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Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LINE

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizacáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memoriam)
APRESErsíTAQÁO
DA EDigÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos
estar preparados para dar a razáo da
nossa esperanga a todo aquele que no-la
pedir (1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos


conta da nossa esperanga e da nossa fé
hoje é mais premente do que outrora,
visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrarias á fé católica. Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa crenga católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.

Eis o que neste site Pergunte e


Responderemos propóe aos seus leitores:
aborda questóes da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
vista cristáo a fim de que as dúvidas se
dissipem e a vivencia católica se fortalega
no Brasil e no mundo. Queira Deus
abengoar este trabalho assim como a
equipe de Veritatis Splendor que se
encarrega do respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.

Pe. Esteváo Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico • filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicagáo.

A d. Esteváo Bettencourt agradecemos a confiaga


depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
OUTUBRO

1959

ERGUNTE
e

Responderemos

ANO II
ÍNDICE

pag.

I. FILOSOFÍA E RELIGIAO

1) "Quain seriam as notas características e o significado do


Exístencialismo ?" i0S

II. DOGMÁTICA

2) "Em que sentido se fala de sacerdocio dos leiffos ?


Qual a diferenca vigente entre ésse sacerdocio e o dos minis
tros que receberam o sacramento da Ordem ?"

ni. SAGRADA ESCRITURA

3) "A Biblia (Gen 6-9) ensina realmente que o diluvio fox urna
catástrofe universal, a qual terá recoberto a térra inteira e exter
minado todos os homens ?" '. *

IV. MORAL

4) "Qual o juízo da Igreja a respeito da guerra ?


Será consentáneo com a mensagem de Cristo benzer armas
bélicas ?"

V. HISTORIA DO CRISTIANISMO

5) "Qual a atitude da Igreja frente d, escravatura ?


Como se explica que tenha reconhecido o comercio de escravos?" 4U

CORRESPONDENCIA MIÚDA ui

COM APROVACAO ECLESIÁSTICA


«PERGUNTE E RESPONDEREMOS»

Anc II — N« 22— Outubrc

I. FILOSOFÍA E

DOROTEU (Sao Paulo) :

1) «Quais seriam as notas características e


do Existencialismo ?»

O Existencialismo constitui urna atitude filosófica mais


do que urna escola estritamente dita ; norteia-se por certos
principios gerais, sob os quais cada pensador existencialista
coloca suas teses próprias ; daí também falarem os historia
dores de «existencialismos» contemporáneos (haja vista o
título da obra de E. Mounier: Introduction aux existentia-.
lismes. Paris 1947).

O existencialismo moderno tomou inicio em meados do século


passado, como reacáo contra o exagerado intelectualismo ou o idea
lismo de Hegel. Éste versava em plano totalmente especulativo,
desenvolvendo um sistema filosófico que propunha o Absoluto
chamado «a Idéia» a evoluir segundo a dialética de «tese, antítese
e sintese». A fuga de Hegel e dos idealistas para o abstrato pareceu
a um pensador dinamarqués, S6ren Aabye Kierkegaard (1813-55),
ser a fonte precipua da decadencia moral e espiritual que se .registrava
em geral na sociedade do século passado. Dai a reacáo dita «existen
cialista», que visava voltar ás coisas como elas sao, nSo como se
pensa que elas sejam.
O iniciador do novo movimento, Kierkegaard, era homem profun
damente religioso, luterano, que se insurgiu contra a mediocridade
da conduta de seus contemporáneos, e lhes procurou despertar a
consciéncia para a responsabilidade cotidiana. Todavia, enquanto
viveu, Kierkegaard nao encontrou eco. A sua mensagem so se desen-
volveu quando em fins do século passado renasceu na Alemanha,
apregoada por Karl Jaspers e Martín Heidegger, que lhe deram
colorido já nao religioso, mas práticamente ateu. A atitude existen
cialista se estendeu a outras nacoes, alimentada pelo mal-estar e o
abatimento que duas guerras mundiais consecutivas em nosso século
lanfjaram sobre os povos oddentais; na Franca contemporánea, por
exemplo, ela tem dois representantes de grande vulto: Gabriel Marcel,
católico convertido em 1929, e Jean-Paul Sartre, ateu niilista até as
últimas-conseqüéncias, ao qual se associam de perto Camus, Malraux
e Simone de Beauvoir; na Italia podem-so mencionar Abbagnano e
Grassi, enquanto a Espanha conta com Miguel de Unamuno. A
variedade de correntes do existencialismo (piedade luterana de
Kierkegaard, piedade católica de Marcel, impiedade extrema de
Sartre) já mostra bem que o existencialismo nao é própriamente
urna escola filosófica, mas urna atitude ou tomada de posigáo geral

— 403 —
diante dos problemas capitais do espirito humano. Verdade é que,
quando hoje em dia se fala de existencialismo, freqüentemente se
entende a mentalidade atéia de Sartre. Nao há dúvida, o relativismo
deletério altamente fomentado pelos escritos de Sartre marcou pro
fundamente o ritmo do pensamento e da vida modernos; muJtos dos
nossos contemporáneos que nao professam teóricamente o existen
cialismo, na • prática respiram o ar do clima existencialista que
recobre o mundo atual. Principalmente o existencialismo francés,
afirmando-se pela arte, a literatura, o cinema e pela conduta de
vida excéntrica de seus representantes, tem penetrado na sociedade;
6, várifica-se que levou nao poucos de seus adeptos, após urna existencia
debochada, ao desespero e ao suicidio.

Consideremos agora

1. As linhas mestras da mentalidade existencialista

O existencialismo moderno, em virtude das circunstancias


em que se originou (reacáo contra o abuso da razáo especu
lativa no século passado), é, antes do mais, anti-intelectual;
recusa a construgáo de um sistema de teses concatenadas a
partir de principios evidentes por si mesmos. Kierkegaard se
lamentava só por pensar que, após a sua morte, «professóres
exporiam a sua Filosofía como um sistema completo de idéias,
distribuidas em secgóes, capítulos e parágrafos» !
Ésse anti-intelectualismo leva naturalmente as seguintes
principáis posigóes:

1) Estima do Desdém da
EXISTENTE ESSÉNCIA
CONCRETO ABSTRATA
CONTINGENTE NECESSARIA
TEMPORAL ETERNA
SINGULAR E INDIVIDUAL UNIVERSAL

Que se entende por tal terminología ?


A esséncia de um ser é a sua natureza genérica e especí
fica, natureza que se realiza em todo individuo da mesma
especie. Assim a esséncia de Pedro é a de animal racional;
nesta nogáo plana e indiferenciada, Pedro, Paulo, Maria e
Joana se nivelam entre si, independentemente das notas pes-
soais de cada um. Pois bem; tal trabalho da inteligencia que
se separa da realidade individual para representá-la num plano
genérico e quase «estandartizado» é rejeitado pelo filósofo
existencialista. Éste volta a sua atengáo para o individuo
«existente» tal como ele se mostra no plano concreto e real,,
riáo tal como ele se demonstra no plano da especulagáo e da
abstracto.

— 404 —
Em outros termos, conforme o existencialista, o homem
é o que ele faz, nao o que ele pode ou deve fazer. O «poder
fazer» e o «dever fazer» pressupóem urna estrutura que define
e rege o homem antes que éste aja. Ao contrario, o «faz»
aponía para o homem existente, concreto, projetado na ordem
real. Ora.é a éste, e nao áquele, que o existencialista dá valor;
ele nao leva ériTeonta estruturas nem leis do ser anteriores
á atívidade concreta de tal ser; o .homem, para ele, nada
tem de eterno, de atemporal e necessário, mas é táo contin
gente qüanto o seu modo de agir; o modo de agir esgota
simplesmente a definigáo de homem.
Esta posigáo filosófica tem ampia repercussáo no plano
da Moral. O existencialista coerente com suas premissas nao
reconhece preceitos éticos perenes, válidos para todos os tem-
pos e todos os individuos, mas afirma que as categorías do
bem e do mal moral sao variáveis como as circunstancias em
que cada individuo se encontra ; é a situagáo do momento,
transitoria, que faz a ética de tal pessoa. ditando o que é bem
e o que é mal para essa pessoa (bem e mal que poderiam nao
ser tais para outro individuo humano). Nao existe «a Moral»
em si, mas existe apenas «minha Moral», como nao existe
«a Verdade», mas apenas «minha Verdade» (Jaspers). — É
essa a «Ética da situagáo», também dita «Existencialismo
ético».

2) Estima do temperamento individual, afetivo, em opo-


sicáo á razáo.
Pessimismo e angustia, em oposigao a otímismo e paz.

Esta segunda categoría de notas do existencialismo é bem


coerente com a anterior. Com efeito, quem menospreza a ac.áo
do intelecto, passa a se nortear pelo sentimento ou pelo seu
temperamento pessoal subjetivo ; a «minha experiencia» tor-
na-se entáo criterio estrito para que «eu» afirme ou negué
alguma coisa.
E a experiencia á qual os existencialistas dáo atengáo
preponderante, é a dos limites e imperfeigóes que cercam.p
homem neste mundo. Dai o pessimismo désses filósofos ou a
Preocupacáo («Sorge») de que muito falam Kierkegaard e
Heidegger.

Éste último, em particular, ensina que, para os homens entregues


a urna existencia banal, dispersa, perdida no mundo e destituida
de sentimentos nobres («uneigentliche Existenz»), a Preocupacáo
acarreta o Médo X«Furcht>). Para aqueles que, ao contrario, íogéth'
a dispersáo e nútrem em si sentimentos corajosos e nobres, a
Preocupacáo gera a Angustia («Angst»); essa angustia é crescente

— 405 —
á medida que o fim da vida se aproxima; a Marte ocasiona a
Angustia suprema. O existencialista ateu acrescentaria aqui: tentar
esquivar-se á angustia é entrar para o rol dos «tipos imundos» que
procurara refugio na religiáo, mas até nestes a angustia persiste,
á espreita... É preciso que o homem lute desapiedadamente contra
a tentacáo da felicidade; o sofrimento constitui, sim, a condicio
normal, verdadeiro mal incurável, do homem. Com a morte tudo se
acaba, íicando as tendencias inatas do homem frustradas no fim
déste currículo terrestre. O moribunda é urna b&lha que se extingue
no ar, é um laco que se desata no palco das tragedias humanas.
Sartre deu a tais idéias um acento particularmente carregado;
para ele, o aparecimento do homem no mundo, como o próprio
mundo em si, é algo de gratuito, absurdo. O homem vé-se aqui jogado
«sem razao, sem causa e sem necessidade»; conseqüentemente expe
rimenta a- asco da vida. Porque existe alguma coisa? «Tudo era
demais... Eu também era demais», responde Sartre; nao obstante,
continuaría ele, minha existencia é um fato, é urna aventura; queira
ou náó queira eu, tenho que me afirmar, pois o homem é essenciál-
mente um impulso, um «élan».
A náusea que Sartre experimenta neste mundo se traduz no
seu conceito de relagóes sociais. Nao procure o homem consoló
algum no convivio com os seus semelhantes, advertía ele; a frater-
nidade humana é ilusoria. O «outro» é inimigo e rival; rouba-me
o mundo. "A verde erva dos campos volta para o outro urna face
que eu nao conheco». E, multiplicando análises implacáveis, Sartre
pretende mostrar o odio irredutível que op6e os seres humanos
entre si, mesmo depois da morte. «O inferno sao os outros», assevera
ele simpiesmente.
Esta afirmacáo é bem ilustrada por famosa peca sartriana:
Huis-clos (A portas fechadas). Nesta aparece um quarto de hotel,
que por convencáo representa o inferno; contém tres assassinos,
mortos também éles de morte violenta: Estela, Inés e Garcia. Um
criado irrepreensível se mostra obsequioso ao extremo para com os
tres hospedes. A vida ai parece táo amena, até confortável, que
os tres clientes perguntam uns aos outros onde estáo os tormentos
que pensavam encontrar em punicáo de suas faltas: «Será isto
afinal o inferno?» pergunta um dos criminosos. «Nunca o pensei.
Recordai-vos? O enxófre, a fogueira, a grelha...»
Eis, porém, que Ssse quarto misterioso aprésenla duas notas
características: carece de espelhos e tem as portas inexorávelmente
fechadas. Ora basta isso para que a situacüo se torne verdadera
mente infernal. Sim, diz Sartre; o homem, ao agir neste mundo,
nunca encontra a si mesmo, nunca pode reíletir sobre si ou, corno-
acontece aos condenados de Huis-clos, nunca se pode mirar no
espélho. Doutro lado, os semelhantes com quem convivemos neste
mundo, estáo sempre a espreitar-nos e a formar um juízo a nosso
respeito. Em conseqüéncia, acontece que, de um lado, nao podemos
possuir-nos a nos mesmos e, de outro lado, estamos condenados a
ser possuidos pelos outros e a ser arrebatados a nos pela opiniáo
que os outros formulam a nosso propósito.
Vé-se destarte qual a pena a que estáo condenados os hospedes
de Huis-clos ou, sem simbolismo, os homens neste mundo: é a pena
de terem que viver em sociedade, sem se poderem isolar, tornando-se
por consegulnte objeto da opiniáo dos outros, que os conquista.'
Feita esta experiencia, os clientes de Huis-clos chegam a urna
conclusáo que Sartre qu'er incutir aos seus leitores: todo individuo
humano é demonio e carrasco para os outros; os homens que nos

— 406 —
cercam sao «demais» e nos causam náusea: «O enxófre, a fogueira,
a grelha... ride! Nao há necessldade de grelhas: o inferno sao
os outros!» ,

3) Estima da Acáó, em oposigao ao Pensamento.

Quem aprecia o concreto existente maia do que a idéia abstrata,


nao pode deixar de valorizar especialmente a atividade, pois é esta
que tem por objeto o ser individual.

Para o existencialista (falamos aqui principalmente da


modalidade atéia), o homem está langado na onda da vida
presente, sem poder resistir á impetuosidade da mesma ; em
conseqüéncia, o individuo tem que se desdobrar ou realizar.
Para alcangar tal fim, ele possui urna liberdade. Esta, porém,
está longe de implicar dignidade para o homem; é, ao con
trario, urna especie de maldigáo. Com efeito, a nossa liberdade
nao quer dizer «faculdade de escolher entre diversos bens»,
pois nao há valor algum fora do homem ; qualquer motivo
de agáo para o individuo carece de sentido.

«Cada um dos meus personagens, depois de ter íeito o que quer


que seja, pode ainda fazejv -o que quer que seja», observa Sartre,
visando inculcar que o homem sempre é livre, porque nao- há própria-
mente nem bem nem mal.

Liberdade, por conseguinte, vem a ser apenas a possibi-


lidade deagirmos sem ser coagidos por algum fator extrín
seco ; é, porém, espontaneidade mecánica, nao subordinada ao
controle da vontade nem á deliberagáo do individuo.
Todavía o uso da liberdade acarreta urna conseqüéncia
fatal: a existencia é incapaz de conter o seu dinamismo ou
as suas tendencias; por falta de cerimónias ou de modos,
entáo, ela rompe a sua crisálida ou os seus limites, e extra
vasa cometendo erros maiores ou menores... Estas falhas
— que, segundo a conceituacáo crista, constituem desvíos
moráis ou pecados — sao inevitáveis, pois decorrem do fato
de que o ambiente quer opor á existencia empecilhos e fronteiras.
Daí se segué que toda existencia humana é um fracasso ;
cheio de amargura e desespero, o homem posto neste mundo
lanca-se numa agáo inútil.

«Nao íazemos o que queremos e, nao obstante, somos respon-


sáveis por aquilo que somos. Eis a verdade», diz Sartre. E, se
alguém perguntasse ao escritor francés se isto nao é absurdo,
respondería que sim, evidentemente, como tudo mais é absurdo!
Alias, á guisa de consdlo, prosseguiria Sartre, "o que escolhemos,
é sempre o bem», pelo simples fato de que o escolhemos. Donde se
depreende que «tanto faz embriagar-se como governar um povo»;

— 407 —
o que importa é comprometer-se («s'engager»), e isto, «numa noite
sem estrélas^ num caminho ladeado de precipicios».

4) Estima da Arte, em oposicáo a Ciencia.

