos
dá confiança diante de Deus (I Jo 3:21), e é uma bem-aventurança não ser
por ela reprovado (Rm 14:22). É ela também a nossa testemunha (Rm 9:1) e
com ela devemos servir ao nosso Deus (II Tm 1:3). Mas, para muitos líderes
do cristianismo de nossos dias, falar em buscar uma consciência pura e
regenerada, capaz de discernir a vontade de Deus em toda situação, soa
como heresia e desrespeito ao estatuto mosaico.
Mas, se a “norma da Lei” - que está gravada na consciência do homem
(Rm 2:15) – acusa-o de seus pecados, qual a razão da Lei Mosaica?
Ela foi “adicionada” por causa das transgressões (Gl 3:19), para que se
tivesse uma lei positiva e um parâmetro absoluto, de forma que o Messias a
obedecesse e a cumprisse cabalmente, para que a sua justiça não
dependesse apenas da “norma da Lei” que está na consciência humana desde
o Éden. Afinal, pela consciência de quem, seria julgada a justiça do Messias
(I Co 10:29)?
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A Lei Mosaica é uma sistematização completa e generalizada da


consciência de pecado que é inata ao homem, individualmente (Rm 3:20).
Alguém cuja consciência desconheça algum pecado, certamente o conhecerá
na Lei (Rm 7:7), que é o estatuto da perfeição humana (e não divina, como
muitos pensam). Quem a cumprisse cabalmente seria considerado perfeito
em nível humano, por isso ela foi dada como um alvo a ser alcançado pelo
Messias, que, como homem, teria de ser perfeito (cordeiro sem mácula),
para poder pagar pelos pecados de toda a humanidade (I Jo 2:2). Desse
modo, a Lei Mosaica - e tudo relativo a ela - é dirigida exclusivamente ao
povo de Moisés (Rm 9:4), do qual viria o Messias (mas nem eles a cumpriam –
Jo 7:19; Gl 6:13), e que não poderia ser um povo sem lei civil e sem o
direcionamento espiritual correto (A Lei Mosaica aponta para o Messias – Gl
3:24), sob o risco de o Filho de Deus nascer em uma família idólatra, por
exemplo. Por isso a Lei contém mandamentos morais e cerimoniais.
Contudo, a Lei nunca foi um meio de aperfeiçoamento espiritual para
ninguém (Hb 7:18-19), e a sua exigência de perfeição apenas empurra o
pecador para o Messias perdoador. Por isso a sua validade foi “até que
viesse o descendente, a quem se fez a promessa” (Gl 3:19). Para quem, e só
para quem está no descendente (Jesus Cristo), acabou a validade da Lei (a
da consciência e a sua sistematização – a mosaica), “porque o fim da Lei é
Cristo, para justiça de todo aquele que crê” (Rm 10:4); “as coisas velhas já
passaram, eis que tudo se fez novo” (II Co 5:17), por isso já não importa se
estávamos debaixo da “norma da Lei” na consciência (gentios) ou debaixo da
Lei Mosaica (judeus); o que importa é sermos nova criatura naquele que da
lei nos libertou para a liberdade (Gl 5:1). Esta é a “regra” do Espírito, e
todos os que andarem em conformidade com ela terão paz e misericórdia (Gl
6:15-16).
Paulo reprova veementemente a nossa sujeição à Lei (Gl 2:14) e ainda
afirma que todo gentio que voluntariamente se submete a uma única
exigência da Lei Mosaica fica obrigado a guardá-la integralmente (Gl 5:3). A
religião cristã (que busca solidez institucional no estatuto mosaico),
sabendo disso e não confiando que a consciência do pecador forneça
acusações suficientes para condená-lo, sempre cuidou de “voluntariar” os
cristianizados para debaixo da Lei Mosaica, para que todos tenham um
acusador eficiente, de modo que, na realidade, é de debaixo da pesada mão
de Moisés que a grande maioria dos que hoje se convertem ao Evangelho
precisa ser resgatada, pois a Lei Mosaica é o referencial de justiça e
acusação que a religião cristã já plantou no coração dos seus adeptos,
ignorando a consciência do pecador, que é justamente o que precisa ser (e
Deus quer que seja) renovado.
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Paulo foi muito claro: separado está de Cristo todo aquele que procura
justificar-se na Lei; e, se esse alguém um dia pensou estar na Graça de
Cristo, dela decaiu (Gl 5:4). Tais palavras exigem uma séria e urgente
reflexão...
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III - A FUNÇÃO DA LEI

Mas se a Lei não é Deus, e Deus não é a Lei, qual o papel dela no plano
de salvação dos pecadores? Sabemos que Deus é o juiz, mas um juiz apenas
dá a sentença do réu, que é baseada nas acusações que contra ele pesam e
na defesa que lhe presta o seu advogado. Sabemos ainda que o Senhor
Jesus é o advogado de todo aquele que nele crê e que, obviamente, o tem
como seu advogado (I Jo 2:1), e que esses nem entram em juízo (Cristo é o
nosso advogado hoje, pois os seus não entrarão em julgamento - Jo 5:24); no
próprio Cristo de Deus já fomos julgados, condenados, sentenciados à morte
e tivemos a nossa pena executada. Quem será, então, o acusador?
Sempre que o Senhor Jesus falava da sua própria obrigação de, como
Messias, guardar infalivelmente toda a Lei, ele referia-se a ela como
“vontade do meu Pai” ou como “mandamentos do meu Pai” (Jo 15:10). Mas
sempre que ele falava da sujeição dos homens à Lei, na tentativa de
justificarem-se diante de Deus pela obediência a ela, ele a separava da
pessoa de Deus (“vossa Lei” - Jo 8:17) e a ligava à figura de Moisés (Jo
7:19), e fazia isso porque Deus não tem nada a ver com justificação dos
homens pela Lei.
Foi fazendo justamente essa separação que o Senhor Jesus respondeu
de forma bastante clara à pergunta sobre quem será o acusador do homem:
“Não penseis que vos acusarei perante o Pai. Quem vos acusa é Moisés (a
Lei), em quem tendes firmado a vossa confiança” (Jo 5:45). Quem não crê
que a Lei aponta para Cristo, e busca justiça própria mediante a obediência
às suas ordenanças (da Lei), está dormindo com seu próprio algoz. A vontade
do Pai para o Filho (entre outras coisas) era que ele cumprisse cabalmente a
Lei. A vontade do Pai para os homens é que todos, morrendo para a Lei,
creiam na justificação através do Filho e, assim, tenham a vida eterna (Jo
6:40).
É função da Lei, portanto, acusar os pecados dos homens – e só! Ela não
ama, não tem misericórdia, não dá chance de arrependimento, não perdoa,
não aperfeiçoa nem salva ninguém. Há um só que faz tudo isso: DEUS; e
Deus não é a Lei, e a Lei não é Deus. Ela acusa - e só acusa - os pecados do
mundo inteiro, mas a interferência amorosa de Deus foi para assumi-los
todos (I Jo 2:2), e a sua vontade é “que todos os homens sejam salvos e
cheguem ao pleno conhecimento da verdade” (I Tm 2:4). Para isso ele
“estava em Cristo, reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens
as suas transgressões” (II Co 5:19).
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Deus não é o acusador de pecados; ele é o perdoador de pecados. Ele é


essencialmente absoluto, mas não é essencialmente absolutista (se fosse,
alma nenhuma subsistiria). Na pessoa de seu Filho, o Deus absoluto viveu e
cumpriu a exigência de justiça absoluta da Lei (o Deus absoluto apresentou
justiça absoluta a si mesmo em nosso favor) e gratuitamente disponibiliza o
benefício para todo o que crê (Rm 3:24). A estes o Senhor jamais imputará
pecados (Rm 4:8), pois a sentença da justiça da Lei é uma só: condenação e
morte eterna, mas a sentença da justiça de Deus (manifestada e executada
em Cristo - II Co 5:21) é misericórdia, perdão e vida eterna, de modo que o
povo de Deus deve ser notoriamente o “povo do perdão”, para quem pode e
deve se dirigir toda alma cansada e oprimida, pois ali achará descanso e
alívio de seus pesados fardos (Mt 11:28-30).
O amor de Deus por nós trouxe-nos o perdão gratuito e imerecido de
nossas transgressões e, da mesma forma, o nosso amor pelo próximo deve
também levar-lhe sempre o mesmo perdão imerecido e gratuito, pois Deus
nos perdoou para que sejamos nós também igualmente perdoadores. No
Evangelho de Cristo, a renovação da mente e a transformação do coração
acontecem através do amor e do perdão, e não pela obediência temerosa a
ordenanças.
Se você não almeja nem vê, por exemplo, uma grande vitória no fato de
conseguir perdoar alguém que lhe ofendeu gravemente, trazendo-lhe
angústia e muito sofrimento, e a partir daí sepultar a mágoa, passando a
viver em paz com quem lhe ofendeu, você ainda tem uma noção muito
pequena da transformação que Cristo quer efetuar em você. E se você não
vê nisso nem algo que deve ser buscado, e acha normal que não consiga, pois
não é natural e seria injusto com você, então preocupe-se com o que você
chamou de sua “conversão”, pois, embora o chame pelo mesmo nome, o
senhor a quem você pensa servir não é o Senhor Jesus Cristo.
Fala-se por aí que há várias formas de amar, e muita gente diz que ama
muita gente. Mas desconfie de um amor que se diz “capaz de fazer qualquer
coisa nessa vida”, mas é incapaz de perdoar, pois a essência do amor é o
perdão, e o perdão é para verdadeiros culpados, sem a menor justificativa
para os seus erros - assim como nós, diante de Deus. Quem diz que ama, mas
é incapaz de perdoar, incorre na mentira mais irônica, que é mentir para si
mesmo.
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IV - MANDAMENTOS DA LEI (PARA MORTE) E


MANDAMENTOS DO SENHOR (PARA VIDA)

“Se, portanto, a perfeição houvera sido mediante o


sacerdócio levítico (pois nele baseado, o povo recebeu a Lei), que
necessidade haveria ainda de que se levantasse outro sacerdote,
segundo a ordem de Melquisedeque, e que não fosse contado
segundo a ordem de Arão? Pois quando se muda o sacerdócio,
necessariamente há também mudança de lei” (Hb 7:11-12)
“Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão
em Cristo Jesus, porque a lei do Espírito da vida, em Cristo
Jesus, te livrou da lei do pecado e da morte” (Rm 8:1-2)
“Agora, pois, por que tentais a Deus pondo sobre a cerviz
dos discípulos um jugo que nem nossos pais puderam suportar,
nem nós?” (At 15:10)
“Procedi, para com os judeus, como judeu, a fim de ganhar os
judeus. Para os que vivem sob o regime da lei, como se eu mesmo
assim vivesse, para ganhar os que vivem debaixo da lei, embora
não esteja eu debaixo da Lei. Aos sem lei, como se eu mesmo o
fosse, não estando sem lei para com Deus, mas debaixo da lei de
Cristo, para ganhar os que vivem fora do regime da lei” (I Co
9:20-21)
“Levai as cargas uns dos outros e assim cumprireis a lei de
Cristo” (Gl 6:2)
“O meu mandamento é este: que vos ameis uns aos outros,
assim como eu vos amei” (Jo 15:12)

A Lei é santa, e o mandamento santo, justo e bom (Rm 7:12). Mas, como
meio de justificação diante de Deus, ela é, para o pecador (por não lhe
permitir um tropeço sequer – Tg 2:10), ministério de morte e condenação
(II Co 3:7-9), inútil para o seu aperfeiçoamento (Hb 7:18-19), de modo que o
mandamento que fora para vida, tornou-se (por causa do pecado) para
morte, porque a Lei é espiritual, mas o pecador é carnal, vendido à
escravidão do pecado (Rm 7:10-14).
A Lei vigorou até Cristo (obviamente para quem nele está), pois ele
aboliu na sua própria carne a Lei dos mandamentos em forma de ordenanças,
para, de judeus e gentios, criar um novo homem (Ef 2:15). Por causa do
pecado, os santos mandamentos da Lei são caminhos de morte, e está
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debaixo de maldição todo aquele que, sendo das obras da Lei, não as cumpre
sem um tropeço sequer (Gl 3:10). Mas, em Cristo, tudo se fez novo (II Co
5:17), e quem está nele tem agora novos mandamentos. Não mais
mandamentos da Lei, em forma de ordenanças - que, por causa do pecado,
levam a condenação e morte eterna - mas mandamentos do Senhor (I Co
14:37), que são parâmetros de Deus para a vida de todo renascido na Graça
e no Espírito de Cristo, pois a questão da nossa condenação já foi resolvida
quando ele mesmo assumiu os nossos pecados e sofreu a sentença que seria
nossa.
Nos ensinos de Jesus e dos apóstolos estão os mandamentos para todo
renascido em Cristo, os quais têm os mesmos princípios espirituais dos
mandamentos da Lei (que é santa), mas não são penosos (I Jo 5:3), pois, não
tendo punições estabelecidas para infrações (como na Lei), são
absolutamente despidos de qualquer possibilidade ou intenção de julgamento
para condenação; são para vida e nos ensinam a viver e a andar no Espírito
(Gl 5:25), como um discípulo de Cristo deve andar, discernindo a vontade
divina e corajosamente tomando decisões em cada situação na vida real, e
não no mundo fantasioso e hipócrita da religiosidade legalista. Por isso os
mandamentos do Senhor serão de muito maior glória, pois são ministério do
Espírito e da Justiça (II Co 3:7-9), e têm no amor a sua causa e efeito,
porque amar a Deus de todo o coração e ao próximo como a si mesmo excede
a todos os holocaustos e sacrifícios (Mc 12:33), e quem ama não pratica o
mal contra o próximo, de sorte que o cumprimento da lei é o amor (Rm
13:10).
Cristo anunciou um novo mandamento - base de muitos outros ensinados
por ele mesmo e, posteriormente, pelos apóstolos - que é também o
referencial identificador de seus discípulos (“Novo mandamento vos dou:
que vos ameis uns aos outros. Assim como eu vos amei, que também vos
ameis uns aos outros. Nisto conhecerão todos os que sois meus discípulos,
se tiverdes amor uns aos outros” - Jo 13:34-35). Convém lembrar que tais
palavras de Jesus não são um conselho ou uma advertência, mas um
mandamento para os seus discípulos. Quem anda nele “é aperfeiçoado no
amor e deve andar como ele andou” (I Jo 2:5-6). Diferente da expectativa
religiosa mais comum, a maior característica do discípulo de Cristo –
determinada por ele mesmo – não é o “pecado zero”, mas, sim, o amor ao
próximo.
Sempre que leio aqueles que o Senhor Jesus chamou de principais
mandamentos, eu me pergunto: “O que é e para que serve uma fé,
supostamente em Cristo, mas que não gera humildade nem leva o indivíduo a
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ações práticas, reais e relevantes que manifestem misericórdia e amor ao


próximo (Tg 2:18)? De quem é tal evangelho? De Jesus Cristo?”.
A diferença, não só de finalidade, mas também de linguagem e
instrumentalidade, entre os mandamentos da Lei e os mandamentos do
Senhor é facilmente identificável. Enquanto a Lei ameaça com a condenação
e aterroriza o pecador, perseguindo-o tal qual um pitbull que tenta morder-
lhe o calcanhar (em algum momento ele vai pegá-lo), os mandamentos do
Senhor afastam toda a condenação e o medo dela, e são um incentivo
constante à renovação da mente, para que obtenhamos “um coração puro,
uma boa consciência e uma fé sem hipocrisia” (I Tm 1:5).
Longe de tentar subjugar pela ameaça e pelo medo, o que se vê nos
mandamentos do Senhor (anunciados pelo próprio Jesus e também pelos
apóstolos) é o incentivo para que desenvolvamos em nós o que todo aquele
que está em Cristo já recebeu, ou seja, a própria mente de Cristo (I Co
2:16). Por isso é que os apóstolos - numa linguagem firme, mas amorosa –
rogam que: acatemos, consideremos, aceitemos, perdoemos, busquemos,
participemos, aconselhemos, admoestemos, cresçamos, renovemos,
recebamos, amparemos, consolemos, suportemos, dividamos, evitemos,
deixemos, rejeitemos, despojemo-nos, revistamo-nos, sigamos, anunciemos,
façamos, edifiquemos, persistamos, amemos, falemos, compartilhemos,
alegremo-nos, regozijemo-nos, oremos, intercedamos, louvemos,
glorifiquemos, caminhemos, creiamos, libertemos, confiemos e vivamos. O
objetivo de tudo isso é remover o véu legalista que nos mantém na cegueira
religiosa e farisaica e, em um processo gradual, que deve ser sempre
crescente (Cl 1:9-10; II Pe 3:18), ensinar-nos a enxergar com os olhos do
Espírito, sem o véu do legalismo autojustificador (II Co 3:12-18).
Tudo que Cristo ensinou fora do contexto da Lei Mosaica, bem como os
ensinamentos dos apóstolos (também fora do contexto exclusivamente
judaico), são mandamentos do Senhor Jesus, e não da Lei. E é a esses
mandamentos do Senhor Jesus - e não aos da Lei - que se referem
versículos como: “Ora, sabemos que o temos conhecido por isto: se
guardamos os seus mandamentos” (I Jo 2:3); “Se me amais, guardareis os
meus mandamentos” (Jo 14:15); “Aquele que tem os meus mandamentos e os
guarda, esse é o que me ama” (Jo 14:21); “Se guardardes os meus
mandamentos, permanecereis no meu amor” (Jo 15:10). Confundir a ordem
de “guardar os mandamentos do Senhor” com “guardar os mandamentos da
Lei” é suicídio espiritual; é confundir vida e morte. Assim como, mesmo
aquele que não crê em Cristo usufrui bênçãos se, em algum ponto, andar
conforme os mandamentos do Senhor (porque são para a vida), aquele que
crê em Cristo, mas opta por andar segundo as obras da Lei, também de
14

algum modo sentirá as duras conseqüências de tentar trazer novamente


sobre si a justiça da Lei, pedindo e submetendo-se voluntariamente à sua
disciplina (Ez 20:37).
Mas, em Cristo, tudo se fez novo, e não mudou apenas a linguagem dos
mandamentos. A metodologia, a forma e o objetivo do relacionamento são
diferentes. Tudo o que era relacionado ao regime da Lei - instrumentos,
práticas e costumes (e que sempre foram privativos dos israelitas – Rm 9:4)
- foi extinto na Nova Aliança. O voto já tinha sido alvo de ressalvas do
próprio Deus, que o desestimulava já na antiga aliança (“Quando a Deus
fizeres algum voto, não tardes em cumpri-lo, porque não se agrada de tolos.
Cumpre o voto que fazes. Melhor é que não votes do que votes e não
cumpras” - Ec 5:4-5), e foi expressamente proibido por Cristo na Nova
Aliança: “Também ouviste que foi dito aos antigos: Não jurarás falso, mas
cumprirás rigorosamente para com o Senhor os teus juramentos. Eu, porém,
vos digo: de modo algum jureis, nem pelo céu – por ser o trono de Deus –
nem pela terra – por ser o estrado dos teus pés; nem por Jerusalém – por
ser cidade do grande Rei; nem jures pela tua cabeça, porque não podes
tornar um cabelo branco ou preto. Seja, porém, a tua palavra: sim, sim; não,
não. O que disto passar vem do maligno” (Mt 5:33-37).
Esse mesmo mandamento do Senhor foi repetido por Tiago: “Acima de
tudo, porém, meus irmãos, não jureis nem pelo céu, nem pela terra, nem por
qualquer outro voto. Antes seja o vosso sim, sim, e o vosso não, não” (Tg
5:12). Mas o voto sempre foi muito apreciado na igreja como um instrumento
eficiente de barganha com Deus (com o nome de “voto” no cristianismo
evangélico e de “promessa” no cristianismo do Vaticano). Da mesma forma, a
pedra de uma tonelada que balança sobre a cabeça de quem faz um voto - e
que está prestes a cair sobre aquele que não o cumpre - sempre foi também
considerada pela instituição igreja um instrumento muito útil na sua luta,
não para derrotar o senhorio do pecado através do amor, da misericórdia e
do perdão gratuito, mas para extingui-lo pela força da Lei (I Co 15:56).
Apesar da clareza absoluta da proibição dos votos nos textos acima,
sempre ouvimos a tentativa de justificá-los pelo fato de que, já no Novo
Testamento, há relatos de alguns discípulos que fizeram voto. Ora, observa-
se, antes de tudo, que são judeus fazendo votos – pois era um costume do
regime da Lei (que é dos judeus). Nota-se também que tais votos aparecem
inseridos no contexto de demonstrar a tentativa que há, desde o início da
igreja, de que não só os judeus convertidos continuem sob o jugo da Lei (At
21:20-21), mas também os gentios convertidos se submetam à Lei Mosaica
(todo o NT - principalmente as cartas de Paulo – narra a luta contra a
15

permanência [dos judeus] e a sujeição [dos gentios] ao jugo da Lei, para que
possamos ser guiados pelo Espírito – Gl 5:8).
Paulo contemporizou em algumas situações com relação aos judeus (que,
como cidadãos, mesmo convertidos, tinham que observar os aspectos civis
da Lei Mosaica - At 23:1-5), como foi o caso da circuncisão do judeu
Timóteo pelo próprio Paulo (At 16:1-3), que jamais circuncidaria o gentio
Tito (Gl 2:3), pois quanto aos gentios convertidos, Paulo sempre exigiu a
separação total da Lei, proibiu a nossa sujeição a ela (Gl 5:2-4), e o seu
ministério caracterizou-se pela luta contra a influência mosaica e todas as
suas formas de legalismo na igreja gentílica (no início houve uma nítida
separação entre igreja judaica e gentílica – At 15:1-28; Gl 2:7) e a sua
conseqüência direta, o farisaísmo; de modo que, quem está justificado em
Cristo não pode sujeitar-se à Lei nem sentir-se nem declarar-se justificado
pela obediência a ela (Gl 5:4).
A vontade de Deus para judeus e gentios convertidos é que todos
abandonem o jugo da Lei (justiça própria). Mas para judeus convertidos,
mesmo não sendo mais julgados pela Lei (Tg 2:12), o referencial de conduta
continuou sendo o estatuto Mosaico, que era a sua lei civil. Em epístolas
dirigidas aos judeus, tal fato fica bastante claro (At 23:1-5; Tg 2:8-11, 4:11;
Epístola aos Hebreus).
Mas, em suas epístolas, o apóstolo dos gentios (e nós somos gentios
convertidos) deu instruções claras e detalhadas sobre o padrão de
comportamento a ser buscado pelos renascidos na Graça de Cristo, bem
como listou valores espirituais que deveriam guiar todos os discípulos,
tratou de condutas seriamente reprováveis para uma nova criatura em
Cristo, e fez tudo isso sem recorrer à Lei Mosaica. Antes, apontou-a como a
força do pecado (I Co 15:56), instrumento de domínio do pecado (Rm 6:14) e
mandou-nos manter distância de quem busca e quer impor aos outros a
justificação pela obediência à Lei (Tt 1:10-11). Era na doutrina dos apóstolos
que a igreja perseverava (At 2:42), e não na observância da Lei.
A absoluta rejeição de Paulo à Lei Mosaica como referencial de conduta
para os gentios era escândalo para os fariseus e não foi facilmente
compreendida nem pelos demais apóstolos (II Pe 3:14-16).
Voltando à questão do voto, nada impede que um renascido no Espírito
tome uma decisão radical e comprometa-se diante do Senhor (com a devida
seriedade) para redirecionar os rumos de uma determinada situação ou para
corrigir uma postura constante e inadequada para uma nova criatura em
Cristo (Rm 7:19). Entretanto, sua decisão deve ser um “sim” (ou um “não”, se
for o caso) diante de Deus, sem recorrer a barganhas (se me deres isso,
faço aquilo) nem fazer acordos (punições ou “prêmios”) nem tampouco
16

utilizar o nome de algo claramente proibido pelo Senhor Jesus (o voto – ou


“juramento”, que são a mesma palavra), na tentativa de deixar o cheiro
ameaçador da temível Lei, pois, para o renascido na Graça de Cristo, ela
está morta, e até o cheiro do que está morto é desagradável...
O jejum – equivocadamente também visto por muitos como uma forma
de, mediante sacrifício pessoal, comover o Senhor e obter respostas mais
rápidas – também desde a antiga aliança já havia recebido ressalvas e
advertências do próprio Deus quanto ao verdadeiro jejum que ele quer de
nós (Is 58:5-7). Diferente do voto, não há clara proibição para o jejum na
Nova Aliança (se não houver a intenção de barganha com Deus), mas a ironia
e o desprezo de Jesus – que chamou o jejum de “vestido velho” e “odre
velho” (Mt 9:14-17) – mostram a descartabilidade do jejum para quem está
em Cristo.
O culto formal - também exclusividade dos judeus (Rm 9:4) – que era a
adoração em um lugar determinado (o templo judaico), intermediado por um
sumo-sacerdote temporário, foi substituído pela adoração em espírito e em
verdade (Jo 4:23), em todo lugar, a toda hora, tendo por único sumo-
sacerdote (eterno) o também único mediador entre Deus e os homens:
Jesus Cristo (I Tm 2:5), de modo que, agora, em Cristo, somos todos
individualmente sacerdotes (I Pe 2:5).
No Novo Testamento, o termo “culto” refere-se sempre ao culto
judaico ou a algum culto pagão. A igreja reúne-se para comunhão e
edificação, e só... Não há referências neotestamentárias à igreja como um
lugar de culto. E isso simplesmente porque na Nova Aliança não há mais a
cerimônia exclusiva de adoração. Aquele que é nascido do Espírito cultua e
adora o Senhor Jesus com a sua vida, o dia todo, todos os dias, em todo
lugar.
No culto da velha aliança havia um seleto grupo de pessoas fazendo um
ritual pré-determinado e previsível para Deus (adoração formal). Na
comunhão da igreja deve haver um ajuntamento de vários tipos de gente em
busca do que Deus quer fazer por elas (edificação). Mas, o (bem-sucedido)
processo de “legalização/judaização” que tem sido imposto sobre a igreja
desde o final dos tempos apostólicos - tentando fazer dela uma sutil
remodelagem do templo judaico, um lugar exclusivo de culto e adoração -
tem transformado-a em um híbrido de Lei e Graça, que está mais para
Judaísmo Cristão do que para o Evangelho de Cristo, organizado numa
sistematização que tem como prioridade alimentar rotinas religiosas,
levando a instituição igreja a cultuar-se a si mesma, exacerbando
sobremaneira o muito respeito que lhe é devido, a ponto de elevá-la a “Santa
Madre Igreja”, tornando-a atraente para mentes autojustificadas (que
17

buscam legitimação na rígida “lei dos crentes”), mas inadequada para


corações que verdadeiramente se reconhecem pecadores.
Quando Jesus disse que estaria onde houvesse dois ou três reunidos
em seu nome (Mt 18:20), ele, evidentemente, não estava afirmando que não
estaria com um discípulo quando este estivesse sozinho. Ele falava de
comunhão (papel fundamental da igreja), e mostrou que, para que ela
aconteça, basta que haja duas pessoas reunidas em seu nome. Para Cristo,
esse pequeno ajuntamento já é a sua Igreja. Desse modo, ele deixou claro
que estaria e agiria fora das paredes da instituição igreja e também
alertou-nos para o fato de que o centro de sua atenção são as pessoas
(comunhão e edificação), e não o lugar (Templo – exclusivo para culto e
adoração).
O medo da Lei e o medo de discernir as situações espiritualmente são
os dois lados da mesma moeda. Por isso temos que separar o que é da Lei e o
que é da Graça, como obreiros aprovados, que manejam bem (“dividem bem”,
no original) a palavra da verdade (II Tm 2:15), para que não tenhamos zelo
sem entendimento (Rm 10:2), pois, se julgarmos tudo pela religiosidade e
não desenvolvermos a habilidade de identificar até o perfume da Graça de
Cristo, jamais perceberemos sequer a diferença entre uma rosa verdadeira
e uma outra, muito parecida (às vezes, até mais bela), mas de plástico.
Nossas vidas devem ser uma resposta ao amor de Deus por nós, pois,
em Cristo, tudo provém do amor e no amor é feito. As mais duras
exortações e até o afastamento da comunhão são ainda por amor, com amor
e visando à restauração (II Ts 3:14-15). Se não é por amor nem com amor,
não vem do Espírito de Deus, pois Deus é amor (I Jo 4:8) e, por isso, todos
os nossos atos devem ser feitos com amor (I Co 16:14).
Tudo o que Deus quer realizar no coração, na alma e na consciência do
pecador, todo o processo de transformação em uma nova criatura, nascida
do Espírito, tem o seu início, meio e fim no amor a Deus e se revela no amor
ao próximo. Uma suposta fé em Deus, que não se manifesta em atitudes
reais, motivadas pelo amor ao próximo, é uma fé morta (Tg 2:17-18).
Os princípios do Evangelho são alicerçados em dois mandamentos, dos
quais dependem toda a Lei e os profetas: “Amarás o Senhor teu Deus de
todo o teu coração... e o teu próximo como a ti mesmo” (Mt 22:36-40).
Entretanto, só pode amar a Deus quem se sente amado por ele primeiro (I
Jo 4:19), mas o cristianismo-religião sempre dificultou a percepção do amor
divino e quis vender caro o que Deus dá gratuitamente. O Evangelho diz:
“Descansa no amor de Deus por ti”; o cristianismo-religião te ensina a
negociar com Deus. O Cordeiro crucificado clama: “Eu e o Pai te amamos!”; o
cristianismo-religião sussurra: “Desconfie deles...”.
18

Do mesmo modo, ninguém consegue amar ao próximo como a si mesmo


sem considerar a superabundância (Rm 5:20) e a multiformidade da Graça
de Deus (I Pe 4:10). Para nós, a Graça tem apenas a medida exata dos
nossos pecados; de modo que pecados mais feios do que os nossos são
inaceitáveis. Precisamos entender, aceitar e crer que a Graça é
suficientemente abundante para alcançar aqueles que julgamos mais
pecadores do que nós, e que ela pode revelar-se a eles de uma forma
diferente da que as nossas mentes cauterizadas pela institucionalização
julgariam mais conveniente e adequada. Só faremos algo parecido com “amar
ao próximo como a nós mesmos” quando libertarmos nossa mente da
autojustificação legalista e institucionalizada.

