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TÉCNICAS DE MANCHAS DE TINTA

1 TÉCNICAS DE MANCHAS DE TINTA PROF. DR. JOÃO CARLOS ALCHIERI UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE

PROF. DR. JOÃO CARLOS ALCHIERI UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE

2

Índice

I. Introdução e Histórico

4

II.

Histórico do teste de Psicodiagnóstico de Rorschach

5

III.

Medidas Psicológicas

6

V.

Especificidade dos Estudos de Validade e Precisão em Rorschach

10

V.1. Estudo de Validade.

11

V.2. Validade de Critério.

15

V.3. Estudos de Precisão.

16

V.4. Tipos de normas utilizadas.

17

VI.

Localizações

18

VII. Determinantes

18

VIII. Conteúdos

19

X.

A Técnica de Administração

22

X.1. Material Utilizado

22

X.2. Local

22

X.3. Posição do Examinador/Examinando.

23

3.1. Composição

23

3.2. Aplicação

23

X.4. Contato Inicial

24

X.5. Instruções

25

X.6. Anotações

25

X.7. Fases do Exame.

25

7.1. Fase de Associação Livre

26

7.2. Fase do Inquérito

26

7.3. Pesquisas Complementares

29

X.8. Listas de Respostas Populares P.

30

X.9. Simbologia Adotada

30

X.10. Porcentagens Médias

32

X.11. Folha de Cálculo

33

X.12. Categoria de Classificação e Significações

34

12.1.

Localização

35

12.1.a Respostas G(globais)

35

12.1.a.1. G Primárias

35

12.1.a.2. G Combinatórias

35

12.1.a.3. G Confabuladas

36

12.1.a.4 G Contaminadas

36

12.1.b. Global Cortada.

36

12.1.c. Resposta de Detalhe Dom.

36

12.1.D. Resposta de Pormenor Inibitório Pi

37

12.1.e. Resposta de Detalhinho Dd

37

12.1.f. Resposta de Detalhinho Externo Dde

37

12.1.g. Resposta com Espaço Gs, Ds, Dds

37

12.1.h.Tipo de Apercepção Ap

38

12.1.i. Tipo de Sucessão Ts

39

12.2.

Determinantes

40

12.2.a. Resposta de Forma - F+, F-, F

40

12.2.b. Movimento Humano M

42

12.2.c. Movimento Animal FM

44

12.2.d. Movimento Inanimado Fm, mF, m

46

12.2.e. A relação M>FM>m

47

12.2.f. A relação G:M

47

3

12.2.g. Resposta de Cor FC, CF, C

47

12.2.h. Outras Respostas Cromáticas(Cn,Csim,F-C, F/C).

51

12.2.i. Tv: Tipo de Vivência M:C

52

12.2.j. Respostas Tridimensionais FK

54

12.2.k. Difusão KF, K

55

12.2.l. Bidimensão Fk, kF, k

56

12.2.m. Textura Fc, cF, c

57

12.2.n. Cor Acromática FC´,C´F, C´.

57

12.2.o. Respostas F(C) de Binder

58

12.2.p. Relação (FM + m) : (c + C´)

58

12.3.

Conteúdo

60

12.3.a. Respostas de Formas Animais A e Ad

60

12.3.b. Respostas Humanas H, (H) e Hd

61

12.3.c Respostas Populares P

61

12.3.d. Respostas Originais O

61

12.3.e. Outros Conteúdos

62

12.4. Amplitude das Categorias de Conteúdo

63

12.5. Fenômenos Especiais

63

12.5.a. Consciência da Interpretação

64

12.5.b. Crítica do Sujeito e do Objeto

65

12.5.c. Choque Cromático

65

12.5.d. Choque de Espaço em Branco

66

12.5.e. Choque Acromático

66

12.5.f. Descrições

66

12.5.g. Acentuação da Simetria

67

12.5.h. Perseveração

67

12.5.i. Pedantismo

68

12.5.j. Respostas ou

68

12.5.k. Respostas Infantis

68

12.5.l. Auto-Referências

68

12.5.m. Valorações

69

12.5.n. Confabulações

69

12.5.o. acentuação do Centro ou dos Lados .

69

12.5.p. Ilusão de Semelhança .

69

12.5.q. Negações e Respostas Interrogativas

69

12.5.r. Alterações Mnêmicas das Palavras

70

12.5.s. Interpretações Invertidas

70

12.5.t. Movimentação da Lâmina

70

12.5.u. Respostas EQ de Guirdham

70

12.5.v. Estupor entre os Símbolos Sexuais

71

12.6.

O Simbolismo das Figuras

71

12.6.a. Lâmina I: Adaptabilidade ao Meio Social Imediato

73

12.6.b. Lâmina II: Ameaça à Culpabilidade Sexual

74

12.6.c. Lâmina III: Relações Interpessoais Normalidade

75

12.6.d. Lâmina IV: Interdição Paterna Lei da Cultura

76

12.6.e. Lâmina V: Ego Evidência

77

12.6.f. Lâmina VI: Sexualidade

78

12.6.g. Lâmina VII: Figura Materna

78

12.6.h.Lâmina VIII: Afetos em Fase de Sociabilização, Infância.

79

12.6.i. Lâmina IX: Sublimação

81

12.6.j. Lâmina X: Relacionamento com o Meio Social mais amplo

82

XI. Casos Ilustrativos

83

XI.1. Personalidade Psicopática

83

4

XI.2. Conflito e Defesa na Personalidade Normal

90

XII. Listas de Exercícios

105

XII.1. Exercícios de Classificação

105

XII.2. Questionários

114

XIII.

Casos Clínicos

116

XIII.1. Caso A.L.

116

XIII.2. Caso Jonas .

123

XIII.3. Caso Lúcia

129

XIV.

Bibliografia

133

5

I. Introdução e histórico

RORSCHACH

Título Original: “ Psychodiagnostik”

O Rorschach foi elaborado por H. Rorschach, psiquiatra suíço e foi publicado em

1921, e reeditado várias vezes até o momento. O material do teste é impresso na Suíça,

por Hans Hüber, Medical Publisher, já no Brasil, ele é distribuído por grande parte das editoras de materiais psicológicos.

O objetivo da técnica é diagnosticar a personalidade, em seus padrões de

organização, orientação, estratégias defensivas, bem como de quadros psicopatológicos,

em crianças, adolescentes e adultos. Também utilizada para detecção da dinâmica interpessoal (administração consensual), uso clínico, terapêutico, em seleção profissional, na área forense e prognóstico terapêutico.

É um instrumento que usa estímulos visuais pouco estruturados e indefinidos que

possibilitem a demonstração da capacidade de organização perceptual e assim, entendida a projeção de aspectos internos do examinando. O teste de Rorschach se organiza em dez

pranchas, de 18,5 cm por 25 cm cada uma, onde cada prancha apresenta um grande borrão de tinta de contorno pouco definido, de textura variável e perfeitamente simétrica em relação ao eixo vertical. Cinco das pranchas são em preto e branco; duas apresentam além do preto e branco a cor vermelha e três são policromadas. As pranchas se organizam em uma ordem determinada de apresentação de I a X. O teste tem aplicação individual e dura aproximadamente uma hora. Pode também ser realizada a administração consensual com casais ou grupos. O examinador coleta os dados anotando o tempo de reação, duração e final de cada lâmina bem como de sua posição e procede a um inquérito, em relação às associações realizadas sobre cada cartão.

A aplicação descrita por Rorschach (1974, p.16) prescreve que o examinador

apresente as pranchas uma a uma ao examinando, perguntando-lhe: “O que poderia ser isso?”. É permitido ao examinando manipular as pranchas, como lhe aprouver, sendo interdita apenas a contemplação das mesmas de uma distância superior ao comprimento

6

do braço estendido. Rorschach propunha um protocolo para o exame dos resultados dos seus testes seguindo os quatro conjuntos de perguntas abaixo:

1)

Qual o número de respostas? Qual a duração do tempo de reação? Quantas recusas

houve nas diferentes pranchas?

2)

uma sensação de movimento ou, ainda, pela cor das figuras?

A resposta foi determinada apenas pela forma das imagens fortuitas ou, também, por

3)

partes?

A imagem é percebida e interpretada como um todo ou em partes e nesse caso em que

4) O que foi visto pelo indivíduo? A avaliação é feita em função de três elementos: em primeiro lugar verifica-se o tipo de apreensão, isto é, qual a porção da prancha que foi interpretada (apreensão global, de uma parte ou de um detalhe); em segundo, avalia-se o determinante, ou seja, a qualidade perceptiva que condicionou a resposta (forma, cor, etc); e em terceiro, leva-se em conta o conteúdo, a interpretação dada à forma (animal, objeto) e a originalidade da resposta. Todos esses elementos são contabilizados em cálculos visando a totalização de alguns índices. Atualmente existem vários critérios utilizados para interpretação dos dados coletados pelo teste de Rorschach. Cunha (1993, pp. 181-182) considera que os dois principais sistemas de interpretação usados são os de Klopfer e de Exner. O de Klopfer é muito bem definido para classificação das respostas e apresenta uma boa fundamentação para um levantamento de hipóteses interpretativas. Ele existe também sob forma informatizada, o que justifica a sua grande popularidade. O sistema de Exner apresenta ótimas qualidades psicométricas, e por ser mais recente, é mais divulgado do âmbito da pesquisa.

II. Histórico do Teste de Psicodiagnóstico de Rorschach

H. Rorschach (1884-1922), um suíço nascido na Vila Arbon e criado em Schaffhausen. Na juventude, Rorschach manifestava aptidões diversas. Ele tinha capacidades excepcionais nas áreas humanas, científicas e artísticas, mas resolveu dedicar seus estudos a Medicina. Freqüenta o curso de Medicina nas universidades de Neuchâtel, Berlim, Berna e Zurique, formando-se em 1909. Especializou-se em Psiquiatria na

7

Universidade de Zurique e fundou a Sociedade Psicanalítica de Zurique. Sua posição em relação à doutrina freudiana foi sempre muito heterodoxa. Rorschach considerava que o dogmatismo psicanalítico correspondia a uma castração do espírito humano. Depois de formado, Rorschach trabalhou como psiquiatra de 1915 a 1922 quando desenvolveu seus estudos com manchas. A utilização de manchas para avaliação psicológica não foi uma invenção de Rorschach, mas de Justino Kerner (1857) que

utilizava uma técnica semelhante para classificar pelas respostas as pessoas. Alfred Binet

e Theodor Simon também avançaram estudos nesse sentido, mas coube a Rorschach o

grande desenvolvimento do instrumento como material projetivo. Foi ao tomar contato com o trabalho de Szymon Hens, que testou a interpretação de manchas em pessoas normais e psicóticas, que Rorschach interessou-se por este processo. O primeiro aspecto que lhe chamou a atenção foi o fato de algumas pessoas identificarem a mancha de uma forma global e outros se prendiam nos detalhes. A partir daí, Rorschach passou a desenvolver experimentos com pacientes esquizofrênicos, neuróticos e a comparar à atribuição dos significados por eles feitos. Em 1918, o próprio Rorschach confeccionou e elaborou as lâminas do teste, que passou a experimentar no Hospital de Herisau. A amostra de que se serviu para o trabalho experimental foi de 288 doentes mentais e 117 indivíduos normais, incluindo estudantes de medicina, enfermeiros, crianças e pacientes adultos. Iniciou com várias lâminas em preto e vermelho; posteriormente, reduziu a 15 em cores preto, vermelho e policromáticas. Finalmente em 1920 estava com as lâminas cromáticas. Em 1922 seu trabalho foi reconhecido como de valor científico, quando apresentava perante a Sociedade de Psicanálise uma interpretação às cegas e à luz do que passou a se denominar Psicodiagnóstico de Rorschach, de um caso do paciente de Oberholzer, em tratamento psicanalítico, cujo diagnóstico interpretado por Rorschach, baseado na nova técnica, coincidiu com o diagnóstico clinico de Oberholzer. A primeira edição completa e perfeita da obra, após uma série de dificuldades, veio a público no fim de junho de 1921. Por ocasião de sua morte, conta-se que Rorschach estava elaborando novas teorias

e tentando resultado sobre pessoas de nível superior. Houve muitas dificuldades para se conseguir publicar a obra de Rorschach. A primeira edição completa e perfeita da obra veio ao público em junho de 1921. E nove meses depois Rorschach faleceu. O seu

8

método, contudo, continuou a ser estudado por seus colegas Emil Oberholzer e Eugene Bleuler. Todavia, foi com o impulso de Margarida Loosli-Usteri que o Rorschach ultrapassou da língua alemã. Em 1936 surge nos Estados Unidos a Revista Rorschach Research Exchange. No ano de 1943 houve o primeiro Congresso de Rorschach em Munsterlingen. Em 1952 foi fundada a Sociedade Internacional de Rorschach.

Cronologia da utilização do Rorschach no Brasil

1930 - O teste é introduzido por Aníbal Silveira em São Paulo e José Leme Lopes no Rio

de Janeiro.

Ambos eram psiquiatras e usavam o teste apenas no campo clínico.

1945 - Com o pós-guerra, o Rorschach passou a ser utilizado em exames de avaliação

psicológica em geral.

1948 - É publicado o primeiro artigo que temos notícia sobre o uso do Rorschach no

Brasil, na Revista de Neurobiologia.

1950 - Ginsberg publica na Revista de Neurobiologia um estudo com 100 jovens baianos.

Será a primeira de uma séria de publicações desse autor sobre o teste de Rorschach. 1955 - Após a APA divulgar recomendações para a utilização de testes psicológicos começam a ser feitas as primeiras pesquisa sobre o Rorschach no Brasil. 1964 - É publicado a obra de A. Silveira Prova de Rorschach: Elaboração do Psicograma, pela tipografia Edanee.

1966 - A pesquisa sobre o Rorschach se encontra bastante desenvolvida e acontece as

Primeiras Jornadas brasileiras sobre Psicodiagnóstico de Rorschach, onde é lançada a tarefa de elaborar uma norma brasileira para utilização do teste.

1967 - Em decorrência das Jornadas do ano anterior, é publicado um volume com vários

estudos inéditos sobre o uso do Rorschach na realidade brasileira, pelo Editora CEPA. É publicada no Rio de Janeiro a obra Teoria e Prática do Teste de Rorschach de I. Adrados.

1971

- É publicada a obra O Método de Rorschach de C. Sousa pela Editora Vetor.

1975

- André A. Jacquemin publica livro sobre a utilização do Rorschach em crianças

brasileiras.

9

III. Medidas Psicológicas

Dentro da evolução da técnica de Rorschach no campo da Psicologia, podemos observar que ele iniciou dentro de uma concepção basicamente clínica e dinâmica, com uma preocupação em avaliar a personalidade no seu conjunto. Com o desenvolvimento tecnológico, e também a Psicologia, especialmente a norte-americana, na grande maioria de suas escolas, foi levada ao uso da quantificação e da estatística no estudo do comportamento humano. Isto resultou em grande valia para o surgimento de grandes pesquisadores norte-americanos, como Watson, Skinner, que para o mundo inteiro se tornaram expoentes na Psicologia, contribuindo com o seu prestígio científico. Mas foi

em função desse “

os nomes de pesquisadores como Beck, Pietrowski e Klopfer liderando as escolas que, se por um lado detinham a fundamentação clínica (Rappaport, Schaffer, Schachtel) através de formação recebida em centros europeus, por outro, tinham que dar um cunho quantitativo aos trabalhos com o Rorschach nos Estados Unidos. Nos últimos anos, o que se observa é que existem autores como Klopfer, Hertz, que se voltaram cada vez mais para a linha quantitativa - qualitativa, ou seja, passaram a ver com uma maior profundidade os aspectos não só quantitativos do Rorschach na avaliação de uma personalidade, mas, principalmente, tomando todos os dados numa tentativa de visão integrada da pessoa. Pode ser essa uma das razões porque nos últimos tempos o Rorschach nos EUA, inclusive, tem passado a tomar enfoques altamente dinâmicos, sem deixar de lado a fundamentação científica. O Rorschach nessa visão integrativa, realmente polariza muita atenção e cuidado, pois são muitas as variáveis qualitativas, tornando-se assim, tarefa árdua e de difícil classificação e categorização. São vários os fenômenos específicos. Cada resposta é geralmente classificada quanto à sua localização, seus determinantes, seu conteúdo, popularidade-originalidade e nível formal; classificadas as respostas levantam-se as freqüências e são feitos vários cálculos para chegar a determinados indícios; a interpretação leva em conta aspectos quantitativos e qualitativos. O psicólogo ao elaborar a interpretação de um protocolo de Rorschach, com finalidade clínica, seletiva ou mesmo de peritagem, deverá levar em consideração alguns aspectos de extrema importância: não

”, que surgiram

ter que acompanhar a evolução técnica e científica

10

é um instrumento para avaliar apenas anomalias de personalidade, por isso, deverá o

examinador procurar outros dados que indiquem algumas funções da personalidade consideradas dentro do normal, mesmo que o quadro não seja promissor; a personalidade

é um todo, estrutural, dinâmico, funcional e como tal. Os elementos quantitativos são sem dúvida, grande suporte nesse processo de diagnóstico, mas que sejam bem relacionados entre si e integrados aos aspectos qualitativos apresentados no próprio método. Para tanto, será imprescindível o recurso a outros instrumentos de avaliação, entrevista psicológica, outros testes, a conduta da pessoa examinada e sua vida pregressa. O psicólogo deverá ter sempre presente que está trabalhando com um instrumento muito sensível à coleta de dados quantitativos do examinando para estudos de pesquisa, mas também extremamente flexível para a avaliação psicodinâmica de personalidade. Quando H. Rorschach apresentou seu trabalho à Sociedade de Psicanálise da Suíça, não o considerava um teste, mas um método para o diagnóstico da personalidade. Graças às pesquisas de Hertz, Beck e ao empenho de Klopfer em dar uma estruturação

quantitativa a essa técnica, o Rorschach passou a ser usado como instrumento de pesquisa

e facilmente adaptado a tratamentos estatísticos. Entretanto, sabe-se que na avaliação da

personalidade existem elementos que não podem ser avaliados simplesmente pelo padrão estímulo-resposta, característica de um teste em seu sentido exato; há dados qualitativos no psicodinamismo de uma pessoa que não se avaliam através de instrumentos objetivos que busquem respostas do indivíduo em sua estruturação de personalidade baseada apenas em padrões preestabelecidos. Por este motivo, embora seja um instrumento projetivo, bastante fortalecido pelo sistema quantitativo na apuração dos dados e

avaliação da personalidade, permite ao examinador considerar os elementos psicodinâmicos da pessoa examinada de forma bem mais abrangente e global. O Rorschach permite avaliar a personalidade, considerando as variáveis quantitativas e qualitativas, não se detendo apenas nos dados restritos, secos e absolutos dos números. Um dos problemas que enfrentamos no Brasil para a utilização do Rorscharch, segundo Cunha (1993), é a falta de normas locais. Há trabalhos muitos importantes desenvolvidos por vários psicólogos brasileiros, mas com base em amostras locais, o que não deixam de representar notáveis contribuições, mas ainda não suficientes quando se considera a extensão do país. É um método que exige especialização, constante estudo e

11

atualização. A bibliografia é extensa, mas pode-se dizer que forma os pesquisadores, psicólogos clínicos e professores universitários os grandes responsáveis pelo crescimento e amadurecimento do Rorschach como técnica científica na avaliação da personalidade, no Brasil e em outros paises.

