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As problemáticas da verdade na justiça de transição

Anna Caroline Pott 1

RESUMO

Este artigo visa inserir a epistemologia no contexto da busca pela verdade na justiça de transição. Nesse sentido, temos os testemunhos de vítimas perante as Comissões de Verdade, um dos instrumentos da justiça de transição, sendo esses testemunhos verdadeiros momentos de catarse para as vítimas que sofreram atrocidades no passado, gerando um dos problemas da busca pela verdade, uma vez que não se sabe até onde esses depoimentos poderiam ou não ser considerados verdadeiros. Para isso, busca-se explicar o que vem a ser justiça de transição, assim como apresentar as problemáticas que envolvem a busca pela verdade, partindo-se da observação do valor social da verdade. Assim, procura-se entender o funcionamento da justiça

de transição, assim como saber em que momento esta surge no seio da sociedade, apontando seus principais instrumentos e suas três fases, estas criadas por Ruti Teitel. A partir desse entendimento, objetiva-se entender quais são as principais problemáticas referentes à busca pela verdade, direito fundamental consagrado em Estados Democráticos de Direito, ligado ao direito à memória e aos princípios da publicidade e transparência. Ademais, destaca-se que o Poder Público é o maior prestador de informações para a sociedade, encontrando-se no Estado

a maior resistência para a consagração efetiva do direito à verdade diante da ocultação de documentos e informações necessárias para a busca da verdade.

Palavras-chave: Epistemologia do testemunho. Justiça de transição. Direito à verdade. Direito

à memória.

ABSTRACT

This article aims to put the epistemology in the context of the search for truth in transitional justice. In this sense, we have the testimonies of victims before the Truth Commissions, an instrument of transitional justice, and these testimonies true moments of catharsis for victims who suffered atrocities in the past, the problems of generating a search for truth, since it is not known how far these statements could be considered true or not. To do this, we try to explain what has to be transitional justice, as well as presenting the issues involving the search for truth, starting from the observation of the social value of truth. Thus, we seek to understand the functioning of transitional justice, as well as know when this comes up in society, pointing out their main instruments and its three phases, these created by Ruti Teitel. Based on this

1 Graduanda em Direito na Faculdade Nacional de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Participante do projeto de extensão “V Universitários pela Paz” que trata da questão dos Direitos Humanos e os Crimes Internacionais. E-mail: annacpott@gmail.com.

understanding, the objective is to understand what are the main issues concerning the search for truth, fundamental right enshrined in Democratic States law on the right to memory and to the principles of openness and transparency. Moreover, it is noteworthy that the Government is the largest provider of information to society, lying in state most effective resistance to the consecration of the right to truth before the concealment of documents and information necessary for the pursuit of truth.

Keywords: Epistemology of testimony. Transitional justice. Right to the Truth. Right to memory.

1 Introdução

A epistemologia do testemunho ganhou importante destaque recentemente. E ganha

ainda maior importância quando abordada dentro do contexto da justiça de transição. As

comissões da verdade apresentam-se como um dos principais instrumentos da justiça

transicional. O testemunho, por sua vez, é o ponto central dessas comissões, que buscam

reconstruir os fatos passados através dos relatos das vítimas que viveram em um período

marcado por violações aos direitos humanos. Essa reconstrução visa encontrar a verdade

vivida pela sociedade naquele momento. Assim, é delineado um direito à memória, cujo

detentor é a sociedade.

Este artigo está dividido em três partes. A primeira parte objetiva abordar o valor

social da verdade, destacando duas dimensões. A dimensão ética ligada às questões morais e a

dimensão política ligada à democracia e a busca da sociedade pela verdade. A dimensão

política é a que nos interessa, ela está correlacionada ao direito à verdade e ao direito à

memória, direitos de grande importância em Estados Democráticos de Direito. A segunda

parte aborda a justiça de transição, seu surgimento, seu conceito e seus instrumentos,

destacando-se que a comissão da verdade é o principal meio pelo qual a justiça de transição

alcança seus objetivos. A última parte destina-se aos problemas advindos da justiça de

transição e das comissões da verdade, havendo destaque para aqueles que se encontram

intimamente relacionados com a busca pela verdade, ou seja, o problema dos testemunhos,

discutidos no campo da epistemologia social, mais especificamente dentro da epistemologia

do testemunho.