“A ninguém fiqueis devendo coisa alguma, exceto o amor com


que vos ameis uns aos outros, pois quem ama ao próximo tem
cumprido a Lei. Pois isto: não adulterarás, não matarás, não
furtarás, não cobiçarás, e se há qualquer outro mandamento,
tudo nesta palavra se resume: Amarás ao teu próximo como a ti
mesmo. O amor não pratica o mal contra o próximo, de sorte que
o cumprimento da Lei é o amor” (Rm 13:8-10)

Na Velha Aliança, o referencial de pecado é a transgressão da Lei, e o


seu cumprimento total (perfeição) é o padrão necessário (apenas hipotético)
para a salvação. No Evangelho de Cristo (Nova Aliança), o amor é o fator
determinante de tudo. O pecado – embora não tenha mais a condenação
como uma possível conseqüência, pois já não é mais uma transgressão da Lei
- é qualquer atitude (para com o próximo ou para consigo mesmo) que não
seja amor, inclusive omitir-se de exercer o amor (Tg 4:17). A salvação se dá
através da fé no amor incondicional de Deus, que amou o mundo de tal
maneira, que enviou seu Filho unigênito para pagar pelas transgressões do
mundo inteiro (I Jo 2:2) e cumprir a sentença que seria nossa. Todo aquele
que crer e confiar nesse ato de amor não perecerá e terá a vida eterna (Jo
3:16).
A graça, o amor e o perdão de Cristo são suficientes para o mundo
inteiro, e eficientes naqueles que crêem. E, uma vez perdoados e livres da
condenação, o mandamento do Senhor para nós – e que é o padrão para a
nova criatura, renascida no seu Espírito - é que tratemos o próximo como
19

gostaríamos de ser tratados (Lc 6:31) e que nos ajudemos mutuamente (Gl
6:2), amando-nos uns aos outros como ele nos amou (Jo 15:12).
Os mandamentos da Lei, Cristo já os guardou por nós. Ele agora quer
que guardemos os seus mandamentos (Jo 15:10), que são referenciais de
amor, de modo que um renascido no Espírito pode e deve ser repreendido e
exortado (com toda longanimidade - II Tm 4:2), não por desobediência à Lei
(para a qual ele está morto), mas por falta de amor.
A igreja precisa entender que não existe nos mandamentos do Senhor
a linearidade e a generalização (coletivização) característica da Lei, pois
eles não são um estatuto de condenação. O Espírito conhece as fraquezas e
os limites de cada um de nós e nos trata individualmente. Diferente do que
acontecia quando estávamos debaixo de lei, agora que estamos em Cristo,
podemos e devemos ser nós mesmos, para que assim possamos ser
aperfeiçoados, pois o processo precisa começar do zero. Então, em vez de
tentarmos policiar, monitorar, julgar e sentenciar a vida dos irmãos - como
se a igreja de Cristo fosse uma fábrica de biscoitos absolutamente iguais -
devemos ouvir o que o Espírito tem a nos dizer sobre a nossa própria vida.
As diferenças na igreja com relação à liberdade cristã são claramente
mencionadas pelos apóstolos e, desde que não procedam de puro legalismo, o
mandamento do Senhor é que sejam aceitas e que se busque conviver com
elas em paz (Rm 14:1-3) e sem forçar a barra (I Co 3:2). Tentar ressuscitar
a Lei como parâmetro da nossa liberdade a fim de se conseguir uma falsa
homogeneidade na igreja é uma atitude absolutamente inadmissível na
caminhada com Cristo (Rm 14:4).
20

V - ROMPIMENTO NECESSÁRIO

“Ora, a mulher casada está ligada pela Lei ao marido,


enquanto ele vive. Mas, se o mesmo morrer, desobrigada ficará
da lei conjugal. De sorte que será considerada adúltera se,
vivendo ainda o marido, unir-se a outro homem. Assim, meus
irmãos, também vós morrestes relativamente à lei, por meio do
corpo de Cristo, para pertencerdes a outro; a saber, aquele que
ressuscitou dentre os mortos e, deste modo, frutifiquemos para
Deus” (Rm 7:2-4).

Mas o que mais se pode dizer sobre a Lei? Que comportamentos e


atitudes ela mantém – ou agrava - em corações ainda sob seu domínio,
mesmo depois da conversão ao Evangelho? Se estamos na Graça - e a Lei é
oposta à Graça - devemos constantemente examinar se estamos servindo à
Lei (acusação e julgamento) ou ao Espírito de Deus (chamado ao
arrependimento, perdão gratuito e processo de aperfeiçoamento no amor).
Nos ensinos do apóstolo Paulo, percebemos que ele considerava
indispensável o rompimento com a Lei. E para deixar bem claro o nível de
rompimento que tinha em mente, ele usou a figura mais definitiva que
existe: a morte. Nada há de mais definitivo, mais contundente, mais divisor,
mais separador e mais significativo de sumir sem deixar rastros nem
possibilidade de contato. Em várias ocasiões o apóstolo Paulo afirma que o
rompimento com a lei deve ser tão definitivo quanto a própria morte
(morremos para ela, e ela para nós).
Na cruz de Cristo morreram também a Lei e, espiritualmente, o nosso
“velho homem” (Rm 6:6). E “agora, libertados da Lei, estamos mortos para
aquilo a que estávamos sujeitos, de modo que servimos em novidade de
espírito, e não na caducidade da letra” (Rm 7:6). A partir da conversão,
iniciamos um processo de renovação da nossa consciência (novo nascimento,
como nova criatura), para que possamos compreender com a mente aquilo
que já aconteceu no nosso espírito, de modo que ambos (mente e espírito)
andem, não de acordo com o espírito desse mundo, mas em conformidade
com a vontade de Deus (Rm 12:2). E essa renovação acontece na velocidade
e no ritmo do Espírito, e não no desespero típico de quem está debaixo da
Lei.
Com Cristo fomos crucificados, com ele ressuscitamos, de modo que
por ele e para ele vivemos, pois agora ele vive em nós (Gl 2:19-20). E o
apóstolo Paulo nos estimula constantemente à compreensão dessa nova vida,
21

que só pode ser discernida e vivida sem a justiça própria que provém da Lei,
exclusivamente pela ação do Espírito Santo de Deus em nossas vidas, que
nos revela e também nos ensina como andar no Espírito. E Paulo deixou bem
claro que isso ocorre à medida que formos rompendo os laços com a Lei, e de
uma forma tão definitiva quanto a morte.
Assim como nós morremos em Cristo, a Lei também se foi no Calvário.
Para os que estamos em Cristo, a Lei está definitivamente morta e
enterrada, mas nós nascemos de novo, agora no Espírito (Jo 3:3-8). A idéia
é, portanto, que tudo tem que ser zerado, esquecido e reiniciado em um novo
formato (II Co 5:17). Nada do que era velho pode adentrar o que é novo,
pois ninguém põe remendo de pano novo em roupa velha (Mt 9:16).
A morte da Lei significa a extinção da forma de relacionamento com
Deus que ela representa (mediante a autojustificação do homem). Que,
aliás, nunca foi uma forma de relacionamento, mas, sim, de não-
relacionamento com Deus. Quem está debaixo da Lei - ou seja, buscando
justiça própria diante de Deus por boas obras, através do esquema de
obediência a mandamentos e ordenanças – não mantém relacionamento com
Deus. Ela, a Lei, simplesmente diz: “Cumpra-me e viva ou desobedeça-me e
morra!”. Entenda-se com a Lei quem sob a Lei está (Rm 3:19). Deus está fora
desse relacionamento. O desafiante está por sua própria conta e risco, pois
quem está debaixo da Lei está debaixo de maldição (Gl 3:10). Não se pode
ser justificado por Cristo e pela Lei ao mesmo tempo (Gl 5:4).
A Lei morreu para nós, e nós para ela. E isso significa que precisamos
desistir de qualquer forma de barganha com Deus e rejeitar todo e qualquer
espírito de altivez que tente incutir em nosso coração a idéia de
justificação por mérito próprio, bem como tudo que possa contribuir para
esse fim: a postura julgadora e sentenciadora do próximo (sempre
disfarçada de “boas intenções”), bem como os rituais pessoais e os
procedimentos litúrgicos que tenham sua origem na Lei, pois não se põe
vinho novo em odres velhos, eles não o suportam (Mt 9:17). Devemos ainda
abandonar as atitudes arrogantes, típicas de quem se sente mais “santo” do
que os demais e justificado pela obediência a ordenanças. Tudo que estiver
adequado ao regime (esquema) da Lei em nossas vidas deve ser abolido.
Precisamos exercitar nossas mentes a nem mais pensar conforme a
estrutura e a natureza da justificação pela Lei, pois ela é referencial de
condenação, e nós não somos comprometidos com a condenação de ninguém.
Somos, sim, comprometidos com o perdão e salvação de toda a humanidade
e, para isso, temos um novo referencial – o amor de Deus.
A sentença da justiça da Lei é condenação e morte eterna. O “povo do
perdão” não pode se amoldar a tal instrumento, pois para ele já morremos
22

com Cristo. Mas a sentença da Justiça de Deus, em Jesus, é perdão e vida


eterna, e nela devemos investir todas as nossas forças, com nossa mente e
coração subjugados à Graça de Cristo, pois nela é que somos salvos. Vale a
pena repetir sempre: a Lei não é Deus, e Deus não é a Lei...
O apóstolo Paulo deu-nos ainda um outro motivo, bastante
esclarecedor, para não tentarmos ressuscitar a Lei. Antes de estarmos em
Cristo, cada pecado nosso era uma transgressão da Lei, e a nossa situação
como transgressores só piorava. Aquele que está em Cristo certamente
ainda comete pecados (I Jo 1:8-10). Entretanto, não somos mais
transgressores, pois não estamos mais debaixo da Lei. Ela não nos diz mais
respeito, e só transgride a Lei quem sob a Lei está, pois onde não há Lei não
há transgressão (Rm 4:15), e nós, em Cristo, morremos para a Lei, a fim de
vivermos para Deus. Tentar ressuscitar a Lei é querer reconectar os
pecados a ela; é tornar-se novamente transgressor e fazer de Cristo
ministro do pecado (Gl 2:17-19), pois, assim sendo, ele teria apenas dado
carta branca a transgressores. Por isso não havia outra opção, o estatuto da
justiça própria humana, que é ministério de morte e condenação (II Co 3:7-
9), tinha que morrer, e morreu!
Precisamos ainda entender que a Lei é um conjunto de mandamentos,
mas funciona (só funciona) como um todo, como uma peça única, de modo que
quem tropeça em um só mandamento é culpado de todos (Tg 2:10). A
conclusão óbvia, que devemos entender e aceitar sem medo, é que quem fica
livre de um mandamento também fica livre de todos. Se Cristo nos livrou da
Lei, ele não nos livrou apenas de um ou outro mandamento, mas de toda a
Lei. Se morremos para a Lei e ela morreu para nós, isso não se refere
apenas a alguns mandamentos, mas a toda a Lei.
23

VI - REJEIÇÃO AO PECADO E PROCESSO DE RESTAURAÇÃO

“Aparte-se da injustiça todo aquele que professa o nome do


Senhor” (II Tm 2:19)

O poder do pecado sobre o homem natural é tremendo, pois ele já


nasce seu escravo. Na cruz do Calvário, Cristo decretou a morte desse
homem natural e afastou totalmente as conseqüências dessa escravidão
para todo aquele que crê. Mas a caminhada com Cristo acontece numa
seqüência diferente da que compreenderíamos mais facilmente. De modo
que, no Calvário, Cristo primeiramente nos declarou santos, puros como ele é
puro (I Jo 3:3), perdoando antecipadamente as nossas iniqüidades e
cobrindo os nossos pecados, que jamais nos serão imputados (Rm 4:7-8).
Depois disso, então, é que vem o processo de “adequação” a essa nova
realidade. Ou seja: primeiro, Cristo perdoa e salva (“Está consumado!” – Jo
19:30); depois, restaura e renova.
Na cruz do Calvário, quando assumiu a nossa condenação, Cristo
antecipou o perdão e consumou tudo, já declarando justos, perfeitos e livres
da escravidão do pecado todos os que viessem a crer na sua obra.
Entretanto, esse fato (real) não nos capacita a nos libertarmos sozinhos do
domínio do pecado.
Ao explicar a carnalidade e a escravidão de todo homem ao pecado (Rm
7:7-25), o apóstolo Paulo - assumindo uma figura representativa de todos
nós - deixou bem claro, de forma radical e chocante, que, embora absolvidos
por Cristo (v. 20), se dependesse unicamente de nós - mesmo já convertidos
- não venceríamos o pecado, e viveríamos derrotados (Quem me livrará do
corpo desta morte? – v. 24), pois o nosso “velho homem” – nossa natureza
adâmica - só será totalmente aniquilado no encontro com Cristo, quando o
nosso corpo corruptível e mortal se revestirá de incorruptibilidade e
imortalidade (I Co 15:53).
Ao mostrar que, mesmo convertidos, ainda estamos sujeitos a cometer
pecados considerados muito graves, o apóstolo abriu as portas da igreja
para todo e qualquer tipo de pecador que se possa imaginar (o hospital deve
receber e cuidar de absolutamente todas as enfermidades, mesmo das mais
chocantes e repulsivas a olhos ainda carnais e farisaicos), e destruiu ainda,
sem dó nem piedade, qualquer possibilidade de nos vangloriarmos (em nós
mesmos) nas vitórias contra o pecado (para tristeza e decepção dos
legalistas), induzindo-nos à sujeição total e absoluta ao senhorio de Jesus
Cristo, que é quem nos capacita a caminhar mortificando a nossa velha
24

natureza, pecadora, e a vencer o pecado, pois, mesmo não estando mais


sujeitos à condenação (Romanos 8:1), se confiarmos em nossa religiosidade
(justiça própria), colheremos derrota após derrota.
Sem Cristo, somos, no máximo, flores sem perfume, uma linda
cachoeira sem água, um arco-íris em preto e branco, praia sem pôr-do-sol,
disco do nosso cantor favorito sem ter onde ouvi-lo. Sem Cristo, somos
inúteis e não vencemos o pecado nem damos fruto algum, pois, sem ele, nada
podemos fazer (Jo 15:5).
A nossa jornada recomeça a cada manhã, e não estamos mais trilhando,
sozinhos, um caminho que aponta para Cristo (a Lei – Gl 3:24). Ele é o
próprio caminho (Jo 14:6), e o seu senhorio deve estar “ativado” o tempo
todo em nossas vidas.
Deus rejeita o pecado sempre. Ele rejeitava os nossos pecados antes
da nossa conversão ao Senhor Jesus, e ainda os rejeita hoje. Mas a morte
de Cristo possibilitou uma maior intimidade de Deus para conosco. Em
Cristo, Deus assumiu toda a acusação e a condenação da Lei pelos nossos
pecados, e pagou por todos eles. Contudo, sabemos que quem está em Cristo
ainda comete pecados (I Jo 1:8-10), mas, uma vez resolvida a questão com a
Lei (satisfeita, em Cristo, a sua justiça) e afastada de nós toda a
condenação no Calvário, os nossos pecados não são mais transgressões, e
Deus agora pode conduzir um tratamento de restauração em nossas vidas,
cujo objetivo é a transformação renovadora da nossa consciência, para que
compreendamos com a nossa mente aquilo que já aconteceu no nosso espírito
e, assim, caminhemos no Espírito de Cristo, livres da condenação da Lei,
sabendo discernir a vontade de Deus em toda e qualquer situação (Rm 12:2),
de modo que quando nos desviarmos para a direita, e quando nos desviarmos
para a esquerda, os nossos ouvidos ouvirão, atrás de nós, uma palavra
dizendo: “Este é o caminho, andai por ele” (Is 30:21). E essa capacidade de
discernimento é obtida, não pelo temor e observância da Lei, mas através de
muita leitura e meditação nos ensinos do Senhor Jesus e dos apóstolos (I
Tm 4:15).
Contudo, essa renovação espiritual da consciência não acontecerá de
forma relevante enquanto não pararmos de ler a Bíblia como se ela fosse um
código penal (apenas procurando mandamentos que digam – ou supostamente
sugiram - o que não podemos fazer, a fim de saciarmos a nossa sede de
justiça própria e juízo sobre o próximo), e não afastarmos do nosso coração
o medo da condenação, bem como da nossa mente as artimanhas desse
medo, pois esse espaço é preenchido pelo amor de Deus e pela nossa
gratidão a ele, posto que tudo que se faz no Espírito se faz por amor, e não
por medo. Se é por medo, não é por amor e não é pelo Espírito, pois no amor
25

não existe medo. Antes, o perfeito amor lança fora o medo. Ora, o medo
produz tormento; logo, aquele que teme não é aperfeiçoado no amor (I Jo
4:18), pois foi por amor que Deus abandonou toda a sua glória (Fp 2:7) e,
como homem, ofereceu a sua própria vida (absolutamente santa) para sofrer
a condenação da Lei que pesava sobre nós, livrando-nos da morte eterna e,
ao ressuscitar, fazer-nos co-participantes de sua natureza divina (II Pe
1:3-4). É com muita gratidão a Deus por tão grande amor e com total
confiança (fé), que devemos buscar e submeter-nos à transformação que
gradativamente nos levará não somente a viver no Espírito, mas também a
andar nele.
Mas esse processo de restauração do pecador - viabilizado na cruz do
Calvário – não é muito bem compreendido nem aceito por muitos que se
dizem convertidos, mas que, ainda embriagados com o vinho velho – a Lei
(ninguém, tendo bebido o vinho velho, prefere o novo, porque diz: o velho é
excelente! - Lc 5:39) - vêem aqui o que é para eles uma inaceitável
relativização do pecado. Para os tais, a Graça é um tanto confusa, frouxa e
carente da exatidão e do absolutismo da Lei. Ora, ora... Nada há de mais
legalista do que tal postura, pois é a Lei que olha para o homem e apenas diz
se ele está sadio ou doente. Nela, todo e qualquer pecado é para condenação
eterna. Não há nenhum envolvimento nem possibilidade de restauração nem
aperfeiçoamento, mas apenas análise, diagnóstico, condenação e morte
eterna (Rm 6:23).
Os pecados de quem está debaixo da Graça de Cristo (renascidos no
Espírito – Jo 3:1-8) não são mais motivos para condenação (Rm 8:1), pois não
são mais transgressões da Lei. Eles são agora uma questão de desobediência
ao padrão (amor) no qual Deus quer que andemos. E esse processo de
adaptação a esse novo padrão - o ser nova criatura - não pode acontecer sob
o absolutismo condenatório da Lei, por isso ela está morta para os que estão
em Cristo Jesus.
Chamar de incentivo ao pecado o processo divino de restauração do
pecador requer realmente muita coragem, pois quem apregoa o rigor da Lei
(infalibilidade) para os outros puxa para si esse mesmo rigor (Mt 7:2),
trazendo sobre a própria alma angústias, culpas e sofrimentos que seriam
absolutamente desnecessários.
Além disso, o medo da condenação apenas leva o pecador a esconder e
não tratar do seu pecado, e a não ser transparente e verdadeiro diante dos
homens, pois o ser humano simplesmente não suporta nem aceita a verdade
acerca de si mesmo (imagine com medo da condenação!). Aquele que disse:
“Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14:6) também disse: “Vim causar
divisão entre o homem e seu pai, entre a filha e sua mãe, e entre a nora e
26

sua sogra” (Mt 10:34-36). Portanto, a verdade pode causar divisão, sim;
mesmo entre as pessoas mais próximas (entre as não tão próximas, então...).
Muitas vezes, a divisão é o primeiro efeito da verdade, a sua primeira
conseqüência. Mas, ainda assim, a verdade é amor, pois aquele que se
quebranta e a aceita encontrará o descanso e a paz que ela proporciona aos
que nela vivem.
Contudo, não é verdadeiro diante de Deus quem não é primeiramente
diante dos homens. Deus quer tratar dos seus pecados reais, com você
mesmo, com você de verdade, e não com um cristão virtual (um impostor)
que você tenha criado para exibir justiça própria no convívio da igreja. Deus
quer muito de você, mas ele não quer que você se apresente como alguém
que você, na verdade, não é. A cura da sua alma começa aqui...
Deus prefere verdades horríveis a lindas mentiras, pois o campo de
ação dele em nossas vidas é sempre a verdade. Sinceridade, ainda que
chocante, é algo que deve ser sempre encorajado e bem recebido, já que
Deus sempre esteve interessado justamente em quem se reconhece doente
(Mt 9:12), e não em quem finge ter saúde. Ele sempre quis sarar as feridas
de quem se reconhece enfermo.
As transgressões do homem impediam a comunhão com o seu santo e
perfeito Criador (até entre Deus e o seu próprio Filho - igualmente santo e
perfeito - houve separação no momento em que este recebeu sobre si todas
as transgressões da humanidade - Mc 15:34). Por isso, movido por seu
infinito amor, ele mesmo assumiu as transgressões humanas (II Co 5:19), a
conseqüente condenação e ainda sofreu a execução da pena que seria nossa.
A Lei e a justiça meritória – que mantêm o homem sob condenação - são um
caso encerrado para todos aqueles que recorrem à Justiça do Calvário e
nela depositam a sua confiança, nos quais o Pai e o Filho fazem morada (Jo
14:23). Em Cristo, o amor de Deus reconquistou o que, por causa das
transgressões, estava dividido e separado por um abismo intransponível para
o homem. Tal fato aconteceu historicamente há dois milênios, mas, por
desígnio divino, a Graça nos foi dada, em Cristo, antes dos tempos eternos
(II Tm 1:9), antes que o homem fosse criado e ainda muito antes que
houvesse lei.
Deus já criou o homem com o acesso aberto para restaurá-lo. Não cabe,
portanto, atribuir a ele uma inflexibilidade que é tão-somente da Lei (e a Lei
não é Deus), e ainda debochar do processo divino de resgate do pecador,
acusando o próprio Deus de, mediante a Graça, incentivar o pecado (é a Lei
que desperta toda sorte de concupiscência – Rm 7:8). Tal postura passa ao
mundo uma imagem divina que, de forma alguma, corresponde à realidade,
pois apresenta características que são da Lei, e não de Deus. E o mais
27

trágico é que esse des-serviço ao Evangelho de Jesus Cristo é “prestado”


exatamente por muitos daqueles que receberam a missão de pregar nada
menos do que o amor de Deus pelos pecadores. Ora, tais acusadores é que,
julgando-se espirituais, são ainda escravos da lei e permanecem afundados
em seu farisaísmo carnal, pois, tal qual a lei que ainda os domina (Rm 7:1),
eles apenas mantêm o dedo apontado para quem julgam estar em pecado.
O homem não é pecador porque peca. Ele peca porque é pecador. E, ao
longo de sua vida, ele apenas acumula a sujeira do pecado em sua pele. Essa
sujeira (a transgressão da Lei) – e não o pecador – tem um forte mau cheiro,
insuportável para Deus, de modo que, mesmo amando o pecador
(transgressor da Lei), ele não pode limpá-lo. Entretanto, quando o pecador
crê em Cristo e nele renasce (morrendo para a Lei), essa mesma sujeira
perde o mau cheiro diante de Deus (deixa de ser transgressão da Lei), e ele,
então, começa o processo de limpeza, que acontece de modo diferente e em
tempos diferentes em cada um de nós. Os nascidos no Espírito têm agora,
diante de Deus, o agradável perfume de Cristo (II Co 2:15).
Deus rejeita e sempre rejeitará o pecado, mas precisamos entender e
aceitar que, embora as mentes ainda espiritualmente turvas e
autojustificadas imaginem o contrário, a força do pecado é a Lei (I Co
15:56). Por isso nós, os que cremos, morremos para ela (Gl 2:19) e não somos
mais transgressores. Deus agora olha para nós através do seu filho Jesus e,
apesar dos nossos pecados (que não são mais transgressões da Lei), ele pode
cuidar de nós, segurar-nos pela mão e ensinar-nos a andar no Espírito, com a
sua vontade escrita, não em tábuas de pedra, mas em nossas mentes e
corações (Hb 8:10-11).
Cristo é a lente que permite que Deus nos enxergue sem ver os nossos
pecados como transgressões (pois quem está em Cristo morreu para a Lei) e,
dessa forma, deles não tenha mais lembrança (Hb 8:12). Para ele, somos – os
que cremos - tão puros quanto ele é puro (I Jo 3:3). E, como para quem está
em Cristo não há mais lei nem condenação (Rm 8:1) nem os nossos pecados
são mais transgressões, não há mais empecilhos para que Deus se achegue a
nós a fim de curar a nossa alma. Nossos pecados são como feridas
remanescentes da nossa velha natureza (que só será aniquilada no encontro
com Cristo), das quais Deus agora pode tratar, pois elas não ficam bem em
alguém que renasceu no Espírito de Deus. E nesse processo, Deus usa muitos
auxiliares; entre eles, eu e você. E ele quer que cuidemos uns dos outros, em
amor (Gl 6:2).
Na carta de Paulo aos Gálatas (5:16-26), o apóstolo esboça uma lista de
obras da carne e uma de frutos do Espírito. Ele lembra ainda que as tais
obras da carne são caracteristicamente praticadas por aqueles que não
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herdarão o Reino de Deus (v 21). E esse é o motivo apontado pelo apóstolo


para que os que – pela Graça, mediante a fé - herdaremos o Reino de Deus
não as pratiquemos, pois vivemos no Espírito e devemos praticar obras cujos
frutos estão na segunda lista, de modo que vivamos e também andemos no
Espírito (v. 25).
Como algumas dessas obras da carne ali citadas por Paulo são práticas
inegavelmente comuns na igreja (as que se pode esconder), a coerência
entre o que cremos (nosso espírito) e o que praticamos (nossa mente) é
precisamente o objetivo do processo diário de renovação da nossa
consciência, ao qual devemos estar submetidos e sempre atentos.
Mas uma das melhores conseqüências da obra no Calvário é que Deus
agora é otimista para conosco. Sim, é verdade... Enquanto muitos de nós
ficam olhando para a Lei, cheios de temor e pensando: “Será que vai dar?”,
Deus é extremamente otimista conosco, em tudo, e confia na nossa vitória,
porque, em Cristo, já somos vitoriosos (I Co 15:57 – I João 5:4). Deus é
otimista com relação a você e com relação a mim. E isso porque, diferente
de nós, ele confia totalmente no processo que criou para regeneração da sua
criação favorita. Ele confia a ponto de ter dado a própria vida para que o
processo de resgate dela fosse viabilizado.
29

VII - MAS, E OS NOSSOS PECADOS?

“Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão


em Cristo Jesus” (Rm 8:1)

Quem pratica o pecado procede do diabo (I Jo 3:8) e, em sua prática,


transgride a Lei, porque o pecado é a transgressão da Lei (I Jo 3:4), e a
prova do amor de Deus para conosco é que Cristo morreu por nós quando
ainda estávamos nessa condição de transgressores da Lei (Rm 5:8). Ora,
“tudo que a Lei diz, aos que vivem na Lei o diz” (Rm 3:19) e nós não vivemos
mais na Lei e, sim, na Graça de Cristo (Rm 6:14); e, se a Lei não mais existe
para nós, então, mesmo quando cometemos pecados (sim, ainda temos
pecados - I Jo 1:8-10) eles não são mais transgressões da Lei, pois não se
pode transgredir o que não mais existe (Rm 4:15). Ora, em Cristo não existe
pecado; portanto, do ponto de vista legal (relativo à Lei), todo aquele que
permanece nele não peca, pois todo aquele que peca não o viu nem o
conheceu (I Jo 3:5-6), bem como todo aquele que é nascido de Deus não
peca, pois o que permanece nele é a divina semente; ora, esse não pode
pecar [pois não está sob a possibilidade de transgredir a Lei], porque é
nascido de Deus (I Jo 3:9). Mas, “se torno a edificar aquilo que destruí (a
Lei), a mim mesmo me constituo transgressor” (Gl 1:18).
Somos nascidos de Deus, e um nascido de Deus não procede do diabo
nem transgride a Lei, pois a ela não está mais sujeito (em algumas edições
bíblicas, o tradutor substituiu a expressão “não peca” – conforme consta no
texto original - por “não vive pecando” para tentar solucionar um dilema que
era dele, tradutor, e não do autor da epístola).
A Lei criminaliza o pecado, e a sua exigência de perfeição absoluta vale
para quem quer que esteja buscando qualquer forma de autojustificação
(para que “todo o mundo seja culpável perante Deus” – Rm 3:19). No caminho
da autojustificação, um único pecado é suficiente para a condenação (Tg
2:10; Rm 6:23). Ao abolir a Lei em sua própria carne (Ef 2:15), Cristo
cancelou o escrito de dívida gerado por ela - que era contra nós e nos era
prejudicial (Cl 2:13-14) – e, assim, descriminalizou os pecados de todos os
que estão debaixo de sua Graça (para os quais agora tudo é lícito – nada é
transgressão da Lei - embora nem tudo seja conveniente – I Co 6:12), de
modo que os pecados de quem está em Cristo são desvios do padrão de Deus
para seus filhos, mas não são transgressões nem delitos sujeitos à
condenação eterna (Rm 8:1). Ora, se toda e qualquer transgressão da Lei
tem como conseqüência a condenação, o que temos nós ainda a ver com ela?
30

A fé, obviamente, não anula a Lei (Rm 3:31). Ela continua viva e à
disposição de quem quiser estar submisso a ela e nela buscar justificação
(Gl 4:21). Mas, seguramente, a fé liberta da Lei e de seu jugo todos os que
recorrem à justificação no escândalo da cruz (Rm 6:14; 7:6 Gl 5:1). Estes
morreram para a Lei do pecado e da morte (Rm 8:2) e o ministério da morte
e da condenação não tem exerce mais nenhum domínio sobre eles.
Não se pode ter como referencial de vida o próprio ministério da morte
(II Co 3:7). Em Cristo tudo é vida; ele é o nosso referencial (Cl 3:11) e o seu
mandamento é este: “que vos ameis uns aos outros, como eu vos amei” (Jo
15:12), pois “o amor não pratica o mal contra o próximo” (Rm 13:10).
Então, quanto aos nossos pecados, devemos reconhecê-los e rejeitá-los
sempre (porque não procedemos do diabo), mas jamais preocupar-nos com
eles sob a perspectiva da condenação eterna. Na verdade, estaremos
ofendendo ao Senhor com tal preocupação, pois estaríamos desprezando e
anulando o seu sacrifício no Calvário (Gl 2:21), onde ele afastou
definitivamente a possibilidade de condenação de todo aquele que nele crê
(Rm 8:1). Pecamos, portanto, se consideramos a possibilidade de sofrermos
a condenação eterna por causa dos nossos pecados.
Confiar na misericórdia divina, no seu amor incondicional, na sua
irreversível aceitação de todo aquele que nele crê e confia, é o que faz um
homem segundo o coração de Deus.
Ficarmos tranqüilos quanto à impossibilidade da nossa condenação - em
qualquer situação, mesmo quando andamos fora dos caminhos de Deus e
sujeitos, portanto, à sua disciplina (lembremos de Davi, o “homem segundo o
coração de Deus” – I Cr 21:13; At 13:22) - é perfume agradável ao nosso
Deus, pois isso é precisamente a essência do que a Bíblia chama de fé em
Jesus Cristo, e só podemos prová-la nos piores momentos de angústia,
dúvidas e incertezas, quando, sem ela, daríamos lugar ao desespero. Todos
os demais aspectos da fé provêm dessa confiança inabalável na suficiência
da obra de Cristo para a nossa salvação e, sem fé, não se pode agradá-lo (Hb
11:6).
Tudo acabou no Calvário, mas só nós ressuscitamos com Cristo, e agora
como novas criaturas, para as quais tudo se fez novo (II Co 5:17). Estamos
livres do estatuto das transgressões e da morte (Rm 8:2) e vivemos agora
uma nova vida, sem possibilidade de condenação, mas em constante processo
de aperfeiçoamento no Espírito, que pode, este sim, nos dar (e efetivamente
nos dá) a vitória contra o pecado.
Na cruz do Calvário, Cristo já sofreu a “punição” pelos nossos pecados.
Agora somos filhos amados, precisamos de “correção”, e o Pai corrige a
31

quem ama (Hb 12:5-8). E como qualquer pai zeloso, à medida que vamos
crescendo em discernimento espiritual, Deus espera que nos corrijamos a
nós mesmos, para que ele não precise interferir (I Co 11:31-32). Quem não
prevê nem admite nenhuma queda pelo caminho é a Lei. Ela exige perfeição
linear e absoluta, para todos, sem um tropeço sequer (Tg 2:10).
Deus não é a Lei, e ele sabe que ainda cairemos, mas, de modo algum,
nos abandonará nem permitirá que pereçamos (Jo 10:28), por isso ele
assumiu a nossa condenação (ora, se fosse possível não cairmos, viveríamos
pela Lei, sem precisarmos da Graça de Cristo!). Deus se coloca ao nosso lado
para nos erguer e quer que aprendamos a caminhar com equilíbrio.
Obviamente, devemos evitar as quedas, mas, uma vez caídos, o
levantar-se para caminhar corretamente glorifica a Deus e a Jesus, o seu
Filho. Ele é longânime e misericordioso, por isso muitas vezes nos parecerá
que ele não está vendo o nosso pecado. Mas ele está apenas dando um tempo
para que tomemos, nós mesmos, a atitude correta – o arrependimento -
como adultos no Espírito. Mas, saiba, se não nos arrependermos do pecado,
mais cedo ou mais tarde, ele interferirá, e fará isso, não segundo a frieza e
a generalização (coletivização) da Lei, mas individualmente, na medida certa
da nossa necessidade, pois ele sonda os nossos corações e sabe a dose exata
do “remédio” de que precisamos, havendo, certamente, disciplina dura para
os duros de coração e tardios em arrepender-se.
Deus não está, de forma alguma, obrigado a exercer a sua disciplina de
modo a satisfazer a mentes autojustificadas e corações carnais que nada
tenham a ver com o problema. O disciplinado seguramente sentirá a
correção de Deus, mas, para decepção dos sedentos de lei e de juízo (sobre
o próximo...), ele faz isso por amor, para restauração e não para condenação.
Quem se julga a si mesmo e se arrepende do erro sem demora não
precisa de disciplina (I Co 11:31-32). Entretanto, em todo aprendizado há o
risco de falhas e, além disso, o caminho que não admite a possibilidade de
falhas por parte do pecador é o caminho da Lei...
Não devemos temer a condenação eterna por causa dos nossos
pecados, mas devemos rejeitá-los sempre, com firmeza, pois somos novas
criaturas, que não estão sem lei para com Deus, mas debaixo da Lei de
Cristo (I Co 9:21). Ora, se vivemos no Espírito, andemos também no Espírito
(Gl 5:25), apartando-nos da injustiça (II Tm 2:19), fazendo tudo com amor
(I Co 16:14), sofrendo o dano (I Co 6:7) e levando as cargas uns dos outros
(Gl 6:2). Se pecarmos, temos um advogado competentíssimo junto ao Pai (I
Jo 2:1), mas sempre corrijamo-nos a nós mesmos (resolvendo também a
questão com as possíveis vítimas do nosso pecado), conscientes de que, se
morremos para a Lei e não estamos mais sujeitos à condenação, temos um
32

compromisso com a nossa coerência e credibilidade como renascidos em


Cristo (I Co 9:27 – para que serve liberdade sem credibilidade?), de modo
que sejamos (sem autopropaganda – Pv 27:2) verdadeiramente reconhecidos
como pessoas cuja maior característica é o amor ao próximo (Jo 13:34), e
que são testemunhas (evidências, exemplos, provas vivas) da transformação
que Deus pode e quer realizar em todo e qualquer pecador arrependido.
Quando falo de coerência e credibilidade, obviamente refiro-me à
ética do Evangelho, que demanda a busca de justiça, paz e alegria no
Espírito Santo (agradável a Deus e aprovada pelos homens – Rm 14:17-18), e
não à moralidade religiosa institucionalizada, exteriorizada e legalista dos
fariseus que perseguiram a Jesus e aos apóstolos (Mt 23:27).
Se alguém se diz renascido em Cristo, não tenha a sua plena liberdade
por cobertura da malícia (I Pe 2:16 - ARC) a fim de, premeditadamente,
tirar vantagens da sua condição de perdoado. Andemos tranqüilos e na paz
de Cristo, pois, para nós, a condenação não mais existe. No Calvário, já
fomos antecipadamente perdoados, mas a questão é: você quer usufruir o
perdão com ou sem a disciplina do Senhor (I Co 11:31-32)?
Em vez de julgar-nos e sentenciar-nos uns aos outros, aconselhemo-nos
mutuamente com amor e longanimidade (II Tm 4:2), para que estejamos em
pé diante do Senhor (Rm 14:4). É levando as cargas uns dos outros que
cumprimos a lei de Cristo (Gl 6:2).
Deus não espera que façamos sempre as escolhas certas, mas ele quer
que tentemos acertar sempre. O nosso precioso direito de falhar foi pago
com o sangue do Cordeiro de Deus.
Em todo processo de aperfeiçoamento o objetivo é fazer melhor na
ocasião seguinte. E se a ocasião seguinte pode e deve ser melhor do que a
anterior é porque a anterior obviamente não foi satisfatória. Portanto, todo
processo de aperfeiçoamento parte necessariamente do reconhecimento de
que haverá atitudes insatisfatórias, que poderão e deverão ser
aperfeiçoadas. E, como sabemos, a vida cristã é um processo de
aperfeiçoamento, onde devemos buscar a perfeita sintonia entre a nossa
mente e a nossa nova realidade espiritual, para que vivamos como mortos
para a justiça própria que há na Lei, e andemos com fé em Cristo, guiados
pelo Espírito, e orientados pelo misericordioso amor de Deus.
E isso vale para o pior pecador, aquele mais sujo do qual já ouvimos
falar. Mas no mundo religioso, onde o único reconhecido e valorizado é o
mais “santo”, mesmo quem entende a Graça intelectualmente leva algum
tempo (às vezes, muito tempo) para recondicionar a sua mente legalista às
33

novas condições da Graça de Cristo, vindo a pacificar o seu espírito e a ter


prazer nessa nova realidade, dedicando-se inteiramente a ela.
Paulo deu-nos uma ótima dica de como entendermos melhor essa
questão: consideremos a nós mesmos o maior dos pecadores (I Tm 1:15) e,
assim, aceitaremos mais facilmente a misericórdia de Deus sobre todos os
outros.
34

VIII - A MENTE AUTOJUSTIFICADA

“E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos


pela renovação da vossa mente, para que experimentemos qual
seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Rm 12:2)

A expressão “a morte da Lei” costuma causar um certo mal-estar nas


pessoas, pois como pode alguém sequer insinuar que seria benéfica a morte
de algo que é santo, justo e bom (Rm 7:12)? Mas a morte da Lei (o fim de
sua validade como referencial de julgamento sobre nós - decretado por
Cristo na cruz do Calvário e confirmado com a sua ressurreição - para
viabilizar a nossa salvação) e a necessidade da sua mortificação em nossa
mente (processo de abandono dos julgamentos pela sua justiça, para que
possamos amar ao próximo de maneira incondicional) é um ensino muito claro
nas cartas paulinas.
O ministério do apóstolo dos gentios teve como maior característica a
luta para que os judeus convertidos ao Evangelho abandonassem o jugo da
Lei, bem como os cristãos gentios a ela não se submetessem.
Ora, a Lei Mosaica foi dada exclusivamente para o povo de Moisés (Dt
5:2-3; Rm 9:4), mas a validade da sua justiça acaba no instante em que o
judeu (ou o gentio que a ela se submeteu – Gl 3:12; 5:3) a substitui pela
justiça do descendente (Gl 3:19), que é Cristo. Da mesma forma, o gentio
que nunca se colocou debaixo do jugo mosaico fica livre de qualquer forma
de justiça meritória (para justificação diante de Deus) quando, crendo no
sacrifício vicário (substitutivo) do Cordeiro, recorre à justiça do Calvário.
Mas resta ainda o jugo da autojustificação, gerado pela justiça
meritória da lei, e que, segundo Paulo, domina o homem natural enquanto ele
vive (Rm 7:1). Observe que aqui o apóstolo não fala de validade da lei, mas do
domínio dela sobre o homem (controle que determina as ações), induzindo-o
incessantemente à autojustificação e direcionando para longe dos
propósitos de Deus e do Evangelho de Cristo os seus julgamentos e
sentimentos para com o próximo.
Na sua própria carne Cristo aboliu a Lei (extinguiu, decretou o fim da
validade), de modo que nosso espírito está totalmente livre do fardo de sua
justiça meritória (Ef 2:15), mas ainda precisamos libertar a nossa mente do
seu jugo (domínio) legalista, substituindo-o pelo jugo de Cristo, para que em
nós seja vivificado o Espírito de Deus e, efetivamente, tornemo-nos novas
criaturas - que servem em novidade de espírito e não na caducidade da letra
35

(Rm 7:6) - para as quais as coisas velhas já passaram e se fizeram novas (II
Co 5:17).
Mas o que seria, exatamente, livrar-se do jugo da Lei, ou morrer para
ela (Gl 2:18-19; Rm 7:4)?
Todo o universo funciona mediante regras. Leis naturais de causa e
efeito regem tudo que existe. Há uma conseqüência equivalente e justa para
cada ato, e é este o princípio natural (e correto – Gl 6:7) de justiça, que
está gravado no coração do homem natural, ou carnal. Quem anda conforme
as regras usufrui as boas conseqüências equivalentes; quem as desobedece,
ou as ignora, também sofre (merecidamente) as más conseqüências.
Essa lógica legalista é inata e profundamente intuitiva ao homem
natural, de modo que, em qualquer situação, a sua primeira percepção e
primeira análise (julgamento) será automaticamente mediante a justiça
meritória. Daí a sua dificuldade em discernir as coisas espirituais, pois elas
não se encaixam nessa lógica (I Co 2:14). Justiça, injustiça, santidade,
impiedade, sucesso, fracasso, sensatez, insensatez, coerência, incoerência,
miséria, prosperidade... Tudo isso é racionalizado e compreendido pelo
homem natural, segundo a lógica individualista, meritória e justa do
legalismo que lhe é natural.
Em nenhum momento a Bíblia afirma que a justiça meritória – que
provém de obediência à lei - não é justa. Mas, diante da impossibilidade
humana de apresentar justiça própria perfeita mediante obediência infalível
(Tg 2:10), Cristo satisfez toda a Justiça da Lei, a fim de justificar - pela
Graça, mediante a fé (Ef 2:8) - a todos os que crêem na sua obra, para que
agora vivamos pela Justiça do Calvário (Justiça de Deus), que é superior (Hb
8:6) e provém da fé (Fp 3:9).
A lógica meritória e legalista - que alimenta a busca da justificação
pelo bom desempenho diante de leis e regras - obviamente baseia-se no
merecimento e no direito adquirido. Essa “dupla do barulho” está no centro
de problemas conjugais, familiares, de relacionamento no emprego, de
atritos entre vizinhos, de brigas entre crianças e de guerras entre nações,
pois o ser humano já nasce julgando-se merecedor das melhores coisas da
vida: o melhor brinquedo, a mãe mais bonita, a(o) namorada(o) mais
atraente, o melhor emprego, a(o) esposa(o) mais digna(o), os filhos mais
lindos e mais inteligentes, o melhor carro, a melhor casa, a melhor
aposentadoria, o melhor cemitério e, finalmente... o céu.
Muitos sentem, porém, que não basta simplesmente apresentar saldo
positivo (boas obras x más obras) diante de Deus para ter garantida a
merecida obtenção de tudo isso. O direito adquirido precisa ser legitimado
36

de forma mais profunda e segura, e a religião é, ao mesmo tempo, o posto de


avaliação e o orgão autenticador desse direito.
A igreja tem - histórica e convenientemente - aceitado tais tentativas
de legitimação (autenticação) de direitos como conversão (através da
obediência à Lei Mosaica - ou a regras de conduta nela inspiradas - e da
privação da vida social extra-igreja), criando uma comunidade que,
obviamente, se caracteriza pela arrogância espiritual (direito ao céu
legitimado em si mesmo), e não pelo amor ao próximo, que só nasce do pleno
reconhecimento da total ausência de méritos próprios diante de Deus.
Ora, o princípio meritório está presente em tudo, e a sua utilização
correta é sempre lícita e proveitosa para o homem (é o justo princípio da
lei). É a justa lei meritória que educa o homem e prepara-o para a vida numa
sociedade civilizada e mais justa. Foi assim, através da Lei Mosaica,
exclusiva do povo de Moisés, que Deus formou e preparou um povo para
receber o seu Filho. O cidadão Saulo de Tarso era irrepreensível quanto à
justiça da lei de seu país (Fp 3:6), e não consta que, após a conversão, Paulo
tenha baixado o nível. A vontade de Deus para nós é que também sejamos
cidadãos que andam conforme as leis de nosso país e que criemos nossos
filhos de modo a formar homens e mulheres que amam o caminho da retidão
(interessante é que muitos cristãos que dizem observar a Lei Mosaica não
têm o mesmo empenho, respeito e zelo para com as leis civis do nosso país, e
conscientemente violam muitas delas). Sociedade humana sem obediência a
leis e regras e sem consciência de direitos e obrigações é o caos.
Com tudo isso, a obediência a regras e mandamentos - ainda que
estejam na santa, justa e boa Lei Mosaica - pode tornar-se algo destrutivo
para o espírito humano. Basta que ela exceda o seu papel de educar na
justiça (II Tm 3:16) e assuma a pretensão de justificar o homem diante de
Deus.
Apesar de não fazer idéia de onde está se metendo (Gl 3:10), é
igualmente intuitivo ao homem natural atribuir à lógica legalista a
capacidade de justificá-lo diante de Deus. Mas essa justificação por mérito
próprio exige perfeição absoluta (Tg 2:10), de modo que, pelo desempenho
na lógica meritória natural, ninguém será justificado (Gl 2:16).
Esse auto-engano, além de levar à condenação, é profundamente danoso
à alma humana e cria dois seres distintos: um profundamente arrogante e
manipulador, e um outro, inseguro, medroso e manipulável. Ambos são cegos,
mas, via de regra, um será guia do outro. O primeiro se julgará justificado
por sua aparente obediência (apenas exterior - Mt 23:28) a estatutos legais
e morais, e se sentirá apto para liderar. O segundo – ainda inseguro de sua
justificação e manipulável como um boneco – colocará, espontaneamente e
37

em diversos níveis, a sua vida nas mãos do primeiro, que será o seu
honorável líder e guia. Em busca do direito ao céu, ambos cairão no barranco
(Mt 15:14).
Em todo lugar há pessoas com o senso de observação mais aguçado, que
cedo identificam a convicção de merecimento do ser humano e a sua busca
por legitimação do “direito adquirido” e, de variadas formas e em diversas
áreas, manipulam essa realidade para satisfação de suas ambições pessoais.
Nas conquistas amorosas, por exemplo, a manipulação dá-se em um jogo
de interesses de ambas as partes. Aqui, basta sugerir que o alvo da
conquista já tem merecimento (ou direitos) só por seus atributos físicos
naturais. De um modo geral, ressaltar o merecimento tem sido o método
utilizado pelo homem (provavelmente desde Adão) para conquistar uma
mulher. E ela merece o quê? Ora, tudo de bom que ela consiga imaginar.
Inclusive o que nenhum ser humano normal conseguiria realizar para aquela
que é o alvo da conquista.
Mas o conquistador nem precisa trazer à realidade tudo a que a
“princesa”, por mérito natural, teria direito. Basta, sabiamente, manter o
clima de merecimento. E isso pode funcionar por alguns anos, até que a
“merecida” - decorrido um tempo considerável, que varia de conquistada
para conquistada - faça uma avaliação e veja que mimos, aos quais teria
“direito”, ela já recebeu, e qual a possibilidade de receber os que ainda lhe
faltam, no tempo que provavelmente ainda lhe resta. Caso essa avaliação
seja negativa, o conquistador conhecerá e sofrerá as conseqüências de seu
engano, pois saberá o que é viver com uma “merecida insatisfeita, frustrada
e enfurecida” (Pv 21:19; 27:15-16).
Relacionamentos iniciados e mantidos sob tal distorção da realidade
são fadados ao fracasso (se não houver mudança), mesmo que, por vários
motivos, a encenação se prolongue até que a morte os separe. Entre outros
problemas que têm tornado difícil e rara a durabilidade dos casamentos
estão as expectativas irreais e a auto-imagem distorcida que o amor
romântico pode gerar nos indivíduos. Viver com quem amamos
apaixonadamente torna a vida muito mais leve e alegre, e o romantismo pode
e deve ser cultivado. Mas, para que esse sentimento não se torne algo
doentio e destrutivo, ele precisa estar bem ajustado à exata realidade do
ser humano. O amor romântico pode – e deve – voar para que seja belo e
valha a pena, mas com os pés firmes no chão, sem criar expectativas irreais
nem falsas imagens de si mesmo ou do parceiro.
No meio religioso, essa manipulação do direito adquirido acontece
quando algumas dessas pessoas (que identificam mais nitidamente a
tentativa humana de legitimar direitos) enxergam um pouco além dos
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relacionamentos simples e, desejando criar um reino para si mesmos,


tornam-se líderes religiosos, supostamente capazes de trazer ao povo a
desejada e merecida prosperidade (os lobos com pele de cordeiro vêem que
a religião é o principal legitimador da justiça meritória). Por que manipular e
obter vantagens apenas da esposa, dos filhos e dos amigos, se é possível
manipular e explorar uma multidão inteira? Por que sugar o melhor de uns
poucos, se é possível sugar tudo e de tantos ao mesmo tempo? Ora, onde há
miséria (ou o medo dela) há sede de prosperidade. A farra é aqui...
A artimanha, que ainda funciona perfeitamente, é a mesma que foi
utilizada pelo inimigo de Deus no jardim do Éden e também no confronto
com Cristo, no alto do monte (Mt 4:8-9); ou seja, estimular a ambição, a
vaidade e a arrogância humana. O lobo com pele de cordeiro tenta convencer
o ouvinte (e não precisa de muito esforço) de que ele adquirirá direitos e
obterá justificação diante de Deus se obedecer a certos mandamentos.
Cumprir as regras o tornará forte, o colocará no topo e o fará merecedor
de sucesso nesta vida.
A idéia básica é: “Você merece tudo e eu sou o intermediário dessa
negociação”. O risco é claro, e o mais ingênuo dos fiéis (contribuintes) está
ciente disso. Mas a idéia do merecimento é tão fortemente alimentada e tão
compulsivamente induzida - e cai como uma luva na mente legalista do povo
(mérito por obediência a regras) - que a visão do risco se minimiza até o
esquecimento. Afinal, pensar nele seria falta de fé...
O objetivo principal - redirecionar a fé (da justificação em Cristo para
a prosperidade), desviando o mérito da pessoa de Cristo (trazendo-o de
volta ao homem) - é disfarçado através da citação eventual de textos
bíblicos que até parecem contradizer o “espírito da coisa”. Até a “perigosa”
palavra Graça é ouvida de vez em quando. Mas é tudo na medida certa,
previamente estudado, só um pouquinho, de modo que pareça algo
verdadeiramente relacionado ao Evangelho de Cristo (para tentar dar
legitimidade ao engodo e calar os que advertem as suas vítimas), mas que, na
verdade, é apenas um golpe que alimenta e tira proveito de um povo sedento
da justiça própria e do mérito que provêm da obediência à Lei, e não da
Justiça do Calvário.
Por isso em tais ambientes religiosos predomina tudo que é relativo à
Lei Mosaica. As abordagens e os textos lidos são predominantemente do
Velho Testamento (os relacionados à Lei). Praticamente todas as
referências são a Israel. O visual do recinto deve ser semelhante ao templo
judaico e as histórias mais ouvidas são as aventuras hebraicas com
recompensa final pela obediência ou o duro castigo pela desobediência. As
palavras de ordem são:
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- “Você merece!”
- “Você tem direito!”
- “Você obedece (às nossas regras) e Deus fica obrigado a lhe
recompensar!”
- “Você contribui e Deus fica obrigado a lhe retribuir!”
- “Deus quer que você tenha sucesso!”
- “Deus quer que o seu povo seja rico!”
- “Deus vai trazer os teus inimigos para debaixo dos teus pés!”
- “Deus vai te dar a terra prometida (aqui na Terra, tal qual aos
judeus), onde mana leite e mel!”

“Pois muitos andam entre vós, dos quais repetidas vezes eu


vos dizia e agora vos digo até chorando, que são inimigos da cruz
de Cristo. O destino deles é a perdição, o deus deles é o ventre e
a glória deles está na sua infâmia, visto que só se preocupam com
as coisas terrenas” (Filipenses 3:18-19)
“Também movidos por avareza, farão comércio de vós, com
palavras fictícias. Para eles o juízo lavrado há longo tempo não
tarda e a sua destruição não dorme” (II Pedro 2:3)

A Lei, com sua lógica meritória e legalista, é profundamente intuitiva ao


homem natural. A Graça, com sua justificação exclusivamente pela fé
(independentemente de obras – Rm 4:6), não é intuitiva ao homem natural.
Ele precisa passar por um processo de mudança de parâmetro. Precisa
substituir o mérito próprio pelo mérito de Cristo.
A intuição meritória é inata ao ser humano, de modo que, sem a
aceitação da loucura do Evangelho (o que gera uma intervenção sobrenatural
do Espírito Santo no indivíduo), tal intuição legalista dominará o homem por
toda a sua vida (Rm 7:1).
Quem, por acaso, estiver realmente interessado em conhecer a
mensagem do Evangelho da Graça de Cristo deve ter o espírito preparado
para o contato com algo que não segue a lógica natural de causa e efeito,
porque - quanto à nossa condenação - Cristo assumiu os efeitos de nossas
causalidades; o que não significa que estamos livres das conseqüências
terrenas dos nossos pecados (Gl 6:7) nem dos de terceiros.
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Deve-se ter a mente aberta para uma renovação que substitui a justiça
própria humana (procedente de lei) pela justiça de Deus, ou justiça do
Calvário (procedente de fé), que torna todos os homens iguais diante do
Criador, viabilizando a possibilidade de amarmos ao próximo (quem quer que
seja ele) como a nós mesmos.
A justiça própria gera apenas o religioso arrogante. A Justiça do
Calvário gera uma nova criatura em Cristo - misericórdiosa e que ama ao
próximo.
Mas quem está interessado em amar ao próximo, e não em manipulá-lo
de alguma forma, seja ele quem for? Quem está interessado em uma vitória
sentida e celebrada mesmo no fracasso? Quem está interessado em uma
inexplicável paz que excede todo entendimento (Fp 4:7), pois se pode senti-
la mesmo em meio a grandes e inevitáveis tribulações (Jo 16:33)? Quem
está interessado em abrir mão de direitos? Quem está interessado em
sofrer o dano? Quem está interessado em oferecer a outra face ao que lhe
bate no rosto? Quem está interessado em bendizer os que o maldizem?
Quem está interessado em amar seus inimigos, em fazer o bem aos que o
odeiam e orar pelos que o caluniam? Quem dará também a túnica ao que lhe
toma a capa? Quem verá sensatez e justiça em ser benigno até mesmo com
ingratos e maus?
Esta é a misericórdia do Pai Celeste, mas quem quer ser perfeitamente
misericordioso como ele (Mt 5:38-48; Lc 6:27-36)? Quem está disposto a
abrir mão de seu direto e sofrer a injustiça e o dano (I Co 6:7)? Quem
enxergará que foi isso que Cristo fez por nós? Quem entenderá que há
Justiça de Deus em tal atitude? Quem se alegrará com estas coisas? Quem
verá a glória de Deus em tudo isso? Quem se sujeitará a este escândalo e
desejará esta loucura (I Co 1:18, 23)?
Brennan Manning conclui o seu livro “Convite à Loucura” com as
seguintes palavras:

Suponho que a maioria de nós esteja na mesma posição


dos gregos que se aproximaram de Felipe e disseram:
“Queremos ver Jesus” (Jo 12:20-21). A única questão é: com
que intensidade?

