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In - dependência

20010130
Reúnem-se aqui alguns recortes da imprensa mais ou menos visível que, nos últimos dois meses toca-
ram o problema da dependência da droga. Por isso, resolvi chamar a este "jornal" - In-dependência.
Porque nos põe dentro -in- do problema da dependência como é vista por vários lados e, porque, nos
arma com a independência necessária a não sermos constrangidos a pensar com a mentalidade que mais
adeptos arrebanha, isto é, com uma mentalidade que é constantemente construída activa ou passiva-
mente escondendo factos, revelando apenas alguns e, sobretudo, bombardeando com uma opinião
dominante e dominadora.
Uma frase célebre de John Keneth Galbraith "The conventional way of thinking protects us from the
painful job of thinking" põe-nos de sobreaviso para o trabalho que dá combater esta forma de depen-
dência - a dependência da opinião dominante. A arma é avaliar tudo, de forma crítica, isto é, confron-
tando o que vemos, ouvimos e lemos, com o nosso juízo fortalecido pela aprendizagem, como sabia-
mente nos aconselha Gandhi.
Pedro Aguiar Pinto
Vive como se fosses morrer amanhã. Aprende como se fosses viver eternamente
Mahatma Gandhi

Droga diminui em todo o mundo__________ 1


Droga diminui em todo o
O efeito do álcool______________________ 2
OS PROBLEMAS DA DROGA ___________ 2 mundo
Pobreza É a Segunda Preocupação dos In: Expresso-on-line 20010122
16:42
Portugueses __________________________ 3
ONU estima 180 milhões de consumidores
e… a droga é a primeira!________________ 3 O número de países produtores de droga está a diminuir
Casa de Chuto por Decreto ______________ 3 e o uso de cocaína e heroína baixou em todo o mundo,
Tráfico de Droga: Um Apelo _____________ 4 ainda que existam cerca de 180 milhões de consumido-
res. Estas são as principais conclusões do relatório anual
Governo prepara distribuição de seringas nas das Nações Unidas, divulgado hoje, em Viena, que des-
prisões ______________________________ 4 taca o Afeganistão como líder dos países fornecedores
Hospital de chuto ______________________ 4 de droga.
Bélgica Despenaliza Consumo de "Cannabis" 5 O cannabis é a droga mais utilizada (144 milhões), se-
guida dos estimulantes e anfetaminas (20 milhões), da
Reduzir Os Riscos da Droga _____________ 5 cocaína (14 milhões) e dos opiáceos (13,5 milhões).
Com Nome Próprio ____________________ 6 O gabinete das Nações Unidas para o controlo das dro-
Os Próximos Passos____________________ 6 gas e prevenção do crime (UNDCP) destaca uma dimi-
nuição de 70 por cento no consumo de cocaína nos Es-
Como Vão Ser as Salas de Injecção________ 6 tados Unidos entre 1985 e 1999, a estabilização do con-
Números ____________________________ 7 sumo de heroína na Alemanha e uma baixa na Espanha
Distribuição por áreas das verbas para 2001 e Itália.
(percentagens) ________________________ 7 O UNDPC sublinha ainda, uma diminuição do número
de mortes por overdose em França, Espanha, Alemanha,
A Política do Governo para a Redução de Riscos Itália, Áustria, Luxemburgo e Suiça.
____________________________________ 7 As anfetaminas foram maioritariamente consumidas na
"E Lá Dão Droga"? ___________________ 7 Ásia (12 por cento da população está em tratamento
Especialistas falam sobre modelo "Minnesota" 8 médico), onde se destaca o Japão, com um aumento de
90 por cento.
Os Doze Passos _______________________ 8
O continente africano registou um maior consumo de
Polícias prevêm aumento do tráfico de droga 9 cannabis, (61 por cento), enquanto que na Europa se
Casas de Chuto-2 ______________________ 9 destaca a Holanda e, sobretudo, Amsterdão, (21 por
cento), onde a droga está despenalizada.
Na Europa ocidental, cerca de 1,2 milhões de pessoas
consomem heroína e nos Estados Unidos são cerca de
um milhão os consumidores.

