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REFORMED THEOLOGICAL SEMINARY


CENTRO PRESBITERIANO DE PÓS-GRADUAÇÃO ANDREW JUMPER
DOUTORADO EM MINISTÉRIO

MISAEL BATISTA DO NASCIMENTO

MÉTODOS GERENCIAIS NA IGREJA: VERIFICAÇÃO DA


BIBLICIDADE E PERTINÊNCIA DA ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA
NO ÂMBITO DA IGREJA PRESBITERIANA DO BRASIL

SÃO PAULO
2008

MISAEL BATISTA DO NASCIMENTO

MÉTODOS GERENCIAIS NA IGREJA: VERIFICAÇÃO DA


BIBLICIDADE E PERTINÊNCIA DA ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA
NO ÂMBITO DA IGREJA PRESBITERIANA DO BRASIL

Projeto Final apresentado ao Reformed


Theological Seminary (RTS) e ao Centro
Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew
Jumper (CPAJ) como parte dos requisitos para
a obtenção do Grau de Doutor em Ministério.

Orientador: Dr. Augustus Nicodemus Lopes.

SÃO PAULO
2008

N244m Nascimento, Misael Batista do


Métodos gerenciais na igreja: verificação da biblicidade e
pertinência da administração estratégica no âmbito da Igreja
Presbiteriana do Brasil / Misael Batista do Nascimento - 2008
200 f., 30 cm
Tese (Doutorado em Ministério) — Centro Presbiteriano de Pós-
Graduação Andrew Jumper, São Paulo, 2008.
Bibliografia: f. 186-200

1. Administração eclesiástica 2. Teologia prática 3. Igreja


Presbiteriana do Brasil 4. Administração estratégica I. Título
LC BV652.A3
CDD289.9

MISAEL BATISTA DO NASCIMENTO

MÉTODOS GERENCIAIS NA IGREJA: VERIFICAÇÃO DA


BIBLICIDADE E PERTINÊNCIA DA ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA
NO ÂMBITO DA IGREJA PRESBITERIANA DO BRASIL

Projeto Final apresentado ao Reformed


Theological Seminary (RTS) e ao Centro
Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew
Jumper (CPAJ) como parte dos requisitos para
a obtenção do Grau de Doutor em Ministério.

Aprovado em 19/05/2008.

BANCA EXAMINADORA

_________________________________________________________
Prof. Rev. Elias dos Santos Medeiros
Mestre em Teologia, Doutor em Ministério
Doutor em Missiologia – Reformed Theological Seminary (RTS)

_________________________________________________________
Prof. Rev. Augustus Nicodemus Lopes – Orientador
Mestre em Novo Testamento
Doutor em Hermenêutica e Estudos Bíblicos (CPAJ)

São Paulo
2008

Dedicado a meus pais, João Batista, construtor


de barcos e belas frases, e Roberta, que me
ensinou a jamais desistir; a Mirian, amor
insubstituível e a Ana Carolina e Bruna
Camila, filhas mui preciosas.

O saber ensoberbece, mas o amor edifica


(Apóstolo Paulo, 1 Coríntios 8.1b)

Essa pesquisa só pôde ser finalizada graças ao apoio de muitas pessoas. A elas eu agradeço.

Ao Deus Triúno, fonte de vida, amor, redenção e significado.

A minha esposa, Mirian, e às minhas filhas, Ana Carolina e Bruna Camila. Depois de Deus,
vocês são a minha maior fonte de motivação.

Aos meus irmãos Iran, Estelina, Lourdes e Josefa, e ao meu sobrinho André. No seio dessa
família abençoada, tornei-me o que sou.

Ao Rev. Dr. Augustus Nicodemus Lopes, por seu apoio e sábia orientação. Principalmente,
por seu exemplo de estudioso aplicado e cristão comprometido com Deus, com as Escrituras e
com a edificação da igreja.

Ao Rev. Dr. Valdeci Santos Silva, pelo incentivo, exemplo de moderação e auxílio em todo o
curso.

Ao Rev. Dr. Elias dos Santos Medeiros, pelas sugestões sábias e pertinentes.

A toda a equipe administrativa do CPAJ, especialmente ao pessoal da Biblioteca.

Ao casal Francisco Solano Portela Neto e Elizabeth Zekveld Portela, irmãos cuja amizade
produz aperfeiçoamento.

Aos irmãos e amigos da Igreja Presbiteriana Central do Gama. Eu não chegaria aqui sem suas
orações, palavras incentivadoras e preciosa colaboração.

RESUMO

No campo da administração eclesiástica questiona-se qual é o padrão bíblico para o


crescimento da igreja e até que ponto métodos de planejamento são importantes para a sua
gestão. Isso é feito enquanto a igreja é pressionada a mostrar-se relevante e a apresentar
resultados.
Este estudo é encaminhado a fim de responder à seguinte pergunta principal: É bíblico
e pertinente o uso, no pastoreio da igreja, da administração estratégica? Tal questão principal
enseja cinco questões subsidiárias: (1) A Bíblia sugere o vínculo entre pastoreio e
administração? (2) Se a resposta à questão anterior for positiva, a Bíblia apóia o uso, na
administração da igreja, de métodos oriundos da cultura circundante? (3) Tal uso é aprovado
— ou pelo menos sugerido — pela Confissão de Fé de Westminster (CFW)? (4) O modelo de
administração da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) abre espaço para o uso destes métodos?
(5) A cosmovisão e a proposta metodológica da administração estratégica condizem com a
Bíblia, com a CFW e com a prática da IPB?
Os objetivos deste estudo são: (1) Investigar se é bíblico o uso, no pastoreio da igreja,
da administração estratégica; (2) se a resposta à questão anterior for positiva, propor um
conjunto de princípios e práticas bíblicas de administração, aplicável às igrejas locais e
concílios da IPB.
A pesquisa busca responder a questões de ordem tanto intelectual quanto prática
considerando, a priori, que a ciência objetiva tanto o conhecimento em si mesmo quanto as
contribuições práticas decorrentes desse conhecimento.

PALAVRAS-CHAVES

Cristianismo; Escrituras; Teologia Prática; Teologia Pastoral; Eclesiologia —


Desenvolvimento da igreja; Administração Eclesiástica; Teoria Geral da Administração;
Administração Estratégica; Gerenciamento; Liderança.

ABSTRACT

The article deals with the choice of a biblical standard for Church growth in the field
of Church management and to what point planning strategies are important to its
administration. This is done as the Church is under pressure to show itself relevant and to
offer results.
The study is developed so as to answer the following main question: Is it biblical and
pertinent to use strategic management in pastoring the Church? This main question leads to
five secondary issues: (1) Does the Bible suggest a connection between pastoring and
management? (2) If the answer to the previous question is affirmative, does the Bible support
the use, in church management, of the methods derived from the surrounding culture? (3) Is
this use approved — or at least suggested — by the Westminster Confession of Faith (WCF)?
(4) Does the management model of the Presbyterian Church of Brazil (IPB) leave room for
the use of these methods? (5) Do the worldview and the proposed strategic management
method fit in with the Bible, with the WCF and with IPB practice?
The objectives of this study are: (1) To investigate if the use of strategic management
is biblical for use in the pastoring of the Church. (2) If the reply to the previous question
should be affirmative, to propose a set of biblical management principles and practices,
applicable to the local churches and councils of the IPB.
The research seeks to answer questions on both the academic and the practical level,
considering, a priori, that science aims both at the knowledge of oneself and at practical
contributions resulting from this knowledge.

KEYWORDS

Christianity; Holy Scriptures; Practical Theology; Pastoral Theology; Ecclesiology —


Church Developer; Church Administration; General Theory of Management; Strategic
Management; Management; Leadership.

SUMÁRIO

1 O PROBLEMA .............................................................................................................15
Formulação da Situação-Problema, 15
A Secularização e os Movimentos de Oscilação Numérica da Igreja, 15
Pluralismo Global, Diversidade de Opções Religiosas e
Timidez Missionária, 17
Diversidade de Modelos Eclesiásticos, 18
Perguntas da Pesquisa, 22
Objetivos do Estudo, 24
Justificativa, 24
Hipótese, 27
Moldura Conceitual Assumida, 27
Delimitação, 28
Organização do Restante do Estudo, 29
II. O QUE A LITERATURA SACRA NOS DIZ SOBRE A RELAÇÃO ENTRE O
PASTOREIO E A ADMINISTRAÇÃO.......................................................................30
2.1 Conceitos Importantes do Segundo Capítulo, 30
2.2 O Ataque de Wagner ao Uso Eclesiástico da Administração, 32
2.3 O Pastoreio Como Cuidado, Liderança e Organização do Rebanho, 36
2.3.1 O Que o Cuidado do Rebanho nos Ensina Sobre
o Pastoreio e a Administração, 36
2.3.1.1 Deus Cuida de Seu Povo, 37
2.3.1.2 Deus Destaca Pessoas Para Cuidar de Seu Povo, 38
2.3.2 O Que a Liderança do Rebanho nos Ensina Sobre
o Pastoreio e a Administração, 39
2.3.2.1 Deus Lidera Seu Povo, 40
2.3.2.2 Deus Destaca Pessoas Para Liderar Seu Povo, 42
2.3.3 O Que a Organização do Rebanho nos Ensina Sobre
o Pastoreio e a Administração, 45
2.3.3.1 Deus Organiza Seu Povo, 45
2.3.3.2 O Povo de Deus Deve Organizar-se, 46
2.4 Primeira Síntese: Pastoreio e Administração São Interdependentes, 47
III. A ADMINISTRAÇÃO ESTABELECIDA NA CRIAÇÃO COMO
NÚCLEO DE SIGNIFICADO DA ESFERA MODAL ECONÔMICA ......................48
3.1 Conceitos Importantes do Terceiro Capítulo, 49

3.2 O Relato Cosmogônico, Deus, o Criador-Administrador e a


Administração Como Parte da Criação, 51
3.2.1 No Relato Cosmogônico Deus Pode Ser Visto
Como Criador-Administrador, 52
3.2.2 No Relato Cosmogônico Torna-se Plausível a Idéia da
Administração Como Parte da Criação Divina, 55
3.3 A Administração Subentendida na Antropogonia e nos
Mandatos Criacionais, 58
3.3.1 A Administração Subentendida na Criação do Homem
à Imagem e Conforme a Semelhança de Deus, 58
3.3.2 A Administração Subentendida no
Estabelecimento do Pacto da Criação, 59
3.4 A Administração no Relato da Queda e na Graça Comum, 62
3.5 O Paradigma Cosmonômico e Três Ferramentas de
Análise e Interpretação de Cosmovisões, 68
3.6 Segunda Síntese: O Homem é Administrador do Cosmos
Que Pertence a Deus, 69
IV. O USO DA ADMINISTRAÇÃO EM OUTROS LUGARES DA
ESCRITURA E NA CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER ...............................71
4.1 José, Administrador do Egito, 71
4.2 Adam Smith, Moisés e a Trindade Econômica:
Digressões Pertinentes Sobre a Divisão do Trabalho, 73
4.3 Jesus, a Luz da Natureza e a Prudência, 78
4.4 Estatística, Organização, Institucionalização e Estratégia em Atos, 82
4.4.1 O Cuidado de Lucas em Registrar Números, 83
4.4.2 Em Atos 6 os Apóstolos Administram Criando
Uma Estrutura Eclesiástica, 83
4.4.3 A Possibilidade de Uso de Planos e Métodos
Nas Viagens de Paulo, 87
4.5 Terceira Síntese: A Igreja Cumpre as Ordenanças Divinas Como
Instituição Administrada Por Homens e Arraigada na Cultura, 93
4.6 A Confissão de Fé de Westminster e o Uso Eclesiástico de Métodos
Administrativos, 94
4.6.1 Quanto à Administração Eclesiástica
a Escritura é Suficiente Mas Não Exaustiva, 94
4.6.2 Algumas Circunstâncias Exigem o Uso de Recursos
Advindos da Cultura, 95
4.6.3 Quarta Síntese: A CFW Propõe Um Princípio Regulador
Para o Governo da Igreja Que, Por Sua Vez,
Admite o Uso da Administração, 95

V. O MODELO DE ADMINISTRAÇÃO DA IGREJA


PRESBITERIANA DO BRASIL..................................................................................97
5.1 A Divisão do Trabalho Como Ponto de Contato Entre a Teoria
Clássica da Administração e o Modelo de Administração da IPB, 98
5.1.1 Características da Teoria Clássica da Administração, 99
5.1.2 Críticas à Teoria Clássica da Administração, 100
5.1.3 A Teoria Clássica da Administração Influencia a IPB Com
Sua Articulação da Divisão do Trabalho, 101
5.2 Refinamentos da Divisão do Trabalho e Referência ao Planejamento
São os Pontos de Contato Entre a Teoria Neoclássica da
Administração e o Modelo de Administração da IPB, 102
5.2.1 O Pragmatismo da Teoria Neoclássica da Administração, 103
5.2.2 O Refinamento da Divisão do Trabalho na
Teoria Neoclássica da Administração, 103
5.2.3 As Novas Elaborações Referentes ao Planejamento
na Teoria Neoclássica da Administração, 104
5.2.4 Críticas à Teoria Neoclássica da Administração, 105
5.2.5 A Teoria Neoclássica da Administração Influencia a IPB Com
Refinamentos da Divisão do Trabalho e Referência ao
Planejamento, 105
5.3 A Estrutura Racional-Legal e a Cultura Centrada na Inclusão
e Ordem em Detrimento da Produtividade São os Pontos de Contato
Entre o Modelo Burocrático de Administração e o
Modelo de Administração da IPB, 107
5.3.1 O Desenvolvimento do Conceito de Burocracia, 108
5.3.2 O Modelo Burocrático de Administração Brota do Solo
do Capitalismo Social, 108
5.3.3 No Modelo Burocrático a Autoridade é Racional-Legal, 110
5.3.4 No Modelo Burocrático Inclusão e Ordem
Sobrepujam a Produtividade, 112
5.3.5 A Divisão do Trabalho no Modelo Burocrático de Administração, 114
5.3.6 Críticas ao Modelo Burocrático de Administração, 114
5.3.7 A Influência do Modelo Burocrático Sobre a IPB, 117
5.4 Quinta Síntese: O Modelo de Administração da IPB é Uma
Amálgama de Princípios Bíblicos e de Princípios e Práticas
Administrativas Oriundas da Cultura Circundante, 118
VI. CONCEITO, CONTEXTO, PROPOSTA, COSMOVISÃO
NATURALISTA E POSSIBILIDADE DE COSMOVISÃO
CRISTÃ DA ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA.................................................119
6.1 O Que é Administração Estratégica, 119

6.2 A Administração Estratégica e o Planejamento Estratégico, 120


6.3 A Administração Estratégica e o Novo Capitalismo, 122
6.4 As Diversas Escolas de Formação de Estratégia, 126
6.5 A Cosmovisão Híbrida da Administração Como Um Todo
e da Administração Estratégica Em Particular, 131
6.5.1 Os Pressupostos Evolucionistas da Administração Estratégica, 131
6.5.2 O Hibridismo Paradigmático da Administração Estratégica, 133
6.5.3 Avaliação e Proposta de Reestruturação Cristã da
Cosmovisão da Administração Estratégica, 134
6.6 Contribuições da Administração Estratégica, 136
6.6.1 A Administração Estratégica Focaliza a Execução e
Reconhece o Organizacional, 136
6.6.2 A Administração Estratégica Auxilia as Organizações
a Fazer Ajustes Pertinentes, 137
6.6.3 A Administração Estratégica Responsabiliza a Liderança, 138
6.6.4 A Administração Estratégica Usa Tecnologias
e Métodos Para Otimizar Processos, 139
6.7 Sexta Síntese: O Uso da Administração Estratégica Pela Igreja é
Recomendado, Mas Exige Adaptações Daquela à Cosmovisão Cristã, 140
VII. METODOLOGIA E APRESENTAÇÃO DOS RESULTADOS ...............................141
7.1 Classificação da Pesquisa, 141
7.2 Coleta de Dados, 142
7.3 Pressupostos Metodológicos, 144
7.4 Limitações do Método, 146
7.5 Resultados da Pesquisa, 147
VIII. CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES ..................................................................150
8.1 O Novo Capitalismo e a Nova Civilização, 150
8.2 Duas Ameaças à IPB: Pragmatismo e Alienação, 151
8.3 Aberturas Para a Evangelização, Estabelecimento,
Consolidação e Revitalização da Igreja, 154
8.3.1 No Contexto do Novo Capitalismo Deus Abre Portas
Para a Evangelização, 154
8.3.2 No Contexto do Novo Capitalismo Deus Abre Portas
Para o Estabelecimento, Consolidação e Revitalização de Igrejas, 156
8.4 Esclarecimento Sobre a Missão e Definições de “Visões” da IPB, 157
8.5 A IPB Desejável, 160
8.5.1 A IPB Com Líderes Mais e Melhor Habilitados, 161
8.5.2 A IPB Centrada no Discipulado, 164
8.5.3 A IPB Saudável do Ponto de Vista Organizacional, 165
8.5.4 A IPB Que Pratica a Unidade Bíblica, 167
8.6 Três Usos da Administração Estratégica na IPB, 168

8.6.1 Ajuste da Cultura Organizacional Para a Execução, 169


8.6.2 Formulação e Execução de Estratégias, 175
8.6.3 Otimização dos Processos Administrativos, 179
8.7 Propostas de Capacitação da IPB Para a Administração Estratégica, 181
8.7.1 Alteração do Currículo dos Seminários da IPB, 182
8.7.2 Criação de Curso de Pós-Graduação em Administração Eclesiástica, 182
8.7.3 Criação de Um Centro de Estudos Estratégicos, 183
8.7.4 Criação de Cursos Rápidos de Administração Estratégica, 183
8.8 Uma Nota Sobre os Regulamentos da IPB, 183
8.9 Considerações Finais, 184
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS........................................................................186
15

CAPÍTULO I

O PROBLEMA

Esta pesquisa trata do uso de métodos gerenciais na igreja, verificando a biblicidade

da utilização da administração estratégica no âmbito da Igreja Presbiteriana do Brasil,

doravante denominada IPB.

Formulação da Situação-Problema

Por “situação-problema”, entenda-se uma “questão não solvida e que é objeto de

discussão”.1 No campo da administração eclesiástica questiona-se qual é o padrão bíblico para

o crescimento da igreja e até que ponto métodos de planejamento são importantes para a sua

gestão. Isso é feito enquanto a igreja é pressionada a mostrar-se relevante e a apresentar

resultados. Pastores e líderes cristãos têm de lidar com o estresse da relevância e

produtividade em um contexto caracterizado por secularização, pluralismo pós-moderno e

diversidade de modelos eclesiásticos.

A Secularização e os Movimentos de Oscilação Numérica da Igreja

O cristianismo ocidental sofre com os efeitos da secularização, considerada por

Bosch2 como uma das responsáveis pela crise relacionada à teologia e missão cristãs. Devido































 


















1
GIL, Antonio Carlos. Como Elaborar Projetos de Pesquisa. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2006, p. 23.
2
BOSCH, David J. Missão Transformadora. São Leopoldo: Sinodal, 2002, p. 19-21. Alguns dados fornecidos
pela pesquisa de Bosch, publicada em 1991, merecem atualização. O autor do presente projeto reconhece que
16

à secularização, a fé em Deus é considerada “redundante” e pergunta-se sobre a necessidade

de voltar à religião, uma vez que parece plausível — sem a fé — “lidar com as exigências da

vida moderna.” 3

Bosch alinha a secularização ao processo de esvaziamento das igrejas cristãs, tanto

católicas quanto protestantes, ocorrido desde meados do século XX. O autor cita uma

pesquisa de David Barret revelando que, “na Europa e na América do Norte, 53 mil pessoas

em média deixam permanentemente a igreja de um domingo até o seguinte”.4 Tais números

são consistentes com a avaliação que Hobsbawm faz da última década do século XX:

O declínio e queda das religiões tradicionais não era compensado, pelo


menos na sociedade urbana do mundo desenvolvido, pelo crescimento da
religião sectária militante, ou pelo surgimento de novos cultos e
comunidades de culto, e menos ainda pelo evidente desejo de tantos homens
e mulheres de refugiar-se de um mundo que não podiam entender nem
controlar, numa variedade de crenças cuja própria irracionalidade constituía
a sua força. A visibilidade pública dessas seitas, cultos e crenças não deve
desviar a atenção da fraqueza relativa de seu apoio. Não mais de 3% a 4%
dos judeus britânicos pertenciam a qualquer das seitas ou grupos ultra-
ortodoxos. Não mais de 5% da população adulta dos EUA pertenciam às
seitas militantes e missionárias [Pentecostais, Igrejas de Cristo, Testemunhas
de Jeová, Adventistas do Sétimo Dia, Assembléias de Deus, Igrejas da
Santidade, “Renascidos” e “Carismáticos”].5

Em um artigo sobre o estado das igrejas na Europa, publicado em 2001 por um

semanário de circulação nacional no Brasil, descreve-se um quadro semelhante.

Somente 10% dos católicos freqüentam a igreja. A cada ano, diminui em


50.000 a quantidade de ingleses que assistem às missas de domingo. […]
Entre os protestantes, o cenário é igualmente desolador. Somente 3% da
população comparece aos cultos nos países escandinavos. A cúpula da Igreja
Reformada Holandesa está transformando parte de seus complexos
religiosos em hotéis para pagar despesas de manutenção. A Catedral de
Canterbury, de importância central na fé anglicana, fica vazia na manhã de
domingo, o dia mais movimentado em qualquer templo cristão.6































 


















sugerir generalizações a partir de Bosch abre espaço para a demasiada simplificação de informações que exigem
tratamento mais pormenorizado. Considera-se, porém, que alguns dos pontos levantados em Missão
Transformadora são dignos de nota, uma vez que a essência dos argumentos parece coadunar-se com o quadro
atual enfrentado pela igreja.
3
Ibid., p. 19. Cf. HARRIS, Sam. Carta a Uma Nação Cristã. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, passim.
4
BOSCH, op. cit., loc. cit.
5
HOBSBAWM, Eric. A Era dos Extremos: O Breve Século XX: 1914-1991. São Paulo: Cia. das Letras, 1995, p. 544.
6
BARELLA, José Eduardo. Europa sem Deus: Debandada de Fiéis Esvazia a Igreja e Expõe Desencanto
Religioso dos Europeus, in Veja, ed. 1700, ano 34, n. 19 (16.5.2001), p. 61.
17

Em suma, “de súbito, a igreja viu minguar os peixes de suas praias. Viu se erguerem

ondas de autonomia humana, espumadas de criticismo e indução, e da independência da

consciência humana lançando na areia móbil a mornidão de uma religião científica.” 7

Os números de 2008 sugerem um crescimento no percentual de cristãos — de 28%,

em 1999, para 33%.8 Há cerca de uma década, exatamente quando os dados acima eram

levantados e afirma-se a redução numérica — em termos globais — da igreja, um filósofo

católico, escrevendo a partir do contexto europeu, afirmou o seguinte: “As ideologias

construídas sobre a negação de Deus [...] estão se esfacelando [...]. A religião volta a despertar

o interesse de muita gente, inclusive no Velho Mundo [...].” 9

Cabe verificar se o recente aumento numérico das denominações cristãs, bem como o

recrudescimento da motivação religiosa no mundo podem ser compreendidos, de fato, como

crescimento — em termos bíblicos — da igreja, ou se decorrem do pluralismo pós-moderno.10

O ponto aqui é: Pastores e líderes lidam com repercussões da secularização.

Pluralismo Global, Diversidade de Opções Religiosas e Timidez Missionária

No mundo global, a secularização anda de mãos dadas com o pluralismo religioso. As

múltiplas migrações e o intercâmbio de idéias, doutrinas, ideologias e estilos de vida

produzem uma nova interface religiosa. Os cristãos vêem as outras religiões de forma mais

tolerante e, em certos contextos, os adeptos destas religiões “muitas vezes mostram ser mais































 


















7
GOMES, Wadislau Martins. Psicologização do Púlpito e Relevância na Pregação, in Fides Reformata, v. X, n.
1 (2006), p. 12, grifo do autor.
8
Os dados (28% em 1999) são de SINE, Tom. O Lado Oculto da Globalização: Como Defender-se dos
Valores da Nova Ordem Mundial. São Paulo, Mundo Cristão, 2001, p. 165. Uma possibilidade interessante
de pesquisa é a análise da relação entre globalização e secularização. Os números atuais são extraídos de
FORBES, Scott et al. Geographica World Atlas & Enciclopedia. Special Edition. Australia: Random House
Australia, 2008, p. 72-73.
9
MONDIN, Battista. Quem é Deus? Elementos de Teologia Filosófica. 2. ed. São Paulo: Paulus, 2005, p. 6.
10
Isso não cabe a esta pesquisa responder. Registra-se, no entanto, como uma sugestão para trabalhos
posteriores.
18

ativa e agressivamente missionários do que o são os membros de igrejas cristãs”.11 Bosch

argumenta que os cristãos ocidentais não empreendem maciços programas de expansão.12

Neste mosaico encontram-se o islamismo, já contabilizado como a segunda maior

religião do mundo,13 o hinduísmo e o budismo, bem como as novas religiões, criadas a partir

de colagens de crenças antigas ou de elaborações completamente originais.

O hinduísmo e o budismo são hoje as religiões de maior crescimento na


Austrália. Quem vive nos países ocidentais já não tem limitações quanto a
que ramificações do cristianismo escolher. Como conseqüência da
globalização, as pessoas hoje têm acesso não só a todas as religiões mundiais
históricas, mas também a uma explosão de alternativas.14

Diversidade de Modelos Eclesiásticos

No mundo dividido entre ricos e pobres, são espiritualizados os princípios bíblicos

relacionados à ética econômica ou criam-se novas versões do evangelho, nas quais a promessa

de riqueza vem mesclada ou até mesmo substitui o anúncio de reconciliação através de Jesus

Cristo. Onde ocorre essa mistura entre evangelho e prosperidade, surgem novas versões de

cristianismo, com seus respectivos modelos eclesiásticos, dentre eles, a “nova igreja” descrita

por Charles Trueheart, no Atlantic Monthly de agosto de 1996:

A nova igreja está redefinindo a natureza e o papel da própria comunidade


por seu excelente desempenho em cinco práticas básicas: ênfase na liderança
e no desenvolvimento de lideranças, redes de conhecimento na comunidade,
relevância cultural, ênfase no atendimento das necessidades individuais
dentro do contexto de uma comunidade e mobilização da paróquia. Ao
perseguir esses processos com grande propósito, a nova Igreja cria uma































 


















11
BOSCH, op. cit., p. 20.
12
Ibid., loc. cit.
13
BBC BRASIL.COM. Fiéis do Islã Formam a 2ª Maior Religião do Mundo. [s.l.]: BBC Brasil, [200-?]. Disponível
em: <http://noticias.terra.com.br/mundo/interna/0,,OI141888-EI312,00.html>. Acesso em: 10 jun. 2004. Cf.
FORBES, op. cit., loc. cit., depois do cristianismo, com 33%, estão o islamismo, com 19.6%, os não-religiosos,
13%, o hinduísmo,12.8%, as religiões tradicionais chinesas, 6.2%, o budismo, 6%, outras religiões, 4.7%,
religiões étnicas, 4%, siquismo, 0.4% e judaísmo, 0.3%.
14
SINE, op. cit., p. 163.
19

massa crítica cujo porte lhe permite ser o que a igreja tradicional não pode:
uma igreja que oferece “serviço completo.” 15

A dificuldade surge da expressão “serviço completo”. Um best-seller sobre

crescimento de igrejas propõe as seguintes perguntas para a elaboração de um “plano de

integração”: “Quais as necessidades mais importantes de nossos membros?” e “quais são as

maiores necessidades de nossos membros mais antigos?”.16 Outro autor, que chama a atenção

para a necessidade das igrejas serem “amigáveis” e “acolhedoras”, afirma que cada cristão “é

um gerente de marketing”.17 Tal modelo é denominado seeker friendly, ou seja, adaptado ao

usuário ou orientado para o consumidor.18

Especialmente na última década, além do modelo seeker friendly, pastores e líderes

brasileiros têm sido apresentados a outras propostas de “pacotes” ministeriais: Igreja em

células segundo Robert Lay,19 igreja em células no modelo G-12 20 e, por fim, o fenômeno da

igreja emergente, que não pode ser considerado como um movimento, nem mesmo uma

iniciativa denominacional; talvez seja mais adequada a referência a “igrejas emergentes” —

grupos multifacetados que abraçam determinada perspectiva. Segundo Meister, trata-se de

uma tentativa de redefinir completamente as comunidades cristãs, adaptada ao pós-

modernismo e caracterizada pelas “atitudes de pluralismo e protesto, demonstradas através de































 


















15
BUFORD, Bob. Os Baby Boomers, as Igrejas e os Empreendedores Podem Transformar a Sociedade. In:
HESSELBEIN, FRANCES. et al. (Ed.). A Comunidade do Futuro: Idéias Para Uma Nova Comunidade. São
Paulo: Futura, 1998, p. 51, grifo nosso.
16
WARREN, Rick. Uma Igreja com Propósitos. São Paulo: Editora Vida, 1997, p. 377, 378, grifos nossos.
17
BARNA, George. Igrejas Amigáveis e Acolhedoras. São Paulo: Abba Press, 1995, p. 99-107; cf. PEREIRA,
C. e LINHARES, J. Os novos pastores, in Veja, ed. 1964, ano 39, n. 27 (12.7.2006), p. 76-85.
18
MEISTER, Mauro. Igreja Emergente, a Igreja do Pós-Modernismo? Uma Avaliação Provisória, in Fides
Reformata, v. XI, n. 1 (2006), p. 102.
19
Sobre esse modelo, cf. NEIGHBOUR JR., Ralph W. Manual do Líder de Célula: Fundamentação Espiritual e
Prática Para Líderes de Células. 2. ed. Curitiba: Ministério Igreja em Células, 1999; LAY, Robert Michael. O
Ano da Transição: Vamos Mostrar a Você Como Fazer!!! Curitiba: Ministério Igreja em Células, 2005. Uma
proposta semelhante é encontrada em EBERT, Claudio Ernani. Grupos Familiares: Um Modelo Brasileiro. São
Paulo: Vida, 1997. Outra abordagem digna de nota é a de KORNFIELD, David; ARAÚJO, Gedimar de.
Implantando Grupos Familiares: Estratégia de Crescimento Segundo o Modelo da Igreja Primitiva: Manual
Para Líderes. São Paulo: Editora SEPAL, 1995.
20
Sobre o modelo de igreja em células G-12, cf. BATISTA, Jôer Corrêa; SAHIUM, Leonardo; BATISTA,
Jocider Corrêa. G12 História e Avaliação. Goiânia: Seminário Presbiteriano Brasil Central, 2000;
FIGUEIREDO, Onezio. Os Segredos do G-12. São Paulo: Cultura Cristã, 2001.
20

sua definição missional, uso da linguagem, expressão de culto e pregação”.21 O mesmo autor

considera que a igreja emergente nega a “possibilidade de qualquer metanarrativa

abrangente”.22 Isso equivale a dizer que, ao mesmo tempo em que rejeita o modelo seeker

friendly, descarta qualquer tentativa de sistematização doutrinária:

O que necessitamos é de algo vivido, não apenas falado ou escrito. A última


coisa de que necessitamos é de um novo grupo de reformadores orgulhosos,
superprotestantes, hiperpuritanos, ultra-restauracionistas que digam: “só nós
estamos certos!” 23

Eis o dilema para os pastores e líderes — especialmente, da IPB. Uma leitura

superficial dessas propostas pode produzir a noção de que igrejas que não são plenamente

eficientes no “atendimento” de sua membresia ou comunidade (proposta seeker friendly), não

assumem modismos metodológicos ou não abandonam o padrão modernista a fim de

adotarem o pós-modernismo (proposta da igreja emergente) são irrelevantes. Abre-se espaço

para um perigoso desdobramento funcional: Teologias e práticas das igrejas tradicionais

podem ser descartadas ou consideradas relativas. Todo o conjunto do cristianismo ocidental é

visto com suspeitas — como algo a ser relido e adaptado. Diante disso, como pastorear e gerir

a igreja, de modo a garantir sua fidelidade e saúde, nos termos da Escritura?

Em um sermão pregado em 1959, o Dr. Martin Lloyd-Jones chamou a atenção para

esse desafio:

[...] a não ser que nós, individualmente como cristãos, sintamos uma
preocupação séria acerca da condição da Igreja e do mundo hoje em dia,
então somos cristãos muito medíocres. Se nos associamos com a Igreja
Cristã simplesmente para recebermos ajuda pessoal, e nada mais, então
somos meras crianças em Cristo.24

Na ocasião o pregador desafiou seus ouvintes a não permitir que “métodos”

substituam a dependência da igreja do poder do Espírito Santo.25 Nesse ponto ele é seguido































 


















21
MEISTER, op. cit., p. 95.
22
Ibid., p. 97.
23
MCLAREN, Brian. Uma Ortodoxia Generosa: A Igreja Em Tempos de Pós-Modernidade. Brasília: Editora
Palavra, 2007, p. 26.
24
LLOYD-JONES, D. Martin. Avivamento. 2.ed. São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1993, p. 12.
25
Ibid., passim.
21

por outros autores. Alguns se dedicam ao estudo das raízes da secularização da igreja,26

outros, aos problemas específicos de sua atual teologia e prática,27 ou, mais especificamente,

às ciladas desta nova mentalidade para a identidade e integridade pastoral.28 Outros constatam

que a igreja está confusa quanto à sua missão — ou pelo menos, quanto ao modo bíblico de

cumpri-la.29 De modo geral, externaliza-se o sentimento de que a secularização e pós-

modernidade, amalgamadas na sopa do mundo globalizado, têm contribuído para o declínio e

o mundanismo da igreja.

Diante de tal quadro, como prosseguir na caminhada do pastoreio? Um escritor cristão

popular propõe uma síntese amadurecida:

A igreja que fica sentada de cara fechada ao futuro, pouco fazendo além de
lustrar os louros de ontem, se tornará uma igreja à qual falta relevância e
entusiasmo. Ao mesmo tempo, a igreja que amolecer sua posição teológica e
alterar a Escritura para combinar com o estilo do futuro, perderá seu poder.30

A palavra de Swindoll foi publicada no mesmo ano que, em Cambridge,

Massachusetts, líderes cristãos se uniram em torno de um pacto reformado. Em uma reunião

convocada pela Aliança de Evangélicos Confessionais, ocorrida de 17 a 20 de abril de 1996,

120 pastores, docentes e líderes evangélicos de organizações paraeclesiásticas assinaram a

Declaração de Cambridge, um documento que convoca a igreja ao arrependimento de seu































 


















26
Cf. SOUZA, Jadiel Martins. Charles Finney e a Secularização da Igreja. São Paulo: Parakletos, 2002; SINE,
op. cit., passim.
27
Cf. BANKS, Robert. A Teologia Nossa de Cada Dia: Aplicando os Princípios Teológicos no Cotidiano. São
Paulo: Editora Vida, 2004; HORTON, Michael Scott. (Ed.). Religião de Poder: A Igreja Sem Fidelidade Bíblica
e Sem Credibilidade no Mundo. São Paulo: Cultura Cristã, 1998; MACARTHUR JR., John F. Com Vergonha do
Evangelho. São José dos Campos: Fiel, 1997; NASH, Laura; MACLENNAN, Scotty. Igreja aos Domingos,
Trabalho às Segundas: O Desafio da Fusão de Valores Cristãos com a Vida dos Negócios. Rio de Janeiro:
Qualitymark, 2003; ROMEIRO, Paulo. Evangélicos em Crise. São Paulo: Mundo Cristão, 1995 e VIEIRA,
Samuel. O Império Gnóstico Contra-Ataca. São Paulo: Cultura Cristã, 1999.
28
Cf. HANSEN, David. A Arte de Pastorear. Santo Amaro: Shedd Publicações, 2001; PETERSON, Eugene H.
À Sombra da Planta Imprevisível: Uma Investigação da Santidade Vocacional. Campinas: Editora United Press,
2001; PETERSON, Eugene H. O Pastor Contemplativo: Voltando à Arte do Aconselhamento Espiritual. Rio de
Janeiro: Textus, 2002; SITTEMA, John. Coração de Pastor: Resgatando a Responsabilidade Pastoral do
Presbítero. São Paulo; Cultura Cristã, 2004; STEUERNAGEL, Valdir; BARBOSA, Ricardo. (Ed.). Nova
Liderança: Paradigmas de Liderança em Tempo de Crise. 2. ed. Curitiba: Encontro, 2003; WHITE, Peter. O
Pastor Mestre. São Paulo: Cultura Cristã, 2003 e ARMSTRONG, John. (Org.). O Ministério Pastoral Segundo a
Bíblia. São Paulo: Cultura Cristã, 2007.
29
BOSCH, op. cit., passim.
30
SWINDOLL, Charles L. A Noiva de Cristo: Renovando Nossa Paixão Pela Igreja. São Paulo: Editora Vida,
1996, p. 141.
22

mundanismo, e para incorporar a verdade divina na doutrina, no culto e na vida.31 Tal

iniciativa preconiza um movimento na direção do equilíbrio: Reconhece-se que a igreja deve

ser relevante e bíblica.

É aqui que se coloca este estudo sobre o uso eclesiástico de métodos gerenciais

seculares, especialmente a administração estratégica. Espera-se contribuir para uma maior

compreensão do assunto à luz das Escrituras e disponibilizar recursos úteis para o pastoreio e

edificação da igreja. Ao focalizar a IPB, esta pesquisa revela sua intenção de contribuir para o

fortalecimento desta federação de igrejas cristãs.

Perguntas da Pesquisa

Esta pesquisa se ocupa com o seguinte problema central: É bíblico e pertinente o uso,

no pastoreio da igreja, da administração estratégica? A resposta a esta indagação exige seu

desdobramento em cinco questões subsidiárias: (1) A Bíblia sugere o vínculo entre pastoreio e

administração? (2) Se a resposta à questão anterior for positiva, a Bíblia apóia o uso, na

administração da igreja, de métodos oriundos da cultura circundante? (3) Tal uso é aprovado

— ou pelo menos sugerido — pela Confissão de fé de Westminster, doravante denominada

CFW?32 (4) O modelo de administração da IPB, definido em seu Manual presbiteriano,

doravante denominado MP, abre espaço para o uso destes métodos? (5) A cosmovisão e a

metodologia da administração estratégica condizem com a Bíblia, com a CFW e com a prática

da IPB? Todas essas questões envolvem “variáveis que podem ser tidas como testáveis.” 33































 


















31
BOICE, James M. et al. Reforma Hoje. São Paulo: Cultura Cristã, 1999, passim.
32
ASSEMBLÉIA DE WESTMINSTER. Símbolos de Fé, Contendo a Confissão de Fé, Catecismo Maior/Breve.
São Paulo: Cultura Cristã, 2005. CFW, passim.
33
GIL, op. cit., p. 24.
23

A primeira questão subsidiária estabelece a base para o restante da pesquisa. Somente

se a Escritura apoiar o uso da administração no pastoreio é que será possível falar da

possibilidade de uso, na igreja, de métodos administrativos.

A segunda questão subsidiária, como já foi dito, depende da resposta positiva à

questão anterior. A partir do atendimento daquele quesito, discute-se a possibilidade da Bíblia

apoiar o uso, na administração eclesiástica, de métodos oriundos da cultura não-cristã.

Atualiza-se o dilema Justino-Tertulianista,34 agora aplicado à condução da igreja. Uma

resposta para essa questão é instilada a partir da leitura dos primeiros quatro capítulos de

Gênesis e do exame de alguns relatos extraídos do Antigo e Novo Testamentos.

A terceira questão subsidiária checa se a leitura doutrinária oferecida pela CFW dá

abertura para o uso de tais métodos. Isso é importante uma vez que a IPB é confessional, ou

seja, “adota [...] como sistema expositivo de doutrina e prática a sua Confissão de Fé e os

Catecismos Maior e Breve”.35 Para manter-se fiel à Constituição, tanto as igrejas locais

federadas quanto as instâncias conciliares da IPB devem assumir práticas de ministério

consistentes com a CFW — qualquer prática que contrarie a CFW é, prima facie,

inconstitucional.

A quarta questão subsidiária diz respeito ao modelo administrativo preconizado pela

IPB. Aqui se busca compreender o modelo organizacional que rege a atual administração da

IPB, e as possibilidades de inserção de novas e adequadas metodologias de liderança e

gerenciamento.

A quinta e última questão subsidiária trata da administração estratégica em si — sua

cosmovisão e contribuições metodológicas. Seriam estas condizentes com a Bíblia, a CFW e a































 


















34
Trata-se do antagonismo entre a revelação e a filosofia, personificado pelos pais apologistas Justino Mártir (c.
100 — c. 165), que tentou relacionar o evangelho com a filosofia grega e Tertuliano (c. 160 — c. 225), que
considerava errado o uso, pelos cristãos, de qualquer filosofia secular. Sobre essa questão, cf. McGRATH,
Alister E. Teologia Sistemática, Histórica e Filosófica. Santo Amaro: Shedd Publicações, 2005, p. 44-45.
35
Constituição Interna da Igreja Presbiteriana do Brasil, doravante denominada CI/IPB, Capítulo I, Art. 1, grifo
nosso. In: CAMPOS, Silas. (Org.) Manual Presbiteriano Com Jurisprudência. São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 8.
24

prática da IPB? A ponta final da pesquisa é amarrada, propiciando responder à questão

principal. Espera-se assim, cumprir o que está sendo prometido nessa introdução.36

Objetivos do Estudo

Os objetivos deste estudo são: (1) Investigar se é bíblico o uso da administração

estratégica no pastoreio da igreja; (2) se a resposta à questão anterior for positiva, propor um

conjunto de princípios e práticas bíblicas de administração, aplicável às igrejas locais e

concílios da IPB.

O primeiro objetivo atende às demandas deste trabalho como pesquisa acadêmica, o

segundo, como projeto ministerial aplicado. Ambos os aspectos são importantes, uma vez que

“a maior sabedoria, não transformada em ação ou atuação, é um dado sem sentido”,37 ou, nas

palavras de Blake e Mouton, citadas por Caravantes, Panno e Kloeckner:

Ação sem conceitos para orientá-la é pouco mais do que experiência e erro, e
nesse sentido deve-se considerar altamente relevante ter-se conceitos claros
e válidos. Mas conceitos sem ação representam pouco mais do que jogos
intelectuais. Não importando o quanto sejam invisíveis ou não reduzidas a
uma fórmula, todas as ações humanas têm um conceito que lhes é
subjacente.38

Cada etapa da pesquisa contempla essas duas vias, teórica e prática.

Justificativa

Assumindo o pressuposto de que o ofício pastoral é uma dádiva divina para o governo

da igreja pela Palavra de Deus (Ef 4.11-14),39 esta pesquisa reconhece que, na IPB, a































 


















36
ECO, Umberto. Como Se Faz Uma Tese. 19. ed. São Paulo: Perspectiva, 2005, p. 84.
37
DRUCKER, Peter F. O Gerente Eficaz. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos Editora, 1990, p. 4.
38
CARAVANTES, Geraldo R.; PANNO, Cláudia C.; KLOECKNER, Mônica C. Administração: Teorias e
Processo. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2005, p. 210.
39
BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. 2. ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2001, p. 538-539; Bíblia de Estudo
de Genebra, doravante designada BEG. São Paulo e Barueri: Cultura Cristã e Sociedade Bíblica do Brasil, 1999,
25

administração é considerada como atribuição dos presbíteros regentes e docentes.40 Daí a

necessidade de elucidar a natureza e o modo de exercício desse governo.

Será que o governo da igreja pela Palavra refere-se exclusivamente às tarefas

identificadas como tradicionalmente pastorais, tais como pregar, doutrinar, aconselhar,

acompanhar as ovelhas nos momentos mais relevantes de suas vidas, orar pelo e com o

rebanho, conduzir a adoração e exercer a disciplina? Ou tem a ver, também, com liderar e

gerenciar?

Na primeira perspectiva cabe ao pastor libertar-se, o máximo possível, de qualquer

encargo considerado administrativo. Se biblicamente não houver base para ligar o pastoreio à

administração, abre-se espaço para uma disjunção conceitual relacionada à condução da

igreja. Torna-se plausível enxergar o serviço pastoral e a administração como excludentes, ou,

na melhor das hipóteses, sobrepondo-se ocasionalmente por força de exigências meramente

operacionais. A administração pode ser vista como incumbência “mundana”, inserida por

decreto conciliar no “serviço divino”, uma espécie de fardo desagradável, mas, necessário.

Há, inclusive, a possibilidade de enxergar os diáconos como responsáveis pela administração,

a fim de desonerar o presbiterato para o pastoreio.41 O problema é que, nos moldes da CI/IPB,

o pastor possui “autoridade de ordem”,42 é o presidente da assembléia local,43 o

superintendente (um termo gerencial) das atividades da igreja,44 o presidente de seu

Conselho45 e aquele que a representa “ativa, passiva, judicial e extra-judicialmente.” 46































 


















p. 1501; CALVINO, João. Comentário à Sagrada Escritura: Novo Testamento: Efésios. São Paulo: Paracletos,
1998, p. 121-122.
40
CI/IPB, Capítulo IV, Seção 2ª, Artigos 36, 38; Capítulo V, Seção 2ª, Artigos 78, 80 e 83. In: CAMPOS, op.
cit., p. 21, 32-34.
41
A passagem de Atos 6.1-7 tem sido citada de forma a sustentar isso. Uma proposta de interpretação desse
texto é fornecida na seção 4.4.2.
42
CI/IPB, Capítulo I, Artigo 3, § 2°. In: CAMPOS, op. cit., p. 9.
43
Ibid., Capítulo II, Artigo 10, p. 12.
44
Ibid., Capítulo IV, 2ª Seção, Art. 36, alínea “d”, p. 21.
45
Ibid., Capítulo V, Seção 2ª, Artigo 78, p. 32-33.
46
Ibid., Modelo de Estatutos Para Uma Igreja Local, Capítulo II, Artigo 3º, Parágrafo único, p. 225-232.
26

Na segunda perspectiva, presbíteros docentes e regentes assumem a administração

convictos de que a Escritura não apenas permite, mas, insiste em que eles administrem. Eles

podem administrar estrategicamente, ou seja, com vistas a aperfeiçoar os processos relativos

ao cuidado do rebanho. Tal perspectiva não é isenta de problemas: A condução da igreja pode

ser encarada a partir de uma ótica meramente institucional47 e o organismo pode ser sufocado

pela organização. Nesse caso, “as regras burocráticas” passam a servir “à própria

burocracia”.48 O aspecto positivo é que há a plausibilidade dos responsáveis pelo pastoreio da

igreja servirem a Deus sem dicotomias e, por conseguinte, de forma mais fiel às Escrituras,

prazerosa e produtiva.

O outro benefício proporcionado por esta pesquisa é a própria possibilidade de

reflexão sobre a igreja como organização. Como afirma McGrath, “estudar as diversas

perspectivas cristãs sobre a igreja significa adquirir uma noção sobre a maneira como as

instituições adaptam-se às mudanças com a finalidade de sobreviver”.49 Nesses termos, parece

pertinente a investigação da validade do uso da administração estratégica como meio de

aprimoramento da organização da igreja, a fim de mantê-la focalizada em alvos condizentes

com a Bíblia Sagrada.

Ademais, o surgimento de novos modelos eclesiásticos, citados alhures, bem como a

ausência de divulgação de pesquisas sobre administração estratégica no contexto das igrejas

reformadas, acentuam a necessidade deste trabalho.

Haveria prejuízo em deixar de lado esta investigação? São sugeridas seis

possibilidades de conseqüências negativas: (1) Uma percepção da administração como

elemento alienígena no serviço pastoral; (2) a partir desta percepção, o estabelecimento de

um falso dilema entre o pastoreio e a administração; (3) a dificuldade em identificar, para
































 


















47
Cf. MUNIZ, Adir Jaime de Oliveira; FARIA, Herminio Augusto. Teoria Geral da Administração: Noções
Básicas. 5. ed. rev. e ampliada. São Paulo: Atlas, 2007, p. 68, “a institucionalização deve ser compreendida
como a emergência de padrões de interação e de adaptação das organizações em resposta ao ambiente.”
48
SENNETT, Richard. A Cultura do Novo Capitalismo. Rio de Janeiro: Record, 2006, p. 37.
49
McGRATH, op. cit., p. 543.
27

os procedimentos administrativos, um alicerce bíblico adequado, ou, ainda pior; (4) o total

desinteresse nesse alicerce, o que pode ocasionar em direção esquizofrênica da igreja —

zelo na pregação ou orientação “religiosa” e aplicação de modelos ministeriais, práticas

ou dinâmicas administrativas que contradizem as Escrituras e a CFW; (5) descaso para

com as práticas administrativas da IPB, definidas no MP; (6) descaso para com a

administração estratégica da igreja, limitando suas possibilidades de fazer frente às

demandas ministeriais atuais.

Em suma, é recomendável lidar com tais questões. A presente averiguação é

pertinente.

Hipótese

A hipótese substantiva do estudo antecipa que, de acordo com as Escrituras, a CFW, o

MP e a prática conciliar da IPB, a administração — e, por conseguinte, a administração

estratégica — pode e deve ser utilizada no pastoreio da igreja. Tal uso, porém, exige sua

adaptação à cosmovisão cristã.

Moldura Conceitual Assumida

A moldura conceitual assumida nesta pesquisa é uma síntese do paradigma

cosmonômico — o conjunto bíblico de asserções sobre cosmogonia, antropogonia, mandatos

criacionais, queda e graça comum, articulado pela filosofia da idéia cosmonômica de Herman

Dooyeweerd (1894 - 1977)50 — e das ferramentas de análise e interpretação de































 


















50
Tal perspectiva enxerga a administração como ligada à criação divina — como núcleo de significado
do aspecto modal econômico. Cf. OLIVEIRA, Fabiano de Almeida. A Relevância Transcendental do Deum Et
28

cosmovisões sugeridas por Nancy Pearcey. 51. As categorias avaliativas propostas por

Pearcey (criação, queda e redenção) são utilizadas para averiguar a cosmovisão que

sustenta a administração estratégica.

Delimitação

O estudo se limita a responder às perguntas da pesquisa (p. 22). As respostas são

sugeridas a partir da análise de dados provenientes das Ciências Aplicadas — Administração;

Ciências Sociais — Economia; História; Filosofia e Religião — Bíblia, Teologia e

Administração Eclesiástica.

Tal escopo pode parecer demasiadamente teórico para um projeto de Doutorado

em Ministério. O autor parte do pressuposto, porém, que toda prática de gerenciamento

reflete uma ou mais molduras conceituais e que o pastoreio contemporâneo exige a

releitura cristã de tais molduras, bem como a aplicação de metodologias administrativas

condizentes com as Sagradas Escrituras, com a CFW e com o MP. Ademais, a partir do

processamento dos dados coletados, o trabalho propõe princípios práticos para a

administração de igrejas e concílios da IPB.































 


















Animam Scire no Pensamento de Herman Dooyeweerd. São Paulo: Centro Presbiteriano de Pós-Graduação
Andrew Jumper, 2004. Originalmente apresentada como dissertação de mestrado, Centro Presbiteriano de Pós-
Graduação Andrew Jumper; GEISLER, Norman. Enciclopédia de Apologética: Respostas aos Críticos da Fé
Cristã. São Paulo: Editora Vida, 2002, p. 288-291; CARVALHO, Guilherme Vilela Ribeiro. Sociedade, Justiça
e Política de Cosmovisão Cristã: Uma Introdução ao Pensamento Social de Herman Dooyeweerd. In:
CARVALHO, Guilherme Vilela Ribeiro. (Org.). Cosmovisão Cristã e Transformação. Viçosa: Ultimato, 2006,
p. 189-217.
51
Cf. PEARCEY, Nancy. Verdade Absoluta: Libertando o Cristianismo De Seu Cativeiro Cultural. Rio de
Janeiro: Casa Publicadora das Assembléias de Deus, 2006, p. 49-51. Mais informações sobre o paradigma
cosmonômico e as ferramentas de análise e interpretação de cosmovisões são fornecidas nas seções 3.2.2 e 3.5.
O autor reconhece que seria interessante analisar com mais profundidade tanto a cosmonomia proposta por
Dooyeweerd — incluindo-se os argumentos daqueles que a rejeitam — quanto as idéias sobre cosmovisão
propostas por Pearcey, mas isso foge ao escopo deste projeto. Ambos os arcabouços teológico-filosóficos são
aqui assumidos como pressupostos.
29

Organização do Restante do Estudo

No primeiro capítulo o assunto da pesquisa é apresentado, definido e caracterizado.52

Os capítulos dois a seis fornecem um apanhado das fontes primárias relevantes para o

estudo.

O sétimo capítulo explica a metodologia e apresenta os resultados do estudo, que são

avaliados com relação às pretensões iniciais do pesquisador.

O último capítulo traz as considerações finais e propõe um conjunto de princípios e

práticas bíblicas de administração, aplicável às igrejas locais e concílios da IPB.































 


















52
ABRAHAMSOHN, Paulo. Redação Científica. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2004, p. 25.
30

CAPÍTULO II

O QUE A LITERATURA SACRA NOS DIZ SOBRE A


RELAÇÃO ENTRE O PASTOREIO E A ADMINISTRAÇÃO

Este capítulo apresenta possibilidades de relação entre o serviço pastoral e a

administração, respondendo assim à primeira questão subsidiária. Os dados da Sagrada

Escritura, relativos ao serviço pastoral, são compulsados e devidamente organizados em

três grupos: Cuidado, liderança e organização da igreja.

2.1 Conceitos Importantes do Segundo Capítulo

Uma vez explicado o propósito do capítulo, alguns termos necessitam de definição.

Pastoreio é sinônimo de serviço pastoral e significa o conjunto de ações, biblicamente

modeladas, empreendido para o agrado de Deus e a edificação da igreja.