Compreende-se esta antítese, dado que a arte tem por


Jwobjeto ° concreto singular, enquanto a ciencia visa as esséncias,
ou seja, as definigóes universais e as leis gerais.

Importante conseqüéncia déste fato é que o existencialismo se


exprime nao própriamente por meio de tratados didáticos, os quais
costumam dissecar a realidade, introduzindo-a dentro de categorías
racionáis; transmite-se de preferencia por meio de pecas, sejam
literarias, sejam teatrais, procurando colher ao vivo o real concreto;
tenham-se em vista principalmente os escritos de Kierkegaard,
Gabriel Marcel e Sartre (diarios, poesías, romances, dramas de
palco...).

2. Que direi do Existencialismo ?

Numa tomada de posigáo frente ao Existencialismo, po-


de-se comegar por reconhecer alguns títulos de aprego que
esta ideología apresenta.
1. Valores positivos.
a) Reconhecido mérito dos existencialistas é o de have-
rem reagido contra o intelectualismo exagerado — dir-se-ia
mesmo: decadente — que dominava a Filosofía do século
passado : lembraram ao mundo que a verdade é desfigurada
e se torna letra morta, caso nao seja endossada pessoalmente
pelo estudioso, excitando néle o senso da responsabilidade e
impelindo-o a viver mais intensa e conscientemente determi
nada missáo neste mundo. O conhecimento da verdade é si
multáneamente mensagem, ensina a Filosofía perene; exige
um compromisso («engagement») da parte de quem se vé
atingido pela verdade. Nao é digno do homem viver «por pro-
curacáo», isto é, alheio á realidade concreta, encastelado numa
abstragáo que muitas vézes equivale a comodismo e embur-
guesamento.

b) O existencialismo fez ver ao mundo, com énfase única,


a angustiosa situacüo em que a sociedadese coloca, desde que renegué
a Deus. Os homens do século passado, enveredando por correntes
filosóficas novas, tentaram eliminar a Deus, diria Sartre, com o
mínimo de incómodos possíveis, isto é propugnando a validade de
leis e sancoes, 0 valor objetivo da ordem pública, sem contudo
admitir a existencia de Deus; na prática, procediam como se Deus
ou um Valor super-humano de fato existisse. _,
É o famoso escritor Emmanuel Mounier quem observa:
«Sartre censura os sistemas de moral leigos e radical-socialistas
por quererem suprimir Deus com o minimo de incómodos possivel.

— 408 —
Deus nao existe, proclamaram éles, mas nao obstante nada será
mudado. — Muito ao contrario, responde Sartre com razáo, se Deus
nao existe, tudo está mudado. Nao há mais valores espirituais, nao
há mais nenhum bem necessário, nao há mais luz interior» (extraído
da revista «Esprit» julho de 1946, 97).
Em particular, Sartre reagiu contra a incoeréncia afirmando que,
se nao há Deus, o^ homem tem o direito de se tornar carrasco e
agougueiro, isto é, tem o direito de matar e roubar segundo seus
criterios pessoais (muitas vézes apaixonados); é com razao que
Sartre assim íala, porque nenhum homem estará jamáis habilitado
a coibir seu semelhante senáo (ao menos implícitamente) em nome
de Deus; cí. «P. R.» 21/1959 qu. 1. Claro está que um mundo
dominado pelo ateísmo coerente que Sartre apregoa, nao pode
deixar de parecer tremendamente absurdo, tornando-se assim ocasiao
de náusea e desespero. — Foi,-sim, para esta realidade que o
existencialismo apontou mui vivamente.
c) Os existencialistas modernos, afirmando a angustia do homem
sobre a térra, nao fizeram senáo abordar um problema táo antigo
como a historia do género humano: o problema da insuficiencia
de tudo que é criado, para saciar a sede que o homem tem do Bem.
Já o judeu autor do livro bíblico do Eclesiastes (séc. III a. C),
mais tarde S. Agostinho (t430) e, posteriormente ainda, o filósofo
Blaise Pascal (tl662) deram expressSo á inquietude ou á sede
da alma peregrina neste mundo. A filosofía budista, do seu modo,
faz eco a essa experiencia. Kierkegaard, Heidegger, Jaspers, Marcel
e Sartre sao outros tantos afautos da mesma necessidade humana.
— É sadio, é mesmo necessário, que o homem se dg por insatisfeito
com os bens que éste mundo lhe oferece; tal é o pressuposto de
qualquer auténtica procura de valores. Contudo o existencialismo
moderno, longe de ser construtivo como o dos autores anteriores e
encaminhar o problema para urna solugáo, só faz exacerbá-Io...
E porque? — i: o que passamos a examinar, considerando

2. Os desvíos da mentalidade existencialista.

a) A reagáo contra o intelectualismo exagerado Ievou


os existencialistas ao extremo oposto, isto é, a um anti-intelec-
tualismo que depaupera a personalidade humana. Em «P.R.»
20/1959 qu. 1, procuramos demonstrar a capacidade da inte
ligencia para apreender a verdade ; o realismo natural, ou
seja, a aceitacáo de certas proposicóes que se nos incutem
naturalmente, constituí a única atitude filosófica nao absurda;
a natureza humana é tal que ela só se realiza plenamente,
usando da sua razáo; caso renegué a esta, o individuo, entre
outros inconvenientes, corre o risco de cair num misticismo
subjetivista, sentimental e cegó, que leva ao desespero e ao
suicidio, como se tem verificado no existencialismo contem
poráneo.

É esta, alias, a nota que diferencia o existencialismo dos modernos


do de pensadores mais antigos: os modernos recusam-se a usar
da Lógica e a construir u'a Metafísica, dando com isto provas de
cansaco ou decrepitude de mente; representam u'a mentalidade qué

— 409 —
perdeu a consciéncia do seu próprio vigor. Ora isto significa deca
dencia, e decadencia semelhante á que se deu no fim da historia
da Filosofía grega (séc. II a. C. — séc. I d. O, quando, distanciando-se
dos grandes sistemas metafisicos de Platáo e Aristóteles, os pen
sadores se tornaram epicureus. cínicos e céticos...

Caso, ao contrario, se deixe guiar pela razáo, o homem


ultrapassa os bens contingentes que o mundo sensível lhe pro
porciona, e apreende as esséncias que, no dizer de Aristóteles,
sao algo de necessário, eterno e imutável. Em outros termos:
pela razáo o homem chega ao conhecimento do Bem Essencial,
da Beleza Essencial, da Justiga Essencial, em urna palavra:...
do Ser Absoluto, nao contingente, o único capaz de responder
ao brado espontáneo da alma humana. Eis quanto vale o
sadio uso da razáo...
b) A mesma observacáo se poderia formular do se-
guinte modo :
Todo homem que se renda á evidencia, deve reconhecer
que deseja um valor: deseja, sim, o bem, a bem-aventuranga,
mediante qualquer de seus atos (á pergunta: «Quanto queres
ser feliz ?», todos responderiam que desejam ser irrestrita-
mente felizes,... felizes tanto quanto isto lhes esteja ao
alcance).
Pois bem ; a procura de um valor supóe naturalmente que
eu mesmo já seja um valor ; existe, sim, um bem inicial den
tro de mim.
É preciso entáo (e neste ponto o náo-existencialista se
separa do existencialista) que eu tenha consciéncia de que
sou um valor e de que, quando clamo por um bem maior, nao
fago senáo bradar por complemento ou consumagáo de minha
natureza. Nao queira eu sufocar ésse clamor, tachando-o de
absurdo ou desesperado ! Pois há, sim, quem lhe responda;
existe ésse Deus, objeto das aspiragSes humanas, como existe,
sem dúvida alguma, o Norte que invislvelmente atrai a agulha
magnética, agulha agitada até que néle se repouse !

c) Quanto á posifiáo de Sartre em particular, niilista ao extremo


como é, alguns comentadores julgam-na demasiado antinatural para
que o próprio Sartre a possa sustentar durante muito tempo; ela
se op5e frontalmente ao fundo de bom senso e de equilibrio moral
de todo homem. O pensamento désse filósofo ainda deve estar em
evolucáo... Os mesmos comentadores consideram a atitude momentá
nea de Sartre como a possível expressáo da veemente decepgao
ou do escándalo que éste escritor terá experimentado ao tomar
contato com o mundo contemporáneo: um mundo de homens que
vivem preponderantemente em íuncáo do dinheiro, do gozo e da
opiniao pública, totalmente esquecidos dos valores da consciéncia...
Nao terá sido sem motivo que Sartre disseminou através das suas
pecas as figuras, esbogadas com traeos ferozes, de individuos de

— 410 —
má íé e de falsa consciéncia; estes personagens constituem urna
copia da realidade contemporánea, que Sartre, dolorosamente decepcio
nado, talvez queira denunciar como absurda e asquerosa. O tempo
possivelmente revelará a Jean-Paul o aspecto positivo da natureza
humana, pois Sartre nao é quicá um debochado cínico, como parece
á primeira vista, mas urna alma de idealista profundamente atormen
tada pela incoeréncia do mundo atual! Cf. F. Jeanson, Le probléme
moral et la pensée de Sartre. Paris 1947; E. Brisbois, Le sartrisme
et le probléme moral, em «Nouvelle Revue Théologique» 74 (1952)
30-48. 124-145.
Contudo, consideradas em si mesmas, as obras do principe do
existencialismo contemporáneo sao tremendamente deletérias; pelo
que o S. Oficio as colocou no Índice dos livros proibidos aos 6
de novembro de 1948.
d) Os outros grandes temas a respeito dos quais o existencia
lismo contemporáneo manifesta concepcSes erróneas, já foram
explanados em fascículos anteriores de «P. R.». Aissim a questáo
do valor perene dos preceitos moráis ou das categorías do bem e do
mal moral, em «P. R.» 7/1958, qu. 5; o tema do inferno, em "P. R.»
3/1957, qu. 5; o problema da liberdade de arbitrio com seus matizes,
em «P. R.» 5/1958, qu. 3, 6 e 7; 7/1958, qu. 5.
* * !»

A guisa de conclusáo, seja aquí recordada urna frase de Nietzsche


(tl900), um dos grandes angustiados dos últimos tempos :
«Quero abrir-vos meu coraeáo, ó amigos; se existissem deuses,
como poderia eu suportar nao ser Deus?»
Por estas palavras era o fundo auténtico da naturnza humana
como tal que se exprimía. Nietzsche, porém, julgava que seu bracio
era utópico... O verdadeiro filósofo (nao sómente o cristao, mas
também o grego anterior a Cristo) lhe replicaría que, na verdade,
existe Deus e que é possivel ao homem ser semelhante a Deus. Para
conseguir éste objetivo, use da sua razáo; esta o levará a Cristo
Homem; de Cristo Homem ela finalmente o fará passar a Cristo
Deus!... (cf. «P. R.» 8/1957, qu. 1).

H. DOGMÁTICA

MATEUS (Piauí) :

2) «Em que sentido se fala de sacerdocio dos leigos ?


Qual a diferenca vigente entre esse sacerdocio e o dos
ministros que receberam o sacramento da Ordem ?»

Eis duas questóes de importancia capital para a renovacáo crista


de nossos dias. Délas depende, sim, a nogáo exata de participacáo
dos fiéis nos atos oficiáis do culto (pela dialogacáo da Missa, pela
recitacáo do Oficio Divino, pelo canto sacro, etc.); .. .depende também
o conceito de Agao Católica ou de participacáo dos fiéis no apostolado
da hierarquia eclesiástica.
Aplicar-nos-emos ao estudo do assunto, considerando 1) os fun
damentos revelados da doutrina do sacerdocio dos fiéis; 2) o modo
como se deva entender ésse sacerdocio e, 3) por fim, as relagñes
entre sacerdocio e mediacáo ou apostolado.

— 411 —
1. O sacerdocio dos fiéis: fundamentos revelados

1. Um dos textos mais significativos é o de 1 Pdr 2, 5-9:

«Vos mesmos, como pedras vivas, prontiíicai-vos para a cons-


trucáo de um edificio espiritual, a fim de serdes um sacerdocio santo
para oferecer sacrificios espirituais, agradáveis a Deus, por Jesús
Cristo...
Sois urna linhagem escolhida, um sacerdocio regio, urna nacáo
santa, um povo adquirido, para proclamar os grandes feitos d'Aquéle
que vos chamou das trevas á sua luz admirável».

O Apostólo nessa passagem refere-se a textos do Antigo


Testamento, á luz dos quais tem que ser interpretado. Vém
ao caso primeiramente os dizeres de Éx 19,5s :

«Seréis meu povo em meio a todas as nacóes... Seréis para


Mim um reino de sacerdotes e urna nacüo santa». A traducáo grega
dita dos LXX, que S. Pedro pressupóe, dava a ler, justamente como
no texto de 1 Pdr: «Seréis para Mim um sacerdocio regio...».

Éste trecho atribuí ao povo de Deus como tal urna digni-


dade e urna funcáo sacerdotais, que se poderiam assim for
mular : o que o sacerdote representa em meio ao seu povo,
isso o povo de Deus (Israel, no Antigo Testamento ; a coleti-
vidade dos cristáos, no Novo Testamento) o representa em
meio as nagóes do mundo; assim como o sacerdote, pelo fato
de permanecer mais perto de Deus que os demais homens,
mais se deve assemelhar a Deus tres vézes santo, assim tam-
bém um povo sacerdotal há de se distinguir pela prática das
virtudes. As fungóes decorrentes dessa dignidade sao explici-
tadas pelo Apostólo :

a) trata-se de oferecer «sacrificios espirituais», isto é, a home-


nagem de urna vida crista santa, que é sempre vida no Espirito
Santo (cf. 1 Cor 12,3). A expressáo "sacrificios espirituais» inclui
também a oblacáo da Eucaristía, que vem a ser por excelencia o
culto em espirito e verdade (cf. Jo 4,24), pois Jesús se entregou ao
Pai sobre a cruz e se entrega sobre os altares no Espirito Santo,
(cf. Hehr 9,14);
b) o povo de Deus, conforme 1 Pdr 2,9, oferece também a
hostia do louvor, isto é, «o fruto dos labios que glorificam o nome de
Deus» (cf. Hebr 13,15), pois foi chamado a proclamar os grandes feitos
do Redentor.

Outro texto do Antigo Testamento a que alude Sao Pedro,


é o de Is 61,6, que assim se refere ao povo messiánico :

«Seréis chamados sacerdotes do Senhor; dar-vos-áo o titulo de


ministros de nosso Deus».

— 412 —
De novo estas palavras significan! que ao povo de Deus
(que é por excelencia o povo do Novo Testamento ou dos cris-
táos; cf. Gal 6,16 ; 1 Cor 10,18) compete em meio as demais
nagóes o papel que toca ao sacerdote em meio ao seu povo
próprio.
2. O Apostólo Sao Joáo, por sua vez, anuncia:

«Ele (Cristo) íéz de nos um reino de sacerdotes para Deus seu


Pai; a Ele sejam dados a gloria e o poder pelos sáculos dos sáculos»
(Apc 1,6; cf. 5,10; 20,6).

Éste texto será interpretado á semelhanca dos ácima


citados.
A Tradicáo crista, desde os seus primeiros testemunhos,
desenvolveu a doutrina contida nessas passagens bíblicas. S.
Justino (fl65 aproximadamente), por exemplo, estabeleceu
um nexo explícito entre o texto de 1 Pdr 2 e a profecía de
Malaquias (1,10) concernente ao Messias e a urna oblacáo
pura a ser continuamente oferecida:

«Nos que, á semelhanca de um so homem, eremos todos em


Deus Criador do universo,...„• somos urna linhagem sacerdotal, como
atesta Deus mesmo ao dteer que Lhe seráo oferecidos sacrificios
puros e agradáveis em todo lugar entre os gentíos. Ora Deus nao
aceita sacrificios de ninguém a nao ser das máos dos seus sacerdotes»
(Dial. c. Trifao 116).
Em geral, os formularios da Liturgia eucarística, tanto do Oriente
como do Ocidente, repetem instantemente o conceito de que £ Missa
é o sacrificio oferecido por toda a comunidade crisma colocada em
hierarquia e encabecada pelo Ünico Mediador Jesús Cristo.
No séc. XVI, porém, Lutero exagerou o significado do sacerdocio
comum dos fiéis a ponto de negar o sacerdocio hierárquico constituido
pelo sacramento da Ordem. Ém conseqüéncia, os teólogos católicos
tiveram que acentuar mais éste último, o que fez que o povo fiel,
do séc. XVI até os últimos decenios, mais e mais se fósse julgando
alheio a tudo que diz respeito ao sacerdocio; criou-se um novo
conceito de «leigo», afim ao de «profano» e oposto a «sagrado»; o
leigo oi sendo muitas vézes considerado como su.ieito quase mera
mente passivo no Carpo Místico de Cristo.

