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EDIÇÃO LISBOA TER 12 MAR 2013 Textos de Raul Brandão finalmente reunidos p30/31 CHRISTIAN HARTMANN/REUTERS

EDIÇÃO LISBOA TER 12 MAR 2013

Textos de Raul Brandão finalmente reunidos p30/31

CHRISTIAN HARTMANN/REUTERS CONCLAVE, DIA 1 CORRIDA PELA SUCESSÃO DE BENTO XVI VAI COMEÇAR Sofia Lorena,
CHRISTIAN HARTMANN/REUTERS
CONCLAVE, DIA 1
CORRIDA PELA
SUCESSÃO DE BENTO
XVI VAI COMEÇAR
Sofia Lorena, em Roma
Destaque, 2 a 5

Funcionários públicos vão descontar menos para ADSE

O Governo decidiu reduzir a base de incidência dos descontos para a ADSE. Os funcionários públicos que estavam a descontar sobre a totalidade das remunerações, incluindo horas extras, verão esse desconto reduzir-se Economia, 18

Troika dá mais um ano a Portugal para a redução do défice

Portugal obteve dos credores internacionais mais um ano para conseguir reduzir o défice público para valores inferiores a 3% do PIB, noticiou a Reuters p17

PS propõe ao Bloco e ao PCP acordo para as autárquicas

Os socialistas querem clarificar a disponibilidade dos dois partidos para entendimentos alargados nas próximas eleições autárquicas p8

Livro 360º Ciência Descoberta

Catálogo da exposição patente na Gulbenkian

HOJE Por

+ 9,90€

da exposição patente na Gulbenkian HOJE Por + 9,90€ Capriles e Maduro trocam insultos na Venezuela

Capriles e Maduro trocam insultos na Venezuela

Henrique Capriles é o candidato da oposição nas eleições de Abril. Capriles acusou Nicolás Maduro de ter mentido sobre o estado de saúde de Chávez p22/23

Ano XXIV | n.º 8371 | 1,10€ | Directora: Bárbara Reis | Directores adjuntos: Nuno Pacheco, Manuel Carvalho, Miguel Gaspar | Directora executiva Online: Simone Duarte | Directora de Arte: Sónia Matos

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DESTAQUE

| PÚBLICO, TER 12 MAR 2013

CONCLAVE, DIA 1

Bento XVI mudou regras, “Deus decidiu” e agora só falta os cardeais votarem

Renúncia do Papa alemão obrigou a Igreja a um exame de consciência. Mas também pode ter ajudado a explicar “o que é a fraternidade”. Conclave arranca hoje

Sofia Lorena, em Roma

N ão, hoje não haverá “fumo branco” no Vaticano, mas já haverá fumo, quando tiverem passado alguns minutos das oito da noite em Roma. Hoje, abre o pri-

meiro conclave em 600 anos depois da renúncia de um Papa. Bento XVI será o grande ausente presente de muitas formas: para além da força da própria renúncia, foi Ratzinger que nomeou 67 dos 115 cardeais e foi ele que definiu parte das regras do jogo, através das emendas à Constituição

Apostólica, em 2007, e das leis que reafirmou ou introduziu no Motu Proprio de dia 25 de Fevereiro. Antes do conclave, durante a ma- nhã, haverá a Santa Missa Pro eli- gendo Romano Pontifice, presidida pelo decano do Colégio Cardinalí- cio, Angelo Sodano, e aberta aos fi-

éis que couberem na Basílica de S. Pedro. À tarde, pelas 16h30, os car- deais sairão por fim em procissão da Capela Paulina até chegarem à Ca- pela Sistina. O ritual dura perto de uma hora e acaba quando o maltês Prosper Grech rezar a extra omnes (todos fora), último acto antes do encerramento das portas. Debaixo do tecto de Miguel Ânge- lo não se debate, só se vota. E assim acontecerá, uma vez mais, até que 77 cardeais, dois terços dos eleito- res, tenham escrito o mesmo nome nas folhas de voto. “O primeiro fumo dificilmente se- rá positivo, tratando-se da primei- ra votação”, disse o padre Federico Lombardi, porta-voz do Vaticano, na conferência de imprensa que se se- guiu à última das dez congregações gerais, os encontros de pré-conclave abertos a todos os cardeais (mesmo aos que não votam) e onde tudo se pode discutir.

(mesmo aos que não votam) e onde tudo se pode discutir. A primeira votação funciona co-

A primeira votação funciona co- mo as eleições primárias de um par- tido e serve para identificar candi- datos. A partir daí, tudo depende do número de pretendentes com hipóteses de aceder ao trono e da quantidade de apoios com que che- gam ao conclave. Nos últimos 167 anos nenhum conclave durou mais de cinco dias e não se espera que este ultrapasse essa marca, disse ainda Lombardi. Se houvesse candidatos assumi- dos e campanha eleitoral, esta te- ria encerrado no domingo, quando os 115 cardeais se espalharam pelas igrejas de Roma para rezar missa, como manda a tradição – quase to- dos são titulares de uma igreja na cidade que rodeia os 44 hectares do pequeno Estado do Vaticano. Ao italiano Angelo Scola cabe a Basílica dos Doze Apóstolos, no centro antigo. O arcebispo de Mi- lão entrou e saiu pelas traseiras,

mas pelo meio veio à rua, junto dos jornalistas: “Disseram-me que vos devia benzer”, afirmou. O brasilei-

ro Odilo Scherer entrou pela porta da frente da sua igreja, Sant’Andrea

al Quirinale. Lá dentro, deixou cair

uma hóstia ao chão e ofereceu a sua

bênção a um casal, Carmine e Maria Persichetti, que festejavam 70 anos juntos. “Eu ainda não era nascido. Isso é mesmo possível?”, brincou Odilo Scherer.

Vigilância reforçada

Se no domingo se encerrou a cam- panha, ontem foi ainda dia de discussão. Nem todos os cardeais

quiseram encerrar as congregações

e alguns votaram vencidos, dese-

jando mais um encontro da parte da tarde. De manhã, houve tempo para 28 intervenções; ao todo, 161 cardeais puderam falar desde que se abriu o pré-conclave, na segun- da-feira da semana passada.

O tema da manhã foi o Instituto para as Obras Religiosas, o banco do Vaticano, que enfrenta proble- mas financeiros e foi castigado pelo Banco de Itália por violação das leis

contra o branqueamento de capi- tais. Tarcisio Bertone, secretário de Estado de Bento XVI e agora camer- lengo, papa interino no período de sede vacante, partilhou com os res- tantes os esforços da banca católica para aumentar a transparência das suas contas e negócios. Por causa do Motu Proprio de Bento XVI, os 115 eleitores não es- tão só obrigados ao silêncio. A par- tir de hoje, serão também vigiados e “protegidos no percurso que separa

Santa Marta [onde se situam os apo- sentos que vão ocupar a partir des- ta manhã e que foram sorteados] da Sistina para evitar encontros ou aproximações”. Para além dos 115 cardeais, 90 pessoas vão participar no esforço do conclave (cozinhei-

PÚBLICO, TER 12 MAR 2013 |

DESTAQUE |

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ARTURO MARI/AFP

A

primeira

ARTURO MARI/AFP A primeira

votação dos

115 cardeais

será feita

hoje à tarde e

Destaque

dificilmente

Siga o conclave em

o

Papa será

www.publico.pt

77

Eleição fica consumada quando 77 cardeais, dois terços dos eleitores, escreverem o mesmo nome nas folhas de voto

ros, camareiros, enfermeiros…) e ontem já todas pronunciaram o seu juramento de silêncio na Ca- pela Paulina. Na missa que celebrou em Roma no domingo, o cardeal Christoph Schönborn contou que a demis- são de Bento XVI o fez chorar, mas descreveu-a como “um gesto humil- de” que “fez compreender o que é a fraternidade”. Nas congregações gerais, garantiu Schönborn, e ape- sar dos assuntos espinhosos, dos pedidos de consulta ao relatório

sobre o Vatileaks às discussões so- bre as denúncias de abusos sexuais cometidos por membros do clero, viveu-se “uma comunhão fraterna como nunca tínhamos vivido en- tre nós”. “Tenho a impressão de que com este gesto tão surpreendente já se iniciou uma profunda renovação da Igreja, uma espécie de conversão pastoral”, concluiu o arcebispo de Viena, estudante e amigo de Rat- zinger durante 40 anos. Agora, falta só os cardeais vota- rem. Antes, uma última missa em comunhão com os fiéis. “Oremos juntos para que o Espírito Santo in- dique ao colégio de cardeais aquele que já foi eleito por Deus”, pediu no domingo o cardeal canadiano, Marc Ouellet, antes de falar da polémica dos documentos roubados da secre- tária de Ratzinger. “Até Bento XVI perdoou, antes do Natal, aqueles que o atraiçoaram”.

escolhido

logo aí

As regras da eleição

A “beleza” mantém-se com os sinais de fumo

A tradição e “a beleza”

ditam que não se mude

tudo. Por isso, é à mão

que os 115 cardeais vão

escrever o nome do seu eleito sempre que uma votação for convocada, a primeira já hoje pelas 17h30 (menos uma hora em Portugal). A Constituição Apostólica determina até que esse voto seja inscrito com uma caligrafia que não permita identificar o eleitor, explicou aos jornalistas Juan I. Arrieta, secretário do Conselho dos Textos Legislativos, dias antes de Bento XVI deixar o Vaticano. A Igreja Católica recusa abandonar também o sinal de

fumo que anuncia ao mundo

a eleição, e foi de “beleza” que

falou o porta-voz, Federico Lombardi. Fumo negro até que 77 cardeais, dois terços dos 115, escolham o mesmo nome; fumo branco quando o tiverem feito e antes que o novo Papa assome à varanda. Até lá, as regras definem que os cardeais se limitem a votar, sucessivamente, duas vezes de manhã e duas à tarde. No fim de cada sessão os votos são queimados na mesma chaminé onde se deposita o corante que distingue as votações sem vencedor da que permitir escolher o novo Papa. Depois de jurarem segredo absoluto (um sistema eletromagnético, semelhante aos usados nas operações militares, bloqueará contactos telefónicos ou via Internet), os eleitores só podem mover-se entre os seus aposentos e a Capela Sistina. A cada três dias param para rezar

e reflectir; depois recomeçam. As regras existem para serem mudadas e foi Bento XVI, quando emendou a Constituição Apostólica, a decidir que mesmo em caso de empate, quando dois cardeais obtêm os mesmos votos e se realiza uma segunda volta, continua a ser necessária uma maioria de dois terços para definir o eleito. Neste caso, os finalistas não votam. S.L.

Sairá o Papa de uma igreja vigorosa como a brasileira?

Sofia Lorena, Roma

O s cardeais que esta tarde se vão sentar nas 115 cadei- ras de madeira que há dias os esperam no interior da Capela Sistina chegaram a Roma vindos de 48 países

dos cinco continentes. Deles se es- pera que representem toda a Igreja

Católica, 1200 milhões de fiéis, e que elejam o melhor entre todos. “É evidente que embora a Igreja esteja em todo o mundo, os europeus

e todos os outros estão conscientes

do impacto que teria a eleição de um Papa não-europeu. Bastava isso para

a eleição em si mesma enviar uma

mensagem de mudança”, diz Andrés Beltramo, vaticanista mexicano. Co- mo nunca, é de mudança que hoje

falam os católicos, e foi isso mesmo que pediram muitos dos cardeais nas congregações gerais que prepararam

o conclave.

Sem um candidato claro, como foi Ratzinger, em 2005, e depois da sua renúncia, fiéis e analistas coincidem na opinião de que só um Papa espe- cial pode recuperar o Vaticano. Esse Papa pode vir de qualquer país, mas tem de conseguir levar a sua mensa- gem de fé aos católicos do mundo. “Faz sentido que esta pessoa surja de uma Igreja madura”, afirma Bel-

tramo, que recusa atribuir favoritis- mos à sua América Latina.

É verdade que o Brasil é o país com

mais católicos e o arcebispo de São

Paulo, Odilo Scherer, “goza de uma boa imagem na Cúria romana e é alguém que assumiu uma diocese com problemas e foi duro a enfren- tar esses problemas”, diz Beltramo. Mais: quando todos exigem refor-

mas, Scherer “já tem uma experiên-

cia de reforma da Cúria, pelo menos em São Paulo, que é a diocese mais importante do Brasil”.

O cardeal de origens alemãs e 63

anos tem ainda suficientes “amizades entre os italianos para tornar possível que alguns lancem a sua candidatu- ra”. Já o fizeram e, segundo escreve o Vatican Insider, publicação do diário La Stampa, Scherer entra no concla- ve com 25 votos seguros. “A Igreja latino-americana de- monstrou maturidade, pode mes-

mo falar-se numa revitalização, de um crescimento, enquanto em tan- tas partes da Europa há crise de fé e de vocações. É uma Igreja que fez o seu caminho, que soube gerir a sua realidade própria, independente da dependência histórica da Europa”, descreve Beltramo. Mas no conclave, lembra o vatica- nista, jornalista da agência mexicana Notimex e colaborador do Vatican Insider, só há 19 eleitores latino-ame- ricanos. Os europeus são a maioria e só italianos, por exemplo, há 28, in- cluindo 19 membros ou ex-membros

da Cúria romana. Numa entrevista ao Vatican Insi- der, o cardeal Telesphore Toppo, um

dos cinco indianos eleitores, defen- dia que “é a Igreja local com uma fé católica forte que determina” a elei- ção de um Papa. Entre as mais fortes, Toppo enumera a polaca e a bávara, de onde saíram os dois últimos Su- mos Pontífices, a Igreja espanhola e a

da Itália, a das Filipinas e as de alguns países da América Latina. A nacionalidade não diz tudo – Scherer, filho de imigrantes ale- mães que fala um italiano perfeito, foi membro da Congregação para os Bispos entre 1994 e 2001 e é um dos cinco cardeais responsáveis pela su- pervisão do banco do Vaticano. De Scherer quase se poderia dizer que é mais italiano do que o italianíssimo Angelo Scola, o arcebispo de Milão que o vaticanista Paolo Rodari consi-

dera um dos principais papabili. Scola, por seu turno, é o único car- deal que parece reunir ainda mais apoios do que o brasileiro à entrada para o conclave. Com ele, para além de alguns italianos e dos represen- tantes da Igreja a oriente, estarão os 14 cardeais da América do Norte. Foi Bento XVI que nomeou Scola para Milão, transferindo-o da sede patriarcal de Veneza, uma promo- ção inédita. Depois, quis dar-lhe a

presidência da Conferência Episco- pal italiana, mas o seu secretário de Estado, o hoje camerlengo Tarcisio Bertone, opôs-se. Historicamente, os Papas são eu- ropeus: 254 dos 265 homens que até agora lideraram a barca de S. Pedro nasceram na Europa, e a última ex- cepção a confirmar a regra foi Gregó- rio III, da Síria, Papa de 731 a 742.

