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IMA IMA IMA IMA GENS MENT AIS NOS IMAGENS GENS GENS GENS MENT MENT MENT MENTAIS
IMA IMA IMA
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IMAGENS GENS GENS GENS
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MENTAIS AIS AIS AIS
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VISU VISU VISU
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VISUAL, AL, AL, AL,
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CRICI⁄MA/SC CRICI⁄MA/SC CRICI⁄MA/SC
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LLLLLedijane
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Cristina Sachet
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Sachet Ghisi
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Ghisi
Ghisi *****
Ghisi
Resumo
Resumo
Resumo
Resumo
Resumo
A autora estuda as imagens mentais presentes nos sonhos de dois deficientes
visuais: um portador de cegueira congÍnita e outro com cegueira adquirida.
Apresenta os relatos desses sonhos e tambÈm uma an·lise comparativa dos dados
obtidos. Os resultados mostraram que os participantes sonham e formam imagens
mentais, seja com base na percepÁ„o dos outros sentidos ou da memÛria visual.
Conclui com a proposta de dar prosseguimento ‡ pesquisa, aprofundando um
tema que pode propiciar ricas e valiosas contribuiÁıes para a ·rea.
PPPPPalavras-chave:
alavras-chave:
alavras-chave:
alavras-chave:
alavras-chave: DeficiÍncia visual. Sonhos. Imagens mentais. Sentidos.
MemÛria visual.
A pesquisa a seguir apresentada foi realizada por meio de entrevistas
consentidas com dois portadores de deficiÍncia visual, um portador de cegueira
adquirida (PCA) e um portador de cegueira congÍnita (PCC). As entrevistas foram
gravadas e transcritas para posterior an·lise individual e comparativa.
* PsicÛloga ñ Programa de Pesquisa PIC V ñ m.ghisi@terra.com.br.
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portador portador portador
portador dedededede deficiÍncia
deficiÍncia
deficiÍncia
deficiÍncia visual
deficiÍncia visual
visual
visual
visual
Existem, de um modo geral, dois tipos de deficiÍncia visual: a congÍnita,
em que o indivÌduo nasce cego, e a adquirida. Embora a preocupaÁ„o com a
cegueira seja antiga, pesquisas sistem·ticas sobre os seus efeitos psicolÛgicos s„o
comparativamente recentes. Amiralian (1997) contribui em seu livro com um
tema acerca da cegueira congÍnita e o desenvolvimento dos primeiros anos de
vida, com algumas pesquisas sobre a formaÁ„o de conceitos a partir das
experiÍncias t·teis-cinestÈsicas e auditivas, e a ausÍncia da vis„o, meio por
excelÍncia para a organizaÁ„o e integraÁ„o das informaÁıes sensoriais.
A mesma autora apresenta o estudo de Fraiberg (1977), que descobriu que
a aquisiÁ„o do conceito de objeto È retardada na crianÁa cega e est· relacionada
‡ aquisiÁ„o da coordenaÁ„o ouvido-m„o, porque o som em si confere
substancialidade aos objetos. Outra pesquisa apresentada pela autora È a de Santin
e Simmons (1997), segundo a qual a ausÍncia de estimulaÁ„o para dirigir a atenÁ„o
das crianÁas para objetos do ambiente, mais a impossibilidade de usar a vis„o
como meio de organizaÁ„o e integraÁ„o das informaÁıes sensoriais, conduz a
uma formaÁ„o de conceito de objeto diferente do que ocorre com as crianÁas que
enxergam, e, embora as crianÁas cegas atribuam a esses objetos as mesmas
palavras usadas pelos videntes. Essas palavras possuem significados diferentes,
peculiares e pessoais a elas.
O segundo tipo, a deficiÍncia visual adquirida, ocorre quando o indivÌduo
nasce com a vis„o ìnormalî e, seja por doenÁa, acidente, ou por um fator
desconhecido, acaba por perdÍ-la. A caracterizaÁ„o dos efeitos produzidos na
personalidade pela aquisiÁ„o da cegueira apresenta tantas vari·veis que torna
difÌcil pensarmos em um grupo de pessoas com cegueira adquirida. A perda da
vis„o pode ocorrer sob diversas condiÁıes, v·rias formas, e em diferentes idades.
