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AS NARRATIVAS ANIMALISTAS DE KAFKA E AS REPRESENTAÇÕES

DA EXCLUSÃO SOCIAL NO INÍCIO DO SÉCULO XX

PAULA CHRISTINA CORRÊA DE ALMEIDA

Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciência da Literatura da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Ciência da Literatura (Teoria Literária).

Orientador:

Professor

Doutor

Eduardo

de

Faria

Coutinho.

Rio de Janeiro

2008

FICHA CATALOGRÁFICA

Almeida, Paula Christina Corrêa de. As narrativas animalistas de Kafka e as representações da exclusão social no início do Século XX/Paula Christina Corrêa de Almeida. Rio de Janeiro, 2008. 102 f.

Dissertação (Mestrado em Ciência da Literatura) Universidade Federal do Rio de Janeiro, Faculdade de Letras, 2008.

Orientador: Eduardo de Faria Coutinho

1. Franz Kafka. 2. A metamorfose, Josefina, a cantora ou O povo dos camundongose A construção. 3. Análise e Crítica. 4. Teoria Literária.

I. COUTINHO, Eduardo de Faria. (Orient.).

II. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Faculdade de Letras.

III. Título.

FOLHA DE APROVAÇÃO

ALMEIDA, Paula Christina Corrêa de. As narrativas animalistas de Kafka e as representações da exclusão social no início do século XX. Dissertação de Mestrado em Ciência da Literatura (Teoria Literária) - Faculdade de Letras, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2008, 103 páginas.

Banca Examinadora:

Professor Doutor Eduardo de Faria Coutinho Orientador

Professora Doutora Helena Parente Cunha

Professor Doutor Luiz Barros Montez

Professora Doutora Martha Alkimin

Professora Doutora Izabela Furtado Kestler

Rio de Janeiro

2008

AGRADECIMENTOS

Agradeço a conclusão desta dissertação:

ao espírito imortal de Franz Kafka, cuja inspiração, sob a forma de literatura, respondeu aos meus vazios, dúvidas e questionamentos existenciais;

ao meu pai Origenes Corrêa de Almeida, pela credibilidade, o ensino e o amor aos livros;

aos meus filhos, Daniel de Almeida Duque e Fernando de Almeida Lisboa, pelo amor incondicional;

ao meu orientador, professor Dr. Eduardo de Faria Coutinho, pela confiança acadêmica;

ao meu esposo Carlos André da Costa Duque, pelo incentivo e apoio do início até o fim desta jornada;

a minha irmã, Noely Lopes Raphael, pela palavra de fé em todas as horas claras e sombrias;

as minhas mães Noá Lopes Raphael e Maria Ivanida Pedrosa Franco pelo carinho, conforto espiritual e lições de vida;

às amigas Rosinéia de Jesus Ferreira e Sâmara Rodrigues de Ataíde, pelo companheirismo nas estradas tortuosas dos textos;

a todos os Mestres que ao longo da minha vida têm me ensinado o valor das Letras.

Quando um judeu escreve como um alemão está mentindo. Goebbels

As raízes do que é desumano estão imbricadas com as raízes da civilização desenvolvida? Auschwitz não proveio da floresta, nem da estepe. A barbárie tomou conta do homem de assalto bem no centro da cultura, das artes, no centro da formação universal do espírito e do milagre das ciências naturais. A apenas alguns quilômetros dos mais belos museus,bibliotecas e salas de concerto, Dachau exalava seu ar pestilento. Homens que durante o dia torturavam, enforcavam crianças, à noite liam Rilke, ouviam Schubert. Eis aí um enigma ontológico. George Steiner

Abençoado seja Deus que modifica os homens. Mandamento do Halachá - antigo código de leis judaico

O primeiro personagem que um escritor cria é ele mesmo: é esse ectoplasma literário quem diz Eu, e finge ser o autor. Paulo Leminski

If animals did not exist, the nature of man would be even more incromprehensible. Georges-Louis Buffon

Não pude lê-lo (Kafka), o espírito humano não é suficientemente complicado para compreendê-lo. Albert Eienstein

Donde se queman libros, no se tardará en quemar seres humanos. Heinrich Heine

RESUMO

AS NARRATIVAS ANIMALISTAS DE KAFKA COMO REPRESENTAÇÃO DA

EXCLUSÃO SOCIAL NO INÍCIO DO SÉCULO XX

PAULA CHRISTINA CORRÊA DE ALMEIDA

Orientador: Professor Doutor Eduardo de Faria Coutinho

Esta dissertação estuda a desumanização e a conseqüente animalização do homem na literatura de Franz Kafka, resultantes da perseguição, da violência e da degradação impostas ao ser humano nas décadas da crise social, política e econômica que resultaram nas duas guerras mundiais. Os alvos principais da crítica de Kafka são o preconceito e a exclusão social sofridos pelo povo judeu.

O autor tcheco desvela em sua ficção a ditadura do pátrio poder seja ela advinda dos

pais ou do Estado que, vivida em situações extremas pelo cidadão comum, provoca o seu

aniquilamento e o leva a ultrapassar a fronteira que distingue o homem do animal, transformando-o num bicho ou num ser animalizado.

A saída dessa condição, segundo Kafka, está na denúncia dessa situação através da

escrita e de sua propagação pela literatura. Só assim é possível despertar sentimentos que

levem o indivíduo a enxergar o que existe de humanidade no homem.

Nosso objeto de análise são três narrativas, nas quais as personagens kafkianas são protagonizadas por animais: A metamorfose, “Josefina, a cantora ou O povo dos camundongos” e “A construção”. Na presente leitura, buscamos apoio em textos teóricos, críticos, históricos, biográficos e documentais, de autores como Aristóteles, Theodor Adorno, Walter Benjamin, Zygmunt Bauman, Michel Löwy, Giorgio Agamben, Enrique Mandelbaum, Elias Canetti, Ernest Pawel, entre outros, e nos servimos de cartas de Kafka e de seu livro Diários, além da obra Respiração artificial, do autor argentino Ricardo Piglia, em que este faz diversas menções a Kafka.

Palavras-chave: animalização, exclusão social, produção literária, povo judeu e Franz Kafka.

ABSTRACT

KAFKA‟S ANIMALIST NARRATIVES AND THE REPRESENTATIONS OF SOCIAL EXCLUSION IN THE BEGINNING OF THE XX CENTURY

PAULA CHRISTINA CORRÊA DE ALMEIDA

Counselor: Professor Doutor Eduardo de Faria Coutinho

This is a study of dehumanization and of its consequent reification of man in the literature of Franz Kafka. Such process of dehumanization is a result of persecution, violence and degradation which were imposed upon man in the decades of social, political and economical crises that preceded the two World Wars. The main aim of Kafka‟s criticism is the prejudice against the Jewish people and the social exclusion to which they were submitted.

The Czech author denounces in his fiction the dictatorship of paternal power both in the family and in the State level which, when experienced in extreme situations by the common citizen, provokes his annihilation and makes him transpose the barrier between man and animal, thus transforming him into a kind of animalized being.

The way out of this condition lies, according to Kafka, in denouncing this situation by means of writing and of its propagation through literature. By so doing, one may contribute to awaken man‟s consciousness and therefore of make him able to see that which is human in man.

The corpus used in this work is composed of three narratives in which the protagonists are or become animals: Die Verwandlung, “Josephine, die Sängerin oder das Volk der Mäuse” and “Der Bau”. In our analysis of these stories, we have used critical, theoretical, historical, biographical and documentary texts from authors like Aristotle, Theodor Adorno, Walter Benjamin, Zygmunt Bauman, Michel Löwy, Giorgio Agamben, Enrique Mandelbaum, Elias Canetti, Ernest Pawel, among others, and have used also Kafka‟s letters and his book Diaries, as well as the novel Respiración artificial, by the Argentine writer Ricardo Piglia, in which he makes several references to Kafka.

Key words: animalization, social exclusion, literary production, Jewish people and Franz Kafka.

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO

11

CAPÍTULO 1 BREVE HISTÓRIA DA DESUMANIZAÇÃO DO POVO JUDEU

16

1.1.A desumanização tem nome Judensau

16

1.2.A animalização e a doença como representação do anti-semitismo

19

1.2.1.O darwinismo social

21

1.2.2.A Sociedade da Eugenia

22

1.2.3.Os animais estão olhando para você

24

1.3.Amschel e K.: imagens de Kafka num caleidoscópio

25

1.4.Qual a saída ou Olhares premonitórios?

29

CAPÍTULO 2 A METAMORFOSE E O CORPO FAMILIAR

36

2.1.Corpo físico, corpo do desejo e corpo social

36

2.2.Das cartas de Kafka à sua irmã Elli sobre a educação das crianças

40

2.3.O corpo do animal e o corpo do pensamento

44

2.3.1.O corpo que não fala, mas pensa

47

2.4.Falas, vozes e ruídos os sons dos conflitos

49

2.5.O corpo da negatividade e o corpo do Nome

53

2.6.Metamorfose, metábole, tragédia e catástrofe

55

CAPÍTULO 3 A CANTORA JOSEFINA E A EXCLUSÃO SOCIAL DE UM POVO

57

3.1.A porta-voz da liberdade

61

3.2.Duplos olhares Tudo o que parece, pode ser

63

3.3.Convulsões políticas, novas fronteiras e desumanização

67

CAPÍTULO 4 A CONSTRUÇÃO E A ESCRITA

77

4.1.O judeu assimilado e o judeu não-assimilado

77

4.2.As fronteiras não-comunicantes

79

4.3.O silêncio dos excluídos

93

4.4.Identificação e reificação

95

CAPÍTULO 5 CONCLUSÃO SOBRE OS PAPÉIS DA ESCRITA

99

BIBLIOGRAFIA

108

ANEXO

112

11

INTRODUÇÃO

Por que ler e analisar as narrativas de Kafka quase um século depois de terem sido escritas? Entre outros motivos válidos e pertinentes para a construção do saber dos estudos

literários, existe a inquietação com a qual o ser humano se depara na primeira década deste século XXI e para a qual não encontra respostas, nem saída. Pois o estranho se tornou natural

e o absurdo, comum.

Em meio às catástrofes ecológicas e sociais que se estendem por todo o planeta - não mais restritas somente aos países do terceiro mundo, às ditaduras militares e aos cartéis do narcotráfico ou ao que restou das ex-colônias imperiais - as histórias de Franza Kafka escritas nas primeiras décadas do século XX sobre a degradação humana, a impessoalidade das relações, a impotência frente à burocracia, o tempo que se dilata ou se comprime sem lógica e sem nexo em meio à rotina, a escravidão ao trabalho, a perda da razão ou da identidade, a violência gratuita, a inoperância das leis, os abusos do poder, a insignificância da vida, continuam a causar o estranhamento que a literatura de cunho universal proporciona ao leitor, mas, a cada dia que passa, elas fazem mais sentido.

No entanto, as narrativas de Kafka em que as personagens protagonistas são animais, tais como A metamorfose, Josefina, a cantora ou O povo dos camundongose A construçãopermanecem enigmáticas, e, nós leitores, comprometidos com a literatura, questionamos esses seres que são homens-animais e esses seres que são animais-homens e buscamos através da interpretação as chaves para a abertura dos seus possíveis significados.

No capítulo 1, consultamos a história do povo judeu e verificamos que a animalização

é um estigma que acompanha a tribo de Israel em sua diáspora e tem um nome, chama-se

Judensau. Além disso, fazemos um breve recorte e, ou retrocedendo no tempo alguns séculos antes de Cristo ou avançando alguns séculos depois de Cristo, sinalizamos a presença dos animais na religião judaica, em acontecimentos políticos, econômicos e sociais, focando nossa atenção na primeira metade do século XX, entre as duas guerras mundiais. Procedemos assim por dois motivos: o primeiro está relacionado ao período em que Kafka produziu a maioria dos seus textos, de 1912 a 1924; o segundo, se refere ao fato de que nas décadas que antecedem o Holocausto, o estigma da Judensau volta a conquistar espaço na sociedade européia, sobretudo na Alemanha de Hitler.

12

A obstinação com a qual o ditador do nacional-socialismo alemão compara os judeus a insetos, pragas, bacilos, animais peçonhentos, enfim, uma raça que deveria ser exterminada, nos desperta a curiosidade investigativa e faz com que nossa leitura das narrativas de Kafka seja menos inocente a esse respeito.

Mesmo sem evidências históricas, até o presente momento, de que Franz Kafka tenha conhecido a pessoa de Adolf Hitler, sabemos por parte de seus biógrafos o quanto foram significativos os meses em que o autor tcheco viveu em Berlim, em 1923, mesmo ano em que Hitler realizava seus discursos partidários em cervejarias, reuniões sindicais e insuflava a primeira rebelião popular, mais conhecida como Putsch da cervejaria, causadora de sua prisão. Apresentamos, inclusive, o trecho de uma carta de Kafka a seu amigo Max Brod, dessa época, onde ele revela a crise econômica que está vivendo e o reflexo dessa crise na sociedade alemã.

Outro fato que nos chama a atenção, e que trazemos à tona, também nesse primeiro capítulo, é um trecho da biografia de Kafka, escrita por Ernest Pawel, O Pesadelo da razão, onde ele faz um paralelo entre a data do nascimento de uma das irmãs do escritor biografado e a data do nascimento de Hitler. Seria esse relato comparativo um mero recurso textual ou uma pista para ser seguida pelos estudiosos e pesquisadores da obra ou da vida de Franz Kafka?

Não foi por acaso que nos interessamos, ao longo da pesquisa teórica, literária e documental para a realização desta dissertação, pela ficção de Ricardo Piglia, a saber, seu livro Respiração artificial, onde este autor argentino, ensaísta e teórico da literatura, cria uma personagem que descobre anotações de rodapé, em uma edição antiga de Mein Kampf, e levanta a hipótese de que Kafka e Hitler teriam se conhecido, em 1910, em Praga, no Café Arcos.

Abordamos também a duplicidade de nomes de Kafka, um nome judeu, Amschel, e outro tcheco, Kafka, e o que eles podem representar na vida e na literatura deste autor. Por exemplo, estabelecemos uma comparação entre o corpo metamorfoseado de Gregor Samsa e o corpo de Amschel e consideramos a metamorfose como uma catástrofe que se abate sobre os excluídos, os párias, sobretudo os judeus.

13

No capítulo 2, fazemos uma leitura da narrativa A metamorfose e apresentamos as características da animalização sofridas pela personagem, resultantes da metamorfose. Tratamos da perda da sua capacidade de comunicação, da liberdade de pensamento que possui o homem mesmo em condições desumanas, dos limites internos e externos impostos a um corpo deformado, do corpo sadio como símbolo do equilíbrio social e familiar, do corpo como ferramenta de trabalho, da violência que se exerce com naturalidade sobre um corpo estranho, e do corpo do animal como uma representação do estigma que persegue o judeu em sua condição de outsider.