V. Especificidades dos Estudos de Validade e Precisão em Rorschach

Os estudos de validade e precisão são muito adequados a verificação de testes psicométricos tradicionais. Todavia, quando se examina um teste projetivo, muitas dificuldades são colocadas. Klopfer (1956, p.267) chama atenção para o fato da pesquisa em métodos projetivos como o Rorschach - se processar de maneira muito distinta daquela feita com instrumentos psicométricos. Em primeiro lugar a noção de scoring tal como se apresenta nos testes clássicos só tem um paralelo parcial em três dos fatores do Rorschach: no estabelecimento das áreas de detalhe mais comuns, na determinação da originalidade da resposta e na classificação de forma e de nível. Nos outros fatores o escore é uma formulação dada para facilitar o manuseio de aspectos qualitativos. Ele aponta para a freqüência em que um tipo de resposta particular aparece no registro de cada sujeito ou no registro de diferentes sujeitos. Os escores do Rorschach não implicam inequivocamente em uma interpretação. Por exemplo, um escore alto em G corresponde ao fato do sujeito ter tentado usar ao máximo o conteúdo total dos borrões, em qualquer cartão, para formular qualquer resposta. Isso pode indicar uma lesão cortical que lhe empeça de ver as manchas enquanto partes significativas, ou o fato do sujeito ser dotado de uma imaginação formidável e gostar de usar todos os elementos em um conjunto significativo, ou ainda, tratar-se de um sujeito com inteligência medíocre que não conhece o limite razoável para uma organização plausível. Para resolver estes problemas pode-se recorrer a combinação dos escores de diferentes fatores. Por exemplo, no caso do escore alto em G, pode-se usar o escore em M tendência de identificar seres humanos, formas humanas, posturas humanas ou ações humanas. O escore em M pode diferenciar o sujeito extremamente criativo daqueles com

12

lesões cerebrais ou baixa inteligência. Todavia, não distingue os dois últimos um do outro.

V.1. Estudos de Validade

Rorschach descreve na sua obra Psicodiagnóstico (1974, p. 15), como atingiu a confecção final dos dez cartões e como foi validada a sua utilização diagnóstica. Em um primeiro estudo no qual não se revela a amostra utilizada ele verificou que as formas de borrão demasiadamente complexas dificultam o cômputo dos fatores do teste. Também foi notado que as manchas devem obedecer a condições de ritmo espacial, as quais garantem a força plástica das manchas, para que os indivíduos possam interpretá- las. Foi constatado que as figuras não simétricas não possuíam um ritmo plástico necessário, sendo rejeitadas por grande número de examinados. Outras vantagens da simetria, apontadas pelo autor, é que ela iguala canhotos e destros e estimula a interpretação da figura como uma só cena. Rorschach relata a verificação empírica da utilização dos dez cartões padronizados, numa amostra de 405 indivíduos. O autor chama a atenção para o fato da amostra ser muito pequena e serem escassos representantes de algumas categorias. Ele não especifica qual o método usado para diagnosticar os indivíduos da amostra. Todavia apreende-se do texto que os sujeitos já haviam sido classificados nas categorias abaixo, antes da aplicação do teste.

13

 

Homens

Mulheres

Total

Normais Cultos

35

20

55

Normais Incultos

20

42

62

Psicopatas

12

08

20

Alcoólatras

08

-

08

Débeis, imbecis

10

02

12

Esquizofrênicos

105

83

188

Maníaco-depressivo

04

10

14

Epiléticos

17

03

20

Paralíticos

07

01

08

Dementes senis

07

03

10

Dementes arterioscleróticos

03

02

05

Korsakoff e semelhantes

03

-

03

Total

231

174

405

A partir dos sete parâmetros formulados por Rorschach, foram distribuídos os sujeitos do teste levando em conta as categorias expostas na tabela. Os parâmetros identificados por Rorschach foram: número de respostas; tempo de reação; recusas; atitudes dos momentos de forma, movimento e cor no processo perceptivo; modos de apreensão das imagens; conteúdo material das interpretações e respostas originais. Estes parâmetros podem se subdividir em fatores os quais são passíveis de cálculo. Foi observado por Rorschach que cada uma das categorias de indivíduos selecionadas apresentava respostas semelhantes em cada um dos fatores. Por exemplo, o fator respostas de forma, que se insere na categoria atitudes dos momentos de forma, movimento e cor no processo perceptivo, distribuíram-se da seguinte maneira (1974

p.265):

14

 

Normais

Retardados

Esquizofrênicos

Maníacos-

Epiléticos

Orgânicos

depressivos

100-

Inteligentes,

-

Paranóides

Melancólicos

-

-

80%

meticulosos

extremamente

F+

depressivos

coerentes,

latentes

e

curados

80-

Inteligentes,

-

Relativamente

-

-

-

70%

estouvados,

muito coerentes

F+

inteligência

média

70-

Não-

-

Muito

-

Epileptóides

Korsakoff

60%

inteligentes,

incoerentes

dementes

F+

disposição

arterioscleró-

maníaca

ticos

60-

-

Débeis

Muito

Maníacos

Epiléticos

-

50%

incoerentes,

F+

débeis

congênitos

50-

-

Débeis

Muito

-

Epiléticos

Paralíticos

30%

Imbecis

congênitos

dementes

F+

Abúlicos

30-

-

Profundamente

-

-

-

Dementes

0%

imbecis

senis

F+

15

Como se verifica na tabela acima, pessoas com diferentes diagnósticos apresentaram escores diferentes nesse fator do teste. O autor distribuiu os indivíduos examinados nos vários fatores encontrados e num segundo momento verificou quais os caracteres poderiam ser diagnosticados na prova. Por exemplo, ele notou que o indivíduo inteligente evidencia-se na prova nos seguintes fatores (1974 p. 57):

Uma elevada percentagem de imagens bem percebidas;

Um número maior de afluxos cinestésicos ao processo de percepção: um número

maior de respostas globais;

Um tipo de apreensão rico, G, ou G D, ou G D Dd;

Uma sucessão dos modos de apreensão de rigidez ótima (ordenada);

Uma pequena percentagem animal e maior variabilidade nas interpretações;

Uma percentagem nem muito grande, nem muito pequena de respostas originais.

Quando Rorschach obteve esses resultados e, a partir deles, estabeleceu critérios de diagnósticos, o teste de pesquisa, transformou-se num teste de exame. Com a difusão do uso do teste diagnóstico, muitos autores se interessaram em estudar a sua validade, bem como a sua precisão. Grande parte destes estudos foram feitos nas décadas de trinta, quarenta e cinqüenta. Klopfer (1956, p.270) defende que não se podem separar os estudos de validade do Rorschach da pesquisa de Psicologia da Personalidade e do Desenvolvimento. Todavia, a maioria dos estudos toma os escores classificatórios dos fatores como parâmetros para estabelecer correlações com diagnósticos clínicos. Esse procedimento não é coerente com as características dos escores do Rorschach, os quais não correspondem a um grupo clínico específico. Em pesquisas que se usa um grupo de sujeitos diagnosticados com um quadro e um grupo controle, na maioria das vezes, os escores estudados excedem a fronteira do grupo experimental e se manifestam igualmente no grupo de controle. Os pesquisadores, para tentar superar esta dificuldade, passaram a recorrer a padrões de escores para unidade de testagem. Mas infelizmente, estes padrões de escores são encontrados apenas em uma pequena parte do grupo experimental.

16

V.2. Validade de Critério

A técnica de Rorschach repousa sobre uma racionalidade fenomenológica. Ele pressupõe que a amostra de comportamento exibida na testagem pode se generalizar para outros momentos. Sendo assim, se um sujeito mostra durante o teste uma grande capacidade para organizar a percepção das manchas, provavelmente ele terá grande capacidade para organizar a percepção no seu dia-a-dia. Klopfer (1956, p.406) diz que o método de Rorschach pertence mais à família dos appraisal (estimação/avaliação) do que a família dos testes psicométricos. Pois em ambos os indivíduos são observados em um ambiente controlado, onde a estrutura individual do sujeito é a variável independente e a performance resultante a variável dependente. E as generalizações são feitas por esta amostra de comportamento observado. O Rorschach manipula n variáveis no sentido de descrever um indivíduo em termos de um padrão dinâmico de variáveis inter-relacionadas. O grande número de variáveis do teste leva a uma grande complexidade nos processos de validação. Acrescenta-se a isso, o fato da interpretação final do Rorschach não ser uma soma de fatores e sim, uma formulação dinâmica e integrada de como uma personalidade funciona. Klopfer discute uma série de estudos de validação feitos sobre o Rorschach, os quais passamos a enumerar.

VERNON (1935) comparou o teste de Binet com a combinação de vários fatores M

alto, F alto, W alto e A baixo. A correlação encontrada foi de 0.78, que é muito boa. Todavia a correlação com os fatores isolados se mostrou muito pobre.

Esse mesmo autor conseguiu uma correlação de 0.833 + 0.0315 entre diagnósticos

feitos por aplicadores de Rorschach e de terapeutas que tratavam o indivíduo.

KRUGMAN (1942) comparou o diagnóstico feito por base em observação de

crianças com distúrbios de comportamento e o diagnóstico feito com Rorschach. Este

autor encontrou uma correlação de 0.830.

HUNTER (1939) comparou as avaliações feitas pelo método de Rorschach em

crianças de colégios particulares com as avaliações feitas pelos professores. Ele verificou que, em um total de 50 avaliações, apenas cinco foram compatíveis.

17

PALMER (1951) pediu para 28 terapeutas reconhecerem o relatório do Rorschach de

seu paciente entre outros cinco relatórios, nem muito semelhantes, nem muito distintos.

Um total de 11 terapeutas fez o reconhecimento correto, o que corresponde a uma correlação de 0.434. Este último estudo foi muito criticado, pois não se pode avaliar em nível de acerto ou de erro de cada predição. Além disso, tanto o acerto, quando o erro pode ter se baseado em pequenas coincidências. Esses estudos que visam validar hipóteses são geralmente difíceis de conseguir. E os estudos de validade sobre interpretações finais são ainda mais difíceis. Segundo Klopfer (1956, p. 417) o instrumental estatístico de que se dispõe não é capaz de manipular padrões de variáveis inter-relacionados. Outros estudos de validação do Rorschach foram feitos sem recorrer aos escores do teste. Esses estudos são chamados “testing of limits” não constam da aplicação do teste em si, mas sim da exploração do material.

PASCAL e col.(1950) pediu para que 237 participantes para apontar quais as partes

das manchas que podiam ser órgãos genitais masculinos ou femininos. Esse estudo

forneceu indicações para quais os pontos que tinham significação sexual.

MEER e SINGER (1950), pediram para 50 participantes para identificarem um cartão

que representasse um cartão pai e um que representasse um cartão mãe. Pediu também que eles organizassem os cartões por ordem dos que mais gostavam. Os cartões identificados como cartões pai são os de número II e IV. Os cartões identificados como cartões mãe foram os de número VII e X.

V.3. Estudos de Precisão

H. Rorschach, devido a sua morte precoce, não efetuou nenhum teste de precisão com o seu instrumento. Contudo, outros autores que se seguiram dedicaram-se a estes estudos. Klopfer (1956, p.274) afirma que os estudos com precisão do Rorschach provaram que ele é suficientemente sensível para entre duas aplicações demonstrar mudanças de humor ou resultados de intervenções terapêuticas. Ao mesmo tempo, ele reflete os aspectos mais estáveis da organização da personalidade de um indivíduo, de

18

forma que é possível ao examinador verificar se diferentes registros correspondem a uma mesma pessoa. O exame da precisão do Rorschach é complicado devido ao pequeno número de itens que ele apresenta. O número limitado de cartões ficou assim fixado porque foi difícil conseguir manchas que propiciassem um estímulo de qualidade. O teste das duas metades não é apropriado para o Rorschach porque uma metade ficará com três cartões coloridos e outro com dois. O teste de formas alternativas também levanta problemas porque não se pode garantir que a forma alternativa seja totalmente confiável. E o teste-reteste, obviamente, é contaminado pela memória do teste anterior. Mesmo assim muitos destes estudos foram feitos.

VERMON (1933) aplicou o teste das duas metades e encontrou uma correlação 0.91

para a categoria número de respostas, mas as outras categorias ficaram com correlações

muito baixas.

HARROWED e STEINER fizeram a aplicação de formas alternativas, utilizando o

Rorschach e sete dias depois a forma alternativa de Behn. Na amostra de crianças pré- escolares utilizadas se encontrou coeficientes de precisão bastantes altos exceto nos fatores W e Fc. Todavia estes resultados serviram para apontar que a forma de Behn não pode ser considerada uma forma alternativa do Rorschach totalmente satisfatória.

KELEY e col. (1941) estudou 12 sujeitos submetidos a terapia elétrico-convulsiva,

que teriam total amnésia do teste se esse fosse feito antes de uma sessão de choque. Os autores fizeram uma aplicação do Rorschach imediatamente antes da sessão do choque e novamente duas horas depois. Os dois psicogramas resultantes foram idênticos. Os únicos fatores que sofreram uma pequena oscilação foram os R, D, F nas pranchas VIII, IX, X e P%. Isso apontou para o fato desses fatores serem menos estáveis que os demais, mas isso não foi significativo para o contexto geral do teste.

V.4. Tipos de normas utilizadas

Existem vários sistemas de classificação atualmente usados para a codificação das respostas quanto a localizações, determinantes e conteúdos. As diferenças entre um e outro sistema de classificação são irrelevantes, e referentes à maneira como esses dados

19

se expressam (codificação), não implicando em discrepâncias na interpretação e diagnóstico.

Na literatura atual temos como principais sistemas de classificação o Rorschach,

seu próprio criador (1922) e Loosli-Usteri (1941) na Suíça; Ombrendane-Canivet (in Anzieu, 1960), na França; o de Klopfer (1942) considerado o mais adotado na América do Sul e inclusive com influências na Inglaterra; os de Hertz (1944), Beck (1945), Rappaport (1946), Piotrowski (1957) e Exner (1974, 1995) nos Estados Unidos; Endara (1961) no Equador e Anibal Silveira (1961) no Brasil. A classificação das respostas do Rorschach, que é a base teórica para a condução do inquérito e conseqüentemente para a interpretação, implica num aperfeiçoamento e

padronização técnica do instrumento e seu domínio por parte do profissional.

Na interpretação do Rorschach, a resposta é um conteúdo verbalizado, é uma

idéia, um conceito vinculado diretamente à determinada área-estímulo do Cartão. Podemos dizer que a resposta, no Rorschach, responde a pergunta que tecnicamente se

faz, “o que o examinando viu no Cartão ou na área do Cartão?”.

VI. Localizações:

Denominam-se localizações as áreas da mancha ou do Cartão em que o examinando situa a resposta verbalizada. Dividem-se essas áreas em respostas globais, codificadas como G, respostas de detalhe comum que levam como código D, e respostas de detalhe incomum que são registradas como Dd e que, segundo Klopfer, subdividimos em quatro subcategorias: Detalhe raro (dr), Detalhe diminuto (dd), Detalhe interno (di) e Detalhe externo (de) ou de borda.

VII. Determinantes:

O termo determinante foi usado por Rorschach para identificar, numa

verbalização, quais fatores psíquicos levaram ou determinaram o examinando a dar essa

20

ou aquela resposta. Rorschach parecia atribuir aos determinantes a expressão de algo estrutural da personalidade, ou seja, os determinantes são a expressão da memória viva das experiências passadas e projetadas pelo examinando sobre as manchas. São as expressões do modo como o examinando estabelece a relação entre o mundo externo através das manchas e o seu mundo interno.

VIII. Conteúdos:

O conteúdo é aquilo que foi verbalizado, o que foi percebido, como algo

específico e que será registrado de acordo com sua categoria. O conteúdo responde à

pergunta: “o que viu o examinando na resposta dada?”.

A classificação e interpretação dos conteúdos, num protocolo de Rorschach,

parece não ter evoluído quanto a análise quantitativa. Sob o ponto de vista qualitativo, muitos trabalhos têm sido publicados e estudos de alto valor interpretativo têm surgido. Canivet (1956) estudou as categorias dos conteúdos e sua interpretação, classificando-os em: elementos, fragmentos, geográfica, botânica e paisagens. Em geral,

as categorias dos conteúdos que os manuais sobre o Rorschach apresentam, leva em consideração não um critério estatístico para um devido levantamento, mas sim os conteúdos que mais aparecem na prática. Ao terminar a aplicação num sentido geral, inicia-se o processo de registro para cada resposta, quanto à localização, determinante e conteúdo. Esse registro envolve a tabulação dos dados conforme as seguintes linhas básicas (protocolo 1, p.53):

Levantamento dos histogramas correspondentes aos determinantes principais e aos

adicionais, usando-se um tipo de hachura para os principais e outro para os adicionais, a

fim de facilitar a leitura visual.

Faz-se o levantamento do total de respostas, contando-se tão somente as respostas da

coluna principal tanto das localizações, dos determinantes, dos conteúdos. Convém lembrar que cada resposta dada na fase de aplicação recebe, como principal, uma só localização, um só determinante e um só conteúdo.

21

Calcula-se o tempo médio por resposta: total do tempo de duração de todos os

Cartões dividido pelo total de respostas.

Calcula-se o tempo médio de reação em função dos dois grupos de Cartões:

acromáticos e cromáticos; divide-se o total de reação nesses Cartões pelo número de

Cartões em que houve verbalização de resposta. Na interpretação de um protocolo de Rorschach, com finalidade clínica, de auxílio na orientação vocacional ou para fins de seleção de pessoal, convém o psicólogo examinador levar em consideração alguns aspectos fundamentais:

1. O Rorschach não é um instrumento para avaliar apenas anomalias. O examinador

deve procurar identificar também funções da personalidade consideradas normais.

2. A personalidade é um todo estrutural, dinâmico e funcional e como tal, não pode ser

medida com aquela precisão estatística. Os elementos quantitativos, utilizados no trabalho com o Rorschach, são grande suporte nesse processo de diagnóstico, mas devem ser bem relacionados entre si e integrados aos aspectos qualitativos apresentados no

próprio método.

3. É necessário que o examinador utilize outros instrumentos de avaliação juntamente

com a aplicação do Rorschach na elaboração de um psicodiagnóstico.

4. O examinador e intérprete do Rorschach deve, na elaboração do diagnóstico, ter

sempre presente que está trabalhando com um instrumento muito sensível à coleta de dados quantitativos do examinando para estudos de pesquisa, mas também extremamente flexível para a avaliação psicodinâmica de personalidade. Na interpretação dos dados um fator a ser considerado é o número de respostas. A maioria dos autores estabelece como normal um faixa entre 15 e 30 respostas. O estudo da realidade brasileira indica a distribuição normal de incidência em 19 respostas e o desvio padrão de 5,8 (Vaz, 1997, p. 82). Através dessas pesquisas Vaz considerou que, na aplicação em brasileiros, deve-se manter uma expectativa entre 15 e 30 respostas. Todavia, para adolescentes e jovens adultos se espera de 15 a 24 respostas. O número de respostas dentro da média pode ser visto como um sinal de que a pessoa teve condições de adaptação ao teste, isso pode ser interpretado como capacidade satisfatória de produção e desempenho e de adaptação a tarefas. Respostas abaixo da

22

média, que oscilem entre 10 e 15 respostas quando forem de boa qualidade e bem comentadas podem ser consideradas ainda dentro do padrão normal. Respostas entre 9 e

10 podem significar, especialmente em situações de seleção, defesas do tipo paranóide, resistência à técnica ou ao examinador. O número inferior a 9 respostas é comum em deficientes mentais.

O tempo de reação é outra variável medida. Ele é contado do momento em que o

sujeito recebe o Cartão até o momento em que ele emite a primeira resposta. Rorschach em seus estudos considerou normal o tempo médio de reação entre 20 a 30 segundos. Contudo, com o passar tendeu-se a observar uma maior rapidez nas respostas. Segundo vários autores, isso se deve as condições modernas de vida. Vaz aponta (1997, p. 83) que

para a realidade gaúcha o tempo de reação normal oscila entre 10 e 25 segundos. Este mesmo autor chama a atenção para o fato de se poder observar uma diferença no tempo de reação entre os Cartões cromáticos e acromáticos. Considera-se que pessoas com uma reação média muito acelerada apresentam uma ansiedade elevada, enquanto que pessoas com um tempo de reação muito longo apresentam uma depressão situacional. Nos casos em que a média do tempo de reação entre os Cartões cromáticos e acromáticos exceder 10 segundos pode se considerar que:

se a diferença pender para os acromáticos, um indicativo de ordem depressiva, e se a diferença pender para os cromáticos, tratar-se-á de um indício de dificuldades no relacionamento do examinando com o mundo, pautadas por tensões. O tempo de duração médio foi considerado entre 20 e 30 segundos. Pessoas ansiosas tendem a um tempo médio inferior a 20 segundos, enquanto pessoas depressivas ou bloqueadas apresentam um tempo elevado, chegando a superar os 60 segundos.