Administração é “a condução racional das atividades de uma organização, seja ela

lucrativa ou não-lucrativa”,53 com a finalidade de “planejar, organizar, dirigir e controlar o

uso de recursos organizacionais, para alcançar determinados objetivos de maneira eficiente e

eficaz”.54 Administração eclesiástica é a condução das estruturas institucional, orgânica e

comunitária da igreja, mediante princípios, normas, funções e procedimentos, com a

finalidade de cumprir seus objetivos biblicamente orientados.55 A administração estratégica é































 


















53
CHIAVENATO, Idalberto. Introdução à Teoria Geral da Administração: Uma Visão Abrangente da Moderna
Administração das Organizações: Edição Compacta. 3. ed. rev. e atualizada. 4ª reimp. Rio de Janeiro: Elsevier,
2004, p. 2.
54
Ibid., p. 17.
55
Adaptado de OLIVEIRA, Djalma de Pinha Rebouças de. Administração Estratégica na Prática: A
Competitividade Para Administrar o Futuro das Empresas. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2007, p. 4; CARVALHO,
31

um processo — um “conjunto completo de compromissos, decisões e ações necessários para

que a empresa obtenha vantagem competitiva e retornos acima da média.” 56

Eficiência “significa fazer bem e corretamente as coisas. O trabalho eficiente é um

trabalho bem executado”. Eficácia “significa atingir objetivos e resultados. Um trabalho

eficaz é um trabalho que resulta proveitoso e bem-sucedido.” 57

A administração compreende tanto liderança quanto gerenciamento. A liderança é a

dinâmica através da qual “uma pessoa influencia um grupo de indivíduos a alcançar um alvo

comum”,58 e o gerenciamento é o feixe de procedimentos voltados para que algo necessário

seja realizado.59 Enquanto a liderança estabelece uma direção, reúne e capacita a equipe e

fornece motivação e inspiração, o gerenciamento planeja, edifica, organiza, supervisiona o

trabalho e resolve problemas.60

Outro conceito útil é o de magistério, aqui entendido como “esfera de autoridade ou

domínio de competência.” 61

O termo cosmovisão, de modo geral, é usado significando o “conjunto ordenado de

proposições em que se acredita, especialmente proposições acerca das questões mais

importantes da vida”.62 A palavra traduz o vocábulo alemão “Weltanschauung, [...] ‘modo de

olhar o mundo’ (welt, ‘mundo’; schauen, ‘olhar’).” 63

Cosmovisão cristã, por sua vez, é a visão bíblica do mundo, neste trabalho, mais

especificamente, a visão de mundo segundo o paradigma cosmonômico.































 


















Antonio Vieira de. Planejando e Administrando as Atividades da Igreja. São Paulo: Hagnos, 2004, p. 37;
KILINSKI, Kenneth K. Organização e Liderança na Igreja Local. São Paulo: Vida Nova, 1987, p. 119.
56
HITT, Michael; IRELAND, R. Duane; HOSKISSON, Robert E. Administração Estratégica: Competitividade
e Globalização. 7. ed. norte-americana, 2. ed. São Paulo: Thomson Learning, 2008, p. 6.
57
CHIAVENATO, op. cit., loc. cit.; cf. MUNIZ; FARIA, op. cit., p. 109: “Eficácia é o ato de produzir os
resultados desejados e a eficiência é a capacidade para produzir um efeito.”
58
NORTHOUSE, Peter G. Leadership: Theory and Practice. 3. ed. Thousand Oaks: SAGE-USA, 2003, p. 3,
tradução nossa.
59
DRUCKER, op. cit., p. 1-8.
60
NORTHOUSE, op. cit., p. 8-9.
61
McGRATH, Alister; McGRATH, Joanna. O Delírio de Dawkins: Uma Resposta ao Fundamentalismo Ateísta
de Richard Dawkins. São Paulo: Mundo Cristão, 2007, p. 56-57.
62
MORELAND, J. P.; CRAIG, William Lane. Filosofia e Cosmovisão Cristã. São Paulo: Vida Nova, 2005, p. 29.
63
PEARCEY, op. cit., p. 26.
32

2.2. O Ataque de Wagner ao Uso Eclesiástico da Administração

O estudo bíblico que se segue é importante em virtude da polarização estabelecida

entre pastoreio e administração. Neste embate destaca-se Glenn Wagner,64 cuja obra é bem-

vinda no sentido de fornecer material para reflexão sobre os perigos apresentados pela

secularização e mercantilização da igreja, mas comete a falácia do falso dilema ao propor “um

número limitado de alternativas dentre todas as possíveis, em muitos casos já sugerindo,

tendenciosamente, uma delas como sendo verdadeira.” 65

Ele entende que a igreja tem substituído “o modelo de comunidade pelo modelo

empresarial”.66 Ao assumir esse último, o pastor vende a sua alma.67 Sem conceituar tais

modelos, ele prossegue comparando-os. Estruturas empresariais não produzem comunidades.

As pessoas sentem-se usadas pelas empresas ou corporações, não nutridas por elas.68 O

modelo empresarial enfatiza programas, produtos, tarefas, controle, benefícios e vantagens,

dinheiro, emprego, cargos, produção, sistemas de organização, regras, normas e

regulamentos, gerenciamento, competição, produtividade, lucros, números e estatísticas,

promoção, marketing, exigências, imagem exterior e cronogramas. O modelo comunitário,

pelo contrário, destaca pessoas, senso de propósito, capacitação, bênção, ministério,

encorajamento, provisão, salvação, discipulado, investimento em vidas, compaixão,

crescimento pessoal, dedicação, relacionamentos, amizade, convivência, organismo e linhas

de comunicação.69































 


















64
WAGNER, Glenn. Igreja S/A: Dando Adeus à Igreja-Empresa Recuperando o Sentido da Igreja-Rebanho.
São Paulo: Editora Vida, 2003.
65
NAVEGA, Sergio. Pensamento Crítico e Argumentação Sólida: Vença Suas Batalhas Pela Força das
Palavras. São Paulo: Publicações Intelliwise, 2005, p. 165.
66
WAGNER, op. cit., p. 26.
67
Ibid., p. 28.
68
Ibid., p. 29.
69
Ibid., p. 30.
33

A comparação de um líder com um pastor70 produz resultado semelhante. O líder,

segundo Wagner, usa as pessoas como objetos “para alcançar os fins da organização”, ele se

porta como um “gerente ou administrador”, concentrado em “programas”. Ademais, orienta-

se “por um modelo de atividade empresarial, construído sobre fundamentos psicológicos e

sociológicos”, em busca de “auto-satisfação” e “auto-referência”. O pastor, por sua vez,

prioriza relacionamentos, encoraja o “rebanho” e investe no “crescimento das pessoas”,

orientando-se “por um modelo bíblico enraizado na identidade de Cristo como o Bom Pastor”,

com a finalidade última da “realização espiritual e uma absoluta dependência em Deus.”

Wagner questiona a utilidade, para o crescimento da igreja, das técnicas e princípios

de gerenciamento, tais como declarações de propósito, declarações de visão e planejamento

estratégico.71 Ele entende que o alvo principal do pastor não é articular uma grande visão, mas

ajudar suas ovelhas a confiar nele e conhecê-lo.72 A Bíblia “não requer que participemos de

sessões de planejamento estratégico ou de seminários de liderança ou nos formemos em

administração financeira.” 73

Toda essa argumentação é levada adiante com o propósito de alertar os leitores,

especialmente os pastores ou interessados em ingressar no ministério, para a necessidade de

“iniciar com a Palavra de Deus. Nossa filosofia de ministério deve ser fundamentada na

teologia bíblica.” 74

O problema do argumento de Wagner é que ele força o leitor a abraçar um dos dois

modelos, desconsiderando a possibilidade de um terceiro: O do pastor que cuida

administrando, um tipo de condução designado pela moderna administração de liderança































 


















70
Ibid., p. 160.
71
Ibid., p. 24.
72
Ibid., p. 165, 166.
73
Ibid., p. 123.
74
Ibid., p. 77.
34

servil.75 Pollard76 descreve o líder servidor como alguém que presta um serviço e reconhece

que as pessoas possuem dignidade, por terem sido criadas conforme a imagem e semelhança

de Deus. Este líder se sacrifica pelos seguidores, faz acontecer, ou seja, é voltado para o

desempenho, mas orientado pelo valor, doa ao invés de tomar, promove a diversidade e a

mútua colaboração e se preocupa com o bem-estar de seus liderados. Ele afirma que “um líder

com intenção de servir pode proporcionar esperança, [...] e pode ser um exemplo para aqueles

que estão em busca de direção [...] e que desejam realizar e colaborar”.77 A descrição

fornecida por outro autor sugere amor, bons relacionamentos, caráter, aperfeiçoamento

humano e formação de comunidade.78

Na visão atual de administração, a liderança não apenas capacita indivíduos e equipes

a aperfeiçoar a produção, mas auxilia-os a serem melhores pessoas e a encontrar significado

em seu trabalho.79 A visão contemporânea da liderança contempla as capacidades

reconhecidas de tomar decisões e influenciar pessoas, ao lado de construir relações e dar e

procurar informações.80 O modelo tradicional de condução, anteriormente centrado em

liderança e autoridade, agora agrega serviço sacrificial, amor e vontade.81 O sucesso das

novas organizações depende cada vez mais não de tecnologias, estruturas e processos, mas de

pessoas.82 Montoya considera que “o pastor é a pessoa chamada para prover a liderança final































 


















75
O termo “servil”, aqui, não tem a conotação negativa de condescendência, adulação ou subserviência, mas o
sentido positivo de “relativo ou pertencente a servo” (HOUAISS, Antônio; VILLAR, Mauro de Sales. (Ed.).
Servil. In: Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa. Versão 1.0.5a. Editora Objetivo Ltda., 2002.
CD-ROM).
76
POLLARD, C. William. O Líder Servidor. In: HESSELBEIN, Frances; GOLDSMITH, Marshall; BECKHARD,
Richard. (Ed.). O Líder do Futuro: Visões, Estratégias e Práticas Para uma Nova Era. São Paulo: Futura, 1996, p. 241-247.
77
Ibid., p. 242.
78
HUNTER, James C. Como Se Tornar Um Líder Servidor. Rio de Janeiro: Sextante, 2006, passim.
79
BENNIS, Warren; NANUS, Burt. Líderes: Estratégias Para Assumir a Verdadeira Liderança. São Paulo:
Editora Harbra, 1988, p. 14-15.
80
CARAVANTES; PANNO; KLOECKNER, op. cit., p. 512-513.
81
HUNTER, James C. O Monge e o Executivo. Rio de Janeiro: Sextante, 2004, p. 57-71.
82
CHIAVENATO, op. cit., p. 482.
35

na igreja, não importando o sistema administrativo dela”.83 Através do exercício da liderança,

o pastor persegue objetivos bíblicos a fim de glorificar a Deus.84

Wagner não desconhece essa possibilidade, apenas decide rejeitá-la: “Para ser

honesto, o termo ‘servo-líder’ não me convence. Prezo o que se procura transmitir, mas [...]

não penso que seja necessário, ‘pastor de ovelhas’ está ótimo.” 85

De fato a palavra “liderança” não é isenta de problemas. Gerzon chama a atenção para

o fato de, em alemão, “o líder” é der Fuhrer, uma expressão que, sem dúvida, “nos leva a

refletir sobre o seu lado mais sombrio”.86 A situação na língua inglesa não é muito mais

favorável.

A palavra inglesa leadership (liderança) origina-se da antiga raiz leith, que


significa “tornar-se visível e morrer” em uma batalha. Por essa definição, os
que incentivam o grupo A a cometer violência contra o grupo B são os
“líderes”. Se removermos a violência da equação e, mesmo que o líder
represente um valor ou causa maiores, a palavra ainda significará o ato de
mobilizar um grupo para dominar ou conquistar o outro. O resultado de tal
liderança é sempre um conflito maior e pior.87

Diferentemente de Gerzon, que levanta os problemas relacionados ao uso do termo

liderança, mas mesmo assim o mantém, ainda que qualificado,88 Wagner simplesmente rejeita

a expressão “servo-líder” sem fornecer uma sustentação conceitual, aparentemente por uma

questão de preferência pessoal: “[...] não penso que seja necessário” (grifo nosso). Se ele

estiver certo, as evidências bíblicas demonstrarão que não há relação necessária — nem

desejável — entre pastoreio e administração. Se o ensino da Escritura apontar para outra

direção, especialmente se o conceito de pastor-administrador for defensável biblicamente, os

argumentos de Wagner terão de ser reconsiderados.































 


















83
MONTOYA, Alex D. A Liderança. In: MACARTHUR JR., John. (Ed.). Ministério Pastoral: Alcançando a
Excelência no Ministério Cristão. 4. ed. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembléias de Deus, 2004, p. 294.
84
Ibid., p. 295.
85
WAGNER, op. cit., p. 117.
86
GERZON, Mark. Liderando Pelo Conflito: Como Líderes de Sucesso Transformam Diferenças em
Oportunidades. Rio de Janeiro: Elsevier, 2006, p. 24.
87
Ibid., p. 25.
88
Ibid., p. 19-62, sugere três tipos de líderes: O demagogo, o administrador e o mediador.
36

2.3 O Pastoreio Como Cuidado, Liderança e Organização do Rebanho

O pastoreio da igreja é ilustrado pelo exercício da profissão pastoral dos tempos

bíblicos, que envolvia o cuidado de rebanhos.89 A observação dos dados bíblicos,

relacionados ao serviço pastoral, permite três elaborações. Primeiro, o pastor cuida do

rebanho. Segundo, o cuidado do rebanho exige direção. Terceiro, o cuidado do rebanho

demanda organização.

2.3.1 O Que o Cuidado do Rebanho nos Ensina Sobre o Pastoreio e a Administração

O serviço pastoral é descrito, no Antigo Testamento, doravante denominado AT,90

pela raiz h[r, “alimentar” ou “apascentar” (Gn 48.15). O h[,ro—, “pastor”, é aquele que

alimenta o rebanho e dele cuida providenciando água, descanso e proteção.91































 


















89
DANIEL-ROPS, Henri. A Vida Diária Nos Tempos de Jesus. 2. ed. São Paulo; Vida Nova, 1986, p. 150-151.
90
É preciso esclarecer alguns pressupostos hermenêuticos do autor. O que Pratt Jr. afirma sobre a leitura do AT
aplica-se a este estudo. A interpretação da Bíblia que se segue decorre da interação do texto cheio de autoridade
com os “nossos compromissos, crenças e experiências [...]. Colocamo-nos diante das Escrituras com
pressuposições, mas também com a disposição de ouvir. Falaremos dessa nossa interação com o texto como um
Diálogo com a Autoridade” (PRATT JR., Richard L. Ele Nos Deu Histórias: Um Guia Completo Para a
Interpretação das Histórias do Antigo Testamento. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 39). O texto é enfocado
como Palavra de Deus inspirada, inerrante, infalível e suficiente (cf. HARRIS, Robert Laird. Inspiração e
Canonicidade da Bíblia. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 59-126; BOICE, James M. et al., op. cit., p. 12-13,
57-74).
O método de interpretação utilizado nesta pesquisa é o sintático-teológico, uma atualização conceitual do estudo
histórico-gramatical proposto por Karl A. G. Keil, que estabelece como necessária a apreensão de perícopes
completas dentro de seus contextos (cf. KAISER JR., Walter C.; SILVA, Moisés. Introdução à Hermenêutica
Bíblica. São Paulo: Cultura Cristã, 2002, p. 31). PRATT JR., op. cit., p. 440, nos informa que este tipo de
interpretação é denominado por Mickelsen “histórico-gramatical-contextual” (Interpreting the Bible, 159 — e
por Virkler, “histórico-cultural” e “léxico-sintático” — Hermeneutics, 76-112). O sentido das passagens isoladas
é definido, além de por seus conteúdos intrínsecos, pela comparação destas com outras que tratam do mesmo
assunto. Além disso, predominam os sentidos naturais dos textos, rejeitando-se a alegorização. Nesse particular,
admite-se uma influência reformada e puritana na interpretação (cf. LOPES, Augustus Nicodemus. A Bíblia e
Seus Intérpretes: Uma Breve História da Interpretação. São Paulo: Cultura Cristã, 2002, p. 173-174).
Reconhece-se que a Bíblia não é um livro sobre administração. Por essa razão, esta pesquisa é conduzida com o
cuidado de não cometer a falácia do anacronismo semântico, de atribuir às passagens ou a um vocábulo, em
particular, “um significado mais recente”, não imaginado pelos autores bíblicos (cf. CARSON, D. A. Os perigos
da Interpretação Bíblica. 2. ed. reimp. (2002). São Paulo: Vida Nova, 2001, p. 31-33).
A última observação é sobre o padrão adotado para a transcrição de termos nas línguas bíblicas originais. De
modo geral observa-se a instrução de Greggersen e Carvalho: “Citações do grego, hebraico e aramaico devem
37

2.3.1.1 Deus Cuida de Seu Povo

No AT Deus se revela como Pastor de Israel: “O SENHOR é o meu pastor; nada me

faltará” (Sl 23.1; cf. Gn 49.24). Ele fortalece e abençoa ao seu povo, “apascenta-o e exalta-o

para sempre” (Sl 28.9; cf. Sl 68.7-9, 74.1, 79.13, 95.7).

Isaías antevê o dia em que Yahweh, “como pastor, apascentará o seu rebanho; entre os

seus braços recolherá os cordeirinhos e os levará no seio; as que amamentam ele guiará

mansamente” (Is 40.11). Através do profeta Ezequiel (Ez 34.14-16) Deus promete às suas

ovelhas: “Apascentá-las-ei de bons pastos, e nos altos montes de Israel será a sua pastagem;

deitar-se-ão ali em boa pastagem e terão pastos bons nos montes de Israel. Eu mesmo

apascentarei as minhas ovelhas e as farei repousar, diz o SENHOR Deus.” 92

Pela boca de Jeremias Deus assegura o estabelecimento de um novo pastoreio: “Dar-

vos-ei pastores segundo o meu coração, que vos apascentem com conhecimento e com

inteligência” (Jr 3.15).93 Tal promessa torna-se mais específica em Jeremias 23.4. Deus

levantará “pastores” que cuidarão do rebanho de Israel e, no versículo seguinte, relaciona a

promessa com a aliança davídica (Jr 23.4-6), ou seja, os pastores apontam para o Pastor































 


















ser feitas nos alfabetos originais, (sem transliterações)” (GREGGERSEN, Gabrielle; CARVALHO, Tarcízio de.
Manual de Dissertação. Edição em PDF. São Paulo: Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper,
2004, p. 21). Em tais casos os vocábulos são seguidos da tradução entre aspas na primeira ocorrência, e de
nenhuma tradução a partir da segunda. Transliterações são mantidas, porém, nas citações de outros autores.
91
YOUNGBLOOD, Ronald F. (Ed.). Dicionário Ilustrado da Bíblia. São Paulo: Vida Nova, 2004, p. 1082,
1083.
92
A referência aos “altos montes” e “montes de Israel” (Ez 34.14; cf. Ez 37.22) sugere a busca de melhores
pastagens. Daniel-Rops nos informa que os pastores saíam com seus rebanhos a fim de assegurar-lhes
alimento “uma semana antes da Páscoa e não voltavam senão em meados de novembro, nas primeiras
chuvas de Hesvan” (DANIEL-ROPS, op. cit., p. 150). Os pastos nas regiões baixas tornavam-se
empobrecidos em razão do pastoreio da primavera. Os pastores mais experimentados, por ocasião do verão,
conduziam seus rebanhos para “os espessos gramados das encostas” (LUCADO, Max. Seguro Nos Braços do
Pastor: Esperança e Encorajamento do Salmo 23. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembléias de Deus,
2005, p. 55, 56).
93
Schökel e Dias sugerem que a frase “segundo o meu coração” pode ser traduzida como “à minha vontade” e
relaciona-se com “que lhe agrada”, de 1Samuel 13.14, “descrevendo o novo eleito, Davi” (SCHÖKEL; L.
Alonso; DIAS, J. L. Sicre. Profetas I: Isaías, Jeremias. São Paulo: Paulinas, 1988. (Coleção Grande Comentário
Bíblico), p. 449, 451).
38

Jesus. Em Ezequiel lê-se algo semelhante. A expressão “o meu servo Davi” é usada em lugar

de uma pessoa — Jesus (Ez 34.24; cf. Ez 37.22, 24).

Tais predições revelam a meta redentora divina de “trazer o Messias no tempo devido

dentro do curso da história”.94 Jesus Cristo cumpre as promessas messiânicas.95 Jesus é

poimh.n o` kalo,j, “o bom pastor” que “dá a vida pelas ovelhas” (Jo 10.11), o poime,na tw/n

proba,twn to.n me,gan, “grande Pastor das ovelhas” (Hb 13.20), o poime,na kai. evpi,skopon,

“Pastor e Bispo” das almas (1Pe 2.25) e o avrcipoi,menoj, “Supremo Pastor” que dará aos

pastores locais a “imarcescível coroa de glória” (1Pe 5.4). O apóstolo Paulo faz referência ao

serviço pastoral sem aplicar o título de Pastor diretamente a Cristo. Isso não quer dizer que as

idéias comunicadas pelo vocábulo poimh.n estejam ausentes dos escritos paulinos. Paulo

refere-se a esses mesmos construtos utilizando ku,rioj, “Senhor” (2Co 6.18; Ef 5.29, no

Byzantine Majority Text, 2Tm 3.11, 4.17).96

2.3.1.2 Deus Destaca Pessoas Para Cuidar de Seu Povo

Aqueles que detêm posição de autoridade em Israel são também denominados

pastores (Jr 3.15; Ez 34.2, 8-9).97 Moisés (Êx 3.1), Davi (Sl 78.70-72) e Amós (Am 1.1)

cuidaram de ovelhas, antes de assumir posições de destaque perante Israel.98 White entende

que “esse atributo divino é uma das características dos ofícios de profeta, sacerdote e rei. A































 


















94
VAN GRONINGEN, Gerard. Criação e Consumação. São Paulo: Cultura Cristã, 2002. v. 1, p. 543.
95
Isso é assim ainda que nos Evangelhos Sinóticos só haja uma referência a Deus como pastor (em Lucas 15.4-7
e na passagem paralela, em Mateus 18.12-14). Cf. BEYREUTHER, Erich. Pastor. In: COENEN, Lothar;
BROWN, Colin. (Orgs.). Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. 2. ed. São Paulo: Vida
Nova, 2000. v. 2. p. 1590.
96
Ibid., loc. cit.
97
LASOR, William S.; HUBBARD, David A.; BUSH, Frederic W. Introdução ao Antigo Testamento. São
Paulo: Vida Nova, 1999, p. 397; BEASLEY-MURRAY, G. R. Ezequiel. In: DAVIDSON, F. (Ed.). O Novo
Comentário da Bíblia. 1. ed. reimp. (1985). São Paulo: Vida Nova, 1963. v. 2, p. 807. Cf. SCHÖKEL; DIAS, op.
cit., p. 444, no livro de Jeremias, por exemplo, “os pastores são delegados de Deus, os quais haverão de garantir
a vassalagem da aliança.”
98
YOUNGBLOOD, op. cit., p. 1082.
39

pretensão de Davi ao trono se baseava no fato de que Deus lhe ordenara que alimentasse o

povo (2Sm 5.2).” 99

No Novo Testamento, doravante denominado NT, Cristo incumbe Pedro de

“pastorear” as ovelhas (Jo 21.15-17 — Bo,ske,, “apascenta”, nos versículos 15 e 17, e poi,maine,

“pastoreia”, no v. 16). O mesmo apóstolo escreve mais tarde, exortando aos presbu,teroi,

“presbíteros”: “poima,nate, ‘pastoreai’ o rebanho de Deus que há entre vós” (1Pe 5.2).

Também Paulo dirige-se aos presbíteros, em termos semelhantes: “Atendei por vós e por todo

o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu evpisko,pouj, ‘bispos’, para poimai,nein,

‘pastoreardes’ a igreja de Deus, a qual ele comprou com o seu próprio sangue” (At 20.28, cf.

At 20.17). Em suma, os apóstolos e os presbíteros são intitulados, metaforicamente, pastores

(Ef 4.11; cf. At 20.17, 28).100 A partir do modelo divino — o cuidado do Senhor por seu povo

— os pastores bíblicos atendem amorosamente às reais necessidades da igreja de Deus.

2.3.2 O Que a Liderança do Rebanho nos Ensina Sobre o Pastoreio e a Administração

Observou-se em 2.1 que a administração compreende a liderança. De acordo com a

Bíblia, Deus pastoreia liderando: “Ele me faz repousar [...]. Leva-me para [...]. Guia-me [...]”

(Sl 23.2-3).101 A passagem transmite a idéia de satisfação das necessidades das ovelhas no

contexto do exercício da autoridade do “Rei-Pastor.” 102































 


















99
WHITE, William. Rā‘âh. In: HARRIS, R. Laird; ARCHER JR., Gleason L.; WALTKE, Bruce K. (Org.).
Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1998. p. 1437-1438.
100
VINE, W. E.; UNGER, Merril F.; WHITE JR., William. Dicionário Vine. 7. ed. Rio de Janeiro: Casa Editora
das Assembléias de Deus, 2006, p. 856.
101
Grifos nossos.
102
STEK, John H. Salmos. In: BARKER, Kenneth et al. (Orgs.). Bíblia de Estudo Nova Versão Internacional,
doravante denominada BENVI. São Paulo: Vida, 2003, notas de estudo Sl 23 e 23.1, p. 895-896.
40

2.3.2.1 Deus Lidera Seu Povo

O vocábulo hx'n", usado em Salmo 23.3, ocorre no AT significando: (1) Guiar ou

conduzir “pelo caminho direito”;103 Davi utiliza a expressão quando pede a Yahweh para

guiá-lo na “justiça” (Sl 5.8) e ao afirmar: “Tu me conduzirás e me guiarás” (Sl 31.3); (2)

dirigir pessoas para o alcance de finalidades específicas, por exemplo, Deus “guia” o

servo de Abraão até a casa dos parentes do patriarca, a fim de obter uma noiva para Isaque

(Gn 24.27), “conduz” os peregrinos de Israel de dia e de noite, ao destino proposto da

Terra Prometida (Êx 13.21), além de ser o estrategista que “conduz” os seus com a

finalidade de vencer Edom (Sl 60.9; cf. Sl 108.10); (3) soberania na criação, governo e

manutenção do universo, dos povos em geral e, especialmente, de Israel, o que pode ser

verificado no primeiro discurso de Yahweh a Jó (Jó 38.32), na convocação das “gentes”

para o louvor de Deus, seu Juiz e Guia (Sl 67.4) e nas palavras de Asafe, que enxerga, nos

fatos do Êxodo, evidências da direção segura do divino pastor (Sl 78.52-53). Ainda com

esse último sentido, Isaías utiliza o sinônimo gh;n" para descrever o modo cuidadoso como

Deus, na era messiânica, “conduzirá” o seu povo (Is 49.10).

A ligação entre o pastoreio e a liderança é percebida ainda nos textos analisados na

seção anterior, referentes ao reino messiânico. A promessa da vinda do pastor que tomará

nos braços os cordeirinhos é precedida desta declaração: “O Soberano, o Senhor, vem com

poder! Com seu braço forte ele governa. A sua recompensa com ele está, e seu galardão o

acompanha” (Is 49.10).104 O pastor que alimenta e busca as ovelhas perdidas, é o mesmo

que disciplina (Ez 34.16). O Pastor anunciado por Jeremias “reinará, e agirá sabiamente, e































 


















103
COPPES, Leonard J. N¹µâ. In: HARRIS; ARCHER JR.; WALTKE. (Org.). Op. cit., 1998a, p. 947. Idem.
N¹hag. In: HARRIS, ARCHER JR.; WALTKE, op. cit., 1998b, p. 930.
104
BENVI, grifo nosso.
41

executará o juízo e a justiça na terra” (Jr 23.5). O Messias “será príncipe no meio” das

ovelhas de Israel (Ez 34.24), unindo o rebanho outrora disperso sob sua única liderança

(Ez 37.24).

Um trecho do Evangelho de João demonstra que Cristo pastoreia liderando. Ele

“chama pelo nome as suas próprias ovelhas e as conduz para fora” (Jo 10.3). A mesma

expressão é usada em outros lugares, refletindo a idéia de liderança ou condução: Após a

ressurreição, o Senhor “levou” os seus discípulos para Betânia (Lc 24.50). Estêvão discursou

diante das autoridades judaicas, lembrando o modo como Deus “tirou” os judeus da terra do

Egito (At 10.36). O autor da carta aos Hebreus cita uma profecia de Jeremias, relembrando a

época em que Deus tomou Israel pela mão, para “conduzi-lo” até “fora da terra do Egito” (Hb

8.9). Ainda no Quarto Evangelho Jesus afirma que o pastor, “depois de fazer sair todas as

[ovelhas] que lhe pertencem, vai adiante delas, e elas o seguem, porque lhe reconhecem a

voz” (Jo 10.4).105 No mesmo versículo, a ação condutora evidencia-se em outro detalhe:

Cristo “vai adiante” de suas ovelhas, e estas “o seguem”. Em João 10.16 afirma-se que

convém ao pastor “conduzir” as ovelhas. Para Stewart, tais afirmações sugerem “a

familiaridade das ovelhas com a voz do seu líder autêntico.” 106

O apóstolo Pedro (1Pe 2.25) descreve Cristo juntando os títulos poimh,n, “pastor” e

evpi,skopoj, “bispo”, literalmente, “inspetor”,107 “chefe; guardião”.108 Na mesma epístola (1Pe

5.4), poi,menoj é precedido de avrci, o que transmite a idéia de “governo e forte tom de































 


















105
O vocábulo evkba,llw carrega um sentido de “força” (RIENECKER, Fritz; ROGERS, Cleon. Chave
Lingüística do Novo Testamento Grego. São Paulo: Vida, Nova, 1985, p. 178). Hendriksen enxerga aqui a
indicação de uma ação enérgica de Cristo: “O pastor, Jesus, faz sair todas as suas ovelhas. Ele vence todas as
objeções delas. Algumas vezes as ovelhas tinham de ser forçadas a sair! De modo algum, qualquer que lhe
pertencesse era deixada para trás” (HENDRIKSEN, William. Comentário do Novo Testamento: João. São
Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 455, grifo do autor).
106
STEWART, R. A. Pastor. In: DOUGLAS, J. D. (Ed. Org.). O Novo Dicionário da Bíblia. 1. ed. reimp.
(1986). São Paulo: Vida Nova, 1962. v. 2, p. 1213.
107
LUZ, Waldyr Carvalho. Novo Testamento Interlinear. São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p. 827.
108
TAMEZ, Elsa; FOULKES, Irene W. de. Diccionario Conciso Griego — Español del Nuevo Testamento.
Stuttgart: German Bible Society: 1994, p. 70.
42

autoridade”.109 O Apocalipse promete que o Cordeiro “apascentará e [...] guiará” o seu povo

“para as fontes da água da vida” (Ap 7.17).110

Enquanto o AT “apresenta Deus como o Pastor líder de Israel (Sl 80.1; Ez 34.14)”,111

a terminologia neotestamentária sugere “um paralelismo surpreendente entre Jesus-pastor e


112
Jesus-chefe, que converge e reordena todas as coisas,” ou, como expressa Basílio de

Cesaréia: “Ele é rei dos que já alcançaram as culminâncias, e precisam de chefe legítimo.” 113

2.3.2.2 Deus Destaca Pessoas Para Liderar Seu Povo

No que diz respeito à liderança o serviço pastoral exercido por homens guarda

semelhanças com o pastoreio divino. O AT utiliza hx'n" para referir-se a pessoas ou nações

sendo conduzidas (algumas vezes a contragosto) tanto por Deus quanto por autoridades

humanas.114 Coppes enxerga, no uso dos termos relacionados à direção, no AT, a indicação da

“ação de conduzir, de modo organizado, [...] pessoas a um destino intencional seja pela força

seja por liderança.” 115

No NT o exercício humano do pastoreio reflete o modelo de Cristo. O serviço pastoral

e a liderança são mesclados em diversos pontos. Uma primeira evidência encontra-se na

epístola aos Hebreus 13.7, 17 e 24. Em todas as ocasiões utiliza-se o verbo h`ge,omai, “liderar

ou guiar”. A partir das afirmações “os quais vos pregaram a palavra de Deus” (Hb 13.7) e

“velam por vossa alma” (Hb 13.17), infere-se que tais “guias” são os pastores das igrejas. O































 


















109
WAGNER, op. cit., p. 159.
110
Grifo nosso.
111
YOUNGBLOOD, op. cit., p. 1082, grifo nosso.
112
VON ALLMEN, J. J. Pastor. In: VON ALLMEN, J. J. (Org.). Vocabulário Bíblico. 2. ed. São Paulo:
Associação dos Seminários Teológicos Evangélicos, 1972, p. 316.
113
MAGNO, Basílio. Basílio de Cesaréia: Homilia sobre Lucas 12; Homilias Sobre a Origem do Homem;
Tratado sobre o Espírito Santo. São Paulo: Paulus, 1998, p. 108.
114
Em virtude de uma deliberação de Davi, seus pais são “levados” diante do rei de Mispa de Moabe (1Sm
22.4). Sob a ordem do rei da Assíria, Israel foi “transportado” para Hala, junto a Habor e ao rio Gozã (2Rs
18.11) e, no Êxodo, Deus “conduziu” o seu povo, “como rebanho, pelas mãos de Moisés e Arão” (Sl 77.20). Um
sentido organizacional é verificado em 1Reis 10.26: Salomão “distribuiu” suas tropas entre as cidades do reino.
115
COPPES, 1998b, p. 929.
43

pastoreio-liderança por eles realizado reflete o de Cristo, uma vez que a mesma palavra é

usada no Apocalipse (7.17, citado na seção anterior), referindo-se à condução do povo de

Deus pelo “Cordeiro.” 116

O próprio Redentor regula o exercício dessa autoridade. Em Marcos 10.42 ele se

refere às autoridades sobre os povos utilizando o vocábulo a;rcein, “governar”. Estes

“governadores” comandam pela força, mas o discípulo deve ser como um dia,konoj, um

“servente” ou “servo” (Mc 10.43). Não se proíbe, nesse caso, o exercício da liderança, mas

estabelece-se o modelo de liderança cristã. Parece que o problema não está, como argumenta

Wagner alhures, na conjugação do termo “líder” com “servo”, nem mesmo na sustentação,

dentro da igreja, de pessoas em posição institucional de liderança, mas no exercício humilde

da função — uma liderança do rebanho que reflete o próprio Senhor Jesus Cristo, que “não

veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mc 10.44-45).

Os presbu,teroi, “presbíteros” ou evpisko,poi, “bispos”, são o equivalente

neotestamentário dos anciãos de Números 11.16-25, os “superintendentes” (Nm 11.16),

designados para compartilhar, com Moisés, o fardo de instrução, julgamento de causas e

direção (Nm 11.17).117 Estes presbíteros são os proi?stame,nouj, “que presidem” e

admoestam a igreja no Senhor (1Ts 5.12). A mesma palavra é usada pelo apóstolo ao dizer

que o presbítero deve “governar” a própria casa (1Tm 3.4). O jovem — e ao que tudo

indica, tímido — pastor da igreja em Éfeso deveria aprender a liderar: “Para,ggelle,

“ordena” e ensina estas coisas” (1Tm 4.11), literalmente “transmita essas coisas como































 


















116
A palavra evoca, indubitavelmente, a idéia de autoridade para conduzir, uma vez que é traduzida, em Atos
15.22 como “notáveis”, “homens considerados” (Bíblia de Jerusalém: Nova Edição, Revista e Ampliada. 2ª
reimp. (2003). São Paulo: Paulus, 2002, doravante denominada BJ) ou “líderes” (BENVI). Na Septuaginta,
doravante denominada LXX, a expressão é usada em diversos contextos, referindo-se a “cabeças” (Dt 1.13),
príncipes (Js 13.21; 2Cr 5.2, 17.7; Et 1.16), comandantes (2Cr 11.11), líderes de guarnições (2Cr 17.2),
poderosos da terra (Ez 17.13), governadores (Jr 28.28; Ez 23.6, 12), prefeitos (Dn 3.2) e presidentes (Dn 6.2).
Uma vez que, em todas essas referências, homens são revestidos de autoridade para dirigir, é plausível afirmar
que, no caso específico de Hebreus, os pastores-guias devem ser não apenas respeitosa e ternamente
considerados, mas obedecidos.
117
Cf. HENDRIKSEN, William. Comentário do Novo Testamento: 1 Timóteo, 2 Timóteo e Tito. São Paulo:
Cultura Cristã, 2001, p. 224.
44

uma prescrição”.118 Em outro lugar, destacam-se dois aspectos do ofício presbiterial:

Presidir “bem” e afadigar-se “na palavra e no ensino” (1Tm 5.17).119































 


















118
BJ, grifo nosso.
119
Um entendimento questionável sobre o serviço presbiterial é demonstrado por Volkmann (cf. VOLKMANN,
Martin. Teologia Prática e o Ministério da Igreja. In: SCHNEIDER-HARPPRECHT, Christoph. (Org.). Teologia
Prática no Contexto da América Latina. São Leopoldo: Sinodal, 1998, passim). Ele sugere que, conforme foi se
institucionalizando, a “comunidade primitiva de Jerusalém” absorveu gradativamente a modalidade presbiterial
de direção, inspirada pelo conselho de anciãos das sinagogas judaicas (ibid., p. 83). Com base nos relatos de
Atos — ele reconhece — as igrejas elegiam presbíteros, inclusive sob a liderança de Paulo (ibid., p-83-84). No
entanto, a liderança presbiterial é estranha à teologia paulina. As cartas paulinas não mencionam o assunto; o
modelo de liderança presbiterial introduziu-se gradativamente “a partir das comunidades judaico-cristãs, tendo-
se imposto no decorrer dos anos, à medida que a Igreja foi se organizando e institucionalizando” (ibid., p. 84,
grifo nosso). A partir desse ponto, afirma-se que o serviço presbiterial,“mais institucional”, se diferenciava do
serviço profético, “mais espontâneo” (Ibid., p. 83). O profeta é divinamente chamado e não se lança ao serviço
“por iniciativa própria, mas por comprometimento exclusivo com o próprio Deus” (Ibid., p. 84).
Tais postulados são relevantes para a presente pesquisa, uma vez que são apresentados como “raízes bíblicas do
ministério” (ibid., p. 80-81), o que inclui o pastoreio, e produzem duas conseqüências: Primeiro, Volkmann
entende que as epístolas Pastorais (1 Timóteo, 2 Timóteo e Tito) não foram escritas por Paulo, mas surgiram no
contexto de “solidificação” e “estruturação” da igreja, no final do primeiro século (ibid., p. 85). Esse ponto de
vista é compartilhado por outros autores (e.g., BRUNNER, Emil. O Equívoco Sobre a Igreja. São Paulo: Novo
Século, 2000, p. 88; CHARPENTIER, Etienne. Para Ler o Novo Testamento. São Paulo: Loyola, 1992, p. 52;
GABEL, John B.; WHEELER, Charles B. A Bíblia Como Literatura. São Paulo: Loyola, 1993, p. 191-192;
HARRINGTON, Wilfrid J. Chave Para a Bíblia: A Revelação, a Promessa, a Realização. São Paulo: Paulinas,
1985, p. 554, 556; KÜMMEL, Werner Georg. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 1982, p.
319, 320, 321), cuja análise detalhada das ponderações foge ao escopo do presente estudo. Pode ser afirmado,
porém, que há argumentação consistente e suficiente, por parte da erudição contemporânea, para a aceitação da
autoria paulina das epístolas Pastorais (e.g., BLOMBERG, Craig L. A Credibilidade Histórica do Novo
Testamento. In: CRAIG, William L. (Ed.). A Veracidade da Fé Cristã: Uma Apologética Contemporânea. São
Paulo: Vida Nova, 2004, p. 191-235; CARSON, D. A.; MOO, Douglas J.; MORRIS, Leon. Introdução ao Novo
Testamento. 1. ed. reimp. (2002). São Paulo: Vida Nova, 1997, p. 395-411; GUNDRY, Robert H. Panorama do
Novo Testamento. 2. ed. reimp. (2003). São Paulo: Vida Nova, 1998 p. 359-363; HALE, Broadus David.
Introdução ao Novo Testamento. ed. rev. ampliada. São Paulo: Hagnos, 2001, p. 321-330; HENDRIKSEN,
2001, op. cit., p. 10-47; HINSON, E. Glenn. I e II Timóteo e Tito. In: ALLEN, Clifton J. (Ed.). Comentário
Bíblico Broadman: Novo Testamento. Rio de Janeiro: Junta de Educação Religiosa e Publicações, 1985, p. 361-
365; HARRIS, op. cit., p. 33-37, 217-255; RIDDERBOS, Herman. A Teologia do Apóstolo Paulo: A Obra
Definitiva Sobre o Pensamento do Apóstolo dos Gentios. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 14-15, 520-522);
ELLIS, E. Earle. Cartas Pastorais. In: HAWTHORNE, Gerald F.; MARTIN, Ralph P. (Orgs.). Dicionário de
Paulo e Suas Cartas. São Paulo: Vida Nova, Paulus, Loyola, 2000, p. 181-191; MARSHALL, I. Howard.
Teologia do Novo Testamento: Diversos Testemunhos, Um Só Evangelho. São Paulo: Vida Nova, 2007, p. 345-
363; THIELMAN, Frank. Teologia do Novo Testamento: Uma Abordagem Canônica e Sintética. São Paulo:
Shedd Publicações, 2007, p. 261-278, 487-573.
O ponto a salientar é que a aceitação da autoria paulina das Pastorais não é uma questão de pequeno porte. Ela
faz grande diferença na concepção da igreja sobre a relação entre pastoreio e administração, pois, se o próprio
apóstolo Paulo escreveu estas epístolas, ou supervisionou diretamente sua escrita, estamos lidando com
documentos autoritativos, confiáveis e adequados para a elaboração de uma teologia bíblica do serviço pastoral.
Se, por outro lado, as Pastorais foram escritas por um ou mais discípulos de Paulo, após sua morte, como
garantir que, de fato, seus conteúdos refletem fielmente o ensino apostólico? Alguns poderiam alegar, por
exemplo, que certas instruções destas últimas (como as regulamentações para eleição de oficiais) se chocam com
os ensinos “autenticamente paulinos”. Além disso, elas poderiam ser consideradas inferiores canonicamente, o
que já é insinuado por determinados autores: “[...] epístolas pastorais subapostólicas” (BRUNNER, op. cit., loc.
cit.), “um grupo à parte” (KÜMMEL, op. cit., p. 320.) ou “deuteropaulinas” (GABEL & WHEELER, op. cit., p.
191.). A partir do momento em que isso é admitido, deve-se questionar, inclusive, se nas epístolas ditas
autenticamente paulinas, não existem, também, incorreções inseridas a posteriori (KÜMMEL, op. cit., p. 321).
A segunda conseqüência das asseverações de Volkmann é a instalação de uma ruptura não-bíblica entre o
pastoreio da igreja-comunidade e a administração da igreja-instituição. Impõe-se um dualismo. De um lado,
45

A Escritura nos informa que não há dilema entre pastorear — e isso atentando para o

“aperfeiçoamento dos santos” (Ef 4.12) — na dependência do Espírito, e governar.

2.3.3 O Que a Organização do Rebanho nos Ensina Sobre o Pastoreio e a Administração

Afirmou-se em 2.1 que administrar tem relação com organizar. Como função,

organização descreve a tarefa de obter e colocar em ordem o trabalho, a autoridade e os

recursos, com a finalidade de alcançar metas.120 Como instituição, a organização “é uma

entidade social composta de pessoas e deliberadamente estruturada e orientada para um

objetivo comum”.121 Tais idéias ressoam, de certo modo, as informações bíblicas sobre o

pastoreio divino e humano.

2.3.3.1 Deus Organiza Seu Povo

No Salmo 23 Deus pastoreia organizando. Ele atende a diversas necessidades:

Alimento, água limpa, proteção, liderança e motivação. Cada uma dessas demandas exige

uma providência, ou seja, a realização de ações eficientes e eficazes. De forma semelhante, os
































 


















ressalta-se a comunidade carismática, alicerçada nos escritos “legitimamente paulinos”. Do outro, a instituição,
embasada nas cartas Pastorais. Se as Pastorais refletem um desenvolvimento “tardio” que nada tem a ver com os
apóstolos — a defesa do status quo de uma hierarquia que pouco a pouco se impôs sobre a simplicidade e
autenticidade da comunidade primitiva — a institucionalização da igreja, como afirma Brunner, é um rematado
“equívoco”; a igreja bíblica não possui “o caráter de uma instituição” (BRUNNER, op. cit., p. 93).
Esta pesquisa assume, baseada na posição da maioria dos eruditos evangélicos neotestamentários, a premissa da
autoria paulina das epístolas Pastorais, sugerindo que “a Bíblia é um todo e a sua autoridade completa”
(LLOYD-JONES, Dr. Martin. Autoridade de Jesus Cristo, das Escrituras, do Espírito Santo. Queluz, Portugal:
Núcleo — Centro de Publicações Cristãs, 1978, p. 49). Destarte, os textos que fazem referência aos presbíteros e
bispos, extraídos daquelas cartas, são colocados em paralelo a outras afirmações de Paulo. Aos romanos ele
afirma que a capacidade de “presidir” é concedida pelo Espírito Santo (Rm 12.8), e aos coríntios, revela que
Deus supre a igreja com kubernh,seij, “governos” (1Co 12.28). Isso é possível porque o Senhor Jesus foi
exaltado e, como poderoso conquistador, presenteou a igreja com o pastoreio (Ef 4.7-11, et seq.). O exercício do
governo presbiterial no pastoreio não é, de acordo com tais textos, uma imposição do processo de
institucionalização, destinado a suprimir a comunidade carismática. Não é apenas o profeta, como afirma
Volkmann, que é por Deus chamado e capacitado. A presidência da igreja por seus oficiais é uma dádiva do
Cristo vitorioso — uma obra espiritual.
120
CHIAVENATO, op. cit., p. 18.
121
Ibid., loc. cit.
46

pastores de ovelhas devem envolver-se em diversas atividades organizacionais, a fim de

realizar bem suas atribuições.122

2.3.3.2 O Povo de Deus Deve Organizar-se

Um termo do NT lança luz sobre a incumbência organizacional do povo de Deus: O

substantivo oivkono,moj, “mordomo”, “despenseiro”, “administrador” ou “gerente” que presta

contas de seu trabalho. De modo geral, os cristãos são admoestados a portar-se de tal maneira

que sejam considerados mordomos fiéis, por ocasião da chegada de seu senhor (Lc 12.42; cf.

1Co 4.1-2).123 Eles são todos “despenseiros da multiforme graça de Deus” (1Pe 4.10). Ligado

à administração financeira, Paulo fala de “Erasto, tesoureiro da cidade” (Rm 16.23),124 e dos

“curadores”, responsáveis pela gestão dos bens de um herdeiro “menor” (Gl 4.1-2). No

contexto do pastoreio o “bispo” deve ser “irrepreensível como despenseiro” (Tt 1.7).

De acordo com os textos bíblicos até então examinados, é possível afirmar que o

pastor bíblico é, também, um gerente ou organizador. O pastoreio possui um aspecto

institucional — a viabilização, manutenção e supervisão de atividades e estruturas voltadas

para o cuidado do rebanho. Salvo melhor juízo, parece ser possível afirmar, a partir da

avaliação das passagens da Escritura relacionadas ao serviço pastoral, que não há motivo para

estabelecer-se um falso dilema entre pastorear e gerenciar.































 


















122
BEYREUTHER, op. cit., p. 1587-1588; YOUNGBLOOD, op. cit., p. 1081-1082; DANIEL-ROPS, op. cit., p. 150-151.
Ainda que o ofício pastoral não fosse muito valorizado nos tempos de Jesus, seu exercício exigia qualificação e
organização. O pastor precisava tomar decisões, usar eficientemente o tempo, estabelecer e cumprir rotinas,
definir e executar planos pertinentes e conduzir mudanças, quando necessárias.
123
Em uma de suas parábolas de sentido mais enigmático, Jesus alude a um “administrador” inteligente (Lc
16.1-9). Quanto ao texto de 1Coríntios 4.1-2, ainda que nessa passagem o vocábulo deva ser entendido como
apontando para a correta administração do serviço da Palavra (KISTEMAKER, Simon. Comentário do Novo
Testamento: 1Coríntios. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 185), as repercussões administrativas mais amplas de
oivkono,moj não podem ser minimizadas.
124
Grifo nosso.
47

2.4 Primeira Síntese: Pastoreio e Administração São Interdependentes

Não é inconsistente com a Escritura afirmar que o rebanho de Deus necessita do

serviço pastoral, ao mesmo tempo em que o serviço pastoral implica em administrar. O

serviço pastoral eficiente e eficaz demanda o exercício adequado da liderança e do

gerenciamento, e a administração bíblica é um conjunto de medidas voltadas para o cuidado

das ovelhas de Cristo. Pastoreio e administração são interdependentes.

É respondida a primeira questão subsidiária: Sim, a Bíblia não apenas sugere como

exemplifica e recomenda o vínculo entre o pastoreio e a administração. A administração é não

apenas admitida como possibilidade, mas revelada como necessidade e desdobramento

natural da prática pastoral. O próprio Deus pastoreia administrando e os pastores da igreja

recebem incumbência semelhante.


48

CAPÍTULO III

A ADMINISTRAÇÃO ESTABELECIDA NA CRIAÇÃO COMO


NÚCLEO DE SIGNIFICADO DA ESFERA MODAL ECONÔMICA

Este capítulo analisa as narrativas pré-patriarcais125 a fim de fornecer bases para a

resposta à segunda questão subsidiária desta pesquisa.

Tais narrativas são úteis por duas razões: (1) Deseja-se verificar se a administração

tem sua origem na criação; (2) presume-se que, a partir de tais relatos, seja possível

propor o paradigma cosmonômico — um conjunto bíblico de asserções sobre cosmogonia,

antropogonia, mandatos criacionais, queda e graça comum, articulado pela filosofia da

idéia cosmonômica de Dooyeweerd — como arcabouço para a consideração da

administração como núcleo de significado do aspecto modal econômico, estabelecido na

criação.

No contexto dessas narrativas o capítulo apresenta, ainda, três ferramentas de

análise e interpretação de cosmovisões, com a finalidade de realizar-se uma dupla tarefa:

Somar dados para a síntese fornecida em 3.6 — e assim construir um alicerce para a

resposta à segunda questão subsidiária — e avaliar a cosmovisão da administração

estratégica, o que é feito em 6.5.3.

Não se espera extrair das narrativas nenhum dogma126 relacionado à administração.

Não há a pretensão de sugerir, neste trabalho, que determinado procedimento deva ser

adotado pela igreja contemporânea, pelo simples fato de constar em um relato bíblico. Há































 


















125
O período pré-patriarcal é relatado nos primeiros onze capítulos do livro de Gênesis. Cf. KAISER JR., Walter
C. Teologia do Antigo Testamento. 2. ed. rev. reimp. (1988). São Paulo: Vida Nova, 1984, p. 73. Para Hamilton
esta primeira parte de Gênesis pode ser denominada “História Primitiva” (cf. HAMILTON, Victor P. Manual do
Pentateuco. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembléias de Deus, 2006, p. 17).
126
Um dogma corresponde a uma crença essencial cuja negação implica na rejeição do próprio cristianismo.
OLSON, Roger. História da Teologia Cristã: 2000 Anos de Tradição e Reforma. São Paulo: Vida, 2001, p. 17.
49

consciência do caráter descritivo e não normativo das narrativas.127 Apesar disso, uma prática

confirmada pela Bíblia possui a tripla utilidade de demonstrar, em primeiro lugar, que alguns

procedimentos organizacionais não são estranhos à história da redenção, nem rotulados pela

Escritura como inerentemente pecaminosos. Em segundo lugar, é possível concluir, a partir de

tais registros, que o Texto Sagrado dá abertura para o uso, na condução do povo de Deus, de

métodos administrativos oriundos da cultura circundante. Em terceiro lugar, os registros

permitem a elaboração de um esboço de teologia bíblica da administração, importante para a

leitura inteligente de quaisquer cosmovisões e propostas metodológicas — e isso se relaciona

com a quarta e quinta perguntas subsidiárias.

A análise dos dados bíblicos é precedida de breves explicações sobre cultura e o

cosmos.

3.1 Conceitos Importantes do Terceiro Capítulo

Do ponto de vista agrícola, “cultura” deriva-se do radical latino colere, “arar ou

cultivar”.128 Em fins do século XVIII e inícios do século XIX, o vocábulo germânico kultur

descrevia os “aspectos espirituais de uma comunidade”, enquanto a palavra francesa

civilization relacionava-se com as suas “realizações materiais”.129 Em 1891, Edward Tylor

utilizou a palavra inglesa culture para designar o “todo complexo que inclui conhecimentos,































 


















127
FEE, Gordon D.; STUART, Douglas, Entendes O Que Lês?. 2. ed. reimp. (1998). São Paulo; Vida Nova,
1997, p. 69. Estas observações são também aplicáveis à leitura das narrativas bíblicas apresentada no próximo
capítulo.
128
YAMAUCHI, Edwin M. Cultura. In: HENRY, Carl. (Org.). Dicionário de Ética Cristã. São Paulo: Cultura
Cristã, 2007, p. 153.
129
LARAIA, Roque de Barros. Cultura: Um Conceito Antropológico. 11. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor,
1996, p. 25.
50

crenças, arte, moral, leis, costumes ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo

homem como membro de uma sociedade.” 130

No que diz respeito às “realizações materiais”, a antropologia considera que o homem

domina sobre os outros animais “por ser o único que possui cultura.131 O que comportou tal

diferenciação, além da linguagem, foi “a capacidade da fabricação de instrumentos capazes de

tornar mais eficiente o seu aparato biológico”132, ou seja, a possibilidade de criar tecnologia.