2 Considerações iniciais: o valor social da verdade

Michelle Tarrufo aponta duas dimensões importantes quando se fala no valor social da verdade. A primeira constitui a dimensão ética e a segunda, a dimensão política da verdade.

Na primeira dimensão, a moral possui um importante papel, “pues son vários los sistemas de reglas morales que históricamente se han centrado em la obligación de decir la verdad y en la correspondiente prohibición de mentir” (TARUFFO, 2010, p. 109). Nessa dimensão a verdade deve estar inserida não só nos direitos fundamentais da sociedade, mas deve constituir parte de seus valores fundamentais, devendo haver limitações na sua aplicação concreta (TARUFFO, 2010). Ainda nesse sentido, apresenta Taruffo (2010, p. 110):

El tema Del valor social de la verdad ha sido objeto de contribuciones recientes que prescinden en buena medida de la metaética y de la teoría de los sistemas morales (aun sin olvidarlas), y que sitúan a la verdad en el centro de la dinámica de la vida social.

Pensamentos como o de Bernard Williams e Michael Lynch são, assim, apresentados:

Para Bernard Williams, por ejemplo, las <<virtudes de la verdad>>, que consisten em la exactitud y la sinceridad, son esenciales para el intercambio de informaciones que constituye el fundamento de la dinámica social incluso em SUS formas más simples. Desde esta perspectiva, la sinceridad de quien expresa um convencimiento que considera verdadero se vuelve uma condición esencial de la vida social; aun cuando em la vida real la mentira sea frecuente y algunas veces pueda parecer inevitable o justificada, la sinceridad como aspecto <<virtuoso>> de la verdad constituye en todo caso un valor fundamental. También la exactitud, entendida como apego a la realidad, ES uma cualidad necesaria de lãs creencias verídicas que son comunicadas em el contexto de la acción social. Una creencia es verídica cuando es el resultado de un procedimiento idôneo para el descubrimiento de la verdad, es decir, de um método truth-acquiring o, em todo caso, cuando está justificada por razones que permiten considerarla fundadamente como verdadera. Por outra parte, la intención de averiguar la verdad es um factor importante em la formación de una creencia y em la distinción entre el convencimiento o la creencia em sentido estricto y la fantasía. (TARUFFO, 2010, p. 110 - 111)

Lynch tampoco plantea el problema de la verdad en el plano de las ideas abstractas, sino en el contexto de la vida social, con el fin de demonstrar que en ese contexto truth matters: en síntesis, la verdad es lo que hace que valga la pena creer en una aserción, tanto si se le reconoce um valor instrumental, como si se le atribuye un valor en sí. Aun cuando sea cierto que en ciertos casos el conocimiento de la verdad, o incluso la búsqueda de la verdad, puede ser peligroso o perjudicial , sigue siendo cierto que en principio lo que justifica una creencia es que se funde en razones que permitan considerarla como probablemente verdadera. (TARUFFO, 2010, p. 111)

Quanto à dimensão ética da verdade, esta se interliga com a política, sobrevindo a correlação da verdade com a democracia. Sendo assim, a verdade é um importante caminho para a aproximação do povo com o governo, configurando uma relação de confiança. O Estado é o ente responsável por prestar aos seus cidadãos as informações de interesse público, assim, estas informações devem ser verdadeiras, evitando-se a mentira e a manipulação de informações, características de períodos de regime autoritário. Através da verdade é que se constrói a democracia, existindo, desse modo, o direito à verdade, direito consagrado em Estados Democráticos de Direito, necessário para que o cidadão seja capaz de exercer suas liberdades.

