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História, imagem e narrativas N o 6, ano 3, abril/2008 – ISSN 1808-9895 - http://www.historiaimagem.com.br

DO IMPÉRIO À REPUBLICA: O CARNAVAL VISTO POR MEIO DOS QUADRINHOS

(1869 – 1910)

Natania A. Silva Nogueira Professora da Rede Pública Municipal de Leopoldina (MG) natanianogueira@yahoo.com.br

Resumo: O carnaval é uma festa popular que já se tornou uma marca característica do Brasil. O que poucos sabem é que sua história está relacionada a uma mídia que há mais de um século se faz presente no nosso cotidiano: as histórias em quadrinhos. Neste texto, iremos fazer uma breve investigação sobre a história dos carnavais e o carnaval nas histórias em quadrinhos publicadas no Brasil, tendo como locus a obra de Angelo Agostini, pioneiro nos quadrinhos brasileiros

Palavras-chave: carnaval, história, histórias em quadrinhos.

Introdução

História, imagem e narrativas N o 6, ano 3, abril/2008 – ISSN 1808-9895 - http://www.historiaimagem.com.br

O carnaval pode ser considerado uma das festas mais antigas do mundo. Surgindo na

Antiguidade, atravessando a Idade Média e chegando ao continente Americano, ele se tornou

uma das formas de manifestação cultural mais características do Brasil, cercado de histórias, de

mitos, de alegorias e símbolos que resistiram ao tempo ou se adaptaram às mudanças impostas

pela sociedade, em vários sentidos. Falar da origem do carnaval em si não é o objetivo deste

artigo, mas sim refletir de que forma essa festa popular foi representada, por meio de imagens,

muitas vezes cômicas, caricatas, como o próprio carnaval.

Estas imagens, inicialmente veiculadas por folhetins e periódicos, traduziam, pelo traço de

desenhistas, a visão que se tinha do povo, do festejo e dos próprios valores embutidos nas

caricaturas, nas charges e nas histórias em quadrinhos. De festa do homem simples e trabalhador,

caiu no gosto da elite, em meados do século XIX, quando em salões ricamente decorados

desfilavam (e desfilam) fantasias luxuosas e se permitia, ao menos uma vez ao ano, abrir mão de

certos pudores. Na festa da carne é proibido proibir e as recriminações são abafadas ao som do

samba, das marchinhas, das músicas que em cada época marcaram a alegria dos foliões.

O carnaval pode ser representado de diversas formas e com diversas finalidades pelo traço

de artistas, expressando idéias e valores. Independentemente de julgar se os valores de um

determinado sujeito da história são certos ou errados, verdadeiros ou falsos, trata-se de avaliar se

este juízo, esta representação se insere no contexto histórico do qual ele faz parte. É disso que

trata esse texto: da imagem que, junto com a palavra escrita, conta a história de uma festa sob o

prisma de um artista, revelando o testemunho de um tempo.

Nosso recorte localiza-se entre os anos de 1869 e 1910, levando em conta a produção de

um dos mais importantes artistas que atuaram no Brasil: Angelo Agostini. Durante o tempo em

que esteve no Rio de Janeiro, Agostini retratou os carnavais cariocas e nos forneceu elementos

para uma análise histórica dessa festa naquele momento histórico específico, marcado pelo

abolicionismo e pelo republicanismo.

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1 – Carnaval e imprensa no Brasil (1850 – 1910)

O carnaval, no Brasil, mais especificadamente na cidade do Rio de Janeiro, foi por muito

tempo um festejo que se fazia pelas ruas, quando populares se reuniam e, aos poucos, se

formavam multidões de foliões. Era o entrudo, que tinha origem portuguesa e foi introduzido no

Brasil provavelmente entre os séculos XVI e XVII. Consistia em um folguedo alegre, mas

violento. Havia entrudos familiares e populares. Nas ruas, os homens de boas famílias se

misturavam com populares, em sua maioria negros e mestiços. As senhoras tidas como honestas

assistiam de longe, das sacadas das casas, e mais tarde passaram a participar do corso

carnavalesco vespertino, dento de carros, protegidas do contato com os foliões das ruas.

