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O RESGATE HISTÓRICO DA EVOLUÇÃO DO TRABALHO, OCUPAÇÃO E EMPREGO Período da Antiguidade Clássica

A discussão que se segue faz um resgate histórico do

conceito de trabalho, ocupação, emprego. Para atingir tal objetivo,

apresenta-se dividida em Antiguidade Clássica, Idade Média, e Idade Moderna.

O estudo da História leva à percepção das transformações

relacionadas com as questões do trabalho, da ocupação e do emprego que ocorreram durante o processo de civilização da humanidade. Seria impossível compreender o trabalho humano, sem levar em conta a história da raça e de suas descobertas. A transformação da humanidade ou, mais precisamente, de certos grupos de seres humanos, da condição de caçadores e pescadores

à de agricultores, da vida migratória à sedentária, em sua luta pela sobrevivência, constitui-se numa revolução marcante da História. É

importante, ainda, destacar a relevância das alterações climáticas e ecológicas que contribuíram para tal mudança, deixando marcas indeléveis até os dias de hoje. Período Pré-Histórico

O Período Pré-Histórico abrange toda a época anterior a 4000

a. C., desde o aparecimento dos primeiros seres humanos, por volta de um milhão de anos atrás, como resultado da evolução dos hominídeos, na Era Cenozóica. Para Oliveira (1987), é naquele período que podem ser encontrados os primeiros vestígios do que hoje é definido como trabalho, mais precisamente no Período Neolítico, nas chamadas "comunidades tribais", consideradas como

a última etapa das sociedades sem classes, dotadas de formas

primitivas de economia (caça, pesca, criação, formas rudimentares de agricultura). Há milhões de anos, no começo do Pleistoceno, viveram os australopitecos, os mais antigos tipos de homo faber conhecidos. O autor sustenta seu argumento a partir dos desenhos encontrados em grutas da África austral, que podem ser associados aos mais antigos utensílios do mundo e às mais antigas formas de trabalho.

A transição do estado de animalidade ao de homem ocorre no

momento em que o australopiteco atrita duas pedras entre si, com o

fim de romper uma delas, fazendo-a mais afiada ou cortante.

Desde o surgimento do homem na terra até sua forma evolutiva atual, homo sapiens, já se passaram aproximadamente

um milhão de anos. O homem, durante muito tempo, viveu como animal predatório. Caçar, pescar, colher frutos silvestres e matar outros homens para alimentar-se foram, durante longo tempo, as únicas formas de que dispunha para assegurar os necessários meios de subsistência. "Com o decorrer do tempo, técnicas e habilidades particulares foram inventadas e aperfeiçoadas - cortar pedras, fabricar armas especiais, construir elementos de transportes - tudo, porém, dentro da estrutura geral da economia predatória. A primeira grande revolução econômica ocorreu apenas com a descoberta da agricultura e a domesticação de animais" (Cipolla, 1977, p.18).

A caça, a pesca e a coleta dos frutos silvestres foi o que

garantiu a sobrevivência da população humana no planeta, até por volta do ano 10000 a. C. A partir de 8000 a. C., como consequência das alterações das condições climáticas, desenvolveram-se no Oriente a agricultura e a domesticação dos animais. Consequentemente, surgiram a aragem da terra e as primeiras colheitas de cereais.

A partir de 5000 a. C., no Oriente, realizou-se o cultivo de

plantas, prática que migrou para o Ocidente. Assim, entre 4500 e 2000 a. C., a agricultura começou a se desenvolver na região européia. A agricultura contribuiu para a fixação do homem ao solo e tornou-se atividade fundamental, dada a necessidade de produzir alimentos que viessem suprir o esgotamento do estoque natural. Tais atividades diversificaram-se e evoluíram da coleta à caça, à pesca e ao pastoreio. As principais mudanças ocorreram à medida que o homem passou a construir instrumentos. Há indicativos de que, com o desenvolvimento das atividades de

pastoreio, passou, aos poucos, a realizar atividades de agricultura. Dessa maneira, a terra tornou-se o elemento de fixação do homem, uma vez que até então ele se caracterizava pelo nomadismo.

A história do trabalho teve sua origem na busca humana de

formas de satisfazer suas necessidades biológicas de sobrevivência. Essa busca reproduz-se historicamente no produzir para o consumo e para a garantia da sobrevivência. E, à medida que as necessidades foram sendo satisfeitas, ampliaram-se,

INTRODUÇÃO À SOCIOLOGIA AULA: 01 ALUNO: TURMA: TEN RONEY EVOLUÇÃO DO TRABALHO AO LONGO DA
INTRODUÇÃO À SOCIOLOGIA
AULA: 01
ALUNO:
TURMA:
TEN RONEY
EVOLUÇÃO DO TRABALHO AO LONGO DA HISTÓRIA

contribuindo para a criação de novas relações, que passaram a determinar a condição histórica do trabalho (Oliveira, 1987). As primeiras civilizações surgiram em alguns pontos

espalhados no vasto bloco desabitado ou esparsamente habitado

da Eurásia. Entre 1000 a. C. e 500 d. C., o padrão começou a

mudar. Embora a América, a Austrália e a África ao Sul do Saara ainda estivessem fora do curso principal da história mundial, onde permaneceriam durante outros mil anos, as civilizações da Europa e da Ásia formavam, naquela época, um cinturão contínuo. As sociedades ditas "primitivas" e "arcaicas" sofreram uma

transformação histórica particular, na qual ocorreu a supressão de um sistema econômico pela ação de outro. De repente, um esquema econômico, de caráter singular e destrutivo, passou a dominar e controlar o tecido institucional e social, diferentemente do que ocorria nas sociedades antigas, para as quais "o progresso técnico, o desenvolvimento econômico, a produtividade e mesmo a eficiência não foram objetivos significativos desde o início dos tempos. Enquanto se podia manter um estilo de vida aceitável, qualquer que fosse a sua definição, a cena era dominada por outros valores" (Finley, 1980, p. 202). Período Helênico O Helenismo é considerado como o período histórico que se situa entre a conquista da Península Helênica por Alexandre Magno

e a dominação dos Romanos. As conquistas Macedônicas

estenderam-se além dos limites do mundo conhecido, levando a civilização helenística para fora do Mediterrâneo e atraíram as idéias e energias européias, pela primeira vez, para o Oriente. Provavelmente, também a tornaram mais vulnerável à investida romana no Ocidente (Barraclough, 1967). Alexandre Magno transformou o mundo grego, ao tornar-lhe

disponíveis os recursos do Oriente Médio. Em 334 a.C., cruzou o Helesponto da Europa à Ásia, arrebatou a Ásia Menor, passando

da Síria ao Egito, seguindo, depois, para Leste e Sudeste. Com a

morte de Alexandre, em 323 a. C., seu vasto império se dividiu entre três generais: a primeira parte, com capital em Pela, correspondia ao velho reino da Macedônia; a segunda foi o Egito; a terceira, a Selêucida. Alexandre havia aberto horizontes. Os

gregos, conhecedores agora de novas filosofias e religiões, descobriram-se membros não apenas de uma comunidade local, a polis, mas também da cosmopolis, o mundo civilizado e crescentemente helenizado. O novo desenvolvimento trouxe difusão de riquezas e de transações em todas as regiões. Após duas gerações de guerra, os Ptolomeus, os Selêucidas e os reis Antígonos da Macedônia alcançaram equilíbrio militar e político.

Atenas havia perdido um pouco da força política, mas Pérgamo, Rodes, Delos e Ponto, no mar Negro eram potências ascendentes, independentes, graças, em boa parte, ao comércio. Os governantes gregos da Báctria separaram-se do império Selêucida (cerca de 240 a.C.) e controlaram o Afeganistão (incluindo partes do noroeste da Índia e da Ásia Central) durante mais de cem anos. No mundo antigo, não se adotava o conceito de "economia", consequentemente, não se conheciam os elementos conceituais que, em seu conjunto, constituem o que se chama hoje de economia. Não havia a obrigação de os povos "progredirem" materialmente; as atividades eram discutidas e registradas, porém não eram combinadas numa unidade ou num subsistema diferenciado de sociedade. A diferença que se estabelecia era relacionada com a estrutura da sociedade antiga, na qual inexistiu a "conglomeração de mercados interdependentes" que caracteriza a economia moderna. Mas é bom lembrar que a palavra "economia", de origem grega, compõe-se de oikos, "casa ou unidade doméstica", e da complexa raiz semântica nem - aqui no sentido de "regulamentar, administrar, organizar". O livro modelo para a tradição ainda representada por Hutcheson (Professor de Filosofia na Universidade de Glasgow e mestre de Adam Smith) era o Oikonomikos, de Xenofonte (ateniense do século IV a C.), um guia para o proprietário rural. É muito importante que se enfatize o fato de que Xenofonte iniciou seu texto com uma longa introdução sobre aspectos de uma vida boa e o uso correto da riqueza, seguindo-se- lhe: uma seção sobre as virtudes e qualidades de direção necessárias ao senhor da casa e sobre a educação e governo dos seus escravos; uma seção detalhada sobre as virtudes e a educação da mulher; e a maior de todas as seções, a respeito da agronomia, mas agronomia em linguagem corrente, por assim dizer, não exigindo do leitor conhecimentos técnicos. Note-se que os conceitos apresentavam um sentido ético para a administração do oikos, muito diferente das contemporâneas. Lógico que o trabalho também estava impregnado do mesmo sentido (Finley,

1980).