O teste de Rorschach apresenta características muito específicas na confecção,

aplicação, validação e precisão. Muito dos critérios aplicados aos testes psicométricos não são adequados ao Rorschach. Isso, porém, não interferiu na sua grande utilidade que é comprovada pelo seu uso em larga escala. Ele é usado tanto nas áreas de assistência social como na de seleção de pessoas, na orientação profissional e na clínica. Ao avaliar as qualidades psicométricas do teste de Rorschach nos deparamos com algumas dificuldades. Em primeiro lugar, os estudos de validade e precisão foram na sua

23

maioria feitos nas décadas de trinta, quarenta e cinqüenta. Os relatos que conseguimos obter deles, oram indiretos, e por isso não podemos avaliar seus critérios como tamanho da amostra, a sua heterogeneidade, etc. Mas a partir desses relatos verificou-se que muitos estudos mostram engenho e perspicácia, um exemplo é o de Keley que usou pacientes em tratamento de choque elétrico para verificar a precisão do Rorschach. Os estudos mais comuns na atualidade sobre o Rorschach são os de padronização. Cícero Vaz compendia esses estudos em sua obra. Devido ao fato desses estudos serem numerosos, e na maioria das vezes restritos a uma faixa etária e/ou a uma região geográfica não apresentamos seus resultados aqui. Em vez disso optamos por apresentar a padronização oferecida por Vaz que é bastante recente e significativa.

X. A Técnica de Administração

X.1. Material Utilizado

- Jogo de 10 Lâminas;

- Folha de Localização;

- Folha de Respostas (ou 2 fls de papel pautado);

- Cronômetro ou relógio que marque os segundos;

- Lápis coloridos;

- Mesa, cadeiras, mesa auxiliar.

X.2. Local

As mesmas condições exigidas para aplicação de testes psicológicos em geral:

sala tranqüila onde não hajam interrupções, bem iluminada (de preferência naturalmente indireta ou de modo a não alterar muito as cores das figuras), arejada, etc.

X.3. Posição do examinador/examinando

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Não existem normas a respeito. Uma boa sugestão é sentar frente-a-frente; o examinador poderá assim observar melhor as reações, expressões fisionômicas e as verbalizações sutis.

3.1. Composição O material do teste compreende dez Lâminas com Manchas de Tinta, de 18,5 por 25cm, cinco das quais são acromáticas e cinco cromáticas (duas, em vermelho e preto e três policromáticas). As manchas são, em geral, escassamente estruturadas, embora possam ser consideradas simétricas em termos do eixo vertical. São apresentadas, uma a uma, ao examinando, em ordem. Protocolo de localização das respostas, onde serão assinaladas as áreas em que o examinando situou as respostas dadas; Folhas de Aplicação. Como manual pode ser usado o livro do Prof. Dr. Cícero E. Vaz, “O Rorschach – Teoria e Desempenho”.

1 - Aplicação

2 - Psicograma

3 - Interpretação

Cuidados que devemos ter:

- Não deixar a lâmina mais do que quatro minutos; - Gastar 45 minutos na aplicação, 5 minutos no rapport e 3 minutos no inquérito. No inquérito é importante reler as verbalizações.

3.2.Aplicação

Instrução:

Nestas Lâminas as pessoas enxergam toda classe de coisas; agora me diga o que é que o Senhor vê ou o que lhe lembra. Inquérito:

Perguntas "onde" e "como" viu?

Solicitando a seguir que fizesse o contorno com o lápis na folha de

localização, após registramos no contorno o que viu.

Por favor, onde viu

?

25

Pergunta-se, para clarear dúvidas quanto ao conteúdo: Como viu ver ?

X.4. Contato inicial

?

Ou o que o levou a

O clima de aplicação não deve ser nem muito tenso, nem muito descontraído; uma conversa inicial, em tom informal e social é importante para se obter este clima. Durante o "rapport" são observadas as condições físicas do examinando, verificando-se se não estaria cansado, muito tenso, alcoolizado, faminto. Em caso afirmativo, deve-se adiar a prova. Em qualquer caso deve-se perguntar se o sujeito está tomando alguma medicação, e em caso afirmativo, perguntar para quê. Apresenta-se ao sujeito o objetivo da prova dizendo que se trata de um teste "de imaginação" para pessoas menos escolarizadas, ou "de personalidade" para pessoas mais instruídas.

X.5. Instruções

"Vou lhe mostrar dez figuras (não falar borrão nem mancha) e gostaria que você falasse o que vê nelas. Não se preocupe em dar respostas certas ou erradas. Qualquer resposta é válida, porque as pessoas vêem coisas diferentes nelas. Irei anotar o que você for falando e também vou estar marcando o tempo (indicar a folha/caneta e o cronômetro); não se preocupe com isso, é para meu controle. Quando você não estiver vendo mais nada, coloque a figura invertida neste canto da mesa. Certo? Podemos começar?". Mostra-se a primeira lâmina acionando-se o cronômetro e dizendo: "Esta é a primeira figura".

X.6. Anotações

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Além das respostas do sujeito, devemos anotar os tempos iniciais e finais (TR e TT) lâmina após lâmina. A posição da figura em que as respostas são dadas é indicada do seguinte modo:

- posição de entrega da lâmina;

- virada para a direita do examinando;

- virada para a esquerda do examinando;

- de cabeça para baixo;

- girar ansioso para a direita;

- girar ansioso para a esquerda.

Comentários do sujeito, bem como reações e expressões significativas devem ser indicadas entre parênteses para que sejam diferenciadas das respostas. Deve-se anotar exatamente como o sujeito fala, incluindo-se erros gramaticais, expressões próprias, etc.

As perguntas que fazemos no inquérito ao sujeito devem ser indicadas, por exemplo, com um (?).

X.7. Fases do Exame

São basicamente duas - a fase da administração propriamente dita (ou performance, ou fase de associação livre) e a fase do inquérito - podendo-se complementar o exame com investigações opcionais, como sugerindo a Seleção de Lâminas, o Teste de Limites ou o Rorschach Temático, entre outras técnicas usadas para se aprofundar o exame. Estas técnicas, além da performance e do inquérito, não são recomendáveis em todos os casos, principalmente quando, após mais de uma hora de produção, o sujeito já mostra sinais de cansaço.

27

O objetivo nesta fase é o de obter uma amostra do comportamento do S. O

examinador deverá registrar verbalizações e respostas não-verbais do sujeito, intervindo o

mínimo possível (a nível consciente, pelo menos). Nesta fase, quem fala é o sujeito, que deve assumir o controle e o manejo da situação. Deve-se evitar ao máximo, interferências. Caso o sujeito pergunte pode virar? consentir brevemente dizendo à vontade ou como quiser.

Se começar a contar uma história, corrigi-lo repetindo as instruções: Não é para

contar uma história. Gostaria que v. me dissesse o que está vendo nessa figura.

Se o sujeito apanha a figura e diz É uma mancha de tinta, concordamos com ele

sim, é uma mancha, o que você vê nela?. Caso o S. logo na primeira lâmina dê uma única resposta, de baixa qualidade, devolver-lhe perguntando Pode olhar um pouco melhor. O que mais vê aí? (anotar estimulação na Folha de Respostas).

7.2. Fase do Inquérito

A função principal do Inquérito é obter informações do sujeito com respeito à

maneira como ele viu cada percepto. São informações essenciais para uma correta classificação e seus respectivos valores interpretativos. Respostas claras e classificáveis nem sempre requerem inquérito. Outra função do inquérito é proporcionar ao sujeito nova oportunidade para ampliar e completar as respostas dadas na aplicação propriamente dita, como pode acontecer com sujeitos cautelosos, que demoram até se sintam familiarizados com o teste.

Pode ocorrer do sujeito, durante o inquérito, apresentar algumas respostas, que devem ser somadas à parte, como pontos adicionais. Em resumo, o inquérito deve esclarecer os vários aspectos de cada resposta quando são necessários para a classificação: localização na mancha, determinante empregado e conteúdo. Deve também oferecer ao sujeito uma oportunidade de juntar elaborações espontâneas às suas respostas ou qualquer idéia nova que possa expressar.

O objetivo nesta segunda fase é o de averiguar aspectos percepto-cognitivos

subjacentes à resposta. Além de localizá-las, o examinador deverá identificar e explorar

também as características do estímulo que determinaram o percepto (costuma-se dizer

28

que é preciso ver o que o sujeito viu), avaliando o grau de adaptabilidade do conceito à área da mancha. Depois que o sujeito passou, respondendo, pelas 10 figuras, tendo o examinador registrado as percepções do sujeito, é indispensável que seja realizado o inquérito. Recolhendo a décima figura, dizemos ao sujeito:

Agora que você já respondeu a todas as figuras, vamos repassar as suas respostas juntas porque eu quero estar seguro de que estou entendendo exatamente o que você viu”.

Um comentário assim destaca o caráter cooperativo do inquérito. Não há consenso entre os autores do Rorschach quanto ao uso das lâminas durante o inquérito. Alguns sugerem que as lâminas fiquem todas à disposição do sujeito; preferimos o uso eventual e seletivo das mesmas, recolhendo todas após a performance e providenciando apenas a figura específica nos casos em que o sujeito encontra dificuldades em localizar uma ou outra de suas respostas com base nas reproduções reduzidas, em branco-e-preto, da folha de localização. Também nos casos em que a produção foi escassa, ou lâminas que foram rejeitadas pelo sujeito, podemos dizer-lhe que agora tem nova oportunidade de comunicar se vêem algo mais nelas. Sugerimos que a atividade do inquérito, em exames de jovens e adultos "normais", possa ser partilhada, por exemplo, entregando ao sujeito a Folha de Localização, anotando a localização da primeira resposta, e encarregando-o, a seguir, de continuar circulando seus perceptos; enquanto o sujeito trabalha sobre a Folha de Localização, o examinador trabalha com a Folha de Respostas. Para o caso de várias respostas num mesmo borrão, deve-se registrar em diferentes cores para facilitar a visualização das localizações. Respostas Adicionais:

pode ocorrer do sujeito oferecer novas respostas durante a fase do inquérito, havendo mesmo casos de pessoas inibidas ou cautelosas na primeira etapa que só se soltam aos poucos. Estas respostas devem ser registradas pelo examinador indicando-se Adicional para que sejam posteriormente somadas à parte. Além de localizar, outra parte do inquérito refere-se àquilo que determinou a visualização das respostas. Precisamos ser esclarecidos se o indivíduo viu o que viu pela forma, cor, movimento, claro-escuro, etc. Entretanto, não podemos perguntar diretamente

29

pelo que tenha levado o sujeito a ver as coisas que viu; não devemos perguntar,

, sugerindo completamente. A habilidade na condução de um inquérito é a mesma do método de investigação clínico, exige preparo, experiência. Piaget, comentando as dificuldades do exame clínico, afirmou certa vez:

Pois estaríamos

obviamente, foi pela cor quer você viu isso? Foi pela forma?

"O bom experimentador deve, efetivamente, reunir duas qualidades muitas vezes incompatíveis: saber observar, ou seja, deixar o sujeito falar, não desviar nada, não esgotar nada, e ao mesmo tempo saber buscar algo de preciso, ter a cada instante uma hipótese de trabalho, uma teoria, verdadeira ou falsa, para controlar. É preciso ter-se ensinado o método clínico para compreender a verdadeira dificuldade. Ou os alunos que se iniciam sugerem ao sujeito tudo aquilo que desejam descobrir, ou não sugerem nada, pois não buscam nada, e, portanto também não encontram nada".

Examinadores experientes dispensam o uso de inquérito em muitas das respostas, indagando precisamente acerca daquelas que exigem efetivamente esclarecimentos,

evitando assim, de modo habilidoso, cansar o sujeito com bordões repetitivos do tipo o

que te levou a ver

?

o que te levou a ver

?

Perguntas normalmente feitas durante o inquérito são:

O

que lhe parece

?,

O

que lhe fez lembrar um(a)

neste

desenho?

Por que lhe parece um(a)

Explique melhor

aqui na figura?

O

que lhe sugere?

O

que levou você a ver

O

que lhe deu esta impressão?

Adjetivos utilizados pelo sujeito devem sempre ser pesquisados. Ex: Um peixe gostoso - Gostoso porquê?; Uma máscara horrorosa - Horrorosa porquê?. Havendo respondido pessoas, deve-se perguntar seriam homens ou mulheres? Quando são vistos monstros, com forma humana ou animal indefinida, sempre é

que deu esta impressão?

bom pedir algo do tipo comente um pouco mais este monstro

o

30

- pois o sujeito poderá oferecer indícios sugestivos que irão permitir a discriminação mais precisa de (H) ou (A).

7.3. Pesquisas complementares

As pesquisas complementares devem ser usadas com parcimônia, apenas em casos especiais (com exceção da Seleção de Lâminas que pode ser utilizada sempre).

A Seleção de Lâminas é um procedimento simples, rápido e que acrescenta dados

importantes. Deve-se "abrir" as lâminas sobre a mesa, diante do S. e pedir que escolha a mais bonita, ou a que mais gostou, invertendo-se, duas a duas, o critério para a que menos gostou, ou a mais feia, anotando-se pelo menos 3 escolhas positivas e 3 negativas.

O Teste de Limites é uma técnica aplicada nos casos em que ocorrem bloqueios e

reticências de um sujeito tanto na fase da administração como no inquérito, exigindo um meio adicional de esclarecer o padrão de reação do sujeito. O exame de limites não é uma técnica simples, pois para bem manejá-la o examinador deverá ter conhecimento pleno

das omissões visíveis nos resultados das fases anteriores do teste. Quanto maior seja a experiência do administrador de Rorschach, maior quantidade de matizes obterá no exame de limites. Algumas situações em que pode ser indicado este exame são as seguintes:

Quando o sujeito ofereceu nenhuma ou bem poucas respostas populares, pode-se pegar a lâmina V, a mais popular de todas e oferecendo-lhe, perguntar: Nesta figura as pessoas costumam ver morcego ou borboleta - o que você acha disso?; ou quando o sujeito não tenha oferecido nenhuma resposta cromática, pode-se pedir para que agrupe em duas pilhas as lâminas, observando se ele dividirá do modo mais óbvio, que é reunindo cromáticas x acromáticas. Em caso negativo, podemos realizar diante dele esta divisão pedindo-lhe que diga qual o critério que utilizamos. Em caso de suspeita de cegueira para cores (daltonismo), podemos oferecer ao sujeito a lâmina X, pedindo que nomeie as cores que está vendo.

O Rorschach Temático é uma técnica ainda em desenvolvimento que consiste

basicamente em pedir para o sujeito contar histórias reunindo as respostas por ele oferecidas em cada lâmina durante a primeira fase.

31

X.8. Lista de Respostas Populares - P

São populares (P) respostas que surgem com muita freqüência no Rorschach, e são originais (O) aquelas que ocorrem muito raramente. As respostas populares dizem respeito à participação do pensamento do sujeito no do grupo a que pertence.

L.I. Morcego, borboleta, pássaro (sempre com corpo central e asas laterais); D. central:

mulher;

L.II. Dois animais quadrúpedes (ursos, coelhos, touros, etc), figuras humanas, dois

palhaços;

L.III. Duas figuras humanas; D central: borboleta ou gravata; L.IV. Pele de animal, monstro ou gorila; L.V. Qualquer criatura alada com corpo central e asas laterais, borboleta ou pássaro. L.VI. Pele de animal;

L.VII. Figuras femininas; 2/3 superiores: dois animais; L.VIII. D. lateral: animais quadrúpedes;

L.IX. Não há; L.X. D.azul lateral: caranguejo, polvo, aranha; D. verde central inferior: cavalos

marinhos;

X.9. Simbologia Adotada

São diversos sistemas de classificação de respostas; adotamos a maior parte da lista seguinte da simbologia de B. Klopfer e D. Kelly, com adaptações.

T

= Tempo total (soma dos períodos de exposição das 10 figuras)

R

= Número de Respostas

Tv = Tipo Vivencial, expresso pela fórmula M:C Tp = Tipo de percepção, expresso pela fórmula G:D:Dd

G

= Resposta global

D

= Resposta de detalhe

Dd = Resposta de detalhe inusitado (ou detalhinho)

32

Gs = Global com espaço em branco Ds = Detalhe com espaço em branco

Dds = Detalhe inusitado com espaço em branco DG = Globais confabuladas ou contaminadas

Pi

= Pormenor inibitório

F

= Resposta de forma

F+ = Forma bem vista

F- = Forma negativa (inadequada)

F. = Objeto ou conceito sem forma definida.

M = Resposta de movimento humano

FM = Resposta de movimento animal Fm, mF, m = movimento inanimado com forma, forma secundária e ausência do aspecto

formal

FC, CF, C = respostas cromáticas com forma, forma secundária, e ausência do aspecto formal (cor pura) Cn = cor nomeada FK = Respostas tridimensionais KF, K = Respostas de difusão (nuvem, neblina, fumaça, etc) com alguma forma ou sem forma definida. Fk, kF, k = Respostas bidimensionais com forma, forma secundária ou ausência de forma Fc, cF, c = Respostas de textura com forma, forma secundária ou ausência de forma FC', C'F, C' = Respostas acromáticas com forma, forma secundária ou ausência de forma

F(C) = Formas identificadas dentro do sombreado

P

- Respostas populares

O

- Respostas originais

H

- Humano Ex: pessoas, mulher, criança, palhaço, etc.

(H) - Humano fantasmagórico Ex: duende, gigante, bruxo, espantalho, monstros humanizados, fantasmas, etc. Hd - Detalhe humano Ex: boca, braço, cabeça, pé, etc.

A - Animal Ex: urso, macaco, rato, etc

Ad - detalhe animal Ex: pata, focinho, rabo, pele, etc

33

Sg - Sangue Ex: manchas de sangue

Rad - Radiografia

Mapa - Mapa Pais - Paisagem Obj - Objetos manufaturados, de modo geral. Pl - Plantas Sexo - Ex: útero, vagina, pênis, pélvis. Explo - Explosões Cena - Cenário Ex: sala com mesas e cadeiras Abst - Abstrações Ex: forças mágicas, sonho, alegria, etc. Arte - Ex: vaso chinês, pintura abstrata, aquarela. Arq - Arquitetura Ex: edifício, túmulo, ponte

Cc - Ciência - conceitos e instrumentos científicos Ex: microscópio, satélite, homeostase, fotossíntese, etc.