Corso é o nome que os passeios das sociedades carnavalescas do século XIX adquiriram

no início do século XX, no Rio de Janeiro, após uma tentativa de se reproduzir no país as

batalhas de flores características dos carnavais mais sofisticados da virada do século. A

brincadeira consistia no desfile de carruagens enfeitadas – e, posteriormente, de automóveis sem

capota.

A figura 1 mostra um entrudo, na Rua do Ouvidor, local onde as famílias podiam assistir,

das sacadas, aos foguedos. A partir de 1906, essa prática foi transferida para a nova Avenida

Central, onde famílias alugavam sacadas para poder assistir aos desfiles.

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FIGURA 1

ISSN 1808-9895 - http://www.historiaimagem.com.br FIGURA 1 Entrudo na Rua do Ouvidor – Angelo Agostini (1884) Fonte:

Entrudo na Rua do Ouvidor – Angelo Agostini (1884) Fonte: Acervo particular de Gilberto Maringoni Oliveira

Foi na década de 1840 que ocorreu a separação entre a festa da rua, - popular, negra – da

festa de salão – branca e segregada. Teria sido uma família de italianos do Rio de Janeiro a

primeira a organizar esses bailes, à moda veneziana, com o uso de máscaras. A máscara,

marcante até hoje nos carnavais de Veneza, ajudava a preservar o anonimato dos foliões, que se

perdiam em meio aos salões. Nas ruas, as máscaras também eram usadas, algumas rústicas,

outras improvisadas, mas sempre com o mesmo objetivo de manter o anonimato, pois, afinal, no

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carnaval as pessoas podiam se despir de certos pudores e cometer alguns excessos, que

normalmente eram condenados pela sociedade.

O uso de máscara tem como data inaugural o século XIII, mais

precisamente o ano de 1268. O hábito de esconder o próprio rosto sob máscaras

anônimas permitia aos venezianos, durante o carnaval, abolir as barreiras

sociais, já que nesta época servos podiam se fantasiar de nobres e vice-versa, e

homens e mulheres podiam trocar de vestimentas. Dessa forma, não só as

barreiras das classes sociais eram negligenciadas, mas o próprio decoro moral,

deixando que a loucura, ou melhor, a folia tomasse conta da realidade,

propiciando orgias nos espaços públicos e privados. ( )

Nesta fase de relaxamento das normas sociais, o uso de máscaras permitia

que as pessoas que as usavam pudessem cometer, no anonimato, todos os pecados

da carne, quer fossem na cama ou na mesa. 1

A máscara representava uma segurança para o folião que não desejava ser recriminado

durante o restante do ano pelas suas ações durante o carnaval. Em seu livro Costumes em

Comum 2 , E. P Thompson refere-se ao anonimato como uma estratégia do povo, onde as pessoas

se reuniam em motins para protestar e usavam a multidão como um escudo contra a perseguição

das autoridades, que não tinham como identificar todos os amotinados. Podemos transferir esta

estratégia para o carnaval. Nas ruas, multidões acompanham blocos e se disfarçam para poderem

manter o anonimato e aproveitar os dias de folia, sem se preocupar com a constante vigilância da

sociedade e da(s) igreja (s).

A nova modalidade de carnaval – o baile particular – era considerada civilizada, mais

européia e menos perigosa e tinha uma peculiaridade: pagava-se para participar. Portanto, era um

baile para pessoas com posses. Assim,

1 FARIA, Flora de Paoli. O baile de máscaras de Veneza ao Rio de Janeiro: sob o signo do Arlequim. Terceira Margem: revista do Programa de Pós Graduação em Ciência da Literária. Universidade do Rio de Janeiro, Centro de Letras e Artes, Faculdade de Letras, pós-graduação, Ano X, nº 14, 2006, p. 87. 2 THOMPSON. Costumes em comum: revisão técnica Antônio Negro, Cristina Meneguello, Paulo Fontes – São Paulo: Companhia das Letras, 1998

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Os bailes carnavalescos de salão – privatizando um divertimento público

para os sócios dos clubes e os que podiam adquirir ingresso – haviam se tornado

a marca distinta da gente fina. Em oposição ao ‘entrudo moleque’, festa pública

para o grande público, evento de rua e alvo designado das cacetadas da polícia. 3

