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Ateísmo

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Rafael Correa

Ateísmo

Autor: Michael Martin Tradução: André Díspore Cancian

Ateísmo é a negação ou a falta da crença na existência de deus(es). O termo ateísmo vem do prefixo grego “a-”, significando “ausência”, e da palavra grega theos, significando “divindade”. A negação da existência de Deus é conhecida como ateísmo “ativo” ou “forte”; a simples descrença é denominada ateísmo “passivo” ou “fraco”. Apesar de o ateísmo ser freqüentemente visto como algo distinto do agnosticismo – visão segundo a qual não podemos saber se uma divindade existe ou não, mantendo uma posição neutra sobre o assunto –, ele é compatível com o ateísmo “passivo”.

O ateísmo possui uma vasta quantidade de implicações à condição humana. Com a ausência da crença num deus, as questões éticas devem ser determinadas em função dos objetivos e preocupações humanas, cabendo a nós assumir responsabilidade total pelo nosso destino. A morte, nessa visão, marca o fim da existência de um indivíduo.

Em 1994 estimava-se que havia aproximadamente 240 milhões de ateus no

mundo – cerca de 4% do total –, incluindo aqueles que professam o ateísmo, o ceticismo,

a descrença ou que opõem-se à religião. A porcentagem estimada aumentou

significantemente, sendo atualmente algo em torno de 21% da população mundial (se ateus “passivos” forem incluídos).

O Escopo do Ateísmo

Em tempos antigos, pessoas utilizavam ocasionalmente a palavra “ateísmo” como uma ofensa às posições religiosas de seus opositores. Os primeiros cristãos eram chamados de ateus porque negavam a existência das divindades romanas. Ao longo do tempo muitos mal-entendidos surgiram: que os ateus são imorais, que a moralidade não pode ser justificada sem a crença em um deus, que a vida não tem sentido sem um criador. Apesar dessa visão ser bastante difundida, não há evidências de que ateus são menos morais que os teístas. Muitos sistemas morais foram criados sem pressupor a existência de um ser sobrenatural. O “sentido” da vida humana pode basear-se em objetivos terrenos, como melhoria da humanidade.

Na sociedade ocidental o termo ateísmo foi utilizado mais especificamente para

designar a negação do teísmo, particularmente o judaico-cristão, que afirma a existência

de um Deus pessoal todo-poderoso, todo-sabedoria e todo-bondade. Esse ser criou o

Universo, preocupa-se ativamente com problemas humanos e guia sua criação através da

revelação divina. O ateísmo “ativo” rejeita esse Deus e as crenças a ele associadas, como a na vida pós-morte, na predestinação, nas origens sobrenaturais do Universo, nas almas imortais, na revelação da natureza divina através da Bíblia e do Corão e na fundamentação religiosa da moral.

O teísmo, entretanto, não é um componente de todas as religiões. Algumas rejeitam o teísmo, mas não são inteiramente atéias. Apesar do Bhagavad-Gita – escritos sagrados do hinduísmo – ser totalmente fundamentado em tradições teísticas, escritos hindus mais antigos – conhecidos como os Upanishads – ensinam que o Brahman (a realidade última) é algo impessoal. O ateísmo “ativo” rejeita até os aspectos panteístas do hinduísmo, que igualam Deus ao Universo. Várias outras religiões orientais, incluindo o budismo theravada e o jainismo, são comumente vistas como crenças ateísticas, mas essa interpretação, a rigor, não é correta. Tais religiões rejeitam a idéia de um Deus criador do Universo como defendido pelo teísmo, mas admitem numerosos outros deuses inferiores. Na melhor das hipóteses, só podem ser consideradas “ateísticas” no sentido de que não aceitam o teísmo.

História

No mundo intelectual do Ocidente o fenômeno da difusão da descrença em Deus possui uma longa e distinta história. Filósofos da antiguidade, como Lucrécio, eram descrentes. Mesmo na Idade Média (do V ao XV século) havia correntes de pensamento que questionavam as assunções teístas, incluindo o ceticismo – doutrina que alega a impossibilidade de se alcançar o “verdadeiro conhecimento” – e o naturalismo – crença de que apenas forças naturais governam o mundo. Vários pensadores iluministas (1700- 1789) eram ateus militantes, incluindo o escritor dinamarquês Baron Holbach e o enciclopedista francês Denis Diderot. Expressões de descrença são também encontradas em clássicos da literatura ocidental, incluindo os escritos de poetas ingleses como Percy Shelley e Lord Byron; do novelista inglês Thomas Hardy; de filósofos franceses como Voltaire e Jean-Paul Sartre; do autor russo Ivan Turgenev e de escritores americanos como Mark Twain e Upton Sinclair. Os ateus e críticos de religião mais articulados e conhecidos do século XIX são os filósofos alemães Ludwig Feuerbach, Karl Marx, Arthur Schopenhauer e Friedrich Nietzsche. O filósofo britânico Bertrand Russel, o psicanalista austríaco Sigmund Freud e Sartre estão entre os ateus mais influentes do século XX.

Motivos para Rejeitar Deus

Críticas ao Teísmo

Ateus justificam suas posições filosóficas de várias maneiras. Ateus “passivos” tentam fundamentar sua posição através da refutação dos argumentos em favor da existência de Deus, como o ontológico, o da causa primeira, o do design inteligente e o da

experiência religiosa. Outros argumentam que qualquer afirmação sobre Deus é vazia, pois atributos como “onisciência” e “onipotência” são incompreensíveis à mente humana. Os que professam o ateísmo “ativo”, em contrapartida, defendem sua posição argumentando que o conceito de Deus é inconsistente. Eles questionam, por exemplo, como um Deus “todo-sabedoria” pode ser ao mesmo tempo “todo-bondade” e como um Deus que não possui corpo físico pode ser “onisciente”.

O Problema do Mal

Alguns ateus “ativos” adotam a posição de que a existência do mal torna Deus algo improvável. Em particular, ateus afirmam que o teísmo não explica adequadamente

o porquê da existência de um mal aparentemente sem sentido, como o sofrimento de

uma criança inocente. Teístas comumente defendem a existência do mal argumentando que Deus deseja que os humanos possuam liberdade de escolha entre o bem e o mal, ou

que a função do mal é construir o caráter humano, lhes proporcionando qualidades como

a perseverança. Ateus “ativos” contra-argumentam que as justificativas para o mal dadas

pelos teístas em termos de livre-arbítrio deixam de explicar por que, por exemplo, uma criança possui doenças genéticas ou sofre violências e abusos de adultos. Os argumentos de que Deus permite a dor e o sofrimento para construir o caráter humano falham, por

sua vez, em explicar por que havia sofrimento entre os animais existentes antes que os humanos evoluíssem e por que o caráter não pode ser desenvolvido com menos sofrimento. Para ateus, uma melhor explicação para a presença do mal no mundo é a inexistência de Deus.

Evidências Históricas

Ateus também criticaram evidências históricas utilizadas para sustentar as crenças das maiores religiões teísticas. Por exemplo, argumentaram que a falta de evidências lança dúvidas sobre importantes doutrinas do cristianismo, como a de que Jesus Cristo nasceu de uma virgem e a de que ressuscitou após ter sido crucificado. Devido a tais eventos representarem milagres, os ateus dizem que evidências extremamente fortes são necessárias para sustentar sua veracidade. As evidências disponíveis para respaldar os supostos milagres – de fontes bíblicas, pagãs e judaicas –, segundo os ateus, são fracas, e por isso devem ser rejeitadas.

A Diversidade no Ateísmo

Ateísmo é, primariamente, uma “reação à” ou uma “rejeição da” crença religiosa,

e portanto não é possível determinar quaisquer outros pontos de vista filosóficos a partir dele. O ateísmo, às vezes, é associado às correntes filosóficas materialistas, as quais

defendem que apenas a matéria existe; com o comunismo, o qual afirma que a religião impede o progresso da humanidade; e com o racionalismo, que coloca a razão acima de outros métodos de investigação. Entretanto, não há qualquer conexão necessária entre o ateísmo e tais posições filosóficas. Alguns ateus opuseram-se ao comunismo, outros rejeitaram o materialismo. Apesar de praticamente todos os materialistas contemporâneos serem ateus, Epicuro – um materialista grego da Antigüidade – acreditava que os deuses eram feitos de matéria na forma de átomos. Racionalistas como o filósofo francês René Descartes acreditavam em Deus, enquanto Sartre não pode ser considerado um racionalista. O ateísmo foi associado a sistemas de pensamento que rejeitam autoridades, como o anarquismo – teoria política que se opõe a qualquer tipo de governo – e o existencialismo – movimento filosófico que enfatiza absoluta liberdade de escolha que os humanos possuem; também não há, contudo, qualquer relação necessária entre tais posições e o ateísmo. O filósofo britânico A. J. Ayer era um ateu que se opunha ao existencialismo; o filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard, por sua vez, era um existencialista que aceitava Deus. Marx era um ateu que rejeitava o anarquismo, enquanto que o novelista Leo Tolstoy, um cristão, adotava o anarquismo. Devido ao ateísmo, estritamente falando, consistir meramente numa negação, ele não pode, por si próprio, proporcionar uma cosmovisão ao indivíduo; logo, é impossível deduzir quais outras concepções filosóficas serão adotadas.

Os debates acerca da existência de Deus continuam, especialmente em universidades, grupos de discussão sobre religião e fóruns eletrônicos na internet. Contemporaneamente, o ateísmo tem sido defendido pelos filósofos John Mackie – um britânico –, Michael Martin – um americano –, entre outros. As organizações expoentes na difusão do ateísmo nos Estados Unidos são a The American Atheists[Os Ateus Americanos], “The Committee for the Scientific Study of Religion” [O Comitê para Estudo Científico da Religião] e The Internet Infidels[Os Infiéis da Internet].

A Construção do Estado Ateísta

Era uma vez um casal de ateus que tinha uma filha de seis anos. Um dia, durante uma briga, o marido matou a mulher e depois se matou com um tiro na cabeça, tudo na frente da

criança

Não importa como continua a história. Nós, ateus, conhecemos a sua moral. Fomos criados sob esses preconceitos. A maior parte de nós não nasceu ateísta nem teve pais ateus, ao contrário da infeliz historinha acima. Nascemos na maior nação cristã do mundo, somos batizados e sabemos o pai-nosso (com minúscula mesmo) de cor.

A moral cristã é impiedosa com os ateus. Nossa imagem não goza de status social

e, invariavelmente, somos considerados estranhos e pecaminosos. É a nossa herança.

Revoltadas, legiões de ateus se formam para proclamar sua aversão aos preceitos cristãos e da Igreja. O que é isso? Guerra?

A crença no além está enraizada na sociedade. Não podemos odiar aqueles que

crêem. Estaremos odiando nossos pais e irmãos. “Mas como vamos combater esse preconceito com a nossa filosofia?” perguntarão alguns. Não vamos. Em vez disso, vamos encarar o problema de frente e mostrar a eles que nossa filosofia é, antes de tudo, baseada na humildade.

É difícil ser ateu. Encaramos a morte com olhos aterrorizados. A despeito de

todos saberem que ela é inevitável, nós a encaramos como o fim de tudo. Não esperamos nada do além-túmulo. Não estamos indo ao encontro a deus ou a eternidade. Quando nos apaixonamos, não esperamos viver no paraíso ao lado de nossas esposas ou maridos. Tornar-se-á célebre a frase de Ann Druyan, viúva de Carl Sagan, um dos ateus mais respeitáveis dessa geração, ao falar da despedida do marido, no leito de morte: “Nenhum apelo a Deus, nenhuma esperança sobre uma vida pós-morte, nenhuma pretensão que ele e eu, que fomos inseparáveis por vinte anos, não estávamos dizendo adeus para sempre.” São palavras terríveis, mas sabemos que são verdade. Sabemos. A consciência ateísta, quando surge, nos eleva a uma percepção única. Passamos a enxergar a vida como a areia da ampulheta, que escorre inexoravelmente pela fenda. Não importa o quão correta tenha sido sua vida, no fim, a morte reina absoluta.

“Pessimista!”, gritam alguns frente a estas verdades. Já estamos acostumados. Somos ateus, percebemos nossa limitação. Somos feitos de carne e osso. Dúvidas quanto

a isso? Cientistas já decifraram o código genético, não temos mais segredos. Até agora, nem sinal de um espírito. Estamos vazios.

Ora, retire do cristão a promessa da vida eterna. De que adiantaria, então, seguir os passos do Senhor? A religião está impregnada da relação oferta-procura: “Eu sou

bonzinho, o Senhor me dá a vida eterna. Sou humilde, por isso viverei para sempre. Se

a promessa da vida eterna fosse arrancada do Homem, este se revoltaria contra deus.

Viveríamos num universo burlesco e trágico, onde os crentes tornar-se-iam os ateus da historinha acima. Ainda assim, é difícil afirmar que a crença em Deus está associada à ignorância. Conheço pessoas bastante inteligentes de todas as religiões. A questão é mais

profunda do que isso. Está ligada ao resto de instinto de sobrevivência que temos.

Nossos ancestrais hominídeos eram caçados por animais maiores. Quase sempre,

a morte era sangrenta e violenta. Desenvolvemos um medo natural por ela. Tínhamos

medo de muitas coisas. Tínhamos medo da escuridão quando o Sol morria no horizonte ou quando as montanhas rugiam, soltando fumaça. Divinizamos aqueles fenômenos, não podíamos explicá-los, pois éramos pouco mais que macacos enormes e desengonçados, aprendendo a explorar suas potencialidades. Chorávamos quando tínhamos que abandonar um membro doente na migração do inverno ou quando nossos velhos eram expulsos da aldeia por não servirem mais ao trabalho. Não havia enterros e, talvez, nem piedade.

Estabelecemos morada para os deuses no alto das montanhas e no fundo do mar. Quando subimos ao cume das montanhas e cruzamos o oceano em toscos barcos de junco, empurramos os deuses para outras esferas. Nossos aviões nunca atropelaram um anjo, nunca encontramos um par de chifres enterrados no quintal de casa. Arrebatados para o “céu” ou o inferno, os deuses nunca mais foram acessíveis. Hoje, são vistos apenas em igrejas, por um número seletíssimo de escolhidos que têm a sorte de ver, mas nunca a chance de registrar.

Com o surgimento da tecnologia, tornaram-se fontes de luz ou sombras, receberam explicações espirituais complicadas e teorias esotéricas profundas e claras como um bueiro. Não precisamos disso. A humanidade tem criado seus pesadelos, mas também tem realizado sonhos sociais, materiais, divinos. Cientistas, no século XX, fizeram mais pela Humanidade (esta sim, com maiúscula) que deus fez em toda sua história. Empurramos a presença de deus cada vez mais para o fundo do poço. Não rezamos mais para curar as doenças. O papel de deus diminui a olhos vistos. Aprendemos a creditar nossos problemas à nossa incompetência ou ignorância, já não existem demônios a assombrar nossos feitos.

Essa é a verdadeira essência da humildade. Sabermos nosso papel na história do desenvolvimento humano, a consciência do fim cada vez mais próximo. A semelhança entre o Homem e o peixinho que ele cria no aquário é de 98% em ordem genética. Não há divindade no nosso nascimento, não há milagres no cotidiano.

A revelação da humildade chega ao ateu quando este encara, pela primeira vez, a inigualável sensação de livrar-se da culpa da religião, do pecado natural. Não precisamos de religião para aprender a humildade. Quando encaramos nossas limitações, ela surge naturalmente. Ficamos assombrados pela nossa ignorância e pela impotência frente a todo conhecimento. Aprendemos que até o matuto tem a nos ensinar.

Talvez a religião ainda seja um mal necessário. Quando deixarmos de ser julgados pelos crentes, talvez possamos expor nossas idéias com clareza. Neste dia, a humildade poderá florescer entre os homens, fundamentada em princípios humanos, e não em fantasias envolvendo deuses e demônios. Será um tempo, então, onde todos poderão considerar-se irmãos, pois ninguém esperará mais da vida do que seu semelhante.

Sobre o autor: Jornalista e assessor de Imprensa na Grube e Associados. Nascido em 1971, há doze anos estuda o ateísmo.

Ateísmo: o caso contra deus

Autor: George H. Smith

Este discurso foi proferido para a Sociedade de Separatistas em 1976.

Estou especialmente feliz em falar para o encontro da Sociedade de Separatistas porque, como devem saber, há poucas organizações explicitamente pró-ateísmo restantes no mundo, sem mencionar nos Estados Unidos. E, das que restam, a S.O.S é, sem dúvida, a maior e mais ativa. Visto que estarei me dirigindo a uma organização ateísta, falarei a vocês, na maior parte, como companheiros ateus. Não tenho a intenção de converter ninguém nem insultarei as suas inteligências atacando o cristianismo, a Bíblia e assim por diante. Em vez disso, estarei empenhado basicamente em discutir o que o ateísmo é, por que é importante e como melhor defendê-lo. E, caso haja alguns religiosos na audiência, convido-os a permanecer e experimentar, por uma tarde, a sensação de fazer parte de uma elite intelectual.

Antes de discutir o ateísmo diretamente, gostaria de tecer alguns comentários preliminares que são bastante importantes, pois, a não ser que se compreenda minha perspectiva filosófica geral, não penso que compreenderão minha visão do ateísmo. Se há um grande problema intelectual na América de hoje, diria que é uma crise de credulidade. Ou, mais diretamente, diria que estamos contaminados de credulidade na América. Nunca deixo de me espantar com o quanto as pessoas estão dispostas a aceitar crenças absurdas e imbecis, não apenas sem o respaldo de evidências, mas freqüentemente diante de evidências conflitantes. Diz-se às vezes que a religião está em declínio da América; todavia, mesmo se isso é verdadeiro, não estamos observando um declínio correspondente do irracionalismo. O irracionalismo – pelo qual refiro-me ao ignorante desprezo ou desrespeito à razão – ainda está forte. Este muda de forma de tempos em tempos, mas ainda está entre nós. Deste modo, enquanto podemos dizer que algumas religiões tradicionais do ocidente parecem estar em declínio – e têm estado por algum tempo –, o irracionalismo continua a levantar sua carantonha, seja na forma de ocultismo, misticismo oriental ou na forma de Uri Geller, filmes de possessão demoníaca e mesmo alguns grupos psicológicos que estão mais próximos de cultos religiosos que de qualquer psicologia legítima.

Então, a que se pode imputar esse agravamento do irracionalismo na América? Bem, indiscutivelmente há muitos fatores envolvidos, mas um dos mais significantes é a incapacidade ou a indisposição da parte de muitas, muitas pessoas de raciocinar bem. A maior parte das pessoas não sabe como pensar criticamente além de um nível muito rudimentar. A América, com toda a sua ênfase em tecnologia e ciência, continua a produzir uma abundante colheita de intelectuais vegetativos que nem se importam com o que é verdadeiro – ou, se se importassem, com como averiguar o que é verdadeiro. Não nos enganemos quanto a isto: não nascemos com a habilidade de raciocinar pronta. O raciocínio precisa ser aprendido e praticado. Mesmo com orientação adequada, pode levar anos para hábitos adequados de raciocínio se enraizarem ao ponto em que se tornam uma segunda-natureza.

Supõe-se que temos uma natureza educada, mas qual foi a última vez que alguém ouviu que um curso sobre pensamento crítico estava sendo ministrado no ensino- médio, por exemplo? Já se perguntaram por que, quando crianças estavam sendo entulhadas com todos assuntos – de geografia a estudos sociais e outros tópicos inúteis –, não lhes foi dada a oportunidade de aprender a pensar corretamente? Bem, não surpreende se pensarmos sobre isso, pois não é possível ensinar o pensamento crítico sem, inevitavelmente, pisar no calo de alguém. Pode-se imaginar a reação de muitos pais se Johnny voltasse para casa com a tarefa de investigar as evidências da ressurreição de Jesus? Obviamente, isso não daria muito certo.

A conclusão à qual quero chegar a respeito do ateísmo neste assunto é esta: o ateísmo somente é importante quanto visto neste contexto mais amplo que denominarei o “hábito da racionalidade”. O ateísmo é significante apenas se e quando resulta deste hábito da racionalidade. A criança americana que cresce para ser uma batista apenas porque seus pais eram batistas e nunca pensa criticamente a respeito de tais crenças não é necessariamente mais irracional que a criança soviética que cresce para ser ateísta simplesmente porque o Estado diz que deve ser ateísta. O fato de que a criança soviética, neste particular, está na posição correta é irrelevante. O importante não é o que alguém acredita – ou o conteúdo –, mas por que alguém acredita. Então a questão da racionalidade pertence à preocupação com a verdade, preocupação com a metodologia de raciocínio correta. Apenas porque uma pessoa adere ao ateísmo, isso não garante – acreditem – que esta pessoa é necessariamente racional.

É basicamente por esse motivo que nunca defendo ateísmo per se, sem um contexto mais abrangente. O ateísmo é significante, não há dúvidas. Entretanto, sua significância deriva inteiramente do fato de que representa a aplicação da razão a um campo particular, especificamente a área da crença religiosa. O ateísmo, a não ser que esteja enraizado nesta defesa filosófica mais ampla da razão, é praticamente inútil. Todavia, quando este é uma conseqüência do hábito da racionalidade, então o ateísmo está em oposição à onda de sobrenaturalismo e misticismo que estamos presenciando – em outras palavras, irracionalismo em quaisquer de suas formas.

Isso significa que o ateísmo não chegará muito longe simplesmente atacando crenças religiosas. Em vez disso, temos, antes de tudo, de defender a razão, e então criticar a religião dentro desse contexto. Se você compreender que a maior parte das pessoas adota a religião por razões psicológicas em vez de intelectuais, compreenderá por que penso que ataques diretos, frontais à religião muito raramente persuadem alguém ao ateísmo. Se – como ateus têm indicado por muitos anos – a religião é uma muleta emocional e psicológica, então não se consegue que uma pessoa fique em pé simplesmente chutando a muleta – isso fará a pessoa agarrá-la ainda mais. No lugar disso, precisamos primeiramente convencer a pessoa de que a muleta é desnecessária e mesmo prejudicial. E, então, será possível convencê-la de que é capaz de viver muito melhor sem a muleta. Assim, não é necessário chutá-la – neste ponto, a própria pessoa a jogará fora.

Para demonstrar que não há necessidade de uma muleta religiosa, precisamos primeiramente nos empenhar em demonstrar o papel crucial e significante da razão na vida da pessoa – filosoficamente, psicologicamente, praticamente e todo o resto. Acima

de tudo, há uma mensagem que devemos comunicar: ninguém tem nada a perder e tudo a ganhar com a busca honesta pela verdade. O desejo pelo conhecimento, pelos fatos isentados de preconceitos emocionais, e assim por adiante, sempre funcionará em benefício do indivíduo em longo prazo. Nunca poderá ser contra seu interesse saber o que é a verdade.

Portanto, para o ateu efetivamente comunicar sua mensagem, deve demonstrar racionalidade em todos os aspectos e áreas de sua vida. Não se pode defender o pensamento livre e crítico sobre religião e então demonstrar conformidades servis em outras áreas de sua vida intelectual, como suas crenças políticas. Qualquer defesa do ateísmo feita por uma pessoa que compartimenta suas crenças desse modo está sujeitando apenas algumas delas ao escrutínio – e isso, com justiça, cheira desonestidade. O ateu será prontamente acusado de hipocrisia. Está disposto à análise crítica de crenças apenas parcialmente.

A razão de estar mencionando isso é que, além do meu ateísmo, o qual algumas pessoas consideram bastante radical, também nutro crenças políticas que, em vários aspectos, são radicais. Sou aquilo que se denomina libertário. Devo admitir que me espanto quando sou confrontado por companheiros ateus que parecem desesperados por minhas crenças políticas, não porque discordam delas – o que, sem dúvida, é seu direito –, mas simplesmente porque sou politicamente radical. Minha conclusão é esta: se você tem medo do termo “radicalismo” – se a idéia de ser intelectualmente radical lhe assusta –, então ser ateu não é o mais conveniente. O ateísmo, aos olhos da maior parte das pessoas, certamente é a posição mais radical que se pode adotar.

Assim, esta é a primeira idéia principal que desejo enfatizar: se você terá um impacto significante sobre a comunidade religiosa, penso que é necessário colocar o ateísmo dentro de uma perspectiva mais ampla de razão. Permitam-se elaborar um pouco mais o que quero dizer com “hábito da racionalidade”. Há muito a ser dito sobre isso, mas, por óbvias limitações de tempo, farei um esboço.

Antes de tudo, farei uma distinção entre raciocinar e pensar. Considero o pensar como qualquer tipo de processo mental, cognitivo. Se você estiver devaneando, lembrando ou coisas do gênero, diz-se que está pensando. Raciocinar, entretanto, é um termo muito mais específico. A razão diz respeito a um processo mental dirigido a um objetivo, cuja finalidade é adquirir conhecimento. Sempre que você coloca sua mente em ação com o intuito de chegar à verdade, distinguir a verdade da falsidade, diz-se que está engajado no processo de raciocinar.

O interessante sobre o raciocínio é que se trata de um processo do tipo tomada- de-decisão. Raciocinar está interessado em “Devo aceitar X como verdadeiro?”, “Devo aceitar Y como verdadeiro?”, “Devo aceitar X como provável, possível ou pertinente?” e assim por diante. Em outras palavras, temos de tomar decisões em nossa vida intelectual assim como temos de tomá-las no dia-a-dia. Deste modo, o raciocínio enfoca – na perspectiva filosófica – aquilo com o que deveríamos nos preocupar ao estabelecer os critérios e padrões de raciocínio adequados. Você não tem escolha se tomará decisões intelectuais. Elas são necessárias pela própria natureza humana. É necessário aceitar

algumas coisas como verdadeiras – você simplesmente não tem escolha, pois morreria se não o fizesse.

A única escolha que se tem é, primeiramente, se você irá ou não explicitar seus padrões de conhecimento, se estará ciente do que são, em contrate com simplesmente os aceitar, por meio de um tipo de osmose, de uma cultura e do que as pessoas falam. Em segundo, se seus padrões de conhecimento serão os padrões adequados. Digo adequados no sentido de o conduzirem ao que se deseja; no caso, a verdade. Neste momento, proponho que, de todo o bem e de todas as virtudes que o homem tem, o conhecimento é mais importante. O conhecimento é de valor fundamental para o homem porque fica na raiz de todos os seus outros valores. Precisamos saber os fatos; precisamos saber algo sobre o mundo antes de podermos determinar que alguma coisa tem valor no mundo. Deste modo, conhecimento é indispensável à nossa própria sobrevivência. E é apenas através de nossa razão, através do poder de nosso pensamento conceitual, que somos capazes de aplicar nosso conhecimento.