X.10. Porcentagens Médias (adultos escolarizados - valores aproximados)

R

= 20 60

T/R = 15-50"

G

= 30%

D = 60%

DG+Dd+Ds+Dds = 10%

F = 50-70%

F+ = 80-90%

M:C:Ch = 2,3 ou 4 de cada tipo num universo de R=30

H = 10-20%

VIII+IX+X = 33% M>FM C = 1

A = 30-40%

P = 20-30%

A>Ad FC = 3

G:M = 2:1 (ideal 6:3)

H>Hd CF = 1-2

(Obs: Ch = somatório das respostas de esfumaçado que incluem K, k, c, C e F(C), com forma, forma secundária ou puras ponderadas respectivamente por 0,5, 1 e 1,5)

34

X.11. Folha de Cálculo Nome:

Sexo:

Grau de Instrução:

Est.Civil:

Data da Aplicação:

Idade:

Profissão:

Aplicador:

T =

Tv: M

:

C

R =

T/R =

Tp: G

D

Dd

G

=

G : M

 

G

=

G =

%

Gs

=

VIII + IX + X

=

%

D

=

 D =

%

Dd

=

 Dd =

%

(FM + m) : ( c +

C")

Ds

=

:

F+

=

=

%

(H + A)

 

:

(Ad + Hd)

F. =

:

F-

=

F = =

%

M

: C

: Ch

 

M

FM =

=

 

(x0,5)Fm =

FC =

Fc =

FK =

Fk =

 

FC'=

F(C)=

(x1,0)mF =

CF =

cF =

KF =

kF =

C'F=

(x1,5) m =

C

=

c

=

K

=

k

=

C' =

m =

C=

c=

K=

k=

C' =

=

H %

=

Hd =

(H) =

Anat =

Rad =

Boneco =

A

=

=

%

Ad =

Vest =

Sg =

Sexo =

Fogo =

Explo =

Obj =

Alimen =

Pl =

Nat =

Pais =

Nuvem =

Geo =

Ciên =

Simb =

Abst =

Arte =

Arq =

Cena =

P =

O =

35

X.12. Categorias de Classificação e Significações

A presente coletânea de signos e significações foi pesquisada em parte dos livros listados na Bibliografia. Procuramos reunir expressões que os autores empregam na atribuição de significação aos signos do Sistema de Classificação criado por H. Rorschach (e por eles ampliado). Para efeitos de interpretação, a noção de sistema, como conjunto de elementos interligados, não deve ser esquecida; o valor dos signos pode ser comparado com o valor das moedas; como estas, não possuem valor em si mesmos, isoladamente, mas extraem- no de suas correlações com outros signos. Os termos da lista de significações abaixo não devem ser usados irrefletidamente; ao interpretar um protocolo, deve-se ter presente a necessidade em selecionar, dentre as significações propostas, aquelas que mais se aproximam do caso em estudo. Ao pesquisar a significação para qualquer signo do Rorschach, sugerimos que não se busque uma expressão pronta, a primeira que aparece, sem avaliar outras expressões, não só as que estão reunidas sob o mesmo signo mas opondo estas com outras significações, indagando sempre se as expressões selecionadas ajustam-se à interpretação do caso em questão; não se trata, pois, de copiar significações, mas construir expressões próprias, tarefa para a qual oferecemos algumas sugestões. Assim como só podemos fazer idéia do valor de uma moeda quando a relacionamos com o que ela pode ser trocada, de modo semelhante, em busca de palavras para expressar, p.ex., o que é o G dilatado de determinado protocolo, sugerimos que se procure também pelas significações opostas e relacionadas, isto é, pelo G rebaixado, pela ausência de G, pelos contrastes entre G e D, pelo Tipo de Apercepção

12.1. Localização

12.1.a. Respostas G (globais) São aquelas que abrangem toda figura. As respostas globais revelam a capacidade de examinar o ambiente de modo amplo, em sua totalidade. Ex.: L.I: máscara; L.II: dois palhaços batendo palmas; L.X: cena do fundo do mar

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Existem vários tipos de respostas G:

12.1.a.1. G primárias (também chamadas de puras, ou ordinárias): geralmente só um conceito é utilizado para interpretar a mancha, em cuja construção a forma básica da mancha é o elemento capital, podendo haver ou não participação de outros determinantes:

cor, cinestesia, sombreado. São respostas simples e de boa qualidade formal. Podem ser produzidas por pessoas de diferentes níveis intelectuais. Indicam certa capacidade de abstração e síntese, limitada porém pela falta de imaginação. Ex: L.I: borboleta; L.V:

morcego preto 12.1.a.2. G combinatórias: alguns elementos são combinados e organizados em um conceito mais amplo que engloba as anteriores. Geralmente incluem elementos cinéticos, cromáticos ou claro-escuro, além de serem freqüentemente originais. Podem ser de dois subtipos, demarcados pela velocidade com que o sujeito atinge a integração do percepto:

- sucessivo-combinatória: a percepção é gradual, o examinando vai percebendo os detalhes sucessivamente, terminando por englobá-los numa única resposta. Não raro, durante o exame, o sujeito verbaliza detalhe após detalhe, que são enumerados pelo examinador como respostas separadas, até que, ao final, especifique (ou encontre) a globalização, revelando não tratar-se de várias respostas, mas uma única G-sucessivo- combinatória. - simultâneo-combinatória: o conceito integrado é dado imediatamente. Ex: L.II: russos dançando ao redor de uma fogueira As globais combinatórias indicam níveis superiores de inteligência. Não aparecem em protocolos infantis, nem em quadros depressivos. Nelas o sujeito revela capacidade de análise e síntese, obedecendo às regras da boa lógica. 12.1.a.3 G confabulatórias: com base em um detalhe da mancha, o sujeito engloba o restante, por extensão ou inferência. É simbolizada por DG. Procedem do pensamento sincrético (indiferenciação entre o todo e as partes). Geralmente não é fácil identificar estas respostas sem inquérito. Ex.L.I: Um caranguejo (Inq: por causa das garras dele, então o resto da figura é o que falta ao caranguejo; Ex.L.VII: Mulher (Inq:aqui está a vagina (DCI) e em cima são os ovários e o útero)

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As respostas confabulatórias sugerem insuficiência do juízo lógico. Resultam de síntese apressada e arbitrária. Não são incomuns em crianças antes dos dez anos. Em adultos, são freqüentes em quadros psiquiátricos. 12.1.a.4. G contaminadas: são condensações esquizofrênicas que fundem duas respostas como numa dupla exposição fotográfica. Ex. L.IV: Pele de animal com botas; Ex. L.V: Um homem-borboleta sem pés.

12.1.b. Global cortada: G/ Ocorre quando o sujeito usa dois terços ou mais da mancha, sem globalizar e cuja incidência esteja numa razão crítica inferior a 4%. Respeitada esta condição, pode-se dizer que G = G - Dd. Muitas G/ num protocolo indicam inibição do pensamento, senso crítico acentuado.

12.1.c. Respostas de Detalhe - D Uma parte da mancha, seccionada com freqüência igual ou superior a 4% da população. O tamanho da área selecionada em relação à figura como um todo não é levado em consideração, mas a freqüência com que em geral a parte é escolhida. (Todas as respostas D estão assinaladas no Atlas em anexo). As respostas D, como partes da figura que mais facilmente são notadas, constituem a maioria das respostas na média dos protocolos. As respostas D indicam pensamento de tipo concreto, sentido de realidade, inteligência prática. Outras expressões que emprestam significação à D: apreciação dos elementos óbvios e evidentes da realidade, expressão simbólica do concreto, senso de realidade objetivo, capacidade de verificação dos elementos essenciais aos fatos, pensamento indutivo.

12.1.d. Respostas de Pormenor Inibitório - Pi Respostas de Pormenor Inibitório são partes de figuras muito freqüentemente vistas, porém anormalmente destacadas, pois o comum seria a interpretação da figura inteira Ex.L.III: Cabeças Este tipo de respostas Rorschach chamou de "Detalhe Oligofrênico" - símbolo Do - pois observou certa freqüência em quadros de inteligência subnormal. Mas, verificou-se

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depois, não é exclusivo. O símbolo "Pi", que adotamos de A. Silveira, parece mais apropriado para a respectiva significação: inibição, idéias prevalentes, acentuação da preocupação com seus próprios problemas.

12.1.e. Respostas de Detalhes - Dd São detalhes percebidos com menos freqüência por um número significativo de testados, mas não atingem o critério de 4% de escolha da população. São indicativos de meticulosidade, de atenção aos detalhes incomuns. Quando o conteúdo é rico, indica capacidade de observação, perseverança, aplicação ao trabalho; quando pobre, sugere limitação intelectual, inibição, infantilismo.

12.1.f. Respostas de Detalhinho Externo - Dde Uma sub-categoria dos Dd, também chamada detalhes marginais, em que são usadas as orlas dos borrões, geralmente vistas como perfis ou contornos geográficos. Quando numerosas indicam inibição neurótica, tendência a se manter na periferia dos problemas receando encará-los de frente.

12.1.g. Respostas com espaço - Gs, Ds, Dds Gs: aqui o sujeito, além de abranger toda a figura, também inclui os espaços em branco (todos ou alguns) à sua resposta. Ex.: L.I: Borboleta com pintas brancas; L.V: Uma ilha e a água (partes escuras + branco) Ds: Parte branca freqüentemente vista de algumas figuras. Admitimos apenas três Ds em todo teste, nas lâminas II, VII e IX. A rigor, respostas space sugerem uma inversão; ao responder diante do "não- borrão", o sujeito está opondo-se ao que foi solicitado. A significação destas respostas é a de oposicionismo, e são relacionadas com o Tv (M:C). Em tipos introversivos, a oposição é voltada sobre si mesmo, resultando em sentimentos de inferioridade, auto-exigência acentuada, sentimentos de insuficiência, auto-desconfiança, atitude escrupulosa. Em tipos extrovertidos, a oposição volta-se sobre o meio, assinalando espírito de contradição, criticismo, obstinação, inclinação à polêmica e à oposição, mania de discutir. Em tipos coartados, indicam negativismo, teimosia. Em tipos ambiguais, podemos falar talvez em

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ceticismo, indecisão, ambivalências afetivas, obsessão da exatidão, afã de ver as coisas de todos os lados, mania de querer saber tudo, perseverança, colecionismo.

12.1.h. Tipo de Apercepção - Ap Trata-se da quantidade relativa das respostas G, D e Dd do protocolo. Em média, são encontrados aproximadamente G = 20-30%, D = 60-70%, Dd = 5- 15%. Quando a proporção difere desta, indicamos o aumento relativo da categoria utilizando setas (há quem prefira usar pontos de exclamação ou sublinhado). Quando não aparecem respostas de qualquer categoria, utilizamos parênteses. G D Dd (e semelhantes) : capacidade de globalização, de síntese, com certa dose de imaginação. Observação adequada do ambiente, desde o todo aos detalhes menos comuns. Flexibilidade mental. G (e semelhantes): indica um pensador abstrato e teórico, que se orienta por idéias gerais ou noções de classe. Quando elaboradas, sugerem ambição de qualidade. Em pré- escolares são comuns muitas G pouco elaboradas, bem como em adultos inibidos, imaturos ou pouco inteligentes. D (e semelhantes): indica preeminência do pensamento concreto, até a ponto de dificultar a apreensão de fatos gerais, por prender-se em demasia a fatos isolados. Indica falta de imaginação, um tipo técnico, sujeito prático e de bom senso, que usa o raciocínio indutivo mais que o dedutivo. Quando pouco elaboradas, sugerem inibição, rigidez. Dd (e semelhantes): sugerem criticismo, traços obsessivo-compulsivos. Quando elaborados, indicam boa capacidade de observação - e também, especialmente quando numerosas, a necessidade de ser completo, de examinar todas as possibilidades da situação. Quando mal elaboradas, sugerem falta de adaptabilidade, subnormalidade mental. GDd(e semelhantes): revela desinteresse pelo comum, pouca praticidade. Aparecem em pessoas que têm ocorrências originais, porém são inconstantes quanto à elaboração mental, com atenção dispersa e generalizações inoportunas. GD(e semelhantes) : em pessoas normais, é comum desaparecer as respostas Dd, compensando-se esta ausência com G e D melhor elaboradas; neste caso, indica

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adaptabilidade, capacidade de observação. Quando mal elaboradas, temos o indicativo de alguma rigidez mental. DDd(e semelhantes): indicam pouca capacidade de planejamento, senso prático, apego às minúcias. A qualidade das respostas deve ser levada em consideração, indicando senso de observação ou rigidez mental.

12.1.i. Tipo de Sucessão - Ts Diz respeito à seqüência em que são localizadas as respostas nos cartões. Quando sucedem em uma lâmina respostas G-D-Dd, dizemos que a sucessão é ordenada, caso contrário, (D-G-Dd, Dd-G-D, etc) temos uma sucessão desordenada. Esta separação ordenada-desordenada não é muito rígida. Por ex., também podemos considerar ordenada uma seqüência como G-D, ou D-Dd, ou G-D-Dd-D. E desordenadas seqüências tais como G Dd D, D-G-D-Dd, ou Dd-G-D. Quando aparece uma só resposta na figura, ou quando, mesmo numerosas, são de mesma categoria (ex: G-G-G), chamaremos de sucessão assistemática. O Tipo de Sucessão (Ts) é estabelecido de acordo com a proporção de cartões ordenados:

Sucessão rígida (9-10 figuras são ordenadas sistematicamente): como o nome indica, caracteriza sujeitos a quem falta a necessária flexibilidade para adaptação às diferentes circunstâncias. Rorschach lembra o "mestre-escola" estrito e sistemático em toda e qualquer situação. Sucessão ordenada (6-7-8 figuras ordenadas sistematicamente): sugestiva de senso de organização e ordem no trabalho, com capacidade para modificar em função das contingências, aumentando a eficiência. Sucessão relaxada (5-4-3 figuras ordenadas sistematicamente): freqüentes em protocolos de pessoas normais, este traço, porém já é indicativo de certa falta de organização afetiva. Sucessão confusa (0-1-2 figuras ordenadas sistematicamente): indicativa de desordem e falta da lógica no funcionamento intelectual.

12.2. Determinantes

41

12.2.a. Respostas de Forma - F+, F-, F.

O sujeito justifica o que viu unicamente pelo formato, contorno da figura ou pela

semelhança de suas partes com o objeto mencionado. Muitas vezes o sujeito apenas

Ex.L.II: Dois

ursos; as patas, o rabo, o focinho Uma resposta de forma pode ser F+, F- ou F. F+: a resposta tem forma definida e se adequou à mancha. F-: a resposta não se adequou à mancha F.: a resposta emitida não tem forma definida e por isso cabe em qualquer parte da figura. Ex: ilhas, nuvens, água, etc.

As respostas de forma constituem, normalmente, a maioria dos determinantes (cerca de 60%). Decidir entre a classificação F+ ou F- nem sempre é fácil. O principal critério para a classificação F+ é estatístico; diversos "dicionários" podem ser encontrados na praça listando, a partir de amostras com grande número de protocolos, as formas mais freqüentes. Porém, por maior o número de respostas previstas não são contempladas muitas respostas originais, dadas por um número de pessoas estatisticamente insignificante. Como primeiro recurso, para o caso de dúvida na classificação (se positiva ou negativa), deve-se procurar alguma resposta aproximada. Digamos, p.ex., que o sujeito localizou um leão numa parte da figura acerca da qual o dicionário não prevê leão, mas gato como F+; o leão, por semelhança com gato, pode, pois, receber a classificação F+. Não havendo sequer conteúdos aproximados, os autores sugerem que duas ou três

pessoas "normais" sejam consultadas: se a maioria achar que o borrão (ou parte deste) é parecido, classifica-se F+. Com um pouco de prática torna-se mais fácil afirmar acerca da qualidade formal dos perceptos.

A lista de exercícios do presente texto prevê apenas formas positivas - salvo

quando indicado - para que o aprendiz vá adquirindo noção do que são "boas formas" no Rorschach. As respostas de forma constituem, em média, 50-70% do total. Além de formas puras, o determinante formal compõe com todos os demais: M, FM, Fm, FC, CF, FK, etc

descreve seu percepto. Ex.L.I:borboleta - duas asas, o corpo, as antenas

42

Para entendermos o significado das respostas de forma, é preciso lembrar que o sujeito é convidado a produzir respostas sobre borrões informes sem significado em si mesmos. As respostas de forma recebem, pois, a consigna de colocar ordem em um caos em miniatura, caos desagradável, em todos os sujeitos. Para isso, o sujeito deve realizar, com êxito, um ato criador, quer dizer, ato formativo. A atribuição de uma forma ao caos é sempre aliviante. O reconhecimento dos objetos pela forma é um processo lógico, um modo habitual de percepção comum a todos os povos. A descrição formal representa uma maneira adaptada (lógica) de evitar a expressão de cargas emocionais e afetivas melhor que qualquer outro determinante. As F tem um caráter menos pessoal, representam o modo normal de percepção que é confortável, pois que, além de livre de toda tensão emocional, é lógico e está em harmonia com o processo intelectual habitual dos outros. As respostas formais mostram a capacidade do sujeito para se orientar na vida, para se adaptar à realidade exterior graças à atividade reguladora da razão e do pensamento. As respostas formais podem ser vistas como expressão do controle geral que o sujeito possa ter sobre seus dinamismos psíquicos (instintos, reações afetivo- emocionais, impulsos). As F+ exigem atitude perceptual ativa, referem-se à relação que o sujeito estabelece com a realidade (vigência do Princípio da Realidade), revelam como o Ego é manejado frente ao perigo. Quando muito numerosas, caracterizam o tipo vivencial coartado ou coartativo, indicando asfixia da vida afetiva e pessoal, tendências depressivas, contato superficial e pouco criador com a realidade, ou ainda, atitude de desconfiança e medo de se revelar. Formas numerosas sugerem formalismo, etiquetas, rigidez. Quando escassas, sugerem pouco interesse pelo ambiente; nestes casos deve-se sempre analisar a presença de F junto aos outros determinantes (FK, FC, M, etc). F+ : em sujeitos escolarizados, de nível superior, são esperados entre 80 a 90% de formas positivas. Entretanto, quando as formas todas (mais de 90%) forem positivas, podemos dizer de uma ênfase no dever e na ordem, certa proteção contra impulsos, exigência de domínio auto-imposta, sacrificando por vezes a imaginação ou a espontaneidade: perfeccionismo.

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F- : as formas negativas indicam ligações fracas com a realidade, fantasias inconscientes sobrepondo-se à realidade, visão pessoal, distorcida da realidade. As F- normalmente ficam abaixo de 25%. F. : respostas de forma indefinida, vagas, ambíguas como montanhas, ilhas, recifes, etc., quando freqüentes são indicativas de pensamento evasivo, pouco preciso. As F. são esporádicas, não devendo ultrapassar 10% das respostas em protocolos normais.

12.2.b. Movimento Humano - M São classificadas M respostas do tipo:

a) pessoas reais, percebidas claramente realizando uma atividade espontânea. Ex: homens trabalhando, mulheres conversando

b) Figuras humanas, religiosas, místicas ou fantásticas quando em atividade, mesmo quando suas ações são superiores às capacidades humanas. Ex: magos voando; duendes pulando

c) Quando animais realizam ações próprias de seres humanos. Ex: macacos cozinhando, cachorros conversando

d) Seres humanos em postura vital, quando é necessário alguma tensão para manter a postura. Ex: mulheres curvadas, uma pessoa em pé

e) Expressão facial humana, desde que envolva toda figura vista, isto é, seja um G. Ex.L.I:

cara rindo f) Há movimentos controlados por seres humanos. Ex.: capa voando quando um indivíduo gira

As respostas de cinestesia dizem respeito à atitude interior do sujeito; representam a orientação psíquica normal chamada introversividade. Na linguagem do Rorschach, é considerada introversiva a pessoa que viva mais para dentro do que para fora, que se distancia mais ou menos da realidade, que não entabula facilmente contacto com seus semelhantes, mas cujas relações afetivas, uma vez estabelecidas, são intensivas: (como dizia Drummont) são aquelas pessoas que possuem

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poucos amigos, porém bons, que são antigos. Quanto maior o número num protocolo, mais estável seriam as relações afetivas do sujeito. As respostas M constituem expressão de experiências vivenciadas; revelam que o sujeito foi capaz de aprender com suas experiências significativas. Revelam assimilação do mundo percebido e tendências dinamicamente importantes na estrutura da personalidade. A atribuição de movimento ao borrão estático é sinal de função imaginativa desenvolvida, adaptação refletida, criatividade, autodomínio. As respostas M crescem com a produtividade da inteligência, com a riqueza das associações, com a capacidade de formar novos padrões associativos. O traço característico do introversivo é a tendência a se preocupar com as próprias idéias e o interesse relativo pelos acontecimentos do mundo ambiente. As M são indicativas de vida mental rica e variada, boa capacidade de reflexão, tendência crítica e não conformista; os introversivos são mais dificilmente educáveis e menos sugestionáveis. É muito variável a atividade que o sujeito projeta nas figuras humanas que vê nos

borrões. As M podem ser subdivididas em movimentos extensores (

algo,

levantando

pulando,

correndo) e movimentos flexores (

encolhidos,

inclinados,

abaixados).

a) Os movimentos extensores denotam a fantasia, consciente ou inconsciente, de dominação, de interesse na descoberta e clara percepção dos problemas. Indicam maior capacidade de auto-afirmação, assertividade, autodeterminismo; aparecem em protocolos de pessoas que lutam por suas idéias e por aquilo em que acreditam. Constituem um bom prognóstico para psicoterapia. b) Os movimentos flexores, quando não aparecem compensados por cinestesias de extensão, sugerem desejo de subordinar-se (sem confundir com tornar-se passivo), denotando dependência intelectual, resignação, retraimento, condescendência; aparecem em pessoas que necessitam que outras lutem por ela. Apareceriam em protocolos de pessoas que apresentam dificuldades em concluir suas tarefas. Quando muito numerosas, no adulto, M seria um índice da "sobrevivência de uma atitude fantasiosa infantil, um jardim secreto onde o sujeito gosta de se refugiar, contando histórias para si mesmo, uma imaginação particularmente viva" (Anzieu,1979)

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12.2.c. Movimento Animal - FM São assim classificadas respostas do tipo:

a) Animais reais ou fictícios em movimento. Ex: ursos subindo a montanha; morcego voando b) Animais em postura com modificação da tensão muscular. Ex: macaco pendurado pelo rabo; ave pousada Assim como as M, as FM são indícios das fantasias e desejos dos indivíduos, porém em níveis diferentes. As M são oriundas dos estratos mais educados e sociabilizados da personalidade, enquanto as FM representam a influência de suas camadas mais instintivas e profundas. Dito de outro modo, em relação às M, as FM exigem menor grau de diferenciação intelectual, não implicando em empatia como em M. Em FM a consciência para gratificação do impulso seria mais imediata (as respostas animais são mais simples, mais comuns em crianças, mais primitivas). Enquanto crianças até 10-12 anos normalmente não produzem respostas M, não é raro que já produzam muitas FM. Observando-se protocolos de sujeitos com diferentes idades, podemos ver que as respostas animais aparecem, cronologicamente, antes das respostas humanas. Crianças relacionam-se com os animais de modo especial; elas substituem, imaginariamente, os humanos pelos bichos. Testes infantis (como o CAT), revistas, livros, filmes, linhas de produtos infantis exploram esta identidade, que pode ser analisada de diferentes maneiras. Podemos, p.ex., relacionar as respostas de conteúdo animal com as bases evolucionistas da biologia, com a noção de que temos um parentesco remoto com espécies inferiores do reino animal. O evolucionismo, como Zeitgeist do fim do século passado, está presente nas obras de Freud, desde algumas de suas noções mais elementares, como a teoria dos instintos ou as fases do desenvolvimento psicossexual. Debieux (1987) lembra de Freud falando da "fobia de Joãozinho" quando disse que:

mecanismo fóbico se torna possível ou fácil pela circunstância

de que os vestígios do pensamento totemista são ainda facilmente despertados na

"(para a criança)

o

46

tenra idade. O abismo que separa o homem do animal não foi ainda reconhecido, muito menos acentuado, como mais tarde o será. O homem adulto, admirado e ao mesmo tempo temido, ainda é visto no mesmo plano que o animal corpulento, o qual se inveja por múltiplos motivos, mas contra o qual se foi repetidamente prevenido porque pode tornar-se perigoso. Por este canal pode-se compreender o significado da resposta animal".