Já no início do século XX, o carnaval se torna uma festa mais familiar, com os primeiros

matinês (bailes infantis) e com festas realizadas em casas de família. Aparecem também os

concursos (de fantasias, tipos exóticos, etc) e cresce o prestígio das primeiras sociedades

carnavalescas, que antecederam as escolas de samba. As sociedades eram clubes ou agremiações

que, com suas alegorias e sátiras ao governo, encontraram uma forma saudável de competição. 4

O sucesso dos bailes de máscaras deu passagem à criação dos clubes de

carnaval, cujo objetivo era a organização dessas festas de salão. Dessa forma foi

organizada, pelo escritor José de Alencar, em 1855, com o nome de Congresso

das Summidades Carnavalescas, que já em sua passeata inaugural contava com a

participação de 80 sócios. 5

Este modelo de carnaval carioca – voltado para as elites – foi copiado em várias partes do

Brasil. Na jovem capital mineira, Belo Horizonte, por exemplo, “o carnaval consistiria nos

luxuosos desfiles de Grandes Sociedades Carnavalescas da cidade do Rio de Janeiro” 6 ,

organizados pelos clubes de carnaval da capital, em substituição às manifestações populares

como o entrudo. Estas associações de carnavalescos utilizavam os jornais impressos como forma

de divulgar suas idéias sobre o carnaval. Nesse sentido, não apenas no Rio de Janeiro, como

também em grande parte do país, podemos verificar a presença dos periódicos na construção da

imagem do carnaval no Brasil.

3 ALENCASTRO, Luiz Felipe de. Vida privada e ordem privada no Império. In: História da Vida privada no Brasil:

Império. – São Paulo: Companhia das Letras, 1997, p. 53

<

http://br.geocities.com/biografiaschiado/HistoriaCuriosidades/HistoriadoCarnaval/historiadocarnaval.htm>, acesso em 13/12/2007.

5 FARIA, Flora de Paoli

6 FILHO, Hilário Figueiredo Pereira. A conquista das ruas: um enredo possível para o carnaval de Belo Horizonte. Anais do XIV Encontro Regional de História da ANPUH/MG, Juiz de Fora, 2004, p. 3

4

Pequena

História

do

Carnaval.

Disponível

em

Op. Cit, p. 94.

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A imprensa era uma aliada do carnaval, afinal, era uma celebração tipicamente brasileira.

Muito além de noticiar o festejo, ela dava a ele uma moldura de festa popular, movimento

cultural, envolvendo-se diretamente na festa, desde o século XIX, colaborando na socialização da

festa em modalidades competitivas como os corsos - passeatas em carros, bailes, coretos,

desfiles, organização de clubes e agremiações carnavalescas, blocos, fantasias e todo um

imaginário da liberação criativa popular.

Segundo Eunícia Barros Barcelos Fernandes, a imprensa periódica tinha um papel

importante “como agente mediador de informações e idéias, articulando grupos de diferentes

estratos sociais e interesses” 7 , ela representava a modernidade e era, também, um instrumento

pedagógico que se tornavam importante instrumento para a construção de referencias sociais.

Nesse sentido, analisar as representações gráficas do carnaval através das imagens publicadas em

jornais nos oferece dados para uma leitura social, política e cultural dessa festa, no caso

específico do Rio de Janeiro.

Os jornais promoviam concursos, premiavam figuras pitorescas, reforçavam

comportamentos, dando visibilidade e reconhecimento à festa. Apesar de estarmos analisando o

caso específico do Rio de Janeiro, é oportuno ressaltar que esse comportamento não se limitava

apenas àquela cidade. Caroline P. Leal 8 ressalta o papel da imprensa na divulgação do festejo e

sua dedicação em transformar o carnaval na cidade de Porto-Alegre em uma comemoração

familiar e sem violência. A imprensa via o carnaval como celebração que devia ser levada a sério

e que devia ser “domesticada” e cabia à mídia escrita levar a cabo esta tarefa. O uso de

quadrinhos e caricaturas foram muito úteis nessa tarefa.

7 FERNADES, Eunícia Barros Barcelos. Imagens de índios em O MALHO: a imprensa como mediadora de representações. XXIV Simpósio Nacional de História, São Leopoldo/RS, 2007.p.4 8 LEAL, Caroline P. “Porto Alegre carnavalesca”: o entrudo através do olhar imagético. História, imagem e

narrativas, nº 5, ano 3, setembro/2007

22/01/2008.