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DESTAQUE

| PÚBLICO, TER 12 MAR 2013

CONCLAVE, DIA 1

O Vatileaks “só mostra que este é um Estado como os outros”

Gianluigi Nuzzi gostava de uma Igreja menos italiana, como no sonho de Ratzinger. Para começar, queria um conclave que fizesse justiça ao Papa alemão e à herança que este deixa ao sucessor: o relatório sobre os documentos que Nuzzi publicou

Entrevista Sofia Lorena, em Roma

J ornalista de Milão que o trabalho e o reconhecimento trazidos pelos dois livros dedicados ao Vaticano obrigam a passar metade do

tempo em Roma, Gianluigi Nuzzi chegou atrasado ao encontro marcado no bar do Ambasciatori Palace, na elegante Via Veneto da capital italiana. Pediu desculpas, respondeu às perguntas, e saiu a correr. Antes, ofereceu-se para continuar a conversa por email; depois voltou a desculpar-se pela “velocidade”. Nuzzi esforça-se por distribuir os louros: os livros em que publicou documentos secretos do Vaticano não explicam tudo. Mas a revelação dos casos expostos nas cartas que lhe vieram parar às mãos, “e mais alguns episódios de que ainda não temos conhecimento”, também ajuda a perceber a renúncia de Bento XVI. O jornalista não diz se isso lhe dá prazer. “Quando o livro saiu, tudo o que parecia importar era caçar as minhas fontes. Agora, depois de o Papa se demitir, deixa- me contente que as pessoas se tenham começado a interrogar ‘mas afinal, o que é que estava escrito naquelas cartas’?”, prefere dizer. Sua Santidade faz um retrato do Vaticano, através da narração de dezenas de episódios que as centenas de documentos que lhe foram entregues descrevem. Depois de Vaticano

SA, onde expunha o esquema de branqueamento de capitais no Vaticano, o que é que estes novos documentos traziam que mais o tenha surpreendido? Do ponto de vista emotivo,

espantou-me muito a percepção de um Papa que foi deixado sozinho

e que não tinha um conhecimento

pleno dos factos importantes. O segundo aspecto surpreendente, para mim, é a linguagem interna dos documentos, não de todos, mas de muitos, que é uma linguagem muitas vezes fortemente hipócrita. A leitura dupla do que dizem, para lá dos formalismos um pouco barrocos, denota muita hipocrisia. Os documentos são também uma espécie de máquina do tempo, entrar naquele mundo

é entrar numa máquina do tempo.

Só um exemplo: até há pouco tempo, os textos nos multibancos do IOR [Instituto para as Obras Religiosas, banco do Vaticano] eram escritos em latim. Fala de uma linguagem fortemente hipócrita. Sim, e isso tem que ver com outro aspecto que me surpreendeu. Atrasei-me a chegar aqui porque estive na Porte de Roma [um

subúrbio] a entrevistar um padre pobre de Borgata. A distância entre aquela Igreja e a Igreja dos palácios só se pode medir em sistemas solares. E eu ainda sou capaz de me surpreender com isso. Também me espantou perceber como a Cúria foi um travão

à actividade reformadora de

Ratzinger. A incapacidade de

Ratzinger de reformar a Cúria foi

o que paralisou o seu Pontificado.

Por último, surpreendeu-me a centralidade da figura de Tarcisio Bertone, o secretário de Estado. Ratzinger, talvez por causa da sua falta de capacidade política, sempre muito mais orientado para uma abordagem intelectual e teológica, deu muito poder a este

secretário de Estado e ele teve uma capacidade que em Itália só teve [Silvio] Berlusconi, a de coagular em si mesmo pessoas muito diferentes entre si. Bertone, que hoje é camerlengo, continua a ser muito poderoso? O facto de nos últimos dias ele ter formado aliança com Angelo Sodano, o secretário de Estado anterior, é um sinal explícito das dificuldades que a Igreja italiana que se prepara para entrar no

conclave enfrenta. Bertone ainda tem um grande poder na Cúria, mas está num momento de grandes dificuldades. E não nos podemos esquecer de que para eleger um Papa são precisos muitos votos. Dois terços dos 115. Mas há cardeais com mais poder de influência do que outros. O problema que se coloca é a questão do ticket, é preciso pensar no Papa e no secretário de Estado ao mesmo tempo, foi isso que os cardeais fizeram nas congregações. Como cidadão, alegrar-me-ia que nem um nem outro fossem italianos. Um Papa não italiano, até não europeu, é possível. Mas um Papa não europeu com

um secretário de Estado que também não saia da Cúria? Este era o velho sonho de

Ratzinger: dar representação a

Este era o velho sonho de Ratzinger: dar representação a todas as comunidades católicas do mundo

todas as comunidades católicas do mundo e tirar as sedes da Igreja Católica da Itália. O facto de a correspondência do Papa e dos seus colaboradores ter saído do Vaticano, ter sido publicada e poder ser conhecida por todos os que queiram saber, já muda tudo? Saber-se, em si mesmo, faz a diferença? Quando o meu livro saiu, tudo o que parecia importar era caçar as minhas fontes, descobrir quem tinha feito sair os documentos do Vaticano. Agora, depois de o Papa se demitir, deixa-me contente que as pessoas se tenham começado a interrogar “mas afinal, o que é que estava escrito naquelas cartas”? Mas o conhecimento muda a realidade? Ou ainda é cedo para

perceber o que pode mudar de facto na Igreja? Quando eu publiquei Vaticano SA, isso acelerou os processos de mudança no sentido da transparência financeira no interior do IOR e do Vaticano. Eram processos que já estavam em curso, mas que aconteciam muito lentamente. Não foi só o meu livro, foi o Banco de Itália dizer à polícia, “atenção que o banco do Vaticano não opera de forma limpa”. [O mordomo do Papa, entretanto condenado pelo roubo de documentos confidenciais] Paolo Gabriele e outros no interior do Estado do Vaticano, ao verem as mudanças que foram aceleradas pelo livro, encontraram coragem e decidiram divulgar as informações de que dispunham sobre os

PÚBLICO, TER 12 MAR 2013 |

DESTAQUE |

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PÚBLICO, TER 12 MAR 2013 | DESTAQUE | 5 Não é possível pensar que um Papa

Não é possível pensar que um Papa renuncia porque está cansado. Isso é verdade, mas é uma parte da verdade

Gianluigi Nuzzi

Jornalista

mas é uma parte da verdade Gianluigi Nuzzi Jornalista NUNO FERREIRA SANTOS problemas que perturbavam o

NUNO FERREIRA SANTOS

da verdade Gianluigi Nuzzi Jornalista NUNO FERREIRA SANTOS problemas que perturbavam o Santo Padre e outros

problemas que perturbavam o

Santo Padre e outros católicos que trabalham no Vaticano.

E o facto de esses documentos

terem sido publicados em livro

e noticiadas em todos os jornais

do mundo contribuiu para a decisão de Bento XVI? As histórias contadas nos documentos, e outras histórias que não conhecemos, terão tido influência na decisão do Papa. Não é possível pensar que um Papa renuncia porque está cansado. Nem eu conto fábulas destas aos meus dois filhos quando os quero adormecer à noite. Isso é verdade, mas é uma parte da verdade. É muito interessante rever todas as intervenções do Papa nestes dias. Desde o anúncio da renúncia, falou de individualismos, de

carreirismos e de divisões que deturpam o sentido da Igreja. O principal crítico é ele, que tem

uma formação intelectual de um homem de regras e de rigor.

Ainda vamos perceber melhor a decisão da renúncia? Sim, é preciso esperar para ter uma visão histórica e não apenas crónica. Eu sempre tive uma simpatia por Ratzinger, até pela empatia profunda que descrevia Gabriele. Depois, claro, também o acusou de ser ladrão, mas isso teria sido um clamoroso autogolo, ter um potencial ladrão tão próximo do Papa por tanto tempo. O gesto de Gabriele foi uma grande prova de músculo, estamos a falar de alguém que passou fotocópias aos jornalistas. Mas estes não são documentos cobertos por

segredo militar, foi o Vaticano que chamou Vatileaks ao caso, para

o associar à Wikileaks. Mas aqui

não há segredos que ponham em causa a segurança e o interesse nacional, segredos assim eu nunca publicaria. Estes documentos só

protegiam os erros e os disparates cometidos pelos responsáveis de um país, um país que se pensa ser uma teocracia mas que na verdade

é um Estado como tantos outros. É a renúncia que torna a mudança na Igreja e a reforma da Cúria inevitáveis?

É preciso ver o que vai acontecer.

Nas congregações gerais percebemos que há cardeais que querem saber factos, que pedem clareza antes de entrarem em conclave, que não têm nada a esconder. Outros discordam. Eu

De Vaticano SA a Sua Santidade

D ois livros, centenas de documentos e dezenas de segredos revelados. Agora, será sempre este

o currículo do jornalista da revista Panorama, que tem um programa semanal na televisão privada La 7. Gianluigi Nuzzi teve sorte. Duas vezes. Primeiro, em 2008, tropeçou no arquivo “de um monsenhor, Renato Dardozzi, director da Academia de Ciências Pontifícia e conselheiro financeiro oculto do anterior secretário de Estado do Vaticano, Angelo Sodano”. Dardozzi ocupava-se de todos os problemas do IOR, do

banco do Vaticano, e é assim que Vaticano SA (Editorial Presença) conta, “através de documentos internos do IOR, como é que o dinheiro era lavado no IOR”. Depois, o mordomo do Papa decidiu que era a Nuzzi que devia entregar fotocópias dos documentos que passara anos a arquivar. Nuzzi aceitou e Gabriele passou a ser “Maria”, nome pelo qual o jornalista o tratava nos encontros secretos que tiveram, o mesmo nome lhe dá ao longo das mais de 300 páginas do livro (Sua Santidade — As Cartas Secretas de Bento XVI, Bertrand) que escreveu a partir desses documentos.

acredito que a força do Papa é exactamente esta. A sua herança

tem uma força devastadora, ele

deixa em herança ao seu sucessor

o dossier sobre o Vatileaks [a

investigação que encomendou depois das revelações], que eu

não li, mas que sei que ele não partilhou com ninguém, nem com

o seu secretário de Estado, o que é

impensável.

Eu acredito que a reforma da Cúria é uma agenda inevitável, que terá de assumir uma grande centralidade no futuro próximo.

Para além de todos os problemas

que afligem a Igreja, como a diminuição dos fiéis na Europa,

a crise de vocações, o medo de

países como a Índia e a China, com

tantos católicos mas alguns ainda clandestinos.

Nas congregações também se discutiu o banco do Vaticano.

Aí, as mudanças podem ter sido aceleradas, mas falta mudar muito desde o Vaticano SA. Sim, quando eu vi os documentos internos do IOR percebi que o esquema que as autoridades acreditavam que tinha acabado nos anos 1990 afinal não tinha desaparecido, só tinha mudado. No seu lugar tinha sido criado um sistema de contas correntes paralelo, com o qual foi possível branquear, em poucos anos, 300 milhões de euros através de fundações de beneficência inexistentes. Fundações, não me canso de o repetir, com nomes como Fundação da Luta contra a Leucemia, das Crianças Pobres, da Nossa Senhora de Lourdes… Nomes falsos mas feios, muito feios, que mostram padres sem qualquer pudor.

O futuro está por escrever?

Este é um conclave, por milhares de motivos, único, estamos a viver História. Não se trata, com todo o respeito, de um Papa que morreu, mas de um Papa que deu um passo

atrás. Houve tantos escândalos mas também houve, ao longo dos últimos 20 anos, uma grande aceleração dos processos de mudança do mundo. A Igreja está obrigada a conseguir transformar- se, a pôr-se a par do tempo. Não sei se o conseguirá, isso é uma pergunta para um teólogo, mas é fascinante. Num cenário de mudança, em que fosse eleito um Papa estranho à Cúria, as relações entre o Vaticano e a política italiana passariam a ser

secundárias?

O actual Governo de Mario

Monti teve seguramente uma óptima relação com o Vaticano,

mas não creio que isto esteja na agenda das congregações. Em Itália temos um Parlamento muito conservador nas questões

de bioética e de costumes, nos

temas aos quais a Igreja é sensível, independentemente dos partidos. Mas as relações da Igreja com

a política também envolvem

negócios. Ou não?

É possível que envolvam, mas é

preciso esperar pelas investigações

e pelas provas. Digamos que o

poder do Vaticano sobre a política

italiana sempre foi forte. E por alguma razão este país está tão atrasado em tantos aspectos da modernidade.

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PORTUGAL |

PÚBLICO, TER 12 MAR 2013

Autarcas vão poder destituir executivos supramunicipais

Maioria parlamentar ultrapassou divergências na proposta de Relvas e tentou incentivar mais a participação dos autarcas no processo de decisão das comunidades intermunicipais

Autarquias Sofia Rodrigues

O órgão que reúne os presidentes

de câmara de uma comunidade

intermunicipal vai poder demitir

a comissão executiva. Esta é uma

das alterações à proposta de lei das comunidades intermunicipais apre- sentadas pela maioria PSD/CDS. Há uma maior participação dos autar- cas nas decisões e uma maior fiscali- zação das comissões executivas. Depois de ter evidenciado algu- mas divergências entre o PSD e o CDS, a proposta de lei esteve a ser limada entre os dois partidos da co- ligação nas últimas semanas. Os cen- tristas conseguiram alguns “ganhos de causa”, como diz um deputado do partido liderado por Paulo Por- tas, mas perdeu noutros pontos. O acordo foi fechado, na passada semana, numa reunião no Parla- mento com os líderes parlamentares do PSD e do CDS e com a bênção do ministro Miguel Relvas, que tutela o poder local. A proposta de lei é vo- tada em votação final já na próxima sexta-feira. Contestada pela generalidade dos autarcas e pelos partidos da oposi- ção, a proposta de lei assinada por Relvas reforça as entidades munici- pais (com um mínimo cinco câma- ras) que têm um conselho intermu- nicipal (composto pelos presidentes de câmara) e pelas comissões exe- cutivas (que podem ter um máximo

de três secretários). Ao todo, serão 21 comunidades intermunicipais e duas áreas metropolitanas (Lisboa e Porto). O conselho intermunicipal

é o órgão deliberativo, enquanto a

comissão executiva, que não tem uma eleição directa, tem competên- cias tão amplas como as de alienar bens móveis, adquirir bens e ser- viços, fazer obras por empreitada, apresentar candidaturas a apoios financeiros, e propor declaração de utilidade pública para efeitos de expropriação. Um dos pontos que o CDS queria ver escritos na lei era a consagração de uma maior fiscalização das co- missões executivas. Uma proposta

MIGUEL MANSO
MIGUEL MANSO

da maioria PSD/CDS obriga a que este órgão tenha de comparecer perante as assembleias municipais duas vezes por ano para prestar con-

tas do seu trabalho. Ficou também assente que a lista candidata para a comissão executiva será proposta

pelo conselho e não pelas assem- bleias municipais, como estava ini- cialmente estabelecido. As comis- sões executivas passam também a poder ser destituídas – o que não acontecia no texto inicial – por maio- ria de 2/3 dos membros do conselho ou pela aprovação de uma moção de censura na assembleia municipal. Com estas duas alterações, a maio- ria PSD/CDS pretendeu reforçar os poderes dos presidentes de câmara, que se queixaram de ficar afastados de todas as decisões. A remuneração – o vencimento do primeiro-secretário é equiparado ao de presidente de uma câmara mé- dia – e o número de membros das comissões executivas foram dois dos pontos inicialmente criticados pelos centristas. Em vez de três elemen- tos, o CDS queria impor um máximo de dois. Ficou estabelecido que o terceiro só existirá se houver unani- midade entre os presidentes de câ- mara. As remunerações nem sequer foram tocadas, mas o Governo tem argumentado que esta reforma im- plica a “extinção” de cerca de “600 cargos políticos de nomeação”. Para o deputado do PSD Antó- nio Leitão Amaro, a “proposta de lei está melhor”, depois de terem ouvido as várias entidades. “Procu- rámos fazer algumas correcções e melhorias”, diz, desvalorizando di- vergências com o CDS: “Houve uma

sintonia nas preocupações e deu um sinal de solidez na coligação”. Altino Bessa, deputado do CDS, também faz um balanço positivo das negociações e considera que a proposta final é mais equilibrada para os autarcas. “Fazer isto contra os presidentes de câmara era con- traproducente porque poderiam bloquear isto tudo”, sublinha o de- putado centrista, esperançado no futuro do intermunicipalismo com as eleições no horizonte: “Vamos ter uma nova geração de autarcas”. PSD e CDS aproximaram as suas posições numa lei polémica

PÚBLICO, TER 12 MAR 2013 | PORTUGAL |

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Decisões exigem dupla maioria

Regra no Conselho Intermunicipal

U ma das alterações mais importantes introduzidas pela maioria PSD/CDS incidiu na composição da

maioria exigida no Conselho Intermunicipal para tomar as decisões. As deliberações têm de ser aprovadas por presidentes de câmaras que representem no mínimo 50% dos eleitores e têm de obter o voto de mais de metade dos

municípios. As duas regras têm de funcionar em simultâneo,

o

que força as negociações e

reforça o poder dos municípios maiores, mas também lhes coloca algum travão. Caso contrário, um município que

tivesse mais de 50% dos eleitores poderia tomar todas

as decisões no Conselho sem o acordo dos mais pequenos. Ou, pelo contrário, os municípios que têm menos eleitores poderiam estar em maior número e fazer passar uma decisão sem precisar da câmara mais importante. Para os deputados António Leitão Amaro (PSD) e Altino Bessa (CDS), esta alteração incentiva uma maior participação e envolvimento dos presidentes de câmara nas deliberações. Entre as competências previstas está

a

aprovação de planos e

projectos de investimento, a contratação de empréstimos e elaboração de pareceres sobre

a cobrança de impostos. Para o deputado do CDS,

a questão é a de saber se as

comunidades intermunicipais, criadas em 2003, cumpriam os objectivos a que se tinham proposto. “Não cumpriam. São os próprios presidentes de câmara que dizem que as comunidades serviram para pouco mais do que apresentar candidaturas a fundos comunitários”, diz. Por isso, afirma, só havia uma solução: “Acabar com este modelo ou dar um impulso ao intermunicipalismo”. S.R.