Para ressaltar o isolamento, a incomunicabilidade, a degradação moral e física da personagem Gregor Samsa advindas do processo de animalização, comparamos A metamorfose de Kafka com o conto O príncipe perudo Rabi Nakhman de Bratzlav e constatamos uma diferença significativa, ou seja, enquanto a capacidade de expressão e comunicação social através da fala é mantida no conto judaico, ela é perdida no conto kafkiano, e isso resulta no aniquilamento e morte do inseto.

No capítulo 3, através de um duplo olhar interpretativo da história Josefina, a cantora ou O povo dos camundongos, comparamos o povo judeu a um bando de ratos. Isso porque Kafka nos permite essa leitura ao escrever, de forma inédita em toda a sua obra, uma narrativa que possui dois títulos. Além disso, o texto faz referências e alusões a questões de tradição, raça, educação, cultura e saber passados de geração a geração, que são atributos condizentes a seres humanos e não a ratos. E, à medida que o enredo avança, ocorre a personificação da ratinha que demonstra sentimentos e ações humanas. Isso permite que o leitor envolvido pela trama questione de quem é que o narrador está falando, se é de uma ratinha que se chama Josefina e emite sons que se parecem com um canto ou se o narrador está-se referindo a uma pessoa que é cantora e se chama Josefina.

Esse jogo entre ser e parecer, criado pela duplicidade de títulos e da humanização do animal, personagem protagonista dessa narrativa kafkiana, nos faz levantar a hipótese de que foi intenção de Kafka estabelecer uma associação de contigüidade entre ratos e judeus.

14

Analisamos também a possibilidade desta história ser uma parábola sobre a liberdade e a libertação do povo judeu do cativeiro à diáspora, pois como afirma Kafka no final da

narrativa, “Josefina, a cantora, redimida da canseira terrena – a seu ver preparada para os

eleitos – (

)

estará esquecida, como todos os seus irmãos, na escalada da redenção”. 1

Mais uma vez, nessa dissertação, não deixamos de contextualizar a narrativa, através de uma breve leitura do momento histórico, político, social e pessoal pelo qual passava seu criador, lembrando que ela foi escrita em 1924, poucos meses antes de Kafka morrer, quando estava sofrendo da tuberculose que de forma progressiva atacou a sua laringe e lhe impediu, nos últimos dias de vida, de falar, de comer e de ingerir líquidos.

O capítulo 4 é a leitura do terceiro conto animalista que analisamos nesse estudo, A construção, onde o protagonista principal é uma personagem sem nome e identidade definida, mas que, pela construção textual de Kafka, o leitor pode imaginar tratar-se de um animal que vive em túneis construídos por ele mesmo no interior da terra. No caso, esse hospedeiro tanto pode ser uma toupeira, um texugo, quanto uma ratazana do campo.

Através da linguagem, o autor tcheco constrói uma história claustrofóbica e labiríntica, cuja descrição do espaço interior tanto pode ser de um buraco, cavado no interior da terra, quanto de uma cela de prisão. Assim, podemos interpretar que a personagem pode ser um homem que vive recluso em condições desumanas, ou numa situação caótica à beira da animalização.

Um trecho do seu livro Diários revela a impressão que causou a Kafka a carta - cujo trecho trazemos à tona nesse capítulo escrita por um de seus cunhados que estava alistado no front, ilustrando a crueza e a precariedade da vida dos soldados nas trincheiras, que mais se assemelhavam a covas humanas ou a buracos de animais peçonhentos.

A construçãofoi escrita na época em que Kafka, pela primeira vez, deixa a casa paterna e a cidade de Praga, licenciado do escritório de seguros onde trabalhava como advogado, para viver sua independência, em Berlim, em 1923, com a única mulher com quem compartilhou efetivamente sua vida: Dora Diamant. Segundo sua biógrafa, Dora e Kafka fizeram de sua casa um lar, um refúgio, um espaço onde o autor tcheco sentiu a plenitude da

1 KAFKA, “Josefina, a cantora ou O povo dos camundongos”. In: Um artista da fome e A construção. Trad. Modesto Carone. São Paulo: Brasiliense, 1984, pp. 58, 59.

15

vida, ao mesmo tempo que constatava que a sociedade moderna, pós Primeira Guerra Mundial, beirava o caos.

Mais uma vez, fazemos a comparação do animal ao judeu e abordamos questões relacionadas à condição humana do judeu assimilado e do judeu não assimilado, da perda da identidade de quem é excluído da sociedade e das fronteiras que separam o homem que pode se comunicar com liberdade daquele que não pode fazê-lo.

No capítulo 5 concluímos sobre os possíveis papéis da literatura, tomando como base o conceito de Kafka expresso num trecho de seu Diários, que trazemos como epígrafe deste capítulo - sobre o poder de transformação que um livro pode provocar na vida do leitor.

Queremos salientar que nosso referencial teórico e material de pesquisa para a realização dessa dissertação estão presentes nos textos de Aristóteles, Theodor Adorno, Walter Benjamin, Zygmunt Bauman, Michel Löwy, Giorgio Agamben, Enrique Mandelbaum, Elias Canetti, Ernest Pawel, Ciro Marcondes Filho, trechos dos Diários e correspondências do próprio Kafka, a leitura da História dos Judeus de Paul Johnson, e de todos aqueles que, além das referências que citamos, estão presentes na bibliografia.

16

1.BREVE HISTÓRIA DA DESUMANIZAÇÃO DO POVO JUDEU

Que tenho eu em comum com os judeus? Mal chego a ter algo em comum comigo mesmo, e deveria meter-me num canto, em completo silêncio, contente por poder respirar.

K.

1.1. A desumanização tem nome - Judensau O espírito medieval reduzia todos os aspectos do universo a imagens. O conflito entre o

Cristianismo e o Judaísmo fazia parte do panorama da vida cotidiana, cujas figuras enchiam

as paredes das catedrais, sendo que os escultores o representavam em termos puramente

teológicos.

O

par

de

imagens

favoritas,

muitas

vezes

representado

com

uma

graça

impressionante, era a Igreja em triunfo, contrapondo-se à enlutada Sinagoga.

O escultor medieval não tratava de temas anti-semíticos; nunca retratou o judeu como um

usurário, uma criatura diabólica que envenenava poços, assassinava jovens cristãos ou

torturava a hóstia. Havia, no entanto, outras imagens que representavam os judeus nas artes

gráficas: o bezerro de ouro, a coruja, o escorpião. Na Alemanha, no fim do período medieval,

começou a vir à tona uma nova imagem: a porca. Não se concebeu originalmente o motivo

como coisa polêmica, mas, gradualmente, este veio a simbolizar todas as pessoas impuras,

pecadores, heréticos, e, acima de tudo, judeus.

Essa iconografia repulsiva e insultuosa, a Judensau, parece ter-se limitado a áreas

influenciadas pela cultura alemã. Mas, além de tornar-se comum, tornou-se uma das mais

poderosas e duradouras, criando, assim, um estereótipo injurioso do povo judeu. E assumiu

uma infinita variedade de formas. Representavam-se os judeus venerando a porca, mamando

em suas tetas, beijando as suas partes traseiras, devorando-lhe o excremento.

17

Essa iconografia proporcionava ricas oportunidades ao tipo mais grosseiro de artista

popular, a quem se apresentava um modelo (o judeu) a que não se aplicava qualquer das

regras usuais de gosto e de decoro, e cuja obscenidade mais crua não era apenas aceitável,

mas motivo de mérito artístico.

A Judensau mais antiga é de 1230 e está no capitel de um claustro da catedral de

Brandenburgo. Ela retrata uma forma híbrida, resultado da união de um porco e um homem

judeu. Sua mensagem, para além da humilhação pública, está centrada no objetivo de separar

os judeus da sociedade humana, 2 e declará-los, também, como representantes ou pertencentes

ao reino animal.

A popularização deste tipo de apelo simbiótico, duplo, metamorfoseado, durou por

mais seiscentos anos e, com a invenção da imprensa, proliferou rapidamente tornando-se

presente em toda a parte da Alemanha. Em pouco tempo, apareceu em livros, em estamparias,

em desenhos, em óleos e aquarelas, no cabo de bengalas, em faianças e em porcelanas. 3

Sua massificação contribuiu para um processo que se tornaria de grande e trágica

importância: a desumanização do judeu. E, se uma categoria particular de pessoa não era

humana, ela podia efetivamente ser excluída da sociedade. Era isso, efetivamente, o que

estava acontecendo. Muralhas estavam sendo construídas, e, à medida que eram erguidas, o

judeu era expulso do ambiente comum das cidades e confinado a um território demarcado,

uma verdadeira cidade-prisão, com horários determinados de entrada e saída, mais conhecida

como gueto.

2 SHACHAR. The Judensau. A Medieval Anti-Jewish Motif and its History. London, Warburg Institute, 1974, p.

54.

3 JOHNSON. A História dos Judeus. Trad. Henrique Mesquita e Jacob Volfzon Filho. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1995, p. 241.

18

Este processo culminou em 1515-16, na cidade de Veneza, por exemplo, com uma

decisão tomada pelo estado de confinar toda a comunidade judaica numa área segregada da

cidade.

O ghetto nuovo original alojou judeus italianos, principalmente, de origem alemã. Em

1541, os judeus do Levante foram transferidos para a fundição próxima ou ghetto vecchio. Por

fim, em 1633, a área foi ampliada e acrescida do ghetto novissimo para alojar judeus

ocidentais, totalizando, nesse período, o número de 5.000 judeus no gueto, para uma

população veneziana de 98.244. 4

Para viverem assim encerrados, os judeus pagavam não apenas impostos de origem e

direitos alfandegários, mas um imposto especial de 200.000 ducados por ano e contribuições

forçadas de pelo menos 60.000 ducados, totalizando não menos do que 260.000 ducados. 5

Por que se submeteram os judeus com tanta paciência a essa espécie de opressão?

Num livro sobre os judeus de Veneza, Simhah Luzzato (1583-1663), que lhes serviu como

rabi durante cinqüenta e sete anos, argumentou que a passividade judaica era uma questão de

fé: Pois acreditam que qualquer mudança reconhecível com eles relacionada (

uma causa mais alta e não de esforço humano. 6

) decorre de

Paul Johnson, em seu livro A História dos Judeus, apresenta uma teoria contrária,

prática e materialista. São suas as palavras:

A verdade consiste em que as comunidades judaicas aceitavam a opressão, e um status de segunda classe, desde que tivessem regras definidas que não eram, constante e arbitrariamente mudadas, sem advertência.

4 JOHNSON, op.cit., 1995, p. 245.

5 JOHNSON, op.cit., 1995, p. 245.

6 LUZZATO. Essay on the Jews of Venice”, 1950, pp. 122, 123, apud, JOHNSON, 1995, p. 246.

19

1.2. A animalização e a doença como representações do anti-semitismo.

Os animais sempre estiveram presentes na história do povo judeu e de suas práticas

religiosas.

No Templo de Salomão havia os sacrifícios normais, nos quais, diariamente, dois

cordeiros eram sacrificados de madrugada, e mais dois ao crepúsculo, sendo necessários treze

sacerdotes para a execução de cada um destes rituais. Homens judeus comuns não podiam

entrar no santuário, mas as portas eram mantidas abertas durante o serviço religioso, para que

todos pudessem ver esse ritual sendo realizado.

Os rituais de sacrifício pareciam exóticos aos visitantes, e podemos dizer que eram

considerados bárbaros mesmo, pois os estrangeiros acorriam em tempos de festas, quando a

quantidade de sacrifícios era enorme. Em tais ocasiões, o Templo interior era um lugar

tremendo os lamentos e mugidos do gado aterrorizado misturavam-se com os gritos e os

cantos rituais e havia sangue por toda parte.

O ato de matar, de sangrar e de trinchar as carcaças tinha de ser feito com rapidez devido

ao enorme número de animais, e para que as pessoas envolvidas na operação se livrassem das

quantidades de sangue que eram vertidas. A plataforma onde era realizado o serviço não era

sólida, era oca, e continha trinta e quatro cisternas, sendo que a maior comportava mais de

dois milhões de galões. Durante o inverno, armazenava-se a chuva e, no verão, vinham

suprimentos adicionais pelo aqueduto da Piscina de Siloan. Tubos inumeráveis levavam a

água até a superfície da plataforma e uma grande quantidade de drenos carregava as torrentes

de sangue.

20

Em 15 a.C., por exemplo, o amigo de Herodes, Marcos Agripa, praticou o grande gesto de

oferecer uma hecatombe (100 animais para sacrifício). 7

Estes espetáculos sacrificiais aguçavam o imaginário cultural e contribuíram para a

construção de crenças populares, segundo as quais os judeus eram autores de sacrifícios

humanos secretos dentro do Templo - por isso, não era permitido ao vulgo entrar nele - ou

adoravam burros e tinham uma cabeça de burro que ornamentava o Templo, ou, ainda,

evitavam comer carne de porco porque este animal era transmissor da lepra. Essas crenças

remontam ao segundo século a.C.

Mas também houve uma tendência entre escritores pagãos, a partir da segunda metade

do primeiro milênio a.C., de verem Moisés como uma figura sinistra, o criador de uma forma

de religião que era estranha, estreita, exclusiva e anti-social.

Manetho, um sacerdote egípcio que falava grego, escreveu uma história, por volta de

250 a.C., que virou uma lenda extraordinariamente resistente, a de que Moisés não era em

absoluto um judeu, mas um egípcio, um sacerdote renegado de Heliópolis, que ordenou aos

judeus matar todos os animais sagrados egípcios e estabelecer domínio estrangeiro. A idéia de

que um sacerdote egípcio rebelde comandou uma revolta de párias, incluindo leprosos e

negros, tornou-se a matriz fundamental do anti-semitismo. 8

Também é curioso, segundo Paul Johnson, que Sigmund Freud - que certamente não

era um anti-semita - fundamentou sua última obra, Moisés e o Monoteísmo, na história de

7 JOHNSON. op.cit., 1995, p.126

8 JOHNSON. op.cit., 1995, p. 40

21

Manetho de que Moisés era um egípcio e um sacerdote, acrescentando a especulação de que

suas idéias religiosas originavam-se no culto solar monoteísta de Aquenaton. 9

1.2.1. O darwinismo social

O sucesso das teses de Charles Darwin, em sua consagrada obra As origens das

espécies, de 1859, não se limitou às ciências sociais naturais. A teoria da evolução e da

seleção natural dos mais aptos tomou conta das ciências sociais e das concepções políticas e

ideológicas do seu tempo.

No final do século XIX e princípio do XX, pensadores de esquerda e direita diziam-se

inspirados no autor da seleção das espécies. Enquanto para os esquerdistas, as teses de Darwin

serviam para desmistificar a religião e a existência de uma ordem hierárquica preestabelecida

pelo poder divino, para os direitistas, as mesmas teses deram origem ao chamado social-

darwinismo, contrário à democracia liberal, que defendia o voto universal, igualando o lobo

ao cordeiro. 10

O programa social-darwinista era amplo. Pregava a eliminação dos desajustados, o

internamento forçado e a esterilização dos elementos considerados inferiores. A antropometria

e a frenologia seriam as ciências auxiliares para estudar as dimensões do crânio, do lóbulo das

orelhas ou da dimensão do nariz, para uma verificação científica desses traços, como

indicadores da inferioridade ou da degeneração biológica.