Porque chegamos a certos padrões de conhecimento, como as leis da lógica, as leis da evidência e assim por diante; porque essas nos permitem distinguir crenças verdadeiras e falsas; e porque seu objetivo, o conhecimento, é um bem fundamental ao homem, proponho que aquilo que denomino “hábito da racionalidade” designa a habilidade de ter arraigados em si esses padrões do conhecimento e empregá-los habitualmente, quase como se fossem uma segunda-natureza, como se fossem um traço de personalidade. Digo que este hábito da racionalidade é uma virtude primária em seres humanos. Considero a racionalidade a virtude intelectual primária possível ao homem. Isso conduz a uma conclusão interessante em relação ao ateísmo. Se, como sugeri, o conhecimento é de valor fundamental ao homem, se o hábito da racionalidade é uma virtude primária e se o ateísmo é uma conseqüência do raciocínio, então sucede que o ateísmo é, de fato, uma conseqüência de ser virtuoso. O ateísmo é uma conseqüência de uma virtude intelectual em particular. Estou dizendo isso para confrontar a prevalecente e ilógica noção de que ateus são imorais. Isso não apenas é falso, mas precisamente o contrário é verdadeiro. O ateísmo deveria proceder – mas freqüentemente não procede – da racionalidade que, por sua vez, significa uma virtude, uma virtude muito importante. Então você pode orgulhar-se de ser ateu se, de fato, isso resulta da racionalidade.

Uma pessoa racional, ao examinar alegações religiosas, estará preocupada apenas com valor verídico dessas alegações. Ouve-se freqüentemente que a religião faz as pessoas melhores, felizes etc., mas essas são todas questões marginais. Não tentarei argumentar contra o que denomino “humanismo intelectual”, isto é, acreditar em algo apenas porque faz com que nos sintamos bem. Proponho que, se estivermos preocupados com a racionalidade, então nossa principal preocupação em qualquer disciplina – certamente incluindo religião – deveria ser a veracidade das alegações. Quando o ateu é confrontado com a alegação de que existe um deus, sua primeira preocupação será a questão “Essa é uma alegação racionalmente justificável?”. Como um corolário dessa, estará preocupado com “O que é deus?”. Como definir esse termo? Trata-se de uma definição inteligível? Não. Em segundo, mesmo se conseguirmos extrair algum sentido do conceito de deus, há alguma evidência ou argumentos corroborativos da existência de um deus? Novamente, não. O ateu, procedendo a partir do hábito da racionalidade, enfim

rejeitará as alegações da religião e as alegações do teísmo como falsas. E, portanto, rejeitará a crença em deus como sendo irracional.

Retornando ao meu argumento anterior, é freqüente ouvirmos que isso é irrelevante à maior parte dos religiosos. Indivíduos religiosos não acreditam por motivos intelectuais. Se conversarmos num nível intelectual com pessoas religiosas isso não lhes impressionará, pois não é pessoal o bastante para elas. Frente a isso posso apenas dizer que sim, infelizmente é verdade que muitos indivíduos religiosos não estão preocupados com a questão da veracidade e falsidade. Mas o fato aqui é que isso é problema deles, não meu ou de vocês. Se persistirem em seu irracionalismo, então podem – e freqüentemente conseguem – convencer-se de praticamente qualquer coisa. Permitam- me lembrá-los que os padrões do conhecimento são nossos únicos meios de discriminar seletivamente nossas crenças. Os padrões de significação, evidência, argumentação e assim por diante são a peneira pela qual discriminamos as crenças que são dignas de aceitação daquelas que não são. Se abandonarmos esses padrões, se os consideramos sem importância, então estaremos à mercê de quaisquer crenças que porventura cruzem nosso caminho. Não teremos padrões pelos quais possamos distinguir se essa é uma boa crença ou não. Muito provavelmente estaremos sujeitos a uma moda intelectual após a outra. Isso é muito comum hoje em dia. Vemos pessoas partindo de um culto ao misticismo oriental ao culto da psicologia, e assim sucessivamente, em cultos quasi- religiosos. Essa é a conseqüência lógica de a razão ter sido abandonada. Não existe mais um ponto de referência ou meios de discriminação entre crenças. Uma pessoa que é irracional por escolha está à mercê de seus sentimentos de um momento particular. Penso que não seria nenhuma surpresa se lhes demonstrasse que a maioria dos cristãos, se tivesse sido criada numa cultura muçulmana, seria muçulmana, não cristã. A maioria dos muçulmanos, se tivesse sido criada numa cultura cristã, seria cristã, não muçulmana. E porque o ateísmo, ao menos na cultura americana, representa uma posição não- ortodoxa, isso explica por que em grande parte ateus são pensadores independentes. Para tornar-se um ateu nesta cultura é necessário possuir pelo menos um pouco de independência para questionar a sabedoria prevalecente concernente à religião, pois somos inundados dela na escola, por nossos pais, por nossa cultura e certamente pela mídia massificada.

Neste momento há algumas questões paralelas das quais gostaria de tratar antes de adentrar na definição de ateísmo, pois as considero bastante importantes. Essas são questões mais práticas que filosóficas. Tenho certeza que se alguém aqui tentou argumentar pelo ateísmo, encontrou certos problemas práticos em comunicar suas crenças.

O primeiro fato que gostaria de explicar é um pouco deprimente para algumas pessoas. Visto que a racionalidade é um hábito a ser aprendido, nem todos são capazes de conduzir um bom argumento. Por isso, alguns sequer são capazes de argumentar de um modo inteligível. A argumentação também é uma habilidade que tem de ser aprendida e praticada. A implicação disso é que, na maior parte dos casos, provavelmente estaremos desperdiçando nosso tempo argumentando com muitos dos religiosos, isso pela simples razão de que muitos desses religiosos são incapazes de argumentar bem. É quase como se tivéssemos de educar alguns cristãos antes de podermos persuadi-los ao ateísmo. Primeiramente é necessário convencê-los de que deveriam preocupar-se com o

que é verdadeiro e com o que não é. Devem ser capazes de distinguir entre argumentos racionais e irracionais – e assim por diante. E então, dois meses depois, talvez consigamos dizer a essa pessoa que, se levar isso adiante, acabará chegando ao ateísmo. Mas, a não ser que tenhamos muito interesse particular nessa pessoa, a não ser que seja pessoalmente significante, provavelmente não estaremos dispostos a desperdiçar um grande tempo em educá-la ou reeducá-la quanto aos princípios da razão. O que acontece? Alguns simplesmente desistem dessa pessoa. Com outras, isso é inevitável. A algumas podemos recomendar livros. É aqui onde os livros desempenham um papel crucial na educação, pois se uma pessoa se dá o trabalho de lê-lo, é capaz de vislumbrar uma grande quantidade de informação – que não é possível comunicar num curto período de tempo.

Isso me conduz à minha segunda área de conselhos práticos: tome os religiosos pelas suas palavras. Se disserem que não interessados na razão ou na verdade, então cesse a conversa com a observação de que é impossível comunicar-se com alguém que, por sua própria admissão, não está preocupado com a racionalidade. Em outras palavras, se você compreende a importância da racionalidade e sua significância, compreenderá que é preciso salvaguardar sua convicção na prática. É preciso deixar claro ao seu adversário que você não está disposto a desperdiçar seu tempo e energia com ele se não estiver disposto a aceitar os princípios fundamentais da razão. Seria como estar falando em duas línguas diferentes sem meios de tradução. Tudo que se obtém de situações como essa é uma dor de cabeça. Penso que é importantes tornar os religiosos totalmente cientes das conseqüências de seu irracionalismo. Será muito irritante aos religiosos se simplesmente nos recusarmos a falar com eles após um certo ponto, pois estes sem dúvida querem nos converter. Mas se deixarmos claro que não estamos dispostos a discutir o assunto a não ser que esteja disposto a aceitar os princípios básicos do raciocínio, então penso que irá impressioná-lo, num sentido muito prático, o quão importante consideramos a razão. Quando não fazemos isso, acabamos por sofrer com seu irracionalismo. Terminamos com uma dor de cabeça ou frustrados porque o indivíduo recusa-se a ser racional.

Feitos os comentários preliminares, prossigo ao centro do assunto que é, obviamente, ateísmo. Há muito que pode ser dito sobre isso. Escrevi um livro inteiro sobre o assunto e há outros tantos livros disponíveis. Não é minha vontade repetir um grande material que se pode obter simplesmente lendo livros sobre o assunto. Mas desejo esboçar brevemente o que o ateísmo é. E então pretendo prosseguir a algumas outras questões que não cobri totalmente em alguns de meus escritos.

Primeiramente, antes de podermos compreender o ateísmo, temos de entender o que teísmo significa, pois, obviamente, a-teísmo é derivado do termo teísmo. Bem, teísmo é simplesmente a crença em um deus ou deuses. Se à questão “Você acredita na

existência de um deus ou deuses?” sua resposta for “sim”, então filosoficamente você é um teísta. Mas surge um problema adicional, o que é um deus? Muita tinta foi gasta nesta questão, mas, para nossos propósitos nesta tarde, por “deus” quero dizer qualquer tipo de ser sobrenatural ou transcendente. Qualquer tipo de ser que, de algum modo, transcende ou está isento das leis naturais do universo, seja um deus criador, o deus do

Seja qual for, se esse ser tiver a habilidade de, por

qualquer meio, burlar as leis da natureza, então pode ser corretamente classificado como

deísmo, o deus do panteísmo etc

sobrenatural – em outras palavras, acima da lei natural –, e se qualificaria como um deus. Isso implica, para todos os efeitos práticos, que se você acredita na existência de fantasmas ou elfos mágicos, e caso essas criaturas fossem dotadas de poderes sobrenaturais, então seriam deuses.

Se teísmo é a crença em alguma espécie de ser sobrenatural, o que é ateísmo? Novamente, há muita controvérsia a esse respeito. Fiz uma palestra inteira a respeito de qual deveria ser a definição de ateísmo; aqui simplesmente apresentarei a conclusão. O ateísmo, considerado adequadamente, é simplesmente a ausência ou falta de crença teística. Em outras palavras, se à questão “Você acredita em um deus” sua resposta for “não” – pelo qualquer motivo –, você é um ateu. Comumente diz-se que um ateu de fato nega a existência de deus ou deuses. Isso é verdade; muitos ateus o fazem, mas não todos. Esse tipo de negação manifesta da existência de deus ou deuses é uma subcategoria de um tipo de perspectiva mais ampla que, de modo geral, deveria ser denominada ateísmo. Seria bastante complexo examinar todas as razões pelas quais alguns ateus não desejam negar a existência de quaisquer deuses. Dou minha palavra que historicamente e filosoficamente é muito justificável afirmar que a melhor e mais ampla definição de ateísmo é simplesmente a ausência ou falta de crença em um deus.

Há um princípio anulador que é operativo aqui se se compreende essa definição

de ateísmo. É o que se denomina dever da prova ou ônus da prova. O que esse princípio

afirma é que o ônus da prova está na pessoa que afirma a veracidade de uma proposição.

Se eu lhe digo “X é verdadeiro”, sou intelectualmente responsável por apresentar algum

tipo de razão para que isso seja aceito. Se eu não apresentar quaisquer razões ou apresentar razões inválidas, você estará legitimamente justificado em rejeitar minha

alegação de conhecimento como infundada e, deste modo, irracional. Provavelmente esse

é o princípio mais importante em relação à defesa do ateísmo. O teísta apresenta uma

proposição afirmativa; afirma que existe um deus ou deuses. O ônus da prova recai inteiramente sobre o teísta, para que prove ou demonstre a racionalidade dessa alegação.

Não compete a mim ou a vocês, como ateus, demonstrar que um deus não existe. Nós só precisamos dizer ao religioso “Você fez uma afirmação; é sua responsabilidade demonstrar a veracidade dessa afirmação; se suas alegações se sustentarem, então você

é racional; se não se sustentarem e você continuar acreditando, então você é irracional”.

Essa é a idéia mais central, mais fundamental em relação ao ateísmo. O ateu não tem o ônus da prova; o religioso tem. O ateu não está afirmando a veracidade ou existência de qualquer coisa, mas desafiando a alegação de veracidade do teísta. A única responsabilidade nesse sentido é examinar criticamente o ponto de vista do religioso, sujeitá-lo ao escrutínio racional e, com base nisso, aceitá-lo ou rejeitá-lo. Essa é a nossa única responsabilidade. Após isso nosso trabalho estará concluído.

Devo mencionar brevemente um problema que às vezes se manifesta. Não é verdade que alguns ateus de fato negam a existência de um deus? Sim, é verdade. Não afirmaria, por exemplo, que não acredito no deus cristão, mas que tal ser não existe. Novamente, isso nos conduziria a algumas idéias filosóficas que não posso explorar agora, mas basicamente a razão para isso é que, se examinamos um conceito e este se mostrar inerentemente autocontraditório – do mesmo modo que um “círculo quadrado” é

autocontraditório – então posso racionalmente afirmar que tal entidade não pode existir.

E esse é, de fato, o caso do deus cristão. Este é internamente confuso e

autocontraditório. Penso que seria curioso se encontrássemos um cristão que nos diz “Bem, você não pode provar que deus não existe!”; poderíamos fazer uma pergunta interessante ao cristão: “Você acredita no deus do zoroastrianismo? Você acredita em Alá? Você acredita em Zeus?”. Há literalmente centenas de deuses nos quais o cristão não acredita – o qual diria que esses deuses não existem. Bem, como o cristão sabe disso? Se estiver tão inflamado a ponto de dizer que não podemos saber que um deus não existe, então como pode dizer que Zeus não existe? Bem, obviamente, o cristão pode dizer em resposta “Bem, isso é ridículo! Todos sabem que Zeus não existe. É uma idéia mitológica”. Este continuará a discorrer, fornecendo alguns bons argumentos que, se aplicados às suas próprias crenças, as demoliriam por completo. Monoteístas – as pessoas que só acreditam em um deus – estão muito próximas de serem ateístas. Estão a apenas um passo do ateísmo. Estão apenas a um fio de distância do ateísmo. Tudo que precisa fazer é se livrar desse último deus e terá cruzado a linha. Este é um modo bastante diferente de ver o monoteísmo, mas penso ser justificado. Tudo que precisamos fazer é pedir ao cristão que aplique seus próprios padrões – pelos quais rejeita as centenas de deuses que foram oferecidos ao longo da história da humanidade – e aplicá- los às suas próprias crenças, e isso demolirá as suas crenças igualmente.

Gostaria de mencionar brevemente um termo que é muito importante na história do ateísmo. Esse termo é “livre-pensamento”. Também não discorrerei longamente sobre isso, mas vale ser mencionado porque “livre-pensamento” é um termo que foi amplamente utilizado historicamente. Qual é a significância de “livre” em “livre- pensamento”? Em um sentido, que todas as suas crenças são livres. Mas ninguém pode forçá-lo a acreditar em algo contra sua vontade. Bem, a significância de “livre” em “livre- pensamento” é ser moralmente livre. Os livres-pensadores, historicamente, estavam reagindo à doutrina de que se é moralmente obrigado a aceitar um certo conjunto de crenças – um dogma – como verdadeiro, e que você seria em algum sentido imoral se, por exemplo, não aceitasse as doutrinas do cristianismo. Os livres-pensadores disseram “Não! Devemos ser moralmente livres para investigar as crenças com o máximo de nossas habilidades, sem sermos moralmente obrigados a aceitar qualquer conjunto de crenças em particular”. Essa é a significância primária do livre-pensamento. Isso remete à idéia que exprimi anteriormente sobre a importância do hábito da racionalidade. Aquele que se preocupa em ser racional será, necessariamente, um livre-pensador.

Entrarei agora um pouco no terreno obscuro do conceito de deus, apenas para demonstrar uma idéia sobre provas para a existência de um deus. Em meu livro e nos escritos por outros autores como Antony Flew, Chapman Cohen, Wallace Matson e outros, encontraremos refutações bastante detalhadas de argumentos para a existência de um deus. O argumento da causa primeira, os vários argumentos cosmológicos, o argumento do design e assim por diante. Obviamente não posso cobri-los aqui. Mas desejo fazer referência ao problema básico envolvido em tais “provas”. O problema básico é este: o conceito de deus – o conceito do deus cristão em particular –, removido de toda a verbosidade que o envolve, sempre resulta em algum tipo de ser incognoscível. Percebam que não disse “desconhecido”, disse “incognoscível. Essa é a crença básica e central do teísmo – a crença em algum tipo de criatura incognoscível. Por “incognoscível” quero dizer uma criatura que, por sua própria natureza, nunca poderá ser conhecida pelo homem. Não quer dizer algo do qual atualmente não temos conhecimento. Há muitas coisas das quais não temos conhecimento. Estamos falando sobre algo que, em princípio,

não pode ser conhecido. Parece haver um problema óbvio em se tentar provar – ou mesmo falar sobre – um ser que, pela própria admissão dos teístas, é incognoscível. Como podemos falar, conceituar ou demonstrar a existência desse tipo de coisa? É, em princípio, impossível. Essa é, basicamente, a razão pela qual tudo aquilo que se alega como prova, em última instância, falha. Há uma passagem do famoso materialista e ateu do século XVIII, Barão D’Holbach, que é muito interessante nesse sentido. Após perceber que a teologia tem “como seu objeto apenas coisas incompreensíveis”, D’Holbach argumenta “que é um contínuo insulto à razão humana”. E continua desta maneira:

Nenhum sistema religioso pode ser fundado senão sobre a natureza de deus e do homem e sobre as relações que mantêm entre si. Mas, a fim de julgar a realidade dessas relações, devemos ter algum tipo de noção da natureza divina. Mas todos dizem que a essência de deus é incompreensível ao homem. Ao mesmo tempo, não hesitam em conferir atributos e esse deus incompreensível e em nos assegurar que homem não pode dispensar a sabedoria desse deus – o qual é impossível conceber. A coisa mais importante para o homem é aquela mais distante de sua compreensão. Se deus é incompreensível ao homem, seria racional nunca pensar neste absolutamente. Mas a religião conclui que o homem é um criminoso se, por um momento, cessar de venerá-lo.

D’Holbach conclui – muito bem, devo acrescentar – que “religião é a arte de ocupar mentes limitadas com aquilo que é impossível de conceber ou compreender”. Simplesmente não é possível discutir de modo inteligível, muito menos provar, a existência de uma criatura incognoscível. É um absurdo filosófico. O conceito em si não faz sentido.

Das muitas “provas” que foram oferecidas, provavelmente a mais popular aos leigos é aquilo que se conhece como argumento da experiência religiosa. Ainda não falei ou escrevi sobre o assunto anteriormente, então gostaria de enfocá-lo por alguns minutos porque esse é o tipo de argumento que mais freqüentemente encontramos. Este confunde algumas pessoas com suas justificativas porque é um argumento confuso. Por argumento da experiência religiosa refiro-me a alguma variação do tema como “Sei que deus existe porque tive algum tipo de experiência pessoal” ou, colocando nos termos dos fundamentalistas, “Jesus entrou em meu coração”, e assim por diante; ou, colocando nos termos do misticismo oriental, “Tive algum tipo de experiência com o Todo do universo”. Sejam os termos quais forem, a idéia básica é esta: tentar provar alguma idéia filosófica fazendo referência a uma experiência pessoal de algum tipo. Esse é o argumento mais comumente utilizado pelos religiosos e místicos.

O primeiro problema com esse argumento é que não se trata realmente de um argumento. Um argumento presumivelmente tem algumas premissas, prossegue por uma linha de raciocínio e tem uma conclusão. Esse “argumento” é simplesmente uma afirmação pura. Não é um argumento absolutamente. Poderia igualmente dizer que há fadas invisíveis nesta sala porque tive uma experiência pessoal com elas; ou que há um elfo verde invisível em meu ombro porque tive uma experiência pessoal com ele. Em outras palavras, uma vez que se recorre a esse disparate, é possível “provar” ou argumentar qualquer coisa. Esse é o completo abandono de qualquer espécie de critério racional – tentar demonstrar uma idéia filosófica sobre a existência de algo simplesmente fazendo menção a algum tipo de experiência interna, a um sentimento.

Houve várias tentativas de defender esse tipo de argumento. Uma delas que se ouve comumente é que este sentimento é único. Os religiosos ou místicos não podem comunicar sua experiência a você porque é tão única que não pode ser comunicada. A isso respondo de todas experiências são únicas. Todas experiências que temos são únicas. Não há nenhuma experiência que seja exatamente igual a qualquer outra que

tenhamos vivido. A questão é que temos uma mente, temos habilidade conceitual, e isso

é tudo que importa nessa questão. Conceitos nos permitem distinguir as diferenças entre nossas experiências e focar os elementos mais comuns e nos comunicarmos. É disso que

a formação de conceitos consiste; é assim que raciocinamos. O religioso alega que não

pode comunicar sua experiência porque é única – se considerarmos as implicações disso consistentemente, significaria que não podemos nos comunicar em absoluto porque todas as nossas experiências são únicas. Penso que seria mais preciso afirmar que a experiência do religioso é simplesmente ininteligível. Ele não compreende o que é ou por que ocorreu, então inventa uma explicação adequada aos seus propósitos.

Há outro tipo de resposta utilizada às vezes. Este é o paralelo que freqüentemente ouvimos do místico, a pessoa que afirma ter vivenciado algum tipo de contato pessoal com a divindade. O místico está para o homem comum assim como o

homem que enxerga está para o cego. Tenho certeza que muitos de vocês já ouviram isso vez ou outra. Não apenas leigos utilizam esse argumento, mas sofisticados filósofos e teólogos – que deveriam ser mais esclarecidos – recorrem a ele. Às vezes nos apresentam a ilustração de que se um homem com visão estivesse entre uma raça de pessoas cegas e tentasse explicar como o mundo é, estes diriam que a pessoa é irracional

e negariam a existência de tais coisas. Obviamente, o místico quer colocar-se na mesma

categoria. “Tenho uma faculdade intuitiva especial” ou “Tenho uma linha direta especial em deus” e isso lhes permite alcançar um conhecimento especial que meros mortais não são capazes de obter.

Há muitos, muitos problema com esse “argumento”, por assim dizer; evidenciarei apenas alguns. Primeiramente, há uma diferença entre pessoas com visão e pessoas cegas, mas essa diferença pode ser atribuída a algum tipo de diferença de capacidade física. Podemos explicar por que – fisicamente – uma pessoa com visão é capaz de sentir percepções enquanto a pessoa cega não pode. Não há nada misterioso nisso, todavia com o místico esse não é exatamente o caso. O místico está alegando algum tipo de capacidade intuitiva ou física especial – um novo sentido? Se está, deixemos que ele nos proporcione algum tipo de informação sobre isso para podermos testá-la. Em segundo, a pessoa com visão não alega ter acesso a um mundo inacessível, sobrenatural. A pessoa com visão está lidando com o mesmo mundo que a pessoa cega. Este simplesmente tem uma habilidade adicional que o cego não possui. Não tenho de contradizer o conhecimento de uma pessoa cega para explicar aquilo que vejo. Ela pode testar independentemente, de seu próprio modo, as alegações que faço. Se digo à pessoa cega “Há uma parede logo à sua frente”, ela não precisa acreditar em mim – pode chegar perto e tocá-la, senti-la, percebê-la, usando as modalidades sensoriais de que dispõe. Esta é outra noção crucial que devemos ter em mente a respeito desse argumento. O indivíduo cego e o com visão não estão lidando com mundos distintos; o cego tem meios de conferir, de verificar as alegações da pessoa com visão. Infelizmente, de novo, não temos essa oportunidade no que concerne a alegação do místico. Que tipos de procedimentos verificáveis ou testes poderíamos estruturar para sustentar a alegação do

místico de que está em contato com algum mundo inefável, sobrenatural. Não há meio algum, pois não apenas alega ter um sentido, poder ou habilidade especial, mas alega sentir ou saber algo que está inteiramente no outro mundo. Isso é completamente arbitrário, indefensável e insustentável. Há várias outras coisas que poderíamos evidenciar igualmente, como o fato de que o homem cego não usa padrões de conhecimento diferentes do homem com visão. Eles simplesmente têm meios diferentes de recolher evidência, enquanto o místico exigiria que abandonássemos muitos dos padrões de conhecimento que utilizamos presentemente. Tenho certeza que vocês podem imaginar muitas outras objeções que poderiam ser feitas a essa idéia em particular.

Às vezes ouvimos que o místico submeteu-se a um intenso treinamento especial. Fez meditação – ou o que for necessário – e, através desse treinamento especial adquiriu esta capacidade especial de perceber um ser sobrenatural de algum modo. Isso realmente não significa nada senão que podemos passar anos em algo e ainda chegar a conclusões ridículas, assim como podemos chegar a essa conclusão ridícula em trinta segundos ou um minuto. De fato, penso que compreendem que se devotarmos anos ao estudo de uma disciplina, após um tempo surge um certo interesse mascarado na veracidade dessa disciplina. Se digo que vou para o Himalaia tentar entrar em contato com o todo do universo, chego lá e me dizem que preciso meditar por cinco anos e me submeter a certas práticas para essa finalidade, penso que, emocionalmente, seria muito difícil após os cinco anos retornar e dizer “Bem, foi uma perda de tempo”. Há interesses emocionais ocultos envolvidos na esperança de que aquilo em que você devotou todo esse tempo tenha algum mérito. Há esse problema não apenas com místicos, mas também com professores de teologia. Pode-se imaginar fazer o seminário, passar anos em treinamento teológico, ter seu sustento dependente disso, apenas para um dia dizer “Bem, acho que tudo isso é apenas perda de tempo; não faz sentido”. É muito difícil fazer esse tipo de coisa e é necessário ter uma mente extraordinariamente independente para ser capaz de ir contra a semente de tanto investimento.

Esta é a última observação que desejo fazer a respeito do argumento da experiência religiosa. Isso é mais prático, é algo que podemos utilizar. Um dos maiores problemas com a alegação de experiência religiosa é que não há a possibilidade de falsificá-la. Em outras palavras, para acreditarmos no místico, este quer que nos submetamos a um certo experimento. Quer que nos sujeitemos a algum tipo de procedimento, e então veremos que suas crenças estão corretas. O modo mais freqüente pelo qual encontraremos isso é quando um fundamentalista diz “Veja, se você se ajoelhar e rezar para que Jesus Cristo venha ao seu coração, então verá que o que digo é verdadeiro. Não posso comunicar isso a você a não ser que siga esses procedimentos”. Certamente todos já nos deparamos com isso de tempos em tempos. Suponhamos que este fundamentalista tenha um quê filosófico e queira defender tal argumento. Este poderia dizer: você alega ser racional; alega ter uma mente aberta; tudo que estou pedindo é que faça uma experiência; tudo que tem de fazer é ajoelhar-se, olhar para o céu, juntar as mãos e pedir a Jesus que venha ao seu coração; se você de fato tem a mente aberta, certamente estará disposto a fazer este pequeno esforço para verificar minha alegação; não é isso que significa ter a mente a aberta?

Desejo apontar uma coisa interessante em que nunca pensamos quando o fundamentalista argumenta dessa forma. O fundamentalista deseja fazer um

“experimento”; todavia, não está disposto a aceitar o risco inerente a qualquer experimento. Em outras palavras, se há a possibilidade do experimento ser bem- sucedido, então também deve haver a possibilidade de fracassar. Se há a possibilidade de sucesso, também há a possibilidade de fracasso. Deve haver um risco envolvido no experimento. O fundamentalista tem uma hipótese: “Jesus é seu salvador ou deveria ser” ou “Deus existe” ou qualquer outra coisa. Eis o que dizemos ao fundamentalista: você tem uma hipótese; você estruturou um experimento; estou apostando a veracidade de minhas alegações nesse experimento, mas temos de fazer apostas similares; você tem que apostar a veracidade de suas alegações no experimento; se eu me ajoelhar e fizer o que diz ser necessário, e acontecer o que você disse, então estarei convencido; se, entretanto, eu me ajoelhar e nada acontecer, então isso falsificará sua hipótese e você deve abandonar sua crença em deus.