Entretanto, em certas ocasiões, como aquelas que envolvem questões ligadas a “soberania, integridade territorial, segurança da sociedade e do Estado e o equilíbrio das relações internacionais, além de interesses individuais à intimidade, honram e imagem de pessoas afetadas pela publicidade de informações mantidas em sigilo” (FIGUEIREDO, 2010, p. 1) a verdade deve ser limitada ao público. Porém, tais exceções não devem ser consideradas a regra. Já dizia Noberto Bobbio (2006, p. 100) a repeito do caráter público das informações no Estado Democrático: "o caráter público é a regra, o segredo a exceção, e mesmo assim é uma exceção que não deve fazer a regra valer menos, já que o segredo é justificável apenas se limitado no tempo, não diferindo neste aspecto de todas as medidas de exceção" 2 .

2 De mesma opinião, assevera Michelle Taruffo (2010, p. 113): Es cierto que también los sistemas democráticos deben tener en cuenta las necesidades de la política y que, por consiguiente, es inevitable que la verdad sufra ciertas limitaciones y reservas. Pero esto implica que se trata solamente de excepciones al principio de verdad. Estas excepciones que no debieran transformase jamás en regla deben estar, además, debidamente justificadas por la exigencia de realizar ciertos fines que bajo determinadas condiciones tengan preferencia sobre la aplicación de ese principio. En otras palabras: en un sistema efectivamente democrático el principio de verdad puede experimentar restricciones, pero la decisión respectiva no puede ser arbitraria, siempre debe ser sometida a control y no puede fundarse en la mentira ni en la manipulación de la opinión pública. Assim, o secreto pode ser mantido dentro de determinado padrão, entretanto, a mentira não pode ser defendida ao passo que torna o regime antidemocrático.

Nota-se que a dimensão política da verdade está interligada com o direito à verdade que por sua vez está correlacionado com o direito à memória e os princípios da publicidade e transparência, contidos em diversos ordenamentos democráticos. Quando os direitos à verdade e à memória estão inseridos no contexto de justiça de transição, estes traduzem a necessidade de conhecimentos dos fatos históricos no momento em que houve atrocidades contra os direitos humanos em uma sociedade, tendo o propósito de constituir a memória das vítimas, assim como evitar que o passado seja repetido novamente. Dessa maneira, é imprescindível que o Estado reconheça que houve violação de direitos humanos e abra documentos classificados como sigilosos para que junto com os depoimentos das vítimas haja uma reconstituição da verdade.

3 Justiça de transição

O mundo viveu no século XX a chamada “era dos extremos”, expressão criada pelo historiados Eric Hobsbawm (2008 [1995]). Este século foi marcado por duas guerras mundiais que assolaram o mundo, países mergulhados em crises sociais, violação dos direitos humanos, restrição de liberdades e direitos essenciais nas mais diversas esferas do ordenamento jurídico, guerras civis com milhões de deslocamentos de refugiados, regimes autoritários e a Guerra Fria que terminou em 1991 com a extinção da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas URSS. Todos esses acontecimentos, em maior ou menor escala, contribuíram para a redefinição de padrões sociais, econômicos, políticos e culturais (GALLO, [2010?], p. 1).

A justiça de transição surge pós-conflitos, no intuito de reestabelecer a reconciliação no seio da sociedade, que viveu experiências traumáticas, tendo seus direitos humanos violados. Sendo assim, ela busca a justiça através da punição, dentro do possível, dos responsáveis pelas atrocidades cometidas no passado, assim como busca o reconhecimento das vítimas e suas histórias perante o Estado (GALLO, 2010, p. 135).

Ruti Teitel (2002, p. 69) foi quem deu origem a essa expressão e, assim, a define: the conception of justice associated with periods of political change, characterized by legal responses to confront the wrongdoings of repressive predecessor regimes.” A autora propõe,

ainda, uma genealogia da justiça de transição que “traces the historical pursuit of justice in periods of political flux, re-viewing the political developments of the last half-century and analyzing the evolution of the conception of transitional justice.” (TEITEL, 2002, p. 69) 3

Com relação à sua aparição, a justiça transicional surgiu no pós II Guerra Mundial, quando foram instituídos os Tribunais de Nuremberg e de Tokyo para o julgamento dos crimes de guerra ocorridos durante a II Guerra Mundial, vigente o regime nazifascista. Com o término da guerra também surge, em 1945, a Organização das Nações Unidas. Tudo aponta para uma profunda preocupação com relação aos direitos humanos, criando-se instituições que tenham o objetivo de evitar que acontecimentos semelhantes àqueles ocorridos até a segunda metade do século XX não ocorram mais.