Alfred Krupp patrocinou um concurso de ensaios no meio acadêmico alemão sobre a

aplicação do darwinismo social nas políticas de estado, tendo vencido os participantes que

9 JOHNSON. op.cit, 1995, p. 41 10 BRANNINGAN. A base social das descobertas científicas. Rio de Janeiro: Editora Zahar Ed.,1984, pp.73-74.

22

advogavam políticas severas, tais como enviar os judeus e outros tipos degenerados para a

guerra, especificamente para o front, como bucha para canhão. 11

Paul de Lagarle rejeitava o Cristianismo, que segundo ele havia sido inventado por um

judeu, São Paulo, e desejava que ele fosse substituído por uma religião Volk alemã específica,

que iria conduzir uma cruzada para expulsar os judeus autores de uma conspiração

internacional materialista do sagrado solo germânico. Ele previu uma grande batalha final

entre alemães

e judeus.

A

violência com

a qual

essas

idéias

eram

apresentadas

era

horripilante. Lagarle defendia uma campanha física contra a peste judaica. Segundo ele, “Com

triquinas e bacilos não se negocia, nem, tampouco, pode-se educar triquinas e bacilos. Eles

são exterminados tão rápida e completamente quanto possível. 12

1.2.2. A Sociedade da Eugenia

A origem dos preconceitos raciais se perde nos tempos. Porém no século XIX, o

racismo adquiriu relevância teórica com a obra de Jose Arthur, o Conde Gobineau, Ensaio

sobre a desigualdade da raça humana, de 1853-1855, considerada a bíblia do racismo

moderno.

Afirmava ele a superioridade geral da raça branca sobre as outras, e a dos arianos,

identificados como os louros de descendência germânica, sobre os demais brancos.

Gobineau interpretou a história pelo prisma do conflito de raças e acreditava, por

exemplo, que a Revolução Francesa de 1789 foi uma vitória da raça inferior, a de origem

celta-romana, que ainda sobrevivia na França e que, aproveitando-se da ocasião do assalto à

11 FEST. Hitler.Trad.: vários autores. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira,1973, p. 91.

12 FEST. op. cit., 1973, p. 110.

23

Bastilha, vingou-se dos francos-germanos, que desde o século V era a raça dominante no

país. Desde então para Gobineau a França decaíra.

O ensaio do Conde, e suas teorias sobre a desigualdade das raças, chamou a atenção de

forma

positiva

do

círculo

freqüentado por Nietzsche.

cultural

e

artístico

de

Richard

Wagner,

que

também

era

O mais conhecido seguidor e divulgador do ideário racista na Alemanha foi o inglês

Houston S. Chamberlain, membro da Sociedade Gobineau e genro de Wagner, que, apesar

de ser um gênio musical, tornara-se um anti-semita fóbico.

Chamberlain defendia a tese de que era inquestionável a superioridade do ser

teutônico, louro, alto e dolicocéfalo, sobre todos os demais.

O II Reich alemão, formado em torno da Prússia, depois da vitória de 1870 contra a

França, fez da antiga Germânia a maior potência industrial e militar do mundo de antes da

Primeira Guerra Mundial,

fato que foi visto como a confirmação da superioridade da raça

defendida por Chamberlain. 13

O mundo do futuro seria controlado pela nova raça de senhores (Herrenvolk) que

imporia sua vontade de poder (Wille zur Macht) sobre uma massa submissa, tornada um

rebanho (Herde). Dela exigiriam obediência de morte. Somente os fortes teriam direito à

vida e os demais deveriam ser eliminados. 14

Em 1883, Francis Galton, com base na teoria de Darwin, cunhou a expressão Eugenia,

fruto de pesquisas e estudos já expostos e difundidos pelo seu livro A hereditariedade do

gênio. Em 1907, introduziu a cadeira de Eugenia na Universidade de Londres e fundou a

13 FEST. op.cit., 1973, p. 138

14 FEST. op.cit., 1973, p. 140

24

English Eugenics Society, que inspirou por sua vez o surgimento da American Eugenics

Society, surgida em 1926, que pregava a superioridade dos germânicos sobre os demais

integrantes da raça humana. 15

Essa ciência desenvolveu-se com sucesso nos meios acadêmicos alemães e americanos

com o objetivo de estudar as possibilidades de apurar a espécie humana sob o ângulo

genético.

1.2.3. Os animais estão olhando para você

Os escritos de Wagner em Religião e Arte (1881) tiveram uma influência digna de

nota no aumento do anti-semitismo, particularmente entre as classes média e alta.

O ataque veio de todas as partes: da esquerda, da direita, dos aristocratas, dos

populistas, da indústria, dos agricultores, do meio acadêmico, da música, da literatura,

endossando e fortalecendo o pensamento do meio científico. 16

Um judeu russo, Leon Pinsker, escreveu um livro chamado Auto-emancipação, no

qual a idéia de assimilação foi abandonada como sendo impossível de ser atingida, uma vez

que, sob todos os pontos de vista, o judeu poderia ser e era atacado:

Para os vivos, o judeu é um homem morto, para os naturais de uma determinada região ou país ele é um estrangeiro e um corre-mundo; para os que detêm propriedades, um pedinte; para os pobres, um explorador e um milionário; para os patriotas, um homem sem pátria; para todas as classes, um rival odiado. 17

15 FEST. op. cit., 1984, p. 142

16 JOHNSON. op.cit., 1995, p. 407

17 JOHNSON. op.cit., 1995, p. 408

25

Do mesmo modo que os bandos de rua formados por comunistas (e também aqueles

formados por nazistas) trouxeram a violência, contribuindo, dessa forma, para a preparação de

uma convulsão nacional, uma grande quantidade de selvageria verbal partiu do lado liberal,

em grande parte vinda de judeus. A sátira era algo natural aos judeus e, na Alemanha, Heine

havia forjado uma matriz poderosa, e quase sempre maldosa, que serviu de inspiração, mais

tarde, para muitos escritores judeus.

Entre

1899

e

1936,

o

escritor

vienense

Karl

Kraus,

que

se

converteu

ao

Protestantismo, assim como Heine, dirigia um jornal chamado Die Fackel (A Tocha), que

estabeleceu novos padrões para a sátira ofensiva, na maior parte dirigida a judeus como Freud

e Herzl. A psicanálise, segundo ele, “é a mais recente moléstia judaica e o inconsciente é

um gueto para o pensamento das pessoas”. 18

1.3. Amschel e K.: imagens de Kafka num caleidoscópio

Os ancestrais de Jakob e Franziska (avós de Franz Kafka) viveram, durante pelo

menos um século, em enclaves judaicos, cercados por uma população de camponeses tchecos.

Diversamente da maioria dos seus correligionários, forçados por um decreto de 1787 a

adotarem sobrenomes alemães, haviam supostamente por uma isenção especial escolhido

nomes eslavos. Seja como for, os Kafkas sempre presumiram que seu nome de família

derivasse de Kavka, designativo tcheco de gralha, embora Jakovke, um diminutivo iídiche de

Jakob, seja outra derivação não improvável.

18 JOHNSON. op. cit., 1995, p. 410.

26

Os Kafkas falavam tcheco em casa, mas, como todos os judeus, mandavam seus filhos

para a escola judaica as escolas eram sectárias, sendo obrigatória a freqüência dos meninos

durante seis anos onde, pela lei, o alemão era a língua do ensino. Herrmann (pai de Franz

Kafka) tornou-se fluente em alemão falado, embora nunca chegasse propriamente a dominar as

complexidades da língua escrita e, até o fim da vida, ficasse visivelmente mais à vontade em

tcheco. 19

A imagem refletida no espelho, por mais dissociada que seja do seu original, está

diretamente relacionada a este original. E apesar de ser reflexo da realidade, essa imagem está

associada a ela por questões de semelhança. Ou seja, o duplo, por mais espectral que seja, é

uma cópia virtual da imagem que se posiciona em frente ao espelho.

Já a imagem projetada no caleidoscópio é plural e está sempre em movimento,

mudando-se, metamorfoseando-se, de forma que sua identificação direta com o original não é

possível. Em cada lâmina espelhada que se movimenta, reflete-se uma imagem sempre nova

que não tem semelhança nem com a imagem anterior, nem com a original. Como afirma o

próprio Kafka em uma de suas notas:

Se nos olharmos com o olhar maculado deste mundo, encontramo-nos na situação dos passageiros de um trem que sofreram um acidente dentro de um longo túnel; do local

do acidente não se pode mais ver a luz da entrada, e a luz da saída é tão ínfima, que o olhar constantemente a procura e constantemente a perde, e até mesmo a entrada e a

saída já são incertas. (

ou dos ferimentos de cada um, acontece um espetáculo caleidoscópico fascinante ou cansativo. O que devo fazer? Ou, para que fazê-lo? Essas perguntas não surgem nessas regiões. 20

vemos apenas monstros e, dependendo do estado de espírito

)

Por isso, no caleidoscópio não temos o duplo da imagem original, e sim, múltiplos

fragmentos descontínuos de imagens, o que significa dizer que não temos no caleidoscópio a

19 PAWEL. O pesadelo da razão uma biografia de Franz Kafka. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1986. (Coleção Logoteca), p. 6.

20 KAFKA, Terceiro caderno de notas in-oitavo, apud KUSCHEL, 1991, p. 60.

27

representação como cópia do real e, sim, recriações várias deste real. Daí sugerirmos a

possibilidade de que o caleidoscópio representa a metamorfose da imagem original. Ou

segundo as palavras de Arnold Hauser em seu texto sobre as obras de Kafka e Joyce:

Os

A arte é atacada por uma verdadeira mania de totalidade. Parece ser possível relacionar qualquer coisa com outra coisa, tudo parece incluir em si a lei do todo. A aviltação do homem, a chamada “desumanização da arte” está relacionada com este

sentimento.(

eram as grandes novelas do século XIX. (

centro psicológico , como também não há esfera psicológica particular na totalidade

do

“contínuo heterogêneo”, a figuração caleidoscópica de um mundo desintegrado. O conceito bergsoniano de tempo recebe uma nova interpretação, uma intensificação e uma deflexão. O que se acentua agora é a simultaneidade dos conteúdos conscienciosos, a imanência do passado no presente (

O que é posto em relevo é sempre a ininterrupção do movimento, o

As obras de Kafka e Joyce já não são psicológicas no sentido em que

não só não há heróis, no sentido de um

)

)

ser.

(

)

21

animais

das

novelas

A

metamorfose,

Josefina,

a

cantora

ou

O

povo

dos

camundongose A construçãoseriam as imagens caleidoscópicas de um eu original

denominado K. que também é a personagem de outras obras do autor, tais como O processo

e O castelo e, independentemente de relacionarmos a personagem K. com seu autor, Franz

Kafka, o uso da abreviatura K., homônima da letra inicial do nome Kafka, é um monograma,

ou seja, uma logomarca de identificação que nos remete a uma das possíveis identidades do

autor, fazendo com que pensemos que narrador, autor e a personagem K. sejam a mesma

pessoa.

Sabemos que na fortuna crítica de Franz Kafka não encontramos esse posicionamento

teórico-crítico, ou seja, de que as personagens que o narrador denomina de K. estão

diretamente vinculadas à pessoa do autor Kafka. Nem mesmo em suas cartas ou nos textos

dos

seus

Diários

Kafka revela essa possibilidade.

Mas, considerando

que não

exista

arbitrariedade a priori nas relações de um signo, podemos estudar essa hipótese e tentar traçar

21 HAUSER. História social da Literatura e da Arte. Trad. Walter H. Geenen. São Paulo: Editora Mestre Jou, 1972, pp. 1127, 1128, grifo nosso

28

um paralelo entre Kafka e suas personagens, principalmente em relação àquelas que nos

surpreendem e são tema dessa dissertação pelo fato de serem animais.

Como

interpretar

a

construção

de

personagens

protagonistas

que

são

animais

peçonhentos, que raramente vêem a luz do dia, pois vivem em buracos, tocas, esgotos, uns até

em grande quantidade, e que são classificados como uma peste ou uma praga que infesta

determinado local, sejam eles insetos ou roedores, e que precisam ser exterminados, pois

alguns como o rato transmitem doenças? Seriam esses animais a representação do judeu e

de sua condição humana, sobretudo no alvorecer do século XX?

Em seu livro Diários, Kafka releva seu outro nome, sua outra identidade, a judaica. E

esta é aquela com a qual ele parece não saber lidar, que o faz sentir-se deslocado na

sociedade, aquela que sofre de inúmeras doenças, desde a insônia e dores de cabeça até a

tuberculose que o mata, e cujo nome ele revela, em dado momento, ao leitor que se dispuser à

leitura atenta de seu diário: “Meu nome hebraico é Amschel, em homenagem ao avô de minha

mãe. 22 E isso nos faz pensar que Kafka e Amschel (Kafka e K.) são duas pessoas em uma

só, um tcheco e um judeu vivendo num mesmo corpo, numa espécie de simbiose, um ser

híbrido, miscigenado, com ambivalências e ambigüidades que se revelam em seus textos.

No dia 30 de setembro de 1917, Kafka escreve sua última carta à Felice Bauer. Ele já

sabe que está tuberculoso e usa a doença para terminar seu noivado com ela. O início do texto

é importante para que tentemos entender a relação de Kafka e Amschel, e o uso que Kafka faz

do seu outro Eu - Amschel - para terminar o relacionamento amoroso com Felice. Ele diz a

ela:

22 KAFKA. Diários. Trad. Torrieri Guimarães. São Paulo: Livraria Exposição do Livro, s/data, p.164.

29

“Como sabes, há em mim dois eus que estão em guerra entre si”. 23 Parece que o término do

noivado é resultado de uma luta travada entre seus dois Eus, à qual Kafka assiste impassível, e

cuja vitória de um dos contentores decidirá o seu futuro com Felice. Mas mesmo assim, com

essas palavras, Kakfa não revela em momento algum, nem a Felice, nem a nós leitores, de que

lado está cada um dos combatentes, ou seja, não sabemos se Kafka luta com Amschel para

manter o relacionamento com Felice, ou se Amschel luta com Kafka contra o relacionamento

com

Felice,

ou

vice-versa.