Não é possível escrever-se uma história dos preços ou dos salários ou das "crises" econômicas na Antiguidade. Não só não existem dados, como também - e isto é o mais importante - um tal exercício, em si, não teria sentido, seria mesmo falso. "O preço dos cereais, por exemplo, era sensível não apenas às colheitas, às condições de transporte e à estrutura das rendas, como também a variáveis mais ou menos independentes, tais como, o sistema fiscal (especialmente quando os impostos eram cobrados em gêneros),

as requisições compulsivas para o exército, o grau de absentismo

dos proprietários fundiários e de auto-suficiência dos camponeses e uma multidão de outros fatores cuja origem se encontrava nos

valores ou na estrutura política da cidade-estado grega ou do Império Romano" (Finley, 1980, p.7-8).

Os gregos apontavam distinções entre o esforço do trabalho

na terra, a fabricação do artesão e a atividade livre do cidadão que

discutia os problemas da comunidade. O trabalho na terra possuía, originalmente, para eles, valor e prestígio, pois estabelecia um elo com a divindade, que rege a fertilidade da terra e os ciclos naturais.

Para os gregos, a vida humana e suas atividades desenvolviam-se em dois espaços diferenciados: na esfera da vida privada e na esfera da vida pública. Havia uma separação entre os trabalhos realizados no espaço privado (doméstico) e os praticados

no espaço público, o trabalho da polis: daí a distinção entre os

diferentes esforços despendidos e os diferentes entendimentos

sobre o trabalho.

O espaço privado era o domus, a casa, o lar, o local onde se

realizavam as tarefas e atividades relativas à preservação da vida

individual e da espécie e à satisfação das necessidade vitais. Constituía-se no espaço onde se dava a economia, onde se realizava o trabalho que garantia a sobrevivência humana, seja no sentido biológico, seja no sentido existencial.

Segundo Arendt (1983), as atividades realizadas na esfera da vida privada eram atividades específicas do labor, atividades estas que aproximavam o homem dos animais. Embora fossem atividades de manutenção da vida, tudo o que era gerado era imediatamente consumido. O labor mantinha os homens circunscritos diante de sua mortalidade biológica.

A esfera da vida pública constituía-se na participação do

cidadão na polis, criação do século VIII a. C. e início de uma nova

era para a Grécia. Os cidadãos gregos eram iguais entre si; libertos

da sujeição às necessidades vitais e com direito de se exporem aos

olhos e ouvidos dos outros cidadãos e serem testemunhados, assim, em seus atos e palavras, que os exibiam na excelência de sua singularidade. A polis, a cidade Grega, era o espaço político, no qual se exercitava o diálogo, discutindo-se os negócios, a vida, os

comportamentos e as normas que regiam o viver em comunidade.

A chave da história grega é a polis, ou a cidade-estado,

comunidade limitada independente e autônoma, que exigia de seus

membros lealdade total.

A polis grega constituía-se no espaço da discussão, onde se

efetivava a democracia dos iguais, dos homens livres, os cidadãos livres que decidiam pelo diálogo os seus negócios e buscavam o

bem comum. Diálogo é um termo de aplicação antiga. Pode-se afirmar que os seres humanos, que se têm reunido em pequenos grupos para conversar, durante milênios, têm buscado o diálogo. Assim, o diálogo, com a discussão dos problemas comuns, e não o trabalho, eram as atividades mais significativas para o homem livre. A palavra diálogo vem de duas raízes gregas, dia (significando "através" ou "um com o outro") e logos (significando "conhecimento"). Nas cidades-estado gregas, a esfera privada-familiar era o espaço da economia. Ali predominavam as atividades agrícolas, com uma agricultura limitada que não se estendia além do grupo de vizinhança. Assim, o trabalho era voltado para a satisfação das necessidades de sobrevivência das pessoas; embora possuísse uma natureza econômica, sua finalidade era prover a família dos meios de subsistência. Na antiguidade greco-romana vigorou o modo de produção escravagista. No ano 310 a.C., havia, em Atenas, 400.000 escravos para 21.000 cidadãos. As propriedades cresciam e mais e mais trabalhos eram feitos por escravos, fiscalizados por feitores, também escravos, em proveito do senhor ausente. "Aos poucos, o trabalho do camponês foi substituído pelo escravo, já que era mais conveniente comprar um indivíduo inteiramente submetido ao seu dono do que contratar um homem livre" (Durant, 1955, p.273). Os escravos, às vezes, ocupavam posições profissionais de responsabilidade, o que era um indício da abstenção radical da classe dirigente de toda a forma de trabalho produtivo, qualquer que ele fosse, mesmo de caráter executivo. Os senhores consideravam tanto o trabalho agrícola quanto o artesanal como "adaptações" à natureza, e não como sua transformação, sendo, como tal, formas de serviço. Sem dúvida, esse sentimento está expresso na afirmação de Finley (1980) de que, para Platão, o trabalho era alheio a qualquer valor humano, parecendo, em certos casos, ser antítese daquilo que é essencial ao homem. Tal afirmação é básica para o assunto discutido nesta tese, pois distingue a ocupação, do ser livre, do trabalho, daquele que é escravo ou não é livre. A necessidade de escravos justificava-se , portanto, na época, em virtude do caráter de natureza servil de que estavam envolvidas todas as tarefas que servissem às necessidades de manutenção da vida. A escravidão, na Antiguidade, diferentemente dos tempos modernos, não era, primordialmente, uma forma de obter mão-de-obra barata, nem instrumento de exploração para fins de lucro. Ela constituía-se na tentativa de excluir o labor das condições da vida humana. Uma vez que se considerava que tudo

o que o homem tinha em comum com as outras formas de vida animal era inumano. É importante lembrar que laborar significava ser escravizado pela necessidade, a escravidão era inerente às condições da vida humana (Arendt, 1983). Aristóteles inicia sua discussão sobre escravidão (Política) com a afirmação de que "sem o necessário, nem a vida, nem a boa vida são possíveis". Ter escravos era a forma de dominar a necessidade. Os camponeses, que produziam o necessário para a vida, são classificados, tanto por Platão como por Aristóteles, na mesma categoria de escravos (Arendt, 1983). O desprezo dos antigos gregos pelo labor resulta da luta para não sujeitar-se às necessidades, bem como da impaciência com relação a todo esforço que não deixasse qualquer vestígio para ser lembrado. Na medida em que as exigências da vida na polis consumiam cada vez mais o tempo do cidadão, deu-se ênfase à abstenção de qualquer atividade que não fosse política, com a abominação a tudo aquilo que exigisse esforço. Para os gregos antigos, existia a convicção de que é servil o labor do corpo, exigido por sua próprias necessidades. Consequentemente, as ocupações que não consistiam "em labor, mas ainda assim eram exercidas com a finalidade de atender às necessidades da vida, foram niveladas à condição de labor. Isso explica as variações de avaliação do trabalho e de sua classificação em diferentes períodos de tempo e em diferentes lugares" (Arendt, 1983, p. 94). Os escravos foram fundamentais para a economia antiga no período clássico grego. Mas é bom lembrar que o escravo grego é escravo por condição política, e não por condição econômica. Eram consideradas superiores as atividades exercidas por homens livres, independentes, pois, na base da opinião que os gregos e romanos tinham da riqueza, estava a convicção de que entre as condições necessárias à liberdade estavam a independência pessoal e o lazer (Finley, 1980). A concepção de liberdade dos gregos antigos correlacionava- se com a modalidade de ocupação e a relação das diferentes classes sociais com o trabalho. Assim, o trabalho dependente (ou involuntário) era aquele exercido por quem trabalha para outrem, não por ser membro da família, como unidade doméstica camponesa, nem porque entrou num acordo voluntário e contratual (por salário ou honorários), "mas porque foi obrigado a fazê-lo por alguma pré-condição, de nascimento numa classe de dependentes, dívida, captura ou qualquer outra situação que, por lei ou costume, reduzia automaticamente, em alguma medida, a sua liberdade de

escolha e ação, normalmente durante um longo período ou durante toda a vida" (Finley, 1980, p 90). Segundo Oliveira (1987), na formação da antiga Grécia, em que pesem a ausência de dados e informações mais detalhadas, há distinção entre terra pública e privada, e, conseqüentemente, entre as formas de organização do trabalho, como já discutido até aqui. A estrutura dominante era basicamente de produção agrícola, de artesanato doméstico, para atender às necessidades locais. Para efeitos competitivos, a plebe romana do século V a.C. era, na sua origem, agricultora, enquanto a tradição patrícia assentava-se na pecuária. Em Atenas, a partir do século VII a. C., desenvolveu-se a agricultura mercantil, articulada com a circulação da moeda, o que gerou a ampliação das atividades artesanais e comerciais entre as cidades. Os povos, na Antiguidade oriental, tiveram, igualmente, a agricultura como base econômica; também a pecuária, a pesca, o artesanato e o comércio eram praticados. O trabalho era fundamentalmente compulsório, com mão-de-obra pouco diversificada, ligada às comunidades aldeãs. A organização do trabalho rural dessa época não é bem conhecida, mas se sabe que prevaleceu a cooperação na produção. O camponês encarregava- se de todas as atividades: arava, semeava, limpava, colhia, transportava; fabricava o vinho, o pão, a cerveja; caçava, pescava e cuidava do gado; fazia artesanato doméstico, produzindo artigos em madeira e pedra; em alguns casos, cuidava da apicultura. A vida urbana dessa época, aldeã, dependia estreitamente da economia rural, sendo as aglomerações urbanas extensões do campo. O trabalho urbano reunia, em pequenas oficinas, trabalhadores diversos, ocupados em atividades ligadas à produção de artigos de couro, madeira e pedra, além da metalurgia (ouro, prata, bronze). Com o desenvolvimento da agricultura, os homens descobriram no plantio uma nova fonte de alimentos para si e seus filhos e começaram a se multiplicar em processo acelerado (Huberman, 1981). A expansão numérica levou à conquista de novas áreas de cultivo, originando, com a atividade de plantio, as noções de propriedade e de produto excedente. O produto excedente, aquele que não era imediatamente consumido, foi gradativamente gerando uma classe ociosa, e a propriedade, tal como se encontra em estágios posteriores da evolução econômica, separou-se do trabalho, a ponto de estabelecer-se a desapropriação total de quem trabalha pelo suposto direito de propriedade do ocioso. Nesse contexto, inseriu-se a prática da guerra, que transformou os povos conquistados em produtores

comprometidos com a entrega de seus excedentes aos donos da terra.