Dispomível em <http://www.historiaimagem.com.br >, acesso em

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2 - O carnaval segundo Angelo Agostini

Durante o Segundo Reinado, havia uma grande tolerância à imprensa. Jornais, livros e

panfletos circulavam por todo o império e até os cortejos carnavalescos contavam com carros

alegóricos que representavam personagens importantes do Império; havia liberdade de caricatura.

Essa liberdade de expressão abriu espaço para o surgimento de uma impressa crítica e dinâmica,

em oposição aos tempos de censura e perseguição do período colonial. Nesta imprensa iremos

encontrar várias referências ao carnaval e vários artistas que procuram, através do desenho,

expressar suas impressões sobre esta festa.

Um dos primeiros a retratar o carnaval brasileiro foi o desenhista ítalo-brasileiro Angelo

Agostini (1843-1910). Nascido na Itália, chegou ao Brasil em 1850. Seu nome associa-se ao

surgimento da caricatura em São Paulo, na revista Diabo Coxo (SP, 1864) e ao pioneirismo na

produção de histórias em quadrinhos no Brasil, “quase 30 anos antes de Yellow Kid (1895), do

norte-americano Richard Fenton Outcault, e tida como a primeira história de quadrinhos

moderna”. 9 Em 1869 publicou sua primeira historieta com personagem fixo, no periódico Vida

Fluminense: As aventuras do Nhô Quim ou Impressões de uma Viagem à Corte. Mas foi em

1883 que surgiu seu maior sucesso nos quadrinhos, o Zé Caipora, o primeiro personagem de

histórias em quadrinhos de longa duração publicada no Brasil. 10

Seu trabalho faz uma leitura dos usos e costumes da época em que viveu, leitura esta

caracterizada pela ironia, principalmente frente às elites da época. Na cidade do Rio de Janeiro,

foi colaborador na revista Arlequim (1867); na Vida Fluminense (1868-1875), n'O Fígaro (RJ,

1876-1878), n'O Mosquito (1869-1875). Foi fundador do Mequetrefe (1875-1893); fundou e

ilustrou a Revista Ilustrada, (1876 a 1898); fundou o Dom Quixote (1895-1903). Colaborou n'O

Malho (1902-1954) e n'O Tico-Tico (1905-1959), revista infantil onde desenhava as histórias do

9 OLIVEIRA, Gilberto Maringoni de. Angelo Agostini ou impressões de uma viagem da Corte à capital Federal (1864-1910). Tese de Doutorado apresentada ao programa de Pós-Graduação em História Social, USP, 2006. 10 MOYA, Álvaro de. História da História em Quadrinhos. 2ª edição - São Paulo: Editora Brasiliense, 1996, p. 16.

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Pai João. Trabalhou na Gazeta de Notícias em 1904". 11 Sobre sua crítica político-social,

Rosangela de Jesus Silva afirma:

Para realizar sua crítica Agostini utilizou-se não apenas dos recursos textuais, mas

também dos desenhos. Quando observamos as caricaturas de Agostini, percebemos o quanto a

preocupação com o desenho está presente em seu trabalho. O seu traço não apresenta como

principal característica a deformação da figura. Suas representações atuam mais como retratos

que indicam com clareza de quem se trata e o que se quer mostrar. Além do desenho, as

caricaturas vinham sempre acompanhadas de pequenas legendas salpicadas de comentários por

vezes divertidos, irônicos ou mesmo bastante ácidos. 12

Como um apreciador dos costumes do povo brasileiro, Agostini não poderia ignorar nossa

maior festa popular, o Carnaval. Mesmo sendo estrangeiro, Agostini “soube captar com perfeição

o espírito e a brasilidade tropical do nosso país.” 13 . Retratou em muitos de seus quadrinhos e

caricaturas os carnavais do Rio de Janeiro, onde podemos identificar a diversidade cultural e

social brasileira, que durante o festejo aflorava com maior densidade. Ele celebra, em seu traço, a

diferença, procurando tirar o povo da marginalidade ao qual era relegado pelas elites, mostrando

que ele era, na verdade, o dono da festa.