Jardim testa confiança da bancada social-democrata liderada por Jaime Ramos

Madeira Tolentino de Nóbrega

A escassa maioria absoluta alcançada pelo PSD nas últimas eleições regionais vai ser hoje testada, com os barões divididos

A Assembleia da Madeira vai discu-

tir e votar esta manhã a moção de confiança com que Alberto João Jar- dim pretende reforçar o “rumo que

traçou” para a Madeira, a atravessar

a mais grave crise socioeconómica

desde a consagração da autonomia. Com uma maioria absoluta depen- dente de dois deputados no parla- mento, onde o PSD conta com 25 dos 47 mandatos, Jardim pretende antecipar-se às moções de censura agendadas para os dias seguintes e também testar a coesão e confian- ça da bancada liderada por Jaime Ramos, ultimamente envolvido em diferendos internos. Contra o tam-

bém secretário-geral dos sociais-de- mocratas madeirenses pendem duas queixas apresentadas pelo vice-pre- sidente do partido e do parlamento, Miguel de Sousa.

Um apelo à unidade foi feito por

Jardim no conselho regional do PSD de sábado, sublinhando que na ad- versa situação eram desaconselhá- veis “guerras internas”, referência que foi entendida como uma adver- tência ao seu secretário-geral e “vice” da comissão política. Miguel Sousa moveu um processo no Ministério Público e no conselho regional de jurisdição do PSD contra Jaime Ra- mos, considerando que os insultos que este lhe dirigiu, numa reunião do grupo parlamentar, configuram não só ofensas graves como violam nor- mas estatutárias. “Chulo”, “vadio” e “bufo” foram alguns dos impropérios usados pelo líder da bancada “laran-

ja” em resposta ao facto de Miguel de Sousa ter sugerido o atempado agendamento de sessões plenárias

até ao Verão. Ramos reagiu contra o queixoso companheiro, acusando-

o de ter faltado a sessões plenárias,

de pôr em risco votações da maio- ria e de não participar no debate. Jardim exigiu a presença, no plená-

rio desta manhã, de todos os deputa- dos do PSD que, divididos entre Ra- mos e Sousa, estão a ser notificados para deporem como testemunhas deste litígio. A moção é uma reac- ção às notícias de que o DCIAP está

a preparar uma acusação contra o

governo regional por prevaricação.

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às notícias de que o DCIAP está a preparar uma acusação contra o governo regional por

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PORTUGAL |

PÚBLICO, TER 12 MAR 2013

Seguro dá a volta a Portugal num mês

Partidos

Maria Lopes

PS desenhou itinerário que passa por todos os distritos e arquipélagos para fazer um levantamento de problemas concretos

O líder do PS inicia hoje um périplo,

durante um mês, para visitar os 18 distritos e as duas regiões autóno- mas de Portugal no âmbito do pro- grama As Pessoas Estão Primeiro. O

objectivo dos socialistas é “fazer o levantamento dos graves problemas que afectam a vida dos cidadãos”, em especial em temas “que o Go- verno tem negligenciado”, anuncia

o partido.

O tiro de partida desta volta a Por-

tugal é dado em Braga, precisamente

o distrito pelo qual António José Se-

guro é deputado desde 2005. Ao fim da tarde encontra-se com jovens no Factory Business Center na cidade dos arcebispos, levando na agenda sobretudo a alta taxa de desempre- go jovem e os problemas do ensino superior. O distrito de Braga é o ter- ceiro com o maior número de desem- pregados do país, ultrapassando as 67.500 pessoas sem emprego segun- do os dados oficiais do Instituto de Emprego e Formação Profissional, lembra o PS. A taxa de desempre- go entre os jovens com menos de 25 anos é, no entanto, inferior à média nacional; ainda assim, no distrito ha- verá, registados, mais de 9100 jovens desempregados. Amanhã, logo pelas 9h, Seguro vi- sita a PR Têxteis, uma unidade fabril em Pontes, concelho de Barcelos. O PS não divulga, por enquanto, o resto da agenda, mas o PÚBLICO sabe que ainda esta semana o secretário-geral socialista irá à Amadora, para um en-

contro com idosos, representando o distrito de Lisboa.

O itinerário foi “criteriosamente

escolhido em função dos graves pro- blemas” que afectam alguns dos dis- tritos. Por exemplo, a visita a Setúbal poderá incluir o tema das pescas, no Algarve o turismo, no Alentejo a agri- cultura e desertificação. Na lista das preocupações gerais do PS estão tam-

bém a “exclusão social, saúde, edu- cação e indústria, as dificuldades dos comerciantes e dos empresários, a

agricultura, o ambiente e a cultura”.

O partido aproveitará para fazer um

levantamento dos problemas para definir temas prioritários “na acção de um futuro Governo socialista”.

PAULO PIMENTA
PAULO PIMENTA

Um dos casos falados era o apoio do BE e do PCP a Manuel Pizarro (à esquerda) no Porto

PS desafia PCP e BE para

autárquicas mas partidos

correm em pista própria

Eleições Rita Brandão Guerra

Socialistas enviam carta ao PCP e BE e pedem clarificação de candidaturas. Adivinham- -se consensos difíceis

Será um teste. É assim que os socia- listas classificam a carta que ontem remeteram às direcções do PCP e do BE, propondo uma reunião nos pró- ximos dias com o objectivo de clari- ficar a disponibilidade dos dois par- tidos para entendimentos alargados para as eleições autárquicas. O dirigente do PS Miguel Laran- jeiro avançou ao PÚBLICO que a carta remetida aos comunistas e

bloquistas argumenta com “a defe- sa intransigente dos interesses das populações”, que se traduziria num entendimento alargado entre os três partidos nalgumas das principais câ- maras do país, nomeadamente no Porto. Mas o PÚBLICO sabe que a carta está a ser também encarada ao mais alto nível, no PS, como “um teste de clarificação rápida” da disponibili- dade real de convergência do PCP

e do BE num momento em que há vários apelos para que sejam feitas alianças à esquerda capazes de der- rotar o Governo.

A iniciativa do PS não espera co- lher grandes frutos sobretudo da parte do PCP, que, segundo alguns socialistas, tem feito do partido o seu principal adversário. A somar às for- tes reticências do PCP, e apesar de uma reunião já agendada com os Re- novadores Comunistas para discutir eventuais alianças ao nível local, o PS tem ainda pela frente o BE, que já deixou claro que só parte para coli- gações à esquerda se elas não forem “coxas”, como disse ao PÚBLICO o coordenador João Semedo. Ou seja, se incluírem não só o PS, mas tam- bém o PCP. João Semedo e António José Segu- ro, secretário-geral do PS, estiveram reunidos em Dezembro na sequência da convenção dos bloquistas. Nes- se encontro a pedido do Bloco, no Largo do Rato, Semedo confirma que estiveram em cima da mesa as candidaturas para Lisboa e para o Porto, mas adianta que a proposta do Bloco estava definida já nesse mo- mento. “O BE só fará coligações se elas incluírem toda a esquerda, não faremos nenhuma coligação coxa que sirva para dividir a esquerda”, frisa o deputado bloquista. Mais uma vez, sem o PCP na equação, não há listas conjuntas. João Semedo avança ainda que desde essa altura não houve mais nenhum encontro com dirigentes socialistas sobre a corrida às au- tarquias, mas adianta também que

houve contactos dos próprios candi- datos do PS às autarquias do Porto, Vila Nova de Gaia, Valongo e Cami- nha. Mas a resposta de Semedo terá sido a mesma que tinha dado antes ao líder do PS: “Nem António Costa nem Manuel Pizarro propuseram qualquer coligação ao BE”. Os dois partidos fazem parte apenas de uma

lista conjunta para a Câmara do Fun- chal, um acordo que inclui também outros partidos, mas que exclui o PCP e o CDS. Do lado do PCP, o deputado Ho- nório Novo, em declarações ao PÚ- BLICO, confirma que já houve uma “sugestão política” da parte do can- didato do PS Manuel Pizarro à au- tarquia do Porto, mas que, segundo

o comunista, é “um fait-divers que

não é para ser levado a sério, não há nenhuma autarquia onde essa suges- tão não seja feita recorrentemente e quase em exclusivo onde o PS não é poder”. O PCP prepara-se, aliás, para apresentar o seu candidato ao Porto

já no dia 22 de Março.

A desvalorização de entendimen- tos por Honório Novo é justificada pelo facto de o PS “não discutir pre-

viamente qualquer programa autár- quico, mas apenas solicitar o apoio para os candidatos que já foram de- cididos pelo partido”. O comunista lembra ainda que o PS definiu “preto no branco no seu último congresso que iria apresentar candidatos autó- nomos a todas as autarquias”.

Ex-candidato do PSD e ‘vice’ do PS na mesma lista

Autárquicas Margarida Gomes

Os movimentos de cidadãos parecem ir marcar as eleições deste ano. Ontem, foram conhecidos mais dois casos: Alijó e Santarém

São cada vez mais os movimentos de independentes que vão disputar os votos com os partidos nas eleições autárquicas deste ano. Ontem, o em- presário Francisco Mendes, que se estreia nas disputas autárquicas, anunciou a sua candidatura à Câ- mara de Santarém, pelo Movimento mais Democracia. Este movimento integra a Asso- ciação Nacional dos Movimento de Autarcas Independentes (ANMAI), que quer ter voz e igualdade de di- reitos face aos partidos. Também ontem, ficou a saber-se que o vereador social-democrata Miguel Rodrigues e o vice-presiden-

te Adérito Figueira, eleito pelo PS, se juntaram num movimento de independentes que vai apresentar uma candidatura à Câmara de Alijó. Miguel Rodrigues, que encabeça a lista, liderou em 2009 a candida- tura do PSD ao município durien- se. O Movimento Independente de Cidadãos em Alijó explica, em co- municado ontem divulgado, que as direcções concelhias dos dois par- tidos “não estiveram à altura das exigências deste momento”. As estruturas concelhias anunciaram já as candidaturas de Carlos Jorge Magalhães, pelo PSD, e João Manuel Gouveia, pelo PS. Adérito Figueira, actual vice-presi- dente do município de Alijó, afirmou

à Lusa que o PS local “não reconhe-

ceu a este executivo absolutamente

nada de valor em 20 anos que anda

a ganhar eleições para o partido no

concelho”. “Por isso, decidiu correr com os quatro vereadores eleitos à vassourada. Perante uma resposta destas do partido a nível local, eu acho que se foi a população de Alijó

que me elegeu, há-de ser a popula- ção do concelho que me vai tirar”, salientou. Explicou ainda que se uniu a Miguel Rodrigues porque

achou que é, neste momento, em Alijó, a pessoa que reúne melhores condições para liderar uma candi- datura à autarquia. Adérito Figueira disputou as di- rectas com João Manuel Gouveia, tendo os militantes do PS de Alijó escolhido o candidato.

PÚBLICO, TER 12 MAR 2013 | PORTUGAL |

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NUNO FERREIRA SANTOS
NUNO FERREIRA SANTOS

Bloquistas vão apresentar propostas para combater pobreza

BE propõe aumento do salário mínimo para 533 euros

Partidos

Maria Lopes

Bloquistas vão propor que se proíba o corte da água, electricidade e gás a agregados com rendimento inferior a 421 euros

O Bloco quer que o actual Governo

aumente o salário mínimo para 533 euros, como decorria do acordo de concertação social de 2006 que pre- via 500 euros em 2011 e uma actua- lização anual a partir daí. Esta é uma proposta que o BE vai entregar no Parlamento e que ontem apresentou no final de um debate sobre a pobre- za, na Biblioteca Municipal de Aveiro, no âmbito das jornadas parlamenta- res do partido, subordinadas ao tema

Estado social, serviços públicos e cres- cimento económico.

O salário mínimo português “é o

mais baixo da zona euro e está em ci-

ma do que é considerado o limiar da pobreza”, criticou o coordenador blo- quista, João Semedo, explicando que nos cálculos do BE foi considerado o valor acordado com os parceiros so-

ciais e a respectiva inflação desde que

o Governo suspendeu os aumentos.

A par desta proposta, o BE entre-

ga um projecto de lei que proíbe a suspensão do fornecimento de água, electricidade ou gás aos “agregados familiares ou consumidores que te- nham rendimento inferior ao consi- derado como limiar de pobreza, que foi estabelecido em 2012 nos 421 eu- ros”, descreveu o coordenador João Semedo. “Há hoje milhares de famí- lias que vivem sem água, luz ou gás porque deixaram de ter rendimentos suficientes por mês” para tais despe-

sas, afirmou, classificando esta pro- posta do BE como uma “medida de dignidade, de justiça, para que todos possam viver com um mínimo de dig- nidade pessoal”, mas também para permitir “aumentar o rendimento disponível das famílias”. E prometeu que o partido irá em breve apresentar mais iniciativas para combater a “po- breza, a miséria e a exclusão social”. Comentando os dados do INE so-

bre o PIB do ano passado, Semedo disse que são uma “marca do empo- brecimento do país” e mostram que “a economia quebrou como nunca na história da democracia portuguesa”. Acerca da extensão em um ano, dada

pela troika, para Portugal fazer a cor- recção do défice, o líder parlamentar bloquista, Pedro Filipe Soares, defen- deu que ao estender por mais tempo

a austeridade derivada das medidas

impostas pelas instâncias internacio-

nais, o Governo só vai agravar a reces- são da economia e, por arrastamento,

o desemprego. Ontem de manhã, o BE insistiu na necessidade de amnistiar os estudan- tes universitários com propinas em atraso por dificuldades económicas, com o objectivo de travar o “aumento das situações de abandono” dos cur- sos. Durante uma visita dos deputa-

dos do BE à Universidade de Aveiro,

Luís Fazenda disse que o partido vai insistir com um projecto de lei para essa amnistia aos alunos devedores

— o BE viu chumbado, há dias, pe-

la maioria e pelo PS um diploma no mesmo sentido — e proporá a criação de um estatuto do trabalhador-estu- dante, para dar incentivos a empresas que façam contratos de “pelo menos mais três anos” após a conclusão dos estudos. Em Aveiro terá já havido mil desistências, admitiu o reitor, Manuel Assunção. com Lusa

Breves Antuérpia PS contesta fim das emissões da RTP Internacional O PS pediu esclarecimentos ao

Breves

Antuérpia

PS contesta fim das emissões da RTP Internacional

O PS pediu esclarecimentos ao Governo sobre o fim da transmissão da RTP Internacional para a zona de Antuérpia, onde vivem cerca de seis mil portugueses. O fim das emissões da RTP-I, noticiado pelo conselheiro das Comunidades Portuguesas na Bélgica, Pedro Rupio, “representa o isolamento da comunidade” portuguesa da região, considera o deputado Paulo Pisco, recordando que já foram “suprimidos os cursos de Português no ensino paralelo”.