Os processos de troca fomentados pela cultura estimulam a produção, tornando mais

complexa a divisão do trabalho e aumentando as demandas de produção e uso colaborativo da

tecnologia.133

Na perspectiva da antropologia, a absorção de uma cultura dá-se por aprendizado, por

meio de um processo denominado endoculturação.134 A teologia não desconsidera o valor do

aprendizado na formação, mas acrescenta que os dados espirituais da cultura são formatados a

partir de determinadas inclinações inatas — uma herança da “totalidade da condição

espiritual.” 135































 


















130
TYLOR, Edward, Primitive Culture. Londres: John Murray & Co. 1871, apud LARAIA, op. cit., loc. cit.
Kwast descreve a cultura como composta por quatro camadas. De fora para dentro, observam-se (1)
comportamento; (2) valores; (3) crenças e (4) cosmovisão (KWAST, Lloyd E. Entendendo O Que É Cultura. In:
WINTER, Ralph D.; HAWTHORNE, Steven C. Missões Transculturais: Uma Perspectiva Cultural. São Paulo:
Mundo Cristão, 1987, p. 437-441). Hiebert entende que a cultura possui três dimensões: cognitiva, afetiva e
avaliadora (HIEBERT, Paul G. O Evangelho e a Diversidade das Culturas. 1. ed. reimp. 2001. São Paulo: Vida
Nova, 1999, p. 30-35).
131
LARAIA, op. cit., p. 24. Como será demonstrado no restante do capítulo, a visão bíblica sobre a razão do
“domínio” do homem sobre o cosmos é bem diferente da oferecida pela antropologia.
132
Ibid., p. 28-29.
133
SMITH, Adam. A Riqueza das Nações, Volume 1. São Paulo: Martins Fontes, 2003, (Coleção Paidéia), p. 7-
22 (cf. p. 18); FRIEDMAN, Thomas L. O Mundo é Plano: Uma Breve História do Século XXI. 2. ed. rev.
atualizada. São Paulo: Objetiva, 2007, p. 272-300.
134
LARAIA, op. cit., p. 20. Tal conceito parte da premissa de tabula rasa proposta por John Locke (1632 –
1704), o protagonista do empirismo e do behaviorismo: “A mente humana não é mais do que uma caixa vazia
por ocasião do nascimento, dotada apenas da capacidade ilimitada de obter conhecimento” (ibid., p. 26). Locke
expõe suas concepções sobre o processo cognitivo no segundo volume de seu Essay Concerning Human
Understanding (Ensaio sobre o Intelecto Humano). Contrapondo-se à doutrina cartesiana das idéias inatas,
afirma que “o conhecimento humano começa com a experiência sensível e é condicionada por ela: Nihil est in
intellectu quod prius non fuerit in sensu — nada há no intelecto que não tenha estado antes no sentido”
(MONDIM, Battista. Curso de Filosofia. 4. ed. São Paulo: Paulinas, 1981, v. 1, p. 102-105. Cf. VERGEZ,
André; HUISMAN, Denis. História dos Filósofos Ilustrada Pelos Textos. 7. ed. Rio de Janeiro: Freitas Bastos,
1988, p. 218-220).
135
EICHRODT, Walther. Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2004, p. 848.
51

Enfim, a cultura é o produto da interação do homem com o cosmos e entrelaça

construtos espirituais e realizações materiais. A humanidade reúne e categoriza suas

experiências em sistemas maiores de conhecimento, produz tecnologia, cria arte e desenvolve

hábitos transformando o meio em que vive. A cultura encontra-se dentro do homem, no

sentido de cada ser humano possuir sua própria cultura, absorvida através do processo de

endoculturação. Ao mesmo tempo, o homem vive imerso na cultura, que o cerca de todos os

lados. Daí a insistência, neste trabalho, do uso da expressão cultura circundante.

O termo cosmos, utilizado no parágrafo anterior, refere-se ao “espaço universal,

composto de matéria e energia e ordenado segundo suas próprias leis; universo”.136 A palavra

é mantida no plural a fim de garantir coerência com a terminologia de Van Groningen.137

3.2 O Relato Cosmogônico, Deus, o Criador-Administrador e a


Administração Como Parte da Criação

O relato inicial da criação enfatiza a cosmogonia — a origem do cosmos — e é

cuidadosamente elaborado.138 Seus conteúdos são organizados em dois grupos de três, sendo































 


















136
HOUAISS, cultura. In: Op. cit. Nesta pesquisa, não “segundo suas próprias leis”, como se o universo fosse
um sistema autônomo, mas segundo a lei ou nomos divino. No Dicionário Aurélio somente cosmo (no singular)
refere-se ao universo. Cosmos (plural) refere-se a um “gênero de plantas herbáceas da América tropical”.
FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Cosmos e Cosmo. In: Novo Dicionário Eletrônico Aurélio versão
5.0. 3. ed. Positivo Informática Ltda., 2005. CD-ROM.
137
Op. cit., passim.
138
Nesta leitura não é aprofundada a discussão sobre a autoria e unidade de composição de Gênesis. Tampouco
são consideradas as leituras sobre cronologia, modo de operação dos eventos criacionais ou mesmo
evolucionismo versus criacionismo.
A verificação das passagens referidas é encaminhada assumindo-se alguns pressupostos. Primeiramente,
considera-se que os relatos são históricos, ou seja, não são elaborações mitológicas (VAN GRONINGEN, op.
cit., p. 115-116). Nesse ponto discorda-se de Eichrodt (op. cit., p. 843), que lê tal relato como “mito etiológico.”
Assume-se ainda que os relatos integram uma unidade redacional. Eles não são uma coletânea e amálgama de
textos de diversos autores e editores religiosos (HAMILTON, op. cit., p. 21-22).
O terceiro pressuposto assumido na abordagem dos textos é que estes são paradigmáticos, compreendendo-se
paradigma como um modelo ou padrão mental que condiciona a visão de mundo e, conseqüentemente, o
comportamento no trato e desenvolvimento dos magistérios (cf. KUHN, Thomas S. A Estrutura das Revoluções
Científicas. 9. ed. São Paulo: Perspectiva, 2006. Debates, p. 29; para uma defesa do conceito de paradigma de
Kuhn no âmbito da teologia, cf. BOSCH, op. cit., p. 230). Isso equivale a dizer que tais narrativas não apenas
lançam luz sobre o restante das Escrituras, mas fornecem padrões para a averiguação, elaboração de conceitos
e discernimento de práticas pertinentes a diversos setores da vida humana (cf. Gn 2.24; Mt 19.3-6). Tenciona-
52

que os dias um e quatro, dois e cinco e três e seis são correspondentes. Assim, a luz do

primeiro dia é uma preparação para os luminares (sol, luz e estrelas) do quarto dia; os céus

(firmamento) e a “separação entre as águas debaixo do firmamento” do segundo dia preparam

o ambiente para os peixes e pássaros do quinto dia. A terra e a vegetação comestível, criadas

no terceiro dia, formam o habitat para os animais terrestres e o homem, no sexto dia. O

sábado, dia do descanso de Deus, é a culminação da criação.139 Pode ser afirmado ainda que

Deus cria o cosmos em Gênesis 1.1-2, e continua criando e organizando, dentro do cosmos,

em Gênesis 1.3-2.3.

3.2.1 No Relato Cosmogônico Deus Pode Ser Visto Como Criador-Administrador

A Bíblia inicia com “no princípio, criou Deus os céus e a terra” (Gn 1.1).140 Indica-

se, em contraposição às crenças pagãs, que tudo o que há foi livremente criado por Deus.































 


















se verificar se os relatos das origens auxiliam na formulação de uma resposta à segunda questão subsidiária
desta pesquisa.
O caráter peculiar das narrativas bíblicas é aqui respeitado, reconhecendo-se que, nelas, as coisas são
apresentadas indiretamente. A interpretação dá atenção ao modo como cada escritor selecionou e dispôs os
detalhes (KAISER JR.; SILVA, op. cit., p. 65-66). Além disso, assume-se que a história relatada nas Escrituras é
história da redenção (ibid., p. 66; FEE; STUART, op. cit., p. 64, 66).
139
HAMILTON, op. cit., p. 19-20. O arranjo sugerido por Hamilton é encontrado, sem a referência ao sábado,
em KIDNER, Derek. Gênesis: Introdução e Comentário. 1. ed. reimp. (1991). São Paulo: Mundo Cristão e Vida
Nova, 1979, p. 43, que por sua vez o atribui a W. H. Griffith Thomas, Genesis: A Devotional Commentary. [s.l.]:
Eardmans, 1946, p. 29.
140
O uso de tyviÞarEB. — “no princípio”, pode ser interpretado como indicando o início relativo da criação. Nesse
caso assume-se o vocábulo hebraico no estado construto, ou seja, dependente das palavras seguintes,
favorecendo a tradução “quando Deus começou a criar os céus e a terra, sendo a terra sem forma e vazia, disse
Deus” (YOUNGBLOOD, Ronald. Gênesis. In: BARKER, Kenneth et al. (Orgs.). BENVI. São Paulo: Vida,
2003, tradução alternativa proposta na nota textual “a”, p. 6). De acordo com Hamilton (op. cit., p. 30-32), “essa
é a compreensão mais utilizada desde a tradução de Moffatt em 1922. Vemos seus reflexos nas traduções mais
recentes”. Ainda que tal construção gramatical seja possível, esta pesquisa assume o termo no estado absoluto,
possuindo significado isolado: “No começo Deus criou os céus e a terra” (Nova Tradução na Linguagem de Hoje,
doravante denominada NTLH). Esta é a opção das principais traduções da Bíblia em português, e.g., de João Ferreira
de Almeida, a Segunda Edição Revista e Atualizada e a Edição Revista e Corrigida, ambas da Sociedade Bíblia do
Brasil. Além destas, a BENVI e BJ. Cf. HAMILTON, op. cit., p. 30-32; KAISER JR., op. cit., p. 75.
Em todas as vezes que o Antigo Testamento utiliza o verbo ar'B' — “criar”, Deus é o sujeito da ação
(HAMILTON, op. cit., p. 24). No primeiro capítulo de Gênesis o termo é usado cinco vezes (Gn 1.1, 21 e 27),
com sentido correlato a hf'[' — “fazer” em Gênesis 1.7, 16 e 25, e rc,yE — “formar” em Gênesis 2.7 (KIDNER,
op. cit., p. 41-42). Estes últimos verbos são utilizados outras vezes tendo como sujeitos seres humanos,
indicando que “há algo de singular no ato criador de Deus [...], mas também há algo de semelhante entre o que é
feito por Deus e o que é feito pelos humanos” (HAMILTON, op. cit., p. 25).
53

O texto avança afirmando que “a terra, porém, estava sem forma e vazia; havia trevas

sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus pairava sobre as águas” (Gn 1.2).141 O caos é o

primeiro resultado da criação de Deus, sendo que Gênesis 1.3-2.3 relata a “imposição gradual

de ordem e simetria sobre um cosmos informe; um movimento da [...] incompletude para a

completude.” 142

As referências às “trevas sobre a face do abismo” e ao “Espírito de Deus” pairando

“sobre as águas” reforçam a idéia de necessidade de novos atos criativos e organizativos, ao

mesmo tempo em que demonstram que Deus está presente, prestes a dar continuidade ao seu

trabalho: “O método normal de Deus é trabalhar partindo do informe para o formado. O

processo todo é criação”.143 Depreende-se de tal relato a referência, na criação, à

administração enquanto organização.

Gênesis destaca a importância do comando criativo. O cosmos surge em resposta às

ordens divinas. Deus cria exercendo autoridade e produz movimento comunicando-se. As

expressões “e houve” (Gn 1.3) “e assim se fez” (Gn 1.7, 9, 11, 15, 24, 30) demonstram que as

determinações do Criador foram cumpridas. Depreende-se de tal relato a referência, na

criação, à administração enquanto liderança.

Deus “vê” (Gn 1.4, 10, 12, 18, 21, 25, 31). Ao final de cada etapa de trabalho ele

verifica os detalhes. Isso resulta em pronunciamentos de aprovação do que foi feito: “Boa;






























 


















O uso dos termos acima leva Kaiser Jr. (op. cit. p. 76) a concluir que “Deus iniciou o processo da criação a partir
de nada mais do que a Sua própria palavra”. Para Eichrodt (op. cit., p. 565) a terminologia empregada em
Gênesis 1.1 indica “a ação maravilhosa de Deus que produz algo surpreendentemente novo” e “partindo da
intenção que preside claramente essa afirmação, torna-se fácil concluir que seu verdadeiro significado é a creatio
ex nihilo.” Quanto ao circunlóquio “os céus e a terra”, deve ser entendido como “o universo ou cosmos, para os
quais o hebreu carece de vocábulo específico” (ibid., loc. cit.).
141
Muito tem sido escrito sobre o uso de ‘Whto’ — “sem forma” e Whboêw" — “e vazia”. Uma linguagem
semelhante é encontrada em Jeremias, em um contexto de desalento (Jr 4.23; cf. Is 45.8). Há quem entenda
o texto como se referindo a uma lacuna entre a “criação original” (Gn 1.1) e o “segundo ato de criação de
Deus” (Gn 1.3 et seq.). Sob essa ótica, a passagem retrata o caos produzido por uma catástrofe, talvez a
expulsão de Satanás dos céus (HAMILTON, op. cit., p. 32-33). Uma segunda leitura percebe no caos a
“imagem do nada, que constitui a base da criação” (EICHRODT, op. cit., p. 566, 567). Uma terceira
percepção, assumida por este estudo, interpreta o caos como a situação da terra entre a criação e a ordem
“haja luz” (Gn 1.3).
142
HAMILTON, op. cit., p. 33. VAN GRONINGEN, op. cit., p. 35-36, vê no versículo um relato da “condição
da terra quando surgiu inicialmente das mãos do Criador.”
143
KIDNER, op. cit., p. 43, grifo do autor.
54

bom” (Gn 1.4, 10, 12, 18, 21, 25, 31). A nota visual destes versículos é destacada por

Westermann, para quem o adjetivo bAj, “bom”, é “também ‘belo’. Para ouvidos hebraicos a

aprovação da parte do Criador soava também como se tivesse dito: ‘Deus viu que isso era

belo’. As obras divinas estão revestidas de formosura”.144 Depreende-se de tal relato a

referência, na criação, à administração enquanto cuidado demonstrado mediante supervisão e

avaliação.

Ademais, as ações de “separação” (Gn 1.4, 6) e “ajuntamento” (Gn 1.9, 10)

denotam a intenção divina de colocar cada coisa no seu lugar, com a finalidade de garantir

o funcionamento das estruturas e processos necessários à vida.145

Deus dá nome às coisas (Gn 1.5, 8, 10). “Na Antiguidade, não ter um nome

significava ser considerado inexistente”.146 Dar nome indica que Deus “dá a cada coisa o seu

valor, o seu lugar e o seu significado”.147 Verifica-se, nesse ato, não apenas a confirmação da

supremacia de Deus sobre o cosmos, mas sua ligação com ele.148

As sentenças conclusivas “houve tarde e manhã” (Gn 1.5, 8, 13, 19, 23, 31) e

“havendo Deus terminado” (Gn 2.2), indicam que o que tinha de ser feito, foi feito. Deus é

modelo de eficácia; termina o que começa, faz o que deve ser feito.

A ordem “produza” (Gn 1.11, 24) evidencia que Deus cria vida produtiva e as

palavras “os abençoou” (Gn 1.22, 28) desvendam Deus como fonte da bênção, os processos

naturais a ele conectados e a intenção divina de beneficiar cada criatura.149 Segundo este































 


















144
WESTERMANN, Claus. Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Paulinas, 1987, p. 80. Se o que Deus
faz, faz bem feito, infere-se ainda que ele é comprometido com eficiência e excelência.
145
Isso é observado ainda nas frases “segundo a sua espécie” (Gn 1.11, 12, 21, 24, 25) e “conforme a sua
espécie” (Gn 1.12, 24, 25). Também daqui pode ser depreendida a referência à administração enquanto
organização.
146
HAMILTON, op. cit., p. 41.
147
KIDNER, op. cit., p. 44.
148
Deus está conceituando, rotulando, definindo, marcando e diferenciando, tornando único e identificável. Ele
estabelece especificidade, delimitação e especialização em meio à diversidade, abrindo espaço para administrar
relações. Ele pode, a partir de então, chamar sua criação por nome (Is 40.26).
149
A ratificação dessa intenção é a provisão de “mantimento” (Gn 1.29, 30) e de “descanso” (Gn 2.2-3). As
criaturas têm asseguradas suas fontes de reposição de forças e abre-se espaço para o culto, o saudável
relaxamento e a ludicidade.
55

relato, produtividade não é um processo meramente comercial ou institucional, mas o que se

espera daquilo que é vivo.

3.2.2 No Relato Cosmogônico Torna-se Plausível a Idéia da Administração


Como Parte da Criação Divina

Se a Bíblia refere-se a Deus como Rei (Sl 47.1-9), Gênesis 1.1-2.3 trata da criação dos

aspectos modais constituintes de seu reino.

A expressão “aspecto modal da criação” é uma elaboração de Dooyeweerd, fundador

da filosofia da idéia cosmonômica. Dooyeweerd entende que, ao criar, Deus estabelece uma

“ordem estrutural cósmica de significado”150 composta de quinze aspectos modais,151 aos

quais correspondem diferentes núcleos de significado, quais sejam: (1) Aritmético ou

numérico, ligado à quantidade discreta (matemática); (2) espacial, ligado à extensão

(matemática); (3) cinemático, ligado ao movimento (mecânica); (4) físico, ligado à energia

(física e química); (5) biótico, ligado à vida orgânica (biologia, fisiologia e morfologia); (6)

psíquico, ligado ao sentimento ou sensação (psicologia empírica); (7) analítico, ligado à

distinção teórica (lógica); (8) histórico, ligado ao processo cultural (história do poder

formativo, desenvolvimento da sociedade humana e antropologia cultural); (9) lingüístico,

ligado ao significado simbólico (filologia, semântica); (10) social, ligado ao intercurso social

(sociologia); (11) econômico, ligado à capacidade de gerenciamento (economia e

administração);152 (12) estético, ligado à harmonia (teoria harmônica, artes, arquitetura); (13)































 


















150
OLIVEIRA, 2004, p. 3.
151
Dooyeweerd considera essa questão em sua teoria dos aspectos modais (OLIVEIRA, 2004, p. 85-95). A partir
daqui, ainda que sob o risco da excessiva generalização, são consideradas como sinônimas as expressões “esfera
modal” e “magistério.”
152
No primeiro capítulo desta pesquisa fez-se referência à administração como ligada às ciências aplicadas, e à
economia como vinculada às ciências sociais. Essa classificação inspira-se na atualização da classificação
decimal desenvolvida por Melvil Dewey in 1876, utilizada hoje por diversas Bibliotecas. Cf. MUNDIE, David
A. Cyber Dewey: A Catalogue for the World Wide Web. Pittsburgh, PA: Polymath Systems, 1995. Disponível
em: <http://www.anthus.com/CyberDewey/CyberDewey.html>. Acesso em: 29 out. 2007. A partir daqui, este
56

jurídico, ligado à retribuição (jurisprudência, direito, ciência política); (14) ético, ligado ao

amor ao próximo (moral, ética) e pístico, ligado à pi,stij, fé (certeza transcendental com

relação à origem).153 Isso confere a toda a criação uma “raiz religiosa central” e cada aspecto
154
da realidade temporal criada “é significado”. Oliveira explica o que isso representa, no

pensamento de Dooyeweerd:

Ao se dizer que algo tem significado, ainda é conferido a esse algo uma certa
dose de independência e autonomia em relação à sua Origem [...]. Contudo,
quando se afirma que as coisas criadas são significado, se está claramente
apontando para o fato de que a diversidade criada pertence a uma estrutura
abrangente de interdependência mútua formando uma totalidade de
significado. Esta totalidade de significado ou unidade de significado, por sua
vez, aponta para a sua Origem, aquele que lhe conferiu significado e a partir
de quem esta totalidade criada deriva seu sentido. Embora todas as coisas
sejam entes de significado e este significado seja irredutível, este significado
particular não é suficiente em si mesmo; cada aspecto da criação aponta para
outro, para além de si e, por último, para aquele que o criou. 155

Na criação “as funções de cada aspecto [...] foram prescritas por Deus e cada função

estava em harmonia com as funções dos outros aspectos. Deus organizou o cosmos que ele

criou e o fez refletir sua pessoa como um Deus de ordem.” 156 Isso equivale a dizer que cada

um dos aspectos modais opera segundo um nomos, lei ou “ordem estruturada [...] que reflete a

vontade soberana e pessoal de Deus quando criou.” 157 A ordem normativa presente em todas

as coisas concretas é denominada estrutura de individualidade. Assim, sendo, “a unidade

concreta é constituída por estruturas de individualidade (leis estruturais que unificam

unidades concretas) que, por sua vez, estão fundadas nos aspectos modais da realidade

temporal (leis estruturais modais).” 158

Dooyeweerd refere-se ainda à possibilidade de abertura dos aspectos modais. Um

aspecto modal está fechado quando “só exibe relações que apontam para os aspectos






























 


















trabalho refere-se à administração (capacidade de gerenciamento) de acordo com a análise de Oliveira, 2004,
passim, ou seja, como núcleo de significado do aspecto modal econômico.
153
OLIVEIRA, 2004, p. 85-86; GEISLER, op. cit., p. 289; CARVALHO, op. cit., p. 196.
154
OLIVEIRA, 2004, p. 72-73.
155
Ibid., p. 74.
156
VAN GRONINGEN, op. cit., p. 51.
157
OLIVEIRA, 2004, loc. cit.. Oliveira complementa dizendo que por isso a proposta de Dooyeweerd foi
batizada de Wijsbegeerte der Wetsidee ou filosofia da idéia de lei, ou filosofia da idéia cosmonômica.
158
Ibid., p. 89.
57

anteriores da realidade” e aberto quando há conexão com os “aspectos posteriores da

realidade”. Um exemplo de abertura modal é fornecido: “[...] a expressão ‘sentimento de

justiça’ não se refere ao aspecto jurídico em si, mas sim a uma antecipação do núcleo de

significado do aspecto jurídico no aspecto sensitivo”.159 Daí a conclusão: “Nenhum aspecto é

autônomo no sentido de não depender dos demais”.160

[...] cada esfera “espelharia” em si mesma a totalidade do sentido cósmico,


espelhamento este que pode ser descrito por analogias antecipatórias e
retrocipatórias, nas quais um sentido semelhante ao núcleo de sentido de
cada uma das esferas modais é identificado no interior da esfera modal em
consideração. 161

Cada aspecto possui ainda sua própria esfera de soberania. Oliveira esclarece que

Dooyeweerd tomou emprestada a expressão “esferas de soberania” de Abraham Kuyper, que

a utilizava para designar “os limites estruturais de cada instituição social criada por Deus

contra as ingerências de outras instituições”.162 Dooyeweerd afirma que o princípio das

esferas de soberania “envolve as estruturas sociais, as estruturas de individualidade e até

mesmo as esferas modais”.163 Para Carvalho, o reconhecimento destas esferas “funciona

como um modelo heurístico, para orientar o diálogo interdisciplinar e estimular a unificação

do conhecimento, a partir da cosmovisão bíblica.” 164

Se tanto a possibilidade de abertura quanto a soberania de cada esfera de fato refletem

uma ordem divina da criação, não é absurdo afirmar que a ação administrativa não apenas é

antecipada por esferas modais anteriores, tais como a numérica, psíquica, lógica, histórica,

lingüística e social, como antecipa as esferas jurídica, ética e pística. Isso equivale a dizer que































 


















159
Ibid., p. 93.
160
Ibid., loc. cit.
161
CARVALHO, op. cit., loc. cit.
162
OLIVEIRA, 2004, p. 95. KUYPER, Abraham. Calvinismo. São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p. 98, refere-se à
família, os negócios, a ciência e a arte. O Estado não foi criado por Deus, mas instituído por causa do pecado. A
esfera do Estado, que deve ser respeitada, funciona com o objetivo de assegurar que cada esfera da criação
funcione livremente e de acordo com a vontade divina (KUYPER, op. cit., p. 85-115). Cf. GEISLER, op. cit., p.
288, Dooyeweerd seguiu a tradição de Kuyper ao mesmo tempo em que foi além de seu antecessor.
163
Ibid., p. 96.
164
CARVALHO, op. cit., p. 197.
58

a administração, além de possuir legitimidade a partir da criação funciona dialogando com

outros magistérios sob e para a glória de Deus.

Resumindo, o relato cosmogônico abre espaço para a admissão de Deus como criador

e administrador. Ademais, Gênesis 1.1 a 2.3 sustenta razoavelmente a teoria dos aspectos

modais proposta por Dooyeweerd. A administração, portanto, pode ser considerada no âmbito

da criação, como núcleo de significado do aspecto modal econômico. Se isso é assim, é

possível concordar com Van Groningen, quando este afirma que visão cristã não se limita à

redenção, mas “deve ser tão extensa e intensa quanto o próprio cosmos.” 165

3.3 A Administração Subentendida na Antropogonia e nos Mandatos Criacionais

No contexto da criação a Bíblia fala da antropogonia, ou seja, da origem do homem.

3.3.1 A Administração Subentendida na Criação do Homem


à Imagem e Conforme a Semelhança de Deus

O homem é criado “à nossa ~l,c,, “imagem”, conforme a nossa tWmd>, “semelhança”

(Gn 1.26; cf. Gn 1.28).166 No âmbito desta similitude surge a incumbência do domínio sobre a































 


















165
VAN GRONINGEN, 2002, p. 30.
166
Os termos usados nesses versículos dão lugar a entendimentos variados. Quanto à perspectiva do Catolicismo
Romano de “imagem” como uma similitude “estrutural” não prejudicada pela queda e “semelhança”, como
“imagem moral” afetada pela queda cf. HAMILTON, Victor P. d®mût. In: HARRIS; ARCHER JR.; WALTKE,
op. cit., p. 316; SPROUL, R. C. Defendendo Sua Fé: Introdução à Apologética. Rio de Janeiro: Cada
Publicadora das Assembléias de Deus, 2007, p. 59. Quanto noção de que ~l,c, é mais importante do que tWmd>, e
de que o último termo foi acrescentado para suprimir o ímpeto de idolatria, cf. HAMILTON, op. cit., loc. cit.;
FRANCISCO, Clide T. Gênesis. In: ALLEN, Clifton J. (Ed.). Comentário Bíblico Broadman: Velho
Testamento. Rio de Janeiro: Junta de Educação Religiosa e Publicações, 1987, p. 177, 178; BJ, nota de estudo
“f”, p. 34. A sugestão de que os dois termos são intercambiáveis — a posição de Lutero e Calvino — pode ser
conferida em HAMILTON, 1998, loc. cit.; SMITH, Ralph L. Teologia do Antigo Testamento: História, Método
e Mensagem. São Paulo: Vida Nova, 2001, p. 236-237; CALVINO, João. As Institutas: Edição Clássica. 2. ed.
São Paulo: Cultura Cristã, 2006. I.XV.3; YATES, Kyle M. Gênesis. In: PFEIFFER, Charles F. (Ed.).
Comentário Bíblico Moody, Volume 1: Gênesis a Deuteronômio. 1. ed. quarta impressão (2001). São Paulo:
Imprensa Batista Regular, 2001, p. 5 e KIDNER, op. cit., p. 48. O ponto de vista de que o texto refere-se à
59

criação: “[...] tenha ele domínio sobre [...]” (Gn 1.26).167 Van Groningen argumenta que isso

significa que Deus confiou sua criação aos cuidados do homem, seu “agente pactual” e “vice-

gerente.” 168

Enfim, as diversas leituras do relato da criação, em Gênesis 1.26-28, possibilitam a

seguinte síntese:

Os homens são semelhantes a Deus. O ser humano é o único elemento da


criação de Deus semelhante a ele. [...] Não há nenhuma centelha do divino
em nossa natureza, mas somos “semelhantes” a ele. Nós o representamos.
Exercemos parcialmente seu poder sobre a terra. Somos responsáveis
perante ele pelo modo como agimos diante dele e diante uns dos outros.169

3.3.2 A Administração Subentendida no Estabelecimento do Pacto da Criação

As afirmações acima são reconhecidas dentro de um pacto. Ainda que o termo tyrIB.,

“aliança”, não seja encontrado em Gênesis 1-2, e a fórmula de Gênesis 1.28 destaque a

bênção,170 vários elementos que integram um pacto, tais como um vínculo entre duas partes,































 


















representação — o homem é uma “imagem de semelhança” — pode ser conferido em HAMILTON, op. cit., p.
317. A noção de Deus como “protótipo” do homem é encontrada em KAISER JR., op. cit., p. 77-78. Para a
interpretação relacional — de que os termos implicam em comunhão do Criador com o homem — cf.
EICHRODT, op. cit., p. 586; HOUSE, Paul R. Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Editora Vida, 2005,
p. 76-77; BJ, loc. cit.; KAISER JR., op. cit., p. 77; VAN GRONINGEN, op. cit., p. 28, 82-83 e YATES, op. cit.,
loc. cit. SMITH, 2001, p. 232, afirma simplesmente que a busca de sentido com base filológica é impossível.
O debate sobre a continuidade ou não da imagem de Deus no homem após a queda foge ao escopo desta
pesquisa. Admite-se, porém, a continuidade de um “resquício” da imagem de Deus no homem, mesmo após a
desobediência do primeiro casal. Mais sobre isso pode ser verificado em BERKHOF, op. cit., p. 187-194;
HODGE, Charles. Teologia Sistemática. São Paulo: Hagnos, 2001, p. 555-570 e STRONG, Augustus Hopkins.
Teologia Sistemática. São Paulo: Hagnos, 2003, v. 2, p. 87-114.
167
Discute-se se o versículo deve ser traduzido como “tenha ele domínio” ou “eles terão domínio”. Van
Groningen prefere a primeira tradução porque indica “uma conexão íntima entre ser feito à imagem e
semelhança de Deus e ter domínio” (op. cit., p. 76; cf. ibid., p. 77; HOUSE, op. cit., p. 76). A pluralidade de
possibilidades não anula o sentido geral. O homem, criado segundo a “imagem” e “semelhança” de Deus, recebe
a incumbência de dominar a criação como representante do Criador. Na criação ele recebe de Deus “um poder
sobre os outros seres vivos” (BJ, loc. cit.; EICHRODT, op. cit., 587). KAISER JR., op. cit., p. 77, vê nesses
conceitos, além da “possibilidade da comunhão e comunicação com Deus, o exercício de domínio e liderança
responsáveis sobre a criação que pertence a Deus” (cf. YATES, op. cit., loc. cit.).
168
Op. cit., p. 53, 83, 251. O termo “vice-gerente” é utilizado propositalmente. Na mesma página em que se
refere a Deus como “Criador, Modelador, Diretor e Produtor” (ibid., p. 83), cita-se Wenham, afirmando-se que,
para este, a vice-gerência humana decorria da criação conforme a “imagem” divina. A seguir (ibid., p. 87),
destaca-se que Adão não foi estabelecido como vice-regente, aquele que domina no lugar do rei, e sim vice-
gerente, aquele que administra sob a direção do rei.
169
SMITH, 2001, p. 237.
170
VAN GRONINGEN, op. cit., p. 77; KAYSER JR., op. cit., p. 78-79.
60

privilégios e responsabilidades, estão presentes.171 Van Groningen descreve a estrutura

pactual da criação nos seguintes termos:

O [...] “pacto” se refere ao vínculo de vida e amor que Deus estabeleceu


entre si mesmo e Adão e Eva. Este vínculo pessoal íntimo deveria ter vastas
implicações e ramificações para toda a criação por causa do que Deus
requeria para a manutenção do relacionamento. Deus, tendo estabelecido o
pacto, [...] exigiu que a humanidade respondesse de uma maneira viva,
amorosa, dinâmica e fiel.172

As respostas exigidas por Deus na criação são estipulações pactuais ou mandatos.

O homem e a mulher devem exercitar suas prerrogativas reais “governando sobre o

cosmos, desenvolvendo-o e simultaneamente mantendo-o”.173 Esse é o mandato cultural.

Ademais, Deus proveu uma base “ordenada para o casamento, para a família restrita e a

família extensiva — os clãs, as nações e a comunidade da humanidade como um todo” —

o mandato social.174 Acima de tudo, a comunhão deve “ser exercida no andar com Deus

diariamente, conversar intimamente com ele e expressar amor, honra, devoção e louvor”

enquanto vão sendo enfrentados “os desafios e privilégios de cada dia” — o mandato da

comunhão ou mandato espiritual.175

Isso é confirmado no segundo capítulo do Gênesis. A responsabilidade do homem

para com o jardim, como seu cultivador e guardador, decorre do mandato cultural (Gn 2.15).

A obediência a Deus, cuja desconsideração traz sérias conseqüências, é uma exigência do

mandato espiritual (Gn 2.16-17). O restante do capítulo reforça o mandato cultural e faz

referência ao mandato social (Gn 2.18-25).

Pela primeira vez no livro de Gênesis é afirmado que algo não é bom: O homem viver

só (Gn 2.18). Essa expressão abre o relato da criação da mulher, culminando com a primeira

palavra humana registrada na Bíblia: “Esta, afinal, é osso dos meus ossos e carne da minha































 


















171
VAN GRONINGEN. Revelação Messiânica no Velho Testamento. Campinas: Luz Para o Caminho, 1995, p.
95-96. Cf. ROBERTSON, O. Palmer. O Cristo dos Pactos. São Paulo: Cultura Cristã, 2002, p. 21-29.
172
VAN GRONINGEN, 2002, p. 90.
173
Ibid., loc. cit., grifo nosso.
174
Ibid., p. 91.
175
Ibid., p. 92.
61

carne; chamar-se-á varoa, porquanto do varão foi tomada” (Gn 2.23).176 As palavras finais do

capítulo (Gn 2.24-25) estabelecem um motivo e padrão divino para a união conjugal,

assinalando o mandato social.

Nos dois versículos que formam o parêntese aberto entre a declaração sobre a solidão

do homem (Gn 2.18) e a criação da mulher (a partir de Gn 2.21), Deus traz ao homem “todos

os animais do campo e todas as aves dos céus”, para que este lhes dê nomes (Gn 2.19-20).

Isso equivale a colocá-los sob domínio.177 O próprio Criador pode arbitrar o modo como cada

ser será chamado, mas confia a tarefa a seu vice-gerente, confirmando o mandato cultural.

O homem funciona nos seis primeiros aspectos modais da criação em sua correlação

com as coisas criadas — como parte delas —, e nos nove aspectos superiores, em sua relação

de domínio. Ele é capaz de pensar logicamente (aspecto analítico), desenvolver cultura

(aspecto histórico), estabelecer códigos (aspecto lingüístico), cultivar relacionamentos

duradouros e formar sociedade (aspecto social), administrar (aspecto econômico), produzir e

apreciar o belo (aspecto estético), desenvolver leis e ordenar a polis (aspecto jurídico), amar

ou odiar o próximo (aspecto moral) e crer com firmeza confiança e certeza última (aspecto

pístico).178

Resumindo, a antropogonia, sob a ótica dos mandatos criacionais, favorece a

compreensão do cosmos como reino e do homem como representante do Rei. A revelação da

Bíblia difere de todos os outros relatos da criação do homem apresentados pelo paganismo.179

No Gênesis Deus trabalha. Em seguida, cria o homem à sua imagem e semelhança, com a






























 


















176
A primeira palavra pronunciada pelo homem na Bíblia é um poema inspirado em sua mulher. A análise de
FRANCISCO, op. cit., p. 181, da estrutura hebraica do referido poema, leva-o a concluir que o homem está
dizendo: “Esta mulher, em primeiro lugar, em último e sempre!”
177
KIDNER, op. cit., p. 61. “A pessoa somente dá nome àquilo que possui ou sobre o qual recebe jurisdição”;
Cf. KAISER JR., op. cit., p. 75.
178
Essa afirmação sobre a capacidade do homem de crer não deve ser interpretada apressadamente, como um
ataque à doutrina bíblica de depravação total. O ponto de vista cosmonômico sustenta simplesmente que,
diferentemente de todo o restante da criação, o homem é o único ser criado por Deus com essa capacidade de
manter comunhão com o Criador. O foco deste argumento é ontológico e não soteriológico.
179
Nestes o homem é criado sem nenhuma dignidade, com a finalidade de submeter-se a trabalhos que os deuses
não querem realizar. HAMILTON, 2006, p. 34-40, fornece um resumo dos mitos do Enuma Elish e do épico de
Atrahasis.
62

finalidade de trabalhar como seu representante. Deus cria ex nihilo e opera plenipotencial e

infinitamente, como Deus que é. O homem recebe a incumbência de criar e administrar a

partir de coisas que existem, seguindo o modelo de Deus, de modo finito e dependente das

bênçãos do Criador. O texto bíblico sugere um sistema de relações entre meios e fins — uma

teleologia. 180

Se as primeiras palavras do livro de Gênesis nos apresentam o mundo de Deus, o

pacto da criação, com seus mandatos, torna o homem responsável pelo mundo. As esferas

modais pertencem ao Criador e, ao mesmo tempo, são colocadas sob os cuidados do homem

que nelas opera como administrador, sob a autoridade de Deus.

3.4 A Administração Subentendida no Relato da Queda e na Graça Comum

Os relatos bíblicos subseqüentes confirmam a continuidade dos mandatos. A

desobediência humana (Gn 3.1-7) é seguida de afirmações divinas que contêm não apenas

“maldições”, mas, também, provisões para a ininterrupção do pacto (Gn 3.8-24). Os filhos de

Adão e Eva produzem descendência que assegura o prosseguimento da invocação do nome de

Deus, e estabelece civilização: Uma cidade, técnicas de criação de gado, arte e fabricação de

instrumentos cortantes de bronze e ferro (Gn 4.1-26). Misericordiosamente, mesmo depois da

desobediência dos primeiros pais, Deus preserva a humanidade.

No terceiro capítulo do livro de Gênesis surge um novo personagem, vx'n", “a

serpente”.181 Trata-se de um animal selvático “que o SENHOR Deus tinha feito” (Gn

3.1),182 ou seja, não há no cosmos nenhum ser que rivalize com Deus; o opositor que surge































 


















180
EICHRODT, op. cit., p. 570.
181
HAMILTON, 2006, p. 40, aponta para a possibilidade do vocábulo estar ligado a dois outros termos
hebraicos, um substantivo ligado à idéia de “algo reluzente” e um verbo que descreve a prática de
adivinhação.
182
Grifo nosso.
63

é criatura sujeita à divina soberania: “O capítulo fala, não do mal invadindo, como se

tivesse existência própria, mas de criaturas entrando em rebelião.” 183

A serpente instiga a mulher a desobedecer ao Criador. A pergunta inicial, “é assim

que Deus disse [...]?” (Gn 3.1), introduz o diálogo, abre espaço para checar a segurança

acerca da ordem divina e prepara o terreno para o cerne da tentação através de um

silogismo.184

A mulher vê-se diante da possibilidade de estabelecer-se a partir de um nomos

alternativo. Ela não precisará estar mais sob Deus uma vez que, ao comer do fruto será “como

Deus” (Gn 3.5).185 Trata-se de uma proposta de suposta autonomia.186 Ela come do fruto e o

dá ao seu marido, que também come (Gn 3.6). O problema é que ao tentar estabelecer-se

“como Deus”, o homem assume-se contra Deus.187 Pior, o que está implícito na oferta da

serpente é “não confiem em Deus; confiem em mim.” 188

Van Groningen considera que a partir daí estabelece-se no cosmos “um reino

parasita”.189 A serpente instala um vírus no sistema cósmico e deseja operar a partir dele, com

a finalidade de sublevá-lo, danificá-lo e destruí-lo.190 O cumprimento da promessa da serpente

“foi um grotesco anticlímax do sonho de iluminação. O homem viu o mundo que lhe era






























 


















183
KIDNER, op. cit., p. 63; HOUSE, op. cit., p. 80. A palavra ~Wr[', “astuta” ou “sagaz” é usada positivamente
em Provérbios significando ação inteligente diante do perigo (Pv 12.16, 23, 13.16, 14.8, 15, 18, 22.3,
27.12; cf. Mt 10.16). Em Jó, porém, o termo é usado para as pessoas abominadas por Deus (Jó 5.12, 15.5 —
HAMILTON, 2006, p. 41).
184
Primeira premissa: Deus não é confiável — “Deus sabe que no dia em que dele comerdes se vos abrirão os
olhos [...]” (Gn 3.5). Segunda premissa: Se Deus não é confiável, o que ele diz não precisa ser levado a sério —
“É certo que não morrereis” (Gn 3.4). Conclusão: vocês podem comer do fruto e, ao fazerem isso, “como Deus,
sereis conhecedores do bem e do mal” (Gn 3.5).
185
Grifo nosso.
186
Francisco (op. cit., p. 184) sugere que “quando ela comeu do fruto, a [...] alienação foi consumada. ‘Deus é
Deus e eu sou eu, e eu estou preparada para me virar sozinha’” (grifo nosso).
187
Como diz Kidner (op. cit., p. 64), “daí por diante Deus será tido, conscientemente ou não, como rival e
inimigo”. Por isso, “tudo o que o homem faz, o faz para Deus ou contra Deus, redunda em glória e honra a Deus
ou a um ídolo” (OLIVEIRA, 2004, p. 4).
188
O oposto à palavra de Jesus, registrada em João 14.1.
189
VAN GRONINGEN, 2002, p. 127. O vocábulo “reino” é usado por ele referindo-se a um “poder comandante;
a manifestação deste poder, o lugar onde este poder é manifestado; e ao domínio que é influenciado” (ibid., p.
127-128). A expressão “parasita” denota que o reino da serpente é “completamente dependente do reino cósmico
de Yahweh. Satanás, como um ser criado, não é autônomo; ele tira todos os aspectos essenciais da sua existência
e atividades de sua fonte, o Criador” (ibid., p. 128-129).
190
Ibid., p. 129.
64

familiar, e o contaminou ao vê-lo, projetando o mal sobre a inocência [...] e reagindo ao bem

com vergonha e fuga.” 191

Na parte final do terceiro capítulo de Gênesis, encontra-se a resposta divina ao

enfrentamento da serpente e ao fracasso humano. Deus vem ao encontro do homem

perguntando “onde estás?” (Gn 3.9). As respostas, tanto do homem quanto de sua mulher (Gn

3.10-13), conduzem à enunciação de diversas sentenças que devem ser vistas como

enunciados fulminantes, no que diz respeito à serpente, e graciosos, no que concerne à

humanidade.

Em primeiro lugar, por haver enganado a mulher e desencadeado a transgressão, a

serpente é amaldiçoada com uma sentença de completa derrota, humilhação e destruição (Gn

3.13-15) — as palavras de Deus à serpente instituem uma antítese irreconciliável.192

É prometido um Redentor que, ainda que ferido, vencerá: “A luta amarga terminará

com a vitória para a semente da mulher, i.e., para o Messias, e para os regenerados que têm fé

nele, que obedecem e servem a Yahweh, seu Senhor”.193 Deus garante a continuidade de uma

descendência redimida ao firmar uma aliança de redenção. É assegurado o prosseguimento do

mandato espiritual.

Sobre a mulher recaem a multiplicação dos sofrimentos da gravidez e uma relação

conflituosa com o homem (Gn 3.16).194 Com essas palavras, Deus concede um prazo para































 


















191
KIDNER, op. cit., p. 65. Cf. Gênesis 3.7. O homem que buscou a autonomia separou-se de Deus e tornou-se
subserviente à serpente, “o príncipe da potestade do ar”, e, por conseguinte, aos seus próprios “delitos e
pecados” e ao “mundo” (Ef 2.1-3). No NT ko,smoj, “mundo” é usado para referir-se ao universo (Mt 25.34), à
terra (Mt 4.8), ao somatório dos eleitos de Deus (Jo 3.16), às aquisições e realizações humanas (Mt 16.26, 1Co
7.31) e à cultura influenciada por Satanás, oposta e hostil a Cristo e aos cristãos (Jo 7.7, 8.23, 12.31, 16.33,
17.25; 1Jo 2.15-17). O mundo continua sendo de Deus, no entanto, contém dentro de si evidências da rebeldia
instigada pela serpente.
192
KAISER JR., op. cit., p. 80. Cf. 2Co 11.3; VAN GRONINGEN, 2002, p. 154. As palavras do proto-
evangelho (Gn 3.15) apontam para um embate prolongado e sem tréguas, cujo desfecho será o golpe mortal à
serpente, desferido pelo descendente da mulher. Eichrodt (op. cit., p. 845) enxerga nesse texto apenas uma
referência à “degradação de toda a criatura” e à “harmonia rompida da coexistência entre os seres criados.”
193
VAN GRONINGEN, 2002, p. 155.
194
De acordo com Yates (op. cit., p. 11), o termo hebraico usado em Gênesis 3.16 indica consternação tanto
física quanto mental.
65

aplicação da penalidade pactual (cf. Gn 2.17; Rm 3.21-26), garante a continuidade da raça

humana e ratifica o mandato social.195

A criação é amaldiçoada “por causa” do homem, de modo que os processos ditos

naturais passam a expressar os sinais da violação do pacto (Gn 3.17-18; cf. Rm 8.18-21).196 O

trabalho, antes prazeroso, produz desgastes e, ao final de existência sofrida, o homem volta ao

pó, de onde veio (Gn 3.18-19). Com tais afirmações, Deus diz ao homem que, mesmo em

meio às conseqüências do pecado, mantém-se o mandato cultural.

O favor de Deus é percebido por Adão, que dá à sua mulher o nome de hW"x, “Eva” ou

“vida”. Em seguida é revelado na providência divina das “vestimentas de peles” (Gn 3.20-21).

Até mesmo as palavras finais do capítulo, que informam sobre a expulsão do primeiro casal

do Éden, podem ser tomadas como ato gracioso. Deus veda ao homem o acesso à “árvore da

vida”, para que este não tome do seu fruto “e coma, e viva eternamente” (Gn 2.22). O homem

é impedido de viver eternamente sob o pecado.197

Van Groningen capta o tom deste final do terceiro capítulo de Gênesis:

A integridade de Deus Yahweh e sua execução da justiça poderia ter


significado o fim de Adão e Eva como vice-gerentes pactuais. Poderia,
também, ter conduzido à retirada completa de Deus Yahweh do seu reino
cósmico. Mas nenhuma das duas coisas aconteceu.” 198

O quarto capítulo de Gênesis revela dois quadros, de deterioração (Gn 4.1-24) e de

restauração (Gn 4.25-26). O prosseguimento da raça humana é enfatizado pelas expressões

“coabitar” (Gn 4.1, 17, 25), “conceber” (Gn 4.1, 17), “dar à luz” (Gn 4.1, 2, 17, 25) e “nascer”

(Gn 4.18, 26). A idéia subjacente é de bênção divina assegurando a continuidade dos

mandatos da criação (Gn 1.28, 3.16).































 


















195
VAN GRONINGEN, 2002, p. 138-139.
196
KAISER JR., op. cit., p. 81.
197
HOUSE, op. cit., p. 83.
198
VAN GRONINGEN, 2002, p. 146.
66

O texto inicia com as palavras de Eva, “adquiri um varão com o auxílio do

SENHOR”, ditas por ocasião do nascimento de Caim (Gn 4.1).199 O segundo filho é chamado

de lb,h,, “Abel”, “nada”, “fôlego”, “vapor”, “temporário” ou “sem sentido” (Gn 4.2).200

Ambos os filhos são mostrados, nos versículos 2 a 4, já adultos e oferecendo culto. Deus

aceita o culto de Abel e rejeita o de Caim (Gn 4.4-5). Este último é divinamente confrontado,

mas sequer responde ao Criador. Pelo contrário, astuciosamente, leva o irmão ao campo e o

mata (Gn 4.6-8).201

Deus fala a Caim três vezes, revelando uma progressão de julgamento: Pergunta geral

sobre a localização de Abel (Gn 4.9), confrontação e maldição decorrente da constatação do

pecado (Gn 4.10) e confirmação da continuidade da bênção de preservação divina sobre a

humanidade rebelde (Gn 4.15). Gênesis 4.16 pontua a triste nota da retirada de Caim da

presença de Deus. Caim afasta-se para nunca mais voltar.202 O palco está pronto para o































 


















199
Currid destaca ainda que “adquiri” pode ter o sentido de participação na atividade divina, uma vez que o
termo hebraico, às vezes traduzido como “possuir” ou “formar”, refere-se ao direito divino sobre a criação (Gn
14.19, 22; Dt 32.6 — cf. CURRID, John D. Genesis. Faverdale North, Darlington: Evangelical Press, 2003, p.
143). Francisco (op. cit., p. 186-187) observa que essa é a única vez, em todo o AT, em que a palavra vyai,
“homem”, é usada para um recém-nascido. KIDNER, op. cit., p. 69, ressalta a possibilidade de enxergar no texto
um jogo de palavras: !yIq' (q¹yin), “Caim” ou “ferreiro”, ressoa semelhante a hn"q' (q¹nâ), “adquirir”. A BÍBLIA
TRADUÇÃO ECUMÊNICA, doravante denominada BTE. São Paulo: Loyola, 1994, nota de estudo “u”, p. 29,
entende q¹nâ com o sentido de “procriar”. YOUNGBLOOD, 2003, p. 12, percebe, na expressão de Eva, o
reconhecimento de Deus como “fonte da vida”. KAISER JR., op. cit., p. 81, prefere a tradução “a saber, o
SENHOR”, como indicativo de um equívoco por parte de Eva. A idéia de equívoco com conseqüente desilusão é
apresentada ainda por HENRY, Matthew. Comentário Bíblico de Matthew Henry. 2. ed. Rio de Janeiro: Casa
Publicadora das Assembléias de Deus, 2002, p. 18. Olhado por este ângulo, o enunciado de Eva pode ser
interpretado como uma declaração de auto-exaltação, iniciando o processo de degradação desenvolvido no
restante do capítulo. Mais apropriadamente, Van Groningen (1995, p. 106) entende o dito como uma declaração
de fé na mensagem declarada em Gênesis 3.15. Esse é o sentido que mais apropriadamente se encaixa no
contexto.
200
O mesmo termo é usado com freqüência em Eclesiastes (Ec 1.2, 2.1, 3.19, 12.8). BEG, nota de estudo
4.2. Abel, p. 15; BÍBLIA DE ESTUDO NTLH. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2005, nota de estudo
4.2, p. 17. KIDNER, op. cit., p. 70; YOUNGBLOOD, 2003, nota de estudo 4.2, p. 12.
201
Stott sugere que o ódio de Caim “originou-se no diabo, no maligno, e deu em assassinato” e que a motivação
para o crime cometido foi a inveja ressentida pela justiça superior de Abel (STOTT, John R. W. I, II e III. João:
Introdução e Comentário. São Paulo: Mundo Cristão e Vida Nova, 1982, p. 120). Destarte, Caim tornou-se “o
protótipo do mundo, que manifesta hoje as torpes qualidades que ele exibiu primeiro” (ibid., p. 121).
202
Ele torna-se um dn"ß,“vagabundo”, “forasteiro”, na dAnà-#r<a,(B, “terra de Node” (Gn 4.12-16 — BTE, nota de
estudo “h”, p. 30). Seu refúgio em uma vida de realizações materialistas apenas atesta sua infeliz alienação (Gn
4.17). A referência ao “leste”, em Gênesis 4.16, não é incidental. No leste surgirão Babel (11.2) e as cidades de
Sodoma e Gomorra (13.11 — cf. CURRID, op. cit., p. 151-152).
67

florescimento da civilização apóstata. Os versículos 17 a 24 contêm a primeira genealogia da

Bíblia e o desenvolvimento da civilização a partir de Caim.203

A essa linhagem contrapõe-se a linhagem da promessa204 cujo fruto é a piedade,

testificada pelo registro de que Enoque não morreu (Gn 5.24).

O desenvolvimento das artes, ofícios e meios de exploração dos recursos naturais

confirma a continuidade dos mandatos da criação. Van Groningen afirma que:

Caim foi ativo em realizar o mandato cultural, pois construiu uma cidade,
seus descendentes se tornaram criadores de gado, metalúrgicos e músicos.
Eles puderam fazer isso porque Yahweh era favorável a eles.205

O ápice da impiedade é retratado no Cântico da Espada206 entoado por Lameque. As

últimas palavras do quarto capítulo de Gênesis são alentadoras: Deus suscita uma linhagem de

adoradores.207 A civilização avança debaixo do favor divino, dispensado inclusive sobre não-

crentes. A linhagem santa prossegue, assegurada pelo pacto da redenção. Deus preserva

misericordiosamente a humanidade em geral, mesmo depois da desobediência dos primeiros

pais, através da dispensação da graça comum.

Por meio da graça comum, Deus Yahweh providenciou um palco no qual


Adão e Eva e sua semente crente poderiam e puderam viver e funcionar no
cosmos junto com a semente de Satanás, em várias formas de cooperação
(e.g., na lavoura, tecnologia), sendo estes os rebeldes e incrédulos,
inicialmente representados por Caim.208































 


















203
A pesquisa parte do pressuposto que Caim casou-se com uma de suas irmãs. Adão e Eva tiveram outros
“filhos e filhas”. Se ele já era casado na época da fuga da presença de Deus é ponto controvertido. Cf. KEVAN,
E. F. Gênesis. In: DAVIDSON, F. (Ed.). O Novo Comentário da Bíblia. reimp. 1985. São Paulo: Vida Nova,
1963, v. 1., p. 89; KIDNER, op. cit., p. 72; YATES, op. cit., p. 14. A linhagem apóstata prossegue de Caim,
Enoque, Irade, Meujael, Metusael, Lameque, Jabal, Jubal até Tubalcaim, marcando a história com orgulho,
apostasia e morte (Gn 4.17-24).
204
Eis a linhagem da promessa: Adão, Sete, Enos (Gn 4.25-26), Cainã, Maalalel, Jarede, Enoque, Metusalém,
Lameque, Noé (Gn 5.1-32).
205
VAN GRONINGEN, 2002, p. 151.
206
KEVAN, op. cit., loc. cit.. Currid (op. cit., p. 155) chama a atenção para o fato de este ser o segundo poema
da Bíblia. A comparação deste cântico com o primeiro, encontrado em Gênesis 2.23, revela a brutalidade dos
efeitos da desobediência de Adão e Eva.
207
A esperança é publicada no nome de tve_, “Sete”, “designado” (cf. KIDNER, op. cit., p. 73). A BEG, nota de
estudo Sete, p. 16, sugere o sentido de “apontado”. A BTE, nota de estudo “q”, p. 30, sugere um jogo de palavras
entre Shet e shat (suscitou). A expectativa da vinda do Redentor, frustrada em Caim e na morte de Abel, é
renovada e assegurada. A partir de vAna/, “Enos”, “aquele que é homem, humano” (KIDNER, op. cit., loc. cit.) ou,
simplesmente “fraqueza” (YATES, op. cit., p. 190), o nome de Deus passa a ser invocado.
208
VAN GRONINGEN, 2002, p. 154.
68

Esta leitura bíblica — que enxerga na preservação do mundo pós-queda uma

evidência da graça comum — permite colocar o cosmos sob a devida perspectiva. O estrago

produzido pela queda não afasta Deus de sua criação. O Criador soberano unifica o cosmos

sob suas ordenanças.