Pessoas que têm como referência espiritual os mandamentos da Lei e


intuitivamente confiam na sua justiça meritória (Jo 5:45) vêem as palavras
de Jesus em Lucas 6:27-36 como sugestões divinas opcionais para quem, por
acaso, estiver interessado em uma vida espiritual fora da realidade, mas
41

poeticamente admirável, e não como mandamentos do Senhor para a sua


Igreja. Para os tais, mandamentos bons e proveitosos mesmo são os da Lei,
que supostamente geram direitos diante de Deus, inclusive o de julgar o
próximo...
A Graça e o amor de Deus descem gratuita e incondicionalmente do seu
trono até nós, mas é totalmente inútil e equivocada qualquer tentativa de
retribuição desse amor diretamente ao próprio Deus, através de gestos,
ritos e rotinas meramente religiosas, achando que assim estaremos quites
com ele.
Toda manifestação, exteriorização ou tentativa de retribuição do amor
de Deus, de sua misericórdia e do seu perdão deve ser direcionada ao
próximo. É esta a sua vontade, é este o seu mandamento e o seu critério
final (Mt 25:31-46).
Mas é aqui também que, para muitos, a Graça começa a perder o
encanto e deixa de ser maravilhosamente atraente, pois ela implica uma
mudança assombrosa (aterrorizante para o homem natural) no seu conceito
de justiça. Na contramão da justiça da Lei, a Justiça do Calvário requer que,
de várias formas, abramos mão da justiça meritória quando esta nos
favorece e, ao mesmo tempo, exige que busquemos o favor dos injustiçados.
Antes de sair arrotando ameaças em nome da “Justiça de Deus”, convém
saber que ela tem a ver com “abrir mão dos próprios direitos em favor do
próximo” (mesmo quando esse “próximo” é nosso inimigo), e não com justiça
meritória (Mt 5:38-39).
A tentativa de procurar estabelecer a sua própria justiça, não se
sujeitando à Justiça de Deus (que é a do Calvário – Rm 10:3-4), expõe o
homem à severidade de Deus (Rm 11:22), posto que estará rejeitando a sua
bondade (benignidade). Mas a intuição do homem autojustificado o avisa de
que a Justiça do Calvário vai esmagar a sua arrogância (Rm 3:27) e deixá-lo
na mesma condição que adúlteros, assassinos, estupradores, ladrões e
traficantes de droga, e isso é extremamente injusto e uma loucura
absolutamente inaceitável diante da justiça meritória do homem natural,
que, irritado com a misericórdia divina sobre os pecadores, pode ter
reações que vão desde a exclusão da convivência até a conspiração para a
desmoralização ou para a própria morte de quem alardeia tal “sandice” (Jo
5:18, 7:1; At 7:54).
Muitas religiões (inclusive – e talvez principalmente - o cristianismo
judaizado, ou judaísmo cristão) têm incentivado a intolerância, perseguições
e assassinatos ao longo de sua história, julgando que, agindo dessa maneira -
e em nome de Deus - estariam prestando-lhe um grande favor e colaborando
com o seu suposto plano de santidade para os homens (Jo 16:2). Tais
42

aberrações têm acontecido porque, na verdade, o que se tem buscado é


justiça própria. E, se é a lei que suscita a ira divina (Rm 4:15) e seu justo
juízo, a justiça própria humana, que procede de lei (Fp 3:9), gera no homem
o ódio religioso (legitimado pela religião), por isso a igreja, em muitos
momentos de sua história, tem agido com espírito de Saulo (irado
perseguidor religioso), mas a ira do homem não produz a justiça de Deus (Tg
1:20).
O perdão dos pecados do próximo pode irritar o homem natural (Mt
20:15), até mesmo um profeta (Jn 4:1-3), mas a anulação da sua justiça
própria é o que gera ódio naqueles que não se consideram pecadores. Com
sua Palavra, que é espada de dois gumes (Ap 1:16), Cristo, por um lado,
rasgou o escrito da dívida de pecadores confessos e arrependidos (Cl 2:14)
e, por outro, aniquilou a pretensa justiça dos que se julgam justos. Por isso
foram respeitáveis cidadãos de conceito moral elevadíssimo (religiosos
cheios de justiça própria) que furiosamente conspiraram para a sua morte, e
não pecadores confessos que não viam justiça alguma em si mesmos.
O representante da justiça dos homens não viu em Cristo mal algum (Lc
23:4), mas os que se julgavam representantes da justiça divina (com o ódio
característico de quem se coloca nessa posição) o entregaram para sofrer a
tortura desumana e exigiram sua crucificação (Lc 23:21).
Os fariseus conspiradores entenderam muito bem que o Evangelho
anula a justiça do homem. Não era o perdão de Cristo aos pecadores o que
mais os incomodava, pois crer ou não no perdão dos seus pecados é problema
do perdoado. Mas ter a sua justiça anulada tornaria os fariseus iguais aos
que eles julgavam pecadores, e isso era uma afronta inaceitável. Por isso,
mesmo depois de supostamente convertidos, alguns deles tentaram manter
um referencial de justiça própria, determinando que os gentios convertidos
tinham que ser circuncidados e observar a Lei Mosaica; idéia essa
prontamente rechaçada pelo apóstolo Pedro (At 15:5-11), que, infelizmente,
não conseguiu evitar o que ele jamais imaginou que se tornaria uma forte
característica do cristianismo: a busca de justiça própria mediante a
observância e legitimação da Lei Mosaica.
Ainda hoje são os religiosos autojustificados que fortemente rejeitam
a morte da Lei e mais se irritam contra quem prega a Graça de Cristo. Os
tais são clones espirituais dos fariseus, que idolatram a igreja-templo,
legitimadora da sua justiça e do mérito pelo conhecimento religioso. Foi
exatamente a um deles que Cristo disse: “Importa-vos nascer de novo” (Jo
3:7).
Cristo, evidentemente, sabia que na justiça própria do homem (ou na
sua alegação) está a fonte de toda discórdia e que a sua anulação
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despertaria a fúria dos que nela se sustentam, por isso avisou que não traria
paz à Terra, mas espada; e que essa espada causaria divisão e inimizades,
mesmo nos relacionamentos mais íntimos do homem (Mt 10:34-36).
Após tantas gerações, a parábola dos trabalhadores na vinha (Mt 20:1-
16) segue verdadeira e atual – até na igreja, infelizmente. Somos todos
trabalhadores que chegaram para o serviço ao meio-dia e dão glórias por
receber salário igual ao dos que chegaram de manhã cedinho, mas acham um
absurdo inaceitável que os trabalhadores que chegaram no fim do
expediente recebam também o mesmo salário.
Festejamos o perdão daquilo que nos deixa em desvantagem, mas não
aceitamos a anulação daquilo que nos faz mais justos do que o próximo. Em
nossa visão egoísta e presunçosa, a misericórdia de Deus tem que parar em
nós, na nossa medida, e não se estender para alcançar pessoas com justiça
inferior à nossa. A minha justiça é o meu parâmetro e a minha alegação para
tentar desqualificar e condenar o meu próximo.
Aceitar a anulação da minha justiça implica reconhecer a plena
igualdade entre mim e quem quer que seja o meu próximo e em qualquer
situação em que ele se encontre. E, sendo assim, inevitavelmente terei que
servi-lo (se realmente sou um discípulo de Cristo), por isso a Graça de
Cristo - quando anunciada sem a justiça meritória da Lei - tira o sono de
qualquer religioso...
O cristianismo identifica o bom cristão (católico ou evangélico) pelo seu
perfil moral. Cristo disse que seus discípulos seriam identificados pelo amor
ao próximo (Jo 13:34-35). Ora, só ama ao próximo (como Cristo exige) quem
não vê nenhuma justiça própria em si mesmo, o que, logicamente, não é o
caso dos moralistas. Essa incompatibilidade entre o moralista e o discípulo
de Cristo é abundantemente mostrada na Bíblia.
O simples fato de tentar mostrar ao homem, principalmente ao
religioso, que sua justiça própria não o torna merecedor do favor divino mais
do que qualquer outro ser humano já revela o quanto haveremos de sofrer
pelo nome de Jesus (At 9:16). Depois do encontro com Cristo, o furioso
Saulo, que tinha total confiança em sua justiça própria, agora iria dedicar o
resto de sua vida a anunciar que a nossa justiça não vale nada diante de
Deus (Is 64:6). Toda e qualquer justiça em nosso favor diante de Deus dá-
se através de Cristo (Ef 2:8-9; I Co 1:26-31; Gl 6:14) e, por isso, mesmo
aquele que crê e é justificado pela Justiça do Calvário não é superior a
ninguém e não tem motivos para gloriar-se em si mesmo (I Co 1:30-31).
Até entre muitos dos que se dizem reformados, renovados, batizados,
congregados, iluminados... enfim, mesmo entre os que se dizem convertidos
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à Graça de Cristo, o perdão dos pecados é facilmente digerido, mas uma


simples referência à anulação da nossa justiça própria já acirra-lhes a
ferocidade do velho homem. Aconselha-se mudar de assunto, caso não se
queira trazer no corpo as marcas de Cristo (Gl 6:17).
Pessoas neurotizadas pela busca de justiça própria segundo a lógica
meritória da Lei costumam atribuir um grande valor para a sua abstinência
de práticas que muitas vezes são absolutamente inofensivas para a vida
espiritual, levando-as a jactar-se publicamente do seu afastamento do
pecado e a torcer pela condenação de quem vive sem tais privações, para
que não venham a ter sido em vão os seus sacrifícios.
Mas uma possível insegurança quanto aos seus méritos pela abstinência
pode, por outro lado, levar ainda o religioso a entender que injustiças
sofridas geram justiça própria e mérito diante de Deus para o sofredor
(mérito pelo sofrimento). A neurose, então, manifesta-se em um processo
crônico de autovitimização em toda e qualquer circunstância. Numa espécie
de masoquismo espiritual, o indivíduo, de modo compulsivo, sempre busca e
chega mesmo a forçar situações em que ele, supostamente inocente, seja
visto como vítima da maldade dos outros. Assim, o caminho duplo para o céu
seria a abstinência ou o sofrimento (ou, mais comumente, os dois ao mesmo
tempo).
Esses dois comportamentos são muito comuns e valorizados no meio
cristão, mas estão em extrema oposição à Graça de Cristo – a verdade que
livra da condenação e liberta da busca por mérito e direitos diante de Deus.
A Graça liberta sem incentivar a libertinagem (Rm 6:1-2) e anula a
nossa justiça própria (Fp 3:9), que nos leva a sentir-nos no direito de julgar
o próximo. Mas abrir mão de sua justiça é algo absolutamente inaceitável
para o homem natural (principalmente para o religioso), pois sem a lógica
meritória, amparada na lei natural de causa e efeito, ele não consegue
racionalizar coisa alguma. Imagine quando se trata de algo tão não
racionalizável pela tal lógica quanto o Evangelho da Graça.
A característica básica e essencial de uma mente legalista é a
incansável tentativa de adquirir direitos (legalidade) diante de Deus. E
nessa busca por justiça própria, o legalista apela para tudo. Ele exalta as
suas pretensas virtudes e minimiza os seus próprios defeitos, ao mesmo
tempo em que - a fim chamar a atenção para si (a sua justiça tem que estar
sempre em evidência) - minimiza as virtudes e maximiza os defeitos do
próximo.
Em sua mente adoecida pela autojustificação, tudo conta pontos para a
salvação, gerando créditos ou débitos: a aparência física, a roupa que
45

vestimos, o que comemos, o que bebemos, o que falamos, com quem falamos,
onde andamos, a que denominação pertencemos, o que lemos, o que vemos, o
que ouvimos, como nos divertimos (quando a diversão é permitida)... Para o
legalista, cada um desses itens deve ser praticado de modo a gerar
“direitos” diante de Deus.
Quem crê na justiça plenamente consumada no Calvário anda por fé (II
Co 5:7), mas o legalista anda estritamente pelo que vê.
Ora, o que fica evidente nesse comportamento é a falta de fé na obra
de Cristo no Calvário, por isso ele foi tão duro nas críticas aos fariseus.
Para Deus, não há insulto nem ofensa mais grave do que tentar exibir justiça
própria diante dele (Is 64:6; 65:5). Se o que fazemos ou não fazemos
interfere na nossa salvação, a Graça já não é Graça (Rm 11:6) e Cristo
morreu em vão (Gl 2:21).
A busca por justiça própria – duramente condenada por Jesus e pelos
apóstolos – tem duas características básicas. Ela é sempre “legitimada” pela
Lei/religião e gera desprezo pelo próximo. Por isso, aquele que confia na
justiça do Calvário, e não na sua própria justiça (na sua própria carne – Fp
3:3), “mediante a própria Lei, morreu para a Lei, a fim de viver para Deus, e
está crucificado com Cristo” (Gl 2:19).
Falar em perdão de pecados agrada a platéia; fazer sermões pouco
detalhados sobre a salvação pela Graça mediante a fé (e não pela obediência
à Lei) dá ares de doutor do Evangelho; mas falar em anulação da nossa
justiça própria causa uma dor aguda, algo semelhante ao corte da mais
afiada espada de dois gumes que, em seu caminho para o coração do homem,
vai dividindo alma e espírito, juntas e medulas (Hb 4:12). Ora, o reflexo do
homem natural (ainda vivo dentro de nós) é defender-se de tamanha
violência.
A anulação da justiça própria é a maior e mais necessária confrontação
entre o Evangelho e o homem carnal, de modo que, sem essa confrontação, a
tendência natural é que o perdão dos pecados, apresentado isoladamente,
seja bem aceito e as igrejas-templo lotem.

“Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue (rejeite


sua justiça própria), tome a sua cruz (aceite a Justiça do
Calvário) e siga-me (sirva ao seu semelhante)” - Mc 8:34.
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Para os pequeninos de alma isto soa como uma melodia doce e suave,
mas para pretensos sábios e entendidos é um enigma indecifrável (Lc 10:21).
E é só por causa desta verdade que os loucos podem confundir os sábios; os
fracos podem envergonhar os fortes; e os humildes, os desprezados e os
que nada são no mundo podem reduzir a nada os que julgam ser alguma coisa
em si mesmos, a fim de que ninguém se vanglorie na presença de Deus (I Co
1:26-29), pois o poder de Cristo se aperfeiçoa na fraqueza (II Co 12:9).
Ora, falar em amar ao próximo, perdoar ofensas, praticar boas obras,
fazer o bem sem olhar a quem... isto todas as religiões falam; por isso se diz
que toda religião é boa. Mas a queda e a anulação da justiça própria do
homem são exclusivas do Evangelho de Cristo. É isso que o diferencia das
religiões; inclusive, em muitos casos, da própria religião cristã. Sem a
anulação da justiça própria do homem, a Graça já não é Graça (Rm 11:6).
Para quem está sob a Lei, um único erro lhe terá sido fatal (Tg 2:10).
Para quem está na Graça de Cristo, nem um único “acerto” lhe é necessário
para a justificação, mas apenas a fé naquele que justifica o ímpio (Rm 4:4-
5).
O cristianismo judaizado (que mistura Graça e Lei) anuncia o perdão
dos pecados em Cristo, mas não ensina a rejeição da justiça própria, pois é
nela, na justiça própria do religioso, que estão muito bem instalados os seus
instrumentos de controle sobre os fiéis (Gl 6:12-13). Contudo, onde não há
anulação da nossa justiça não há igualdade dos homens diante de Deus (Rm
11:32), não há amor ao próximo e, conseqüentemente, não há Evangelho de
Jesus Cristo.
Para os que nele crêem, Cristo aboliu aquela que é o parâmetro de
justiça própria que divide os homens (a Lei - Ef 2:14-15), de modo que, além
de perdoar os nossos pecados, ele anulou a nossa justiça, deixando patente
que somos todos iguais perante Deus e que não temos absolutamente nada
para barganhar com ele.
Portanto, quem é de Deus e quer andar segundo a vontade do Senhor
deve tratar o próximo como gostaria de ser tratado (porque esta é a Lei e
os profetas - Mt 7:12); e isto não é uma sugestão divina, mas um
mandamento de Cristo para a sua igreja. O diferencial (contra-intuitivo para
o homem natural) não é a nossa justiça; é crer ou não crer na Justiça de
Cristo em nosso favor (Jo 17:19).
O pecador que se confessa justificado por Cristo, e não por sua justiça
própria, deixa o juízo vertical (que é mediante a justiça do Calvário) sempre
a cargo de Deus, e ainda, no que depender dele, também sempre permite que
47

a misericórdia triunfe sobre os juízos horizontais (que são mediante a


“moral da Lei” - Tg 2:13).
Diferentemente da Lei, o Evangelho foi ensinado por Jesus e pelos
apóstolos em meio a conversas informais, à medida que os assuntos
apareciam em situações reais, geralmente em confrontações com
ordenanças mosaicas. Em várias ocasiões, os apóstolos chamaram o
Evangelho de mandamento do Senhor, mas raramente o ensino da Graça foi
chamado de “Lei”; vocábulo que, em toda a Bíblia, refere-se
caracteristicamente ao estatuto Mosaico.
E por que aconteceu isso? Ora, para que ficasse claro que a justiça do
Calvário não provém de lei, mas de fé (Fp 3:9), e também para que (o que,
infelizmente, acabou acontecendo) os cristãos não olhassem para os ensinos
do Senhor Jesus e dos apóstolos com olhos legalistas e ainda
autojustificadores, enxergando-os com lentes meritórias, estabelecendo
punições (penitências) para expiação da culpa e (desprezando o
discernimento do Espírito) exigissem, por exemplo, a infalibilidade legalista
em funções e situações cujos perfis são humanamente inatingíveis (sem
falhas) em sua completude, pois correspondem (como tudo no Evangelho) ao
que seria o perfil do próprio Cristo naquela função ou situação (Cristo como
presbítero [Tt 1:6-9; I Tm 3:2-7], como marido [Ef 5:25], como esposa [Ef
5:22], como homem idoso, como mulher idosa, como jovem, como servo [Tt
2:2-10], etc).
Diante da óbvia constatação de que jamais agiremos como o próprio
Cristo em toda e qualquer situação, resta-nos vivenciar cada situação
considerando o que Cristo faria se ele fosse nós mesmos. O que ele faria em
situações que enfrento se ele fosse eu, com as minhas óbvias limitações
intelectuais, físicas, emocionais e espirituais? Dentro dessa expectativa
real e verdadeira, eu posso e devo oferecer o melhor de mim para Deus.
Achar que Paulo traçou um perfil inflexível para presbíteros, maridos e
esposas cria um padrão inatingível, que ninguém alcança, mas que todos
fingem que alcançam (hipocrisia) e que - se fôssemos verdadeiramente
sinceros - desabilitaria muitos pastores (quantos?) para a função, bem como
inviabilizaria o casamento, pois que homem ama a sua esposa como Cristo
amou a igreja? Ou que mulher é submissa ao seu marido como ao Senhor?
Um líder preso a um perfil legalista e absoluto viverá, ele mesmo, uma
vida irreal (se for sincero, só ele e Deus sabem das angústias que lhe tiram
o sono), mergulhado na fantasia de ser alguém que, na verdade, está muito
distante de quem ele realmente é. Mas o medo de não ser leva-o a encarnar
um impostor facilmente identificável, primeiro pelos de casa (o que tem
afastado muitos de seus filhos daquilo que eles são levados a entender como
48

sendo a “igreja”), e depois por todos os que o conhecem, à exceção, é claro,


dos seus liderados, que por ele são induzidos a viver uma ilusão semelhante,
e ainda convictos de que estão agradando a Deus e vivendo conforme a sua
vontade.
Há que se ter discernimento ao tratar de questões de aptidão para
funções na igreja e demais posturas para um discípulo de Jesus. Paulo
indicou-nos o referencial perfeito (Jesus Cristo), que é o nosso alvo em tudo
(Fp 3:13-14), mas suas instruções não são leis que exigem infalibilidade
absoluta. A verdade do Evangelho em nossa vida começa por não vivermos a
mentira de fingir ser alguém que, na verdade, não somos. Cristo nos declara
santos e justificados como somos, pois cremos na santificação dele em
nosso favor. E o caminho a ser trilhado agora (Jo 14:6) é o aperfeiçoamento
no amor (I Jo 2:5) e a santificação na verdade (Jo 17:19).
Ora, se a perfeição fosse indispensável, como poderia ser “o apóstolo
dos gentios” e ainda ousadamente declarar “Sede meus imitadores como eu
sou de Cristo” (I Co 11:1) alguém que corajosamente confessou: “não faço o
bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço” (Rm 7:19)? Estaria ele
fora de si quando disse: “Por isso não desanimamos; pelo contrário, mesmo
que o nosso homem exterior se corrompa, contudo, o nosso homem interior
se renova de dia em dia” (II Co 4:16)? Como poderia determinar perfis e
posturas para discípulos e para a liderança da igreja alguém que assumiu ser
o principal dos pecadores (I Tm 1:15)?
Estaria Paulo bancando o falso humilde ou apenas revelou, na descrição
de sua auto-imagem, a consciência (reconhecimento) de sua natureza ainda
corruptível (I Co 15:53), que o desautorizava (e a todos nós) a julgar o
próximo e exigir perfeição de quem quer que seja?
Ora, Paulo apenas confirmou o que Cristo já havia declarado
anteriormente (Jo 8:32,36). Se fomos justificados na cruz do Calvário,
estamos livres da neurose legalista, que nos leva à busca desenfreada por
méritos e direitos diante de Deus.
Se não há ninguém perfeito, a adequação aos perfis das funções na
igreja são obviamente uma questão de discernimento corajoso, e não de lei
absolutista (como, na prática e na verdade, sempre aconteceu. A ilusória
adequação perfeita é auto-engano proposital).
Paulo, ex-fariseu, formado nas melhores instituições de ensino jurídico
de sua época, era profundo conhecedor da Lei e sabia que leis são
promulgadas para os mais diversos tipos de transgressores, e não para
justos (I Tm 1:9). Ora, se somos justificados (declarados justos) em Cristo,
somos filhos de Deus, guiados pelo Espírito (Rm 8:14), que é quem convence
49

o mundo do pecado, da justiça e do juízo (Jo 16:7-8), e não pela Lei, que
apenas realça o pecado (Rm 7:5) e avulta a ofensa (Rm 5:20). E, se somos
guiados pelo Espírito, não estamos debaixo da lei (Gl 5:18), mas somos
transformados pela renovação da nossa mente (libertando-a da lógica
meritória legalista), compreendemos (Ef 5:17) e experimentamos a boa,
perfeita e agradável vontade de Deus (Rm 12:2), escrita pelo Espírito, não
em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne, isto é, nos nossos corações
(II Co 3:3). É o amor de Cristo que nos constrange (II Co 5:14), e não a Lei.
O Espírito do Senhor, que habita em nós, renova a nossa mente e capacita-
nos a discernir como convém que caminhemos (I Co 6:12).

“Mas, agora, sem lei, se manifestou a Justiça de Deus,


testemunhada pela lei e pelos profetas” (Rm 3:21)

Entretanto, em seu ministério, Paulo constatou e combateu duramente


a sede que muitos dos convertidos ainda tinham de lei (principalmente
judeus), levando-os a temer e levar mais a sério os mandamentos mosaicos
do que os ensinos dos apóstolos. Então, a fim de chamar a atenção dos tais
para a legitimidade dos seus ensinos (I Co 14:37), bem como para a maior
glória do ministério da justiça de Deus (II Co 3:7-9), Paulo chamou o
Evangelho de lei de Cristo (I Co 9:21; Gl 6:2), lei do Espírito da vida (Rm
8:2), lei de Deus (que guerreia contra a lei meritória, que aprisiona ao
pecado - Rm 7:22-25), à qual o homem não pode estar naturalmente sujeito
(Rm 8:7) e, ainda, lei da fé (Rm 3:27), sempre em oposição à Lei Mosaica (lei
das obras [Rm 3:27], do pecado e da morte [Rm 8:2]). Tiago também chamou
o Evangelho de lei perfeita da liberdade (Tg 1:25 - ARC).
Quem só compreende e se submete às coisas por força de lei (e acha
que só o amor e a misericórdia não bastam, pois a igreja precisaria também
da Lei Mosaica), saiba que os ensinos de Jesus e dos apóstolos não são
apenas sugestões e conselhos, e que a “Lei de Deus, de Cristo, do Espírito
da Vida, da Fé e da Perfeita Liberdade” (ou seja, o Evangelho de Cristo), em
todos os seus mandamentos, exige que rejeitemos a nossa justiça própria e,
sujeitando-nos à justiça do Calvário, deixemos de julgar o próximo e o
vejamos como nosso semelhante, amando-o como a nós mesmos, tendo em
Cristo o exemplo de mansidão e humildade (Mt 11:29), e sendo
misericordiosos como misericordioso é o nosso Pai (Lc 6:36).
50

A igualdade entre os homens não é uma questão de caridade. É uma


questão de justiça... Justiça do Calvário.
Quem é manso, humilde e misericordioso para com o próximo ajunta
com Cristo. Quem confia na sua justiça própria (na sua própria carne – Fp
3:3) e despreza o próximo está espalhando o que Cristo quer ajuntar (Lc
11:23).
O Evangelho não tem por finalidade criar seguidores de estatutos
morais e religiosos. Não é este o seu papel nem nunca foi este o seu
objetivo. Visando a algo bem mais profundo, o Evangelho transforma
seguidores e não seguidores de estatutos morais e religiosos em novas
criaturas, as quais, mediante o reconhecimento da exclusividade dos méritos
de Cristo para sua salvação e a conseqüente consciência de igualdade com o
seu semelhante diante de Deus, seguem abrindo mão de sua justiça própria
em favor do próximo e vão sendo gradativamente transformadas,
substituindo a arrogância espiritual, a injustiça e a maldade pela humildade
e sujeição à boa, perfeita e agradável vontade de Deus (Rm 12:2), tornando-
se, desse modo, pessoas caracterizadas pelo amor incondicional ao próximo
(Jo 13:34-35).
Embora as epístolas neotestamentárias apontem como virtudes da nova
criatura em Cristo o domínio próprio e, obviamente, uma integridade de
caráter acima do padrão mundano, a bandeira da igreja primitiva diante da
sociedade de seu tempo nunca foi a vigilância moral (se fosse, não haveria
parceiros melhores nessa causa do que os fariseus, notoriamente
reconhecidos por seu padrão moral admirável – Mt 5:20). Mesmo existindo
numa época de corrupção extrema, perversões e devassidão sexual explícita
até nos palácios governamentais, a igreja apostólica não se caracterizou por
protestos contra a decadência moral. Ela ganhava a simpatia de todo o povo
por sua alegria singela, testemunho de amor fraternal, desapego às riquezas
e pelo cuidado com os necessitados (At 2:44-47), pois quem ama o Reino de
Deus quer justiça, paz e alegria no Espírito Santo, e nisto agrada a Deus e é
aprovado pelos homens (Rm 14:17-18).
As questões “morais” que interessavam à igreja primitiva eram apenas
as de suas próprias ovelhas (I Co 5:12), e estas eram resolvidas na
intimidade da comunhão, sem chiliques moralistas/legalistas, mas com
longanimidade e tolerância. E mesmo nos casos mais graves, que exigiam
mais firmeza, a questão era tratada como advertência a um irmão, e não
como julgamento de um inimigo (II Ts 3:14-15).
Obviamente, como cidadãos que vivem em uma democracia, podemos e
devemos interferir nas questões morais de nosso país (e em muitas outras),
pois isto é aplainar o chão onde nossos filhos pisarão (e é responsabilidade
51

de todo cidadão, religioso ou não), mas tentar moralizar o mundo em nome


do Evangelho ou da igreja é desviá-los de sua função/missão.
A tentativa de confrontar e derrotar o pecado utilizando a Lei Mosaica
ou a moralidade como instrumentos para esse fim estará sempre fadada ao
fracasso, pois tanto a Lei quanto a “moral” são referenciais do esforço
humano, e o apóstolo Paulo deixou muito clara a impossibilidade do homem
vencer o pecado por conta própria (Rm 7:7-25).
A Lei (e a sua tentativa de razoabilidade aceitável pela maioria – a
moral) é um parâmetro inútil para a libertação do domínio do pecado (Rm
6:14), pois é exatamente nela que está a força do pecado (I Co 15:56). No
homem (que é “carnal e vendido à escravidão do pecado” – Rm 7:14), a Lei
apenas “desperta toda sorte de concupiscência” (Rm 7:8), ao mesmo tempo
em que alimenta a sua justiça própria (Fp 3:9), gerando aparência de
sabedoria, culto de si mesmo, falsa humildade e disciplina do corpo, “que não
são de valor algum, senão para a satisfação da carne” (Cl 2:23 - ARC).
Para o religioso moralizador, a espiritualidade (ou “santidade”) consiste
em combater o pecado com suas próprias forças, tendo como referencial a
moral da lei, ou a lei moral (embora ele use o nome de Jesus). O produto
final é um ser arrogante, com aparência de piedade, mas que nega a eficácia
dela na vida do pecador (II Tm 3:5 - ARC). Em sua auto-avaliação, a sua
contabilidade espiritual (mandamentos obedecidos x desobedecidos) não
compromete a média aceitável (moral) e ainda o qualifica como detentor das
chaves do céu e do inferno. Afinal, sua “moral” lhe dá esse privilégio...
Com tanta justiça própria sobrando, ele até se sente com crédito para
uma “escapadinha” de vez em quando. A sujeirinha sem importância vai para
debaixo do tapete, pois a visão moralista trata apenas da imagem. O que não
é visto por ninguém não abala a moral de quem pratica o ato.
Para quem um dia apenas aderiu à moralidade legitimadora de alguma
denominação cristã (e chamou isso de “conversão”), a Graça de Cristo é uma
conversa estranha e perigosa, que (por anular o mérito moral religioso) pode
incentivar o pecado. Os tais têm pânico de andar sem as muletas da
autojustificação.
Como o referencial de conduta do cristianismo judaizado é a
moralidade da Lei (e não o Evangelho de Cristo), é nele que encontramos -
com abundância e em diversos níveis - esse tipo de gente, para o qual a
compreensão do Evangelho é mais difícil, pois (em seu delírio
autojustificado) o seu perfil moral lhe dá mais segurança do que a loucura
da Graça. Se eles já aceitaram as “regras”, já jogam no “time” e já têm uma
justiça diferenciada e superior à dos pecadores (aos quais eles não se
52

misturam), o que ainda lhes resta a fazer? De repente ouvem dizer que
devem abrir mão de tudo isso – que foi conquistado com tanto sacrifício... -
considerando como perda o seu ganho mais precioso (Fp 3:7-9), anulando
méritos pessoais e igualando-se a todos diante de Deus? Tem alguém maluco
nessa história. Provavelmente é o apóstolo Paulo...
Ora, tais adesões ao padrão moral religioso mais adequado às
necessidades pessoais de autojustificação dos “convertidos” podem
camuflar aqueles que o apóstolo Paulo chamou de falsos irmãos (Gl 2:4-5)
que incitam à rebeldia (Gl 3:12) e precisam ser confrontados e ainda
render-se ao Evangelho, pois rejeitam a liberdade que há em Cristo
(ausência de parâmetro legalista) e tentam reduzir-nos à escravidão da Lei.
Não somos uma patrulha moralista que deve sair apontando os pecados
do mundo e julgando os homens. Foi-nos confiada a palavra da reconciliação,
para que anunciemos que “Deus estava em Cristo, reconciliando consigo o
mundo, não imputando aos homens as suas transgressões” (II Co 5:19), pois
é a tolerância, a longanimidade e a bondade de Deus que conduzem o homem
ao arrependimento (Rm 2:4).
Em vez de agir como aferidora da moral, a igreja de nossos dias deve
abraçar a causa da justiça que provém da fé (a Justiça de Deus), ou seja,
aquela que torna todos os homens iguais perante o seu Criador. Se é nessa
justiça que cremos, e por ela e para ela vivemos, então a bandeira da igreja
(dentro de sua missão evangelizadora) deve ser a luta contínua em favor dos
injustiçados (Mt 5:6; I Pe 2:24; I Jo 3:10), amparando aqueles que se
encontram em alarmante estado de desigualdade (pobres, desamparados,
desabrigados, enfermos, desprezados, famintos... – Tt 3:14), para que o
Reino e a vontade de Deus sejam assim na Terra como no céu (Mt 6:10). E
hoje há muito mais instrumentos para fazermos isso do que nos tempos
politicamente nada democráticos da igreja primitiva.
Em tempos democráticos como os que vivemos hoje, a
representatividade comunitária é o maior poder de influência nos rumos da
nação através dos mecanismos políticos. A igreja é sustentada por Deus,
através dos fiéis (II Co 9:7), e não deve recorrer a esses mecanismos
(legítimos, mas geralmente exercidos de modo conflitante com os princípios
bíblicos) a fim de barganhar benefícios para si mesma, como instituição
(para que não se faça refém de manipuladores – Mt 4:9), mas não pode ficar
indiferente e deixar de utilizar o seu potencial representativo para
legitimamente pressionar os legisladores e governantes da nação em
questões diretamente relacionadas aos princípios da Justiça do Calvário, ou
seja, da igualdade dos homens diante de Deus. Se não é possível acabar
totalmente com as desigualdades (e não é mesmo – Mt 26:11), podemos
53

amenizar muitas situações absurdas e salvar muitas vidas igualmente


preciosas ao nosso Deus. Isto é justo, é viável e a igreja pode e deve ser
muito relevante nessa área.
A igreja não deve ignorar os padrões morais da sociedade em que está
inserida, mas ela existe para oferecer Graça àqueles que não a encontram
em nenhum outro lugar. Ela existe para, em nome do Evangelho de Cristo,
correr riscos que geralmente são inaceitáveis para a sociedade, por isso a
bandeira da igreja é a Justiça do Calvário, e não a vigilância moral.
Mas pregar e viver o Evangelho da Graça, absolutamente desprovido da
nossa justiça própria (conforme a doutrina dos apóstolos), pode ser um
tanto inconveniente para o bom desempenho de igrejas que são apenas
instituições religiosas. Tal Evangelho pode acabar atraindo muitas pessoas
com pouquíssima capacidade de sustento da obra. Pode também atrair
pessoas que são companhias pouco recomendáveis.
Por uma questão de identificação pessoal, convivemos e caminhamos
tranqüila e harmoniosamente na “igreja” com legalistas, soberbos,
gananciosos, falsos mestres, avarentos, hipócritas, iracundos, impiedosos,
mentirosos, ciumentos, invejosos, maus pagadores, glutões... Mas quem quer
expor sua esposa, seu marido e seus filhos ao risco moral da companhia de
adúlteros, alcoólatras, fumantes, viciados, aidéticos, homossexuais e
prostitutas (Mt 21:31-32)? Estes têm que se purificar antes de entrar no
“templo”; quem os considerará – e os declarará, tal qual aos primeiros - já
limpos pela Palavra (Jo 15:10)?
Pregamos o Evangelho da esterilização moral na Lei Mosaica ou o da
justificação em Cristo?
Viver a justiça do Calvário é o fardo leve de Cristo, que só é buscado e
aceito com alegria por aqueles que reconhecem quão pesado é o fardo da
Lei. Mas a arrogância de quem tem a mente dominada por sua justiça própria
o induz a sentir-se bem sob o jugo da Lei e a considerar o fardo de Cristo
insuportavelmente mais pesado do que o fardo mosaico.
Mandamentos e ordenanças adestram o lobo, mas não o transformam
em ovelha; produzem o religioso - e talvez o bom cidadão (até um ateu) -
mas não mudam o seu interior (sepulcros caiados... – Mt 23:27); despertam o
zelo, mas não o entendimento (Rm 10:2).
Uma consciência livre (Jo 8:32,36), transformada pela renovação da
mente (Rm 12:2) e aperfeiçoada no amor (I Jo 2:5) aprende a discernir o
que convém e edifica (I Co 10:23) e gera uma nova criatura em Cristo.
54