Desde então, diversas comissões da verdade foram instauradas, principalmente em países da América Latina que sofreram com a ditadura militar, como a Argentina e o Chile. Países da África também receberam comissões da verdade depois de sofrerem com guerras civis e as atrocidades decorrentes da violação maciça e sistemática de direitos humanos. Além de países do Leste Europeu depois da dissolução da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

A justiça de transição possui diversos objetivos, sendo o principal deles a restauração do direito e a extinção da cultura de impunidade na nova ordem democrática estabelecida

3 No que tange a genealogia da justiça de transição, esta se apresenta em três fases que estão correlacionadas com o fluxo histórico e político. Phase I of the genealogy, the postwar phase, began in 1945. Through its most recognized symbol, the Allied-run Nuremberg Trials, this phase reflects the triumph of transitional justice within the scheme of international law. However, this development was not enduring, due to its association with the exceptional political conditions of the postwar period: Germany’s diminished sovereignty formed the basis for international nation-building. These political conditions were unique, and would neither persist nor recur in the same manner. Accordingly, this first phase of transitional justice, associated with interstate cooperation, war crimes trials, and sanctions, ended soon after the war. […]Phase II is associated with a period of accelerated democratization and political fragmentation that has been characterized as a “third wave” of transition. Over the last quarter of the twentieth century, the collapse and disintegration of the Soviet Union led to concurrent transitions throughout much of the world. Withdrawal of Soviet-supported guerrilla forces in the late 1970s fueled the end of military rule in South America. These transitions were rapidly followed by post-1989 transitions in Eastern Europe, Africa, and Central America. While these changes are often described as isolated developments or as a series of civil wars, many of these conflicts were fostered or supported by international power politics and were therefore affected by the Soviet collapse, which ended the Cold War period of political equilibrium. […]the Phase II transitional model tends to rely upon more diverse rule-of- law understandings tied to a particular political community and local conditions. […]By the end of the twentieth century, the third steady-state phase of transitional justice emerges. This third phase is characterized by the ªn de siècle acceleration of transitional justice phenomena associated with globalization and typified by conditions of heightened political instability and violence. Transitional justice moves from the exception to the norm to become a paradigm of rule of law. In this contemporary phase, transitional jurisprudence normalizes an expanded discourse of humanitarian justice constructing a body of law associated with pervasive conflict, which contributes to laying the foundation for the emerging law of terrorism.” (TEITEL, 2002, p. 70, 71 e 72)

após períodos de restrição e violação de direitos, procurando manter a paz e fazendo com que não haja novas violações no futuro. Há outros objetivos como: reparação às vítimas, investigação dos crimes ocorridos na ordem anterior vigente, identificação dos responsáveis pelos crimes cometidos no passado e sua punição dentro das possibilidades, criação de um direito à memória que promova a reconciliação nacional, entre outros.

Para a consecução de seus objetivos, a justiça transicional necessita de instrumentos. Entre eles está o Tribunal Penal Internacional (TPI), estabelecido pelo Estatuto de Roma em 1998, que assumiu jurisdição universal para punir crimes como genocídio, crimes de guerra e crimes contra a humanidade. Além do TPI, tem tribunais estabelecidos para casos específicos como o de Serra Leoa e o da Camboja, tendo esses tribunais capacidade para investigar e processar responsáveis por violações aos direitos humanos. Outro grande instrumento é a Comissão da Verdade estabelecida em diversos países, não tendo caráter judicial e possuindo competência para descobrir e revelar os abusos sofridos pela sociedade durante períodos de atrocidades cometidas contra os direitos humanos, sendo estabelecida na África do Sul para reestabelecer a ordem democrática após o regime da apartheid e no Brasil para apurar casos ocorridos durante a ditadura militar, por exemplo. Ademais há o instituto da reparação e os memoriais.