Período Romano

No Período Clássico, em Atenas e em outras cidades gregas,

a partir do século VI a. C., e em Roma e na Itália, desde o início do

século III a. C. até o século III d. C., a escravatura substituiu efetivamente outras formas de trabalho dependente. Contudo, nem

a ascensão, nem o declínio da escravatura na Antiguidade podem

ser compreendidos isoladamente. Comenta Finley (1980) que, por pouco que se compreenda concretamente a situação, pode-se ter

certeza de que nos períodos arcaicos, tanto na história grega quanto na romana, a escravatura tinha pouca importância, sendo as relações de clientela, a servidão por dívidas e afins as principais formas de trabalho dependente (Finley, 1980). Nos séculos IV e V da Era Cristã, a escravatura, no seu sentido preciso, tinha perdido o lugar central, mesmo nas velhas áreas clássicas: nas cidades, recuou em favor do trabalho, na sua maior parte, independente; no campo, em favor de camponeses dependentes chamados coloni. Essa expansão e diversificação nas sociedades antigas contribuiu para que o trabalho se universalizasse, lançando raízes nos diferentes povos e civilizações, ainda que com concepções e atividades que diferem substancialmente daquelas em vigor nos dias atuais, nos quais predomina a economia de mercado. Após a instalação do Império Romano, apesar de as atividades agrícolas continuarem sendo a ocupação predominante,

o comércio foi fortalecido, tornando-se Roma o centro do comércio

internacional, havendo, então, uma diversificação de atividades que

perdurou até o final da Idade Antiga. Início da Era Cristã

O Cristianismo, última grande religião mundial antes do

Islamismo, originou-se na Palestina. Pouco se sabe sobre o seu fundador, Jesus de Nazaré, antes de, aos 30 anos, começar sua pregação. Seu país fora anexado formalmente a Roma no ano 6 d. C. Havia muitas seitas, algumas basicamente espirituais, que começaram a levantar polêmicas entre os judeus. Após pregar durante três anos, o fundador do Cristianismo foi entregue ao procurador romano e crucificado. Na tradição judaico-cristã, o trabalho associa-se também à noção de punição, maldição. Na Bíblia, o trabalho é apresentado como uma necessidade que leva à fadiga e que resulta de uma maldição: "comerás o pão com o suor de teu rosto" (Gn. 3,19). Decorre desse princípio bíblico o sentido de obrigação, dever, responsabilidade, impregnado à noção de trabalho.

As Santas Regras de São Bento também tiveram grande

influência na concepção do trabalho, baseando-se na necessidade de salvação do homem e sua aproximação a Deus, por meio do

trabalho e como forma de não cair em tentação. É dessa forma que

os beneditinos, colocando em prática seu lema "ora et labora" (reza

e trabalha), tiveram papel decisivo na reconstrução da Europa após

a queda do império Romano. As encíclicas papais Rerum Novarum

e Populorum Progressio demonstram que as preocupações da Igreja com as questões do trabalho possuem uma correlação direta com os contextos sócio-econômico-políticos, embora

historicamente mantenham estreitas relações com o poder dominante. O Período da Idade Média A Idade Média representa um período de transformações

significativas, em relação às épocas anteriores, principalmente no que diz respeito ao predomínio da vida rural. Ao modo de produção escravagista da Antiguidade, sucedeu-se o feudal e os trabalhadores típicos passaram a ser os servos que, por não terem

a posse da terra, estabeleciam uma relação servil de trabalho,

produzindo para si e também para todos os habitantes do feudo.

O trabalho modificou-se no decorrer da Idade Média,

diversificando-se, aos poucos, com o surgimento ou renascimento de novas atividades, após uma longa persistência da agricultura como atividade básica, devido à importância atribuída à terra e à especificidade da mão-de-obra feudal. Ocorreu, assim, a ascensão das atividades de comércio e de artesanato, surgindo novas demandas de trabalho e a formação de riquezas. Configurou-se, dessa maneira, o cenário em que novos elementos vieram a delinear-se, dentro de um novo contexto de relações de trabalho.

A análise do trabalho na Idade Média que será levada a efeito

a seguir focaliza o Regime Feudal, a influência da Igreja, o

surgimento e a ascensão do comércio, as corporações, os artesãos

e o trabalho, o significado do trabalho e a base da Revolução Industrial. Regime Feudal

No período histórico denominado Idade Média, na Europa

ocidental e central, a maior parte das terras agrícolas era dividida em áreas conhecidas como "feudos". Um feudo consistia de uma aldeia e das várias centenas de acres de terra arável que a circundavam, nas quais o povo da aldeia trabalhava. Na orla das terras aráveis, havia normalmente bosques, prados, terrenos ermos, pastos etc. Os feudos variavam de tamanho, organização e relações entre os que o habitavam; no entanto tinham

características que, de certa forma, lhes davam semelhanças. Nos castelos ou nas casas fortificadas, o senhor morava com sua família ou as usava em suas visitas, e os empregados administravam a propriedade. Os bosques e os prados eram de uso comum, mas a terra arável se dividia em duas partes: uma, de modo geral, a terça parte do todo, pertencia ao senhor e era chamada de seus "domínios"; a outra parte ficava em poder dos arrendatários, que então trabalhavam na terra. No período feudal, não havia "senhor sem terra, nem terra sem senhor". Cada propriedade tinha um senhor, que arrendava suas terras aos camponeses, possuía servos e escravos. Característica da época era também o fato de ser a terra cultivada não em campos contínuos, como ocorre atualmente, mas em sistema de faixas espalhadas. Outra característica marcante é o fato de os arrendatários trabalharem não só nas terras que arrendavam, mas também na propriedade do senhor. O Feudalismo constituía-se em um sistema de produção para uso. Pela natureza da produção em si, não havia trabalho excedente, conseqüentemente, não se produzia para gerar excedente e nem se manifestava um apetite insaciável. Esse fato dava-se pela particularidade de uso já mencionada. Aflorava, no período, uma forte tendência em favorecer novos métodos de produção. Havia também o camponês, muito pobre, chamado de "fronteiriço", que deveria trabalhar para o senhor como braço contratado, em troca de comida. Existiam, ainda, os chamados "vilões", que eram servos com maiores privilégios pessoais e econômicos. Gozavam de maiores regalias e menores deveres para com o senhor. O Feudalismo, argumenta Oliveira (1987, p. 47), foi a "última etapa no processo histórico das formações pré-capitalistas". Segundo o autor, a característica básica foi a persistência de formas de coerção direta muito variáveis, traduzidas pelo trabalho compulsório, sob relações de dominação e de servidão, que se concretizavam primordialmente no campo, onde o produtor direto não era proprietário da terra e trabalhava para o senhor sob forma de dependência social e jurídica, legitimada pelo poder político. Os servos, além da força de trabalho, deviam lealdade e respeito ao senhor da terra, fazendo parte, de certa maneira, dos seus domínios. Na Grécia antiga, a premência da vida tornava função natural o labor na busca de alimentos. Um homem livre e pobre preferia a insegurança do trabalho que mudasse diariamente a um trabalho regular e garantido, por lhe restringir a liberdade de fazer o que

desejasse a cada dia. Observa-se, pois, que a valorização da estabilidade e da certeza do emprego característica da Modernidade não encontra paralelo naquela época. "Com o advento do Feudalismo, ocorreu a transferência das atividades humanas para a esfera privada, o que repercutiu significativamente na organização medieval do trabalho" (Arendt, 1983, p. 41). As repercussões apontadas por esta autora foram-se estabelecendo gradativamente, com o fim do mundo antigo e a instalação do Feudalismo. Enquanto civilização da cidade sobre o campo, dentro de uma economia predominantemente rural, o regime feudal representou sua antítese, com o predomínio da vida rural. A Influência da Igreja

A Igreja é considerada a maior proprietária de terras no

período feudal. Segundo os historiadores, isso ocorreu pelo fato de

que homens preocupados com a vida pós- morte, desejosos de passar para o lado direito de Deus, doavam-lhe terras; outras

pessoas agiam da mesma forma, porque achavam que a Igreja realizava uma grande obra de assistência aos doentes e aos pobres. Alguns nobres ou reis criaram o hábito de, sempre que venciam uma guerra e se apoderavam das terras dos inimigos, doar parte delas à Igreja, que, por esses e outros meios, aumentou suas propriedades, até que se tornou proprietária de entre um terço e metade de todas as terras da Europa ocidental (Huberman, 1981).