In - dependência terça-feira, 30 de Janeiro de 2001 pág. 1


Ainda segundo o relatório, os países onde é produzido o que também não ultrapassa este valor em carga de pe-
opio têm reduzido a sua produção desde 1988, sendo o dagogia.
Paquistão, o país onde esse esforço tem sido mais visí- Das duas uma: ou o Governo mudou de ideias ou não
vel. foi capaz de criar condições para que isso acontecesse
A Bolívia tem reduzido a sua área de produção de coca, ao longo destes cinco anos. O resultado é esta lamentá-
em 78 por cento, desde 1997. vel recorrência a medidas dirigistas que só provam a
Segundo as Nações Unidas, também o Perú, país de ineficácia ou a ausência de reformas sérias na educação
onde a maioria da cocaína é originária, tem vindo a cor- cívica. Dos novos e dos velhos.
tar as exportações ilícitas de drogas, em 50 por cento, ao
longo das últimas décadas.
OS PROBLEMAS DA
O efeito do álcool DROGA
Como tantas outras substâncias, em si boas, as
A contradição legislativa confunde toda a gente drogas podem ser usadas para o bem e para o mal,
João Cepeda para gerarem vida ou gerarem morte. Depende da
In: DN, 001104 conta, peso e medida com que são usadas.
Respondendo à cruzada contra o consumo excessivo de Pe. João Filipe
álcool, o Governo apresentou um pomposo Plano de In: Família Cristã [17-10-2000 19:32:09] [Editorial] [3445 carac-
teres] [Grátis] [ Pe. João Filipe ]
Acção que tentará banir este fruto do pecado das mentes
mais jovens, aparentemente incapazes de lidar com uma Em si mesma a droga, no seu estado natural, é consti-
liberdade tão perigosa. A medida não chocou ninguém tuída por substâncias que podem ser usadas como remé-
e, à margem do timing político (demasiadamente opor- dio em beneficio da saúde do homem.
tuno), reconhece-se que vai de encontro às preocupa- Como tantas outras substâncias, em si boas, as drogas
ções da sociedade. O pior é que se optou novamente por podem ser usadas para o bem e para o mal, para gerarem
chamar irresponsáveis aos pais e por desconsiderar a vida ou gerarem morte. Depende da conta, peso e medi-
maturidade dos jovens. da com que são usadas.
Pode ser que dê votos ou aumente a confiança política, Ao longo da história houve povos que usaram a droga
mas só os mais ingénuos poderão acreditar que palavras (o ópio) para submeter outros povos. A destruição de
como cerveja e vodka deixem de fazer parte do vocabu- tantas vidas, portanto, é mais da responsabilidade dos
lário nocturno juvenil apenas porque a lei assim o dita. homens do que das substâncias da natureza.
Aliás, as dúvidas ficaram imediatamente desfeitas Podemos dizer que é tudo uma questão de cultura, bom
quando, questionados por um jornalista da SIC sobre a senso, respeito pela vida, para connosco mesmos e para
proposta, vários jovens disseram que não só não se im- com os outros. Sabemos que nem tudo se pode comer
portavam como estavam de acordo com a proibição. ou beber. A natureza tem leis que, quando transgredi-
"Então não vai continuar a beber? Claro que vou." Ta- das, levam à morte.
xativo. Há quem julgue que pode fazer o que bem entender da
Mas pior do que a hipocrisia associada a esta medida é o sua saúde, e desconhece que tem grave obrigação de
papel que o Estado desempenha. A reboque do que as cuidar dela.
famílias já tinham feito, chegou a vez de o próprio Go- Ninguém brinca impunemente com o fogo, com vene-
verno se desresponsabilizar das suas funções passando nos e quaisquer substâncias tóxicas. Arriscar-se por
para a lei o que deveria ter feito ao nível da pedagogia. esses caminhos tem por vezes consequências imprevisí-
Agora, o mais provável é que o álcool se torne um fruto veis. Podem tomar-se caminhos irreversíveis, viagens
tão proibido como o tabaco ou as drogas leves já o são. sem regresso para caminheiros incautos, que não soube-
É importante, todavia, não confundir a medida com a ram resistir à curiosidade e desejo de tudo conhecer e
situação que lhe dá origem. Seja pela sinistralidade das expenmentar.
estradas, seja pelos efeitos na saúde dos jovens, é óbvio Alguém poderá observar que cada um é livre de tomar
que todas as acções que visem combater o alcoolismo as suas opções e portanto de escolher o seu caminho.
são bem recebidas pelo eleitor, saudoso de estratégias Em linha de princípio é verdade. Mas já não se afigura
sociais concretas, nomeadamente para esta questão sen- uma verdade tão linear quando certas opções de vida
sível. O que não é admissível é que se recorra a uma envolvem os que nos rodeiam, pondo em risco a sua
solução que ameaça a tão reivindicada ética da respon- saúde, vida, tranquilidade e bens.
sabilidade e que, noutros contextos, já deu provas de
Se os tóxico-dependentes fossem autosuficientes, ga-
total insucesso.
nhassem o seu pão, não precisassem do dinheiro dos
Se bem me recordo, havia, na estratégia política da contribuintes e dos bens alheios, não atentassem contra
"Nova Maioria" do Partido Socialista, um ênfase dirigi- a vida dos outros (às vezes até dos próprios pais) pode-
do à responsabilização da sociedade civil. Algo que, ríamos dizer que estavam no seu direito e da sua vida só
curiosamente, o próprio primeiro-ministro e o actual deveriam prestar contas a Deus. Mas infelizmente a
ministro da Presidência definiram, em 1995, como uma realidade é bem outra.
relação essencial de "subsidiariedade entre cidadãos e
Sabendo nós que os tóxico-dependentes são nossos ir-
governantes". Ficou pelo caminho. Ao invés, assistimos
mãos que precisam de ser ajudados a curar-se, todos
ao nascimento de mais uma política de tolerância zero

In - dependência terça-feira, 30 de Janeiro de 2001 pág. 2


devemos colaborar para que reencontrem o sentido da PAP
vida e sejam reintegrados na sociedade. Medidas de prevenção da toxicodependência deve-
São de incentivar todas as medidas que impeçam o alas- rão estar prontas até ao fim do mês
trar do contágio e os ajude a sair do buraco em que caí-
ram. Mas despenalizar o consumo da droga parece que
não vai diminuir mas aumentar o seu consumo. Este é o Casa de Chuto por Decreto
parecer de alguns drogados, parecer que, em breve, em Por SÃO JOSÉ ALMEIDA
Portugal, as estatísticas poderão ou não confirmar. In: Público: Sexta-feira, 19 de Janeiro de 2001
Uma vez que o consumo de droga faz com que uma A política de prevenção do consumo de droga está pres-
nação inteira sofra as suas consequências, por que moti- tes a dar um novo passo. Até ao fim do mês deverá estar
vo se negou ao povo português o direito de se pronun- pronta uma iniciativa do Governo que enquadre medi-
ciar sobre a «despenalização» desse consumo? Achamos das de forma sistematizada. Entre estas constará o alar-
que esta é uma das matérias em que mais se justificaria gamento da metadona e dos centros de abrigo. Mas
a realização de um referendo. também deverão surgir casas de chuto. É a resposta não
Se é verdade que não devemos copiar tudo o que acon- "fracturante" de Vitalino Canas ao Bloco de Esquerda
tece nos outros países, mormente da Europa, também é O Governo está a preparar, até ao fim do mês, uma ini-
verdade que devemos informar-nos devidamente sobre ciativa legislativa que irá sistematizar de forma global e
os resultados das suas experiências, para não cairmos enquadrada uma série de medidas de prevenção à toxi-
nos mesmos erros. codependência e de redução dos danos causados pelo
Tantos países europeus se debatem, há mais tempo que consumo de droga sobre o consumidor e sobre a saúde
nós, com este terrível problema e não julgaram oportuno pública
aprovar a despenalização. O PÚBLICO sabe que estas medidas deverão conter o
Impotentes para o impedir, assistimos à aprovação de lançamento dos primeiros ensaios de casas de chuto, ou
uma lei que em vez de defender a vida, vem facilitar seja, de lugares onde os artefactos necessário à injecção
caminhos de morte e destruição da dignidade humana. de drogas seja disponibilizada, obedecendo aos padrões
de higiene e saúde pública e evitando a propagação de
Deus é o Senhor da vida. Ele não quer a morte mas a
doenças infectocontagiosas como a sida, a hepatite e até
vida dos homens. Bem pelo contrário sempre os convi-
a tuberculose
dou a construírem a vida. Só é pena que os homens,
ignorando o constante e veemente apelo de Deus, te- Confrontado com esta questão pelo PÚBLICO, o secre-
nham aprendido mais a destruir do que a construir. tário de Estado da Presidência do Conselho de Minis-
Barómetro Eleitoral Mostra PS em Maioria Absoluta e tros, Vitalino Canas, apenas confirmou que o assunto
PP a Afundar-se está em ponderação. Mas adiantou que a sua própria
posição sobre a questão evoluiu depois de analisar expe-
riências neste domínio feitas em Hannover (Alemanha)
Pobreza É a Segunda e em Orense (Espanha)
Em declarações ao PÚBLICO, Vitalino Canas frisou:
Preocupação dos Portu- "O Governo está a equacionar políticas de redução de
gueses danos, entre os quais estão salas de injecção assistida.
Houve uma evolução em relação a isto. Hoje estou mais
A pobreza é o que mais preocupa os portugueses, depois disponível, menos reticente, menos duvidoso e a minha
da droga. A sondagem da Universidade Católica para o inclinação por esta solução é maior. Mas isso não é ain-
PÚBLICO/Antena1/RTP mostra ainda o PS com 48 por da uma decisão do Governo". E Vitalino Canas concluiu
cento e o PSD muito longe, se bem que a beneficiar da que esta medida "não terá intenção de ser fracturante,
queda do partido de Paulo Portas para os 4,2 por cento. mas terá intenção de resolver problemas, por isso terá de
In: Público, 010117 ser moderado." De acordo com as informações recolhi-
das pelo PÚBLICO, o Governo está a preparar uma rede
de medidas que irá pôr à discussão pública antes de vi-
e… a droga é a primeira! rarem lei. A formulação final desta sistematização deve-
No artigo que desenvolve a caixa de primeira pá- rá estar pronta até ao fim do mês, depois de o assunto
gina, a palavra droga, a primeira preocupação dos ser discutido pelo conselho consultivo e pelo conselho
portugueses não aparece mais nenhuma vez. coordenador para a toxicodependência. Isto além de o
Apenas num gráfico de barras, que não consta do assunto ter de ser ainda oficialmente fechado pelo Go-
verno
Público-on-line há uma barra legendada – droga -
e que ocupa o primeiro lugar com uma percenta- Esvaziar o Bloco Com esta decisão, o Governo contraria
a filosofia e até esvazia a iniciativa similar do Bloco de
gem superior à pobreza, o segundo lugar.
Esquerda, cujo debate em plenário para aprovação na
Isto demonstra não só que o problema da droga generalidade pela Assembleia da República está agen-
preocupa os portugueses grandemente, e por isso dada para dia 31 de Janeiro. Em declarações ao PÚ-
deve ser debatido/referendado, como também, que BLICO, Francisco Louçã afirmou não desconhecer a
existe uma barragem na comunicação social, vo- intenção do Governo de legislar neste domínio, mas
luntária ou não, a admitir a necessidade desta dis- adiantou não conhecer pormenores. Mostrou-se, contu-
cussão. do, expectante sobre o comportamento que o PS assumi-