Kafka

desmancha

o

noivado

com

Felice,

jogando

a

responsabilidade no seu problema de disputa de identidade e colocando-se no papel de uma

terceira pessoa que assiste a essa disputa sem ter qualquer responsabilidade sobre suas

conseqüências. Esse jogo que Kafka faz consigo mesmo e com as outras pessoas, é

considerado por Anatol Rosenfeld como sendo um teatro de marionetes, no qual o homem-

personagem está sujeito à vontade de um Eu (interno ou externo a si mesmo) a que ele se

sujeita ou se submete de livre e espontânea vontade para eximir-se durante a vida de

quaisquer responsabilidades pelos seus próprios atos. 24

1.4. Qual a saída ou Olhares premonitórios?

A República de Weimar, em 1923, ano da chegada de Kafka com Dora Diamond, a

única mulher com quem compartilhou sua vida, em Berlim, parecia prestes a ruir sob a

investida de seus inimigos em casa e no exterior. Mas o incidente absurdo de Munique, a 9 de

novembro, quando um ex-cabo austríaco (Adolf Hitler) liderou um punhado de lunáticos ex-

oficiais e outros assassinos num golpe para derrubar o governo, era algo que Kafka, a

princípio, não teria vivenciado ou tido notícia? Segundo Ernest Pawel, um dos seus mais

conceituados biógrafos da atualidade, o casal raramente podia arcar com a despesa da compra

23 KAFKA, 1973, apud PAWEL, 1986, p. 350.

24 ROSENFELD, “Kafka e Kafkianos”. In: Texto/Contexto I, São Paulo: Perspectiva, 1978.

30

de um jornal. Pois, as pessoas nessa época levavam seus vencimentos do dia para casa em

carrinhos de mão. O velho marco estava morto, fora substituído pelo marco novo, concebido

por um vigarista genial, um certo Horace Greeley Hjalmar Schacht, e ocasionou uma

depressão de dez anos, que deu ao cabo austríaco sua segunda oportunidade . 25

Apesar de estar afastado da vida cultural, social e política, em Berlim, Kafka comenta

em uma das cartas a Max Brod: “Ontem dei uma olhada num jornal local, coisa que tenho

evitado há dias. Mau, muito mau. Mas há uma certa justiça, em estarmos atados ao destino da

Alemanha, como eu e você. 26

É difícil para nós interpretar o que Kafka quis dizer com estarmos atados ao destino

da Alemanha, como eu e você, referindo-se a si mesmo e a seu amigo Max Brod, mas

pressupor que Kafka desconhecia a crise política da época, as manifestações e a propaganda

nazi-fascista que circulava e empolgava os ânimos do povo alemão em seu desemprego e falta

de dinheiro, seria considerá-lo um literato desconectado com a realidade do seu próprio

tempo, coisa que Kafka nunca foi.

Sua capacidade de percepção dos fatos, sua compreensão do ser humano, de seus

sofrimentos, deficiências e necessidades transparecem em várias das conversas mantidas com

seu jovem amigo Gustav Janouch 27 no ano de 1920, em Praga, quando ainda trabalhava no

Instituto.

Kafka escreveu sobre a alienação humana, perante as inúmeras formas de poder e

opressão vividas pelo homem comum, sobretudo o trabalhador, cuja realidade ele conhecia, já

25 PAWEL. op. cit. 1986, p. 420

26 KAFKA. Carta02-10-1923, apud PAWEL, 1986, p. 420

27 JANOUCH. Conversas com Kafka. Trad. Celina Luz; introd. e notas de Bernard Lortholary. Rio de Janeiro:

Nova Fronteira, 1983.

31

que era funcionário público de um instituto de seguro de acidentes de trabalho. Ali, como

advogado dessa seguradora estatal, Kafka teve a oportunidade de ouvir relatos e de redigir

petições, cuja excelência na descrição e agudeza na explicação dos fatos são o retrato de uma

sociedade industrial emergente e triunfante, onde o homem é explorado, humilhado e

atrofiado nas fábricas, sob regimes de trabalho exaustivos e insalubres. Vejamos como Kafka

revela isso nesse trecho:

Ontem na fábrica. As moças, com seus vestidos intoleravelmente sujos e desalinhados

) (

transmissão e as diferentes máquinas, na verdade automáticas, mas que se decompõem

a expressão das caras imobilizada pelo estrépito incessante das correias de

nos momentos mais imprevisíveis, não são seres humanos, não se cumprimenta a elas,

não se lhes pede desculpas quando são empurradas (

).

28

Ao tomarmos conhecimento, através da biografia, escrita por Ernest Pawel, da

presença de Kafka no cenário e no período de tempo em que as idéias de Hitler para uma nova

Alemanha estavam sendo divulgadas, podemos supor, entre outros indícios - que serão vistos

e analisados em cada uma das três novelas, objetos deste estudo -, que suas personagens

fragmentadas,

solitárias,

claustrofóbicas,

alienadas,

enclausuradas,

principalmente

as

protagonizadas

por

animais,

retratam

a

condição

humana

dos

excluídos

socialmente,

sobretudo do judeu assimilado, vivendo sob a glória e o apogeu dos regimes totalitários da

primeira metade do século XX.

A possibilidade de Kafka ter conhecido Adolf Hitler não foi abordada em sua fortuna

crítica, disponível em português e espanhol. E até a data dessa dissertação, não consta que

biógrafos, críticos ou teóricos da literatura tenham analisado ou estudado as personagens

kafkianas das novelas animalistas sob o viés dos conceitos morais, religiosos, políticos ou

sociais de Hitler.

28 KAFKA, Diários, s/data, p. 192 grifo nosso

32

No entanto, no bojo da ficção literária, esse fato é narrado por Ricardo Piglia, escritor

argentino, em seu livro Respiração artificial. Nele, uma das personagens revela ter descoberto

na Biblioteca do British Museum, numa edição crítica de Mein Kampf, prefaciada e anotada

por um historiador alemão, Joachim Kluge, anotações que o levaram a refletir sobre os anos

obscuros da vida de Hitler, entre outubro de 1909 e agosto de 1910, período em que ele

desapareceu de Viena. Leiamos o relato:

A verdade, como demonstram os documentos que anexo no Apêndice 3 desta edição,

) (

crítica de Mein Kampf, de Adolf Hitler, publicada em Londres em 1936, pela editora

Germanb Liberty, dos exilados alemães, é a seguinte: Hitler eludiu o dever de alistamento militar, que caía entre 1909 e 1910. Sua desaparição foi uma fuga do serviço militar. A pesquisa das autoridades austríacas provocou sua detenção provisória e sua transferência para Salzburgo em setembro de 1910. Kluge assinalava que Hitler passara aqueles meses refugiado em Praga. Na nota de pé de

página (

acrescentava, de passagem para demonstrar como sua pesquisa fora

o que escrevera o historiador antifascista Joachim Kluge nas notas à sua edição

)

detalhada que um dos lugares freqüentados quase diariamente por Hitler era o Café Arcos, na rua Meiselgasse, de Praga, ponto de encontro de certo setor da intelectualidade tcheca de língua alemã, os “arconautas”, como Karl Kraus chamava os artistas, escritores e boêmios que se reuniam naquele bar. 29

A partir dessa descoberta, a personagem levanta a hipótese de que Hitler e Kafka

tenham se conhecido no Café Arcos, e sugere que Kafka revela esse encontro de forma

indireta e obscura em passagens de seu diário. É o que ocorre, em especial, no início do livro

Diários, nas anotações referentes ao dia 12 de maio de 1910, onde ele esboça o retrato de um

homem: Sua gravidade me mata. Com a cabeça enfiada no colarinho da camisa, o cabelo

imóvel e penteado sobre o crânio, os músculos do maxilar tensos em seu lugar

.

30

Relendo, eu mesma essa passagem, me surpreendo não só com este trecho, mas com a

continuação do texto que, escrito sob a forma de discurso indireto livre, faz com que nós,

29 PIGLIA. Respiração artificial. Trad. Heloisa Jahn. São Paulo: Iluminuras, 2006, p. 191

30 KAFKA, op. cit., s/data, p. 9

33

leitores, fiquemos em dúvida sobre o sujeito do qual Kafka está falando. Ora parece que ele

fala desse homem de quem “Na obscuridade do bosque, sobre essa terra empapada de

umidade, apenas me guiava a brancura de seu pescoço” 31 , ora parece que ele está falando de

uma bailarina famosa “Eduardowna que se apresentou no teatro alemão de Praga, ora parece

que fala de si mesmo. Principalmente no trecho a seguir, não conseguimos determinar quem é

o sujeito do desespero descrito: Kafka ou o homem que ele não denomina? Leiamos:

Estás em desespero? Sim? Estás desesperado? Ocultas-te? Queres ocultar-te? Os escritores falam imundícies. As costureiras sob a chuva torrencial. 32

A personagem de Ricardo Piglia Tardewski - continua a explicar sua hipótese e toma

como argumento a palavra “ungeziefer” com que os nazistas iriam designar os detidos nos

campos de concentração. É a mesma palavra utilizada por Kafka em A metamorfose para

designar aquilo em que se transformou Gregor Samsa certa manhã ao despertar.

Segundo Tardewski, a personagem de Piglia, “o gênio de Kafka está no fato de ter

compreendido

que se aquelas palavras podiam ser ditas,

então é

porque podiam

ser

realizadas” 33 . E Piglia reproduz a fala que segundo Tardewski é a de Kafka: “Conte-me tudo

do princípio ao fim. Porque o que o senhor planeja é tão atroz que ao ouvi-lo só posso

dissimular meu terror”. 34

31 KAFKA, ibid.

32 KAFKA. ibid., p. 11 33 PIGLIA, op. cit., 2006, p. 197

34 PIGLIA, ibid.

34

Mas, o mais surpreendente na ficção de Piglia está na referência nominal que Kafka

faz desse homem que aterroriza seu imaginário com histórias que ele considera terríveis,

como podemos ler nesse trecho:

) (

Arcos. Em uma delas, remetida no dia 24 de novembro de 1909 a seu amigo Rainer Jauss, Kafka fala desse estranho homenzinho que diz ser pintor e que fugiu de Viena

há duas cartas de Kafka onde ele se refere a um exilado austríaco que freqüenta o

por um motivo obscuro. Chama-se Adolf, e seu alemão tem um acento estranho,

A segunda é uma carta

a Max Brod escrita no dia 9 de dezembro de 1909 (

embora ainda mais estranhas sejam as histórias que conta.(

)

).

35

O fato de Kafka ter conhecido Hitler e, sobretudo, o seu modo de pensar é uma

hipótese lançada por Ricardo Piglia no âmbito da ficção. É uma hipótese não provada ainda,

mas cuja ocorrência possui verossimilhança se analisarmos os enredos da ficção de Kafka -

sobretudo os contos animalistas, cujos temas da perseguição, do sentimento de exclusão, da

desumanização, da solidão, da falta de comunicação e da perda da identidade, entre outros - a

partir da possibilidade de as idéias de Hitler terem influenciado a criação de suas histórias.

Tudo isso que relatamos é uma hipótese, mas o que dizer de um parágrafo incluso na

biografia de Franz Kafka, escrita por Ernest Pawel, onde ele se refere ao nascimento da irmã

mais velha de Kafka, Elli, e anuncia, encerrando esse capítulo, o nascimento de Hitler?

Independentemente do fato de a maioria dos parentes de Kafka ter sucumbido no Holocausto,

uns até mesmo em campos de concentração, o que os dois nascimentos têm em comum para

estarem sendo citados lado a lado em sua biografia ou que importância tem o nascimento de

Hitler para a história de vida do escritor tcheco? É um recurso retórico, histórico, ou uma

hipótese que Pawel lança de modo subliminar para que seus leitores mais atentos a percebam

e no futuro venham a questioná-la e pesquisá-la? Leiamos a passagem e reflitamos:

35 PIGLIA, op.cit., 2006, p. 193 grifo nosso

35

Foi a cozinheira da família que, na manhã de 15 de setembro de 1889, acompanhou o pequeno Franz até o Mercado das Carnes; sua mãe estava no último mês de gestação e, uma semana depois, em 22 de setembro, dava à luz a menina Elli, a mais velha das irmãs de Franz. Um pouco mais cedo, naquele ano, na cidade austríaca não muito distante de Braunau, uma certa Clara, nascida Plözt, mulher do inspetor alfandegário Alois Hitler, dera à luz outro súdito do imperador, um bebê doentio cuja sobrevivência parecia duvidosa. Ele sobreviveu. 36

36

2.

A METAMORFOSE E O CORPO FAMILIAR

Ao tato, o pavilhão de minha orelha parecia fresco, agreste, frio e enrugado como uma folha. Escrevo isto com toda certeza obrigado pelo desespero que me causam o meu corpo

e o porvir deste corpo.

K.

2.1.

Corpo físico, corpo social e corpo do desejo

Esta talvez seja uma das obras excetuando os seus Diários e a Carta ao pai que revela

as problemáticas kafkianas. Trata-se de um mergulho expressivo no universo familiar onde

viveu Kafka e onde sofreu mais profundamente sua condição de outsider, um corpo estranho,

cujo

sentimento

de

pertença

inexiste,

contribuindo

para

a

construção

de

identidades

ambivalentes em constante processo de metamorfose.

Quando Gregor Samsa, a principal personagem de A metamorfose, acorda de um sono

profundo e conturbado, e revela não tratar-se o relato de um pesadelo, mas, sim, da mais pura

e banal das realidades, sua transformação numa barata é uma premissa irreal que, nós,

leitores, aceitamos que nos levará ao mundo cotidiano e expressivo dos Samsa: um mundo

burguês hermético. Afora essa premissa, não há nenhum salto para fora da lógica do “senso

comum”, do bom senso do burguês acomodado em seu lar:

Certa manhã, quando Gregor Samsa abriu os olhos, após um sono inquieto, viu-se transformado num monstruoso inseto. De costas ficou e ele as sentia duras como couraças. Ergueu levemente a cabeça e viu que o seu ventre estava grande, curvo, castanho e dividido por profundos sulcos. A colcha não se sustinha sobre o convexo abdômen e escorregava para o chão. As pernas não eram duas, mas inúmeras, lamentavelmente finas e agitavam-se sem que pudesse contê-las. Que diabo teria acontecido? perguntou-se. Pesadelo não seria. 37

37 KAFKA. A metamorfose. Trad. Marques Rebêlo. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1971, p.13

37

Após a premissa, tudo é tão real, tão natural, que ao final, nós mesmos nos sentimos

algo aliviados com o desaparecimento do inseto asqueroso. Trata-se sem dúvida alguma, do

grande

poder

narrativo

e

expressivo

de

Kafka,

que

nos

conduz

a viver

sua

própria

problemática do ponto de vista dos olhos paternos, para que sintamos em nós mesmos seu

estado de espírito angustiado e estranho face ao cotidiano da vida.

O

relato

da

metamorfose

é

uma

tomada

de

consciência

para

o

despertar

da

autenticidade voltaremos a falar desse devir, tornar-se autêntico da personagem, em

associação com seu nome próprio. No entanto, esse novo corpo, resultado da metamorfose, é

apresentado sob o ponto de vista de seus familiares como castigo, danação, estorvo.

Antes dessa manhã terrível, Gregor sustentava a todos com seu modesto emprego de

caixeiro-viajante: era a esperança da família, o primogênito, com papéis e obrigações sociais

que incluíam os deveres para com a família, em primeiro lugar tal qual Franz Kafka

adolescente aos olhos do pai Herrmann.

Depois, Gregor transforma-se em empecilho, vergonha e insucesso tal qual Franz,

cujo desejo de tornar-se escritor era visto pelo pai como insignificante.