Assim, a justiça de transição almeja restaurar a ordem democrática em países que sofreram violações de direitos, procurando fazer com que o Estado reconheça seus erros e a população conheça sua verdadeira história durante períodos negros, ademais busca fazer com que os culpados sejam reconhecidos e punidos na medida do possível e que toda a ordem seja restaurada através da reforma das instituições. Entretanto, para criar o direito à verdade e o direito à memória, a justiça de transição utiliza-se de mecanismos próprios como a revelação de conteúdo de documentos classificados como sigilosos o que muitas vezes é de difícil obtenção visto as restrições impostas pelo próprio Poder Público e os testemunhos daqueles que sobreviveram as atrocidades do passado. Entretanto, devido aos mecanismos utilizados, a justiça transicional depara-se com diversos desafios, discutidos na próxima seção.

4 As problemáticas da justiça de transição

As comissões da verdade estão cada vez mais presentes em vários países ao redor do mundo, tornando-se uma prática social bem aceita. Porém, de sua utilização surgem problemas, como: a identificação das vítimas e dos responsáveis pelo cometimento de crimes contra os direitos humanos; quem deve ser punido, os agentes superiores ou os de médio escalão; a democracia frágil presente nesses países; a corrupção nas estruturas de poder, muitas vezes barrando a implementação da justiça de transição; a concessão de anistia para aqueles que perpetraram crimes de alto grau; será que poderá haver realmente uma reparação adequada para as vítimas; entre outras problemáticas.

Nesse trabalho, terá maior importância as problemáticas advindas da busca pela verdade. Quando abordado a busca da verdade na justiça transicional há o questionamento se realmente a verdade pode ser alcançada. A verdade virá através de documentos ou somente através dos testemunhos dados pelas vítimas que sofreram as atrocidades no passado? Será esse testemunho confiável e passível de transmissão de conhecimento? Ao invés de se ter uma verdade em cada depoimento, não será o conjunto de fatos trazidos nos depoimentos das vítimas que formará não uma única verdade, mas várias verdades? Esta verdade estará ligada aos valores de justiça, restauração e perdão?

O que se pode dizer é que os efeitos da justiça de transição podem ser potencialmente reduzidos diante da existência de diversos problemas. A demora em se estabelecer as comissões, identificar as vítimas, colher testemunhos, conseguir a abertura de documentos sigilosos, chegar aos verdadeiros culpados, tudo leva um considerável tempo que pode fazer com que os efeitos da justiça transição sejam reduzidos, entretanto o esforço vale a pena na medida em que procura construir o direito à memória, levando a verdade à população. Nesse sentido, também há questionamentos relacionados com o que seria de maior importância: a paz ou a justiça, esta última interligada intimamente com a verdade?

Anteriormente, a epistemologia vivia um período onde se acreditava que o conhecimento provinha do indivíduo e que, portanto, ele poderia alcançar o pleno conhecimento. O pensamento da epistemologia tradicional mudou, dando lugar para a epistemologia social, a qual acredita que o conhecimento advém de fatores externos a mente do ser humano, não sendo capaz o homem alcançar todo o conhecimento do mundo. Dentro do movimento da epistemologia social encontra-se a epistemologia do testemunho, tema relativamente novo que vem sendo cada vez mais transportado para a seara do Direito.

A epistemologia do testemunho é um tema intimamente relacionado com a justiça de

transição, visto que é através dos testemunhos concedidos às comissões da verdade que se monta o que aconteceu no passado de uma sociedade que viveu violações de direitos humanos. Assim, questões como: os depoimentos das vítimas são verdadeiros ou não? Como esses relatos podem ser avaliados? Esses depoimentos seriam um meio de aquisição de conhecimento? Esses testemunhos seriam justificáveis por si mesmo ou necessitariam de outras provas para que sejam dados como verdadeiros? Essas entre outras perguntas são feitas quando lidamos com os testemunhos das vítimas participantes das comissões da verdade, estabelecidas em momentos de transição.