Não é verdade que há dois mundos, um mal e um bom, que estão encaixados
um no outro. [...] é um e o mesmo mundo que outrora exibiu toda glória do
Paraíso, que depois foi atingido com a maldição e que, desde a Queda, é
sustentado pela graça comum; que agora foi redimido e salvo por Cristo em
seu centro e que passará do horror do julgamento para o estado de glória.209

Para Pearcey, esse estado de coisas produz o que os pensadores da Reforma

denominam estrutura e direção.210 Esta pesquisa sugere que este conjunto bíblico de asserções

sobre cosmogonia, antropogonia, mandatos criacionais, queda e graça comum, articulado pela

filosofia da idéia cosmonômica, seja denominado paradigma cosmonômico. A partir deste

ponto, faz-se referência a tal modelo sempre que se utiliza a expressão cosmovisão cristã.211

3.5 O Paradigma Cosmonômico e Três Ferramentas de


Análise e Interpretação de Cosmovisões

Pearcey sugere o uso de uma “caixa de ferramentas bíblicas” para a cosmovisão cristã,

equipada com três idéias: Criação, queda e redenção.212 Na categoria da criação tudo se

submete a Deus, supremo criador.213 Na categoria da queda tudo é analisado criticamente,

uma vez que o homem encontra-se sob o efeito noético do pecado.214 Na categoria da































 


















209
KUYPER, op. cit., p. 80-81.
210
Op. cit., p. 96. “Estrutura diz respeito ao caráter criado do mundo, que ainda é bom mesmo depois da queda
[...]. Direção refere-se ao modo como ‘dirigimos’ essas estruturas para servir a Deus ou a ídolos.”
211
Ibid., p. 27. A autora defende que a palavra cosmovisão foi assumida nesses termos pelos pensadores
holandeses calvinistas Abraham Kuyper e Herman Dooyeweerd.
212
Op. cit., p. 49-51.
213
Ibid., p. 49.
214
Ibid., p. 49-50. O efeito noético é o efeito do pecado sobre a nou/j, “mente”, produzindo obscurecimento e
confusão.
69

redenção, tudo encontra novo significado e passa a ser novamente centralizado e reconstruído

em Cristo.215

Tais ferramentas são aplicáveis a todas as áreas da vida. Pearcey defende que,

munidos deste instrumental, é possível não apenas diagnosticar, mas também reconstruir

cosmovisões. Tudo pode ser revisto considerando-se estes pontos-chave:

1. CRIAÇÃO. Como este aspecto do mundo foi criado em sua origem? Qual
era sua natureza e seu propósito originais?
2. QUEDA: Como a criação foi torcida e retorcida pela queda? Como foi
corrompida pelo pecado e pelas falsas cosmovisões? Sem Deus, a criação
tende a ser divinizada ou endemoninhada, ou seja, torna-se ídolo ou
demônio.
3. REDENÇÃO: Como podemos colocar este aspecto do mundo sob o
senhorio de Cristo, restaurando-o ao propósito para o qual foi originalmente
criado?216

Torna-se agora admissível formular outra síntese e aproximar-se da resposta à

segunda pergunta subsidiária.

3. 6 Segunda Síntese: O Homem é Administrador do Cosmos Que Pertence a Deus

São várias as implicações, para a administração, do paradigma cosmonômico.

O aspecto modal da economia, cujo núcleo de significado é a capacidade de

gerenciamento, extrai sua legitimidade da criação, a fim de funcionar coram Deo, ou seja,

diante de Deus e “sob Deus.” 217

O homem pode compreender-se como vice-gerente cósmico — um administrador —

respondendo ao gerente principal, o próprio Deus.































 


















215
Ibid., p. 50-51.
216
Ibid., p. 144.
217
OLIVEIRA, 2004, p. 72; KUYPER, op. cit., p. 98.
70

Torna-se plausível afirmar que o relato bíblico da criação revela o Deus criador e

administrador. A administração é referenciada nas primeiras páginas do Gênesis como função

divina e, por força do mandato cultural, responsabilidade humana.

Se há um aspecto teleológico da criação, é pertinente afirmar que Deus age segundo

um propósito (Is 45.18; At 4.28; Ef 1.11). “Deus planejou tudo e executa o seu plano (Is 46.9-

11)”,218 ou seja, ele atua a partir de projetos previamente concebidos. No Criador o

planejamento encontra sua origem, verdadeira legitimidade e destino.

A partir dos eventos registrados no terceiro e quarto capítulos de Gênesis, a vida

humana em geral e, especialmente a cultura, que é criada pelo homem, revelam sinais de sua

legítima Origem, o Deus Criador e, simultaneamente, de um princípio de autonomia e

rebelião instigado por seu usurpador, a serpente. Cada aspecto modal da realidade contém

potenciais de realização sob Deus ou de autonomia impura. Assim sendo, a administração

pode ser considerada como magistério auto-suficiente, orientado para a glorificação da

criatura, mas isso não é absolutamente necessário. O aspecto modal econômico continua

pertencendo a Deus e o desafio da fé é realinhá-lo a esta Origem, ao invés de abandoná-lo ao

controle da serpente (Mt 5.16-32; Jo 17.14-15).

Tais asserções permitem uma aproximação à resposta da segunda questão subsidiária

desta pesquisa.































 


















218
PORTELA NETO, F. Solano. Planejando os Rumos da Igreja: Pontos Positivos e Crítica de Posições
Contemporâneas, in Fides Reformata, v. 1, n. 2 (1996), p. 80.
71

CAPÍTULO IV

O USO DA ADMINISTRAÇÃO EM OUTROS LUGARES


DA ESCRITURA E NA CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER

Este capítulo apresenta quatro quadros que confirmam o padrão estabelecido no

Gênesis sobre a administração. Analisa ainda a CFW, verificando se a mesma corrobora

ou contradiz a hipótese desta pesquisa. São formuladas novas sínteses que, por sua vez,

permitem responder à segunda e terceira perguntas subsidiárias.

Os quatro quadros demonstram como José (seção 4.1), Moisés e a Trindade (seção

4.2), o Senhor Jesus Cristo (seção 4.3) e, por fim, o registro lucano de Atos (seção 4.4),

aludem a pontos ligados à administração.219 José e Moisés são escolhidos porque

influenciam, tanto pastoral quanto administrativamente, os destinos da nação de Israel.

Moisés, distribuindo funções, em Êxodo 18, e a Santíssima Trindade, em sua ação

econômica, contribuem para a compreensão da divisão do trabalho, tópico importante na

administração. A pessoa de Cristo é o centro paradigmático em torno do qual giram todas

as crenças e práticas da igreja e o livro de Atos é visto pelos cristãos como inspiração para

a prática da missão.

4.1 José, Administrador do Egito

Se as narrativas pré-patriarcais fornecem um paradigma para os diversos magistérios

ou aspectos modais, o restante das Escrituras confirma o padrão estabelecido.































 


















219
Reconhece-se que há outras referências na Bíblia que permitem uma abordagem útil ao assunto. No
entanto, assume-se que a exposição exaustiva dessas passagens foge ao escopo da presente pesquisa.
72

Na biografia de José a bênção e a capacitação de Deus não excluem a competência

gerencial. Potifar, oficial de Faraó,220 percebendo o favor divino sobre a vida de José (Gn

39.2-3), nomeia o jovem “mordomo” de sua casa. José, competente e honesto, recusa-se a

desonrar a Deus e sofre prejuízo pessoal (Gn 39.4-20). No cárcere do rei Yahweh continua

a abençoá-lo e ele trabalha como supervisor dos presos, ou seja, toma providências para o

bom funcionamento da prisão, sob a autoridade do carcereiro (Gn 39.21-23). Anos depois

ele vê-se diante do Faraó, interpreta um sonho e recebe uma incumbência de administrar

todo o reino (Gn 41.40-41).

A narrativa frustra os que insistem em separar o carisma do múnus administrativo.

José interpreta o sonho de Faraó e, em seguida, apresenta um plano (Gn 41.25-36). O texto

bíblico registra a palavra do Faraó “aos seus oficiais: Acharíamos, porventura, homem como

este, em que há o Espírito de Deus?” (Gn 41.38). Devidamente contratado, José coloca em

prática o projeto, garantindo o suprimento do Egito para a época de carestia e preparando o

terreno para o enriquecimento e expansão dos domínios de Faraó (Gn 41.46-57, 47.13-26).

Além de honrar ao Criador, o trabalho de José garante o bem-estar da nação e a

união de sua família. Como vice-gerente de Deus, ele opera no aspecto modal econômico

sem dicotomias. Ele não considera os métodos administrativos como coisas “impuras” ou

inerentemente pecaminosas, mas os utiliza com a finalidade de servir a Deus e a sua

geração. Ademais, para ele, a administração não necessariamente destrói a vida

comunitária, mas pode ser utilizada para garantir-lhe a continuidade e o crescimento. Por































 


















220
De acordo com WALTON, John H. O Antigo Testamento em Quadros: Conheça Melhor o Antigo Testamento
Através de Tabelas e Diagramas Cronológicos e Explicativos. São Paulo: Editora Vida, 2001, p. 15, 62, José
viveu provavelmente entre 1915 e 1805 a.C. durante o Império Médio, sob a décima segunda dinastia egípcia
(2106-1786 a.C.). O Faraó que governava no tempo em que ele tinha trinta anos (cf. Gn 41.46) era,
provavelmente, Amenemete I (1983 – 1934 a.C.), seguido de Senousrete I (1943-1898). A BEG, p. 77,
argumenta em favor de uma data posterior da ascensão de José ao poder, situando-a no período de “domínio do
Egito pelos hicsos, que também eram semitas (c. 1700-1550 a.C)”. O problema com a datação da BEG é a
declaração de Êxodo 12.40: “Ora, o tempo que os filhos de Israel habitaram no Egito foi de quatrocentos e trinta
anos”. Se for mantida a data do Êxodo entre 1450-1440, os eventos da vida de José devem ser colocados em c.
1880 a.C.
73

fim, sua prática administrativa não é auto-suficiente. Na sua administração, Yahweh é

com ele.

Por um lado, é possível afirmar que a administração de José consolida e fortalece as

estruturas econômicas e, por conseguinte, políticas de uma nação pagã — o Egito. Por outro,

garante a sobrevivência da linhagem de Jacó em um momento crítico. Assegura-se, destarte, o

cumprimento do proto-evangelho (Gn 3.15). Servindo ao reino de Faraó, no aspecto modal

econômico, José serve ao reino cósmico divino, cooperando para a preservação da

ascendência do Redentor.221

4.2 Adam Smith, Moisés e a Trindade Econômica: Digressões


Pertinentes Sobre a Divisão do Trabalho

Um dos aspectos organizacionais abordados pela moderna administração é a

divisão do trabalho. “Toda atividade humana organizada [...] dá origem a duas exigências

fundamentais e opostas: A divisão do trabalho em várias tarefas a serem executadas e a

coordenação dessas tarefas para a realização da atividade.” 222

Adam Smith (1723 – 1790) é um dos pioneiros dessa discussão. A partir da

observação de uma equipe envolvida na forja de alfinetes, ele argumenta que a divisão do

trabalho aperfeiçoa as forças produtivas:223 Várias pessoas colaboram para o alcance de

um só objetivo. O trabalho individual influencia no resultado final e o trabalhador recebe

treinamento, a fim de desenvolver as habilidades necessárias para desempenhar bem sua































 


















221
NELSON, Thomas. Manual Bíblico de Mapas e Gráficos. São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p. 23: “José foi o
instrumento usado por Deus para preservar a família de Jacó durante os anos de fome (Gn 41—46), preservando
também da destruição a linhagem do pacto e da promessa.”
222
MINTZBERG, Henry. Criando Organizações Eficazes: Estruturas em Cinco Configurações. 2. ed. 3. reimp.
São Paulo: Atlas, 2006, p. 12.
223
SMITH, 2003, p. 7-17.
74

função.224 Há aumento da quantidade do trabalho devido a três circunstâncias: (1)

“Aumento da destreza do trabalhador” — capacitação; (2) “economia do tempo que

normalmente se perdia ao passar de uma tarefa a outra” — otimização do uso do tempo;

(3) “invenção de grande número de máquinas” — desenvolvimento e uso adequado de

novas tecnologias.225 O resultado final da divisão do trabalho, segundo Smith, é a riqueza.

A multiplicação da produção das diversas artes, em uma sociedade bem administrada, gera

“opulência generalizada que se estende às mais baixas camadas do povo”.226 Mas, o que

força a existência da divisão do trabalho? Simplesmente é preciso produzir mais, porque o

homem precisa de coisas para trocar. A origem da divisão é a propensão do homem ao

câmbio.227

Antes de Smith, porém, Moisés lida com uma questão que exige a divisão do

trabalho. Se José contribui para instalar a família de Jacó nos domínios de Faraó,

quatrocentos e trinta anos depois, Moisés lidera sua retirada (Êx 12.37-41).228

Um dos pontos destacados no Êxodo é o recebimento da Lei, no Monte Sinai (Êx

20 et seq.). Tal revelação pode ser considerada um evento transcendente. Deus concede as

“leis morais, civis e cerimoniais, bem como o projeto do Tabernáculo, que deveria ser

construído no deserto”.229 Tal concessão tem uma finalidade. Israel está sendo constituído

como povo sacerdotal (cf. Êx 19.5 et seq.) — um fato que repercute significativamente

nas gerações subseqüentes (cf. 1Pe 2.9-10; Ap 1.4-6).































 


















224
Ibid., p. 8-9.
225
Ibid., p. 11-15.
226
Ibid., p. 15.
227
Ibid., p. 18-21.
228
Esta pesquisa assume que a retirada dos israelitas de Canaã deu-se entre 1450-1440 a.C. no período do Novo
Império, na décima oitava dinastia egípcia, sob Tutmés III (1479 – 1425, cf. WALTON, op. cit., p. 62; 1504-
1450 a.C.; BEG, loc. cit.) ou Amenotepe II (1450-1425 a.C., cf. BEG, loc. cit.; NELSON, op. cit., p. 30).
NELSON, op. cit., p. 27, 30, refere-se ainda a uma teoria de data mais recente do Êxodo, ao redor de c. 1275
a.C., o que colocaria o evento sob Ramsés II (1304-1236). O problema com essa última hipótese é a
desconsideração da declaração de 1 Reis 6.1, de que o Êxodo ocorreu antes da fundação do templo, em 966 a.C.
229
NELSON, op. cit. p. 35.
75

Nesses termos, o Capítulo da Aliança (Êx 19),230 deve ser considerado um proêmio

aos Dez Mandamentos, listados no capítulo seguinte. Acampado “em frente do monte” (Êx

19.2) Israel prepara-se para o grande evento do recebimento da Lei: Moisés sobe ao monte e

ouve a Yahweh (Êx 19.3-6), depois transmite o que ouviu aos anciãos e ao povo (Êx 19.7-10),

em seguida Deus se pronuncia novamente, requerendo a purificação da nação e instruindo

sobre os arranjos necessários (Êx 19.10-15). Três dias depois são ouvidos “trovões, e

relâmpagos [...] e mui forte clangor de trombeta”. Uma nuvem densa cobre o monte e o povo

estremece (Êx 19.16). Moisés leva o povo para “fora do arraial ao encontro de Deus” e a

multidão contempla o monte fumegando e tremendo, uma vez que Deus desce sobre ele em

fogo (Êx 19.17 et seq.). Poderosa experiência espiritual. O Divino revela-se em palavra e

poder. Uma provisão transcendente está a caminho, prestes a ser dispensada ao povo nascente.

Em Êxodo 12 os israelitas saem do Egito — milhares de peregrinos sedentos de liberdade. Em

Êxodo 19 e 20, nasce Israel, a nação.

O capítulo da preparação para o transcendente é precedido, porém, de um capítulo

que registra uma providência administrativa. A visita de um pagão midianita, Jetro, ao seu

genro israelita, Moisés, contribui para criar a estrutura gerencial da nação de Israel.

Halley afirma que “foi mediante o conselho desse governante midianita amigo, seu

sogro, que [Moisés] conseguiu organizar o povo de modo mais eficiente”.231 A BTE vai

mais longe ao sustentar que o relato autentica, “por um ato do próprio Moisés, a

organização da sociedade israelita, em que alguns responsáveis em diversos níveis estão

encarregados do bem comum (cf. Dt 17,8-13)”.232 Se em Êxodo 19 temos uma aliança

seguida de um evento transcendente, em Êxodo 18 temos uma providência aparentemente

secular e administrativa: A divisão do trabalho. Moisés delega autoridade e estabelece































 


















230
BTE, p. 125.
231
HALLEY, Henry Hampton. Manual Bíblico de Halley: Nova Versão Internacional. São Paulo: Vida Nova,
2001, p. 118.
232
BTE, nota de estudo “f”, p. 124.
76

chefes, cada um com sua alçada (Êx 18.21-22). Muito mais pode ser realizado com menos

esforço, o povo é mais bem atendido e Moisés tem mais tempo para dedicar-se a

representá-lo “perante Deus”, levar “as suas causas a Deus” e ensinar-lhes “o estatutos e

as leis”, fazendo-os “saber o caminho em que devem andar e a obra que devem fazer” (Êx

18.17-20, 23).

Destacam-se algumas expressões. O sogro de Moisés declara “não é bom o que fazes”

(Êx 18.17), uma frase que ressoa Gênesis 2.18, quando providências criativas precisaram ser

tomadas, relacionadas à solidão de Adão. Aqui, a solidão de Moisés na condução das questões

do povo é um problema que também precisa de solução. Outra expressão importante

encontra-se em Êxodo 18.24: “Moisés atendeu às palavras de seu sogro e fez tudo quanto este

lhe dissera”.233 Algo semelhante é encontrado em Êxodo 19.8: “Então, o povo respondeu à

uma: Tudo o que o SENHOR falou faremos” e nas declarações conclusivas relacionadas às

vestes sacerdotais e demais utensílios do santuário: “[...] segundo o SENHOR ordenara a

Moisés” (cf. Êx 39.2, 5, 7, 21, 26, 29, 31). Tais afirmações demonstram que Moisés e o povo

se comprometem a obedecer a Deus Yahweh. Ao mesmo tempo, Moisés não se constrange de

ouvir — e acatar — os conselhos de um sacerdote pagão, sobre a administração de Israel.

Junto ao “monte de Deus”, no deserto, há uma multidão que precisa de cuidados. Deus

está prestes a firmar uma importante aliança com esse povo, dando-lhe a lei. É plausível

sugerir uma correlação com o Gênesis. Tanto as alianças da criação e redenção, quanto a

aliança do Sinai, foram firmadas após a execução de atos administrativos. Talvez seja

admissível ainda enxergar, no relato, uma inter-relação de significado234 entre os aspectos

modais pístico e econômico: a administração cria estruturas necessárias à prática daquilo que

concerne à fé. A aliança é precedida por uma providência administrativa de divisão do

trabalho.































 


















233
Grifo nosso.
234
OLIVEIRA, 2004, p. 87.
77

Em Smith temos a divisão do trabalho recomendada por um filósofo do iluminismo

escocês; em Moisés, por um sacerdote de Midiã. Propõe-se um desafio adicional: Encontrar

indícios da divisão do trabalho no próprio Criador. Isso pode ser feito a partir do estudo de

Moltmann, que percebe no relato bíblico da vida e obra de Jesus o desvendamento de seis

tópicos: (1) Envio; (2) sofrimento (paixão) e morte; (3) ressurreição; (4) exaltação do Filho;

(5) envio do Espírito e (6) consumação.235 No desenvolvimento de cada um desses temas, a

Bíblia fornece um modelo diferente das interações entre as pessoas da Trindade.

A leitura dos Evangelhos revela, primeiramente, a temática do envio. Nesses termos,

“o Pai envia o Filho, através do Espírito. O Filho procede do Pai, na força do Espírito. O

Espírito conduz os homens ao seio da comunidade do Filho com o Pai” 236 (Gl 4.4-6; Lc 1.34-

35; Rm 8.15-16). O próximo tema é o da paixão e morte de Jesus, onde se verifica que “o Pai

entrega o seu próprio Filho à morte absoluta, por nós. O Filho entrega-se a si mesmo, por nós.

O comum sacrifício do Pai e do Filho acontece por meio do Espírito Santo, que liga e unifica

o Filho, em seu abandono, com o Pai”237 (Mc 15.34; Jo 10.17-18; Hb 9.14). Em seguida,

defrontamo-nos com o tema da ressurreição, no qual “o Pai ressuscita o Filho, pela força do

Espírito; o Pai revela o Filho, pelo Espírito e o Filho é estabelecido como Senhor do poder de

Deus, mediante o Espírito”238 (Rm 1.4, 6.4; 1Co 2.10). A partir da ressurreição, partindo dos

Evangelhos para o restante do NT, são encontrados os temas da exaltação do Filho e envio do

Espírito. A Bíblia ensina que “o Pai ressuscita o Filho morto, pelo Espírito vivificador; o Pai

estabelece o Filho como Senhor do seu reino e o Filho ressuscitado envia o Espírito criador do

Pai, que renova céus e terra” 239 (At 2.32, 33, 36). Por último, na temática da consumação, a































 


















235
MOLTMANN, Jürgen. Trindade e Reino de Deus: Uma Contribuição Para a Teologia. Petrópolis: Vozes,
2000, passim.
236
Ibid., p. 88.
237
Ibid., p. 96.
238
Ibid., p. 101.
239
Ibid., p. 102.
78

Escritura demonstra que “o Pai submete tudo ao Filho; o Filho entrega o reino consumado ao

Pai; o Filho submete-se ao Pai”240 (Fp 2.9-11; 1Co 15.22-28).

O que isso ensina sobre o trabalho da Trindade? Moltmann sugere que:

No envio, na entrega e na ressurreição de Cristo, transparece a seguinte


seqüência: Pai – Espírito – Filho; no reino de Cristo e no envio do Espírito:
Pai – Filho – Espírito. Em termos da consumação escatológica e da
glorificação, a ordem é: Espírito – Filho – Pai.241

O Deus Triúno age dinamicamente; sua ação não segue um molde fixo ou rígido, mas

as três pessoas da Trindade trabalham harmônica e criativamente, para a realização de sua

vontade. Esta operação revela a divisão divina do trabalho. Não se trata apenas da constatação

empírica de um filósofo escocês, nem da experiência de organização de um dirigente israelita;

a divisão do trabalho baseia-se no ser divino, na interação entre as pessoas da Trindade.

4.3 Jesus, a Luz da Natureza e a Prudência

O centro do NT é a pessoa e obra de Cristo. Uma investigação sobre seus ditos e feitos

permite elencar práticas identificáveis com métodos administrativos contemporâneos.

Briner e Pritchard fazem um apanhado desses procedimentos a partir do Evangelho de

Marcos: Estabelecimento de autoridade (Mc 1.22, 3.14-15), cuidado dos liderados (Mc 1.31);

investimento em ensino (Mc 2.13), escolha de colaboradores (Mc 2.14), planejamento (Mc

3.9), avaliação (Mc 4.24), publicidade (Mc 5.20), preparo de sucessores (Mc 5.35-43) e

organização (Mc 6.39).242 Em outra obra, o mesmo Briner sugere uma leitura abrangendo

outros evangelhos e encontra as seguintes práticas: Insistência em absolutos, honestidade e

enfrentamento da corrupção, equilíbrio entre trabalho e descanso, atenção a suporte logístico,
































 


















240
Ibid., p. 105.
241
Ibid., p. 106.
242
BRINER, Bob; PRITCHARD, Ray. Lições de Liderança de Jesus. Campinas: Editora United Press, 2000. A
lista não é exaustiva. Abordagens semelhantes são feitas por MARR, Steve. Administração Segundo a Bíblia.
São Paulo: Mundo Cristão, 2006, que apesar da proposta mais abrangente focaliza nas palavras e práticas de
Jesus, e BLANCHARD, Ken; HODGES, Phil. Lidere Como Jesus. Rio de Janeiro: Sextante, 2007.
79

corte eficiente de perdas, cuidado no pagamento de impostos, transmissão de filosofia

empresarial, liderança inspiradora, uso adequado do tempo, capacidade de corrigir,

desencorajamento da disputa por posições, justiça no trato interpessoal, defesa dos

funcionários, sociabilidade, maturidade diante da bajulação, trato gentil, humildade, prontidão

para o serviço e foco na glória de Deus.243

Esse tipo de abordagem é bem-vindo por duas razões. Primeiro, porque cria links

entre o exemplo de Cristo e alguns desafios práticos da administração. Segundo, porque, com

sua linguagem acessível, coloca nas mãos de seus leitores ferramentas úteis. Há, no entanto,

um problema metodológico. Corre-se o risco de interpretar-se o Jesus do século I a partir de

categorias extraídas da administração do século XXI. O Jesus dos Evangelhos pode dar lugar

ao Jesus Administrador ou ao Jesus Consultor — versões de auto-ajuda que têm pouco a ver

com o Redentor retratado na Escritura. A exegese apressada e superficial impede que tal

sugestão se torne paradigmática, uma vez que todo paradigma exige uma base conceitual

consistente e suficiente. Propõe-se uma prática sem, de fato, uma teologia. Isso tem o

potencial de, primeiramente, afastar os cristãos que discernem a ausência de solidez bíblica.

Pastores e líderes, ao perceberem tais fragilidades, podem simplesmente concluir que a

ligação entre o ministério de Jesus e a administração é forçada, e manter o serviço do

evangelho como vocação e a administração como imposição burocrática denominacional, que

nada tem a ver com o chamado divino.

Já foi demonstrado em 2.3 que o ministério pastoral de Cristo não exclui a

administração. O que precisa ser checado, nesse momento, é se sua pessoa, ditos e obras

corroboram o paradigma cosmonômico.244 Focalizando a pessoa do Redentor, observa-se, em































 


















243
BRINER, Bob. Os Métodos de Administração de Jesus. São Paulo: Mundo Cristão, 1997. A lista não é
exaustiva.
244
Antes de prosseguirmos, cabe uma ponderação sobre o questionamento de Jeremias, teólogo que se esforça
por encontrar um núcleo confiável das palavras de Jesus a partir da reconstrução aramaica dos textos gregos dos
Evangelhos: “As fontes de que dispomos possibilitam estabelecer com alguma probabilidade as idéias
fundamentais da pregação de Jesus ou essa esperança seria de antemão utópica? [...] Não só temos que contar
80

primeiro lugar, que o nome Jesus designa um profundo lastro com a humanidade e a cultura.

Trata-se de um nome comum, usado por grande número de judeus do primeiro século.

Nos escritos do historiador Josefo encontramos vinte personagens com este


nome [...]. De 35 a.C. até 63 a.D. quatro sumo-sacerdotes se chamavam
Jesus. O nome Jesus significa que a criança por nascer é verdadeiramente
filha do povo judeu, no seio do qual terá esse nome pessoal familiar a seus
contemporâneos.245

Um segundo dado provém de sua profissão. Jesus era um te,ktwn. O termo é traduzido

por “carpinteiro”, mas pode ser entendido com uma conotação mais ampla, “construtor”. Um

exemplo disso é a afirmação do apóstolo Paulo, em sua primeira carta aos coríntios: “Segundo

a graça de Deus que me foi dada, lancei o fundamento como prudente construtor; e outro

edifica sobre ele. Porém cada um veja como edifica” (1Co 3.10). Aqui a palavra traduzida por

construtor é avrcite,ktwn, “construtor de arcos”, base para o vocábulo contemporâneo

“arquiteto”. Thiede e D’Ancona argumentam que a cidade de Jesus, Nazaré, ficava distante 6

km de Séforis, reconhecida pelo arqueólogo e monge beneditino Bargil Pixner como “a mais































 


















com o fato de que as palavras de Jesus tenham sofrido alterações no período que vai até sua forma escrita, mas
temos que contar, além disso, com a possibilidade de novas formulações” (JEREMIAS, Joachim. Teologia do
Novo Testamento. 2. ed. São Paulo: Editora Teológica, 2004, p. 29, 30).
Jeremias (ibid., p. 30, 31) assume como critérios para o reconhecimento da autenticidade dos ditos de Jesus: (1)
O método da dessemelhança, originado no estudo comparativo das religiões — um dito autêntico de Jesus não
pode derivar-se do judaísmo antigo, nem da igreja das origens; nem do ideário de seus contemporâneos; (2) os
dados referentes à linguagem — o dialeto galileu do aramaico ocidental — e ao estilo — os modos de falar
preferidos por Jesus.
Especialmente na aplicação do segundo critério, a obra de Jeremias é enriquecedora. O autor possui
conhecimento exaustivo dos idiomas bíblicos e do aramaico, e utiliza tais ferramentas para comparar as palavras
de Jesus nos Evangelhos com o modo de falar de seu meio cultural. Desse esforço surgem informações sobre o
modo como Jesus utilizava o “passivo divino”, o paralelismo antitético, o ritmo, a aliteração, a assonância e a
paronomásia, a hipérbole e o paradoxismo. Ele sugere a singularidade dos ditos de Jesus, definidos como
ipsissima vox em suas parábolas, ditos enigmáticos, discursos sobre o reinado de Deus e usos do amém e Abba
(ibid., p. 31-85). O problema do critério da dessemelhança é levantado incidentalmente por Charlesworth:
“Muitos cristãos, inclusive alguns que são eruditos e sofisticados, inclinam-se a presumir que Jesus deve ter sido
singular e ter tido pouca semelhança com seus contemporâneos” (CHARLESWORTH, James H. Jesus Dentro
do Judaísmo: Novas Revelações a Partir de Estimulantes Descobertas Arqueológicas. 2. ed. Rio de Janeiro:
Imago, 1992, p. 58). Charlesworth demonstra (ibid., passim), a partir de evidências da arqueologia, que Jesus era
um judeu plenamente integrado à sua cultura, e que muitos de seus ensinos refletem o judaísmo do primeiro
século. Uma conclusão semelhante é obtida por um erudito judeu contemporâneo, cf. FLUSSER, David. Jesus.
São Paulo: Editora Perspectiva, 2002.
Com relação a essa questão, a presente pesquisa assume as pressuposições de Morris: (1) “Cada evangelista tem
sua própria perspectiva teológica, mas não devemos achar que a teologia de cada um seja a coisa mais
importante no evangelho que leva seu nome”; (2) “os evangelhos nos trazem informações confiáveis sobre
Jesus”; (3) “os evangelhos nos transmitem a essência do que Jesus disse e fez” (MORRIS, Leon. Teologia do
Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2003, p. 110-111).
245
BONNARD, P. Jesus. In: VON ALLMEN, J. J. (Org.). Vocabulário Bíblico. 2. ed. São Paulo: Associação
dos Seminários Teológicos Evangélicos, 1972, p. 197.
81

importante cidade depois de Jerusalém, sob uma perspectiva cristã”. Tal cidade estava sendo

reconstruída como capital da Galiléia durante a juventude de Jesus. Provavelmente Jesus e seu

pai, ambos construtores de profissão, participaram ativamente dos trabalhos em Séforis.246

Considerando que Jesus inicia seu ministério com “cerca de trinta anos” (Lc 3.23),

conclui-se que ele vive a maior parte de sua existência terrena exercendo uma profissão não

reconhecidamente “religiosa”. Esse pode ter sido o motivo da perplexidade registrada nos

Evangelhos (Mt 13.55; Mc 6.33).

A leitura desses registros indica que Jesus Cristo, inserido na cultura de seu tempo,

utilizando ferramentas e técnicas construtivas, legitima as esferas da criação em sua própria

vida e trabalho.

Quanto aos ditos do Redentor, verifica-se em seus ensinos a freqüente recomendação

à prudência. Ao saber que vem o ladrão, o pai de família toma providências para vigiar e

proteger sua casa (Mt 24.43).247 Diante da possibilidade de perseguição, não há mal em

manter uma espada à mão (Lc 22.35-38). O servo infiel da parábola dos talentos, sabendo da

severidade de seu senhor, deve ao menos depositar em um banco os recursos recebidos para

investimento, a fim de garantir o ganho dos juros (Mt 25.27). Antes de construir uma torre, o

sábio se senta para “calcular a despesa e verificar se tem os meios” para concluí-la; antes de

enfrentar um inimigo, o rei prudente se senta para verificar a plausibilidade do enfrentamento

(Lc 14.27-33). “Um meio começo é pior do que nenhum”,248 ou seja, a ação eficaz é realizada

com prudência, após sábio planejamento.

Quanto aos feitos de Jesus, o milagre da primeira multiplicação de pães é precedido da

organização da multidão em “grupos de cem em cem e de cinqüenta em cinqüenta” (Mc 6.39-































 


















246
THIEDE, Carsten Peter; D’ANCONA, Matthew. Testemunha Ocular de Jesus: Novas Provas em Manuscrito
Sobre a Origem dos Evangelhos. Rio de Janeiro: Imago, 1996, p. 181.
247
JEREMIAS, Joachim. As Parábolas de Jesus. 6. ed. São Paulo: Paulinas, 1986, p. 46, sugere que nesta
parábola Jesus se refere a um acontecimento concreto, talvez um fato ocorrido há pouco tempo e que está sendo
comentado por toda a aldeia.
248
Ibid., p. 197.
82

40; Lc 9.14). Tanto na primeira quanto na segunda multiplicação, o alimento que sobra é

recolhido, contado e guardado (Mt 14.20, 15.37; Mc 6.43, 8.8; Lc 9.17 e Jo 6.12-13).

Ademais, dentre os discípulos um é designado para cuidar da “bolsa” e talvez seja o

responsável oficial pelas compras (Jo 12.4-6, 13.27-30; cf. Jo 4.8).

Cabe afirmar que o Senhor encarnado não apenas se orientava pelas instruções diretas

recebidas da Escritura, mas também pela “luz da natureza e prudência”.249 Considera-se, aqui,

“natureza” como sinônimo de “ordenanças da criação”,250 o que abre o terreno para sugerir-se

que a pessoa, os ditos e os feitos de Jesus corroboram o paradigma cosmonômico. Ambas,

“luz da natureza e prudência”, são exploradas com a finalidade de organizar a existência e

estruturar a realização das tarefas relacionadas ao serviço divino.

4.4 Estatística, Organização, Institucionalização e Estratégia em Atos

O propósito desta seção é examinar três blocos de informações no livro de Atos: (1) O

cuidado de Lucas com números; (2) a criação de estrutura eclesiástica em Atos 6 e (3) a

possibilidade do uso de planejamento e métodos nas viagens de Paulo.251































 


















249
ASSEMBLÉIA DE WESTMINSTER, op. cit., CFW, I.vi, p. 24-25.
250
KUYPER, op. cit., p. 78.
251
Esta pesquisa não tem a intenção de entrar em detalhes sobre os debates técnicos relacionados ao livro de
Atos. Um aspecto, porém, precisa ser pontuado. Em 2.3.2.2 abordou-se o questionamento de Volkmann sobre a
autoria paulina das epístolas Pastorais. Demonstrou-se que tal pressuposição — prejudicial ao correto
entendimento do ensino bíblico sobre a liderança presbiterial — é desprovido de bases sólidas. Registre-se,
porém, que Volkmann afirma crer na autenticidade e utilidade dos registros de Atos.
O assunto que se levanta agora é outro. Kistemaker refere-se a Roloff, estudioso que sustenta que os discursos
paulinos de Atos foram colocados “nos lábios de Paulo” por um escritor tardio (ROLOFF, Jurgen. Die
Apostelgeschichte. In: Das Neus Testament Dutsch. Göttingen: Vandenhoeck und Ruprecht, 1981, v. 5, p. 3,
apud KISTEMAKER, Simon. Comentário do Novo Testamento: Atos. São Paulo: Cultura Cristã, 2006a. v. 1, p.
28). Esse tipo de argumentação é assumido por estudiosos críticos que “questionam o valor do testemunho da
igreja primitiva” (CARSON; MOO; MORRIS, op. cit, p. 210). Cadbury, por exemplo, considera “fantasiosas” as
teorias dos primeiros cristãos sobre a origem do Novo Testamento (ibid., loc. cit.).
Esta pesquisa assume que Lucas é o autor de Atos e que o livro foi escrito antes de 19 de julho de 64 d.C.
(KISTEMAKER, 2006a, p. 44. Argumentos consistentes defendendo essa posição são fornecidos pelo próprio
Kistemaker (ibid., p. 41-44). As implicações de tais pressupostos são as seguintes: (1) Atos reflete a teologia e as
práticas das três primeiras décadas depois do Pentecostes (ibid., p. 43); (2) os registros de Atos são plenamente
consistentes com os das epístolas paulinas.
83

4.4.1 O Cuidado de Lucas em Registrar Números

Em Atos há referências a estatística. Lucas é cuidadoso no registro de números: Após

a ressurreição o grupo de cristãos reunidos é de “umas cento e vinte pessoas” (At 1.15). No

dia de Pentecostes agregam-se à igreja “quase três mil pessoas” (At 2.41). Os eventos da cura

do coxo e do sermão de Pedro culminam com a subida do “número de homens a quase cinco

mil” (At 4.4). Além dessas informações detalhadas, há outras referências gerais ao

crescimento da igreja (At 2.47, 5.14, 6.7, 8.6, 9.31, 11.21 e 24, 12.24, 16.5 e 17.12). Tais

textos recomendam uma preocupação de Lucas em registrar o crescimento. Além disso,

pressupõem alguma metodologia — não referenciada — de averiguação e contagem da

membresia. Por fim, em Atos percebe-se a quantificação de convertidos como estatística,

jamais como meta. O número de pessoas que abraçam o evangelho é uma variável

transcendente, que se encontra fora do controle da igreja (cf. At 13.48, 16.14, 18.9-10).

4.4.2 Em Atos 6 os Apóstolos Administram Criando Uma Estrutura Eclesiástica

Atos fornece dados sobre organização e institucionalização da igreja. É verificável a

criação de estruturas para o atendimento de pessoas, uma leitura que destoa da tese de

Theissen, para quem “Jesus não fundou primordialmente comunidades locais, e sim

suscitou um movimento de carismáticos andarilhos”.252 Os apóstolos eram primordialmente

pregadores e realizadores de sinais, não gerentes.































 


















252
THEISSEN, Gerd. Sociologia do Movimento de Jesus. São Leopoldo: Sinodal, 1989, p. 16. Theissen
descreve a igreja primitiva como uma amálgama de três movimentos: Primeiro, um núcleo itinerante
formado por “apóstolos, profetas e discípulos carismáticos apátridas”, completamente espontâneo e cujo
papel não é “uma forma de vida institucionalizada” (ibid., loc. cit.). Os apóstolos percorrem campos, vilas e
cidades fazendo missão e curando (cf. Mc 3.13 et seq.); não têm a “incumbência de dirigir comunidades”
(ibid., p. 17). Um segundo movimento é o crescimento dos núcleos de crentes nos lares. Os carismáticos são
sustentados em casas de simpatizantes, que por sua vez, se desenvolvem em comunidades locais, ainda
84

Esse não parece ser o caso, pelo menos a partir de uma leitura conservadora da

Escritura. Lucas registra que, logo após a ressurreição, os apóstolos dirigem uma reunião

para eleição do substituto de Judas (At 1.12-26). Depois do Pentecostes, além de pregar e

realizar sinais, eles lideram uma comunidade, o que envolve a gerência de bens (At 2.42-

47, 4.32-35). A dificuldade em assumir isso decorre dos pressupostos de Theissen sobre o

NT. Sua abordagem dos textos demonstra que ele os considera uma colagem tardia de

recortes produzidos pelos diversos segmentos da igreja.253 Por sua vez, ele contribui com a

percepção de que a comunidade produz a instituição.254

Theissen refere-se ao texto de Atos 6.1-7 a partir de uma ótica sociológica,

destacando a tensão existente entre os cristãos marginalizados provindos da Galiléia, mais

pobres, e os judeus da diáspora de fala grega, melhor colocados economicamente. Os

helenistas, “entre os quais presumimos maior número de doadores”,255 percebem que suas

viúvas estão em desvantagem na distribuição de mantimentos. O texto de Atos pontua

goggusmo.j, uma “murmuração” (At 6.1).256

A crise irrompe “parcialmente como resultado do [...] número sempre maior de

crentes”.257 De acordo com Stott, “nada indica que esse esquecimento fosse proposital [...]; a































 


















ligadas ao judaísmo. Por fim, a ascensão dessas comunidades sobre o profetismo itinerante exige
regulamentação de conduta, estruturação de autoridade e definição de normas de admissão e exclusão (ibid.,
p. 22-25). Para Theissen, Jesus não fundou a igreja — uma comunidade ou instituição — e sim um movimento.
253
O NT, segundo ele, revela as tensões entre os carismáticos andarilhos e a comunidade. Os primeiros
produzem os textos que enfatizam a vida sem pátria, renúncia à família e propriedade e desproteção (ibid., p. 18-
22). Os últimos são os responsáveis pelas passagens que recomendam a regulamentação da conduta, a estrutura
de autoridade, o batismo como iniciação comunitária e a disciplina (ibid., p. 22-26). Outro aspecto formativo da
igreja primitiva é o papel do Filho do Homem, cuja referência neotestamentária é devida aos carismáticos
andarilhos, ao passo que o título Messias é destacado pela comunidade institucionalizada.
254
Diferentemente de Wagner que propõe o dilema comunidade versus instituição (cf. seção 2.2), Theissen
enxerga o dilema carismatismo itinerante, destituído de formatação, versus comunidade que, por sua própria
natureza, exige institucionalização.
255
Ibid., p. 51.
256
O verbo cognato é usado pela LXX para referir-se à reclamação dos israelitas contra Moisés (cf. Êx 16.8; Nm
17.25 — cf. STOTT, John R. W. A Mensagem de Atos: Até os Confins da Terra. 1. ed. 2. reimp. 2003. São
Paulo: ABU, 1994. A Bíblia Fala Hoje, p. 132). Os membros da igreja falam mal dos apóstolos.
257
MARSHALL, I. Howard. Atos: Introdução e Comentário. 1. ed. reimp. 1985. São Paulo: Mundo Cristão;
Vida Nova, p. 122.
85

causa provável era uma falha na administração ou supervisão”.258 O conflito exige uma

“separação organizativa dos dois grupos”.259 Kistemaker vê nessa situação um paralelo com

o problema enfrentado anteriormente por Moisés:

Em vista de suas muitas responsabilidades, os apóstolos não podiam fazer


justiça no tocante ao cuidado das necessidades financeiras de todas as
viúvas. A evidência demonstra que eles estão muito ocupados. Assim, a
situação lembra a de Moisés julgando o povo de Israel. Jetro, o sogro deste,
aconselhou-o a escolher homens capazes e a colocá-los como juízes para o
povo (Êx 18.17-26). Isso aliviou o fardo de Moisés. Assim também os
apóstolos tentam resolver o problema do cuidado aos necessitados.260

Os Doze convocam a “assembléia plenária”261 e apelam à razão: “não é” avresto,n,

“razoável [...]” (At 6.2).262 A resposta ao problema tem de atender à prudência, àquilo que é

mais pertinente ao contexto.

Ceder à pressão gerada pela murmuração — por mais legítima que seja a necessidade

relatada — não é a melhor alternativa. Os Doze se vêem forçados a escolher entre o urgente e

o verdadeiramente necessário. Sabem que não devem katalei,pw, “abandonar” a palavra de

Deus.263 O conflito é resolvido “pela instituição de uma diaconia, de um serviço das

mesas.”264

Os apóstolos não hesitam em dizer à igreja que eles não conseguem, sozinhos, suprir a

todas as demandas. Estabelecem prioridades e dividem tarefas. Até aqui eles “têm tido a

responsabilidade total de cuidar das necessidades espirituais e materiais dos crentes. Mas é

chegada a hora de encontrar alívio.” 265































 


















258
Ibid., p. 133, grifo nosso.
259
THEISSEN, op. cit., loc. cit., grifo nosso.
260
KISTEMAKER, 2006ª, p. 296.
261
BTE, nota de estudo “n”, p. 2113: “É a igreja enquanto assembléia deliberante (cf. v. 5; 15.12.30)”.
MARSHALL, op. cit., p. 123: “A proposta feita pelos Doze foi submetida a uma assembléia da igreja [...].”
262
Outras traduções trazem “não é certo” (NVI; NTLH), “não convém” ou “não é conveniente” (BJ; BTE). Para
Kistemaker (2006a, p. 299), “o adjetivo verbal do verbo avre,skw (eu agrado; v. 5) juntamente com a partícula
negativa ouvk (não) significa ‘não é desejável’.”
263
A expressão carrega o sentido de desmazelo: “Não é certo negligenciarmos” (BENVI). Os Doze não podem
deixar a Palavra de Deus para diakonei/n trape,zaij, “servir às mesas”. O versículo não se refere apenas ao perigo
de um descuido, mas também a uma oportunidade de serviço diaconal.
264
BTE, nota de estudo “l”, p. 2113, grifo do autor.
265
KISTEMAKER, 2006a, p. 296.
86

A solução proposta é separar pessoas capacitadas para cuidar do serviço (At 6.3).266

Estas devem ser honestas e repletas do Espírito Santo e sabedoria, ou seja, portadoras de

caráter, competência e graça divina, ou, como diz a tradução de Philips, homens “práticos e

espirituais”.267 Kistemaker vê no texto uma implicação: “Para o Espírito Santo, não há

nenhuma separação entre o sagrado e o secular.” 268

O quarto versículo encerra o argumento dos Doze. Estes se dedicarão th/| proseuch/| kai.

th/| diakoni,a| tou/ lo,gou, “à oração e ao ministério da palavra”.269 Observe-se uma segunda

referência à idéia de diaconia. Em Atos 6.2 aponta-se a “diaconia das mesas”, e aqui para a

“diaconia da palavra”. Os apóstolos estão dizendo que ambos os grupos, os Doze e os Sete,

servem no espírito diaconal, ou seja, trabalham para o Senhor atendendo à igreja. A diferença

está na função: Uns dedicando-se à resolução do problema relacionado às viúvas helenistas, e

outros, assegurando “a oração e o serviço da Palavra” (BTE).

A proposta é bem recebida, sete irmãos são eleitos e a igreja prossegue enquanto é

multiplicado “o números dos discípulos” e “muitíssimos sacerdotes”270 obedecem à fé (At

6.5-7).271

Resumindo: (1) Um problema de murmuração, carregado de potencial destrutivo para

a harmonia dos relacionamentos, e, por conseguinte, para a vida espiritual da igreja nascente,

é resolvido por meio de um ato administrativo; (2) a ação resolutória em questão é

encaminhada a partir de um apelo àquilo que é razoável, desejável, ou seja, correspondente à































 


















266
O termo traduzido por “serviço” é crei,aj, que indica precisão, necessidade, ou ofício (cf. Lc 10.42; Hb 7.11).
267
STOTT, op. cit., p. 134.
268
KISTEMAKER, 2006a, p. 297.
269
Os dois artigos definidos, th/, “à”, “ao” que precedem os substantivos oração e ministério “significam que o
autor indica orações formuladas e cultos de pregação” (ibid., p. 299); cf. BJ, nota de estudo “e”, p. 1911: “A
dupla função dos apóstolos nas reuniões litúrgicas da comunidade: Pronunciar as orações e fazer a catequese.”
270
THEISSEN, op. cit., p. 48-49 relata que o templo tinha a capacidade de empregar “1.000 sacerdotes pobres.”
271
Um espaço poderia ser concedido à discussão das origens do ofício do diaconato. Atos 6.1-7 retrata tal
origem ou esta ocorre em um desenvolvimento tardio da igreja? Tanto a BENVI, nota de estudo 6.6, p. 1861,
quanto a BEG, nota de estudo “a palavra de Deus”, p. 1280, relacionam as palavras usadas no texto com o
vocábulo diácono. A BEG, loc. cit., sugere que o ofício de diácono, descrito em 1 Timóteo 3.8-13, “pode ter
tido seu começo aqui”. Tal esforço, porém, seria uma digressão, indo além do que é proposto neste trabalho. A
obtenção dos recursos para elaboração de uma resposta à segunda questão subsidiária exige que nos detenhamos
nos pontos abordados a seguir.
87

“luz da natureza e prudência cristã”; (3) os responsáveis pela ação administrativa são os

ministros da oração e da Palavra que percebem o problema, convocam uma assembléia,

propõem uma solução e confirmam sua autoridade sobre o povo empossando publicamente os

que foram eleitos para a realização do serviço; (4) a iniciativa apostólica compreende

estabelecimento de prioridades e divisão do trabalho, ou seja, é administrativa visando

edificar a igreja; (5) a palavra de Atos 6.4 não pode ser compreendida como uma fuga dos

Doze da administração, a fim de tratar de coisas “verdadeiramente espirituais”, mas como

ação administrativa que abre espaço para separar o urgente do importante; (6); os homens

eleitos para administrar unem caráter, capacitação carismática e competência gerencial; o

aspecto modal econômico, cujo núcleo de significado é a capacidade gerencial, funciona

dependente do Espírito Santo; (7) a ação apostólica é institucional no sentido de criar uma

nova estrutura na comunidade; (8) em seguimento ao ato administrativo, registra-se o

crescimento da igreja.

4.4.3 A Possibilidade de Uso de Planos e Métodos Nas Viagens de Paulo

O terceiro detalhe a destacar em Atos é o trabalho paulino de fundação de novas

igrejas. Diversas partes do registro lucano demonstram que Paulo planta igrejas sob a direção

divina (cf. At 9.15-16, 13.1-4, 16.6-7). A questão que se levanta é: Ele utiliza algum método?

É possível aventar que ele, no estabelecimento das comunidades cristãs, segue um plano

previamente estabelecido?
88

O livro de Atos refere-se a três viagens de Paulo orientadas para a implantação e

consolidação de igrejas,272 realizadas em um período de aproximadamente dez anos. O

impacto dessas incursões é descrito por Allen:

Em menos de uma década Paulo estabeleceu a Igreja em quatro


províncias do Império: Galácia, Macedônia, Acaia e Ásia. Antes de 47
A.D. não havia igrejas nessas províncias; em 57 A.D. Paulo pode falar
que seu trabalho foi completado e que ele deseja viajar para o Oeste, sem
mostrar-se ansioso de que as igrejas por ele fundadas sofram devido à
falta de liderança ou suporte.273

Na primeira viagem Paulo e Barnabé saem de Antioquia da Síria, passam por

Selêucia e vão para Chipre. Em Pafos testemunham ao procônsul Sérgio Paulo que crê,

“maravilhado com a doutrina do Senhor” (At 13.1-12). De lá rumam para Perge e, em

seguida, para Antioquia da Pisídia, onde muitos crêem (At 13.13-52). Falam na sinagoga

de Icônio, com resposta positiva tanto de judeus quanto de gregos (At 14.1). As próximas

paradas são Listra e Derbe, onde o evangelho é também anunciado e produz fruto (At

14.8-18, 20-21). A partir desse ponto começa o retorno. Paulo e Barnabé passam pelas

cidades recém-visitadas fortalecendo os irmãos, promovendo a eleição de presbíteros e

encomendando tais líderes às igrejas. Passam pela Pisídia e Panfília, pregam em Perge,

descem para Atália e chegam, por fim, em Antioquia da Síria de onde haviam saído “para

a obra que haviam cumprido” (At 14.21-26)274. A igreja os recebe e se alegra com as

notícias por eles transmitidas (At 14.27-28).































 


















272
Esta pesquisa evita atribuir a estas viagens o título “missionárias”, assim como, a Paulo e seus companheiros
o título “missionários”. Ainda que se reconheça a aceitação universal dessa nomenclatura, o fato é que a palavra
“missionário” não se encontra em Atos — e nem no restante do NT. No texto bíblico os seguidores de Jesus, de
modo geral, são “irmãos” (At 1.15), “testemunhas” (At 1.8), “crentes” (At 5.14), “discípulos” (At 6.1) e
“cristãos” (At 11.26), e os que ocupam ofícios são designados “apóstolos” (At 1.2), “profetas” (At 11.27),
“presbíteros” (At 14.23) ou “bispos” (At 20.28) e “evangelistas” (At 21.8).
273
ALLEN, Roland. Missionary Methods: St. Paul’s or Ours? Grand Rapids, Michigan: Wm. B. Eerdmans
Publishing Co., 2001, p. 3, tradução nossa.
274
Grifo nosso.
89

A narrativa cobre o período de 46 a 48 d.C.275 Considerando apenas Listra, Icônio e

Antioquia da Pisídia, e reconhecendo que há espaço para a inclusão de outras localidades

(Derbe, por exemplo), pode ser afirmado que, em dois anos, foram organizadas — com

presbíteros eleitos — três igrejas.

A segunda viagem ocorre após o Concílio de Jerusalém (At 15.1-36). Paulo e Silas

saem de Antioquia e passam pela Síria e Cilícia “confirmando as igrejas” (At 15.40-41).

Chegam a Derbe e, em Listra, Timóteo se junta a eles (At 16.1-3). Transmitem às igrejas —

provavelmente de Listra, Icônio e Antioquia da Pisídia — as decisões do Concílio e estas são

fortalecidas e crescem em número (At 16.4-5). Tentam pregar na Ásia. De Mísia tentam ir

para a Bitínia, mas terminam aportando na Macedônia (At 16.6-10). A partir de Atos 16.10 a

descrição da viagem é feita na primeira pessoa do plural até 16.17, o que é retomado em 20.5.

Isso indica a participação do narrador, Lucas, nesses eventos.276 De Trôade vão para Neápolis

e, dali, a Filipos, onde uma igreja é estabelecida (At 16.11-40). Passam por Anfípolis e

Apolônia, e chegam a Tessalônica, onde outra igreja é implantada (At 17.1-9). Os irmãos

enviam Paulo e Silas para Beréia e surge uma terceira nova igreja (At 17.10-12; cf. 20.4).

Paulo prega em Atenas, onde alguns crêem e segue para Corinto onde conhece Priscila e

Áquila, estabelece outra igreja e permanece por um ano e seis meses (At 17.16-18-11). O

retorno dá-se a partir de Corinto para Cencréia, daí para Éfeso (onde deixa Priscila e Áquila) e

prega algumas vezes aos judeus. Saindo de Éfeso os viajantes desembarcam em Cesaréia e

daí, vão para Jerusalém e Antioquia (At 18.18-22).































 


















275
DOWLEY, Tim. (Ed.). Atlas Vida Nova da Bíblia e da História do Cristianismo. 1. ed. reimp. 1998. São
Paulo: Vida Nova, 1997, p. 68. ALLEN, op. cit., loc. cit., entende que a primeira viagem foi iniciada em 47 d.C.
276
MARSHALL, op. cit., p. 249. KISTEMAKER, Simon. Comentário do Novo Testamento: Atos. São Paulo:
Cultura Cristã, 2006b, v. 2, p. 122.
90

A segunda viagem ocorre provavelmente de 49 a 52 d.C.277 O registro de Atos sugere,

considerando-se Éfeso, que além do fortalecimento das igrejas anteriormente estabelecidas,

foram iniciadas cinco igrejas e um grupo de convertidos em Atenas, em três ou quatro anos.