Essa nova condição permite a Gregor Samsa não só libertar-se do emprego, mas,

sobretudo, sair da condição triangular da família, que lhe furtava o direito de assumir o seu

papel como quarto membro da família: o de um dos filhos já que era obrigado a ocupar o

lugar do pai, como provedor, e a trabalhar no lugar dele para manter a todos. O papel de filho

que lhe era negado, encontrava na metamorfose o seu ponto de fuga, de desejo e de

reterritorialização. Ao ver-se metamorfoseado, Gregor tem a esperança de ocupar o espaço, o

lugar que ele julga ser seu por direito, ou seja, o de filho e de irmão.

38

O corpo de Kafka como ele afirma em Carta ao pai era escorregadio, frágil, causando

tanta vergonha a si mesmo que Kafka nos banhos públicos ao lado do seu pai, cujo corpo era

robusto, se recusava a tirar o roupão que o encobria. 38

Segundo Elias Canetti, uma das referências mais comoventes sobre o sentimento de

Kafka a respeito do seu corpo físico encontra-se numa das primeiras cartas a Milena, escrita

no ano de 1920. Também, nesse caso, sucumbe Kafka à coação de apresentar-se a uma

mulher, em toda a sua magreza, esteja ele presente ou distante do campo de visão desta, como

podemos ler a seguir:

Alguns anos atrás, andei frequentemente de barco pelo Moldau. Remava rio acima, e em seguida deixava me arrastar abaixo pela corrente, passando completamente estendido sob as pontes. Por causa da minha magreza, isso deve ter oferecido um aspecto bem divertido a quem me olhasse a partir de uma ponte. Um funcionário de minha empresa, que certa vez me avistou assim, resumiu da seguinte forma o que vira, não sem antes ter salientado suficientemente a comicidade: “o Dia do Juízo parecia iminente. Tinha-se a impressão de presenciar aquele momento em que as tampas dos caixões já estivessem retiradas, mas os mortos ainda jazessem imóveis”. 39

Parece-nos que Kafka passou a maior parte de sua vida sentindo-se mal em relação ao

seu corpo físico, e usou-o também como pretexto para afastar de si as mulheres com as quais

se envolvia, tal como podemos perceber num trecho da carta escrita a Felice em 1 de

novembro de 1912:

Que tal um balneário? Neste ponto preciso infelizmente reprimir uma observação ligada à minha magreza e à aparência que eu teria num estabelecimento de banhos. Ali me pareço como um menino órfão. 40

38 KAFKA. Carta ao pai. Trad. Marcelo Backes. Porto Alegre: L&PM, 2004, p. 80

39 KAFKA, apud CANETTI. O outro processo as cartas de Kafka a Felice. Trad. do alemão por Herbert Caro. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1984, p. 31

40 KAFKA, apud CANETTI, op. cit., 1984, p. 30

39

O corpo monstruoso de Gregor Samsa e a repulsa familiar que seu corpo causa

estariam relacionadas à dificuldade de exposição de Kafka com relação ao seu próprio corpo?

Ainda nas suas cartas percebemos essa possibilidade graças à semelhança da vergonha e da

rejeição que ele sente pelo seu corpo, pois Kafka revela isso, também, através da sua

taciturnidade no trato com as outras pessoas, na dificuldade que tem para falar, na referência

de sua pouca importância, esteja ele dormindo ou esteja acordado:

Mordi os lábios, no

empenho de ater-me ao assunto, mas, por mais que me esforçasse, não estive presente, sem que estivesse todavia em outro lugar. Talvez não existisse durante essas duas horas. Deve ser assim, pois se tivesse dormido ali, na minha cadeira, minha presença teria sido mais convincente. Creio realmente estar perdido para a convivência com seres humanos. 41

Passei mais uma noitada inútil em companhia de várias pessoas

O tema do incesto e do desejo nas obras de Kafka geralmente estão presentes nas

análises feitas pelos críticos e estudiosos de literatura. Seja pelo viés da desterritorialização e

reterritorialização, em Deleuze & Guattari, seja pelo viés da teologia, em Robert Alter, o

desejo recalcado pela mãe e transferido para a irmã é um aspecto que não podemos deixar de

verificar, mais uma vez em A metamorfose. Mas nessa leitura, veremos o incesto como um

desvio ou uma deformidade presente nas famílias das comunidades agrícolas ou nas famílias

urbanas de pouco poder econômico.

A passagem geralmente citada para ilustrar o tema do incesto ressalta o momento em

que Gregor se gruda ao retrato de uma dama que está dependurado em uma das paredes do

seu quarto bem como a cena em que Gregor se dependura sobre os ombros da irmã enquanto

ela toca violino. Mas existem outros momentos no texto, onde podemos relacionar o desejo da

irmã pela música e o desejo de Gregor pela irmã com o dinheiro, e ver a consciência de

Gregor da possibilidade que este tem de satisfazer a ambos os desejos, ou seja, conquistar

41 KAFKA, apud CANETTI, op. cit., 1984, p. 39 grifo nosso

40

mais e mais o afeto da irmã ao pagar seus estudos, realizando o sonho dela de cursar o

Conservatório de Música. Vejamos, por exemplo, este trecho:

A irmã começou a tocar, enquanto o pai e a mãe, firmes em seus lugares,

acompanhavam todos os movimentos das suas mãos. Gregor foi se arrastando para a

Se era um bicho por que a

música o emocionava tanto? Parecia que aquelas sonoridades rasgavam para ele o caminho que devia conduzi-lo até um alimento desconhecido, mas intensamente desejado. Estava resolvido a chegar até a irmã, a puxá-la pela saia e assim fazê-la

Dali por diante não, não a deixaria

Mas era preciso que a irmã

compreender que deveria vir para o quarto (

mais sair do quarto, pelo menos enquanto vivesse. (

frente e encompridou a cabeça para dentro da sala (

)

)

)

ficasse junto dele, não à força, mas espontaneamente; era preciso que se sentasse perto dele no sofá, para ouvir ao pé do ouvido as confidências que tinha a fazer; saberia ela,

e ao ouvir

sua explicação, a irmã, comovida, naturalmente romperia em lágrimas; ele, então, subindo-lhe pelos ombros a beijaria no pescoço, que ela trazia sem colar desde que fora ser balconista. 42

então, do firme propósito que tinha de matriculá-la no Conservatório (

)

2.2. Das cartas de Kafka à sua irmã Elli sobre a educação das crianças

Inúmeras vezes Kafka, seja em seu Diários, seja em suas cartas aos amigos e irmãs, expõe

sua opinião sobre a relação deletéria entre pais e filhos e a influência negativa que os

genitores exercem na formação do caráter infantil quando assumem a responsabilidade pela

sua formação moral, ética e social. Segundo seu ponto de vista, os pais exercem uma

educação claustrofóbica, viciosa e repetitiva. A educação familiar nada mais é do que um

círculo vicioso que reproduz os mesmos erros, os preconceitos, as divergências, os complexos

e as anomalias dos membros da família através de gerações.

Sua opinião está baseada na leitura da obra literária de Jonathan Swift, As Viagens de

Gulliver, e nos conceitos educacionais que esse autor apresenta através de suas personagens

de ficção, os lilliputianos, habitantes da cidade de Lilliput.

42 KAFKA, op. cit., 1971, pp. 87, 88, 89 grifo nosso

41

Numa de suas cartas, escrita à irmã Elli, em Praga, no outono de 1921, Kafka reproduz e

endossa o pensamento de Swift, a saber:

Ao descrever as viagens de Gulliver em Lilliput (cujas instituições ele elogia tão altamente), Swift diz: “Suas noções em relação às obrigações entre pais e filhos diferem extremamente das nossas. Pois, uma vez que a conjunção de macho e fêmea está fundada na grande lei da natureza, a fim de propagar e continuar a espécie, os lilliputianos afirmam que homens e mulheres se juntam, assim como outros animais por motivo de concupiscência e que a sua ternura com relação aos menores procede de

um princípio natural igual. Por cuja razão eles jamais permitem que uma criança fique sob qualquer obrigação para com seu pai por criá-la ou para com sua mãe por tê-la trazido ao mundo, o que considerando as misérias da vida humana não foi nem um benefício em si mesmo, nem assim considerado por seus pais, cujos pensamentos em seus encontros amorosos foram empregados. Por esse raciocínio e outros semelhantes,

a opinião deles é que seus pais são os últimos a merecer confiança com respeito à educação de seus filhos”. 43

É interessante notar a semelhança entre o endosso de Kafka aos conceitos expressos

por Swift, com relação à desobrigação dos filhos da raça lilliputiana em relação aos pais e a

desobrigação conquistada por Gregor Samsa em relação aos pais e à irmã após a metamorfose

sofrida por ele. Ou seja, tanto na carta à irmã Elli, quanto no texto de sua novela animalista A

metamorfose, Kafka defende sua opinião de que os filhos não têm obrigação de trabalhar, ou

sacrificar seus ideais, para prover a vida dos pais. Os laços de parentesco, segundo me parece,

na opinião de Kafka não devem ser correias sufocantes, que aprisionem os filhos à vida dos

pais. Ao contrário, a liberdade e o direito de ir e vir devem fazer parte do relacionamento

entre pais e filhos. E Kafka continua apresentando os pontos de vista de Swift e, de certa

forma, aconselhando a sua irmã Elli com relação à educação de seus sobrinhos:

Isto, pois, é o que pensa Swift: todas as famílias típicas a princípio representam uma ligação animal, um único organismo, o mesmo sangue. Deixada a si mesma, não pode

ir além de si mesma. Por si só ela não pode criar um novo indivíduo e tentar fazê-lo

através da educação dentro da família é uma espécie de incesto intelectual. ( conseqüência, os pais se arrogam do direito, durante a infância dos filhos, de

Em

)

43 KAFKA. Cartas aos meus amigos. Trad. Oswaldo da Purificação. São Paulo: Nova Época Editorial Ltda, s/data, p. 121 grifo nosso

42

representar a família, não somente diante do mundo lá fora, mas também dentro da organização intelectual íntima. Eles, portanto, passo a passo, privam os filhos do seu direito à personalidade e daí por diante os tornam incapazes de jamais alcançarem esse direito de maneira sadia, desgraça que mais tarde vai pesar, não menos para os pais como para os filhos. 44

Essa desgraça que mais tarde vai pesar, é bem exemplificada pelos relacionamentos

claustrofóbicos, egoístas, imediatistas e violentos em que vivem os pais e

os filhos,

principalmente quando estes são adultos. Trata-se de uma guerra doméstica, em que a casa se

assemelha a um campo de batalha, com espaços-territórios e fronteiras que podem ser

representados pelos cômodos, sala e quarto, e portas, respectivamente. Veja-se isso na

seguinte passagem de A metamorfose:

A fuga (do gerente) parece que transtornou o pai, que até aquele momento se mostrara relativamente calmo; em vez de sair em perseguição ao fugitivo, ou na pior das hipóteses permitir que o filho fosse ao encalço dele, empunhou a bengala que o gerente havia esquecido numa cadeira, juntamente com o chapéu e o sobretudo, e

começou, dando retumbantes patadas no

armando ainda a outra mão de um jornal (

soalho, a brandi-los a modo de enxotar o filho para o quarto. De nada valeram as súplicas de Gregor (,,,). Inexorável, o pai impelia o filho para o quarto, assobiando e

urrando como um selvagem (

empurrava Gregor com um crescente barulho. E o

que Gregor ouvia atrás dele não lhe parecia a voz do pai, mas um tumultuoso coro. 45

)

)

De maneira crítica, irônica, e até cômica, Kafka descreve a violência do pai para com

o filho, quando Gregor, o estrangeiro-estranho inseto ultrapassa os limites de seu quarto e

entra na sala para tentar falar com o gerente. Além da questão da defesa do território a sala -

pelo pai, ilustrada pela maneira como ele reconduz o inseto/filho para o único território que

Gregor pode e deve ocupar o quarto existe a inversão dos papéis: bicho-homem e homem-

bicho.

Na condução do texto, o inseto kafkiano acaba sendo visto pelo leitor como um

menino assustado (bicho-homem) que está sendo enxotado da sala para o quarto a patadas,

44 KAFKA, ibid. p. 123

45 KAFKA. A metamorfose, 1971, pp. 40, 41, 42, 43 grifo nosso

43

gritos e vassouradas pelo pai opressor, cujo comportamento irracional e agressivo faz com

que ele se assemelhe a um animal (homem-bicho).

Esse menino assustado não deixa de ser Kafka, criado por amas e cozinheiras e outras

serviçais da casa, enquanto o pai administrava a loja aos gritos e a mãe, devotada ao pai,

ajudava-o também trabalhando na loja.

A insatisfação quanto a sua vida familiar, desde a infância até a vida adulta, morando

sempre na casa dos pais, seus medos e carências, suas culpas reais e imaginárias, o sentir-se

rejeitado pelo pai e esquecido pela mãe, o relato de sua amizade com as irmãs, principalmente

sua afinidade com Ottla, estão presentes nos textos de suas cartas a Felice, a Milena, a Dora

Diamant, aos amigos, nos diários e, sobretudo, na Carta ao pai, que ele nunca chegou a

remeter para Herrmann Kafka. Leia-se o seguinte trecho do seu livro Diários:

Durmo, desperto, torno a dormir, torno a despertar, miserável existência. Quando reflito sobre isso, é-me preciso confessar que a minha educação foi-me

prejudicial em muitas coisas por diversos motivos. Entretanto, não fui educado em

Essa queixa dirige-se

contra uma quantidade de pessoas, a saber: os meus pais, alguns membros de minha

família, alguns daqueles que freqüentavam a nossa casa, vários escritores, uma determinada cozinheira que, por todo um ano, ia levar-me à escola (

qualquer retiro afastado, em qualquer ruína nas montanhas. (

)

46

Outro aspecto que ressalta a animalização do homem em A metamorfose são os

atributos animalescos das outras personagens, principalmente quando elas estão vivendo uma

situação de conflito com Gregor Samsa, como é o caso do gerente, nessa passagem:

O gerente já estava na escada e, apoiando o queixo no corrimão, dirigia um derradeiro olhar para aquele quadro. Congregando todas as suas energias, Gregor procurou encaminhar-se para ele, com o fim de retê-lo; todavia, o gerente, como se adivinhasse secretas intenções, num salto felino, desceu vários degraus e sumiu não antes de soltar um grito que reboou por toda a escada. 47

46 KAFKA. Diários, s/data, p. 13 47 KAFKA, A metamorfose, 1971, p. 40 grifo nosso

44

2.3. O corpo do animal e o corpo do pensamento

Na introdução do seu livro A linguagem e a morte, Agamben discorre sobre a relação

intrínseca entre morte e linguagem a partir do pensamento de Heidegger sobre a morte do ser

humano e a morte do animal. São mortes diferentes: “Os mortais são aqueles que podem ter a

experiência da morte como morte. O animal não o pode. Mas o animal tampouco pode

falar”. 48

A morte do ser humano, assim concebida, não é simplesmente, um fato biológico. O ser

humano deixa de falar, deixa de pensar. E quando cessa a capacidade de pensar, através da

chamada morte cerebral, o que permanece, até findarem suas funções vitais, é o corpo

biológico. Por isso, o corpo nesse estado é denominado de corpo vegetativo.