Os dois últimos Papas, porém, voltaram a inculcar ao


povo de Deus o seu grau próprio de participagáo no ministerio
ou no sacerdocio de Cristo. Pió XI, por exemplo, na encíclica
«Miserentissimus Redemptor» de 8 de maio de 1928, lembrava
aos fiéis o fato de que, havendo sido elevados á dignidade de
um sacerdocio regio, lhes incumbe o dever de oferecer a S.
Missa em expiacáo dos pecados seus e do mundo inteiro.
Pío XII aínda foi mais explícito: depois de frisar a distincáo
entre o sacerdocio comum dos cristáos e o hierárquico, quis
reavivar fortemente nos fiéis a nogáo daquele:

— 413 —
"Os íiéis cristaos também oíerecem a hostia divina, mas em
sentido diverso (isto é, nao como o sacerdote hierárquico). Isto já
ioi declarado abertamente por varios de Nossos Predecessores e por
Doutores da Igreja...
Também o rito e as oracGes do Sacrificio Eucarístico significan!
e mostram, nao menos claramente, ser feíta a oblacáo da vitima
pelos sacerdotes juntamente com o povo. Nao sómente depois do
oferecimento do pao e do vinho o ministro sacro, voltado para o
povo, diz com palavras significativas: 'Rezai, irmáos, para que o
meu e vosso sacrificio seja aceitável a Deus Pai Onipotente', mas
aínda as súplicas pelas quais a Deus é oferecida a hostia divina,
as mais das vézes sao formuladas no plural, e nelas está indicado,
nao apenas urna vez, participar o povo déste augusto sacrificio,
porque também o oferece...
Nem é para admirar serem os fiéis elevados a tamanha dignidade.
Pela ablucao do batismo. a um título geral, os cristaos se fazem
membros de Cristo Sacerdote no Corpo Místico, e pelo caráter que
em suas almas como que é insculpido, ficam destinados ao culto
divino, e désse modo participam, segundo a sua condicáo, do sacerdocio
do próprio Cristo» (ene. «Mediator Dei»).

Estas palavras de Pió XII sugerem ao leitor urna análise


mais exata da maneira como os fiéis participam do sacerdocio
de Cristo.

2. O modo como os fiéis participam do sacerdocio de Cristo

Quem fala em «participacáo do sacerdocio», sup5e previamente


estipulada a nocao de «sacerdocio». Ora esta é diversamente formulada
pelos diversos autores; daí a yariedade de posicSes que tomam ao
tratarem do sacerdocio dos íiéis.
Ha quem defina o sacerdocio a partir da idéia de mediaCüo;
outros procedem, ao contrario, da idéia de consagracáo, enquanto
um terceiro grupo entende o sacerdocio como ministerio ou apostolado
salvífico em favor das almas. Cada urna destas conceituagóes incluí
um cerne de verdade; parece, porém, nao visar o aspecto mais
central do sacerdocio. A S. Escritura sugere outra apreciacáo,
associando Intimamente a nocáo de sacerdocio á de sacrificio; efetiva-
mente, conforme Hebr 5,1 (cf. 8,3; 9,11-14; 10,11), a funcáo típica do
sacerdote é a de oferecer sacrificio: «Todo sacerdote... é consti
tuido .. .para oferecer dons e sacrificios pelos pecados».
A Tradicáo crista inculcou com autoridade o nexo que liga
o sacerdocio ao sacrificio.
Assim, entre os Padres da Igreja, dirige-se S. Agostinho (t430)
a Deus Pai: «Cristo se tornou em nosso favor sacerdote e sacrificio
em Tua presenca; precisamente foi Ble sacerdote por ser também
sacrificio. — Pro nobis Tibi sacerdos et sacrificium; et ideo sacerdos,
quia sacrificium» (Conf. X 43,2).
S. Tomaz, no séc. XIII, ao comentar Hebr 5,1, observa que o
Apostólo «designa Cristo como sacerdote, porque Ele se_ ofereceu
a Deus Pai» (In Hebr c. 5, 1,1).
O Concilio de Trento no séc. XVI afirmou por sua vez: «O
sacerdocio e o sacrificio, por disposlcao de Deus, estáo de tal modo
unidos entre si que um e outro sempre existiram em toda legislacáo
religiosa» (Denziger, Ench. 957).

— 414 —
Perguntemo-nos entáo: se o sacerdocio se deve concei-
tuar a partir da nocáo de sacrificio, que se entende própria-
mente por sacrificio ?

Embora muitas vézes se defina o sacrificio pelo que re


presenta de custoso ou penoso, nao é éste o seu aspecto pri
mario. «Sacrificio» vem a ser etimológicamente o ato de «fazer
ou tornar sacro» ; na realidade, «sacrificio» é todo ato pelo
qual alguém se ordena a um bem maior (e, em última análise,
ao Bem Infinito, Deus), ultrapassando-se a si mesmo, e prefe-
rindo ésse bem maior ao próprio eu ou, ao menos, á parte
egoísta da sua personalidade. É precisamente porque existe
egoísmo ou egocentrismo em todo individuo humano que a
subordinagáo de urna personalidade a outrem (aínda que éste
seja um bem maior ou o Bem Infinito) implica algo de dolo
roso ; nao fóra o primeiro pecado, que desregrou a natureza,
instaurando em cada individuo a tendencia a se constituir cen
tro do universo, em lugar de Deus, e o sacrificio (no sentido
ácima definido) nao seria oneroso. Nao obstante, o sacrificio
se poderá efetuar com alegría sempre que fór movido por au
téntico amor, amor do Verdadeiro Bem, capaz de superar o
apego ao próprio eu.

Em se tratando das relagóes do homem com Deus, o


Criador, está claro que o sacrificio adequado consistirá nao
na entrega apenas déste ou daquele objeto de sua propriedade
(um par de pombas, as primicias do gado ou dos frutos da
térra), mas na entrega de tudo aquilo que o homem é e faz.
Acontece, porém, que, o seu ser e o seu agir, o homem só o
pode entregar por meio de atos particulares : atos de virtude,
boas obras, oferta de objetos simbólicos, etc. Conseqüente-
mente, definir-se-á o sacrificio, com S. Agostinho, como sendo
«toda obra efetuada em vista de nos unir a Deus em urna
santa comunháo» (De civ. Dei X 6 ; a definigáo volta em
S. Tomaz, S. Teol. II/II q. 85 a.2 ; a.3, ad 1; III q. 22, a.2 ;
q. 48, 3 ; foi também adotada por S.S. o Papa Pió XII na
encíclica «Mediator Dei»).
Fois bem ; no decorrer da historia, quem por excelencia
exerceu o ato de entrega de toda a sua vida ao Pai do céu,
foi o Cristo Jesús, verdadeiro Homem e verdadeiro Deus. A
entrega, ou o sacrificio de Cristo iniciou-se no primeiro ins
tante da sua entrada no mundo e culminou na imolagáo san
grenta sobre a cruz (cf. Hebr 10,5-9). A oblagáo de Cristo foi
aceita pelo Pai em reparagáo da revolta do primeiro homem;
a ela portante competem valor e significado universais', toda
a historia dos sáculos anteriores e posteriores a Cristo se.

— 415 —
desenrola em fungáo da vida e da morte ou em fungáo do sa
crificio de Cristo.
Dada a posigáo central e decisiva que essa oferta ocupa
no curso dos tempos, ela vem a ser simplesmente o Sacrificio,
e o seu autor, Cristo, é o Sacerdote único, cuja agáo recobre
todos os sáculos e todas as regiñes. É por Cristo, e sómente
por Cristo, que os homens em qualquer época conseguem santa
comunháo com Deus Pai.
Ora o Senhor Jesús quis deixar sobre a térra um rito, a
Eucaristía ou a S. Missa, que, sob sinais prenhes de realidade,
perpetuasse a presenga do seu sacrificio ; mediante ésse rito,
Ele tinha em vista proporcionar aos homens, feitos membros
do Corpo de Cristo Místico pelo batismo, um meio de par-
ticiparem da oblagáo que outrora na cruz o Redentor fez de
Si mesmo ao Pai. Celebrando tal rito, toda a Santa Igreja e
cada um dos membros desta sao associados ao sacrificio do
Senhor. Sim; na Missa Cristo Sacerdote oferece nao apenas
como Individuo (á semelhanga do que se deu no Calvario),
mas como Cabega á qual estáo vinculados os membros do
seu Corpo Místico (a Igreja) ; na Missa Jesús também Se
oferece como Hostia, e Hostia á qual estáo unidos os membros
do Corpo Místico.
Destarte se vé em que sentido se pode falar do sacerdocio
dos cristáos. Como dizíamos, há um só Sacerdote — Cristo —,
o qual por si mesmo é agradável ao Pai; o seu sacerdocio,
porém, se estende em graus diversos aos homens que Ele
enxerta em seu Corpo Místico. Ésses diversos graus de en-
xérto em Cristo e, por conseguinte, de participagáo do sacer
docio e do sacrificio do Senhor sao assinalados pelos tres sacra
mentos que, como dizem os teólogos, imprimem caráter: o
Batismo, a Crisma e a Ordem.

Tenham-se em vista a propósito asi palavras de S. Tomaz :


«Todo o culto da religiao crista se deriva do sacerdocio de
Cristo. É, pois, manifestó que o caráter sacramental é de modo
especial o caráter de Cristo; ao sacerdocio d'Éste sao os fiéis confi
gurados pelos diversos caracteres sacramentáis, que nao sao senao
participagóes do sacerdocio de Cristo, derivadas de Cristo mesmo»
(S. Teol. III q. 63, a. 3).
Procuremos explicitar estas palavras do S. Doutor.

O caráter (nome que vem do grego charakter, imagem)


é sinal indelével impresso na alma, a fim de configurá-la e
consagrá-la a Cristo. Em virtude dessa consagragáo, a alma
se torna apta a ser envolvida por Cristo no ato com que o
Senhor se entregou ao Pai durante toda a sua vida terrestre
e, em particular, sobre a cruz; tal ato, que foi um verdadeiro

— 416 —
ato de culto, se torna presente, como sabemos, em cada S.
Missa. Já o Batismo, pelo fato mesmo de ser o sacramento
da inidagáo, comunica o sélo do Senhor á alma, habilitando-a
a oferecer e a se oferecer com Cristo. A Crisma ou Confirma-
c.áo intensifica o dom do Batismo, comunicando como que a
maturidade espiritual, mormente o ánimo forte para se pro-
fessar a fé crista tanto com os labios como com atitudes prá-
ticas. Por fim, o sacramento da Ordem nao sómente corro
bora, mas amplia notávelmente a incorporagáo do cristáo em
Cristo, conferindo á criatura poderes de índole distinta de
quanto é dado pelo Batismo e a Crisma.

S. Tomaz e os teólogos em geral ensinam que essa distincáo


de poderes consiste em que as faculdades outorgadas pelo sacra
mento da Ordem sao essencialmente ativas (o sacerdocio hierárquico
oficia e dirige o culto da comunidade crista), ao passo que o caráter
batismal comunica principalmente (mas nao exclusivamente) o poder
passivo de receber beneficios espirituais (cf. S* Teol. III q. 63, a. 2).
O fato de que a participacáo válida dos fiéis no sacerdocio de
Cristo se faz mediante um caráter ou sinal indelével impresso na
alma, e nao mediante a virtude pessoal e vacilante do cristáo (seja
sacerdote hierárquico, seja apenas leigo batizado),' é de enorme
alcance. Dal se compreende que a S. Missa possa ser válidamente
celebrada e os sacramentos frutuosamente administrados até mesmo
por um sacerdote indigno; desde que éste tenha simplesmente a
intengáo de fazer o que Cristo como Sacerdote faz, o seu caráter
o habilita a ser instrumento do Senhor (independentemente da sua
virtude pessoal). — Ilustrando esta verdade, S* Gregorio de Naziano
(t 390) comparava a íunc,áo do sacerdote á do anel que alguém
utiliza para imprimir um carimbo á cera; seja ésse anel de ouro,
seja de ferro, a figura por ele impressa á cera será sempre a
mesma; assim os sacramentos sao sempre eficazes desde que o
sacerdote, válidamente ordenado, tenha a intencáo de se unir a
Cristo no exercicio do seu sacerdocio (or. 40). Está claro, porém, que
tal doutrina de modo nenhum dispensa o sacerdote de tender ávida
mente á santidade.
Na base das idéias até aqui explanadas, percebe-se quanto é
para desejar que os fiéis cristáos tomem conscientemente o lugar
que lhes cabe na celetaracáo do culto sagrado e, de modo especial,
na da S. Missa: unam-se ao Ritual e ás preces do celebrante, a fim
de constituirem com ele urna so comunidade orante; nao receiem
estar a par do que se realiza no altar, pois o "leigo» cristáo nao é
um estranho ao santuario, mas é um membro do povo santo de
Deus («leigo vem do grego laikós, palavra esta derivada de laós, povo
ou também, na literatura crista antiga, o povo por excelencia, o povo
santo de Deus; cf. Rom 9, 25 s; 1 Pdr 2,9).

3. Sacerdocio comum dos fiéis e apostolado

As consideracOes ácima pressupunham ser a funcáo primaria do


sacerdote a de oferecer um sacrificio ou urna acáo sagrada que
una a Deus.
Nao resta dúvida, porém, de que o sacerdote possui outrossim
urna funcSo medianeira ou apostólica. Tal papel toca ao sacerdocio

— 417 —
hierárquico, e, dentro déste, por excelencia convém ao presbítero
e ao bispo, que em grau máximo participam da missáo de Cristo
Apostólo (cf. Hebr 3,1). Diz-se popularmente, e com razao, que «o
padre representa o coragáo dos homens junto a Deus e o coracjio de
Deus junto aos homens». A tarefa de apostolado, porém, inerente
ao sacerdocio de Cristo estende-se aínda aos graus inferiores de
participagáo désse sacerdocio, ou seja, aos fiéis batizados e crismados;
a estes incumbe, sem dúvida, o dever de serem «sal da térra e luz
do mundo» (cf. Mt 5.13 s). Tal tarefa. os fiéis leigos a desempenham
segundo tres modalidades, que se podem assim discriminar:

1) pela participado consciente e férvida no culto sa


grado, assim como por sua vida de oracao pessoal, todo cristáo
se pode tornar apostólo. É a prece de almas nao raro desco-
nhecidas ao mundo que obtém o éxito sobrenatural para a
labuta dos missionários e pregadores. A oracáo sustenta o
mundo, dizia Sao Joáo Clímaco (1649).
2) Urna conduta de vida coerente com sua profissáo de
fé é outro foco que atrai as béngáos de Deus sobre o mundo ;
Deus houve por bem santificar os homens comunitariamente,
de modo que entre éles existe íntima comunháo de méritos.
Era em vista disto que um antigo escritor cristáo (séc. IV)
afirmava: «Todo santo é sacerdote, embora nem todo sacer
dote seja santo» (Ps. Crisóstomo, Op. imp. in Mt).

A S. Escritura, em mais de urna passagem, dá a ver a impor


tancia que Deus atribuí á conduta integra dos justos. Assim Deus
prometeu salvar Sodoma e Gomorra, caso ai encontrasse dez justos
apenas (cf. Gen 18, 32); Sao Paulo afirma que o povo de Israel,
embora tenha caído na cegueira espiritual, é carissimo ao Senho.r por
causa de seus país (cf. Rom 11,28); o Salvador advertiu que os días
da grande tribulagáo seriam abreviados por causa dos amigos de
Deus (cf. Mt 24,22).
A verificacáo de táo estreita solidariedade sobrenatural sugere
ulterior reflexáo: ao ver o próximo cair em algum deslize, o cristáo
procurará nao o julgar nem desprezar: lembrar-se-á, antes, de que é
talvez por causa dos deméritos e das falhas anteriores do próprio
individuo tentado a julgar, que o pecador cometeu o pecado; «minha
vida nao foi o que devia ser na comunháo dos santos; fui célula
doentia no Corpo Místico de Cristo; daí a conduta moralmente
anémica do meu próximo!»