A identidade entre crianças e animais também pode ser relacionada com o fato

dos animais, como as crianças, comunicarem-se de modo fundamentalmente analógico (mímica, gestos, encenações, gritos). A civilidade e a educação formal, entretanto, evoluem no sentido da comunicação digital - somos ensinados a usar cada vez mais e de modo correto os signos, obedecendo ao código lingüístico e perdendo, parcialmente, o modo primitivo de comunicação - no sentido filo e ontogenético. As FM, pelo conteúdo animal, sugerem primitivismo; quando bem vistas, em

número e proporção adequadas, indicam vivacidade, energia flutuante a ser canalizada em alguma direção; sugerem forma lúdica de lidar com os problemas e são características de adultos que amam e entendem as crianças (e os bichos) Quando numerosas, em maior quantidade do que M, temos um indicativo de

imaturidade afetiva, de tendência à ação ou fantasias menos integradas à realidade social objetiva, egocentrismo, narcisismo.

O raciocínio aplicado aos movimentos flexores e extensores que discutimos para o

caso de M também se aplica ao FM.

12.2.d. Movimento Inanimado - Fm, mF, m Também chamado de "movimento subjetivo" ou "movimento menor". A resposta pode ter ou não conteúdo formal, podendo ser Fm, mF ou m. O movimento inanimado, independentemente da figura vista, se dá pela ação de forças externas ao percepto que é incapaz de modificar a ação. Fm: classifica-se Fm quando ocorrer uma das seg. situações:

a) Objetos em movimento. Ex: um avião voando b) Homens, animais ou objetos caindo (ou sofrendo as forças naturais sem poder

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controlá-las) Ex: um corpo humano caindo; macaco despencando c) Contenção ou bloqueio de movimento. Ex: animais tentando subir sem conseguir; dois animais amarrados pelo rabo d) Há forças psíquicas ou abstratas em um objeto, animal ou pessoa. Ex: luz irradiando poderes sobre alguém mF: classifica-se mF quando o movimento inanimado ou forças da natureza aparecem referidas a objetos de forma indefinida. Ex: mancha de tinta escorrendo m: classifica-se m quando não há forma, só movimento ou forças abstratas. Ex: energia cósmica em ação; vendaval.

A projeção do movimento inanimado nas manchas do Rorschach tem seu significado relacionado com atitudes ancestrais diante das forças exteriores; remontam ao sentimento de ameaça frente aos elementos naturais - temporais, vendavais, enchentes,

As m puras são indicativas de tensões e conflitos interiores,

terremotos, vulcões

ansiedade persecutória, sentimentos de impotência e/ou insegurança, insuficiência dos mecanismos defensivos, expectativa impotente. Não são esperadas respostas de tipo m puro na média dos protocolos de pessoas normais. Uma ou outra resposta Fm - até 10% - entretanto, enriquecem o protocolo, sugerindo vivacidade, criatividade, imaginação - a depender, claro, da qualidade destas e de outras respostas. De todo modo, o número de Fm deve ser sempre francamente superado pelo número de respostas M e FM.

12.2.e. A relação M>FM>m I. Adrados (1975), nos diz:

"As respostas FM representam a influência das camadas mais instintivas da personalidade, e seus perceptos, sendo cinestésicos, representam tendências introversivas. Indivíduos emocionalmente infantis apresentam FM>M, o que demonstra que as tendências introversivas implícitas em FM, num plano mais elevado, podem vir a transformar-se em M. Da mesma forma, as respostas consideradas como m, são significativas, entre outras coisas, de que o indivíduo

48

experimenta seus impulsos internos como forças incontroláveis e hostis; são também,

entretanto, representativas de energia latente. (

recursos introversivos, tendências apontando na direção introversiva, quer dizer, potencialidades que existem latentes e que podem vir a transformar-se em M, desde que as circunstâncias internas e externas sejam favoráveis a essa transformação. Em resumo. FM e m podem vir a ser M".

Tanto FM como m significariam

)

12.2.f. A relação G:M Tanto G como M estão relacionados com a inteligência, mas é esperada uma proporção da ordem de duas respostas globais para cada resposta M. A proporção ideal em um protocolo com 20-30 respostas é de 6G:3M. Quando G ultrapassa essa proporção (ex: 8G:2M ou 10G:3M), temos um indicativo de que o impulso para conquistas intelectuais (G) é mais desenvolvido que a capacidade criadora real (M), hipótese diagnóstica que é reforçada principalmente se as respostas G forem puras e populares.

Quando a proporção de M eqüivaler-se ou for maior que G (ex: 3G:3M ou 3G:5M), temos um indicativo de que o indivíduo tende a preocupar-se em demasia com suas idéias

e pensamentos pouco realizando de útil, com dificuldades para usar adequadamente as potencialidades que possui.

12.2.g. Respostas de Cor - FC, CF, C Nestas respostas, as cores são utilizadas no percepto. Só há respostas de cor nas lâminas coloridas. Podem ser:

FC: a forma é precisa e a cor também é levada em consideração, mesmo que no inquérito

a cor seja mencionada antes da forma, já que a forma foi imprescindível para o percepto. Ex.L.III: Borboleta (pelas cores, asas e corpo) L.III: Gravata borboleta (a cor e a forma)

CF: a cor é o elemento determinante, enquanto a forma possui um papel secundário. Se a forma da mancha puder ser mudada radicalmente sem perder a plausibilidade da resposta,

a resposta será CF. Se por outro lado as mudanças na interpretação da área mudarem a plausibilidade da resposta, teremos FC. Ex. L.IX: buquê de flores

49

C: é baseada unicamente na cor; não há formas nessas respostas. Ex. L.III: manchas de sangue.

A hipótese interpretativa para as respostas cromáticas refere-se à ligação destas

com a afetividade. Esta ligação é empiricamente observada e culturalmente reconhecida. Durante o desenvolvimento, o bebê primeiro visualiza a mistura de cores, luzes e contrastes, sendo passivamente estimulado até que vá ocorrendo à passagem entre o olhar vago e difuso para a capacidade de fixar os olhos nos objetos, focá-los, prendê-los visualmente. A percepção de formas requer maturação e aprendizado, comparativamente às cores, podendo-se concluir que a percepção de cor não exige vontade ou esforço: a cor é um estímulo do ambiente que invade o psiquismo, que exerce energicamente influência

sobre o aparelho perceptivo. De modo semelhante aos afetos - o que afeta, o que nos tira de - as cores supõem atividade do meio e passividade do indivíduo: como os afetos, as cores invadem e fim. As cores existem desde que a luz se fez. A cor não é uma propriedade intrínseca

aos objetos como o peso ou volume, pois é determinada pela luz refletida, variando-se conforme a intensidade e a freqüência desta.

A cromaterapia, p.ex., explora justamente estes potenciais energético-ativos das

cores. O efeito estimulante das cores sobre o psiquismo pode ser visto por toda parte. Não

será preciso dizer de experimentos com seres humanos, animais e plantas, que mostram correlações diversas entre a estimulação cromática e seu efeito sobre o comportamento:

basta ver o carnaval da Bahia - as cores são fundamentais para a animação e extroversão geral.

Cada cor admite algumas significações a elas associadas, embora não sejam rígidas, variando-se de cultura para cultura. Algumas linhas gerais desta significação podem ser consideradas. Diz Gusmão, professor da Faculdade de Medicina da UFBA:

"O branco, síntese de todas as cores, carrega em seu espectro a imagem da sabedoria e da graça. Distinguida em muitas seitas religiosas, é tida como a cor da revelação, da transfiguração divina, teofania, manifestação de Deus. Simboliza a pureza do espírito, as forças diurnas positivas em contraposição às forças noturnas e negativas da cor negra, no eterno dualismo intrínseco do ser. ( )

50

"Desde os tempos remotos, os grandes elementos naturais foram identificados às cores: o fogo ao vermelho, o amarelo e o branco ao ar, o verde à água e o preto à

terra. Na alquimia o preto é a cor da matéria, do oculto e do pecado; o cinza, a terra;

o branco, mercúrio, inocência e felicidade; vermelho, enxôfre, sangue e paixão; o azul, céu; ouro a Grande Obra, que em linguagem metafórica significa também o

refinamento do espírito. (

e o amarelo a do crente; verde, paz; azul, certeza intuitiva; vermelho é a cor da gnose, do conhecimento, e o preto simboliza a existência divina. A bandeira do Islã é verde, porque esse tom constitui para o muçulmano o emblema da salvação, paradigma de riquezas materiais e espirituais. Na simbologia maçônica o branco lembra sabedoria,

graça e vitória; o vermelho traduz inteligência, rigor e glória; o azul é coroa, beleza,

E as nossa atualíssimas fitinhas do

Bonfim têm também a sua correspondência teocromática - a fitinha azul é de Onanã; preta é de Omulu; vermelha, de Xangô; e a branca é de Oxalá. Para Jung, as cores

exprimem as quatro funções mentais básicas, o pensamento, o sentimento, a percepção e a intuição. Sob este prisma, o azul é o céu, espírito, reflexão; o vermelho

é sangue, paixão, sentimento; o verde expressa a natureza, as sensações; e o amarelo é a cor da luz, do ouro, simbolizando a intuição.

"Vermelho, amarelo e o resultado desta conjunção, laranja, são consideradas cores quentes, estimulantes e provocativas de ardor e excitação, ao passo que as cores frias,

o azul, o índigo e o violeta, são pacificantes, têm um curioso poder sedativo. O verde

é ambíguo, equidistante entre o azul e o amarelo, mediador, calor e frio. O azul é a

mais fria e profunda das cores; suaviza os contornos, suscita divagação, relaxa a mente, tem expressão metafísica solene e calmante. Amarelo é ardente, expansivo, cor da eternidade, do amor e da concórdia; o amarelo claro, fosco, sem vida, expressa porém inveja, orgulho, discórdia - o "riso amarelo". O verde é refrescante, cálido, natural, simbolizando a esperança e a longevidade; ambíguo, sem tristeza e sem alegria, é a paz e a neutralidade, mantendo um caráter estranho e complexo que provém da polaridade dupla, verde do broto da vida, verde do mofo da morte, das profundezas e do destino. O vermelho é o símbolo fundamental do princípio da vida; claro e brilhante, é sedutor, tônico, o vermelho rubro das bandeiras, cartazes e out-

fundamentos; e o preto é a cor do Reino. (

No Islamismo mais tradicional, o branco é a cor do islã,

)

)

51

doors; o fermento guerreiro dos desejos, da ação e dos impulsos humanos". (in Suplemento Cultural de A Tarde - 20.05.95).

Cargere (in A Cor e a Personalidade - R.S.: Ass. Macrobiótica de P. Alegre - 1982) apresenta a seguinte tabela de significações medicinais para as cores:

Vermelho: sinal de perigo, fogo, sangue, guerra, agitação (efeito estimulante forte) Salmão ou rosa: amizade, amor físico (estimulante branco) Escarlate: perigo, raiva, sexualidade (estimulante animal) Laranja: robustez (tônico e laxativo) Amarelo: relaxação (nervino laxativo) Limão: orgulho (anti-séptico tônico) Verde: ciúme (anti-séptico adstrigente) Púrpura escura: realeza e orgulho (emocional, eliminador da depressão). Azul: devocão, lealdade, verdade (sedativo curador). Índigo: benevolência, frieza e calma (narcótico e hipnótico). Violeta: espiritualidade, sublimação, amor angélico (germicida purificador). No Rorschach, as hipotéticas correlações das cores com a personalidade são aproveitadas para se obter indicações acerca da vida emocional dos sujeitos. As respostas cromáticas dão a medida da extratensividade, orientação psíquica que permite ao sujeito sair de si mesmo e entrar em relação com os demais. A reação do sujeito às cores das figuras diz da ressonância e do impacto emocional sofrido, indicando sintonia com o meio externo, reatividade à solicitação externa, facilidade de vibração com os elementos do meio. As FC, exatamente pela presença do elemento formal, revelam boa adaptação à realidade, modo adequado de revelar a afetividade, sinal de que o indivíduo leva em consideração o ambiente, as condições em que ele próprio se encontra e o outro em suas relações afetivas, subordinando-se ao meio. As FC são indícios de ajustamento emocional à realidade exterior. As CF indicam reações afetivas mais lábeis e instáveis, e devem aparecem em menor número que FC. Algumas CF em protocolos equilibrados revelam capacidade de

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ser espontâneo, de entusiasmo; as CF também sinalizam a tendência a abandonar-se ao estímulo, sendo indícios, portanto, de sugestionabilidade, de irritabilidade, de menor defesa do Ego às estimulações externas. Respostas como enfeites coloridos, pôr do sol, mancha de batom, buquê de flores, etc, caracterizam pessoas que possuem algo de excitáveis, impressionáveis, suscetíveis. A C pura, que não devem aparecer em protocolos normais, salva uma ou outra, compensada por outros fatores, caracterizam a incapacidade de oferecer uma resposta frente ao impacto cromático; respostas como fogo, sangue, p.ex., sugerem primitivismo, impulsividade, agressividade, passionalidade - atração do estimulante afetivo e carência total do fator afirmativo.

12.2.h. Outras respostas cromáticas - Cn, Csim, F-C, F/C

Cor nomeada - Cn: ocorre quando o sujeito nomeia as cores que identifica na prancha, dando-as como respostas; nesse caso não há interpretação da figura. Ex. L.IX: são três cores, laranja, verde e rosa.

Trata-se de um modo de perceber a cor ainda mais imperfeita que as respostas de

C puras, pois não há associação apropriada à cor. Este tipo de respostas é característico

em crianças pequenas, que designam as cores sem integração no pensamento - este é azul,

este é vermelho

Cor simbólica - Csim: são respostas que envolvem um uso sofisticado das cores, e aparecem em protocolos de pessoas normais ou não. Ex: Esta representa a primavera; O

cor-de-rosa e o azul lembram a infância; O vermelho representa o ódio. Neste caso, não é

a forma levada em consideração, mas a cor que, percebida violentamente, recebe a

atribuição de um valor simbólico como uma solução racional mais ou menos aceitável. Cor forçada - F-C: São somadas como FC, mas diferem destas pela integração forçada, ou arbitrária, da cor. Ex: boizinhos verdes; Homem de barro (de barro por causa da cor) Cor arbitrária - F/C: quando a cor é usada simplesmente para marcar subdivisões em um objeto de forma definida. A cor particularmente não importa; qualquer cor serve nestes

Em adolescentes ou adultos constituem sintomas patológicos.

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casos. Há dois conceitos principais nos quais entra o uso arbitrário da cor: mapas coloridos e representações anatômicas (como nos livros de Medicina).

12.2.i. Tv: Tipo de vivência - M:C H. Rorschach consagrou grande parte de seu Psicodiagnóstico à discussão da relação entre o número de M e a soma das cores, ao que denominou tipo de vivência (Erlebnistyp). Ultrapassando os dados empíricos, Rorschach construiu uma verdadeira teoria da personalidade baseado nesta relação. Pelas diferentes combinações de M:C temos os seguintes tipos vivenciais:

Coartado ou coartativo: 0M : 0C ou 1M : OC ou 0M : 1C Introversivo: M > C

Extratensivo: M < C

Ambigual: M : C

Os tipos coartado ou coartativo caracterizam-se pelo predomínio das respostas de forma, portanto faltando respostas de movimento humano e cromáticas, o que nos arremete à significação de carência de expressões da imaginação e da afetividade. O diagnóstico de coartação deve ser formulado em consideração à motivação e envolvimento do sujeito com a situação de exame. A inexperiência em se manejar a situação clínica, por parte do examinador, por exemplo, pode deixar o sujeito pouco à vontade, coartando sua performance. Situações nas quais o sujeito é convidado a participar de uma simulação com fins pedagógicos, são também aparentemente propícias para a produção de protocolos coartados. No uso clínico do Rorschach a situação é muito diferente das condições de simulação pedagógica; a relação clínica é desde antes uma relação de ajuda, estando, portanto o sujeito, desde a priori, buscando algo, sendo portador de uma demanda, um desejo de conhecimento acerca de si mesmo. Nesta condição, enfrenta as figuras do Rorschach disposto a revelar um enigma podendo aplicar-se muito mais à tarefa do que se o propósito da realização do teste fosse outro. O tipo coartado/coartativo, como aquele no qual predominam as formas (e por vezes também o sombreado) é caracterizado pelo pensamento lógico disciplinado, com

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hiperfunção da atenção consciente; pessoas que agem sob controle constritivo, em detrimento de outros aspectos da personalidade, tais como a vida interior, a imaginação, os afetos, a sensibilidade, a capacidade de relacionamento, etc. Pessoas formalistas, que se sentem incomodadas em situações nas quais precisam colocar em jogo componentes afetivos ou colocar à prova a imaginação caracterizam o tipo coartado. O tipo introversivo é aquele que não se satisfaz em descrever as figuras, nem reage de modo irrefletido a elas, mas que se detém, contempla o borrão, capta algumas formas para servir de suporte às suas respostas e então constrói algo que não é dado empiricamente - o movimento que visualiza - pois o borrão é estático; o movimento que descreve é uma sensação cinestésica introduzida na figura, imaginada. A resposta de forma tem um suporte figurativo real, a cor também; podem-se dizer, formas e cores estão ali, mas o movimento é todo criado, é fantasiado. Caracteriza sujeitos inteligentes, de motilidade estável, que manifestam vida imaginativa fértil; apresentam pensamento produtivo, tendem à introspecção, à estabilidade interior (não confundir com rigidez) e sublimação. Adaptam-se refletidamente à situações novas.

O tipo extratensivo, em contraste, é aquele que reage imediatamente aos

cromatismos das figuras. As cores o afetam e a reação lembra o arco-reflexo - o sujeito reage a elas. Alguns, mais histéricos, reagem inclusive de modo brusco, exaltado, Ih! não gostei desse vermelho, não!. Ou, o que é bastante comum, abrindo-se a lâmina VIII diante do sujeito, anotamos comentários do tipo Lindas cores!; Esta é alegre! - que também assinalam a reatividade ao estímulo cromático.