Viver a Justiça do Calvário liberta do domínio do pecado (Rm 6:14) e


evidencia a justificação em Cristo; viver a justiça meritória da Lei, ainda
que acobertado pelo cristianismo religioso, evidencia o quê?
Abandonar o jugo da Lei e tomar o jugo de Cristo é precisamente a
decisão de mudar a nossa intuição natural e imediata, do mérito legalista e
julgador para o amor incondicional com que Deus nos amou, quando éramos
ainda transgressores (Rm 5:8). A Lei já morreu na cruz do Calvário, mas nós
a mortificamos em nossa carne à medida que vamos conseguindo êxito em,
espontaneamente, oferecer ao próximo a mesma misericórdia imerecida que
recebemos de Deus. O nosso amor ao próximo revela e qualifica a
intensidade do nosso amor a Deus. Não há outra fórmula; é esse o critério
bíblico (Mt 25:31-46). Andar no Espírito é termos como reação natural a
mesma longanimidade e bondade de Deus (Cl 3:12-17), que levam o pecador
ao arrependimento (Rm 2:4).
Vivendo dessa forma, passamos a ter o mesmo sentimento que houve
em Cristo Jesus (Fp 2:5) e efetivamente pensaremos com a sua mente (I Co
2:16). Os que assim caminham, buscando tal transformação, são obreiros
aprovados, que aprenderam a bem manejar a Palavra da Verdade (dividindo,
separando, com discernimento, Lei e Graça – II Tm 2:15).
Mas logo após o período apostólico, o cristianismo-religião adotou
definitivamente o “outro evangelho” – denunciado e duramente combatido
por Paulo (Gl 1:6) – que funciona como uma terceira revelação, resultado de
uma falsa simbiose entre Lei e Graça (a tradição judaico-cristã, que anuncia
o perdão de pecados em Cristo, mas condiciona a sua autenticação à justiça
meritória da Lei). Tal atitude é exclusiva da igreja pós-apostólica, pois
jamais foi realizada por Jesus nem pelos apóstolos, que, entendendo como
uma tentação a Deus, veementemente se recusaram a colocar sobre os
ombros dos discípulos um jugo que nem os seus pais nem eles mesmos, como
judeus, puderam suportar (At 15:10).
Ora, tal persuasão não vem daquele que nos chamou (Gl 5:8).

“Eu, porém, irmãos, se ainda prego a circuncisão, por que


continuo sendo perseguido? Logo, está desfeito o escândalo da
cruz” (Gl 5:11)

Você compreende o que Paulo está dizendo? Tem certeza?


55

O apóstolo dos gentios está afirmando categoricamente que não


conciliaria Lei e Graça, pois isto seria desfazer o escândalo da cruz. E mais...
que, se assim o fizesse (como tem feito a igreja desde a morte do apóstolo),
ele teria uma vida tranqüila (como a dos líderes da igreja institucionalizada,
que passaram de perseguidos a perseguidores), sendo bem aceito pelos
religiosos (que eram os seus perseguidores, assim como o foram de Cristo -
Jo 15:20-21; 16:1-2), respeitado como um líder defensor da moral e capaz
de, pela força da Lei Mosaica, moralizar a igreja, a cidade, o país e o mundo,
sem jamais ser acusado de incentivar o pecado (Rm 3:8; II Co 10:2).
Tudo tão fácil para Paulo... Bastaria pregar a Lei (ou tentar conciliá-la
com a Graça) e seria o fim de seu sofrimento. Cessariam as perseguições.
Mas ele preferiu continuar pregando a Graça sem a Lei (Rm 3:21). Preferiu o
risco de confiar no poder do Evangelho (Rm 1:16). Preferiu o risco de
confiar no amor e na riqueza da tolerância, da longanimidade e da bondade
de Deus (Rm 2:4; I Cr 21:13). Preferiu o risco de viver pela fé (Gl 3:11) na
loucura da Palavra da Cruz (I Co 1:18).
A situação é a mesma ainda hoje. Quem prega a Graça sem a Lei é
rejeitado e perseguido pelos religiosos. Principalmente por muitos dos que
se dizem cristãos, convertidos ao Evangelho. Mas, a que evangelho? Ora, o
evangelho da autojustificação; o evangelho que desfaz o escândalo da cruz;
o evangelho da Graça e da Lei; o “outro evangelho”... (Gl 1:6-9).
A igreja pós-apostólica, legalizada e institucionalizada, nunca entendeu
(se entendeu não aceitou) que a aliança com Cristo, firmada mediante a fé
na justiça do Calvário, anula toda a justiça meritória, que provém de lei. Ela
sempre viu esse fato com profunda desconfiança e, na dúvida, anuncia um
evangelho neotestamentário com largas e profundas raízes muito bem
fincadas na Aliança Mosaica, que foi firmada mediante a Lei.
Ora, o Filho de Davi era ministro da circuncisão (Rm 15:8), por isso
(diferentemente de Paulo, o apóstolo dos gentios) falou do Evangelho sob a
perspectiva da Lei Mosaica (“evangelho da circuncisão” – Gl 2:7) ao seu povo
segundo a carne (Rm 9:5), mas o seu sacerdócio não é uma continuação do
sacerdócio levítico nem foi ele chamado segundo a ordem de Arão (Hb 6:20;
7:11, 15-17). Entretanto, a igreja pós-apostólica optou pelo sacerdócio
levítico, vendo nele o modelo ideal de solidez e eficiência administrativa
para a sua institucionalização, de modo que, para a maioria dos cristãos, a
igreja é o templo (lugar santo para adoração e culto), onde estão o santuário
e o altar de Deus, onde os “levitas” (sacerdócio levítico) conduzem o louvor
e, para muitos, o presbítero (pastor, padre...), obviamente, é o sumo-
sacerdote, a cobertura espiritual e o elo, tido como perfeito, de ligação
entre Deus e o povo.
56

Com maior ou menor intensidade, é esse o retrato do cristianismo


judaizado e, embora ele declare ter no Evangelho da Graça de Cristo o seu
único parâmetro, os princípios de justiça que ele incute e alimenta em seus
adeptos são extraídos diretamente do contexto legalista judaico (paraíso
dos teologistas) e pavoneiam-lhes o espírito com a arrogância da lógica
meritória. Por isso, tal qual ocorria na odisséia judaica, os inimigos de muitos
cristãos são carne e sangue, e não as forças espirituais da maldade (Ef
6:12) que possam estar atuando sobre eles. Inimigos esses que, aliás – em
face da obediência do religioso – Deus, supostamente, “aniquilará e banhará
os pés do servo fiel com o sangue deles”.
No raciocínio do legalista, entre outras coisas, a obediência às regras
garante saúde, prosperidade, segurança, etc... Enfim, a felicidade de uma
vida tranqüila, sem grandes problemas, numa terra prometida, onde mana
leite e mel. Se eu obedeço, sou amado e mereço tudo. Se desobedeço, não
sou mais amado, não mereço nada, não ganho nada, posso perder tudo e
ainda sou castigado. Tudo meticulosamente pinçado em promessas terrenas
feitas a Israel (daí a expectativa judaica de um reino messiânico neste
mundo) e no legalismo embriagador (vinho velho) e entupido de preceitos e
regras que (assim como todos nós nos inclinamos a fazer) os judeus
escolheram como forma de relacionamento com Deus, rejeitando a Graça
abundantemente oferecida por ele, já na jornada pré-messiânica com Israel
(Is 28:7-13; 58:5-11), pois, assim como a minúscula lua pode eclipsar o
gigantesco sol, a nossa justiça própria (meritória e legalista) priva-nos de
contemplar a plenitude gloriosa da Graça de Cristo.
Foi também na justiça da Lei que a igreja foi buscar a badalada e
prestigiosa “função profética” (nada a ver com o dom de profecia
neotestamentário), que transporta espiritualmente o candidato a profeta
até o topo de uma colina imaginária onde ele arrogantemente declara: “Eu
vejo!” (Jo 9:39-41), e dali, assumindo a função de aferidor da medida, ele
permanentemente vigia o nível de pecaminosidade do mundo ao seu redor e
cospe ameaças mosaicas no rosto dos achados em falta (segundo a sua
avaliação). Tais falsos profetas recusam-se a levar a cruz de Cristo e ainda
se acham no direito de sair batendo na cabeça dos outros com as tábuas da
Lei.
É ainda no estatuto mosaico (seletivo de pecados e diferenciador de
penalidades, pois visava a organizar e moralizar a sociedade judaica) que os
autojustificados vão igualmente buscar explicação e justificativa para a sua
hierarquização de pecados e instinto punidor (às vezes com fúria e ódio) de
quem comete pecados considerados mais graves do que os seus próprios.
57

Diferente do que ensinou e demonstrou Jesus (Mt 7:12), pessoas de


espírito legalista e mente autojustificada não exercem empatia em seus
julgamentos sobre o próximo. Simplesmente jogam o peso de ordenanças
geralmente criadas pela própria religiosidade cega e impiedosamente
exigem plena e imediata adequação a elas, sem levar em consideração as
limitações e fraquezas individuais de cada ser humano.
Mas a motivação de Jesus são exatamente as mazelas humanas (Lc
5:30-32). Onde a religiosidade fria e legalista vê pecadores indignos e
repulsivos, Jesus, profundamente comovido, vê ovelhas sem pastor (Mc
6:34).
A óbvia conseqüência dessa forte influência do legalismo judaico sobre
a igreja é um cristianismo distante do Evangelho de Cristo, com alma e
espírito farisaico, profundamente levítico e judaizado em sua essência,
exclusivista, isolacionista, desprezador de outros povos, julgador e
desinteressado de tudo que não pertence à sua “casta especial”,
caracterizada pela brutal arrogância e flagrante hipocrisia, e não pela
misericórdia e amor ao próximo.
As cartas apostólicas são um constante apelo à renovação da mente, a
uma nova consciência, transformada e aperfeiçoada no amor, e que, pelo
reconhecimento da igualdade dos homens diante de Deus, revela-se no
serviço humilde ao próximo (Mt 25:31-46). Contudo, o que se constata em
grande parte do cristianismo judaizado é apenas a imposição da sujeição à
Lei Mosaica e a forte indução a uma neurótica rede de controle e vigilância
coletiva que, tentando moldar uma imagem unificada dos fiéis, consegue
apenas anular as individualidades, mas não transforma nada, não renova nada
nem aperfeiçoa ninguém no amor ao próximo. É sal insípido...
A anulação da justiça própria humana, conforme o Evangelho da Graça,
é escândalo e loucura para judeus e gentios (I Co 1:23), por isso o
cristianismo judaizado e legalista tenta desfazer o escândalo e a loucura da
cruz através da adequação do Evangelho à lógica meritória da Lei e busca
uma sintonia ou conciliação entre o comportamento arrogante e
autojustificado dos fariseus - que alegavam andar segundo as obras da Lei e
haver alcançado um padrão moral alto o bastante para justificá-los - e o
comportamento dos discípulos de Jesus, que, por fé, andavam como
plenamente perdoados e justificados em Cristo e buscavam o
aperfeiçoamento no amor.
Tal “sintonia” é absolutamente impossível e profundamente doentia,
frustrante e neurotizante para a alma humana, pois são comportamentos
excludentes entre si. Um é escândalo e loucura para o outro.
58

Ora, quem crê que foi plenamente justificado em Cristo julga-se a si


mesmo (I Co 11:31), se reconhece o principal dos pecadores (I Tm 1:15) e
não alardeia os pecados do próximo, antes escandaliza-se com os seus
próprios pecados e procura exercer para com os outros a mesma
misericórdia que espera receber de todos (Lc 6:31). Mas, tal qual os
fariseus que se opuseram ao Evangelho e conspiraram para matar Jesus,
indivíduos com a mente autojustificada costumam esconder seus próprios
pecados e alardear os pecados de quem não pertence ao seu clã especial (Lc
18:9-14).
Por isso, no cristianismo-religião, o sentimento misericordioso e
longânime que sempre houve em Jesus Cristo é apenas uma possibilidade
para quem o merecer (obviamente nós mesmos, nossos parentes e amigos
mais chegados – o nosso clã); uma mera opção diante da suposta dupla face
de Deus, e não a completa revelação do Pai em seu Filho, em quem habita
corporalmente toda a plenitude da Divindade (Cl 2:9).
Precisamos deixar de analisar e avaliar os sentimentos e ações de
Cristo tomando como referência a imagem pré-concebida, humanamente
racional e intuitivamente legalista que o homem natural tem de Deus.
Toda a Escritura deve ser compreendida à luz das ações e sentimentos
de Cristo, e não o contrário. Tudo que aparentemente não esteja em sintonia
com a vida de Jesus, com a forma como ele tratou os homens (os pecadores
confessos e os autojustificados) e como ele lidou com a rotina da vida
diária, não é o seu Evangelho e não traz em si a essência de Deus, que é
plenamente revelado no Filho.
Não há características do Pai fora da pessoa do Filho. Se, porventura,
algo nas Escrituras não se “encaixa” no testemunho da vida de Jesus, tal
fato foi mal compreendido por quem leu ou trata-se de uma circunstância
particular que não se refere à salvação conforme o Evangelho da Graça de
Cristo. São coisas velhas que já passaram (II Co 5:17).
As palavras de Jesus registradas em Mateus 5:38-42 têm uma
profundidade muito maior do que costumeiramente se ouve em sermões
dominicais. Em nenhum outro lugar nos evangelhos nem nas cartas
apostólicas ficou tão clara a diferença entre o pacto da Lei e o pacto do
Calvário, bem como a impossibilidade de qualquer simbiose entre os dois.
O “olho por olho, dente por dente” representa a justiça própria e os
direitos gerados pela Lei Mosaica. Mas – assumindo uma autoridade superior
à de Moisés (“Eu, porém, vos digo...”) – Cristo ordenou que se abrisse mão do
direito adquirido de retribuir a ofensa e deixou claro que quem quiser ter
parte no seu reino terá que substituir a justiça da Lei (e os justos direitos
59

que ela proporciona) pela loucura da misericórdia escandalosa, chocante,


gratuita, insensata e até injusta, segundo a lógica legalista e meritória. O
referencial dessa justiça é a cruz do Calvário, e não a justiça própria do
homem.
Esta é a proposta do Evangelho de Cristo, e a Bíblia mostra de forma
clara a reação do coração humano a ela. Aqueles que se reconheceram
pecadores sentiram o amor de Deus na Palavra da Vida e correram para os
braços de Cristo. Os que se julgavam justos entenderam a proposta de
Cristo como desvantajosa e ofensiva para a sua justiça e, recusando a
oferta, irritaram-se com ele e pregaram os seus braços na cruz.

“Os sãos não precisam de médico e, sim, os doentes. Não vim


chamar justos e, sim, pecadores ao arrependimento” (Lc 5:31-32)

Ora, como poderia a Graça ser atraente para legalistas (os quais
buscam direitos diante de Deus)? Como poderia uma idéia, tão absurda para
a mente humana autojustificada, ser bem recebida e propagada por
instituições religiosas cujos líderes empenham-se exclusivamente em
incentivar a busca pelo direito ao céu?
A primeira providência dos tais líderes é determinar (ou dar a
entender) que só a vida de Jesus não é um modelo completo para o cristão.
A vida de Cristo, sua misericórdia desenfreada e descabida para com os
pecadores confessos e sua clara rejeição aos religiosos legalistas são,
segundo tais líderes, apenas parte de um perfil mais completo. Ainda
segundo eles, é necessário que se olhe também para a “verdade” que há no
Velho Testamento (a Lei). Ora, segundo essa tal verdade (Pv 17:15), os
acusadores de Jesus estavam certos, e ele, errado (Rm 4:4-5).
Por não admitir o escândalo do Evangelho, o cristianismo judaizado não
aceita a plenitude de Deus em Cristo nem o fato de que não existe Jesus - a
encarnação da Graça de Deus - e uma outra verdade complementar (a Lei)
para dar o equilíbrio necessário. Por isso é que ouvimos distorções como
“Deus é amor, mas também é justiça”, que, traduzido, significa: “Deus é
Graça, mas também é Lei” (Ora, Deus é amor, e a sua justiça é a do
Calvário).
Um Deus que é amor (I Jo 4:8) e cuja justiça é a do Calvário (que
justifica o ímpio que crê - Rm 4:4-5) não se encaixa nos propósitos e
60

interesses de instituições religiosas que, tal qual as instituições jurídicas


seculares (às quais devemos estar submetidos), empenham-se e impõem-se
como guardiãs da moral e dos bons costumes, e não como lugar de descanso
e libertação para quem carrega os pesados fardos da religiosidade legalista.
Ora, o que o Evangelho da Graça de Cristo tem a ver com tudo isso? Ele
é a Boa Nova, a ótima notícia (At 13:41), o perdão para o pior dos pecadores,
o amor incondicional que, uma vez recebido com lucidez, discernimento e fé,
destrói o nosso espírito arrogante e julgador e gera uma torrente de amor
ao próximo, que transforma pela longanimidade e pela misericórdia (Rm 2:4),
e não pela obediência a ordenanças (Cl 2:20-23).
A Igreja precisa entender que, diferente do que ocorre na Lei, a
obediência infalível não é fator determinante e condicional para se andar na
Graça de Cristo. Aliás, Deus, em seu infinito amor, derramou a sua Graça em
nosso favor exatamente porque ele conhece a nossa alma, sabe que somos
desobedientes e falíveis, e que, se nos tratasse conforme as exigências da
Lei, estaríamos todos magnificamente “ferrados”.
Seriam, então, a obediência e a retidão descartáveis para quem está
em Cristo? Seriam distorcer o sentido do pecado e incentivar o mal as
verdadeiras intenções de quem anuncia o perdão divino, gratuitamente
antecipado e consumado em Cristo? Era precisamente essa a acusação que
alguns faziam contra o apóstolo Paulo (Rm 3:8; II Co 10:2). Mas, será mesmo
esse o motivo de tanta rejeição à Graça?
É lógico que não. A rejeição (em maior ou menor intensidade) vem do
fato de que ela nos tira o direito de não perdoar (Cl 3:13) e obriga-nos, por
coerência, a amar (ter atitudes de amor) até os nossos inimigos. E essa
conseqüência só é compreendida, aceita e vivida com tranqüilidade por
aqueles que têm plena consciência de que foram perdoados unicamente pelo
amor gratuito de Deus, quando eram ainda seus inimigos (Rm 5:10).
Por amor à sua criação favorita, que o rejeitou, Deus, em Cristo, abriu
mão de sua glória (Jo 17:5), esvaziou-se a si mesmo (Fp 2:7), fez-se carne e
habitou entre nós (Jo 1:14) e, tendo absorvido os pecados da humanidade
inteira na cruz do Calvário (1 Jo 2:1-2), gratuitamente imputa justiça a
todos os que, independentemente de suas obras, crêem no seu sacrifício
(Rm 4:6-8).
De modo que, os que cremos em Cristo e afirmamos estar debaixo de
sua Graça, devemos igualmente esvaziar-nos de nossa justiça própria,
abrindo mão de nossos pretensos direitos, reconhecendo a inutilidade de
nossas boas obras para justificação (Fp 3:7-9) e exercendo o pleno amor ao
próximo, também independentemente de suas obras.
61

Se cremos no Evangelho de Cristo, sabemos que estamos debaixo da


misericórdia divina a todo instante e por ela vivemos cada segundo de
nossas vidas. E a evidência coerente (requerida por Jesus – Mt 25:31-46),
de que reconhecemos a nossa necessidade da misericórdia divina e de que
confiamos que já a recebemos e nela depositamos a nossa fé, é o fato de a
oferecermos ao próximo, na mesma forma gratuita e imerecida que a
recebemos.
A Graça iguala todos os pecadores diante de Deus e requer que nos
amemos uns aos outros como a nós mesmos. Para mentes autojustificadas,
tal fato é o que torna a Graça de Cristo uma loucura escandalosa e
inaceitável.
Dizer que a Graça incentiva o pecado é desculpa esfarrapada de quem
tem como deus o próprio ventre (Fp 3:18-19). A porção amarga da doce
Graça de Cristo (de difícil digestão para o homem carnal) é a revelação de
que Deus tem misericórdia daquelas pessoas que normalmente são julgadas
por nós como não merecedoras de misericórdia. Na lógica da natureza
carnal, que não discerne as coisas espirituais (I Co 2:14), o velho homem
entende que ter misericórdia do pecador é incentivar o seu pecado. E o que
realmente incomoda é: “Assim como eu vos amei, que também vos ameis uns
aos outros” (Jo 13:34), e ainda, ”Tende em vós o mesmo sentimento que
houve em Cristo Jesus” (Fp 2:5).
Ora, Deus quer que sejamos santos e irrepreensíveis diante dele em
amor (Ef 1:4 - ARC), e a correção divina é um ensino muito claro na sua
Palavra (Pv 3:12; Hb 12:5-6), mas vesti-la com os trajes da Lei Mosaica,
dando-lhe as feições da justiça legalista e meritória, é uma tentativa
hedionda de corrupção espiritual contra almas que foram justificadas e
redimidas pela fé na justiça do Calvário.
Mesclar Graça e Lei provoca neurose espiritual, desequilíbrios na alma
e insegurança quanto à salvação, induzindo à necessidade de negociação com
Deus. E, na prática, significa usar o amor de Deus como uma propaganda
enganosa, uma isca para atrair o ouvinte, a fim de prendê-lo ao velho jugo (a
justiça meritória) e daí em diante, exigir-lhe a perfeição (exterior) mosaica.
Assim pensava o apóstolo Paulo, que jamais adotou a justiça mosaica
como parâmetro para a igreja, pois sabia que ela leva à falsa circuncisão (Fp
3:2-3) e, considerando como perda os seus direitos adquiridos pela justiça
própria que a Lei proporciona, rejeitou-a como procedente de lei (para que o
velho Saulo fosse definitivamente morto e enterrado), em favor da justiça
que procede de Deus, mediante a fé em Cristo (Fp 3:8-9), pois o justo de
Deus (justificado em Cristo) viverá pela fé (Rm 1:17; Gl 3:11; Hb 10:38).
62

“se a justiça procede da Lei, Cristo morreu em vão” (Gálatas 2:21).