3) Além destas duas formas de irradiagáo sobrenatural,


obrigatórias para todo cristáo, há um terceiro grau que talvez
nao seja acessível a qualquer discípulo de Cristo: o das
atividades apostólicas própríamente ditas. É o que o S. Padre
Pió XI lembrava, dirigindo-se ao episcopado católico :

«Chamai a atencáo dos fiéis para o fato de que, aplicando-se


a difundir o conhecimento de Jesús Cristo e a fazer reinar p seu
amor em obras de apostolado particular e público, sob a directo
vossa e de vosso clero, mereceráo o titulo magnífico de linhagem

— 418 —
escolhida, sacerdocio regio, nagáo santa, povo resgatado» (ene.
«Ubi arcano»).
O mesmo Pontífice assim escrevia ao Cardeal de Malines:
«Estejam persuadidos (os fiéis) de que sao chamados e esco-
Ihidos por graca singular de Deus a essa tarefa (do apostolado), que
nao fica muito abaixo da tarefa sacerdotal» (carta de 15 de aeósto
de 1928, em A. A. S. [1928] 296).

Entre as atividades apostólicas, merece mengáo em pri-


meiro lugar a Agáo Católica, que é o apostolado oficial dos
leigos, definido como «participado do laicato no apostolado
da hierarquia sacerdotal». A Agáo Católica é particularmente
recomendável por basear sua espiritualidade nos caracteres
sacramentáis do Batismo e da Crisma, mediante os quais os
fiéis participam do sacerdocio de Cristo : reavivando nos leigos
a consciéncia désses dois dons, a Agáo Católica visa fazé-los
viver coerentemente a vida sacramental (do Batismo, da
Crisma e da Eucaristía) até as suas expressóes mais remotas
no ambiente de casa ou de trabalho cotidiano, em íntima cola-
boragáo com o sacerdocio hierárquico.
Além da Agáo Católica, devem ser referidas aqui as múl
tiplas obras de expansáo,do Reino de Cristo efetuadas no ma
gisterio e na catequese, na assisténcia aos necessitados, no
cultivo das vocagóes sacerdotais, etc.

Estes variados ramos de apostolado foram calorosamente enal


tecidos por S. S. o Papa Pió XII no I Congresso Mundial do Apostolado
Leigo aos 14 de outubro de 1951, quando o Sumo Pontífice lembrava
o seguinte :
«Costuma-se dizer com freqüéncia que, durante os quatro últimos
sáculos, a Igreja foi exclusivamente 'clerical' por reacáo contra a
crise que no século XVI pretenderá chegar á abolicáo pura e simples
da Hierarquia e, a propósito, se insinúa que está em tempo de
ampliar ela os seus quadros.
Semelhante julgamento está de tal modo longe da realidade que
foi precisamente desde o santo Concilio de Trento que o laicato
tomou posicao e progrediu na atividade apostólica. É: coisa fácil de
verificar; basta recordar dois fatos históricos patentes entre muitos
outros: as Congregacóes Marianas de homens exercendo ativamente
o apostolado dos leigos em todos os dominios da vida pública, e a
introducao progressiva da mulher no apostolado moderno...
Existe, é verdade, toda u'a multidáo confusa de tibios, irresolutos
e flutuantes, para os quais a .religiáo é ainda talvez alguma coisa,
mas algo de bem vago, sem projecáo alguma em sua vida. Essa turba
amorfa pode, a experiencia o ensina, ver-se de um día a outro, de
improviso, na contingencia de tomar urna decisáo.
Quanto á Igreja, Ela tem diante de todos urna tríplice missao
a cumprir: erguer os fiéis, fervorosos ao nivel das exigencias do
tempo presente; introduzir aqueles que se demoram nos umbrais,
na cálida e salutar intimidade do lar; reconduzir os que se afastaram
da religiáo e que no entanto Ela nao pode abandonar á sea miserável
sorte. Bela tarefa para a Igreja, tarefa, porém, que se tornou difícil,

— 419 —
visto que, embora no conjunto Ela tenha crescido considerávelmente,
seu clero todavía nao aumentou em proporcáo. Ora o clero tem
necessidade de se poupar antes de tudo para o exercício de seu
ministerio própriamente sacerdotal, onde ninguém o pode substituir.
Um complemento fornecido pelos leigos ao apostolado é, portante,
de necessidade indispensável. Que ele seja de precioso valar, a
experiencia da fraternidade de armas ou de cativeiro ou de outras
provacdes da guerra ai está para dar testemunho. Ela atesta, princi
palmente em materia de religiáo, a influencia profunda e eficaz dos
companheiros de profissáo, de condicao, de vida. Ésses fatores e
muitos outros, devidos ás circunstancias de lugar e de pessoas,
tornaram muito largas as portas á colaboracáo dos leigos no aposto
lado da Igreja...
O apostolado dos leigos, no sentido próprio, está sem dúvida em
grande parte organizado na Acáo Católica e ñas outras instituigSes
de atividade apostólica aprovadas pela Igreja; mas, fora destas, pode
haver, e há, apostólos leigos, homens e mulheres, que olham o bem a
fazer as possibilidades e os meios de fazé-lo; e éles o fazem preocupados
'únicamente em conquistar almas para a verdade e a graca. Pensamos
também em tantos leigos excelentes que, ñas regi6es em que a
Igreja é perseguida como era nos primeiros séculos do Cristianismo,
substituindo da melhor maneira os sacerdotes encarcerados, pondo
mesmo em perigo a vida, ensinam ao redor de si a doutrina crista,
instruem acerca da vida religiosa e do justo modo de pensar católico,
conduzem á freqüéncia dos sacramentos e á prática das devogSes,
especialmente da devocáo eucaristica. Vos os vedes em acáo, a todos
ésses leigos; nao vos inquietéis em perguntar-lhes a que organizacáo
pertencem; admirai antes e reconhecei de bom grado o bem que
éles fazem» (texto transcrito da «Revista Eclesiástica Brasileira»
11 [1951] 967-71).

É, portante», nos termos ácima delineados, partindo do


santuario ou da Santa Missa, para se estender ás mais simples
afirmacóes da vida cotidiana, que se realiza o chamado «sa
cerdocio comum dos fiéis».

III. SAGRADA ESCRITURA

UNIVERSITARIO (Rio de Janeiro) :

3) «A Biblia (Gen 6-9) ensina realmente que o diluvio


foi urna catástrofe universal, a qua-1 terá recoberto a térra
inteira e exterminado todos os homens ?

Quem fala do diluvio biblico, tende geralmente a identificá-lo


com o diluvio de que trata a geología; seria algo de semelhante
a grande derramamento de aguas sobre os continentes, derramamento
que haveria modificado a face do globo, de sorte que a Zoología
chega a falar de animáis antediluvianos (saurios, aves gigantescas,
etc.) e animáis pós-diluvianos.
Para se avaliar adequadamente esta concepeáo, faz-se mister
analisar as expressOes bíblicas ñas quais ela é geralmente fundada.
Estudaremos, pois, os termos que de certo modo poderiam concorxer
para se reconstituir o ámbito do diluvio biblico. A seguir, compara-

— 420 —
remos a narrativa escrituristica do diluvio com historias semelhantes
nao-bíblicas, para finalmente deduzir o ensinamento perene do texto
sagrado.

1. Algumas expressoes características

Os primeirós dizeres que se deveráo levar em conta para


se determinar o cenário do diluvio sao os que indicam os
atores do quadro:

a) «Filhos de Deus» e «filhas dos homens». Eis o con


texto em que ocorrem tais expressoes :

Gen 6,1 «Quando os homens comecaram a ser numerosos sobre


a face da térra e lhes nasceram íilhas, 2 os filhos de Deus viram
que as filhas dos homens eram belas e tomaram-nas por mulheres
dentre todas as que lhes agradavam. 3 Entáo o Senhor disse: 'Meu
espirito nao permanecerá para sempre no homem, pois o homem é
apenas carne; seus dias atingiráo cento e vinte anos'. 4 Ora os
gigantes habitavam sobre a térra naqueles dias (e mesmo depois),
quando os filhos de Deus se uniram ás filhas dos homens, e estas
lhes geraram filhos. Sao os heróis dos tempos antigos, homens
famosos».

É com o trecho ácima que se abre a historia do diluvio.


Quem seriam, pois, os filhos de Deus e as filhas dos homens
que a catástrofe vai atingir ?

a') Urna tradicao judaica, adotada por escritores cristáos até


o séc. V, aíirmava que os filhos de Deus eram anjos, os quais se
teriam unido, em cópulas ¡licitas, a mulheres («filhas dos homens»,
no texto bíblico), gerando prole monstruosa, ou seja, gigantes hu
manos de 3.000 cdvados de altura. Os anjos, portante, teriam pecado
sexualmente com mulheres, provocando destarte o castigo de Deus.
Esta tese, tendo perdido sua voga após S. Agostinho (t 430), íoi de
novo propugnada por autores liberáis recentes, que admitem haver
mitos na Escritura Sagrada.
A sentenca é de todo insustentável já pelo fato de que os anjos,
por definlcáo, nao tém corpo, nao podendo, por conseguinte, pecar
sexualmente. Se, nao obstante, a Biblia em Gen 6,1-4 menctonasse
urna culpa sexual dos anjos, nao faria senáo referir um mito; ora
nao se pode conceber que Deus, inspirando os livros sagrados, néles
tenha inserido um mito (historia geralmente grosseira) como se
fósse urna verdade, sem advertencia previamente feita ao leitor.

b1) Sendo assim, a sá exegese opta por outra sentenca.


O termo «filhos de Deus» designa nao raro na Escritura Sa
grada os homens piedosos; cf. Is 1,2; 30,1.9 ; 43,6 ? 2 Sam
7,14; Os 2,1; 11,1; Éx 4,22. Ora tal é o sentido da expres-
sáo também em Gen 6,1-4; com efeito, no v. 3 os sujeitos
punidos por causa da corrupgáo sao claramente ditos homens
e carne; por conseguinte, no v. 2 os «filhos de Deus» sao

— 421 —
homens, e homens que por sua fidelidade ao Senhor mere-
ceram ser assim chamados. Tais homens, acrescenta a Escri
tura, em determinada época da historia se foram corrompendo,
deixando-se atrair pela beleza de mulheres indignas.

Quanto aos «gigantes» que nasceram de tal prevaricacáo, hao de


ser entendidos do seguinte modo: os israelitas julgavam que em épo
cas remotas habitavam sobre a térra homens de estatura extraordi
naria, que por seus íeitos valentes haviam grangeado fama imorre-
aoura (cf. Bar 3,26-28; Núm 13,31-33; 1 Sam 17; 1 Crón 20,4-8; Eclo 16,7).
Ora o autor sagrado, ao introduzir a historia do diluvio, quis refe-
rir-se a essa antiga crenga dos judeus: mencionou gigantes sobre a
térra, nao com o intuito de dizer qual o tipo da populacáo do globo,
mas com o simples íito de p6r em realce a majestade da justica
divina...Esta atinge, sim, o pecado onde quer que ele se encontré,
mesmo nos homens mais dotados de fórca e prendas naturais; nenhum
poder humano prevalece contra a santidade de Deus ! — As palavras
«e mesmo depois» do v. 4 sejam tidas como interpolacSo devida a um co
pista que, conforme a tradlcáo, quis inculcar a existencia de gigantes
mesmo nos tempos posteriores ao diluvio, isto é, ñas épocas de
Moisés (séc. Xin a.C; cf. Núm 13,31-33) e Davi (séc. X a.C; cf.
1 Sam 17; 1 Crón 20,4-8).

Como se vé, as expressóes «filhos de Deus» e «filhas dos


homens» nao permitem ínferir-se conclusáo precisa sobre o
ámbito do diluvio bíblico. — Vejamos entáo o que sugerem
b) as dimensoes da arca fabricada por Noé. Esta se
apresenta como casa flutuante construida de madeira de ci-
preste e, tanto por dentro como por fora, revestida de betume,
a fim de ser impermeável as aguas. Tomando-se por base de
cálculo o cóvado babilónico (= cérea de 50 cm), o texto bí
blico sugere que media 150 m de comprimento, 25 de largura
e 15 de altura, oferecendo urna capacidade de 65/70 mil me
tros cúbicos; celas ou mansóes ai se dispunham em tres an
dares, e urna janela se abría a 50 cm abaixo do teto.
Os exegetas recentes, considerando a mentalidade do
autor sagrado já expressa em Gen 1 (onde os números tem
significado evidentemente simbólico), asseguram com razáo
que as cifras ácima nao designam dimensoes arquitetónicas,
mas qualidades ou valores religiosos.

Como isto?
O fato mesmo de que Deus apareca no texto sagrado ditando
números para a construcáo da arca, dá testemunho da Providencia
e da benevolencia inesgotável do Criador; a arca construida em
conseqüéncia de tao carinhosa intervencao do Senhor deverá apresen-
tar-se aos olhos do leitor qual instrumento apto e bem seguro para
a salvacáo humana. É isto o que em primeiro lugar se deve inferir do
fato literario de que Deus dita as proporgoes da arca. Para inculcar
mais vivamente esta conclusáo, o autor sagrado quis indicar cifras pre
cisas : 300, 50 e 30 (cavados); sao cifras que obedecem a simetria e,

— 422 —
ncste contexto, nada mais signiíicam do que urna construgáo bem
equilibrada em si e adaptada á sua íinalidade. Em particular, sobre
a altura da arca, que é de 30 cóvados, note-se que representa o dóbro
da altura a que chegaram as aguas do diluvio (cf. 7,20) ; ara esta
proporcáo significa concretamente que a arca podía ílutuar livre e
soberanamente por todas as regióes inundadas.
É esta, alias, a interpretagáo que, já no séc. IV, dava S. Efrém :
«Isto nSo foi escrito por se terem realizado as coisas como as pala-
vras as insinuam, mas as indicagóes entendam-se conforme a lingua-
gem dos marujos ; estes sondam a profundidade das aguas com o
lio a prumo, e, caso encontrem menos dé 15 cóvados, julgam tal
paragem intransitável a urna nave» (In Gen 149).