É muito, muito importante compreender o que estou dizendo. Se esse “experimento” se pretende legítimo, deve oferecer risco a ambos os lados. Mas a questão é percebermos que o religioso não está disposto a isso. Ele está disposto a aceitar o risco correspondente de abandonar sua crença se não formos salvos após nos ajoelharmos? Ele se propõe a fazê-lo? Diria que, em 99,9% dos casos, não. O que ele poderia dizer? “Talvez você não tenha sido sincero” – afirmando que a culpa foi sua. Mas nunca culpará a si próprio. Nunca acusará as suas próprias idéias. A próxima vez em que estiver nesta situação, em vez de desconsiderá-la como um absurdo – que, de fato, é – você poderia perguntar isto ao cristão: “Se você realmente deseja trazer o espírito científico a isso, então farei o teste; estou disposto a fazê-lo; mas, se falhar, você terá de abandonar suas crenças e tornar-se um ateu”. Isso parece justo, mas obviamente ele não aceitará. Como um lembrete final, sugiro que, caso ele aceite a proposta, coloque isso por escrito ou o faça na frente de testemunhas, pois cristãos não são muito famosos por sua integridade intelectual em questões como essa. Devo lembrá-los da passagem de Paulo “Fiz-me tudo para todos, para por todos os meios chegar a salvar alguns” (Coríntios I, 9:22), que é o que denomino hipocrisia intelectual em nome da disseminação do cristianismo.

Ouvimos muitas objeções ao ateísmo. Há tantas que não posso tratar de todas. Mas uma delas que desejo comentar é a alegação de que “Se o ateísmo está correto, estamos diante de um universo frio e indiferente, no qual não há sentido; somos grãos insignificantes em um planeta que orbita numa vasta galáxia”. Bem, isso é bastante verdadeiro – o universo não se importa com vocês; o universo não se importa comigo. A questão é que devemos nos importar com nós mesmos, pois se não o fizermos ninguém fará por nós – certamente o universo não. E nesse sentido penso que somos insignificantes no que concerne o universo. Se você morresse amanhã, o universo não iria parar a fim de organizar-lhe um funeral. O universo continuará em seu alegre caminho. Todavia, não está realmente correto afirmar que somos insignificantes, pois a idéia de significância e insignificância não faz sentido quando consideramos o cosmos inanimado. Significância é um termo que somente se aplica a algum tipo de avaliação consciente. Mas, num certo sentido, não somos tão significantes se considerarmos a totalidade do universo. Quanto ao problema “Qual é o sentido da vida do homem?” – não há sentido da vida do homem. Com alguma sorte deve haver algum sentido em sua própria vida, mas cabe a você criá-lo. Novamente, se não o fizer, ninguém fará por você.

Penso ser esse o motivo pelo qual a religião é tão devastadora, não apenas filosoficamente, mas também na perspectiva psicológica. Às vezes afirmam “O que faríamos sem religião? O que faríamos sem o cristianismo?”. Mas não entendendo o que fazemos com a religião ou o que fazemos com o cristianismo. E se eu acreditasse em Jesus? Isso não tornaria minha vida bem-sucedida. Vou falhar ou vou prosperar; vou tentar ou não – e simplesmente acreditar em algum tipo de divindade mitológica não mudará isso. Ainda depende de mim; ainda é uma questão pessoal. Não entendo qual é o grande benefício psicológico e moral que a religião supostamente ofereceu ao longo das eras. Sem dúvida, ela confere a algumas pessoas uma sensação de conforto. Se o mais importante para sua vida é o conforto, mesmo que ao custo da verdade, então você talvez acreditará em deus. Mas como indiquei no início, julgo que o mais importante deveria ser a verdade. A verdade pode ser dolorosa em algumas ocasiões específicas, mas penso que sempre funcionará em favor de seus interesses em longo prazo. Esse é um efeito benevolente, bom do ateísmo. O ateísmo limpar o ar – o restaura; limpa os entulhos psicológicos, morais e filosóficos; permite que as pessoas vivam por si próprias para buscar seus objetivos racionais, valores racionais e assim por diante.

Como argumento final – ou sátira de argumento –, penso que já devem ter ouvido sobre a aposta de Pascal algum dia. Blaise Pascal foi um famoso matemático, filósofo e teólogo francês. Ele bolou este argumento que, conseqüentemente, tornou-se bastante famoso, e consiste basicamente nisto: a razão não pode provar ou negar a existência de deus; considere as vantagens; se o ateísmo está correto, vamos morrer, nada acontecerá e nada perderemos; todavia, se o cristão está correto, os descrentes acreditarão no inferno eternamente. Assim, parece que as vantagens práticas estão no cristianismo. Nós apostaríamos no cristianismo porque as vantagens práticas são importantes. Se apostarmos no cristianismo e não houver um deus, não perderemos nada.

O primeiro problema óbvio com isso é que coloca de lado toda a questão da integridade intelectual, como se pudéssemos simplesmente mudar nossas crenças arbitrariamente sem sofrer qualquer dano psicológico, o que é simplesmente impossível. Seria necessário tamanho desprezo pela integridade intelectual para realizar esse tipo de coisa, que é inconcebível que alguém com o tipo de mente de Pascal sequer a proporia.

Mas eu gostaria de propor uma contra-aposta, chamada “aposta de Smith”. Eis as premissas de minha aposta:

1 – A existência de um deus só pode ser estabelecida por meio da razão.

2 – Aplicando os cânones do raciocínio correto à crença teística, chegamos à conclusão de que o teísmo é infundado e deve ser rejeitado por pessoas racionais.

Então vem a questão “Mas e se minha razão estiver errada neste caso?” – pois às vezes está. Somos seres humanos sujeitos a falhas. E se for o caso que existe um deus cristão que está lá em cima e que punirá por toda a eternidade a descrença nele? É aqui onde entra minha aposta. Suponhamos que você é um ateu. Quais são as possibilidades? A primeira possibilidade é que não existe um deus, e você está certo. Neste caso, você morrerá e tão-somente, não terá perdido nada, e viveu uma vida feliz na posição correta.

Em segundo, pode existir um deus que não está preocupado com as ações humanas. Pode ser o deus tradicional do deísmo. Ele pode ter dado início ao universo e o deixado seguir segundo suas próprias leis, e neste caso você simplesmente morrerá e, de novo, isso será tudo, você não perderá nada.

Suponhamos que exista um deus que está preocupado com as questões humanas – um deus pessoal –, mas que é justo, se preocupa com a justiça. Se há um deus justo, este não nos puniria por acreditarmos honestamente num erro quando este não implica torpeza moral ou maldade. Se esse deus é o criador e nos concedeu a razão como um meio básico de compreender nosso mundo, então este se orgulharia do consciente e escrupuloso uso da razão por parte de suas criaturas, mesmo se cometessem erros de tempos em tempos – do mesmo modo que um pai benevolente se orgulharia das conquistas de seu filho, mesmo se este cometesse erros de tempos em tempos. Portanto, se existe um deus justo, não temos absolutamente nada a temer – não faz sentido pensar que tal deus nos puniria por uma crença equivocada.

Agora chegamos à última possibilidade. Suponhamos que exista um deus injusto, especificamente o deus do cristianismo, que não tem qualquer consideração pela justiça e que nos fritará no inferno, independentemente de termos cometido erros honestos ou não. Tal deus é necessariamente injusto, pois não podemos conceber uma injustiça mais odiosa que punir uma pessoa por honestamente acreditar num erro, quando esta tentou ao máximo distinguir a verdade. O cristão pensa que está numa posição melhor se esse tipo de deus existir. Mas devo salientar que ele não está em uma posição nem um pouco melhor que nós se existe um deus injusto. A marca da injustiça é o comportamento desregrado, um comportamento imprevisível. Se há um deus injusto que realmente se alegra incinerando pecadores e descrentes, então o que lhe daria mais alegria que dizer aos cristãos que serão salvos, apenas para depois tostá-los igualmente pela diversão – apenas porque lhe apraz? Se há um deus injusto, que pior injustiça poderia haver? Não é uma idéia tão forçada. Se deus está disposto a punir o ateu por uma simples crença errônea, não se pode acreditar que ele cumprirá sua palavra quando diz que não lhe punirá se não acreditar nele porque, de início, este tem uma veia sádica – certamente conseguiria extrair bastante alegria desse comportamento. Se existe um deus injusto, então estamos vivendo num universo que é um pesadelo, mas não estamos numa posição pior que a do cristão.

Novamente, se formos fazer uma aposta, poderíamos apostar no que a razão nos diz – que o ateísmo é correto, e seguir esse caminho, pois não se pode fazer nada a respeito de um deus injusto, mesmo se aceitarmos o cristianismo. Minha aposta diz que devemos em todos os casos apostar na razão e aceitar a conseqüência lógica que, no caso, é o ateísmo. Se não há um deus, estamos corretos; se há um deus indiferente, não sofreremos; se há um deus justo, não temos nada a temer pelo uso honesto da racionalidade; mas, se há um deus injusto, temos muito a temer – assim como o cristão.

Assim retornamos à idéia inicial, de que o ateísmo deve sempre ser considerado dentro de um contexto mais amplo de respeito pela razão e respeito pela verdade. Penso que, como ateus, quando tentamos comunicar a mensagem ateísta, essa é a principal idéia que devemos enfatizar.

Nota do tradutor: Esta palestra foi transcrita de uma fita com o nome

“Atheism: The Case Against God”. Como George H. Smith publicou um livro com esse

mesmo título, a palestra teve seu nome alterado para “How to Defend Atheism”. Todavia,

como esta obra não foi publicada em português, optei por retomar o título original.

O Escopo do Ateísmo

Autor: George H. Smith

I

Os Mitos do Ateísmo

Os homens têm-se

corrompido, fazem-se abomináveis em suas obras; não há quem faça o bem” Salmos 14:1

“Diz

o

néscio

no

seu

coração:

Não

há Deus.

Esta passagem freqüentemente citada captura a essência de como o indivíduo

religioso médio vê o ateísmo. O ateísmo provavelmente é a posição filosófica mais

impopular – e mais incompreendida – na América atual. É comumente vista com medo e

desconfiança, como se fosse uma doutrina que advoga uma grande variedade de

perversões – desde a imoralidade, o pessimismo e o comunismo até o niilismo total.

O ateísmo é comumente considerado uma ameaça aos indivíduos e à sociedade. É

“a ciência divorciada da sabedoria e do temor a Deus”, escreve um filósofo, “à qual o

mundo tem de agradecer diretamente pelas piores malignidades da ‘guerra moderna’

Numa crítica recente, Vincent P. Miceli alega que “toda forma de ateísmo, mesmo o

inicialmente bem-intencionado, constringe, encolhe, escraviza o indivíduo ateu dentro e

contra si próprio e, eventualmente, quando o ateísmo toma proporções epidêmicas entre

os homens, desemboca na escravização e no assassinato da sociedade”.

Com similares representações do ateísmo como um mal, uma força destrutiva,

religionistas através da história têm prescrito várias formas de punição aos ateus. Platão,

em sua construção do estado ideal, fez da “impiedade” um crime que deveria ser punido

através de cinco anos de encarceramento na primeira ofensa e através da morte no

segundo convício. Jesus, que é oferecido como o paradigma do amor e da compaixão,

disse que os descrentes serão lançados na “na fornalha de fogo” onde “haverá choro e

ranger de dentes”, do mesmo modo que “o joio é colhido e queimado no fogo” (Cf.

Mateus 13:40-42). Tomás de Aquino, o grande teólogo medieval, ensinou que “o pecado da descrença é maior que qualquer outro pecado que ocorre na da perversão da moral”, e recomendou que o herege “fosse exterminado do mundo através da morte” após a terceira ofensa.

Apesar de os ateus atualmente desfrutarem de uma quantidade comparável de liberdade nos Estados Unidos, a luta pelos direitos legais dos ateus tem sido uma batalha difícil e contínua. Por exemplo, até o início deste século muitos estados não permitiam que um ateu testemunhasse em corte, o que significava que um ateu não poderia efetivamente arquivar acusações civis e criminais. O raciocínio por detrás desta proibição era que, já que o ateu não acredita em recompensas e punições após a morte, ele não se sentiria moralmente obrigado a contar a verdade numa corte. Em 1871 a Corte Suprema do Tenessee publicou esta declaração memorável:

O homem que possui a audácia de confessar que não acredita num Deus demonstra uma negligência de caráter moral e completa ausência de responsabilidade moral, assim ele nem mesmo deve ser ouvido ou acreditado numa corte de justiça de um país designado como cristão.

Aqui temos o estereótipo de um ateu como um insensível cínico amoral – uma descrição que permanece difundida em nosso próprio tempo. O ateísmo – assim acusam- no – não é senão puro negativismo: destrói e não reconstrói. O ateísta é contraposto à própria moral, e a luta entre a crença em um deus e a descrença é vista como uma batalha entre o bem e o mal. Se verdadeiro, o ateísmo é declarado como tendo implicações ominosas numa escala cósmica. A. E. Taylor expressa o medo de muitos teístas quanto escreve:

em horas do mais completo e sereno desprendimento intelectual, não

podemos escapar da questão da possibilidade de se eliminar Deus tanto do mundo natural ou do mundo moral sem converter ambos num pesadelo incoerente.

mesmo

Esta imagem de um mundo sem deus é apenas uma entre muitas. O ateísmo tornou-se tão apinhado de mitos e mal-entendidos que muitas críticas supostamente endereçadas ao ateísmo são notáveis por sua completa irrelevância. Alguns críticos religiosos preferem atacar as idéias impopulares associadas ao ateísmo em vez de encarar o desafio do ateísmo diretamente. De fato, não é incomum encontrar livros inteiros com o intuito expresso de demolir o ateísmo, mas que falham em discutir questões básicas como por que alguém deveria acreditar em deus em absoluto. Estes livros contentam-se em identificar o ateísmo com personalidades específicas (como Nietzsche, Marx, Camus e Sartre) e, criticando as visões desses indivíduos, o autor religionista acredita ter destruído o ateísmo. Na maioria dos casos, entretanto, o crítico nem mesmo discutiu o ateísmo.

Apresentar o ponto de vista ateístico é uma tarefa difícil e frustrante. O ateu precisa penetrar a barreira do medo e da suspeita que o confronta, e precisa convencer o ouvinte de que o ateísmo não representa uma degeneração, mas um passo adiante. Isto freqüentemente requer que o ateísta tome uma posição defensiva para explicar por que o

ateísmo não conduz a conseqüências desastrosas. Espera-se que o ateu responda uma série de questões; as apresentadas a seguir são típicas.

Sem deus, o que resta da moral? Sem deus, qual propósito há na vida do homem? Se não acreditarmos num deus, como podermos ter certeza de qualquer coisa? Se deus não existe, a quem nos voltaremos num tempo de crise? Se não há outra vida, quem irá recompensar a virtude e punir a injustiça? Sem deus, como podemos resistir à investida do comunismo ateístico? Se deus não existe, o que resta do merecimento e da dignidade de cada pessoa? Sem deus, como o homem pode alcançar a felicidade?

Estas questões e outras similares refletem a íntima conexão entre a religião e os valores nas mentes de muitas pessoas. Como resultado, a questão da existência de deus torna-se mais do que um simples problema filosófico – e o ateísmo, visto que é interpretado como um ataque a estes valores, assume uma relevância muito além de seu

real significado. As defesas da religião são freqüentemente saturadas de furor emocional,

e

o ateu vê-se moralmente condenado, diagnosticado como um homem confuso e infeliz,

e

ameaçado com uma variedade de punições futuras. Enquanto isso, a frustração do

ateísta aumenta ao passo que ele descobre que seus argumentos em prol do ateísmo são fúteis, que o crente médio – que foi persuadido a crer por razões emocionais, não intelectuais – é impenetrável a argumentos contra a existência de um ser sobrenatural, não importando quão meticulosos e cuidadosamente apresentados sejam estes

argumentos. Há muito em jogo: se a escolha precisa ser feita entre o conforto da religião

e a veracidade do ateísmo, muitas pessoas sacrificarão esta última sem hesitação. Na

perspectiva deles, há muito mais a ser discutido a respeito da existência de Deus que

simplesmente se ele existe ou não.

Isso deixa o ateu em que posição? Ele precisa oferecer o ateísmo como um modo de vida alternativo à religião, completo, com seu próprio conjunto de valores? O ateísmo é um substituto para a religião? O ateísmo pode satisfazer as necessidades morais e emocionais do homem? O indivíduo ateu deve defender-se contra toda acusação de imoralidade e pessimismo? O ateísmo oferece quaisquer valores positivos? Estas questões não são complexas quanto podem parecer. O ateísmo é uma posição clara, facilmente definível; é uma tarefa fácil delinear o que o ateísmo pode ou não realizar. A fim de compreender o escopo do ateísmo, entretanto, é necessário que removamos as paredes de mitos que o circundam – com a esperança de que os temores e os preconceitos contra

o

ateísmo também desmoronem. Para alcançar tal objetivo, precisamos determinar o que

o

ateísmo é e o que o ateísmo não é.

II

O Significado do Ateísmo

“Teísmo” é definido como a “crença em um deus ou deuses”. O termo “teísmo” às vezes é usado para designar a crença em um tipo particular deus – o deus pessoal do

monoteísmo –, mas, como utilizado neste livro, “teísmo” significa a crença em qualquer deus ou número de deuses. O prefixo “a” significa “ausência”, então o termo “a-teísmo” literalmente significa “sem teísmo”, ou sem crença em um deus ou deuses. O ateísmo, portanto, é a ausência de crença teística. Quem não acredita na existência de um deus ou de um ser sobrenatural pode ser apropriadamente denominado um ateu.

O ateísmo às vezes é definido como “a crença de que nenhum tipo de Deus existe”, ou como a alegação de que um Deus não pode existir. Estas são categorias de ateísmo, elas não exprimem o significado do ateísmo – e são relativamente enganosas no que diz respeito à natureza básica do ateísmo. O ateísmo, em sua forma básica, não é uma crença, é a ausência de crença. Um ateu não é primariamente uma pessoa que acredita na inexistência de deus; em vez disso, ele não acredita na existência de deus.

Como aqui definido, o termo “ateísmo” tem um escopo mais abrangente do que os significados comumente atribuídos a ele. Os dois tipos mais comuns são descritos por Paul Edwards como se segue:

Em primeiro lugar, há o sentido mais familiar em que uma pessoa é uma ateísta. Se ele afirma que não há um Deus, toma-se como significado disto que “Deus existe” expressa uma proposição falsa. Em segundo lugar, há também outro sentido mais amplo em que uma pessoa é uma ateísta: se ela rejeita a crença em Deus, não importando se sua rejeição baseia-se na visão de que a crença em um Deus é falsa.

Ambos estes significados são importantes tipos de ateísmo, mas nenhum faz jus ao ateísmo em seu sentido mais abrangente. “Ateísmo” é um termo privativo, um termo negativo, indicando oposto de teísmo. Se usarmos a expressão “crença-em-deus” como um substituto para teísmo, veremos que sua negação é “sem-crença-em-deus” – ou, em outras palavras, “a-teísmo”. Este é simplesmente um outro modo de dizer “sem teísmo” ou ausência de crença em deus.

“Teísmo” e “ateísmo” são termos descritivos: eles especificam a presença ou a ausência de crença em deus. Se uma pessoa é designada como uma teísta, isto nos diz somente que ela acredita num deus, não por que acredita. Se uma pessoa é designada como uma ateísta, isto nos diz somente que ela não acredita num deus, não por que não acredita.

Há muitas razões pelas quais alguém pode não acreditar na existência de um deus; talvez nunca tenha encontrado o conceito de deus antes, ou considere a idéia de um ser sobrenatural absurda, ou pense que não há evidência para respaldar a crença num deus. A despeito de qual a razão, se alguém não acredita na existência de um deus, este alguém é um ateu – está ausente de crença teística.

Neste contexto, teísmo e ateísmo abarcam todas as possíveis alternativas em relação à crença em um deus: um indivíduo é um teísta ou um ateísta; não há outra escolha. Ou bem se aceita a proposição “deus existe” ou bem se não a aceita. Ou se acredita num ser sobrenatural ou não se acredita. Não há terceira opção ou meio-termo. Isto imediatamente levanta a questão do agnosticismo, o qual tem tradicionalmente sido oferecido como uma terceira alternativa para o teísmo e o ateísmo.

III

Agnosticismo

O termo “agnóstico” foi cunhado por Thomas Huxley em 1869. “Quando atingi a

maturidade intelectual”, diz Huxley, “e comecei a perguntar a mim mesmo se era um

Descobri que quanto mais aprendia e refletia, menos

pronto estava para responder”. De acordo com Huxley, os expoentes destas doutrinas, apesar de suas óbvias diferentes, partilham uma assunção comum, uma assunção com a qual ele discorda:

ateu, um teísta ou um panteísta

Eles estavam bastante certos de que haviam alcançado uma certa “gnose” – de que tinham, de modo mais ou menos bem-sucedido, solucionado o problema da existência; enquanto eu tinha bastante certeza de que não tinha, e possuía uma convicção bastante forte de que o problema era insolúvel.

Quando Huxley ingressou na Sociedade Metafísica, descobriu que as várias crenças lá representadas tinham nomes: “a maioria de meus colegas eram istas de algum tipo ou outro”. Huxley, sem um nome para sua incerteza, estava “sem um trapo de rótulo para cobrir-se”. Ele era uma raposa sem uma cauda – então deu a si próprio uma cauda atribuindo-se o termo “agnóstico”. Parece que Huxley originalmente usou este termo de uma forma relativamente jocosa. Ele selecionou a seita religiosa primitiva conhecida como “Gnósticos” como um exemplo primo de homens que alegavam conhecimento do sobrenatural sem justificativas; e distinguiu-se como um “a-gnóstico” estipulando que o sobrenatural, mesmo se existir, jaz muito além do escopo do conhecimento humano. Não podemos dizer se existe ou não, então devemos suspender nosso julgamento.

Desde o tempo de Huxley, “agnosticismo” adquiriu um número de diferentes aplicações baseadas em sua derivação etimológica da negativa “a” e do radical grego gnosis (“saber”). Agnosticismo, como um termo genérico, atualmente significa a impossibilidade de conhecimento numa dada área. Um agnóstico é uma pessoa que acredita que algo é inerentemente incognoscível à mente humana. Quando aplicado à esfera da crença teística, um agnóstico é aquele que defende que algum aspecto do sobrenatural apresenta-se eternamente fechado ao conhecimento humano.

Apropriadamente considerado, o agnosticismo não é uma terceira alternativa ao teísmo e ateísmo porque concerne a um diferente aspecto da crença religiosa. Teísmo e ateísmo referem-se à presença ou ausência de crença num deus; agnosticismo refere-se à impossibilidade de conhecimento em relação a um deus ou ser sobrenatural.

O termo “agnóstico”, em si mesmo, não indica se alguém acredita ou não num deus. O agnosticismo pode ter tanto teístico quanto ateístico.

O agnóstico teísta acredita na existência de deus, mas defende que a natureza de deus é incognoscível. O filósofo medieval judeu, Maimonides, é um exemplo desta posição. Ele acreditava em deus, mas recusava-se a atribuir características positivas a este deus alegando que tais características introduziriam a pluralidade na natureza divina – um procedimento que iria, segundo acreditava Maimonides, conduzir ao politeísmo. De acordo com o religioso agnóstico, podemos dizer que deus é, entretanto – devido à incognoscibilidade da natureza sobrenatural – não podemos dizer o que deus é.

Assim como seu primo teístico, o agnóstico ateu defende que qualquer reino sobrenatural é inerentemente incognoscível à mente humana, mas este agnóstico suspense seu julgamento um passo antes. Para o agnóstico ateu, não apenas a natureza de qualquer ser sobrenatural é incognoscível, mas também a existência de qualquer ser sobrenatural. Não podemos ter o conhecimento do incognoscível; portanto, conclui este agnóstico, não podemos ter conhecimento da existência de deus. Devido a esta variedade de agnóstico não se submeter à crença teística, ele qualifica-se como um tipo de ateu.

Várias defesas foram oferecidas para esta posição, mas geralmente originando-se de um empirismo estrito; por exemplo, a doutrina de que o homem deve ganhar todo seu conhecimento inteiramente através de seus sentidos. Já que um ser sobrenatural jaz muito além do escopo da evidência sensorial, não podemos afirmar nem negar a existência de um deus; fazer qualquer um dos dois, de acordo com o agnóstico ateu, equivale a transgredir os limites do entendimento humano. Enquanto este agnóstico afirma a possibilidade teórica de uma existência sobrenatural, ele acredita que a questão deve permanecer, em última análise, incerta e indecisa. Deste modo, para o agnóstico ateu, a resposta apropriada à questão “Existe um Deus?” é “Eu não sei” – ou, mais especificamente, “Eu não posso saber”.

Se esta descrição representa a exata posição de Thomas Huxley – isto é algo que não está inteiramente claro. Às vezes, como vimos, ele parece indicar que a existência do sobrenatural, apesar de possível, é incognoscível. Noutro lugar, entretanto, ele escreve que “não se importa muito em considerar qualquer coisa como ‘incognoscível’”. E, sumarizando os fundamentos do agnosticismo, Huxley não se refere a qualquer coisa como incognoscível ou “insolúvel”.

é errado para um homem dizer que ele está certo da verdade objetiva de

qualquer proposição a não ser que possa produzir uma evidência que justifique

logicamente sua certeza. É isso que o agnosticismo afirma; e, em minha opinião, essa é

a aplicação do princípio resulta na negação, ou

suspensão do julgamento, de um número de proposições em relação às quais nossos “gnósticos” eclesiásticos contemporâneos professam certeza total.

toda a essência do agnosticismo

Esta passagem sugere que, na opinião de Huxley, não há evidência suficiente para justificar a crença num deus, então dever-se-ia suspender o julgamento sobre o assunto. Discutindo se a existência de deus é incognoscível a princípio ou apenas atualmente desconhecida, ele escreve:

Do que eu tenho certa é que há muitos tópicos sobre os quais não sei coisa alguma; e que, tanto quanto posso perceber, estão fora do alcance de minhas faculdades.

Mas, se essas coisas são cognoscíveis a qualquer outra pessoa, este é exatamente um daqueles assuntos que estão além de meu conhecimento, apesar de que eu possa ter uma opinião razoavelmente forte em relação às probabilidades do caso.

Huxley é relutante em defender a absoluta incognoscibilidade do sobrenatural, e deseja sustentar, em vez disso, que, tanto quanto ele sabe, o conhecimento do sobrenatural jaz além do poder das faculdades humanas. Não seria forçado demais dizer que, na visão de Huxley, a cognoscibilidade do sobrenatural é em si uma questão incognoscível.