Associação 25 de Abril quer “vencer o medo e construir o futuro”

Cidadania Filipa Dias Mendes

Os preparativos para as comemora- ções da Revolução dos Cravos já co- meçaram. A pouco mais de um mês da data, a Associação 25 de Abril apela a uma “resposta popular” a nível nacional que contribua para ultrapassar a actual encruzilhada em que o país se encontra. A direcção da associação, presidida por Vasco Lou- renço, pretende despertar a popula- ção, estimular o trabalho conjunto e reafirmar a confiança dos cidadãos em si próprios. “A crise que vivemos tem causas internas e externas que comprome- tem perigosamente o regime demo- crático e minam a justiça social”, lê- se em comunicado enviado ontem às redacções. Como resposta, a associa- ção incentiva “os seus associados e demais cidadãos” a organizarem-se

e a manifestarem-se sob a égide da

iniciativa “vencer o medo, reafirmar Abril, construir o futuro”. Tendo como primeira meta as co- memorações dos 39 anos do 25 de

Abril, a Associação pretende esten- der a “resistência ao colaboracio- nismo” até ao 40.º aniversário da Revolução dos Cravos. Criticando o agravamento da situação económica

e social do país, que se reflecte num “empobrecimento generalizado”

e num “desrespeito pela história e

cultura” portuguesas, a associação condena a “brutal austeridade para 2014” e conclui que “Portugal é um protectorado”. No documento, a Associação 25 de Abril refere que espera um empenho conjunto dos portugueses nesta “ta- refa urgente” que visa preservar a identidade e coesão nacionais e “vol- tar a colocar Portugal como país so- berano nos areópagos [assembleia de sábios] europeu e mundial”.

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Número Nacional/Chamada Local
Número Nacional/Chamada Local

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PORTUGAL |

PÚBLICO, TER 12 MAR 2013

Maria jantou bacalhau antes de a ajudarem a morrer na Suíça

A história da primeira doente terminal portuguesa auxiliada no suicídio por dois amigos e uma organização suíça é contada num livro com prefácio de Maria Filomena Mónica que hoje chega às livrarias

Suicídio assistido Ana Henriques

Esperou demasiado tempo para ini- ciar os tratamentos, mas os prazos foi a médica a estipular-lhos. Quando finalmente começou a quimioterapia já não havia muito a fazer: o cancro no estômago alastrara ao fígado. A história da primeira portuguesa

a morrer com a ajuda da associação

suíça Dignitas, organização que pro- move o suicídio assistido, é conta- da no livro Morte Assistida, que hoje chega às livrarias. O caso remonta a 2009, mas mesmo assim a jornalis-

ta Lucília Galha, autora do trabalho, preferiu não desvendar o verdadeiro nome de nenhum dos intervenientes no processo, para evitar eventuais penalizações legais. Maria, como lhe chamou, foi ajudada a pôr fim ao seu sofrimento por dois amigos portugueses que a acompanharam

a Zurique. Morreu com 67 anos. Era

divorciada, não tinha filhos e refor- mara-se anos antes da empresa de telecomunicações onde trabalhara. Morava sozinha numa casa com um grande terreno que gostava de se- mear. Tinha-lhe sido dado um ano de vida quando tomou a decisão. “Es- tava convencida de que já não teria tanto tempo”, descreve Lucília Ga- lha. “Dormia durante grande parte do dia porque era a única forma de resistir às dores.” Pediu à associação suíça que lhe respondesse com ur- gência, que não conseguia esperar mais: “Não se desinteressem por res- peito de quem sofre e quer morrer com dignidade.” Não aceitava “mor- rer aos bocados”.

Ana e o marido, João, uma técnica administrativa e um agente comer- cial, nunca tinham ouvido falar em

suicídio assistido até a amiga lhes pe- dir ajuda. Pensaram que serviriam apenas de intérpretes, uma vez que Maria não falava inglês. “Só quando receberam os primeiros papéis da

Dignitas perceberam (

) que eram

precisas duas testemunhas para pre- senciar o acto”, conta o livro. “Ao perceberem no que estavam envolvi- dos, a primeira reacção foi de terror. Mas, apesar da violência psicológica que essa escolha implicava, nunca pensaram em desistir.” Quatro anos passados continuam a guardar segre- do — como se tivessem cometido um

SEBASTIAN DERUNGS/AFP
SEBASTIAN DERUNGS/AFP

A associação suíça Dignitas é uma organização que promove o suicídio assistido

Morte assistida é crime em Portugal

 

Apesar da lei em vigor, dificilmente alguém seria condenado por levar um amigo a uma clínica no estrangeiro onde se pratique suicídio assistido

N em a eutanásia (que

designa uma situação em

que alguém administra a

um doente, a seu pedido,

quem ajuda a cometê-lo comete um crime”. Ainda assim, o ex- presidente da Comissão dos Direitos Humanos da Ordem dos Advogados acha altamente improvável que, à luz deste quadro, alguém que levasse um amigo ou familiar a uma clínica na Suíça, onde se pratica legalmente suicídio assistido, pudesse ser acusado quando regressasse a Portugal. “Podia até haver um procedimento penal”, admite, mas dificilmente alguém acabaria condenado, porque “levar alguém em viagem não é uma causa de morte”. A dúvida, contudo, existe, diz Laura Santos, professora na Universidade do Minho, uma das vozes que no país defendem que um doente esgotado pelo sofrimento, sem recuperação, deve poder escolher como morre. Em

2009, uma portuguesa de 67 anos, com cancro, morreu na clínica Dignitas, na Suíça. Tanto quanto se sabe, foi a única portuguesa a fazê-lo. Os amigos que a acompanharam falaram, na altura, com Laura. “Alertei- os para a possibilidade de se porem em causa se assumissem que tinham ido com ela. Falei com a minha advogada, com um procurador. Diziam que tudo dependeria de como seria interpretada a lei.” Nunca revelaram a sua identidade. No Reino Unido, a questão foi debatida durante anos. E em 2010 saíram novas orientações que, no essencial, dizem que nem sempre é do interesse público julgar quem, “motivado pela compaixão”, tenha uma “participação menor” no suicídio de uma pessoa próxima. Andreia Sanches

uma dose letal de fármacos) nem o suicídio assistido (é o doente, ainda que sob vigilância de um técnico, que ingere a droga) são legais em Portugal. O Código Penal consagra a estas situações dois artigos. O 134.º, que diz que “quem matar outra pessoa” na sequência de um pedido que ela lhe tenha feito

“é punido com pena de prisão até 3 anos”, e o 135.º, que fala do “incitamento ou ajuda ao suicídio” e prevê, também, uma pena que vai até aos três anos (ou cinco, em certos casos). Na opinião do advogado Carlos Pinto de Abreu, esta é “uma lei equilibrada” porque diz que “o suicídio é algo que não é punido em si, mas que é um mal e que

crime. Maria preenchia as condições requeridas pela organização suíça:

sofria de uma doença terminal que

lhe causava dores insuportáveis, fac-

to comprovado pelos médicos. Três

dias antes da data marcada partiu com os amigos para Basileia, onde

visitou o jardim botânico e o zooló- gico da cidade. “Os amigos pergun- tavam-lhe constantemente: ‘Estás cansada?’ A resposta era sempre a mesma: ‘Não, ainda aguento.’”

A parte pior, conta a jornalista, era

a das refeições: nem Maria nem Ana

gostavam da comida. “Procuraram na

Internet um restaurante português, alugaram um carro e atravessaram

a fronteira para a Alemanha. Nessa

noite, Maria deliciou-se com um ba-

calhau com batatas a murro.” Horas

depois ingeria o líquido fatal, pento- barbital de sódio, num apartamento da Dignitas nos arredores de Zurique.

O suicídio teve de ser filmado para

comprovar à polícia que havia agido de livre vontade. Como tinha vindo

a acontecer nos últimos tempos de

vida, o abdómen inchou-lhe outra vez logo a seguir à morte: “Era im-

possível distinguir a cabeça dos pés.” Lucília Galha descreve os casos de vários outros doentes terminais. Se ficarem em Portugal não poderão escolher a forma como vão acabar

os seus dias. “É dos poucos países da

Europa que não tem uma associação que defenda a liberdade de escolha no fim da vida”, nota a autora. No prefácio de Morte Assistida, Maria Filomena Mónica explica como a

morte e a doença de familiares pró- ximos lhe dissiparam as dúvidas que ainda pudessem restar-lhe: “Quando

o próprio está lúcido e, por qualquer razão — normalmente por se encon-

trar paralisado —, não consegue, co- mo desejava, pôr fim à vida, a pessoa que o ajuda não deve ser penaliza- da.” Aos cidadãos deve caber a últi- ma palavra sobre a questão, defende

a socióloga, antecipando a polémica

que a questão irá necessariamente levantar: “Não vai ser fácil legislar, porque o tema da morte assistida é complicado. Suspeito que haverá

resistências por parte dos sectores mais conservadores, nomeadamente

a Igreja Católica.”

A história de Maria foi finalmen-

te contada, como ela queria. Para

que um dia as pessoas a passar pelo

mesmo pudessem morrer com dig- nidade.

PÚBLICO, TER 12 MAR 2013 | PORTUGAL |

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Sucessor de Cândida Almeida admite que lhe custou aceitar cargo

Justiça

Ana Henriques

Amadeu Guerra passou ontem a encabeçar o combate à corrupção e à criminalidade económico- -financeira no DCIAP

O sucessor de Cândida Almeida à

frente do Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP), Amadeu Guerra, admitiu ontem, du- rante a sua tomada de posse, que não lhe foi fácil aceitar o convite para o cargo. Dizendo-se ciente das dificuldades que vai encontrar, nomeadamente “a crise de credibilidade e de con-

fiança que abala o sistema judicial”,

o procurador-geral adjunto explicou

que, sendo partidário da discrição,

“assim pretendia continuar”. Mas tal não será possível nos próximos três anos que durará este mandato, re- conheceu: “Estou consciente de que

a direcção do DCIAP tem uma cer-

ta notoriedade, na medida em que

aqui são investigados processos de especial complexidade e relevância

social, cujos resultados são determi- nantes para aprofundar a defesa da legalidade enquanto componente essencial do Estado de direito”. A reconquista da confiança dos cidadãos na justiça foi também abor- dada pela procuradora-geral da Re- pública, Joana Marques Vidal, que falou na necessidade de as investi- gações serem feitas “em tempo útil

e razoável”, respeitando o segredo

de justiça. Para Amadeu Guerra, de

58 anos, a descrença no sistema “só pode ser minorada”, no que aos ma- gistrados do Ministério Público diz respeito, com isenção, independên- cia e coragem. “Este representa o maior desafio

da minha carreira de mais de 30 anos como magistrado”, referiu, apontando as somas que fez pou-

ENRIC VIVES-RUBIO
ENRIC VIVES-RUBIO

Amadeu Guerra está preocupado com a credibilidade da justiça

Reforma não é para já

O Ministério Público “continuará a contar com Cândida Almeida no exercício de

outras funções igualmente

relevantes”. Foi assim que

a

procuradora-geral da

República ontem se referiu ao futuro daquela que foi, durante 12 anos, o rosto do Departamento Central de

Investigação e Acção Penal,

e

que decidiu recentemente

não reconduzir. Onde, Joana Marques Vidal não disse. Presente na tomada

de posse do seu sucessor, Cândida Almeida, de 63 anos, também não. Parte do discurso da PGR foi- lhe dirigido: “Concordará comigo que a mudança de pessoas constitui factor essencial do funcionamento de qualquer instituição, reflectindo a sua vitalidade”.

par ao Estado como o motivo que poderá ter estado na origem da sua escolha para encabeçar o comba- te à corrupção e à criminalidade económico-financeira. E detalhou:

“No ano de 2012 foram julgadas e transitaram em julgado acções con- tra o Estado no valor de quase 500 milhões de euros, tendo o Estado sido condenado em pouco mais de 200 mil”.

Amadeu Guerra exercia funções de coordenador do Ministério Públi- co no Tribunal Central Administra-

tivo do Sul. Antes disso esteve mais de uma década na Comissão Nacio- nal de Protecção de Dados, tendo

também passado pela Comissão de Acesso aos Documentos Adminis- trativos. Em meados dos anos 80 chegou a trabalhar com Cândida Almeida no Tribunal de Trabalho de Lisboa. Também pertenceu à unidade de controlo da Europol,

a polícia europeia, tendo aí publi-

cado estudos sobre criminalidade económico-financeira. Segundo de cinco filhos de uma família humilde chefiada por um ca-

bo da GNR, nasceu em Tábua, no

distrito de Coimbra, tendo passado

a adolescência já em Lisboa.

Polícia contabilizou no ano passado quase 600 manifestações em Lisboa

Segurança interna

Capital assistiu a mais de um protesto por dia em 2012. Nesse ano, registou- -se ainda um decréscimo da criminalidade em geral

Foram quase 600 as manifestações que passaram por Lisboa durante

o ano passado, segundo a PSP. Os

dados foram ontem revelados no decorrer da cerimónia que assina-

lou o 146.º aniversário do Comando Metropolitano de Lisboa (Cometlis) da PSP, na qual foram inauguradas as suas novas instalações em Mos- cavide.

A Polícia de Segurança Pública

contabilizou 579 manifestações em Lisboa, em 2012 — em média, mais 1,5 manifestações por dia.

O comandante de Lisboa, supe-

rintendente Constantino Azevedo Ramos, destacou a “forma profis- sional, competente e proporcional” como a PSP tem conseguido gerir a segurança das manifestações. No seu discurso, Constantino Azevedo salientou a preocupação deste comando, “sobretudo nos três últimos anos de maior conflituali- dade social, em aprimorar as fases de planeamento, execução e de ava- liação dos dispositivos policiais em manifestações públicas de protesto

com o objectivo de garantir o direito de reunião”.

O comandante de Lisboa destacou

também “o trabalho preparatório

de contacto e diálogo entre a PSP e as organizações de manifestantes,

o planeamento criterioso de todos

os movimentos tácticos e a aplica- ção faseada, coordenada e metódica dos diversos níveis de intervenção operacional”. Das várias manifestações que

se realizaram em 2012 destacam- se o protesto de 15 de Setembro,

que juntou centenas de milhares

de pessoas nas ruas de várias cida- des portuguesas, e a carga policial de 14 de Novembro, em frente ao Parlamento. Durante a cerimónia foram tam- bém divulgados dados que denun- ciam uma descida de 14,7% da cri-

minalidade violenta e grave, na área do Cometlis, entre 2011 e 2012. No mesmo período, registou-se declínio de 5,3% da criminalidade geral. Os “crimes de proactividade”, re-

lacionados com a actividade policial

e que levam às detenções, tiveram

um aumento de 5,1% em 2012. Em 2010, a Cometlis fez, em mé- dia, 30 detenções por dia (10.945 de- tenções), passando, em 2011, para 35 detenções por dia (12.629). Em 2012, foram feitas 36 detenções por dia

(13.144), traduzindo-se numa deten- ção a cada 40 minutos. No mesmo ano, o Dispositivo de Investigação Criminal (DIC) do comando de Lis-

boa realizou 3697 detenções. Foram apreendidas 261 armas de fogo, 292 quilos de droga, 234 viaturas e mais de meio milhão de euros e iniciou 29.743 processos-crime.