Em conclusáo, verifica-se que também as cifras da arca


nao permitem afirmar algo sobre a capacidade da mesma
nem, por conseguinte, sobre as proporeóes do diluvio bíblico.

c) «Todos os seres vivos... toda a térra...». Os antigos e me-


dievais, lendo tais expressoes, afirmavam quase unánimemente que
as aguas do diluvio submergiram a térra inteira e exterminaram todo
o género humano. Esta conclusáo lhes parecía exigida pelo texto
bíblico, que mostra como o Senhor Deus prometeu destruir toda
carne desde o homem até os animáis, todos os seres que Ele criara
(6,7.17 ; 7,4.21s) ; o Génesis assevera que as aguas recobriam a face
da térra inteira, ultrapasando de 15 cóvados os cumes das mais
altas montanhas (7,18-20 ; 8,9). Depois do diluvio, lé-se que o Senhor
jurou nSo mais enviar cataclismo universal como aquéle (9,11.15).
A interpretado antiga se baseava num principio sadio, e até hoje
válido, de exegese, que Leao XIII assim formulou : «Nao se afastem
os exegetas do sentido literal e como que obvio a nao ser que a razio
a ele se oponha ou a necessidade obrigue a abandoná-lo» (ene. «Pro-
videntissimus»), Pois bem; nao conhecendo a Paleontología e outras
ciencias naturais, os antigos nao tinham motivo para se afastar do
sentido literal das expressoes ácima ; por conseguinte, sem hesitagao
afirmavam a universalidade do diluvio. Nao seria licito, porém, fazer
o mesmo em nossos días ; e isto, por raz8es que se podem agrupar
sob dois títulos :
a') Razóes negativas, derivadas das ciencias naturais. Sabe-se
hoje em dia que, para recobrir o globo inteiro, as aguas deveriam
constituir urna carnada de quase 9.000 m em torno de toda a térra
(o pico mais alto, o Everest, conta 8.839 m ácima do nivel do mar).
Urna tal carnada, porém, implicarla um volume de aguas de 4.600.000.000
metros cúbicos, volume que toda a massa de aguas hoje conhecida
nao chegaria a produzir. E, embora tal volume se desse, nao se pode-
ria admitir que se haja desencadeado sóhre a térra inteira numa
chuva de quarenta días ; essa enxurrada provocaría um frió e urna
pressáo atmosférica tais que exterminaría todos os seres vivos da
térra, mesmo os que se encontrassem dentro da arca.
Além disto, a Zoología ensina que existem na térra cérea de 7.000
especies de mamíferos, 6.500 especies de aves, 200.000 especies de in-
setos. Ora, se Noé quisesse tomar um par désses animáis, tería um
conjunto que só poderla sobreviver numa arca de dimensOes fabu
losas e de condigóes climatéricas irrealizáveis ; nem poderia arma-
zenar as provis6es necessárias para alimentar tal fauna durante o
ano inteiro em que permaneceu na arca. O problema nao se esvanece
caso se replique que as especies de animáis hoje existentes datam de

— 423 —
época relativamente recente, pois nao se saberia determinar a data
do diluvio bíblico (cf. «P.R.» 17/1959, qu. 5) ; além do que, é certo
que existiram outrora animáis hoje desaparecidos.
É verdade que Deus podia ter superado tais dificuldades mediante
intervencáo milagrosa. Os teólogos, porém, ensinam que o Todo-Pode
roso nao costuma derrogar ás leis da natureza sem linalidade propor-
cionalmente grave e que as intervencóes extraordinarias de Deus
devem sempre ser provadas, e nao simplesmente pressupostas.
Estas consideracSes levam a concluir que o diluvio se restringiu
a urna porcáo apenas (e provávelmente pequeña) da térra; exigem
também a restricao do número de animáis recolhidos dentro da arca.
Na verdade, Deus terá mandado a Noé, salvasse consigo apenas a launa
necessária para que se reconstituisse imediatamente após o diluvio a
vida normal de campdnios na regiáo atingida pelas aguas; aquéle varáo
justo, por conseguinte, só terá levado para dentro da arca os animáis .
de utilidade cotidiana (de modo nenhum leras, aves de rapiña, ser-
pentes, etc.), animáis a cujo abastecimiento podiam satisíazer as oito
pessoas residentes na arca.
Esta conclusáo é corroborada e completada desde que se levem
em conta
b') Argumentos positivos derivados do próprio texto sagrado. O
diluvio, geográficamente restrito (como ácima íoi dito), nao afelou
a populacáo inteira do globo. É o que se depreende ja do lato de que,
a partir de Gen 4,1, o livro sagrado visa narrar apenas os leitos de
Caim e seus descendentes, de um lado, os de Sete e sua linhagem,
do outro lado; embora o autor aíirme que Adáo e Eva tiveram
numerosos íilhos e íilhas (el. Gen 4,4), ele deixa todos ésses descen
dentes e suas lamílias lora do seu horizonte de historiador (o motivo
desta restricao, vé-lo-emos abaixo); só íaz questáo de descrever algo
do que aconteceu entre os setitas e os cainitas, enquanto as demais
tribos irmás se iam multiplicando e expandindo normalmente sobre
a térra. É, pois, no quadro da historia dos setitas e cainitas apenas
que o autor coloca a historia do diluvio.
Nesta perspectiva, entende-se que as expressóes «todos os ho
mens» e «a térra inteira» sejam sugeridas únicamente pelo gósto
semitico de íalar em hipérboles. A S. Escritura usa nao raro dessas
expressdes universais em contextos que lhes dáo sentido evidente
mente restrito; assim
Gen 41, 54.57 lala de urna lome tal que «os povos da torra inteira
iam ao Egito para comprar trigo..., pois a lome pesava sdbre toda
a térra» (universalidade relativa!);
Dt 2,25: Deus promete aos israelitas incutir «a todos os povos
debaixo do céu» o terror diante de Israel (expressáo retórica, como
se deprende da compara cao com Dt 11,23-25);
At 2,5 : no dia de Pentecostés «achavam-se em Jerusalém judeus,
homens religiosos de todos os povos que há debaixo do céu».
No caso de Gen 6-9, o autor sagrado tinha em vista «a térra
inteira» e «todos os homens» nao no sentido geográfico nem no sen
tido etnológico, mas do ponto de vista religioso. Pois que quería des
crever nao simplesmente historia, mas historia religiosa, o género
humano, para ele, se reduzia ao povo ou aos individuos portadores
dos valores religiosos da humanidade; no nosso caso, reduzia-se aos
setitas e cainitas ou, também se poderia dizer, á íamília de Noé (úni
cos piedosos que perseveravam) e aos que lhe ficavam em torno e
com ela entravam em contato (ímpios). Homens e regi5es situados
lora déste círculo assaz restrito já nao contavam para o hagiógraío,

— 424 —
pois nao desempenhavam papel na historia do Reino de Deus, tendo-
-se alheiado a éste desde época muito remota, para se perder ñas vias
da idolatría e da corrupgáo; já que nao tinham mais contato com
os portadores da verdadeira fé, nem constituiam perigo para os
«filhos de Deus», carecería de sentido, nos designios da Providencia,
fazé-los perecer pelo diluvio.
Quanto a outros textos da S. Escritura que parecem insinuar a
universalidade absoluta do diluvio (Sab 14,6; Eclo 44,17s; Mt 24,37-39;
1 Pdr 3,19s; 2 Pdr 2, 5-7), entende-se que repitam o modo de falar
do Génesis, sem querer dar-lhe a interpretagáo auténtica.

É na base destas consideragóes que a moderna exegese


católica nao hesita em afirmar que o diluvio bíblico foi catás
trofe reduzida a urna regiáo e a pequeño número de homens.
A tradigáo exegética propensa á universalidade do diluvio,
nao sendo de índole dogmática nem moral, mas de caráter
meramente antropológico e geológico, nao constituí obstáculo
para a sentenca restritiva ; ademáis a Igreja nunca definiu
a universalidade do diluvio bíblico.

Após o que acaba de ser dito, inútil seria frisar que as ragas
branca, negra e amarela de modo • nenhum devem sua origem aos
tres íilhos de Noé, respectivamente Sem, Cam e Jafé. Foi indepen-
dentemente do diluvio e da. familia de Noé que as ragas humanas se
diversilicaram sobre a térra ; cf. «P.R.» 7/1957, qu. 2.

2. O diluvio na crenga geral dos povos

A conclusáo ácima parece opor-se o fato de que numerosos povos


(localizados tanto na Asia como na África, na América e na Aus
tralia) narram a historia de um diluvio ocorrido em época muito
remota. Nao constituiría isto indicio de que o cataclismo foi uni
versal ?
Na verdade, tal conclusáo seria precipitada. Quem estuda de
perto as narrativas nao bíblicas, verifica que algumas (certos críti
cos dizem: todas) se reduzem á descrigáo babilónica do diluvio, da
qual nao constituem senáo formas variadas. As que nao dependem
da Babilonia, parecem referir urna catástrofe primitiva que se terá
dado na regiao habitada pelo povo que a narra. Pode-se dizer que
cada estirpe conhece flagelos ou abalos em sua historia, e costuma
narrar ésses episodios (por vézes ampliados e livremente ornamen
tados a fim de melhor servirem de ensinamento) como se fóssem
ligóes para as geragóes posteriores.
As narrativas de flagelos dos povos primitivos tém ao menos
em comum o seguinte trago : falam de grande calunidade — ás
vézes provocada por urna ofensa dos homens á Divindade —, a qual
devasta a regiáo e mata os seres vivos ; há, porém, diferencas ao
se assinalar o elemento de destruicao: éste é um desabamento ora
de aguas, ora de fogo, ora de agua e fogo, ora de nevé e granizo;
pode ser também terrível seca, epidemias mórbidas, terremotos, etc.;
ainda outras diferencas de importancia secundaria se poderiam
observar.
Quanto á narrativa bíblica, verifica-se que apresenta particular
afinidade com a descrigáo babilónica. Contudo nao se poderia con-

— 425 —
cluir á dependencia de alguma das duas em relagáo a outra ; as
diíerengas tanto de teología como de minucias literarias se oporiam
á ccnclusáo. Sim ; o texto bíblico é essencialmente monoteísta, apre-
sentando um só Deus, que dirige o curso da natureza, enquanto os
documentos babilónicos póem em cena muitos deuses, os quais liti-
gam entre si, por fim se apavoram da catástrofe que desencadea-
ram e íogem para o céu mais elevado. Além disto, observe-se a
causa do diluvio na Biblia e fora desta: no Génesis, é a iniqüidade
dos homens, incompativel com a santidade de Deus, que suscita a
intervencao do Altissimo ; Éste castiga os culpados e salva os ino
centes ; o Deus que pune, é também o Deus moralmente íntegro e
perfeito. Ao contrario, na Babilonia os deuses decidem exterminar
os homens sem levar em conta os méritos déstes, mas apenas por
que a estirpe humana nao lhes agrada mais ; o homem que escapa
com sua familia, é o favorito de um dos deuses, o qual lhe ensina
a mentira: quer que engañe os seus contemporáneos, enquanto
esteja a construir a nave de salvagáo. — Estas diferengas básicas,
derivadas da «filosofía» dos autores (israelita e babilónico) levam
a excluir dependencia direta de urna tradigáo em relacáo á outra.
O problema, portanto, se há de resolver pela dependencia indi-
reta entendida nos seguintes termos :
Os israelitas, por meio de Abraáo, eram oriundos da Mesopo-
támia. Ora nesta regiáo se deve ter dado, em época muito remota,
urna catástrofe, na qual terá perecido grande número de homens
(alguns arqueólogos, em suas escavagóes nos últimos decenios, jul-
garam ter encontrado vestigios désse cataclismo ou do diluvio ba
bilónico ; além disto, sabe-se que as listas dos antigos reis babiló
nicos enumeram monarcas antediluvianas e pós-diluvianos). A me
dida que se passavam os tempos, os caldeus, habitantes da regiáo,
íoram em seus relatos ampliando as proporgóes do acontecimento,
ornando-o de pormenores adaptados as concepgóes religiosas (mi
tológicas, politeístas) e ao grau de civilizacao de épocas bem pos
teriores. Abraáo, ao emigrar da Mesopotámia, levou consigo a tra
digáo do diluvio; os seus descendentes, porém, os israelitas, agra
ciados pela revelagáo do verdadeiro Deus, refletiram sobre o relato
babilónico á luz da sua fé, e conseqüentemente o refundiram se
gundo as exigencias do monoteísmo que professavam; tiraram-lhe,
pois, todos os tragos de paganismo que trazia e, posslvelmente (de
acordó com a praxe literaria dos antigos povos, que procuravam
fazer da historia a mestra da vida), acrescentaram-lhe tragos que
servissem de ensinamento dogmático e ritual a nacáo israelita.
Assim a tradigSo popular caldaica, sem perder seu núcleo histórico,
tornou-se entre os filhos de Israel o veiculo de ensinamento reli
gioso e moral muito elevado.
Conseqüentemente pergunta-se qual seria

3. A mensagem perene da narrativa bíblica do diluvio .

Até aqui vimos que em época muito remota (cuja data


nao se poderia precisar) se desencadeou urna catástrofe sobre
certa regiáo e povoagáo. O autor de Gen 6-9 a quis referir
para comunicar verdades nao de Índole meramente histórica
ou científica, mas de ordem religiosa. Estas seriam:
1) Deus é santo; por isto nao pode deixar subsistir in
definidamente a iniqüidade — o que seria pactuar com ela.

— 426 —
Deus é justo. Ao punir os maus, o Senhor salva os ino
centes.
Deus é clemente. Antes de exercer a justiga, oferece sem-
pre um prazo de misericordia para que o pecador se converta.
Foi, sim, durante cento e yinte anos (cifra provávelmente sim
bólica) que Noé construiu a arca. Além disto, o texto de
1 Pdr 3,19s dá a entender que varios dos pecadores obstinados
durante essa moratoria se converteram quando estavam pres
tes a perecer; foram tragados pelo diluvio, salvando, porém,
suas almas.
2) Noé aparece como novo pai da humanidade (consi
derada do ponto de vista religioso), á semelhanga de Adáo, e
como tipo de Cristo. Observe-se que Noé salvou a linhagem
humana (na medida em que era portadora da verdadeira fé)
mediante o lenho da arca ; ora foi também pelo madeiro que
Cristo crucificado salvou os homens. Com Noé, salvo das aguas,
Deus travou urna alianga, como a travara com o primeiro
homem e como a travaria com Cristo (a nova e definitiva
Alianga) ; cf. Gen 9,8-17 ; 2, 15-17 ; Hebr 9,15.
3) A arca, na qual se salvaram os justos, é tradicional-
mente considerada como tipo da Igreja, pela qual se salvam
todos os homens.
4) As aguas do diluvio, através das quais os justos so-
breviveram e em que os ímpios pereceram, sao figura do ba-
tismo, que pela agua dá a vida (vida eterna, simbolizada pelo
número «oito» dos que se salvaram no diluvio bíblico) aos
fiéis e apaga os pecados ; cf. 1 Pdr 3,20s.
5) O diluvio, qual nova criagao, prenuncia, conforme
2 Pdr 3,5-7.10, os céus novos e a térra nova que no fim da
historia se háo de constituir.
Sao estes os pontos que mais se deveráo gravar na mente
dos leitores da Biblia. Sao também os que ácima de tudo
deveráo ser incutidos pelos catequistas, ficando em plano bem
secundario as questóes de índole meramente arqueológica,
cronológica, etnológica, etc.

IV. MORAL

á) «Qual o juízo da Igreja a respeito da guerra ?


Será consentáneo com a mensagem de Cristo benzer ar
mas bélicas ?»

Para se poder delinear a posigáo da Igreja em relagáo


ás guerras, convirá, antes do mais, expor as principáis sen-

— 427 —
tengas de autores nao católicos sobre a liceidade dos empreen-
dimentos bélicos.

1. Breve resenha de sentengas

1. Em primeiro lugar, citemos o parecer dos que se opoem ra


dicalmente a toda e qualquer guerra.
Há, sim, nos tempos modernos correntes de humanitarismo que,
apregoando um culto vago e abstrato á humanidade, propugnam a
extincáo de todas as diferengas nacionais e religiosas, a fim de que
os homens gozem de perpetua paz, Kant (t 1804), por exemplo, pro
pondo o seu ideal de paz perene, constituí um dos expoentes de
tal tese. I ¡ ¡Í!t
Faz eco a esta a sentenga de alguns pacifistas e de correntes
católicas que lemtaram como o S. Evangelho parece condenar o uso
da espada (cf. Mt 26,52), recomendando o amor aos inimigos e a
brandura (cí. Mt 5,44) ; dal concluem que toda guerra se op3e a
esséncia da mensagem crista, sendo por isto imoral. Chegam alguns
autores contemporáneos a afirmar a tese de que urna nagao, no
caso de ser injustamente agredida, tem o dever de se sacrificar em
vista de um pretenso principio de caridade internacional, isto é, a
fim de nao dar lugar ás terriveis desgrasas que qualquer guerra
nos tempos modernos nao pode deixar de desencadear; o amor aos
povos levaría o povo agredido a nao empunhar as armas, nem
mesmo para a defesa de seus legítimos direitos...
2. No extremo oposto, contam-se correntes filosóficas que, em-
bora procedam de premissas diferentes, concordam entre si ao esti-
marem a guerra como algo de sempre licito, até como fonte única
de todo direito, ou — diriam outros — como algo de necessário, a
que nao se podem aplicar os criterios da Moral e do Direito.
Thomas Hobbes (t 1679), por exemplo, asseverava que o estado
de guerra é normal para a humanidade, governada, sim, pela lei
do «bellum omnium contra omnes» (guerra de todos contra todos).
Algumas escolas de sociología, enveredando pelo fatalismo, en-
sinaram que a historia do género humano se desenrola segundo as
leis do cosmos, entre as quais sobressai a da luta pela existencia
ou da guerra. O «darwinismo político» aplicou rigorosamente aos
povos o principio de que só sobrevivem os seres mais fortes; con-
seqüentemente professa que as nagQes tendem naturalmente a se
combater urnas ás outras, a fim de que as mals fortes possam afir
mar seus direitos á vida mediante a Vitoria sobre as mais debéis.
A filosofía política de Maqulavel. Nietzsche, Treiltche, valori
zando as chamadas «razñes de Estado» ou as teorías do «Super-
-Homem», da «Super-Raga», da «Super-Nagáo», afirma que a fórga
armada é o fundamento das relagóes entre os Estados; toda alianga
política visaría aumentar o dominio dos aliados, finalidade só atin-
gível mediante o recurso á violencia. — Hegel (tl831), filiando-se
a estas idéias, aíirmava que a guerra é necessária aos povos como
o sópro dos ventos é necessário ao mar para que éste nao entre em
putrefagáo...
Os militaristas, como von Bernhardi, Bismarck e os recentes
regimes totalitarios, glorificaran! ou divinizaran! a fórga armada
como fomentadora das qualidades viris e esteio da civilizagáo entre
os povos. A guerra seria para as nagSes o que a maternidade é
para a mulher: afirmagao de vida e de vigor natural.