Lima (1999, p.117), por sua prÛpria experiÍncia, contribui dizendo que: ì[ ] ...
aceitar e encarar que nos tornamos inv·lidos n„o È nada f·cilî.
A cegueira adquirida subitamente por algum acidente apresenta inicialmente
uma intensa reaÁ„o ao choque sofrido, e sÛ posteriormente uma lamentaÁ„o pelas
perdas e privaÁıes que sobrevÍm a este. De acordo com Amiralian (1997), as
reaÁıes ao choque descritas por Blank (1957) como despersonalizaÁ„o, e por
Vash (1988) como uma experiÍncia de encontro muito prÛximo com a morte,
exigem uma retirada moment‚nea da carga afetiva e um posterior tempo de luto
e lamentaÁ„o para a pessoa digerir suas perdas. SÛ depois, poder· enfrentar o
longo caminho de ìrenascimentoî como pessoa cega. TambÈm Cholden (1958) e
Blank (1957), segundo a mesma autora, afirmam que a tragÈdia da cegueira
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adquirida se aprofunda e prolonga quando se encoraja o paciente a fugir da aceitaÁ„o da realidade
adquirida se aprofunda e prolonga quando se encoraja o paciente a fugir da
aceitaÁ„o da realidade que pesa sobre ele. Sem d˙vida, a perda da vis„o È um
morrer, È o fim de certa maneira de viver, È o tÈrmino de mÈtodos adquiridos de
realizaÁıes, È a perda de relaÁıes humanas estabelecidas, e de uma auto-imagem
como pessoa vidente.
Imagens
Imagens
Imagens
Imagens
Imagens mentais
mentais mentais mentais
mentais eeeee sÌmbolo
sÌmbolo sÌmbolo sÌmbolo
sÌmbolo
O homem utiliza a palavra escrita ou falada para expressar o que deseja
transmitir. Sua linguagem È cheia de sÌmbolos, mas ele tambÈm, muitas vezes, faz
uso de sinais ou imagens n„o estritamente descritivos. As imagens mentais n„o
s„o passivas, pois, de qualquer maneira, constituem-se na forma como, em
momentos diversos, percebemos a vida social e tudo o que nos circunda.
De acordo com Burlingham (1965), citado por Amiralian (1997, p. 47), È
possÌvel transportarmo-nos ao mundo da escurid„o, pois, segundo o autor, h·
ìum vazio na mente daqueles que constroem suas imagens do mundo sem as
impressıes visuais e parece que este vazio È ocupado em parte pela atenÁ„o da
crianÁa ‡s sensaÁıes vindas de seu prÛprio corpoî.
SÌmbolo È um termo, um nome ou mesmo uma imagem que nos pode ser
familiar na vida di·ria, embora possua conotaÁıes especiais alÈm do seu significado
evidente e convencional. Implica alguma coisa vaga, desconhecida ou oculta
para nÛs. Assim, uma palavra ou uma imagem È simbÛlica quando implica alguma
coisa alÈm do seu significado manifesto e imediato.
OOOOO cÈr ebrooooo eeeee asasasasas memÛrias
cÈr
cÈr
cÈr
cÈrebr
ebr
ebr
ebr
memÛrias
memÛrias
memÛrias
memÛrias
Os neurocirurgiıes constataram que a memÛria È evocada por duas ·reas
cerebrais complementares, cuja sinergia d· uma carga afetiva ao tempo presente,
a fim de que ele possa reaparecer ulteriormente no pensamento. As emoÁıes s„o
indispens·veis para a criaÁ„o e para a categorizaÁ„o das lembranÁas. Mas o cÈrebro
lÌmbico n„o basta em si mesmo para proporcionar uma memÛria inteira. Ele sÛ
gera rastros fragment·rios, que sÛ se tornam lembranÁas ao final de um trabalho
analÌtico sobre os pensamentos e as emoÁıes, ou seja, no momento do
estabelecimento do contexto.