À medida que a Igreja crescia em riqueza, sua economia

apresentava tendências a superar sua importância espiritual. Diversos historiadores, entre eles Finley (1980), Huberman (1981) e Oliveira (1987), argumentam que, como senhor feudal, a Igreja não era melhor e, em muitos casos, até muito pior do que os feudatários leigos. Huberman, cita uma passagem em que "tão grande era a opressão de seus servos, pelo cabido de Notre-Dame de Paris, que

a rainha Blanche, no reinado de São Luís, protestou ‘com toda a humildade’, ao que os monges replicaram que eles podiam matar seus servos de fome se lhes aprouvesse" (Huberman, 1981, p. 24).

A nobreza e o clero constituíam as classes governantes.

Controlavam a terra e o poder que dela provinha. A Igreja prestava

ajuda espiritual, enquanto a nobreza, proteção militar. Em troca, exigiam pagamento das classes trabalhadoras, em forma de cultivo das terras.

A Igreja liderou, na época, um movimento religioso de

peregrinações à Terra Santa, denominado de "Cruzadas", com a intenção de resgatá-la. Esse movimento foi apoiado por pessoas que aparentemente nada ganhavam por isso, mas também por grupos cujos interesses eram conquistas que pudessem lhes trazer vantagens, principalmente a posse de mercadorias e de terras.

As cidades comerciais italianas, especialmente aquelas citadas acima, encaravam as Cruzadas como oportunidades para obterem vantagens comerciais. A História registra que a terceira Cruzada teve por objetivo não a reconquista da Terra Santa, mas a aquisição de vantagens comerciais para as cidades italianas. A classe em ascensão naquele período identificava na Igreja um obstáculo ao seu progresso. A Igreja era a fortaleza do regime feudal, parte da estrutura do Feudalismo. Antes que a classe média pudesse apagar o Feudalismo de cada país, tinha que atacar a organização central - a Igreja, e foi o que se fez. A luta tomou disfarce religioso. Os muitos escândalos e abusos da Igreja eram públicos e notórios muitos séculos antes que Martinho Lutero pregasse a Reforma Protestante, que, em essência, constituiu a primeira batalha decisiva da nova classe média contra o Feudalismo. Com o advento da Reforma Protestante, o trabalho foi uma vez mais fortalecido como a chave da vida. Manter-se por meio dele era um modo de servir a Deus. As profissões passaram a ser vistas como fruto de uma vocação, e o trabalho, o caminho religioso para a salvação. Para a ética do trabalho protestante de Martinho Lutero, trabalhar de forma árdua, diligente e abnegada equivale a cultivar a virtude (Huberman,1981). Pode-se deduzir que, na medida em que as instituições comerciais e fabris passaram a se apropriar dessa nova motivação para o trabalho, gerou-se um novo paradigma, cujo foco seria a venda do trabalho em forma de emprego. Na Idade Média, os seres humanos eram considerados servos de Deus, iguais entre si e irmãos da natureza. Deus era a razão dos princípios, da ação e da contemplação. O exercício do trabalho teve, inicialmente, significado negativo, era o castigo devido ao pecado. Posteriormente, a própria Igreja, com a Reforma Protestante, começou a dar nova conotação, um sentido positivo ao trabalho. Isso ocorreu, e foi intensificado, devido, principalmente, ao aumento significativo da população mundial; consequentemente, deu-se a necessidade de aumento na produção de excedentes. A partir desse período, acentuou-se o uso da tecnologia, desenvolvida para facilitar a realização do trabalho, bem como para aumentar o seu ritmo. Estabeleceram-se novas relações sócio- econômicas e políticas, que perduraram durante todo o período. Instituiu-se a cidade dos homens e nela se fez uma separação entre política e moral. Surgimento e Ascensão do Comércio Nos primórdios da sociedade feudal, a aldeia era praticamente autosuficiente, a vida econômica decorria sem muita utilização de capital. Era uma economia de consumo. O servo e sua

família cultivavam seu alimento, fabricavam com as próprias mãos tudo o que lhes era necessário. Os servos que demonstravam habilidades de confecção eram atraídos à casa do senhor, a fim de fazer os objetos de que aqueles precisavam. Naquele período, a palavra "mercado" denominava o local, o espaço físico, onde, semanalmente, realizava-se a troca de produtos excedentes. Pelos costumes da época, mulheres e crianças não iam ao mercado, pois lá era lugar em que se "enganavam pessoas" (Ramos, 1983). O comércio no mercado não era intenso, já que não havia incentivo à produção de excedentes. Fazia-se intercâmbio de produtos pela necessidade de consumo e não pela procura do produto. O mercado semanal era mantido junto ao mosteiro ou ao castelo. Os mercadores estavam sob o controle do senhor do feudo ou do bispo, que, também naquele local, faziam a transação de mercadorias, trocavam os excedentes produzidos por seus servos e artesãos. As dificuldades, no entanto, foram sendo gradativamente superadas. "O século XI viu o comércio andar a passos largos; o século XII viu a Europa ocidental transformar-se, em conseqüência disso" (Huberman, 1981). As Cruzadas constituíram-se em eventos que proporcionaram condições para que um grande número de pessoas levasse vantagens. "Frequentemente, as guerras fronteiriças contra os muçulmanos, no Mediterrâneo, e contra as tribos da Europa oriental eram dignificadas pelo nome de cruzadas, quando, na realidade, constituíam guerras de pilhagem por terras." (Huberman, 1981). Nos séculos XI e XII, o comércio intensificou-se. Foi o despertar das possibilidades comerciais, anulando o movimento religioso das Cruzadas. Assim, aos poucos, as Cruzadas, sob o ponto de vista religioso, deixaram de existir, e os muçulmanos retomaram Jerusalém. Intensificou-se a procura de mercadorias estrangeiras e desenvolveu-se a rota comercial do Mediterrâneo que se tornou a maior entre o Oriente e o Ocidente. Aos poucos, o processo de troca simples, com utilização do dinheiro, tornou-se um processo de transação dupla. Assim, o uso do dinheiro, agilizando o intercâmbio de mercadorias, incentivou o comércio. A partir do século XII, a economia transformou-se em uma economia de muitos mercados; com o crescimento do comércio, a economia natural do feudo aut-suficiente do início da Idade Média transformou-se em economia de dinheiro, de um mundo do comércio em expansão. Um dos efeitos mais importantes do crescimento comercial foi o desenvolvimento das cidades. A expansão do comércio significava trabalho para um maior número

de pessoas, e estas, para obtê-lo, deslocavam-se até a cidade. Surge daí uma relação de trabalho e comércio intimamente ligada ao excedente de produção. Para os efeitos desta tese, é necessário fazer-se a correlação entre o desenvolvimento do comércio e do trabalho em suas mais diversas relações. O tópico seguinte tem esse propósito. As Corporações, os Artesãos e o Trabalho

Na Idade Média, os servos, que se dedicavam às tarefas

agrícolas e de artesanato, representavam a forma de trabalho dominante. Da mesma maneira, o comércio, durante muitos

séculos, existiu como atividade marginal, identificado com os que sofriam toda sorte de discriminações, tanto raciais, quanto religiosas e políticas.

O desenvolvimento das cidades se confunde com o

desenvolvimento da atividade comercial. O mercador e o habitante da cidade constituíam uma mesma pessoa, prova disso é o fato de que, logo no início do século XII, a palavra mercator, significando mercador, e burgensis, significando aquele que vive na cidade, eram usadas alternadamente. Aos poucos, a população da cidade passou a perceber e a questionar os costumes e as leis do feudo, especialmente os comerciantes, uma vez que a dinâmica da atividade comercial era resistente às barreiras encontradas nessas leis e na justiça feudal. Consideravam os comerciantes que a vida na cidade era diferente da vida no feudo e que novos padrões precisavam ser criados. Tais pensamentos foram sendo traduzidos em ações. Quando viajavam pelas estradas, juntavam-se para se protegerem contra os salteadores; quando viajavam por mar associavam-se contra os piratas; quando comerciavam nos mercados e nas feiras, aliavam- se para concluir melhores negócios com seus recursos aumentados. Diante das restrições feudais que prejudicavam seus interesses, mais uma vez se uniram, em associações chamadas "corporações" ou "ligas", a fim de conquistar para as suas cidades a liberdade necessária à expansão contínua de seu comércio. O progresso das cidades e o uso do dinheiro possibilitaram aos artesãos abandonar o trabalho servil na agricultura e viver o seu ofício, não mais para satisfazer suas necessidades apenas, mas para atender à demanda. Portanto o crescimento do comércio justificava-se, também, pela existência do artesanato enquanto profissão isolada, já que, até aquela época, na economia do mundo pré-moderno, a produção era limitada, e o próprio consumo dava-se dentro dos limites das necessidades físicas do ser humano. À medida que os servos foram-se emancipando, organizaram o trabalho urbano, tornando-se padeiros, sapateiros, tecelões etc.