Devido à ambigüidade da posição agnóstica tradicional, o termo “agnóstico” tem sido empregado numa variedade de modos. É comumente usada para designar alguém que se recusa a afirmar ou negar a existência de um deus, e devido ao ateísmo estar freqüentemente associado à categórica negação do teísmo, o agnosticismo é oferecido como uma terceira alternativa. Aqui está uma típica explicação, encontrada na Enciclopédia Católica:

Um agnóstico não é um ateu. Um ateu nega existência de Deus; um agnóstico professa a ignorância sobre Sua existência. Para este último, Deus pode existir, mas a razão não pode comprová-lo nem contestá-lo.

Perceba que o agnosticismo emerge como uma terceira alternativa apenas se o ateísmo for estreitamente definido como a negação do teísmo. Nós vimos, entretanto, que o ateísmo, em seu sentido mais amplo, refere-se basicamente à ausência de crença em deus, não necessariamente à negação de deus. Qualquer pessoa que não acredita em deus, por qualquer motivo, carece de crença teística e, portanto, qualifica-se como uma ateísta.

Enquanto o agnóstico da variedade Huxley pode se negar a afirmar se o teísmo é verdadeiro ou falso – “suspendendo”, assim, seu julgamento –, ele não acredita na existência de um deus (se acreditasse, seria um teísta). Já que este agnóstico não aceita a existência de um deus como verdadeira, ele está ausente de crença teística, ele é ateístico – e o agnosticismo de Huxley emerge como uma forma de ateísmo.

Assim, como previamente indicado, agnosticismo não é uma posição independente ou um meio-termo entre teísmo e ateísmo, pois classifica de acordo com um critério diferente. Teísmo e ateísmo separam aqueles que acreditam num deus daqueles que não acreditam. O agnosticismo separa aqueles que acreditam que a razão não pode penetrar o reino do sobrenatural daqueles que defendem a capacidade da razão de afirmar ou negar a veracidade da crença teística.

O agnóstico teísta encontra oposição não apenas dos ateus, mas também dos outros teístas que crêem que a natureza de deus pode ser conhecida (pelo menos até certo grau) pela mente humana. Igualmente, o agnóstico ateu encontra oposição dos outros ateus, que se recusam a aceitar a possibilidade teórica da existência sobrenatural, ou que argumentam que a razão pode eficientemente demonstrar a falsidade ou a incoerência do teísmo.

As posições agnósticas foram duramente criticadas pelos crentes e descrentes; iremos examinar as objeções ao agnosticismo posteriormente. Nosso objetivo aqui é elucidar a relação do agnosticismo com o teísmo e o ateísmo para que se possa evitar mal-entendidos futuros. O agnosticismo é comumente usado como um refúgio àqueles que desejam escapar do estigma do ateísmo, e sua vagueza ganhou um status de uma forma intelectualmente respeitável de dissidência religiosa. Em muitos casos, entretanto, o termo “agnóstico” é mal utilizado.

O agnosticismo é uma posição filosófica legítima (apesar de que, em minha opinião, está equivocada), mas não é uma terceira alternativa ou um meio-termo entre teísmo e ateísmo. Em vez disso, é uma variante ou do teísmo ou do ateísmo. O autoproclamado agnóstico ainda precisa especificar se acredita ou não num deus – e, ao fazê-lo, compromete-se com o teísmo ou compromete-se com o ateísmo. Mas compromete-se a si próprio. O agnosticismo não é a escapatória que comumente se pensa ser.

IV

As Variedades de Ateísmo

O termo “ateísmo” tem sido utilizado até aqui para cobrir todo caso de descrença em deus ou deuses. Analisaremos agora sucintamente as várias manifestações do ateísmo.

O ateísmo pode ser dividido em duas grandes categorias: implícito e explícito. (a) Ateísmo implícito é a ausência de crença teística sem uma rejeição consciente desta; (b) Ateísmo explícito é a ausência de crença teística devido à consciente rejeição desta.

(a) Um ateu implícito é uma pessoa que não acredita em um deus, mas que não rejeitou ou negou explicitamente a veracidade do teísmo. Ateísmo implícito não pressupõe familiaridade com a idéia de um deus.

Por exemplo, uma pessoa que não possui conhecimento sobre a crença teística não acredita num deus, mas também não nega a existência de tal ser. A negação pressupõe algo para ser negado, e ninguém pode negar a veracidade do teísmo sem antes saber o que é o teísmo. O homem não nasce com o conhecimento inato do sobrenatural; até que lhe seja apresentada a idéia ou ele próprio a conceba, ele é incapaz de afirmar ou negar sua veracidade – ou mesmo “suspender” seu julgamento.

Esta pessoa representa um problema para as classificações tradicionais. Ela não acredita em um deus, então não é uma teísta. Ela não rejeita a existência de um deus, então, de acordo com a acepção em que comumente o ateísmo é utilizado, ela não é uma ateísta. Esta pessoa também não afirma que a existência do sobrenatural é desconhecida

ou incognoscível, então não é uma agnóstica. A falha das classificações tradicionais em incluir esta possibilidade indica sua falta de compreensão.

Como definido neste capítulo, um homem alheio ao teísmo é um ateu porque não acredita em um deus. Esta categoria também incluiria a criança com capacidade conceitual de compreender as questões envolvidas, mas que ainda está alheia a elas. O fato de esta criança não acreditar num deus faz dela uma ateísta. Já que esses casos de descrença não são o resultado de uma rejeição consciente, são mais bem designadas como sendo um ateísmo implícito.

Neste ponto, objeções podem ser levantadas em protesto contra o uso da palavra “ateísmo” para abarcar o caso da criança desinformada. Alguns religionistas sem dúvida dirão que esta vitória barata do ateísmo foi conseguida através de definições arbitrárias. Em resposta a isto, precisamos notar que a definição de ateísmo como sendo a ausência da crença em deus ou deuses não é arbitrária. Apesar de este significado ser mais amplo do que o comumente aceito, ele tem sua justificativa no significado do termo “teísmo” e no prefixo “a”. Também, como dito anteriormente, esta definição de ateísmo tem a virtude de representar a antítese do teísmo, e deste modo “teísmo” e “ateísmo” abarcam todas as possibilidades de crença e descrença.

Olhando de perto, é provável que as objeções a se chamar a criança desinformada de ateísta surgirão da assunção de que ateísmo implica algum grau de degradação moral. Como ousam chamar crianças inocentes de ateístas! Certamente é injusto degradá-las desta maneira.

Se o religionista está incomodado pelas implicações morais de se denominar uma criança desinformada de ateísta, o problema está nestas implicações morais, não na definição de ateísmo. Reconhecer esta criança como uma ateísta é um passo importantíssimo para remover o estigma moral vinculado ao ateísmo, pois força o teísta ou a abandonar seus estereótipos do ateísmo ou a estendê-los até o absurdo patente. Se ele recusar-se a descartar seus mitos favoritos, se ele continuar a condenar os descrentes como imorais per se, a lógica exige que ele condene a criança inocente também. E, a não ser que esse teísta seja um ardoroso seguidor de Calvino, ele perceberá o que esta impetuosa reprovação moral do ateísmo realmente representa: irracionalidade.

A categoria de ateísmo implícito também se aplica à pessoa familiarizada com as crenças teísticas e que não as consente, mas que não rejeitou explicitamente a crença num deus. Recusando comprometer-se, a pessoa pode ser indecisa ou indiferente, mas permanece o fato que ela não acredita em um deus. Logo, esta pessoa também é uma ateísta implícita.

O ateísmo implícito é convenientemente ignorado por aqueles teístas que representam o ateísmo como uma crença positiva em vez da ausência de crença. Apesar de isso parecer uma distinção sutil, ela tem importantes conseqüências.

Se alguém apresenta uma crença positiva (por exemplo, uma afirmação que alguém alega ser verdadeira), este alguém tem a obrigação de apresentar evidências em seu favor. O ônus da prova recai sobre a pessoa que afirma a veracidade de uma proposição. Se a evidência não é contundente, se não há motivos suficientes para se

aceitar a proposição, ela não deve ser acreditada. O teísta que afirma a existência de um deus assume a responsabilidade de demonstrar a veracidade desta asserção; se ele falhar nesta tarefa, o teísmo não deve ser aceito como verdadeiro.

Alguns crentes tentam escapar da responsabilidade de prover evidências invertendo a responsabilidade ao ateísmo. O ateísmo, que é representado como uma crença rival ao teísmo, claramente não pode demonstrar a inexistência de um deus, então se alega que o ateísta não é melhor que o teísta. Este também é o argumento favorito do agnóstico, que alega rejeitar o ateísmo e o teísmo afirmando que nenhuma das posições pode apresentar demonstrações.

Quando o ateísmo é reconhecido como a ausência de teísmo, a manobra precedente cai por terra. O ônus da prova aplica-se somente a casos de crença positiva. Para exigir uma prova do ateu, o religionista deve representar o ateísmo como uma crença positiva que requer comprovação. Quando o ateu é visto como uma pessoa que carece de crença em um deus, torna-se claro que ele não está obrigado a “provar” coisa alguma. Um ateu enquanto ateu não acredita em nada que requer demonstração; a designação de “ateísta” não nos diz no que ele acredita, mas no que ele não acredita. Se outros desejam que ele aceite a existência de um deus, é responsabilidade deles argumentar em prol do teísmo – mas o ateu não necessita argumentar de modo similar em prol do ateísmo.

É crucial distinguir entre o ateísmo enquanto tal e as muitas crenças que um ateu

pode defender. Todos os ateus de fato adotam algumas crenças positivas, mas o conceito de ateísmo não abarca tais crenças. O ateísmo refere-se apenas ao elemento da

descrença em deus, e já que não há conteúdo nisso, já que não há nenhuma crença positiva, a exigência de comprovação não se aplica.

O ateísmo não é necessariamente o produto final de uma cadeia de raciocínio. O

termo “ateísta” diz apenas que este alguém não acredita em deus, mas não especifica por que motivo. Independentemente da causa da descrença, se alguém não acredita em um

deus, este alguém é um ateu.

O teísmo precisa ser aprendido e aceito. Se nunca for aprendido, não poderá ser

aceito – e o indivíduo permanecerá implicitamente um ateu. Se o teísmo é aprendido, mas mesmo assim rejeitado, o indivíduo será um ateu explícito – o que nos conduz ao

segundo tipo de ateísmo.

(b) Um ateu explícito é aquele que rejeita a crença em um deus. Esta rejeição deliberada do teísmo pressupõe familiaridade com as crenças teísticas e às vezes é caracterizada como um anti-teísmo.

Há várias motivações para o ateísmo explícito, algumas são racionais e algumas não. O ateísmo explícito pode ser motivado por fatores psicológicos. Um homem pode não acreditar em deus porque odeia seus pais religiosos ou porque sua esposa trocou-o pelo pregador da vizinhança. Ou, num nível mais sofisticado, alguém pode achar que a vida é fútil e desamparada, e que não há espaço emocional para deus num universo trágico. Motivações como essas podem ser de interesse psicológico, mas são filosoficamente

irrelevantes. Elas não são justificativas racionais para o ateísmo, e não vamos levá-las em consideração aqui.

A mais significante variedade de ateísmo é o ateísmo explícito de natureza filosófica. Este ateísmo defende que a crença em deus é irracional e, portanto, deve ser rejeitada. Já que esta versão do ateísmo explícito baseia-se na crítica das crenças teísticas, ele é mais bem descrito como ateísmo crítico.

O ateísmo crítico apresenta-se de várias formas. Ele é freqüentemente expressado pela frase “Eu não acredito na existência de um deus ou ser sobrenatural”. Esta profissão da descrença freqüentemente deriva-se do malogro do teísmo em prover evidência suficiente em seu próprio favor. Em face à ausência de evidência, este ateu explícito não vê motivos para acreditar em qualquer ser sobrenatural.

O ateísmo crítico também assume formas mais fortes, como “Deus não existe” ou “A existência de deus é impossível”. Estas afirmações geralmente são feitas após um conceito específico de deus, como o Deus do cristianismo, ter sido julgado absurdo ou contraditório. Assim como somos forçados a dizer que uma “esfera quadrada” não existe e não pode existir, assim somos levados a admitir que, se o conceito de deus entrar em contradição, ele não existe e não pode existir.

Finalmente, há o ateu crítico que se nega a discutir a existência ou inexistência de um deus porque acredita que o conceito de “deus” é ininteligível. Não podemos, por exemplo, discutir racionalmente a existência de um “unie” até que saibamos o que é um “unie”. Se nenhuma descrição inteligível é apresentada, a discussão precisa interromper- se. Analogamente, se nenhuma descrição inteligível de “deus” é apresentada, a discussão precisa interromper-se. Este ateu crítico, deste modo, diz: “A palavra ‘deus’ não faz sentido para mim, então eu não tenho idéia do que significa dizer que ‘deus’ existe ou não existe”.

Estas variedades de ateísmo crítico são idênticas num aspecto importante:

possuem caráter essencialmente negativo. O ateu, enquanto ateu, tanto implícito quanto explícito, não afirma a existência de qualquer coisa; não faz qualquer afirmação positiva. Se a ausência de crença é um resultado do desconhecimento, esta descrença é implícita. Se a ausência de crença é o resultado de uma deliberação crítica, esta descrença é explícita. Em ambos os casos, a ausência de crença teística é a essência do ateísmo. Várias posições ateísticas diferem somente no que diz respeito às diferentes causas da descrença.

Este livro foi escrito na perspectiva do ateísmo crítico. Sua tese básica é que a crença em deus é inteiramente infundada – e, mais adiante, que há muitas razões para não se acreditar num deus. Se o teísmo é destruído intelectualmente, os motivos para se acreditar em deus desmoronam, e assim se é racionalmente forçado a não acreditar em um deus – ou, noutras palavras, se é obrigado a ser ateu.

Este livro não é uma crítica do teísmo e uma defesa do ateísmo: a crítica do teísmo é a defesa do ateísmo. O ateísmo não é a ausência de crença em deus e mais certas crenças positivas: ateísmo é somente a ausência de crença em deus. Se pudermos demonstrar que o teísmo é infundado, falso ou ilógico, então, simultaneamente,

estabelecemos a validade do ateísmo. Esta é a razão pela qual o caso do ateísmo é O Caso Contra Deus.

V

Jacques Maritain e a Difamação do Ateísmo

As divisões precedentes do ateísmo são simples e imparciais. Eles não prejudicam o caso contra ou a favor do ateísmo sugerindo implicações morais. Similarmente, poderíamos também listar as variedades de teísmo, como monoteísmo e politeísmo, sem sugerir quaisquer conseqüências morais. Infelizmente, quando se está discutindo uma posição que alguém desaprova radicalmente, o espírito da objetividade é, não raro, sacrificado pelo preconceito e pelo emocionalismo. Isto não é mais evidente em qualquer lugar senão nos escritos de Jacques Maritain, um proeminente filósofo católico.

Em The Range of Reason [O Alcance da Razão], Maritain devota mais de uma dúzia de páginas às variedades de ateísmo, e já que suas classificações são largamente utilizadas por outras fontes cristãs (como a Enciclopédia Católica), é instrutivo analisar sua abordagem. Maritain tipifica o tratamento injusto que o ateísmo tem recebido nas mãos dos teólogos e dos filósofos religiosos. Apesar de que, presumivelmente, Maritain pretende que suas classificações sejam justas e imparciais, elas transparecem sua aversão pessoal pelo ateísmo. Sob o pretexto da categorização, Maritain joga suas cartas contra o ateísmo atribuindo a ele um status moral e psicológico inferior.

Considere-se o caso do que Maritain denomina “ateísmo prático”. Ateus práticos

talvez acreditem Nele em seus cérebros)

“acreditam que eles acreditam em Deus (e

mas

em verdade negam Sua existência através de cada um de seus feitos”.

Dizer que homens acreditam “em seus cérebros” é um modo confuso de admitir que eles, de fato, aceitam a existência de um ser sobrenatural. Por qualquer concepção racional de teísmo, tais pessoas são teístas, pura e simplesmente. Eles podem ser teístas hipócritas, que talvez professem ser cristãos enquanto ignoram a moral cristã – mas se esses homens de fato acreditarem em deus “em seus cérebros” (significando: como uma questão intelectual), então eles são teístas, independentemente de sua conduta ou crenças morais.

Mas a idéia de um cristão hipócrita ofende as sensibilidades de Maritain. A crença em deus é moralmente boa, e o teísta que não alcança certos padrões morais, de um certo modo, não acredita verdadeiramente em deus. Como se alguém se tornasse ateu através de suas ações, Maritain apresenta a simples resposta de que, se alguém é suficientemente imoral e hipócrita, este alguém merece ser chamado de ateu. Com a desculpa de estar classificando, Maritain purifica o teísmo, empurrando os indesejáveis ao campo ateístico, no qual ele não encontra dificuldade em aceitar seu comportamento inadequado. Afinal, que mais se pode esperar de um homem ímpio?

Pelo motivo da imoralidade, hipocrisia e possivelmente outros traços repugnantes, Maritain rotula o condenado como um ateu – um “ateu prático”, mas um ateu de qualquer modo. Ateísmo prático, como definido por Maritain, é o lixo conceitual para os rejeitos teísticos; na realidade, isso é um capricho pessoal elevado ao status de categoria filosófica. Se divergência também é incompatível com teísmo, então o próprio Maritain qualifica-se como um “ateu prático”.

Outra forma principal de ateísmo, de acordo com Maritain, é o “ateísmo

absoluto”. Ateus absolutos “de fato negam a existência do próprio Deus no Qual os

crentes acreditam e

são levados a mudar inteiramente sua própria escala de valores e

destruir neles próprios tudo que conota Seu nome”.

Já podemos presumir que o ateísmo absoluto, como o ateísmo prático, irá envolver distinções morais. O ateu absoluto muda seus próprios valores e busca destruir tudo que o faz lembrar de deus. O que nos faz lembrar de deus? Se tomarmos as palavras de Maritain, deus está associado com tudo de bom e decente – nada surpreendente que isto nos conduz à conclusão de que o ateu absoluto está travando uma guerra contra a bondade. Maritain, deste modo, conclui que “o ateísmo absoluto de modo algum é a mera ausência de crença em Deus. Em vez disso é a recusa de Deus, a luta contra Deus, um desafio a Deus. E, quanto ele alcança sua vitória, acarreta mudanças no homem em seu próprio comportamento íntimo, dá ao homem uma espécie de solidez insensível, como se o espírito tivesse sido recheado de matéria morta e seus tecidos orgânicos transformados em pedra”.

Os ateísmos “prático” e “absoluto” são considerados por Maritain como categorias compreensíveis (uma terceira – “pseudo-ateísmo” – é dispensada como irrelevante), e assim o ateu previdente tem a escolha de classificar-se como hipócrita ou como alguém constantemente engajado numa destruição de valores, enchendo-se assim de “substância morta”. Isso não chega a ser uma alternativa atraente, muito menos precisa, mas proporciona a Maritain um veículo para destruir o ateísmo sem preocupar-se com questões tão mundanas como precisão, respeito intelectual e argumentos racionais.

Maritain distorce a posição ateística com notável facilidade e audácia e, ao fazê- lo, perpetua muitos dos mitos irracionais sobre o ateísmo. Para aqueles que acreditam que apenas os incultos e ignorantes caluniam o ateísmo, J. Maritain e seus seguidores representam uma instrutiva evidência do contrário.

VI

O que o Ateísmo não é

Muitos mitos do ateísmo, como aqueles apresentados por Maritain, dependem de se atribuir ao ateísmo características que não lhe pertencem. Por causa disso, torna-se essencial identificar o que o ateísmo não é.

(a) Comumente se acredita que o ateísmo “envolve o que se denomina cosmovisão, uma visão completa da vida”. Um religionista nos diz que o ateísmo “não pode contentar-se apenas em ser a simples negação dos dogmas religiosos; precisa elaborar sua própria concepção da vida humana e tornar-se uma realidade positiva”.

Quando o ateísmo é representado pelos teístas como um estilo de vida, este é invariavelmente caricaturado como malévolo ou indesejável. Contrariamente, quando é representado pelos ateístas como um modo de vida, é caricaturado como benéfico em vez de daninho. Joseph Lewis, um proeminente ateu da tradição livre-pensadora americana, escreve que o ateísmo “equipa-nos para encarar a vida, com sua multidão de experiências e tribulações, melhor que qualquer outro código de vida que eu tenha sido capaz de encontrar”. Na opinião de Lewis, “Ateísmo é uma filosofia corajosa e vigorosa”.

Ver o ateísmo como um estilo de vida, seja benévolo ou malévolo, é um mal- entendido. Assim como a ausência de crença em elfos mágicos não acarreta um código de vida ou um conjunto de princípios, analogamente a descrença em deus não implica qualquer sistema filosófico específico. Do simples fato de que uma pessoa é uma ateísta não se pode inferir que esta pessoa irá adotar qualquer crença positiva em particular. As convicções positivas são um assunto totalmente distinto do ateísmo. Enquanto alguém pode partir de uma posição filosófica básica e inferir o ateísmo como conseqüência dela, este processo não pode ser revertido. Não se pode passar do ateísmo para uma crença filosófica básica, pois o ateísmo pode ser (e tem sido) incorporado dentro de muitos e incompatíveis sistema filosóficos.

(b) O rótulo de “ateu” anuncia desacordo de alguém com o teísmo. Não anuncia o “acordo com” ou a “aprovação de” outros ateus.

A prática de se vincular o ateísmo com um conjunto de crenças, especialmente crenças morais e políticas, permite ao teísta agrupar os ateus todos sob uma bandeira comum, com a implicação de que um ateu concorda com a crença de outro ateu. E aqui temos a sempre popular “culpa por associação”. Já que os comunistas são notoriamente ateísticos, alguns teístas argumentam, deve haver alguma conexão entre o ateísmo e o comunismo. A implicação aqui é que o comunismo de alguma forma é uma conseqüência lógica do ateísmo, assim o ateu precisa defender-se contra a acusação latente de comunismo.

Esta prática irracional e grosseiramente injusta de se vincular o ateísmo com o comunismo está perdendo popularidade e raramente é encontrada em absoluto, senão entre políticos conservadores. Mas a mesma técnica básica às vezes é usada pelo filósofo religioso para tentar desacreditar o ateísmo. Em vez de comunismo, o sofisticado teólogo irá associar o ateísmo com o existencialismo – que projeta uma visão pessimista da existência – e então chegará à conclusão de que o ateísmo conduz a uma visão pessimista do Universo. Parece que a segunda melhor coisa para convencer pessoas a não serem ateístas é assustá-las com ele.

Apesar de que alguns ateus são comunistas e alguns são existencialistas, isso não nos diz nada sobre o ateísmo ou outros ateus. É provável que o cristão, como o ateu, não

acredita na existência de elfos mágicos – mas isso não implica uma significante área de concordância entre os dois. Sucede o mesmo com o ateísmo.

Assim como um teísta pode discordar de outro teísta em questões importantes, igualmente um ateu pode discordar de outro em questões importantes. Um ateu pode ser um capitalista ou um comunista, um objetivista ou subjetivista ético, um produtor ou um parasita, um homem honesto ou um ladrão, um indivíduo psicologicamente saudável ou um neurótico. A única coisa incompatível com o ateísmo é o teísmo.

(c) Ao discutir ateísmo, muitos religionistas adotam a seguinte estratégia de ação: se tudo o mais falhar, psicologize. Se não conseguir vencer o ateu no campo das idéias, torne-se seu terapeuta: simpatize-se com ele, informe-lhe de seus problemas psicológicos enterrados que o levam a rejeitar deus. E, acima de tudo, assegure-o de que a plenitude e a felicidade aguardam-no na igreja da vizinhança.

Um filósofo fala do “desejo natural por Deus” que, se não for saciado, “conduz à absoluta frustração”. Outro filósofo afirma que, se os homens decidirem não acreditar em um deus, “tanto quanto forem inteligentes, serão entristecidos pela sua decisão”, pois um mundo sem deus “seria notavelmente escasso em alegria”. Fulton Sheen nos diz que a felicidade “é a ascensão do que é inferior em nós ao que é superior, do nosso egotismo ao nosso Deus”. Um teólogo chegou a afirmar que a frase “o homem sem deus” envolve uma contradição.

São João Crisóstomo estava simplesmente afirmando a verdade central desta

tradição em seu famoso dito: “Ser homem é temer a Deus”

natureza, é integral à natureza do homem. Logo, o homem que não teme a Deus de algum modo não existe, e sua natureza de algum modo não é humana. Em contrapartida, aí está ele. Eis o problema.

Deus, que é o Autor da

Ser um ateu é repentinamente ser menos que um humano – ser um enigma, um paradoxo ambulante, um problema psicológico. Como coloca um teísta, “A descrença á uma interrupção no desenvolvimento”. A saúde mental, afirma um psicólogo, “exige um bom relacionamento interpessoal consigo mesmo, com os outros e com Deus” – o que, observa Thomas Szasz, “claramente coloca todos ateus na classe dos mentalmente doentes”.

Essas afirmações merecem poucos comentários, mas é interessante notar o intimidante padrão utilizado para avaliar a relação entre o ateísmo e a felicidade. Se o ateu é infeliz, isso é atribuído à sua descrença. Vinculando a felicidade com a íntima conexão com deus, o “ateu feliz” é definido como fora da existência.

O padrão comum para se vincular deus e felicidade é como se segue: todo ser humano naturalmente deseja o bem, o objeto da felicidade. Deus é a bondade última e auto-suficiente. Portanto, toda pessoa naturalmente deseja deus como um corolário de sua natureza como ser humano. A felicidade divorciada de deus é uma contradição em termos.

A partir desta dúbia linha de pensamento, temos a posterior conclusão de que o ateu está lutando com frustrantes conflitos internos. Ele deseja a felicidade mas, ao negar

deus, nega a felicidade a si próprio. O ateu de alguma forma está travando uma guerra contra si próprio, contra sua própria natureza – e isto o torna neurótico, se não esquizofrênico.

Esta psicologia teológica é o freudismo invertido. Enquanto religionistas têm sido incomodados pelas tentativas dos psicólogos para reduzir o teísmo a motivações neuróticas, esses teístas não hesitam em empregar a mesma técnica em sua vantagem contra os ateus. Quando o teísta anuncia sua crença num ser sobrenatural, ele normalmente compreendido por suas palavras. Quanto o ateu anuncia sua descrença em deus, entretanto, ele é freqüentemente confrontado com: “Oh, não verdadeiramente!” Ou: “É uma pena que você seja tão infeliz”. Ou: “Espero que sua atitude negativa em relação à vida mude”.

O ateu também encontra sua descrença analisada com relação à sua idade. Se o ateu é jovem, sua descrença é atribuída à sua rebeldia e imaturidade – uma “fase” que com alguma sorte passará. Se o ateu é um homem de meia-idade, sua descrença é vinculada à frustração da rotina diária, ao amargor do malogro ou à alienação de si próprio e seu semelhante. Se o ateu é idoso, a explicação está na desilusão, no cinismo e na solidão que às vezes acompanham os últimos anos.