Para Paulo, misturar Graça e Lei significa desfazer o escândalo da cruz


(Gl 5:11). Se a opinião dele (e dos demais apóstolos) sobre a Lei fosse a
mesma da igreja pós-apostólica, suas epístolas seriam recheadas de
citações do estatuto mosaico, assim como são as pregações de muitos que se
dizem ministros do Evangelho. Quando os tais assim procedem, fazem-no
por conta própria, e não por seguir exemplo de Paulo ou de qualquer outro
apóstolo.
O cristianismo-religião jamais combateu com a devida firmeza nem
sequer procurou mostrar aos seus fiéis a necessidade de rejeitar,
mortificar e reorientar (renovar), nos mínimos detalhes, as suas mentes
autojustificadas. Por isso, embora anunciando a Graça de Cristo (ainda que
diluída em barris de ordenanças meritórias), ele não consegue mudar, diante
dos não convertidos mais observadores, a sua imagem de fábrica de
arrogância espiritual, hipocrisia e falso moralismo julgador. E ainda chama
tal rejeição de “o glorioso fardo de Cristo, que temos de levar”.
No cristianismo judaizado, “carregar a sua própria cruz” é aceitar e
conviver orgulhosamente com o repúdio da sociedade à sua hipocrisia
religiosa.
O compromisso do cristão é com a Justiça de Cristo (que é a do
Calvário e que é loucura, segundo a justiça meritória natural do homem). É,
portanto, compreensível que sejamos chamados de loucos, ingênuos,
exageradamente misericordiosos e perdoadores, e de coisas semelhantes a
estas. Mas a (má) fama de arrogantes, julgadores e moralistas hipócritas
revela a falta de sintonia entre a religião cristã e o Evangelho, e isso nada
tem a ver com “levar o fardo de Cristo”. Tal reputação coloca a religião
cristã, não ao lado de Jesus, mas de seus perseguidores, que também tinham
tais características, além da Lei Mosaica na ponta da língua, sempre afiada e
apontada em direção ao próximo.
Ora, se julgamos o próximo, isso não fará com que Deus vá julgá-lo e
puni-lo como achamos que ele deveria fazer. Deus tem o seu próprio
parâmetro de juízo e correção. Nosso julgamento acerca do próximo é,
portanto, totalmente inútil. Mas, quando o fazemos, estamos, na realidade,
estabelecendo uma regra de julgamento (lei) para nós mesmos. Estamos
dizendo a Deus: “Quando eu cometer esse tipo de erro, pode me castigar,
63

porque eu estou declarando, com a minha boca, que quem faz isso merece um
duro castigo”.
A postura julgadora é sempre muito perigosa para quem a adota. O
Senhor Jesus disse: “Não julgueis para que não sejais julgados, pois com a
medida com que tiveres medido vos medirão também a vós” (Mt 7:1-2), e
ainda: “Porque se perdoardes aos homens as suas ofensas, também o vosso
Pai celeste vos perdoará. Se, porém, não perdoardes aos homens as suas
ofensas, tampouco o vosso Pai vos perdoará as vossas ofensas” (Mt 6:14-15),
de modo que, “o juízo é sem misericórdia para com aquele que não usou de
misericórdia” (Tg 2:13).
É evidente que nem Cristo nem Tiago estão falando de salvação (que é
pela Graça, mediante a fé – Ef 2:8), mas do relacionamento com o próximo,
na vida diária. Quem quiser receber misericórdia de Deus no seu dia-a-dia,
deve ser misericordioso com o próximo.
Necessário se faz esclarecer que, ao dizer que não devemos julgar,
Cristo refere-se a não sentenciarmos ninguém à condenação eterna. Como
pode alguém que é salvo pela Graça, sem que lhe sejam imputadas as suas
transgressões (II Co 5:19), julgar e condenar quem quer que seja?
Mas isso não significa que devemos ser pessoas sem opinião acerca do
pecado, com medo de estar “julgando”. O princípio bíblico para nós é julgar
tudo e reter o que é bom (I Ts 5:21). Mas esse “julgar” tem a ver com
analisarmos situações e examinarmos a nós mesmos (II Co 13:5-6), sem
fazer disso um padrão de julgamento condenatório sobre indivíduos ao nosso
redor. Acerca de tal atitude, o apóstolo Paulo foi bem claro: “Portanto, és
indesculpável quando julgas, ó homem, quem quer que sejas, porque, no que
julgas a outro, a ti mesmo te condenas, pois praticas as próprias coisas que
condenas” (Rm 2:1), e ainda: “Quem és tu que julgas o servo alheio? Para o
seu próprio Senhor está de pé ou cai. Mas estará em pé, porque o Senhor é
poderoso para o suster” (Rm 14:4).
No episódio da mulher adúltera (Jo 8:3-11), Cristo não foi conivente
com o pecado em questão nem tinha prioritariamente a intenção de livrar a
mulher da legítima punição prevista (para os judeus) na lei judaica. Se ela
estivesse, naquele instante, sendo penalizada pelas autoridades
competentes, Cristo não teria interferido em seu destino, embora ainda a
tivesse perdoado (assim como não interferiu no cumprimento da sentença do
ladrão, seu companheiro de crucificação, quando este suplicou-lhe
misericórdia em seus últimos instantes). A idéia de Jesus foi desautorizar -
mediante a contundente revelação da hipocrisia – aqueles que, sendo
igualmente pecadores, não deviam sentir-se superiores e, sem nenhum
direito nem moral para tanto, julgar e condenar a pecadora. E ainda, de
64

quebra, só para não perder o costume, derramou Graça irritantemente


abundante e perdão gratuito...
Cabem aqui algumas perguntas que exigem uma dose extra de reflexão
e destemida sinceridade para serem respondidas:
Do que realmente trata o Evangelho de Cristo? De onde ele se propõe a
tirar o pecador caído e para onde pretende levá-lo? Que meios são
utilizados nesse processo? Quais são os seus instrumentos? Que
sentimentos e mudanças vão sendo geradas no pecador que está sendo
restaurado e aperfeiçoado? Como é o novo homem (Ef 2:15), transformado
pelo poder do amor, da misericórdia e do perdão em Cristo?
Do que tem historicamente tratado a religião cristã? De onde tem
supostamente tirado o pecador caído e para onde o tem levado? Quais os
meios e instrumentos por ela utilizados? Que sentimentos tem gerado em
grande parte de seus adeptos e em que os tem transformado? Como é o
coração do homem institucionalmente religioso?
O cristianismo judaizado usa a Lei para manter os fiéis sob um
constante bombardeio de culpa (Rm 5:20), a fim de gerar uma busca
desesperada por justiça própria, que alimenta e mantém todo o esquema de
manipulação religiosa. Ora, a Lei é a força do pecado (I Co 15:56) e,
obviamente, não pode libertar ninguém do domínio do pecado (Rm 6:14).
Diferente do Evangelho (Jo 8:32), o cristianismo judaizado e legalista não
tem a intenção de libertar ninguém. Cercando-se de mandamentos mosaicos,
que – ligados umbilicalmente à condenação – são tidos como uma garantia
adicional de intimidação dos fiéis, a religião cristã visa apenas à
transformação do pecador, não em uma nova criatura misericordiosa e que
ama ao próximo como a si mesmo, mas em um religioso de moral exterior
elevada (Mt 23:27) e que, fazendo-se espontaneamente prisioneiro de sua
própria arrogância, rejeita qualquer aproximação em igualdade com o
próximo (Is 65:5).
Muitos líderes cristãos, portanto, não confiam e rejeitam o que, na
verdade, nem chegam a incentivar em suas comunidades (a negação da nossa
justiça própria diante de Deus e a consciência de que é a misericórdia e a
bondade divina que levam ao arrependimento e à transformação do pecador
em uma nova criatura – Rm 2:4) e por isso não podem experimentar os
verdadeiros benefícios do Evangelho como realidade em seu cotidiano.
A “loucura do Evangelho” que o cristianismo judaizado anuncia ao mundo
é apenas a velha justiça meritória pela obediência a ordenanças
eclesiásticas e a regras comportamentais. Nele, a salvação é preciosa
65

demais para ser gratuita, e o perdão requer, no mínimo, muita justiça


própria após a conversão.
Diferente do que pensava o apóstolo Paulo (para quem a força do
pecado era a Lei - I Co 15:56), a igreja judaizada e legalista entende que a
força do pecado é a Graça, que é vista, não como a essência do Evangelho de
Cristo e a fonte de seu poder transformador, mas como um pequeno e
perigoso detalhe que deve ser mantido, se possível, em total segredo, e que
é, de vez em quando, indevidamente revelado por algum pecador incorrigível
querendo justificar o seu pecado, exposto pela Lei.
No cristianismo judaizado, o Evangelho é sempre anunciado como duas
notícias contraditórias - uma boa e uma ruim. A notícia boa é que a salvação
é pela Graça, mediante a fé. A ruim – segundo esse falso evangelho - é que
ainda temos que observar a Lei e a ela submeter-nos. Ou seja: a boa é que
estamos livres; a ruim é que continuamos presos.
A forma como o Cristianismo trata o ensino de Paulo acerca da morte
da Lei e da liberdade da Graça sugere a imagem do apóstolo dos gentios
como um andarilho bêbado e cambaleante falando bobagens absurdas em
praça pública, sendo amparado e conduzido por um amigo lúcido e sóbrio
(Moisés), que vai desmentindo os delírios do amigo embriagado e
esclarecendo ao povo a “verdadeira verdade”, para que as loucuras do
confuso amigo não sejam escândalo para ninguém (I Co 1:23; Gl 5:11).
A questão final a ser considerada é se a tradição judaico-cristã (Lei e
Graça) e os interesses da igreja institucionalizada estão em conformidade
com o ensino do apóstolo dos gentios. Se não há sintonia entre eles, temos
que ouvir a opinião de Paulo a esse respeito (Gl 1:6-9) e decidir de que lado
nós estamos. Paulo tinha ou não tinha autoridade para dizer o que disse?
Apesar da advertência de Jesus, na religião cristã a Graça é, quando
muito, um pequeno remendo de pano novo na roupa velha da justiça própria;
é uma ínfima gota de vinho novo misturado ao vinho velho, acondicionado em
odres igualmente velhos e inadequados, para ser vendido por arrogantes
líderes e falsos mestres religiosos que, acostumados ao vinho antigo,
rejeitam o novo e ainda dizem: “O velho é excelente!” (Lc 5:36-39).
A Lei e o medo da condenação podem afastar o homem da prática de
determinados pecados por algum tempo, mas não limpará (diante de Deus – I
Jo 3:3) a sua natureza pecadora nem o afastará da justiça própria, cuja
anulação é indispensável para que ele compreenda, aceite e viva em
conformidade com o Evangelho da Graça de Cristo.
A religião organizada e legalista jamais aceitará o Evangelho da Graça.
Não o aceitou quando ela se chamava “Templo de Deus” nem o aceitará agora
66

que se auto-entitula “Igreja de Cristo”. O verdadeiro povo de Deus era um


remanescente em meio à institucionalidade dos dias do Templo e igualmente
é hoje entre os vários impérios religiosos meramente humanos, edificados e
sustentados pela justiça meritória (Rm 11:3-5).
As declarações de Paulo acerca da morte da Lei e a necessidade de
também morrermos para ela são temas considerados “difíceis” e não são
nem nunca foram muito freqüentes (na verdade, raríssimos) nos púlpitos do
cristianismo católico ou evangélico.
Tocar nesses assuntos representa um alto risco para a estrutura do
cristianismo-religião, que tem o seu fundamento, suas juntas e engrenagens
muito bem lubrificadas pela justiça meritória da Lei Mosaica e, na
inaplicabilidade ou inconveniência temporal dela, têm-se ainda as regras e
leis meritórias da própria igreja.
A Reforma Protestante reascendeu a chama do Evangelho da Graça de
Cristo, muito enfraquecida – ou praticamente extinta - no legalismo extremo
e violento da única igreja cristã institucionalizada na época, a Igreja
Romana. Ao compreender a diferença entre justiça e justificação, justo e
justificado, Justiça da Lei e Justiça do Calvário (Justiça de Deus), Lutero
reavivou a pregação da Graça - injusta e imerecida, aos olhos da justiça da
Lei - mesmo dentro de instituições religiosas cujos líderes notadamente só
confiam na força da Lei e na sua justiça meritória.
Embora seja obviamente questionável o alegado maior
comprometimento com a pregação da Graça pelos protestantes (e seus
derivados), a Reforma ampliou a possibilidade de o encontro entre o pecador
e a Graça de Cristo dar-se na igreja-templo, já que, desde a indignação
luterana, a Bíblia tem sido um livro acessível, aberto e lido por muitos que se
reconhecem pecadores necessitados da misericórdia e do perdão divino, de
modo que a Água Viva tem escorrido mais facilmente por entre as rochas
eclesiásticas de grandes e pequenos impérios religiosos, reformados ou não
reformados.
Institucionalmente, porém, quase não houve mudanças. O modelo
seguido em praticamente todo o cristianismo (pré ou pós-Reforma)
continuou a ser a estrutura religiosa judaica - edificada sobre a Lei e que
veio a corromper-se pela lógica legalista de suas autoridades - alimentada e
mantida por falsas barganhas com Deus, regras comportamentais, intrigas
denominacionais e pela vaidade espiritual e insaciável sede de poder de
muitos de seus líderes.
Contra a essência de tudo isso nunca houve sincero e relevante
protesto nem grande interesse numa reforma realmente significativa por
67

parte dos herdeiros de Lutero. O que acabou prevalecendo foi apenas uma
mudança de lado e a troca dos nomes de alguns “suportes técnicos e
administrativos”, para serem utilizados em estruturas menores.
O Evangelho precisa ser lido de dentro para fora, e não de fora para
dentro, segundo as conveniências institucionais da igreja, pois é o
cristianismo-religião que precisa se amoldar à Graça de Cristo, e não o
contrário. Mas o institucionalismo e o corporativismo (mesmo contra a
vontade de Lutero, que também os combateu o quanto pôde) passaram
imunes pela Reforma e, até hoje, os seus defensores seguem
arrogantemente fazendo-se de desentendidos para qualquer advertência,
em ambos os lados.
A Reforma Protestante enfrentou o “sinédrio” católico, e quando tal
confronto ocorre, o rebelde não leva em consideração os interesses do
sinédrio, pois está lutando contra eles. Mas a institucionalização
protestante (com suas muitas ramificações) rapidamente criou, não um, mas
vários sinédrios, cujos interesses tornaram-se igualmente sagrados e
inquestionáveis. Fica a lição para a Igreja: quem é rebelde hoje pode ser
sinédrio amanhã...
Ora, a Igreja não é o lugar onde nos reunimos. Não há, na Bíblia,
expressões (tão corriqueiras entre nós) como “ir à igreja hoje ou amanhã”,
“entrar na igreja” ou “sair da igreja”. A igreja reúne-se para comunhão e
edificação mútua (sejam dois ou três ou uma multidão) em casas, praças,
hotéis, shopping centers ou, mais comumente, no lugar mais adequado,
legalmente institucionalizado como igreja, onde há mais possibilidades de,
organizadamente, (entre muitas outras coisas) se disponibilizar para os
discípulos as várias formas de alimento sólido para seu crescimento na
Palavra e viabilizar a necessária comunhão de todos os que caminham na
mesma fé.
Mas tratar a instituição igreja como Igreja de Cristo (fato que - para
fins de controle e poder - foi oficializado por Constantino, continuou no
cristianismo do Vaticano, atravessou a reforma protestante e adentrou o
cristianismo evangélico) cria vícios institucionais que fazem muito mal à
própria instituição, tornando-a um fator de dificuldade (ou até de
impedimento) para a propagação do Evangelho da Graça, pois, num claro
retorno à Lei, induzem a conclusões que são essencialmente contrárias ao
ensino neotestamentário, entre elas a idéia da habitação de Deus em
santuários e templos feitos por mãos humanas (a “casa de Deus” - At 17:24),
e não em nós mesmos, os verdadeiros santuários de Deus, onde realmente
habita o Seu Espírito (I Co 3:16).
68

Desse modo, a instituição é que passa a ser vista como alvo e


instrumento da ação de Deus no mundo, em vez das pessoas. O Reino de
Deus é arrancado de dentro dos nascidos do Espírito e transformado em
algo de aparência exterior, com muita visibilidade (Lc 17:20-21), que se pode
visitar, freqüentar ou dele tornar-se membro; caracterizado ainda pelo
isolamento do mundo (não do espírito mundano, mas das pessoas do mundo,
às quais fomos enviados) e geralmente qualificável pelos benefícios
materiais obtidos pelos fiéis após a conversão ao reino e mensurável pelo
crescimento estrutural e até pela freqüência das aparições de seus líderes
na mídia.
Na Igreja de Cristo, o maior é o que é servo de todos (Mt 23:11), bem
como o primeiro é o último (Mc 9:35). Mas, no reino da religião
institucionalizada, quem quiser ser o maior tem que suar muito para mostrar
que realmente pode ser o maior; tem que deixar claro o seu poder de fogo, a
sua capacidade combativa e a sua habilidade em agilizar forças e valer-se de
qualquer mecanismo para, se necessário, trucidar adversários e
concorrentes. Busca-se na força e na arrogância algo que se aperfeiçoa
justamente na fraqueza (II Co 12:9).
Tais habilidades - se acompanhadas de um eloqüente discurso
incisivamente moralista e inspirado na Lei Mosaica – são geralmente aceitas
e aprovadas pelos fiéis como legitimadoras da liderança.
O avanço do Reino de Deus deixa de ser o aperfeiçoamento de cada
nova criatura no reconhecimento e confiança no amor incondicional de Deus
(gerando o amor ao próximo e sendo sal e luz para o mundo em trevas) e
passa a ser o crescimento da denominação, trazendo orgulho e satisfação
para a ambição carnal de líderes que dariam um braço pelo controle de uma
sólida rede de instituições (o seu tão sonhado reino particular).
Por causa dessa distorção do ensino neotestamentário, muitas
conversões mais parecem simples adesões aos tais reinos, onde as
conquistas terrenas e individuais de cada criatura estão em muito maior
evidência do que o amor do Criador por todas as suas criaturas.
A rejeição (intuitivamente natural) ao fato de que o Pai, o Filho e o
Espírito possam literalmente habitar em pecadores desprezíveis como nós
(Jo 14:23; I Co 3:16) - ao ponto de que tudo em que tocamos estamos
expondo também ao toque de Cristo (I Co 6:15-16) - parece requerer uma
moradia mais digna para a Família Real.
Este era precisamente o entendimento dos fariseus que, olhando para o
futuro, rejeitaram o reino desinstitucionalizado que chegava. Pelo mesmo
motivo, o cristianismo judaizado, olhando para o passado (para a Lei
69

Mosaica), acompanhou o mesmo raciocínio moralista/legalista/meritório e,


igualmente rejeitando a absurda idéia do santuário humano corruptível (I Co
15:53), criou a “Igreja-Templo”, que, dependendo da denominação, pode
estar ou não representada por um Sumo-Pontífice oficialmente
incorruptível.
A instituição igreja é a estrutura física e organizacional inevitável e
necessária, à medida que a Igreja cresce. Sua impactante
representatividade a tornou uma das instituições mais influentes da história
da humanidade, seja na rotina de seus fiéis mais simples ou nas grandes
questões governamentais mundiais, o que faz dela uma arma poderosíssima.
E quando se trata de uma arma poderosa, as questões fundamentais são a
que causa ela serve e quem está com o dedo no gatilho. O cristão precisa
aprender a discernir se sua igreja serve à causa do Evangelho ou à simples
ambição de poder e manipulação religiosa e econômica de líderes
impostores, conscientes de seu erro ou não.
A Igreja está sujeita à direção do Espírito. Então, baseados no
Evangelho, só podemos afirmar como ela não pode ser (farisaica, meritória e
sujeita à Lei). Como ela deve ser e agir (forma e estilo) dependerá da
multiforme ação do Espírito (I Pe 4:10), que sopra onde quer (Jo 3:8); de
modo que o que se pode esperar da igreja é que, mesmo com suas muitas
imperfeições, ela ande em sintonia com o Evangelho, derramando
misericórdia e Graça a todos os pecadores (principalmente àqueles que não a
encontrariam em nenhum outro lugar), anunciando o perdão divino a toda
criatura mediante o arrependimento dos pecados, estimulando o
companheirismo na caminhada (Gálatas 6:2) e impactando o mundo com
atitudes de amor ao próximo, que transforma e aperfeiçoa a nova criatura
no amor de Deus (I Jo 2:5).
Uma visão do mundo a partir da cruz de Cristo não o verá dividido
entre católicos, protestantes e seus derivados ou quaisquer outros rótulos
religiosos (os quais têm a ver com teologia e religião, mas não com a Palavra
da Vida nem com o coração dos “rotulados”). A cruz separa autojustificados
e justificados em Cristo. Os primeiros confiam arrogantemente na sua
justiça própria, proveniente de sua suposta obediência a mandamentos
legalistas, religiosos e meritórios. Os outros, envergonhados pela
consciência de sua irremediável pecaminosidade, apelam para a misericórdia
divina e nela confiam (Lc 18:9-14). E a resposta ao amor gratuitamente
oferecido na cruz do Calvário se evidencia na atitude de cada um para com o
próximo: ou o desprezamos ou o servimos (Mt 25:31-46).
Nenhum rótulo religioso é capaz de fazer tal separação. Essa tarefa
cabe tão somente àquele que conhece o coração de todos (At 1:24; 15:8).
70

Por isso, para quem tem ouvidos, o grito do Evangelho se faz ouvir tão
claramente: “Não julgueis para que não sejais julgados” (Mt 7:1-2).
Para quem se sente autojustificado por sua suposta obediência, a
transformação pelo amor e pela misericórdia (como ensina o Evangelho) - e
não pela obediência à Lei - é uma historinha fantasiosa que só deve ser
contada para crianças. Mas, segundo o próprio Cristo, aquele que não crê
nessa historinha tal qual uma criança não entrará no Reino de Deus (Lc
18:17).
Nenhuma instituição igreja é totalmente livre do veneno legalista e
autojustificador, pois onde houver um ajuntamento da igreja, haverá sempre
batalhas entre o legalismo (autojustificação) natural do homem e a loucura
da justificação pela fé na justiça do Calvário (independentemente de obras
– Rm 4:6), pois nessa dualidade está a luta de todo renascido no Espírito do
Evangelho da Graça de Cristo (Gl 5:17).
Igreja relevante, contudo, é a que se engaja nessa luta e, com uma
auto-imagem bem ajustada à realidade, rejeita os delírios institucionais que
têm envenenado o cristianismo desde o fim do período apostólico, pois o
problema com a instituição igreja não está na instituição em si (que, via de
regra, é solução), mas na visão que os fiéis – e principalmente os líderes -
venham a ter dela e no rumo que lhe possam dar, os quais, se equivocados,
podem sombrear a visão da cruz de Cristo em função dos muitos atrativos
da institucionalidade (poder, domínio e riqueza).
As Santas Madres Igrejas ainda são cultuadas em todo o cristianismo,
mas a Palavra Viva – que tem vida própria - sempre esteve e permanece
atuante, com seu poder libertador do jugo da lei e da escravidão ao pecado,
dentro de instituições encasteladas e também fora delas...

“Tornei-me, porventura, vosso inimigo por vos dizer a verdade?”


(Gl 4:16)
71

IX - O RELACIONAMENTO COM OS LEGALISTAS

Povo que diz: “Fica onde estás, não te chegues a mim, porque
sou mais santo do que tu”. És no meu nariz como fumo de fogo,
que arde o dia todo (Is 65:5)

Por que Deus trata o farisaísmo (arrogância religiosa) de uma forma


diferente dos demais pecados? Por que Cristo não foi tolerante com os
fariseus do mesmo modo como foi com ladrões, prostitutas, adúlteros,
beberrões, publicanos, etc? Ora, porque, diferentes dos fariseus, esses
outros eram pecadores sinceramente confessos, que não se escondiam atrás
de uma reputação religiosa. Já os indivíduos de coração farisaico, por não se
reconhecerem pecadores, não crêem que Deus ama pecadores; não aceitam
que Deus seja tolerante e paciente com pecadores; escandalizam-se com o
fato de que Deus é benigno até para com os ingratos e maus (Lc 6:35) e não
toleram que pecadores confessos e sinceramente arrependidos sempre
recebam o perdão divino (I Jo 1:8-10) e graça em abundância (Rm 5:20). A
única exceção à paciência divina – claramente demonstrada nos evangelhos –
são justamente os fariseus, que, além de não se reconhecerem pecadores,
ainda se acham mais santos do que o resto da humanidade.
Mesmo sendo um grande absurdo (escândalo) para quem não
compreende a superabundância da sua Graça, Cristo não se escandalizou com
pecadores nem se afastou deles (porque ele mesmo já pagou pelos pecados
da humanidade inteira - 1 Jo 2:2). Todos somos pecadores e Deus ama e é
tolerante, paciente, misericordioso e tardio em irar-se com pecadores (Jn
4:1-2; 10-11). Mas Cristo se irritou profundamente com fariseus, na boca
dos quais, o eventual reconhecimento de que são pecadores é apenas uma
frase de efeito, um arroto de falsa humildade em busca de mais admiração
da platéia religiosa.
A soberba espiritual (arrogância baseada na justiça própria) é, por
natureza, contrária à Graça de Cristo. Por isso ela é excluída em corações
verdadeiramente renascidos no Espírito (Onde está, pois, a jactância? Foi,
de todo, excluída. Por que lei? Das obras? Não, pelo contrário, pela lei da fé
- Rm 3:27), razão pela qual aquele que entende que não é justificado pelos
seus próprios méritos, mas pelos méritos de Cristo, sofre um inevitável
choque de humildade e de gratidão a Deus pelo seu amor incondicional e
gratuito. E o humilde é alguém que nunca se sente humilhado. Não há quem
possa humilhá-lo; não há quem possa fazê-lo sentir-se menor do que ele
mesmo já se vê (I Tm 1:15). Ele jamais vai sentir-se merecedor de mais
72

honra, diante de Deus, do que qualquer outro pecador, pois sabe que, sem a
obra do Calvário, estaríamos todos, lado a lado, no mesmo barco a caminho
da condenação, e nossas diferenças no quesito “justiça própria” - ou “mérito
humano” – em nada ajudariam (mérito diante de Deus é a fé no mérito de
Cristo).
A fé, se em conformidade com o Evangelho da Graça de Cristo, sempre
amadurece na direção da humildade e do sentimento de igualdade com o
próximo. E este senso (reconhecimento) de igualdade dos homens diante de
Deus leva o renascido a buscar essa igualdade na realidade do seu dia-a-dia
(Mt 6:10). Então ele socorre ao enfermo, porque sabe que a vontade de
Deus é que o enfermo também tenha saúde; ele dá comida ao faminto,
porque sabe que Deus quer que o faminto também esteja alimentado; ele dá
guarida ao desabrigado, porque sabe que Deus quer que o desabrigado
também tenha um lar; ele aquece o que está com frio, porque sabe que Deus
quer que todos estejam aquecidos; ele veste aquele que está nu, porque sabe
que Deus não quer que ninguém esteja envergonhado; ele faz tudo o que
estiver ao seu alcance para suprir os necessitados, como se fossem suas as
necessidades deles (e cada um de nós pode fazer muito...). Ter com que
acudir ao necessitado é, segundo o apóstolo Paulo, uma das principais
finalidades do nosso trabalho (Ef 4:28).
Essas são atitudes reais que manifestam amor ao próximo. São obras
que revelam a nossa fé (Tg 2:18) em um Deus que ama a todos os pecadores
igualmente. São ações feitas na plena liberdade do Espírito, movidas
exclusivamente pelo amor a Deus e ao próximo, realizadas por alguém que
ouviu, entendeu e creu na Graça de Cristo e no seu amor incondicional.
No único momento em que se colocou claramente como juiz, o Senhor
Jesus Cristo revelou o critério que definirá quem são os benditos do Pai que
entrarão no seu reino (Mt 25:31-46). E o referencial do julgamento (já
realizado na cruz do Calvário – Jo 3:18) não foi uma lista interminável de
pecados “simples, graves e gravíssimos” nem um padrão moral pré-
estabelecido. O referencial foi o amor ao próximo. Crer no perdão em Cristo
é crer no amor de Deus por toda a humanidade, e a única forma possível de
evidenciarmos a nossa fé nesse amor, bem como de retribuí-lo a Cristo, é
manifestando-o através de atitudes de amor ao próximo. Por isso Cristo
disse que o amor seria o sinal identificador de seus discípulos (Jo 13:34).
Precisamos entender e crer que é no amor (e não na Lei) que somos
aperfeiçoados, pois “o amor não pratica o mal contra o próximo, de modo que
o cumprimento da Lei é o amor” (Rm 13:10), por isso “quem ama ao próximo
tem cumprido a Lei” (Rm 13:8).
73

No texto do julgamento (Mt 25:31-46), a mensagem do juiz é muito


clara: amar ao próximo é amar ao próprio Cristo, o Senhor do Reino.
Desprezar o próximo é igualmente desprezar o próprio Cristo. A Igreja
precisa dar a devida importância a essas palavras do Senhor Jesus...
O legalismo (busca da justiça que procede de lei) e o farisaísmo
(exaltação dessa justiça) estão na contramão do Evangelho, e acerca deles o
apóstolo Paulo cita dois tipos de pessoas que podem ser obstáculos à nossa
liberdade em Cristo. Ao primeiro grupo ele chamou de “falsos irmãos”, e a
estes jamais se submeteu, “nem ainda por uma hora”, para que a verdade do
Evangelho fosse preservada (Gl 2:4-5). Diferente do conceito eclesiástico
atual, o apóstolo chamou de rebeldia a tentativa de corromper a liberdade
que temos em Cristo Jesus e, revelando claramente seu grau de intolerância
para com os que tentam persuadir-nos a um retorno ou a uma convivência
com a Lei, ele usou palavras que, em tempos “politicamente corretos”, talvez
muitos achem que nem deveriam ser citadas aqui... Mas, se a Bíblia as citou,
eu também vou citá-las: “Oxalá até se mutilassem os que vos incitam à
rebeldia” (Gl 5:12).
Para o segundo tipo de pessoas, a nossa liberdade é que pode trazer
problemas. A estes, Paulo chama de “irmãos de consciência fraca”, e diz que
devem ser alvos de misericórdia da parte de quem, por acaso, se considera
“de consciência forte”. Nesse caso, a instrução é fazer concessões (não que
se chegue ao ponto de ter a liberdade julgada pela consciência alheia - I Co
10:29), abrindo mão espontaneamente de nossa plena liberdade por amor a
eles, com tolerância e compreensão, para que vivamos em paz, e o que é
estrada limpa para uns não seja pedra de tropeço para o irmão “mais fraco”
(I Co 8:1-13).
Com esses dois grupos de pessoas, tentar falar, ainda que
superficialmente, sobre a plena liberdade da Graça no Espírito, é como
tentar explicar-lhes, em grego, o funcionamento da válvula de combustível
de uma nave espacial interplanetária.
Há, entretanto, que se ter um mínimo de capacidade para discernir
entre a empáfia, o mau-humor, o ar hipócrita, a presunção trovejante, o
espírito julgador e autojustificado de um legalista (inimigo da liberdade do
Evangelho) e a simplicidade verdadeira e sincera de um irmão de consciência
fraca, que tem uma limitação pessoal, reconhecida pelo apóstolo. Esses
últimos se satisfazem com “doses mínimas” da Graça de Deus (suficientes
para salvá-los), de modo que, até um grande fariseu pode vir a se livrar
totalmente das algemas da Lei, mas talvez o irmão de consciência fraca
nunca cresça espiritualmente, no tocante à plena liberdade do Espírito.
74

Mas mesmo esses “irmãos de consciência fraca” raramente se sentem


incomodados com a liberdade do Espírito. Eles não têm ataques de falsa
moralidade nem julgam os outros. São os fariseus que sempre se
escandalizam com a liberdade do Evangelho (Mt 15:12). Escandalizavam-se
com a liberdade do próprio Cristo (a ponto de tramarem a sua morte), que,
para eles, “ofendia” a instituição religiosa na qual eles transformaram o
Templo de Deus, e ainda hoje se escandalizam com a liberdade dos
renascidos em Cristo, também porque a liberdade dos tais “pega mal” para a
instituição religiosa na qual eles também transformaram a Igreja de Cristo.
Para o bem da igreja, por amor a ela, e em favor de sua credibilidade
como agente na transformação do pecador em uma nova criatura,
precisamos urgentemente entender que o comportamento dos fariseus é que
era escândalo para Cristo, e que é necessário tratar o farisaísmo na igreja
(e a sua causa: a justiça própria do legalismo) com a mesma dureza e
determinação com que Cristo o tratou. Mas, como sempre usamos a sujeição
e a obediência à Lei Mosaica como referencial de espiritualidade, discernir
entre o fariseu e o irmão de consciência fraca nunca foi uma de nossas
melhores habilidades, e sempre fomos tolerantes com várias formas de
legalismo em nosso meio. Entretanto, não aprendemos tal atitude com
Cristo, que nunca teve muita paciência nem tolerância com legalistas, aos
quais ele nunca sequer falou claramente sobre a Graça, mas sempre usou o
próprio rigor da Lei para desmascarar-lhes a hipocrisia, fechar-lhes a boca
e desanimá-los.
Apesar da dureza das respostas de Jesus aos legalistas e da postura
mais do que inflexível de Paulo sobre a possibilidade da nossa convivência
com a Lei, (claramente revelada em duríssimas confrontações relatadas com
fartura em suas epístolas), curiosamente, não costuma acontecer nada
parecido nas igrejas. A não ser por coisinhas simples e óbvias (que a igreja
julga serem as únicas formas de legalismo), nunca, jamais, em tempo algum
presenciei ou sequer ouvi falar que em alguma igreja tenha havido grande
confrontação com legalistas por eles serem legalistas. Colocá-los claramente
como rebeldes que atentam contra a liberdade dos que estão em Cristo
Jesus, então, nem pensar... O tipo de gente acerca do qual Cristo mais
advertiu para que deles nos distanciássemos (Lc 12:1) são mais facilmente
encontrados exatamente dentro das igrejas. E elas costumam tê-los como
referenciais de sabedoria e espiritualidade, de modo que, na maioria das
confrontações, eles são os “espirituais” e os “livres” em Cristo é que são
afastados (convidados a se retirar) ou mesmo banidos do esquema religioso.
A hipocrisia e a arrogância espiritual parecem não arder no nariz da igreja
como ardem no nariz de Deus (Is 65:5).
75

Os fariseus de hoje (como os de ontem) têm uma profunda dependência


psicológica da instituição igreja (para muitos, a reencarnação do pomposo
Templo), pois, tal como era no regime da Lei, é lá, entre os religiosos, que
eles exercem a sua autoridade legisladora, alimentam-se de prestígio e são
honrados pelo conhecimento das Escrituras (Jo 5:44), embora pouco ou
nada saibam da Palavra da Cruz (Jo 3:10; I Co 1:18; Cl 1:5).
As Escrituras (registros escritos) são inspiradas por Deus e úteis para
o ensino, repreensão, correção e educação na justiça (II Tm 3:16), e estes
benefícios podem ser alcançados mediante esforçada dedicação à leitura
(como faziam os fariseus, mestres em Israel) até por um ateu inteligente e
dedicado, pois, para estas finalidades (que nada têm a ver com salvação),
não é necessário crer em nenhuma ação sobrenatural ou espiritual. Por isso
há tantos doutores em comportamento religioso (irrepreensíveis perante a
moral religiosa) que ignoram, não crêem e até ridicularizam a loucura e o
escândalo da Palavra da cruz (I Co 1:18) - que é de onde vem a salvação (Rm
1:16) - pois ela precisa ser discernida nas Escrituras, e tal processo nunca é
fruto do esforço humano, mas da intervenção do Espírito Santo (At 16:14)
em corações quebrantados que, sem tentar apresentar qualquer justiça
própria diante de Deus, rogam por sua misericórdia e aceitam a sua Graça
(Lc 18:9-14). É plenamente possível, portanto, aprender e tornar-se mestre
nas Escrituras sem jamais chegar ao conhecimento da verdade (II Tm 3:7).
Para estes que se julgam “sábios e entendidos” das Escrituras, a Palavra da
Cruz permanece oculta (Lc 10:21).
Líderes religiosos que são apenas mestres nas Escrituras e ignoram ou
desprezam a Palavra da Cruz, jamais terão qualquer relevância no serviço do
Reino, pois seu coração, sua motivação, sua sede e suas ambições estão em
atributos de Deus como a soberania, a autoridade, a honorabilidade e a
riqueza; amam o poder de Deus, e não o Deus do poder (“...fazem-se
culpados esses, cujo poder é o seu deus” - Hc 1:11); não sentem a menor
atração por características de Deus como a mansidão e a humildade (“Tomai
sobre vós o meu jugo [e não o da Lei], e aprendei de mim, porque sou manso
e humilde de coração, e achareis descanso para as vossas almas” - Mt 11:29).
Para os tais, Deus não passa de um vingador particular de plantão, pronto
para castigar os que ousam fazer-lhes a mínima oposição.