Essas especialidades eram agrupadas em corporações de ofícios ou gulidas, associações profissionais de defesa mútua, destinadas

a proteger seus interesses e lutar contra a aristocracia, preservando

o monopólio do trabalho de cada gênero na cidade. Também os comerciantes e mercadores, frente às restrições feudais, uniram-se em corporações ou ligas, com o objetivo de controlar o mercado.

O trabalho artesanal dessa época caracterizou-se por um

aspecto lúdico, na medida em que nele não se obedecia a nenhum critério anterior, além da fabricação do produto e dos processos de sua criação. O artesão era livre para organizar seu trabalho quanto

a plano, começo, forma, técnica e tempo. Ao trabalhar, aprendia e

desenvolvia seu modo de viver (Albornoz, 1988). Importante é observar-se que "na história do ocidente, o artesanato, especialmente em seu desenvolvimento durante os séculos XIII e XIV, constitui-se um dos clímax da evolução do trabalho criador" (Fromm, 1970, p.177). O trabalho artesanal não era apenas uma

atividade útil, trazia em si, além disso, uma profunda satisfação, pois, em sua realização, os artífices aperfeiçoavam sua capacidade. A Base da Revolução Industrial

A Revolução Industrial é, usualmente, considerada como a

transição da economia agrária para a industrial. Esse evento significou uma alteração profunda na vida e no trabalho da população, marcando um novo período na história mundial.

O crescimento industrial foi precedido por uma revolução

agrária. Na Inglaterra, depois de 1750, a colocação de cercas nas

antigas pastagens comuns e campos abertos e o desenvolvimento da agricultura aumentaram a produção de alimentos para a população crescente e de matérias-primas para as indústrias em expansão. Tal fato permite deduzir que com a "colocação da primeira cerca surgiram os primeiros sem-terra e sem-teto da história da humanidade" (Polanyi, 1944; Salm, 1993).

O trabalho na Idade Média foi modificado pela descoberta e

pelo uso de novas fontes de energia e de novas técnicas de fabricação. Assim, a ciência, a tecnologia e a indústria, que davam os primeiros passos, tinham um papel atrelado à agricultura (Faria e Marques, 1984).

Os excedentes gerados pela agricultura forneceram matéria- prima básica para a indústria artesanal, o que propiciou, aos poucos, o ressurgimento do comércio e o avanço da pecuária e das indústrias têxtil e de construção. Essas transformações já vinham ocorrendo ao longo dos séculos XII a XIV e ganharam corpo a partir de princípios do século XIV. Declinava o Feudalismo enquanto

modo de produção, provocando condições para a diversificação nas atividades de trabalho. Esse declínio ocorreu pelo impacto do comércio, que atuava como força externa e se desenvolvia fora do sistema. Já para Dobb (apud Sweezy, 1977), a superexploração da força de trabalho é que levou o regime feudal ao colapso, pois os servos desertaram em massa das propriedades senhoriais para as cidades, em busca de trabalho livre, gerando escassez de mão-de-obra no campo (Sweezy, 1977). No fim da Idade Média, o antigo sonho do alquimista de

fabricar um homúnculo em laboratório tomou, pouco a pouco, a "forma de criação de robos para trabalharem em vez do homem e da educação do homem para trabalhar ao seu lado" (Illich, 1976, p. 49). Isso significou uma nova atitude produtiva e uma nova concepção de trabalho. Nos séculos XI e XII, ocorreu a "revolução técnica", que veio

a estabilizar-se no século XV. Segundo Gille (1981), "passamos do reino da ferramenta para o reino da máquina". Na verdade, de forma gradativa, já começou a ocorrer no período uma evolução tecnológica do trabalho, da instrumentação para a mecanização. Sem dúvida, foi o desenvolvimento do maquinismo, nos séculos XI

e XII, que deu origem à "revolução técnica" ou, mais precisamente,

à expansão do moinho, ao aperfeiçoamento do torno, ao aparecimento da roda d'água e das prensas a parafusos, isto é, a todo o automatismo mecânico que se desenvolveu gradualmente e começou a substituir o homem pela máquina. Interessante é notar- se que, de maneira incipiente, aqui se iniciava o declínio do homem operacional. A nova relação do "homem com a instrumentação lançou raízes durante a revolução industrial, tal como, por sua vez, o capitalismo, no século XVI, reclamou novas fontes de energia. A máquina a vapor é mais um efeito desta sede de energia do que uma causa da revolução industrial" (Illich, 1976, p. 51). O século XVII foi a era de Galileu e Newton. Os autores referem-se a ela como a era das revoluções científicas (Kuhn, 1992). Esse período também compreendeu a primeira das revoluções liberal-democráticas que iriam redefinir a maioria dos governos do mundo. Viu-se o surgimento da filosofia das instituições capitalistas. Foi o tempo de inúmeras controvérsias na Religião, na Filosofia e na Teoria Social, as quais serviram depois como balizas para o pensamento moderno. Foi o grande divisor de períodos históricos. Antes deles, a humanidade tinha vivido meia dúzia de séculos no período que os autores chamam, genericamente, de Idade Média. Após o impacto da revolução

copernicana, nas primeiras décadas do século XVII, o curso da História se viu irrevogavelmente modificado, passando a rumar na direção do que hoje chamamos de Era Moderna (Polanyi, 1944).

A ideologia da organização industrial, da instrumentalização e

da organização capitalista da economia apareceu antes do que se convencionou chamar de Revolução Industrial. A partir de Bacon, os europeus começaram a executar operações indicadoras de uma nova situação mental: ganhar tempo, poupar o espaço, aumentar a energia, multiplicar os bens, lançar fora pela borda as normas naturais, prolongar a duração da vida e substituir os organismos vivos por mecanismos que os simulem ou ampliem. Desses imperativos, desenvolveram-se nas sociedades os dogmas da Ciência e da Técnica, que assumiram o valor de axiomas, porque não eram submetidos a análise. Idêntica "mudança mental refletiu-se na transição do ritmo do tempo ritual para a regularidade mecânica: colocava-se o acento na

pontualidade, na medida do espaço e na contabilização dos votos, de maneira que os objetos concretos e os acontecimentos complexos se transformavam em quanta abstractos. Essa paixão capitalista em prol de uma ordem repetitiva minou o equilíbrio qualitativo entre o operário e a sua débil instrumentalização" (Illich, 1976, p.50). A ruptura advinda naturalmente condicionou a grande transformação em que o trabalho se traduzia em emprego e a ocupação em mão-de-obra (Polanyi, 1944, Applebey, 1978). Assim, surgiu a Modernidade. Como se observa, estavam lançadas as bases para o surgimento da era moderna. No tópico a seguir, descreve-se esse período da História, dando-se destaque aos fenômenos associados ao tema desta tese. Período da Idade Moderna

A civilização, como se observou até este ponto do estudo,

tem-se estruturado largamente em função do conceito de trabalho. A palavra trabalho pertence, simultaneamente, à esfera da reflexão teórica e à vida do dia-a-dia. De fato, ele tem sido parte integrante da existência humana, desde o caçador/colhedor paleolítico, o agricultor neolítico ao artesão medieval e ao trabalhador de linha de montagem do século atual.

O marco inicial da Era Moderna não é consensual entre os

historiadores. Há inúmeras versões sobre o seu início. Uns consideram a Modernidade a partir do século XV e XVI, com o chamado Renascimento, outros a partir do século XVIII, com o surgimento da filosofia do Iluminismo, a Revolução Francesa e o início da industrialização (Kurz, 1997).

Arendt considera que a descoberta da América e subsequente exploração de toda a terra; a Reforma, que, expropriando as propriedades eclesiásticas e monásticas, desencadeou o duplo processo de expropriação individual e acúmulo de riqueza social; e a invenção do telescópio, ensejando o desenvolvimento de uma nova ciência, que considera a natureza da terra do ponto de vista do universo, determinaram o caráter da Era Moderna (Arendt, 1983, p. 260). Ou seja, foram os precursores, embora os nomes ligados a esses eventos - Galileu Galilei, Martinho Lutero e os grandes navegadores, exploradores e aventureiros do tempo das descobertas - pertençam ainda a um mundo pré-moderno. Por outro lado, existe atualmente, entre os pensadores, um debate polêmico e ambíguo. De um lado, há os que defendem que a Modernidade já se realizou e, consequentemente, acabou, e, por isso, falam em Paramodernidade (Ramos, 1983). Há outros, no entanto, como Habermas, para quem a Modernidade é ainda um projeto inacabado. Para estes, ela continua, embora considerem que tudo se tornou mais precário, menos seguro, mais aberto. Mesmo em 1863, no artigo The painter of modern life, Baudelaire já comentava que a Modernidade é o transitório, o fugidio, o contingente; é uma metade de arte, sendo a outra o eterno e o imutável. Pode-se afirmar, contudo, que há alguns marcos da Modernidade. Entre eles, estão: as inovações artísticas e científicas do Renascimento Italiano; as grandes viagens de descobrimento, desde Colombo; a ideia protestante e calvinista da responsabilidade específica do indivíduo; a libertação iluminista de algumas crenças irracionais; e o surgimento da democracia moderna, na França e nos Estados Unidos. No âmbito técnico-industrial, também se lembra a invenção da máquina a vapor e do tear mecânico (Kurz,1997). Assim, para efeito deste estudo, toma-se, como ponto de partida da Modernidade, o final do século XVII e o início do século XVIII (Polanyi, 1980). Com a Idade Moderna se iniciou uma era de novos valores. A propósito, vale notar que, num intervalo de poucos séculos, o foco de interesses desviou-se do mundo interno para o mundo externo. À exceção da preguiça, todos os outros sete pecados (mortais) foram transformados em virtudes. "A cobiça, a avareza, a inveja, a gula, a luxúria e o orgulho tornaram-se as forças motrizes da nova economia. Um poder desenfreado está desde então atrelado a apetites igualmente desenfreados" (Lewis apud Horman, Harmann, 1990, p. 55).