Contrariamente ao que muitos teístas gostam de acreditar, ateísmo não é uma forma de rebelião neurótica ou doença mental. O religionistas não pode livrar o mundo dos ateus confinando-os num asilo isolado onde podem ser ignorados. Rotular o ateísmo como um problema psicológico é uma febril e quase risível tentativa de evadir as questões fundamentais da verdade e falsidade. O teísmo é verdadeiro? Que motivos temos para acreditar em um Deus? Essas são perguntas importantes, e essas são as perguntas que o teísta deve fazer a si próprio se deseja confrontar o desafio do ateísmo.

Ademais, há uma grosseira desonestidade envolvida em se oferecer a felicidade como um motivo para se acreditar num deus. Os teístas que apelam à felicidade como uma recompensa para a crença demonstram uma chocante desconsideração à intelectualidade e à busca pela verdade. Mesmo se o teísmo conduzisse à felicidade (o que ele não faz), isso não demonstraria sua veracidade. A psicologização do ateísmo, deste modo, é irrelevante à questão do teísmo versus ateísmo. O teísta que tenta derrotar o ateísmo subordinando a verdade ao emocionalismo não consegue coisa alguma, senão revelar seu desprezo pela capacidade de pensamento humana.

VII

A Significância do Ateísmo

Poder-se-ia objetar que reduzimos o ateísmo a uma trivialidade. Não é uma crença positiva e não oferece quaisquer princípios construtivos, então que valor possui?

Se o ateísmo pode ser comparado em não se acreditar em elfos mágicos, então por que é importante? Por que devotar um livro inteiro a um assunto trivial?

O ateísmo é importante porque o teísmo é importante. O assunto de deus não é uma questão remota e abstrata com pouca influência sobre a vida dos homens. Pelo contrário, é a essência da religião Ocidental – especificamente, da tradição judaico-cristã –, que inclui um sistema de doutrinas que lida com todos ramos principais da filosofia.

Se alguém acredita, como eu acredito, que o teísmo não é apenas falso, mas também pernicioso ao homem, então a escolha entre teísmo e ateísmo assume uma grande importância. Se considerado puramente como uma idéia abstrata, o teísmo pode ser dispensado sem discussões prolongadas. Mas, quando considerado dentro do contexto apropriado – dentro do vigamento de sua significância história, cultural, filosófica e psicológica –, a questão de deus está entre os assuntos mais cruciais de nosso tempo.

Se, milhares de anos atrás, um culto de adoradores de elfos tivesse originado um conjunto de doutrinas, uma religião, baseada em sua crença nos elfos – e se essas doutrinas fossem responsáveis por extensos danos –, então este livro talvez pudesse ser intitulado O Caso Contra os Elfos. Historicamente, entretanto, deus foi mais atraente que os elfos, então em vez disso estamos discutindo O Caso Contra Deus.

Apesar de o ateísmo possuir caráter negativo, ele não precisa ser destrutivo. Quando usado para erradicar a superstição e seus efeitos nocivos, o ateísmo é uma perspectiva benevolente e construtiva. Ele purifica o ar, deixando a porta aberta para os princípios positivos e filosofias que se baseiam não no sobrenatural, mas na capacidade do homem de pensar e compreender.

A religião teve o desastroso efeito de colocar conceitos de importância vital –

como a moral, a felicidade e o amor – num reino sobrenatural inacessível à mente e ao

conhecimento humanos. A moral e a religião tornaram-se tão entrelaçadas que muitas

pessoas não podem conceber uma ética divorciada de deus, mesmo em princípio – o que

conduz à assunção de que o ateísta veio para destruir valores.

O ateísmo, entretanto, não é a destruição da moral; é a destruição da moral sobrenatural. Similarmente, o ateísmo não é a destruição da felicidade e do amor; é a destruição da idéia de que a felicidade e o amor podem ser alcançados apenas em outro mundo. O ateísmo traz estas idéias de volta à Terra, ao alcance da mente humana. O que ele faz com elas após este ponto é uma questão de escolha. Se ele descartá-las em favor do pessimismo e do niilismo, a responsabilidade está com ele, não com ateísmo.

Suprimindo qualquer possível apelo ao sobrenatural – o que, em termos de conhecimento humano, significa o incognoscível –, o ateísmo exige que questões sejam discutidas através da razão e do entendimento humano; elas não podem ser empurradas para um deus misterioso.

Se o ateísmo está correto, o homem está sozinho. Não há deus para pensar por ele, para olhar por ele, para garantir sua felicidade. Essas são responsabilidades somente do homem. Se o homem deseja conhecimento, deseja pensar por si próprio. Se o homem

deseja sucesso, precisa trabalhar. Se o homem deseja felicidade, deve esforçar-se para alcançá-la. Alguns homens consideram um mundo sem deus uma visão aterrorizante; outros vêem como um desafio revigorante e divertido. Como uma pessoa irá reagir ao ateísmo depende apenas dela própria – e o grau em que está disposta a assumir a responsabilidade por suas próprias escolhas e ações.

VIII

O Teísmo na Defesa

A tarefa de desmitificar o ateísmo agora está suficientemente completa, e chegou

a hora de se colocar o ônus da defesa no lugar apropriado: sobre o teísta. Não estaremos mais preocupados em resgatar o ateísmo da neblina de mal-entendidos inventados pelos religiosos para obscurecer as questões fundamentais. O ateu não é obrigado a responder afirmações arbitrárias, assunções sem comprovação e generalizações grosseiras relacionadas à natureza e às conseqüências da posição ateística. O ateísmo é a ausência da crença em um deus, nada mais. Se o teísta deseja derivar implicações monumentais desta ausência de crença, deve argumentar em favor de suas alegações.

Sem o recurso da depreciação do ateísmo através da mitologia e da calúnia, o teísta é privado de suas maiores ferramentas evasivas. Agora ele é levado a encarar os fatos, a apresentar suas crenças de modo inteligível e argumentar pela veracidade destas. É o ateu que exige a prova do teísta, não o oposto.

Antes de proceder, é necessário oferecer algumas observações preliminares concernentes à natureza de nossa investigação. O conflito entre teísmo e ateísmo centra- se na existência ou inexistência de um deus. A questão envolve duas grandes ramificações da investigação filosófica: metafísica e epistemologia.

A metafísica é o estudo da realidade, da existência como tal – em contraste com

os estudos especializados da existência, como a física (matéria inanimada) e a biologia

(entidades viventes). A metafísica lida com conceitos como matéria, consciência e causalidade.

A epistemologia é o “estudo ou a teoria da origem, natureza, métodos e limites

do conhecimento”. A epistemologia lida com conceitos como veracidade, falsidade,

certeza e erro.

Teremos freqüentemente ensejo para fazer referências às implicações metafísicas

e epistemológicas da crença teística, então pede-se que o leitor mantenha estas

categorias em mente. “O que existe?” é uma questão da metafísica. “Como alguém o conhece?” é uma questão da epistemologia.

Ao longo da maior parte deste livro estaremos preocupados com uma questão, e uma questão apenas: O teísmo deve ser aceito como verdadeiro? Em última análise, esta é a única questão importante. Após responder esta questão, iremos explorar as implicações éticas e psicológicas da crença religiosa, mas essas áreas são secundárias à questão básica da veracidade.

O teísmo agora está na defesa; ele pode apenas destruir o ateísmo através da defesa da crença em um deus. Se sua defesa falhar, o teísmo falha – e o ateísmo emerge como a única alternativa racional.

Os Fundamentos do Ateísmo

Por simples bom senso, não acredito em Deus; em nenhum. Charles Chaplin

Etimologicamente, a palavra ateu é formada pelo prefixo a – que denota ausência – e pelo radical grego theós – que significa Deus, divindade ou teísmo; ou seja, a palavra ateu pode significar sem deus ou sem teísmo. Como a imprecisão desse primeiro significado o torna impróprio para representar a noção de descrença ateística, usa-se como base a acepção teísmo, que significa crença na existência de algum tipo de deus ou deuses de natureza pessoal. Nesse caso, chegamos a uma definição mais coerente e clara de indivíduo ateu: aquele que não acredita na existência de qualquer deus ou deuses. Assim, quando queremos uma palavra que representa tal perspectiva, usamos o termo ateu ligado ao sufixo ismo, que, na língua portuguesa, é usado com o significado de doutrina, escola, teoria ou princípio artístico, filosófico, político ou religioso. Deste modo, chegamos a uma definição bastante nítida do que é ateísmo: estado de ausência de crença na existência de qualquer deus ou deuses.

É importante salientar que, comumente, a maioria dos ateus, quando se refere à sua posição, diz apenas que não acredita em deus/deuses. Isso não está incorreto, mas, na verdade, com isso quer dizer que não acredita na existência de deus/deuses. Afirmar apenas “não acredito em Deus” pode dar margem à interpretação errônea de que a pessoa em questão acredita em sua existência, mas é contra Deus, contra seus mandamentos, ou então que não lhe dá qualquer crédito, que o desacredita, o difama, fato este que, não raro, dá origem a vários preconceitos em relação à posição ateísta. Esclarecido esse ponto, vejamos quais são os tipos de ateísmo existentes.

Há várias modalidades de ateísmo, as quais diferem fundamentalmente quanto à atitude do indivíduo para com a ideia de uma divindade. Vale lembrar que tais classificações são meramente didáticas, feitas apenas para delinear as circunstâncias mais comuns em que o ateísmo pode ser encontrado. As duas modalidades-tronco são:

1.0) ateísmo implícito; 2.0) ateísmo explícito. A primeira, filosoficamente, é pouco relevante, e subdivide-se em: 1.1) ateísmo natural; 1.2) ateísmo prático. A segunda subdivide-se em outras duas variedades que são comumente denominadas: 2.1) ateísmo negativo ou ateísmo cético; 2.2) ateísmo positivo ou ateísmo crítico.

1.0) O ateísmo implícito, como o próprio nome indica, é a variedade de ateísmo

que existe tacitamente. Nesse caso, o ateísmo não se fundamenta na rejeição consciente

e deliberada da ideia de deus, baseada em conceitos filosóficos e/ou científicos, mas

simplesmente existe enquanto um estilo de vida que não leva em consideração a hipótese da existência de algum deus para se guiar. O ateísmo implícito pode ser dividido em ateísmo natural e ateísmo prático.

1.1) O ateísmo natural é o estado de ausência de crença devido à ignorância ou à incapacidade intelectual para posicionar-se ante a noção de existência de uma divindade. Nessa categoria entram todos os indivíduos que nunca tiveram contato com a ideia de um deus; por exemplo, alguma tribo, grupo ou povo que se encontre isolado da civilização e que seja alheio à ideia de um deus. Também se enquadram nessa categoria os indivíduos incapazes de conceber a ideia de um deus, seja isso por imaturidade intelectual ou por deficiências mentais; por exemplo, poderíamos citar crianças de pouca idade; pessoas que sofrem de alguma enfermidade mental incapacitante também se enquadram nessa categoria.

1.2) O ateísmo prático enquadra aqueles que tiveram contato com a ideia de deus, ou seja, que conhecem as teorias sobre as divindades, mas não tomam qualquer atitude no sentido de negá-la, rejeitá-la ou afirmá-la, permanecendo, deste modo, neutros sobre o assunto. Os integrantes dessa categoria comumente se classificam como agnósticos, isto é, aqueles que julgam impossível saber com certeza se há ou não uma divindade. Sob essa ótica, devido a essa impossibilidade, afirmam que seria inútil qualquer esforço intelectual no sentido de comprovar ou refutar a existência de um deus. Qualquer pessoa que tem conhecimento da existência das religiões e de suas teorias, mas vive sem se preocupar se há ou não algum deus, ou julga impossível sabê-lo com certeza, sem rejeitar ou afirmar explicitamente a ideia de deus, é classificada como pertencente ao ateísmo prático.

2.0) O ateísmo explícito é a rejeição consciente da ideia de deus. A causa dessa rejeição frequentemente é fruto de uma deliberação filosófica; contudo, não é possível fazer qualquer espécie de generalização quanto à causa específica da descrença, pois cada pessoa julga individualmente quais razões são válidas ou inválidas para corroborar ou refutar a ideia da existência de um deus. O ateísmo explícito pode ser dividido em duas outras categorias.

2.1) O ateísmo negativo ou cético é a descrença na existência de deus(es) devido

à ausência de evidências em seu favor. Essa variedade também pode ser encontrada sob

a denominação de posição cética padrão, pois reflete um dos axiomas mais fundamentais

do pensamento cético, que é: não devemos aceitar uma proposição como verdadeira se não tivermos motivos para fazê-lo; ou, em sua versão lacônica: sem evidência, sem crença. O ateu dessa categoria limita-se a encontrar motivos para justificar sua rejeição da ideia de deus, por vezes esforçando-se em demonstrar por que as supostas provas da

existência divina são inválidas, mas sem se preocupar com a negação da possibilidade da existência de um deus.

2.2) O ateísmo positivo ou crítico é a variedade mais difícil de ser defendida, pois é uma descrença que envolve a negação da possibilidade de existência de um deus. Os ateus dessa categoria tipicamente se intitulam racionalistas e seguem o princípio de que o ataque é a melhor defesa; ou seja, literalmente atacam a ideia de deus, evidenciando as contradições e as incongruências presentes nesse conceito, empenhando-se em demonstrar, através de argumentos racionais, por que a existência de um deus – como definido pelas religiões – é logicamente impossível.

À primeira vista, talvez pareça que tais definições são demasiado singelas para serem capazes de abarcar todas as possibilidades, mas não são. Isso porque a posição ateísta, em si mesma, não é positiva, não possui qualquer conteúdo, pois não representa algo, mas apenas a ausência de algo, inclusive no caso do ateísmo positivo; em suas categorias mais elaboradas, o ateísmo é uma ausência vinculada a uma rejeição ou a uma negação de algo largamente aceito, que, no caso, é o teísmo, em suas variadas formas.

Deste modo, a definição de ateísmo não subentende qualquer espécie de descrição prática do indivíduo. Nessa classificação, aquilo que os ateus fazem de suas vidas não é levado em consideração absolutamente. Ao contrário de outros ismos – como cristianismo, judaísmo, espiritismo, xintoísmo, hinduísmo, islamismo –, o ateísmo não é um estilo de vida nem uma doutrina dotada de um corpo de conhecimentos ou princípios, mas somente uma classificação acerca do posicionamento ou estado intelectual do indivíduo em relação à ideia de deus. Portanto, o ateísmo não possui natureza análoga às religiões teístas.

Uma vez que o ateísmo é apenas uma classificação – e não uma doutrina ou uma cosmovisão –, logicamente não incorpora qualquer espécie de valores, princípios morais ou noções de ética. É exatamente devido a esse fato que muitos indivíduos, inadvertidamente, classificam os ateus como imorais. Deve ficar claro, entretanto, que a ausência de um conjunto de valores morais, na verdade, refere-se somente ao ateísmo em si mesmo, de modo que, na prática, isso não implica qualquer incompatibilidade entre ambas as coisas.

Assim como os teístas, os ateístas possuem valores morais que norteiam suas ações. Não há quaisquer evidências empíricas para sustentar a acusação de imoralidade tão frequentemente lançada contra os descrentes. É claro que os ateus, como um todo, não compartilham um código moral único, não possuem uma moral baseada na autoridade de princípios ateísticos, que seriam absolutos ou superiores como os valores vinculados ao teísmo. Na realidade, os ateus escolhem individualmente – visando seus objetivos, suas necessidades – quais são os valores que melhor lhes servirão para guiar suas vidas em função do sentido que escolheram para elas; ou seja, o que não existe é uma moral ateísta no sentido em que falamos de uma moral cristã. Entretanto, há, por certo, ateístas morais, os quais se baseiam em fatores de natureza humana para fundamentar seus valores de modo racional; pois é claro que, sem um deus, tais fatores não poderiam ser absolutos ou transcendentais.

A grande frequência com que se tenta corroborar ou refutar o ateísmo através de julgamentos e valores morais apenas demonstra uma lamentável leviandade (ex: “ateus também fazem caridades” ou “muitos ateus são criminosos”). É claro que, se desejarem, alguns ateus podem ser bondosos, compassivos, solidários etc. Talvez devido ao fato de a maioria dos religiosos se identificar com esse tipo de moral sua típica ojeriza à palavra ateu possa ser um pouco amenizada; todavia, pretender que a bondade tenha, em si mesma, algum valor, que ofereça qualquer verossimilhança à posição, é, no mínimo, um absurdo. O mais “dogmático” dos ateísmos ainda não passa de uma mera negação (“Deus não existe”, afirmativamente). Sendo assim, assumir um posicionamento ateísta remete- nos a um plano muito mais fundamental, muito mais abrangente. Em outras palavras, além de ser independente da moral, o ateísmo a precede em profundidade filosófica; ou seja, na melhor das hipóteses, somente será possível deduzir, individualmente, valores a partir do ateísmo, mas nunca o ateísmo a partir dos valores. Daí a impossibilidade de a bondade, por exemplo, servir de respaldo a ele; e o mesmo vale para objeções ao ateísmo baseadas em delitos cometidos por indivíduos ateus.

Há também uma grande tendência de se querer vincular a responsabilidade das ações à visão de mundo do indivíduo, e tal tendência está ligada à ideia de que esta vem sempre carregada de valores e deveres; nesse caso, também vinculada ao mal-entendido de que o ateísmo é uma crença positiva. Por exemplo, se um cristão faz caridade em nome de Deus e usa a Bíblia para justificar tal feito, então se pode dizer que o cristianismo é, em certo grau, responsável por tal ação. Isso porque toda religião tem seus dogmas, suas verdades, seus princípios superiores, em suma, seu tu deves. Portanto, ela define o que é o bem e o que é o mal, o que é certo e o que é errado, e assim por diante. Diferentemente, o ateísmo encontra-se alheio a todo esse rebuliço de valores que os humanos cultivam. Se um ateu faz algo bom ou mau, isso não se deve ao ateísmo, pois o ateísmo não diz coisa alguma a respeito do que devemos ou não fazer. O ateísmo não diz o que é o bem nem o que é o mal, muito menos o que é certo ou errado. Ele não arrasta consigo nenhuma espécie de valor, e é por isso que não se pode atribuir- lhe qualquer tipo de culpa ou responsabilidade. Tudo recai tão-somente sobre os ombros do arbítrio individual, não sendo possível qualquer espécie de generalização da causa de seu ato que venha a abarcar o ateísmo.

Por isso, todo ateu que defende valores morais específicos – mesmo se forem de benevolência e de caridade – sem deixar claro que isso não tem qualquer relação com sua descrença, estará, sem perceber, prestando um grande desserviço aos ateus. Talvez a intenção seja boa, isto é, pense que com isso está revertendo o estereótipo negativo que tipicamente se tem dos ateus – de que são todos pervertidos, frustrados, imorais, insensíveis, criminosos. O problema, naturalmente, reside no fato de que esse contra- ataque pressupõe a falsa ideia de que o ateísmo deve se defender de acusações morais, e isso só termina por gerar mais confusão ainda. A personalidade dos ateus não tem qualquer relação direta com o ateísmo. Todos esses estereótipos sociais sobre como os ateus são não passam de preconceito, fantasia, pois, como vimos, o ateísmo não é capaz de justificar nada disso.

O fato de algum ateu ser altruísta ou egoísta, bondoso ou maldoso, compassivo ou cruel é apenas reflexo de seu temperamento e dos valores adotados pelo indivíduo em particular. Não delinear essa distinção entre o ateísmo e a moral faz com que as pessoas

pouco aprofundadas no assunto se acostumem a encarar os padrões comportamentais dos indivíduos descrentes como uma consequência de seu ateísmo; ou seja, do mesmo modo que os ateus caridosos darão uma boa imagem ao ateísmo, os ateus criminosos irão macular e infamar sua imagem. Além de isso dar luz a diversos e indesejáveis estereótipos, estes ainda ocultam a verdadeira face do ateísmo, a neutralidade.

Portanto, ateus não compartilham necessariamente qualquer similaridade, exceto

a descrença, é claro. Ateus podem ser bons ou maus, santos ou pervertidos, altruístas ou

egoístas, individualistas ou coletivistas; podem ser democratas, socialistas, anarquistas ou monarquistas; podem ser filósofos, médicos, psicólogos, professores, eletricistas, lixeiros, escritores, comerciantes, alpinistas, atores ou qualquer outra coisa. O ateísmo, em si mesmo, é estritamente neutro, e, portanto, vazio de quaisquer implicações morais ou filosóficas. Ateísmo é apenas o nome que se dá ao estado de ausência de teísmo, ou seja, tão-somente a ausência de crença na existência de quaisquer deuses. Se pode ser dito que os ateus têm algo em comum, esse algo é exatamente o não-ter-nada-em- comum, pelo menos não necessariamente, como uma regra geral.

Todos os animais são ateus, e todas as pessoas, um dia, já foram ateias; sem exceção. Todos os bebês nascem sem discernimento suficiente para compreender a noção de deus. Como vimos acima, esse estado é enquadrado como uma categoria de ateísmo.

É claro que não se trata de uma descrença deliberada, mas demonstra quão absurdo é

tentar derivar qualquer espécie de consequência do fato de alguém ser ateu. Certamente os religiosos fervorosos objetarão essa ideia, dizendo que é injusto taxar qualquer pessoa incapaz de formar seu juízo a respeito do assunto como uma ateísta. Contudo, vejamos:

injusto por quê? Há algo de errado em ser ateu? É sinal de perversão, de insanidade? É claro que não (talvez sim, mas apenas para alguns teístas intolerantes, que só gostam da lógica quando esta está em seu favor). Nesta situação, a palavra está descrevendo perfeitamente a perspectiva do indivíduo em relação à ideia da existência de divindades. Por exemplo, certamente ninguém levantaria objeções à pretensão de classificar um bebê

como um indivíduo apolítico por ser incapaz de conceber o que é política e de posicionar- se em relação a ela; tampouco à ideia de que todos eles são analfabetos. Como se pode dizer, afirmou Richard Dawkins, que uma criança de quatro anos seja muçulmana, cristã, hindu ou judia? É possível falar de um economista de quatro anos de idade? O que você diria sobre um neoisolacionista de quatro anos ou um liberal republicano de quatro anos?

A questão está na incoerência de imputar posições positivas a quem não pode responder

por elas, sequer pode concebê-las. Em nossa sociedade, entretanto, a palavra ateu encontra-se tão carregada de preconceitos, tão estigmatizada, que chamar um indivíduo de ateu, longe de ser uma mera classificação neutra, na verdade aparenta ser uma

espécie de insulto.

Objetivamente, percebemos que essa animosidade para com a definição apresentada de ateísmo natural, na realidade, não tem nada de razoável, impessoal ou desinteressado. O problema certamente não está na definição, mas nos preconceitos que são nutridos em relação à posição ateísta. O grau em que um indivíduo religioso se sente incomodado com a ideia de se chamar uma criança desinformada de ateia pode ser usado para medir o grau de preconceito e de intolerância que possui em relação ao ateísmo. Digam o que disserem, o ateísmo não é uma perversão, nem uma teimosia, nem uma

insensibilidade, nem qualquer outra coisa senão a ausência de crença na existência de deus; o resto fica por conta dos preconceitos.

Entretanto, quando analisamos a perspectiva religiosa, torna-se compreensível que tais preconceitos existam. O fato de alguém rejeitar a verdade óbvia de que existe um criador, e declarar-se abertamente ateu, só pode significar que se trata de uma pessoa insensível, cínica, ressentida, frustrada com a vida e revoltada com Deus. Mas, logicamente, tal raciocínio é de todo unilateral. O problema não está nos ateus, mas no fato de que homens convictos são prisioneiros de seus pontos de vista. Quem jura lealdade absoluta a uma doutrina ou ponto de vista específico inevitavelmente fecha os olhos para todo o resto e, deste modo, a imparcialidade torna-se algo impossível. Homens comprometidos com um ponto de vista perdem sua liberdade de pensamento, tornam-se incapazes de enxergar a realidade senão através de uma ótica parcial e pessoal, e assim tudo passa a dividir-se em dois grupos: os que, como eles, sabem da verdade, e os outros, que estão todos errados e perdidos. Sem dúvida, uma atitude lamentável, pois qualquer pessoa razoavelmente esclarecida sabe que o uso da convicção – ou da fé – como único critério da verdade fatalmente conduz a uma completa falta de imparcialidade que cega e tolhe a visão de mundo.

No que concerne à origem de tais preconceitos, é impossível saber exatamente o que acontece na mente religiosa, mas podemos lançar mão de uma analogia que parece ser bastante razoável para explicá-la. Digamos que, na perspectiva religiosa, um indivíduo declarar-se ateu talvez seja algo tão chocante quanto um filho querido e bem cuidado que afirma não amar seus pais. Algo como dizer: Que importa se eles me amam? Que importa se eles me geraram, me alimentaram e me educaram? Fizeram-no porque quiseram; não obriguei ninguém a isso e, portanto, não devo gratidão alguma. Para a maioria das pessoas, certamente tal afirmação é chocante; vem à nossa mente a imediata impressão de que tal pessoa é insensível e cínica, sendo difícil imaginar que ela é feliz e mentalmente sadia. Mas, sem dúvida, temos de admitir que as palavras dessa pessoa fazem sentido, e são estritamente racionais. O fato é que nós todos temos preconceitos, e acharmos que todos devem amar cegamente seus pais apenas porque foram bondosos e cuidaram bem de nós é só mais um deles. Provavelmente, isso está enraizado em instintos; mesmo assim, em nível objetivo, continua sendo um preconceito. Esse é um bom exemplo para demonstrar que as crenças arraigadas por motivos emocionais parecem possuir uma curiosa imunidade à crítica racional. Portanto, supondo- se que as crenças religiosas fundamentam-se em fatores emocionais, isso explicaria por que afirmar que “não amamos nosso criador” pode soar algo muito forte aos religiosos, desembocando fatalmente em preconceitos de todo tipo.

Percebendo que não podem estereotipar os ateus moralmente ou filosoficamente, os críticos do ateísmo partem para outra tática. Deslocam-se para o campo da prática e afirmam que a descrença é negativismo puro; que destrói, mas não reconstrói; que deixa um vazio na vida das pessoas; que é inútil. Mas essa argumentação é claramente tendenciosa, pois tenta depreciar a posição ateísta contrapondo-a de modo distorcido ao teísmo. Se o ateísmo não é um conjunto de valores, se não é uma explicação e nem um guia para a vida das pessoas, por que ele haveria de ser útil nesses aspectos? Não há o menor sentido em fazer tal comparação. O ateísmo não é uma alternativa para o teísmo e nunca pretendeu ser. Todavia, naturalmente, sem dogmas a serem seguidos,

inevitavelmente recai sobre nossos próprios ombros a tarefa de escolher e julgar os valores, isto é, de nos posicionarmos individualmente frente ao mundo em que vivemos. Mas essa tarefa deve ser entendida em termos de liberdade de escolha, não de vazio existencial; tal liberdade pode gerar angústia, é claro, mas isso não vem ao caso neste ponto da argumentação. O ateísmo, ao contrário do que alguns fazem parecer, não é a maldição da vida sem sentido, mas a maldição de precisar escolher um sentido. Enfim, é difícil imaginar o que poderia haver de ruim e negativo no fato de que cada um é livre para criar suas próprias regras e perseguir seus próprios objetivos, em vez de ser obrigado a seguir as regras e os objetivos de outrem.