— 428 —
Tais teorías íavoráveis á guerra se inspiram em fatalismo cegó
sugerido por concepcdes mecanicistas e monistas do universo. — Bem
diversas eram as premissas do pensador católico Joseph de Maistre
(tl821), o qual, nao obstante, também procurou justificar as guer
ras, concebendo-as como algo de divino !... Os seres vivos seriam,
segundo tal autor, regidos pela lei da destruicáo até o silencio da
morte; De Maistre observava que os viventes superiores dominam
os inferiores, tirando-lhes a vida em seu proveito próprio. O homem
domina os demáis seres materiais, matando a todos pelos mais di
versos motivos: para comer, para se vestir, para se defender, para
se instruir, para se divertir. Nao estaría ele, por sua vez, sujeito a
morticinio ? — Sim, responde o filósofo ; e o carrasco do homem
é o próprio homem mediante as guerras; em furor entusiasta,
sem saber o que faz, o homem nos campos de batalha estaría obe-
decendo á lei do assassínio universal. De Maistre admitía assim
un «fatalismo providencial» (expressáo pouco coerente), recusando
por isto aplicar ás guerras os criterios da Moral.
Seja mencionado outrossim o positivismo jurídico, o qual reco-
nhece ao Estado o direito de recorrer á guerra por qualquer motivo
que lhe parega oportuno. O Direito internacional nao visaría definir
se ao Estado é lícito ou nao promover campanhas bélicas, mas
apenas procuraría regrar o andamento das hostilidades desde que
estas tenham sido desencadeadas.
Após éste rápido percurso introdutório, pergunta-se: em meío
a tantas sentencas diversas, como se configura a concepgáo cató
lica concernente á guerra %

2. A posicáo católica

Em materia táo delicada procedamos por etapas.


1. Para a consciéncia católica, nao resta dúvida de que
um confuto armado entre povos é flagelo lamentável, decor-
rente do primeiro de todos os males da historia, ou seja, do
pecado de Adáo. Éste, revoltando-se contra Deus em seu
espirito, comegou a experimentar ¡mediatamente o combate
da carne contra o espirito, assim como a revolta da natureza
inanimada contra o próprio homem. Além do mais, Adáo, ten-
do-se alheiado do Criador pela desobediencia, os seus descen
dentes se alheiaram também uns dos outros ; é o egoismo, e
nao mais o altruismo ou a caridade, que tende a imperar na
sociedade. Disto resulta o choque de aspiracóes humanas an
tagónicas, desencadeando lutas armadas entre os povos. A
guerra, portanto, entrou no mundo em conseqüéncia da pri-
meira culpa e é sempre em fungáo desta que o cristáo a con
sidera e deplora.

Tal concepcáo leva freqüentemente a Igreja a exprimir na ora-


C&o sua repulsa pelos conflitos bélicos, rogando a Deus que os faga
cessar sobre a térra : «Da peste, da fome e da guerra, livrai-nos,
Senhor>, diz famosa fórmula da Ladaínha de todos os Santos, vi
sando tres conseqüéncias do pecado original que costumam estar

— 429 —
associadas entre si; o formulario da S. Missa a ser celebrada «em
tempo de guerra» pede, por sua vez, «sejamos isentos de toda a
maldade das guerras» (Secreta).

2. Toda guerra existe, pois, no mundo em fungáo do


primeiro pecado. Isto aínda nao quer dizer que toda guerra
seja necessáriamente inspirada por intengáo pecaminosa, Com
efeito ; pode acontecer que um pecado ou muitos pecados co
metidos cá e lá no mundo se tornem ocasiáo para que urna
nacáo tenha de empuhar as armas a fim de combater o alas-
tramento e os efeitos moralmente daninhos de tais faltas. A
guerra torna-se entáo o antídoto do pecado ou o único meio
de coibir o pecado. Esta afirmacáo, por muito estranha que
possa parecer, se justifica plenamente mediante a seguinte
consideracáo : todo homem possui, por instituigáo natural, o
direito de legitima defesa ; o que quer dizer: a todo individuo
é lícito usar de violencia, desde que isto seja absolutamente
necessário para salvar sua vida ou algum bem proporcional
injustamente ameagado ou lesado. Pois bem ; o mesmo di
reito natural assiste a cada povo como tal. A cada povo, por
conseguinte, é licito (por vézes mesmo, obrigatório) recorrer
á guerra a fim de repelir urna agressáo injusta ou também
a fim de obter a restauragáo de sua legítima liberdade vio
lada. Se tal direito nao existisse, tornar-se-ia impossível a
vida social internacional; esta impóe, sem dúvida, como exi
gencia suprema, que a injustiga seja coibida e que a devida
ordem iniquamente violada seja restituida. É éste raciocinio
que leva a admitir haja guerras justas, isto é, ocasionadas,
mas nao causadas, pelo pecado (trata-se de campanhas de
flagradas a margem do pecado, mas nao movidas por inten-
gáo pecaminosa). Ñas circunstancias apontadas, a guerra dita
justa vem a ser urna necessidade dura e cruel, um ato de
violencia legítima oposta á violencia ilegítima.

S. Agostinho Ilustra a atltude do cristáo diante da guerra que


se lhe aprésente como justa :

«O sabio, diráo, só toma parte em guerras justas. Mas, se ele


tem consciéncia de que é homem, como nao há de sofrer muito mais
ainda por causa da necessidade que o constrange a tais guerras
justas? Se nao íóssem justas, nao tomaría parte nelas... É a injus
tiga do adversario que obriga o sabio a participar das guerras jus
tas. A injustiga dos homens, poderia alguém deixar de a deplorar,
mesmo que déla nao se seguisse a necessidade de combater ? Quem,
portante, considerando com pesar males tao grandes, táo hediondos,
táo crueis, nao confessará que sao u'a miseria ? Quem os experi
menta ou simplesmente os considera sem dilaceragao de ánimo,
julgando-se ainda feliz, é ainda mais miserável, pois perdeu todo
sentimento humano» (De civ. Dei XIX 7).

— 430 —
3. Frisemos agora explícitamente tres condigóes que
devem ser necessáriamente preenchidas, para que uma
guerra possa ser considerada justa:
a) o conflito armado há de ter como motivo e finalidade
a defesa de direito gravemente violado ou a reparacao da
justa ordem de coisas burlada. Qualqüer outro motivo seria
incapaz de legitimar o recurso á violencia militar; remo-
vam-se, pois, as razóes de orgulho patrio, expansáo do poder
nacional, ambicio de dominio, interésse político, coibicáo da
prosperidade alheia, etc. A toda campanha armada empreen-
dida por tais motivos S. Agostinho atribui o título de «grande
latrocinio» (De civ. Dei IV- 6).
b) É preciso nao se possa salvar a justiga de outro modo
que nao pelas armas. Em outros termos: a guerra deve ser
recurso extremo, so utilizado após haverem falhado por com
pleto os meios pacíficos de solugáo.

Sao palavras de S.S. o Papa Pió XI a peregrinos espanhóis,


proferidas aos 14 de setembro de 1937 :
«Meu Deus, a guerra é sempre, mesmo na menos triste das
hipóteses, coisa táo terrível e desumana ! É o homem que procura
o homem para o matar, para matar o maior número de seus seme-
lhantes, para prejudicar a éles e ao que a éles pertence, com meios
cada vez mais possantes e mortíferos !»

Ainda se poderia dizer : a guerra justa é a guerra moral-


mente inevitável por resultar do dilema : «ou guerra ou rene-
gacáo da dignidade humana».
c) Requer-se, por fim, proporcáo entre os males (mate-
riais e principalmente moráis) que a guerra costuma acarre-
tar, e a importancia dos direitos que o conflito armado visa
defender ou restaurar. Caso se preveja que a guerra será no
civa as naeóes, sem que, mediante a obtengáo de bens maio-
res, se compensem as respectivas desgrasas, a prudencia e a
justica mandam evitar tal guerra. Dados os enormes prejuízos,
materiais e moráis, que os conflitos armados ñas circunstan
cias da vida moderna provocam, requer-se, para empreendé-
-los legítimamente, ainda mais reflexáo e contemporizacáo do
que outrora isto era necessário (equivalentemente: muito
mais graves devem ser os direitos a ser defendidos pelos pro-
cessos de guerra contemporáneos do que os direitos que em
tempospassados eram defendidos pelas armas).

A observancia dos tres prerrequisitos ácima nao é fácil. Parti


cularmente arduo é dizer-se até que ponto, em determinado litigio,
algum legitimo direito está sendo violado ;... até que ponto o amor
á reta ordem das coisas, e nao a paixáo desregrada, move os con-

— 431 —
tendentes. Um direito duvidoso ou moralmente incerto nao poderá
ser, em hipótese alguma. evocado para legitimar o apelo &s armas;
os direitos duvidosos poderlo ser defendidos ou propugnados me
diante o recurso á arbitragem.

Destas consideracóes se depreende quáo difícil é, em


casos concretos, definir se tal ou tal guerra é em si ou objeti
vamente justa. Subjetivamente, ou seja, para a consciéncia
dos individuos, a guerra (que objetivamente só seria justa
para urna das partes beligerantes) pode ser justa para os in
dividuos de ambas as frentes, pois pode acontecer que o con
futo seja apresentado a uns e outros de tal maneira que a
todos paregam cumprir-se os tres prerrequisitos enunciados
(suponha-se que os soldados e os cidadáos de cada urna das
duas partes beligerantes sejam mal ou tendenciosamente in
formados sobre a situagáo política e internacional, de sorte a.
nao poderem abarcar todos os motivos postos em jógo pelos
homens que declararam a guerra). Urna vez entrando na
campanha armada tida como justa, o cristáo deverá sempre
acautelar-se para que a sua reta intengáo inicial nao se des
virtué, cedendo aos impulsos do ódio e da vinganga apaixonada.
De quanto acaba de ser dito também se percebe que a
guerra legítima sempre visa restaurar a paz e o amor dentro
da justiga ; ela nada mais é do que a luta da ordem e da ca-
ridade contra aqueles que perturbam tais valores. A vista
disto, entende-se que a Igreja possa benzer armas bélicas ;
certamente Ela nao as abengoa, caso sejam declaradamente
instrumentos do ódio e do morticinio apaixonado; visto, po-
rém, que as armas podem ser promotoras e sustentáculo da
ordem contra a prepotencia da injustica no mundo (e é so-
mente neste sentido que o cristáo as empunha), a Igreja roga
a Deus queira realmente fazer dos instrumentos bélicos os
órgáos da justiga e dos verdadeiros valores moráis (infeliz
mente, sem a ameaga das armas seria por vézes váo esperar
que os homens refreassem as suas paixóes).

O pensamento da Igreja neste setor acha-se muito bem retra


tado na seguinte noticia publicada pela imprensa internacional:
«Diante dos parentes dos que morreram na guerra, Sua San-
tidade o Papa Joao XXIII recordou a palavra do seu antecessor
Sao Pió X, quando as vésperas da primeira guerra mundial lhe
pediram abencoasse armas: 'Bendigo a paz, nao a guerra', respon-
deu aquéle Santo Pontífice. 'Agora como entáo, disse Joáo XXIII,
continua em vigor ésse lema de Sao Pío X e é necessário servir á
causa da paz'» (Noticias Católicas, junho de 1959).

4. Pergunta-se agora se o reconhecimento da legitimi-


dade de guerras dentro das cláusulas ácima nao representa
traigáo a S. Escritura e, em particular, ao S. Evangelho.

— 432 —
Em resposta, dir-se-á que nao : sem nos demorarmos na
enumeracáo das múltiplas campanhas bélicas empreendidas
pelo povo de Israel, em conseqüéncia de urna ordem do pró-
prio Deus no Antigo Testamento (cf. Éx 17,11-16; Núm
21,3; 25,16s ; Dt 7,ls ; Jz 4,6-13), mencionaremos explícita
mente a resistencia armada que os irmáos Macabeus opuseram
aos invasores sirios, quando estes quiseram reduzir o povo
de Israel as condicóes de corrupcáo moral e degradagáo reli
giosa dos pagaos ; a campanha dos Macabeus, inspirada pelo
amor á verdadeira fé, mereceu os mais calorosos encomios
dos autores sagrados que a descrevem no 1* e no 2' livros
dos Macabeus.
No Novo Testamento, Sao Joáo Batista, ao pregar peni
tencia aos soldados romanos, nao lhes mandava abandonas-
sem a carreira militar, mas apenas recomendava nao come-
tessem injustica e se contentassem com o seu salario (cf.
Le 3,14). O próprio Jesús louvou a fé do centuriáo, oficial
romano, sem exigir que mudasse de profissáo (cf. Mt 8,8-13).
Também o centuriáo Cornélio, no livro dos Atos, foi elogiado
por S. Lucas, sem que a sua condicáo militar criasse obstá
culo a isto (cf. At 10,2}. Por fim, note-se como a epístola aos
Hebreus apresenta as Vitorias que os guerreiros de Israel obti-
veram, qual recompensa outorgada pelo próprio Deus á fé
désses justos (cf. Hebr 11,32-34).

Nao obstante, há quem ainda hesite, tendo em vista outros


textos da S. Escritura, como
a) as palavras de Jesús em Mt 5,39: «Eu vos digo : nao re
sistáis ao malvado; ao contrario, se alguém te bater na íace di-
reita. apresenta-lhe a outra».
Observe-se que, em se tratando de guerra, éste texto vem fora
de propósito, pois visa o caso da defesa pessoal, individual, e nao
o da defesa dos direitos de um povo ameagados pelos iniquos pro
pósitos de outro. A exegese da passagem ácima é explanada em
«P. R.» 3/1958, qu. 10.
b) Algo de semelhante se deverá dizer das admoestacees de
Sao Paulo:
«Nao paguéis o mal com o mal... Está escrito: 'A Mim com
pete a vinganga ; hei de retribuir, diz o Senhor'» (Rom 12,17.19).
A proibigSo visa a vinganga empreendida por um individuo con
tra os seus adversarios ; o contexto mostra que nao tem em vista
o caso da autoridade pública e legitima, á qual, como reconhece o
próprio S. Paulo em Rom 13,4, toca a incumbencia (atribuida pelo
próprio"Deus) de reprimir os inimigos da sociedade e do bem comum.
Ensina o Apostólo : «Nao é sem motivo que (a autoridade) traz a
espada; é ministro de Deus para impor sangáo aos que praticam
o mal e para os punir» (Rom 13,4). Ora, essa sua atribuigáo de
defender os direitos dos súditos, os Chefes de Estado a-devem
preencher coibindo nao sómente os inimigos de dentro da patria,
mas também os de fora ou as nacóes estrangeiras.

