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3º COLÓQUIO DO GRUPO DE ESTUDOS LITERÁRIOS CONTEMPORÂNEOS: UM COSMOPOLITISMO NOS TRÓPICOS e 100 ANOS

3º COLÓQUIO DO GRUPO DE ESTUDOS LITERÁRIOS CONTEMPORÂNEOS:

UM COSMOPOLITISMO NOS TRÓPICOS

e

100 ANOS DE AFRÂNIO COUTINHO (1911- 2011): A CRÍTICA LITERÁRIA NO BRASIL

O CONTO, O NARRADOR E A NARRATIVA MODERNA E PÓS-MODERNA EM SILVIANO SANTIAGO E WALTER BENJAMIN

Eliseu Ferreira da Silva

1 INTRODUÇÃO

Walter Benjamin no texto inicial do ensaio, O Narrador, deixa claro que “Por

mais familiar que seja seu nome, o narrador não está de fato presente entre nós, em sua

atualidade viva. Ele é algo de distante, e que se distancia ainda mais [

1987, p. 197), dito isto, percebemos então que para ele, descrever um narrador não significa trazê-lo mais perto de nós, e sim, pelo contrário, aumentar a distância que nos separa dele” (BENJAMIN, 1987, p. 197). Para Benjamin, torna-se cada vez mais rara a possibilidade de se encontrar alguém verdadeiramente capaz de historiar algum evento. O medo e o embaraço é frequente quando se faz ouvir num círculo o desejo de que seja narrada uma história qualquer, como se tivessem tirado de todos nós um poder aparentemente inato: a capacidade de se trocarem, através das palavras, as experiências vividas. A arte de narrar esta fadada a extinção segundo o próprio Benjamin.

]” (BENJAMIN,

É a experiência de que a arte de narrar está em vias de extinção. São cada vez mais raras as pessoas que sabem narrar devidamente. Quando se pede num grupo que alguém narre alguma coisa, o embaraço se generaliza. É como se estivéssemos privados de uma faculdade que nos parecia segura e inalienável: a faculdade de intercambiar experiências. (BENJAMIN, 1987, p. 197)

Para Benjamin, uma das causas dessa situação advém do fato de as experiências terem perdido seu valor, visto esta ser transmitida por via oral, a forma primeira do que hoje conhecemos como conto, e fonte originária de todas as narrativas.

ISBN 978-85-7395-210-0

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2 A IMPORTÂNCIA DO NARRADOR E DA NARRATIVA EM WALTER BENJAMIN E SILVIANO SANTIAGO

Iniciando pelo texto supracitado de Walter Benjamin, onde se destacam esses dois modelos clássicos de narrador, que se penetram mutuamente de múltiplas maneiras, aqui exemplificados pelos seus representantes clássicos, mestres na narrativa, segundo Herrera (apud COUTO, Edvaldo Souza; MILANI DAMIÃO, Carla. 2008 p. 276):

pelo camponês sedentário e pelo marinheiro comerciante. O primeiro traz a sabedoria verticalizada no tempo pelo conhecimento de sua terra, suas histórias e tradições. O outro que se desloca no espaço e traz noticias de longe, da vivência dos lugares por onde passou.

Toda e qualquer ligação ao conto Noite de Almirante, no livro Histórias da meia noite, de Machado de Assis não será mera coincidência, neste temos uma história onde o autor ironiza seu personagem ao narrar suas aventuras na tentativa de encantar e reconquistar o seu amor perdido, sendo este esforço inútil. Estabelece-se então um paralelo com o escritor. Benjamin (1987, p. 198), diz-nos ainda que "Quem viaja tem muito que contar", segundo o povo, por isso imagina o narrador como alguém que vem de longe, mas também aquele que ganhou a vida honestamente sem sair do seu local, do seu país e conhece as suas histórias e tradições. Na realidade, esses dois estilos de vida produziram de certo modo suas respectivas famílias de narradores. Cada uma delas conservou, no decorrer dos séculos, suas características próprias.” (BENJAMIN, 1987, p. 199). Dessa forma, pode-se considerar a existência de dois principais tipos de narradores: os que viajaram por muitos lugares e os que permaneceram por muito tempo em um único lugar, desencadeando assim nas formas narrativas que se conhecem. Com isso, destaca-se o valor da experiência vivida por alguém e também presenciada como estrutura primordial da narrativa, principalmente a curta, Walter Benjamim afirma que:

O grande narrador terá sempre as suas raízes no povo, em primeiro lugar nas camadas artesanais. Mas assim como essas abrangem os artífices camponeses, marítimos e urbanos, nos mais diversos estágios do seu desenvolvimento econômico e técnico, também se graduam muitas vezes os conceitos, nos quais é transmitido o resultado de sua experiência. (BENJAMIN, 1987, p. 214)

3º Colóquio do Grupo de Estudos Literários Contemporâneos: um cosmopolitismo nos trópicos e 100 anos de Afrânio Coutinho: A crítica literária no Brasil, 3., 2012, Feira de Santana. Anais. Feira de Santana: Uefs, 2012, p. 166-175.