Olhar com atenção os registros de Agostini sobre a folia nas últimas

décadas do século XIX e no início do século XX pode dar margem a uma

interessante reflexão sobre esta própria festa, geralmente interpretada como um

momento de suspensão de todas as tensões em nome de uma comunhão

transitória: uma válvula de escape através da qual a "verdadeira" expressão

popular e nacional poderia vir à tona. A etnografia de Agostini, longe de registrar

esta pretendida univocidade, evidencia a diferença, a multiplicidade de gestos e

em

<http://www.unicamp.br/cecult/AngeloAgostini/carnaval.html> acesso em 21/01/2008

12 SILVA, Rosangela de Jesus. “Os Salões Caricaturais de Angelo Agostini” . In: 19&20 - A revista eletrônica de

DezenoveVinte. Volume I, n. 1, maio de 2006. Site: http://www.dezenovevinte.net/ [2]

13 GOIDANICH, Hiron Cardoso. Enciclopédia dos quadrinhos. Por to Alegre: L&PM, 1990, p. 19.

11

O

carnaval

visto

por

Angelo

Agostini.

Disponível

História, imagem e narrativas N o 6, ano 3, abril/2008 – ISSN 1808-9895 - http://www.historiaimagem.com.br

intenções, a constante disputa por espaço e por autonomia entre diferentes atores

da folia. 14

Na década de 1880, na Revista Ilustrada, dedicou páginas duplas aos carnavais de 1881,

1882 e 1883 e 1884. Foi nessa revista que Agostini desenvolveu As Aventuras de Zé Caipora. A

imagem ocupava um espaço considerável na revista, sendo colocada nas páginas centrais. É

justamente da Revista Ilustrada que conseguimos algumas caricaturas de Agostini, dedicadas ao

carnaval.

FIGURA 2

caricaturas de Agostini, dedicadas ao carnaval. FIGURA 2 Angelo Agostini - 1881 Fonte: Revista Ilustrada, Ano

Angelo Agostini - 1881 Fonte: Revista Ilustrada, Ano 6, n. 241, p.4-5, 1881. 15

14

O

carnaval

visto

por

Angelo

Agostini.

<http://www.unicamp.br/cecult/AngeloAgostini/carnaval.html> acesso em 21/01/2008.

15

O

carnaval

visto

por

Angelo

Agostini.

Disponível

em

Disponível

em

<

http://www.unicamp.br/cecult/AngeloAgostini/imagem2.html>, acesso em 21/01/2008.

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Após a Guerra do Paraguai (1864-1870), passou a ser comum carros alegóricos dedicados

a temas da atualidade. Eram os chamados carros de críticas ou de idéias. Na figura 2, publicada

na Revista Ilustrada e representando o carnaval carioca de 1881, Agostini retrata essa prática

destacando ainda mais a crítica política e social característica destes carros alegóricos. Para

entender melhor essas críticas, vamos fazer uma análise em separado de partes da figura 2.

Vamos começar com um comentário de Octavio Aragão sobre um destes fragmentos (figura 3):

Em 1881, nas páginas da Revista Illustrada, Angelo Agostini retratou um carro de critica

do Club dos Democráticos que colocava sem o menos pudor um retrato de Dom Pedro II

inserido numa estrela pregada numa nuvem, claramente fazendo alusão ao interesse do

Imperador pela Astronomia, ciência que – na opinião vigente – afastava a visão do monarca dos

problemas nacionais. 16

FIGURA 3

a visão do monarca dos problemas nacionais. 1 6 FIGURA 3 Em um fragmento da caricatura

Em um fragmento da caricatura (Figura 4), ele critica a escravidão, ao desenhar um

branco montando em um negro escravo, enquanto abolicionistas e escravistas lutam pouco

16 ARAGÃO, Octávio. A óptica sócio-política da arte seqüencial de Angelo Agostini em algumas páginas de O CABRIÃO (1866-1867) e d’ REVISTA ILLUSTRADA (1876-1898). Dissertação de mestrado apresentada à Universidade Federal do Rio de Janeiro, programa de pós-graduação em Artes Visuais; Rio de Janeiro, 2002, p. 106

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abaixo. Reparem na pergunta: Quem vencerá? Agostini era abolicionista, mas não combatia todos

os senhores de escravo, apenas os maus senhores, que espancavam e maltratavam os cativos.

Agostini era contra a violência aos escravos, muitas vezes denunciada em seus desenhos, pois ela

representava uma incivilidade que não combinava com a modernidade, tão cultuada durante boa

parte do século XIX e nas primeiras décadas do século XX. Por vezes, apresentou em seus

desenhos posturas racistas e elitistas, sendo um homem de sua época: moderno, mas com um

liberalismo limitado.