In - dependência terça-feira, 30 de Janeiro de 2001 pág. 3


rá em relação ao projecto do Bloco de Esquerda que trangeiras a actuar em Portugal, que obrigam nalguns
propõe a criação de casas de chuto no âmbito do Estado casos o doente ou os seus familiares a transferir para
e do Serviço Nacional de Saúde. Ou seja, na expectativa Espanha verbas avultadas para custear as despesas de
de ver se o PS viabilizará ou não este projecto internamento e, mesmo assim, sem garantir ao paciente
Quem também se prepara para apresentar a discussão no condições mínimas de sobrevivência (...).
dia 31 um projecto de lei são "Os Verdes". Ontem, Isa- Depois, lucra também a chusma dos pequenos trafican-
bel Castro explicou ao PÚBLICO que pretende recupe- tes, que, na maioria dos casos, traficam para garantir a
rar e actualizar a sua proposta anteriormente rejeitada de sua própria "dose".
fornecimento de seringas nas prisões Para agravar toda esta situação temos a desmotivação e
JSD quer liberdade de voto Já a JSD acabará por ver o alheamento das autoridades face à actuação dos nos-
anulada a oportunidade do projecto de resolução que sos tribunais, que normalmente põem em liberdade
está a preparar, caso o Governo avance mesmo com mesmo os detidos em flagrante, sabendo que horas de-
medidas enquadradoras de prevenção. Esta sistematiza- pois estão a fazer o mesmo.
ção está, aliás, a ser feita pelos jovens sociais- (...) É tempo de dizer basta! (...) Apelo aos governantes
democratas cujo ante-projecto de resolução fala preci- (...) para que se olhem ao espelho todos os dias e se re-
samente de vários tipos de medidas para criar uma rede vejam como pais de família (...). E acabem de vez com
de apoio ao combate à toxicodependência e de defesa da as despenalizações daqueles que realmente merecem ser
saúde pública punidos (...).
Pedro Duarte, líder da JSD, manifestou ao PÚBLICO o José A. Almeida, Porto
seu interesse em que esta questão avance e sustentou
que é uma matéria em que deve ser o Governo a legis- Para diminuir a propagação de doenças
lar, já que há uma complexidade técnica e informativa
que só o executivo domina. E fala da urgência de actuar
nalgumas questões como a das seringas nas cadeias que Governo prepara distribui-
considera que "mais do que uma situação gritante é uma
questão criminosa" ção de seringas nas prisões
E em relação ao próximo dia 31, Pedro Duarte apenas In: Públioc-on-line, 21:09 19 Janeiro 2001
afirma que não se oporá ao projecto do Bloco, apesar de O Governo está a estudar a distribuição de seringas nas
o considerar limitado. Espera, para isso, que a direcção prisões, encontrando-se já na última fase dos estudos, de
do grupo parlamentar do PSD dê liberdade de voto: "É o modo a reduzir os danos causados pela toxicodependên-
mínimo. Não me podem obrigar a sacrificar a minha cia, disse hoje o secretário de Estado da Presidência,
consciência." Vitalino Canas.
Esta preocupação enquadra-se dentro de um pacote de
Tráfico de Droga: Um Apelo medidas sobre a redução de riscos ao nível da toxicode-
pendência.
Por JOSÉ A. ALMEIDA, Porto Se a adopção das salas de injecção assistida em espaços
In: Público, Domingo, 21 de Janeiro de 2001
abertos é uma medida já plenamente assumida pelo Go-
Morreu [esta semana] um cidadão português de 36 anos verno, a distribuição de seringas por substituição nas
de idade. prisões exigirá ainda o acordo e a participação directa
Dirá a maioria das pessoas: é normal; é mais um! Toda- do ministro da Justiça, António Costa.
via, para mim, não é assim tão simples. Em primeiro Entre outros aspectos a definir, António Costa e Vitali-
lugar, porque sou o pai; em segundo lugar, e essencial- no Canas terão de escolher entre o modelo em que as
mente por isso, porque é mais um que morreu por culpa seringas são distribuídas de mão em mão aos reclusos
da falta de coragem, da apatia, da irresponsabilidade e toxicodependentes (como acontece em estabelecimentos
do cinismo dos nossos políticos e governantes, seja de prisionais espanhóis), ou se preferem o esquema exis-
que área forem, que não querem ou a quem não interes- tente nas cadeias suíças, em que o acesso às seringas é
sa resolver o problema do tráfico de droga, esse flagelo feito de forma automática, através de máquinas instala-
que, tal como a indústria das armas, e agora também o das para esse efeito.
tráfico de seres humanos, está protegido, a todos os ní-
veis, pelos grandes interesses e pelo poder do dinheiro.
Há várias maneiras de abrir salas de chuto.
Senão vejamos: quem lucra com todos estes tráficos?
Lucra o grande traficante, que, mesmo quando é preso, Nem todas são higiénicas e seguras.....
tem tratamento VIP, quer no julgamento, rodeado de PAP
advogados competentíssimos (... ), quer em todo o pro-
cesso, pois tem possibilidade de pagar a caução que lhe
for exigida, e, desta forma, pode continuar calmamente Hospital de chuto
a sua actividade e ganhar mais e mais. In: O Independente, 010122
Lucram alguns médicos que, mesmo ganhando num Fernando Esteves
festeves@mail.soci.pt
mês aquilo que os traficantes ganham num minuto, lá
vão superando esta diferença montando clínicas priva- O Ministério da Saúde (MS), através da Administração
das onde cobram, no mínimo, 500 contos por três dias Regional de Saúde (ARS) do Norte, paga à Santa Casa
de internamento (...). Lucram grandes organizações es- da Misericórdia de Matosinhos (SCMM) cerca de cinco