— 433 —
c) Jesús, na véspera de sua morte, nao permitiu que Pedro
usasse da espada para defender o Divino Mestre, porque «todo
aquéle que se serve da espada perecerá pela espada» (Mt 26,52;
cf. Jo 18,11).
Estas palavras de Cristo sao claramente norteadas pelas cir
cunstancias em que ioram proferidas: Jesús, que quería oferecer-se
como vltima pelos pecados do mundo (cf. Is 53,7), nao podia deixar
que os Apostólos recorressem a algum meio de resistencia no mo
mento da entrega aos adversarios; daí a proibicáo feita a Pedro.
O principio geral acrescentado pelo Senhor («todo aquéle que se
serve...») visa os homens que, sem autoridade própria nem encargo
superior, ousem recorrer ás armas para propugnar seus interésses
(cf. S. Tomaz, S. Teol. II/II 40, 1 ad 1).
d) Citam-se outrossim textos dos Profetas como :
«Os homens transformarlo suas espadas em relhas de arado e
as suas langas em foices. Urna nacáo nao levantará mais a espada
contra outra, e ninguém aprenderá mais a guerra» (Is 2,4 ; cf. 11,
13s ; Miq 4,3).
Tais oráculos nao fazem senáo exprimir a realidade das coisaS
no reino messiánico consumado. A guerra, como foi dito atrás,
supSe o pecado, a tal ponto que, enquanto houver pecado no mundo,
também haverá guerras. É claro, porém, que tal estado de coisas
desaparecerá quando a Redencáo tiver atingido o seu termo derra-
deiro no fim dos tempos ; entáo os corpos humanos ressuscitaráo e
a morte, conseqüéncia do pecado, será definitivamente cancelada...
É o que o profeta descreve em linguagem metafórica, afirmando
que as armas de guerra e morte (espada e langa) seráo transfor
madas em instrumentos de paz e vida (arados e foices).

Tais sao as coneepcóes da Igreja a respeito da guerra.


Esta, para um católico, é sem dúvida um mal tremendo, mal
que os homens acarretaram sobre si em conseqüéncia do pri-
meiro pecado, e que Deus se digna permitir atualmente, como
permite as outras conseqüéncias do pecado, em vista da emen
da das suas criaturas. A guerra nao é sómente obra da justica,
mas ainda foi englobada dentro do plano da Misericordia Di
vina, pois ela pode ter em alguns casos (casos extremos) um
valor de redencáo !

V. HISTORIA DO CRISTIANISMO

J. LIMA (Recife) e MARX (Rio de Janeiro) :

5) «Qual a atitude da Igreja frente a cscravatura ?


Gomo se explica que tenha reconhecido o comercio de
escravos ?»

Procuraremos, antes do mais, formular um juízo sobre a


escravatura á luz da consciéncia crista, para depois percorrer-
mos as grandes linhas da sua historia.

— 434 —
1. A escravatura : apreciado moral

As palavras «escravo, escravidáo», provém da raiz slav, a par


tir da qual se designavam certos povos da Europa Oriental, povos
que em sua lingua materna se intitulavam «os Eslavos», isto é, os
Brilhantes ou Ilustres. Ésses povos forana sendo reduzidos a cati-
■veiro pelos Germanos nos séc. IX/X d.C; dal, por ironía da sorte,
ter-se leito do vocábulo «eslavo» (que em portugués deu natural
mente escravo) o sinónimo de cativo.
Em termos de definicáo mais precisa, escravidáo vem a ser o
estado de urna pessoa que em tudo depende de outra, sem poder
em absoluto dispor de sua vontade própria; é a alienacáo completa
•da personalidade humana. — Pois bem, pergunta-se: como julgar,
do ponto de vista moral, ésse estado de vida ?

Nao sómente a consciéncia crista, mas também a Ética


natural, repudiara a escravatura ; e isto, por dois motivos
principáis:
a) a condigáo de escravo é contraria á dignidade e á
finalidade do homem. Com efeito, todo individuo foi concebido
pelo Criador a fim de refletir, mediante as notas próprias de
sua personalidade, algo da infinita perfeigáo de seu Autor. É
o que faz que a ninguém seja lícito cancelar urna personali
dade humana, reduzindo-a a categoría de objeto inanimado,
movido despóticamente por outrem. Ora, para que a perso
nalidade se possa expandir devidamente, ela possui direitos
inalienáveis, como sao os de viver, conservar a integridade
de corpo e alma, usar da sua liberdade de consciéncia e consti
tuir familia estável, baseada nos atrativos do amor; a der-
rogagáo arbitraria a ésses direitos vem a ser, em última aná-
lise, ofensa ao Criador.

Tenha-se em vista a observacáo de S. Tomaz: «O homem diíere


■das criaturas irracionais por ser senhor de seus atos» (S. Teol. I/II
<j.l, a.l).
Váo seria apelar para qualidades ou deficiencias de raca, a íím
de fundamentar a escravatura : todos os homens, qualquer que seja
a sua estirpe, possuem no plano de Deus urna dignidade própria
inalienável. Era o que afirmava o Papa Leáo XIII. quando incul-
cava «a íraternidade que une todos os homens, pois todos tém a
jnesma origem, todos foram salvos pela mesma Redencao, todos
foram chamados á mesma feliddade eterna» (Ad singulos catholici
«rbis episcopos, 20 de novembro de 1890).

b) A escravidáo é, de modo particular, funesta á alma


liumana e á sua salvagao sobrenatural. Efetivamente, a con-
dicáo de escravo, criando um ambiente desumano, fácilmente
sufoca mesmo as aspiragóes fundamentáis da alma ; tende a
«embrutecer o psíquico de um ser inteligente. Além disto, sa-
foe-se que os próprios patróes, talvez ainda mais do que os

— 435 —
servos mesmos, correm graves riscos no plano moral e religioso
pelo fato de possuirem escravos.

A titulo de complemento, note-se que, segundo bons autores,


nao se op5e ao direito natural o estado em que alguém coloca irres-
tritamente o seu trabalho a servico de um senhor, sem outra remu-
neracao que nao a de casa e alimento dperpetuus famulatus pro
perpetuis alimentis). Supóe-se que ésse tipo de entrega nao afete
a personalidade como tal (a qual goza Inalienávelmente dos direitos
ácima mencionados), mas apenas a atividade da pessoa; esta ainda
se poderla beneficiar das garantías de subsistencia — teto e comida —
que de tal regime lhe proviriam. O caso se deu na Idade Media,
quando os pequeños camponeses em tempos turbulentos desejavam
assegurar a sua incolumidade; deu-se também por motivo de devo-
tamento a certas instituic6es ou estabelecimentos religiosos. — Con-
tudo é ardentemente para desejar que toda personalidade usufrua
da liberdade de dispor do seu trabalho, ao menos dentro dos limites
ditados pelas exigencias do bem comum.

Consideremos agora a atitude que no decorrer da historia


os homens e, em particular, os cristáos tomaram diante da
escravatura.

2. A escravatura antes do Cristianismo

1. A condigáo de escravos deve sua origem, em parte,


aos antigos costumes de guerra: o soldado vencido e captu
rado era tido como propriedade do povo vencedor.

Alguns filósofos querem derivar a palavra servus, servo, do


fato de que o vencedor, embora tivesse o direito de tirar a vida do
vencido, a conservava, fazendo por conseguinte um homem «serva-
tus» ou um servo (individuo sem direito algum). A condicao de
servo, por conseguinte, em suas origens ainda exprimiría urna ati
tude de benevolencia do homem mais forte para com o mais fraco !
— Esta explicacáo carece de autoridade.

O estado de escravidáo se deve também ao abuso da


fórga por parte de homens prepotentes, muitas vézes piratas
e bandidos, que subjugavam enancas e homens livres com o
fito de os vender como escravos.

A guerra e a seqüestragáo criminosa expllcam que a escravidáo


tenha sido chamada manclplum, termo latino proveniente de manu
capere, apreender com as máos, capturar.

Por fim, note-se que filho de escravo foi geralmente tido


como escravo. Em conseqüéncia, assinala-se urna terceira
fonte de que se reabasteceu a escravidáo através dos tempos :
o nascimento em condicao servil.

— 436 —
Para explicar a escrayidáo, ainda se apontara certos costumes
do juridismo romano antigo, os quais, porém, nao tém a mesma
Importancia que as tres fontes ácima indicadas :
1) em Roma o devedor incapaz de pagar as suas dividas era
vendido pelo credor fcrans Tiberim, além do Tibre, isto é, fora do
territorio da cidade;
2) o cidadáo que se eximisse do servico militar ou de um re-
censeamento público era, geralmente por ordem dos cónsules, tra
tado de modo semelhante ;
3) a mesma pena era infligida á mulher livre romana que ti-
vesse relac5es com um escravo, á revelia do patráo déste ;
4) era outrossim imposta a mesma sar.cao a quem fósse con
denado ad bestias ou ad metalla, isto é, á morte no anfiteatro ou
ao trabalho íorgado em minas.
2. Oriunda, como se vé, a diversos títulos, a escravidáo tomou
vulto notável tanto entre os povos do Oriente e do Egito antigos
como no mundo greco-romano. Já um dos mais velhos monumentos
da civilizacáo, o código de Hamurapi (séc. XIX/XVII a. C), atesta
a prática da escravatura na Mesopotámia.
Entre os gregos, a sociedade era preponderantemente aristocrá
tica ; urna élite privilegiada a representava, tendo abaixo de si, como
que para sustentá-la, os grupos de estrangeiros (também ditos «bár
baros»), libertos e escravos: o cidadao livre era tido como tipo in
teligente e belo, cuja alma nao podia ser afetada por preocupares
sórdidas nem o corpo deformado por trabalho manual. «A ociosi-
dade é irmá da liberdade?, teria dito Sócrates (t399 a.O, con
forme Eliano (Var. hist. X 14) ; o que significava que os escravos
é que deviam trabalhar para assegurar aos homens livres os meios
de ser ociosos. Assim fala Sócrates na expressao de Xenofonte :
«As artes chamadas mecánicas sao mal vistas, e é com razáo
que os governos fazem pouco caso délas. Estragam o corpo daqueles
que as praticam e se lhes dedicam, forgando-os a permanecer sen
tados, a viver na sombra, e por vézes mesmo a se deter habitual-
mente perto do fogo. Além disto, as artes manuais nao deixam tem-
po para se iazer coisa alguma em favor dos amigos ou do Estado,
de sorte que passamos por maus amigos e covardes defensores da
patria Por isto, em algumas repúblicas, principalmente ñas que
sao tidas como guerreiras, é proibido a todo cidadao exercer urna
profissao mecánica» (Econom. 4).
Por sua vez, Aristóteles (t322 a.C.) 6 autor da frase famosa
por sua dureza : «O escravo é incapaz de felicidade, como incapaz
é de livre arbitrio» (Ética a Nicdmaco III V II).
Dadas estas concepcóes, entende-se aue em Atenas, ao lado de
20000 cidadáos livres, tenha havido 400000 escravos: Corinto con-
tava 460.000 déstes, e Egino 470.000. No célebre mercado de Délos,
venderam-se em um só dia 10.000 eseravos...
No Imperio Romano, o estado de servidáo ainda tomou maior
vulto embora os romanos fdssem. capazes de atitudes muito mais
liberáis do que os gregos : um só cidadáo podia ter a seu servico
10.000 ou 20.000 escravos. As Vitorias dos romanos acarretavam a
vinda de multidóes de prisioneiros para Roma ; César, após a con
quista da Gália, vendeu mais de um milháo déles.

3. Em Israel, ou seja, no povo do Antigo Testamento,


estava em vigor a escravatura — o que nao admira, pois os

— 437 —
israelitas herdaram de seus antepassados caldeus ésse cos-
tume. A Lei de Moisés, porém, tratou de mitigar as condicóes
de vida do escravo; é o que se depreende claramente da
comparagáo désse documento israelita com a legislagáo de
Hamurapi da Babilonia: enquanto esta favorece geralmente
o patráo, aquéle visa de preferencia os interésses dos servos.
A mitígagáo da sorte déstes em Israel se explica, em boa parte,
pelo fato de que os judeus, contrariamente a muitos povos
antigos, estimavam o trabalho manual, fosse o da industria,
fósse o dos campos: «Pois que comerás do fruto do trabalho
de tuas máos, serás feliz e prosperarás», exclamava o sal
mista (SI 127,2).

Era principalmente a guerra que, lornecendo prisioneiros, ali-


mentava os mercados de escravos entre os povos bíblicos; cf. 1
Sam 30,3 ; Am 1,9 ; Ez 27,13 ; 1 Mac 3,41. Além disto, note-se que
todos os íilhos de urna escrava em Israel eram considerados proprie-
dade do patráo ; cí. Éx 21,4. Um israelita, por via de regra, nao
podia ser reduzido a condicáo de escravo (cf. Lev 25.42-46). Acon
tecía, porém, que um filho de Israel incapaz de pagar suas dividas
podia ser vendido pelo credor como escravo (cf. 4 Rs 4,1; Ne 5,5.8;
Éx 22,3). Todo patráo israelita era obrigado a conceder a liberdade
aos seus servos, quando de sete em sete anos irxompia o ano sabá
tico, assegurando-lhes entao um peculio mínimo para que pudessem
viyér honestamente (cf. Lev 25,39-54 ; Éx 21,2 ; Dt 15,12-18).
Os ascetas hebreus chamados «Essénios» e «Terapeutas» se mos-
traram francamente avessos á prática da escravidao ; cf. Eusébio,
Praep. evang. VIII 12 ; Flávio José, Ant. jud. XVIII I 5.

Foi nesse mundo judaico e, a seguir, no ambiente greco-


-romano, que comegou a ser pregado o Evangelho. Qual a
atitude dos primeiros arautos déste perante a escravatura
entáo vigente ?

3. O Cristianismo e a escravatura

1. Nos tres primeiros sáculos. O Evangelho, quando co


megou a ser apregoado ao mundo, encontrou urna ordem de
coisas humanas já instituida; encontrou, em particular, um
sistema económico e condigóes sociais estabelecidos, e estabe-
lecidos na base do regime da escravidao. Esta se achava de
tal modo integrada no plano de coisas vigente que nao se
poderla pleitear a sua extingáo sem promover a catástrofe
geral da vida pública. Ademáis, o govérno imperial, que de-
tinha em suas máos a administracáo dos bens públicos, era
diretamente hostil aos cristáos. Sendo assim, entende-se que
o papel do Evangelho, ao entrar neste mundo, nao tenha sido
o de provocar urna revolugáo brutal contra o sistema social
vigente, mas se haja reduzido a duas atividades :

— 438 —
a) mudar a mentalidade dos homens em relagáo á es-
cravatura, criando de maneira paciente e constante as pre-
missas e o ambiente favoráveis á eliminagáo da mesma. A
mudanqa de mentalidade seria trabalho lento, pois certos
fatos históricos, de que abaixo falaremos, contribuiram para
dar foros de liceidade a urna ou outra modalidade de servidáo.
Interessante é notar que no séc. IV houve urna seita — a dos
Eustacianos — que incitava os escravos ao odio de classe e á recusa
de obediencia ; tal escola, porém, nao prevaleceu na Tradicáo crista,
pois seus efeitos seriam destrutivos tanto no plano espiritual como
no material ou temporal.