Na terceira viagem Paulo “confirma” os discípulos provavelmente em Tarso, Derbe,

Listra, Icônio e Antioquia, as “regiões mais altas” citadas em Atos 19.1 (cf. At 18.23) e chega

a Éfeso, onde prega o evangelho e consolida a igreja por dois anos (At 19.1-41). De Éfeso

prossegue até a Macedônia (provavelmente Filipos, Tessalônica e Beréia) e vai para a Grécia

(talvez Atenas e Corinto). Volta a Macedônia e, de lá, segue para Trôade (At 20.1-12).

Chegando a Mileto, despede-se dos presbíteros de Éfeso e dali segue passando por Rodes,

Pátara, Tiro, Ptolemaida e Cesaréia, até Jerusalém (At 20.17-21.17 et seq.).

Nessa jornada, realizada de 53 a 57 d.C.,278 nenhuma nova igreja é plantada e seu

término é marcado pela chegada de Paulo em Jerusalém, onde ocorre uma turbulência que

enseja sua prisão e envio posterior a Roma.

Assegurar que Paulo trabalha baseado em um planejamento detalhado é ir além das

informações disponíveis na Escritura. O apóstolo lida com imprevistos em diversas ocasiões,

e os textos de Atos não permitem afirmar que ele responde a todas essas situações segundo

uma estratégia previamente definida (cf. At 14.1-7, 19). Na segunda viagem Paulo é impedido

pelo Espírito Santo de pregar na Ásia e na Bitínia, recebendo divina orientação para dirigir-se

à Macedônia (At 16.6-10). No retorno da terceira viagem, estando prestes a embarcar da

Grécia para a Síria, ele é forçado a voltar por outro caminho (At 20.2-3). Por fim, ao escrever

aos cristãos gálatas, informa que o estabelecimento da igreja entre eles não decorreu de um

plano cuidadosamente elaborado, mas de uma “enfermidade física” (Gl 4.13).279 Se as viagens































 


















277
DOWLEY, op. cit., loc. cit.
278
Ibid., p. 69.
279
ALLEN, op. cit., p. 10. STOTT, John R. W. A Mensagem de Gálatas: Somente Um Caminho. São Paulo: ABU,
2003, (A Bíblia Fala Hoje), p. 106, presume que “se não foi uma crise de alguma condição crônica, ele teria apanhado
uma infecção a caminho da Galácia, a qual fê-lo deter-se ali”. HENDRIKSEN, William. Comentário do Novo
91

paulinas em Atos têm algo a dizer sobre planejamento na implantação de novas igrejas, é que

tal atividade é dinâmica, aberta a interferência de fatores transcendentes e passível de

mudanças operacionais decorrentes das limitações humanas e de oposições ao evangelho.

Isso não significa, porém, que Paulo seja afeito à improvisação. Mesmo rejeitando a

idéia de um planejamento formal, o uso da expressão e;rgon, “obra”, “trabalho”, no relato da

primeira viagem (At 13.2, 14,26, 15.38), permite cogitar ao menos em uma atividade prévia e

minimamente articulada.

Allen chama a atenção para o fato de — nas viagens em questão — Paulo abordar não

apenas cidades isoladamente, mas províncias. Ele nota ainda que o trabalho é realizado dentro

dos limites da administração romana e estabelece centros de vida cristã em algumas

localidades importantes.280 Mais: As igrejas iniciadas por Paulo estão inseridas em centros da

administração romana, da civilização grega, da influência judaica ou de comércio pujante.281

A administração romana providencia não apenas proteção dos inimigos externos, o que

possibilita a realização de viagens e outras iniciativas de propagação da fé, mas uma estrutura

legal que permite a Paulo e aos discípulos proteger-se da violência interna incitada pelos

judeus.282 A civilização grega, por sua vez, contribui com a estrutura cultural, uma base

comum de referenciais e linguagem, especialmente, a tradução do AT em grego, a LXX. A

educação grega fornecida nas cidades visitadas por Paulo permite a comunicação em termos

compreensíveis.283 O judaísmo é uma porta para a pregação. De cidade em cidade, Paulo é

recebido nas sinagogas como um irmão — ainda que perseguido posteriormente — e

argumenta com base na Escritura, a fim de provar que Cristo é o Messias (At 13.5,14-15,































 


















Testamento: Gálatas. São Paulo: Cultura Cristã, 1999, p. 246 destaca, a partir do versículo 14, que se trata de “uma
enfermidade tão séria que poderia ter suscitado nos gálatas um sentimento de desprezo e nojo.”
280
Op. cit., p. 12.
281
Ibid., p. 13.
282
Ibid., loc. cit. GREEN, Michael. Evangelização na Igreja Primitiva. 2. ed. São Paulo: Vida Nova, 2000, p.
12-14, fala da PAX ROMANA como um dos caminhos da providência — no primeiro século — para a
evangelização mundial.
283
ALLEN, op. cit., p. 14; GREEN, op. cit., p. 14-21.
92

17.1, 10, 18.4,19, 19.8).284 Nos centros comerciais transita grande quantidade de pessoas e

abre-se espaço para um maior intercurso de idéias. A característica cosmopolita dessas

cidades as torna núcleos de difusão do evangelho.285

Ao estabelecer a Igreja em dois ou três centros Paulo considera que


evangelizou toda a província. Dez anos após sua primeira partida de
Antioquia, ele percebe que “desde Jerusalém e circunvizinhanças até ao
Ilírico, tenho divulgado o evangelho de Cristo” (Rm 15.19), e se avalia como
“não tendo já campo de atividade nestas regiões” (Rm 15.23).286

Para Lopes287 o trabalho de evangelização de Paulo é uma aplicação de sua

teologia, especificamente sua convicção de que os últimos dias já começaram e a igreja é

a plenitude de Cristo. A época atual é especial. Paulo experimenta a graça salvadora e

nutre a esperança de um rápido retorno do Senhor. As profecias da Escrituras estão se

cumprindo. O tempo atual deve ser usado com propriedade para o anúncio da salvação.

Além disso, central no cumprimento de tais promessas, é a igreja. Esta é a “plenitude de

Cristo”, a comunidade escatológica através da qual Deus está trazendo a si os seus eleitos.

Daí a necessidade de edificação da igreja, o que envolve sua expansão e seu

fortalecimento.288 Isso é feito pela proclamação da Palavra.289 Em suma, o apóstolo

assume uma metodologia que, na verdade, é uma aplicação de sua teologia: Fixação em

centros estratégicos para iniciar e fortalecer as igrejas através da pregação e ensino da

Palavra de Deus.

Resumindo, os dados provenientes do livro de Atos permitem afirmar que a igreja

registra seu crescimento, o que implica em uso — logicamente nos termos do primeiro século

— de recursos estatísticos. A vida saudável da igreja exige ainda a criação de instâncias
































 


















284
ALLEN, op. cit., p. 15; GREEN, op. cit., p. 21-26.
285
ALLEN, op. cit., p. 15-16. LOPES, Augustus Nicodemos. Paulo, Plantador de Igrejas: Repensando
Fundamentos Bíblicos da Obra Missionária. In: Fides Reformata, v. II, n. 2 (jul./dez. 1997), p. 12, reportando-se
a BRUCE, F. F. Paul, Apostle of the Free Spirit. ed. rev. 1980. reimp. 1992. Carlisle, Pa.: Paternoster Press,
1977, p. 314-315, afirma que Paulo estabelece três centros estratégicos: “Tessalônica como base para a província
da Macedônia; Corinto como base para a província da Acaia e Éfeso como base para a Ásia proconsular.”
286
ALLEN, op. cit., p. 13, tradução nossa.
287
Op. cit., p. 7-9.
288
Ibid., p. 9-11.
289
Ibid., p. 11-12.
93

administrativas para gerência dos recursos, o que implica em institucionalização. O registro

das viagens de Paulo para implantar e fortalecer igrejas, por sua vez, sinaliza padrões

metodológicos e estratégicos, ainda que a fidelidade aos textos não permita dizer que o

apóstolo trabalhe com base em planejamento altamente elaborado.

Será que o cuidado de Paulo, de operar dentro dos limites do Império, revela um

padrão de procedimento à “luz da natureza e prudência cristã”? Se ele estabelece igrejas no

contexto da cultura grega, isso não demonstra uso pertinente de ferramentas advindas da

cultura circundante? Temos nos relatos de Atos sobre as viagens de Paulo, ainda que não uma

prescrição, pelo menos uma sinalização positiva quanto ao uso de métodos administrativos? A

pesquisa responde a todas essas perguntas afirmativamente.

4.5 Terceira Síntese: A Igreja Cumpre as Ordenanças Divinas Como Instituição


Administrada por Homens e Arraigada na Cultura

O paradigma cosmonômico é reafirmado no restante das Escrituras. José no Egito,

Moisés no Êxodo, a ação da Trindade na redenção, Jesus em seu ministério terreno e a igreja

em Atos corroboram a inter-relação entre os diversos aspectos modais. A igreja do NT

cumpre as ordenanças divinas como instituição administrada por homens e arraigada na

cultura, coram Deo.

Responde-se afirmativamente à segunda questão subsidiária: Sim, a Bíblia apóia o

uso, na administração da igreja, de métodos oriundos da cultura circundante. Feito isso,

prossegue-se para a terceira questão, o que exige a análise da CFW.


94

4.6 A Confissão de Fé de Westminster e o Uso


Eclesiástico de Métodos Administrativos

No exame do ministério de Jesus e nos excertos de Atos, fez-se referência à “luz da

natureza e prudência”. Tal expressão encontra-se na CFW:

Todo o conselho de Deus concernente a todas as coisas necessárias para a


glória dele e para a salvação, fé e vida do homem, ou é expressamente
declarado na Escritura ou pode ser lógica e claramente deduzido dela. À
Escritura nada se acrescentará em tempo algum, nem por novas revelações
do Espírito, nem por tradições dos homens; reconhecemos, entretanto, ser
necessária a íntima iluminação do Espírito de Deus para a salvadora
compreensão das coisas reveladas na Palavra, e que há algumas
circunstâncias, quanto ao culto de Deus e ao governo da Igreja, comuns às
ações e sociedades humanas, as quais têm de ser ordenadas pela luz da
natureza e pela prudência cristã, segundo as regras da Palavra, que sempre
devem ser observadas.
Referências Bíblicas: 2Tm 3.15-17; Gl 1.8; 2Ts 2.2; Jo 6.45; 1Co 2.9,10,12;
1Co 11.13,14.290

Estas instruções lançam luz sobre o modo como a igreja deve lidar com seus assuntos

normalmente tidos como “terrenos” ou administrativos.

4.6.1 Quanto à Administração Eclesiástica, a Escritura é Suficiente Mas Não Exaustiva

A asserção da CFW ratifica a crença reformada na suficiência das Escrituras. Os

negócios da igreja devem ser encaminhados de modo ordeiro, “segundo as regras da Palavra”.

Tais “regras” — os parâmetros para resolução destas questões —, no entanto, nem sempre são

explicitadas pela Bíblia. O texto é cuidadoso em preservar o conceito de suficiência de

qualquer reducionismo, ao mesmo tempo em que sugere que a Escritura, ainda que suficiente































 


















290
ASSEMBLÉIA DE WESTMINSTER, op. cit., CFW, I.vi, p. 24-25, grifos nossos. Esta pesquisa assume
como pressuposto que a expressão “igreja”, neste ponto da CFW, diz respeito à associação dos cristãos em
assembléias locais ou instâncias denominacionais. Isso é depreendido da referência à igreja no contexto das
“ações e sociedades humanas.”
95

para todas as áreas da vida, não trata direta e exaustivamente de cada uma delas.

Determinadas “circunstâncias” exigem o uso da “luz da natureza” e da “prudência cristã.”

4.6.2 Algumas Circunstâncias Exigem o Uso de Recursos Advindos da Cultura

Quanto à “luz da natureza”, tal expressão é utilizada na CFW com os sentidos de

discernimento natural dos atributos divinos (I.i; XXI.i); consciência que orienta o não-

regenerado a conformar-se a um padrão de moralidade (X.iv); razoabilidade que impede

alguém de perturbar indevidamente a ordem social (XX.iv) e bom senso que recomenda ao

homem separar uma parte de seu tempo para o culto divino (XXI.vii). Todos esses usos

encontram aplicação no âmbito da graça comum, sugerindo que algumas “circunstâncias” do

exercício do governo eclesiástico demandam uma interconexão da igreja com a cultura.

Quanto à “prudência cristã”, recomenda-se que as “circunstâncias” não explicitadas

biblicamente, e, portanto, geridas levando-se em conta a “luz da natureza”, sejam submetidas

ao crivo da moderação que leva o homem a evitar “tudo o que acredita ser fonte de erro ou de

dano”.291 As idéias e procedimentos concebidos por esse exercício de bom senso devem, por

sua vez, ser consistentes com o evangelho, ou seja, alinhar-se às “regras da Palavra.”

4.6.3 Quarta Síntese: A CFW Propõe Um Princípio Regulador Para o Governo


da Igreja Que, Por Sua Vez, Admite o Uso da Administração

Resumindo, o texto da CFW propõe não apenas um princípio regulador para o culto,

mas também para o governo eclesiástico. Ambas, “luz da natureza” e “prudência cristã” —































 


















291
FERREIRA, Prudência. In: Op. cit.
96

sob a Palavra de Deus — constituem a interface adequada para conectar produtivamente o

governo bíblico aos métodos administrativos sugeridos pela cultura.

Decorre da CFW que o erro não se constitui na utilização da administração na igreja,

mas em seu mau uso. Lançar mão de métodos administrativos oriundos da cultura circundante

— aquilo que é comum “às ações e sociedades humanas” — é tanto aprovado quanto sugerido

pela CFW, desde que em circunstâncias adequadas, considerando a “luz da natureza”, a

“prudência cristã” e as “regras da Palavra.”


97

CAPÍTULO V

O MODELO DE ADMINISTRAÇÃO DA
IGREJA PRESBITERIANA DO BRASIL

Este capítulo é uma tentativa de compreender o modelo de administração utilizado

pela IPB. São apresentadas algumas teorias administrativas,292 destacando-se o que é

pertinente para o presente estudo.

A abordagem assume alguns pressupostos. Primeiro, a administração reflete a

economia.293 Cada teoria administrativa responde às demandas impostas pelo contexto

econômico. Assim, presume-se que as teorias clássica e neoclássica da administração reagem

aos desafios propostos pelo capitalismo primitivo ou burguesia moderna (fim do século XIX),

o modelo burocrático emerge do capitalismo social (do início às três últimas décadas do

século XX), e a administração estratégica, discutida no próximo capítulo, relaciona-se com o

novo capitalismo, cuja expressão mais destacada é a globalização.294

Segundo, cada teoria constrói a partir das elaborações precedentes. Não há ruptura

radical entre elas. O teoria neoclássica refina o que foi proposto pela teoria clássica, o modelo

burocrático possui construtos tanto da teoria clássica quanto da neoclássica e a administração































 


















292
A teoria clássica e a teoria neoclássica da administração, bem como o modelo burocrático de organização.
Tais apresentações não são exaustivas e recomenda-se, para aprofundamento nos tópicos, as leituras das obras
citadas nas referências bibliográficas. Utiliza-se a terminologia sugerida por CHIAVENATO, op. cit.
CARAVANTES; PANNO; KLOECKNER, op. cit., mantêm semelhanças terminológicas ao mesmo tempo em
que dividem o assunto em “Teorias Pré-Sistemas”, “Teoria Geral dos Sistemas (TGS)”, “Pós-Sistemas” e
“Novas Abordagens”. MAXIMIANO, Antonio Cesar Amaru. Teoria Geral da Administração. São Paulo: Atlas,
2007, considera as abordagens de Fayol e Weber (burocracia) como pertencentes à “Escola Clássica” e
denomina a proposta de Fayol de “Escola do Processo de Administração”, tratando do planejamento estratégico
sob o título “Evolução do Processo Administrativo”, ao invés de usar a designação “Teoria Neoclássica”.
MUNIZ; FARIA, op. cit., mantêm o uso da expressão “Teoria Neoclássica”, ao mesmo tempo em que
denominam a proposta de Fayol de “Abordagem Anatômica”. O estudo reconhece a possibilidade da existência
de outras classificações, propostas por outros autores.
293
Tal afirmação nada mais é do que um desdobramento do paradigma cosmonômico: A administração é núcleo
de significado da esfera modal econômica.
294
Esta pesquisa reconhece que a datação acima, apesar de arbitrária e sujeita a correções, não prejudica o ponto
enfatizado: Cada teoria responde a uma exigência imposta pela situação sócio-econômica.
98

estratégica, longe de ser uma nova “teoria”, apresenta-se como uma iniciativa de aplicação

dos melhores procedimentos recomendados pelas teorias anteriores.

Terceiro, a CI/IPB foi promulgada no contexto do capitalismo social e o modo de

administração por ela definido reflete não apenas convicções bíblicas, mas, também, as

teorias administrativas vigentes na época de sua promulgação.

5.1 A Divisão do Trabalho Como Ponto de Contato Entre a Teoria Clássica da


Administração e o Modelo de Administração da IPB

A chamada abordagem clássica da administração tem como principais representantes

Frederick W. Taylor (1856-1915) e Henri Fayol (1841-1925).295 Taylor, proponente da

administração científica, mergulha no estudo dos processos de produção, focalizando o chão-

de-fábrica. Ele populariza-se pela publicação de Princípios da administração científica e

Gerência de fábrica.296 Fayol, proponente da teoria clássica da administração, focaliza a

chefia, celebrando-se a partir da publicação de Administração industrial e geral.297































 


















295
CHIAVENATO, op. cit., p. 74, denomina Taylor e Fayol de “fundadores da moderna Administração.”
296
CARAVANTES; PANNO; KLOECKNER, op. cit., p. 56.-57, 61-63; CHIAVENATO, op. cit., p. 41-43.
297
CARAVANTES; PANNO; KLOECKNER, op. cit., p. 61-62. Taylor obteve, em vida, maior reconhecimento
do que Fayol. Apesar de destacar-se profissionalmente, criar um Centro de Estudos Administrativos, ter seu
nome vinculado a uma escola de pensamento, o fayolismo, e ser prestigiado como aquele que pôs a pedra
fundamental para a construção da doutrina administrativa, a maior parte dessa consideração é póstuma, de modo
que Pierre Morin cita R. Braun, Secretário Geral do Comitê Internacional da Organização Científica, por ocasião
do cinqüentenário da publicação da doutrina de Fayol: “Por estranha ironia do destino, os conselheiros
americanos que foram à França após a Segunda Guerra Mundial — durante o período da reconstrução e do Plano
Marshall — para ajudar no reerguimento industrial, ensinaram aos dirigentes franceses o que o francês Fayol
publicara trinta anos antes, na França”. MORIN, PIERRE. Atualidade de Henri Fayol. In: FAYOL, HENRI,
Administração Industrial e Geral: Previsão, Organização, Comando, Coordenação, Controle. 10. ed. 1990. 8.
reimp. 2007. São Paulo: Atlas, 2007. p. 11-17.
99

5.1.1 Características da Teoria Clássica da Administração

Fayol considera a administração importante para todas as organizações, inclusive

igrejas.298 Uma de suas mais destacadas contribuições é a definição do ato de administrar

como “prever, organizar, comandar, coordenar e controlar.” 299

A administração “não é um privilégio exclusivo nem encargo pessoal do chefe ou dos

dirigentes da empresa; é uma função que se reparte, como as outras funções essenciais, entre a

cabeça e os membros do corpo social”.300 Independentemente do tamanho da organização, a

capacidade administrativa é sempre necessária.301

Para Fayol, administração tem a ver com pessoas e não coisas. O órgão e instrumento

da função administrativa é “o corpo social.302 A saúde e o bom funcionamento deste corpo

exige a aplicação de alguns princípios, dentre os quais se destacam:

[...] a divisão do trabalho; a autoridade e a responsabilidade; a disciplina; a


unidade de comando; a unidade de direção; a subordinação do interesse
particular ao interesse geral; a remuneração do pessoal; a centralização; a
hierarquia; a ordem; a eqüidade; a estabilidade do pessoal; a iniciativa; a
união do pessoal.303

O princípio da divisão do trabalho é um ponto fundamental da teoria clássica. Sua

finalidade é “produzir mais e melhor, com o mesmo esforço”304 e sua aplicação gera, no

sentido horizontal, departamentalização, e, no sentido vertical, hierarquia.305































 


















298
FAYOL, op. cit., p. 19, grifos nossos.
299
Ibid., p. 26: “Prever é perscrutar o futuro e traçar o programa de ação. Organizar é constituir o duplo
organismo, material e social, da empresa. Comandar é dirigir o pessoal. Coordenar é ligar, unir e harmonizar
todos os atos e todos os esforços. Controlar é velar para que tudo corra de acordo com as regras estabelecidas e
as ordens dadas” (grifos do autor). Tais funções — previsão, organização, comando, coordenação e controle —
são descritas por MUNIZ; FARIA, op. cit., p. 101, utilizando-se o acrônimo POC3.
300
FAYOL, op. cit., loc. cit.
301
Ibid., p. 34.
302
Ibid., p. 43, grifo do autor.
303
Ibid., p. 43-44.
304
Ibid., p. 44. Nesse ponto Fayol ecoa Adam Smith (cf. SMITH, 2003, p. 9): “A divisão do trabalho gera em
todos os ofícios, na medida em que é possível introduzi-la, um aumento proporcional das forças produtivas do
trabalho.”
100

5.1.2 Críticas à Teoria Clássica da Administração

As críticas à teoria clássica são as seguintes: (1) A organização é concebida em termos

simplistas, desconsiderando-se seu conteúdo psicológico e social;306 (2) seu método é

empírico e concreto;307 (3) a administração é concebida em termos racionalistas, de modo que

“a concepção da Administração como um conjunto de princípios universalmente aplicáveis

provocou a denominação Escola Universalista”;308 (4) a organização é tratada sob o prisma

do comportamento mecânico, ou seja, “deve ser arranjada tal como uma máquina”;309 (5) a

abordagem é incompleta, pois desconsidera a organização informal; além do mais, “o foco na

forma e a ênfase na estrutura levaram a exageros”;310 (6) a organização é tida como “um

sistema fechado e hermético composto de algumas variáveis conhecidas e previsíveis e de

alguns aspectos que são manipulados por meio de princípios gerais e universais. Predomina a

lei da causa e efeito”.311 Apesar de tais críticas, a teoria clássica da administração “é

indispensável na compreensão das bases da moderna administração.” 312































 


















305
Quanto à departamentalização, para Fayol (op. cit., loc. cit.), um departamento é uma unidade de trabalho
especializada, na qual as tarefas são feitas de forma padronizada: “O operário que faz todos os dias a mesma
peça e o chefe que trata constantemente dos mesmos negócios adquirem mais habilidade, mais segurança e mais
precisão e, conseqüentemente, aumentam de rendimento”. Chiavenato (op. cit., p. 68) afirma que o foco da teoria
clássica da administração é “a divisão no nível dos órgãos que compõem a organização, isto é, com os
departamentos, divisões, seções, unidades etc. [...] No mesmo nível hierárquico, cada departamento ou seção
passa a ser responsável por uma atividade específica e própria”. Cf. FERREIRA, Departamento. In: Op. cit.: O
termo “departamento” descreve uma “divisão administrativa da França e de algumas outras nações”. Quanto à
hierarquia, a cadeia escalar tem o formato piramidal: Mais pessoas na base, nas funções não-administrativas, e
menos pessoas no topo, nas funções administrativas. Influenciado por concepções antigas da organização
(militar e eclesiástica), Fayol vê a organização como “uma estrutura”, ou seja, “uma cadeia de comando [...],
uma linha de autoridade que interliga as posições da organização e define quem se subordina a quem”
(CHIAVENATO, op. cit., p. 67).
306
CHIAVENATO, op. cit., p. 71: “Limitaram-se à organização formal, estabelecendo esquemas segundo os
quais as organizações devem ser construídas e governadas. Nesse sentido são prescritivos e normativos.”
307
Ibid., p. 72: “Suas afirmações se dissolvem quando postas em experimentação.”
308
Ibid., loc. cit., grifo do autor.
309
Ibid., p. 73.
310
Ibid., loc. cit.
311
Ibid., loc. cit.
312
Ibid., p. 74.
101

5.1.3 A Teoria Clássica da Administração Influencia a IPB Com Sua Articulação da


Divisão do Trabalho

A IPB utiliza da teoria clássica o princípio da divisão do trabalho. Quanto à

departamentalização, ela conta com as Sociedades Internas, departamentos que agregam

sócios pelos critérios de idade — União de Crianças Presbiterianas (UCP), União

Presbiteriana de Adolescentes (UPA) e União de Mocidade Presbiteriana (UMP) — e gênero

— Sociedade Auxiliadora Feminina (SAF) e União Presbiteriana de Homens (UPH).313 Cada

departamento tem a sua Diretoria,314 que, por sua vez, pode nomear Secretarias de

Atividades:315 Espiritualidade, evangelização, missões, ação social, causas da IPB, causas

locais e sociabilidade, cultura, comunicação e marketing, estatística, esporte e recreação,

música e outras, conforme a realidade local.316 Ademais, a Sociedade pode subdividir-se em

outros departamentos com a finalidade de atender a demandas de comunhão, capacitação e

motivação de seus sócios.317 O trabalho destas sociedades, por sua vez, extrapola a

comunidade local e estende-se pelas federações presbiteriais,318 confederações sinodais319 e

confederações nacionais.320

Quando à hierarquia, no modelo administrativo da IPB, a totalidade dos membros de

uma igreja é governada por um concílio local — o Conselho. Este, por sua vez, reporta-se a

um concílio regional — o Presbitério, que é jurisdicionado por um concílio superior — o

Sínodo. Os sínodos e presbitérios são representados em um concílio nacional — o Supremo































 


















313
IGREJA PRESBITERIANA DO BRASIL. Manual Unificado das Sociedades Internas, doravante
denominado MUSI. 2. ed. 8. reimp. 2001. São Paulo: Cultura Cristã, 1999, Capítulo I, Art. 1-2.
314
Ibid., Capítulo V, Artigos 13-27.
315
Ibid., Capítulo VI, Artigos 28-47.
316
Ibid., Capítulo VI, Artigos 29.
317
Ibid., Capítulo VII, Artigos 43-45.
318
Ibid., Capítulos IX-XVIII, Artigos 48-85.
319
Ibid., Capítulos XIX-XXIV, Artigos 86-115.
320
Ibid., Capítulos XXV-XXX, Artigos 116-145.
102

Concílio, doravante denominado SC/IPB.321 Cada concílio é dirigido por uma mesa ou

diretoria, no Conselho local, composta de presidente, vice-presidente, “um ou mais secretários

e um tesoureiro”,322 e no Presbitério, Sínodo ou SC/IPB, composta de “presidente, vice-

presidente, secretário executivo, secretários temporários e tesoureiro”.323 Os concílios podem

nomear ou organizar comissões,324 autarquias e secretarias,325 para a realização de trabalhos

específicos.

Em suma, no modelo de administração da IPB está presente a divisão do trabalho

proposta pela teoria clássica de administração. A IPB é uma estrutura departamentalizada —

funciona a partir da articulação de seus diversos departamentos, e hierárquica, no sentido de

existir, nos concílios em geral e nos departamentos de cada comunidade uma cadeia de

comando a ser obedecida.

5.2 Refinamentos da Divisão do Trabalho e Referência ao Planejamento


São os Pontos de Contato Entre a Teoria Neoclássica da Administração e o
Modelo de Administração da IPB

A teoria neoclássica da administração não possui um proponente único326 e destaca-se

por três características: (1) Pragmatismo; (2) refinamento da divisão do trabalho proposta

anteriormente pela teoria clássica; (3) novas elaborações referentes ao planejamento.































 


















321
CI/IPB, Capítulo V, Seção 1, Artigos 59-62. In: CAMPOS, op. cit., p. 35-36.
322
Ibid., Capítulo V, Seção 2, Art. 84, p. 47.
323
Ibid., Capítulo V, Seção 1, Art. 67, p. 38.
324
Ibid., Capítulo VI, Seção 1, Art. 98, p. 54.
325
Ibid., Capítulo VI, Seção 3, Art. 105, Seção 4, Art. 106, p. 57-58.
326
Como nos informa Chiavenato (op. cit., p. 125), “os autores neoclássicos não formam uma escola bem
definida, mas um movimento relativamente heterogêneo”. Muniz e Faria (op. cit., p. 102-107) destacam, como
principais autores, Cyril J. O’Donnell, Ernest Dale, George Odiorne, George Robert Terry, Harold Koontz, John
William Humble, Louis Alexander Allen, Michael James Jucius, Peter F. Drucker, Ralph C. Davis, Ralph Jarron
Cordiner e William Herman Newman, entre outros.
103

5.2.1 O Pragmatismo da Teoria Neoclássica da Administração

Quanto ao pragmatismo, este é relacionado à sua origem norte-americana. Sem

descartar os postulados clássicos, abre-se o espaço para outros conceitos (ecletismo) e ajusta-

se o foco para o alcance de objetivos concretos.327 Uma de suas facetas nem sempre simpática

é a ênfase na obtenção de resultados por meio de pessoas.328

5.2.2 O Refinamento da Divisão do Trabalho na Teoria Neoclássica da Administração

Quanto ao refinamento da divisão do trabalho, a teoria neoclássica contribui com a

divisão da administração em três níveis: (1) Institucional ou estratégico, composto por

dirigentes e diretores; (2) intermediário, também denominado tático ou gerencial, composto

pelos gerentes; (3) operacional, composto pelos supervisores que acompanham a execução

das tarefas e operações. Destaca-se a necessidade do estabelecimento detalhado das

atribuições de cada departamento, de modo que estes trabalhem harmoniosamente, cada um































 


















327
CARAVANTES; PANNO; KLOECKNER, op. cit., p. 178; CHIAVENATO, op. cit., p. 125-126. Em seu seio
surge, por exemplo, a administração por objetivos, amplamente usada nos Estados Unidos, entre 1950 e 1960, e
no Brasil, entre 1960 e 1970 (cf. CARAVANTES; PANNO; KLOECKNER, op. cit., p. 179; MUNIZ, FARIA,
op. cit., p. 107).
328
Muniz e Faria citam Koontz e O’Donnell, que definem a “administração como um processo de fazer
coisas por meio de outras pessoas”. Isso significa que “o bom administrador é, naturalmente, aquele que
possibilita ao grupo alcançar seus objetivos com o mínimo dispêndio de recursos e de esforços com menos
atritos em relação a outras atividades úteis” (MUNIZ; FARIA, op. cit., p. 108-109). Isso pode soar estranho
aos ouvidos pastorais e talvez justifique a rejeição de WAGNER (op. cit., p. 26, 29), do “modelo empresarial” e
sua afirmação de que as corporações “usam” as pessoas. Talvez seja mais aceitável descrever a administração
cristã como um processo de edificar pessoas por meio de coisas. A questão é que, do ponto de vista bíblico,
Deus “usa” pessoas para fazer coisas. Esse parece ser um dos postulados da doutrina cristã da vocação (cf. Êx
3.9-12; Js 1.1-9; Jz 6.11-24; 1Sm 16.1-13; Is 6.1-9 et seq.; Jr 1.4-10; Mc 1.16-17; At 26.12-21). A partir do
alicerce bíblico estabelecido nos capítulos anteriores, pode ser sugerido que a administração cristã deve ser o
processo de fazer as “coisas” do reino de Deus por meio dos agentes pactuais de Deus — os cristãos. O
administrador cristão articula relações e procedimentos reconhecendo a dignidade de cada colaborador, ao
mesmo tempo em que o voluntário cristão assume o serviço sentindo-se privilegiado por estar sendo “usado” no
cumprimento dos mandatos pactuais, não pelo administrador humano, mas pelo próprio Deus (1Co 3.6-9; Cl
4.17; 1Tm 1.12). Peterson desenvolve um estudo sugestivo sobre o chamado de Jeremias, demonstrando que
Deus vocaciona o profeta para ser “usado” não como peça de uma máquina ou estrutura, mas como ser humano
singular, que tem família e nome (PETERSON, Eugene H. Corra Com os Cavalos: Para Quem Busca Uma Vida
de Excelência. Viçosa: Ultimato; Niterói: Textus, 2003, p. 25-37).
104

cumprindo sua missão, e todos contribuindo para os objetivos gerais da organização.329

Discute-se ainda, nesse contexto, o problema anteriormente levantado por Fayol, da

centralização versus descentralização das decisões.330

5.2.3 As Novas Elaborações Referentes ao Planejamento


na Teoria Neoclássica da Administração

Quanto às novas elaborações referentes ao planejamento esta teoria inova ao propor


331
um processo administrativo que envolve planejamento, organização, direção e controle,

sugerindo camadas de planejamento equivalentes a cada um dos três níveis administrativos:

Estratégico, fornece o plano diretor para toda a organização, projetado no longo prazo (em

geral, cinco anos); tático, abrange cada departamento, projetado para médio prazo (o

exercício anual) e operacional, que abrange cada tarefa ou atividade específica, projetado

para o imediato.332































 


















329
CHIAVENATO, op. cit., p. 129.
330
FAYOL, op. cit., p. 56; CHIAVENATO, op. cit., p. 133-134; MUNIZ; FARIA, op. cit., p. 109.
331
PODC. As funções POC3, sugeridas por Fayol, são ratificadas e atualizadas (cf. MUNIZ; FARIA, op. cit., p.
101). As funções organização, direção e controle não são aqui detalhadas por falta de espaço. Nuances de
aplicação destas funções são mostradas no sexto e oitavo capítulos, nas tratativas referentes à administração
estratégica.
332
CHIAVENATO, op. cit., p. 140-141. Para Chiavenato e Sapiro, pelo menos do ponto de vista das escolas
prescritivas, planejamento estratégico é “o planejamento concebido para a organização como uma totalidade. Em
geral, parte de cima para baixo, envolve a organização como um sistema integrado e é focado no longo prazo”
(CHIAVENATO, Idalberto; SAPIRO, Arão. Planejamento Estratégico: Fundamentos e Aplicações. 1. ed. 6.
reimp. Rio de Janeiro: Elsevier, 2003, p. 412). Outro conceito de planejamento estratégico é fornecido por estes
autores (op. cit., p. 39). O planejamento é “um processo de formulação de estratégias organizacionais no qual se
busca a inserção da organização e de sua missão no ambiente em que ela está atuando.”
Os mesmos autores citam o conceito apresentado por Drucker: “Planejamento estratégico é o processo contínuo
de, sistematicamente e com o maior conhecimento possível do futuro contido, tomar decisões atuais que
envolvem riscos; organizar sistematicamente as atividades necessárias à execução dessas decisões e, através de
uma retroalimentação organizada e sistemática, medir o resultado dessas decisões em confronto com as
expectativas alimentadas” (DRUCKER, Peter. Introdução à Administração. São Paulo: Pioneira, 1984, p. 133-
136, apud CHIAVENATO; SAPIRO, op. cit., loc. cit.).
Wright, Kroll e Parnell afirmam que, tradicionalmente, “estratégia refere-se aos planos da alta administração
para alcançar resultados consistentes com a missão e os objetivos gerais da organização” (WRIGHT, Peter;
KROLL, Mark J.; PARNELL, John. Administração Estratégica: Conceitos. São Paulo: Atlas, 2000, p. 24). Para
esses autores “estratégia”, pura e simplesmente, é sinônimo de planejamento estratégico.
105

O resultado do planejamento é o plano, que é “um curso predeterminado de ação

sobre um período específico [...]. O plano descreve um curso de ação para alcançar um

objetivo e proporciona respostas às questões: O quê, quando, como, onde e por quem.” 333

5.2.4 Críticas à Teoria Neoclássica da Administração

Chiavenato é parcimonioso na crítica à teoria neoclássica. Ele percebe que ela carrega

nas tintas ao enfatizar em demasia as prescrições e normatizações, o que pode enrijecer a

organização em um contexto que exija flexibilidade e abertura a mudanças. Por outro lado,

reconhece que o processo administrativo proposto por esta teoria é “o fundamento da

moderna Administração.” 334

5.2.5 A Teoria Neoclássica da Administração Influencia a IPB Com Refinamentos da


Divisão do Trabalho e Referência ao Planejamento

A IPB utiliza da teoria neoclássica da administração alguns refinamentos quanto à

divisão do trabalho e a valorização de planos e regras ou regulamentos.

Na IPB a instância superior de governo, o SC/IPB, tem como primeira competência

“formular sistemas ou padrões de doutrina e prática quanto a fé, e estabelecer regras de

governo, de disciplina e de liturgia, de conformidade com o ensino das Sagradas

Escrituras”.335 As decisões do SC/IPB abrangem questões pertinentes a toda a































 


















333
CHIAVENATO, op. cit., p. 141. A teoria neoclássica sugere quatro tipos de planos: (1) Procedimentos,
“relacionados a métodos de trabalho ou de execução”; (2) orçamentos, “relacionados a dinheiro”; (3)
programas ou programações, baseados na correlação entre as variáveis “tempo e atividades a serem
executadas”; (4) regras ou regulamentos, “relacionados a comportamentos solicitados às pessoas” (ibid., p.
141-142).
334
Ibid., p. 148.
335
CI/IPB, Capítulo V, Seção 5, Art. 97, alínea “a”. In: CAMPOS, op. cit., p. 51.
106

denominação.336 Nesses termos o SC/IPB ocupa, de acordo com a perspectiva da teoria

neoclássica, o primeiro nível administrativo, ou seja, a direção institucional ou estratégica.

Os Sínodos e Presbitérios, ao mesmo tempo em que podem propor ao SC/IPB

medidas consideradas benéficas à igreja, acatam e fazem com que sejam executadas as ordens

e resoluções do SC/IPB.337 Destarte, ocupam esses concílios o nível intermediário, tático ou

gerencial da administração.

A instância responsável pela aplicação da direção estratégica na base da pirâmide é o

Conselho local, a quem cabe o exercício do “governo espiritual e administrativo da Igreja sob

sua jurisdição”.338 O Conselho acompanha in loco o funcionamento de todos os

departamentos da comunidade, identificando-se com o terceiro nível administrativo, o de

supervisão.339

O modelo administrativo da IPB harmoniza centralização e descentralização. Por um

lado há uma autoridade claramente estabelecida, com poder de comando, exercida do concílio

superior para o inferior. Por outro lado, cada instância conciliar, bem como cada diretoria

departamental, tem sua própria alçada decisória. Nos Presbitérios, Sínodos e Supremo






























 


















336
Os artigos da CI/IPB citados alhures, confirmam a proeminência das decisões do SC/IPB sobre os Sínodos,
Presbitérios e, por conseguinte, Conselhos locais. As deliberações do SC/IPB são regulamentação estratégica para toda
a denominação. Cf. FERREIRA, Letícia. Supremo Concílio Toma Decisões Históricas Para a Vida da IPB, in Brasil
Presbiteriano, ano 49, n. 623 (agosto. 2006), Caderno Igreja, p. 10-11. O título da reportagem dá o tom oficial da
informação: As deliberações do SC/IPB são para a “vida da IPB”, ou seja, alcançam a denominação inteira, em todas
as suas localidades e departamentos. Cf. MORAIS, Ludgero Bonilha. O Supremo Concílio da Consolidação, in Brasil
Presbiteriano, ano 49, n. 623 (agosto. 2006), Editorial, p. 2: “Em Aracruz, a IPB consolidou o seu rumo como
denominação histórica reformada, distanciando-se da tendência de outras denominações históricas de aproximar-se do
liberalismo teológico, do pragmatismo e do neopentecostalismo exacerbado”. Tais palavras do então Secretário
Executivo da IPB ratificam a abrangência nacional das decisões do SC/IPB.
337
CI/IPB, Capítulo V, Seção 3, Art. 88, alíneas “m” e “o”; Seção 4, Art. 94, alíneas “c”, “e” e “i”. In:
CAMPOS, op. cit., p. 49, 50, 51. O objetivo desta pesquisa é comparar os postulados das teorias administrativas
com o modelo administrativo da IPB descrito em seu MP e MUSI. Não vem ao caso se as normas são, de fato,
observadas. A análise do grau de conformação da prática da IPB ao MP e MUSI é, sem dúvida, um tópico
interessante, mas extrapola os limites deste trabalho. Cf. MUNIZ; FARIA, op. cit., p. 71: “A configuração
administrativa formal nunca poderá refletir adequadamente ou completamente a organização concreta a que se
refere, em conseqüência da evidente razão de que nenhum plano ou padrão abstrato (desde que se pretende que
sejam úteis) pode descrever exaustivamente uma totalidade empírica.”
338
Ibid., Capítulo V, Seção 2, Art. 83, alínea “a”, p. 44.
339
Ibid., Capítulo V, Seção 2, Art. 83, alínea “h”, p. 45-46. Cada uma dessas descrições, com exceção da do
SC/IPB, é relativa, no sentido dos outros concílios exercerem também função legislativa e de planejamento. O
Conselho, por exemplo, atua no nível de supervisão quanto às determinações dos concílios superiores, ao mesmo
tempo em que no nível institucional ou estratégico quando traça planos para a igreja local. Nesse último caso, os
níveis tático/operacional e de supervisão são implementados pelas diretorias dos departamentos.
107

Concílio as decisões são tomadas pelo plenário.340 Nas igrejas locais, pela maioria dos

membros do Conselho341 ou da Assembléia.342 Nas Sociedades Internas, pelos sócios em

reuniões plenárias,343 e nos demais departamentos e autarquias, nos termos estabelecidos por

seus próprios estatutos e regimentos, todos aprovados pelos concílios locais ou extralocais.344

Tanto o MP quanto o MUSI dão ênfase ao planejamento operacional e norteiam os

planos de procedimentos, orçamentos, programas e regras ou regulamentos. Os concílios

fornecem a direção global e as diretorias dos departamentos, a direção tática. Os secretários

conciliares, o Conselho, os conselheiros ou orientadores e os secretários das Sociedades

Internas, bem como os líderes de outros departamentos, providenciam a direção operacional,

na base do organograma.

5.3 A Estrutura Racional-Legal e a Cultura Centrada na Inclusão e Ordem


em Detrimento da Produtividade São os Pontos de Contato Entre o Modelo
Burocrático de Administração e o Modelo de Administração da IPB

As teorias anteriores sugerem uma estrutura departamentalizada, hierarquizada e que

faz referência a medidas e planos. O modelo burocrático de administração, por sua vez,

fornece à IPB uma base racional-legal, bem como fomenta uma cultura mais focada na ordem

e inclusão do que na produtividade.































 


















340
Regimento Interno do Supremo Concílio da IPB, Capítulo IV, Artigos 23-34. In: CAMPOS, op. cit., p. 177-179;
Modelo de Regimento Interno Para os Sínodos, doravante denominado MRIS, Capítulo IV, Artigos 17-28, op. cit., p.
200-202; Modelo de Regimento Interno Para os Presbitérios, doravante denominado MRIP, Capítulo IV, Artigos 19-
30, op. cit., p. 216-218. A mesa ou comissão executiva de cada concílio pode, através de voto unânime, em situações
em que seja identificado “motivo sério” e sempre ad referendum do plenário da próxima reunião, alterar uma decisão
tomada pelo plenário da reunião anterior. Cf. CI/IPB, Cap. VI, Seção 2, Art. 104, Parágrafo Único, op. cit., p. 56.
Regimento Interno da Comissão Executiva do Supremo Concílio, Capítulo I, Art. 4, § 1, § 2. In: CAMPOS, op. cit., p.
185. MRIS, Capítulo IV, Art. 30, alínea “d”, op. cit., p. 203; MRIP, Capítulo IV, Art. 32, alínea “d”, op. cit., p. 219.
341
CI/IPB, Capítulo V, Seção 2, Art. 77, op. cit., p. 43.
342
Ibid., Capítulo II, Art. 9, op. cit., p. 13-14.
343
MUSI, Cap. V, Artigos 14-15.
344
CI/IPB, Capítulo IV, Seção 3, Art. 58; Capítulo VI, Seção 3, Art. 105, § 2. In: CAMPOS, op. cit., p. 34, 57.
108

5.3.1 O Desenvolvimento do Conceito de Burocracia

A palavra burocracia é a junção do componente francês bureau (escritório) e do

componente grego krátos (poder). O primeiro uso de burocratie é atribuído ao economista

Jean-Claude Marie Vincent, Seigneur de Gournay (1712 – 1759), significando “o poder do

corpo de funcionários e empregados da administração estatal, incumbido de funções

especializadas sob a monarquia absoluta e dependente do soberano”.345 Para Karl Marx

(1818 – 1883) a burocracia é um instrumento de dominação utilizado desde a Antigüidade

na “Mesopotâmia, China, Índia, Império Inca, Antigo Egito e Rússia”.346 Ele atribui à

burocracia “a progressiva rigidez do aparato do partido e do Estado em prejuízo das

exigências de base.” 347

Max Weber (1864 – 1920) retoma a palavra ao criar a Sociologia da Burocracia a

partir de um “estudo sobre as fontes de autoridade e a resultante forma organizacional.” 348

5.3.2 O Modelo Burocrático de Administração Brota do Solo do Capitalismo Social

Ainda que impressionado com a democracia de massa norte-americana, Weber

desenvolve suas reflexões a partir do contexto do capitalismo social — o pacto social firmado

por Otto Von Bismarck (1815 – 1898).349

Na Alemanha de Otto Von Bismarck desenvolve-se uma forma de organização em

que todos têm “seu lugar e cada lugar, uma função definida”.350 As empresas e instituições































 


















345
MUNIZ; FARIA, op. cit., p. 56.
346
CHIAVENATO, op. cit., p. 228.
347
MUNIZ; FARIA, op. cit., loc. cit.
348
CHIAVENATO, op. cit., p. 228; CARAVANTES; PANNO; KLOECKNER, op. cit., p. 64.
349
Quanto à impressão de Weber sobre a democracia norte-americana, cf. MUNIZ; FARIA, op. cit., p. 58. Para
uma reflexão digna de nota sobre a influência do pacto social de Bismarck sobre as idéias de Weber referentes à
burocracia, cf. SENNETT, op. cit., p. 33-79.
109

da sociedade civil são formatadas de acordo com um padrão militar, em nome da paz e da

prevenção da revolução. Nasce o capitalismo social, que pode ser mais bem compreendido

a partir de sua comparação com o capitalismo primitivo e com o novo capitalismo.

Sennet atribui a invenção da palavra capitalismo ao sociólogo e economista alemão

Werner Sombart (1863 – 1941).351 Quase duas décadas antes do nascimento de Sombart, em

1848, Marx e Engels referem-se ao sistema econômico vigente como “burguesia moderna”,352

descrita nos seguintes termos:

[...] A revolução contínua da produção, o abalo constante de todas as


condições sociais, a eterna agitação e a incerteza distinguem a época
burguesa de todas as precedentes. Suprimem-se todas as relações fixas,
cristalizadas, com seu cortejo de preconceitos e idéias antigas e veneradas;
todas as novas relações se tornam antiquadas, antes mesmo de se consolidar.
Tudo que era sólido se desmancha no ar, tudo o que era sagrado é profanado,
e, por fim, o homem é obrigado a encarar com serenidade suas verdadeiras
condições de vida e suas relações com sua espécie.
[...] Com o rápido aprimoramento de todos os meios de produção, com as
imensas facilidades dos meios de comunicação, a burguesia arrasta todas as
nações, mesmo as mais bárbaras, para a civilização. Os baixos preços de
suas mercadorias formam a artilharia pesada com que destrói todas as
muralhas da China, com que obriga os bárbaros mais hostis aos estrangeiros
a capitular. Força as nações, sob pena de extinção, a adotar o modo burguês
de produção; força-as a adotar o que ela chama de civilização, isto é, a se
tornar burguesas. Em uma palavra, cria um mundo à sua imagem.353

Essa “burguesia moderna”, denominada por Sennet de “capitalismo primitivo”,

produz estragos:

As fábricas do início do século XIX certamente associavam uma rotina


embotada à instabilidade do emprego; não só os trabalhadores careciam de
força e proteção, como as próprias empresas freqüentemente eram mal
estruturadas, estando, portanto, expostas a um súbito colapso. Existe uma
estimativa de que, na Londres de 1850, 40% dos trabalhadores fisicamente
capazes estavam desempregados; o índice de falências de novas empresas
superava 70%. Na década de 1850, a maioria das empresas não publicava os
dados relativos a suas atividades, se é que chegavam a reuni-los, e os
métodos de contabilidade costumavam reduzir-se a simples declarações de
lucros e perdas. Até o fim do século XIX, a operação de todo o ciclo de






























 


















350
SENNET, op. cit., p. 27.
351
Ibid., p. 26. WEBER, Max. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. São Paulo: Companhia das
Letras, 2004, p. 164, 169, denomina o capitalismo de seu tempo de Hochkapitalismus, “capitalismo avançado”
ou “capitalismo moderno.”
352
BOYLE, David. O Manifesto Comunista de Marx e Engels. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2006, p. 35.
353
Ibid., p. 36-38. FRIEDMAN, op. cit., p. 272-273, afirma que ficou surpreso ao verificar que sua idéia sobre
“a grande reestruturação” — as alterações nos modos de organização de indivíduos e comunidades, decorrentes
do achatamento do mundo — ressoa a leitura da história fornecida acima, pelo Manifesto Comunista.
110

negócios não era entendida de um ponto de vista estatístico. Eram esses os


tipos de dados que Marx tinha em mente ao descrever a instabilidade
material e mental da ordem industrial.
Mas esse capitalismo [...] era com efeito demasiado primitivo para
sobreviver social e politicamente; o capitalismo primitivo era o fermento
da revolução.354

A Alemanha unificada, que fornece o contexto de publicação das idéias de Weber,

organiza-se em torno de um pacto social, que nada mais é do que um capitalismo

modificado. Se o capitalismo primitivo — a forma mais “selvagem”, autofágica e

propulsora de revoluções do capitalismo — opera paralelo ao Estado, o capitalismo social

é uma tentativa de equilibrar a relação entre produção de riquezas e bem-estar social.

Bismarck estabelece um capitalismo que opera sob o Estado, que intervém a fim de

manter condições favoráveis à manutenção da paz e ordem da nação recentemente

organizada.355 O novo capitalismo, que fornece o contexto da administração estratégica, é

identificado por Sennet como “teoria da página nova”,356 e identifica-se com a

planificação global — o capitalismo que opera sobre e apesar do Estado.

5.3.3 No Modelo Burocrático a Autoridade é Racional-Legal

Para Weber há três tipos de autoridade: Tradicional, carismática ou racional. A

primeira é exercida “quando os subordinados aceitam as ordens dos superiores como

justificadas, porque essa sempre foi a maneira pela qual as coisas foram feitas”.357 É um poder

conservador, transmitido normalmente por herança. Esse tipo de autoridade enfatiza o

passado eterno, a justiça ou a maneira tradicional de agir, e tem como aparato o vínculo































 


















354
SENNETT, op. cit., p. 26-27, grifo nosso.
355
Ibid., op. cit., p. 37. A ética do pacto social abriu espaço para a consideração dos “benefícios previdenciários,
como a educação e as pensões por aposentadoria” como “direitos universais.”
356
Ibid., p. 26.
357
CHIAVENATO, op. cit., p. 210-211.
111

familiar, a dependência econômica dos liderados ou o regime feudal.358 Sua fraqueza é a

supervalorização do passado em detrimento das melhores decisões possíveis, disponíveis no

presente.359 Reconhecer esse tipo de autoridade, no contexto de Weber, equivale a muito mais

do que apenas fomentar a continuidade de organizações empresariais ineficientes. Trata-se de

legitimar a monarquia.

A autoridade carismática é exercida “quando os subordinados aceitam as ordens do

superior como justificadas por causa da influência da personalidade e da liderança do superior

com o qual se identificam”.360 Esse tipo de poder é irracional, instável e tem o potencial de

ensejar revoluções. Alimenta-se a devoção afetiva e pessoal, bem como o arrebatamento

emocional dos seguidores, que formam o aparato leal e devotado do líder carismático.361 Do

ponto de vista institucional, a autoridade carismática tem como ponto fraco o não provimento

de uma base de sucessão.362 Mas esse não é o único problema. Reconhecer esse tipo de

autoridade, para Weber, equivale a aceitar o ethos da luta armada, a revolução.363

Na burocracia a autoridade é racional-legal, vinculada ao cargo.364 O modelo enfatiza

as relações e operações realizadas a partir de uma estrutura de legalidade:

A obediência é devida às leis, formalmente definidas, e às pessoas que as


representam, que agem dentro de uma jurisdição. Qualquer sociedade,
organização ou grupo que se baseie em leis racionais é uma burocracia.365

Essa crença na justiça da lei é a base não apenas das organizações empresariais, mas

do Estado moderno. O aparato para o exercício dessa autoridade racional-legal é a própria

burocracia.366































 


















358
Ibid., p. 211.
359
CARAVANTES; PANNO; KLOECKNER, op. cit., p. 65.
360
CHIAVENATO, op. cit., loc. cit.
361
Ibid., p. 212.
362
CARAVANTES; PANNO; KLOECKNER, op. cit., loc. cit.
363
SENNET, op. cit., p. 29; Cf. JELLEMA, Dirk W. Etos. In: HENRY, op. cit., p. 284: Ethos “geralmente se
refere aos valores operacionais de uma dada sociedade ou grupo social.”
364
O termo “cargo”, em português, é buro, em alemão. Esta “autoridade racional-legal enfatiza a obediência às
ordens de quem ocupa o cargo — não importa quem ele seja. A autoridade está vinculada ao cargo e não ao
indivíduo” (CARAVANTES; PANNO; KLOECKNER, op. cit., p. 65, grifo do autor).
365
MAXIMIANO, op. cit., p. 68-69.
112

Os subordinados aceitam as ordens dos superiores como justificadas, porque


concordam com certos preceitos ou normas que consideram legítimos e dos
quais deriva o comando. [...] Os governantes são eleitos e exercem o
comando de autoridade sobre seus comandados seguindo certas normas e
leis. A obediência não é devida a uma pessoa em si, mas a um conjunto de
regras e regulamentos legais estabelecidos.367

5.3.4 No Modelo Burocrático Inclusão e Ordem Sobrepujam a Produtividade

Um dos focos do capitalismo social é a inclusão. Na burocracia, cada pessoa possui o

seu lugar. “Weber ficou impressionado com o pacto social [...] o chanceler e seus ministros

prometiam a todos um lugar no sistema social”.368

Tal inclusão enfatiza não a produtividade, mas a ação de acordo com determinadas

regras. Sennett argumenta que, enquanto “o modelo smithiano explorava as maneiras de

desdobrar uma tarefa complexa para a eficiente produção” e focalizava no mercado,369 as

idéias de competição e eficiência da burocracia, adaptadas do Exército, valorizavam o pacto

social: “Para que um exército tenha coesão, é preciso definir com clareza e precisão as

funções de cada patente, não importando quem esteja vivo para desempenhá-las ou se o

exército está vencendo ou perdendo”.370 Por isso, na burocracia, permanecer no “posto”,

funcionando dentro das regras, é mais importante do que vencer ou perder, ou seja, obter

resultados.