Os indivíduos extratensivos são mais instáveis, sintonizados com o meio externo,

apresentam maior facilidade de vibrar com os elementos à sua volta, mais comunicativos,

sempre com uma resposta pronta, ligados nas pessoas, apresentam uma mímica e expressividade corporal de rápido e fácil entendimento por todos. Os introversivos, ao contrário, são mais estáveis, refletem antes de responder, recebem os estímulos ambientais e os elaboram, não apresentam a mesma capacidade de sintonia com o ambiente dos extratensivos, pois se relacionam com o meio de modo seletivo, intensivo. É preciso mais tempo para decifrar os sentimentos estampados no rosto e na linguagem

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corporal de um introversivo, pois que possuem uma expressividade própria - é sempre mais difícil saber em que estão pensando Rorschach teceu considerações gerais sobre a relação M:C dizendo que "de modo geral, o contraste pode ser expresso da seguinte maneira: os introversivos são os indivíduos de cultura, os extratensivos são os de civilização". O tipo de pensamento do introversivo é produtivo, original, enquanto o extratensivo pensa de modo mais reprodutivo, segundo a lógica grupal comum. Rorschach caracteriza o tipo cinestésico como pouco hábil do ponto de vista motor, sendo que por isso, em termos de habilidades, dança melhor de modo performático, fazendo estilo eurítmico, em oposição ao tipo cromático que dança com habilidade e elegância, em duplas ou grupos maiores, com facilidade para acompanhar o ritmo exterior. O tipo ambigual, sempre que outros dados do protocolo sejam favoráveis, apresentam-se como tipos privilegiados, pois possuem vida interior, capacidade criadora, estabilidade, etc., dos introversivos e têm os recursos práticos e adaptativos dos extratensivos.

12.2.j. Respostas Tridimensionais - FK São respostas que dão idéia de tridimensão, de profundidade e/ou distância. Freqüentemente se referem a paisagem e muitas em perspectiva, nas quais tem papel fundamental os elementos claro-escuros, percebidos como diversos objetos separados no espaço. Segundo a iluminação imaginada, as sombras claras e escuras podem parecer mais distantes. A classificação FK é um evento raro. Implica habilidade para exercitar o controle intelectual ao enfrentar estímulos considerados usualmente perturbadores, como o sombreado e o matiz amorfo dos borrões. Imagens dadas unicamente pela simetria, como pessoas refletidas no espelho ou paisagens refletidas na superfície de um lago não devem ser classificadas como FK, a menos que a linha central escura divisora seja usada para indicar água ou outra superfície refletora. Paisagem vista de avião (ou simplesmente vista de cima) será FK se for bem organizada, com distinção de vários planos.

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As respostas FK são basicamente indicadoras de tendência à introspecção, tendência à auto-análise. As respostas tridimensionais implicam em auto-observação e comparação de si mesmo com outras pessoas. As FK representam certo uso da imaginação, e mantém relação positiva com o grau de inteligência: revelam poder de representação espacial e talento construtivo. Para I. Adrados (1973), "Uma única resposta FK significa tendência à

introspecção; duas, introspecção e análise íntima; três, introspecção com autoconsciência; mais de três, introspecção mórbida, escrupulosidade". Para M. Debieux (l987), "frustrações nas relações afetivas levam a este tipo de

resposta que, no entanto, reflete controle sobre a ansiedade resultante. (

O sujeito

procura distanciar-se de seus sentimentos para uma auto-análise, onde compara, situa, o que possibilita insights. Pode implicar autocrítica e sentimentos de inferioridade. É uma forma de controle da ansiedade utilizada por pessoas inteligentes, pois exige grande esforço intelectual".

As FK relacionam-se com os processos afetivos do sujeito, ligam-se aos afetos de natureza disfórica e depressiva. Estas respostas são utilizadas por pessoas ligadas demasiadamente ao seu próprio passado; através delas "o sujeito procura reconstruir caminhos internamente perdidos".

)

12.2.k. Difusão - KF, K Este tipo de percepção assemelha-se a um objeto fluído, inconsistente, disforme, flutuando no espaço, mergulhado em luz e sombra. Podem ser difusão pura (K) Ex:

nuvens, fumaça, nevoeiro ou associadas a certos componentes formais (KF) Ex:rolos de fumaça, nuvem com forma de gente Segundo a hipótese de Klopfer, estas qualificações - K, KF - "indicam angústia de uma natureza difusa e flutuante, que reflete a frustração de uma satisfação intelectual". Estão relacionadas com a depressão, especialmente quando é destacado o sombreado escuro das figuras. Quando mais do que duas ou três num protocolo de extensão média (R=30), podem ser indicativas de ansiedade flutuante, sensação de caos interior, afetividade à

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solta, busca de objetos para uma ligação, disponibilidade frente a sugestões exteriores, vida sentimental ativa e insatisfatória.

12.2.l. Bidimensão - Fk, kF, k É a extensão tridimensional projetada em um plano bidimensional Ex. Fk: radiografia do pulmão; mapa da Itália. kF: radiografia de uma parte do corpo humano; mapa de uma ilha k : radiografia, fotografia, mapa As respostas k, quando de conteúdo radiográfico, reúnem Anat+Rad; quando aparecem mais do que duas ou três, em protocolos de extensão média (R=30), sugerem intelectualismo, fazem supor um observador frio, lembram exame médico. Sugerem também angústia de tipo hipocondríaco e são expressões de pobreza da auto-imagem.

"Os raios-X e o mapa topográfico são os conceitos mais utilizados para este determinante. Aqui, predomina a mesma ansiedade e a tentativa de controle introspectivo do FK. No entanto, há um fracasso desta forma de defesa, pois o indivíduo não consegue elaborar a evidência das frustrações afetivas. Mantém-se distanciado destas, utilizando um falso conhecimento intelectual de seus problemas, sem conseguir sua compreensão e assimilação. Sob a aparência de controle, persiste a angústia, com prováveis momentos de crises, com repercussões físicas aliadas a sentimentos de insuficiência, impotência e desamparo". (M.Debieux, 1987)

Respostas radiográficas e mapas - nos dizem (Alcock, 1965) - "tem em comum uma qualidade intelectual, já que estão baseadas em conhecimentos adquiridos, mas fora disso são bem diferentes. As respostas de mapas são ”moderadores" (amortiguadores) úteis contra sentimentos desagradáveis. As radiografias do interior do corpo estão mais freqüentemente associadas com a ansiedade. Se o determinante principal é a forma (Fk), podemos supor que a ansiedade potencial está controlada por um pensamento lógico".

12.2.m. Textura - Fc, cF, c Há a impressão de superfície ou de textura.

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Ex. Fc: casaco de pele; urso peludo; cacto espinhento cF: rochas ásperas; chumaços de algodão c : impressão de pêlo; areia As respostas de textura estão diretamente relacionadas com o sentido do tato. Não é raro que examinandos reajam tão fortemente à sensação tátil que tateiem efetivamente a superfície das lâminas. Respostas de textura sugerem busca de afeto, de tocar e ser tocado. Quando integradas à forma, mostram o reconhecimento da necessidade de ser amado, aceito, de receber afeto. Uma ou duas Fc num protocolo (R=30) sugerem adaptação, flexibilidade ao desejo do outro, necessidade de contacto social. As respostas cF e c, que não são esperadas em protocolos normais, salvo uma ou outra resposta equilibrada por outros indícios, sugerem avidez, insatisfação de desejos eróticos, desejo de proximidade física, de ser acariciado. Quando numerosas sugerem indiferenciação do Ego em relação ao outro, sujeição, confusão entre amor e sexo:

viscosidade.

12.2.n. Cor acromática - FC', C'F, C' Classifica-se como cor acromática as respostas quando o branco, cinza ou preto das manchas é utilizado como cor e determina o percepto. Ex. FC': morcego preto; globo de luz aceso. C'F: carvão empilhado C' : neve, mancha negra As respostas acromáticas podem ser consideradas como uma diferenciação das respostas de cor, possuindo parte do significado destas. Quando, juntamente com as respostas acromáticas aparecem também respostas cromáticas em proporções aproximadas, temos o indicativo de sensibilidade de tipo artístico. Quando aparecem respostas acromáticas que não são acompanhadas de respostas cromáticas, temos representado a constelação afetiva da criança queimada, na expressão de Klopfer e Kelley (1974). "Revelam o indivíduo que aprendeu a temer seus próprios afetos em virtude de desapontamentos anteriores muito intensos. Embora basicamente responsivo, apenas com cuidado exprime suas emoções" (Cícero Souza, 1982).

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Quando aparecem várias respostas C' ou C'F num protocolo (R=30) temos indícios de indolência, apatia, natureza passivo-resignada, bloqueios afetivos, experiências de perda ou abandono (neste caso, especialmente quando na resposta é destacado o branco). Respostas acromáticas aparecem em indivíduos que aprenderam a temer seus próprios afetos em virtude de desapontamentos anteriores muito intensos.

12.2.o. Respostas F(C) de Binder São percepções referidas às finas nuanças em pequenas zonas das manchas, quase sempre Dd, onde o percepto foi originado pelo contorno delimitado pelo contraste de duas tonalidades. Pode aparecer tanto nas lâminas cromáticas como nas acromáticas Ex: (Dd C-L da L.I) seios; (Dd int. L.IX) cabeça de alce As respostas F(C), quando bem vistas, mostram um modo adaptado de reação emocional envolvendo o trabalho dedutivo. A reação aos borrões (e ao meio de modo geral) neste caso é marcada pela escrupulosidade, pela sensibilidade cautelosa. Numerosas, podem traduzir ansiedade, timidez, falta de confiança em si mesmo, tristeza.

12.2.p. Relação (FM + m):(c + C') A "fórmula vivencial de Klopfer" não é de uso consensual entre os rorschachistas; muitos a abandonaram. Normalmente, a grafia desta fórmula, tal como criada por Klopfer, é (FM+m):(Fc+c+C'). Modificamos, propositalmente, esta grafia de modo a indicar precisamente a operação que com seus termos é realizada. Adotamos também os valores da ponderação destes perceptos à semelhança do que usualmente é feito em relação aos perceptos FC, CF e C, isto é, 0,5, 1,0 e 1,5, embora os rorschachistas também não tenham chegado a consenso quanto a esta ponderação. Klopfer apresenta a significação desta fórmula, dizendo:

"As respostas FM+m representam as tendências introversivas e extratensivas que o sujeito não aceita nem utiliza inteiramente. As respostas acromáticas indicam tendências extratensivas que não são plenamente aceitas ou exeqüíveis momentaneamente. Quando o valor desta razão se inclina do mesmo lado que a

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razão de M:C, este cociente serve para reforçar e confirmar a impressão produzida pelo cociente de M e a soma de C. Mas se está em desacordo com M:C, isto parece indicar que o tipo vivencial do sujeito se encontra em transição, o indivíduo pode estar atravessando algum período de mudança em seu desenvolvimento. O cociente (FM+m):(Fc+c+C') aponta a orientação na qual o sujeito se dirige neste particular momento de sua vida: se para uma expansão mais extraversiva e se para uma concentração mais introversiva". (Klopfer e Kelly, 1974)

Alcock compara M:C, por ela chamada equilíbrio da experiência, com a fórmula de Klopfer, chamada equilíbrio interior, dizendo:

"Dado que a projeção do movimento humano bem definido corresponde à maturidade, esta proporção deve se considerada como indicadora de resultado final da interação entre um indivíduo e seu meio circundante, e desta forma, como uma manifestação de sua experiência. (Em se tratando de (FM+m):(c+C')), FM é a resposta cinética ou de movimento típica da infância quando a percepção tátil tem uma grande importância no desenvolvimento emocional. C' é agrupada com e c como outra forma de utilizar a cor acromática. O determinante m é menos freqüente nas crianças que nos adultos, mas seu significado corresponde ao conceito de poder, fora do controle próprio, associado a temores que se desenvolvem durante o período da impotência infantil. O termo equilíbrio interior é, portanto, duplamente apropriado, já que se refere à criança dentro do homem, e a sentimentos inacessíveis à consciência, na vida adulta."

12.3. Conteúdo

12.3.a Respostas de formas animais - A e Ad Loosli-Usteri (1965) destaca a importância destas respostas dizendo que praticamente não existem resultados sem A. São esperadas cerca de 35-65% de respostas

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deste tipo. Crianças produzem maior número de respostas animais, subindo esta média para cerca de 50-80%.

"Nestas respostas Rorschach via a medida da "estereotipia do pensamento" (talvez fosse mais adequado dizer "automatização do pensamento", para assinalar que se trata de um processo dinâmico), porque, segundo assegura, "não há nada que se preste mais facilmente à interpretação (hoje diríamos à projeção) que o corpo

animal em suas infinitas variedades. (

Esta estereotipia dá a medida da

)

capacidade de dispor de mecanismos mentais automatizados que funcionam sem que intervenha a reflexão." Um A%significa incoerência dos processos mentais e dispersão dos conteúdos;

um A%mais elevado indica rigidez dos processos mentais e monotonia e pobreza de seus conteúdos, pessoa pouco culta, espírito conformista, ou uma personalidade que esconde dificuldades de adaptação esforçando-se, a todo custo, por fingir ser como todo mundo, que reprime emoções e se contrai. A depressão aumenta também o A%, sugerindo apatia, (renúncia a abandonar caminhos já batidos). O humor otimista diminui A%, pois suscita renovação de idéias e desejo confiante de mudar o estado de coisas. A A% varia com a dotação intelectual. Sujeitos superiores produzem 20-40% de associações deste tipo. As respostas A lembram a facilidade de ligação emocional que a criança tem com os animais que sobrevivem no adulto. É uma classe de interpretações fáceis, indica descontração.

12.3.b. Respostas Humanas - H, (H) e Hd São consideradas respostas que indicam adaptabilidade social e interesse por outros indivíduos. Em adultos aparecem cerca de 10-30%. Esta porcentagem é mais baixa em crianças. O número de respostas humanas também cresce em função da inteligência. A ausência de H num protocolo é sugestiva de dificuldades no convívio social. Sujeitos adaptados vêm figuras humanas normais em atividades ou atitudes normais. Cenas de luta, com sangue e ferimentos, uso de armas, etc., modificam a noção de adaptabilidade, sugerindo agressividade.

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Quando Hd>H, temos um indício da dificuldade de ver o ser humano íntegro, em decorrência de uma perturbação emocional ou orgânica. Sugerem tendências hipocondríacas, especialmente quando se refere às mesmas partes do corpo ou acompanhadas de respostas Anat. Quando são vistos seres mutilados, decapitados, etc., podem ser sinais de impulsos agressivos.

12.3.c. Respostas Populares - P São esperadas cerca de 4-5 respostas populares num protocolo (R=30). São respostas indicadoras da capacidade de pensar seguindo as linhas convencionais da comunidade em quer vive o sujeito. Juntamente com A% e D refletem os elementos mais periféricos da personalidade. Indica o senso comum do indivíduo, a medida em que ele percebe o lado mais óbvio das coisas: adaptabilidade. As respostas P sugerem incorporação da Lei, no sentido psicanalítico, a sujeição ao Código. O aumento de P mostra que o pensamento está mais sujeito às normas sociais. Quando acima de 8 ou 10 indicam aceitação passiva das imposições da sociedade, falta de liberdade intelectual e de individualidade: "o senso comum flexível tornou-se então lugar-comum".

12.3.d. Respostas Originais - O Assim são denominadas as respostas que ocorrem em menos de 1% dos protocolos. A apuração das respostas O é feita com certa dificuldade para o principiante. As respostas originais denotam a extensão em que o pensamento do sujeito se afasta das normas comuns. São as marcas do que sua individualidade tem de específico e medem a diferença existente entre ele e outros elementos do grupo. As O+ são sinônimo de inteligência construtiva, lógica e bem orientada. Quando o número destas é muito elevado, indica falta de senso comum e pouco interesse pela realidade. As O- mostram que o pensamento do examinando não está seguindo as boas regras da lógica; são quase sempre sinais de desvio patológico.

12.3.e. Outros conteúdos

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Anat: configuram um complexo de inteligência, isto é, o desejo de exibir inteligência. Ocorre com freqüência em pessoas da área médica. A experiência clínica revelou serem as Anat indicativas de preocupações com a saúde física ou como uma tela para projeção de pontos fracos da personalidade. Até um máximo de 3 respostas num protocolo (R=30) é esperado. "As respostas anatômicas não só indicam, como Rorschach supunha, um complexo intelectual, como também um interesse muito marcado pela existência física nas pessoas que se sentem ameaçadas tanto em sua própria vida como em seus próprios processos vitais." (Mlle. Zangger) Anat+Geo+Cc: estas respostas são freqüentes em sujeitos que procuram ostentar sua intelectualidade. É uma maneira de ocultar seus verdadeiros sentimentos. Podem indicar uma sensação de inadequação intelectual, especialmente quando as respostas evitam qualquer compromisso com respeito à forma ou especificação definida. Obj: respostas de objetos fabricados sugerem as preocupações imediatas do sujeito. Deste modo, objetos afiados, pontudos, armas, indicam agressividade e sentimentos de estar sendo ameaçado; objetos côncavos, urnas, igrejas, cavernas, oratórios, caixas, relacionam-se à feminilidade e sexualidade feminina. Geo+Pais: sugerem atração pela natureza, quando numerosas sugerem aversão à convivência social, misoginia, narcisismo, especialmente quando "refletidas na água". Desejo de evasão. Respostas como "enseada, golfo, porto" sugerem procura de abrigo, fechamento sobre si mesmo. Quando respostas de paisagem envolvem o esfumaçado (neblina, fumaça) temos um indício de ansiedade, depressividade. Respostas de "rochedos" parecem subentender busca de solidez, de firmeza. Sg: respostas de sangue - que não fazem falta em protocolo algum - são sugestivas de agressividade, de perturbação emocional, de perda do controle emocional, de reações afetivas fortes, descontroladas (especialmente quando C pura) Masc: Máscaras podem indicar ênfase na representação de um papel a fim de evitar expor-se pessoalmente. Tendência a ocultar-se, emascarar-se. As respostas de máscaras são tão mais raras quanto melhor a relação com o examinador. São especialmente freqüentes na adolescência, estando provavelmente relacionadas, nesta fase, com a preocupação com a auto-imagem.

64

, consideradas "desvitalizações", com o sujeito petrificando os seres vivos: revelam atração pela vida e atitude recalcitrante (resistente, teimosa) para vivê-la. São respostas que expressam o medo de entrar em contato vivo com os demais. Indicam também disposição cultural do sujeito.

Arte: As estátuas, assim como desenhos de

etc., podem ser

caricaturas

de

,

12.4. Amplitude das Categorias de Conteúdo

Representa o campo de interesses do indivíduo. A média gira em torno de 5 a 10 categorias de conteúdo. Amplitude Média: bom nível de interesse, campo de interesses e horizontes amplos. Amplitude Elevada: campo psicológico amplo, voltado para vários assuntos e preocupações, sem se ater a nenhum deles especificamente. Amplitude Diminuída: horizontes estreitos do pensamento, campo de interesses restrito ou preocupações com coisas/assuntos mais específicos; prevalência de certos conteúdos.

12.5. Fenômenos Especiais

O Rorschach contém um grande número de fatores imponderáveis, que, sem que possam ser medidos possuem grande valor para a interpretação. A lista destes fenômenos é extensa (Bohn relaciona 73 fatores) e pode ser repassada, depois de computados os dados do material bruto, para comprovação de quais fenômenos podem ser identificados na produção do sujeito. Usamos registrar, junto à classificação da resposta em Loc/Det/Cont, numa quarta coluna, os fenômenos identificados. Vejamos os principais:

12.5.a. Consciência da Interpretação Rorschach já diferenciava sujeitos que interpretavam e outros que simplesmente percebiam conteúdos nos borrões. A interpretação, para Rorschach era "o trabalho de comparação dos complexos de sensações e dos engramas (rastros orgânicos do passado individual)"; em toda percepção seria efetuado este trabalho de comparação, mas

65

enquanto alguns tomam consciência deste trabalho de assimilação, possuindo uma percepção intrapsíquica do processo, e, portanto interpretando, outros não interpretam as imagens, eles as definem - "e chegam às vezes a ficar supreendidos ao saber que outros indivíduos puderam ver, nas imagens, outras coisas".