A memÛria È uma funÁ„o complexa de dados perceptuais anteriores, de
uma atividade emocional lÌmbica e do meio ambiente imediato. ìAs necessidades
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e desejos individuais determinam a nossa maneira de classificar os indivÌduos, os lugares e os acontecimentos
e desejos individuais determinam a nossa maneira de classificar os indivÌduos, os
lugares e os acontecimentos que povoam a nossa vida cotidianaî, escreve IsraÎl
Rosenfield (apud MEYER, 2002, p. 101).
AAAAA natur eza dododododo estado
natur
natur
natur
natureza eza eza eza
estado estado estado
estado dedededede sono
sono sono sono
sono eeeee dedededede sonho:
sonho:
sonho:
sonho:
sonho:
aspectos
aspectos
aspectos
aspectos
aspectos histÛricos
histÛricos histÛricos histÛricos
histÛricos eeeee fisiolÛgicos
fisiolÛgicos fisiolÛgicos fisiolÛgicos
fisiolÛgicos
Lima (2003) explica que o sono È um mecanismo psicofisiolÛgico que envolve
toda a atividade cerebral e o sistema nervoso, que entra em processo de
relaxamento visando ‡ reposiÁ„o de energias, a produÁ„o de hormÙnios e o
metabolismo de subst‚ncias. Sono e sonho regulam nossa afetividade, re-
equilibram nosso sistema nervoso e nossas emoÁıes. ApÛs v·rias fases de
relaxamento, surgem as produÁıes onÌricas, que geram em nossa psique o mesmo
processo reparador que o sono proporciona ao organismo.
No campo da Fisiologia, a descoberta mais importante foi a da existÍncia
do sono REM, do inglÍs rapid eye movement (movimento ocular r·pido). Krippner
(1998a, p. 8) descreve que esse È o primeiro perÌodo e inicia-se cerca de noventa
minutos depois de ter comeÁado a dormir. Os sonhos que transcorrem no estado
REM tÍm componentes visuais fortes e s„o facilmente lembrados, ao contr·rio do
que acontece com aquele ocorrido em outras fases do sono.
N„o È f·cil estudar a respeito das imagens presentes nos sonhos de
deficientes visuais, porque o profissional n„o encontra prontamente ao seu dispor
instrumentos que possam auxili·-lo. AlÈm disso, h· carÍncia de estudos brasileiros
sobre a cegueira. Nesse contexto, veremos alguns estudos voltados ‡ tem·tica.
Em 1988, o fÌsico HÈlder BÈrtolo, para saber se os cegos de nascenÁa tÍm
ativaÁ„o do cÛrtex visual, realizou um estudo que visava a estabelecer correlaÁıes
entre par‚metros espectrais do EGG (Eletroencefalograma) de sono e as vari·veis
dos relatos onÌricos, particularmente os conte˙dos visuais, e analisar as diferenÁas
entre fases REM (sono paradoxal) e NREM (sono lento), em sonhos de cegos. Os
volunt·rios apresentaram conte˙dos visuais nos seus relatos onÌricos, com
diferenÁas quando acordados em fase REM e NREM, ocorrendo maior incidÍncia
durante o sono paradoxal. Concluindo, os volunt·rios cegos relatam conte˙dos
visuais nos seus sonhos, a grande maioria durante o sono REM. (ADEVA, 2004)
Segundo Blank (apud AMIRALIAN, 1997, p. 55), os nascidos cegos e os
que ficaram cegos antes dos cinco anos de idade n„o tÍm sonhos visuais,
predominando em seus sonhos as imagens auditivas. J· aqueles que ficaram
cegos depois dos sete anos tÍm sonhos povoados de imagens visuais.