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mil contos mensais pelo arrendamento do imóvel onde to. É ainda feita uma distinção entre "cannabis" e "ou-
até há três anos funcionava o Hospital de Matosinhos. O tras drogas ilegais", que mantêm o seu estatuto de con-
contrato entre as duas instituições foi assinado com Ma- sumo e posse proibidos.
ria de Belém ainda à frente da pasta da Saúde e tem, Esta medida é o resultado de um "compromisso à bel-
segundo fontes da ARS, 20 anos de duração. ga", entre a ala mais liberal da coligação que está no
Propriedade da SCMM, o prédio em causa encontra-se poder, os ecologistas, e a ala mais repressiva, os libe-
em avançado estado de degradação, com vidros parti- rais.
dos, portas estragadas e um aspecto geral de total aban- Esta despenalização será efectiva dentro de "alguns me-
dono. Nos últimos tempos, a ex-unidade hospitalar tor- ses", quando o parlamento modificar a lei sobre drogas,
nou-se num dos locais “preferenciais” dos toxicodepen- que data já de 1921. A decisão final é, no entanto, dife-
dentes para se injectarem. rente da proposta inicial da ministra da Saúde, que pre-
“Isto é escandaloso. Não me parece minimamente ra- tendia uma distribuição de "cannabis" autorizada, sob
cional que o Estado gaste todo este dinheiro no aluguer controlo das autoridades. A distribuição nas "coffee-
de uma ‘casa de chuto’, um albergue de toxicodepen- shops", como na Holanda, continua proibida.
dentes e de marginalidade.” Quem o afirma é Artur AFP
Osório, o ex-director do Hospital Pedro Hispano, de Política de combate à toxicodependência
Matosinhos.
Para o ex-responsável, faria todo o sentido que o Esta-
do, já que paga a renda do edifício, rentabilizasse a sua Reduzir os Riscos da Droga
utilização: “O velho hospital poderia, com algumas o- Por SÃO JOSÉ ALMEIDA
bras, funcionar como centro de retaguarda do novo In: Público: Terça-feira, 30 de Janeiro de 2001
Hospital Pedro Hispano, canalizando a sua acção para o MINI-CONSELHO DE MINISTROS DISCUTE HOJE
internamento de doentes crónicos, cuja patologia não UM NOVO REGIME DE CONTROLO DE DANOS
justifique equipamentos e recursos altamente sofistica- SOBRE A SAÚDE PÚBLICA. Entre as medidas a lan-
dos.” Uma espécie de balão de oxigénio para o Pedro çar, estão as salas de injecção assistidas e os pontos de
Hispano, que actualmente se confronta com uma cres- informação
cente afluência de doentes com mais de 70 anos. onde as drogas
Por outro lado, o número de acidentados com proble- podem ser
mas graves de reabilitação tem crescido no distrito de analisadas
Matosinhos. “Também estes poderiam ser deslocados Uma nova po-
de um hospital para outro. Mas, em vez disso, o que lítica integrada
acontece é que, frequentemente, os doentes ficam dias de combate e
deitados em macas a aguardar uma cama vaga”, acusa controlo dos
Artur Osório. riscos da toxi-
Contactado por O Independente, o novo presidente da codepedência
ARS Norte recusou-se a prestar declarações sobre o sobre a saúde
presente e o futuro do hospital velho. publica é hoje discutida e aprovada pelo Conselho
Coordenador da Estratégia Nacional de Luta contra a
Comparado ao álcool e ao tabaco Droga e a Toxicodependência, uma espécie de mini-
Conselho de Ministro para as questões relacionadas com
a Estratégia Nacional de Luta contra a Droga.
Bélgica Despenaliza Con- Entre as novas medidas, que estão em discussão e que o
PÚBLICO hoje divulga em linhas gerais, encontra-se o
sumo de "Cannabis" lançamento de salas de injecção asséptica, bem como a
In: Público, Sábado, 20 de Janeiro de 2001 instalação de pontos de informação sobre riscos do uso
A Bélgica decidiu ontem despenalizar a posse e consu- da droga, políticas e meios de recuperação. Nestes lo-
mo de "cannabis" para uso pessoal, sem fixar uma quan- cais, que podem funcionar em quiosques, "roulottes",
tidade máxima autorizada, noticiou a agência AFP. "Em etc., os toxicodependentes ou os meros consumidores
toda a Europa, a terceira droga mais consumida é a poderão pedir para que sejam analisados os estupefa-
'cannabis'. Quer gostemos quer não, é a realidade", disse cientes que adquiriram e pretendem administrar.
a ministra da Saúde, Magda Aelvoet, do partido ecolo- A decisão de avançar com medidas na área da preven-
gista. ção segue-se à aprovação pela Assembleia da Repúbli-
"O consumo limitado de álcool, tabaco e 'cannabis' é ca, por acordo conjunto do PS, PCP, Bloco de Esquerda
cada vez mais socialmente aceite. Não existe nenhuma e "Os Verdes", da descriminalização do consumo de
razão para tratar o álcool e o tabaco de maneira diferen- drogas. Com base numa proposta base elaborada por
te da 'cannabis'", diz-se no documento de descrição da Nuno da Silva Miguel, do Serviço de Prevenção e Tra-
nova política governamental belga em relação às drogas. tamento da Toxicodependência, e Luís Patrício, director
"A posse da 'cannabis' para consumo pessoal ou numa do Centro das Taipas, o secretário de Estado da Presi-
quantidade que não deixe supor que é para venda já não dência, Vitalino Canas, elaborou um anteprojecto de
é acusada." Exceptuam-se os casos de "consumo pro- diploma ainda em discussão prévia e que hoje passa
blemático" e de "prejuízo social", diz ainda o documen- pelo crivo do Governo para, em Fevereiro, ser posto à
discussão pública durante mês e meio.