Foi nesse espaço que, antepondo-se à preguiça, sedimentou- se o emprego como uma categoria econômica. Deu-se início a uma revolução em que a máquina, pouco a pouco, pôs o homem em movimento. Sua capacidade de movimento foi substituída pelo recurso aos transportes. O fabrico em série tomou o lugar do savoir-faire, a industrialização converteu-se em norma. Seguiu-se profunda transformação, com o advento do aço e da eletricidade:

surgiu o motor a explosão, a Química Orgânica, os materiais sintéticos e a manufatura de precisão. Na Idade Moderna, com a ascensão da Economia Política,

confundiram-se várias concepções de trabalho. Para Smith (1776), o trabalho criador de riqueza era somente o trabalho desenvolvido na agricultura. Mais tarde, Ricardo (1817) e Marx (1983), deram ênfase ao conceito de valor cuja existência é o trabalho humano, demonstraram que não só o trabalho agrícola, mas também o trabalho industrial produz valor. A evolução das formas de produção fica muito bem retratada quando se observam as fases da organização industrial, que podem ser assim sintetizadas:

1. Sistema familiar: os membros de uma família produziam

artigos para o seu consumo, e não para a venda. O trabalho não se

fazia com o objetivo de atender ao mercado. Era a realidade conhecida no princípio da Idade Média.

2. Sistema de corporações: produção realizada por mestres

artesãos independentes, com dois ou três empregados, para o mercado, pequeno e estável. Os trabalhadores eram donos tanto

da matéria-prima que utilizavam, quanto das ferramentas com que trabalhavam. Não vendiam o trabalho, mas o produto do trabalho. Perdurou durante toda a Idade Média.

3. Sistema doméstico: produção realizada em casa, para um

mercado em crescimento, pelo mestre artesão e seus ajudantes, tal como no sistema de corporações. Apresentava, no entanto, uma diferença importante: os mestres já não eram independentes; tinham ainda a propriedade dos instrumentos de trabalho, mas dependiam da matéria-prima fornecida por um empreendedor. Passaram a ser tarefeiros assalariados do século XVI ao XVIII.

4. Sistema fabril: produção para o mercado realizada fora de

casa, nos edifícios do empregador e sob rigorosa supervisão. Os trabalhadores perderam completamente sua independência. Não possuíam a matéria-prima, como ocorria no sistema de corporações, nem os instrumentos, como no sistema doméstico. A habilidade perdeu a importância de antes, devido ao maior uso da máquina. O capital tornou-se mais necessário do que nunca. Estende-se do século XIX até hoje (Huberman, 1981, p.125).

O Trabalho Assalariado Já se discutiu, anteriormente, neste documento, o surgimento do trabalho assalariado. Aqui cabe fazer pequenas apropriações da

História e situar as consequências de tal forma de trabalho humano.

A Inglaterra desenvolveu historicamente condições favoráveis

ao comércio e à exportação de seus produtos: colonizou novas terras, acumulou riquezas e propiciou a introdução de um novo estilo de trabalho, com o surgimento de fábricas e máquinas. Assim, conjunturalmente, sedimentou o berço da Revolução Industrial, com o avanço do Capitalismo, e a ascensão da chamada

sociedade industrial. Também se tornou palco dos movimentos e das lutas dos trabalhadores por direitos e melhores condições de trabalho e de vida. Dessa maneira, entre outros aspectos importantes, institucionalizou-se o assalariamento, com a compra da força de trabalho do homem, como condição predominante de reprodução do trabalho e do capital.

A sociedade industrial passou, com esse processo, a ser

orientada para o mercado, tendo como prioridade a produção de

bens. Isso levou à busca de eficiência dos modos de ação que maximizassem os resultados. Consequentemente, criaram-se arranjos produtivos, em que o homem se tornou um trabalhador. Todo o trabalho passou a ser organizado em torno de seus princípios de eficiência e de funcionalidade.

A instituição do trabalho assalariado é considerada tardia e

sofisticada. A própria ideia de trabalho assalariado requer dois passos conceituais difíceis: primeiro, a abstração do trabalho do homem, tanto de sua pessoa como do produto do seu trabalho; segundo, a instauração de um método para a medição do trabalho comprado, para fins de pagamento (Finley, 1980). Por outro lado, com a introdução do trabalho assalariado, o Capitalismo libertou o indivíduo da arregimentação do sistema corporativo. "Ele se tornou o senhor de seu destino, dele era o risco e dele também o ganho. O esforço individual podia levá-lo ao sucesso e à independência econômica. O dinheiro converteu-se em grande meio de igualdade de homens e demonstrou ser mais poderoso do que o nascimento e a casta" (Fromm, 1977, p. 58). O impacto do novo arranjo gerou uma grande mudança econômica e social na sociedade da época, mas o impacto não foi econômico apenas, também provocou uma mudança de mentalidade nas pessoas. O homem passou a ser impelido para o trabalho, não tanto por um força externa, mas, principalmente, por uma força interna. Considera o autor que o impulso para trabalhar, a compulsão para trabalhar sem cessar, é tão relevante para a evolução do sistema industrial quanto o vapor ou a eletricidade.

Para a maioria dos trabalhadores, fez-se, nesse período, a mutação, do sentido negativo para um sentido positivo, do significado do trabalho, que já vinha passando por mudanças desde o final da Idade Média, especialmente após a Reforma Protestante. Fazia parte do imaginário do homem, ao ingressar nas atividades da fábrica, que o trabalho era um dever e que se tratava de uma atividade agradável e satisfatória por si mesma. Na sociedade industrial, o trabalho passou a ser central na vida das pessoas, pelo seu caráter estruturador dos níveis pessoais e sociais. O processo de trabalho constitui o fundamento último de toda mudança tecnológica. Ao contrário do animal, o intercâmbio que o homem realiza com a natureza mediante o trabalho não é nenhum ato instintivo - biológico, mas uma ação consciente. Diante da conexão entre concepção e execução de um trabalho, a tarefa pode dividir-se e a atividade pode ser materializada por outro. A exploração baseia-se nessa ruptura interior do processo de trabalho, que permite a certos indivíduos planejar, ordenar e usufruir da tarefa executada por outros. Com isso, o trabalho assalariado tornou-se central na vida da maioria das pessoas. Sua ausência passou a significar que o indivíduo encontrava inúmeras dificuldades para garantir sua sobrevivência e a de sua família. O salário tornou-se o diferencial, o status quo, a importância e o valor na vida. A Sociedade Centrada no Mercado Podem ser identificadas, historicamente, inúmeras razões que contribuíram para a ascensão e o sucesso do sistema de mercado e, consequentemente, para o desvirtuamento do entendimento de que o homem é um ser de ocupação. Ramos assim as reúne:

Primeiro: O sistema de mercado, durante a chamada Revolução Industrial, encontrou condições favoráveis para estabelecer seu comando sobre a vida social. A indústria tornou-se seu pilar de sustentaçãoA transformação do indivíduo em trabalhador é um dos requisitos do plano mecânico da produção. Segundo: O sistema de mercado é um sistema de preços e precisa de padrões objetivos, para determinar a equivalência de bens e serviços. Desse modo, o indivíduo participa do processo de produção, como um item de custo. Os fatores de produção são avaliados em termos de preço, e, assim, o indivíduo torna-se apenas um ganhador de salário. No mercado, como "as almas das pessoas são compradas e vendidas", a transformação do indivíduo em trabalhador é requisito da contabilidade de produção. Terceiro: O sistema de mercado não pode funcionar em bases puramente técnicas e econômicas. Só poderia transformar- se no mais importante setor social, na proporção em que o

processo geral de socialização induzisse os indivíduos a aceitarem seus requisitos psicológicos. A consequência final dos esforços desses homens é a ética do trabalho, baseada no postulado de que o trabalho é o critério cardinal de valor, nos domínios da existência individual e social. Aquilo que, em Economia, é conhecido como a teoria do valor do trabalho é apenas um aspecto particular da ideologia que legitima a sociedade centrada no mercado (Ramos, 1989, p. 133). Por isso, o homem comercializa sua força de trabalho em forma de mercadoria e adota a condição de ente comportamental que reflete padrões pré-determinados e independentes de suas escolhas. Por essa razão, segue os padrões de comportamento econômico e não desenvolve as ações segundo o seu livre arbítrio, mas movido apenas por interesses e por cálculo de consequências. Assim, a escolha do trabalho como instrumento de medição do valor e da dignidade humana de um modo geral foi condicionada pela necessidade de aliviar a dissonância cognitiva gerada pelo surgimento do sistema de mercado. A velha distinção entre ocupação e trabalho precisava ser solapada, de outro modo os conflitos interiores da psique humana tornariam o sistema de mercado impraticável. O trabalho como instrumento de medição do valor e da dignidade humana é expediente psicocultural, usado para minimizar a dissonância cognitiva e o conflito interior (Ramos,

1983).