“Eu sei que, depois da minha partida, entre vós penetrarão lobos
vorazes, que não pouparão o rebanho” (At 20:29)
76

Ou a Igreja pós-apostólica não entendeu a opinião de Paulo sobre o


legalismo ou o inegável anti-farisaísmo do apóstolo não deve ser imitado.
Cristo foi a personificação da Graça e do perdão divino para os
pecadores confessos e arrependidos, aos quais sempre apontou o amor como
único caminho para a transformação em uma nova criatura, nascida do
Espírito. Sobre os fariseus (pecadores não-confessos), porém, Cristo
sempre desceu a mão pesada da Lei (pela qual eles tentavam se justificar).
Mas a igreja tem, ao longo dos tempos, agido de forma exatamente
contrária: com tolerância para com os fariseus e lei para os pecadores
confessos. Tal atitude a tem tornado um campo extremamente atraente e
acessível para falsos líderes, hipócritas, que são vendilhões de uma fé
barganhadora e legalista que nada tem a ver com o Evangelho de Cristo. A
ambição dos tais é o poder, pois têm a alma corrompida, são inimigos da cruz
de Cristo e têm como deus o próprio ventre (Fp 3:19). São cegos guiando
cegos (Mt 15:14).
Quem realmente ama a Igreja de Cristo deve zelar pela credibilidade
da instituição igreja (ainda mais aqueles que acham que Deus só age dentro
de suas paredes, e que ambas são a mesma coisa), fazendo-a perceber o
manto de farisaísmo com que ela mesma tem-se permitido cobrir, pois
combater o legalismo e o farisaísmo dentro da instituição igreja não é
desrespeitá-la nem “apontar o dedo” para ela; é, antes de tudo, amor e zelo
pela sua coerência e credibilidade diante da sociedade (que a julga muito
mais parecida com os fariseus do que com Cristo), pois, por mais estranho
que possa parecer, as duras respostas do Senhor Jesus aos fariseus ainda
eram amor; amor funcional (e não sentimental), que queima, mas conduz para
o bem, tratando o paciente segundo a sua necessidade.
É um grande equívoco, mas muito comum, achar que Cristo estava
tomando as dores de instituições religiosas (que, em muitos casos, pouco ou
nada têm a ver com a Igreja de Jesus) quando ele disse ao perseguidor da
igreja: “Saulo, Saulo, por que me persegues?” (At 9:4). Cristo identificou-se
foi com um povo sem rótulo, considerado uma desprezível seita de
andarilhos, pejorativamente chamados de cristãos, e que eram tidos pelos
religiosos israelitas como inimigos perigosos, causadores de divisão e
agitadores (At 24:5), odiados justamente pelo fato de que esses cristãos
não mais se submetiam à religiosidade farisaica e corrompida, e anunciavam
que Deus - através de Cristo e, o que é pior, sem a Lei (que é a força do
pecado e alimenta o farisaísmo) - agora tratava diretamente com o pecador,
sem intermediários humanos. Esse “destronamento” irrita muitos líderes
religiosos até hoje.
77

Essa “seita”, ainda hoje desprezível para os fariseus, é a poderosa


Igreja de Jesus (At 24:14), que pode ser encontrada dentro e fora das
paredes da instituição igreja (onde estão muitos dos que dizem “Senhor!
Senhor!”, e que ouvirão: “Nunca vos conheci!” – Mt 7:22-23). É dessa “seita”
(Igreja de Cristo) que ele toma as dores ainda hoje, pois já pagou por todos
os pecados dela (por isso, em Cristo, ela é pura e irrepreensível), de modo
que é uma atitude perigosa apontar o dedo para ela, pois quem mexe com ela
mexe com o Senhor Jesus, e quem alardeia maldosamente os seus pecados
traz escândalo igualmente sobre o nome do próprio Senhor da Igreja. É
sobre ela que não prevalecerão as portas do inferno nem a corrupção
espiritual nem a fé barganhadora nem o legalismo - que tira a glória de
Cristo - nem o farisaísmo, tão repudiado pelo Senhor Jesus, que virá buscar
a sua amada Igreja e não instituições religiosas.
Uma instituição igreja em sintonia com a Igreja de Jesus não se coloca
entre Deus e o pecador (tal qual o Templo, no regime da Lei), mas apenas
dispõe-se como lugar de comunhão e edificação para almas cansadas e
oprimidas. E, ainda diferente de instituições legalistas e farisaicas, ela não
toma para si a exclusividade da ação de Deus no mundo nem tenta
empacotar e monopolizar a Graça de Cristo (extra ecclesia nula sallus = fora
da “igreja” não há salvação).
Nos nascidos de Deus o maligno não toca (I Jo 5:18), mas o mesmo não
acontece com a entidade fria, meritória, legalista e farisaica na qual grande
parte da Igreja tem se transformado desde o final do período apostólico
(em todas as suas denominações). A tentativa de controle pela força da Lei
– rejeitando o aperfeiçoamento no amor (I Jo 2:5, 4:18) – abriu as portas da
Igreja para a invasão de lobos devoradores, disfarçados de ovelhas,
inimigos da cruz de Cristo, que falsificam e corrompem a liberdade do
Evangelho, reedificando o que o próprio Cristo destruiu para os que nele
crêem (Gl 2:17-19), a fim de, através da Lei, se gloriarem no domínio e na
manipulação da “santidade” (justiça própria) de fiéis incautos (Gl 6:13). Tais
lobos - que têm aparência de piedade, mas negam a eficácia dela (II Tm 3:5
ARC) - espertamente se aproveitam do fato de que o povo sempre preferiu
preceitos e regras ao descanso e refrigério oferecidos por Deus (Is 28:7-
13), e sempre sentiu-se melhor sob a tutela de um legislador humano (coisa
que a religião oferece) do que confiando na misericórdia divina (I Sm 8:4-7).
Esses lobos buscam construir para si mesmos um reino que precisa ser
muito bem visto para que possa ser crido. Mas o Reino de Deus não vem com
visível aparência nem está aqui ou ali, mas dentro daqueles que dele fazem
parte (Lc 17:20-21), e precisa ser crido para que possa ser visto (Jo 11:40;
II Co 5:7).
78

“Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina.


Pelo contrário, cercar-se-ão de mestres, segundo as suas
próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos, e se
recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas” (II
Tm 4:3)

A Igreja de Jesus usufrui toda a plenitude da Graça, mas a Graça pode


parecer abundante demais para instituições religiosas, pois uma reflexão um
pouco mais profunda e corajosa sobre as conseqüências práticas de se viver
na Graça – que é superabundante (Rm 5:20) e multiforme (I Pe 4:10) - leva a
conclusões que tais instituições não suportam e das quais não querem nem
ouvir falar (algumas delas, preventivamente, não foram aqui citadas).
Quanto mais nos aprofundamos na Graça de Cristo, mais nos vemos
diante de uma decisão inevitável: ou rompemos de vez com o legalismo (em
todas as suas formas, assumindo os riscos da Graça, mas livrando a igreja do
farisaísmo) ou retrocedemos e reforçamos as amarras legalistas, optando,
assim, pela falsa e ilusória sensação de “segurança” que elas proporcionam.
No início da década de 1980, ouvi Aníbal Pereira dos Reis dar um
testemunho de sua conversão ao Evangelho, ocorrida nos anos 70. Na
ocasião, ele relatou um fato do qual jamais esqueci, mesmo sendo ainda um
adolescente, naquela época. O ex-padre Aníbal contou que algum tempo
depois da sua conversão, ele teve uma audiência com o Papa, no Vaticano.
Diante do sumo-pontífice do catolicismo, ele abriu a carta de Paulo aos
Romanos e discorreu sobre a salvação unicamente pela Graça de Cristo.
Entre outras coisas, o sumo-pontífice ter-lhe-ia dito: “Você acha que eu não
sei disso? Você acha que eu não li isso já inúmeras vezes? Eu não consigo é
crer nisso! Não pode ser assim, não pode ser só isso!”. A intuição natural do
sumo-pontífice católico o havia convencido de que a instituição que ele
liderava não funcionaria a contento só com a Graça de Cristo. E eu, na
ingenuidade da pouca vivência dos jovens (à época), apontei o dedo para a
igreja católica, acreditando que tal falta de confiança na Graça de Cristo
era exclusividade do cristianismo institucionalizado do Vaticano.
Alguns anos depois, um amigo, também renascido na Graça de Cristo,
falou-me de uma ocasião em que ele havia conversado com alguém bem
“antigo” na religião evangélica e, da mesma forma, discorrido sobre a Graça.
Diante de suas afirmações de que morremos para a Lei e seu jugo, e que só
79

precisamos crer que Cristo pagou pelos nossos pecados e cuidará, ele
mesmo, de nos transformar em uma nova criatura, nascida no seu Espírito, o
comentário do evangélico, bastante sinalizador, foi: “Mas, assim, fica tudo
só nas mãos do Espírito Santo...”. Realmente, um grande problema para
instituições religiosas...
Minha primeira reação foi de decepção, tanto com o sumo-pontífice
católico quanto com o evangélico. Hoje lembro dos dois com uma certa
admiração, pois expressaram o que muitos pensam - em todas as
denominações cristãs - mas falta-lhes coragem para assumir, preferindo
fazer sutilmente uma adaptação Graça-Lei (e a ela submeter os fiéis), para
supostamente garantir o bom andamento, a “segurança” e a estabilidade de
suas instituições.
Se devemos fazer vista grossa para o legalismo na nossa casa, temos
que deixar de apontar o dedo para o legalismo da casa dos outros (que é o
mesmo, só que com outros nomes). Mas se o legalismo é algo que deve ser
“apontado”, desmascarado e combatido (para o bem da Igreja), devemos
começar na nossa própria casa (e temos bastante material...).
Quem realmente ama e almeja uma igreja sadia e poderosa deve, sim,
empenhar-se diariamente em livrá-la do vírus maligno da institucionalização
legalista e farisaica que a tem contaminado desde o início do período pós-
apostólico, e que - uma vez retirada a grande multidão de renascidos que
nela se congregam – chegará ao seu nível máximo de contaminação,
transformando-a na maior instituição religiosa, legalista, de todos os
tempos - A Grande Babilônia - a qual, enfim, estabelecerá uma nova LEI: a
Nova ORDEM Mundial.
A liberdade que Cristo nos deu custou-lhe o próprio sangue, a própria
vida, e homem nenhum pode arrancá-la de nós. Para a liberdade foi que
Cristo nos libertou, por isso não ultrajemos o seu sangue submetendo-nos a
novo jugo de escravidão (Gl 5:1), pois quem deve nascer de novo é o velho
homem, e não o velho jugo.
80

X - ACERCA DO MÉRITO HUMANO

No Evangelho da Graça de Cristo, a nossa justiça é sempre rejeitada


quando apresentada como meio de justificação diante de Deus. E isto
acontece para que haja total igualdade entre os homens, pois só o perdão
dos pecados não traria plena igualdade, já que a justiça própria de cada
indivíduo ainda nos faria desiguais, impossibilitando-nos de amar ao próximo,
pois não há quem exerça esse amor, no nível exigido pelo Evangelho (como a
si mesmo), se não enxergar no próximo alguém absolutamente igual diante
de Deus.
Ora, a tendência natural do homem é amar apenas os seus iguais, por
isso facilmente encontramos evidências do amor conjugal (e serão os dois
uma só carne...), do amor familiar (famílias iguais, mesma família), do amor
patriótico (nacionalidades iguais, mesmo país), amor religioso (religiões
iguais, mesmo credo) e até mesmo de algo fútil como a simpatia gratuita e
imediata que chamarei aqui de amor desportivo (times iguais, mesma
torcida). Por essas igualdades, muitas vezes matam-se os desiguais ou se
morre nas mãos deles.
Desse modo, ao ordenar que amemos o próximo como a nós mesmos,
Deus não está exigindo nada essencialmente fora do alcance humano. Só
precisamos entender que o Evangelho torna todos os seres humanos
absolutamente iguais diante de Deus, e que a nossa justiça própria
(procedente de lei – Fp 3:9 - e que apenas satisfaz a carnalidade do homem
- Cl 2:20-23 ARC) é o véu que nos impede de ver esta verdade central do
Evangelho.
Ora, sem a anulação da justiça própria do homem, tem-se a seguinte
situação:
- Ele ama gratuitamente sim, mas apenas aqueles que ele
entende serem seus iguais, ou seja, os que apresentam laços de
igualdade ou justiça própria semelhante à dele.
- Com relação aos que ele julga terem menos justiça própria
(desiguais, com justiça inferior à sua), ele até pode praticar atos
de benevolência e misericórdia para com os tais, mas é sem amor
verdadeiro (I Co 13:3), com a exclusiva finalidade de parecer
piedoso (ele geralmente faz isso em público e ainda alardeia o
fato) e acumular ainda mais justiça para si mesmo ao exibir
misericórdia para com quem – segundo o seu parâmetro de justiça
(ele mesmo) - não a merece.
81

- Na outra extremidade, estão os mais justos do que ele. A


estes ele “ama” por interesse, na esperança de receber a
simpatia deles, para que aonde quer que a justiça deles os leve,
eles o convidem para ir junto (algo parecido com esta forma de
relacionamento - que não é amor, mas bajulação - também se
manifesta no relacionamento com o próprio Deus. Muitas vezes,
uma criança que sente a aproximação do castigo pela
desobediência começa a elogiar compulsivamente a mãe - “a
mamãe é tão linda...” - na tentativa de que o ego inflado da
querida mãezinha a constranja, levando-a a esquecer a
traquinagem e a refrear a sua mão castigadora. Lembro-me
claramente de um amigo de infância revelando-me que esta era a
sua tática e aconselhando-me a fazer o mesmo. A idéia é que a
bajulação não só pode livrar do castigo como também favorecer a
obtenção de alguns mimos no futuro. E essa estratégia parece
ter realmente funcionado em ambientes familiares, pois ela está
muito presente no meio religioso, certamente na tentativa de que
também funcione no relacionamento com Deus. Muito do que se
chama “música de adoração”, por exemplo, soa mais como “música
de adulação” para abrandar a ira do juiz implacável sobre as
traquinagens do adulador e, quem sabe, ainda descolar uma
bênção (quem bajula não confia no bajulado). Qualquer
semelhança com o que acontecia no relacionamento com antigos
deuses pagãos é pura sobrevivência do paganismo através dos
séculos, e não coincidência...).

A justiça própria do homem foi anulada para que, perdoados os pecados


de toda a humanidade (I Jo 2:2; II Co 5:19), houvesse verdadeira igualdade,
possibilitando assim o amor que nos leva a valorizar o próximo (quem quer
que seja ele) na mesma medida em que devemos valorizar a nós mesmos.
A nossa justiça, se envolvida no nosso relacionamento pessoal com Deus
(que não existe sem envolver o relacionamento com o próximo – Mt 25:31-
46), acaba sempre resultando em algo duramente reprovado por Deus, pois
só podemos achegar-nos a ele quebrantados, humildes, sem alegar justiça
própria, mas plenamente confiantes na Justiça de Cristo em nosso favor.
Mas seria, então, a nossa justiça sempre reprovável e inútil? Não
devemos buscar sempre o que é justo e procurar andar em retidão de
caráter diante de Deus e dos homens?
Ora, precisamos entender que o que a Bíblia declara inútil e prejudicial
é a justiça que provém das boas obras (todo o bem que se faz e todo o mal
82

que se deixa de fazer) praticadas com a intenção de ser justificado diante


de Deus e, tendo o que barganhar com ele, requerer o direito à salvação e ao
favor divino (mérito “vertical”). O fruto de tal postura é sempre o desprezo
pelo próximo, que é tratado como um concorrente a uma mesma vaga no céu,
e nunca o amor por ele (Lc 18:9-14).
E essa busca por justiça própria necessita, obviamente, de um
referencial; um parâmetro que possa orientar o candidato à vaga no céu,
informando-o em que nível ele se encontra. As epístolas neotestamentárias
(principalmente as do apóstolo Paulo) deixam muito claro que a Lei é esse
parâmetro da justiça própria humana. Por isso Paulo insiste veementemente
em que a Lei morreu para quem é justificado por Cristo (Rm 7:2-4), e que
ela não serve mais nem como referencial de conduta, pois quem está em
Cristo não está sob a Lei e é guiado pelo Espírito (Gl 5:18).

“Agora, porém, libertados da Lei, estamos mortos para


aquilo a que estávamos sujeitos, de modo que servimos em
novidade de espírito, e não na caducidade da letra” (Rm 7:6)

Morremos para a Lei a fim de vivermos para Deus (Gl 2:19) e ela não é
mais o motivo para não fazermos o que desagrada a ele, pois não estamos
buscando justiça própria. A nossa convicção de que somos
incondicionalmente amados por Deus é o que nos leva a amar ao próximo
como a nós mesmos, tratando-o como gostaríamos de ser tratados (Mt
7:12). Ora, ”quem ama ao próximo tem cumprido a Lei”, pois “o amor não
pratica o mal contra o próximo, de sorte que o cumprimento da Lei é o amor”
(Rm 13:8-10).
Quanto à sua salvação, aquele que crê na justiça do Calvário considera a
sua justiça própria como perda, por causa de Cristo, a fim de ”ser achado
nele, não tendo justiça própria, que procede de lei, senão a que é mediante a
fé em Cristo, a justiça que procede de Deus, baseada na fé” (Fp 3:7-9).
Aqueles que ainda têm a mente cauterizada pelo velho hábito de buscar
justiça própria diante de Deus e só vêem sentido na obediência por força de
mandamentos, saibam que os ensinos de Paulo – inclusive quando ele exige o
rompimento com a Lei - são mandamentos do Senhor (I Co 14:37), os quais,
diferentemente dos mandamentos da Lei, não trazem condenação (Rm 8:1)
nem tampouco justificam a ninguém diante de Deus, mas apontam o caminho
do que já é expectativa da obra do amor de Deus na vida de cada um de nós.
83

Quem trilha esse caminho (rejeitando a sua justiça própria e amando


ao próximo como a si mesmo) está andando em conformidade com a vontade
de Deus (ou não?), de modo que é o amor, e não a Lei, o referencial de
conduta e eventual exortação de todo que é nascido do Espírito.
Como seria o mundo hoje se a Igreja tivesse, desde sempre, optado
pela simplicidade poderosa do Evangelho? Se tivesse crido na eficácia do
poder da misericórdia (II Tm 3:5 ARC), e não na força da Lei? Não estaria o
Reino de Deus bem mais próximo de ser assim na Terra como no céu (Mt
6:10)?
Quem se enxerga diante de Deus sem o véu da justiça própria (como
exige o Evangelho) não se apresenta para julgar o próximo e, vendo-o igual a
si mesmo, oferece a misericórdia que leva ao arrependimento (Rm 2:4).
Para fins de justificação diante de Deus, toda a nossa justiça é como
trapo de imundícia (Is 64:6). A Justiça do Calvário anula totalmente esse
mérito em todos nós, pois, além de inútil para a salvação (que exige justiça
perfeita), ele ainda desnivelaria a humanidade, gerando o que mais irritou ao
próprio Cristo: orgulho legalista, arrogância e hipocrisia. Por isso Deus “a
todos encerrou na desobediência, a fim de usar de misericórdia para com
todos“ (Rm 11:32), a qual foi manifestada ao mundo quando, em Cristo, o
próprio Deus cumpriu a exigência de justiça perfeita, pagou a dívida que era
nossa e, a fim de anular a justiça própria dos homens como meio de
justificação, aboliu a Lei dos mandamentos (Ef 2:14-15), para que todo o que
nele crê seja justificado por fé, e não por justiça procedente de lei.
Somente Cristo viveu uma vida de justiça perfeita e santificou-se em
favor dos que nele crêem (Jo 17:19), de modo que é à justiça dele que o
ímpio precisa recorrer para sua justificação (Rm 4:4-5).
Ora, o Senhor nos guia pelas veredas da justiça, por amor do seu nome
(Sl 23:3), e o seu mandamento é que, primeiramente, acautelemo-nos do
farisaísmo e da hipocrisia (Lc 12:1 - ARC) e também que, apartando-nos da
injustiça (II Tm 2:19), despojemo-nos do velho homem e revistamo-nos do
novo homem, criado segundo Deus, em justiça e retidão procedentes da
verdade. Por isso deixemos a mentira, a ira, o roubo, as palavras torpes, a
amargura (Ef 4:25-32) e não usemos a nossa plena liberdade por cobertura
da malícia (I Pe 2:16 - ARC).
A justiça na qual devemos andar não gera motivos para que julguemos e
menosprezemos o próximo, pois não procede de lei e está sempre
relacionada à paz, à edificação mútua (Rm 14:19; 15:2) e - óbvia e
essencialmente - à fé na Justiça do Calvário (Gl 3:11). Honrar, em gratidão e
amor, ao Senhor que nos amou primeiro (I Jo 4:19) e não entristecer o Seu
84

Espírito (Ef 4:30) são nossa motivação para andarmos em justiça, sempre
fazendo o que é bom, justo e edificante. Absolutamente seguros, porém, de
que, se falharmos, ”mesmo que o nosso homem exterior se corrompa” (II Co
4:16), temos um ótimo advogado junto ao Pai (I Jo 2:1).
A anulação da nossa justiça para a salvação não altera o fato de que
devemos andar em justiça, respeitando e nos submetendo às leis que regem
a sociedade em que vivemos (Rm 13:1-5), assim como também não anula o
mérito humano nos relacionamentos horizontais.
O mandamento do Senhor é que sejamos diligentes e sempre façamos
tudo “de todo o coração, como para o Senhor, e não para homens” (Cl 3:23),
tendo domínio próprio, não sendo displicentes com os nossos talentos e
procurando ter bom testemunho diante dos homens em tudo, sendo ainda
abundantes em boas obras, para as quais fomos criados, tendo Deus, de
antemão, preparado-as para que andássemos nelas (Ef 2:10), pois são
”excelentes e proveitosas aos homens” (Tt 3:8).
Quem faz tudo com zelo e seriedade, apresentando bons resultados em
tudo a que se propõe, tem mérito, não para a salvação, mas diante dos
homens (Rm 4:2), e é sempre justa a sua recompensa, pois o princípio da
justiça é o mérito, e assim funciona tudo na vida. A nova criatura em Cristo,
porém, sabe lidar de modo espiritualmente sadio com esse reconhecimento.
Mas, quanto ao mérito humano, percebe-se uma inversão de valores na
religiosidade cristã. Muitos cristãos buscam apresentar justiça própria
diante de Deus enquanto desprezam e até acham maléfico o mérito diante
dos homens, recusando-se até a aceitar qualquer reconhecimento pela sua
dedicação e bom uso de suas habilidades.
Ora, os talentos que Deus lhe deu são seus, e ele os concedeu para que
você os utilize com zelo e diligência e, evidentemente, usufrua as justas
recompensas de seu esforço. Na próxima vez em que o seu mérito for, de
alguma forma, publicamente reconhecido, lembre-se de que foi Deus quem o
capacitou e receba o reconhecimento com tranqüilidade, mas jamais
menospreze quem não se sai tão bem quanto você. É assim que se honra o
Deus dos dons e talentos.
É inútil fazermos algo bem feito e tentarmos ficar no anonimato, com
medo do reconhecimento (mesmo na igreja). A palavra do Senhor é “... a
quem honra, honra” (Rm 13:7), por isso não deixemos de reconhecer, elogiar
e aplaudir quem não desperdiça seus talentos.
Seremos avaliados pelas nossas obras (não para salvação ou
condenação) no tribunal de galardões. O zelo com o fazer tudo bem feito é
mandamento do Senhor, pois é assim que deve agir um nascido do Espírito
85

de Deus. Uma postura de desleixo e negligência com nossos talentos e


responsabilidades de discípulo e servo, bem como com o nosso compromisso
de amor ao próximo, além de privar-nos do gozo de muitas bênçãos trazidas
pelo viver como uma nova criatura, mesmo não tendo a condenação como uma
possível conseqüência, inspira sérios e prudentes cuidados (I Co 3:14-15).
Não se organiza nem se administra nada sem levar em conta o mérito
das pessoas. A avaliação do mérito (por talento natural, dom, esforço
próprio ou mesmo por afinidade) está em todo lugar, em todas as
instituições, nas empresas, nas escolas e inclusive nos nossos
relacionamentos, em casa e na igreja (administrativamente). Não há quem
privilegie ou escolha alguém para uma determinada tarefa ou função, sem
levar em conta os seus méritos (a forma como usa suas habilidades). Isso,
logicamente, nada tem a ver com salvação e, mesmo sendo motivo de justa
honra para aquele que “fez por merecer”, ele não deve ter uma postura
farisaica e julgar-se superior aos outros. Antes, deve encorajá-los e
incentivá-los a agir da mesma forma.
Devemos, como sempre, buscar o discernimento correto também nessa
questão. O melhor caminho é, assim como em tudo, andar de acordo com o
ensino do Senhor, ou seja, fazer tudo por causa dele e para ele, sem
ensoberbecermo-nos em nós mesmos. Caso contrário, ou nos tornaremos
carnalmente ambiciosos e sábios aos próprios olhos, buscando sempre
receber o louvor dos homens, ou desenvolveremos uma rejeição ao mérito
humano, vendo nele algo sempre negativo e mundano, passando a ter pouco
ou nenhum interesse pelo que não seja “mérito religioso”, criando diante da
sociedade uma imagem, não de simplicidade e humildade, mas de
simploriedade, e seremos vistos (com razão), quando muito, como pessoas
“virtuosas (?)”, mas alienadas, irrelevantes e inúteis na resolução de
problemas que muitos julgam não serem de natureza espiritual.
O apóstolo Pedro nos estimula e ensina como trilhar esse caminho sem
nos corrompermos espiritualmente:

Por isso mesmo, vós, reunindo toda a vossa diligência,


associai com a vossa fé a virtude; com a virtude o conhecimento;
com o conhecimento o domínio próprio; com o domínio próprio a
perseverança; com a perseverança a piedade; com a piedade a
fraternidade; com a fraternidade o amor, porque essas coisas,
existindo em vós, e em vós aumentando, fazem com que não sejais
nem inativos, nem infrutíferos no pleno conhecimento de nosso
Senhor Jesus Cristo (I Pe 1:5-8)
86