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An·lise An·lise An·lise An·lise dos An·lise dos dos dos dados dos dados dados dados dados dedededede
An·lise
An·lise
An·lise
An·lise dos
An·lise dos
dos
dos dados
dos dados
dados dados
dados dedededede pesquisa
pesquisa
pesquisa
pesquisa
pesquisa
Os conte˙dos das entrevistas realizadas est„o demonstrados em quadros a
seguir expostos. O primeiro demonstra a ocorrÍncia de imagens nos sonhos dos
entrevistados. Os quadros seguintes apresentam associaÁıes entre essas imagens,
os sentidos ativados pelas mesmas e as palavras associadas. J· o ˙ltimo quadro
apresentado demonstra a an·lise comparativa dos dados.
Quadro 1 - Os portadores de cegueira sonham, independentemente de contar com o
sentido da vis„o.
Fonte: Dados da Pesquisa, 2004.
Como visto, ambos os entrevistados sonham e h· ocorrÍncia de imagens
em seus sonhos, sendo que nos sonhos do PCA h· a presenÁa de cores. Depois
de confirmado que o PCC sonha, s„o identificadas as imagens mentais que
apareceram nos seus sonhos e relacionadas aos sentidos.
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Quadro 2 - Entrevistas: Imagens Mentais dos Sonhos e os Sentidos (PCC) Fonte: Dados da Pesquisa
Quadro 2 - Entrevistas: Imagens Mentais dos Sonhos e os Sentidos
(PCC)
Fonte: Dados da Pesquisa (2004).
PPPPPer
er
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cinco sentidos?
cinco
sentidos?
sentidos?
sentidos?
sentidos?
AlÈm de ativar os sentidos da audiÁ„o, tato e paladar, algumas imagens
mentais ocorridas nos sonhos desse sujeito da pesquisa foram significativas, pois
parecem transcender tempo e espaÁo. O sujeito relata que o que apareceu em
alguns sonhos foi ìinusitadoî, pois n„o sabe por que sonhou com aquelas imagens.
A ocorrÍncia de imagens inesperadas ficou evidenciada na seguinte fala: ìFoi,
nÈ, coisa atÈ esquisita, nÈ, porque È uma coisa que eu nunca ouvi falar [ ]î ...
(Sonho 4 - PCC) Sendo assim, foram focalizados aspectos ligados a percepÁıes
alÈm dos cinco sentidos, aspectos que transcendem tempo e espaÁo.
O PCC afirmou acreditar que as imagens de Èpocas passadas ocorridas em
seus sonhos tivessem ligaÁ„o com vidas passadas, mas tambÈm associou tais
imagens aos conte˙dos das aulas de HistÛria estudados no dia anterior.
Pela an·lise realizada, percebeu-se que os sonhos relatados pelo PCC foram
aqueles mais antigos, ocorridos no perÌodo entre 11 e 19 anos de idade, e os
relatos mostraram o quanto sua funÁ„o intuiÁ„o È aguÁada, misturada com
percepÁıes t·teis e auditivas.
1 A vis„o aqui referida n„o È obviamente a vis„o fÌsica, mas sim a percepÁ„o de uma
imagem mental por parte do sujeito, a qual È descrita como uma vis„o.
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Quadro 3 ñ Entrevistas: Imagens Mentais dos Sonhos e MemÛrias Visuais (PCA) Fonte: Dados da Pesquisa
Quadro 3 ñ Entrevistas: Imagens Mentais dos Sonhos e MemÛrias
Visuais (PCA)
Fonte: Dados da Pesquisa (2004).
Esse sujeito, desde o inÌcio da pesquisa, demonstrava a import‚ncia dos
sonhos em sua vida, afirmando sentir vontade de falar, de ter alguÈm ao seu lado
que escrevesse todos os seus relatos para, um dia, no futuro, escrever um livro.
Acredita que um livro tratando dos sonhos dos cegos chamaria atenÁ„o.
Um ponto que se pode destacar, na an·lise dos dados da pesquisa com o
PCA, foi que seus sonhos que, atÈ ent„o, continham representaÁıes de imagens
mentais passadas foram sendo re-elaborados com produÁıes de novas
combinaÁıes de cenas, pessoas e locais que surgiram no decorrer da pesquisa.