b) mitigar a sorte dos escravos, e até proporcionar-lhes


libertacáo total em casos particulares.
Vejamos de per si urna e outra destas atuacdes do Cristianismo.
a) Os Apostólos exortavam os escravos cristáos á submissáo e
á obediencia, lembrando, por exemplo, que um escravo, por sua íide-
lidade, poderla tornar-se eloqüente arauto da doutrina de Cristo pa
ciente (cf. Tit 2,9s ; 1 Tim 6,7s ; 1 Pdr 2,18). Nao deixavam de Incutir
aos patrñes que, aos olhos de Deus, nao há nem judeu nem grego,
nem escravo nem livre (cí. Gal 3,28; Ef 6,5-9; Col 3,22-24) ; esta
última declarado nao implicava o cancelamento de toda distincáo
entre os homens. mas significava que a alma humana possui um
destino que ultrapassa as categorías sociais e pode ser atingido em
todo e qualquer quadro de vida. — Nao se poderla deixar de men
cionar neste contexto a epístola de S. Paulo a Filemon: nüo é senáo
urna carta de recomendacáo em íavor de um escravo fugitivo, Oné-
simo, que S. Paulo havia acolhido e convertido e que o Apostólo
mandava de volta ao seu patráo: «Recebe-o nao mais como escravo,
mas como irmáo amado» (v. 16).
O Cristianismo também suscitou a remodelacáo do conceito de
trabalho manual, conceito que fomentava na antigüidade paga o
regime de escravos: a operosidade das máos, longe de ser tida
como algo de infra-humano, foi apresentada ao mundo como conti
nuado da obra do Criador, que coníiou ao homem o dominio do
mundo material; íoi também apregoada como elemento de santiíi-
cacao, pois, dando ensejo á penitencia, configura o cristáo a Cristo
crucificado.
Além disto, o Cristianismo combateu o luxo desenfreado dos
pagaos e a amblcáo de possuir bens materiais. No Intimo da familia
purificou os afetos de modo a impedir que os pais expusessem seus
filhos ao comercio de escravos.
b) No tocante á mitigacSo da sorte dos servos, note-se o se-
guinte:
No foro eclesiástico, os escravos gozavam de todos os direitos
que competiam aos homens livres; urna vez libertos, podiam-se tor
nar clérigos e blspos: o Papa Calixto I (218-222), por exemplo, tra-
zia em seu corpo os sinais da sua atitiga eondicao de servo. As auto
ridades eclesiásticas ocuparam-se outrossim com a emancipacáo dos-
escravos ; assim os bispos, visando tal fim, mais de urna, vez ven-
deram as alfaias e os vasos sagrados r também exortavam freqüente-
mente os patrSes a libertar benévolamente o pessoal de sua serven-

— 439 —
tia. Alias, durante todo o decorrer da historia da Igreja, enquanto
houve escravos, registraram-se empreendimentos altamente genero
sos em favor da llbertacáo dos mesmos: haja vista a íundagáo de
duas Ordens Religiosas que, durante seis séculos, se aplicaram a
remir os prlsioneiros de guerra feitos escravos — a Ordem dos Tri
nitarios, devida a S. Joáo da Matha em 1198, e a dos Mercedários,
iniciada por S. Pedro Nolasco e S. Raimundo de Penaforte em 1223.
O próprlo S. Vicente de Paulo deixou-se capturar pelos turcos, so-
frendo duríssimo tratamento de 1605 a 1607, a íim de resgatar es
cravos ; o seu exemplo foi seguido por seus discípulos Jean le Vacher
(mais de urna vez) e M. Poissant em 1741. Semelhante foi o proce-
dimento de outros Religiosos, como os dominicanos Estéváo de Lu-
signán, Angelo Calepino, um capuchinho confessor de D. Juan da
Austria; o jesuíta Pe. Mariano Mameri, que fea treze viagens a Ber
bería, e o Pe. Julio Mancinelli, que fundou urna Congregagao Reli
giosa em vista da redengáo de escravos.

2. Do séc. IV ao séc. XVI. No séc. IV o Imperador Ro


mano deixou de perseguir a Igreja, fazendo-se ele mesmo
cristáo a partir de Constantino (313). O fato possibilitou mais
ampia acáo dos bispos em favor de urna renovagáo da ordem
social e económica vigente; assim nos séc. IV/VT era muito
comum que um patrio libertasse seus servos ou no ato de
ingressar no mosteiro ou no momento de receber o batismo
ou em artigo de morte («pro remedio animae», em beneficio
da alma do moribundo).
Visando ainda mitigar a sorte dos escravos, as autorida
des eclesiásticas foram obtendo leis que proibiam fóssem éles
vendidos independentemente da térra em que trabalhavam.
Tal medida proporcionou aos servos estabilidade em sua resi
dencia e conseqüentemente vida familiar normal; constituía
um passo em vista da instituigáo dos «servos da gleba».
Estes tomaram grande vulto na Idade Media em virtude
das invasóes bárbaras, que a partir dos séc. V/VI tornavam
caótica a vida pública européia: em meio á instabilidade da'
ordem de coisas, muitos camponeses se sentiam incapazes de
garantir o ganha-páo por si sos ; procuraram entáo livremente
colocar-se sob a tutela de um senhor poderoso, ao qual dedi-
cavam inteiramente o trabalho de seus bragos, ficando fixos
ao solo que habitavam; em troca disto eram devidamente
defendidos contra as hordes dos invasores germánicos; ins-
taurou-se assim urna semi-servidáo, que certamente signifi-
cava abrandamento em confronto com o antigo regime de
escravos (antigo regime que, apesar de tudo, ainda subsistía
em certas proporgóes), mas ainda nao era o termo ideal a
que o Evangelho devia levar a sociedade; únicamente as cir
cunstancias históricas da Idade Media justíficavam a insti
tuigáo dos servos da gleba. É o que notarn os grandes teólogos
do séc. XIII, como, por exemplo, S. Tomaz:

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«O fato de que éste homem, e nao aquéle. seja servo, em si nao
se justifica por motivos naturais ; so se explica em vista de alguma
vantagem que possa decorrer da servidáo. Com eíeito, pode tor
nar-se útil a tal individuo ser regido por outro mais sabio, como a
éste outro pode tornar-se útil ser ajudado por aquéle» (S. Teol. II/II
q. 57, a. 3, ad 2).

Alias, verilica-se em toda a historia do Cristianismo que nem


sempre a libertacSo de servos foi benéfica para estes ; em muitos
dos casos, os libertos viram-se repentinamente entregues a si mes-
mos, sem possuir outro bem que nao a liberdade de dispor do seu
trabalho, destituidos, porém, de formagáo moral e técnica para pode-
rem governar-se a si e prover k sua subsistencia. É o que explica,
tenham os libertos nao raras vézes preferido voltar á sua antiga
servidüo.
Aínda para entender a persistencia do regime de escravatura du
rante a Idade Media, considere-se que tal regime era em parte sus
tentado por maometanos e judeus, os quais. convivendo ao lado dos
cristaos, nao podiam deixar de exercer influencia sobre as institui-
C8es de economía, comercio e industria da época. — Nao se negaráo,
porém, abusos cometidos por comerciantes cristaos : principalmente
os navegantes de Veneza e Genova, ao regressarem das costas do
Oriente e da África, ou ao obterem Vitorias sobre piratas, desem-
barcavam nos mercados europeus escravos negros e sarracenos, que
em parte eram vendidos como pagens as familias nobres. Embora o
tratamento infligido a ésses servos domésticos fdsse geralmente be
nigno, os Papas (como Inocencio IV 1243-54, Joao XXII 1316-34, Mar-
tinho V 1417-31) nao deixaram de protestar contra tal praxe.

3. Do séc. XVI ao séc. XIX. Passada a Idade Media, no


séc. XVI a escravatura conheceu modalidades e voga novas ;
instaurou-se, sim, em vista da exploragáo das térras da Amé
rica recém-descoberta, o tráfego de escravos entre o Estado
e os cidadáos particulares ou entre Estados diversos. Nao
sendo eficaz o indio para os pesados trabalhos bragais, os
colonizadores recorreram ao negro africano, de constituigáo
física mais robusta (o negro, alias, já era utilizado como es-
cravo por Portugal e pela Espanha antes da descoberta da
América). Portugal foi urna das nacóes que iniciaram a nova
praxe, ao passo que a Inglaterra, desde Elisabete até o inicio
do séc. XIX, se tornou a mais célebre nagáo comerciante de
escravos, ameacando de guerra outros países a fim de manter
certo monopolio nesse tráfego. Foi sómente no Congresso In
ternacional de Viena (1815) que os estadistas da Inglaterra,
da Austria, da Franca, de Portugal, da Prússia, da Espanha,
da Rússia e da Suécia resolveram assinar solene protesto
contra a importacáo e a exportagáo de africanos, dando assim
inicio ao dedinio da escravatura nos países coloniais.
Frente a essa nova ordem de coisas, a Igreja tomou ati-
tudes restritivas. Logo que se iniciou a importagáo de escra
vos da África para a Europa, o Papa Pió n, em 1462, denun-

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ciou a escravatura como «magnum scelus» (grave crime) e
mandou aos bispos infligissem censuras eclesiásticas a quem
a praticasse. O Pontífice Paulo m, em 29 de maio de 1537,
ordenou ao arcebispo de Toledo protegesse os indios da
América, e ameacou de excomunháo (cuja absolvigáo ficava
reservada ao Papa) quem reduzisse ésses homens á escrava
tura. Os Papas seguintes renovaram semelhantes admoesta-
góes. Note-se aínda que Bento XIV em 1741 escreveu ao bispo
do Brasil e ao reí de Portugal lamentando que as disposigóes
de seus predecessores sobre o assunto nao tivessem sido de-
vidamente observadas. Por sua vez, Gregorio XVI em 3 de
dezembro de 1837 publicou urna entíclica exortando os bispos
a fazerem tudo para obterem a supressáo da escravatura, que
desde o Congresso de Viena era oficialmente reconhecida pelas
nagóes como algo de indigno.

Verdade é que certas circunstancias justificavam por vézes a


condescendencia dos missionários cristáos para com o regime dos es
cravos. Sim; na Alrica, por exemplo, as populacóes de certas re-
gioes eram em maioria constituidas de escravos, que haviam sido
reduzidos a tal condicáo pelas leis locáis em castigo de algum delito
(furto, homicidio, adulterio...),; sendo assim, em inultos casos a
praxe dos colonos európeus nao consistía em escravizar os negros,
mas apenas em íazer que homens já escravizados mudassem de
patráo, passando para a casa de um proprietário cristüo, geralmente
mais benigno e compreensivo; dai a tolerancia de certos missioná-
ríos. — O papel do dominicano Bartolomeu de las Casas (t 1566) nao
é multo claro, prestando-se a mal-entendidos: foi éste frade, a
quanto parece, quem propós o recurso, na América, a escravos
provenientes da África, em substituigáo aos Indios (sabe-se que a
escravidSo negra já era praticada em pequeña escala antes mesmo
da descoberta da América); se las Casas fez tal proposta, fé-la
visando extinguir a miserável sorte dos aborígenes americanos
explorados pelos conquistadores europeus; em breve, porém, julga-se
que se arrependeu de ter sugerido a importacáo de negros, pois em
1518 escreveu um projeto de colonizacáo no qual silenciava por
completo o tráfego de africanos.

Os missionários na África e na América procuraram in-


defessamente aliviar o jugo dos escravos, distinguindo-se entre
todos S. Pedro Claver S. J. (tl654), que assinou sua carta
de profissáo religiosa com a fórmula : «Pedro, escravo dos
negros para sempre». O fato de que, nao obstante ésses esfor-
gos, o regime de servidáo se tenha mantido ñas colonias du
rante quase quatro sáculos, deve-se em grande parte aos
interésses dos latifundiários e administradores públicos, que
tinham toda vantagem em explorar a máo de obra servil...

Considerando agora o Brasil em particular, observemos que éste


foi, dentre os países cristáos, o que por mais tempo conservou o
sistema de escravatura. Por todo o decurso do século passado, os

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nossos bispos fizeram ouvir suas vozes.em favor da abolícao, propondo
finalmente que esta fósse decretada em comemoracao do jubileu
sacerdotal do Papa Leáo XIII (1888), o que realmente se deu.
S. Santidade respondeu a éste gesto em carta congratulatoria dirigida
ao episcopado brasileiro, carta em que Leáo XIII recordava outrossim
quanto a Igreja havia feito em prol dos escravos.

Poder-se-ia aqui.aínda referir a seguinte noticia recém-divulgada


pela imprensa e altamente significativa da mentalidade da Igreja :
«Está examinando a Sagrada Congregagao dos Ritos o processo
de beatificacáo de Giuseppina Bakhita. Vendida no Sudáo como escrava
a um diplomata italiano, foi a Italia, onde recebeu a liberdade.
Convertida, ingressou num mosteiro de monjas. Após vida santa,
veio a falecer em 1947». (CRF).
Em nossos dias ainda se pratica a escravatura no Tibe, na
Arabia e na Abissinia.

Em conclusáo de quanto até aqui foi dito, reconhecer-se-á


que a persistencia da escravatura em ambientes de civilizacáo
crista durante tantos sáculos constitui certamente estranho
fenómeno. O fato, porém, se explica a quem considera de
perto os agentes da historia : o Cristianismo nao criou, mas
encontrou já vigente o regime de servidáo. Nao o podendo
abrogar pela revolugáo armada, os arautos do Evangelho pro-
curaram revolver a mentalidade dos povos de sorte a obter a
extingáo espontánea de tal desordem. A meta foi realmente
atingida; a longo prazo, porém, em virtude de vicissitudes
diversas : enquanto, de um lado, os patróes prepotentes mui-
tas vézes protraiam iniquamente o sistema de exploragáo dos
escravos, estes, por seu lado, nao sempre recusavam um re-
gime em que se sentiam próvidos dos elementos necessários
á sua subsistencia.

É o historiador protestante Dobschütz quem escreve :


A repentina abolicáo da escravatura «equivaleria a urna revolucáo
social irrealizável no mundo cristáo, por mais reduzido que éste
fósse: revolucáo impossível aos olhos dos patrOes, cujos haveres
constavam principalmente de escravos; impossível também aos
escravos, os quais teriam sido, em maioria, despojados dos meios
de subsistencia que éles recebiam dos senhores» (Die urchristlichen
Gemeinden 1902, pág. 89).
O Papa Leáo XIII fazia a mesma observagáo :
«A Igreja nao se apressou por remir e libertar os escravos,
consciente de que a precipitacao acarretaria tumulto e ocasionaría
detrimento tanto para os próprios escravos como para o bem comum»
(Ene. «In plurimis», do ano de 1888).
Ou ainda :
«A acáo da Igreja. educadora e moralizadora por excelencia,
era indispensável; teria sido váo abolir o tráfego, os mercados e a
condicáo mesma dos escravos, se os espíritos e os costumes tivessem
ficado bárbaros» (alocugáo de 2 de maio de 1891).

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CORRESPONDENCIA MIÜDA

LEAL, MAS ALERTA (Rio de Janeiro) : ensina o espiritismo que


Deus concede ao homem múltiplas "chances" de se salvar, permitindo que
se encarne varias vézes a fim de recomegar sucessivamente a tentativa
de se purificar. Isto parece a V. S. supor mais bondade em Deus do que
a doutrina crista, que só admite urna vida das almas neste mundo.
Tal parecer, porém, nao convence. O Cristianismo professa que
Deus, dentro de urna só passagem das almas por esta térra, dá a cada
urna t6das as grasas para que se salve ¡ testemunho disto é a Cruz de
Cristo, que morreu precisamente para merecer-nos tudo que diz respeito
á salvagáo. Assim numa só peregrinagáo terrestre o homem dispóe de
todos os recursos que o espiritismo dissemina por varias enearnacóes. Da
parte de Deus, nao falta benevolencia (benevolencia que o Cristianismo,
professando a morte redentora de Cristo, afirma muito mais do que o
espiritismo) ; o que falta, é correspondencia do livre arbitrio humano a
essa Bondade divina. De resto, o que as almas, munidas de tantas gra-
gas, nao fazem numa só vida terrestre, elas também nao o fariam em
multiplicadas encarnagóes.

EVANGÉLICO (Guapimirim) : a respeito do santo sudario de


Turim, veja "P.R." 10/1958, qu. 7. A autenticidade de reliquias deve
ser comprovada por documento a elas anexo. Nao podemos fornecer mais
explicares por ignorarmos o enderégo de V.S.
MARX : urna das dúvidas do amigo encontra, em núcleo, a sua
resposta em "P.R." 2/1958, qu. 8-10.
P. F. (Rio de Janeiro) : a propósito da predestinagao, veja "P.R."
5/1958, qu. 3. Só Deus vé o íntimo das consciencias e pode julgar, em
determinado caso, se há ou nao pecado mortal. "Éste mundo" é a térra
apenas.... Na Eucaristía, adoro Deus Eilho diretamente, Deus Pai e
Deus Espirito Santo por concomitancia.
FILHA DE MARÍA (Sta. Catarina) : por falta de enderigo, nao
lhe podemos responder.

D. ESTÉVAO BETTENCOURT O. S. B.

■ ■ .

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