À diferença do homem, o animal, é somente-vivente; por isso, não morre, apenas cessa de

viver.

Vamos ler o diálogo entre pai e filha que antecede a morte do inseto em A metamorfose:

Não quero dar o nome de meu irmão ao monstro que está aqui. Portanto, pura e simplesmente, direi que precisamos encontrar um modo de ficarmos livre dele. Já fizemos tudo quanto é humanamente possível para cuidar dele e enfrentar a

Mas o que é que podemos fazer, minha filha? - perguntou o pai

É preciso

ficarmos livres deste trambolho! - exclamou a irmã. É a única saída para o caso, papai. O senhor precisa tirar da cabeça a idéia de que esta coisa aí é o seu filho. ( ) Por que cargas d‟água este bicho pode ser Gregor? Se fosse ele, já há muito tempo teria compreendido que não podia viver em comunhão com seres humanos e teria ido embora voluntariamente. 49

situação.(

compungido.(

)

)

Se ele ao menos nos compreendesse disse o pai (

)

48 AGAMBEN, A linguagem e a morte Um seminário sobre o lugar da negatividade. Trad. Henrique Burigo. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2006.

49 KAFKA, op. cit., 1971, pp. 92, 93, 94 grifo nosso

45

e, a seguir, a cena da morte propriamente dita do inseto, para que possamos iniciar uma

possível interpretação da morte do animal em Kafka, sob a luz do pensamento de Heidegger e

pelo viés de Agamben:

Acabava de entrar no quarto (

plena escuridão. (

firme do que a da irmã, como se tal fosse possível. E naquele estado de serena meditação e vaga insensibilidade permaneceu até que o relógio da igreja bateu três horas da manhã. Ainda pôde através dos vidros da janela, ver a madrugada ir clareando, pouco a pouco. Depois, contra a vontade, a cabeça tombou no chão e, pelas suas narinas, filtrou-se um derradeiro e fraco suspiro. 50

E agora? - pensou Gregor, olhando em torno, em

Achou que devia sumir e a sua opinião a esse respeito era mais

)

)

A descrição kafkiana da morte do inseto em A metamorfose parece ilustrar esse

conceito de deixar-de-ser heideggeriano, um estado do ser em que ele cessa de viver.

O ponto crucial do texto Ser e tempo, de Heidegger, é o momento em que ele aborda o

conceito de Dasein. 51

Da-Sein é uma palavra-chave do meu pensamento (ein Schlüssel Wort meines Denkens) e, por essa razão, ela dá ensejo a graves equívocos. Da-Sein não significa tanto, para mim, me voilà, quanto, se posso exprimir-me num francês talvez impossível, être-le-là. E le-là é precisamente visível, desvendamento, abertura. 52

A partir desse conceito de Dasein (o Ser-aí), Agamben faz a seguinte reflexão: se ser o

próprio Da (o próprio aí) é o que caracteriza o Dasein (o-Ser-aí), isto significa que

justamente no ponto em que a possibilidade de ser o Da, de estar em casa no próprio lugar, é

assumida através da experiência da morte, o Da revela-se como o lugar a partir do qual

50 KAFKA, op. cit. 1971, pp. 97, 98 grifo nosso

51 Dasein significa ser-o-Da, cuja tradução, hoje, pode ser aceita como “Ser-aí”, que deve ser entendida como “ser-o-aí”.

52 HEIDEGGER, apud, AGAMBEN, 2006, p. 17

46

infiltra-se uma negatividade radical. Ou seja, existe algo na palavra Da que nulifica, que

introduz a negação no ser humano. 53

O inseto kafkiano sofreu uma metamorfose: fisicamente, biologicamente, tornou-se

um animal; nesse devir animal perdeu o poder da linguagem humana, mas conservou a

capacidade de pensar. Sendo assim, esse personagem-inseto é um ser híbrido. É um homem

pelo pensamento e é um animal pelo corpo físico e pela perda da fala. Queremos dizer com

isso que a metamorfose proporcionou a Gregor Samsa uma morte física e a morte da

linguagem, mas não a morte do pensamento. O Dasein foi preservado graças à capacidade de

pensar que não foi alterada em Gregor.

Mas como o Dasein carrega dentro de sua significação o conceito de negatividade, de

anulação, foi essa nulidade que, abatendo-se sobre o pensamento de Gregor-inseto, causou a

sua morte. A morte do pensamento é a morte de Gregor. Ou seja, o tornar-se animal de

Gregor Samsa não foi apenas um deixar-de-ser humano, foi uma linha de fuga das obrigações

sociais e cotidianas próprias do trabalhador assalariado, no auge da era industrial, cujo

trabalho rotineiro e escravizante, sem prazer intelectual, faz com que esse ser humano mais se

pareça com um animal de carga do que com um homem trabalhador.

Em seu devenir animal, Gregor conquistou uma liberdade que antes como empregado,

caixeiro-viajante, ele não tinha. Principalmente, a liberdade de pensar. Pois, podia fazê-lo sem

as interrupções das outras pessoas e sem os atropelos diários e condicionantes da vida

humana.

53 AGAMBEN, op. cit., 2006, grifo nosso

47

Quando o inseto se recolhe no seu quarto, pela última vez, ele o faz com o desejo de

sumir. Acredito que esse sumir é o momento de negação, de negatividade, de explosão do

Dasein, de anulação de Gregor Samsa. O momento em que, considerando os sentimentos que

seus familiares nutrem por ele, o seu desejo é deixar-de-ser totalmente, deixar de Ser-o-aí, e

para isso ele cessa o pensamento. Vejamos o trecho de novo:

E naquele estado de serena meditação e vaga insensibilidade permaneceu até que o relógio da igreja bateu três horas da manhã. Ainda pôde através dos vidros da janela, ver a madrugada ir clareando, pouco a pouco. Depois, contra a vontade, a cabeça tombou no chão e, pelas suas narinas, filtrou-se um derradeiro e fraco suspiro. 54

2.3.1. O corpo que não fala, mas pensa

Para Ciro Marcondes Filho, teórico brasileiro da comunicação, com pesquisas na área de

filosofia da linguagem, Gregor Samsa morreu não porque se transformou

em barata, mas

porque perdeu a possibilidade de comunicação com os componentes da sua família humana

(o pai, a mãe e a irmã). Afinal, o termo comunicação mantém relacionamento direto com

“comum” e “comunhão”. E “comumtem a ver com a idéia de pertencer ao mesmo tempo a

vários sujeitos. Em Platão, por sua vez, toda semelhança deriva de uma participação efetiva de

uma idéia que seria comum. Já comunhãodiz respeito à semelhança dos sentimentos., das

idéias, das crenças, entre duas ou mais pessoas que têm cada uma consciência dessa

semelhança. Daí a comunicação designar a experiência imediata da consciência do outro.

Assim, Ciro Marcondes Filho argumenta que não basta existir, ser humano e ser pensante,

para estabelecer a comunicação com o outro. É preciso a experiência e a troca de alguns pré-

54 KAFKA, op. cit., 1971, pp. 97, 98 grifo nosso

48

requisitos para que ela possa se estabelecer a priori, a saber: verdade, justiça, autenticidade e

inteligibilidade. 55

Concordamos que a comunicação com os outros é importante para a vida do ser humano,

sobretudo quando as relações humanas são baseadas na verdade, na justiça, na autenticidade e

na inteligibilidade. Mas, no caso de Gregor Samsa, o que influenciou a sua morte foi algo

mais do que sua incomunicabilidade com a família, com suas mentiras, injustiças, falta de

autenticidade entre ele e seus parentes, e a ininteligibilidade que se agravou quando Gregor

perdeu a capacidade de falar. O que levou Gregor Samsa a morrer foi seu desejo de sumir, sua

vontade de deixar-de-ser, seu ato de deixar-de-pensar.

A força do pensamento da personagem Gregor Samsa metamorfoseado em inseto é tão

significativa que é através de seu pensamento narrativo que conhecemos sua história. Ou seja,

existem dois narradores em A metamorfose: o narrador onisciente e o narrador protagonista.

Ou seja, um narrador que conta a história usando a terceira pessoa (a voz do autor) e um outro

narrador que, através do discurso indireto livre (a voz de Gregor Samsa), interfere na ordem

do discurso, aproximando o leitor cada vez mais do texto e do protagonista da história de

modo que aquele começa a sentir e a viver as emoções deste.

Uma das mensagens de Kafka em A metamorfose passa pela idéia de que enquanto houver

pensamento, há esperança, há vida, de que pode-se tirar tudo de um homem, menos o seu

pensamento.

55 MARCONDES FILHO. O espelho e a máscara: o enigma da comunicação no caminho do meio. São Paulo:

Discurso Editorial; Ijuí: Editora Unijuí, 2002.

49

2.4. Falas, vozes e ruídos os sons dos conflitos

Kafka raramente via o pai, embora ouvisse com muita freqüência a voz estrondosa

daquela

divindade

distante,

própria

dos

exercícios

militares,

vulgaridade e suas ameaças trovejantes.

com

sua

ensurdecedora

Segundo Ernest Pawel, esse comportamento paterno ajudou a atiçar as fantasias do

menino, impedindo-o de ter uma visão prosaica, comum, do pai da vida real. E, também,

deixou Franz com uma sensibilidade mórbida e vitalícia ao ruído. Talvez, por isso, o quarto

para Kafka tenha sido o seu local de refúgio e isolamento, como podemos ler no trecho a

seguir:

A sensibilidade de Kafka a ruídos é como um alarme. Prediz desnecessários, ainda inarticulados, perigos dos quais a gente se pode esquivar, evitando qualquer barulho,

como se fosse o diabo. (

Não suporta receber visitas em

seu quarto. A própria convivência com a família num e no mesmo apartamento atormenta-o. 56

corpo externo, que poderíamos chamar pré-corpo. (

Seu quarto transforma-se em refúgio. Converte-se num

)

)

Em cartas a Felice, ele fala da necessidade de silêncio para escrever, da necessidade de

fechar-se em seu quarto até altas horas da noite, quando os barulhos comuns produzidos em

uma casa habitada por várias pessoas diminuíam até silenciar-se totalmente.

Após a metamorfose sofrida, Gregor Samsa vive enclausurado no espaço do seu quarto,

cuja descrição é minuciosa. Três portas comunicam esse aposento aos outros cômodos da

casa. E os atos de abrir, fechar ou trancar as portas são carregados de significado. Um deles

relacionado à violência do barulho produzido, chama a atenção, pois demonstra o tom jocoso

e desrespeitoso com que ele é tratado e de como isso o incomodava, à semelhança dos

desconfortos que os barulhos causavam a Kafka.Vejamos:

56 CANETTI, op. cit.,1984, pp. 32, 33 grifo nosso

50

Apesar das múltiplas proibições, a mulher da limpeza batia tanto com as portas que, quando chegava, era impraticável dormir. Na manhã seguinte, muito cedo, vindo fazer

Gregor a breve visita do costume e, como sempre, batendo violentamente com a porta, não notou nada de anormal. ( )

a

57

Adorno, nos aforismos do seu livro Minima Moralia, critica a condição humana e o

comportamento das pessoas na era da tecnicidade. Para ele, muitos atos cotidianos do

indivíduo se transformaram em manifestações de agressão ao próximo. Um deles é a violência

sonora e física com que o homem trocou o bater à porta pelo bater com a porta. Leiamos:

Por enquanto, a tecnificação torna os gestos precisos e grosseiros e, com eles, os homens. Desaloja dos gestos toda a hesitação, todo o cuidado, toda a urbanidade. ( ) Assim se desaprende, por exemplo, como fechar uma porta de forma suave, cuidadosa

e completa. A dos automóveis e dos frigoríficos devem atirar-se; outras tendem a

fechar-se por si mesmas, (

Nos movimentos que as máquinas exigem daqueles que

as utilizam reside já o violento, o brutal e o constante atropelo dos maus tratos fascistas. 58

)

Kafka dá ênfase à questão dos ruídos nas novelas animalistas, conotando a violência, a

agressão, as torturas físicas e emocionais, o medo, a alienação e a revolta dos operários nas

fábricas, a repetição mecânica do trabalho realizado pelo homem com as máquinas, e a vida

rotineira e sem sonhos dos funcionários de escritórios, em meio a uma sociedade que vê surgir

e florescer o capitalismo selvagem e a opressão dos governos totalitários.

Kafka escreve e revisa as primeiras provas de A metamorfose nos anos de 1912 e

1914, respectivamente. É a época dos conflitos políticos, econômicos e sociais que levariam à

Primeira Guerra Mundial, conflito bélico sem precedentes, como afirma o historiador Cláudio

Vicentino nesse trecho, a seguir:

57 KAFKA, op. cit., 1971, p. 99

58 ADORNO, Minima Moralia. Trad. Artur Mourão. Lisboa: Edições 79, 2001, p. 35.

51

A Primeira Guerra Mundial foi um confronto bélico sem precedentes históricos, pois envolveu todas as grandes potências do mundo, impondo o recrutamento obrigatório em cada nação, não só para o exército como também para a produção, resultante numa completa mobilização econômica e militar. No esforço de guerra cada Estado assumiu

a administração de sua própria economia e todos os cidadãos tornaram-se soldados.

Os tanques de guerra, os encouraçados, os submarinos, os obuses de grosso calibre e a

aviação demonstraram que o mundo possuía uma capacidade bélica até então

A Primeira Guerra Mundial apresentou duas grandes fases: em 1914

houve a guerra de movimento e, de 1915 em diante, a guerra das trincheiras.( )

inimaginável.(

)

59

Perante esse poder bélico - formado pelas tropas de soldados e tanques que marcham

como uma onda maciça e uniforme, ocupando os espaços públicos e privados a sua frente -, o

ser humano sente-se tímido, indefeso e temeroso. A qualquer momento, as pessoas podem ser

pisadas, estraçalhadas e esmagadas como insetos, se estiverem no caminho dessas máquinas

de guerra, com seus apitos, sirenes e sons ensurdecedores.

Kafka não podia ficar impassível a toda essa situação e sua forma de alertar as pessoas

para os absurdos da guerra e a conseqüente desumanização do homem se encontra sobretudo

nas páginas de suas novelas animalistas.

Em A metamorfose, a incapacidade humana de falar da opressão familiar - que educa

pelo medo e pelo grito -, das injustiças sociais, dos aviltamentos morais e físicos causados aos

proletários pela exploração, das atrocidades da guerra, do matar e morrer em massa e da

animalização do homem nos campos de batalha é representada pelos sons ininteligíveis que o

inseto produz ao tentar se comunicar sem consegui-lo:

- Senhor gerente! - berrou Gregor inteiramente desatinado e olvidando-se de tudo.