PSP e GNR com novos carros

No final da cerimónia, Miguel Mace- do, ministro da Administração Inter- na, anunciou um investimento em mais de 10 milhões de euros desti- nados à aquisição de novas viaturas para a PSP e GNR. O ministro adiantou que o proces-

so para aquisição das novas viaturas começou em 2012 e o objectivo é

que seja concretizado este ano, de- vendo ser entregues os primeiros veículos a breve prazo. Miguel Macedo sublinhou que se

trata de um investimento de “vários milhões de euros”, na ordem dos 12

a 13 milhões de euros. “Há muito tempo que não era feito nas forças de segurança um investi- mento, neste montante, em veículos destinados às operações das forças de segurança”, salientou o ministro. Lusa/PÚBLICO

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em veículos destinados às operações das forças de segurança”, salientou o ministro. Lusa/PÚBLICO PUBLICIDADE

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PORTUGAL |

PÚBLICO, TER 12 MAR 2013

Liliana pede suspensão de adopção dos filhos

Justiça Andreia Sanches

Enquanto o TC analisa se o caso pode voltar a ser julgado, advogadas temem que alguma das sete crianças seja adoptada

As advogadas de Liliana Melo, a mãe

a quem o Tribunal de Sintra mandou

em Maio retirar sete dos seus dez fi- lhos, tendo em vista futura adopção, pediram ontem ao Tribunal Constitu-

cional (TC) que, até que haja decisão sobre se pode ou não haver recurso daquela decisão, nenhuma diligência seja tomada no sentido de as crianças serem adoptadas. Os filhos de Liliana Melo, 34 anos, encontram-se em instituições de aco- lhimento desde Junho. As advogadas, Paula Penha Gonçalves e Maria Clo- tilde de Almeida, tentaram recorrer da decisão de Sintra, mas o Tribunal da Relação não aceitou. Alegou que

o prazo tinha expirado. Paula Penha

Gonçalves e Clotilde de Almeida en- tendem que não e recorreram ao TC que, em Dezembro, aceitou apreciar

o caso. Mas as advogadas pediram

mais: que até que houvesse uma cla-

rificação, a sentença de Sintra fosse suspensa. E que as crianças pudes- sem voltar à mãe. Na semana passada, o TC fez saber que continua a apreciar o caso, mas que não haverá suspensão. Ontem, as advogadas deram mais um pas- so no sentido de evitar que alguma adopção, de alguma das crianças, ve- nha, entretanto, a ser decretada — e lembram que uma adopção tem um carácter definitivo.

O caso de Liliana Melo tem sido

muito polémico sobretudo pelo facto desta mãe se ter recusado a laquear as trompas — uma das medidas de

protecção dos filhos a que estava obrigada e que não cumpriu.

Para já, o que o TC está a apreciar

é

não. Liliana e o marido ouviram a decisão do Tribunal de Sintra numa sexta-feira à tarde (25 de Maio), sem advogado constituído, pediram nesse dia o acórdão, em papel, mas este só lhe foi disponibilizado na segunda- feira, 28. De acordo com o regime de recursos então em vigor, tinham dez dias para recorrer. A dúvida é se este prazo conta a partir de 25, como entendeu a Relação, ou de 28, como defendem as advogadas. Da decisão do TC depende se o caso Liliana Melo voltará a julgamento.

se o prazo de recurso expirou ou

PEDRO CUNHA/ARQUIVO
PEDRO CUNHA/ARQUIVO

Helicóptero de salvamento foi utilizado nas buscas

Continuam desaparecidos

três pescadores da embarcação afundada nos Açores

Naufrágio Tolentino de Nóbrega

Um dos quatro tripulantes foi resgatado por outro

barco de pesca. Os outros três foram vistos agarrados a uma caixa de madeira

Estão desaparecidos três dos qua- tro pescadores da embarcação Gra- cilaria que se afundou domingo à noite ao largo da ilha de São Jorge, nos Açores. Um dos tripulantes do barco foi recolhido pela embarca- ção Prancha, que passava no local do naufrágio, registado por volta das 21 horas de domingo, a 3,5 mi- lhas a este da ilha de São Jorge. Foi resgatado com vida e “consciente”, revelou uma fonte do Centro de Co- ordenação de Busca e Salvamento dos Açores. Os outros três náufra-

gos, também pescadores de São Mateus, foram vistos em alto mar “agarrados a uma caixa de madeira”. O alerta de naufrágio chegou ao Serviço de Busca e Salvamento das Lajes às 14 horas do dia seguinte, ten- do sido accionados meios aéreos para

procurar os náufragos. No local on- de decorrem as buscas encontra-se uma lancha do Instituto de Socorros a Náufragos, a referida embarcação que estava no local na altura do aci- dente, meios humanos por terra e o helicóptero EH101, revelou ao PÚBLI- CO o tenente Martins, adjunto do ca- pitão da capitania do porto da Horta. Segundo esta autoridade marítima, as buscas, em que também partici- pou um avião da Força Aérea C295, vão manter-se enquanto as condi- ções de visibilidade permitirem. Na sequência do aviso amarelo lan-

çado pelo Instituto Português do Mar

e da Atmosfera (IPMA), o Serviço Re-

gional de Protecção Civil e Bombei- ros dos Açores (SRPCBA) tinha desa- conselhado a prática de “actividades relacionadas com o mar, nomeada- mente pesca desportiva, desportos náuticos e passeios à beira-mar”. As nove ilhas do arquipélago dos Açores estiveram ontem sob aviso amarelo, “devido a um sistema fron- tal de actividade moderada a forte”, de acordo com o Instituto Português

do Mar e da Atmosfera (IPMA). O avi- so amarelo, o segundo menos grave de uma escala de quatro, significa “risco para determinadas activida- des dependentes da situação mete- orológica”, acrescenta. O mau tempo nos Açores obrigou ontem a transportadora aérea SATA

a cancelar 12 voos entre as ilhas do

arquipélago, deixando em terra 497 passageiros, disse o porta-voz da em- presa. José Gamboa acrescentou que as ligações programadas para o final do dia de ontem estavam dependen- tes das condições meteorológicas. “Os 497 passageiros das 12 liga-

ções canceladas foram reprograma- dos para terça-feira [hoje]”, indicou José Gamboa, revelando ainda que também devido ao mau tempo o voo Lisboa/Ponta Delgada, da SATA Internacional, divergiu ao início da tarde para a capital com 125 passa- geiros a bordo. Os 125 passageiros daquela ligação foram reprograma- dos também para hoje. A previsão para hoje nos Açores é de céu muito nublado, neblinas e nevoeiro, po- dendo ocorrer períodos de chuva, mais frequentes na noite. Prevê-se também para os três grupos do ar- quipélago mar cavado, tornando- se grosso, com ondas do quadran- te Noroeste entre os 2 e 4 metros.

Sete portugueses esfaqueados nos arredores de Berlim

Emigração

Natália Faria

Quatro encontravam-se ontem internados. Polícia alemã está a investigar, mas parece ter descartado motivações raciais

Sete portugueses que se encontram a trabalhar na construção civil perto de Berlim foram atacados na pas- sada sexta-feira, por um grupo de “entre dez a 17 homens” em circuns- tâncias que a polícia alemã ainda está a investigar. Quatro ficaram gravemente feridos e ainda se en- contravam ontem hospitalizados e os restantes três também receberam assistência hospitalar, mas recebe-

ram alta pouco depois. Com idades entre os 36 e os 55 anos, os portugueses dirigiam-se para casa, em Friedlander Strabe, Köpenick, na localidade de Adler- shof, a cerca de 15 quilómetros de Berlim, quando foram esfaqueados, cerca das 19h30 locais (menos uma hora em Lisboa). Segundo o jornal Berliner Zeitung, a polícia alemã está a investigar as circunstâncias do crime. O porta-voz da polícia de Berlim, Michael Gassen, adiantou não terem sido encontrados, pelo menos para já, quaisquer indícios de se ter tratado de um crime com motivação xenófoba ou racial. Ci- tado pela agência Lusa, Gassen ba- seou-se em “testemunhas oculares” para acrescentar que o ataque foi

premeditado. O tablóide alemão admite que por detrás do ataque possam estar questões relacionadas com “negó-

do ataque possam estar questões relacionadas com “negó- Sindicato fala no envolvimento de redes mafiosas na

Sindicato fala no envolvimento de redes mafiosas na construção

cios menos claros” no sector da

construção civil, caracterizados por subcontratações irregulares e pela exploração de trabalhadores estran- geiros. O mesmo diário adiantou que

a contratação de grupos criminosos

para intimidar e silenciar quem se

atreva a denunciar tais situações é uma prática comum. Emigrado na Alemanha há 33 anos, Mário dos Santos, que tra- balha no Portugal Post, um jornal vocacionado para a comunidade portuguesa na Alemanha e sedeado em Dortmund, a cerca de 500 qui- lómetros de Berlim, desconhecia o caso. Mas confirmou serem frequen- tes as denúncias relacionadas com

a exploração de trabalhadores da

construção civil, visando sobretudo trabalhadores de Leste e, mais con- cretamente, da Bulgária. “Há redes que utilizam estes trabalhadores e os fazem trabalhar a três euros por hora. Entre os portugueses, as coi- sas parecem mais pacatas, mas têm cá chegado muitos portugueses nos últimos tempos ao deus-dará, à pro- cura de se desenrascarem de alguma

forma, logo é natural que alguns se- jam apanhados por estas redes ”, admitiu, citando números da agên- cia federal do emprego para lembrar que, no ano passado, as autoridades alemãs registaram um aumento de 7,7% no número de portugueses a trabalhar no país. “Neste momento, há 56.958 portugueses a trabalhar na Alemanha, para uma comunida- de total de portugueses que é mais do dobro Embora desconheça este caso em concreto, Albano Ribeiro, do Sindi- cato dos Trabalhadores da Constru- ção, Madeiras, Mármores, Pedreiras, Cerâmica e Materiais de Construção do Norte, confirmou que a crise está

a levar ao reaparecimento das redes mafiosas que “andam atrás dos tra- balhadores que estão em situação

de fragilidade económica e social”

e cujos angariadores têm ligações “à

Alemanha, França e Inglaterra”. Na semana passada, o sindicato lançou, aliás, uma campanha de alerta para os perigos das propos- tas vindas do estrangeiro, visando, em parceria com a Secretaria de Es- tado das Comunidades, sensibilizar os candidatos à emigração para a necessidade de se informarem e acautelarem os seus direitos antes de partirem. Esta campanha, que está ainda na fase inicial, vai ter mais incidência nas regiões onde há mais trabalhadores a quererem ir para o estrangeiro, como Amarante, Marco de Canaveses, Cinfães e Baião.

PÚBLICO, TER 12 MAR 2013 | PORTUGAL |

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Portugal é o país com menos canais de TDT

Televisão

Maria Lopes

Último lugar — é essa a posição de Portugal entre os 34 países euro- peus analisados pelo Observatório Europeu do Audiovisual (OEA) so- bre a oferta de canais no serviço de Televisão Digital Terrestre (TDT). No extremo oposto a Portugal, que oferece cinco canais na TDT, está a Itália, onde a oferta chegava, no final de Dezembro, aos 118 canais. No topo da lista dos países com mais canais estão também a Letónia (85) e o Rei- no Unido (79). Os países que só têm TDT de acesso gratuito, como Portugal, são aqueles que oferecem um menor número de canais. Mas há países que contrariam a tendência: dos 79 canais de TDT no Reino Unido, 71 são gratuitos; em Itá- lia essa relação é de 51 pagos para 67 grátis; em França de nove para 32; na Alemanha são dois pagos e 33 aber- tos. Já 22 dos 27 Estados-membros da UE fizeram a transferência do si- nal analógico para o digital, em linha com as recomendações da Comissão Europeia, cujo prazo-limite é Junho de 2015. Durante 2013 farão o chama- do switch-off (desligamento) a Grécia, Polónia e Bulgária. Hungria e a An- tiga República Jugoslava da Macedó- nia talvez este ano ou 2014. Bósnia e Herzegovina será em 2014 e, no ano seguinte, Albânia, Roménia, Rússia, Montenegro e Turquia. Em 2012 foram lançadas plata- formas de TDT paga em 21 países. Houve, pela primeira vez, uma di- minuição do número de subscrições na TDT paga, de cerca de 13% — em Itália, um milhão de subscritores anularam contrato. O OEA lembra que alguns serviços de TDT paga em Espanha e Portugal acabaram por não se materializar. Em Portugal, que fez o switch-off em Abril, estavam previstos dois servi- ços: o base, gratuito, que teria seis canais e ainda um multiplexer pago, que não se concretizou, e que iria concorrer com as ofertas de TV paga como o meo (da PT, que implemen- tou a TDT) e a ZON. O Observatório contabilizou, só em 2012, o lançamento de pelo menos 86 novos canais em sinal digital. Mas, segundo a base de dados Mavise, um serviço utilizado pelo Observatório, o mercado europeu da televisão esteve bem mais agitado: no ano passado a União Europeia viu nascer 369 novos canais de televisão no conjunto de todas as plataformas. Mas também houve 62 canais que fecharam.

O quarteto de humoristas Gato Fedorento poderá voltar ao ecrã a partir de Junho

Televisão Rita da Nova

As mais recentes aparições televisivas do grupo são em publicidade. Os Gato Fedorento não têm programa desde 2009

Os Gato Fedorento poderão voltar aos ecrãs a partir de Junho, avançou ontem Ricardo Araújo Pereira, um dos quatro humoristas do grupo, du- rante um encontro com alunos na Escola Portuguesa de Macau. “Almoçamos todas as semanas e

telefonamo-nos uns aos outros todos os dias, nem que seja só para insultar, mas é possível [um regresso], ainda outro dia estávamos a falar sobre is- so, se calhar qualquer dia voltamos”, disse Ricardo Araújo Pereira em de- clarações à agência Lusa. “Tenho alguns compromissos que me impedem de estar em Portugal”, explicou. O humorista adiantou que tem viagens marcadas à Colômbia e ao Brasil, pelo que o regresso só deverá dar-se depois de Junho. Depois de um ano no pro- grama radiofónico Mixórdia de Te- máticas, Ricardo Araújo Pereira não descarta a hipótese de continuar. O humorista e escritor está em Macau

de continuar. O humorista e escritor está em Macau Ricardo Araújo Pereira admitiu que podem regressar

Ricardo Araújo Pereira admitiu que podem regressar em breve

para participar no II Festival Literá- rio Rota das Letras, onde estarão ou- tros portugueses como a jornalista Alexandra Lucas Coelho, o fadista Camané ou o humorista Rui Zink. Os Gato Fedorento não se juntam em televisão há mais de três anos. A última vez foi com Gato Fedorento

Esmiuça os Sufrágios, em 2009.

O grupo começou por satirizar assuntos da actualidade num blo- gue homónimo, inactivo há quase seis anos. Os primeiros sketches humorís- ticos foram para o ar em 2003, no canal SIC Radical, primeiro no pro-

grama Perfeito Anormal e só depois

num programa independente.