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Tomando por base o texto de Silviano Santiago, O Narrador Pós-Moderno, percebemos que ele através da análise dos contos de Edilberto Coutinho, discute e debate qual o papel do narrador pós-moderno em contraposição ao narrador benjaminiano. Ao questionar e “discutir exaustivamente” uma das questões do narrador pós-moderno, que é se “quem narra a história é quem a experimenta ou quem a vê” (SANTIAGO, 1989, p. 38), ou melhor, se é aquele que narra as ações a partir de um conhecimento adquirido, ou a partir de observações acerca desse conhecimento, Santiago diz que num primeiro caso, o narrador transmite a vivência, e no outro ele passa a informação a outra pessoa podendo-se então narrar uma ação dentro e fora dela.

Santiago também questiona a autenticidade do narrador a partir do seguinte texto “narro a experiência de jogador de futebol porque sou jogador de futebol; narro as experiências de um jogador de futebol por que acostumei-me a observá-lo.” (SANTIAGO, 1989, p. 38) então temos dois casos de narrativa, a primeira onde a narrativa expressa a experiência de uma ação, e no outro onde temos a experiência proporcionada por um olhar lançado. E num caso a ação é a experiência que temos dela, sendo isso que vai dar autenticidade ao que é relatado, enquanto que no outro, é incerto falarmos de autenticidade porque o que temos é o relato conseguido a partir da observação de outro, um terceiro: O leitor. Ele encerra com um questionamento acerca da noção de autenticidade. “Só é autêntico o que eu narro a partir do que experimento, ou pode ser autêntico o que narro e conheço por ter observado?” (SANTIAGO, 1989, p. 38)

Para demonstrar de forma mais clara suas discussões, sobretudo ao falar sobre a ficção de Edilberto Coutinho, Santiago diz que esta, dá um passo a mais no que Benjamin chama de processo de rechaça e distanciamento do narrador clássico, onde segundo o modelo que o mesmo fez da obra de Nikolai Leskov, é este processo que torna o narrador pós-moderno. Benjamin (1987, p. 198) fala ainda que “A experiência que passa de pessoa a pessoa é a fonte a que recorreram todos os narradores. E, entre as narrativas escritas, as melhores são as que menos se distinguem das histórias orais contadas pelos inúmeros narradores anônimos.” E essa ‘faculdade de intercambiar experiências’ está em baixa principalmente porque “as ações da experiência estão em baixa, e tudo indica que continuarão caindo até que seu valor desapareça de todo(BENJAMIN, 1987, p.198), e isso tem a ver com a modernização da sociedade, a medida que ela evolui fica mais difícil a troca de experiências vividas e opiniões vivenciadas, já não se narra o que foi experimentado, o que foi vivido e para Benjamin

3º Colóquio do Grupo de Estudos Literários Contemporâneos: um cosmopolitismo nos trópicos e 100 anos de Afrânio Coutinho: A crítica literária no Brasil, 3., 2012, Feira de Santana. Anais. Feira de Santana: Uefs, 2012, p. 166-175.

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isso está visível ao se abrir um jornal, e percebermos o seu nível cada vez mais baixo da noite pro dia, e as imagens do mundo exterior e do mundo ético que sofreram transformações nunca antes imagináveis. Um exemplo dessa incomunicabilidade e da troca de experiências e vivências pode ser observado ao fim da segunda guerra, quando “os combatentes voltaram mudos do campo de batalha e não mais ricos, e sim mais pobres em experiência comunicável”. (BENJAMIN, 1989, p. 198). Segundo Benjamin, podem-se apresentar três estágios evolutivos da história do narrador. O primeiro estágio é o do narrador clássico, oral, cujo ofício é dar ao seu ouvinte a oportunidade de troca de experiência, segundo Santiago (1989, p. 39), “o único valorizado no ensaio”. O segundo é o do narrador do romance, cujo papel passou a ser a de não mais poder falar de maneira exemplar ao seu leitor. Neste, o escritor não tem mais o contato/intimidade, e nem uma troca de experiência com seu leitor. E o terceiro é o do narrador como jornalista, ou seja, aquele que ao narrar só transmite a informação, porque escreve não para narrar a ação da própria experiência, mas o que aconteceu com A ou B, em tal momento, tal lugar e tal hora. Este Benjamin desvaloriza (mas o pós-moderno valoriza), o último narrador. Para Benjamin (1989, p. 205)