Outro equívoco comumente cometido por aqueles que se opõem ao ateísmo consiste em tratar tal posição como análoga ao teísmo, como uma “religião da descrença”; ou seja, julgam que os ateus, assim como os teístas, na realidade professam alguma espécie de crença dogmática na inexistência de deus(es). Partindo dessa premissa, concluem que o ateísmo não tem mais validade que qualquer crença religiosa, pois, assim como os teístas acreditam em Deus e são incapazes de provar sua existência, os ateus seriam descrentes igualmente incapazes de provar sua inexistência.

Pelo que vimos acima, tal objeção transborda uma tremenda incompreensão do que é ateísmo. Primeiramente, porque o ateísmo não é uma crença dogmática na inexistência de deus, mas somente a ausência de crença nesse tipo de entidade sobrenatural. Em segundo lugar, porque há uma regra lógica muito simples – e convenientemente ignorada pelos teístas – que diz o seguinte: não é razoável acreditar em algo sem ter motivos para fazê-lo. Qualquer indivíduo sensato há de convir que a atitude de não acreditar em algo – por não haver evidências convincentes em seu favor – não é uma crença, e tampouco precisa se sustentar em provas.

Além disso, provar negações universais, por motivos lógicos, é algo extremamente difícil, e alegremente certos teístas usam isso para afirmar que ninguém é capaz de provar a inexistência de Deus. À primeira vista, isso parece razoável, e seria suficiente para empatar os placares. Mas, com um pouco de pensamento crítico, logo se percebe a incoerência: não podemos provar a inexistência de praticamente qualquer coisa. Para deixar a ideia clara, só precisamos de algum tempo livre para dar asas à nossa imaginação. Por exemplo, formulemos algumas hipóteses bizarras:

1) Nosso universo, na verdade, é um aquário espacial feito por alienígenas que estão brincando de cultivar seres humanos.

2) Existem cogumelos imateriais que vivem numa dimensão paralela, os quais estão nos vigiando constantemente, apesar de não podermos detectá-los.

3) A verdadeira divindade, que criou o mundo e os homens, é Zeus, com a ajuda de Apolo e Dionísio. Eles e inumeráveis outros deuses estão todos no Olimpo nos observando.

4) O planeta em que vivemos é um elétron; o Sol é um conjunto de prótons e nêutrons; nosso sistema planetário como um todo é um átomo de flúor gigantesco. Os físicos modernos discordam de tal afirmação, mas isso acontece porque o homem ainda não possui tecnologia suficiente para observar e analisar a realidade de modo preciso.

5) O universo só parece mecânico e impessoal; na verdade, o mundo em que vivemos é autoconsciente.

6) Há uma civilização pacífica que habita o núcleo do Sol; ela se protege do calor através de um sistema hipertecnológico que nos é inconcebível; nela vivem milhões de unicórnios, centauros e minotauros em um grau de desenvolvimento muito superior ao nosso.

7) Há um grande dragão alado vermelho cuspidor de fogo em meu quarto; contudo, toda vez que alguém tenta observar ou confirmar sua existência, este desaparece imediatamente de modo misterioso.

Então perguntemos: como alguém seria capaz de refutar tais hipóteses? Não temos qualquer motivo para julgá-las verdadeiras, mas, mesmo assim, não temos como provar que são definitivamente falsas. É esse o problema das negações universais.

Por exemplo, no caso da sexta hipótese, o único modo de provar que tais seres não existem seria ir até o núcleo do Sol e olhar se estão lá ou não, mas isso não é realmente uma boa ideia, pois frequentar locais que estão a milhões de graus Celsius é relativamente perigoso. Isso significa que não podemos provar a inexistência dessa tal civilização helionuclear. Entretanto, faz algum sentido declarar que essa impossibilidade serve como uma evidência de sua existência? Definitivamente, não. Ademais, o fato de alguém acreditar piamente em tal hipótese é irrelevante à sua veracidade.

O mesmo se aplica à ideia de deus: trata-se somente de uma hipótese sem comprovação; uma especulação, realmente. Só precisamos trocar a afirmação “há seres vivos no centro do Sol” por “Deus criou o mundo” ou “Deus existe”. Não existem razões para julgarmos que a hipótese divina deveria fugir à regra. Pelo mesmo motivo que as pessoas não acham sensato acreditar que estamos sendo vigiados por cogumelos imateriais, os ateus acham sensato não acreditar na hipótese da existência de um deus criador.

Devemos notar, entretanto, que isso não implica de modo algum a impossibilidade da existência de cogumelos imateriais ou de deuses. De fato, nenhuma das hipóteses apresentadas acima é impossível. Simplesmente não acreditamos nelas porque não temos motivos para julgar que são verdadeiras. Como vemos, não há qualquer traço de extremismo em tal raciocínio, como poderia parecer à primeira vista.

Esse contra-argumento dos teístas – “prove-me que Deus não existe” –, que costuma ser aceito prontamente como válido pelos desavisados, é uma falácia argumentativa que recebe o nome de inversão do ônus da prova, na qual aquele que afirma a veracidade de uma proposição coloca sobre os incrédulos o dever de provar sua falsidade e, se estes forem incapazes de fazê-lo, imediatamente ficaria comprovada a veracidade da proposição. O engano, nota-se, é óbvio: como poderíamos fazer isso – provar a inexistência de tal deus – se, na realidade, nem mesmo existem provas de sua existência para refutarmos?

Na realidade, o dever de provar a veracidade recai sobre os ombros daquele que afirma algo. Se algum indivíduo diz “Deus existe”, fica sobre ele a responsabilidade de

provar a veracidade de sua proposição, ou seja, provar a existência de Deus. Se falhar

em prová-la, então não teremos motivos para aceitá-la e, assim, a descrença torna-se

plenamente justificada.

Vemos, portanto, que ateus não têm o dever de provar coisa alguma, pois, no ato

de descrer, não estão afirmando nada. Em geral, o que dizem é simplesmente o seguinte:

Não acredito em deus porque não tenho motivos para fazê-lo; caso tivesse algum motivo,

acreditaria; mas não encontrei nenhum. Ante a ausência de evidências, ser ateu não

passa de uma simples questão de honestidade intelectual. Bertrand Russell resumiu muito

bem o conceito fundamental nesta passagem:

Muitos indivíduos ortodoxos dão a entender que

é papel dos céticos refutar os dogmas apresentados –

em vez de os dogmáticos terem de prová-los. Essa ideia, obviamente, é um erro. De minha parte, poderia sugerir que entre a Terra e Marte há um pote de chá

chinês girando em torno do Sol em uma órbita elíptica,

e ninguém seria capaz de refutar minha asserção, tendo

em vista que teria o cuidado de acrescentar que o pote de chá é pequeno demais para ser observado mesmo pelos nossos telescópios mais poderosos. Mas se afirmasse que, devido à minha asserção não poder ser refutada, seria uma presunção intolerável da razão humana duvidar dela, com razão pensariam que estou falando uma tolice. Entretanto, se a existência de tal pote de chá fosse afirmada em livros antigos, ensinada como a verdade sagrada todo domingo e instilada nas mentes das crianças na escola, a hesitação de crer em sua existência seria sinal de excentricidade.

Mas isso não é suficiente para fechar a questão. Há uma frase – a qual, aliás, é

bastante famosa entre os ateus – que serve como um aviso para que mantenhamos

nossa mente sempre aberta: ausência de evidência não é evidência de ausência. A

simples falta de evidências não é suficiente para justificar a crença na inexistência, e a

maioria dos ateus realmente não acredita de modo definitivo na inexistência divina.

Entretanto, não podemos ignorar o fato de que há certos ateus que acreditam na

inexistência de deus(es). Como vimos, são os que pertencem à categoria do ateísmo

crítico. Para justificar tal posicionamento, a ausência de evidência não é suficiente. Neste

caso, torna-se necessário demonstrar a impossibilidade da existência divina. Deste modo,

poderíamos dizer que esta posição é dogmática, pois é impossível provar definitivamente

a inexistência de qualquer deus. Mas o pequeno detalhe que faz toda a diferença reside

no fato de que não tentam provar a impossibilidade da existência de qualquer divindade,

mas de uma divindade específica de tal ou tal religião.

O ateu crítico usa a própria crença do indivíduo teísta para fundamentar sua

argumentação. Se alguém diz: “eu acredito em Deus”, o ateu crítico pergunta coisas

como: “que é deus?”, “qual é a natureza desse deus?”, “quais são seus atributos?”. Por

exemplo, estudando as definições do Deus bíblico, o ateu crítico poderia procurar

contradições nos atributos dessa divindade e, usando a regra lógica da não-contradição –

tudo aquilo que se contradiz é necessariamente falso –, usa essa informação para argumentar contra a existência de tal ser. Assim, do mesmo modo que a regra da não- contradição justifica a crença na inexistência de entes cujos atributos se excluem mutuamente – como cubos esféricos ou círculos hexagonais –, também justifica a crença na inexistência de um deus cujos atributos são contraditórios. Nesta situação, a crença encontra-se justificada de modo racional e lógico, não sendo possível, portanto, acusá-la de dogmatismo.

Em discussões do tipo Ateísmo versus Teísmo, percebe-se facilmente que a maioria das pessoas não entende o que é ateísmo. É por isso que grande parte dos argumentos usados contra ele é notável por sua absoluta irrelevância. Por exemplo, quando algum ateu assume abertamente sua posição, logo é coberto de argumentos verborrágicos e disparates de todo tipo. Alguns exemplos: “você quer ir para o inferno?”; “você é mais um daqueles que acredita que isso tudo surgiu do nada?”; “então explique a origem da vida e do Universo”; “é uma pena que você seja tão infeliz”.

Sem levar em consideração o primeiro exemplo e o último, pois sequer merecem uma resposta séria, devemos ter em mente que o fato de alguém ser ateu não diz nada, absolutamente nada sobre o que ele pensa a respeito de tais assuntos. Isso porque o ateísmo possui caráter negativo, e as negações são extremamente parcimoniosas no fornecimento de dados. Por exemplo, se alguém dissesse “eu não me chamo José”, que poderíamos inferir a partir disso além do fato de que seu nome é outro, que não José? Seria absurdo pensar que tal informação fornece qualquer pista significante sobre seu verdadeiro nome. É simplesmente incabível tentar deduzir a partir do fato de alguém ser ateu quais são seus pontos de vista filosóficos, morais ou científicos sobre quaisquer assuntos.

É claro que os religiosos costumam fazer esses tipos de pergunta porque a maioria dos ateus adota o posicionamento científico, que se baseia na experimentação e no racionalismo, mas não necessariamente. O indivíduo ateu pode possuir suas próprias teorias ou então, sem problema algum, pode se abster de responder essas questões, alegando que, na ausência de dados corroborativos para construir qualquer teoria razoavelmente verossímil, qualquer afirmação não passaria de um mero disparate.

Nesse último caso, a resposta típica às perguntas dessa natureza é simplesmente esta: não sei.

Como surgiu o Universo? Não sei.

Por que existimos? Não sei.

Deus existe? Não sei. Afirmo apenas que nasci neste mundo e que sou ignorante quanto a todos esses fatos. Nossa existência parece um grande mistério insondável. Portanto, de nada adianta dizer “foi Deus” se, na realidade, não tenho motivos para acreditar nisso. Prefiro admitir meu desconhecimento a abraçar uma hipótese infundada para tentar mascarar minha ignorância ante este grande ponto de interrogação que é o mundo em que vivo.

A integridade intelectual impede que pontos de interrogação sejam utilizados como argumentos em favor de hipóteses confortantes como a da existência de um deus. O fato de não sabermos de onde viemos, como surgiu a vida ou qualquer outra coisa, não significa em absoluto que “foi Deus”. Não sabermos de onde tudo isso surgiu significa apenas que não sabemos de onde tudo isso surgiu – e tão-somente; nem mesmo significa que surgiu. A ignorância não é um argumento, e a tentativa de usá-la como um argumento somente revela uma grande e lamentável parcialidade, que muito provavelmente deriva-se da necessidade de crer.

Esse deus que só habita os recônditos de nossa ignorância é tipicamente alcunhado “Deus das lacunas”, pois só sobrevive por entre as sombras do desconhecido. É devido a esse subterfúgio explicativo que, outrora, devido à ignorância, os fenômenos naturais – como trovões e relâmpagos – eram interpretados como manifestações de um deus descontente com os humanos. É claro que, naquela época, essa parecia uma explicação tão plausível e respeitável para os fenômenos naturais quanto, atualmente, dizer que o Universo foi criado por um deus, pois ambas as coisas eram igualmente desconhecidas. Mas, nos dias de hoje, a ciência já lançou luz – a maior inimiga do Deus das lacunas – sobre os processos responsáveis pelos trovões e pelos relâmpagos, tornando ridícula a afirmação de que se devem à manifestação de um deus enfurecido com os humanos.

Hipócrates, nascido por volta de 460 a.C., considerado um dos pais da medicina, em sua época já compreendia a tendência humana de mistificar aquilo que lhe é desconhecido; ele disse o seguinte: os homens pensam que a epilepsia é divina meramente porque não a compreendem. Se eles denominassem divina qualquer coisa que não compreendem, não haveria fim para as coisas divinas.

Sejamos honestos quanto a nós mesmos: somos seres complexos, capazes de empreendimentos notáveis, mas também limitados, e não temos todas as respostas ao nosso alcance, pelo menos não atualmente. Portanto, quem não quiser se enganar através de fábulas explicativas e consoladoras, precisa aprender a conviver com tais limitações, pois a atitude de responder uma pergunta se valendo de um mistério, na realidade, não explica coisa alguma. Isso, naturalmente, não significa fechar-se totalmente para outros pontos de vista. Em nosso conhecimento, há – e deve haver – lugar para a dúvida, para a incerteza, pois deste modo nosso conhecimento não ficará cristalizado na forma de crenças impermeáveis às novas evidências que vierem a ser descobertas e às novas teorias que vierem a ser formuladas. Se não aceitarmos que nossa visão de mundo é provisória, que sempre estará sujeita a revisões, ela se tornará obsoleta rapidamente. Então devemos conceder à hipótese da existência de um deus alguma plausibilidade? Certamente: a mesma que concederíamos a uma especulação bastante improvável que, há milênios, está à espera de evidências que a comprovem.

Vale a pena fazermos, aqui, um breve comentário sobre a posição denominada agnosticismo. Equivocadamente, costuma-se pensar que esta jaz no limiar da dúvida entre o teísmo e o ateísmo; na verdade, o agnosticismo é independente da questão da crença/descrença em um deus. Tal visão diz respeito somente à impossibilidade de a mente humana conceber, compreender ou julgar alguns tipos de questões, afirmando que

tais assuntos estão além do escopo da racionalidade humana, sendo, portanto, impossível formular sobre eles qualquer juízo seguro.

É errado pensar no agnóstico como um indivíduo meio termo entre as duas perspectivas, ou seja, que não afirma nem nega a existência de uma entidade superior, supostamente representando uma posição de questionamento sensato em vez de um

extremismo ateísta. O agnosticismo certamente não é uma terceira opção entre o teísmo e o ateísmo, e é fácil evidenciar o porquê. O agnosticismo envolve a crença em deus? Não. Envolve a descrença em deus? Não. Então que relação necessária tem com esta questão? Nenhuma. Como explicou George H. Smith, O termo “agnóstico”, em si mesmo,

não indica se alguém acredita ou não num deus (

independente ou um meio termo entre teísmo e ateísmo, pois classifica de acordo com um critério diferente.

)

agnosticismo não é uma posição

A rigor, a palavra agnóstico significa apenas sem conhecimento, isto é, trata-se de um termo genérico que diz respeito somente à afirmação da impossibilidade de se obter conhecimento acerca de alguma coisa ou assunto qualquer. Então seria mais correto dizer algo como: este indivíduo – ateu ou teísta – é agnóstico em relação à questão da existência de deus ou de alguma “questão x” qualquer.

Portanto, como podemos perceber, não existe um meio termo entre acreditar e não acreditar, ou seja, entre teísmo e ateísmo. Afirmar “acho impossível saber com certeza” não é uma solução, mas uma evasiva. O que comporta um meio termo, na verdade, é a lacuna que fica entre a negação e a afirmação de deus, e tal lacuna corresponde ao ateísmo cético.

Como se pode notar, essa noção de agnosticismo é uma posição errônea comumente adotada por aqueles que não são teístas, mas que na verdade não consideram a existência de deus uma hipótese absurdamente improvável, como alguns ateístas mais fervorosos. Mas, sem dúvida, os agnósticos desse tipo são, tecnicamente, ateus. Provavelmente muitos se denominam como tal porque têm receio do estigma social vinculado ao ateísmo, que é muito forte; então transferem o significado de suas posições a outros termos que soam mais brandos, como agnóstico – como convém, pois em cima do muro não caem tantas pedras.

Voltando ao assunto principal, é sempre comum vermos, devido a todos os mitos que existem sobre o ateísmo, indivíduos imaginando e se perguntando como os ateus são. Talvez pensem que são criaturas exóticas raríssimas que vivem num submundo oculto, se vestem de preto e advogam pela destruição de todas as religiões, mas isso não passa de fantasia. Em sua maioria, ateus são pessoas realmente comuns, que apenas baseiam na lógica e nas evidências suas opiniões sobre a realidade. O fato é que, provavelmente, todas as pessoas já se depararam com ateus casualmente, mas sem se aperceberem disso, daí acharem que são tão raros. Na realidade, se não perguntarmos diretamente aos indivíduos, é quase impossível descobrir se são ateus. São poucos aqueles que gritam aos quatro ventos que não acreditam em nenhum deus.

Sem dúvida, também há os ateus exacerbados, tipicamente denominados ateus militantes, alguns dos quais mantêm uma postura hostil para com a religião. Alguns

julgam que ela é uma grande travanca ao progresso da humanidade, principalmente

aqueles que têm algum conhecimento de História. Mas isso, como vimos, não pode ser

encarado como uma consequência direta do ateísmo, pois não existe uma Santa Escritura

ateísta que dita “tu vilipendiarás a religião e escarnecerás a crença do teu próximo”. Se

algum ateu procede de tal maneira, trata-se apenas de um posicionamento individual, e

querer imputar a causa de seu comportamento agressivo ao ateísmo é uma atitude

errada e desonesta.

Muitos também pensam que os ateus são irredutíveis em sua descrença, que são

descrentes crônicos, incapazes de mudar seu ponto de vista. Se podemos dizer que os

ateus são irredutíveis, o são apenas na atitude de não acreditar em hipóteses sem

comprovação. Certamente, se algum teísta surgisse com uma prova realmente válida

para a existência de deus, até os ateus mais ferrenhos teriam de dar o braço a torcer;

não há motivos para se pensar o contrário. Afinal, por que algum indivíduo se oporia à

existência de um criador? Quem não gostaria de ser a coroa da criação? Quem escolheria

ser um efêmero mamífero, um grão de pó pensante, se pudesse ser o imortal supra-sumo

do Universo? Para citar Peter Atkins:

Seria de fato fascinante se o Universo tivesse um propósito; seria provavelmente prazeroso haver vida após a morte. Porém, não há um só pedacinho de evidência em favor de nenhuma das duas especulações. Como é fácil de compreender por que as pessoas anseiam por um propósito cósmico e vida eterna, e não existe evidência para ambos, me parece uma conclusão inescapável que nenhum dos dois existe.

Realmente seria ótimo se todos nós fôssemos tão especiais quanto gostaríamos

de ser, mas o fato é que não temos motivos para acreditar que somos. Novamente, é a

integridade intelectual que nos impede de acreditar em algo infundado somente porque é

confortante.

Pelo exposto acima, percebemos que o ateísmo, ao contrário da imagem que se

pinta dele, não é representado por uma seita de iconoclastas fanáticos, imorais e

desequilibrados querendo destruir a religião a todo custo. Sem dúvida, o ateísmo

apresenta-se como uma posição totalmente razoável, lúcida e sensata quando encarada

na perspectiva objetiva; isto é, sem se levar em conta fatores subjetivos, como o modo

que “gostaríamos que a realidade fosse”, “no que precisamos acreditar para viver” etc.

Como foi salientado no início deste trabalho, o que os indivíduos livres-pensadores

buscam não são certezas absolutas: buscam aquilo que é mais provável de ser

verdadeiro.

O objetivo deste capítulo foi desfazer alguns dos principais mitos, preconceitos e

calúnias que gravitam ao redor do ateísmo, para que assim sejamos capazes de enxergar

a posição de modo cristalino. Naturalmente, fica claro quanto esforço é feito da parte dos

teístas no sentido de deturpar o verdadeiro significado dessa descrença. Em vez de

enfrentar as verdadeiras questões, criam espantalhos do que seria o ateísmo e,

destruindo-os, ufanam-se de tê-lo refutado, quando na realidade tal refutação não passa

de um mal-entendido.

Contudo, não pensemos que são todos tão ingênuos e inocentes: caluniam porque não podem enfrentar; evadem porque não podem responder. O fato é que o teísmo sempre terminou como perdedor em todas as vezes em que tentou enfrentar os fatos e a racionalidade, e simplesmente desmoronaria se tentasse, honestamente, se confrontar cara a cara com todas as questões que o ateísmo apresenta.

Deste modo, se há uma questão que realmente incorpora todo o peso do verdadeiro desafio que o ateísmo lança contra as religiões, é esta: que motivos temos para acreditar na existência de um deus?

Saindo do Armário: a Assunção do Ateísmo

“Sair do armário” é um termo associado a gays e lésbicas que anunciam sua homossexualidade ao mundo. Poucos se arrependem, pois nisso encontram um modo aberto e satisfatório de viver.

Mas há outro “armário” escondendo uma minoria discrepante: os ateus. Muitos deles mantêm, como os gays de décadas passadas, suas opiniões escondidas por serem avessos a confrontos ou por medo de reações hostis.

Não podemos continuar assim. O Direito Cristão, com sua infindável missão, moveu esforços sem paralelos a fim de cristianizar o país. Usando a legislação, emendas constitucionais e publicidade, o direito religioso engajou-se numa guerra de palavras e difamação contra seus maiores inimigos: a lógica e a obviedade do ateísmo. A Bíblia chega a proibir o contato com ateus (Cf. II Coríntios 6), o que evita o surgimento de debates e previne a incursão da lógica não-religiosa no “rebanho”. Comportamentos similares são vistos em cultos religiosos, onde os novos membros são proibidos de contato até mesmo com sua família caso ela não seja pertencente ao grupo.

Como resultado desse esforço difamador, os ateus são aviltados e vistos como indivíduos anárquicos e anti-religião, que desejam aniquilar o direito que as pessoas têm de professar suas crenças. Apenas uma pequena parte dos ateus são abertos sobre seu ateísmo e, como resultado, aparentamos constituir uma parcela muito menor do que realmente somos. Em outras palavras: os legisladores estão dando menos importância a nós do que deveriam, o Direito Cristão está vencendo.

O objetivo deste artigo é ajudar a reverter o processo criado por aqueles que se opõem ao livre-pensamento, ajudando os descrentes a serem mais abertos sobre seu

ateísmo. Para alguns indivíduos, mostrar-se ateu abertamente pode ser extremamente difícil. A fim de facilitar o processo, guiarei os leitores através de passos básicos para a “saída do armário”, primeiramente apresentando uma definição de ateísmo e as vantagens do livre-pensamento.

O que é ateísmo?

A definição de “ateísta” é “indivíduo sem teísmo”. Ateístas (ou ateus) vêem Deus da mesma forma que uma lenda ou um conto de fadas, assim como Zeus ou papai Noel. Quem ativamente descrê da existência de papai Noel e Zeus, e não consegue achar quaisquer motivos para dar a mais credibilidade à hipótese de Deus, é considerado um ateu segundo a maioria das definições.

Quem se denomina “ateu”, “agnóstico”, “livre-pensador” ou algo relacionado encontrará neste artigo um apoio para sentir-se mais seguro em expor seus pontos de vista abertamente.

Como os ateus são?

Como são? É difícil dizer. Para mim, um dos melhores componentes do ateísmo é a liberdade de pensamento. Preconceitos contra pessoas de outros sexos, raças ou preferências sexuais são raros, pois se baseiam em dogmas religiosos completamente ilógicos. Nós discutimos, nos engajamos em debates e, quando alguém prova que estamos errados, achamos isso bom, exatamente porque primamos pela verdade. Se fazemos algum bem, é porque achamos isso certo, e não porque temos um medo egoísta do inferno ou porque queremos “ganhar pontos” com uma divindade.

Fora isso, somos um grupo muito diversificado de pessoas. Somos escritores, poetas, filósofos, cientistas, professores, empresários, neurocirurgiões, caminhoneiros, arquitetos, pedreiros. Somos homens e mulheres, brancos e negros, republicanos e democratas, heterossexuais e homossexuais, tímidos e extrovertidos. Já que nosso único ponto em comum é a descrença, existem ateus que diferem em pontos de vista políticos, econômicos e sociais. Mas isso é algo positivo e deveria servir de modelo para que o resto do mundo aprenda. O vínculo entre os ateus é a diversidade.

Nós somos morais e éticos. Estamos cansados de ser detratados e aviltados devido à nossa descrença.

Isso lhe soa familiar?

Por que sair do “armário”?

Apesar de haver razões válidas para permanecermos dentro do “armário”, os motivos opostos são muito mais fortes.

Você está se escondendo agora mesmo. Uma parte em você é mantida escondida e mascarada por medo de rejeição. Como resultado, pessoas que lhe amam são ignorantes em relação a um aspecto de sua personalidade. Será que eles mudariam de opinião sobre você se soubessem? Talvez, mas não é melhor ter certeza? Será que eles realmente o rejeitariam se soubessem? Na maioria dos casos, não. A grande maioria dos ateus que conheço possui um relacionamento cordial com os indivíduos religiosos de sua família. Na verdade, a religião raramente é tão importante quanto o amor de um membro familiar.

Qual é a sensação de viver sempre escondido e oprimido sem motivo? Você acha que o ateísmo é algo vergonhoso?

Não há nada vergonhoso em ser ateu e, na verdade, isso deveria ser visto como uma conquista. A maioria das pessoas aceita a religião vigente da região onde nasceu sem nunca questionar. Indivíduos que mudam de religião quase nunca questionam a crença em Deus em si mesma. Aqueles que são céticos nesse sentido deveriam ser orgulhosos por terem chegado independentemente a uma conclusão deliberada e consciente.

Pelo simples fato de alguém ser ateu, quebra-se o círculo vicioso “faça isso porque Deus mandou”. Ateus pensam por si mesmos, são autoconfiantes e responsáveis por suas próprias ações e decisões. Mostrar-se como tal é o próximo grande passo.