Esse capitalismo social militarizado, que após a sistematização weberiana denomina-

se modelo burocrático de organização, fundamenta-se na idéia de tempo racionalizado. Na

burocracia, o tempo é de longo prazo, cumulativo e “sobretudo previsível”, permitindo que os

indivíduos encarem “suas vidas como narrativas — não tanto daquilo que necessariamente































 


















366
Ibid., loc. cit.
367
CHIAVENATO, op. cit., loc. cit.
368
SENNETT, op. cit., p. 35.
369
Ibid., p. 33.
370
Ibid., p. 34.
113

acontecerá quanto da maneira como as coisas deveriam acontecer, a ordem da experiência”.371

Devido a essa perspectiva peculiar sobre o tempo, o gerente eficaz, na burocracia, é aquele

que estabelece “parâmetros de lealdade, confiança e conhecimento institucional no interior da

empresa” 372 — isso requer relacionamento de longo prazo, ou seja, tempo.

Sennett refere-se à palavra alemã bildung, que até o século XIX designava “um

processo de formação pessoal que prepara o jovem para o encaminhamento de toda uma

vida”.373 Nesse contexto “a firmeza de propósitos torna-se mais importante que os súbitos

surtos de ambição no interior da organização, que só rendem frutos a curto prazo.” 374

A alteração produzida pela burocracia não é apenas administrativa ou metodológica,

mas psicológica. O indivíduo percebe que a realidade que o cerca encaixa-se em um plano,

pode ser mais bem compreendida e até planejada. Um jovem pode pensar em “fazer carreira”

em uma organização, em estruturar sua vida em torno de uma instituição estável, duradoura.

O pacto social de Bismarck permite ao cidadão adquirir sua própria casa e organizar-se dentro

de limites claramente estabelecidos.

Por mais pobre que seja, o trabalhador que sabe que ocupa uma posição bem
estabelecida estará menos propenso a se revoltar que aquele que não tem
uma noção clara de sua posição na sociedade.375

Assim sendo, do ponto de vista operacional e psicológico, o burocrata é, literalmente,

um indivíduo da ordem. Para Sennet, “a contribuição de Weber consistiu em conferir um

contexto institucional ao impulso subjetivo. Galgar os degraus da burocracia pode tornar-se

um modo de vida” e a estrutura aparentemente limitadora da burocracia assume os contornos

de “um lar psicológico.” 376































 


















371
Ibid., p. 29, grifo nosso.
372
Ibid., p. 69.
373
Ibid., p. 30.
374
Ibid., loc. cit.
375
Ibid., p. 28.
376
SENNETT, op. cit., p. 36. Isso possibilita questionar se a burocracia, como um modelo de organização,
encontra ressonância em instituições vitalícias provedoras de ordem e sentido, pouco preocupadas com produção
de resultados imediatos. O aprofundamento nessa questão, porém, extrapola os limites desta pesquisa.
114

5.3.5 A Divisão do Trabalho no Modelo Burocrático de Administração

Assim como as teorias anteriores, a burocracia propõe a divisão do trabalho com sua

conseqüente hierarquização. Há, no entanto, contribuições singulares. Suas principais

características operacionais são: (1) “Uma estrutura de cargos”; (2) “especificação de áreas de

competência”; (3) “existência de um quadro administrativo, constituído por funcionários

nomeados”; (4) separação entre a propriedade da organização e seus gestores — quem

administra não é, necessariamente, o dono da empresa —; (5) conduta impessoal; (6) “registro

documental de atos administrativos, decisões, normas, ordens.” 377

Muniz e Faria, bem como Chiavenato, parecem interpretar a burocracia descrita por

Weber em termos de eficiência.378 Uma análise das disfunções burocráticas, sob a ótica do

novo capitalismo, pode sugerir que a proposta burocrática “falha” no sentido de provar-se

ineficiente.379

5.3.6 Críticas ao Modelo Burocrático de Administração

Chiavenato propõe uma lista de “vantagens” da burocracia sobre as outras formas

de associação. Ele refere-se à “rapidez nas decisões, pois cada um conhece o que deve ser

feito e como as ordens e os papéis tramitam por canais preestabelecidos”.380 Aludindo à

“continuidade da organização pela substituição do pessoal que é afastado”, ele afirma que































 


















377
MUNIZ; FARIA, op. cit., p. 59-60.
378
Para Muniz e Faria (ibid., p. 60-61), “a burocracia é a organização eficiente por excelência” e os processos
burocráticos são descritos com a finalidade de “obter a maior eficiência da organização”. Cf. CHIAVENATO,
op. cit., p. 216: “Tudo na burocracia é estabelecido no sentido de prever antecipadamente as ocorrências e
rotinizar sua execução para que a máxima eficiência do sistema seja alcançada.”
379
Cf. MERTON, Robert K. Sociologia, Teoria e Estrutura. São Paulo: Mestre Jou, 1970, p. 275, apud MUNIZ;
FARIA, op. cit., p. 64-65; CARAVANTES; PANNO; KLOECKNER, op. cit., p. 66-68; CHIAVENATO, op.
cit., p. 222-225.
380
Ibid., loc. cit. Esse é um ponto controvertido. A quarta disfunção da burocracia, descrita a seguir, parece
indicar o contrário.
115

“os critérios de seleção e escolha do pessoal baseiam-se na capacidade e na competência

técnica.” 381

O próprio Weber identifica problemas e potenciais disfunções no modelo

burocrático.382 Autores diversos apontam cinco disfunções: (1) Excessivo racionalismo e

redução de iniciativa criativa; (2) impessoalidade; (3) conservadorismo; (4) formalismo e (5)

ausência de dispositivos para lidar com o conflito organizacional.

Quanto à primeira disfunção, o excessivo racionalismo da burocracia produz

indivíduos que realizam suas tarefas com o mínimo de requisitos criativos, “basta a submissão

à autoridade legítima e não há necessidade de identificação com as metas organizacionais”.383

Além disso — segunda disfunção —, a organização concebida como sistema fechado

equivale a uma “máquina construída para cumprir uma tarefa”;384 devido à impessoalidade no

trato, o indivíduo pode acabar se sentindo uma mera “peça de engrenagem.” O modelo é

propício à “radicalização e descontextualização dos [...] procedimentos burocráticos, que

passam a ser objetivos em si”.385 Sennet faz referência aos “idosos, estudantes,

desempregados e doentes”386 que não eram mais vistos como “indivíduos dotados de

históricos pessoais e intransferíveis”,387 pois o sistema era cada vez mais focado em

“estabilidade e a autopreservação institucionais, e não a efetiva provisão de cuidados”.388

Quanto ao conservadorismo, de certo modo apontado acima por Sennet, a “burocracia

é um processo conservador e contrário à inovação”; o burocrata se comporta “como um

ritualista apegado a regras”,389 que se tornam absolutas ao ponto de o indivíduo adquirir































 


















381
Ibid., loc. cit.
382
SENNET, op. cit., p. 35. Weber critica a burocracia mesmo considerando-a adequada e condizente com a
moldura institucional do pacto social.
383
CHIAVENATO, op. cit., p. 223.
384
Ibid., p. 223-224.
385
MUNIZ; FARIA, op. cit., p. 64.
386
Op. cit., p. 37.
387
Ibid., loc. cit.
388
Ibid., loc. cit.
389
CHIAVENATO, op. cit., p. 219.
116

“viseiras”, ignorando “que a flexibilidade é uma das principais características de qualquer

atividade racional”.390 Essa aversão a mudanças é descrita por Mandelli et al:

Pode-se alterar tudo na empresa, menos em estrutura, já que lá reside o


desejo individual de crescimento e/ou manutenção de posição. Segundo, não
gostam que se refaçam layouts. [...] É no layout que se configuram os
domínios particulares. [...] Terceiro, não gostam que se modifiquem os
sistemas de informações, pois nele residem os acessos aos centros de poder.
[...] Quarto ponto, as pessoas não gostam que se alterem os chamados rituais
da empresa. [...] Os programas de mudança costumam alterar esses padrões,
o que torna o cotidiano empresarial altamente desconfortável.391

A quarta disfunção é o demasiado formalismo e papelório. Na burocracia tudo é

formalizado a fim de servir como documento-testemunho legal. Essa formalização excessiva

conduz à desconsideração da organização informal e despersonalização dos

relacionamentos.392

Quinta disfunção da burocracia: Seu mecanicismo não oferece ferramentas para a

resolução do conflito organizacional.

Lideramos do nosso lado do corredor, do nosso quadro no organograma;


vemos tudo de dentro das fronteiras de nossa visão de mundo; defendemos
os interesses de nossa divisão, bairro ou grupo de interesse. Como resultado,
acabamos liderando como se fôssemos nós contra eles. Quando surgem os































 


















390
MUNIZ; FARIA, op. cit., p. 64. Para esses autores (ibid., p. 65), essa superconformidade às rotinas e
procedimentos sufoca a liberdade e espontaneidade, produzindo, segundo alguns estudiosos, uma “incapacidade
treinada” (Veblen), “deformação profissional” (Warnotte) ou “psicose ocupacional” (Dewey). Cf.
CHIAVENATO, op. cit., p. 220-221.
391
MANDELLI et al. A Disciplina e a Arte da Gestão das Mudanças Nas Organizações: Como Integrar
Estratégias e Pessoas. Rio de Janeiro: Campus, 2003, p. 47-48. O texto em questão se aplica a todas as
organizações, mas ressoa particularmente nas instituições burocráticas.
392
MUNIZ; FARIA, op. cit., p. 64-65; CHIAVENATO, op. cit., p. 219, 220, 225. Para Brown, Isaacs e a
Comunidade do World Café, enquanto as normas e regulamentos providenciam um esqueleto institucional que
possui sua importância e não podem jamais ser desconsideradas, as redes de relacionamento e conversação
informal definem, de fato, a ação organizacional (BROWN, Juanita et al. O World Café: Dando Forma ao Nosso
Futuro Por Meio de Conversações Significativas e Estratégicas. São Paulo: Cultrix, 2007, passim). Esses
autores (ibid., p. 56) afirmam que “a conversação é ação. Você pode pensar sobre coisas e pode sentir coisas,
mas o que você pensa e o que você sente não se tornam “reais” enquanto você não os exprimir. Em seguida, elas
começam a germinar. Outras pessoas ouvem, outras pessoas começam a sentir, você troca idéias conjuntamente
— e, se for suficientemente importante, a ação significativa se torna apenas uma coisa natural que acontece”. A
cultura organizacional é definida não apenas pelas descrições dos documentos formais, mas pelo que é
conversado nos corredores da instituição: “Criamos nosso mundo através da fala” (ibid., p. 37). Mais: “Se as
organizações são sistemas vivos, então que processos básicos uma organização pode utilizar que reflita os
padrões da natureza? Onde você, na condição de líder, coloca intenção e atenção num sistema vivo?” (ibid., p.
52). Tais autores (ibid., loc. cit.) defendem a mudança de foco da administração por resultados (teoria
neoclássica) para administração por meios (um foco sistêmico em relacionamentos fomentados por diálogos
profundos e criativos).
117

conflitos, esse tipo de liderança reativa é impotente, presa em sua própria


identidade, como um animal enjaulado.393

5.3.7 A Influência do Modelo Burocrático Sobre a IPB

Há aproximações não apenas metodológicas entre o modelo de administração da IPB

e o modelo burocrático. Pelo menos oito aspectos podem ser considerados convergentes: (1)

A racionalidade — a organização é concebida como um todo organizado; (2) a precisão na

definição de cargos; (3) a regulamentação específica e escrita das leis; (4) a uniformização de

rotinas e procedimentos; (5) a continuidade organizacional pela substituição do pessoal que é

afastado — as pessoas passam e os cargos ou funções permanecem; (6) a constância ou

consistência — os mesmos tipos de decisão devem ser tomados nas mesmas circunstâncias;
394
(7) a confiabilidade — os processos são conduzidos por regras conhecidas; (8) o foco em

um “pacto social” — a inclusão e a ordem, no caso, a estabilidade da estrutura, precedem a

produtividade.

Na IPB o modelo burocrático mescla-se ao conciliarismo calvinista395 e a escolha de

indivíduos para os cargos é feita não exclusivamente em termos de competência técnica, mas

à luz da doutrina bíblica da vocação cristã.396































 


















393
Essa descrição fornecida por Gerzon (op. cit., p. 6) é plenamente aplicável a situações de conflitos em
organizações burocráticas. Tal disfunção da burocracia pode decorrer de sua tônica na uniformidade, o que
produz dificuldades para o trato com a pluralidade e a diversidade. A frase utilizada por Gerzon, “animal
enjaulado”, repercute Weber, para quem, cf. SENNETT, op. cit., p. 35, “a pessoa que faz uma carreira vitalícia
numa instituição dessa natureza vive numa ‘jaula de ferro’.”
394
CHIAVENATO, op. cit., p. 217.
395
O termo “conciliarismo” refere-se, originalmente, a um movimento dentro da Igreja Católica Romana entre a alta
Idade Média e a Reforma, cujas origens remontam a Guilherme de Occam (cerca de 1280 ou 1290 – 1349), que reagiu
contra “a autoridade opressiva do papa e da hierarquia eclesiástica” (OLSON, op. cit., p. 358). O conciliarismo
pregava “que a igreja deveria ser governada por concílios e não por papas” (ibid., p. 360) e, nesse sentido, pavimentou
o caminho para a Reforma Protestante. O conciliarismo calvinista é a aplicação prática do modelo bíblico do exercício
do governo da igreja por concílios locais e extralocais. Calvino considera bíblica e necessária a condução da igreja por
um corpo de presbíteros (cf. CALVINO, João. As Institutas: Edição Clássica. 2. ed. São Paulo: Cultura Cristã,
2006. IV.III.1-16). Do mesmo modo, vê como positivas as contribuições dos concílios que se reúnem
verdadeiramente “em nome de Cristo” e que “atentam para o Espírito”, ou seja, deliberam submissos à Palavra de
Deus (ibid., IV.IX.1-2). Na IPB há questões que exigem a votação dos plenários dos concílios.
396
CI/IPB, Capítulo VII, Artigos 108-109, op. cit., p. 59.
118

Resumindo, se as teorias clássica e neoclássica de administração contribuem com a

IPB no que diz respeito à departamentalização, hierarquização, normatização e foco em

planos, o modelo burocrático contribui com uma estrutura racional-legal e com uma cultura

centrada na ordem e inclusão, em detrimento da produtividade.

5.4 Quinta Síntese: O Modelo de Administração da IPB é Uma Amálgama de


Princípios Bíblicos e de Princípios e Práticas Administrativas Oriundas da
Cultura Circundante

O modelo de administração da IPB é uma amálgama das teorias clássica e neoclássica,

do modelo burocrático de administração, do sistema de governo conciliar e da doutrina bíblica

do chamado para o serviço cristão.

No que cabe ao interesse desta pesquisa, verifica-se, portanto, que ele contém

elementos da Escritura e, simultaneamente, no espírito da CFW, da “sociedade humana”. Isso

permite responder afirmativamente à quarta questão subsidiária: Sim, o modelo

administrativo adotado pela IPB, em consonância com as Escrituras e com a CFW, permite o

uso de métodos administrativos advindos da cultura circundante.


119

CAPÍTULO VI

CONCEITO, CONTEXTO, PROPOSTA, COSMOVISÃO


NATURALISTA E POSSIBILIDADE DE COSMOVISÃO
CRISTÃ DA ADMINISTRAÇÃO ESTRATÉGICA

Uma análise detalhada da administração estratégica foge ao escopo deste projeto, mas

é pertinente empreender elaborações introdutórias. Esta seção apresenta: (1) O conceito de

administração estratégica: (2) a relação entre a administração estratégica e o planejamento

estratégico; (3) informações sobre o novo capitalismo, que fornece o contexto econômico-

histórico em que floresce a administração estratégica; (4) um apanhado das diversas escolas

de formação de estratégia; (5) a cosmovisão da administração estratégica; (6) suas

contribuições, e, por fim, (7) a sexta síntese que responde às últimas perguntas da pesquisa.

6.1 O Que é a Administração Estratégica

Como campo de estudo, a administração estratégica é uma disciplina recente e em

pleno desenvolvimento. Suas raízes encontram-se na disciplina mestra denominada política

de negócios, estabelecida com o fim de integrar os conhecimentos “dos estudantes das

disciplinas como contabilidade, finanças, marketing, administração e economia”.397 Com o

passar do tempo, os parâmetros da matéria foram expandidos agregando análises de

macroambiente, setoriais, da missão e dos objetivos gerais, bem como a formulação,

operacionalização e controle estratégico.398































 


















397
WRIGHT; KROLL; PARNELL, op. cit., p. 28.
398
Ibid., loc. cit.; TAVARES, Mauro Calixta. Gestão Estratégica. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2005, p. 40.
120

Como parte do currículo em estudos de administração a administração estratégica

pode ser considerada como “a disciplina que estrutura, integra e consolida o conjunto de

premissas, ativos tangíveis e intangíveis, mercados e ambiente, possibilitando à organização

obter vantagem competitiva na realização de seu negócio.” 399

Do ponto de vista da prática organizacional, a administração estratégica não é uma

teoria.400 Ela também não deve ser considerada como um “novo método”.401 O melhor é

considerá-la como uma caixa de ferramentas úteis para auxiliar as organizações a serem mais

eficientes e eficazes. Dentre este ferramental há instrumentos produzidos pelas diversas

teorias administrativas. Destarte, é pertinente enxergar a administração estratégica como um

conjunto de “decisões e ações administrativas que auxiliam a assegurar que a organização

formula e mantém adaptações benéficas com seu ambiente.” 402

6.2 A Administração Estratégica e o Planejamento Estratégico

A administração estratégica está sempre ligada ao planejamento estratégico. Nesses

termos ela pode ser abordada em sua elaboração ou fase de desenvolvimento, prática ou

controle, ou seja, acompanhamento e modificações a fim de garantir o alcance dos resultados

desejados.403 A administração estratégica abrange ainda “os estágios iniciais de determinação

da missão e os objetivos da organização no contexto de seus ambientes externo e interno.” 404































 


















399
HERRERA, Wagner. Administração: Evolução e Conceitos. Portal do Marketing. Disponível em:
<http://www.portaldomarketing.com.br/Artigos/Administracao_Evolucao_e_Conceitos.htm>. Acesso em: 14
abr. 2008.
400
Ainda que, como é destacado em 6.4, existam várias “escolas” de administração estratégica, cada uma delas
sustentando uma ou mais teorias.
401
Apesar de, no seu escopo, utilizar métodos para a implementação dos propósitos organizacionais.
402
WRIGHT; KROLL; PARNELL, op. cit., p. 25. Nesses termos, como já foi afirmado em 2.1, a administração
estratégica é um processo — um “conjunto completo de compromissos, decisões e ações necessários para que a
empresa obtenha vantagem competitiva e retornos acima da média” (HITT; IRELAND; HOSKISSON, op. cit., p. 6).
A administração estratégica é o conjunto de iniciativas e medidas tomadas com o objetivo de “reunir o plano
estratégico e sua implementação em um único processo” (TAVARES, op. cit., p. 40).
403
WRIGHT; KROLL; PARNELL, op. cit., p. 24.
404
Ibid., loc. cit.
121

A administração estratégica considera que os conceitos formais de planejamento

estratégico são tentativas de aproximação sempre sujeitas a contestações.405 As elaborações

clássicas são questionadas em sua proposição de poder centralizado. Sugere-se que nem

sempre as estratégias que realmente funcionam são formuladas pela cúpula da corporação. Há

ocasiões em que ocorre o sucesso deliberado, ou seja, consonante com o plano previamente

estabelecido, e outras em que sobrevém o sucesso emergente, decorrente do aprendizado.406

Bridges cita uma empresária da Condé Nast, que coloca a questão da seguinte

maneira: “Considero [nossa] empresa um time de vôlei. São necessários três toques para

levantar a bola sobre a rede e não importa quem a tocou”.407 Brafman e Beckstrom propõem

que as organizações devem atentar para a estratégia da estrela-do-mar. Uma estrela-do-mar

não possui cabeça, pelo contrário, é uma rede neural descentralizada. Destarte, organizações

do tipo estrela-do-mar primam por descentralização de comando e flexibilidade.408 Pinchot409

sugere um modelo de gestão que realize a migração da delegação de poder tradicional —

consistente com o modelo burocrático — para a criação de uma comunidade — a união de

pessoas em torno de uma visão compartilhada — e, finalmente, para a liberação do espírito

empreendedor em um sistema auto-organizável: “Utilizando instituições que criam um

sistema auto-organizável, o líder indiretamente motiva e incentiva os seguidores a encontrar

métodos mais eficientes e eficazes de servir um grupo ou comunidade maior.” 410

Em suma, enquanto se conceitua planejamento estratégico como um plano que “parte

de cima para baixo”, cogita-se também sobre a possibilidade da estratégia — mesmo a

estratégia global de uma organização — emergir, ou, nos termos de Mintzberg, Ahlstrand e































 


















405
Para retornar aos conceitos de planejamento estratégico, cf. nota de rodapé 332, na seção 5.2.3.
406
MINTZBERG, AHLSTRAND; LAMPEL, op. cit., p. 54.
407
BRIDGES, William. Conduzindo a Organização Sem Cargos. In: HESSELBEIN; GOLDSMITH;
BECKHARD, op. cit., p. 40. Grifo nosso.
408
BRAFMAN, Ori; BECKSTROM, Rod A. Quem Está no Comando? A Estratégia Da Estrela-Do-Mar e Da
Aranha. Rio de Janeiro: Elsevier, 2007, p. 28-29, 37-43.
409
PINCHOT, Gifford. Criando Organizações Com Muitos Líderes. In: HESSELBEIN; GOLDSMITH;
BECKHARD, op. cit., p. 51-64.
410
Ibid., p. 56.
122

Lampel: “[...] a formação de estratégia é fundamentalmente um processo pessoal, técnico,

fisiológico, coletivo ou até mesmo um não-processo? Talvez seja tudo isso. Neste caso,

quanto de cada, quando e onde?” 411

Ainda que sujeito a diferentes avaliações e interpretações, há de se reconhecer o lugar

e importância do planejamento estratégico. A “estratégia fixa a direção, [...] focaliza o

esforço, [...] define a organização e [...] provê consistência.” 412

6.3 A Administração Estratégica e Novo Capitalismo

A administração estratégica surge e ganha terreno no contexto do novo capitalismo.

Este último, por sua vez, para ser mais bem compreendido, exige um apanhado dos principais

movimentos econômicos do último século, a começar da Grande Depressão, descrita por

Hobsbawm como uma crise de escala global iniciada pela quebra da bolsa de Nova York, em

29 de outubro de 1929.413 Tal colapso permite o surgimento do Nazismo, Fascismo e

governos populistas e totalitários na Europa e América Latina.414

A Rússia sofre o impacto da quebradeira global415 mas ainda assim pode referir-se à

crise como “trapalhada capitalista”416 e, de modo geral, permanece imune aos seus

desdobramentos mais angustiantes. O modelo soviético torna-se digno de ser conhecido e,

também, adaptado a outros contextos, com a finalidade de minorar os efeitos da crise global.

Como afirma Hobsbawm, “a Grande Depressão destruiu o liberalismo econômico por meio






























 


















411
Op. cit., p. 267.
412
Ibid., p. 22.
413
Op. cit., p. 91, 96.
414
Ibid., p. 91.
415
O impacto na Rússia se deve a necessidade de garantir o pagamento dos contratos de comércio exterior,
relativos à aquisição de máquinas necessárias ao seu mercado interno, exige-se a duplicação da produção de
trigo e das sacas de pele (HUBERMAN, Leo. História da Riqueza do Homem. 21. ed. revista. Rio de Janeiro:
Guanabara Koogan, 1986, p. 284-286).
416
Ibid., p. 290. O capitalismo em sua formatação mais livre de restrições, que Marx e Engels chamam de
“burguesia moderna”, e Sennett, de “capitalismo primitivo”, é denominado por Hobsbawm (op. cit., p. 100-101)
de “liberalismo econômico.”
123

século”.417 O intervencionismo estatal na economia é assumido como solução para dar aos

países o mínimo de equilíbrio e garantias diante da instabilidade.418 Multiplicam-se políticas

de bem-estar social — sistemas previdenciários e leis de seguridade social.419 É neste

contexto de intervencionismo estatal na economia e de refluxo do modelo burocrático de

administração que se promulga, em 20 de julho de 1950, no templo da Igreja Presbiteriana

de Alto Jequitibá, Minas Gerais, a Constituição da Igreja Presbiteriana do Brasil.420

O esgotamento do intervencionismo estatal manifesta-se em 1973. O mundo entra em

“longa e profunda recessão, combinando baixas taxas de crescimento com altas taxas de

inflação”,421 e os governos começaram a recuar como interventores, reconhecendo sua

impotência diante “da complexidade dos sistemas econômico-sociais.” 422

Com o decorrer dos tempos, o Welfare State começou a sofrer os defeitos da


burocratização. Tornou-se uma máquina pesada. Os conservadores
começaram a denunciar os vícios da burocracia. [...] Com Reagan explodiu o
ressentimento contra as instituições de bem-estar.423































 


















417
Ibid., p. 99.
418
Nas economias de países totalitários, o intervencionismo é encaminhado como uma adaptação do modelo do
“capitalismo avançado” de Bismarck e, nos países democráticos, ele assume a forma de um “capitalismo
democrático reformado”, cujo profeta e pioneiro mais conhecido é John Maynard Keynes (1883 – 1946), criador
da teoria geral do emprego, dos juros e da moeda, “fonte da moderna macroeconomia” (ROSSETTI, José
Paschoal. Introdução à Economia. 16. ed. rev. atual. e ampl. São Paulo: Atlas, 1994, p. 646; cf. HOBSBAWM,
op. cit., p. 99-100; KEYNES, John Maynard. Teoria Geral do Emprego, do Juro e do Dinheiro: Inflação e
Deflação. São Paulo: Abril Cultural, 1983. A Grã-Bretanha abandona o livre comércio em 1931, os EUA e a
Comunidade Européia passam a subsidiar os preços dos produtos agrícolas. “Os países desenvolvidos”
utilizaram “o método keynesiano de criar empregos improdutivos como forma de ampliar a demanda e assim
dinamizar a produção estagnada de bens de massa”, enfatizando o ideal de fortalecimento da “indústria nacional”
(BUARQUE, Cristovam. A Segunda Abolição: Um Manifesto-Proposta Para a Erradicação da Pobreza no
Brasil. São Paulo: Paz e Terra, 1999, p. 51, grifo nosso). Nos Estados Unidos, entre 1933 e 1937, o governo de
Franklin Delano Roosevelt (1882 – 1945) firma o New Deal. Na Europa, os Estados Escandinavos (ou países
nórdicos) tais como a Suécia, a Dinamarca e a Noruega e a Finlândia, sob a orientação de Karl Gunnar Myrdal
(1898 – 1987), aderem ao Welfare State, “Estado do Bem-Estar” (HOBSBAWM, op. cit., p. 100;
ENCYCLOPÆDIA BRITANNICA, INC. Gunnar Myrdal. Disponível em:
<http://www.britannica.com/eb/article-9054556>. Acesso em: 27 nov. 2007).
419
HOBSBAWM, op. cit., p. 99-100. No Brasil tais políticas ganham ímpeto, como adaptação do modelo
fascista, no Estado Novo de Vargas (1937 – 1945) e, como versão tupiniquim do New Deal norte-americano, a
partir dos governos militares (ibid., p. 110, 136-138).
420
Cf. CI/IPB. Preâmbulo. In: CAMPOS, op. cit., p. 7.
421
CHIAVENATO; SAPIRO, op. cit., p. 5.
422
Ibid., loc. cit.
423
COMBLIN, José. O Neoliberalismo: Ideologia Dominante na Virada do Século. 3. ed. Petrópolis: Vozes,
1999, p. 27.
124

Entre 1970 e 1980 surgem os teóricos do “novo capitalismo” ou “tese da página

nova”,424 agora conhecido como neoliberalismo.425

Resumindo, a Grande Depressão abriu as portas para políticas de conciliação do

capitalismo com as demandas de estabilidade social, com ênfase particular na aplicação do

planejamento nas instituições. O esgotamento do capitalismo social deu origem ao novo

capitalismo. Este, ainda que ecoando as antigas afirmações relativas ao planejamento, forçou

uma mudança não apenas no Estado, mas, nas instituições, que tiveram de adaptar-se a um

ambiente de maior fluidez, instabilidade e necessidade de rapidez nas decisões e iniciativas

organizacionais.426































 


















424
CHIAVENATO; SAPIRO, op. cit., loc. cit.; cf. SENNETT, op. cit., passim; COMBLIN, op. cit., p. 15-50.
425
O primeiro desses estudiosos é Friedrich August von Hayek (1899 – 1992), ganhador do prêmio de Ciências
Econômicas, em 1974, por sua contribuição pioneira na teoria da moeda e flutuações econômicas e pela “análise
penetrante da interdependência dos fenômenos econômicos, sociais e institucionais” (DEPARTMENT OF
ECONOMICS OF THE NEW SCHOOL FOR SOCIAL RESEARCH. Friedrich August von Hayek, 1889-1992.
In: The History Of Economic Thought Website. Disponível em:
<http://cepa.newschool.edu/het/profiles/hayek.htm>. Acesso em: 27 nov. 2007). Para Comblin (op. cit., p. 16) a
expressão neoliberalismo contrapõe-se a “liberalismo clássico”, esta última, utilizada para referir-se à proposta
de auto-regulação do mercado propugnada por Adam Smith. O pensamento de Hayek é assim interpretado por
Comblin : (1) Toda economia gira em torno do mercado, que produz “equilíbrio perfeito” (ibid., p. 42); (2) os
inimigos do mercado são “o Estado e os sindicatos” (ibid., p. 42-43) e (3) “a definição de preços por um
planejamento central é impossível.” (ibid., p. 43-44). Comblin (ibid., p. 21) afirma que “a política neoliberal
tende a destruir todos os ‘coletivos’ que servem para defender os indivíduos”. Friedman (op. cit., p. 273-541)
defende que o novo capitalismo — definido por ele como um sistema de economia horizontalizada ou
“achatada” — não exige a destruição de tudo o que é coletivo, mas altera o entendimento e vivência de
coletividade, ao mesmo tempo em que desafia os países a investirem em infra-estrutura, educação e governança.
O segundo teórico a ser destacado é Milton Friedman (1912 – 2006) que, de acordo com Comblin (ibid., p. 45),
desconsidera o desenvolvimento da economia após Adam Smith, ao afirmar que “todo o problema da liberdade
humana está na questão do mercado” e que “somente há dois métodos para organizar as atividades econômicas
de milhões de pessoas: O Estado totalitário ou o livre-mercado”. Assim sendo, “quem não adota o livre-mercado,
cai no estado totalitário.”
O texto de Comblin sugere uma perspectiva no mínimo simpática à leitura marxista, a começar pelo juízo de
valor estabelecido sobre as idéias dos autores neoliberais. As “teorias de Hayek são puras petições de princípio,
círculos viciosos sem nenhum valor intelectual” (ibid., p. 43, grifo nosso) e as idéias de Friedman “são
simplistas”, “rudimentares” e utilizadas pela “burguesia” que não tem interesse em “discussão acadêmica” (ibid.,
p. 44-45). Sua análise, porém, é bem documentada e útil para o entendimento de aspectos importantes do novo
capitalismo, e.g., ele sugere que, na administração dos Estados e Nações, os programas econômicos passam a ser
considerados mais importantes do que as ideologias políticas (ibid., p. 20). Além disso, ele contribui ao afirmar
que algumas explicações neoliberais, tais como “o desemprego não é o resultado do mercado capitalista e sim
dos sindicatos”, ou, “a intervenção do Estado no mercado do trabalho é a causa de todos os problemas
econômicos” são superficiais e exigem leituras mais aprofundadas (ibid., p. 44, 47).
426
Analisando o mesmo tema, Sennett (op. cit., p. 41) aponta três fatores como cruciais para a ascendência das
teorias do novo capitalismo. Primeiro, a derrocada dos acordos de Bretton Woods, no início da década de 1970,
produz superávit de capital para investimentos que, por sua vez, provoca a mudança, nas grandes empresas, do
poder gerencial para o acionário. Um volume considerável de riqueza, antes confinado a empresas e bancos
locais e nacionais, pode ser movimentado mais facilmente em escala global. Com isso, “os investidores estavam
em condições de turbinar ou desmontar corporações inteiras ante os olhos perplexos e impotentes da gerência”
125

Sennett chama a atenção para o impacto dessa “organização globalizada, de valor de

curto prazo e tecnologicamente complexa como modelo de mudança institucional”.427 Ele

relata, primeiramente, a tensão provocada pela quebra da jaula da burocracia. Destruída a

estrutura anterior, surge a “preocupação com a perda do autocontrole”.428 Do ponto de vista

psicológico, isso significa que “o desenvolvimento linear é substituído por uma predisposição

mental capaz de permitir a livre circulação”.429 As corporações experimentam uma

“dessedimentação institucional. [...] A organização incha e se contrai, empregados são

atraídos ou descartados à medida que a empresa transita de uma tarefa a outra.” 430

Outra alteração institucional é a “casualização da força de trabalho”, ou seja, a

alteração dos contratos de trabalho que, ao invés de submeterem-se a leis trabalhistas

rigorosas, ganham maior flexibilidade. Contratos de longo prazo são substituídos por

contratos temporários.431































 


















(ibid., p. 43). Sobre os acordos de Bretton Woods, durante as três primeiras semanas de julho de 1944, 730
delegados das 44 nações aliadas reúnem-se em Bretton Woods, New Hampshire, EUA, a fim de definir regras de
gerenciamento econômico mundial, detalhando normas para as relações comerciais e administração do câmbio
entre os países mais industrializados. Para supervisionar o cumprimento do acordo, são criados o Banco Mundial
e o Fundo Monetário Internacional, FMI. Cf. CLUBINVEST.COM, Bretton Woods. Disponível em:
<http://www.clubeinvest.com/_technical_analysis/forex/Bretton_woods/Bretton_woods.php>. Acesso em: 27
nov. 2007; UNIFICADO.COM, Conferência Internacional
Monetária de Bretton Woods. Disponível em: <http://www.unificado.com.br/calendario/07/bretton.htm>. Acesso
em: 27 nov. 2007.
Segundo, alteram-se as expectativas de retorno do investimento dos acionistas. “Os investidores dotados de novo
poder queriam resultados a curto, e não a longo prazo. Constituíam o contingente do ‘capital impaciente’, na
formulação de Bennett Harrison”. Nesse novo contexto, o preço das ações torna-se mais interessante do que os
dividendos distribuídos pelas corporações (SENNETT, op. cit., p. 43). Isso provoca uma mudança estrutural nas
instituições: Passa-se a valorizar a disposição e capacidade para a mudança e a estabilidade é considerada, em
termos organizacionais, como “sinal de fraqueza” (ibid., p. 43.44).
O terceiro e último fator de imbricação do novo capitalismo é o surgimento de novas tecnologias de
comunicação e manufatura, que tornam possível, em proporções quase que inimagináveis, a interação global, ao
mesmo tempo em que aumentam as exigências de velocidade na tomada de decisões, por parte da alta gerência
(ibid., p. 44-45). A automação achata a pirâmide hierárquica, deixa para trás a inclusão das massas e produz uma
“nova individualidade idealizada”: O indivíduo alarga e aprofunda sua base de conhecimento mantendo-se cada
vez mais “à frente da máquina” (ibid., p. 46-47).
427
Op. cit., p. 47.
428
A nova instituição, que abandona a antiga forma de estrutura piramidal, assemelha-se a um aparelho de MP3,
que pode ser programado para “tocar apenas algumas faixas de seu repertório. [...] Num tocador de MP3, o que
ouvimos poder ser programado em qualquer seqüência” (ibid., p. 49).
429
Ibid., p. 50.
430
Ibid., loc. cit.
431
Ibid., p. 50-51: “O trabalho temporário constitui o setor de mais rápido crescimento da força de trabalho nos
Estados Unidos e na Grã-Bretanha; e representa atualmente 8% da força de trabalho americana.”
126

Essas três disfunções institucionais, seqüenciamento não-linear, dessedimentação e

casualização, alteram a noção do tempo operacional. Se no capitalismo social havia a

concepção de um “tempo racionalizado”, no novo capitalismo, se lida com o “mundo

oscilante do trabalho de curto prazo por tarefa. A estrutura da empresa não constitui um sólido

objeto passível de estudo, seu futuro não pode ser previsto”.432 Isso exige que, nas novas

instituições, os indivíduos possuam “alto grau de tolerância com a ambigüidade.” 433

É a partir dessa avaliação que Sennet afirma que as mudanças institucionais

propugnadas pelo novo capitalismo não libertam as pessoas, mas, pelo contrário, geram três

déficits sociais:434 (1) Baixa lealdade do indivíduo às instituições;435 (2) declínio da confiança,

tanto nos contratos formais quanto nas relações informais436 e (3) “debilitação do

conhecimento institucional”, o indivíduo não tem mais interesse em estudar e conhecer as

entranhas — natureza, propósitos, normas e procedimentos gerais — da organização.437

O novo capitalismo estabelece, portanto, um cenário ambíguo: Se por um lado ele

fomenta inovação, por outro, produz insegurança. Diante disso, como as organizações podem

e devem ser gerenciadas? Esta questão é abordada pela escolas de formação de estratégia.

6.4 As Diversas Escolas de Formação de Estratégia

Mintzberg, Ahlstrand e Lampel fornecem um apanhado útil das diversas escolas de

planejamento.438 Na Escola do Design, a formação de estratégia é focalizada como um































 


















432
Ibid., p. 52, grifo nosso.
433
Ibid., p, 52, 60.
434
Ibid., p. 62-69.
435
Ibid., p. 62-64.
436
Ibid., p. 64-66.
437
Ibid., p. 66-69.
438
Op. cit., passim. Cada uma dessas escolas representa uma faceta da administração estratégica. A obra de
Mintzberg, Ahlstrand e Lampel é útil no sentido de levantar pontos pertinentes para o entendimento da formação de
estratégia. Cada escola é rigorosamente dissecada apresentando-se sua descrição, pressupostos, os pontos positivos e,
por fim, as críticas dos autores.
127

processo de concepção. Sua marca registrada é a chamada análise SWOT. O planejamento

estratégico avalia os pontos fortes e fracos da organização à luz das oportunidades e ameaças

em seu ambiente.439 A formulação estratégica consiste basicamente em “atingir uma

adequação entre as capacidades internas e as possibilidades externas.” 440

Na Escola de Planejamento, a formação de estratégia é focalizada como um processo

formal.

Procedimento formal, treinamento formal, análise formal, muitos números.


[...] o planejamento tornou-se não apenas uma abordagem à formação de
estratégia, mas uma virtual religião a ser pregada com o fervor de
missionários. Ao mesmo tempo poucas pesquisas eram feitas para descobrir
como o planejamento funcionava, na prática.441

Na Escola de Posicionamento, a formação estratégica é focalizada como um processo

analítico. Tal escola acrescenta conteúdo de duas formas: (1) Enfatiza “a importância das

próprias estratégias, não apenas do processo pelo qual elas foram formuladas”; (2) dá ênfase

ao conteúdo das estratégias, abrindo “o lado prescritivo da área a investigações

substanciais”.442 É no âmbito desta Escola, no início dos anos 80, que surge a expressão

administração estratégica.443

Estas primeiras três escolas são consideradas prescritivas, ou seja, estão “mais

preocupadas em como as estratégias devem ser formuladas do que em como elas são

formuladas.” 444

A quarta escola citada por Mintzberg, Ahlstrand e Lampel, a Escola Empreendedora,

focaliza a formação de estratégia como um processo visionário. O planejamento é o

desdobramento de “uma representação mental da estratégia, criada ou ao menos expressa na































 


















439
Strenghts, Weakenesses, Opportunities and Threats (ibid., p. 28). cf. WRIGHT; KROLL; PARNELL, op. cit.,
p. 85-92.
440
MINTZBERG; AHLSTRAND; LAMPEL, op. cit., p. 28. Grifo dos autores.
441
Ibid., p. 44.
442
Ibid., p. 68.
443
Ibid., loc. cit.
444
Ibid., p. 14. Grifos dos autores.
128

cabeça do líder. Essa visão serve como inspiração e também como um senso daquilo que

precisa ser feito — uma idéia guia.” 445

Na Escola Cognitiva, a formação de estratégia é focalizada como processo mental —

a investigação da mente do estrategista. Isso pode ser feito de duas formas. Uma primeira ala,

composta por positivistas, “trata o processamento e a estruturação do conhecimento como um

esforço para produzir algum tipo de filme objetivo do mundo”, enquanto outra ala enxerga

tudo subjetivamente: “A estratégia é uma espécie de interpretação do mundo.” 446

A Escola do Aprendizado dá destaque à formação de estratégia como um processo

emergente. Considera-se que os estrategistas aprendem ao longo do tempo. As estratégias

surgem quando as pessoas tanto individual quanto coletivamente “aprendem a respeito de

uma situação” e a organização como um todo obtém proficiência em “lidar com ela”. A

culminação do processo é a convergência do aprendizado “sobre padrões de comportamento

que funcionam”.447 Essa escola contribui ao constatar que “somente 10% das estratégias

formuladas chegam a ser implementadas”,448 que redimensionamentos estratégicos

importantes raramente se originam de um esforço formal de planejamento ou das salas da alta

administração, que estratégias emergem de “uma variedade de pequenas ações e decisões

tomadas por todos os tipos de pessoas diferentes (algumas vezes de forma acidental ou por

sorte, sem nenhuma consideração quanto às suas conseqüências estratégicas)”.449 Em suma,

“pessoas informadas em qualquer parte da organização podem contribuir para o processo de

estratégia”.450 É nesse contexto que se articula a proposta de pensamento sistêmico:

O pensamento sistêmico é uma disciplina para ver o todo. É um quadro


referencial para ver inter-relacionamentos, ao invés de eventos; para ver
padrões de mudança, em vez de “fotos instantâneas”. É um conjunto de






























 


















445
Ibid., p. 98. Versões desse conceito adaptadas para o contexto evangelical são fornecidas por BARNA,
George. O Poder da Visão: Como Você Pode Captar a Visão de Deus Para Sua Vida Pessoal e Ministério
Cristão. São Paulo: Abba Press, 1993, p. 31-41, e por MONTOYA, op. cit., p. 308-310.
446
MINTZBERG; AHLSTRAND; LAMPEL, op. cit., p. 116. Grifos dos autores.
447
Ibid., p. 134.
448
Ibid., p. 135.
449
Ibid., loc. cit.
450
Ibid., loc. cit.
129

princípios gerais — destilados ao longo do século 20, abrangendo campos


tão diversos quanto as ciências físicas e sociais, a engenharia e a
administração. É também um conjunto de ferramentas e técnicas específicas,
originárias de duas linhas de pensamento: a dos conceitos de feedback da
cibernética e da teoria de “servomecanismo” da engenharia, datadas do
século 19. [...] o pensamento sistêmico é uma sensibilidade à sutil
interconectividade que dá aos sistemas vivos o seu caráter único.451

A Escola de Poder focaliza a formação de estratégia como um processo de

negociação. São reconhecidos nas organizações o poder micro, que “lida com o jogo de

política — de poder ilegítimo — dentro de uma organização”, e o poder macro, que “diz

respeito ao uso de poder pela organização.” 452

Se a formulação de estratégia pode ser um processo de planejamento e


análise, cognição e aprendizado, também pode ser um processo de
negociação e concessões entre indivíduos, grupos e coalizões. Introduza
qualquer forma de ambigüidade — incerteza ambiental, metas concorrentes,
percepções variadas, escassez de recursos — e a política surge. Assim sendo,
os defensores desta escola afirmam que não é possível formular — menos
ainda implementar — estratégias ótimas: as metas concorrentes de
indivíduos e coalizões garantem que qualquer estratégia pretendida irá ser
perturbada e distorcida a cada passo do caminho. As pessoas jogam todos os
tipos de “jogos políticos” em organizações [...].453

Na Escola Cultural, a formação de estratégia é focalizada como um processo coletivo.

Trata-se de um reflexo da Escola de Poder. Enquanto o poder fragmenta a organização, “a

cultura junta uma coleção de indivíduos em uma entidade integrada”.454 A literatura da Escola

Cultural aborda “a influência da cultura na manutenção da estabilidade estratégica e, em

alguns casos, resistindo ativamente às mudanças estratégicas.” 455

Na Escola Ambiental, a formação de estratégia é focalizada como um processo

reativo. O ambiente é posicionado como uma força central no processo de formação de































 


















451
SENGE, Peter. A Quinta Disciplina: Arte e Prática da Organização Que Aprende. 21 ed, rev. e amp. Rio de
Janeiro: BestSeller, 2006, p. 99.
452
MINTZBERG; AHLSTRAND; LAMPEL, op. cit., p. 174. Grifos dos autores.
453
Ibid., p. 175.
454
Ibid., p. 194.
455
Ibid., loc. cit.
130

estratégia, ao lado de liderança e organização,456 compreendendo-se ambiente como “um

conjunto de forças vagas ‘lá fora’ — na verdade, tudo o que não é a organização.” 457

Esta escola tem por base a teoria da contingência.458 O sucesso organizacional

relaciona-se com a “correspondência entre as oportunidades e ameaças do ambiente e os

pontos fortes e fracos da empresa”.459 A organização eficaz responde rapidamente às

mudanças ambientais.460 Por isso mesmo, “para os teóricos contingenciais, ‘tudo depende’: do

porte da organização, da sua tecnologia, da estabilidade do seu contexto, da hostilidade

externa e assim por diante”.461 Tal “imperativo ambiental”, no entanto, tem sido questionado:

Como é que duas organizações podem operar com sucesso no mesmo


ambiente com estratégias muito diferentes? [...] Na verdade, os ambientes
“selecionam” organizações, ou estas “decretam” ambientes? [...] Além disso,
será que os ambientes “existem”, ou será que eles são apenas as percepções
das pessoas — simples construções sociais?
E finalmente, pode-se dizer que qualquer organismo vivo carece realmente
de opções?462

Por fim, a Escola de Configuração focaliza a formação de estratégia como um

processo de transformação e “oferece a possibilidade de reconciliação, uma maneira para

integrar as mensagens das outras escolas”.463 Ela enxerga os diversos momentos da

organização como estados que requerem iniciativas e respostas diferenciadas. Nesses termos,

a criação de uma estratégia nada mais é do que o salto de um estado para outro.

Em outras palavras, a transformação é uma conseqüência inevitável da


configuração. Há um tempo para coerência e um tempo para mudar.
[...]
É claro que os estados significam comportamentos defensivos. Assim, para
aqueles que vêem o mundo dessa maneira, criar estratégias significa
afrouxá-los para que a organização possa efetuar a transição para um novo
estado (o mais rápido possível, para não ficar sem estado). Por isso, o outro






























 


















456
Ibid., p. 210.
457
Ibid., p. 211.
458
Ibid., loc. cit. A premissa básica desta teoria “é que recursos financeiros mais altos estão associados a
empresas que desenvolvem um ajuste mais benéfico com o seu ambiente” (WRIGHT; KROLL; PARNELL, op.
cit., p. 32).
459
WRIGHT; KROLL; PARNELL, op. cit., loc. cit.
460
De acordo com Mintzberg, Ahlstrand e Lampel (op. cit., p. 211), para a Escola Ambiental, as organizações
que reagem melhor ao ambiente sobrevivem e prosperam, enquanto as outras desaparecem.
461
Ibid., p. 212.
462
Ibid., p. 218.
463
Ibid., p. 222.
131

lado desta escola vê o processo como sendo de transformação acentuada —


por exemplo, “reformulação” ou “revitalização”, para usar duas expressões
populares desta escola. 464

Em suma, são várias as escolas de formação de estratégia. Diante dessa diversidade,

haveria a possibilidade de identificar, na administração estratégica, um ponto de vista

compartilhado, uma cosmovisão?

6.5 A Cosmovisão Híbrida da Administração Como Um Todo


e da Administração Estratégica Em Particular

Nesta seção demonstra-se que a administração estratégica é naturalista, uma vez que

se estriba em pressupostos do evolucionismo darwinista. Ademais, muito do que se escreve

relativo a teorias administrativas reflete modelos mentais influenciados pelo misticismo e

existencialismo. Tal cosmovisão pode e deve ser criticada e revista nos termos do paradigma

cosmonômico.

6.5.1 Os Pressupostos Evolucionistas da Administração Estratégica

Wright, Kroll e Parnell sugerem que muitos pensadores de administração têm sido

influenciados pela teoria da mudança evolucionária proposta pelo naturalista Charles Robert

Darwin (1809 – 1882).465 Tal teoria sugere “que as mudanças ambientais forçam as espécies

em direção a mutações ou transformações incrementais, porém contínuas. Uma espécie que

não possa adaptar-se à exigências ambientais é prejudicada, podendo extinguir-se.”466 É a

partir de tal alicerce que se afirma “que as organizações são influenciadas pelo ambiente; que

a mudança ambiental é gradual, exigindo uma mudança organizacional concomitante; e que as
































 


















464
Ibid., p. 222, 223.
465
Op. cit., p. 29-32.
466
Ibid., p. 29.
132

organizações eficazes são aquelas que mais se adaptam às exigências ambientais”.467 Dentre

as teorias administrativas afetadas pelo darwinismo, Wright, Kroll e Parnell citam a teoria da

revolução, de Joseph Schumpter — a mudança ambiental não é gradual, mas, revolucionária e

abrupta —,468 a teoria da organização industrial, um ramo da microeconomia que “enfatiza a

influência do ambiente setorial sobre a empresa”,469 as teorias econômicas de Edward

Chamberlin470 e a teoria da contingência, apresentada resumidamente na seção 6.4.

Na esteira das idéias de Schumpter destaca-se ainda a teoria evolucionária da

mudança econômica, formulada por Richard R. Nelson e Sidney G. Winter. Mintzberg.

Ahlstrand e Lampel oferecem um resumo desta teoria nos seguintes termos:

As organizações não são regidas pela racionalidade global, nem por qualquer
estrutura isolada que guie as mudanças. Estas emergem da interação
cumulativa entre sistemas básicos de ação chamados “rotinas”, que são
padrões repetitivos de atividade que sustentam e controlam o funcionamento
regular da organização. [...] As rotinas transmitem estabilidade à
organização, assim como os giroscópios mantêm aviões em cursos estáveis.
[...]
À medida que as rotinas são mudadas para lidar com novas situações,
surgem mudanças maiores. Isto acontece porque as rotinas são
interligadas: assim, mudanças em um conjunto irão afetar outros,
criando um efeito cascata.471

A administração estratégica propõe-se ainda como aplicação do chamado Princípio de

Gause de Exclusão Competitiva: “Duas espécies que conseguem seu sustento de maneira

idêntica não podem coexistir”.472 Henderson propõe a seguinte aplicação para a

administração:

A competição existiu antes da estratégia. Começou com o aparecimento da


própria vida. Os primeiros organismos unicelulares requeriam certos






























 


















467
Ibid., loc. cit. Grifos nossos.
468
Ibid., loc. cit.
469
Ibid., p. 30-31.
470
Ibid., p. 31-32.
471
MINTZBERG; AHLSTRAND; LAMPEL, op. cit., p. 140.
472
HENDERSON, Bruce D. As Origens da Estratégia. In: MONTGOMERY, Cynthia A.; PORTER, Michael E.
(Orgs.). Estratégia: A Busca da Vantagem Competitiva. 15. reimp. Rio de Janeiro: Elsevier, 1998, p. 3. O
professor G. F. Gause, da Universidade de Moscou, conhecido como o pai da biologia matemática, realizou um
experimento com colônias de protozoários. O pesquisador colocou tais organismos do mesmo gênero em um
frasco com uma determinada quantidade de nutrientes e constatou que se “os animais fossem de espécies
diferentes, conseguiam sobreviver e continuar vivos em conjunto. Se fossem da mesma espécie, não
conseguiam” (ibid., loc. cit.).
133

recursos para se manterem vivos. Quando os recursos eram adequados, o


número de organismos aumentava de uma geração para outra. Com a
evolução dos seres vivos, esses organismos se tornaram uma fonte de
alimentação para formas de vida mais complexas e assim por diante, ao
longo da cadeia alimentar. Quando duas espécies quaisquer competiam por
um recurso essencial, mais cedo ou mais tarde, uma delas deslocava a outra.
Na ausência de influências compensadoras que mantivessem o equilíbrio
estável proporcionando a cada uma das espécies uma vantagem em seu
próprio território, somente uma das duas sobreviveria.
[...]
Tanto na competição dentro da ecosfera quanto na competição comercial, o
acaso aleatório é provavelmente o fator mais importante e mais abrangente.
O acaso determina as mutações e variações que sobrevivem e florescem de
geração em geração. As que deixam relativamente poucos descendentes são
deslocadas. As que melhor se adaptam deslocam as demais. [...].
De fato, as competições biológica e comercial seguiriam o mesmo modelo
de mudanças evolutivas graduais, se não fosse por uma diferença. Os
estrategistas de negócios podem usar imaginação e capacidade de raciocínio
lógico para acelerar os efeitos da competição e a velocidade das mudanças.
Em outras palavras, imaginação e lógica tornam possível a estratégia. [...] A
estratégia também requer a compreensão da complexa trama da competição
natural.473

Tais considerações permitem afirmar que o cientificismo darwinista pode ser

reconhecido como pressuposto filosófico da administração estratégica.