O testemunho é um fenômeno social, cada vez mais discutido dentro da epistemologia

social. Seu problema central consiste na capacidade de transmissão ou justificação de conhecimento (RODRIGUES, 2012, p. 85). Pode ser interpretado como uma transferência de uma crença de uma ou mais pessoas para outra ou mais pessoas. O testemunho está relacionado com a asserção, uma espécie de ação pensada baseada nas próprias crenças do sujeito que a realiza, fazendo com que o sujeito que a realiza comprometa-se com o que é dito. Assim, “é aceito pela comunidade epistêmica que o testemunho é a asserção de uma sentença declarativa realizada por um falante destinada a um ouvinte ou ouvintes.(RODRIGUES, 2012, p. 98) Desse modo, tende-se a acreditar que o depoimento de uma maneira geral serve como transmissor ou gerador de conhecimento, tendo em vista que grande parte do que sabemos possuem base testemunhal, o que faz com que dependamos do testemunho para formular nossas crenças e o nosso conhecimento (RODRIGUES, 2012, p. 98-99). Salienta Jennifer Lackey (2007, p. 237) com relação à aquisição de conhecimento através do testemunho e a sua confiabilidade:

While the concept of trust has received much attention in the epistemology of testimony, it is often understood as having epistemic significance only in so far as it is grounded in appropriate evidence or reasons. Paul Faulkner challenges this widespread view in “A Genealogy of Trust,” arguing that trusting a speaker involves the adoption of a credulous attitude that neither needs to be based on evidence nor needs to be responsive to counterevidence. Instead, Faulkner claims that this attitude of trust is basic and is thus not reducible to the belief that the speaker in question is a trustworthy or reliable epistemic source. Nonetheless, given that trust is a discriminating attitude that is not adopted universally, trust can provide reasons for accepting a speaker’s testimony that are epistemically evaluable. The reasons provided by trust can, therefore, be either epistemically good or bad. Given this, being based on trust identifies testimony as a unique way of acquiring knowledge.

Entretanto, ao declarar que o testemunho pode gerar conhecimento ou justificação surge o problema da credibilidade do testemunho. Podemos nos deparar com testemunhos verdadeiros, onde haverá conhecimento transmitido, mas podemos também nos deparar com falsos testemunhos que faz com que não haja transmissão de conhecimento. Quando em questão encontra-se a credibilidade do testemunho, é bom deixar claro que o que se coloca em dúvida é o que é testemunhado e não a testemunha em si 4 . Há casos em que se desconsidera o testemunho, o que necessariamente não implica em não haver conhecimento, pois pode haver razões para que se acredite que o que está sendo testemunhado é falso ou pode haver razões para que a testemunha seja desconsiderada devido às suas qualificações. Desse modo, o responsável por aferir se o testemunho deve ou não ser levado em consideração deverá sopesar os riscos práticos de desconsiderar e considerar o depoimento. Nesse sentido, não aceitar um testemunho pode significar que o ouvinte não está em condições de deferir o relatado.

Além do problema da credibilidade do testemunho, há a questão da memória e da percepção que a testemunha tem no momento do ocorrido. No caso da percepção, a testemunha pode por muitas razões ter percebido o ocorrido de maneira diferente, errônea. Já com relação ao depoimento feito muitos anos após o ocorrido, a memória da testemunha pode não corresponder ao que de fato ocorreu, pois a testemunha pode não ser mais capaz de lembrar com tantos detalhes ou pode não conseguir descrever corretamente o que realmente aconteceu. Ademais a testemunha pode ser induzida a erro quando interrogada além de poder ser contaminada por outras pessoas que deram seu depoimento sobre o mesmo evento (SPELLMAN; SCHAUER, 2012, p. 8 - 9).