Na sociedade de mercado, o lazer também ficou desassociado do trabalho e da ocupação. O lazer se tornou sinônimo de ociosidade, passatempo, diversão - conotação que nunca teve antes. Esse fato é sintomático das premissas de valor do sistema de preços do mercado, em que o trabalho foi transformado no critério par excellence de valia e merecimento. Num mundo de "trabalho total" (Pieper apud Ramos, 1983, p. 99), tal como o que pressupõe o sistema de mercado, o lazer naturalmente perde o caráter que anteriormente teve, de correspondência a uma condição apropriada para os mais sérios esforços em que um homem se pode empenhar. Não resta dúvida, porém, que: "a ociosidade, no velho sentido da palavra, longe de ser sinônimo de lazer é, mais aproximadamente, o requisito indispensável e secreto que torna o lazer impossível: poderia ser descrita como a total ausência de lazer, ou exato oposto do lazer. O lazer só é possível quando o homem se sente unido a si próprio" (Pieper apud Ramos, 1983, p. 100). Novamente, na base da distinção entre trabalho e ocupação, se encontra a diferença entre o lazer e o ócio.

Arendt comenta ainda que o fato de palavras como razão, racionalidade e lazer adquirirem, no sistema de mercado, significado que originalmente não exprimiam não é acidental. O processo da consolidação institucional do sistema de mercado é inseparável de um processo de desculturação da mentalidade ocidental, por meio do qual é eliminado o sentido original dessas palavras. De modo particular, o lazer e a distinção qualitativa nele contida entre trabalho e ocupação foram transformados, de maneira a enquadrar o termo no arcabouço epistemológico do sistema de mercado. Nesse sistema, o trabalho transformou-se na fonte de todos os valores e o animal laborans foi elevado "à posição tradicionalmente ocupada pelo animal rationale" (Arendt, 1958, p.

75).

O Trabalho, a Ocupação e o Emprego: uma Revisão Conceitual O Trabalho Em sua origem, o trabalho é a atividade daqueles que perderam a liberdade. Na Antiguidade, adquiriu o significado metafórico de sofrimento e infortúnio. O homem, no sentido negativo do termo, sofre ao "vacilar sob um fardo". O fardo pode ser invisível, pois, na verdade, ele é o fardo social da falta de independência e de liberdade. Na tradição judaico-cristã, o trabalho associa-se também à noção de punição, maldição, como está registrado no Antigo Testamento (punição pelo pecado original). Na Bíblia, o trabalho é apresentado como uma necessidade que leva à fadiga e que resulta de uma maldição: "comerás o pão com o suor de teu rosto" (Gn. 3,19). Decorre desse princípio bíblico, o sentido de obrigação, dever, responsabilidade, de tão grande importância para o que se entende por trabalho. Assim, o trabalho passou a ter uma conotação negativa, correlacionou-se a maldição e a punição. A equiparação entre trabalho e sofrimento não tem em mente o simples cansaço. Na Antiguidade, um homem livre podia cansar-se em certas circunstâncias e, ainda assim, obter satisfação da situação. Era rejeitada não a atividade em si ou o trabalho manual, mas, antes, a submissão do homem a outro homem ou a uma "profissão". Um homem livre podia casualmente construir uma cama ou um armário, mas não devia adotar a profissão de marceneiro; podia comerciar eventualmente, mas não devia ser comerciante; podia ocasionalmente escrever poemas, mas não devia ser poeta (muito menos como forma de ganha-pão). O significado de sofrimento e punição perpassou a história da civilização, relacionando-se, também, diretamente, ao significado

do termo latino que originou a palavra trabalho. Ela vem do latim vulgar tripalium, embora seja, às vezes, associada a trabaculum. Tripalium era um instrumento feito de três paus aguçados, com

ponta de ferro, no qual os antigos agricultores batiam os cereais, para processá-los. Associa-se também à palavra trabalho o verbo

do latim vulgar tripaliare que significava "torturar sobre o trepalium",

mencionado como uma armação constituída por três troncos, suplício que substituiu o da cruz, conhecida no mundo cristão como instrumento de tortura. Por muito tempo, a palavra trabalho significou experiência dolorosa, padecimento, cativeiro, castigo

(Illch,1976; Finley,1980; Arendt,1983; Ferreira, s.d.; Albornoz,1988; Bueno,1988; ). Na Antiguidade, distinguia-se trabalho de labor. Essas palavras, como já se discutiu, têm etimologia diferente, para designar o que hoje é considerado a mesma atividade. Ambas conservam ainda seu sentido, a despeito de serem repetidamente usadas como sinônimos. O trabalho é um dos elementos da vida ativa, além do labor e da ação. "O labor é a atividade que corresponde ao processo biológico do corpo humano. O trabalho é

a atividade correspondente ao artificialismo da existência humana.

A ação corresponde à condição humana de pluralidade" (Arendt,

1983, p.15). A autora comenta: "o trabalho de nossas mãos, em contraposição ao labor do nosso corpo - o homo faber que "faz" e literalmente trabalha sobre os materiais, em oposição ao animal laborans que labora e se mistura com eles - fabrica a infinita variedade de coisas cuja soma total constitui o artifício humano. Em sua maioria, mas não exclusivamente, essas coisas são objetos destinados ao uso, dotados da durabilidade de que Locke necessitava para o estabelecimento da propriedade, do valor de

que Adam Smith precisava para o mercado de trocas, e comprovam

a produtividade que Marx acreditava ser o teste da natureza

humana. Devidamente usadas, elas não desaparecem e emprestam ao artifício humano a estabilidade e a solidez sem as quais não se poderia esperar que ele servisse de abrigo à criatura mortal e instável que é o homem" (Arendt, 1983, p.149). Na sociedade grega, berço da civilização ocidental, o trabalho

era visto em função do produto, e este, por sua vez, em função de sua utilidade ou capacidade de satisfazer a necessidade humana.

O que contava era o valor de uso e não o valor de troca, o valor de

uma mercadoria em relação às outras. O valor do produto como mercadoria não passa do valor de uso para outra pessoa. Pode-se perceber que a concepção de valor e de riqueza tinha alicerces

diferentes dos que norteiam atualmente a produção e a distribuição no Ocidente.

É importante lembrar que o trabalho, como concebido na

Antiguidade, não se desvincula do entendimento da escravatura, que foi um recurso para excluir o trabalho da condição da vida do homem. Essa exclusão só podia ser viável através da institucionalização da escravatura, dada a capacidade de produção e a concepção de vida e de sociedade vivenciadas naquele período histórico.

O Calvinismo transformou o trabalho em instrumento para a

aquisição de riquezas, meio de sucesso no mundo terreno, que permitiria ao homem sentir-se escolhido por Deus. A mentalidade protestante conjugou-se à sede de dinheiro dos Estados absolutistas pré-modernos e sua militarização da economia (Weber, 1944). Desse modo, todos os homens formalmente livres da Modernidade foram submetidos àquela forma menor de atividade,

considerada pelos antigos como a essência da servidão e, por isso, como sofrimento. No século XVIII, com a ascensão da burguesia, o desenvolvimento das fontes produtivas, a transformação da natureza e a evolução da técnica e da ciência, enfatizou-se a condenação ao ócio, sacralizando-se o trabalho e a produtividade. As idéias de Smith (1776) de que a produtividade se deve à divisão do trabalho, e não ao próprio trabalho, contribuiu significativamente para tal ocorrência. A divisão do trabalho aprofundou a separação entre as atividades de contemplação e de ação (Arendt,1983), e entre as categorias de trabalho técnico e teórico. Na Idade Moderna, passou-se a fazer diferenciação entre o trabalho qualificado e o não-qualificado, entre o produtivo e o não- produtivo, aprofundando-se a distinção entre trabalho manual e intelectual. É interessante observar que essas separações não deixam de ser o entendimento subjacente da distinção fundamental entre labor e trabalho do período helênico. O que ocorreu foi o deslocamento do labor, que possui, tanto na esfera pública como na esfera privada, uma produtividade própria, por mais fúteis ou pouco duráveis que sejam os seus produtos e seu consumo.