FIGURA 4

época: moderno, mas com um liberalismo limitado. FIGURA 4 Num outro fragmento (figura 5), faz uma

Num outro fragmento (figura 5), faz uma representação da República, sob a forma de uma

mulher – Agostini era um crítico da monarquia e republicano convicto. Mesmo depois da

abolição e da proclamação da República, Angelo Agostini continuou satirizando os políticos e os

costumes do Rio de Janeiro, no começo do século XX, nas páginas da revista O Malho. Crítico

político incansável, não fechava os olhos para os problemas enfrentados pela jovem república.

FIGURA 5

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– ISSN 1808-9895 - http://www.historiaimagem.com.br Suas publicações eram voltadas para a classe média – a

Suas publicações eram voltadas para a classe média – a Revista Ilustrada, por exemplo,

era semanal e tinha aproximadamente 4 mil assinantes - , que podiam pagar pelos jornais e

revistas. Utilizava uma linguagem mais simples e, por que não dizer, uma certa didática,

possibilitando um diálogo mais amplo com o público. O Brasil era um país de analfabetos onde

cerca de 80% da população não sabia ler e escrever.

Ainda em relação ao último fragmento, observem ainda que o desenhista

faz uma referência ao exército brasileiro, representado por um militar montado em

um canhão. O exército era um dos alvos que Agostini não poupava. Durante a

Guerra do Paraguai (1964-1870), Agostini publicou caricaturas, desenhos,

ilustrações de soldados mortos e mapas, ocupou muitas vezes as páginas do

Cabrião, não esquecendo a sátira ao Duque de Caxias e ao recrutamento de

voluntários para o conflito. 17

Nos quadrinhos abaixo, Agostini faz referência à hipocrisia da elite, que pertencia às

Sociedades Carnavalescas. Durante o carnaval, os íntegros chefes de família que participavam

dessas sociedades, colocavam prostitutas em carros alegóricos, a desfilar pelas ruas da cidade,

enquanto que no restante do ano perseguiam e discriminavam – pelo menos em público, pois

17

Mestres

do

Quadrinho

Nacional:

Angelo

Agostini,

disponível

em

<http://www.bigorna.net/index.php?secao=biografias&id=1120185065>, acesso em 21/01/2008

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sabemos que muitos desses homens de bem eram freqüentadores assíduos de bordéis – essas

mulheres, consideradas má influência para as moças de família, criadas e educadas para serem

mães e esposas exemplares. Mas é carnaval, é tempo de se esquecer de certos pudores, daí se

permite que mesmo as prostitutas tenham um lugar de destaque. Os preconceitos não são

esquecidos, apenas convenientemente ignorados.

Angelo Agostini defendia um carnaval voltado para a família, por isso muitas vezes

criticou o comportamento das prostitutas, que desfilavam nos carros alegóricos ou atraiam os

homens para os bordéis. Mas ele faz uma distinção entre elas. As prostitutas de luxo, ele as usa

para debochar dos senadores e deputados, que as sustentam; já as prostitutas pobres, Agostini as

acusa de falta de decoro e assume uma postura higienista; as moças de família são representadas

como recatadas, tímidas e prendadas. 18

FIGURA 6

como recatadas, tímidas e prendadas. 1 8 FIGURA 6 Quadrinhos de Angelo Agostini - 1884 1

Quadrinhos de Angelo Agostini - 1884

18 OLIVEIRA, Gilberto Maringoni de. Op. Cit., p. 232

História, imagem e narrativas N o 6, ano 3, abril/2008 – ISSN 1808-9895 - http://www.historiaimagem.com.br

Revista Ilustrada, Ano 9, n. 373, p. 4-5, 1884. 19

Agostini condena a hipocrisia da sociedade, que se torna mais nítida nesta época do ano e

deplora a imoralidade carnavalesca. Não gostava tampouco das festas de rua, que envolviam

populares, considerando-as de mau gosto e ofensivas à família e aos bons costumes.