A consciência da interpretação é o normal no Rorschach; algumas vezes aparece

aguçada, quando o sujeito afirma e repete que não é realmente assim, senão que é

tal ou tal coisa, que tem alguma

etc. Preâmbulos deste tipo, sugerem resistência, hipercriticidade,

somente parecido com semelhança com, mas

, insegurança, pedantismo: "isto acontece entre alguns meticulosos que exigem de sua percepção uma íntima e estreita identificação entre complexos de sensações e o

engrama".(H. Rorschach)

O contrário é a falta de consciência da interpretação, na qual o sujeito toma como

real sua própria percepção, como se os borrões fossem fotografias de coisas concretas, apresentando suas respostas como se estivesse vendo fotografias, meramente assinalando

as figuras p.ex., quando afirmam convictamente é um morcego, óbvio, ou simplesmente morcego, etc. Respostas como definições são comuns em crianças pequenas. Segundo

Klopfer, a consciência da interpretação diminuída (até a completa anulação) significa, quando aparece em sujeitos por demais normais, uma intensa necessidade de segurança

em forma de "fuga ante a liberdade" - uma necessidade de segurança semelhante àquela dos sistemas políticos totalitários ou do pensamento de tipo militar.

, ou que faz recordar

12.5.b. Crítica do sujeito e do objeto Crítica do sujeito é quando o sujeito critica a si mesmo - não consigo dar conta disto, eu devia ter estudado anatomia, eu me sinto muito burro, etc. Sinaliza autodesprezo, sentimentos de inferioridade e de inadequação. A crítica ao objeto é quando o sujeito critica a coisa interpretada ou a

interpretação em si (coincidindo às vezes com a consciência da interpretação). A modalidade mais importante da crítica do objeto é a crítica da forma - não está perfeito,

não coincide com

Sugere prudência, reserva, crítica contra

o meio, pedantismo, sentimentos de superioridade, personalidade competitiva,

perfeccionismo, angústia.

, tirando estas partes aqui

66

12.5.c. Choque Cromático

O choque consiste numa alteração ou bloqueio dos processos associativos, podendo ser leve e correspondendo no sujeito a uma tênue reação de mal-estar, ou profundo, e manifestar-se como fracasso. É chamado de cromático quando motivado pelo estímulo afetivo da cor. Há formas mais brandas ou mais graves de choques. Fica realmente caracterizado o choque cromático quando três ou quatro dos sinais abaixo aparecem juntos:

- aumento abrupto do TR ante a primeira lâmina colorida (II) - o sujeito examina a lâmina "chocante" por mais tempo, antes de conseguir formular sua primeira resposta.

- sinais de rejeição, confusão ou fracasso inicial.

- exclamações emocionais alusivas aos efeitos da cor

- observações, exclamações e comentários indicadores de desagrado e de ansiedade. Certos indivíduos mobilizam mecanismos de defesa e tornam-se indevidamente

agressivos, irritados ou passivos.

- produtividade subidamente diminuída: cai o número de respostas numa determinada

lâmina colorida

- degradação da qualidade das respostas. Dificultadas as associações, o sujeito não dispõe mais completamente de seu intelecto: aparecem respostas F-, Anat, eleva-se o A%, M desaparecem ou são negativas, etc.

- diminuição do número ou desaparição das vulgares

- sucessão, quando metódica na maioria das lâminas, torna-se de repente irregular, diante das lâminas cromáticas.

- a primeira resposta é em espaço em branco, especialmente nas Ls. II, VIII ou IX

- a cor desaparece como fator determinante Os choques são importantes indícios de conflito neurótico, e precisam ser confirmados através de outros indícios. Normalmente, a presença dos indícios de choque cromático, quando brandos, sinalizam alguma perturbação emocional e por isso mesmo um sujeito inseguro e ansioso na presença das cores. A rejeição da lâmina, por outro lado, é considerado um indício mais seguro de conflito neurótico.

67

12.5.d. Choque ao Espaço em Branco Frente ao S o sujeito apresenta confusão ao tentar interpretá-lo, até finalmente conseguir uma resposta tímida: buraco, um vazio, etc. É raro em homens, e mais ainda em mulheres. A significação é basicamente equivalente ao estupor frente aos símbolos sexuais (vide abaixo); dificuldades com relação à mãe e figuras femininas, insatisfações amorosas, frieza afetiva. Em homens é indício de angústia ante dos genitais femininos.

12.5.e. Choque Acromático Ocorre principalmente diante da L.IV, mas também (pela ordem), nas Ls. VI, VII, I e V. Segundo Oberholzer, o choque acromático sinaliza medo da angústia e angústia frente ao desconhecido (especialmente L.I, que também sugere conflitos com as figuras parentais). "É um choque comum nos quadros fóbicos ou angustiosos. Parece estar relacionado com o medo primitivo da escuridão" (E.Bohn). Segundo Mohr, a cor negra atualiza os conflitos com a figura paterna, pois simboliza a masculinidade negativa e má. Pelo lado positivo, a ausência de cor e luz representa o imóvel, invariável, solene, a autoridade, a majestade da morte, o divino, etc; pelo lado negativo é rebelião, culpa, angústia e justiça severa.

12.5.f. Descrições Por descrições devemos entender as observações intercaladas e as "não-

respostas". O sujeito passa a descrever a mancha: aqui temos o vermelho, mais forte

ou esta parte é mais escura no sentido do eixo etc. Nas lâminas coloridas as descrições são sinais

, de pessoas que intelectualizam seus sentimentos reprimidos - presenciam, em lugar de viver. A descrição do claro-escuro tende a ser considerada uma repressão da agressividade. No geral indicam cautela, não comprometimento com as situações, racionalismo.

embaixo, alaranjado na parte de cima da mancha, mais clara nas beiradas

12.5.g. Acentuação da Simetria O indivíduo faz constantes referências à simetria das metades, dando respostas do

ou acentua o fato de serem imagens refletidas, ambos os lados são

tipo dois

ou duas

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iguais

própria impulsividade, necessidade de apoiar-se no que é exata e racional, busca de equilibração, de fixar um eixo. Freqüente em pessoas que se dedicam à área de exatas, sinalizam a separação entre razão e emoção - especialmente nas lâminas cromáticas.

A busca intensa de simetria é um signo de insegurança interior, angústia ante a

12.5.h. Perseveração

Entende-se por perseveração a inércia dos conteúdos das representações, ou seja,

a tendência a imporem-se por si mesmas novamente à consciência. Há vários tipos de perseveração.

- perseveração ordinária: o mesmo conteúdo aparece em duas ou mais respostas ou

lâminas consecutivas. Em casos mais graves pode aparecer a mesma resposta nas dez lâminas.

-

respostas é de tipo

aproximadamente igual, ex: cabeça de gato, cabeça de galo, cabeça de

perseveração

com

aderência

ao

tema:

o

conteúdo

das

- perseveração ruminante: repete-se a mesma resposta, mas entre elas aparecem outras

interpretações. Não se aplica aos casos em que o sujeito disse morcego nas Ls I e V, mas

nos casos em que o conteúdo repetido é pouco habitual, p.ex., ponte sobre um rio, palhaço sorrindo, etc

- perseveração de forma: o sujeito elege partes semelhantes na forma do borrão (quase

sempre D ou Dd), interpretando-o de diferentes maneiras, p.ex., elegendo todas as formas arredondadas, ou as semi-isoladas, ou pontiagudas, etc. - perseveração da parte interpretada: o sujeito oferece várias respostas à mesma parte do

borrão.

muito

freqüentes, denotam prováveis distúrbios orgânicos como por exemplo a epilepsia.

As

perseverações

indicam

prevalência

de

certos

conteúdos;

quando

12.5.i. Pedantismo Consiste num tipo de verbalização especial, prolixa, algo rígida e estereotipada, afetada, com cuidadosa descrição de todos os detalhes possíveis.

12.5.j. Respostas ou

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Classificamos respostas ou quando o sujeito dá 2 ou 3 respostas de uma vez com o ou entre elas: um morcego ou uma mariposa, uma montanha ou um guarda-chuva aberto, etc. É recomendável classificar cada resposta ou em separado. São um signo de certa insegurança do juízo ou medo da responsabilidade.

12.5.k. Respostas Infantis Conteúdos de estórias infantis (fadas, duendes, castelos, pirata, etc) bem como verbalizações freqüentes no diminutivo (palhacinhos, ratinhos, bonitinho, etc). São indicativas de imaturidade, de certo infantilismo, dificuldades de assumir papéis adultos e independentes, necessidade de proteção e dependência.

12.5.l. Auto-referências O sujeito recorre a fatos pessoais para justificar suas respostas. Podem ser mais diretas, do tipo "este sou eu diante do espelho", ou mais brandas, relacionadas com as vivências próprias, como "lembra um cachorrinho que tive na infância". Indicam insegurança para afirmar-se frente ao meio, sugerem também busca de contato, de vínculo, de uma situação-continente onde o sujeito possa depositar seus conteúdos mentais.

12.5.m. Valorações São observações marginais que contém um juízo de valor, p.ex., esta figura é mais bonita que a anterior, esta está bem feita. Valorações estéticas sugerem aptidões artísticas, ou a depender de como são dirigidas, sugerem agressividade, pessoas que gostam de criticar.

12.5.n. Confabulações O sujeito conta "estórias" ou coloca detalhes muito além do estímulo, p.ex., dois homens que estão lutando por ciúmes de uma mulher.

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Indicam pensamento divagativo, tendência a construir "castelos no ar", sonho, fantasias. Pode aparecer em pessoas pouco confiáveis porque criam mentiras, inventam estórias.

12.5.o. Acentuação do Centro ou dos Lados Consiste no destaque especial das áreas centrais ou laterais. Quando centrais, sugerem insegurança e medo de perder-se; quando laterais, desejo de fuga, de escapar ao estímulo.

12.5.p. Ilusão de Semelhança

Errônea suposição do sujeito de que uma ou várias lâminas são semelhantes, ex.,

Não vi esta já?, esta é parecida com aquela outra

vazio associativo sentido como desagradável, mas a causa interior e projetada sobre o percebido; trata-se de uma racionalização mediante a projeção. Pode aparecer em personalidades associais, acostumadas a projetar sobre o meio suas dificuldades. Sugere traços paranóides.

Na ilusão de semelhança há um

12.5.q. Negações e Respostas Interrogativas

Não é um morcego incerteza, busca de apoio.

;

Será que é um animal?. Sugerem insegurança, angústia,

12.5.r. Alterações Mnêmicas das Palavras O sujeito associa uma representação determinada, mas não encontra a palavra

correspondente: um desses bichos que voam à noite, se alimenta de sangue, como

chama?; essas coisas de forrar o chão também aparecem em poliglotas.

Alterações assim sugerem organicidade, mas

12.5.s. Interpretações Invertidas

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Consistem em interpretar algo de cabeça para baixo em relação ao próprio sujeito que interpreta. Correspondem ao psicoinfantilismo positivo dos pedagogos, comuns em crianças.

12.5.t. Movimentação da Lâmina Quando o sujeito apanha a lâmina e observam-na sob diferentes ângulos, este comportamento é considerado como revelador de espírito de iniciativa, embora sua ausência não signifique a falta desta qualidade. Há também os que movimentam a lâmina lentamente, indicando cautela, às vezes depressividade, e os que movem-na rapidamente, indicando instabilidade psicomotriz, ansiedade.

12.5.u. Respostas EQ de Guirdham Guirdham relacionou dois tipos de respostas, que denominou l EQa (astereognostic essentiel quality) para respostas (quase sempre de objetos) que contém

qualidades internas, p.ex., peso e solidez: Esta parece pesada

protocolos de pessoas inteligentes e com elevada aptidão para síntese abstrata; 2) EQe

(emotional essentiel quality), que são respostas A, Ad, H ou Hd que contém uma expressão fisionômica, ex Uma cabeça fantástica de um pequeno duende, triste e assustado, escondendo seu temor. As EQe aparecem em pessoas inteligentes com dotes artísticos criadores.

As EQa aparecem em

12.5.v. Estupor ante os Símbolos Sexuais Diante dos detalhes que lembram mais ou menos claramente os genitais masculinos ou femininos o sujeito dá mostras de desagrado ou perturbação, que pode se apresentar de diferentes modos ou níveis de mobilização. P.ex., diante da L.VI, digamos que o sujeito ofereça duas ou tres respostas consecutivas ao mesmo DS, invertendo a sucessão, produzindo conteúdos simbólicos (totem, homenzinho, poste, etc) Por vezes, o sujeito pode apresentar um estupor associativo, assinalando a parte da figura e dizendo

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não sei o que é isto, não me parece com nada, aqui também tem algo que eu não sei o que é, e isto? o que poderia ser? (e não produz resposta alguma), etc. Nos homens, o estupor ante os símbolos masculinos permite deduzir, em geral, angústia da castração, e o estupor ante os símbolos femininos constituem um caso especial do choque ao branco, indicando insatisfação amorosa, frieza afetiva, angústia diante dos genitais femininos. Nas mulheres, o estupor ante os símbolos sexuais masculinos é quase sempre um sintoma de angústia genital de tipo histérico, e o estupor ante símbolos femininos, ou uma dificuldade de aceitação da feminilidade, ou uma repressão da sexualidade, p.ex., como algo pecaminoso (consciente ou inconsciente).

12.6. O Simbolismo das Figuras

O simbolismo das figuras do Rorschach tem atraído a atenção de muitos psicólogos, até ao ponto de alguns deixarem de lado completamente o aspecto formal dos protocolos, analisando-os exclusivamente com base neste simbolismo. A tentação neste sentido é grande, principalmente em principiantes versados ao mesmo tempo nas teorias psicanalíticas. O perigo da intepretação do conteúdo simbólico das respostas do sujeito é o de acabarmos produzindo psicogramas que se mais se assemelham a novelas que as verdadeiras análises científicas. A este respeito, Rorschach nos mostra que é necessário encontrar o justo equilíbrio entre a interpretação do aspecto formal e dos conteúdos simbólicos.

"Em que consiste o perigo da interpretação simbólica dos resultados? Segundo a regra geral, a significação de um símbolo nunca é segura antes que este signo tenha sido aceito pelo sujeito. Antes que esta aceitação tenha sido alcançada, a compreensão do signo está suspensa e se corre o risco da autoprojeção; quer dizer, de expressar o que o símbolo significa para o intérprete, em lugar de expressar o que significa para o sujeito. Quem nos garante que acertamos? Mesmo sendo especialista no Rorschach, nunca chegaremos à confirmação deste extremo por parte do sujeito. Esta confirmação só pode vir muito mais tarde, depois de um largo contacto terapêutico. Não nos esqueçamos de que o teste lança luz promovendo algo das

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profundezas psíquicas, processo que, por outros caminhos, percorreríamos de modo

bem mais lento. Oberholzer disse de modo claro na introdução da Contribuição

tenho que dizer do diagnóstico às cegas de Rorschach que, depois de meses de análise, eu não teria podido caracterizar a personalidade do paciente melhor que o

Repito que temos que proceder com a maior circunspecção

em tudo que se refere à utilização do simbolismo para o diagnóstico individual e que

nunca devemos perder de vista o aspecto formal. Os dados que nos proporciona o simbolismo constituem, por assim dizer, algo como os últimos recursos que invocamos à delicada trama do psicograma, já estabelecido por meio da análise do aspecto formal. Ocorre, não raro, que estes dados confirmam claramente o que já

que fez o psicograma. (

: 'Só

)

sabíamos por outra fonte, e nestes casos são atenuadas nossas dúvidas com respeito ao simbolismo. Esta confirmação é lógica. Tudo brota de um mesmo psiquismo e, de perto ou de longe, o que expressa uma das facetas do resultado deve expressá-lo

também a outra. (

).

Utilizado com prudência e circunspecção, o simbolismo do conteúdo constitui um precioso aporte ao psicograma; entretanto, quem não está familiarizado com a linguagem simbólica do inconsciente fará bem em abster-se desta parte da interpretação. Atendo-se modestamente ao conteúdo formal do protocolo, que já engloba em si mais elementos que o mero resumo numérico, podem ser elaborados psicogramas com grande precisão" (cit. M. Loosli-Usteri)

12.6.a. Lâmina I: adaptabilidade ao meio social imediato

A L.I provoca, naturalmente, o impacto inicial que qualquer situação nova causa. Não é raro que o T.R. seja normalmente prolongado, especialmente se se trata de pessoa cautelosa. Trata-se de um borrão integrado, que favorece respostas do tipo G puras ou G combinatórias, após breve esforço por integrar o percepto. Respostas globais como máscara, morcego, pássaro, cara de lobo, são bastante comuns. O detalhe central evoca

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freqüentemente uma mulher (mais raramente duas), e os detalhes laterais lembram anjos, ou animais, ou aves, entre outras. A inclinação dos espaços em branco na parte superior evoca olhos maléficos, de máscara ou animal.

É um estímulo capaz de indicar se o examinando adaptou-se com facilidade ou

não à nova situação; pessoas cautelosas iniciam a verbalização produzindo geralmente respostas simples, G puras do tipo máscara ou morcego, melhorando progressivamente a

qualidade de suas respostas. Pessoas que além de inteligentes, são seguras, assertivas, desinibidas, produzem logo de início uma resposta G combinatória, considerando os detalhes laterais como figuras humanas ou animais em movimento.

A L.I mobiliza, intensifica ou desperta sentimentos de insegurança, ansiedade e

frustração, devido, principalmente, ao claro-escuro amorfo. O mal-estar é também provocado pelas disposições de olhos maléficos e a figura central feminina sem cabeça, evocativa de fantasias da mulher castrada.

A maioria dos autores considera a L.I como estímulo especial para desencadear

sentimentos reprimidos em relação à figura materna, nos primeiros contatos mãe-filho, assim como conflitos reprimidos e sentimentos de impotência (complexo de castração) reprimidos.

"A primeira, desperta vivências arcaicas. É a relação primordial com a mãe, a experiência da vida inicial, e a sua incorporação no psiquismo; é a relação com a mãe, fonte de vida e estabilidade interior, base e pivô do desenvolvimento futuro. Se despertar reações disfóricas, ansiosas, conteúdos desvitalizados, degradados, longe do humano, podemos supor a presença de uma frustração da figura materna"(Augras)

Segundo Merei, quanto à significação global desta lâmina, a hipótese é a da situação do primeiro confronto: Quem és?

A L.I e a L.X são ótimas para apreciarmos algo das relações ambientais do

sujeito; pessoas com dificuldades ambientais (trabalho, família, etc) tendem a apresentar

choque.

12.6.b. Lâmina II: ameaça a culpabilidade sexual

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Uma vez tendo o sujeito superado o primeiro desafio à adaptação (L.I), nesta lâmina, devido a presença do vermelho em tonalidade forte e do branco em maiores proporções, impõe-se nova desadaptação. Comparativamente, é mais difícil produzir uma resposta G aqui, mas em contrapartida as formas tomam um delineamento mais adequado a respostas de conteúdos familiares aos examinandos: animais, pessoas, objetos. Respostas G de boa qualidade neste cartão, assim como FC bem definidas, são em princípio dados positivos para diagnóstico; podem ser interpretadas como condições de reagir emocionalmente de forma adequada, quanto às condições de percepção intelectual e quanto à reações afetivo-emocionais. Segundo observações realizadas, a cor é o principal foco de perturbação nesta lâmina, que também representa ameaça. A cor vermelha, desta e da lâmina III, relacionam-se com os afetos e as emoções em sua profundidade e autenticidade - é uma cor evocativa de sentimentos passionais - enquanto que as cores das últimas lâminas do Rorschach, mais brandas, estão relacionadas com as reações afetivo-emocionais lábeis, com o relacionamento trabalhado e cultivado socialmente. A L.II é não raro impactante; pessoas fóbicas encontram dificuldades com esta lâmina. Para Loosli-Usteri, na L.II é onde se vê, sobretudo, a agressividade. O S central, não apenas nesta figura, mas também nas figuras VII e IX, simboliza aspectos ou sentimentos relacionados aos contatos filho-mãe na primeira infância, ou ainda, sentimentos de perda relativamente à figura materna. Alguns sujeitos dizem destas partes parece que está faltando um pedaço, ou respondem buraco vazio, evocando fortemente esta significação. A figura feminina, imago ou objeto, está ancestralmente associada à faltas, vazios e buracos - para além de qualquer associação simbólica baseada simplesmente na morfologia. A mulher é a parte que todos perdemos num passado remoto, seja por ocasião do nascimento individual, seja por ocasião da ruptura da espécie humana com a mãe-natureza. O simbolismo feminino, desde a mitologia até as interpretações psicanalíticas associa a mulher, a feminilidade e o corpo feminino com conteúdos do tipo fechadura, baú, capela, urna, janela, gruta, que, aliás, são respostas que encontramos ocasionalmente diante do Ds desta lâmina.