Na justiça de transição não ocorre diferente, o testemunho pode ser considerado como uma forma de aquisição de conhecimento, uma vez que as vítimas que relatam seus depoimentos presenciaram de alguma forma o que ocorreu no passado. Será o relato dessas vítimas que ajudaram a reconstruir o que aconteceu no passado de uma determinada sociedade que passou por um período de violações de direitos. Porém, não só o testemunho é levado em consideração. De uma maneira geral, as comissões da verdade possuem acesso aos documentos produzidos no passado, de certo que nem sempre elas conseguem acesso aos mesmos, pois o Estado coloca obstáculos para que esses documentos não sejam levados ao

4 Assegura Arnon Keren (2007, p. 373) com relação a distinção entre testemunho e testemunha: “the normal way of relying on a speaker’s testimony involves believing the speaker, a relation which is not to be confused with that of believing that what the speaker said is true.”

público, fazendo com que os mesmos continuem sob sigilo. Entretanto, quando se coloca que

a verdade pode ser alcançada através dos testemunhos das vítimas e com a análise de

documentos produzidos durante o ocorrido, estamos diante de mais um problema, visto que tais documentos também foram produzidos levando-se em consideração o relato ou pesquisa

de alguém, ou seja, foi também baseado em crenças e conhecimento de alguém. Na realidade,

o testemunho transforma-se em um documento e é esse documento que ajudará a compor o conhecimento de outrem.

Assim, problemas como o da credibilidade do testemunho, da percepção que se tem do ocorrido e da memória da vítima também fazem parte dos testemunhos realizados frente às comissões da verdade.

O processo ocorrido na justiça de transição é um pouco distinto daquele feito pelos tribunais comuns. No processo comum, as regras para a admissão de uma testemunha em geral encontram-se nas leis do país, enquanto que na justiça de transição não há uma regra pré-determinada, as testemunhas são as vítimas que passaram por atrocidades cometidas pelo Estado, portanto, seu depoimento contém rastros de inconformismo com o ocorrido, sofrimento, sentimento de injustiça, elementos estes que fazem com que o relato dessas vítimas seja um momento de catarse para as mesmas. Ao avaliar esses testemunhos não se tem meio de dissociar o psicológico da testemunha, o que pode afetar a credibilidade do testemunho. Por isso, há um binômio para reconstruir os fatos passados, que são os testemunhos e documentos. Por sua vez, o psicológico também pode intervir na memória da vítima, assim como, em sua percepção do ocorrido.

Outro fator que se mostra interessante é o papel do juiz nas comissões da verdade. Como já dito, o processo comum se distinguem do processo realizado na justiça de transição.

O juiz no processo comum julga tendo fatos e provas, além de dispositivos normativos que

embasaram sua decisão. Assim, o adjudica a verdade, utilizando-se das provas e dos fatos narrados pelas partes, somando-se a isso, ele julga com base em suas experiências passadas, o que constitui uma deferência epistêmica. Assim, o juiz ao proferir uma decisão, gerará consequências para as partes, podendo essa sentença ser executada. No processo que acontece na justiça de transição é um distinto, uma vez que o juiz não possui um papel forte capaz de

impor o direito. Podemos dizer que seu papel é um pouco mais formal, não chegando a ser formal por completo, visto que ele está lá para escutar as vítimas, podendo proferir uma sentença que muitas vezes não poderá ser executada por completo, tendo em vista os poderes

concedidos às comissões da verdade, sendo esses poderes nunca equiparados por completo aos dos tribunais normais. Ai encontra-se um dos problemas das comissões da verdade, que muitas vezes não possuem poderes para punir os que perpetraram atrocidades contra a sociedade. A justiça de transição visa reconstruir o passado, fazendo com que esse passado marcado por violência seja evitado no futuro, seu modo de reparação consiste muitas vezes em conceder indenizações, a punição dos culpados é muito difícil de ser realizado na prática, tendo, assim, os juízes um papel mais simbólico na justiça de transição.