In - dependência terça-feira, 30 de Janeiro de 2001 pág. 5


No final deste processo, o texto final será ajustado e o rio de Estado da Presidência do Conselho de Ministros,
Governo decidirá então sobre se avança com as medidas ou seja, é o responsável técnico-jurídico, o crivo de todo
sob a forma de decreto-lei ou se, pelo contrário, opta o processo legislativo do Governo. Para o exterior e já
pela proposta de lei para ser discutida pela Assembleia no actual Governo, Vitalino tem tido a tutela da droga.
da República. Em declaração ao PÚBLICO, Vitalino Um "dossier" que começou a gerir sem grande conhe-
Canas não escondeu a sua preferência pelo decreto. "Há cimento do tema, mas em que se tem aplicado, de tal
medidas que são urgentes, mas não quero fugir à discus- forma que este tem sido um dos sectores com uma polí-
são", afirma o secretário de Estado, que, assumindo a tica mais activa. Ex-chefe de gabinete de Carlos Melan-
sua pressa em avançar com as medidas, confessa: "Este cia e de António Vitorino em Macau, integrou o Gover-
diploma não é para ficar vazio. Logo que tenha uma no de António Guterres logo em Outubro de 1995, já na
segurança mínima de que vai ser aprovado, vou dar in- pasta que agora ocupa. Só que se hoje responde direc-
dicação ao IPDT [Instituto Português da Droga e da tamente ao primeiro-ministro e não depende do ministro
Toxicodependência] para iniciar programas de preven- Guilherme d'Oliveira Martins, no primeiro Governo da
ção de riscos. As verbas para as medidas de prevenção "Nova Maioria", Vitalino estava debaixo da tutela do
estão orçamentadas no Orçamento de 2001. Gostaria então ministro da Presidência, António Vitorino. Mas se
que fosse já lançado este ano." hoje a sua relação orgânica no executivo é directa com
O objectivo é, segundo Vitalino Canas, que "se olhe Guterres, no plano político, quando se contam espingar-
para o mapa e se veja os locais do problema e os meios das no PS, Vitalino é visto como um homem de Vitori-
para o combater, através da construção de uma rede no. Uma lealdade política que o próprio Vitalino não
nacional de prevenção de danos". E que se ultrapasse a renega, ainda que se prepare para crescer dentro do PS:
fase da "intervenção parcelar, experimental, casuística elabora com Carlos Zorrinho uma moção de estratégia
que vigora actualmente". ao congresso e há quem fale na sua promoção dentro da
direcção do PS já no próximo congresso dos socialistas.
Capitulação do Estado ou pragmatismo?
Vitalino Canas não nega que algumas das medidas pro-
postas agora pelo Governo são polémicas. "Pela primei- Os Próximos Passos
ra vez se elabora uma visão global das políticas de redu- In: Público, Terça-feira, 30 de Janeiro de 2001
ção de danos com medidas que são mal aceites pelos
26/01/2001 - O regime geral das políticas de redução de
conservadores", declara o secretário de Estado que tute-
riscos é analisado positivamente pelo Conselho Cientí-
la as políticas de combate contra a toxicodependência.
fico do IPDT.
Sem fugir à discussão e antecipando as críticas, Vitalino
30/01/2001 - Reunião do Conselho Coordenador da
Canas defende a sua proposta: "Isto não é o Estado a
Estratégia Nacional de Luta contra a Drog. Presidido
desistir, é o Estado a chegar onde ainda não chega. Com
pelo primeiro-ministro, este mini-Conselho de Ministros
o tempo, o sistema criado poderá criar confiança no
vai discutir, eventualmente alterar, e aprovar o antepro-
toxicodependente em relação ao sistema e, no futuro,
jecto de diploma que estipula uma rede nacional e inte-
convencê-lo a vir ter connosco para se tratar." O secre-
grada.
tário de Estado adverte que "as pessoas a serem aceites
são as com experiência profunda de toxicodependência 31/01/2001 - As medidas são analisadas pelo Conselho
e terão de estar registadas e acompanhadas pelo siste- Nacional da Droga e da Toxicodependência, órgão con-
ma" e defende que "as políticas de redução de danos não sultivo do primeiro-ministro onde têm assento institui-
são um fim em si mesmo, também há um objectivo que ções públicas e privadas.
é o da aproximação do Serviço Nacional de Saúde ao Primeira quinzena de Fevereiro - Depois de ponderadas
toxicodependente: primeiro substitui-se uma seringa, as propostas de alteração entretanto sugeridas, será lan-
depois faz-se uma análise, depois um curativo, mais çada a fase de discussão pública, que durará 45 dias. O
tarde, nalguns casos, o tratamento". documento será editado e distribuído e estará no "site"
A favor da bondade da sua proposta, Vitalino Canas da IPDT, onde podem ser recebidos contributos, que
explica que ela se insere na "perspectiva pragmática" de podem também ser dados também por via normal. No
abordar o problema da droga e os riscos sobre a saúde fim, o Governo decidirá se avança com o programa por
pública da transmissão de doenças como a sida, a tuber- decreto ou se envia uma proposta à AR.
culose, a hepatite, etc. E subindo o tom da argumenta-
ção, o secretário de Estado atira peremptório: "As pes-
soas têm de decidir se querem ver os toxicodependentes
Como Vão Ser as Salas de
a drogarem-se à porta da escola onde estão os nossos Injecção
filhos, na rua, na estação de comboios, ou se o toxico-
In: Público, Terça-feira, 30 de Janeiro de 2001
dependente deve ir para um sítio com condições assépti-
cas para consumir. Eu já decidi que não quero ver a O Governo propõe a criação de salas de injecção assép-
droga a ser consumida à porta da escola." tica em lugares específicos, promovidas pelo Estado e
dirigidas por autarquias e instituições privadas. As salas
obedecerão a regras de funcionamento específico e se-
Com Nome Próprio rão licenciadas pelo Instituto Português da Droga e da
Toxicodependência.
In: Público, Terça-feira, 30 de Janeiro de 2001
Vitalino Canas - Desconhecido do grande público, Vita- No diploma em preparação pelo Governo as salas de
lino Canas tem um lugar chave no Governo: é o secretá- injecção asséptica serão instaladas em locais não expos-