Uma das manifestações populares que mais irritava Agostini, em tempo

de carnaval, era o entrudo. Algazarra violenta de anárquica, ele possibilita à

chamada ‘gentalha’ tomar conta das ruas com seus bandos de capoeiras e

malandros, assustando cada vez mais a elite bem-pensante. Chegava-se mesmo

a especular que o entrudo sairia vitorioso em seu embate contra os carnavais

familiares e privados 20

Na figura 7, dividida em dois quadros, Agostini representa um entrudo, na Rua do

Ouvidor (1884). No primeiro quadro, ele mostra o entrudo, onde a multidão acompanha a folia,

abrindo mão dos pudores normalmente reprimidos. No quadro seguinte, satiriza, ao dizer que o

“tempo” também quis participar, acabando com a festa. Compara os foliões aos soldados egípcios

que foram engolidos pelo Mar Vermelho, quando tentavam impedir a travessia dos hebreus

liderados por Moisés. Insinua que os foliões teriam sido castigados pelos céus, por seu descaso à

moralidade.

FIGURA 7

19

O

carnaval

visto

por

Angelo

Agostini,

disponível

em

<

http://www.unicamp.br/cecult/AngeloAgostini/imagem3.html>, acesso em 21/01/2008.

20 OLIVEIRA, Gilberto Maringoni de. Op. Cit., p. 119.

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– ISSN 1808-9895 - http://www.historiaimagem.com.br Quadrinhos de Angelo Agostini (1884) Fonte: Acervo

Quadrinhos de Angelo Agostini (1884) Fonte: Acervo particular de Gilberto Maringoni Oliveira

Moralista, Agostini gostava do carnaval, mas não gostava do entrudo. Censurava as

liberdades tomadas pelos jovens durante a festa e a forma como as pessoas deixavam passar estes

deslizes. Denunciava a depravação dos senhores de elite e não aceitava o comportamento

despojado de pessoas de origem humilde, de prostitutas e cafetões, que lotavam bordéis em

tempos de folia.

FIGURA 8

História, imagem e narrativas N o 6, ano 3, abril/2008 – ISSN 1808-9895 - http://www.historiaimagem.com.br

– ISSN 1808-9895 - http://www.historiaimagem.com.br Angelo Agostini (1880) Fonte: Acervo particular de,

Angelo Agostini (1880) Fonte: Acervo particular de, Gilberto Maringoni Oliveira

Na ilustração acima, de 1880, Agostini mostra um entrudo familiar e um entrudo popular.

Nos entrudos familiares, era comum usarem-se os limões de cheiro, ou laranjas de cheiro -

pequenas bolas de cera recheadas de águas perfumadas -, que eram vendidas em tabuleiros pela

cidade (Figura 1), e que os foliões atiravam uns nos outros. Havia também jatos d’agua, farinha

lama, cinzas, enfim, tudo que pudesse ser usado para deixar a outra pessoa suja. Já nos entrudos

de rua, os populares, corria-se o risco de receber na cabeça os conteúdos de penicos, lançados na

multidão pelos moradores dos sobrados. Além de tudo isso, havia também o risco de ser agredido

por um policial, que usava o cacetete para apartar os ânimos da multidão.

Faz uma descrição de um desfile de carros alegóricos, acompanhado de um entrudo.

Nesse quadro, o entrudo parece mais anárquico que no primeiro, com mulheres desmaiando,

homens brigando, enquanto outras pessoas, fantasiadas ou não, se aglomeravam para poder

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assistir ao desfile. Mascarados, homens de cartola, mulheres em pânico, etc. Agostini traduz em

desenho a violência dos carnavais, sob sua ótica particular.

A comunicação de massa é circular. A opinião de um jornal, um jornalista, um artista tem

a ver com o público para o qual ele está voltado, que, por sua vez, possui semelhanças sociais,

morais e econômicas. Agostini tinha ressalvas quanto ao carnaval de rua, mas acreditava no

carnaval como uma manifestação típica da nossa cultura. Ele representa um grupo que deseja

transformar, colocar ordem, civilizar o carnaval. Prova disso é que, aos poucos, o entrudo foi

sendo proibido e desestimulado, seja pela polícia, seja pela administração pública.