Assim, surgiram novas imagens em seus sonhos, diferentes daquelas que havia
conhecido antes de adquirir a deficiÍncia visual.
Percebe-se, ent„o, que, neste momento, a nova imagem est· relacionada
com som, sendo ativado o sentido da audiÁ„o. O PCA, depois de seu acidente,
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diz ter uma audiÁ„o bem mais afinada, e que talvez seja pela necessidade de compensaÁ„o da
diz ter uma audiÁ„o bem mais afinada, e que talvez seja pela necessidade de
compensaÁ„o da perda da vis„o. Esse sujeito demonstra necessidade de mudanÁas
em suas experiÍncias onÌricas, como sonhar com pessoas e locais que n„o possam
ser captados pelo sentido da vis„o.
A partir das imagens mentais guardadas, outras produÁıes com novas
combinaÁıes surgiram nos sonhos no decorrer da pesquisa. Percebeu-se que sua
imagem corporal n„o aparecia e que, nos sonhos de tempos passados, sua imagem
corporal aparecia. Pela an·lise realizada, percebeu-se que os sonhos do PCA
foram mais atuais, e que os sentidos da vis„o, audiÁ„o e tato foram ativados. As
memÛrias visuais aparecem representadas por tempos passados e tambÈm na
produÁ„o de novas combinaÁıes. A funÁ„o intuiÁ„o tambÈm È ativada. Mas seus
relatos reproduziram a imagem corporal da Època de sua adolescÍncia,
secundarizando-se a imagem corporal atual.
Quadro 4 - Comparativo: Temas associados ‡s imagens ocorridas nos
sonhos
Fonte: Dados da Pesquisa (2004).
Para essa sistematizaÁ„o, foram aglutinados alguns pontos significativos
das imagens mentais ocorridas nos sonhos dos dois sujeitos da amostra. Um dos
dados que chamou a atenÁ„o, embora esperado, foi a constataÁ„o de que a vivÍncia
da cegueira no PCC tende a dificultar a express„o do que È uma imagem ou a
sua descriÁ„o com muitos detalhes, como se observa na fala a seguir.
Agora, imagem, imagem (risos) eu n„o tenho noÁ„o de imagem, nÈ! Mas
È como se fosse imagem, n„o tem cores, entendesse? (1™ Entrevista -
Questıes Abertas - PCC)
[
]
Eu n„o sei te explicar detalhadamente. (Sonho 4 - PCC)
O portador de cegueira congÍnita possui menor ocorrÍncia de imagens
nos relatos de seus sonhos, maior ocorrÍncia de sonhos prÈ-cognitivos, alguns
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relatos com cores e imagens mentais que n„o correspondem ‡ personalidade atual e tambÈm referentes ‡
relatos com cores e imagens mentais que n„o correspondem ‡ personalidade
atual e tambÈm referentes ‡ sua imagem corporal.
Por outro lado, com o PCA, um ponto significativo observado durante a
pesquisa refere-se aos enormes relatos dos sonhos contendo informaÁıes
minuciosas de formas e cores, nomes de ruas e locais p˙blicos. Essa caracterizaÁ„o
enquadra-se tanto nos sonhos dos tempos passados, como nos sonhos de novas
imagens mentais que foram criadas. … significativo esclarecer que as memÛrias
visuais que estavam guardadas fizeram parte de seus sonhos nos dois momentos.
Nessa an·lise transversal, podem-se trazer do referencial teÛrico os estudos
de Krippner (1998b), pois muitos dos relatos de sonhos estudados podem ser
enquadrados nas categorias denominadas por esse autor como sonhos exÛticos,
principalmente nas categorias dos sonhos de vidas passadas e prÈ-cognitivos, os
quais trazem imagens de Èpocas que n„o correspondem ‡ sua personalidade
atual, e imagens de eventos que ainda n„o aconteceram, n„o sendo, portanto,
informaÁıes do dia-a-dia, percebidas em alguns dos sonhos pesquisados.