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2003, no canal SIC Radical, primeiro no pro- grama Perfeito Anormal e só depois num programa

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LOCAL |

PÚBLICO, TER 12 MAR 2013

Salgado propõe recusa de hipoteca que há um mês queria autorizar

Câmara invoca o “cumprimento defeituoso” do contrato de exploração do parque da Praça da Figueira para impedir a Bragaparques de hipotecar o direito de superfície do espaço por 12 milhões de euros

Lisboa Inês Boaventura

Um mês depois de ter proposto que

a Câmara de Lisboa autorizasse uma

empresa do grupo Bragaparques a hipotecar o parque de estaciona- mento subterrâneo da Praça da Fi- gueira por 12 milhões de euros, o vereador Manuel Salgado vem agora

defender o contrário: que essa hipo- teca não seja autorizada, por haver um “cumprimento defeituoso” do contrato por parte da concessioná- ria do parque. Na proposta que vai ser discutida na reunião camarária de amanhã,

e que é também assinada pelo ve-

reador Nunes da Silva, diz-se que a Comporest (detida pela Bragapar- ques) “recusa” disponibilizar luga- res de estacionamento, em regime de avença mensal, aos residentes e comerciantes da freguesia de São Ni- colau. Isto apesar de, segundo diz a autarquia, o quarto piso do estacio- namento só abrir durante a época

natalícia e de o terceiro piso ter, em média, uma ocupação diária de 60%

a 70% da sua capacidade. Os vereadores Manuel Salgado (que tem o pelouro do Planeamen- to e Política de Solos) e Nunes da Silva (com o pelouro da Mobilidade) sublinham que existe uma “carência de lugares de estacionamento pa- ra residentes e comerciantes nesta zona da cidade”, expressa no facto de a Empresa Pública Municipal de Mobilidade e Estacionamento de Lisboa ter atribuído nesta área 417 dísticos de residente, para um total de apenas 195 lugares reservados a moradores na via pública. Perante isto, os autarcas concluem que “a não abertura de um dos pi- sos de estacionamento ao público constitui cumprimento defeituoso do contrato”. Esse argumento e o da “inexistência de cláusula expres- sa no contrato de constituição do direito de superfície que permita à câmara autorizar a oneração de tal direito” levam Manuel Salgado e Nu- nes da Silva a propor que não seja submetida à aprovação da Assem- bleia Municipal de Lisboa a autori- zação para que a Comporest avance com a hipoteca. “É uma forma de pressionarmos

a Bragaparques para se sentar à mesa com a câmara para negociar

RUI GAUDÊNCIO

se sentar à mesa com a câmara para negociar RUI GAUDÊNCIO No parque subterrâneo há lugares

No parque subterrâneo há lugares vagos, mas a Bragaparques não vende avenças mensais

Rede de bicicletas nas mãos da Emel

 

Perestrello quando ocupava a vice-presidência da Câmara de Lisboa), vai propor na reunião de amanhã a decisão de não contratar qualquer entidade para a criação de uma rede de bicicletas. “Não arranjámos financiamento. Hoje em dia, face à conjuntura económica, não há hipótese”, admitiu ao PÚBLICO. Mas a cidade, garante, não vai ficar sem bicicletas de uso partilhado: a Empresa Pública Municipal de Mobilidade e Estacionamento

D evia ter começado a funcionar em Junho de 2009, mas afinal a rede de bicicletas de uso partilhado

de Lisboa já não vai sair do papel, pelo menos nos moldes em que tinha sido anunciada pela autarquia. Desde o início, o projecto encontrou resistências na câmara e na assembleia municipal, tendo a oposição questionado a sua excessiva ambição e os seus custos, numa altura em que se falava em 2500

bicicletas espalhadas por toda

a

cidade e num encargo de 3,5

(Emel) vai lançar um concurso para a exploração de bicicletas eléctricas na frente ribeirinha,

milhões de euros anuais para o

município. A JCDecaux, empresa

à

qual a autarquia se preparava

nas Avenidas Novas e na ligação entre as duas zonas, no eixo

para adjudicar o serviço, chegou

a

propor um arranque mais

formado pela Fontes Pereira de Melo, Av. da Liberdade e Baixa. Segundo o vereador Nunes da Silva, este sistema não terá custos para o município e o objectivo é que esteja em funcionamento já no Verão. I.B.

tímido da iniciativa, com apenas 500 unidades nas Avenidas Novas, mas nem isso aconteceu. O vereador Sá Fernandes, que tem sido o rosto desta

iniciativa (lançada por Marcos

 

a possível utilização do quarto piso

para residentes. Não tem havido ne- nhuma abertura e há disponibilida- de de oferta para isso”, afirmou ao PÚBLICO o vereador Nunes da Sil- va. O autarca considera que o “cum- primento defeituoso do contrato” agora invocado pela câmara não é suficiente para que esta rompa com

a Comporest, uma vez que a formu-

lação do contrato é demasiado gené- rica. Na proposta aprovada em 1993 pela câmara e no ano seguinte pela assembleia municipal dizia-se ape-

nas que o parque teria “550 lugares, dos quais 200 poderão ser explora- dos como lugares cativos”. Em Fevereiro deste ano, Manuel Salgado defendeu em reunião ca- marária o oposto daquilo que agora propõe: que a Comporest fosse au- torizada a constituir uma hipoteca sobre o direito de superfície cor- respondente ao parque da Praça da Figueira, por um montante de

12

milhões de euros e um prazo de

20

anos. A proposta acabou por ser

retirada face às reservas demonstra- das por vereadores da oposição e da maioria, por estar em causa a Bra-

gaparques, com a qual a autarquia mantém um litígio em tribunal.

Galp corta apoios

Ponte em Outubro

E ra para ficar pronta em 2010, mesmo em frente à sede da Galp, na Segunda Circular, e

seria financiada em exclusivo pela Fundação Galp Energia. Afinal, lê-se numa proposta de

protocolo a discutir hoje pela Câmara de Lisboa, ela ficará obrigatoriamente pronta no dia 4 de Outubro deste ano, nas vésperas das próximas eleições autárquicas, e será financiada em mais de um terço pelo município. “Ela”

é a ponte pedonal sobre

a Segunda Circular, que

deverá ligar Telheiras à zona das Torres de Lisboa e que

deverá custar um milhão

e

365 mil euros. Quando

foi celebrado um primeiro

protocolo entre a câmara e

a

Fundação Galp Energia,

em 2009, estava previsto

um custo de 1, 2 milhões, a suportar apenas por aquela fundação. António Costa afirmou depois que a futura ponte seria “um dos grandes ícones da cidade”. Volvidos quatro anos nada aconteceu no terreno e parte dos compromissos passa agora

para a Lisboagás, empresa do grupo Galp Energia. Nos termos do protocolo, o novo mecenas contribuirá com um donativo em espécie já não de 1,2 milhões de euros, mas de 900.000, e a câmara entrará com os restantes 465 mil, prescindindo de cobrar taxas municipais nesse montante, que lhe sejam devidas pela actividade da Lisboagás. A empresa, que ficará com a

obra a seu cargo, compromete-

se

a fixar, no contrato a

celebrar com o empreiteiro, “o

dia 4 de Outubro como prazo-

limite de conclusão da obra”.

O

acordo com a Lisboagás

será assinado não por António Costa mas pelo vereador José Sá Fernandes. J.A.C.

PÚBLICO, TER 12 MAR 2013 | LOCAL |

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Câmaras recusam tarefas dos bombeiros

Transporte de doentes Jorge Talixa

Associação de municípios recusa alteração legal que lhe dá novas atribuições e pode prejudicar bombeiros e instituições particulares

A Associação Nacional de Municí-

pios Portugueses (ANMP) está con- tra a possibilidade de as autarquias poderem vir a exercer a actividade de transporte de doentes, prevista

na Lei 14/2013, de 31 de Janeiro. Es-

sa eventualidade é “desnecessária e

desaconselhada”, lê-se num parecer agora aprovado pela sua direcção.

A associação de municípios subli-

nha que já existem “entidades/estru-

turas apropriadas e suficientes para o exercício da actividade de transporte de doentes — em particular, os cor- pos de bombeiros voluntários, mis- tos e profissionais”.

O parecer recorda que as associa-

ções e corporações de bombeiros, as delegações da Cruz Vermelha e

as instituições particulares de soli- dariedade social já beneficiam da prerrogativa de exercer a actividade sem terem de obter um alvará para

o efeito — facilidade que a nova lei

estende agora às câmaras e juntas de freguesia. A ANMP salienta que nem sequer foi ouvida na preparação da nova lei e que também não foi ob- servada a Lei das Finanças Locais no que respeita à atribuição de meios e recursos adicionais, quando se veri- fica uma transferência de competên- cias para as autarquias. Considerando que não se revela necessária a intervenção directa dos municípios no transporte de doen- tes, a ANMP julga, até, que isso iria “constituir, certamente, um factor agravante da já grave situação finan-

ceira” das associações e entidades que exercem aquela actividade.

O assunto foi abordado na última

reunião da Câmara de Benavente, tendo Miguel Cardia, vereador da CDU que é também comandante dos Bombeiros de Samora Correia, observado que a alteração legislativa visa conferir às câmaras que têm cor- pos de bombeiros “a possibilidade de

ficarem isentas do respectivo alvará” para transportar doentes. O autarca admitiu que a ANMP tenha feito es-

ta análise da nova lei “com base em

pressupostos errados”, opinião que não coincide com a do presidente da

câmara local, António José Ganhão, também da CDU.

Breves Acesso ao IC 19 Ligação de Queluz à Amadora vai ter uma nova ponte

Breves

Acesso ao IC 19

Ligação de Queluz à Amadora vai ter uma nova ponte em Junho

A

construção da nova ponte

sobre a ribeira de Carenque, entre Queluz e a Amadora, deve iniciar-se brevemente

e

ficar concluída em Junho,

informou ontem a Câmara de

Sintra. A ponte do século XVII, que ligava Queluz à Amadora, foi encerrada em Junho do ano passado por apresentar

danos na estrutura, obrigando milhares de automobilistas

a

recorrer a vias alternativas

e

muito mais demoradas

para aceder ao IC 19. Em comunicado, a autarquia informa que vai ser construída uma nova ponte a poucas dezenas de metros. A obra, a

executar em três meses, foi

adjudicada à empresa Teixeira Duarte por 441.659 euros. Esta verba contempla ainda

a

reparação da antiga ponte,

que permanecerá no local apenas para peões, bem como

a

construção de duas rotundas

no acesso à nova ponte.

Algarve

Dois detidos por sequestro de homem que ninguém ajudou

A

Polícia Judiciária deteve

dois suspeitos de terem sequestrado um homem em Faro, alegadamente para tentarem reaver dinheiro

proveniente de um negócio ilícito. Em comunicado, a directoria do Sul da PJ revelou que o crime ocorreu na noite

de quinta-feira, quando os suspeitos manietaram um homem de 43 anos, pondo-o na bagageira de um automóvel

e

conduzindo-o para um

lugar ermo, nos arredores da cidade. Já nesse local, agrediram-no, apoderaram-se da sua roupa e do telemóvel e abandonaram-no. A agência Lusa cita uma fonte da PJ para

dizer que, sem roupas, a vítima tentou sem sucesso pedir ajuda, batendo à porta de várias casas da cidade.

FERNANDO VELUDO/NFACTOS
FERNANDO VELUDO/NFACTOS

As corridas de 2009 acabaram por ser organizadas pela empresa PA Leading, e não pela Talento

Início do julgamento que opõe Talento à Câmara do Porto começa hoje

Circuito da Boavista Patrícia Carvalho

Município e empresa que organizou as corridas de automóveis na Boavista em 2009 tentaram acordo, mas sem sucesso

Está marcado para hoje o arranque do julgamento que opõe a Talento à

Câmara do Porto e à empresa muni-

cipal Porto Lazer. A Talento, a em- presa de Francisco Santos que orga- nizou as edições de 2005 e 2007 do Circuito da Boavista, exige à Porto Lazer uma indemnização superior

a 1,2 milhões de euros, enquanto a empresa municipal reclama, por

sua vez, 381 mil euros à Talento. O caso remonta a 2008 e a tentativa de se chegar a um acordo extraju- dicial, desenvolvida nas últimas semanas, fracassou.

Quando Rui Rio decidiu reeditar

o histórico Circuito da Boavista na

cidade do Porto foi à Talento que entregou a responsabilidade da

organização do evento. Depois da realização das edições de 2005 e 2007, a empresa deveria ter orga- nizado as provas de 2009, mas a Porto Lazer rescindiu, unilateral- mente, o contrato, ainda durante

o ano de 2008. Na altura, o vereador Gonçalo

Gonçalves, que era o responsável pela Porto Lazer, justificou esta decisão com divergências relacio- nadas com as contas das corridas, alegando incumprimento por parte da Talento. A Porto Lazer defende que as verbas que a Talento lhe en- tregou ficaram muito aquém do de- vido, mas a empresa de Francisco Santos nega-o e reclama, por seu lado, uma indemnização pela res- cisão antecipada do contrato.

Da Talento à PA Leading

O PÚBLICO sabe que responsáveis camarários estiveram reunidos, nas últimas semanas, com o empresário

1,2

milhões é a quantia exigida pela Talento à Porto Lazer pela

rescisão do contrato, que passou

a organização do Circuito de

2009 a outra empresa

381

mil euros é a quantia exigida

pela Porto Lazer à Talento, que

a empresa municipal acusou de

ter entregue uma verba inferior

à devida

Francisco Santos, na tentativa de se conseguir alcançar um acordo que afastasse a resolução do diferendo da alçada judicial. Contudo, as duas partes não se conseguiram enten- der e, a partir de hoje, caberá ao tribunal decidir a questão.

A edição de 2009 do Circuito da

Boavista acabou por ser entregue

à PA Leading, empresa de Manuel

Rocha, antigo director do departa-

mento de Relações Públicas da RTP.

A empresa PA Leading foi responsá-

vel pela realização de várias outras iniciativas na cidade, como o desfile de pais natais — em que se bateram sucessivos recordes do Guinness re- lativos ao número de pessoas vesti- das com os fatos vermelhos daquela personagem —, os festejos de Natal

do município ou a exposição o Mun- do dos Dinossauros.

A Câmara do Porto lançou pos-

teriormente um concurso público para seleccionar um promotor in-

teressado em organizar a edição de 2011 do Circuito da Boavista, mas ninguém apresentou propostas. Nesse ano, acabou por ser a própria empresa municipal Porto Lazer a

assumir a organização do even-

to, que tem vindo a incluir, entre outras corridas, provas do WTCC (Campeonato do Mundo de Carros de Turismo).

O Circuito da Boavista, com pe-

riodicidade bianual, deverá reali-

zar-se, de novo, no corrente ano.

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ECONOMIA |

PÚBLICO, TER 12 MAR 2013

Enfraquecimento das exportações dita agravamento da recessão

A primeira queda nas vendas ao estrangeiro desde 2009 ditou evolução negativa do PIB. As exportações dependem do mercado europeu, que enfrenta também um cenário de crise

Conjuntura

Félix Ribeiro

Com a queda das exportações nos últimos três meses de 2012, Portugal perdeu aquele que tem sido o prin- cipal balão de oxigénio da economia no período de ajustamento. O Ins-

tituto Nacional de Estatística (INE) anunciou ontem a primeira queda trimestral das exportações de bens

e serviços nos últimos três anos, re- velando uma queda homóloga de 0,5% no quarto trimestre de 2012.

A última queda, de 0,2%, foi regis-

tada em 2009, também no último trimestre. De acordo com os dados do INE, a queda nas exportações foi o princi- pal responsável pela queda agravada de 3,8% do Produto Interno Bruto

(PIB) nos últimos três meses do ano,

a mais grave de que há registo desde

1975. Este valor, assim como a con- tracção anual de 3,2% do PIB em 2012, foram avançados em Feverei- ro e foram confirmados ontem pelo INE na segunda estimativa.

O instituto já anunciara também

uma queda nominal de 3,2% nas ex- portações em Dezembro, em com- paração com o mesmo mês de 2011,

o que já fazia antever o contributo

negativo nas contas do desempenho económico no final de 2012.

A razão que justifica a quebra no

sector exportador prende-se com o agravamento da conjuntura na zona euro, o principal mercado para as

exportações nacionais. Por essa ra- zão, Paula Carvalho, economista do BPI, afirma que é “muito importante

o acompanhamento dos primeiros

números da procura internacional [de 2013]”, já que estes devem ex- plicar se o cenário da economia eu- ropeia se mantém negativo. Em todo o caso, afirma a econo- mista, a quebra nas exportações deve continuar a verificar-se no iní- cio de 2013, primeiro porque existe um “factor de arrastamento” e, em segundo lugar, porque as exporta- ções não podem crescer sempre ao ritmo registado em 2011 e 2012. Aliás, a economista espera uma no- va queda homóloga nos dados das

exportações de Janeiro, que serão divulgados hoje pelo INE, . Do lado europeu, principal cliente de Portugal, a mudança de quadro não é esperada. Na semana passa- da, o Banco Central Europeu (BCE) agravou as previsões de desempe- nho económico na área da moeda única para uma contracção de 0,5% do PIB. A confirmar-se este cenário, Portugal pode ficar refém do cres- cimento das exportações para fo-

ra da comunidade europeia. Este crescimento tem-se verificado, co- mo indicam os últimos números das

exportações nacionais; mas o valor desta fatia das exportações continua comparativamente baixo. Em De- zembro de 2012, o INE registou um aumento de 2,7% nas exportações para fora da União Europeia e uma queda de 5,7% nas exportações pa- ra o mercado comunitário. Mesmo

assim, o valor destas últimas foi de 2174 milhões de euros, mais do que

o dobro dos 1017 milhões de euros

exportados para fora dos 27. No registo do total de 2012, as ex- portações aumentaram 3,3%, en-

quanto as importações evoluíram no sentido inverso, caindo 6,9%. Este contexto levou a que Portugal

registasse um saldo exterior positivo

de 0,4% do PIB, o primeiro ano com um excedente desde que teve início

o registo do INE, em 1995.