Em 1904, o prefeito Pereira Passos apela para os jovens estudantes para que

façam um esforço coletivo contra o entrudo, jogo bárbaro e pernicioso que

gerava conflitos e desordem, impedindo as famílias de se entregarem aos

‘folguedos lícitos do carnaval’. 21

Pereira Passos foi responsável pela reforma urbana que mudou a cara da cidade do Rio de

Janeiro, que de corte passou a capital federal após a proclamação da República. Ele estimulou

práticas higienistas, retirou os pobres do centro da cidade, criou passeios públicos e não se

esqueceu de criar novas regras para a maior festa popular do Rio de Janeiro: o carnaval. Os

policiais foram instruídos a manter a ordem e a moral, impedindo a violência do carnaval. Havia

até mesmo regras para o uso de máscaras. Tudo isso feito em nome do estímulo à participação da

família na festa. Os entrudos entraram em decadência e foram substituídos por outras formas de

carnaval de rua.

Conclusão

Se o carnaval era tempo de se soltar, de ultrapassar limites morais, sob a proteção das

multidões que se aglomeravam nos entrudos ou sob as máscaras e fantasias que disfarçavam seus

usuários, era também um momento de reflexão, quando se criticava a política e os problemas

21 ARAÚJO, Rosa Maria Barboza de. A vocação do prazer: a cidade e a família no Rio de Janeiro republicano. – Rio de janeiro: Rocco, 1993, p. 373

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sócio-econômicos do Brasil. Era também, e ainda é, o momento das massas se unirem,

independentemente da origem social ou étnica, nem que fosse por 3 dias, para saudar a alegria de

viver. As desigualdades não desapareciam (nem desaparecem até hoje), mas eram

temporariamente suspensas, enquanto durasse o festejo.

As representações que Agostini fez do carnaval, sejam elas por meio de quadrinhos ou de

caricaturas, nos fornecem elementos para entender melhor esta festa popular, no Rio de Janeiro,

do século XIX e no início do século XX. Mais do que isso, essas imagens abordam temas sociais

e políticos importantes, além das reflexões e valores do autor e de seus leitores. São, por assim

dizer, importantes documentos históricos, testemunhos de uma época. Essas imagens nos ajudam

a entender parte do cotidiano desta que se tornaria a festa característica do Rio de Janeiro e do

Brasil.

Os quadrinhos, as charges e caricaturas continuariam sendo utilizados como formas de

expressar críticas sociais, políticas e econômicas, mas também serviriam para propagar as idéias

de governos, fossem eles democráticos ou ditatoriais. Não é exagero, então, afirmar que a

caricatura e os quadrinhos ultrapassam as fronteiras da arte midiática para se tornarem

testemunhos da história, fontes documentais importantes para que possamos compreender um

pouco mais dos costumes, da vida e da sociedade inserida em determinado contexto histórico.

Referências

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ARAÚJO, Rosa Maria Barboza de. A vocação do prazer: a cidade e a família no Rio de Janeiro republicano. – Rio de janeiro: Rocco, 1993.

FARIA, Flora de Paoli. O baile de máscaras de Veneza ao Rio de Janeiro: sob o signo do Arlequim. Terceira Margem: revista do Programa de Pós Graduação em Ciência da

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FERNADES, Eunícia Barros Barcelos. Imagens de índios em O MALHO: a imprensa como mediadora de representações. XXIV Simpósio Nacional de História, São Leopoldo/RS, 2007

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OLIVEIRA, Gilberto Maringoni de. Angelo Agostini ou impressões de uma viagem da Corte à capital Federal (1864-1910). Tese de Doutorado apresentada ao programa de Pós-Graduação em História Social, USP, 2006.

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Referências na Internet

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O carnaval visto por Angelo Agostini. Disponível em <http://www.unicamp.br/cecult/AngeloAgostini/carnaval.html> acesso em 21/01/2008

Pequena História do Carnaval. Disponível em < http://br.geocities.com/biografiaschiado/HistoriaCuriosidades/HistoriadoCarnaval/historiadocarn aval.htm>, acesso em 13/12/2007.

LEAL, Caroline P. “Porto Alegre carnavalesca”: o entrudo através do olhar imagético. História,

imagem e narrativas, nº 5, ano 3, setembro/2007

<http://www.historiaimagem.com.br >, acesso em 22/01/2008.

Dispomível em

SILVA, Rosangela de Jesus. “Os Salões Caricaturais de Angelo Agostini” . In: 19&20 - A revista eletrônica de DezenoveVinte. Volume I, n. 1, maio de 2006. Site:

http://www.dezenovevinte.net/