In - dependência terça-feira, 30 de Janeiro de 2001 pág. 6


tos e em zonas onde já há tradicionalmente consumo · A distribuição de seringas nas cadeias ainda não foi
instalado. O seu uso destina-se exclusivamente a vicia- ponderada, mas poderá sê-lo durante a fase de discussão
dos em heroína e cocaína que consumam estas substan- prévia do ante-projecto.
cias por via intervenosa e para ter entrada neste locais o · A rede nacional de prevenção será promovida pelo
toxicodependente tem de estar minimanente inserido no Estado e os seus encargos suportados pelo Orçamento.
sistema, ou seja, registado como tal. A exploração, consoanto o tipo de sitações será mista e
Nestes locais serão distribuídos os instrumentos para o organizada pelo Estado, pelas autarquias ou por priva-
consumo - seringa, água, lamparina, etc -, mas não o dos, por exemplo as salas de injecção asséptica será
produto. Também não haverá assistência ao acto de in- explorada por privados e pelas autarquias.
jectar, o toxicodependente tem de fazê-lo sozinho. No · Aumentar a rede de distribuição e troca de seringas
entanto se surgir algum problema, os encarregados da com a adopção de máquinas, instaladas em lugares com
sala terão de chamar de imediato assistência médica ou segurança contra o vandalismo, onde os toxicodepen-
ambulatória. dentes possam trocar seringas a qualquer hora do dia, ou
As drogas não serão analisadas nestes locais. É proibída comprá-las por um preço simbólico.
a venda de drogas nas casa de injecção asséptica, bem · Criação de salas de injecção asséptica.
como nas suas imediações. Os responsáveis que detec- · O novo sistema prevê que a administração de metado-
tem traficanques têm de chamar a polícia. na em doses de baixo limiar em locais administrados
Estas casas funcionarão no primeiro ano à experiência por privados ou pelas autarquias, mas geridos pelo Ser-
para ver se cumprem os objectivos: retirar o consumo da viço de Prevenção e Tratamento da Toxicodependência.
rua e melhorar a saúde pública. S.J.A. A metadona é administrada por enfermeiro e mediante
receita médica.
Números · Criação de postos de escuta e informação que além de
recolherem informações sobre o meio e o consumo de
In: Público, Terça-feira, 30 de Janeiro de 2001 drogas, fornecem informações sobre tóxicos, toxicode-
Verbas para programas com incidência na prevenção ou pendência, acesso aos programas de prevenção e
tratamento da toxicodependência (milhões de contos) combate. Este locais, que podem funcionar em
quiosques ou roulotes, por exemplo junto a lugares
Evolução de 1995 a 2001 frequentados por toxicodependentes, irão também servir
1995 - 7,2 milhões de contos para fazer a análise da qualidade das drogas.
1996 -10 milhões de contos · As equipas de ruas passarão a estar organizadas em
1997-10 milhões de contos rede e podrão deslocar-se em automóveis.
1998- 15 milhões de contos
1999- 16,5 milhões de contos
2000- 20,7 milhões
2001- 21,15 milhões
"E Lá Dão Droga?"
In: Público, Terça-feira, 30 de Janeiro de 2001
No Casal Ventoso, as "casas de chuto" representam uma
Distribuição por áreas das novidade ainda pouco ou nada interiorizada. O dia-a-dia
do bairro vai-se medindo pela droga que está à mão.
verbas para 2001 (percentagens) Reportagem de Anabela Mendes.
In: Público, Terça-feira, 30 de Janeiro de 2001 O Casal Ventoso continua a ser o grande ponto de refe-
Prevenção: 5,4 milhões de contos (26,28 %) rência dos toxicodependentes de Lisboa. As romarias na
Tratamento: 6 milhões (29,2 %)
hora da dose continuam a arrastar-se dolorosamente
Reinserção Social: 3,1 milhões (15,08 %)
Segurança Preventiva: 4,6 milhões (22,38%) pela encosta sul, mas a verdade é que já se notam as
Redução de Riscos: 830 mil contos (4,03%) diferenças ditadas pela requalificação urbana do bairro.
Prisões: 450 mil contos (2,19%) No terreno já começam a ficar só as cicatrizes de alguns
Investigação Científica: 140 mil contos (0,68%) dos pontos malditos, como as "escadinhas da morte" -
Cooperação Internacional: 27 mil (0,13%) local assim designado porque os que ficavam naqueles
Fonte: gabinete do Secretário de Estado adjunto do primeiro-ministro degraus estavam em tal estado de degradação física que
só lhes restava esperar um fim breve -, e, apesar dos
A Política do Governo para passos daqueles que procuram heroína continuarem a
dirigir-se ao Casal Ventoso, a aglomeração de pessoas é
a Redução de Riscos menor.
In: Público, Terça-feira, 30 de Janeiro de 2001 Supõe-se que os que ali resistem em breve rumarão a
novas paragens na cidade, porque se o espaço muda, o
· Passam a ser geridos de forma integrada na rede na-
vício fica. Por enquanto o bairro ainda assusta, apesar
cional os centro de abrigo ou de apoio aos toxicodepen-
do ar alegre das novas construções que aparecem em
dentes.
processo acelerado, ainda é complicado visualizar as
· Criação de uma rede nacional e integrada de medidas e encostas amplamente relvadas que se projectam para o
meios de prevenção dos riscos e controlo dos danos da futuro próximo.
toxicodependência sobre a saúde pública.
Há os que, ainda mantendo o ar banal do cidadão co-
mum, só ali vão para comprar uma dose, furtivamente,