Stocks puxam pelo consumo

No total de 2012, a queda na procu- ra interna foi de 7%, maior do que

o peso negativo de 6,3% registado

em 2011. Porém, o último trimestre mostra uma atenuação significativa

da queda na procura interna, para os 4,7%. Este valor compara com as quedas de 6,8% no primeiro trimes- tre, 8,3% no segundo, e de 7,1% no terceiro trimestre de 2012. O abrandamento na queda do con- sumo interno não se relaciona com a queda menos grave do consumo pri- vado (5,3% face aos 6% do trimestre anterior), ou no consumo público, que caiu os mesmos 4,7% do terceiro trimestre. Neste bolo, o contributo positivo pertence ao factor investi- mento, que caiu apenas 2,6%, quan- do no trimestre anterior havia sofri-

DANIEL ROCHA
DANIEL ROCHA
O INE divulga hoje como evoluíram as exportações no primeiro mês deste ano Contas à
O INE divulga hoje como evoluíram as exportações no primeiro mês deste ano
Contas à lupa
Variação homóloga do PIB, em %
Comércio externo, var. homóloga em %
3,0
12
Exportações
1,5
8
0,0
4 Importações
3,3
-1,5
0
-3,0
-4
-4,5
-8
-6,9
-6,0
-12
2004
2005
2006
2007
2008
2009
2010
2011
2012
2008
2009
2010
2011
2012
Fonte: INE

Investimento teve comportamento positivo no último trimestre de 2012, mas este resultado foi conseguido, essencialmente, à custa de um aumento dos stocks

do uma quebra de 14,4%. Mas a desconstrução da variável do investimento parece indicar que o alívio no último trimestre não se- rá duradouro. Foi à custa de um au- mento significativo nos stocks (varia- ção de existências) que sustentou a queda atenuada, um fenómeno que dificilmente traduz uma mudança sistemática no panorama do inves- timento nacional. Em comparação com o terceiro trimestre, a variação de existências registou um saldo positivo de 285,4 milhões de euros face a um saldo negativo de 82,5 milhões de euros registado no terceiro trimestre. “É

difícil dizer que isto tenha uma lei- tura significativa”, explicou Paula Carvalho ao PÚBLICO. A economista avança que se deve verificar, de facto, uma queda menos acentuada no consumo interno ao longo de 2013. Paula Carvalho chama a atenção para o facto de este indica- dor se encontrar em mínimos histó-

ricos, o que deve estabilizar a queda. Este caminho parece estar já a ser traçado. O INE anunciou ontem um alívio na queda na Formação Bruta de Capital Fixo nos últimos meses de 2012, para os 13,2%, o valor mais baixo desde o primeiro trimestre de

2012.

PÚBLICO, TER 12 MAR 2013 | ECONOMIA |

17

Mercados

Bolsas em queda e juros em alta

O s mercados financeiros

europeus valorizaram

ontem dois dados

negativos: o corte do

rating da dívida italiana, por parte da Fitch, em um patamar, e o abrandamento da produção industrial na China. A bolsa de Lisboa acompanhou a tendência de queda das congéneres europeias, encerrando a perder 0,58%, e os juros da dívida portuguesa também reagiram negativamente, ou seja, em ligeira alta, em sintonia com a evolução da dívida italiana e espanhola. A queda das bolsas foi

modesta, inferior a 1%, com apenas a praça de Londres

a encerrar em ligeira alta, de 0,31%. Como acontece quando estão em causa más notícias

ao nível das dívidas soberanas,

o sector financeiro é o que

regista maiores quedas. Os

títulos financeiros nacionais acompanharam essa tendência,

e o BES perdeu 2,3%, seguida

do BCP, a recuar 1,8%, e do BCP

a deslizar 1,7%. Os juros das dívidas

soberanas de Portugal, Espanha

e Itália também subiram

ligeiramente e na generalidade

dos prazos. O corte de rating

a Itália, anunciado na sexta-

feira passada após o fecho dos mercados, dominou o sentimento dos investidores, anulando duas boas notícias para Portugal, como o muito provável alargamento do prazo, por parte da troika, para o cumprimento da meta do défice abaixo dos 3%, que salta de 2014 para 2015. Desvalorizado foi também o acordo para o alargamento dos prazos de reembolso da ajuda financeira recebida

por Portugal e Irlanda. Para

a agência Moody’s, o acordo

de alargamento do prazo de reembolso aumentará as hipóteses de recuperar o pleno acesso ao mercado e de saída bem-sucedida dos programas de ajustamento. Rosa Soares

1,9%

No Orçamento para 2013, o Governo esperava uma recessão de 1%, mas num contexto de crise europeia alargou a previsão para 1,9%

Troika dá mais um ano para reduzir o défice do Estado

Os credores internacionais de Portu- gal vão dar ao país mais um ano, até 2015, para conseguir reduzir o défi- ce público para valores inferiores a 3% do produto interno bruto (PIB), avançou ontem a agência de notícias Reuters, citando fontes próximas da troika. A extensão do prazo surge na sequência do reconhecimento do impacto que a recessão europeia

está a ter no país e as dificuldades do Governo para, neste contexto, atin- gir as metas estabelecidas no plano de saneamento financeiro. “Há um grande esforço de ajusta- mento, que tem de ser reconhecido. Há um consenso (entre os credores) de que a situação externa piorou

e que Portugal precisa de mais um

ano para reduzir o seu défice para

valores inferiores aos 3%”, diz a fon- te citada pela Reuters. Os representantes da troika — que reúne a Comissão Europeia, o Ban-

co Central Europeu e Fundo Mone- tário Internacional — estão em Lis- boa para concluir a sétima avaliação do programa de ajustamento. Após

esta avaliação, poderão recomendar

a suavização de algumas metas.

“Este objectivo [do défice] será atingido em 2015. A recessão neste ano de 2013 será maior, cerca de

2%, o que fará com que a execução orçamental seja mais difícil”, adian- tou a mesma fonte. O Ministério das

Finanças, liderado por Vítor Gaspar, não quis comentar a notícia. O Governo já tinha dito que neces-

sitaria de mais um ano para reduzir o défice devido ao agravamento da situação económica. Há um mês, foi anunciado que a contracção do PIB seria pior do que a esperada aquan- do a apresentação do Orçamento de estado para 2013 (em outubro do ano passado), passando de 1% para 1,9%. De acordo com o que estava pla- neado, Portugal tem de cortar o défice para 4,5% do PIB este ano, quando no ano passado a meta era de 5%, e atingir 2,5% em 2014. “A recessão na Europa é um dado im- portante e é por isso que a troika se mostra flexível”, adianta outra fonte, acrescentando que as con-

tas externas de Portugal estão a ajustar-se de forma mais rápida do que as previstas no programa de ajustamento. No sábado, em declarações ao jor- nal Expresso, o presidente da Co- missão Europeia confirmou que um dos resultados da sétima avaliação da troika que está a decorrer em Lisboa será o alargamento em um ano do prazo dado a Portugal para

colocar o défice público em 3%. O pedido já tinha sido tornado público no mês passado por Vítor Gaspar e as declarações de vários responsáveis em Bruxelas, incluin- do o comissário europeu para os as- suntos económicos e financeiros, Olli Rehn, apontavam para que o desfecho das negociações fosse po- sitivo. PÚBLICO/Reuters

DANIEL ROCHA
DANIEL ROCHA

Impacto da recessão europeia no país terá convencido a troika

Emprego recuou 205,6 mil no ano passado

A final, a destruição de

emprego entre 2011 e 2012

foi mais significativa do que

revelavam os números do

diferente e não têm em conta a sazonalidade, o INE dava conta de uma redução do emprego na ordem das 202,3 mil pessoas. As contas nacionais revelam que também o emprego remunerado (por conta de outrem), corrigido de sazonalidade, teve uma quebra de 5,1%, ou seja, menos 196 mil pessoas empregadas. Desde que a crise se iniciou, em 2008, a economia nacional assistiu à destruição de 491,5 mil postos de trabalho. No final de 2012, o emprego em Portugal atingiu o nível mais baixo desde 1996, ano em que a população empregada ascendia a 4,61 milhões. R.M.

Instituto Nacional de Estatística (INE), divulgados em Fevereiro. Nas contas nacionais, ontem divulgadas, o INE corrige os dados tendo em conta a sazonalidade e conclui que, no final do ano passado, o total de emprego (em contas nacionais) ascendia a 4,66 milhões pessoas. Na prática, isto significa que a economia portuguesa perdeu 205,6 mil empregos no espaço de um ano. Nas estatísticas do emprego divulgadas em Fevereiro,

que usam uma metodologia

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18 | ECONOMIA | PÚBLICO, TER 12 MAR 2013

Urbanos associa-se a três jornais e compra distribuidor que ia encerrar actividade

Logística Raquel Almeida Correia

Consórcio criou sociedade para comprar a operação da Logista em Portugal. Objectivo é crescer até 30% ao ano e reduzir custos

A decisão tinha de ser rápida. A Lo-

gista, distribuidora ibérica, prepa- rava-se para encerrar a actividade em Portugal, o que afectaria muitas

publicações nacionais suas clientes. Três delas decidiram juntar-se e en- contrar um sócio com experiência no sector para adquirir a empresa.

O negócio foi concluído no fim-de-

semana. A Urbanos ficou com 75% do capital e o restante está agora nas mãos de três jornais: A Bola, Diário Económico e PÚBLICO. Foi destas publicações que partiu a

iniciativa, no final de 2012, de encon- trar uma solução para o expectável encerramento da Logista. “Os edito- res foram muito forçados a uma deci- são para preservarem a actividade da empresa, que a crise foi diminuindo”, explicou Gonçalo Faria de Carvalho, administrador da Ongoing (dona do Diário Económico). Já Cristina Soares, administradora do PÚBLICO, acres- centou que a distribuidora “declarou

a intenção de encerrar a actividade

de publicações caso os editores não assumissem o controlo do capital”. Uma vez confrontados com o problema, o consórcio de clientes da Logista começou a procurar um

parceiro, com um requisito claro: ex- periência no sector da distribuição.

A Urbanos (um dos maiores grupos

de logística português) foi, de acordo com Faria de Carvalho, a primeira es- colha. E o grupo, fundado por Alfre- do Casimiro, aceitou o desafio.

“Para a Urbanos, [esta aquisição] encaixa na estratégia de crescimen- to”, afirmou o administrador, João

Pecegueiro. A ideia de investir nesta área num momento em que a venda de jornais está em queda não refreou os ânimos, porque a ideia é aprovei- tar a estrutura do grupo para criar sinergias que poderão reduzir signifi- cativamente os custos de distribuição

e aumentar a qualidade do serviço.

O negócio acontece numa altura

em que a Urbanos se prepara para inaugurar um centro de coordenação operacional, onde será gerida toda a

actividade de distribuição. “Vai per- mitir fazer uma gestão centralizada”, melhorando a relação com os pontos de venda. “Vamos conseguir perce-

ber os efeitos sazonais que existem” na venda de jornais e “ser mais pro- dutivos na gestão das sobras”, que hoje ainda podem chegar a represen- tar 40% do que é distribuído, disse. Com cerca de 120 trabalhadores, a sociedade agora criada, que dá pelo nome de Distrinews, factura perto de 100 milhões de euros anualmente e

o objectivo é crescer “20 a 30% em

três anos”, antevê João Pecegueiro. Já Cristina Soares, do PÚBLICO, referiu que as expectativas são “razoáveis”, acrescentando que será mantido “um acompanhamento prudente”.

Se não tivessem avançado para este

negócio, os três editores seriam con-

frontados com um problema: é que

a alternativa à Logista já é detida por três grandes grupos de comunicação social. Trata-se da Vasp, controlada pela Cofina, Impresa e Controlinves- te, que editam publicações concor- rentes. Gonçalo Faria de Carvalho, da Ongoing, avançou que “estão

completamente abertos” à entrada de novos sócios na Distrinews. Con- tactada pelo PÚBLICO, a empresa que detém A Bola não esteve disponível para comentar.

MIGUEL MANSO
MIGUEL MANSO

Alfredo Casimiro lidera o grupo Urbanos, que comprou a Groundforce

Governo reduz a base de descontos dos funcionários públicos para a ADSE

Contas públicas Raquel Martins

Trabalho extraordinário e um conjunto de subsídios deixam de gerar descontos para o subsistema de saúde da função pública

O Governo decidiu reduzir a base de

incidência dos descontos para a AD- SE (o subsistema de saúde da gene- ralidade da função pública). Assim, os funcionários públicos que desde o

início do ano estavam a descontar so- bre a totalidade das remunerações — incluindo o trabalho extraordinário e outros subsídios — verão esse descon-

to reduzir-se significativamente.

A medida está prevista no decreto-

lei de execução orçamental, ontem publicado, que prevê que se mante- nha em vigor o regime aplicado até ao final do ano passado e que apenas considerava para efeitos de desconto da ADSE o salário e os suplementos

“com carácter de permanência”. No Orçamento do Estado para 2013, o Governo decidiu alargar a base de incidência dos descontos para a Caixa Geral de Aposentações (CGA) e aproximá-lo do sector priva- do, passando a considerar o trabalho extraordinário, as ajudas de custo, os abonos ou subsídios de residência,

de transportes ou para falhas. Ao mesmo tempo, acabou por alargar também a base de incidência dos descontos para a ADSE. Em Janeiro, muitos trabalhadores viram-se con- frontados com o aumento dos des- contos para os subsistemas de saú- de, dado que passaram a descontar 1,5% sobre um leque mais alargado de rendimentos. Agora, no diploma ontem publica- do, o Ministério das Finanças asse- gura a manutenção da base de inci-

dência da quota para a CGA em vigor

a 31 de Dezembro de 2012. No caso

das dos serviços, terão que descontar 2,5% sobre uma base de incidência mais alargada, tal como está previsto para a CGA.

O diploma estabelece ainda um

regime de equivalências para os funcionários públicos de baixa por doença. Os funcionários nesta situ- ação apenas terão que descontar so- bre o que efectivamente recebem, mas manterão os direitos como se descontassem sobre a totalidade do salário. Até 2012, os funcionários públicos integrados no regime de protecção social convergente que faltavam por

MIGUEL MANSO
MIGUEL MANSO

Vítor Gaspar recuou no regime consagrado no OE 2013

motivos de doença mantinham o di- reito à remuneração normal, que es- tava sujeita a desconto de 11% para a CGA. O OE 2013 aproximou o regime público do regime geral da segurança

social e determinou que, nos três pri- meiros dias de faltas, o trabalhador perde a totalidade da remuneração

e nos 27 dias seguintes tem uma re-

dução de 10% da sua remuneração. Com esta mudança, tornou-se neces- sário estabelecer um mecanismo de equivalência e, ao mesmo tempo, definir que os trabalhadores apenas descontam sobre o que recebem. Já os serviços públicos são obrigadas a descontar para a CGA como se con- tinuassem a pagar ao trabalhador a remuneração total.

Ministro com mais poderes

O decreto-lei sobre a execução orça-

mental concede, também, mais po- deres ao ministro das Finanças para limitar a despesa do Estado. Para “cumprir as metas orçamen- tais”, Vítor Gaspar pode limitar ainda

mais a capacidade dos serviços assu-

mirem compromissos e levantarem fundos. Os organismos já tinham de calcu- lar mensalmente os fundos disponí-

O Governo tinha mexido no regime de descontos do Estado para o aproximar do que vigora no sector privado

veis, aos quais estava limitada a sua capacidade de assumirem dívidas. Agora, o Ministério das Finanças decidiu introduzir no decreto-lei de execução orçamental uma regra que permite ao ministro das Finanças re- duzir o valor relativo à “dotação cor-

rigida líquida de cativos, relativa aos

três meses seguintes”, e às “transfe- rências ou subsídios com origem no Orçamento do Estado, relativos aos três meses seguintes” utilizadas para calcular os fundos disponíveis. Para isto, a Direcção-Geral do Or- çamento comunica mensalmente o limite máximo a considerar na de- terminação dos fundos disponíveis de cada uma destas alíneas, sendo que este limite se aplica também “ao levantamento de fundos com origem em receitas gerais para os serviços e

fundos autónomos”.