Eu abrirei a porta imediatamente. Não me demoro mais. (

única palavra do que ele falou? perguntou o gerente a seus pais. Será que ele está

Você tem que ir chamar o médico com urgência. Gregor

está passando mal. Depressa, correndo! Você ouviu como ele falou? Era uma voz de

bicho acrescentou o gerente num tom extremamente baixo. 60

se fazendo de maluco? (

Vocês entenderam uma

)

)

59 VICENTINO, História Geral. São Paulo: Editora Scipione, 1997, p. 359, grifo nosso

60 KAFKA, op. cit., 1971 pp. 29, 31 grifo nosso

52

Walter Benjamin, em seu texto Experiência e pobreza, trata das conseqüências que

as experiências nocivas, destrutivas ou medíocres vividas pelo ser humano podem acarretar na

construção de sua história pessoal e, até mesmo, na reconstituição dessa história sob a forma

de narrativas:

está claro que as ações da experiência estão em baixa, e isso numa geração que

entre 1914 e 1918 viveu uma das mais terríveis experiências da história.Talvez isso não seja tão estranho como parece. Na época, já se podia notar que os combatentes tinham voltado silenciosos do campo de batalha. Mais pobres em experiências comunicáveis, e não mais ricos. Os livros de guerra que inundaram o mercado literário nos dez anos seguintes não continham experiências transmissíveis de boca em boca.

Não, o fenômeno não é estranho. Porque nunca houve experiências mais radicalmente desmoralizadas que a experiência estratégica pela guerra de trincheiras, a experiência

Uma geração que ainda fora à escola num bonde puxado por

do corpo pela fome (

cavalos viu-se abandonada, sem teto, numa paisagem diferente em tudo, exceto nas nuvens, e em cujo centro, num campo de forças de correntes e explosões destruidoras,

estava o frágil e minúsculo corpo humano. 61

) (

)

A questão da fala e da voz, em A metamorfose, é abordada pela própria personagem

que tem consciência da fronteira que se estabeleceu entre ele - inseto - e os seres humanos.

Gregor percebe que sua fala não é a reprodução do seu pensamento. Mas não descobre isso

imediatamente, e sim, pouco a pouco, quando se comunica com seus familiares e eles nem

ligam para o que ele fala, demonstrando não terem entendido nada do que ele julgou dizer,

como fica claro nesse trecho:

Gregor ficou horrorizado ao ouvir a própria resposta. Que era a sua voz, era. Saía, porém, misturada com um doloroso e incontido assobio, muito fino, fazendo com que

as palavras, a princípio claras, perdessem a clareza, tornassem-se confusas a ponto de

duvidar que pudessem ter sido entendidas. (

tranqüilo. Verdade é que suas palavras eram ininteligíveis conquanto lhe parecessem

extremamente claras, mais claras do que antes, talvez porque seus ouvidos já

estivessem habituados àquela articulação. (

ninguém, em contrapartida ninguém, inclusive a irmã, imaginou que ele pudesse entender os outros. 62

pois como não se fazia entender por

Gregor, porém, sentia-se mais

)

)

61 BENJAMIN, “Experiência e pobreza”. In: Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Trad. Sergio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1994 (Obras escolhidas; v. 1), pp. 114, 115 grifo nosso

62 KAFKA, op. cit., 1971, pp 18, 32 e 49 grifo nosso

53

2.4. O corpo da negatividade e o corpo do Nome

O

primeiro

livro

de

Kafka

publicado

por

uma

editora

foi

A

metamorfose.

No entanto, ele já havia produzido outros textos, que ficaram restritos ao conhecimento dos

amigos mais íntimos ou publicados em cadernos literários da universidade ou de periódicos de

Praga. E, na maioria de suas histórias, as personagens protagonistas recebem como nome

apenas a letra K. ou ganham um nome que antecede o sobrenome, cuja letra é K., - por

exemplo, Joseph K. personagem de O processo - ou não recebem nome algum, como a

personagem da novela animalista “A construção”, como veremos em breve.

Por isso, o fato de Kafka iniciar uma de suas principais novelas animalistas revelando o

nome e o sobrenome da sua personagem protagonista, logo na primeira linha, da primeira

frase de A metamorfose - “Certa manhã, quando Gregor Samsa abriu os olhos (

)” -, e, após a

metamorfose, o nome não lhe ser tirado, nem o inseto passar a ser denominado por outro

nome, não é gratuito. Isso talvez expresse alguma intenção de Kafka.

Segundo Hegel, o primeiro ato com o qual Adão estabeleceu o seu domínio sobre os

animais foi o de dar-lhes um nome, negando-os, portanto, como seres independentes e

tornando-os ideais para si. Pois, segundo seu conceito, “no nome é suprimido o seu ser

empírico, ou seja, ele é um concreto, uma multiplicidade em si, um vivente e um ente, sendo

transformado em um ideal puramente simples em si”. 63

O nome é por si duradouro, mas a manifestação do nome não necessita para ser

manifesto da presença do sujeito ou do objeto do nome. Pois, o nome existe como linguagem

63 HEGEL, apud, AGAMBEN, op. cit., 2006, p.64

54

que, portanto, não se fixa, e igualmente cessa, de imediato, aquilo que é, ou como diz Hegel

“existe no elemento do ar”. 64

Quando Kafka denomina sua personagem de Gregor Samsa e mantém esse nome após

a metamorfose, dá-se o contrário, tomando-se como base o conceito hegeliano de nome. Ou

seja, o nome fica fixado à personagem e, quando essa personagem se metamorfoseia, o novo

corpo continua com o antigo nome, com toda a carga de negatividade que esse nome carrega

em si. Ou seja, a liberdade que Gregor conquista - livrando-se das obrigações rotineiras de um

homem comum, um assalariado - quando metamorfoseado, a chamada linha de fuga

deleuziana 65 , é uma ilusão. Veja-se o trecho em que o inseto é chamado pelo nome próprio:

- Viu o que você fez,Gregor? berrou Grete, brandindo o punho fechado e fulminando o irmão com olhar terrível. Eram as primeiras palavras que lhe dirigia diretamente desde a metamorfose. 66

Através do nome, Gregor, o seu antigo papel de provedor da família continua sendo

cobrado pelos parentes, justamente por ele deixar-de-ser esse provedor. Se alguma vez, ele foi

visto pelos pais e pela irmã como o arrimo da família, aquele que lhes garantia o sustento e a

paz doméstica, a partir da metamorfose, ele será visto como um monstro, um desertor das suas

obrigações. E essa carga de culpa lhe é jogada nas costas, literalmente, quando o pai atira

várias maças para enxotá-lo da sala, como podemos ler a seguir:

Nisto, uma coisa habilmente atirada passou rente a ele, caiu no chão e rolou para longe - era uma maçã, a que imediatamente se seguiu outra. Amedrontado, Gregor não fez um único movimento; era inútil continuar andando, agora que o pai decidira bombardeá-lo. Na verdade havia esvaziado a fruteira, que se encontrava em cima do aparador, enchera os bolsos de maçãs e atirava-as, uma atrás da outra, embora não tivesse, até então, conseguido acertar nenhuma no alvo. 67

64 HEGEL, apud, AGAMBEN, op. cit., 2006, p. 65

65 DELEUZE & GUATTARI, Kafka, por uma literatura menor. Trad. Júlio Castañon Guimarães. Rio de Janeiro: Imago Editora Ltda., 1977.

66 KAFKA, op. cit., 1971, p. 67 grifo nosso

67 KAFKA, op. cit., 1971, p. 72 grifo nosso

55

2.5. Metamorfose, metábole, tragédia e catástrofe

O gosto pela literatura levou Georges Bataille a reunir em A Literatura e o Mal

diversos estudos onde analisa a obra de Emily Brontë, Baudelaire, Michelet, William Blake,

Sade, Proust, Kafka e Jean Genet, parcialmente publicados na revista Critique, nos anos que

se seguiram à Primeira Guerra Mundial, e discute o sentido que tinha a literatura para ele. Em

síntese, em sua visão, a literatura é comunicação que impõe uma lealdade e uma moral

rigorosa; por isso, ela não é inocente e não comporta meios termos. Segundo ele, a literatura

é o essencial ou não é nada. E o mal - uma forma penetrante do Mal - que pode ser expresso

pela literatura tem para nós, creio eu, um valor soberano. 68

Diante deste Mal é necessário que façamos uma reflexão sobre a tensão entre

catástrofe e representação. E, para dimensionar o alcance da tensão, é importante retomar o

conceito de catástrofe. No âmbito da Teoria Literária, o conceito de catástrofeestá

vinculado estreitamente à descrição da tragédia, uma vez que é tomado como reviravolta,

como virar de cima para baixo, apesar de essa palavra não aparecer na Poética de

Aristóteles, que pauta o estudo dessa forma. Ali, a descrição desse movimento do enredo é

feita com o termo metabolè (metábole), transformação. Mas catástrofe, com o sentido de

reviravolta, é amplamente usado para descrever a trajetória do herói trágico, cujo destino é

a ruína, que se presta a restabelecer a possibilidade de volta a um ponto de equilíbrio da

comunidade que o herói espelhava. Portanto, com esse sentido e nesse contexto, catástrofe

acena para um movimento de possível recomposição, de reconstrução. No entanto, desde

Ésquilo até Plutarco, a palavra é usada com o significado de términoe fim; em Heródoto,

como verbo, significa aniquilar”. Nessa medida ela aponta para um movimento de

56

desaparecimento, de extinção, de aniquilamento, pois já não se abre qualquer possibilidade de

recomposição, de ressurgimento.

É esta acepção da palavra catástrofeque se pode reconhecer de modo latente na

frase de Adorno: “A crítica cultural encontra-se diante do último estágio da dialética entre

cultura e barbárie e escrever um poema após Auschwitz é um ato bárbaro(

)” 69 , ou seja, o

aniquilamento do homem ecoa no aniquilamento da utopia humanista, corroendo o poder

explicativo da razão e a crença no conhecimento como força de civilização. Nela está exposta

a tensão entre catástrofe e representação, a quebra de confiança, da fluência na relação entre o

homem e as formas familiares de expressão.

A partir dessa possibilidade, A metamorfose de Kafka não é apenas o retrato de uma

transformação física; não é metábole, é uma catástrofe, uma grande crise que se abate sobre a

família de Gregor Samsa e que representa de forma microscópica a tragédia humana. Nesse

enredo, a transformação deixa de ser uma questão individual, metamorfose do corpo, para ser

uma questão universal, distorção da moral e da ética humanista.

Dessa forma, entendemos que no enredo kafkiano, a metamorfose não é nem uma

transformação física, nem é metáfora de um estado do ser. É a representação da situação de

limite que leva o corpo social à barbárie e sua conseqüente desumanização.

69 ADORNO, Prismas crítica cultural e sociedade. Trad. Augustin Wernet e Jorge Mattos Brito de Almeida. São Paulo: Editora Ática, 1998.

57

3. A CANTORA JOSEFINA E A EXLUSÃO SOCIAL DE UM POVO.

Estou desesperado como um rato, torturado por dores de cabeça e insônia; a maneira como passo meus dias ultrapassa

K.

qualquer descrição.

A novela Josefina, a cantora ou O povo dos camundongosé um dos últimos

trabalhos literários de Kafka que chegou ao conhecimento do público. Escrita em março de

1924, durante sua passagem pelo sanatório de Wiener-Wad, onde foi detectada a tuberculose

em sua laringe, pela clínica Hajek, e, por fim, no sanatório de Kierling, onde ele vem a falecer

no dia 3 de junho, é considerado o texto do seu leito de morte, e, segundo um de seus

biógrafos, Ernest Pawel,

retrata a tensão efervescente na terra dos ratos, entre Josefina, pretensa mestra na arte sem arte de assoviar, e seu povo sem raízes, condenado ao exílio eterno, toca com grande sutileza e perspicácia na natureza da arte, dos artistas e da sociedade; o fato de ter sido também uma alegoria profética e multifacetada do desterro e da redenção judaicos já foi assinalado por Brod. 70

Na primeira frase, o narrador utiliza o mesmo recurso usado em A metamorfose, ou

seja, revela o nome da protagonista da novela, Josefina, mas nesse texto, através da primeira

pessoa do plural, nós, denomina sua profissão, “cantora”. A associação de idéia do povo

dos camundongos, da qual Josefina é a representante, com o povo judeu é uma possibilidade

apontada por Brod, sustentada por Pawel e que passamos a analisar. Vejamos o texto de

Kafka:

Nossa cantora se chama Josefina. Quem não a ouviu não conhece o poder do canto. Não existe ninguém a quem seu canto não arrebate, o que deve ser mais valorizado ainda, uma vez que nossa raça em geral não é amante de música. Para nós a música mais amada é a paz do silêncio. 71

70 PAWEL, op. cit., 1986, p. 427 grifo nosso

71 KAFKA, Josefina, a cantora ou O povo dos camundongos. In: Um artista da fome e A construção. Trad. Modesto Carone. São Paulo: Brasiliense, 1984, p. 37 grifo nosso

58

Após apresentar a protagonista, sua profissão e seu poder de arrebatar o povo com sua

voz, o narrador avisa ao leitor que este povo pertence a uma raça que não é amante da música

e questiona a realidade do canto de Josefina ao mostrar a vida e os costumes numa sociedade

de ratos, como descrito a seguir:

É realmente um canto? Embora não sejamos musicais temos tradições de canto; em épocas antigas do nosso povo o canto existiu; as lendas falam a esse respeito e foram conservadas inclusive canções, que naturalmente ninguém mais sabe cantar. Temos portanto uma noção do que é o canto e a arte de Josefina não corresponde, na verdade, a essa noção. É pois realmente um canto? Não é talvez apenas um assobio? E assobiar todos nós sabemos, é a aptidão propriamente dita do nosso povo, ou melhor; não se trata de uma aptidão, mas de uma manifestação vital bem característica. 72

A rede semântica com a qual Kafka trabalha o texto, leva o leitor a um estranhamento.

Está Kafka realmente falando do povo dos camundongos ou ele está-se referindo ao povo

judeu, pois “tradições de canto que vêm de épocas antigas do nosso povo” ou “lendas que

falam a esse respeito e canções que foram conservadas, que naturalmente ninguém mais sabe

cantar” não são referências lógicas e naturais a animais como os ratos.

Assobiaré um verbo de ação freqüente tanto na novela A metamorfose, onde o

inseto emite sons que Kafka diz que são assobios, quanto nesta novela, Josefina, a cantora ou

O povo dos camundongos”, sendo que aqui esse assobio pode ser um eufemismo utilizado por

Kafka, pois o som produzido por um rato, principalmente quando está sendo morto, é um

guincho, ou seja, um chiado que, dependendo da altura em que é emitido, pode ser confundido

com um grito por quem o ouça. Por outro lado, no âmbito da linguagem, o assobio pode

representar o código de comunicação de uma determinada comunidade que, por estar excluída

da sociedade na qual está inserida, utiliza-se deste meio para veicular mensagens para seus

integrantes, sem que os cidadãos da ordem social estabelecida e aceita possam reconhecê-las

como mensagens e interpretá-las.