Pedro nos adverte quanto à possibilidade de, mesmo salvos, nos


tornarmos servos irrelevantes, e nos encoraja a buscar uma fé viva, atuante
e eficiente.
Não devemos fazer nada buscando a glória dos homens, mas também
não precisamos ter medo do reconhecimento e da justa recompensa pelo que
fazemos. As pessoas de coração soberbo é que anunciam aos quatro cantos
as suas próprias virtudes, em busca de elogios e privilégios entre os homens,
e a recompensa dos tais geralmente não passa disso (Mt 6:2). Mas quem faz
tudo por amor a Deus e ao próximo, faz com discrição, e o Pai, que vê o que
está em secreto, é quem lhe dá a recompensa (Mt 6:3-4). Façamos tudo
como para o Senhor, e ele nos ensinará a lidar de uma forma espiritualmente
sadia com os nossos méritos. Na Lei, o mérito (vertical e apenas hipotético)
será sempre ilusório e insuficiente para a justificação do pecador. Na
Graça, esse mesmo mérito (horizontal, real e recompensado) não tem nada a
ver com justificação nem com salvação, e é saudável, desejável e deve ser
buscado sem medo, se for sempre filtrado no Senhor Jesus (I Co 1:31).
Ora, somos salvos pela Graça, mediante a fé (Ef 2:8), mesmo que não
tenhamos nenhuma boa obra para apresentar. Este é o escândalo e a loucura
da Graça, e é assim que o Evangelho deve ser pregado: o homem sem
nenhuma justiça própria é salvo por sua fé naquele que justifica o ímpio. A
justiça do homem, se existe, não conta para a salvação (por não ser
perfeita), de modo que o que tem alguma justiça torna-se igual ao que não
tem nenhuma (por isso pode amá-lo como a si mesmo) e ambos dependem da
fé na Justiça do Calvário.
Mas o fato de ser justificado gratuitamente pela Graça (Rm 3:23-24)
não significa que se deva ter uma vida cristã estagnada. Graça não é
estagnação. O esforço diligente e a disciplina pessoal são indispensáveis
para o pleno desenvolvimento da nossa salvação gratuita (Fp 2:12). Ou
alguém terá intimidade profunda com Deus sem que se disponha a orar,
mesmo quando não tiver muita disposição para tal? Quem vencerá as muitas
batalhas desta vida sem perseverança? Quem se aprofundará no
conhecimento da verdade sem o disciplinado hábito da leitura bíblica e
também da boa literatura espiritual? Quem será aperfeiçoado no amor de
Deus sem que se levante e caminhe em direção ao próximo, no intento de
servi-lo como o próprio Senhor Jesus serviu? Quem crescerá em
discernimento espiritual sem o constante hábito da meditação na Graça e no
amor de Deus? Quem terá uma vida cristã relevante e útil, edificando e
sendo edificado, sem manter alguma forma de comunhão regular com os
irmãos?
87

A figura utilizada pelo apóstolo Paulo no tocante à nossa cooperação


com o Evangelho é a de um esforçado atleta, que em tudo se domina (I Co
9:24-27). Ora, quem se considera parte do Reino deve se interessar
diligentemente pelas coisas do Reino.
Para concluir, cabe ainda advertir sobre o fato de que quem “se
acostuma” com o mérito horizontal geralmente esquece que a justiça
meritória da Lei não é mais um empecilho para a misericórdia divina (pois
Cristo já a satisfez plenamente) e não entende nem aceita quando Deus
favorece aquele que, sem mérito nenhum (sem justiça própria alguma),
apenas crê e confia inabalavelmente no mérito daquele que pode justificar -
e seguramente justifica - o ímpio (Rm 4:4-5).
88

XI - A INUTILIDADE DA LEI

“Portanto, por um lado, se revoga a anterior ordenança, por


causa de sua fraqueza e inutilidade (pois a Lei nunca aperfeiçoou
coisa alguma) e, por outro lado, se introduz esperança superior,
pela qual nos chegamos a Deus” (Hb 7:18-19)

Pode a Lei evitar a idolatria? Quando Paulo chegou a Atenas,


“revoltava-se nele o seu espírito, vendo a cidade cheia de ídolos” (At 17:16),
mas ele não foi mostrar àquele povo idólatra o que a Lei diz sobre a idolatria
de esculturas (Êx 20:4-6). O apóstolo simplesmente apresentou-lhes o Deus
Verdadeiro, supostamente honrado pelos atenienses como “Deus
Desconhecido”, e falou-lhes a respeito do Cristo ressuscitado. Paulo era
agora ministro de uma nova aliança, não da letra, mas do Espírito; porque a
letra mata, mas o Espírito vivifica (II Co 3:6), e sabia que a Lei não tem
força contra o pecado, mas é a própria força do pecado (I Co 15:56), e não
evitou a idolatria (nem qualquer outro pecado) nem em Israel, uma
sociedade absolutamente teocrática, que vivia sob o medo das duras
penalidades da Lei Mosaica.
Pode a Lei refrear a promiscuidade? Ela diz: “Nenhum homem tomará
sua madrasta, e não profanará o leito de seu pai” (Dt 22:30). Mas qual foi a
reação de Paulo ao tratar desse exato pecado na igreja em Corinto? “Há
entre vós imoralidade, e imoralidade tal como nem mesmo entre os gentios.
Isto é, haver quem se atreva a possuir a mulher de seu próprio pai” (I Co
5:1). Por mais inaceitável que seja para o cristianismo judaizado, o motivo da
indignação de Paulo foi porque o tal pecado era algo incomum até entre os
incrédulos, e não porque estivesse na Lei Mosaica.
Ainda na igreja em Corinto, ao repreender duramente alguns irmãos
que saíram com prostitutas, Paulo não os ameaçou com punições previstas na
Lei Mosaica nem sequer a mencionou como um referencial da vontade de
Deus. Mas lembrou-lhes de que nossos corpos são membros de Cristo e que
expor os nossos membros à prostituição é literalmente expor os membros
do próprio Cristo (I Co 6:15-16).
Nova Aliança, novo referencial... “Cristo é tudo e em todos” (Cl 3:11).
Teria o ex-fariseu (irrepreensível perante a justiça que há na Lei - Fp
3:6) se esquecido dela? Foi um pequeno lapso de memória? Ou a Lei,
anteriormente guardada com zelo supremo, agora estava morta e enterrada
para a nova criatura na qual tornou-se o ex-fariseu?
89

Ora, todo o que é nascido no Espírito de Deus deve aprender a


discernir o que convém (I Co 6:12, 10:23), independentemente do que diga a
Lei, pois...

“... tudo que a Lei diz, aos que vivem na Lei o diz” (Rm 3:19)

Para o ex-fariseu Paulo, as coisas velhas já haviam passado, tudo se


havia feito novo (II Co 5:17), e ele agora servia em novidade de espírito, e
não na caducidade da letra (Rm 7:6). Para ele, até os debates sobre coisas
da Lei eram absolutamente sem utilidade e fúteis (Tt 3:9), pois é o Espírito
– e não a Lei - que convence o mundo do pecado, da justiça e do juízo (Jo
16:7-8). O próprio Jesus, assim como Paulo, só usou a Lei contra aqueles que
nela confiavam para apresentarem-se como justos. Com os demais
pecadores, ele sempre enfatizou o arrependimento e confiou no poder
regenerador que há no seu amor incondicional e no seu perdão gratuito e
definitivo (veja-se, por exemplo, o caso da mulher adúltera, que, pela lei,
deveria ser punida com apedrejamento - Jo 8:3-11).
Quem enxerga a si mesmo conforme nos revela o Evangelho, sequer
entra em inúteis debates sobre coisas da Lei. O desejo ardente que nasce
em seu coração é o de entregar-se livremente à direção do Espírito, para
caminhar discernindo a Palavra e manifestando na vida do próximo toda a
sua gratidão pelo amor incondicional que recebeu de Deus.
O propósito deste livro, por exemplo, não é discutir sobre detalhes da
Lei Mosaica, mas tão somente mostrar a incompatibilidade entre Graça e
Lei; o que, aliás, é o tema central de todas as cartas do apóstolo dos
gentios, fato que permanece incompreendido por grande parte dos cristãos.
Paulo simplesmente anunciou a morte da Lei, sem tentar dissecá-la nem
fazer uma autópsia.
As palavras de Jesus aos fariseus (Lei, para legalistas) são sempre bem
aceitas e muito repetidas nas igrejas, mas as palavras dele aos demais
pecadores (Graça, para pecadores confessos) não geram o mesmo interesse
e sempre incomodam mentes e corações ainda sob domínio da Lei, mesmo
que se digam convertidos ao Evangelho da Graça.
A Lei foi abolida para os que estão em Cristo porque ela é o parâmetro
de justiça própria que separa os homens (Ef 2:14-15), e o discípulo de
Cristo, a fim de negar a si mesmo e tomar para si a justiça do Calvário (Lc
90

9:23-24), tem a sua própria justiça como perda, a fim de ser achado não
tendo justiça própria, que procede de lei, senão a que é mediante a fé em
Cristo, a justiça que procede de Deus, baseada na fé (Fp 3:7-9).
A Lei morreu porque Cristo já cancelou, removeu inteiramente e
encravou na cruz o escrito da dívida que tínhamos para com Deus, referente
à nossa justiça própria, o qual constava de ordenanças, era contra nós e nos
era prejudicial, e assim despojou principados e potestades, publicamente os
expôs ao desprezo e triunfou deles na cruz (Cl 2:13-15). Agora precisamos
ser aperfeiçoados no amor (I Jo 2:5-6), e a Lei, que é fraca e inútil, não
serve para este fim, pois nunca aperfeiçoou coisa alguma (Hb 7:18-19).
A Lei é inútil porque as coisas velhas já passaram e tudo se fez novo
(II Co 5:17) e, quando se muda tudo, inclusive o sacerdócio, há também
necessariamente mudança de lei (Hb 7:11-12; I Co 9:21).
A Lei é inútil porque é desnecessária como referencial de conduta para
aquele que é nova criatura em Cristo, pois ele é guiado pelo Espírito (Gl 5:18)
e sabe discernir o que convém (I Co 6:12).
A Lei morreu para que o pecado não mais tenha domínio sobre os que
estão debaixo da Graça (Rm 6:14). Portanto, estar debaixo da Graça e
continuar alimentando alguma forma de justiça própria diante de Deus para
obtenção de direitos pela obediência à Lei e seus derivados sujeita a nova
criatura a permanecer sob o domínio do pecado.
Nós, nascidos do Espírito (Jo 3:8), morremos relativamente à Lei para
pertencermos àquele que ressuscitou dentre os mortos e, deste modo
(mortos para a Lei), frutifiquemos para Deus (Rm 7:2-4).
Talvez precisemos de algumas pregações onde apenas se anuncie,
repetidamente, por horas seguidas: “É pelo Espírito, e não pela Lei! É pelo
Espírito, e não pela Lei! É pelo Espírito, e não pela Lei...”.
91

XII - LEI E GRAÇA: ABSOLUTAMENTE EXCLUDENTES ENTRE SI

“Se é pela Graça, já não é pelas obras; do contrário, a Graça


já não é Graça” (Rm 11:6)
“Dizei-me vós, os que quereis estar sob a Lei: acaso não ouvis
a Lei?” (Gl 4:21)

Lei e Graça não caminham juntas. Sabemos que, ou se está cativo da Lei
ou na liberdade da Graça. Não se pode estar na Graça de Cristo e ainda
depender do desempenho em obras da Lei para obter e manter a salvação.
Quanto à nossa condição espiritual (salvação), a transição da Lei para a
Graça se dá imediatamente, no momento da conversão, ao confessarmos a fé
na obra do Calvário e no senhorio de Jesus Cristo em nossas vidas, mas
precisamos conscientizar-nos de que há uma luta constante para nos
livrarmos do domínio da Lei (Rm 7:1), caso contrário ela poderá atrapalhar, e
muito, o nosso relacionamento com Deus e com o próximo, emperrando e
estagnando a nossa vida espiritual.
Muitos dos que se confessam convertidos à Graça de Cristo ainda
trazem consigo o ranço legalista e, vivendo apenas uma religiosidade
autocultuadora e absolutamente inútil ao reino de Deus, afirmam viver na
plenitude da Graça e, achando que as muitas algemas que ainda trazem
consigo são aceitáveis e úteis na caminhada com Cristo, ainda as usam como
argumentação contra a liberdade que há no Espírito, pois algumas dessas
algemas têm um nome bonito, bíblico, inspirador, que sugere espiritualidade
e compromisso com Deus. Mas algemas são algemas, e onde está o Espírito
do Senhor, aí há liberdade (II Co 3:17). O novo nascimento implica um novo
crescimento, e só se pode crescer na Graça mortificando a Lei, de modo que
crianças e adultos na fé discutem e questionam coisas diferentes.
A Lei precisa ser mortificada a cada dia em nossas vidas, pois livrar-se
do seu domínio (trocar a justiça meritória da Lei pela justiça do Calvário) é
um processo gradual, que caminha em ritmo diferente em cada um de nós
(espera-se, entretanto, que todos progridam – Hb 5:12). Às vezes imagino
como seria interessante ouvir de cada renascido na Graça de Cristo um
testemunho sobre o que significou a morte da Lei na sua vida. Que mudanças
cada um já observou em si mesmo, no processo de abandono da Lei rumo à
liberdade da Graça no Espírito... O que ouviríamos?
Uns são mais livres, outros nem tanto. Os mais livres são aqueles que
corajosamente reconhecem que ainda têm áreas de sua vida sob domínio da
Lei (justiça meritória), mas estão em constante processo de libertação dela,
92

no qual precisam querer se libertar. Os mais presos à Lei (legalistas) são


exatamente aqueles que sequer reconhecem que ainda precisam se libertar
dela, pois, afogando-se em justiça própria, julgam-se o supra-sumo da
espiritualidade, bem acima da maioria dos irmãos.
O processo de mortificação da Lei caminha paralelamente ao
crescimento no Espírito, numa proporcionalidade inversa. Quanto mais se
tira das costas o peso da Lei, mais se aprende a andar no Espírito. Quanto
mais peso da Lei se põe nas costas, mais difícil será aprender a andar no
Espírito. Quanto mais mortificamos a Lei no nosso espírito, mais somos
vivificados no Espírito de Deus.
93

XIII - A VERDADE QUE LIBERTA

“E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (Jo 8:32)


“Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres” (Jo 8:36)

O primeiro efeito da verdade do Evangelho em nossas vidas – antes de


qualquer outra coisa – é que ela nos liberta. Somos absolutamente livres,
pois para a liberdade foi que Cristo nos libertou. Sim, ele nos chamou para
sermos livres (Gl 5:1), até onde possa imaginar o nosso último neurônio.
E a verdade do Evangelho nos liberta de quê?
Primeiramente nos liberta da Lei (Rm 7:6), que criminalizava nossos
pecados (Rm 3:19, 4:15; I Co 6:12), mantendo-nos sob maldição (Gl 3:10) e na
iminência da condenação eterna, pois “o salário do pecado é a morte” (Rm
6:23; 8:1). Assim, ficamos livres do medo (I Jo 4:18).
Libertando-nos da Lei, a verdade do Evangelho nos liberta também da
neurótica e ilusória busca por justiça própria (legitimada pela Lei) com o
propósito de garantirmos uma vaga no céu e barganharmos favores com
Deus.
Libertando-nos da Lei e da busca por justiça própria, a verdade do
Evangelho nos liberta da mente autojustificada, que domina o homem
natural enquanto ele vive (Rm 7:1).
Libertando-nos da Lei, da busca por justiça própria e da mente
autojustificada, a verdade do Evangelho nos liberta ainda do domínio do
pecado (Rm 6:14).
E a verdade do Evangelho nos liberta para quê?
Cristo nos liberta para que sejamos livres nele. É em Cristo que somos
totalmente livres, pois é em seu Espírito que há liberdade (II Co 3:17). E, se
estamos livres no Espírito do Senhor, somos habitados por aquele que nos
libertou (I Co 3:16), com ele aprendemos a discernir o que convém e edifica
(I Co 10:23) e experimentamos a boa, agradável e perfeita vontade de Deus
(Rm 12:2).
Quem não está em Cristo está debaixo da Lei e sob maldição (Gl 3:3).
Fora da Graça de Cristo, não há ninguém livre. Quem permanece nele tem
vida em abundância (Jo 10:10), e “aquele que diz que permanece nele, esse
deve também andar assim como ele andou” (I Jo 2:6).
Mas, sem que morramos para a Lei (autojustificação), nada disso
acontecerá (Rm 7:4). Não seremos guiados pelo Espírito (Gl 5:18) e não
94

frutificaremos para Deus, pois não aprenderemos a discernir a vida com a


mente de Cristo (I Co 2:16), que em nós se manifesta em uma nova
consciência, livre, transformada e capaz de compreender a vontade do
Senhor (Ef 5:17).
95

XIV - SEMPRE ATUANTES, MESMO DIANTE DAS DIFICULDADES

O fato de que “a força do pecado é a Lei” (I Co 15:56) não é


compreendido com facilidade, nem mesmo pelos convertidos. E isso acontece
porque, primeiramente, se associa a anulação da Lei a uma vida desregrada,
inconseqüente e sem parâmetros morais. Mas o fato é que a Lei é o
parâmetro e o alvo do esforço humano para atingir um padrão de justiça
própria que seja agradável a Deus e suficiente para justificar e manter a
salvação. Contudo, para Deus, o único padrão que justifica para a salvação é
a perfeição, e só Cristo o atingiu sem transgredir a Lei.
Como nenhum outro homem conseguiu nem conseguirá tal feito, a nossa
justiça própria é inútil para a justificação, pois, em nós, a Lei apenas
desperta o interesse pelo pecado (Rm 7:7), que traz condenação. A única
saída, então, para obtermos a perfeição necessária para justificação diante
de Deus é aceitar a perfeição de Cristo, que nos é oferecida gratuitamente,
mediante a fé no fato de que estamos totalmente justificados pelo mérito
dele, e não pelos nossos esforços nesse sentido (Rm 3:23-24). Ao crermos
nisso, acabou a nossa inútil participação no processo de justificação para
salvação. Aliás, acabou o tal processo, nesse sentido. Ele agora é voltado
apenas para a nossa adequação a essa nova realidade. E nessa nova fase,
Cristo ainda nos diz: “Saia da direção, meu filho. Você é fraquinho demais.
Daqui pra frente é comigo, pois, sem mim, você não sai nem do lugar” (Jo
15:5). Precisamos aprender a entregar o comando da direção a Cristo.
Mas quem quiser anunciar a plena gratuidade da salvação e viver a
liberdade da Graça de Cristo certamente será acusado de defender ou
mesmo de incentivar o pecado, bem como de não ter uma “presença forte”,
farisaica, imponente, rígida e supostamente respeitável, como requerem os
altos e falsos padrões da religiosidade legalista, egocêntrica, vazia e
ineficaz.
Ora, se até o apóstolo Paulo sofreu tais acusações (Rm 3:8; II Co 10:2,
10:10), não podemos esperar algo diferente conosco. E se ao próprio Senhor
Jesus chamaram de Belzebu (amigo de pecadores, salvador de ladrões,
adúlteras e prostitutas), o que não dirão de um reles pecador que
igualmente prega o fim da Lei (Mt 10:25; 12:24)? Em todo o Novo
Testamento, vemos que a oposição ao rompimento do Evangelho com a Lei
continuou depois do nascimento da igreja, dentro dela. Só que, hoje em dia,
na falta de coragem para acusar abertamente o apóstolo Paulo, acusam-se
igrejas, pastores, líderes e qualquer renascido na Graça de Cristo que,
afastando-se do cristianismo judaizado, busque servir ao Evangelho do
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Reino com liberdade, em novidade de espírito, e não na caducidade da letra,


em conformidade com o ensino do apóstolo dos gentios (Rm 7:6).
Mas o Senhor Jesus avisou que essa rejeição seria tremenda (Jo
15:20-21), e isto significa que devemos incansavelmente anunciar o perdão
de Deus e o poder transformador do seu amor (sem a Lei), mas não devemos
desfalecer quando não formos bem compreendidos nem aceitos, pois isso
deve-se ao fato de que a anulação da nossa justiça própria, também contida
na mensagem do Evangelho, deixa completamente despida diante de Deus
tanto a alma dos que se dizem “do bem” (justos) quanto a dos que são
apontados como sendo “do mal” (injustos), e isto implica igualdade e
compromisso de amar e perdoar assim como Cristo amou e perdoou,
tratando o próximo do mesmo modo que gostaríamos de ser tratados (Lc
6:31), sem julgamentos sentenciadores e condenatórios (Mt 7:1-2; Lc 37-38;
Rm 14:4), e sem ares de superioridade.
Isto não é nada atraente nem aceitável para o homem natural
(principalmente para o religioso cheio de justiça própria), que geralmente
opta por se esconder atrás da justiça da Lei, preferindo pagar o preço de
abrigar-se com o seu próprio algoz a ceder a um amor que o leve a humilhar-
se e a ver-se em igualdade de condições com todos os outros pecadores.
Dificuldades e desestímulos virão e, conforme o Senhor Jesus nos
avisou, não será sempre da parte de estranhos, mas, muitas vezes, das
pessoas mais próximas, de dentro da nossa própria casa (Mt 10:36; 13:57).
O segredo, contudo, é não olhar para o mar (Mt 14:28-33), conscientes de
que a nossa obrigação é anunciar a mensagem do Evangelho em sua
completude (I Co 9:16), mas o efeito dela no coração do ouvinte é assunto
primeiramente entre ele e Deus. Nem sempre o impacto da mensagem
acontecerá na forma e no tempo que esperamos (talvez um outro colha o que
plantamos). Não sabemos quantos crerão em Cristo, mas a nossa obrigação é
anunciar (e viver) o amor incondicional e o perdão gratuito de Deus. No mais,
somos meros coadjuvantes.
A mensagem do Evangelho é poderosa, mas muito simples, e qualquer
um pode e deve anunciá-la contando a sua própria experiência com
simplicidade (“Cristo pode fazer com você, pois ele já fez comigo, que sou
igual a você”), sem complicá-la a fim de “ter mais assunto” e parecer mais
sábio, pois a caminhada com Cristo não é uma corrida em busca do muito
conhecimento teológico (somos as suas testemunhas e não os seus
advogados – At 1:8). Aliás, como disse o apóstolo Paulo, na pregação do
Evangelho, repetir as mesmas coisas (como nesse texto) é segurança para
quem ouve ou lê (Fp 3:1).
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Mesmo para as tarefas mais difíceis, Deus muitas vezes escolhe


pessoas humanamente menos qualificadas, pois ele é Soberano, Eterno e
Todo-Poderoso, mas gosta de simplicidade, e escolheu as coisas loucas do
mundo para confundir os sábios, e as coisas fracas do mundo para
envergonhar as fortes (I Co 1:27).
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XV - O MUNDO

“Porque Deus amou o mundo...” (Jo 3:16)


“Não ameis o mundo...” (I Jo 2:15)
“Seja o mundo, seja a vida, seja a morte... tudo é vosso” (I Co 3:22)

A Bíblia refere-se ao mundo de duas formas bem distintas, de modo


que são dois os mundos. O primeiro são as pessoas do mundo, e o segundo, o
espírito do mundo - ou espírito mundano – com os seus valores e a sua
concupiscência. Do primeiro, diz que Deus o amou de tal maneira que deu o
seu filho unigênito para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha
a vida eterna (Jo 3:16). Do segundo, entre outras coisas, diz que não
devemos amá-lo, pois o Pai não está em quem ama esse mundo (I Jo 2:15-16).
Intercedendo por nós junto ao Pai, Cristo não pediu que ele nos tirasse do
primeiro, mas que nos protegesse do segundo, pois, assim como o próprio
Cristo, nós já somos de um outro mundo (Jo 17:15-16). Cristo nos enviou ao
primeiro (Jo 17:18) para nele anunciarmos o Evangelho a toda criatura (Mc
16:15), mas alertou-nos para os perigos do segundo (Mt 10:16). O primeiro é
o nosso campo de ação, e deve ser conquistado para Cristo, por isso
devemos amá-lo, assim como o próprio Deus o amou (Jo 3:16); o segundo jaz
irremediavelmente no maligno (I Jo 5:19), e devemos rejeitá-lo sempre. No
segundo, perdemos a nossa vida por causa do Evangelho, para achá-la em
Cristo, (Mt 10:39), a fim de testemunharmos como se vive plenamente no
primeiro (que é nosso – I Co 3:21-23), estando completamente mortos para o
segundo. De modo que o medo do segundo não pode nem deve ser um
obstáculo para que conquistemos o primeiro, pois precisamos invadi-lo
através do contato real com toda criatura (Mt 5:47). Ademais, limitar o
nosso campo de ação à instituição igreja não vai evitar o contato com o
segundo, já que ele costuma freqüentá-la.
O Evangelho de Cristo foi-nos confiado, não para que o guardemos em
um lugar seguro, mas para que o vivamos e o anunciemos a toda criatura,
apresentando-nos como testemunhas (exemplos) do seu poder
transformador.
Se colhemos pouco no mundo é porque também pouco saímos para
plantar. E, como tudo na nova vida em Cristo, essa é também uma questão de
discernimento, e não de Lei...
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CONSIDERAÇÕES FINAIS

“A tua Graça é melhor do que a vida” (Sl 63:3)

Para andar conforme a Lei ninguém precisa de fé (Rm 4:14; Gl 3:12).


Para seguir algo sistematizado, com regras coletivas claras e bem definidas,
com padrões de comportamento bem determinados e detalhados, e ainda
sob ameaça de punição para qualquer passo em falso, ninguém precisa de fé
no perdão de pecados (ora, que pecados?). Isso é apenas religião e lei; o que
tem a ver com perdão e regeneração? O andar no Espírito inclui as nossas
quedas. Quedas reais, e não hipotéticas ou fictícias. E a certeza que
devemos ter é que o Senhor nos levantará. Ainda que moremos nas trevas,
ele será a nossa luz e para a luz nos tirará, e veremos a sua justiça (Mq 7:8-
9). Permanece sob o domínio legalista, com olhos carnais, todo aquele que vê
em um renascido na Graça de Deus um transgressor da Lei, e não um santo
de Deus - puro como Cristo é puro (I Jo 3:3) – mas ainda em processo de
restauração e libertação do pecado ao qual já foi, outrora, escravizado.
A maioria dos cristãos afirma que a salvação é pela Graça, e não pelas
obras da Lei. Contudo, se não estivermos atentos, a nossa mente continuará
sob forte domínio dela (legalismo), cuja exigência de perfeição traz
inevitável condenação e morte eterna (Rm 6:23). Não fomos encarregados
de vigiar e alarmar a crescente pecaminosidade do mundo (que é óbvia).
Fomos, sim, encarregados de anunciar e viver como testemunhas do perdão
e da derrota do domínio dessa pecaminosidade em nossas vidas, pois não
estamos comprometidos com um projeto de condenação da humanidade, e,
sim, com o projeto divino de perdão, salvação e restauração de todos os
pecadores, que acontece ao longo de uma caminhada, num processo liderado
e direcionado exclusivamente pelo Espírito Santo de Deus.
Não precisamos, portanto, da ajuda do que já está morto e enterrado
(a Lei) para sermos transformados pela renovação da nossa mente, pois onde
está a Lei, aí está a força do pecado (I Co 15:56) e a escravidão a ele, mas
onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade (II Co 3:17), sem a qual é
impossível que desenvolvamos a nossa percepção espiritual e, alicerçados em
amor, aprendamos a enxergar pelo Espírito, vindo a compreender qual seja a
largura e o comprimento e a altura e a profundidade do amor de Cristo, que
excede todo entendimento (Ef 3:15-19), para que não sejamos insensatos,
mas, em tudo, procuremos compreender qual a vontade do Senhor (Ef 5:17).
Todo aquele que crê na palavra da verdade do Evangelho é
transportado nos braços de Cristo, da assustadora escuridão do medo (da
100

Lei) para a maravilhosa luz do seu amor (I Jo 4:18), e agora – consciente


disso ou não – vive na gloriosa liberdade dos filhos de Deus (Rm 8:21),
“desde o dia em que ouvistes e entendestes a Graça de Deus na verdade” (Cl
1:5-6).
O principal sintoma de que estamos vivendo na Graça de Cristo, e não
sob a Lei, é a sensação de leveza em um espírito livre. Um renascido na
Graça de Cristo é alguém essencialmente “leve”, pois já não carrega mais nos
ombros o peso dos seus pecados e nem a culpa por eles. E essa sensação de
leveza é absolutamente inabalável, de modo que, certamente passaremos por
duras provações, por grandes e sofridas perdas, desilusões e angústias,
mas, inexplicavelmente, “nem morte nem vida, nem anjos nem principados,
nem coisas do presente nem do porvir, nem poderes, nem altura nem
profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de
Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8:38-39).
Um renascido na Graça de Deus cuja alma e espírito não transbordam
leveza e liberdade é algo, no mínimo, estranho e ainda inadequado ao
Evangelho do Senhor Jesus Cristo.
Os mandamentos da Lei são um fardo pesado demais, que ninguém pode
suportar (At 15:10); são condenação e morte eterna (II Co 3:7-9), e foram
dados para que todo mundo seja culpável perante Deus (Rm 3:19). Mas a
Graça, o perdão e os mandamentos do Senhor Jesus (Gl 6:2) são Boas Novas
(At 13:41), jugo suave e fardo leve (Mt 11:28-30), não trazem condenação
(Rm 8:1-2), são vida em abundância (Jo 10:10) e foram dados gratuitamente
para que... Bem, escute do próprio Senhor Jesus:

“TENHO VOS DITO ESTAS COISAS PARA QUE O MEU GOZO


ESTEJA EM VÓS, E O VOSSO GOZO SEJA COMPLETO” (Jo 15:11).

A ele toda a honra e toda a glória, para todo o sempre. Amém!

Fernando Carlos M. Rodrigues


Fortaleza-CE, out/2008
nandocmr@yahoo.com.br

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