O Governo decidiu também eli-

minar o regime de duodécimos na execução do orçamento, que tem estado sempre presente nos vários decretos-lei de execução orçamen- tal. “Este processo, dotado de uma enorme carga procedimental, fazia com que os organismos tivessem que solicitar antecipações de duodéci- mos numa rubrica mesmo quando tinham espaço orçamental noutra

rubrica para fazer face aos compro- missos assumidos”, explica o Minis- tério das Finanças.

O Governo garante, no entanto,

que não estará em causa, nem com esta alteração, nem com a alteração que limita os fundos disponíveis dos serviços, o incumprimento dos com- promissos assumidos pelo Estado, nomeadamente em matéria de paga- mento de vencimentos ou pensões. com Lusa

20 |

ECONOMIA |

PÚBLICO, TER 12 MAR 2013

Sonae faz acordo com o Grupo Sá e mais do que duplica lojas na Madeira

Distribuição Ana Rute Silva e Tolentino de Nóbrega

Dona do Continente faz acordo de trespasse para nove lojas da empresa madeirense, com dívidas de 110 milhões de euros

A Sonae MC, empresa do grupo So-

nae (dono do PÚBLICO) que detém

os hipermercados Continente, che- gou a acordo com o Grupo Sá para

o trespasse de nove hipermercados

na Madeira. A empresa madeirense está em processo especial de revitalização e, caso a operação avance, ficará com 14 lojas de pequena e média dimen- são. Já a Sonae passa de oito para 17 unidades. Em comunicado, a Sonae MC diz que o contrato está dependente de “alguns condicionalismos legais”, como a decisão de não oposição da Autoridade da Concorrência. O Gru- po Sá enfrenta sérias dificuldades financeiras e, em Maio do ano pas- sado, decidiu encerrar a única loja que detinha em Lisboa para centrar actividade na Madeira. Depois da aprovação do regula- dor, a Sonae MC garante que vai as- segurar “a viabilidade dos postos de trabalho afectos a estes estabe- lecimentos comerciais”. O PÚBLI- CO contactou a empresa para saber qual o valor do contrato, agora, as- sinado, mas não foi possível obter resposta. Este negócio, segundo fonte do Grupo Sá, envolve mais de 500 tra- balhadores dos nove hipermercados Sá. A empresa tem 23 lojas, mas só

as nove maiores estão no processo

de trespasse: São Martinho, Seminá- rio e Santo António, no Funchal, e, fora da capital madeirense, Santa- na, Machico, Santa Cruz, Camacha, Ribeira Brava e Estreito de Câmara de Lobos. No âmbito do processo especial de revitalização previsto no Códi- go de Insolvência e Recuperação de Empresas, foi tornada pública em

Janeiro passado a lista provisória de

credores da empresa Jorge Sá, S. A.

O processo corre termos no Tribu-

nal Judicial do Funchal, tendo sido nomeado Napoleão de Oliveira Du-

arte administrador da insolvência. Segundo a lista provisória, lide- rada por instituições bancárias em termos de valor, os credores reco- nhecidos no processo especial de revitalização ascendem a 1263. O montante da relação dos créditos reclamados e reconhecidos atingem 109,5 milhões de euros, incluindo juros. Entre os credores estão fornece- dores, prestadores de serviço, da Madeira e do continente, assim co- mo os 1,5 milhões de euros reclama- dos pela Segurança Social. No âmbito do processo de insol- vência em curso, o Tribunal Judicial do Funchal proferiu um despacho

no dia 27 de Fevereiro de 2012 sobre

as impugnações de alguns créditos,

tendo reconhecido novas dívidas no montante de 400 mil euros, elevan- do para 110 milhões o valor total re- clamado. O Grupo Sá chegou a ter 1600 trabalhadores. Em Junho do ano passado, viu-se obrigado a ceder a exploração do emblemático Bazar do Povo (uma espécie de armazéns Grandela do Funchal) ao empresário chinês Wang Yonwei.

DANIEL ROCHA
DANIEL ROCHA

Se o negócio avançar, o Continente fica com 17 unidades na Madeira

RUI GAUDÊNCIO

o Continente fica com 17 unidades na Madeira RUI GAUDÊNCIO Equipa de gestão da ANAM ficará

Equipa de gestão da ANAM ficará completa em breve com nomeação do novo presidente, António Morgado

Jardim vende 20% dos aeroportos por 100 milhões para abater dívida

Privatização Raquel Almeida Correia e Tolentino de Nóbrega

Governo Regional já fechou acordo para alienar posição na ANAM, que passará para a Vinci. Novo presidente será nomeado em breve

O Governo Regional da Madeira já

fechou a venda da participação de 20% que detém na ANAM, a gestora aeroportuária do arquipélago que é detida em 70% pela ANA. O encaixe será de cerca de 100 milhões de eu- ros, com a condição de que seja utili- zado exclusivamente para amortizar

a dívida da região. As negociações em redor da venda da posição na ANAM começaram no

final do ano passado, na sequência da privatização da ANA, mas só recente- mente foi possível chegar a um acor- do final com o Governo português.

O valor a pagar pela participação era

uma das questões mais importantes que ainda estavam pendentes. Além disso, a venda dos 20% de- tidos pelo Governo Regional pressu- põe o compromisso de que haverá uma redução das taxas aeroportu- árias praticadas na região, as mais elevadas do país, e uma harmoni- zação com os valores cobrados no continente. E todo o encaixe obtido

com o negócio terá de ser usado para abater à dívida pública, que ronda os sete mil milhões de euros. Com este acordo, o grupo que saiu vencedor da privatização da ANA (a Vinci) poderá agora tomar as rédeas dos aeroportos na Madeira. O inves- tidor francês vai pagar 3080 milhões pela gestora aeroportuária estatal, tendo assinado já o contrato de pro- messa compra e venda com o Gover- no em Fevereiro.

Mas para que este passo seja da- do na Madeira é necessário avançar com a nomeação do novo conselho de administração da ANAM, que está

3080

milhões de euros foi o valor oferecido pelo grupo francês Vinci para comprar 95% do capital da ANA, que detém uma participação de 70% na ANAM

neste momento sem quórum. A em- presa tem apenas dois administrado- res: Duarte Ferreira, que é também director dos aeroportos da região, e António Ferreira de Lemos, que foi nomeado vice-presidente da ANA em Agosto de 2012 (não sendo remune- rado pelo cargo na ANAM). O PÚBLICO sabe que a administra- ção da gestora aeroportuária da re- gião ficará em breve completa, com a

entrada do novo presidente, António Morgado. O gestor, vogal do conse-

lho de administração desde que Jorge Ponce Leão foi nomeado para liderar

a

ANA, era director de planeamento

e

controlo de gestão do grupo, onde

está desde 1990. O processo de escolha do novo presidente da ANAM esteve depen- dente da conclusão do processo de privatização da ANA. A nomeação de António Morgado permitirá reunir a assembleia de accionistas que apro- vará as contas da gestora aeroportu-

ária da Madeira relativas a 2012, bem como a venda aos franceses da Vinci. Além do Governo Regional e da ANA, a ANAM é detida em 10% di- rectamente pelo Estado português.

E o conselho de administração que

agora ficará completo com a entrada do novo presidente deverá manter- se no cargo quando a Vinci assumir

o controlo do grupo, como aconte-

ceu com a equipa liderada por Ponce Leão. Será, no entanto, mais redu- zida, já que a anterior contava com cinco elementos. Antevê-se que a privatização da ANA só fique completamente fecha- da em meados deste ano, visto que ainda será necessário obter luz verde da Autoridade da Concorrência e da Direcção-Geral da Concorrência da União Europeia. Só com o aval dos reguladores é que o Estado transferi- rá as acções para a Vinci, correspon- dentes a 95% do capital.

Barroso alerta para impacto social da crise

Cimeira europeia Pedro Crisóstomo

Combate ao desemprego deve ser prioritário, diz o presidente da CE. Para Martin Schulz, a Europa arrisca perder uma geração

A dias de mais uma cimeira euro-

peia, em Bruxelas, Durão Barroso escreveu aos chefes de Estado e de Governo para fazer um balanço da

resposta à crise e dar conta de algu- mas preocupações da Comissão Eu- ropeia (CE). As reformas dos países começam “a dar frutos”, mas é preci-

so ter em atenção as “consequências

sociais”, nomeadamente a subida do desemprego.

A Europa onde o presidente da CE dizia ontem, em carta aos líderes eu- ropeus, ser necessário continuar as reformas estruturais, conjugando-as com medidas de competitividade e de combate ao desemprego jovem

é, para o presidente do Parlamento

Europeu, o alemão Martin Schulz, uma Europa que arrisca perder

uma geração inteira de jovens. “Se

a nova geração perde confiança [na

capacidade de a UE resolver os seus problemas], penso que é a UE que está verdadeiramente em perigo”, afirmou Schulz à Reuters. Para Durão Barroso, as medidas adoptadas estão a corrigir os “dese- quilíbrios na economia europeia”. Mas há países que diz precisarem de avançar com mais “reformas es- truturais” capazes de responder à perda de competitividade ao longo

dos anos. “Ainda não saímos da crise, como mostram os níveis inadmissi- velmente elevados de desemprego”

e este é uma das “consequências so-

ciais da crise” que o presidente da CE diz ser um motivo particular de preocupação da Comissão. Barroso vê uma melhoria nas con- dições dos mercados; acredita que “os esforços de reforma dos Estados- membros estão a começar a dar fru- tos, corrigindo desequilíbrios muito significativos na economia europeia”; mas nota que isso não se reflectiu ainda na economia real e sublinha que o desemprego atingiu níveis- recorde em vários países – 10,8% da

população activa na UE e 23,6% entre

os jovens dos 15 aos 24 anos. “Todos

estamos preocupados com os níveis elevados de desemprego jovem e ao longo de vários Conselhos Europeus

tomámos importantes decisões pa-

ra

combater este flagelo”, diz.

PÚBLICO, TER 12 MAR 2013 | 21 Bolsas O DIA NOS MERCADOS Dinheiro, activos e
PÚBLICO, TER 12 MAR 2013 | 21
Bolsas
O DIA NOS MERCADOS
Dinheiro, activos e dívida
Diário de bolsa
Divisas Valor por euro
Portugal PSI20
Euro/Dólar
1,303
6300
Euro/Libra
0,8734
6000
Euro/Iene
125,55
5700
Euro/Real
2,55
5400
Euro/Franco Suíço
1,2354
5100
Últimos 3 meses
Taxas de juro
Acções
Euribor 3 meses
0,201%
PSI20
-0,58%
Euribor 6 meses
0,326%
Euro Stoxx 50
-0,37%
Dow Jones
0,35%
Euribor 6 meses
Variação dos índices face à sessão anterior
Mais Transaccionadas
Volume
0,43
BCP
60.987.874
0,375
BES
12.604.417
0,350
EDP
4.186.294
0,325
PT
3.286.357
0,300
Últimos 3 meses
Galp Energia
1.397.727
Mercadorias
Melhores
Variação
Petróleo
110,13
Jerónimo Martins
1,86%
Ouro
1580,35
Cofina
0,92%
Preço do barril de petróleo e da onça, em dólares
Sonaecom
0,32%
Obrigações
Piores
Variação
OT 2 anos
3,589%
BES
-2,34%
OT 10 anos
6,045%
Altri
-2,23%
Galp Energia
-1,98%
Europa Euro Stoxx 50
Obrigações 10 anos
8,50
2800
7,75
2725
7,00
2650
6,25
2575
5,50
2500
Últimos 3 meses
Últimos 3 meses
PSI-20
Última Sessão
Performance (%)
Nome da Empresa
Var%
Fecho
Volume
Abertura
Máximo
Mínimo
5 dias
2013
PSI 20 INDEX
-0,58 6040,940
86303298 6074,640 6082,690 6023,520
2,32
6,82
ALTRI SGPS
-2,23
1,886
253897
1,930
1,930
1,877
5,99
18,77
BANIF SA
-0,746
0,133
78532
0,133
0,134
0,133
0,75
-8,90
BPI
-1,75
1,176
470461
1,194
1,199
1,175
-0,08
24,71
BCP
-1,8
0,109
60987874
0,111
0,111
0,109
2,78
45,33
BES
-2,34
0,958
12604417
0,970
0,981
0,951
9,12
7,04
COFINA SGPS
0,92
0,548
25741
0,540
0,548
0,537
3,82
-6,96
EDP
-0,04
2,349
4186294
2,350
2,359
2,337
3,07
2,58
EDP RENOVÁVEIS
-0,5
3,950
505352
3,930
3,990
3,905
1,79
-1,10
ES FINANCIAL
-1,52
5,200
18887
5,231
5,255
5,200
2,72
-1,52
GALP ENERGIA
-1,98
11,900
1397727
12,140
12,145
11,880
3,76
1,19
J MARTINS SGPS
1,86
15,330
436705
15,095
15,375
15,050
-1,95
5,00
MOTA ENGIL
-1,43
1,933
106441
1,975
1,975
1,931
-1,95
23,36
PT
-0,92
4,002
3286357
4,050
4,054
3,984
5,18
6,75
PORTUCEL
-1,48
2,727
149772
2,753
2,764
2,724
1,32
19,61
REN
0
2,288
58086
2,291
2,299
2,288
-2,56
11,34
SEMAPA
-1,27
6,763
68544
6,850
6,930
6,737
1,45
18,86
SONAECOM SGPS 0,32
1,555
482186
1,560
1,578
1,550
2,38
5,00
SONAE INDÚSTRIA -0,5
0,596
99557
0,594
0,598
0,590
4,54
21,88
SONAE
-0,86
0,690
825709
0,697
0,700
0,681
1,16
0,44
ZON MULTIMÉDIA -0,32
3,403
260759
3,417
3,429
3,250
-1,04
14,58
0,690 825709 0,697 0,700 0,681 1,16 0,44 ZON MULTIMÉDIA -0,32 3,403 260759 3,417 3,429 3,250 -1,04

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MUNDO |

PÚBLICO, TER 12 MAR 2013

El comandante Valentín já imagina enchentes no 23 de Enero

Restos mortais de Hugo Chávez serão transladados para a paróquia 23 de Enero, onde muitos venezuelanos têm medo de entrar

Reportagem Ana Cristina Pereira, em Caracas

Há uma barreira guardada por jovens militares. Ninguém pode aproximar-se do Quartel da Montanha, que Hugo Chávez queria transformar no Museu da

Revolução Bolivariana. Ultimam- se os preparativos para receber

o corpo, que deve chegar sexta-

feira, numa urna de cristal. No noroeste de Caracas, entre colinas, a paróquia 23 de Enero, dividida em colectivos que por vezes se guerreiam. Valentín Santana, líder do mais radical, o La Piedrita, apresenta-a assim:

“Paróquia rebelde, combativa, leal ao comandante Chávez. Sentimo- nos orgulhosos de o ir ter aqui.” A paróquia não costuma estar

nas páginas dos jornais pelos melhores motivos. Ainda se fala na contenda em torno de fotografias de crianças com lenços na cara e metralhadora nas mãos, à moda do subcomandante Marcos, de Chiapas, no México, tendo atrás um mural a representar Jesus Cristo armado. A confusão foi tanta que Jesus agora aparece com um exemplar da Constituição.

O “barrio” ameaça descer

à cidade caso seja necessário

“defender a revolução”. Em Abril de 2002, quando Chávez sofreu um golpe de Estado, o 23 de Enero desceu em peso ao Palácio de

Miraflores, a exigir o seu regresso. “Nunca ouviste o comandante Chávez dizer que isto é uma revolução pacífica, mas armada?”, pergunta Valentín. “Que não se engane o imperialismo. Esta