Outro estudo que contribui para essa an·lise È o realizado por Lima (2003),
que, em sua pesquisa, destaca as particularidades da realidade psÌquica de um
portador de deficiÍncia visual, pois alÈm dos componentes pessoais e sociais,
observam-se componentes universais presentes na vida dos deficientes. S„o
componentes que transcendem tempo e espaÁo, credos e dogmas, culturas e
sociedade. O referido autor refere-se aos arquÈtipos descritos por Jung, explicando
que eles nos mostram, de forma pr·tica, que, alÈm dos conte˙dos individuais, da
dor e do sofrimento particular do deficiente, existem elementos comuns se
repetindo, independentemente da histÛria de vida pessoal. Entretanto, embora as
imagens sejam universais, o significado que elas adquirem para cada um difere
dos demais. Os sonhos s„o, ent„o, leituras simbÛlicas pessoais.
A pesquisa demonstrou que o PCC, privado do sentido da vis„o desde seu
nascimento, apenas pelo tato encontra muitos objetos que lhe interessam. Sente
os objetos com sua simetria, seus formatos, procurando, dessa forma, captar sua
imagem por meio dos outros sentidos.
O PCA, com seu entusiasmo em buscar descriÁıes para as imagens que
n„o foram captadas visualmente, procura estar em contato constante com o mundo
externo, em suas formas e nas descriÁıes de cores, para que essas imagens
permaneÁam em sua mente, mesmo sendo criadas por meio dos outros sentidos.
A pesquisa cumpriu com o objetivo proposto - conhecer as imagens mentais
presentes nos sonhos dos portadores de cegueira congÍnita e adquirida, cabendo
dizer, porÈm, que o tema È amplo e suscita novos estudos. Uma pesquisa que se
proponha a aprofundar esse tema pode trazer ricas e valiosas contribuiÁıes, uma
vez que a import‚ncia terapÍutica da tÈcnica de sonhos parece indicar caminhos
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possÌveis para o entendimento psicoter·pico das pessoas cegas. Talvez, ent„o, um estudo que se proponha a
possÌveis para o entendimento psicoter·pico das pessoas cegas. Talvez, ent„o,
um estudo que se proponha a verificar a efic·cia desse mÈtodo terapÍutico com
sujeitos privados da vis„o, utilizando os sonhos como facilitadores e organizadores
de seu mundo interno, seja uma das rotas abertas.
Assim, percebe-se a deslumbrante dimens„o onÌrica da mente, com o
mistÈrio e o poder das imagens, vendo nelas uma fonte eterna de sabedoria,
capaz de lanÁar o ser humano para alÈm de uma dimens„o que transcenda o
sentido da vis„o.
Abstract
Abstract
Abstract
Abstract
Abstract
Mental Mental Mental images
Mental images ininininin the dreams:
Mental images
images
images
the
the
the dreams: study
the dreams: study of case with
dreams:
dreams: study of case with
study
study of
of
of case
case
case with two carriers
with
with two
two
two carriers of
two carriers of
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carriers of
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visual visual visual deficiency,,,,, ininininin the
visual deficiency
visual deficiency
deficiency
deficiency
the
the
the Crici˙ma
the
Crici˙ma
Crici˙ma
Crici˙ma City
Crici˙ma
City
City
City
City
The author makes study on the mental images in the dreams, with two deficient
appearances: a carrier of congenital blindness and another one with acquired
blindness. She also presents the stories of the dreams and a transversal analysis
with the gotten data. The results had shown that, the participants dream and form
mental images, are with the perception of the others directions or with the kept
visual memory. It concludes with proposal to give to continuity with the research,
going deep this subject that can bring rich and valuable contributions.
KKKKKeywor
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eywords:
ds:
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ds: Visual deficiency. Dreams. Mental images. Felt. Visual memory.
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ReferÍncias
ReferÍncias
ReferÍncias
ReferÍncias
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