6.5.2 O Hibridismo Paradigmático da Administração Estratégica

Na literatura sobre administração é possível identificar a sugestão de outras molduras

conceituais estranhas à cosmovisão cristã. Caravantes, Panno e Kloeckner consideram que, de

modo geral, as teorias da administração — e aqui se inclui tudo o diz respeito à administração

estratégica — procedem de três tipos de paradigmas: (1) Positivista; (2) místico e (3)

existencial.474 Sugerem então a Readministração, uma nova abordagem “teórico-integrativa-

resolutora”, que leva em conta todas as contribuições das anteriores, adequada às exigências

contemporâneas.475































 


















473
Ibid., p. 3-4.
474
Op. cit., p. 4-36.
475
Ibid., p. 335-378.
134

Algo semelhante é oferecido por Mintzberg, Ahlstrand e Lampel:476 As diversas

escolas são comparadas a “um complexo sistema que cresce e se desenvolve [...] produto de

um longo processo de evolução”.477 O administrador estratégico é motivado a cruzar os dados

das diversas escolas a fim de formular novas questões relacionadas à complexidade,

generalidade, controle, agentes de formulação da estratégia, mutabilidade, número de opções

e tratamento da dicotomia pensamento versus ação estratégica.478 A analogia dominante é a da

fábula dos cegos do Hindustão descrevendo um elefante:479 Cada estrategista compreende

apenas uma parte do “animal” e, no fim das contas, o elefante é muito mais do que a soma de

suas partes: “Precisamos ir além da estreiteza de cada escola [...] saber como este animal

chamado formação de estratégia, que combina todas essas escolas e mais, vive realmente sua

vida.” 480

6.5.3 Avaliação e Proposta de Reestruturação Cristã da


Cosmovisão da Administração Estratégica

Retomando as ferramentas sugeridas por Pearcey,481 são feitas as seguintes perguntas

relacionadas à cosmovisão da administração estratégica: (1) Quanto à criação, como a

administração estratégica enxerga sua origem? Qual é sua natureza e seu propósito originais?

(2) Quanto à queda, como a administração estratégica foi torcida e retorcida? (3) Quanto à

redenção, como podemos colocar a administração estratégica sob o senhorio de Cristo,

restaurando-o ao propósito para o qual foi originalmente criado? Os dados obtidos tornam

possível oferecer algumas respostas.































 


















476
Op. cit., p. 256-274.
477
Ibid., p. 257. Grifo nosso.
478
Ibid., p. 265-269.
479
Ibid., p. 12-13.
480
Ibid., p. 274.
481
Cf. seção 3.5.
135

Primeiramente, a administração estratégica rejeita a categoria da criação ao assumir

uma visão naturalista das origens. A estratégia é compreendida não apenas como recurso de

condução institucional e aperfeiçoamento de resultados, mas também — e algumas vezes

principalmente — como arma que garante a vitória contra a concorrência. A idéia de que

somente os mais aptos sobrevivem ao mercado, assim como a conseqüente ênfase exacerbada

em mudanças, decorrem do evolucionismo darwinista.

Em segundo lugar, a administração estratégica nega a categoria da queda ao enxergar

as dificuldades de executar estratégica como mera necessidade de maior expertise na

formulação, prática e controle, ou como conseqüência de falhas na compreensão do que seja,

e como vive, de fato, o “elefante da formação de estratégia”. O homem — seja ele o líder

estrategista, o colaborador anônimo ou a comunidade que aprende — é capaz de criar, operar

e colher resultados das estratégias. A escola de formulação de estratégia que fica mais

próxima de afirmar algo semelhante à depravação do homem é a Escola de Poder.

Em terceiro lugar, a administração estratégica nega a categoria da redenção ao sugerir

a autonomia do homem. Isso de certo modo está presente no cerne da moderna administração.

Os administradores positivistas acreditam na possibilidade de uma administração

racionalista,482 enquanto os místicos fomentam o aumento das capacidades humanas

intuitivas.483 Os administradores existencialistas destacam a afirmação ontológica, bem como

a centralidade do atendimento das necessidades do homem.484 Os primeiros estão debaixo da

égide do modernismo, enfatizando a razão, seguidos daqueles que se abrigam sob o guarda-

chuva do orientalismo, enfatizando além da razão, a intuição, e, por fim, os sem-teto

existencialistas, apregoando a legitimidade do ser. Todos, ao seu modo, autônomos,

irremediavelmente separados do Criador.































 


















482
CARAVANTES; PANNO e KLOECKNER, op. cit., p. 15-16.
483
Ibid., p. 22-27.
484
Ibid., p. 30-36.
136

Entenda-se, portanto, que, quanto à estrutura, a administração estratégica reflete a boa

criação de Deus. Quanto à direção, devido ao seu alicerce naturalista — positivista, místico e

existencialista — a articulação conceitual e metodológica da administração estratégica —

assim como de toda a administração — contém construtos de idolatria e autonomia. O

paradigma cosmonômico, porém, reclama para Deus esta esfera da criação.

Assim sendo, do ponto de vista bíblico, a cosmovisão cristã une revelação e razão e

afirma que a administração depende de um Deus pessoal. A administração estratégica

encontra-se no núcleo de significado da esfera modal econômica — foi criada por Deus — e

deve lidar com a formulação e implementação de estratégias Coram Deo, reconhecendo,

nesse contexto, a realidade do pecado. Ademais, ela deve operar sob o selo de Cristo,

encaminhando planos e procedimentos que reflitam o evangelho.

6.6 Contribuições da Administração Estratégica

Esta pesquisa destaca quatro contribuições da administração estratégica: (1) O foco na

execução e o reconhecimento do dinamismo organizacional; (2) a implementação de ajustes

pertinentes; (3) a responsabilização da liderança pela eficácia institucional e, por fim, (4) o

uso inteligente de tecnologias e métodos a fim de otimizar os processos administrativos.485

6.6.1 A Administração Estratégica Focaliza a Execução e


Reconhece o Dinamismo Organizacional

A primeira contribuição da administração é o reconhecimento de que não basta

planejar; resultados decorrem da execução da estratégia e isso exige uma abordagem mais






























 


















485
Todas essas contribuição são dadas enquanto são levantadas e respondidas algumas das perguntas da
estratégia: Onde estamos? Como chegamos aqui? [...] Quais são as ameaças e as oportunidades do ambiente
presente e futuro? [...] Quais são nossos pontos fortes e fracos? [...] Para onde devemos ir? O que devemos
fazer para chegar até lá? (cf. MAXIMIANO, op. cit., p. 231-232).
137

ampla que inclui pessoas, a estratégia em si e a operação.486 Bossidy e Charam argumentam

que isso implica na interligação de todos os processos e a consideração, desde a formulação

da estratégia, das pessoas e da realidade operacional. O pessoal é incentivado, ou seja, recebe

reforço positivo ou negativo, “levando em consideração os planos estratégicos e operacionais.

As operações são ligadas aos objetivos estratégicos e às habilidades das pessoas.” 487

As diferentes escolas de formação de estratégia evidenciam que o dinamismo

organizacional supera a atual capacidade de teorização: “Não dispomos, até o momento, de

teorias capazes de estabelecer, com precisão, as conseqüências de nossas ações. Portanto, a

gestão estratégica envolve aprendizagem, aprimoramento e, principalmente, risco.” 488

Um desdobramento importante dessa constatação é a busca de equilíbrio entre

manutenção de identidade global versus adaptabilidade local.489 Ainda que se estabeleçam, no

planejamento estratégico, uma missão e visão abrangentes, abre-se o espaço, na sua execução,

para adaptações aos contextos menores, preservando-se a identidade institucional sem ferir as

particularidades da localidade.

6.6.2 A Administração Estratégica Auxilia as Organizações a Fazer Ajustes Pertinentes

A administração estratégica responde ao dinamismo organizacional encaminhando

ações sensíveis ao contexto.490 Isso equivale a dizer que na execução da estratégia pode ser

verificada a necessidade de modificações. Wright, Kroll e Parnell afirmam que, no final da
































 


















486
BOSSIDY, Larry; CHARAN, Ram. Execução: A Disciplina Para Atingir Resultados. 1. ed. 12. reimp. Rio de
Janeiro: Elsevier, 2005, p. 32.
487
Ibid., p. 33.
488
TAVARES, op. cit., p. 52.
489
Uma reportagem recente, publicada em uma revista de grande circulação no Brasil, revelou que a Google Inc.
tem tomado iniciativas que confirmam uma busca por este equilíbrio. Eric Schmidt, presidente da Google,
declarou em entrevista à revista Exame, que “a empresa precisa acelerar ainda mais — sem atropelar a própria
cultura” (SANTANA, Larissa. Por Dentro da Empresa Que Dominou o Mundo, in Exame, ed. 915, ano 42, n. 6,
9.4.2008, p. 28). A Google Inc. tem feito esforços no sentido de adaptar-se internamente, a fim de administrar as
demandas decorrentes do seu crescimento e, ao mesmo tempo, adaptar-se às culturais locais (ibid., p. 22-27).
490
MINTZBERG, AHLSTRAND; LAMPEL, op. cit., p. 40.
138

implementação, a estratégia pode lembrar “apenas de relance a estratégia organizacional

inicialmente pretendida”.491 Destarte, “as estratégias precisam ser examinadas continuamente

à luz de situações que se modificam.” 492

Ao mesmo tempo em que o planejamento é trabalhado em todos os âmbitos do corpus

organizacional, a sincronização dos recursos e esforços com vistas a obter resultados

operacionais é também destacada. Pontos importantes do planejamento ajustam o foco da

execução. Releituras do contexto e dificuldades na execução produzem entradas de dados que,

por sua vez, conduzem a revisões da estratégia.493 O processo pode imbricar no ajustamento

da estrutura, layout, sistemas de informações ou rituais da organização.494

Aqueles que sustentam o ponto de vista naturalista afirmam que tais ajustes refletem o

processo evolucionário. Do ponto de vista econômico, ajustes são fundamentais para

responder à volatilidade do mercado. Do ponto de vista cosmonômico, ajustes consistentes

com o nomos divino são comuns a tudo o que é vivo. A administração estratégica é, nesse

particular, uma ferramenta orgânica para o gerenciamento desses amoldamentos

organizacionais.

6.6.3 A Administração Estratégica Responsabiliza a Liderança

Para Bossidy e Charam a execução da estratégia exige que a liderança da organização

se envolva profundamente nos três processos — pessoas, estratégia e operação. “Eles são os

‘donos” dos processos — não o pessoal de planejamento estratégico, de recursos humanos ou































 


















491
Op. cit., p. 44-45.
492
Ibid., loc. cit.
493
BOSSIDY; CHARAN, op. cit., p. 199-213.
494
MANDELLI et al, op. cit., p. 47-48. Ajustes estruturais afetam as esperanças dos indivíduos, os de layout,
suas percepções de domínio, os de informações, seus protocolos de acesso e os de rituais, seu conforto. Segundo
esses autores (ibid., p. 48), mudanças na organização são normalmente rejeitadas pelas pessoas. WRIGHT;
KROLL; PARNELL, op. cit., p. 44-45: “Uma mudança superficial é aquela que altera processos e competências.
As profundas lidam com estratégias e identidade organizacional, sua estrutura e cultura. Podem ter sua forma de
implementação variando entre imposta até consensual.”
139

de finanças.495 Mandelli et al afirmam que ajustes estratégicos são bem-sucedidos dependendo

do “nível de credibilidade do topo em relação à base”.496 Mesmo nas organizações do tipo

estrela-do-mar sugeridas por Brafman e Beckstrom, descentralizadas e fluidas, é fundamental

a figura do catalisador,497 aquele que lidera inspirando pelo exemplo: Shawn Fanning, o

Napster, fundador da Grokster, que popularizou o compartilhamento de arquivos on-line via

P2P (peer to peer);498 Bill Wilson, fundador dos Alcoólicos Anônimos (AA)499 e “Jimmy

Wales, o catalisador que está por trás da Wikipédia”,500 são apenas alguns nomes que

confirmam isso.

Em suma, a liderança é fundamental. Ou ela se envolve na execução da estratégica ou,

simplesmente, a estratégia não é devidamente realizada.

6.6.4 A Administração Estratégica Usa Tecnologias e Métodos Para Otimizar Processos

Uma quarta contribuição da administração estratégica é sua ênfase no uso de métodos

e tecnologias convergentes. Os relatos fornecidos por Friedman para comprovar sua tese de

Globalização 3.0 ou achatamento do mundo são, de fato, registros de ações que ocorrem na

esteira da administração estratégica.501 Organizações estão cumprindo suas missões e

tornando concretas suas visões ao utilizar, de forma inteligente, as diversas tecnologias,

especialmente, as ferramentas digitais de comunicação e colaboração.

Conclui-se que a administração pode ser considerada um hub ou núcleo conectivo que

interliga as diversas teorias, métodos e recursos, a fim de tornar a organização mais efetiva.































 


















495
Ibid., p. 33.
496
Op. cit., loc. cit.
497
op. cit., p. 91-108.
498
Ibid., p. 9-21.
499
Ibid., p. 29-30.
500
Ibid., p. 92-93.
501
Op. cit., passim.
140

6.7 Sexta Síntese: O Uso da Administração Estratégica Pela Igreja é Recomendado,


Mas Exige Adaptações Daquela à Cosmovisão Cristã

Demonstrou-se que a Escritura, a CFW e a IPB permitem o uso, na igreja, de métodos

administrativos oriundos da cultura circundante. Sendo a administração estratégica um

método administrativo oriundo da cultura, infere-se, logicamente, que a Escritura, a CFW e a

IPB permitem o uso, na igreja, da administração estratégica. A administração estratégica é

pertinente desde que respeitados os critérios da CFW: Que seja ordenada “pela luz da

natureza e pela prudência cristã, segundo as regras da Palavra, que sempre devem ser

observadas”. Ademais, exige-se a reconstrução cristã de sua cosmovisão.

São respondidas tanto a quinta questão subsidiária, quanto, finalmente, a questão

central. Quinta questão subsidiária: “A cosmovisão e a proposta metodológica da

administração estratégica condizem com a Bíblia, com a CFW e com a prática da IPB?”.

Resposta: Não. Do jeito que se encontra, a cosmovisão e a proposta metodológica da

administração estratégica negam a cosmovisão cristã. Isso, de fato, diz respeito não apenas à

administração estratégica, mas a toda administração moderna. O uso adaptado da

administração estratégica, porém, condiz com a CFW e a prática da IPB.

Pergunta central: “É bíblico e pertinente o uso, no pastoreio da igreja, da

administração estratégica?”. Sim. É mais do que pertinente — trata-se de obediência ao

mandato cultural — redesenhar a administração estratégica de acordo com a cosmovisão

cristã e utilizá-la na igreja, para a glória do Criador.


141

CAPÍTULO VII

METODOLOGIA E APRESENTAÇÃO DE RESULTADOS

Este capítulo disponibiliza informações sobre a classificação da pesquisa, o modo

como foram coletados os dados, os pressupostos metodológicos e as limitações do método

utilizado na investigação. Além disso, são apresentados os resultados da pesquisa. Tal como

se afirmou na delimitação, o estudo se circunscreveu às perguntas formuladas no primeiro

capítulo, agrupando sínteses e fornecendo subsídios para a proposição de princípios práticos

para a administração de igrejas e concílios da IPB.

7.1 Classificação da Pesquisa

No que diz respeito aos campos de atividade humana, o presente estudo classifica-

se como interdisciplinar,502 uma vez que interessa às áreas de Religião, Teologia Pastoral,

Sociologia e Ciências Administrativas.

A pesquisa, com base em seus objetivos, é de caráter exploratório, uma vez que

tenciona “proporcionar maior familiaridade com o problema, com vistas a torná-lo mais

explícito ou a constituir hipóteses”.503 Tal exploração, porém, produz desdobramentos

práticos, apontados nas conclusões e recomendações, com proposta de princípios e

práticas bíblicas de administração, aplicável às igrejas locais e concílios da IPB.

O autor entende ainda que o presente material pode ser utilizado como inspiração

para pesquisas explicativas que permitam a construção de elaborações “científicas”
































 


















502
BARROS, Aidil de Jesus Paes de; LEHFELD, Neide Aparecida de Souza. Projeto de Pesquisa: Propostas
Metodológicas. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 1990, p. 22.
503
GIL, op. cit., p. 41.
142

posteriores.504 Uma pesquisa descritiva pode, e.g., analisar relações entre as variáveis “uso

da administração estratégica” e “desenvolvimento da igreja.”

7.2 Coleta de Dados

Quanto ao seu delineamento, esta pesquisa analisou doutrinas e ideologias. Foram

formuladas e encontradas respostas em fontes bibliográficas — livros, artigos, periódicos,

dissertações e coletâneas de textos. Mesmo a verificação da prática dos concílios da IPB

foi feita a partir da leitura de seu MP e da CFW. Utilizou-se, portanto, a pesquisa

bibliográfica como método de coleta de dados.505

Foram obtidos, organizados, listados e interpretados dados bíblicos, confessionais,

e administrativos da IPB, todos pertinentes ao esclarecimento do tema da pesquisa. As

afirmações da literatura de administração relevante foram comparadas com a Escritura, a

teologia e as práticas gerenciais da IPB, destacando pontos de convergência e divergência.

Observou-se uma seqüência ordenada de procedimentos, conforme sugerido por

Lima e Mioto: (1) Elaboração do projeto de pesquisa — escolha do assunto, formulação

do problema de pesquisa e elaboração do plano de busca das respostas; (2) investigação de

soluções — levantamento da bibliografia e das informações nela contidas; (3) análise

explicativa das soluções — exame da documentação e do conteúdo das afirmações; e (4)

síntese integradora — o produto final da investigação.506































 


















504
Ibid., p. 42.
505
TEIXEIRA, Elizabeth. As Três Metodologias: Acadêmica, da Ciência e da Pesquisa. Petrópolis: Vozes,
2005, p. 118; LIMA, Telma Cristiane Sasso de; MIOTO, Regina Célia Tamaso. Procedimentos Metodológicos
na Construção do Conhecimento Científico: A Pesquisa Bibliográfica, in Revista Katálysis, vol.10, n. spe, ISSN
1414-4980 (2007), p. 41. Scielo Brasil. Disponível em:
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-
49802007000300004&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt>. Acesso em: 15 Abr. 2008; GIL, op. cit., p. 44.
506
Op. cit., p. 40-41.
143

O material utilizado na pesquisa foi submetido a cinco leituras: (1) Leitura de

reconhecimento, a fim de localizar e selecionar provável material relevante; (2) leitura

exploratória, rápida, para verificar “se as informações e/ou dados selecionados interessam

de fato para o estudo”;507 (3) leitura seletiva, mais aprofundada, a fim de escolher o

material verdadeiramente relacionado com os objetivos da pesquisa; (4) leitura reflexiva,

o “estudo crítico do material” com a intenção de “ordenar e sumarizar as informações”;508

e (5) leitura interpretativa, que consiste no relacionamento das idéias expressas nas obras

com os problemas levantados na pesquisa.

O autor desenvolveu uma ferramenta que propiciou “pinçar das obras escolhidas os

temas, os conceitos, as considerações relevantes para a compreensão do objeto de

estudo”.509 Utilizando o FileMaker Pro 9 Advanced,510 um software de gerenciamento de

banco de dados, foi criado um sistema de fichamento de leituras contendo identificação e

caracterização de cada obra lida, bem como sua contribuição para o estudo. Isso permitiu

a pesquisa de fichas por referências bibliográficas, localização, tema, conceitos e

palavras-chaves.

A literatura foi submetida a um teste de validação. Cada obra foi avaliada

observando-se os seguintes critérios: (1) Esta obra é pertinente ao campo de

investigação?; (2) os dados desta fonte são importantes para responder às questões da

pesquisa?; (3) este conteúdo é referência aceita em seu campo de pesquisa, ou seja, é

considerado consistente, acurado e metodologicamente válido? (4) o autor desta obra é

reconhecido em seu campo de pesquisa? Cada escolha buscou atender à maior quantidade

possível dos requisitos listados acima.































 


















507
Ibid., p. 41.
508
Ibid., loc. cit.
509
Ibid., loc. cit.
510
Cf. FILEMAKER INC. Database Software | Filemaker. Santa Clara, CA: Filemaker Inc., 2008. Disponível
em: < http://www.filemaker.com/>. Acesso em: 18 Set. 2008.
144

Quanto ao levantamento das informações, esta pesquisa exigiu a leitura de obras

relacionadas às Ciências Aplicadas — Administração; Ciências Sociais — Economia;

História; Filosofia e Religião — Bíblia, Teologia e Administração Eclesiástica. Das

primeiras, alinhavaram-se os construtos relevantes para a compreensão da administração

estratégica nas organizações. Das últimas, foram obtidos dados significantes para propor

uma compreensão bíblica e teológica sobre administração na igreja.

Na literatura de administração, foram compulsados livros de Teoria Geral da

Administração, Planejamento Estratégico, Marketing, Liderança Organizacional,

Economia (análises sócio-econômicas) e Gestão Estratégica. Na literatura religiosa,

consultou-se a Bíblia Sagrada, bem como ferramentas de estudo bíblico, a CFW e obras

de Teologia Bíblica, Teologia Sistemática, Teologia Pastoral, Eclesiologia, Missiologia,

Apologética, Cosmovisão Cristã e Administração Eclesiástica.

A reflexão sobre os dados permitiu a elaboração de uma síntese integradora,511

apresentada majoritariamente na parte final do trabalho. No oitavo capítulo, tópicos da

introdução foram retomados e aspectos práticos da administração estratégica no âmbito da

IPB foram abordados. No entanto, podem ser encontradas sínteses de blocos menores de

informação no próprio corpus da análise das fontes primárias (do segundo ao sexto

capítulos).

7.3 Pressupostos Metodológicos

A situação-problema enunciada no primeiro capítulo foi analisada utilizando-se o

método hipotético-dedutivo, nos moldes descritos por Medeiros.512 A partir da percepção de































 


















511
LIMA; MIOTO, op. cit., p. 42.
512
MEDEIROS, João Bosco. Redação Científica: A Prática de Fichamentos, Resumos, Resenhas. 4. ed. São
Paulo: Atlas, 2000, p. 196.
145

uma lacuna no conhecimento — é bíblico e pertinente o uso, no pastoreio da igreja, da

administração estratégica? — foi formulada uma hipótese. Em seguida, foi verificado se as

informações obtidas nas leituras corroboravam a hipótese.

Lima e Mioto sugerem que o método dialético é útil na pesquisa bibliográfica “por

levar o pesquisador a trabalhar [...] a totalidade e a unidade dos contrários”.513 Argumenta-se

que tal método possibilita “apreender, em todo o percurso de pesquisa, as dimensões

filosófica, material [...] e política que envolvem seu objeto de estudo”.514 O autor considera

que este não é o caso da presente pesquisa. Aqui não temos um problema que surja da

percepção de discordância,515 pelo menos não unicamente. O leitor perceberá o uso da

dialética, bem como se reconhece a existência de discordâncias, mas a tônica principal é a da

elaboração de argumentos baseados em evidências destiladas dos textos, a fim de destacar

evidências comprobatórias da hipótese.

Esta pesquisa, a partir de uma perspectiva cosmonômica, ao mesmo tempo em que

assume a impossibilidade de neutralidade epistemológica, reconhece a possibilidade do

conhecimento da verdade sobre a realidade — ainda que não o conhecimento absoluto, pelo

menos o conhecimento suficiente.516 Reproduzindo as palavras de Frankfurt:

Saber o suficiente é, aqui, uma questão de saber o suficiente sobre os fatos.


Ora, os fatos pertinentes são o que são, independentemente do que possamos
achar a respeito deles, e independentemente do que possamos querer que
eles sejam.517

No caso deste estudo, a interpretação dos dados ocorre dentro do contexto de uma

cosmovisão cristã. Nas sínteses de blocos menores e na síntese integradora do último































 


















513
LIMA; MIOTO, op. cit., p. 39.
514
Ibid., loc. cit.
515
Cf. BOOTH, Wayne C.; COLOMB, Gregory G; WILLIAMS, Joseph M. A Arte da Pesquisa. 2. ed. São
Paulo: Martins Fontes, 2005, p. 105-106: “Quando você conta com pelo menos duas fontes, quase sempre
descobre que elas não concordam inteiramente, e é aí que sua pesquisa começa.”
516
Minayo advoga que “a objetivação não é realizável [...] é impossível descrever a realidade com exata
fidedignidade” (MINAYO, M. C. O Desafio do Conhecimento. São Paulo: HUCITEC; Rio de Janeiro:
ABRASCO, 1994, apud Lima e Mioto, op. cit., loc. cit.). Assumindo a premissa que o aspecto modal econômico
possui seu próprio nomos objetivo, uma “ordem estrutural cósmica de significado”, cf. OLIVEIRA, 2004, p. 3, é
plausível admitir a existência da verdade absoluta sobre a realidade.
517
FRANKFURT, Harry H. Sobre a Verdade. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 62, 63, grifo nosso.
146

capítulo, juízos de valor são atribuídos a diversos tópicos abordados. Tais juízos são exigidos

tanto pela pergunta principal quanto pelas perguntas subsidiárias.

7.4 Limitações do Método

Gil chama a atenção para uma das limitações do método de pesquisa bibliográfica:

“Muitas vezes, as fontes secundárias apresentam dados coletados ou processados de forma

equivocada. Assim, um trabalho fundamentado nessas fontes tenderá a reproduzir ou

mesmo a ampliar esses erros”.518 Booth, Colomb e Williams destacam outros perigos:

Confiança em boatos, citação errônea ou decorrente de má compreensão e, finalmente,

distorções causadas pelo envolvimento por demais apaixonado do autor com o tema.519

Na presente pesquisa buscou-se analisar cada informação com profundidade, a fim

de “descobrir possíveis incoerências ou contradições”.520 Destarte, foram consultadas

várias fontes, cotejando-se e comparando-se cuidadosamente os dados, a fim de minimizar

a possibilidade de erros. Além disso, citações importantes foram buscadas em seus

contextos originais.521 Ademais, reconheceu-se que, em certos casos, o uso de uma boa

fonte secundária foi muito útil aos propósitos da pesquisa — é o caso da obra de

Mintzberg, Ahlstrand e Lampel, que analisa toda a literatura relevante das escolas de

formação de estratégia.

Finalmente, “sempre há a falha humana: Uma palavra que falta, aspas omitidas ou

ignoradas”,522 enfim, erros decorrentes da própria limitação e imperfeições do autor.































 


















518
Op. cit., p. 45.
519
Op. cit., p. 98-99.
520
GIL, op. cit., loc. cit.
521
BOOTH; COLOMB; WILLIAMS, op.cit., p. 100.
522
Ibid., p. 98-99.
147

7.5 Resultados da Pesquisa

No que diz respeito aos resultados, para responder à primeira questão subsidiária, “a

Bíblia sugere o vínculo entre pastoreio e administração?” a pesquisa demonstrou que a

Escritura descreve o serviço pastoral a partir de três atribuições: Cuidado, liderança e

organização, todas, de certo modo, ligadas à administração. Uma primeira síntese, em 2.4,

respondeu positivamente à primeira questão subsidiária.

Uma vez que a primeira questão foi respondida afirmativamente, prosseguiu-se

para a busca de resposta à segunda questão: “A Bíblia apóia o uso, na administração da

igreja, de métodos oriundos da cultura circundante?” Depois de definir cultura e cosmos,

procedeu-se à busca de informações relevantes nas narrativas pré-patriarcais (primeiros

capítulos do livro de Gênesis). Verificou-se que, na cosmogonia, na antropogonia e nos

mandatos criacionais, bem como no registro bíblico da queda e graça comum, Deus é

revelado como Criador e Senhor do cosmos, e o homem, como seu vice-gerente.

Apresentou-se o paradigma cosmonômico, que enxerga todas as esferas da criação como

ligadas a Deus, possuidoras de legitimidade intrínseca decorrente da criação, e, destarte,

estabelecidas para a glória do Criador. Dentre tais esferas encontra-se a esfera modal

econômica, cujo núcleo de significado é a capacidade de gerenciamento. Tais postulados

foram agrupados em uma segunda síntese, em 3.6: O homem é administrador do cosmos

que pertence a Deus. Cada aspecto modal contém potenciais de realização sob Deus ou de

autonomia impura. A capacidade de gerenciamento é legítima, necessária e benéfica

quando funciona coram Deo.

O passo seguinte consistiu na breve análise da história de José, o administrador

que instalou Israel no Egito. Em seguida verificou-se o registro da coordenação de tarefas

levada adiante por Moisés, o líder que retirou Israel do Egito. Sugeriu-se uma ligação
148

entre a iniciativa administrativa tomada por Moisés, atendendo ao conselho de seu sogro,

Jetro (Êx 18), a ação econômica da Trindade, no Novo Testamento, e as idéias de Adam

Smith sobre a divisão do trabalho. Em seguida, foi demonstrado biblicamente que a

pessoa, os ditos e as obras de Jesus corroboram o paradigma cosmonômico apresentado

nas narrativas pré-patriarcais. A partir de então, constatou-se que, em Atos, há referências

a estatística, organização, institucionalização e estratégia. Uma terceira síntese, em 4.5,

assumiu que a igreja cumpre as ordenanças divinas como instituição administrada por

homens e arraigada na cultura. Destarte, respondeu-se também positivamente à segunda

questão subsidiária.

A terceira questão subsidiária — “o uso de métodos oriundos da cultura

circundante na administração da igreja é aprovado, ou pelo menos sugerido, pela CFW?”

— foi respondida também afirmativamente na quarta síntese, em 4.6.3. O erro não se

constitui na utilização de princípios e métodos da administração na igreja, mas em sua má

utilização. O uso de métodos administrativos da cultura circundante — aquilo que é

comum “às ações e sociedades humanas” — é tanto aprovado quanto sugerido pela CFW,

desde que em circunstâncias adequadas, considerando a “luz da natureza”, a “prudência

cristã” e as “regras da Palavra.”

Em seguida o estudo demonstrou: (1) Que há pontos de contato entre o modelo de

administração da IPB e um conjunto de princípios e métodos oriundo da cultura circundante,

no caso, a teoria clássica, a teoria neoclássica e o modelo burocrático de administração; (2)

que o modelo administrativo da IPB estabelece uma amálgama de tais teorias e modelos com

o sistema de governo conciliar e a doutrina bíblica do chamado para o serviço cristão, o que,

inevitavelmente conduz à quinta síntese, apresentada em 5.4. A quarta pergunta subsidiária

foi respondida afirmativamente.


149

A busca de resposta à quinta pergunta subsidiária — “A cosmovisão e a proposta

metodológica da administração estratégica condizem com a Bíblia, com a CFW e com a

prática da IPB?”— exigiu uma discussão sobre o conceito, as diversas escolas e a cosmovisão

da administração estratégica, bem como sua releitura e adaptação, a fim de torná-la utilizável

no contexto cristão. A sexta síntese traduziu o ponto, que, por sua vez, respondeu à quinta

pergunta subsidiária e, ao mesmo tempo, à pergunta central. A quinta questão subsidiária foi

respondida negativamente. Do jeito que se encontra originalmente, a cosmovisão e a proposta

metodológica da administração estratégica negam a cosmovisão cristã. Aliás, isso diz respeito

não apenas à administração estratégica, mas a toda administração moderna. O uso adaptado

da administração estratégica, porém, condiz com a CFW e a prática da IPB. Quanto à

pergunta central respondeu-se afirmativamente. É mais do que pertinente ajustar a

administração estratégica à cosmovisão cristã e utilizá-la na igreja.

O primeiro objetivo do estudo — investigar se é bíblico e pertinente o uso, no

pastoreio da igreja, da administração estratégica — foi atingido. O segundo objetivo foi

alcançado no último capítulo. Propôs-se um conjunto de princípios e práticas bíblicas de

administração, aplicável às igrejas locais e concílios da IPB.


150

CAPÍTULO VIII

CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES

Este capítulo assume que a IPB opera no contexto do novo capitalismo que, por sua

vez, sinaliza uma nova civilização. Tal conjuntura apresenta alguns desafios singulares.

8.1 O Novo Capitalismo e a Nova Civilização

A sociedade global, emoldurada pelo novo capitalismo, é a representação concreta

de uma mudança de civilização.

Quando tomaremos consciência de que não há crise, nem crises, mas


mutação? Não mutação de uma sociedade, mas mutação brutal de uma
civilização? Participamos de uma nova era, sem conseguir observá-la. Sem
admitir e nem sequer perceber que a era anterior desapareceu.523

Parte dessa sociedade é pré-moderna; desfrutando de um estilo de vida baseado na

agricultura de subsistência, sem acesso a tecnologia ou quaisquer dos “confortos”

possibilitados pela modernidade.524

Por outro lado, o mundo globalizado é moderno. Aparelhos de TV são instalados

em locais remotos. Operárias vestidas de tundjung montam chips de semicondutores e

adolescentes dançam hip-hop em Kuala Lumpur, na Malásia.525 Aborígines australianos

consomem Pepsi-Cola.526 Tribos indígenas brasileiras acessam a Internet. O fenômeno da































 


















523
FORRESTER, Viviane. O Horror Econômico. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1997, p. 8.
524
O telefone, por exemplo, em pleno início de século XXI, é utilizado “apenas por pouco mais que 20%
dos seres humanos” (LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 2000, p. 236).
525
GREIDER, William. O Mundo na Corda Bamba: Como Entender o Crash Global. São Paulo: Geração
Editorial, 1997, p 92-96.
526
ROCHA, Everardo. A Sociedade do Sonho: Comunicação, Cultura e Consumo. Rio de Janeiro: Mauad, 1995,
p. 114-115.
151

cibercultura é visto por Lévy527 como uma democratização e afirmação vigorosas do

projeto da modernidade. Tal projeto, porém, não produz satisfação. De acordo com

Touraine, “a modernidade nos arrancou dos limites estreitos da cultura local onde

vivemos; ela nos jogou igualmente na liberdade individual como na sociedade e na cultura

de massa”,528 produzindo um resultado angustiante. A modernidade impulsiona a

realidade globalizada, ao mesmo tempo em que se esgota. O processo de secularização

que ela empreende produz desencantamento e separação entre o “mundo dos fenômenos”

e o “mundo do Ser.” 529

Por isso mesmo, a nova sociedade é também pós-moderna, um pastiche de

experiências, significados e valores. A cibercultura é um exemplo disso. Se por um lado,

como defende Lévy, ela concretiza os ideais da modernidade, possibilita, por outro, a

vivência de experiências dissociadas da racionalidade (virtualidade) e a colagem de

vivências e idéias excludentes. O resultado, longe de libertador, é desesperador:

O pós-modernismo ameaça encarnar hoje estilos de vida e de filosofia nos


quais viceja uma idéia tida como arqui-sinistra: o niilismo, o nada, o vazio, a
ausência de valores e de sentido para a vida. [...] O homem pós-moderno já
sabe que não existe Céu nem sentido para a História, e assim se entrega ao
presente e ao prazer, ao consumo e ao individualismo.530

Confirma-se, basicamente, a teoria das ondas de Tofler: A sociedade global é

impactada por uma terceira onda de mudança, caracterizada pela economia baseada na

informação. Tal “onda” segue-se à primeira (revolução agrícola) e segunda (revolução

industrial). 531

É na esteira da percepção de uma nova civilização que as organizações se

empenham por atualizar-se, a fim de atender às demandas existentes e, como foi































 


















527
Op. cit., p. 245.
528
TOURAINE, Alain. Crítica da Modernidade. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 1994, p. 99.
529
Ibid., p. 101.
530
SANTOS, Jair Ferreira dos. O Que é Pós-Modernismo. São Paulo: Brasiliense, 1997, p. 10.
531
TOFLER, Alvin. A Terceira Onda: A Morte do Industrialismo e o Nascimento de Uma Nova Civilização. 19.
ed. Rio de Janeiro, Record, 1994, p. 15-32.
152

demonstrado alhures, é dentro de tal moldura que se deve compreender a administração

estratégica.

8.2 Duas Ameaças à IPB: Pragmatismo e Alienação

Retoma-se a temática da relevância, abordada no primeiro capítulo. Demonstrou-se

que, na data da promulgação de sua Constituição, a IPB assumiu um modelo de

administração consistente com as teorias clássica, neoclássica e burocrática de

administração, fomentadas pelo capitalismo social. Deve ela, dentro de um novo contexto,

pensar na possibilidade de utilizar as ferramentas da administração estratégica? Isso

implicaria em assumir ajustes.

Estar ou não disposto a mudar é uma fronteira sutil e real que tem dividido
mentalidades e causado grandes atritos, prejudicando assim a unidade da
igreja. [...] Não querer mudar é arriscar-se a parar de crescer. Qualquer
instituição ou estrutura que se recusa adaptar-se a novas realidades acaba por
falir, sucumbir, desaparecer do cenário da história atual.532

A IPB pode pensar em adequar-se nos termos da administração estratégica, não

para simplesmente estar em dias com a agenda da cultura, muito menos para sentir-se

menos inadequada, mas para glorificar a Deus e cumprir os mandatos pactuais.

A preocupação importante que temos é como tratar a necessidade de


renovação de maneira bíblica, que siga o exemplo de Cristo, e ajudar a
maioria a ver o que se deve fazer e, então, como um corpo, avançar em
unidade e harmonia.533

Esta pesquisa constata a necessidade de uma adequação da IPB à administração

estratégica, atentando-se para os perigos do pragmatismo e da alienação.































 


















532
SOLONCA, Paulo. Inovando Uma Igreja Tradicional: Esquentando um Povo Querido sem Queimar a Casa.
In: HORRELL, J. Scott. (Ed.). Ultrapassando Barreiras: Novas Opções Para a Igreja Brasileira na Virada do
Século XXI. São Paulo: Vida Nova, 1994, p. 121.
533
GETZ, Gene A. Igreja: Forma e Essência: O Corpo de Cristo Pelos Ângulos das Escrituras, da História e da
Cultura. São Paulo: Vida Nova, 1994, p. 328, grifo do autor.
153

Quanto ao pragmatismo, a IPB pode responder assumindo-se estritamente como

empresa interessada em “ganhar mercado”. Crescer rapidamente, dobrar ou triplicar a

arrecadação e conquistar espaço na mídia podem tornar-se alvos mais desejáveis do que

apresentar as marcas da pregação autêntica, administração correta dos sacramentos e

prática da disciplina. Horton considera perigosa essa ênfase no crescimento da igreja antes

da busca de sua identidade bíblica: “Como saberemos que a igreja que estamos erguendo é

a mesma que Cristo está construindo?”534 Este tipo de cristianismo não produz discípulos,

mas conquista e fideliza clientes. O ministério se torna empreendimento comercial, tal

como relatado por Peterson:

Os pastores se transformaram em um grupo de gerentes de lojas, sendo


que os estabelecimentos comerciais que dirigem são as igrejas. As
preocupações são as mesmas dos gerentes: Como manter os clientes
felizes, como atraí-los para que não vão às lojas concorrentes que ficam
na mesma rua, como embalar os produtos de forma que os consumidores
gastem mais dinheiro com eles.535

Horton afirma que esta “fundação não bíblica da eclesiologia evangélica

contemporânea é reconhecida pelo fato de que não há algo chamado igreja evangélica,

mas somente um movimento”.536 Auto-satisfação, indiferença e inércia social são as

atitudes proeminentes deste “seguidor de Cristo” produzido pelo evangelicalismo

pragmático.

Quando à alienação, é perigoso o entrincheiramento dos cristãos em bolhas de

tradição desvinculadas da realidade. Neste último caso, permanece o anúncio do

evangelho e as práticas eclesiais tradicionais, mas não há reflexão, contextualização ou

ação efetivas.































 


















534
HORTON, Michael S. O Assunto da Relevância Contemporânea. In: HORTON, op. cit., p. 281-282.
535
PETERSON, Eugene. Um Pastor Segundo o Coração de Deus. Rio de Janeiro: Textus, 2000, p. 2.
536
Op. cit., p. 282.
154

Ambas essas soluções — uma IPB pragmática, centrada na religião de consumo ou

uma IPB alienada, focada em tradicionalismo irrelevante — não satisfazem as exigências

divinas quanto aos mandatos pactuais.

8.3 Aberturas Para a Evangelização, Estabelecimento, Consolidação


e Revitalização de Igrejas

A IPB pode enxergar na nova civilização não apenas ameaças, mas oportunidades:

“Saibamos também que defrontar-se com a crise é encontrar a possibilidade de ser

verdadeiramente a igreja”.537

8.3.1 No Contexto do Novo Capitalismo Deus Abre Portas Para a Evangelização

Os cidadãos do novo capitalismo lidam com Deus e a verdade de diferentes

maneiras. Há pessoas que consideram que a nova ordem econômica ou a ciência fornecem

explicações ou soluções para todos os questionamentos ou problemas. Outros abandonam

qualquer esperança por respostas; para estes, a existência “adulta” é a exploração de um

terreno desconhecido e escuro, sem nenhum tipo de mapa para guiar a caminhada.

Existem, no entanto, pessoas que, à semelhança de Kazantzákis, buscam por soluções

remoendo perguntas que só podem ser respondidas espiritualmente:

Por uma só coisa anseio: aprender o que se esconde atrás dos fenômenos;
desvendar o mistério que me dá a vida e a morte; saber se uma presença
invisível e imota se esconde além do fluxo visível e incessante do mundo.
Pergunto e torno a perguntar, golpeando o caos: quem nos planta nessa
terra sem nos pedir licença? Quem nos arranca da terra sem nos pedir
licença?538































 


















537
BOSCH., op. cit., p. 19.
538
KAZANTZÁKIS, Nikos. Ascese. apud KIVITZ, Ed René. Vivendo Com Propósitos. São Paulo: Mundo
Cristão, 2003, p. 3.
155

Para Sine, o estilo da vida e valores produzidos e propostos pelo novo capitalismo

estimulam o desejo por Deus e sua verdade.

[...] as pessoas estão exaustas por causa das longas horas de trabalho e
não têm achado as delícias consumistas do McMundo tão gratificantes
quanto pensavam que seriam. Cada vez mais pessoas de fora e de dentro
da igreja estão em busca [...] de [...] uma existência que tenha um senso
mais nítido de direção e uma espiritualidade mais profunda [...] uma fé
que permeie todos os aspectos da vida. 539

A estas pessoas a IPB pode e deve apresentar as boas notícias acerca de Jesus

Cristo (At 17.22-31). Os seres humanos estão abertos para ouvir que “o grande conceito

final da verdade está em que o cristianismo é fiel àquilo que existe”.540 A abertura para tal

testemunho tem uma razão: Muitos dos indivíduos globalizados são religiosos, ratificando

o que foi dito por Calvino:

Isto, sem dúvida, será sempre evidente aos que julgam com acerto, ou,
seja, que está gravado na mente humana um senso da divindade que
jamais se pode apagar. Mais: esta convicção de que há algum Deus não
só é a todos ingênita por natureza, mas ainda que lhes está encravada no
íntimo, como que na própria medula [...].541

A IPB é chamada a reconhecer essa tendência como uma porta aberta para a

evangelização. A cultura do novo capitalismo não sinaliza o fim da igreja, mas a nova era

da missão. Ela traz consigo imensos problemas, muitos deles humanamente irresolúveis.

Apesar disso oferece, para os seguidores de Jesus Cristo, oportunidades ímpares.

A discussão sobre as viagens de Paulo, na seção 4.4.3, demonstrou que o apóstolo

aproveitou-se das condições oferecidas pelo século I para pregação do evangelho.

Avaliando aquele contexto, Green afirma que “provavelmente nenhum outro período da

história do mundo estava mais bem preparado para receber a jovem igreja que o primeiro

século d.C.”.542 Economia globalizada, língua e cultura compartilhadas, pluralismo

religioso, estruturas de comunicação e bases comuns de encontro para proclamação da































 


















539
Op. cit., p. 226.
540
SCHAEFFER, Francis A. A Igreja do Final do Século XX. 2. ed. Brasília: Sião, 1988, p.54.
541
CALVINO, op. cit., I.III.3.
542
GREEN, op. cit., p. 11.
156

mensagem cristã são pontos de contato entre os séculos I e XXI; o imperialismo romano e

o econômico dão as mãos e cumprem uma agenda divina de plenitude dos tempos, de

modo que esse pode ser considerado um tempo para o plantio e, se Deus quiser, para a

colheita. A IPB vivencia um momento sem igual para o cumprimento da missão.

A época moderna, mesmo criando desafios, parece propícia ao cristianismo,


que está numa fase oposta ao marasmo de anos atrás, quando as igrejas se
apoiavam mais nas formalidades do ritual do que no coração dos fiéis. […]
O desafio da religião de Jesus no mundo frenético no fundo seria da mesma
natureza daqueles que ela circunavegou no passado: adaptar-se sem perder a
essência. Para quem já enfrentou dilemas abissais em outros períodos
históricos, não parece uma tarefa muito difícil.543

É plausível, portanto, o estabelecimento de uma nova pauta de plantação,

consolidação e revitalização de igrejas.

8.3.2 No Contexto do Novo Capitalismo Deus Abre Portas


Para o Estabelecimento, Consolidação e Revitalização de Igrejas

Enquanto se propaga que reina o individualismo, multiplicam-se as comunidades. A

geração nascida ao término da Segunda Guerra deseja participar de grupos de afinidade.544

Essa constatação de Buford, feita há mais de uma década, ressoa atualmente nas comunidades

virtuais — grupos de afinidade cultivados na Internet.

À humanidade sedenta de relacionamentos a IPB pode oferecer o grande milagre de

Deus, a igreja (Ef 1.15-23, 3.1-13), que fala da obra consumada de Jesus que produz, além da

reconciliação individual, uma experiência comunal (Ef 2.11-22). Ela faz isso não se

anunciando como centro de aperfeiçoamento moral ou de cura física, muito menos como

instituição garantidora de prosperidade, mas como uma luz em meio às trevas, como um sinal































 


















543
CARDOSO, Maurício. Jesus 2000: Os Desafios do Cristianismo às Portas do Novo Milênio, in Veja, ed.
1628, ano 32, n. 50 (15.12.1999), p. 174.
544
BUFORD, op. cit., p. 44-50.
157

de amor e esperança para uma sociedade amarga e violenta e como família acolhedora em

meio à indiferença (Mt 5.14-16; Jo 13.35).

Quando a Igreja se estende compassivamente para os feridos, muitos vêm e


encontram cura substancial no Corpo de Cristo. Gente quebrantada
geralmente vê suas necessidades espirituais e volta-se para Deus ou para a
Igreja em busca de ajuda. Quando sabem que o povo de Deus interessa-se
genuinamente, quando os recebemos com as suas necessidades, quando eles
vêem que realmente queremos amá-los e ajudá-los, ele vêm — eu sou
testemunha. A notícia corre rapidamente.545

Compreendendo a igreja como bênção de Deus para a presente era, os concílios da

IPB podem articular-se para promover o intercâmbio de recursos com a finalidade de

estabelecer, consolidar e revitalizar pontos de pregação, congregações e igrejas locais (At

11.27-30; 2Co 8-9; Fp 4.14-20).

Como fazer isso? Com administração estratégica, coram Deo. Isso exige, antes de

tudo, um esclarecimento quanto à missão e possibilidades de declarações de visão da IPB.

8.4 Esclarecimento Sobre a Missão e Possibilidades de Definições de “Visões” da IPB

De acordo com a administração estratégica, a partir de declarações de missão e

visão, torna-se possível saber: (1) O que a organização é; (2) o que ela pretende realizar e

(3) a quem ela pretende atender.546 A missão organizacional delimita o primeiro ponto,

referindo-se à “razão de ser e de existir” e ao propósito da organização.547 Nesses termos,

é plausível assumir como missão da IPB os primeiros dois artigos de sua Constituição:

Art. 1º — A Igreja Presbiteriana do Brasil é uma federação de Igrejas locais,


que adota como única regra de fé e prática as Escrituras Sagradas do Velho e
Novo Testamentos e como sistema expositivo de doutrina e prática a sua
Confissão de Fé e os Catecismos Maior e Breve; rege-se pela presente
Constituição; é pessoa jurídica, de acordo com as leis do Brasil, sempre































 


















545
FISHER, David. O Pastor do Século 21. São Paulo: Vida, 1999, p. 88.
546
HITT; IRELAND; HOSKISSON, op. cit., p. 16.
547
CHIAVENATO; SAPIRO, op. cit., p. 55; OLIVEIRA, 2007, p. 81; WRIGHT; KNOLL; PARNELL, op. cit.,
p. 92-93.
158

representada civilmente pela sua Comissão Executiva e exerce o seu governo


por meio de concílios e indivíduos, regularmente instalados.
Art. 2º — A Igreja Presbiteriana do Brasil tem por fim prestar culto a Deus,
em espírito e verdade, pregar o evangelho, batizar os conversos, seus filhos e
menores sob sua guarda e “ensinar os fiéis a guardar a doutrina e prática das
Escrituras do Antigo e Novo Testamentos, na sua pureza e integridade, bem
como promover a aplicação dos princípios de fraternidade cristã e o
crescimento de seus membros na graça e no conhecimento de Nosso Senhor
Jesus Cristo.” 548

Tais artigos definem a identidade — “uma federação de Igrejas locais” orientada

pelas Escrituras e pelos Símbolos de Fé e governada por “concílios e indivíduos

regularmente instalados” — e finalidade da IPB. Observe-se que uma declaração de

missão, primeiramente, ajusta o foco auxiliando a organização a saber o que ela não é e o

que ela não faz. Neste caso, assume-se que a IPB cumpre sua missão sendo o que é aqui

descrito, nada além disso. Chama-se a atenção para o óbvio. Estender as atividades da IPB

para além dos limites da missão corresponde a sucumbir à pressão para “estender o

patrimônio líquido da marca”.549 Em marketing isso é chamado de lei da extensão de linha

e produz prejuízo às organizações.550 Por outro lado, a declaração de missão é genérica e

abre espaço para um amplo leque de atividades.551

A visão organizacional refere-se ao que a organização pretende realizar e a quem

ela pretende atender. Hitt, Ireland e Hoskisson consideram que a clarificação da visão

precede a declaração de missão: “A visão é a base da missão da empresa”.552 Chiavenato e

Sapiro dão a entender que a definição da missão vem antes da formulação da visão.553

Autores contemporâneos relacionam a visão ao “sonho acalentado pela organização [...]































 


















548
CI/IPB, Capítulo I, Natureza, Governo e Fins da Igreja, Artigos 1 e 2. In: CAMPOS, op. cit., p. 8-9.
549
RIES, Al; TROUT, Jack. As 22 Consagradas Leis do Marketing. São Paulo: Makron Books, 1993, p. 49.
550
RIES; TROUT, op. cit., p. 49-54. Um iogurte da marca Bombril dificilmente seria um sucesso no mercado,
considerado-se que tal marca, na mente dos consumidores, está associada a produtos de limpeza. Aplicando-se o
princípio à IPB, esta estende —inadequadamente — sua linha de serviços ao lançar-se em frentes que não dizem
respeito ao cumprimento de sua missão precípua, no caso, ser federação de igrejas fiel às Escrituras e Símbolos
de Fé.
551
WRIGHT; KNOLL; PARNELL, op. cit., p. 93; CHIAVENATO; SAPIRO, op. cit., p. 56.
552
Op. cit., p. 18. Cf. OLIVEIRA, 2007, p. 82.
553
Op. cit., p. 55-56, 64-68.
159

àquilo que a organização deseja ser no futuro”.554 A declaração de visão “articula a

descrição ideal de uma organização e molda o futuro pretendido.” 555

Nesses termos o MP não fornece uma declaração de visão. Isso abre espaço, em

primeiro lugar, para a formulação, pelo SC/IPB, de uma declaração de visão aplicável a

toda a denominação. A partir daí, utilizando a norma da CFW, as igrejas federadas,

concílios e departamentos podem formular declarações de “visões” consistentes com a

direção divina para cada contexto. Na elaboração de tais declarações devem ser levadas

em conta as necessidades levantadas na seção 8.3, ou seja, evangelização e

estabelecimento, consolidação e revitalização de igrejas, além dos outros itens constantes

no Art. 2º da CI/IPB: Adoração, administração dos sacramentos, discipulado (a “guarda da

doutrina e prática das Escrituras”, o que implica em instrução e disciplina) e serviço, tudo

isso sob a égide bíblica do cumprimento dos mandatos pactuais.

De acordo com a administração estratégica, os stakeholders, ou seja, as pessoas —

concílios e líderes departamentais — que podem afetar os resultados estratégicos

obtidos,556 são responsáveis pela formulação destas declarações de “visões” consistentes

com a missão. Um presbitério pode definir o seguinte: “Visão do [nome do presbitério]:

Orar e trabalhar para a consolidação das atuais igrejas sob sua jurisdição, de modo que

sejam fortes e plenamente alinhadas à missão da IPB; motivar, capacitar e articular

parcerias, a fim de que cada igreja do [nome do presbitério] contribua com a plantação de

novas igrejas”. Outro concílio pode declarar como visão: “Um sínodo cujos presbíteros

docentes e regentes sejam instruídos na Palavra de Deus, nos Símbolos de Fé e no MP,

conscientes da missão da IPB e capacitados para a liderança estratégica conciliar e das

igrejas locais.”































 


















554
CHIAVENATO; SAPIRO, op. cit., p. 64.
555
HITT; IRELAND; HOSKISSON, op. cit., p. 17.
556
Ibid., p. 19.
160

É importante perceber que, enquanto a declaração de missão é genérica, a

declaração de visão é mais específica e concreta. A primeira fortalece a identidade da

instituição; a segunda fornece inspiração para o encaminhamento de boas práticas

organizacionais.

Afirmou-se alhures que, no âmbito empresarial, tanto a missão quanto a visão de

uma organização devem mudar periodicamente, em resposta ao ambiente.557 Mesmo no

contexto dito secular, é desejável, porém, que tais declarações permitam um delineamento

dos negócios “por longo período de tempo e dando consistência às medidas de longo,

médio e curto prazos”.558 No âmbito da IPB, enquanto sua missão, extraída da Palavra de

Deus, permanece a mesma, há liberdade para a definição e redefinição tanto de uma visão

unificada quanto de declarações de “visões” localizadas, respondendo às demandas

dinâmicas de cada contexto eclesiástico.

Resumindo, é importante a conscientização quanto à missão da IPB. Ademais, uma

declaração de visão eclesiástica deve esboçar um perfil de igreja ou ministério consistente

com a Bíblia e os Símbolos de Fé. A partir de tais asserções, que IPB poderia emergir

desse exercício de dependência de Deus e uso da administração estratégica?