A narrativa, que durante tanto tempo floresceu num meio de artesão - no campo, no mar e na cidade -, é ela própria, num certo sentido, uma forma artesanal de comunicação. Ela não está interessada em transmitir o "puro em si" da coisa narrada como uma informação ou um relatório. Ela mergulha a coisa na vida do narrador para em seguida retirá-la dele. Assim se imprime na narrativa a marca do narrador, como a mão do oleiro na argila do vaso.

No meio disso tudo fica o narrador do romance, que quer ser impessoal e objetivo diante da coisa narrada, mas confessa-se, como o fez Flaubert de forma padrão:

Madame Bovary, c’est moi” (SANTIAGO, 1989, p. 39). Dando sequência ao raciocínio de Benjamin, para ele o narrador tem “senso pratico”, pretende ensinar algo, percebemos que o ponto principal em torno do qual gira o “embelezamento” da narrativa clássica hoje é a perda gradual e constante da ‘dimensão utilitária’, a forma latente, que está na verdadeira narrativa. Segundo Benjamin (1987, p.

200-201)

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Essa utilidade [da narrativa] pode consistir seja num ensinamento

moral, seja numa sugestão prática, seja num provérbio ou numa norma de vida de qualquer maneira, o narrador é um homem que sabe dar

conselhos. [

O conselho tecido na substância viva da existência tem

um nome: sabedoria. A arte de narrar está definhando porque a sabedoria o lado épico da verdade está em extinção.

]

Processo esse que segundo o próprio Benjamin, vem de longe, é um ‘sintoma da decadência’ ou uma característica ‘moderna’, que expulsa gradualmente a narrativa do círculo do discurso vivo, e dá uma nova beleza ao que está sumindo, e tem-se desenvolvido ao mesmo tempo em que “toda uma evolução secular das forças produtivas”, (BENJAMIN, 1987, p. 201). Santiago (1989, p. 41) diz não se tratar de

trata-se antes de julgar o

belo, o que foi e ainda o é no caso, o narrador clássico , e de dar conta do que apareceu como problemático ontem , o narrador do

romance , e que aparece ainda mais problemático hoje o narrador pós-moderno.

olhar para trás e repetir o ontem hoje [

]

A teoria de Benjamin curva-se sobre a narrativa e os embates que decorrem das experiências entre o moderno e tradicional e abre as discussões sobre o lugar do narrador nas escritas pós-modernas. A morte da narrativa com o surgimento do romance no início do período moderno e, nessa perspectiva, Benjamin vê na narrativa um significado maior do que o que lhe é costumeiramente atribuído: a narrativa carrega consigo um caráter histórico e sociológico que se perde com o advento do Romantismo. Vejamos:

O primeiro indício da evolução que vai culminar na morte da narrativa

A

tradição oral, patrimônio da poesia épica, tem uma natureza fundamentalmente distinta da que caracteriza o romance. O que distingue o romance de todas as outras formas de prosa contos de

fadas, lendas e mesmo novelas é que ele nem precede da tradição oral nem a alimenta. Ele se distingue, especialmente, da narrativa. O narrador retira da experiência o que ele conta: sua própria experiência ou a relatada pelos outros. E incorpora as coisas narradas à

experiência de seus ouvintes. [

A origem do romance é o indivíduo

isolado, que não pode mais falar exemplarmente sobre suas preocupações mais importantes e que não recebe conselhos e nem sabe dá-los. (BENJAMIN, 1987, p. 201)

é o surgimento do romance no início do período moderno [

]

]

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O valor da experiência está presente em boa parte dos escritos de Benjamin, onde ele procura aliar experiência e memória para, a partir delas, ocupar-se da importância da narração oral. Nós somos feitos de narrativas. Nossa existência narra nossos atos cotidianos no desenrolar dos enredos possíveis, na nossa imaginação, nos devaneios, nos sonhos que ganham formato de objeto construído a semelhança de um filme. Somos compostos de uma rede de fios entrecruzados onde temos as histórias familiares, sócio- culturais, afetivas, e ainda do que não podemos ouvir, falar ou do que lemos, fantasiamos, do nosso passado rememorado e revivido a todo instante em nossas narrativas cotidianas. No aforismo A caminho do planetário, encontramos a indignação benjaminiana a respeito da alienação do homem diante da natureza:

Isso quer dizer, porém, que somente na comunidade o homem pode comunicar em embriaguez com o cosmos. É o ameaçador descaminho dos modernos considerar essa experiência como irrelevante, como descartável, e deixá-la por conta do indivíduo como devaneio místico em belas noites estreladas. Não, ela chega sempre e sempre de novo a seu termo de vencimento, e então povos e gerações lhe escapam tão pouco como se patenteou de maneira mais terrível na última guerra, que foi um ensaio de novos, inauditos esponsais com as potências cósmicas. Massas humanas, gases, forças elétricas foram lançadas ao campo aberto, correntes de alta frequência atravessaram a paisagem, novos astros ergueram-se no céu, espaço aéreo e profundezas marítimas ferveram de propulsores, e por toda parte cavaram-se poços sacrificiais na Mãe Terra. Esse grande corte feito ao cosmos cumpriu- se pela primeira vez em escala planetária, ou seja, no espírito da técnica. Mas, porque a avidez de lucro da classe dominante pensava resgatar nela sua vontade, a técnica traiu a humanidade e transformou o leito de núpcias em mar de sangue. (BENJAMIN, 1995, p. 68-69)

Observa-se então que os fundamentos da modernidade, em tudo o que o homem acreditou e que poderia a partir do conhecimento controlar a natureza, é uma grande ilusão. A variação com que as coisas acontecem no mundo moderno muitas vezes leva à falta do diálogo entre os homens, sendo este, para Benjamin um dos caminhos para a barbárie e a guerra. Ele continua:

Dominação da Natureza, assim ensinam os imperialistas, é o sentido de toda técnica. Quem, porém, confiaria em um mestre-escola que declarasse a dominação das crianças pelos adultos como o sentido de educação? Não é a educação, antes de tudo, a indispensável ordenação

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da relação entre as gerações e, portanto, se se quer falar de dominação, a dominação das relações entre gerações, e não das crianças? E assim também a técnica não é a dominação da Natureza: é dominação da relação entre Natureza e humanidade. Os homens como espécie está, decerto, há milênios, no fim de sua evolução; mas a humanidade como espécie está no começo. (BENJAMIN, 1995, p. 68-69)

Segundo Cruz (2007, p. 22), é a partir deste pensamento que Benjamin constroi o ensaio O Narrador.

A alienação do homem diante da natureza, as consequências da perda da capacidade de narrar levam ao enfraquecimento da tradição oral, e consequentemente ao abalo da experiência. A alienação do homem a partir da linguagem. Essa moderna alienação do mundo foi tão violenta, que atingiu a mais mundana atividade humana que é o trabalho.

Por isso, Benjamin, narra que a experiência do trabalho é o que leva o homem a ter contato com a terra, a comunidade, e desta relação, as trocas de experiências e o fortalecimento da tradição a que eles pertenciam” (CRUZ, 2007, p. 24). Dito isto, talvez não por acaso Benjamin comece O Narrador falando do trabalho, ao citar dois exemplos: o primeiro é do camponês sedentário, e o outro, do marinheiro comerciante. Um passou toda a sua vida em contato com a terra, dela tirando seu sustento, assim como construiu através do trabalho uma experiência, que a dividiu com seu aprendiz e que pela transmissão oral do conhecimento recebe um saber, uma tradição. Já o marinheiro comerciante, através de suas longas viagens traz novas lições, experiências, e tradições. Para Cruz (2007, p. 24), esta é uma oportunidade única de comparação entre o antigo e o novo. É essa relação que possibilita ao narrador compreender seu papel na história. Ambos são exemplos de caráter prático, tanto do conhecimento quanto dos valores orais.

3 CONCLUSÃO

Para Benjamin, a voz sempre exerceu no meio humano uma função importante, mas com o surgimento da imprensa ela vai aos poucos perdendo sua importância, e a narração para ele representa uma experiência existencial do homem dentro de uma

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tradição de parte da memória, em que a narração oral é fundamental para a troca de experiências. E da relação entre narrador e ouvinte há o interesse em preservar o que foi narrado, a narração não esta condicionada apenas à voz humana, mas faz parte dela a mão com seus gestos aprendidos na experiência do trabalho, que de várias formas sustenta o fluxo do que é dito. A matéria do narrador é a vida humana. Por isso que quando Benjamin, diz que a arte de narrar está chegando ao fim, ele está apenas se baseando nas experiências cotidianas, na vida humana, para ele, há uma crise estabelecida, onde as causas são o desenvolvimento contínuo da técnica e a privatização da vida, sendo que estas se desenvolveram uma em detrimento da outra. A técnica se desenvolveu de tal forma, que a própria vida privada se torna alvo de sua violenta intervenção. O privado passou a ser público, e o público passou a ser privado, e a subjetividade, que é determinante para o desenvolvimento do homem, é menosprezada em favor da objetividade. Desenvolvimento tecnológico, produção industrial, alienação do homem pela linguagem, tudo isso faz parte da crítica levantada por Benjamin em O Narrador Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. Finalizando, digo que segundo o próprio Benjamin, contar estórias sempre foi a arte de contá-las de novo, e ela se perde quando as histórias não são mais conservadas, ou porque ninguém mais tece, ou ninguém mais fia, e para Santiago (1989, p. 51)