Portanto, o testemunho trazido pelas vítimas nas comissões da verdade possui um papel central na busca pela verdade, eles constituem uma das formas de aquisição de conhecimento do que ocorreu no passado. Essa busca pela verdade não pode se dar de maneira completa, visto que se identificam problemas no modo como esses relatos serão avaliados. Assim, a verdade que se tem não é de maneira alguma absoluta. A meu ver temos a reconstrução de fatos passados, não que esses fatos constituam necessariamente a verdade por completo, mas podem ser tidos como uma parcela de verdade. No momento de analise o responsável tem que ter em mente que há a possibilidade de erros e que tudo deve ser sopesado e avaliado com cuidado, porém o risco nunca deixará de existir nesse tipo de reconstrução da verdade, que fará parte da memória de uma sociedade.

5 Conclusão

A justiça de transição visa reconstruir um passado, reparar as pessoas que viveram e sofreram com as violações de direitos humanos em um determinado período da história dessa sociedade. Dessa maneira, a justiça de transição está correlacionada com momentos históricos e políticos vividos pela sociedade. Relaciona-se diretamente com a dimensão política encontrada no valor social da verdade.

Para alcançar o fim proposto pela justiça transicional, há diversos meios. Dentro destes meios destacam-se as comissões da verdade, cujo papel é importante, na medida em que tenta reconstruir o passado com base em testemunhos daqueles que viveram no período de violações de direitos e na aquisição de documentos, cuja abertura é muitas vezes impedida ou dificultada pelo Poder Público. Assim, a epistemologia do testemunho possui um papel

central na busca pela verdade, sendo o testemunho uma das formas mais eficazes de aquisição de conhecimento 5 , bastando perguntar àquele que realmente sabe.

Entretanto, dificuldades se apresentam quando abordado a questão dos testemunhos, pois conceber o testemunho como meio de conhecimento e, por sua vez, chegar a uma verdade, é acreditar que o que está sendo dito é verdade, é dar credibilidade ao testemunho. Diz Arnon Keren (2007, p. 369): “the belief of the listener, which seems to constitute knowledge, is formed in the normal way in which testimonial beliefs are formed: by believing the speaker, or trusting her.” Outros problemas podem ser levantados como a percepção e a memória da vítima.

O que se pode dizer é os relatos das vítimas devem ser analisados com cuidado, o responsável deve ter em mente os riscos e os benefícios que existem ao ser levado em conta um depoimento. As questões psicológicas das vítimas devem também sempre entrar no contexto do testemunho, pois nas comissões da verdade as testemunhas são vítimas de atrocidades ocorridas no passado, o que faz com que a justiça de transição tenha uma importância social, já que as vítimas estão ali com o propósito de relatar o que lhes ocorreu, e a partir disso que se pode reconstruir o passado vivido por uma sociedade. Assim, um depoimento individual pode conter um sentimento coletivo, não só uma pessoa pode ter passado pela circunstância que está sendo relatada.

Desse modo, apesar dos riscos envolvidos o testemunho não deixa de ser uma forma

de obter conhecimento. Para isso ocorrer, deve-se ter em mente que o que está sendo relatado

é presumido como verdadeiro. Não há como saber, sem dúvidas, se o que está sendo relatado

é verdadeiro ou falso. E é essa verdade encontrada em um testemunho ajudará a formar uma

memória juntamente com documentos em posse do Estado. Essa memória é um direito da sociedade, assim como, o direito à verdade. Assim, os testemunhos constituem fatos que junto com documentos constituirão uma parcela da verdade, não podendo a verdade ser absoluta.

5 Testimony is about communication if no information is (potentially) conveyed by an utterance, then that utterance is not testimonial; testimony always involves more than one party it is (roughly) about the transmission of information from speaker to audience; testimonial utterances report (alleged) observations […] if an utterance is not assertoric, then it is not testimonial; testimony is largely honest we relatively rarely try to deceive each other by means of testimonial utterances; and soon. Our knowledge of testimony is fairly extensive, and it is plausible to attribute this knowledge (in part) to successful projection of the properties of testimonial utterances. (MICHAELIAN, 2008, p. 183)

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