8.5 A IPB Desejável

O primeiro capítulo pontuou o problemas da IPB: Responder biblicamente à

secularização, pluralismo pós-moderno e diversidade de modelos eclesiásticos.559 Esta































 


















557
WRIGHT; KROLL; PARNELL, op. cit., p. 94-95.
558
OLIVEIRA, op. cit., loc. cit.
559
Complementando o que foi dito no primeiro capítulo. as quatro últimas décadas do século XX foram
marcadas pela experimentação e busca de modelos de renovação. Nos anos finais do século passado, a igreja foi
vista — inclusive por seus membros — como um problema. A tônica dos escritos desse período, na maioria dos
casos, foi de busca de uma solução. A igreja tinha de encontrar uma saída, um meio de superar-se ou de vencer
suas dificuldades. Grupos de consagração, movimentos de oração, batalha espiritual, sinais e maravilhas,
evangelho da prosperidade, movimento neo-apostólico, novas estruturas eclesiásticas, missões urbanas, reuniões
161

pesquisa assume que a IPB não precisa dar crédito aos comerciais que anunciam as últimas

panacéias eclesiais. Para a edificação da igreja sugerem-se quatro ênfases bíblicas — todas

consistentes com a CFW e o MP: (1) Aperfeiçoamento de líderes; (2) maior destaque ao

discipulado; (3) cuidado com a saúde organizacional e (4) prática bíblica da unidade.

8.5.1 A IPB Com Líderes Mais e Melhor Habilitados

Líderes eficazes são dons de Cristo à igreja, concedidos com a finalidade de capacitá-

la para o desempenho de seus serviços e aperfeiçoá-la em maturidade (Ef 4.11-16). “A

liderança é essencial à vida e missão da igreja. Sem ela, a igreja tropeça e cai num curso

incerto em sua peregrinação rumo a um lugar melhor.” 560

Demonstrou-se em 4.2 que a ênfase da administração na divisão do trabalho é

enraizada nas Escrituras. Tarefas são distribuídas e realizadas por vários líderes,

multiplicando-se o potencial abençoador do ministério (Êx 18.13-26; Lc 10.1-12; At 14.21-

23, 20.17 e 28). O trabalho de cuidado, organização e liderança do rebanho é compartilhado.

A liderança da IPB é aperfeiçoada, primeiramente, a partir de seu relacionamento com

Jesus. Os líderes são chamados para, antes de realizarem qualquer coisa, estarem com ele (Mc

2.14). Eles são seguidores de Cristo e lideram pelo exemplo (1Co 11.1; 1Pe 5.1-3). Eles

cuidam de si mesmos e da doutrina, a fim de ministrar a outros (1Tm 4.16). Caminhando com

Deus — na leitura, estudo e meditação da Escritura, na oração e adoração — eles são capazes

de fazer leituras sábias das situações e definir as direções mais apropriadas a serem seguidas.

Nesse processo a IPB não é confundida com uma empresa, os líderes de pastoreio não são































 


















nos lares, igrejas informais, corpo vivo, revitalização da Escola Dominical, movimento de crescimento da igreja,
retorno ao puritanismo, igreja emergente — todas essas ênfases e modelos de ministérios assemelharam-se no
sentido de propor soluções para a igreja que precisava retornar a valores antigos ou renovar-se para crescer. Um
apanhado dessas iniciativas é oferecido por GETZ, op. cit., p.15-34.
560
MONTOYA, op. cit., p. 293.
162

executivos encarregados de maximizar a produção e o lucro com o menor custo possível. Os

líderes são os servos que demonstram na prática o que significa seguir ao Senhor (Mc 10.42-

45). Isso contrasta com as afirmações de Wolf, citadas abaixo:

Estudos das ciências sociais, observações dos negócios do mundo,


apropriação de conceitos gerenciais, exegese das Escrituras, experiências
acumuladas em minha igreja e em dezenas de entrevistas com pastores desta
nação e dos cinco continentes têm me levado a uma convicção. [...] a maior
causa da paralisação de uma igreja é o pastor. Não são os crentes, tampouco
os programas ou a localidade. É o pastor. Não podemos culpar ao povo por
não obedecer às nossas exortações, quando o verdadeiro problema é que nós
não queremos pagar o preço de liderá-los a fim de que eles possam respeitar,
confiar e seguir nossa orientação. O pastor é o elemento que retarda e
impede que a igreja local seja o que Deus quer que ela seja [...].561

Wolf demonstra uma preocupação pertinente com o exercício responsável e eficiente

da liderança, mas carrega nas tintas ao utilizar um critério gerencial para avaliação do

desempenho pastoral: Se não houver crescimento, a responsabilidade é do pastor.562

A avaliação da igreja em termos puramente numéricos ou financeiros não condiz com

ensino das Escrituras. Em um primeiro momento, ao afirmar que o pastor é o único ou maior

responsável pelo crescimento, parece que há um retorno ao clericalismo, mas não apenas isso.

A igreja corre o risco de absorver crenças e práticas das organizações globalizadas. Os relatos

da Bíblia acerca de Moisés, Josué, Samuel, Elias, Eliseu, Isaías, Jeremias, Sofonias, João

Batista, o próprio Jesus Cristo e os apóstolos são ricos em detalhes de consagração a Deus e

eficiência no serviço que, do ponto de vista da lógica do novo capitalismo, podem ser

considerados empreendimentos fracassados. Biblicamente, os homens são cooperadores que

plantam e regam a semente, mas quem produz o crescimento é Deus (1Co 3.6-9). A resposta

das pessoas a uma liderança ou os resultados imediatos obtidos no gerenciamento eclesiástico

são medidas de aferição pertinentes e ao mesmo tempo perigosas. Se consideradas

isoladamente, podem resultar em decisões precipitadas.
































 


















561
WOLF, Thomas A. Oikos: La Clave Para La Evangelización Futura. In: NEIGHBOUR, Ralph W. La Iglesia
Del Futuro. El Paso: Casa Bautista de Publicaciones, 1983, p. 178. Tradução nossa.
562
Corporações seculares de capital aberto checam trimestralmente seus balanços financeiros. A constatação de
lucros valoriza não apenas as ações, mas a pessoa do executivo principal, o gênio criativo responsável pelo
resultado positivo. Prejuízos determinam uma ação enérgica: O líder deve ser substituído.
163

Uma última dificuldade do texto de Wolf é sua asserção de que a figura do pastor

pode impedir que uma igreja seja aquilo que Deus deseja, uma típica ponderação que

descreve Deus como estando sujeito à vontade do homem — ou sendo frustrado em seus

propósitos pelos fracassos humanos. O apóstolo Paulo, no entanto, afirma que a vontade de

Deus inclui tanto o seu querer quanto o realizar (Fp 2.13). Aquilo que Deus decreta, ele faz;

nada é capaz de se opor à sua vontade (Is 46.8-13). O propósito de Deus é absoluto, os

acontecimentos são condicionais.

Uma pessoa colhe, se semear. É salva, se crer. Sua colheita e sua salvação
são eventos condicionais. O propósito de Deus, porém, é absoluto. Se ele
propõe que uma pessoa colha, propõe, também que ela semeie; se propõe
que seja salva, propõe que ela creia.563

Todos os eventos, especialmente os que dizem respeito ao crescimento de igrejas,

devem ser considerados à luz da doutrina da providência.564

É preciso ser sensível, no entanto, ao desconforto demonstrado por Wolf: O pastoreio

deve ser voltado para a execução, no caso, o cumprimento da missão. O pastor não é um

especialista em crescimento da igreja, mas isso não o isenta de assumir as responsabilidades

de administração e liderança inerentes à sua função. Nesses termos também se pronuncia

Montoya:

Líderes, liderem! A tarefa sua é ter a visão do que deve ser feito,
arregimentar pessoas para que adotem essa visão, delegar a tarefa a outros e
depois manter todo o grupo motivado para completar ou cumprir a missão.
Os líderes espirituais extraem suas perspectivas do propósito de Deus.
Depois convocam a igreja para que auxilie no cumprimento do propósito, o
que logicamente implica que os líderes devem manter a igreja motivada até
que o alvo seja atingido. O ato de liderar, portanto, compreende quatro
elementos: visão, convocação, delegação e motivação. Se o pastor ou líder
espiritual for bem-sucedido no cumprimento dessas quatro atividades, será
bem-sucedido em sua liderança.565































 


















563
HODGE, op. cit., p. 305.
564
CFW, V.i, p. 34: “Pela mui sábia providência, segundo a sua infalível presciência e o livre e imutável
conselho de sua própria vontade, Deus, o grande Criador de todas as coisas, para o louvor da glória de sua
sabedoria, poder, justiça, bondade e misericórdia, sustenta, dirige, dispõe e governa todas as criaturas, todas as
ações delas e todas as coisas, desde a maior até à menor.”
565
MONTOYA, op. cit., p. 308.
164

Algo semelhante é dito por Spurgeon:

Queremos fatos — ações realizadas, almas salvas. Está bem que se escrevam
ensaios. Mas, quais almas vocês impediram de ir para o inferno? A maneira
excelente como dirigem a escola interessa-me. Mas, quantas crianças foram
trazidas a igreja por meio dela? [...] Irmãos, façam alguma coisa; façam
alguma coisa; façam alguma coisa. Enquanto as comissões desperdiçam
tempo em deliberações, façam alguma coisa. Enquanto as sociedades e
uniões elaboram estatutos, ganhemos almas. Muitas vezes discutimos,
discutimos e discutimos, e satanás ri-se à socapa. É tempo de parar de
planejar e de procurar o que planejar. Rogo-lhes, sejam homens de ação,
todos vocês. Mãos à obra, e tratem de sair-se como homens.566

Como escreve Schwarz, “pastores não precisam ser ‘super-stars’ para que suas igrejas

cresçam. A maioria dos pastores, que nas nossas pesquisas conseguiram os melhores

resultados, não são conhecidos muito além de suas igrejas.” 567

Nesses termos sugere-se uma IPB com líderes mais e melhor habilitados, o que

implica em priorizar a formação de líderes, tanto no âmbito dos seminários e institutos

bíblicos quanto nos concílios e igrejas locais.

8.5.2 A IPB Centrada no Discipulado

O fruto da evangelização, estabelecimento, consolidação e revitalização de igrejas é a

IPB centrada no discipulado.

Um discípulo é alguém que desfruta de um relacionamento com Deus propiciado pela

graça através de Jesus Cristo, que é regenerado e responde ao chamado do evangelho com

arrependimento e fé: “O arrependimento [...] é um termo que raramente ouvimos hoje. Fala-se

muito de como Deus nos ama, mas não de quanto o odiamos”.568 A fé salvadora o compele a

entregar-se inteiramente a Deus, além de redefinir e reorganizar sua cosmovisão e, por































 


















566
SPURGEON, Charles H. Lições aos Meus Alunos: Homilética e Teologia Pastoral. 1. ed. reimp. 2001. São
Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1980, p. 41.
567
SCHWARZ, Christian. O Desenvolvimento Natural da Igreja: Guia Prático Para Cristãos e Igrejas Que Se
Decepcionaram Com Receitas Mirabolantes de Crescimento. Curitiba: Editora Evangélica Esperança, 1996, p. 23.
568
SHELLEY, Bruce L. A Igreja: O Povo de Deus. São Paulo: Vida Nova, 1984, p. 46.
165

conseguinte, atitudes e comportamentos (2Co 5.17; Ef 2.1-10, 4.17-5.17; Fp 3.1-11; Cl 3.1-

4.6; 1Ts 1.2-10). A mensagem a ser divulgada no contexto do novo capitalismo não é de

acomodação, mas de conversão e transformação radicais: O seguidor de Cristo é “sal da terra”

e “luz do mundo” e deve viver “como o seu mestre” (Mt 5.13-16, 10.24-25). Menos do que

isso é inaceitável. A IPB deve elevar ao máximo os custos do discipulado, traduzindo para o

tempo atual as implicações do paradigma cosmonômico. Ela não deve buscar números, mas

empenhar-se por fazer discípulos maduros e reprodutivos.

Isso exige uma articulação eficaz da educação cristã.

[...] a “educação cristã” em muitas denominações tem feito pouco para


oferecer a seus membros um entendimento adulto da fé que eles professam.
Será, então, motivo de surpresa ver um cristão hoje cometer erros grosseiros
sobre sua crença ou defender alguma prática pagã como conduta “cristã”?569

Longe de assumir modelos de fidelização de clientela, a IPB desejável convoca os

crentes ao cumprimento das ordenanças divinas e define uma nova pauta de capacitação e

envolvimento.

8.5.3 A IPB Saudável do Ponto de Vista Organizacional

A saúde organizacional da IPB tem a ver com a valorização de suas instâncias

institucionais, com o apego às marcas reformadas e com sua autoconsciência orgânica.

A IPB saudável valoriza as instâncias institucionais. Nela não há espaço para ojeriza

às instituições — posturas ressentidas, maledicentes ou envergonhadas da igreja institucional.

Os arquétipos institucionais são para a IPB o que o esqueleto é para o corpo — fornecem

solidez, arranjo, formato jurídico e administrativo. O arrazoado principal, porém, é este: Tudo

neste organismo se interliga, as partes se afetam e desfrutam da mesma vida.































 


















569
SHELLEY, Bruce L. História do Cristianismo ao Alcance de Todos: Uma Narrativa do Desenvolvimento da
Igreja Cristã Através dos Séculos. São Paulo: Vida Nova, 2004, p. 547.
166

Na IPB saudável tudo converge para o cumprimento de sua missão que aponta para o

compromisso com as marcas reformadas.570 Ainda que em sua difusão por todo o país haja

abertura para flexibilidade em termos de ajustes contextuais, a vitalidade da IPB é verificada

na consistência de cada concílio e igreja local aos padrões, no caso, à missão clarificada nos

dois primeiros artigos da CI/IPB. Nesses termos consolida-se uma IPB alicerçada na verdade

(Escrituras e Símbolos de Fé), pactual (composta de professos e seus filhos) e fiel (adoradora,

comprometida com a evangelização, integração e discipulado de seus membros e vivência da

mutualidade e serviço).

Saúde não equivale a perfeição orgânica. A IPB saudável não é uma empresa ou linha

de montagem de modelo globalizado, mas uma federação de igrejas, um organismo conciliar,

social e, nesses termos, humano. Organismos se desgastam, sofrem panes e são afetados por

elementos externos. As confissões e os escritos reformados são unânimes em alertar para o

perigo de almejar-se uma igreja cem por cento pura aqui na terra.571 A IPB não precisa

oferecer “serviço completo” para ser igreja. Desde que as marcas sejam preservadas, outros

elementos legítimos e até necessários podem ser agregados, mas uma comunidade perfeita ou































 


















570
As marcas reformadas são o ensino e a pregação pura da Palavra de Deus e administração correta dos
sacramentos. Calvino (op. cit., IV.I.9 et seq.) sugere ainda a prática da disciplina, a fim de combater a frouxidão
dos costumes, mas mesmo assim admite a suficiência das duas primeiras marcas: “[...] pois onde quer que vemos
a Palavra de Deus ser sinceramente pregada e ouvida, onde vemos os sacramentos serem administrados segundo
a instituição de Cristo, aí de modo algum há de contestar-se que está presente uma igreja de Deus [...]”.As
mesmas marcas são reconhecidas, com acréscimos contextuais, nos Trinta e Nove Artigos da Religião, (1571,
Igreja Anglicana), na Confissão Batista de New Hampshire (1833), na CFW (1643-46) e na Segunda Confissão
Helvética (1566, Igrejas Reformadas da Suíça, França, Escócia, Hungria, Polônia e outras). Autores recentes
articulam a idéia do núcleo de vida (marcas) utilizando novos conceitos. Ao invés de destacarem a pregação e os
sacramentos, focalizam outras características ou práticas de ministério. Warren (cit., p. 117-135) sugere que a
igreja deve cuidar para desenvolver cinco propósitos, quais sejam, a adoração, a evangelização, o discipulado, a
comunhão e o serviço. Schwarz (op. cit., p. 15-48) percebe, em centenas de igrejas que crescem, oito marcas de
qualidade: liderança capacitadora, ministérios orientados por dons, espiritualidade contagiante, estruturas
funcionais, culto inspirador, grupos familiares, evangelização voltada para as necessidades e relacionamentos
marcados pelo amor fraternal. Todas essas evidências de vitalidade, no entanto, decorrem da pregação e do
desfrute dos sacramentos. Na história da igreja, sempre que o verdadeiro ensino e a autêntica proclamação da
Palavra são realizados no poder do Espírito Santo, e os sacramentos administrados corretamente, surgem práticas
que se encaixam nas categorias sugeridas por Warren e Schwarz.
Nos termos da administração estratégica, o sucesso de uma organização exige, além da flexibilidade para
adequar-se a diferentes contextos, fidelidade aos padrões.
571
CFW, XIV.iii; XXV.iv-v; Segunda Confissão Helvética, XVII.3, 14. In: BEEKE, Joel R.; FERGUSON,
Sinclair B. (Org.). Harmonia da Confissões Reformadas. São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 184, 189;
CALVINO, op. cit., IV.I.
167

uma organização com padrão empresarial de qualidade é uma exigência muito alta, jamais

encontrada na Escritura.

8.5.4 A IPB Que Pratica a Unidade Bíblica

A IPB desejável pratica a unidade da fé nos termos da Segunda Confissão Helvética:

Além disso, ensinamos que, especialmente, aquilo em que consiste a verdade


e a unidade da igreja deve ser cuidadosamente realçado, para que não
provoquemos ou alimentemos, irrefletidamente, dissidências na igreja. A
unidade não consiste em cerimônias e ritos externos, mas antes na verdade e
na unidade da fé católica. A fé católica não nos é ensinada pelas leis
humanas, mas pelas Santas Escrituras, das quais o Credo Apostólico é um
breve resumo. E, assim, lemos nos escritores antigos que embora houvesse
grande diversidade de rituais, estes eram livres e ninguém jamais pensava
que a unidade da Igreja era, por essa razão, rompida ou dissolvida. Por isso,
ensinamos que a verdadeira unidade da igreja consiste na harmonia entre os
vários pontos das doutrinas, na pregação uniforme e verdadeira do
evangelho de Cristo, e nos ritos que foram expressamente instituídos pelo
Senhor.572

A liberdade dada pela IPB para a contextualização não estabelece centros eclesiais ou

ministérios autônomos. Pelo contrário, cada concílio e igreja local deve enxergar-se como

parte de algo maior, a IPB, que, por sua vez, é uma parte da Igreja Católica da qual fala o

Credo dos Apóstolos. Concílios e igrejas percebem que engrossam as fileiras da “nuvem de

testemunhas” (Hb 12.1) formada pelos santos de todos os tempos. Negando-se o ecumenismo

irrestrito, pratica-se a unidade entre cristãos bíblicos que se juntam para adorar, orar, refletir e

agir. Destarte, atenta-se para o arrazoado de Bunyan:

É estranho ver neste dia como, não obstante todas as ameaças de Deus [...],
os homens estão ligados às suas próprias opiniões, além do que a lei da graça
e do amor permite [...] cada qual preso a sua própria opinião que não podem
ter aquela comunhão uns com os outros como, pelo testamento (Palavra) do
Senhor Jesus, é-lhes ordenada e imposta. Qual a causa? A verdade? Não!
Deus não é o autor de nenhuma confusão na igreja de Deus! (1Co 14.33).
Então é porque cada homem dá importância demais à sua própria opinião,
exagera na avaliação do seu entendimento e não tem o cuidado de separar a
sua opinião da iniqüidade que a ela se junta. Que essa confusão está na igreja
de Cristo, é por demais manifesta. Mas que linguagem inconveniente é esta






























 


















572
Segunda Confissão Helvética, XVII.15. In: BEEKE; FERGUSON, op. cit., p. 190.
168

para os filhos do mesmo Pai, membros do mesmo corpo e herdeiros da


mesma glória, para que se acostumem a ela? Seja o orgulho ou a hipocrisia
ou a ignorância ou o ego ou o diabo [...] ou todos estes juntos trabalhando
com a igreja [...]. Esta distância e falta de amor, este menosprezo de uns para
com os outros, estes pensamentos vis e depreciativos sobre os irmãos, ver-
se-ão melhor, para vergonha e confusão de alguns, no Juízo.573

A prática da unidade não significa abrir mão de convicções doutrinárias, ou, como

expressa Bosch, “não é o resultado de tolerância indolente, indiferença ou relativismo, mas de

uma nova compreensão do que, efetivamente, significa ser cristão no mundo”.574 Ela impele os

cristãos a aceitarem suas diferenças e a administrarem a tensão decorrente da convivência. Não se

almeja produzir “um nivelamento das diferenças, um reducionismo superficial, uma espécie de

‘caldo’ ecumênico. Nossas diferenças são genuínas e devem ser tratadas como tais.” 575

Por fim, a colocação em prática desses quatro pontos desejáveis para a IPB abre

espaço para o uso de ferramentas e práticas da administração estratégica. A obra espiritual

requer uma estrutura plausível que permita sua articulação eficaz.

8.6 Três Usos da Administração Estratégica na IPB

Na elaboração das propostas a seguir, utiliza-se a terminologia sugerida por

Bossidy e Charan: Estratégia e estrutura dizem respeito ao hardware de uma organização,

enquanto crenças e comportamentos, ao seu software.

Como um computador, uma empresa tem tanto hardware como software.


Chamamos o software da corporação de “software social”, pois qualquer
organização de dois ou mais seres humanos é um sistema social.
O hardware inclui estrutura organizacional, definição de incentivos, salários
e sanções, elaboração de relatórios financeiros e seu fluxo. Os sistemas de
comunicação são parte do hardware, assim como a distribuição hierárquica
do poder, em que coisas como distribuição de tarefas e aprovações em nível
de orçamento são visíveis e formais. O software social inclui os valores,































 


















573
BUNYAN, John. Uma Vida Santa: A Beleza do Cristianismo. apud LLOYD-JONES, Dr. Martin. Os
Puritanos: Suas Origens e Seus Sucessores: Palestras Proferidas nas Conferências Puritana e Westminster:
1959 a 1978. São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1994, p. 401.
574
Op. cit., p. 554.
575
Ibid., loc. cit.
169

crenças e normas de comportamento, juntamente com tudo o mais que não é


hardware. Como o software do computador, é o que dá vida ao hardware
corporativo como um sistema em funcionamento. 576

São sugeridos três usos da administração estratégica no âmbito da IPB: (1) Ajuste

de sua cultura organizacional, focalizando-a na execução; (2) formulação e execução de

estratégias; (3) otimização de processos administrativos.

8.6.1 Ajuste da Cultura Organizacional Para a Execução

A administração estratégica pode auxiliar a IPB no ajuste de sua cultura

organizacional, focalizando-a na execução.

Assim como é possível falar de cultura no âmbito de uma sociedade mais ampla, por

exemplo, uma nação (3.1), é possível referir-se à cultura de um grupo menor, ou de uma

organização ou instituição.

A cultura organizacional refere-se aos valores e padrões de crenças e


comportamento que são aceitos e praticados pelos membros de uma
determinada organização. Como cada organização desenvolve sua própria
cultura singular, até mesmo organizações que pertencem ao mesmo setor e
cidade podem exibir modos muito diferentes de operar. 577

Reconhece-se que “a cultura organizacional está relacionada à natureza humana e ao

que se constitui em valores apropriados à organização”.578 Caravantes, Panno e Kloeckner

afirmam que a cultura torna as organizações semelhantes aos seres vivos, com personalidade.

O comportamento organizacional “se traduz por tradição, hábitos, costumes, opiniões,































 


















576
BOSSIDY; CHARAN, op. cit., p. 99. Mandelli et al referem-se a construtos semelhantes utilizando uma
ferramenta da administração denominada sete “Ss”: Structure — Estrutura Organizacional — diz respeito ao
arranjo das funções, à departamentalização da empresa e ao numero de níveis; Strategy — Estratégia — diz
respeito à forma como a empresa lida com sua identidade, missão, mercados, clientes e produtos; Systems —
Sistemas e Processos — diz respeito aos processos internos e aos sistemas de medição e informação; Staff —
Pessoal — diz respeito ao contingente humano envolvido; Skills — Habilidades e Competências — diz respeito
àquilo que a empresa precisa em termos de know-how para desempenhar seu papel; Shared Values — Cultura
— diz respeito ao conjunto de valores vigentes e Style — Estilo — diz respeito ao estilo gerencial praticado pela
liderança.
577
WRIGHT; KROLL; PARNELL, op. cit., p. 323; cf. HITT; IRELAND; HOSKISSON, op. cit., p. 24.
578
TAVARES, op. cit., p. 412.
170

atitudes, preconceitos, regulamentos e maneiras de resolver problemas [...]. O comportamento

da organização é determinado pela cultura.” 579

A cultura organizacional diz respeito ainda ao modo como as pessoas compartilham

informalmente vivências e informações. Brown et al abordam essa questão quando se referem

a “redes de conversas e criação de sentido, com freqüência invisíveis, por intermédio das

quais já moldamos coletivamente o futuro, muitas vezes de modos involuntários.” 580

Tal cultura pode constituir uma barreira ao cumprimento da missão. Tavares constata

que uma das razões do fracasso das fórmulas simplistas de gestão é não levar em conta “as

resistências internas, a cultura organizacional e mesmo o estilo de liderança.” 581

Demonstrou-se que o atual modelo de administração da IPB é uma amálgama das

teorias clássica e neoclássica, bem como do modelo burocrático de administração. Nesses

termos, ele agrega os problemas inerentes a tais teorias e modelos.

Como herança da teoria clássica, o sistema da IPB é abordado desconsiderando-se

os aspectos psicológico e social da organização. As tratativas são majoritariamente

formais, focalizando-se prioritariamente a instituição. A organização — e isso inclui as

pessoas nela envolvidas — é tratada como uma máquina, um sistema impessoal, fechado e

composto de variáveis absolutamente previsíveis.

Da teoria neoclássica, a IPB herda a ênfase demasiada em prescrições e

normatizações, de modo que os concílios investem mais tempo legislando do que,

efetivamente, executando.

Do modelo burocrático percebe-se, primeiramente, a primazia da inclusão e ordem

sobre a realização. Pessoas permanecem em funções mesmo que não possuam

qualificações para as mesmas. Fazer as coisas conforme os passos recomendados nos































 


















579
CARAVANTES; PANNO; KLOECKNER, op. cit., p. 255.
580
Op. cit., p. 21.
581
Op. cit., p. 40.
171

manuais se torna mais importante do que cumprir as ordenanças pactuais; aliás, o

ministério se confunde com o modus operandi burocrático e ajustes não são normalmente

bem-vindos.

As três linhas de programação acima definem os parâmetros do software social e

cultural da IPB.

A administração estratégica pode ser usada para encaminhar medidas de ajuste da

cultura da IPB. Hitt, Ireland e Hoskisson entendem que “moldar o contexto no qual a

empresa formula e implementa suas estratégias — isto é, moldar a cultura organizacional

— é a tarefa principal dos líderes estratégicos.” 582

Os termos “ajustar” e “moldar” qualificam o processo. Não se fala em mudança

radical e sim em aperfeiçoamentos necessários. A administração estratégica admite que “uma

corporação não tem uma cultura. Uma corporação é uma cultura. É por isso que elas são

horrivelmente difíceis de mudar”.583 O papel da liderança é “empreender revisões culturais

para desenvolver consenso a respeito de crenças comuns em sua organização.” 584

O foco desta primeira aplicação da administração estratégica é consolidar na IPB o

raciocínio estratégico585 — uma cultura voltada para o cumprimento da missão,

concretização de sua visão geral e das declarações de visões de cada concílio e igreja

local. Ao ajustar sua cultura para a execução, a IPB como um todo deixa de ser

meramente legislativa e burocrática e passa a ser executiva. Concílios e igrejas locais

focalizam a execução do planejamento, que por sua vez, imbrica no serviço do reino.

Como isso pode ser implementado? Hit, Ireland e Hoskisson reduzem o processo a

dois passos: (1) Fomentar líderes com mentalidade empreendedora e; (2) moldar, reforçar































 


















582
Op. cit., p. 355.
583
MINTZBERG; AHLSTRAND; LAMPEL, op. cit., p. 198.
584
Ibid., p. 198-199.
585
MANDELLI et al, op. cit., p. 57-59.
172

e alterar aspectos da cultura, ajustando-a aos valores-chave da organização.586 Para

Bossidy e Charan a implementação de uma cultura voltada para a execução exige a

interligação de três coisas: (1) Pessoas; (2) estratégia e (3) operações.587 A aplicação disto,

em uma organização secular, exige o seguinte:

Comunicação e solução de problemas eficientes, além da escolha das


pessoas certas (indivíduos com valores desejados pela organização),
avaliações de desempenho eficazes (estabelecimento de metas e avaliação do
desempenho individual em relação a metas que se ajustam aos novos
valores-chave) e sistemas de remuneração adequados (remuneração dos
comportamentos desejados, que refletem os novos valores-chave).588

No âmbito da IPB, líderes com mentalidade empreendedora correspondem a

pastores e concílios dedicados à edificação da igreja — evangelização e fortalecimento

dos crentes.589 Mais: Na administração estratégica, os processos relacionados ao pessoal

se ocupam com uma questão: “Esta é a pessoa certa para realizar as tarefas que, por sua

vez, conduzirão à execução do planejamento?” Nas igrejas locais, equipes pastorais

seriam articuladas e diretorias seriam eleitas com vistas à efetivação de um planejamento;

nos concílios, nomeações para serviços em comissões objetivariam cumprir planos

claramente comunicados e compartilhados. Líderes seriam constantemente selecionados e

desenvolvidos. As pessoas envolvidas no trabalho seriam, de fato, acompanhadas,

motivadas, capacitadas, orientadas e disciplinadas, considerando-se um planejamento.

No que diz respeito à estratégia, o ajuste da cultura para a execução exigiria um

conjunto de ações deliberadamente encaminhadas com a finalidade de cumprir um plano

geral (Supremo Concílio) e os planos das unidades menores (Sínodos, Presbitérios e

igrejas locais). Cada instância de liderança seria motivada a abraçar alvos desafiadores































 


















586
Op. cit., p. 356.
587
Op. cit., passim.
588
HITT; IRELAND; HOSKISSON, op. cit., p. 356.
589
Como foi demonstrado em 4.4, não há base bíblica para a distinção entre ministério voltado para o saber
teológico e a evangelização, plantação e fortalecimento de igrejas. Paulo, o teólogo, dedicou-se completamente à
expansão do evangelho.
173

estabelecidos pelos concílios superiores, de evangelização, estabelecimento, consolidação

e revitalização de igrejas.

Quanto às operações, a cada alvo estabelecido, bem como a cada aspecto da

estratégia, seria criado e vinculado um processo de implementação incluindo clarificação

de ações, tarefas, responsabilidades e critérios de avaliação — um plano operacional.

O plano operacional começa com a identificação das principais metas [...].


Os detalhes variam de uma unidade para outra, mas o importante é que eles
fornecem um resumo de uma página, com foco nas coisas que vão
impulsionar a melhoria dos resultados.
[...] as metas também são estabelecidas a partir do todo para a parte —
isto é, para o negócio como um todo, com subconjuntos para seus vários
componentes. 590

Destaca-se, nesse ponto, o aspecto de supervisão (bispado) do pastoreio. Na

implementação da administração estratégica com vistas ao ajuste da cultura da IPB para a

execução, pessoas e departamentos seriam bíblica e constitucionalmente responsabilizados

e avaliados.591

Como avaliar formalmente? Através dos relatórios de ministros e concílios,

encaminhados anualmente aos Presbitérios, Sínodos e CE/SC. Tais documentos seriam

atualizados a fim de levantar dados efetivamente relacionados aos procedimentos

relevantes ao cumprimento da missão da IPB.592 Os concílios checariam, por meio destes

relatórios, se o ministro ou concílio jurisdicionado, de fato, correspondem ao perfil

desejado pela denominação.































 


















590
BOSSIDY; CHARAN, op. cit., 230-231.
591
É possível argumentar que, com base no texto do MP, não há aqui qualquer novidade, uma vez que sanções
disciplinares são atribuídas às faltas cometidas por líderes e membros da IPB. Isso é consistente com os
resultados desta pesquisa. Emoldurado pelas influências das teorias clássica e neoclássica, bem como pelo
modelo burocrático da administração, o modelo de administração da IPB tem no MP um excelente texto
normativo. O ponto crítico, não apenas na administração da IPB, mas em todas as organizações majoritariamente
influenciadas pelas teorias do capitalismo social, está na implementação de tais normas. A execução da
estratégia exige o acompanhamento — com as medidas reguladoras pertinentes — das operações.
592
Seria verificado, por exemplo, se saber o número de ensaios e apresentações de conjuntos corais de uma
igreja contribui, de fato, para a avaliação de sua eficácia quanto ao cumprimento da estratégia da IPB. Cf.
IGREJA PRESBITERIANA DO BRASIL. Relatório Anual do Conselho da Igreja ou da Mesa Administrativa
ao Presbitério. ed. Excel. São Paulo: Secretaria Executiva do Supremo Concílio da IPB, [s.data], item 2.3.4.
Disponível em: <http://www.executivaipb.com.br/estatisticas.htm>. Acesso em: 9 Set. 2008.
174

A avaliação formal, por meio de relatórios, seria acompanhada de avaliação direta

e pessoal, realizada pelas comissões executivas de cada concílio. Ao fim de cada processo

avaliativo, seria fornecido reforço positivo aos ministros e concílios alinhados à direção

estratégica da IPB, bem como correção àqueles destoantes das orientações.

Utilizamos freqüentemente a palavra “alinhamento” como sinônimo da


sintonia desejada entre a estratégia e a empresa como um todo. O
alinhamento deve representar a sincronia entre as ações e esforços da
empresa em direção à realização da estratégia.
O desenho da mudança deve, portanto, propiciar esse alinhamento,
garantindo que a estratégia permeie toda a organização, atravessando os
processos, a estrutura, as pessoas e a cultura.593

No contexto eclesiástico os diversos serviços são voluntários. Presbíteros docentes e

regentes, diáconos e líderes departamentais trabalham a partir de um chamado divino e não

são motivados por dinheiro ou possibilidades de ascensão “profissional”. Os concílios podem

e devem, no entanto, motivar através do retorno positivo ou disciplinar. Tal prática é

defensável tanto bíblica quanto constitucionalmente.594

O acompanhamento cuidadoso da execução produziria sincronização.

A sincronização é essencial para a excelência na execução e para energizar a


corporação. A sincronização significa que todas as partes da organização
têm premissas comuns sobre o ambiente externo no ano operacional e um
entendimento comum — a mão esquerda sabe o que a mão direita está
fazendo. Sincronizar inclui combinar as metas das partes interdependentes e
unir suas prioridades às outras partes da organização. Quando as condições
mudam, a sincronização realinha as múltiplas prioridades e realoca os
recursos.595

Isso seria feito com consistência suficiente para estabelecer uma caminhada

comum. As diversas partes da denominação não mais se atropelariam. Seria destacada a

cooperação ao invés da competição. Os processos se tornariam sinérgicos.

Resumindo, em termos de cultura organizacional, o resultado esperado do modelo

e do modo de operação da administração da IPB é a desatenção à execução. A































 


















593
MANDELLI et al, op. cit., p. 57.
594
Cf. Mt 18.15-20, 25.21,23; Gl 6.1-5; 1Tm 4.11-15; 2Tm 1.6-7; CI/IPB, Capítulo V, Seção 1, Art. 70. In:
CAMPOS, op. cit., p. 30-31.
595
Ibid., p. 221. Grifo nosso.
175

administração estratégica tem o potencial de colocar a cultura voltada para a execução do

planejamento no centro dos processos eclesiásticos. A perspectiva é de aperfeiçoamento

da prática da unidade — uma unidade não apenas bíblica e confessional, mas também

estratégica. Tudo isso convergindo para o cumprimento dos mandatos pactuais, nos

termos estabelecidos na missão da IPB.

8.6.2 Formulação e Execução de Estratégias

A seção 8.6.1 referiu-se ao planejamento, estratégia, plano geral e planos das unidades

menores. Uma cultura voltada para a execução corresponde a uma cultura que fomenta o

planejamento e as habilidades estratégicas. Essa é outra das utilidades da administração

estratégica para a IPB.

A formulação e execução de estratégias para a IPB deve levar em conta o seguinte:

Primeiro, os planos estratégicos da IPB precisam considerar, em termos de amplitude,

os fatos apresentados em 8.1-8.3 — o novo capitalismo e a nova civilização, com suas

ameaças e oportunidades para a evangelização e estabelecimento de igrejas bíblicas.

Segundo, o alicerce, bem como os limites para a estratégia são sugeridos em 8.4, na

argumentação sobre a missão da IPB.

Terceiro, o norte para o estabelecimento de uma visão geral e de visões localizadas

(para cada concílio, igreja local e departamento da IPB), sugeridas em 8.4, é fornecido em 8.5

— a IPB desejável, com líderes capacitados, discipulado maduro e reprodutivo, saúde

organizacional e prática bíblica da unidade.


176

Quarto, as estratégias formuladas precisam ser não apenas eficientes e eficazes, mas,

verdadeiramente bíblicas, confessionais e ajustadas ao MP.596 Quanto à sua biblicidade é útil

lembrar que, tal como foi afirmado na análise de Atos (4.4.1), a quantificação de pessoas

agregadas à igreja é sempre dado estatístico, jamais meta. O número de pessoas que abraçarão

o evangelho e integrarão a IPB — bem como a quantidade de igrejas plantadas daqui a cinco

ou dez anos — é uma variável transcendente, que se encontra fora do controle do

planejamento (cf. At 13.48, 16.14, 18.9-10). Bons objetivos eclesiásticos focalizam ações em

obediência aos mandatos pactuais (plantar e colher), não resultados (o crescimento vem de

Deus — cf. 1Co 3.6-7). Uma estratégia não pode definir quantos novos convertidos uma

igreja receberá no próximo ano, mas pode estabelecer que esta, em determinado tempo,

realizará visitas evangelísticas nos bairros circunvizinhos.597

Quinto, estratégias devem ajudar a IPB a cumprir melhor sua missão e concretizar

eficiente e eficazmente sua visão geral e visões localizadas. Estratégias adequadas

aperfeiçoam a IPB, ao invés de desfigurá-la.

Grandes mudanças em perspectiva estratégica ocorrem apenas raramente.


[...] Por outro lado, as organizações passam a maior parte de seu tempo
seguindo determinadas orientações estratégicas (por exemplo, aperfeiçoando
uma determinada fórmula de varejo). Isso sugere que o sucesso é alcançado
não pela mudança de estratégias, mas explorando aquelas já existentes.598

Um concílio ou igreja local pode funcionar por décadas sem nunca ter elaborado

ou assumido uma estratégia formal. Ou ainda, é possível que, em uma instância

administrativa da IPB ou em uma igreja local, proliferem estratégias contraditórias, cada































 


















596
Planos que refletem a Escritura, os Símbolos de Fé e o MP, capazes de alavancar a IPB sem descaracterizá-la,
são desejáveis e necessários. Se não for assim, o planejamento pode ser contestado por concílios, pastores e
líderes das igrejas locais, dando lugar a oposições declaradas, com todos os desgastes jurídicos decorrentes, ou,
pior, a resistências psicológicas. Cf. MINTZBERG; AHLSTRAND; LAMPEL, op. cit., p. 119. Neste caso as
pessoas não se colocam explicitamente contra o planejamento, apenas o ignoram.
597
Deve-se abrir espaço para o planejamento de ações enquanto se desautoriza o planejamento de resultados.
Portela Neto (op. cit., p. 84) alerta para a distorção produzida pela noção “de que podemos e devemos planejar
os resultados ou estabelecermos as metas, no que diz respeito à evangelização e ao crescimento da igreja local ou
nacional”. A IPB, cuja interpretação doutrinária é bíblica segundo a ótica dos Símbolos de Fé, assume que o
aumento da quantidade de membros de seus membros ocorre por obra do Espírito Santo, na vocação eficaz
(ASSEMBLÉIA DE WESTMINSTER, op. cit., CFW, X.i-iv, p. 49-51).
598
MINTZBERG; AHLSTRAND; LAMPEL, op. cit., p. 230.
177

uma lutando por sua própria fatia de recursos, dedicação e energia. Ademais, o

planejamento assumido há um ano pode mostrar-se completamente inadequado hoje. A

administração estratégica auxilia demonstrando por que, como e quando planejar e revisar

o que se planejou. Na formulação e execução de estratégias na IPB, o planejamento e suas

necessárias adequações seriam decididos a partir de leituras contínuas dos diferentes

contextos. Os planos não seriam inflexíveis, mas ajustáveis e até mesmo substituíveis por

novas tomadas de decisão surgidas em freqüentes diálogos de revisão de estratégia. Tanto

os concílios como as plenárias departamentais tornar-se-iam, destarte, fóruns de

refinamento estratégico — o que exigiria a capacitação dos presbíteros docentes e

regentes, diáconos e líderes departamentais em pensamento, planejamento e execução

estratégicos. Isso seria feito com consistência suficiente para, como foi visto alhures,

estabelecer uma cultura de pensamento sistêmico e estratégico.

Na execução seriam feitas perguntas cruciais:

Você tem os líderes certos nos cargos certos? Eles trabalham bem juntos?
Você tem o tipo certo de pessoa que precisa em quantidade suficiente? Você
tem os recursos de produção, financeiros e tecnológicos para executar a
estratégia? 599

Tais questionamentos seriam levantados e respondidos pelos líderes da IPB que

conheceriam as forças e as fraquezas das igrejas locais e dos concílios, interagiriam em

profundidade e simultaneamente com a instituição, com as tarefas e com as pessoas,

pastoreando no melhor sentido da palavra: Admoestando, motivando, obtendo dados úteis

para aperfeiçoamento da igreja como um todo e, inclusive, reforçando positivamente ou

com disciplina, fazendo valer os princípios assumidos no planejamento. Em suma, a

aplicação da administração estratégica na formulação e execução de estratégia exigiria

líderes que amam a IPB — seu povo, sua proposta de ministério, sua doutrina e seu

caráter institucional.































 


















599
BOSSIDY; CHARAN, op. cit., p. 210.
178

Deve ser pontuado, por fim, em que sentido essa proposta de uso da administração

estratégica difere das iniciativas de planejamento estratégico da IPB, de 1996 e 1997.

Naquela ocasião foram impressos e distribuídos a concílios e igrejas dois livretos

contendo o planejamento estratégico da IPB. O documento de 1996 fornecia detalhes do

plano geral e apresentava aos leitores o plano missionário cooperativo, o fundo

missionário cooperativo, o centro de treinamento missiológico (CTM), uma reflexão sobre

a educação teológica e o perfil desejável de pastor para a IPB. Ademais, registrava

posições doutrinárias em uma carta pastoral elaborada pela Comissão Permanente de

Doutrina.600 O documento de 1997 repetia os aspectos gerais do planejamento, as

informações sobre o CTM e apresentava a Federação Nacional de Escolas Presbiterianas

(FENEP).601

Na ocasião, “planejamento estratégico” passou a ser uma expressão muito usada

no âmbito da IPB. Voluntários foram treinados a fim de se tornarem multiplicadores e

recursos foram despendidos na sua implementação.

Uma avaliação respeitosa pode sugerir cinco aspectos de inadequação da proposta

de 1996-97: (1) Faltou-lhe um alicerce teológico, no caso, a administração vista segundo o

paradigma cosmonômico; (2) não foi esclarecido quais eram as partes constituintes do

modelo de administração da IPB, algo fundamental para compreensão de seus pontos

fortes e fracos; (3) as metas e ações recomendadas, por não serem uma aplicação da

teologia, abriram espaço para serem interpretadas como arbitrárias e de cunho evangelical;

(4) esperou-se por resultados sem que fossem tomadas medidas efetivas de mudança

cultural; as metas estabelecidas, ainda que desafiadoras, contrastavam com o modo da IPB

enxergar e fazer as coisas — sua cultura influenciada pelas abordagens clássica,































 


















600
COMISSÃO EXECUTIVA DO SUPREMO CONCÍLIO DA IPB. Planejando Para o Ano 2000. São Paulo:
Cultura Cristã, 1996, passim.
601
COMISSÃO EXECUTIVA DO SUPREMO CONCÍLIO DA IPB. Planejando Para o Ano 2001 e Realizando
Já. São Paulo: Cultura Cristã, 1997, passim.
179

neoclássica e burocrática da administração; (5) a proposta sofreu ainda com a inexistência

de interligação entre pessoas, estratégia e operações. Em suma, publicou-se um

planejamento sem que fosse considerado o hardware nem configurado o software

denominacional.

8.6.3 Otimização dos Processos Administrativos

A administração estratégica pode ser útil para melhorar os processos administrativos

da IPB. Ela focaliza a revisão, enxugamento e otimização de procedimentos, com o objetivo

de realizar as tarefas melhor e mais rapidamente.

Nesses termos a administração estratégica faz uso de diversos métodos e tecnologias.

A diferença não se encontra nas ferramentas e sim, na insistência em utilizá-las com vistas à

execução da estratégia. Não basta a igreja possuir um computador com acesso à Internet, e

sim, utilizá-lo de modo a diminuir os desgastes operacionais e aumentar a produtividade

ministerial. Trata-se, como foi abordado em 8.6.1, do resultado de ajustes da cultura da IPB.

A igreja sempre utilizou tecnologias para o desempenho de seu serviço. O

destaque atual é para o uso de tecnologias digitais, especialmente aquelas que facilitam a

mútua interação. Na evangelização, tais tecnologias permitem iniciar e manter estratégias

de alcance personalizadas, acessando indivíduos normalmente fechados aos grupos de

evangelismo convencionais, e.g., moradores de condomínios fechados ou mesmo

categorias profissionais distintas.

Quando ao uso interno, as possibilidades são promissoras: Redução de custos

operacionais, mais tempo e recursos para a execução, menos papelório e até rotinas

conciliares mais ágeis.


180

Um exemplo de ação estratégica é a disponibilização, pela SE/SC, do Sistema

Integrado IPB, doravante denominado SI-IPB.602 Enquanto tal sistema é implementado,

alguns relatórios — de ministros, de igrejas e de concílios — são disponibilizados pela

SE/IPB, em formato de planilha eletrônica. O SI-IPB, porém, representa um salto quântico

diante da mera digitalização e impressão de planilhas. Trata-se de um sistema de banco de

dados único, disponível on-line, que propõe-se a facilitar a administração de róis de membros,

gerar relatórios automaticamente e transferir os dados de igrejas e concílios, em tempo real,

para a SE/SC. Utilizando padrões abertos da Internet, o sistema pode ser acessado por

usuários de diversos sistemas operacionais (Windows, Linux, Mac OS X etc.).

Se tudo funcionar bem, tal sistema permitirá a convergência de funções de

preenchimento de relatórios e administração local de concílios e igrejas. Os dados digitados

serão conferidos e agregados às somas gerais, em tempo real. Seria interessante que, ao

acessar relatórios gerais de seus concílios, os secretários-executivos tivessem, já

consolidados, os números dos relatórios de ministros e concílios inferiores, bem como uma

lista de ministros, igrejas e concílios que ainda não enviaram seus respectivos documentos.

Isso eliminaria, de vez, os desgastes das comissões responsáveis pelas estatísticas dos

concílios, bem como o volume de trabalho de todos os envolvidos com o fechamento das

informações, na SE/IPB.

Em termos de aplicação local, ao criar um registro de membro, seria bom que o SI-

IPB considerasse essa informação para o relatório de estatística da igreja. O trabalho de fim

de ano eclesiástico se resumiria em imprimir tal relatório, reduzindo substancialmente o

dispêndio de tempo do secretário do conselho.































 


















602
Na época da elaboração desta pesquisa o Sistema Integrado IPB podia ser acessado no web site da Secretaria
Executiva do Supremo Concílio da IPB, ainda em fase de implementação. Tal exemplo demonstra que em
diversos nichos da estrutura da IPB existe o pensamento e ação estratégicos. Cf. IGREJA PRESBITERIANA
DO BRASIL. Sistema Integrado — IPB. Belo Horizonte: Secretaria Executiva do Supremo Concílio da IPB,
2008. Disponível em: < http://www.executivaipb.com.br/si-ipb.htm>. Acesso em: 10 Set. 2008.
181

Se tudo correr bem, tudo isso poderá ser feito com custo zero de aquisição de

programas, utilizando a estrutura de servidores atualmente disponível na IPB.

Um passo seguinte nesse processo seria a IPB viabilizar aos pastores, igrejas e

concílios, um programa de inclusão digital, fechando negócio em maior escala com um ou

mais fabricantes de computadores. Máquinas desktop e notebooks poderiam ser adquiridos

com preço reduzido e condições acessíveis e, no caso de campos e ministros verdadeiramente

carentes, até subsidiados pela denominação.

A cobertura do território nacional com cabeamento de fibra ótica, a redução dos

custos de equipamentos, a oferta de aplicativos gratuitos — ou de baixíssimo custo — e a

Internet possibilitam um horizonte de “planificação” 603 para a gestão da IPB.

Resumindo, repassar todos os procedimentos administrativos à luz da cultura de

execução ajustada pela administração estratégica produziria otimização no uso do tempo,

recursos e energias da IPB, abrindo espaço para o foco no cumprimento de sua missão.

8.7 Propostas de Capacitação da IPB Para a Administração Estratégica

Se a administração estratégica é recomendável para a condução da IPB, é

importante capacitar os ministros e líderes para exercê-la. Isso exige aprovação de

medidas pelo SC/IPB, dotação de recursos, estabelecimento de corpo docente,

colaboração de todas as instâncias administrativas e uso intensivo das estruturas

conciliares e de educação. A capacitação pode ocorrer nos Seminários, concílios e

eventos-chave da igreja.































 


















603
FRIEDMAN, op. cit., passim.
182

8.7.1 Alteração do Currículo dos Seminários da IPB

No curso de Bacharelado em Teologia dos Seminários, propõe-se alterar a

quantidade de créditos do Departamento de Teologia Pastoral, dos atuais 58 para 68.604

Seria criada a disciplina Teologia da Administração, de quatro créditos, com a finalidade

de estudar as bases bíblicas da administração, nos termos do paradigma cosmonômico. A

disciplina Gestão Eclesiástica, que atualmente possui o peso de dois créditos, passaria a

ter quatro créditos. Na ementa da disciplina, sugere-se a inclusão de uma introdução à

administração estratégica. A disciplina Liderança, cuja ementa focaliza o estudo dos

grandes líderes da Bíblia, passaria de dois para quatro créditos, incluindo-se princípios e

métodos de liderança estratégica. Além das alterações nas disciplinas acima, sugere-se a

criação de outra, Modelo de Administração da IPB, de dois créditos.

A proposta não é de mudança superficial de currículo, mas de imbricação da

cultura da IPB para a execução estratégica.

8.7.2 Criação de Curso de Pós-Graduação em Administração Eclesiástica

Nos termos do Artigo 24 do Regimento Interno dos Seminários da IPB, propõe-se

que os Seminários criem cursos de pós-graduação em Gestão Eclesiástica com ênfase em

administração estratégica. Tais cursos desenvolveriam a pesquisa e os conhecimentos no

campo da Teologia e da Administração com vistas à edificação da igreja, e seriam

analisados e devidamente aprovados pelas Juntas Regionais de Educação Teológica

(JURETs) e pela Junta de Educação Teológica (JET) da IPB.































 


















604
SECRETARIA EXECUTIVA DA IGREJA PRESBITERIANA DO BRASIL. Digesto Presbiteriano: SC-
2006 - Doc. 117. Belo Horizonte: IPB, 2006.
183

8.7.3 Criação de Um Centro de Estudos Estratégicos

Propõe-se a criação de um centro de estudos estratégicos, que se incumbiria de

discutir, criar, avaliar e implementar ações necessárias à edificação da IPB. Tal centro

poderia, ainda, dar consultoria a concílios, igrejas, lideranças, departamentos ou

funcionários de departamentos, autarquias ou outras instituições coligadas, que necessitem

de ajuda para compreender ou mesmo implementar a administração estratégica.

8.7.4 Criação de Cursos Rápidos de Administração Estratégica

Propõe-se a criação de cursos rápidos, em diversos formatos, a serem ministrados a

oficiais ordenados, líderes e membros interessados da IPB. Tais cursos poderiam ser

realizados nos próprios Seminários, nos Sínodos e Presbitérios e também em congressos

ou outros eventos da IPB, em suas sessões plenárias, seminários ou workshops.

8.8 Uma Nota Sobre os Regulamentos da IPB

O autor desta pesquisa admite que, nas primeiras leituras relacionadas a este

projeto, ponderou sobre a possibilidade de propor ajustes nos regulamentos da IPB — seu

MP, MUSI e outros estatutos e regimentos — com a finalidade de “adequá-los” à

administração estratégica. A partir da análise dos dados, porém, concluiu-se que tais

mudanças não são necessárias. Organizações centenárias e de grande porte assumiram a

administração estratégica sem abrir mão de sua formatação central. Os regulamentos da IPB

não criam, por si só, barreiras intransponíveis à administração estratégica.


184

O ponto nevrálgico é a liderança conseguir entrelaçar pessoal, estratégia e operações.

Quando isso é obtido, uma cultura de execução é implantada nas mentes e corações,

procedimentos são aperfeiçoados e os resultados da prática dos mandatos pactuais tornam-se

perceptíveis.

8.9 Considerações Finais

Muito mais poderia ser dito, e.g., “quais as aplicações específicas da administração

estratégica no âmbito das Sociedades Internas da IPB?”, “quais as implicações da

administração estratégica para itens específicos da administração, tais como a gestão

orçamentária ou a administração de pessoal?” ou “qual o impacto da administração

estratégica sobre os programas das confederações sinodais e federações presbiteriais?”. O

assunto é vasto e suas implicações eclesiásticas são virtualmente inesgotáveis. Sua

abrangência é suficiente para justificar o tratamento comedido a ele dispensado. O que se

apresenta aqui é um esboço muito falível e parcial. Além disso, outras questões, também

pertinentes, nem sequer são aqui sugeridas.

Diante das demandas observadas nas várias facetas do novo capitalismo, o autor

propõe, para a igreja, uma atualização. Observe-se, no entanto, que qualquer proposta de

atualização deve ser bíblica, baseada em necessidades comprovadas e surgir como

resultado de uma percepção correta — não devido à pressão de modismos. Ademais, deve

caminhar sem romper com suas raízes, respeitando a história da igreja local e da

denominação, bem como a cultura local. Outro detalhe: Qualquer mudança deve começar

pequena e caminhar gradativamente, sem pressa ou radicalismos.605































 


















605
SOLONCA, op. cit., passim.
185

O que se espera? A IPB desejável, descrita na seção 8.5. Seria tal visão realizável? Se

esta for a vontade do Altíssimo, assim será. A administração estratégica pode contribuir para

isso, utilizada coram Deo pelos discípulos de Cristo. Cabe a nós refletir cuidadosamente,

descobrir as novas possibilidades de aperfeiçoamento do serviço divino, e aproveitá-las, para

glória de Deus e edificação da igreja.


186

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