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"Parece relacionar-se mais com a mãe da primeira infância, representando também, pelas cores, a introdução dos afetos e, consequentemente, a aceitação pelo Pr. da própria libido" (Monique Augras)

A presença do vermelho-vivo soma-se aos demais elementos da lâmina, como o espaço em branco, a presença das figuras de animais (resposta popular), e empresta significações várias ao conjunto. Diz Cícero Vaz (1986):

"O choque ao espaço em branco deve ser compreendido sempre, em ambos os sexos, como uma luta contra o feminino, e atrás disso, a imagem da mãe castradora. Talvez justifique nossa denominação de lâmina da culpabilidade o fato de que, de maneira subconsciente, alguns sujeitos captem buraco ao centro, genital feminino (DCI), pênis (DC-S), sangue (D.vermelhos), integrado com o percepto de pessoas ou animais, sentindo-se como se algo sexual e terrível aconteceu, está ocorrendo ou pode ocorrer".

12.6.c. Lâmina III: relações interpessoais - normalidade

Nesta lâmina o vermelho está separado, e as manchas se apresentam de forma mais bem estruturada. As respostas populares são as figuras humanas, visualizadas nas zonas negras, e o laço, ou borboleta, ou gravata no vermelho central. Os conteúdos humanos aqui são bastante diferenciados comparativamente às primeiras lâminas, o que facilita ao examinando. A fase de adaptação já passou. Normalmente, o tempo de reação é curto. Podem aparecer dificuldades quanto à identificação do sexo das figuras (uma vez que apresentam simultaneamente pênis e seios), dificuldades que podem ser maiores em pessoas com problemas relacionados ao desenvolvimento psicossexual. É a lâmina representativa das vivências interpessoais; dificuldades surgidas aqui quase sempre apontam para problemas relacionados. Em protocolos de pessoas que lidam com pessoas espera-se uma resposta H nesta lâmina - se já não apareceu uma H antes.

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12.6.d. Lâmina IV: interdição paterna - Lei da Cultura

A L.IV apresenta uma estrutura compacta, de cor preta muito densa, dando idéia de algo pesado, formando uma base espalhada para os lados, como pés ou botas como que obstaculizando a passagem. É comum o TR prolongar-se, sinal de que não se trata de um estímulo fácil aos examinandos. Minkowska é quem parece dar em poucas palavras as características desta lâmina quando diz "é qualquer coisa de ameaçador, de terrível, de impenetrável, de misterioso grande, preta, sombria, maciça". Lembra noite, angústia, solidão, austeridade, superioridade. Muito freqüentemente aqui são percebidos monstros, gorila, gigante, geralmente vistos desde baixo. Esta lâmina está relacionada ao medo da autoridade paterna, complexo de castração, sentimentos de impotência. Pessoas histéricas dão choques de estupefação mesclados de comentários depreciativos diante desta lâmina.

"A lâmina IV representa a figura paterna e figuras que desempenham o papel de autoridade; provoca a impressão geral de disforia, o que, em pessoas com dificuldades de relacionamento ou aceitação do que diga respeito a autoridade paterna ou representada, facilmente se torna fator de perturbação"(C.Vaz)

Monique Augras acha que a lâmina IV

introduz "

problemas de identificação do Pr. encontram nela uma objetivação. A reação

a imagem paterna, geralmente vista como terrível ou onipotente. Os

disfórica, no homem, sugere conflitos em relação a auto-aceitação".

Para Theodora Alcock,

"A configuração da mancha, que se extende para cima partindo de uma ampla base na qual se destaca um eixo vertical e um eixo horizontal, ao mesmo tempo em que dá a impressão de movimento pela inclinação para cima da zona da bota, reforça a

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impressão da forma de um ser humano vivo. O corpo volumoso com grandes pés amplamente separados e a aparência de velho que dá o claro-escuro se combina para facilitar uma interpretação masculina baseada na realidade. Deste ponto de vista se justifica o nome que freqüentemente é utilizado lâmina do pai. O pai na projeção, carece de ternura, mais bem representando o terrível sujeito com atributos sexuais masculinos das imagens edípicas, como o demonstram as respostas de caráter sinistro".

Esta é a primeira de uma série de quatro lâminas de esfumaçado, deven do-se observar a evolução das reações frente a este material reativo à angústia.

12.6.e. Lâmina V: Ego - evidência

Trata-se da lâmina melhor estruturada dentre todas, o que provoca sensação de alívio ao examinando, após sair da embaraçosa lâmina IV. É a lâmina da expressão da realidade simples, bem estruturada e, como tal, expressa o próprio ego do examinando. É esperada aqui uma resposta popular, do tipo morcego, pássaro ou mariposa. A ausência de resposta popular aqui é um dado sugestivo. Juan Portuondo afirma que

"Juntamente com a L.III e L.VIII, esta lâmina pode ser útil para provar o sentido de realidade em alguns casos em que não são vistos nela nenhuma forma usual. Há autores que afirmam que uma aversão muito marcada contra esta lâmina (Que nôjo!, Que horrível!) pode revelar trauma sexual. Outros afirmam que as mulheres grávidas reagem sensivelmente ante ela, especialmente se a gravidez não é desejada".

Monique Augras opina em sentido complementar:

"Com acentuada simetria, esta prancha parece evocar o próprio Ego do sujeito visto de maneira ambivalente na resposta morcego ou borboleta. As dificuldades de auto- aceitação aparecem quase sempre de maneira nítida nesta prancha"

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12.6.f. Lâmina VI: sexualidade

O primeiro impacto que este cartão provoca no examinando é de qualquer coisa relacionada com sexo. O D superior assemelha-se a um pênis e o inferior a uma vagina, sendo que, no geral, lembra algo peludo. Muito comuns nesta lâmina são as respostas de textura, geralmente tapete de pele ou pele de animal com destaque para as sensações táteis, relacionadas com sensualidade, carência afetiva, desejo de acariciar e ser acariciado, etc. Engramas deste tipo reforçam o significado de lâmina da sexualidade. O eixo central desta figura é comumente percebido como coluna vertebral, e a faixa central escura desta lâmina coincidem com a forma gráfica convencional para indicar profundidade, evocando respostas como vale, córrego, canal, etc. O detalhe superior é comumente percebido como totem, cabeça de gato, farol.

"A rejeição desta lâmina, comentários depreciativos, críticas, colocar a mão sobre a parte superior para verbalizar apenas sobre a parte inferior (ou vice-versa) são sinais sugestivos de problemas relacionados à área sexual" (C.Vaz)

12.6.g. Lâmina VII: figura materna

Quem melhor descreve o significado desta lâmina é Miriam Orr quando diz:

"A forma da L.VII evoca associações de se estar abraçado, sob os braços da mãe ter assim uma sensação de segurança.

O espaço branco central lembra útero materno. Aparecem freqüentemente conteúdos como crianças brincando, meninas rindo, duas indiazinhas, duas mulheres dançando (invertida), bacia geográfica, baía, golfo, etc. A tonalidade do borrão é a mais leve e sutil das acromáticas. São dados que justificam plenamente o símbolo que se aceita para esta lâmina - a lâmina materna, por excelência. Dificuldades que nesta lâmina

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ocorram podem ser relacionadas com a figura materna ou com as pessoas do sexo feminino.

"Desperta a sensação de ser abraçado, rodeado pelos braços da mãe e, por assim dizer, sentir-se em segurança. Inversamente, o choque perante o espaço vazio do centro parece significar o medo do abandono, da frustração afetiva, e, ligando-se a traumatismos antigos, perturbações da relação com a mãe e distúrbios afetivos e sexuais que delas provêm" (Monique Augras).

Esta lâmina também estimula fortemente a produção de percepções táteis, como chumaços de algodão, rochas, etc.

"Sua natureza e conteúdo podem ter um significado do ponto de vista diagnóstico, como reflexo da atitude do sujeito em relação com os contatos, sinônimos estes de relações. Uma superfície suave, lanosa, por exemplo, implica um contato agradável e confortante; enquanto que rochas, cactos, etc., o contrário". (T.Alcock)

12.6.h. Lâmina VIII: afetos em fase de sociabilização - infância

Até agora não havia sido apresentado um cartão com tantas variações cromáticas. É por isso uma lâmina que propicia choque à cor. Mobiliza os sentimentos e emoções, já que se apresenta com estímulos pluricromáticos, embora suaves. Alguém já comparou esta lâmina com as ilustrações de livros infantis, contos de fadas, dada a suavidade das cores e a leveza do sombreado. Os animais (resposta popular) reforçam a ligação com a infância, bem como respostas também freqüentes como árvore de Natal, conteúdos de natureza e planta, etc. Esta lâmina pode representar, para o examinando, o mundo externo social e afetivo e, enfim, pela presença dos animais, como ele (examinando) é capaz de funcionar com seus instintos e seu senso de iniciativa. Durante a aplicação, a passagem da seqüência de lâminas acromáticas (IV, V, VI, VII) para a lâmina VIII quase sempre são feitos comentários, críticas, ou apresentados

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choques. Em casos de sujeitos que não manifestam qualquer alteração nesta passagem, temos algo a investigar acerca da intensidade da vida afetiva, pois pode estar sendo sinalizada uma inibição. Geralmente as três últimas lâminas cromáticas são selecionadas entre as mais

bonitas; quando ocorre o contrário, sendo escolhidas entre as mais feias (ficando pelo menos duas dentre as lâminas VIII,IX,X entre as cinco que menos gostou), estão sendo sugeridos, segundo Portuondo, "impulsos instintivos repudiados pelo sujeito".

A Lâmina VIII está entre as preferidas; a cor-pastel é tênue e contém formas

facilmente reconhecíveis, como os animais mamíferos laterais, talvez a segunda principal resposta popular de toda seqüência (após a borboleta da L.V). Por isto também o tempo

de reação é comumente curto. No DS (detalhe superior), incluindo ocasionalmente o DC (detalhe central) e até o DI (detalhe inferior), é visto comumente árvore, pinheiro, árvore de Natal. O DI é percebido às vezes como flor, ou dois cachorrinhos; o DC, como bandeiras; o DS como telhado, montanha, iceberg.

"Respostas anatômicas ou geográficas nesta lâmina sugerem atitude estereotipada e artificial frente aos estímulos afetivos; se as primeiras respostas Anat do sujeito aparecerem nesta prancha, configura-se em uma tendência a preocupações somáticas em situações de mobilização emocional intensa; localizadas no D ou no Dds central, porém, as Anat são normais".(D.Anzieu)

12.6.i Lâmina IX: sublimação

É uma lâmina caracterizada pela superposição de cores, fator que desencadeia

confusão e perturbação do examinando a ponto de ser também, junto à L.IV, não raro rejeitada, ainda que por razões distintas. O aumento do TR aqui é esperado. A produção de respostas nesta lâmina não se realiza sem um investimento energético e libidinal mais intenso que em todas as outras, desde o fato de não haver aqui respostas populares.

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"Nesta lâmina as formas são vagas, os grandes cortes dispersos, as cores vivas e distintas, estando o esfumaçado presente e tornando-se os furos centrais por vezes

fascinantes. Para chegar a organizá-la como G, é preciso integrar a maior parte de tais dados, supondo-se, portanto, inteligência superior à média e maturidade afetiva

suficiente (estágio genital, segundo a psicanálise)(

fica-se frente a frente consigo mesmo, na medida em que a personalidade seja mais

ou menos bem integrada" (D. Anzieu)

esta mancha

)Interpretando-se

Alguns autores (Orr) relacionam com a figura materna, outros com a figura do examinador (Schaffer), outros com a própria pessoa (Anzieu). Choques e rejeições nesta lâmina podem expressar conflitos, tensões, angústias existenciais, que a pessoa não está conseguindo elaborar ou com eles conviver.

"Prancha materna também, diz mais respeito ao inconsciente. Seria a nosso ver, correspondente daquilo que Jung chama a Mãe de todos nós, o inconsciente, representando, talvez, para os homens, a entidade Anima - enquanto a L.IV seria para as mulheres, além da imagem paterna, o Animus"(M.Augras)

"R. Schafer mostrou que a relação transferencial do sujeito para como examinador atinge o ápice na L.IX e que as recusas da mesma muitas vezes apresentam uma reação à atitude interior hostil do examinador" (D.Anzieu)

12.6.j. Lâmina X: relacionamento com o meio social mais amplo

O TR na L.X geralmente está entre os mais curtos de todo teste, devido, entre outros fatores, contarmos com a presença de três respostas populares e várias respostas comuns. O reconhecimento do que é culturalmente é sempre satisfatório, pois que implica a concordância das pessoas que nos são próximas e, portanto, constitui uma mostra de segurança social.

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"É ao mesmo tempo a última e a mais dispersa. Constitui-se em ruptura da transferência com o examinador; alívio por haver terminado a prova e alegria infantil, manifesta em uma multiplicidade de respostas animais; ou então cansaço neurótico e reação depressiva frente à perda do objeto"(D.Anzieu).

Trata-se de uma das lâminas que menos perturbam os sujeitos considerados normais: os estímulos-manchas se acham bem distribuídos no cartão, sem superposição ou embaralhamento das cores variadas. O examinando se coloca diante de estímulos que facilmente poderão levá-lo a conteúdos culturalmente conhecidos.

"É a lâmina do relacionamento social em seu sentido mais amplo. Geralmente é respondida de modo mais descontraído pelos sujeitos, por ser a última. É a lâmina- síntese do teste; propriamente ela congrega, numa visão só, os estímulos das demais, quer quanto à cor, quer quanto à própria estruturação das manchas"(C.Vaz)

Diferente das lâminas cromáticas anteriores, a décima apresenta uma zona acromática ampla, sendo que uma primeira resposta neste branco representa a manifestação de uma necessidade de encontrar descanso dos estímulos coloridos, detalhe que é suscetível de diversas interpretações. A disposição dos estímulos é desagradável para aqueles que só se sentem satisfeitos em dominar a situação integrando a lâmina em um todo estruturado; o aspecto desintegrado pode ser penoso para alguns casos de pessoas conscientes de perigo para a integração de suas próprias personalidades (pré-psicose), manifestando a tendência em combinar todos os detalhes por meio de uma perspectiva linear falsa, com perda do sentido de realidade. A dispersão dos elementos e o colorido, associado a alguns elementos marinhos facilmente reconhecíveis (polvos, caranguejos) evocam, freqüentemente a resposta de cena marinha. Devido a multiplicidade de cores e estímulos separados, esta lâmina evoca a própria realidade, no sentido do mundo com a variedade de coisas e cores. Também por ser a última, representa o reingresso do sujeito na realidade.

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"Miriam Orr interpreta as respostas a essa mancha como reações perante o perigo do despedaçamento, da desagregação, da imagem infernal da mãe que é a morte. J.Dufour, analisando associações livres provocadas nos Pr. a partir das próprias respostas da prancha X, chega a conclusões semelhantes" (M.Augras)

Para J.Portuondo, "as pessoas normais tendem a dar aqui não menos que 10% do total das respostas"

XI. Casos Ilustrativos

XI.1. Personalidade Psicopática (Apresentado por Isabel Adrados em "Rorschach na Adolescência Normal e Patológica").

O primeiro contato com o caso que pretendemos apresentar processou-se através do pai. Esse fato justifica-se, em termos, pois o pai achava que o S., embora com 18 anos, carecia de senso de responsabilidade que permitisse iniciativas como a de procurar ajuda psicológica, ou qualquer outra atitude que visasse subsanar aquilo que de errado apresentava sua personalidade. O S. já tinha sido submetido a diversos tratamentos sem resultado, antes pelo contrário, no decorrer dos anos e após o início da adolescência os aspectos negativos de sua personalidade se tinham intensificado. Ainda era criança e já revelava componentes de perversidade, contrastando com outros de sentimentalismo. Aos catorze anos estava com um atraso de dois anos na escola, embora fosse, no entender do pai, muito inteligente. Caçula e temporão, muito mimado, infernizava a vida do lar a tal ponto que, dos três irmãos, os dois mais velhos saíram de casa logo que começaram a trabalhar. A mãe, pessoa também nervosa, por duas vezes foi internada em casa de saúde para repouso, pois com dificuldade suportava a conduta do filho.

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Ultimamente deu de roubar carros, indo por duas vezes parar na Delegacia; falsificou a assinatura do pai, retirando vultuosa quantia que gastou desordenadamente;

faltou diversas vezes à sua hora de análise. Sempre achou que os analistas e psiquiatras que lhe deram assistência eram verdadeiros "malucos". Exime-se de qualquer responsabilidade e sempre põe nos outros a culpa do que com ele acontece de errado.

O pai, pessoa equilibrada, de nível superior e exercendo um alto cargo no Estado,

deseja ter um diagnóstico "claro" sobre a personalidade do filho. O laudo foi solicitado pelo psiquiatra responsável pelo tratamento atual. A mãe é a figura dominante no lar, embora com um equilíbrio bastante instável de personalidade; com os filhos é superprotetora e muito amorosa com o marido, constituindo um casal harmonioso.

Quando ao S., é um rapaz muito bem apessoado, alegre e exuberante, completamente alienado dos seus problemas, que, inclusive, não considera como tais. Relata que teve dificuldades unicamente na esfera sexual por volta dos 14 anos em decorrência da falta de orientação. Masturbação intensiva, de tipo compulsivo e

ostensivo. Superada essa fase, acha que os pais cismaram com ele, pois gastam o dinheiro à toa nos mais variados tratamentos. Gosta de todas as moças, "ou, para dizer melhor, elas é que gostam de mim". Nesse sentido, conta uma série despropositada de vantagens, inclusive com mulheres casadas. Acha-se "o maior" em matéria de sexo e amor, embora não leve nada a sério.

Já fez psicoterapia e outros tratamentos que não sabe explicar, como também não

sabe explicar porque os fez, pois se sente calmo em extremo, talvez por causa dos remédios, quando fez os testes tomava "Anatensol" e um calmante cujo nome não conseguia lembrar. O contato inicial, assim como os outros que se sucederam, foi excelente. Foi submetido a uma bateria de testes de personalidade e o protocolo do Psicodiagnóstico do Rorschach foi o seguinte:

L.I: 10" - l'10"

1. Uma máscara bastante assustadora com os furos aqui (os furos são simétricos)

Gs

F+

Másc

2. Lembra um totem indígena (tem a forma de um totem) G F- Símb

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3. Uma escultura moderna (parece de bronze, pelas diferentes tonalidades)

4. Me

lembra

aquelas

L.II: 28" - 1'30"

bandejas

superpostas,

G Fc+ Arte

de

doces

G

F+

(unicamente

Obj O+

o

feitio)

1. Parece uma escavação, o começo de um túnel ou caverna (idéia de profundidade)

Gs FK. Arq

2. A estrutura feminina de um parto. O vermelho seria o sangue.

L.III: 4" - 1'25"

Gs CF- Anat

1. Uma radiografia do tórax com o pulmão, etc. (foi toda mancha, incluindo este branco)

Gs

F-

Anat

2. Uma visão do semitórax da região cervical e vaginal da mulher [D preto sem as

pernas]

Dds

F- Anat/Sexo

3. (inv.)Um homem muito gordo com as mãos na cabeça como se estivesse se rendendo

(homem em posição de entrega)

G

M+ H O+

L.IV: 10" - 1'45"

1. Uma radiografia do tórax

G

kF- Anat

2. Parece a parte inferior de um gigante ou um espantalho sentado num toco de árvore

(estático como se fosse uma escultura vista de baixo)

G

F+

(Hd)

3. Parece também as patas de um gorila bem peludo sentado num tronco de árvore (vejo

apenas as patas)

G

Fc+ Ad

 

L.V: 10" - 1'35"

1. Uma mariposa preta

G

FC'+

A

P

2. Um morcego voando

G

FM+

A

P

3. Um borrão de tinta espalhando-se

G

Km

Tinta

4. Agora uma peça íntima de roupa feminina (espartilho ou soutien)

G F-

Vest

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1. Uma cobra saindo de um buraco

G

FM+

A O+

2. Explosão de bomba atômica (a fumaça com movimento) G

Km

Explo