In - dependência terça-feira, 30 de Janeiro de 2001 pág. 7


muitas vezes só denunciados por uma mancha de sangue Mas na conferência que ontem se realizou em Lisboa
numa manga de camisa. Há os que já não escondem sobre o modelo americano de tratamento de toxicode-
nada há muito tempo. Arrastam-se sem força ou digni- pendências falou-se sobretudo deste método usado não
dade, vivendo só em função da seringa que lhes pode em grupos de auto-ajuda mas em unidades de tratamen-
aliviar a ressaca. to.
E as casas de injecção assistida, vulgarmente denomina- A diferença é que os grupos de auto-ajuda estão entre-
das "casas de chuto"? Como é que encaram esta novida- gues a si próprios, enquanto que nas unidades de trata-
de? mento o doente fica internado, tem uma equipa multi-
Nas ruas do Casal Ventoso não há grande emoção acer- disciplinar (médicos, enfermeiros, psicólogos clínicos e
ca da novidade. Os que acedem a falar, e que não são especialistas em desabituação), uma avaliação física e
muitos, parecem fazê-lo mais por falta de forças para psíquica anterior ao início do tratamento e terapias de
fugir ao entrevistador. Começam por demonstrar logo desabituação, como a metadona.
que não sabem bem do que se está a falar. Depois da Mas assentam na mesma filosofia: o primeiro princípio
explicação, fica um sinal de concordância, vago, muito é tratar todos os adictos (viciados ou dependentes -
vago. mesmo em português usa-se a palavra adictos, o que
Fernando, rosto manchado pela porcaria e roupa barrada mostra logo a origem americana do método) de forma
de lama, demonstra alguma curiosidade. "E lá dão-nos a igual: quer se trate de um dependente de álcool, heroína,
droga?", pergunta com um certo brilho de esperança nos anfetaminas ou outra droga.
olhos mortiços. A pergunta faz arrebitar as orelhas a Depois, usam-se os doze passos para ajudar as pessoas a
dois ou três colegas que estão próximo. Mas a resposta viverem uma vida sóbria, explicou o vice-presidente da
negativa diluiu de imediato esta brevíssima centelha de Hazelden Foundation, Timothy Sheehan. Porque a adic-
entusiasmo. ção é vista, segundo os seguidores deste modelo, como
Inesperadamente, o "não" acende a fúria de Luís. Posi- uma doença incurável. A ideia é que os adictos tentem,
cionado de cócoras, enrola as palavras num discurso um dia de cada vez, manter uma vida sóbria.
para provar a sua experiência internacional. "Quando Em Portugal, este método é seguido pelo Centro de Tra-
estive em... nessas casas davam-nos a seringa, o produto tamento de São Fiel (telefone: 272419889). Licenciado
e uma sandes." Os parceiros acenam em concordância. pelo Ministério da Saúde, tem uma capacidade máxima
O nome do país progressista não se percebeu mesmo. para 25 homens e 25 mulheres. O tempo médio de tra-
Insiste-se de novo. Nada feito. Luís cospe para o lado e tamento é de 12 semanas de internamento.
ignora a pergunta deliberadamente. O modelo do Minnesota vê este tempo de internamento
Rosa arrasta atrás de si um saco monstruoso de tecido como uma base para a "vida sóbria". Depois deste pe-
sujo e também se presta a falar. Acha bem a ideia, mas ríodo, o paciente poderá começar a frequentar grupos de
não sabe se alguma vez irá utilizar uma "sala de chuto". auto-ajuda ou, se enfrentar uma grande crise, pode
"Se ficarem em caminho, talvez. Mas não gosto de pes- mesmo voltar um ou dois dias para a unidade de desabi-
soas a darem-me conselhos. Só nos fazem perder tem- tuação.
po", garante, metendo-se ao caminho, como se os minu- Maria João Guimarães
tos fossem mesmo preciosos.
No fundo, todos acham bem, apesar de não saberem
com pormenor do que se trata. No meio de todos os
Os Doze Passos
expedientes para arranjar dinheiro para os estupefacien- In: Público, Terça-feira, 30 de Janeiro de 2001
tes e no estado geral de apatia em que vivem fica claro 1. Admitir impotência em relação à sua adicção, admitir
que não sobra tempo para saber notícias. perda do domínio sobre a sua vida
2. Acreditar num poder superior que devolva a sanidade
Toxicodependências Tratadas ao Estilo Norte- 3. Entregar a vontade e a vida nas mãos de Deus (na
americano forma em que cada um o conceba)
Por MARIA JOÃO GUIMARÃES 4. Fazer inventário moral de si mesmo
In: Público, Terça-feira, 30 de Janeiro de 2001 5. Admitir perante Deus, o próprio e outra pessoa a na-
tureza exacta das suas falhas
Especialistas falam sobre o 6. Tentar remover esses defeitos de carácter
7. Pedir a Deus que o livre das imperfeições
modelo "Minnesota" 8. Saber as pessoas que se prejudicou e dispor-se a repa-
O modelo do Minnesota é mais conhecido por ser a base rar os danos causados
de grupos de auto-ajuda como os Alcoólicos Anónimos 9. Reparar, directamente, esses danos (excepto quando
ou Narcóticos Anónimos. Muito usado nos Estados isso ainda prejudique mais essas pessoas, ou outras)
Unidos, assim como na Grã-Bretanha, assenta em doze 10. Fazer um inventário pessoal dos erros. Quando se
passos de natureza espiritual. Este modelo começou a esteve errado, deve-se admiti-lo prontamente
ser utilizado nos EUA por volta de 1945 por doentes 11. Usar prece e meditação para melhorar o contacto
alcoólicos, mas depois foi adoptado para outros tipos de com Deus
dependências.
12. Se se experimentou um despertar espiritual graças a
estes passos, procurar transmiti-los a outras pessoas