O espetáculo torna a ação representação. Representação nas suas variantes lúdicas, como futebol, teatro, dança, música popular, etc.; e também nas suas variantes técnicas, como cinema, televisão, palavra impressa, etc.; Os personagens observados, até então chamados de atuantes, passam a ser atores do grande drama da representação humana, exprimindo-se através de ações ensaiadas, produto de uma arte, a arte de representar. Para falar das várias facetas dessa arte é que o narrador pós-moderno ele mesmo detendo a arte da palavra escrita existe. Ele narra ações ensaiadas que existem no lugar (o palco) e no tempo (o da juventude) em que lhes é permitido existir.

Os narradores são todos e qualquer um, essa é a condição do leitor, pois qualquer texto também é de todos e de qualquer um.

RESUMO

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Tomando por base o texto de Silviano Santiago, O Narrador Pós-Moderno, percebemos que ele através da análise dos contos de Edilberto Coutinho, discute e debate qual o papel do narrador pós-moderno em contraposição ao narrador benjaminiano. Por isso debateremos e analisaremos alguns aspectos do pensamento do filósofo Walter Benjamin sobre o narrador, tema esse presente no ensaio O Narrador- Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov reproduzido aqui no livro Magia e técnica, arte e política (1987), que reconhece a importância da narração oral, e nesta, a possibilidade de transmissibilidade da verdade. Outro texto relevante a tratar do narrador e da narrativa, está na obra de Silviano Santiago Nas malhas da letra. Neste, ele trata especificamente da estrutura narrativa do conto pós-moderno e, em menor escala, de suas personagens. Também perpassaremos por outros textos de teóricos que nos mostram o papel do narrador no conto moderno e pós -moderno em Walter Benjamin como Edvaldo Souza Couto/Carla Milani Damião, e Ricardo Souza Cruz, mais também, segundo esses teóricos, os tipos e formas de narrativa. PALAVRAS-CHAVE: Edilberto Coutinho. Narrador pós-moderno. Silviano Santiago

ABSTRACT

Based on the text of Silviano Santiago, O Narrador Pós-Moderno, we perceive that him behind the tales Edilberto Coutinho, discuss and debate the role of the narrator postmodern as opposed to the narrator of Benjamin. Therefore we will discuss and analyze some aspects of the thought of the philosopher Walter Benjamin about the narrator, a theme present in this essay O Narrador- Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov - reproduced here in the book Magia e técnica, arte e política (1987) which recognizes the importance of storytelling, and this, the possibility of transmission of truth. Another relevant text dealing with the narrator and the narrative is the work of Santiago Silviano Nas malhas da letra. In this he deals specifically with the narrative structure of the post-modern tale, and to a lesser extent, of his characters. Also we will pass by other theoretical texts that show us the role of the narrator in the story post-modern and modern on Walter Benjamin like Edvaldo Souza Couto/ Carla Milani Damião, and Ricardo Souza Cruz, but also, according to these

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theorists, the

KEYWORDS: Edilberto Coutinho. Post modern narrator. Silviano Santiago.

types

and

forms of narrative.

BIBLIOGRAFIA

BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas: Magia e técnica, arte e política. 2. ed. Trad. Sergio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1986.

BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas II: Rua de mão única. 5. ed. Trad. Rubens Rodrigues Torres Filho; José Carlos Martins Barbosa. São Paulo: Brasiliense, 1995.

CRUZ, Ricardo Souza. Walter Benjamin: o valor da narração e o papel do justo. 2007. 132 p. Dissertação (Mestrado em Filosofia) - Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2007.

HERRERA, Antonia Torreão. Considerações sobre narrativa e narrador em colóquio com Walter Benjamin. In: Walter Benjamin: Formas de percepção estética na modernidade. COUTO, Edvaldo Souza; MILANI Damião, Carla (org.). Salvador:

Quarteto Editora. P. 273-288. 2008.

SANTIAGO, Silviano. Nas malhas da letra. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

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