Os graus de assunção

Há cinco graus de assunção e abertura em relação ao ateísmo. Sempre existem os “meios-termos”, mas estes sãos os graus assim como eu os vejo:

Primeiro Grau – Completamente fechado. Nem mesmo sua esposa sabe. Você diz a todos que é religioso e pode até freqüentar igrejas para convencer as pessoas ao seu redor. Sua vida é literalmente uma mentira. A possibilidade de alguém descobrir a verdade lhe apavora. Para quem está nessa categoria o primeiro passo deve ser algo simples, como contar à esposa. Ela o ama e tem o direito de saber.

Segundo Grau – Fechado em grande parte. Sua esposa sabe, mas a maioria de sua família e amigos não. Você evita o assunto a todos os custos, mas se ele surgir o ateísmo acaba escondido.

Terceiro Grau – Um pouco aberto. Alguns membros da sua família e amigos sabem, mas você ainda é hesitante em tocar no assunto. No trabalho seu ateísmo ainda é um segredo. Você possui amigos ateus e talvez pertença a uma organização como a Sociedade Terra Redonda para ajudar no suporte moral. É possível que até escreva sobre o assunto, mas não em jornais, pois não deseja que seu ateísmo seja largamente conhecido. Pode evitar o assunto às vezes, mas, se pressionado para tomar uma posição, não se dirá um religioso, em vez disso procurará termos amenos para designar sua posição, como “agnóstico”, “livre-pensador”, mesmo que na verdade seja um ateu.

Quarto Grau – Bastante aberto. Quase todos sabem de sua descrença. A maioria das pessoas no trabalho, todos seus amigos e sua família inteira sabem. Você não chega a gritar “sou ateu” aos quatro ventos, mas não faz qualquer esforço para esconder sua posição, e ocasionalmente pode vir a começar uma discussão sobre o assunto.

Quinto Grau – Completamente aberto. Toda vez que o assunto aparece, você mostra sua descrença com orgulho e franqueza. Qualquer indivíduo que o hostilizar por causa de seu ateísmo é um fanático intolerante que não deve ser levado em consideração. Você escreve cartas aos editores de jornais regionais sobre o assunto e talvez tenha um adesivo ateísta em seu carro.

Saindo: quando e como

Quem está nos dois primeiros graus tem trabalho a fazer. Esconder-se é prejudicial tanto para a saúde quanto a mente, e isso precisa ser corrigido. O objetivo é chegar pelo menos ao terceiro grau (idealmente ao quinto, mas em curto prazo chegar ao terceiro será suficiente), algo relativamente fácil.

Após admitir seu ateísmo para si mesmo, o primeiro passo é admiti-lo a outras pessoas, e o modo mais fácil é entrar em contato com uma organização ateísta, onde há gente que pensa como você. Não há nada de vergonhoso nisso. É ótima a sensação de estar numa sala repleta de gente que pensa de modo idêntico ao seu. Esse é o jeito mais fácil encontrar amigos ateus, nos quais também se encontra a segurança para conseguir confrontar outras pessoas.

Há basicamente três tipos de pessoas que influenciam a vida de um indivíduo:

amigos (incluindo esposa), família (parentesco sanguíneo) e parceiros de trabalho. Pessoalmente, acho que se mostrar ateu nessa ordem (amigos, família, parceiros de trabalho) é geralmente o melhor modo.

Por que é mais fácil contar aos amigos sobre a descrença? Porque cada um escolhe seus amigos. As pessoas normalmente preferem estar com quem é parecido com elas, mas mesmo se seus amigos não forem ateus, continua sendo improvável que sejam tão intolerantes a ponto de lhe rejeitarem por isso. Já que são seus amigos, vão apoiar seu direito de escolha e continuar sendo seus amigos mesmo não concordando com suas opiniões.

Uma exceção à regra seria o caso de um ateu recém-convertido de uma doutrina religiosa. Nesse caso, possivelmente haverá a necessidade de procurar novos amigos com interesses diferentes, pois os amigos antigos, ainda sendo bastante fanáticos, provavelmente reprovarão seu comportamento. Vale lembrar que a Bíblia proíbe expressamente o contato com ateus. Talvez tentando explicar aos seus amigos como esse livro é dogmático e ilógico seja possível manter a amizade viva.

Contar à família é a parte mais difícil. Por um lado, há a necessidade de apoio da família, em contrapartida, há a culpa por esconder um segredo tão significante. Neste caso não existem as mesmas vantagens que com os amigos, pois numa mesma família podem coexistir crenças bastante contrastantes. Ou seja, existe a possibilidade de rejeição por parte de seus próprios familiares.

Talvez eles não gostem do que estão ouvindo, mas precisam saber. Pais religiosos geralmente são os que mais se decepcionam por acharem que “malograram” na criação de um bom filho religioso. Mas, no fundo, eles ainda preferem que você seja honesto sobre algo tão importante.

A exceção dessa regra é quem depende financeiramente dos pais e tem certeza que eles o expulsariam de casa se soubessem de seu ateísmo. Nesse caso não diga nada. Libertar-se da religião e possuir auto-respeito é importante, mas não tão importante quanto possuir um teto sobre a cabeça. Procure conquistar sua independência antes de anunciar seu ateísmo.

Dizer para parceiros de trabalho é fácil. Normalmente eles não se importam e, francamente, isso não os diz respeito. Se confessar seu ateísmo significa perder o emprego, então não valerá a pena. Pode-se chegar até o quarto grau sem que eles saibam disso. Caso haja incerteza, adie a “assunção” até ter mais segurança sobre suas prováveis conseqüências.

Alguns deles podem ser seus amigos, e assim cairão na primeira categoria. Entretanto, lembre-se que quem não é seu amigo pode vir a espalhar as “notícias” a pessoas que você preferiria que não soubessem. É importante salientar que se assumir ateu no trabalho é diferente dos outros casos e deve ser tratado como um problema à parte.

Saindo do “armário” efetivamente

Chegou a hora de dizer às pessoas. Como exatamente se faz isso? Há três regras simples que julgo serem bastante úteis.

1 – Seja confiante. Não diga “estou começando a ter algumas dúvidas em relação à religião”. Isso leva as pessoas à atitude “vamos salvá-lo antes que seja tarde”. Afirme as coisas de modo nítido e deixe claro que chegou a essas conclusões deliberadamente.

Sorria, seja firme e orgulhoso. Pensar por si mesmo é algo positivo e não há nada de vergonhoso em compartilhar suas conclusões com as pessoas que você ama.

2 – Seja compassivo. Sim, seja compassivo com eles. Entenda que essas pessoas

realmente acreditam em Deus e nos ensinamentos dos pregadores. São vítimas – assim como você – das mentiras ditas pelas organizações religiosas, a única diferença é que eles crêem nessas mentiras. Às vezes surge uma atmosfera de raiva, mas isso pode ser solucionado com um pouco de educação, paciência e compreensão.

Diga a seus pais que não malograram na criação de uma pessoa que toma suas próprias decisões em vez de seguir regras cegamente. Diga que está feliz e que essa foi apenas sua escolha; explique que não há motivo para se sentirem magoados e que você está muito agradecido por sua aceitação e amor.

3 – Após dizer “eu sou ateu” espere pelo melhor, mas prepare-se para o pior. O

melhor obviamente seria ouvir “eu sou ateu também” ou “e daí?”, mas não conte com isso. Como dito anteriormente, confessar aos amigos é mais fácil por ser improvável que

o rejeitem. Já perdi amigos em potencial por causa disso, mas nunca uma amizade já

estabelecida. Entretanto, esteja preparado para responder às perguntas padrão, desde “Você quer ir ao inferno?”, “Isso quer dizer que você reza para Satan?”, até “Como você

pôde fazer isso comigo?”, etc.

A melhor defesa a tais questionamentos é responder prontamente. Conhecendo as pessoas, será mais fácil saber quais tipos de pergunta podem ser esperados. Abaixo estão algumas afirmações e refutações que podem ser de alguma valia.

Exemplos:

1 – “Ateus não possuem moral, pois não acreditam em Deus”. Como é triste ver

que as pessoas são boas apenas por medo de um “castigo eterno”. Seres humanos têm a noção de certo e errado incrustada em seus cérebros. Se ateus fazem o bem, não é por medo de represália, mas porque julgam isso correto. Nós possuímos valores familiares, sociais e culturais, e, é claro, defendemos a liberdade de pensamento. Muitos ateus

possuem e defendem tais valores.

A escravidão não era apenas aceitável há 200 anos atrás, mas também considerada positiva por muitos, sendo defendida através da Bíblia, que também foi utilizada para justificar o Holocausto, as Cruzadas e a Santa Inquisição. Isso mostra que a Bíblia pode ser usada para defender os piores ideais imagináveis, e assim não pode ser tida como um guia moral confiável.

Fale sobre as pessoas más que eram religiosas. Lembre que Hitler era Católico e Jeffrey Dahmer pediu graças – a Jesus – antes de canibalizar suas vítimas. Mencione que freqüentemente são publicadas histórias em jornais sobre o comportamento sexual impróprio de padres, muito freqüentemente com crianças. Não se esqueça de Jim Bakker

– que fraudou milhões de indivíduos do seu “rebanho” – e de Jimmy Swaggart – que apenas pediu perdão após ser pego com prostitutas.

Sempre corrobore seus argumentos com fatos: ateus são 8-10% da população mundial, entretanto, constituem apenas 1% da população carcerária. Imagine se 8-10% do mundo realmente acreditasse que não há problema algum em roubar, estuprar e matar? Haveria caos! Isso prova que o comportamento ético não tem qualquer relação necessária com a religião.

2 – “Ateus acreditam na evolução, mas ela não responde a tantas questões

quanto o criacionismo”. O ateísmo não é uma teoria científica, mas apenas a ausência religiosidade. Em geral nós acreditamos na ciência, e provavelmente todas as questões serão respondidas por ela, apesar de admitirmos que hoje não possuímos todas elas. Isso não é motivo, entretanto, para se inventar um deus fictício, especialmente porque fazê-lo cria ainda mais perguntas. A ciência tem caminhado bastante, desenvolvendo teorias como a da evolução, a dos movimentos geológicos e a do Big Bang, todas embasadas em evidências, mas não necessariamente defendidas por todos os ateus.

3 – “Os ateus não podem saber que Deus não existe porque não podem provar

sua inexistência”. Novamente, esse argumento é uma faca de dois gumes, mas os teístas relutam em admitir isso. Os ateus não precisam provar a inexistência de Deus, pois ninguém precisa provar a inexistência de Zeus ou do papai Noel. Os teístas podem provar a existência de seu Deus? É claro que não. Ninguém pode provar que Deus existe, mesmo assim eles continuam afirmando que têm certeza. O fato de eles terem certeza sem qualquer evidência é em si mesmo uma evidência em favor do ateísmo.

4 – “Os ateus lutam para remover a religião da sociedade e forçar todos a se

tornarem como eles”. Absolutamente errado. Nós apenas lutamos pela liberdade de escolha e de pensamento, sem intervenção do governo ou das escolas. Defendemos o direito de não precisarmos apoiar as religiões através de impostos ou de privilégios de qualquer espécie. No restante, cada um pensa como quiser e isso não nos diz respeito. Usem suas jóias, celebrem seus dias sagrados, rezem em suas casas, em suas igrejas ou em público, só pedimos que não forcem outras pessoas a isso.

5 – “Ateus têm a mente tão fechada que não podem ver todos os milagres que

acontecem diariamente”. Algumas pessoas procuram milagres onde não estão. Permitam- me colocar as coisas em perspectiva: alguém se curar de câncer não é milagre algum, mas se uma doença grave desaparece do dia para a noite sem ajuda da ciência médica, aí sim temos algo que merece ser analisado. Comida chegando a uma região onde há muita fome: perseverança humana; o fim instantâneo da fome no mundo: milagre. Mais uma vez: uma criança nascendo saudável – ciência; o fim espontâneo das deficiências hereditárias – milagre. Note que apenas as coisas boas são milagres, vulcões e tornados não contam.

6 – Falar sobre Deus pode desembocar no velho argumento “Sse você está

questionando Deus, então isso prova que acredita nele”. Mas isso é facilmente refutado, pois falar sobre Deus prova minha crença nele tanto quanto discutir mitologia grega prova minha crença Zeus, Baco, Apolo, etc.

Fiz uma lista de boas questões que podem ser utilizadas para ajudar a justificar o ateísmo. Seja cuidadoso, pois são questões embaraçosas que só podem ser respondidas com afirmações do tipo “os desígnios de Deus são incompreensíveis à mente humana”.

1 – Se Deus é todo-poderoso, por que levou seis dias para criar o Universo e

ainda descansou no sétimo? Por que não estalou os dedos e criou tudo de uma vez sem que isso causasse qualquer cansaço? Esse Deus não parece “todo-poderoso” para mim.

2 – Se Deus conhece o futuro, por que comete erros? Ele deveria saber que se

arrependeria de ter causado o dilúvio e que Sodoma e Gomorra estariam cheias de pecadores.

3 – Por que Deus precisa ser “servido” e por que precisamos estar na Terra para isso? Por que não podemos fazê-lo no céu?

4 – Nós possuímos o livre arbítrio, mas Deus já sabe quem vai pecar, quem o

“aceitará” etc. Então por que estamos aqui? Por que ele não envia nossas almas diretamente ao céu ou ao inferno baseado em seu infinito conhecimento?

5 – Por que Deus gosta de ser glorificado? Se ele é onisciente, por que liga se meros humanos lhe dão crédito por ter criado o Universo?

6 – Como se pode justificar o fato de um Deus “todo amor” e “todo misericórdia”

enviar todos os não-cristãos ao inferno, não importando quão bons eles sejam? Todos que nasceram antes de Cristo foram para o Inferno. Entretanto, pessoas terríveis, incluindo Hitler e Jeffrey Dahmer, poderiam ir ao Céu se aceitassem Deus antes de morrer.

7 – Por que um Deus todo-bondade, que tudo perdoa, nos pune pelo pecado de

Adão, nos transformando indistintamente em pecadores? Se Deus ficou tão irritado, por que não simplesmente matou Adão e Eva e recomeçou tudo? Novamente, foi Deus quem assim quis. Gostaria de saber por que ele decidiu nos manter vítimas desse inacreditável rancor.

8 – De onde Deus veio? Como foi criado? Por que é um argumento válido dizer

que ele “sempre existiu”, mas é inválido dizer o mesmo sobre a energia?

Quando ambos admitirem, finalmente, que possuem opiniões diferentes e que não vão chegar a qualquer acordo, você obteve sucesso em sua missão: assumir seu ateísmo. Após isso, a melhor coisa a ser feita é mudar o assunto para algo positivo, sorrir e manter um relacionamento agradável com essa pessoa. Talvez ela apenas necessite de algum tempo para se adaptar.

Conclusão

Concluir a leitura deste artigo significa ter dado o primeiro passo. Entretanto, ser ateu não é apenas não crer em Deus. Você é um dos milhões de livres-pensadores neste país que não obedecem a regras cegamente, mas, em vez disso, sentem a necessidade de pedir provas ou ao menos explicações lógicas. Sua responsabilidade (consigo mesmo e não conosco), agora, é mostrar seu ponto de vista aos seus amigos, família, governantes, etc.

Seja um ateu aberto, honesto e orgulhoso, e não mais uma vítima oprimida pelo Direito Cristão.

Uma Introdução ao Ateísmo

Este artigo foi concebido como uma introdução geral ao ateísmo. Embora haja tentado ser o mais neutro possível, deve-se sempre ter em mente que este documento representa apenas um ponto de vista. Aconselho fortemente que cada um faça a leitura no intuito de tirar conclusões próprias sobre o assunto.

A fim de manter a coesão e um desenvolvimento linear, o artigo apresenta-se como uma conversa imaginária entre um ateísta e um teísta. Todas as perguntas feitas pelo teísta imaginário foram selecionadas por serem muito freqüentes nas discussões do tipo “teístas versus ateus”.

Importante salientar que este artigo é inclinado a abordar as questões do ponto de vista cristão. Isso se deve ao fato de as perguntas aqui apresentadas terem sido predominantemente feitas por cristãos.

Quando falo “religião” me refiro primariamente ao cristianismo, judaísmo e islamismo, as quais envolvem a crença em alguma espécie de ser divino supra-humano. Muitas das respostas abrangerão também outras religiões, mas algumas talvez não.

O que é Ateísmo?

O ateísmo é caracterizado pela ausência da crença na existência de quaisquer deuses. A descrença geralmente vem de uma decisão deliberada ou de uma dificuldade para acreditar nos ensinamentos religiosos que parecem literalmente inverossímeis. Não se trata simplesmente da descrença advinda do desconhecimento sobre as religiões.

Alguns ateus vão além da mera descrença: afirmam categoricamente que não existem deuses particulares ou quaisquer deuses. A simples descrença em deuses é comumente denominada “ateísmo passivo”; o “ateísmo ativo” seria literalmente acreditar que não há (ou é impossível existir) deuses.

Em relação às pessoas que nunca tiveram contato com a idéia de “Deus”: se são “atéias” ou não, isso é matéria para debate. Mas já que provavelmente não encontraremos qualquer indivíduo nessa situação, promover tal debate passa a ter pouca importância.

É importante salientar a diferença entre os ateísmos “ativo” e “passivo”. O

“ateísmo passivo” trata-se simplesmente de ceticismo; descrença na existência de Deus.

O “ateísmo ativo” afirma positivamente a inexistência de Deus. Não cometa o equívoco de

classificar todos ateus como “ativos”. Há uma diferença qualitativa entre as posições

“ativa” e “passiva”, não se trata tão-somente de uma variação no grau de “intensidade ateística”.

Alguns ateus acreditam na inexistência de todos deuses; outros se limitam a deuses específicos, como o Deus cristão, em vez de fazer negações generalizadas.

Não crer em Deus não significa a mesma coisa que acreditar em sua inexistência?

Definitivamente, não. Descrer significa não julgar ser verdade. Não crer que algo

é verdade não equivale à crença em sua falsidade; certos indivíduos simplesmente dizem não saber se isso é verdade ou não, o que nos leva ao agnosticismo.

O que é Agnosticismo?

O termo “agnosticismo” foi cunhado pelo professor T.H. Huxley em uma reunião

da Sociedade Metafísica em 1876. Ele definiu um agnóstico como alguém que nega tanto

o “ateísmo ativo” quanto o teísmo, e também que acreditava que a questão da existência

de uma força superior não foi e nunca poderá ser resolvida. Outra definição para agnóstico é alguém que acredita ser impossível saber com certeza se Deus existe.

Desde essa época, entretanto, o termo agnóstico também foi utilizado para designar aqueles que não julgavam a questão intrinsecamente incognoscível, mas também alegavam que as evidências contra Deus eram inconclusivas, permanecendo, então, neutros sobre o assunto.

Para reduzir a confusão acerca do termo “agnosticismo” recomenda-se nomear a definição original como “agnosticismo estrito” e a segunda como “agnosticismo empírico”.

Palavras são traiçoeiras e a linguagem abunda em imprecisões. Mantenhamo-nos, então, longe da idéia de podermos deduzir o ponto de vista filosófico de alguém simplesmente baseados no fato dele denominar-se ateu ou agnóstico. Por exemplo, muitas pessoas usam o termo agnosticismo no sentido de “ateísmo passivo” e a palavra “ateísmo” designando “ateísmo forte”.

A palavra “ateu” possui várias significações, e assim fica muito difícil fazer qualquer generalização. Tudo que pode ser dito com segurança é que ateus não crêem em Deus. Por exemplo, certamente nem todos julgam que a ciência é o melhor método para desvendar os segredos do Universo.

O que significa a expressão “livre-pensador”?

Um livre-pensador é alguém que está preparado para considerar qualquer possibilidade. Uma pessoa que determina quais idéias estão certas ou erradas através da razão, valendo-se de um conjunto de regras consistentes, como, por exemplo, o método científico.

Quais são as bases ou justificativas filosóficas do ateísmo?

Há muitas justificativas filosóficas para o ateísmo. O modo mais eficiente para descobrir por que algum indivíduo tornou-se ateu certamente é perguntar diretamente a ele.

Muitos ateus acham que a idéia de Deus, tal como apresentada pelas religiões, é autocontraditória e assim seria logicamente impossível a existência de tal Deus. Outros são ateus devido ao ceticismo, porque não vêem evidências da existência divina.

Obviamente, algumas pessoas são ateístas sem qualquer justificativa muito consistente. Para outros ser ateu é simplesmente uma questão de bom senso.

Não é impossível provar a inexistência de algo?

Há muitos exemplos que vão contra essa afirmação. Por exemplo, é relativamente simples provar que não existe um número primo maior que todos os outros números primos. É claro, estamos falando de idéias e regras bem definidas. Se Deus ou o Universo são similarmente bem definidos é uma outra questão.

Entretanto, admitindo por um momento que não seja impossível provar a existência de algo, ainda há razões sutis para afirmar, a princípio, a sua inexistência. É

sempre possível provar a invalidez desta “negação por antecipação” encontrando um contra-exemplo, ou seja, provando a existência.

Se admitirmos que algo existe e não é impossível de ser comprovado, demonstrar a invalidade dessa hipótese pode requerer uma exaustiva busca por todos os lugares em que esse “algo” poderia ser encontrado, simplesmente para mostrar que não está lá. Tal busca comumente é impraticável ou impossível. Não há esse tipo de problema com os maiores números primos, pois podemos provar sua inexistência matematicamente.

Desse modo, geralmente admite-se como uma premissa sensata que nada existe até termos evidências do contrário. Os próprios teístas seguem essas regras a maior parte do tempo. Sabemos disso porque eles não acreditam em unicórnios, apesar de não poderem provar conclusivamente que não existem.

Dizer que Deus existe é fazer uma afirmação que provavelmente não estará sujeita a testes. Não temos como promover uma busca a todos os lugares onde Deus poderia estar para simplesmente mostrar que não está lá. O ateu cético (“ateu passivo”) admite a inexistência de Deus apenas por ver nisso algo sensato e lógico, mas que pode ser refutado com um contra-exemplo (ou seja, uma prova de sua existência).

Os que professam o “ateísmo ativo” normalmente não afirmam a inexistência de todo e qualquer tipo de deus; em vez disso, vão geralmente restringir suas afirmações aos deuses descritos por fiéis de várias religiões. Apesar de provavelmente ser impossível demonstrar conclusivamente que nenhum deus existe, talvez seja possível provar a inexistência de um deus descrito por um livro religioso em específico. Talvez até seja possível provar que nenhuma divindade descrita por qualquer religião contemporânea exista.

Na prática, acreditar que nenhum dos deuses descritos pelas religiões existe está muito próximo de acreditar que nenhum deus existe. No entanto, os contra-argumentos baseados na impossibilidade da negação de todo tipo de divindade não são aplicáveis neste caso.

E se Deus for essencialmente indetectável?

Se, de um modo qualquer, Deus interage com o Universo, os efeitos de tal interação necessariamente implicam uma manifestação física. Logo, qualquer interação Deus-Universo é, a princípio, detectável.

Se Deus for essencialmente indetectável, então ele não interage com nosso Universo em absoluto. Muitos ateus argumentariam que se Deus não interage com nosso Universo, não faria diferença alguma se ele existe ou não.

Se o que a Bíblia diz é verdade, Deus pode ser facilmente detectado pelos Israelitas; certamente deveria ser ainda hoje, mas por que a situação mudou?

Não estou dizendo que Deus precisa manifestar-se em ambientes controlados e situações cientificamente verificáveis. Alguma revelação, alguma experiência direta com Deus: isso seria incomunicável e não sujeito à verificação científica, mas, ainda assim, seria muito convincente.

Através de uma revelação direta ou da observação certamente deveria ser possível perceber alguns efeitos da presença divina; caso contrário, como poderíamos distingui-la de todas as outras coisas que não existem?

Deus é único. É um ser supremo. É o criador do Universo. Existe por definição.

As coisas não existem meramente porque foram definidas. Conhecemos muito bem o exemplo do papai Noel. Sabemos qual é sua aparência, o que ele faz, onde vive, os nomes de suas renas, e assim por diante. Infelizmente, isso não prova a existência do papai Noel.

E se eu provasse logicamente que Deus existe?

Antes de se engajar nessa tentativa você deve explicitar claramente significado da palavra “Deus”. Uma prova lógica requer uma definição clara do que se está tentando provar.

Mas todos sabem o que “Deus” significa.

Religiões diferentes tem concepções diferentes sobre o que é “Deus”; chegam mesmo a entrar em desacordo sobre coisas primárias como, por exemplo, quantos deuses existem, se é homem ou mulher, e assim por diante. Para um ateu a palavra “Deus” pode ter um significado muito distinto do que tem para você.

Se eu definir o que quero dizer com “Deus” e depois

provar logicamente que ele existe, isso seria suficiente?

Mesmo com séculos de esforços ninguém conseguiu provar a existência de Deus. Apesar disso, as pessoas geralmente acham que podem provar logicamente a existência de Deus.

Infelizmente, a realidade não é regrada puramente pela lógica. Mesmo provando com uma rigorosa lógica formal que Deus existe, isso não seria de grande valia. Pode acontecer de as leis da lógica não preservarem a verdade fielmente. Assim, mesmo um sistema rigorosamente lógico ainda pode ser falho. Talvez o erro esteja nas premissas; talvez a realidade não seja logicamente previsível. No fim, o único modo descobrir como as coisas realmente são é observando e/ou testando experimentalmente. A lógica serve meramente para termos idéia de onde ou como promover uma investigação, e mesmo os argumentos mais lógicos sobre a existência de Deus não dão margem a isso.

A lógica é uma ferramenta útil para analisar e inferir o que está acontecendo; mas se a lógica e a realidade entrarem em desacordo, a realidade vence.

Parece-me que nada vai convencê-lo da existência de

Deus.

Uma definição precisa do significado do termo “Deus” e a apresentação de algumas provas contundentes e objetivas suportando tal teoria seria o suficiente para convencer muitos ateus.

A prova deve ser clara; evidências anedóticas baseadas em experiências religiosas de terceiros não são suficientes. Uma evidência consistente e objetiva é necessária porque afirmar a existência de Deus é uma alegação extraordinária e, deste modo, requer evidências extraordinárias para sustentar-se.

Você acha que tem uma justifica filosófica para o ateísmo, mas ela não equivale uma crença religiosa?

Um dos passatempos mais comuns na filosofia é o “jogo da redefinição”. A seguir está um exemplo da visão cínica desse jogo.

Uma pessoa A começa fazendo uma afirmação duvidosa. Quando a pessoa B mostra que aquilo não pode ser verdade, a pessoa A redefine gradualmente as palavras utilizadas na afirmação até chegar a algo que a pessoa B esteja preparada para aceitar. Ele então repete a afirmação para confirmar que a pessoa B está em concordância. O indivíduo A continua a argumentar tomando como pressuposto que os dois estão em acordo com a afirmação nova, mas A usa as definições antigas das palavras (que B não aceitou) em vez de as redefinições novas necessárias para convencer B. Apesar da inconsistência, B tende a dar-lhe razão.

O objetivo dessa digressão é responder que a questão “o ateísmo é uma crença religiosa?” depende diretamente do que a palavra “religião” significa. “Religião” é geralmente caracterizada por uma crença em uma força sobre-humana – especialmente

algum tipo de Deus –, algum tipo de fé e adoração. Alguns tipos de budismo não podem ser considerados “religiões” tomando por base essa definição.