O homem moderno passou a imolar sua vida no altar do

"trabalho" e a tomar como situação de felicidade a submissão a um "emprego" determinado por outrem (Kurz,1997). O trabalho tornou- se nesta era uma atividade compulsiva e incessante, a servidão tornou-se liberdade e a liberdade, servidão; ou seja, a aceitação voluntária de um sofrimento, sem outro sentido senão ele próprio. Para o homem dos tempos modernos, o tempo livre inexiste, ou é escasso. Passou a ser, por outros meios, um mero prolongamento

do trabalho, veja-se a indústria da diversão. A lógica do trabalho perpassa a cultura, o esporte e, até mesmo, a intimidade. Em outras palavras, ela apoderou-se de todas as esferas da vida e da existência humana. Com a globalização, corre-se o risco de retomar formas já ultrapassadas de exploração do trabalho e de aprofundar o caos social. O avanço tecnológico deste final de milênio poderá pôr fim à concepção do trabalho como "sofrimento". A automação do trabalho não se faz em auxílio da condição humana enquanto a lógica da civilização permanecer na concepção de exploração do trabalho humano. As saídas para os impasses atuais são, pois, mais de concepções e opções políticas civilizatórias do que produzidas por determinismos históricos. A Ocupação Atualmente o conceito de ocupação é associado ao termo trabalho. É necessário que se esclareça a distinção existente entre os dois termos, já que, até este ponto da tese, tais palavras foram empregadas com sentidos diferentes, mesmo porque, no decorrer da História, até o início da Idade Moderna, o significado do trabalho era distinto do entendimento que se tinha de ocupação. O aparecimento da economia monetária acentua a distinção entre ocupação enquanto ganho de vida e aquelas de status quo. Cada sociedade, na sua dinâmica estrutural e conjuntural, cria e recria a ocupação humana. Ela faz parte da multidimensionalidade do ser humano. Trabalho não é ocupação, afirma Hicks. Segundo o autor, todas as classes sociais detêm sua forma de ocupação, e todas as pessoas cujas atividades examinou mantêm sua ocupação. Para ele, assim como o camponês, mesmo o proprietário, na medida em que conserva uma função positiva, tem sua ocupação. O que caracteriza o operário, ou trabalhador, no sentido mais restrito "é que ele trabalha para outra pessoa. Ele é (não tenhamos medo de dizer) um servidor". Acrescenta ainda: "A economia mercantil nunca foi capaz de passar sem servidores" (Hicks apud Ramos, 1983,

p.122).

Na Idade Moderna, a ocupação distingue-se de trabalho (prática de esforço ou mera atividade subordinada às necessidades do processo de produção) e de carreira (sequência ou graduação de posições dentro da mesma ocupação, que levam de um status inferior a um status superior) (Ramos, 1983). Uma das primeiras preocupações dos sociólogos foi a classificação hierárquica das ocupações segundo sua complexidade. A classificação mais ampla é a que situa as ocupações em profissões técnicas, gerenciais, administrativas,

comerciais, qualificadas, semiqualificadas e não qualificadas ou braçais. Essa qualificação pode ser combinada com as atividades econômicas (agricultura, indústria, comércio e, atualmente, também informática) e subdivide-se em unidades específicas. O Emprego

Na Modernidade, como se observa no decorrer deste estudo,

gradativamente, o trabalho, compreendido como ocupação econômica, transformou-se em emprego. Esta categoria passou a ser entendida como trabalho pago em dinheiro, fato típico do capitalismo. Também dos relatos históricos se extrai que, quase

sempre, o trabalho e/ou a ocupação passaram a ser sinônimos de emprego. A palavra emprego tem sua origem nos idos do ano 1400 d. C. Mas, até o início do século XVIII, o emprego se referia a alguma tarefa ou determinada empreitada, nunca a um papel ou posição numa organização. No inglês do período coberto pelos séculos XII a XVI, o dicionário Wesbster ainda a considera um coloquialismo. A conotação moderna do termo emprego reflete sua relação entre o indivíduo e a organização em que uma tarefa produtiva é realizada, pela qual aquele recebe rendimentos e cujos bens ou serviços são passíveis de transações no mercado (Souza, 1981).

O emprego é um fenômeno da Modernidade. Antes do

advento da sociedade centrada no mercado, ele não era "o critério

principal para definir a significação social do indivíduo, e nos contextos pré-industriais as pessoas produziam e tinham ocupações sem serem, necessariamente, detentoras de empregos" (Ramos, 1983, p.101).

Na sociedade centrada no mercado dos nossos dias, como já

foi dito antes, o emprego passa a ser o critério que define a significação social dos indivíduos. Com o estabelecimento da divisão do trabalho, o homem vive numa base de troca, garantindo para si os bens e serviços de que necessita, através do exercício do emprego, em troca do qual recebe um salário com que compra aquilo que lhe é necessário para sobreviver e, consequentemente, que seja possível adquirir para viver. Mouly (1977), ao discutir as definições de emprego, fundamentado no que foi proposto por Amartya Sem (1975), pontua três aspectos ou dimensões de emprego: 1) da produção: o emprego produz um output; 2) do resultado: o emprego fornece um resultado ao empregado; 3) do reconhecimento: o emprego dá à pessoa o reconhecimento de estar engajada em algo válido. Essas dimensões foram construídas a partir da essência das conclusões alcançadas por várias missões estratégicas de emprego que

visitaram um número de países sob o patrocínio do ILO (International Labour Office) no início dos anos 70. Apesar de a definição de emprego ser abrangente, os conceitos a ele associados - pleno-emprego, subemprego, desemprego e população economicamente ativa, são ambíguos e

subjetivos. Mouly (1977) enfoca os seguintes aspectos associados ao emprego:

1. O conceito de emprego refere-se a um tipo específico de

organização social e econômica, originário da sociedade capitalista, delineado para os que recebem salários e remuneração. O

emprego é definido pela contribuição que oferece à produção e ao mercado. Um de seus aspectos mais importantes , a renda, é um "preço" que tem significado real apenas se fixado pelo mercado, ou seja, em resposta à necessidade social que determina , através da

demanda, o valor do trabalho fornecido pelo indivíduo. O emprego é um conceito afetado pela subjetividade; expressa uma relação social e, por isso, depende, acima de tudo, do tipo de sociedade e organização em que está situado.

2. O conceito de emprego é ambíguo e subjetivo por estar

implicitamente alinhado com certos objetivos da política geral ou do desenvolvimento econômico. A distinção entre atividades

produtivas e não-produtivas é uma das determinantes básicas dos contornos de emprego, devendo-se levar em conta, no entanto, que tal distinção implica em um julgamento de valor.

3. A ambiguidade no conceito de emprego está também no

fato de que ignora a heterogeneidade da força de trabalho. Pleno

emprego, nível de emprego, desemprego são noções generalizantes, que escondem uma multiplicidade de situações, cada uma pedindo determinada ação.

4. A noção de emprego, em seu sentido habitual, é a falácia

individualista. A situação de emprego de uma pessoa não pode ser avaliada considerando este indivíduo isoladamente.

5. Todas as considerações feitas até aqui equivalem a dizer

que a noção aceita de emprego não considera aspectos essenciais relacionados com a qualidade humana , ou seja, com as condições de trabalho e o ambiente de trabalho. Os empregos tornaram-se não somente comuns, mas

também importantes; passaram a ser nada menos do que o único caminho amplamente disponível para a segurança, o sucesso e a satisfação das necessidades de sobrevivência. "Agora, porém, estão desaparecendo da paisagem econômica. Igual a muitas espécies pegas no fluxo e refluxo da evolução, os empregos emergiram sob o conjunto de condições e agora começaram a desvanecer-se sob outro" (Bridges, 1995, p.36-37).

Adam Smith (1776) reconhece que a sociedade de mercado transforma o homem necessariamente em um detentor de emprego. Onde uma vez se estabeleça a divisão do trabalho, "todo homem vive numa base de troca ou, de alguma forma, torna-se um comerciante, e a própria sociedade passa a ser aquilo que constitui, de fato, uma sociedade comercial" (Smith apud Ramos, 1983,

p.101).

Nesse tipo de sociedade onde tudo gira em torno do conceito de comércio, o indivíduo, exercendo o emprego, recebe um salário, um certo montante em dinheiro com que compra aquilo que lhe é possível adquirir. Com isso, ele garante o acesso aos bens e aos serviços de que necessita. O emprego passou a ser categoria dominante - senão exclusiva - para reconhecimento do valor dos propósitos humanos. Numa sociedade assim, não ser empregado é sinônimo de ser imprestável ou excluído. Para a economia, como concebida nas suas origens, o emprego formal é pedra angular para seu funcionamento. Vale afirmar que não é apenas o emprego que passa por profundas transformações, mas é a economia em si. Ao escrever a Riqueza das Nações, Smith lamentava que havia na Inglaterra regiões que eram obstáculos à civilização, uma vez que havia áreas que estavam intocadas pelo sistema de mercado, escrevia "quando o mercado é pequeno, ninguém pode ter estímulo para se dedicar a uma única opção" (Smith apud Ramos, 1983, p.17). Com o passar do tempo, as pessoas foram aprendendo ofícios que fizeram delas detentoras de empregos, passando, a partir daí, a ser parte do tipo de força de trabalho que estava emergindo. Dentro da lei da oferta e da procura, proporcionar-se-ia emprego a todos os indivíduos que estivessem dispostos a trabalhar. Portanto não é de se estranhar que, durante toda a Era Moderna, o valor das pessoas tenha sido medido pelo seu valor no mercado de trabalho, uma vez que esse valor se expressa, também, no potencial de consumo que elas representam. "Agora que a mercadoria valor do trabalho humano está se tornando cada vez mais tangencial e irrelevante, em um mundo cada vez mais automatizado, novas maneiras de definir o valor humano e os relacionamentos sociais precisarão ser explorados" (Rifkin, 1995, p. xx).

É importante notar também, que, no contexto de mercado, o problema do emprego e do pleno emprego era focalizado a partir da hipótese de que o consumo de bens e serviços aumenta ou diminui na medida em que as rendas aumentam ou diminuem.