In - dependência terça-feira, 30 de Janeiro de 2001 pág. 8


adictas e praticar estes princípios em todas as activida- Uma ideia defendida também por Alberto Torres, presi-
des dente da Associação Sócio-Profissional da Polícia
(ASPP). Para este dirigente associativo, essa é uma
questão fundamental: «São precisos mais meios, até
Criação de «salas de chuto»
porque a nova lei de investigação criminal confere à
PSP competência de investigação em pequenos crimes.
Polícias prevêm aumento Isso pressupõe uma alteração ao regulamento discipli-
nar, que actualmente inibe o desempenho dos agentes,
do tráfico de droga nomeadamente quando os obriga a pagar os danos nas
Mário Costa viaturas, resultantes de acidentes em serviço», defende
In: Portugal Diário, 30/01/2001 | 19.20 Alberto Torres.
A maioria dos agentes das várias forças de segurança Sobre a criação das «casas de chuto», Alberto Torres
estão apreensivos com a criação das «salas de chuto», e tem uma posição moderada - idêntica à de António Ra-
temem que as consequências não estejam totalmente mos, da Associação de Profissionais da PSP (APP) -
previstas. Os polícias acreditam que estas «Salas de que passa pela concordância baseada numa premissa: a
Injecção Assistida» possam reduzir os riscos de conta- continuação e o reforço do combate ao tráfico de droga.
minação entre os toxicodependentes, e acabar com as Um reforço defendido igualmente pelo subintendente
imagens degradantes que se vêm em muitas cidades. Sobreira, comandante da 4ª divisão da PSP de Lisboa:
Mas ao mesmo tempo, defendem que as «salas de chu- «Não se deve baixar os braços, até porque esta medida
to» vão dificultar o combate ao tráfico de droga: «Estas não vem facilitar a vida do polícias. As «casas de chu-
salas vão reduzir a eficácia do combate ao pequeno trá- to» podem ajudar a evitar os problemas de saúde públi-
fico, porque vão retirar das ruas o pequeno consumidor ca, mas não vão acabar com a droga ou com tráfico. Isso
e o consumidor-traficante, que são a face visível do trá- só aconteceria se a droga fosse vendida em farmácias».
fico global. Ou seja, vamos ter mais dificuldade em O PortugalDiário tentou obter a posição oficial da PSP
chegar aos traficantes graúdos, que de facto comandam à criação das «salas de chuto». Mas da Direcção Nacio-
todo o tráfico», disse esta terça-feira ao PortugalDiário, nal não houve qualquer resposta à solicitação feita por
um agente das brigadas anti-crime da PSP de Lisboa. fax.
Para este operacional, tudo não passa de uma «manobra
de cosmética» por parte do Governo e dos políticos:
«Isto deriva da lei de despenalização que permite às Casas de Chuto-2
pessoas possuírem droga para consumo próprio. Como Por JOAQUIM AMADO LOPES, Santa Iria da Azóia
diminuíram as detenções por posse de estupefacientes, o In: Público, Quarta-feira, 31 de Janeiro de 2001
Governo veio dizer que diminuiu o tráfico. É mentira. E O fenómeno da toxicodependência obriga a interven-
estas salas só vão contribuir para ampliar ainda mais ções a diferentes níveis: prevenção (para diminuir o
essa mentira. Estatisticamente, que é o que interessa ao número de novos toxicodependentes); combate (para
Governo, ele baixou, mas na realidade contínua tudo na aumentar o número dos que deixam de ser toxicodepen-
mesma», garantiu ao PortugalDiário. dentes); defesa da saúde pública (porque o ambiente
A mesma opinião tem um graduado do Comando Me- associado à toxicodependência é propício à propagação
tropolitano da PSP de Lisboa, - que pediu anonimato - de doenças infecto-contagiosas).
que lamenta a falta de verdadeira medidas de combate Apesar de algumas ideias sobre a melhor forma de atin-
ao tráfico de droga: «Isto é tapar o sol com a peneira. gir cada um destes objectivos não serem consensuais,
Com a despenalização do consumo e as salas de chuto, todos (?) concordamos que os referidos objectivos são
o que vai acontecer, é que vamos ter na rua traficantes desejáveis e mesmo louváveis.
que em vez de venderem grandes quantidades de droga, O Governo anunciou recentemente uma série de inicia-
vão optar por vender as doses permitidas por lei para o tivas no âmbito do combate à toxicodependência e defe-
consumo, sabendo que nunca serão detidos se nós apa- sa da saúde pública, a mais "mediática" das quais é a
recer-mos. Ou seja, vendem mais, mas menos doses de criação de "salas de chuto". Esta medida, em particular,
cada vez. Eu só pergunto se isto é um política séria» merece dois comentários.
interrogou-se ao PortugalDiario. Primeiro comentário: a criação de "salas de chuto" tem
Falta de meios sido apresentada como uma medida de combate à toxi-
Para este graduado, se as «salas de chuto» forem apro- codependência. Não é. Quando muito, é uma medida de
vadas, levanta-se uma outra questão: a falta de meios e defesa da saúde pública. Havendo, na minha opinião,
condições de trabalho dos polícias: «Se vai ser mais formas mais eficazes e menos discutíveis de defender a
difícil apanhar os traficantes, o Governo tem de perce- saúde pública, aceita-se a discussão sobre se esta medi-
ber que tem investir em mais e melhores meios técnicos da faz sentido ou não. Não se aceita que seja apresenta-
e melhores condições de trabalho. Não podemos conti- da como de combate à toxicodepência. Na realidade, é
nuar com viaturas velhas e inadequadas para persegui- precisamente o contrário, uma medida de promoção da
ções, não podemos continuar com armas velhas, sem toxicodependência.
rádios capazes, com ordenados baixos e com um regu- Ao disponibilizar, gratuitamente(?), instalações, utensí-
lamento de disciplina que só penaliza os agentes», disse lios e assistência para auxiliar os toxicodependentes a
ao PortugalDiário. consumirem droga, o Estado está não apenas a bran-

In - dependência terça-feira, 30 de Janeiro de 2001 pág. 9


quear esse comportamento (ajudando a criar a ideia de
que consumir droga "não é assim tão mau"), mas tam-
bém a ajudar os consumidores a continuarem a sê-lo.
Qual é o passo seguinte? Se algum toxicodependente
morrer numa dessas "salas de chuto", vítima de um mau
produto que comprou "na rua", o Estado passará a for-
necer também a droga "de boa qualidade"?
Segundo comentário: apesar de o consumo de droga já
não ser crime, a lei portuguesa continua a proibi-lo. Ao
criar "salas de chuto", o Estado não está a criar meca-
nismos que alguns usarão para cometer uma ilegalidade.
Está a criar mecanismos "especificamente" para serem
usados para cometer uma ilegalidade.
Com a criação das "salas de chuto", o Governo está, na
prática, a despenalizar o consumo de droga, já que não
faz sentido que o toxicodependente vá a uma dessas
salas "chutar" e, à saída, seja identificado para ser mul-
tado ou apresentado em tribunal.
A lei portuguesa anda pelas ruas da amargura, mas isso
não justifica que quem tem a maior responsabilidade por
a defender a enxovalhe ainda mais.

In - dependência terça-feira, 30 de Janeiro de 2001 pág. 10