O ateísmo certamente não é uma crença em qualquer espécie de poder supra-

humano e também não é caracterizado pela adoração em qualquer sentido relevante. Ampliar a definição de “religião” o suficiente para abarcar o ateísmo faria com que muitos outros aspectos do comportamento humano repentinamente se tornassem “religiosos” – como a ciência, política e a televisão.

Talvez não seja uma religião no sentido mais estrito da palavra, mas certamente a crença no ateísmo (ou ciência) é um ato de fé, como na religião.

Em primeiro lugar, não algo é muito claro se o ateísmo cético é algo em que se

crê.

Em segundo, é preciso adotar um certo número de premissas para embasar as explicações de nossas experiências sensoriais. A maioria dos ateus adotará o mínimo de premissas possível; e até as poucas adotadas sempre estarão sujeitas à experimentação caso haja dúvida sobre sua veracidade.

A ciência tem um certo número de premissas. Por exemplo, é geralmente aceito

que as leis da física são as mesmas para todos os observadores (ao menos para todos que estão no mesmo sistema inercial). Esses são os tipos de suposições que os ateus fazem. Se idéias básicas como essas podem ser denominadas “atos de fé”, então quase todo nosso conhecimento deve ser encarado como fé, e o termo acaba por perder seu sentido.

A palavra “fé” é mais comumente utilizada no sentido de completar algo em que

se acredita. De acordo com tal definição, o ateísmo e a ciência certamente não podem ser classificados como “atos de fé”. É claro, indivíduos ateus ou cientistas podem vir a ser tão dogmáticos quanto os religiosos ao afirmarem que possuem “certeza absoluta” sobre algo. Entretanto, essa não é uma tendência muito comum. Alguns ateus se mostram relutantes até para afirmar que o Universo existe.

A fé também é usada para justificar crenças sem a necessidade de evidências ou

provas. O ateísmo cético certamente não cabe nessa definição, pois não possui crenças. O

ateísmo ativo está mais próximo disso, mas ainda não pode ser classificado como tal, já que até o ateu mais dogmático ainda apresenta a tendência de argumentar com base em dados experimentais (ou falta desses dados) quando estiver defendendo a inexistência de Deus.

Se o ateísmo não é uma religião, certamente é contra

elas.

Uma infeliz tendência humana é rotular todos sem meio-termo, “a favor” ou “contra”, “amigo” ou “inimigo”; as coisas não são simples assim.

O ateísmo é uma posição que, logicamente, opõe-se ao teísmo; neste contexto

pode ser denominado como “anti-religião”. Entretanto, quando os religiosos falam que

ateus são essencialmente “anti-religião”, costumam deixar a impressão de que há uma espécie de antipatia ou ódio aos teístas.

Tachar os ateus como hostis à religião é relativamente injusto. As atitudes dos ateus em relação aos teístas cobrem um grande espectro.

A maioria dos ateus toma uma posição de “viva e deixe viver”. Se não forem

questionados a respeito provavelmente nem chegam a mencionar suas opiniões, senão talvez a amigos íntimos. É possível que isso se deva, em parte, ao ateísmo não ser “socialmente aceitável” em muitos países.

Poucos são os ateus que se mostram efetivamente contra a religião, procurando até converter outros quando possível. Historicamente, tais grupos ateus e anti-religião tem tido pouca influência na sociedade, salvo nos países do Bloco ocidental.

Uma pequena digressão: A União Soviética dedicou-se, originalmente, à separação entre a Igreja e o Estado, assim como os EUA. Os cidadãos soviéticos eram legalmente livres para professar a crença que desejassem. A instituição do “ateísmo estatal” surgiu quando Stalin tomou o poder da União Soviética e tentou destruir todas as igrejas a fim de obter poder absoluto sobre a população.

Alguns ateus tornam-se bastante comunicativos em relação às suas crenças quando vêem a religião intrometer-se em assuntos que não lhe dizem respeito. Por exemplo, o governo dos EUA. Tais indivíduos costumam ser ativamente favoráveis à separação da Igreja e o Estado.

Impedir que a religião opine sobre o funcionamento do estado não corresponde a um “ateísmo estatal”?

O princípio da separação entre a Igreja e o Estado diz apenas que o Estado não

deve legislar assuntos concernentes à crença religiosa. Isso significa não apenas que o Estado não pode promover uma religião em detrimento de outra, mas que também não pode promover qualquer crença de natureza religiosa.

As religiões ainda podem opinar em assuntos puramente seculares. Por exemplo, religiosos foram historicamente responsáveis pelo encorajamento às reformas políticas. Mesmo hoje, muitas organizações que defendem um aumento nas verbas para ajudar

países estrangeiros têm fundamento religioso. Desde que apenas tratem de assuntos seculares e não usem a religião como fator discriminatório, a maioria dos ateus sente-se satisfeita em ver que eles têm liberdade para professar suas crenças.

E as rezas nas escolas? Se não há Deus, por que você se importa com isso?

Porque pessoas que rezam também votam e são legisladoras; elas possuem uma tendência a fazer coisas que os que não rezam simplesmente não podem ignorar. Rezas cristãs em escolas são constrangedoras para os não-cristãos, mesmo se for dada a liberdade para não participarem.

A grande diversidade de crenças religiosas e não-religiosas implica a impossibilidade de formular uma reza que abarque toda essa variedade a ponto de tornar-la aceitável para todos indistintamente.

Esse é um motivo pelo qual nos EUA não é permitido que escolas públicas apóiem certos tipos de crença através de rezas religiosas. As crianças são, é claro, livres para rezar, se desejarem, em seu tempo vago; não há, neste caso, motivos para querer evitar que isso aconteça nas escolas.

Você mencionou a campanha cristã em favor da ajuda a países estrangeiros. E os ateus? Por que não há ateus visitando hospitais ou fazendo caridades? Eles são contra as caridades religiosas?

Há muitas caridades voluntárias e sem motivos religiosos que ateus fazem. Alguns contribuem para caridades religiosas também, pois no fim o que importa para eles é o bem que fazem. Outros até trabalham voluntariamente em movimentos que tiveram início por motivos religiosos.

A maioria dos ateus acha que conciliar sua descrença à sua caridade não é possível nem importante. Para eles o ateísmo é algo trivial e, de modo equivalente, também a caridade. Muitos acham que é baixo, para não dizer hipócrita, usar a caridade como uma desculpa para promover um conjunto de crenças religiosas.

Para ateus “passivos” construir um hospital e dedicá-lo à sua descrença em Deus é uma idéia muito estranha; seria como dar uma festa e dizer “hoje não é meu aniversário”. O ateísmo raramente é espalhafatoso.

Você disse que o ateísmo não é anti-religião. Ele não seria, talvez, uma resistência à formação educacional, uma espécie de rebeldia?

Talvez para alguns, mas muitas pessoas têm pais que não tentam incutir-lhes idéias sobre religião, e muitos desses pais denominam-se ateus.

Sem dúvida há os casos de religiosos que usam a crença como desculpa para lutar contra a difusão do ateísmo, mas apenas querem sentir-se “especiais”. Em contrapartida, muitas pessoas vêem a religião como um modo de estar em conformidade às expectativas dos outros.

No fim, não fica muito nítido se o ateísmo ou a religião são um subterfúgio ou conformismo; mas vale lembrar que, em geral, as pessoas têm a tendência a agir em grupo em vez de pensar independentemente.

Qual a diferença entre ateus e pessoas religiosas?

Ateus não crêem em Deus. A princípio isso é tudo que pode ser dito com certeza.

Ateus podem ouvir heavy metal – de trás para frente também – ou então preferir um réquiem de Verdi, mesmo que conheçam as letras. Podem usar camisetas havaianas, se vestir todos de preto ou mesmo usar mantos alaranjados (muitos budistas não crêem em divindades). Alguns ateus até carregam uma Bíblia consigo (para argumentar contra, é claro).

Seja você quem for, provavelmente já encontrou vários ateus sem aperceber-se disso. Eles são, geralmente, pessoas de comportamento e aparência comuns.

Mas os ateus não são menos morais que pessoas religiosas?

Isso depende. Se a “moralidade” é medida pela obediência a Deus, claro que ateus são menos morais, pois não obedecem a deus algum. Normalmente, quando alguém fala de moralidade, se refere ao que é “aceitável” ou “inaceitável” em relação a comportamentos em sociedade.

Humanos são animais sociais, e para utilizarem seus potenciais plenamente devem cooperar uns com os outros. Esse é um motivo bom o suficiente para que um ateu não se torne “anti-social” ou “imoral”.

Muitos ateus são “morais” ou “compassivos” simplesmente porque esta é uma tendência natural neles. O porquê dos ateus se importarem com os outros eles não sabem explicar; simplesmente são assim naturalmente.

Obviamente, há os que se comportam imoralmente e tentam usar o ateísmo como justificativa. Entretanto, há igual número de pessoas que se comportam de modo idêntico e tentam usar como justificativa suas crenças religiosas. Por exemplo:

“Este é um dito confiável que merece aceitação total: Jesus Cristo veio ao

por esse motivo, foi-me demonstrada misericórdia, para

Jesus pudesse manifestar sua paciência ilimitada como uma prova de que

todos os que nele crêem terão a vida eterna. Para o rei eterno, imortal, invisível e único, sejam, a honra e a glória, eternas.”

que em mim

mundo para salvar pecadores

A citação acima foi feita numa corte no dia 17 de fevereiro de 1992 por Jeffrey Dahmer, um notório Serial-killer canibal de Milwaukee, Wisconsin. Parece que para cada assassinato em nome do ateísmo, há outro em nome da religião.

Mas e a moralidade do dia-a-dia?

Uma pesquisa conduzida pela Organização Roper concluiu que o comportamento moral se deteriora após o “renascer” para a religião. Enquanto antes da “conversão” 4% dos indivíduos pesquisados disseram já ter dirigido bêbados, após a conversão 12% confessaram tê-lo feito. Similarmente, 5% deles haviam usado drogas ilegais antes de comparecer à pesquisa, e 9% depois. 2% haviam admitido ter feito sexo ilícito antes da “salvação”; 5% depois. ("Freethought Today", Septembro 1991, pág. 12)

Parece que a religião, na melhor das hipóteses, não possui o monopólio do comportamento moral.

É claro, uma grande parte das pessoas é convertida ao (e do) Cristianismo durante a adolescência e o começo dos 20, a exata época em que começam a beber e se tornar sexualmente ativas. Talvez a estatística apenas demonstre que o Cristianismo não tem qualquer influência no comportamento moral, ou pelo menos um efeito insuficiente para resultar numa queda significante do comportamento imoral.

Há uma moral ateística?

Se você quer dizer “para os ateus existe moral?”, a resposta é sim, como explicado acima. Muitos ateus têm princípios morais que são no mínimo tão fortes quanto os embasados em princípios religiosos.

Se você quer dizer “o ateísmo tem um código moral característico?”, então a resposta é não. O ateísmo em si mesmo não diz muita coisa sobre como a pessoa vai

comportar-se. A maioria dos ateus segue muitas das regras morais originalmente teístas, mas por motivos diferentes dos deles. Ateus vêem a moralidade como algo criado pelos homens, sendo que essas regras de comportamento não passam de uma aplicação das noções que eles possuem de como o mundo “deveria” funcionar.

Os ateus não são teístas que negam Deus?

Um estudo feito pela Fundação “Liberdade da Religião” constatou que mais de 90% dos indivíduos que se tornaram ateus o fizeram porque a religião não funcionou para eles. Perceberam que suas crenças religiosas eram fundamentalmente incompatíveis com o mundo que observavam à sua volta.

Ateus não são descrentes por ignorância ou simples negação; escolheram a descrença através de uma escolha deliberada. A grande maioria deles passou tempo estudando uma ou mais religiões, às vezes muito profundamente. Tomaram a decisão de rejeitar, conscientes do que isso significa, as crenças religiosas.

Essa decisão pode, é claro, repercutir na personalidade do indivíduo. Para uma pessoa naturalmente cética, o ateísmo geralmente é a única opção que faz sentido e, assim sendo, ser ateu, para ele, é ser honesto consigo mesmo.

A palavra “negar” pode ser usada no sentido de “não aceitar”. Apenas neste sentido os ateus podem ser considerados “negadores” de Deus. Não estão negando cegamente e ignorando evidências; e também não afirmam necessariamente e categoricamente a inexistência de Deus.

O simples fato de estarmos discutindo acerca de Deus não é uma admissão tácita de sua existência?

Absolutamente, não. Pessoas falam sobre o papai Noel todo natal; isso não quer dizer que ele realmente escala nossas chaminés e deixa presentes. Jogadores de RPG discutem todo tipo de criatura estranha, desde orcs e góblins até ciclopes e minotauros. Tais seres também não existem.

Os ateus não gostariam de acreditar em Deus?

Ateus vivem suas vidas como se ninguém os estivesse observando, e muitos deles não gostam da idéia de serem permanentemente observados, não importando quão “bem-intencionadas” sejam as intenções de Deus.

Alguns ateus gostariam de acreditar em Deus, mas o que isso prova? As pessoas devem admitir coisas como sendo verdadeiras simplesmente porque assim desejam? Os riscos de tal atitude são óbvios. A maioria dos ateus tem consciência de que querer crer não é suficiente: deve haver, também, um motivo.

É claro que os ateus não vêem evidências a favor da existência de Deus, pois, no fundo de suas almas, eles não querem ver.

Muitos ateus, senão a maioria, eram anteriormente religiosos. Como explicado acima, a grande maioria deles já considerou seriamente a possibilidade da existência de Deus. Muitos ateus passaram tempo rezando e tentando “encontrar” Deus.

Claro que alguns ateus não possuem uma mente aberta, mas inferir a partir disso que todos ateus sejam preconceituosos e desonestos é, em si mesma, uma atitude ofensiva e que só poderia vir de outra mente fechada. Entretanto, argumentos do tipo “é claro que Deus está lá, você apenas não está sabendo procurar” são comumente encarados como fanáticos.

Certamente, se você deseja engajar-se numa discussão filosófica com ateus, é de vital importância aceitar possibilidade da dúvida em relação à existência de Deus e admitir que eles estejam sendo sinceros quando dizem que realmente já procuraram por Deus, mas sem obter sucesso. Se você não consegue aceitar que eles estejam sendo sinceros ao se dizerem ateus, então qualquer tentativa de promover um debate eficiente será vã.

A vida não é sem sentido para um ateu?

Muitos ateus têm uma vida com sentido. Eles inserem, através do que pensam, um sentido na vida, e lutam para conquistar seus objetivos. Fazem suas vidas valerem a pena, não esperando por uma recompensa no além, mas trabalhando para que sua influência repercuta nas pessoas futuras. Por exemplo, um ateu pode dedicar sua vida a reformas políticas na esperança de deixar sua marca na história.

É uma tendência natural no ser humano procurar por um “significado” ou “propósito” em eventos esporádicos. Entretanto, não está muito claro se a “vida” é o tipo de coisa que tem um “sentido” em si mesmo.

Colocando de outro modo, nem tudo que se apresenta na forma de um questionamento é verdadeiramente algo sensato de ser perguntado. Alguns ateus consideram a questão “qual o sentido da vida?” uma coisa tola como perguntar “qual o significado de um copo de café?”. Eles acreditam que a vida não tem propósito ou significado, simplesmente existe.

Onde os ateus encontram conforto em tempos de perigo?

Há muitos modos para se obter conforto:

– Família e amigos

– Animais de estimação

– Comida e bebida

– Música, televisão

– Literatura, artes e entretenimento

– Esportes ou exercícios

– Meditação

– Psicoterapia

– Drogas

– Trabalho

Isso pode parecer um modo vazio e vulnerável de encarar o perigo, mas e daí? Os indivíduos devem acreditar em coisas porque são confortantes ou aceitar a realidade não importando quão dura seja?

No fim, a decisão é de casa um. A maioria dos ateus não é capaz de acreditar em algo meramente porque isso os conforta. Eles primam pela verdade antes do conforto. A busca pela verdade é, por vezes, fruto de tristeza e frustração, e freqüentemente a verdade machuca.

Os ateus não se preocupam com a possibilidade de estarem enganados?

A resposta é: “não, e você?”

Muitos indivíduos são ateus há bastante tempo. Já se depararam com muitos argumentos e supostas “evidências” da existência de Deus, mas julgaram-nas todas inválidas ou inconclusivas.

Religiões existentes há milhares de anos não foram capazes de obter qualquer prova da existência de Deus. Assim, os ateus tendem a considerar muito improvável que alguém prove que estão errados, e por isso simplesmente não se preocupam com tal possibilidade.

Então porque os teístas devem questionar suas crenças? Os mesmos argumentos não se aplicam?

Não, porque as crenças sendo questionas não são similares. O “ateísmo passivo”

é a “posição cética padrão” a ser tomada; ele não afirma nada. “Ateísmo ativo” é uma crença negativa. O teísmo, por sua vez, é uma crença positiva muito forte.

Os ateus às vezes argumentam que os teístas deveriam questionar suas crenças devido ao dano que podem causar (não apenas aos crentes, mas a todos ao seu redor).

Que tipo de dano?

A religião representa uma gigantesca despesa para a humanidade. Não é apenas

questão de crentes desperdiçarem seu dinheiro na construção de igrejas; pense em todo

o tempo e esforços gastos na construção dessas igrejas, e também nas rezas. Imagine

quantos objetivos existem nos quais esse esforço poderia ser mais bem empregado.

Muitos teístas acreditam em curas milagrosas. Há muitos casos de pessoas doentes que após serem “curadas” por um padre deixam de tomar os remédios prescritos pelos médicos e acabam morrendo. Alguns teístas morreram porque se negaram a receber, por motivos religiosos, transfusões sangüíneas.

É muito provável que a posição da Igreja Católica em relação ao controle de

natalidade – em particular as camisinhas – agrave ainda mais o problema da superpopulação em muitos dos países de terceiro muito e ainda contribua na

disseminação da aids.

Alguns religiosos tornaram-se notórios por assassinar seus filhos em vez de deixá-los tornarem-se ateus ou casarem-se com alguém de uma religião diferente. Vários líderes religiosos sabidamente justificaram assassinatos tomando a “blasfêmia” como argumento.

Houve muitas guerras religiosas. Mesmo admitindo que a religião não seja a verdadeira causa dessas guerras, foi eficientemente usada como justificativa.

Eles não eram crentes verdadeiros. Só diziam ser.

Essa parece a falácia nenhum escocês de verdade*1

O que é um crente verdadeiro? O que faz de alguém um crente verdadeiro? Há

tantas crenças alegando serem “a verdadeira” que é difícil saber. Olhemos o cristianismo:

há muitos grupos competindo entre si, todos convictos de serem os únicos verdadeiros. Por vezes até lutam e matam uns aos outros. Como um ateu poderia discernir qual o “verdadeiro” cristão quando nem as maiores igrejas cristãs como a Igreja Católica e a Igreja Inglesa conseguem entrar em acordo entre elas mesmas?

No fim, muitos ateus tomam uma posição pragmática e decidem que todo indivíduo que se denomina cristão e usa as crenças ou dogmas cristãos para justificar suas ações deve ser considerado um cristão. Talvez alguns cristãos estejam simplesmente pervertendo os ensinamentos de Cristo para seus próprios fins; mas, certamente, se a Bíblia pode ser usada tão facilmente para justificar atos acristãos, não pode ser encarada como um código moral muito consistente. Se a Bíblia é a palavra de Deus, por que ele não a fez com menos margem para distorções? E como você pode saber se a sua visão não é uma perversão das intenções divinas?

Não há uma interpretação “pura” e “definitiva” da Bíblia, então por que um ateu deveria adotar uma interpretação específica em detrimento de outra? Baseados no fato de você se auto-intitular correto? Se alguém alega crer em Jesus e assassina aos outros porque na Bíblia estava escrito para assim proceder, indistintamente também devemos classificá-lo como um indivíduo cristão.

1 – Falácia “Nenhum Escocês de Verdade

Suponha que eu afirme “Nenhum escocês coloca açúcar em seu mingau”. Você contra-argumenta dizendo que seu amigo Angus gosta de açúcar no mingau. Então eu digo “Ah, sim, mas nenhum escocês de verdade coloca”.

Esse é o exemplo de uma mudança Ad Hoc sendo feita para defender uma afirmação, combinada com uma tentativa de mudar o significado original das palavras; essa pode ser chamada uma combinação de falácias.

Leia mais em Lógica & Falácias.

Obviamente os extremos da crença devem ser questionados. Mas já que ninguém provou a inexistência de Deus, deve ser muito improvável que as crenças mais fundamentais, as compartilhadas de todas as religiões, sejam sem sentido.

Os aspectos básicos que as crenças religiosas possuem em comum dificilmente serão surpreendentes se você perceber que a religião é um produto da sociedade. A partir desse ponto de vista, as religiões apenas tomaram emprestado idéias que contribuem para a estabilidade de uma sociedade, como o respeito à autoridade, a proibição do assassinado, e assim por diante.

Ademais, alguns aspectos compartilhados pelas religiões têm sido reciclados de religiões anteriores. Por exemplo, é possível que os Dez Mandamentos do Velho Testamento tenham sido baseados no Código de Hamurabi.

Afirmar que algo, por não ter sido desmentido, tem menos chances de ser sem sentido, é absurdo. Como mostrado anteriormente, afirmações categóricas concernentes à existência (positivas) de entidades são inerentemente mais difíceis de desmentir que as

afirmações negativas. Ninguém jamais provou que unicórnios não existem, e há muitas histórias sobre eles, mas nem por isso os unicórnios deixaram de ser mitos.

É muito mais coerente admitir a inexistência das coisas até termos motivos do contrário. No entanto, a maioria dos “ateus passivos” diria que não afirmar nada é ainda melhor.

Se o ateísmo é tão bom assim, porque há tantos teístas?

Infelizmente, a popularidade de uma crença não tem muita relação com sua veracidade; considere quantas pessoas acreditam em astrologia, grafologia e outras pseudociências.

Muitos ateus acham que crer em Deus é simplesmente sinal de fraqueza. Certamente, em sociedades primitivas, a religião permitia aos indivíduos lidar com fenômenos que não podiam compreender adequadamente.

É claro que a religião é mais que isso. Em nosso mundo industrializado encontramos pessoas acreditando em explicações sobrenaturais para fenômenos que possuem explicações perfeitamente naturais e coerentes. A religião pode ter começado com a intenção de explicar o mundo, mas hoje em dia também tem outros propósitos. Por exemplo, para muitas pessoas a religião possui uma função social, provendo uma sensação de comunidade e congregação.

Muitas culturas desenvolveram religiões. Isso não significa nada para você?

Na realidade não. A maioria só possui semelhanças superficiais; por exemplo, vale lembrar que religiões como o Budismo e o Taoísmo não possuem qualquer conceito de Deus no sentido cristão. Em suma, não há consenso entre os religiosos sobre o que Deus realmente seja. Logo, um dos problemas a serem solucionados antes de travar uma discussão sobre Deus com um ateu é explicar exatamente o que você quer dizer com esta palavra.

A maioria das religiões é bem diligente em denunciar os problemas de suas rivais, por isso não faz muito sentido usar uma religião para justificar outra.

E todos os cientistas e filósofos que chegaram à conclusão de que Deus existe?

Em primeiro lugar, pesquisas tipicamente chegam à conclusão de que 40% dos cientistas acreditam em Deus; ou seja, os crentes são uma minoria.

Para cada cientista ou filósofo que acredita em Deus, há outro que não. Além disso, como já demonstrado acima, a veracidade de uma crença não é determinada pela quantidade de seguidores que possui. Também é importante salientar que os ateus não vêem os cientistas famosos ou filósofos como os religiosos vêem seus líderes.

Um cientista famoso é apenas um humano; ele pode ser especialista em alguns campos, mas quando estiver falando de outros assuntos suas palavras não possuirão qualquer relevância além das de outra pessoa qualquer. Muitos cientistas respeitáveis acabaram passando vergonha ao falarem sobre assuntos que fugiam das suas áreas de especialidade.

Até os cientistas famosos são tratados com ceticismo pela comunidade científica. Cientistas muito experientes em seus campos também devem prover evidências para corroborar suas teorias; a ciência apóia-se em resultados reproduzíveis e confirmáveis independentemente. Teorias novas que sejam incompatíveis com o conhecimento científico existente serão submetidas a um escrutínio ainda mais rigoroso; mas se as novas teorias se mostrarem verdadeiras e os resultados que levaram a essa conclusão forem reproduzíveis, então as novas teorias tomarão o lugar das antigas.

Por exemplo, a mecânica quântica e a teoria da relatividade são altamente controversas; foi necessário deitar por terra muitas teorias científicas para sustentá-las. Ainda assim, ambas foram aceitas prontamente após uma grande variedade e quantidade de experimentos terem confirmado sua veracidade. Teorias pseudocientíficas como o criacionismo não são rejeitadas por serem controversas, mas porque simplesmente não estão sujeitas a qualquer investigação científica.

Então para você o crescimento das religiões não indica

nada?

Não totalmente. Certamente indica que a religião em questão tem propriedades ajudam em sua difusão.

A teoria memética fala sobre os “memes”, conjuntos de idéias que se propagam na mente humana por analogia com os genes. Alguns ateus vêem a religião como um conjunto bem-sucedido de memes parasitários que encorajam seus “hospedeiros” a converter outros indivíduos. Alguns memes evitam sua autodestruição desencorajando o questionamento da crença pelos fiéis ou, usando semelhante pressão, evitam que ex- crentes admitam abertamente que estavam errados. Alguns memes religiosos até mesmo encorajam seus “hospedeiros” a destruir os possuidores de memes diferentes.

É claro que na visão memética não há qualquer “virtude” associada com a propagação em larga escala. O número de seguidores que uma religião possui é tão

significativo para considera-la como “boa” quanto uma doença é “boa” ou “ruim” em função do número de pessoas que infecta.

Entretanto, a abordagem memética do assunto não tem muito a dizer sobre a “veracidade” da informação contida nos memes.

Mesmo se a religião não for totalmente verdadeira, ela traz importantes mensagens. Quais são as mensagens fundamentais do ateísmo?

Há várias mensagens importantes que o ateísmo promove. A seguir estão apenas algumas delas; não se surpreenda se algumas das idéias abaixo também forem encontradas em religiões.

– O comportamento moral não é simplesmente seguir regras resignadamente.

– Devemos ser céticos, especialmente com asserções positivas (que afirmam a existência de algo).

– Se você quer que sua vida tenha algum sentido, cabe a você encontrá-lo.

– Primar pela verdade, mesmo que não seja agradável.

– Se quisermos mudar, mudemos-nos a nós mesmos. Não devemos esperar a ação de “poderes externos”.

– A popularidade de algo não implica que esse algo é bom.

– Se você quer defender algo, defenda o que estiver sujeito à comprovação experimental.

– Não creia em coisas simplesmente porque você “gostaria que fossem assim”.

e o mais importante:

– Todas crenças devem estar abertas ao questionamento.