59

Através da descrição da vida numa sociedade de ratos - animais peçonhentos, que

transmitem doença, que vivem em buracos, que só saem de seus esconderijos à noite e evitam

o contato com o homem -, Kafka poderia estar fazendo uma alusão à vida do povo judeu no

alvorecer do nazi-fascismo, que nessa novela pode estar representado pelo animal, o

contraponto do homem alemão, o ariano, pertencente à raça pura.

Um outro aspecto que chama a atenção, para a possibilidade de que Kafka nesta

narrativa esteja tratando de questões judaicas, é o título. À diferença de suas outras novelas,

romances e contos, esta apresenta uma duplicidade de título: Josefina, a cantora ou O povo

dos camundongos. A alternativa que Kafka oferece ao leitor parece ser uma forma de chamar

a atenção, de sublinhar uma intenção. Adorno em seu ensaio Anotações sobre Kafka

ressalta que cada palavra no texto kafkiano tem seu valor, um peso determinado, e, por isso,

em seu discurso literário nada é gratuito “cada frase é literal, e cada frase significa” e

continua:

A violência com que Kafka reclama interpretação encurta a distância estética. Ele exige do observador pretensamente desinteressado um esforço desesperado, agredindo-o e sugerindo que de sua correta compreensão depende muito mais que apenas o equilíbrio espiritual: é uma questão de vida ou morte. Um dos pressupostos mais importantes de Kafka é que a relação contemplativa entre o leitor e o texto é radicalmente perturbada. 73

O ambiente familiar está presente tanto na novela A metamorfose, quanto na novela

Josefina, a cantora

ou

O povo

dos

camundongos

e,

em

ambas,

Kafka

pode

estar

comunicando ao leitor fragmentos de sua experiência familiar. Em seu livro Diários, ele

retrata a dificuldade e o incômodo que lhe causa viver na casa paterna e ter que conviver com

a presença onipresente e onipotente do pai, que a todos tentava comandar, mas fora algumas

saídas temporárias da cidade de Praga - para tratar da saúde, em viagens a trabalho, de férias

73 ADORNO, op. cit., 1998, p. 241

60

ou recuperando-se no campo, na casa de sua irmã Ottla, ou vivendo em Berlim com Dora

Diamant, alguns meses, em 1923 -, Kafka sempre retornava à casa, para a convivência

familiar. Esse círculo que não se rompe, o vai-e-volta à casa paterna, a dificuldade de uma

saída efetiva, resulta na opressão e no aniquilamento protagonizado através de grande

sofrimento por Gregor Samsa, em A metamorfose, e na luta empreendida por Josefina, para

dele sair.

Vejamos como o narrador fala da família e descreve o comportamento do povo dos

camundongos com relação ao trato e à educação que as crianças recebem:

Ocorre, simplesmente, que nossa vida é de tal ordem que uma criança, mal aprende a andar um pouco e consegue, numa certa medida, achar seu caminho no mundo, tem que cuidar de si mesma tal como um adulto. Estamos, por motivos econômicos,

espalhados por uma área grande demais, nossos inimigos são numerosos demais, os perigos que nos espreitam por toda parte são imprevisíveis demais - simplesmente não podemos dar-nos ao luxo de proteger nossos filhos da luta pela existência: fazê-lo seria condená-los a uma sepultura precoce. Mas há uma razão a ser citada, mais

)

esperançosa do que deprimente: a fertilidade de nossa tribo. (

persiste o fato de não podermos dar a nossos filhos uma infância verdadeira. 74

)

No entanto (

Kafka parece descrever o ressentimento e a culpa de “um povo que não pode dar aos

filhos uma infância verdadeira”, infância verdadeira que ele, por sua vez, também não teve.

Trata-se de um mundo que ficava na fronteira entre o modo como seus ancestrais foram

criados e o modo com que Herrmann educou o filho e as filhas, um mundo onde o anti-

semitismo perseguia a todos, estivessem eles num enclave judaico, no meio de camponeses

tchecos, ou dispersos no anonimato da cidade.

Não só para Kafka, mas para o povo judeu, sempre haveria o mundo do gueto, um

ambiente de segregação e exclusão - desde a Idade Média -, demarcado por um portão e uma

muralha que isolava seus habitantes da convivência com os cidadãos.

74 KAFKA, op. cit., 1984, pp. 47, 48 grifo nosso

61

É um mundo de fronteiras físicas que, por suas características e conseqüências sociais,

éticas e morais, criava fronteiras imaginadas que Kafka desde cedo compreendeu, e cuja

experiência ele pretendeu nunca tomar como referência para viver a vida que o pai

considerava mais adequada para ele.

Até mesmo para um leitor que desconheça a história do povo judeu ou a biografia de

Kafka, as palavras desse trecho acima de Josefina, a cantora ou O povo dos camundongos”

pode ser motivo de estranhamento. A justificativa de que por motivos econômicos, os ratos

estão espalhados por uma área grande demais” não é adequada a nenhuma espécie do reino

animal e chamar de “tribo” um bando de ratos é inaceitável, pelo viés da Antropologia. Este

argumento e esta denominação são apropriadas a seres humanos. Neste caso, também,

acreditamos que não haja inocência no texto kafkiano e que ele se refere ao povo judeu.

3.1. A porta-voz da liberdade

Os regimes totalitários, o nazi-fascismo emergente e o nacionalismo exacerbado do

povo alemão, após serem derrotados na Primeira Guerra Mundial, fazem com que a prática da

Judensau ressurja na Alemanha pela mão dos artistas anti-semitas. Nomes pejorativos, tais

como “porcos, ratos, praga, vermesvoltam a fazer parte do vocabulário cotidiano com

que eles adjetivavam os judeus. E, segundo Paul Johnson, na História dos Judeus, as

representações nas artes gráficas mais freqüentes durante o período nazista eram: o bezerro de

ouro, a coruja e o escorpião. 75

75 JOHNSON, op. cit., 1995.

62

Essa arte iconográfica pejorativa encontra uma contrapartida na arte literária de Kafka,

que se utiliza do recurso da desumanização para criar uma líder que protagoniza a luta pela

libertação.

Enquanto a perseguição e as manifestações de protesto contra o povo judeu tornam-se

comuns na década de vinte nos sindicatos dos trabalhadores, nas assembléias dos partidos que

disputam o poder, nos discursos das campanhas políticas e nos debates acalorados nas

cervejarias de Munique, Josefina, a cantora arrebata a multidão de ratos com seu canto-

discurso.

Sua forma de expressão é questionada pelo narrador, como já vimos. Mas ela

consegue reunir os camundongos com seu canto, e sua voz conquista a massa de ouvintes. No

entanto, como pontua o texto, apenas um espectador se manifesta em resposta ao que ela diz.

Porém, ele é imediatamente calado pela multidão, e, de maneira geral, Josefina acredita que

canta para ouvidos surdos, como podemos observar nesses trechos:

Sucedeu certa vez que uma coisinha tola começou a assobiar com a maior inocência

durante o canto de Josefina. Era exatamente a mesma coisa que ouvíamos de Josefina:

lá na frente, o assobio que continuava tímido apesar de toda a prática e aqui no público

a assobiação infantil e esquecida de si mesma; teria sido impossível marcar a

diferença; mas calamos imediatamente a perturbadora com guinchos e sibilos ( )

de fato na sua opinião ela canta para ouvidos surdos; entusiasmo e aplausos não lhe faltam, mas há muito tempo ela aprendeu a renunciar à compreensão real ( )

(

)

76

Apesar de não haver diálogo do povo dos camundongos com Josefina, sua líder, este

povo a segue para onde ela for cantar, como podemos ler a seguir:

E para reunir em torno de si esta multidão do nosso povo quase sempre em

movimento, correndo de lá para cá em função de objetivos nem sempre muito claros,

Josefina não precisa, na maior parte das vezes, fazer outra coisa senão, com a cabecinha atirada para trás, a boca semi-aberta, os olhos voltados para o alto, assumir

A notícia de que vai cantar se espalha

a posição que indica a intenção de cantar. ( depressa e logo desfilam as procissões. 77

)

76 KAFKA, op. cit., 1984, p. 41 grifo nosso 77 KAFKA, op. cit,. 1984, pp. 42, 43 grifo nosso

63

Vimos no capítulo 1 dessa dissertação, em passagens do livro A História dos Judeus,

que um dos motivos do judeu se sujeitar à discriminação imposta pela sociedade é o

sentimento de errância que ele alimenta como eterno estrangeiro e, por isso, as comunidades

judaicas radicadas nos estados ou territórios que os hospedam aceitam as regras que lhes são

impostas, julgando assim, com essa atitude, evitar a incerteza. Só que a intranqüilidade, a

insegurança, a dúvida, são temas marcantes nos enredos kafkianos, como se Kafka quisesse

com isso reafirmar que é impossível ao povo judeu conquistar a paz e a segurança aonde quer

que ele se encontre, como vemos, a seguir, nesse trecho:

Nossa vida é muito intranqüila, cada dia traz surpresas, temores, esperanças e sustos, de tal forma que o indivíduo não poderia absolutamente suportar tudo se não tivesse

dia e noite o apoio dos companheiros; (

na verdade estava destinado a apenas um. 78

às vezes tremem mil ombros sob o peso que

)

3.2. Duplos olhares - Tudo o que parece, pode ser.

Adorno se reporta a Walter Benjamin quando ele diz que a prosa de Kafka é uma arte de

parábolas, e vai mais além explicando que ela não se exprime pela expressão, mas pelo

repúdio à expressão, pelo rompimento: “é uma arte de parábolas para as quais a chave foi

roubada; e mesmo quem buscasse fazer justamente dessa perda a chave seria induzido ao erro

na medida em que confundiria a tese abstrata da obra de Kafka, a obscuridade da existência,

com o seu teor”. 79

Essa obscuridade pode ser vista como um jogo onde o leitor passa por várias fases, cada

qual contendo enigmas para serem desvendados e chaves para que ele possa entrar na fase

seguinte, até concluir a leitura com sucesso. São enigmas e chaves que nem sempre abrem o

texto para a interpretação, levando o espectador a uma encruzilhada que pode conduzi-lo a

78 KAFKA, op. cit., 1984, p. 41 grifo nosso 79 ADORNO, op. cit., 1998, p. 241

64

múltiplas possibilidades de leitura, ou a leitura nenhuma, pois o número de mensagens, umas

superpostas às outras, dificulta a interpretação. Sigamos com o ponto de vista de Adorno:

Um dos pressupostos mais importantes de Kafka é que a relação contemplativa entre o leitor e o texto é radicalmente perturbada. Os seus textos são dispostos de maneira a não manter uma distância constante com sua vítima (o leitor), mas sim excitar de tal forma os seus sentimentos que ela deve temer que o narrado venha em sua direção,

) (

Como num conto de fadas, o destino dos que falharam em resolver o enigma, em

vez de assustar, serve de incentivo. Enquanto a palavra do enigma não for encontrada, o leitor permanece preso. 80

Na biografia de Hitler, escrita por Joachim Fest, encontramos uma frase que revela o

ódio inato do ditador pelo povo judeu, que ele expressava já em seus primeiros discursos no

circo Krone: “Os judeus serão certamente uma raça, mas não são seres humanos. Não podem

ser humanos criados à imagem de Deus eterno. O judeu é a imagem do Diabo e o judaísmo é

a tuberculose racial dos povos”. 81

Pensar no fato de Kafka ter assistido a este discurso no circo Krone, durante sua

permanência

em

Berlim,

é

uma

possibilidade,

que

Kafka

estava

na

cena

dos

acontecimentos,

no

ano

de

1923.

Pensar

nos

efeitos

que

essas

palavras

de

Hitler,

acompanhadas pelo seu gestual teatralizado e grotesco, produziram no emocional de Kafka

nos

permite

entender

melhor

esse

trecho

de

“Josefina,

a

cantora

ou

O

povo

dos

camundongos:

) tão

rápido quanto Josefina deseja (

um modo totalmente impróprio para uma moça e chega até a morder. Mas mesmo um

são enviados mensageiros para

convocar ouvintes; (

gesticulam, aos que se aproximam, para que se apressem; isso dura até que finalmente

Para compreender a sua arte é necessário não só ouvi-la como também vê-la. (

ela se enfurece, bate com os pés no chão, xinga de

)

comportamento como esse não prejudica sua fama; (

)

)

nos caminhos de todas as redondezas vêem-se sentinelas que

esteja reunido um número razoável de espectadores. 82

80 ADORNO, ibid.

81 FEST, op. cit., 1976, p. 259

82 KAFKA, op. cit., 1984, p. 43 grifo nosso

65

A princípio, a hipótese de Josefina, a cantora protagonizar tanto uma frágil líder do

povo judeu, quanto o estereótipo de Hitler pode ser um paradoxo. Mas, isso pode ser possível

se pensarmos na multiplicidade das mensagens contidas no texto kafkiano, passível de

inúmeras interpretações. Esse é o tipo de escrita invertida em que a heroína é o algoz e vice-

versa.

O comportamento de Josefina, autoritário, irracional, desrespeitoso para com seus

espectadores,

ilustra

o

fato

de

que,

muitas

vezes,

durante

as

etapas

de

sujeição

ao

totalitarismo, este provoca uma duplicidade de comportamento por parte daqueles que o

sofrem. No cenário, em que a guerra mundial é normal, o anormal pode não ser o pior. Daí, o

temor de Kafka com relação a uma sociedade subjugada não se encontrar no comando e na

luta armada, e sim no abuso que podem advir daí.

Segundo Adorno, Klaus Mann insistiu na semelhança entre o reino de Kafka e o

Terceiro Reich:

O método de Kafka foi confirmado quando os obsoletos traços liberais da anarquia da produção mercantil, que ele tanto acentua, retornaram sob a forma da organização política da economia desregulada. E não foi apenas a profecia de Kafka sobre a tortura

Em O castelo, os funcionários vestem um uniforme

especial semelhante ao da SS, que qualquer pária pode costurar, se for necessário;

também as elites do nazismo nomearam a si mesmas. Detenção é assalto; tribunal de

justiça, um ato de violência. (

nome Gisa, provavelmente é a única moça bonita deixada intacta pela descrição de

pertence à raça pré-adamítica das virgens de Hitler, que odeiam os judeus

muito antes deles existirem. 83

A professora loura, cruel e amante de animais, de

e o terror que se confirmou. (

)

)

Kafka, (

)

Às ressonâncias individuais na obra juntam-se as da circunstância histórica. O absurdo

de uma violência cega, alienada e fatal faz os pesadelos mais insuportáveis de Kafka

empalidecerem perante os campos de concentração.

83 ADORNO, op. cit., 1998, p. 256

66

O bem e o mal, o bom e o mau, lendo Kafka, são fronteiras movediças, talvez como o

próprio solo que pisamos. Envolta pelo horizonte da realidade, que não é, incondicionalmente,

o mesmo do realismo, essa literatura convida à reflexão e ao desassossego, ao sentido de

responsabilidade que nele chega ao delírio dos pormenores.

A idolatria, a subserviência e a multidão de seguidores fazem de Josefina uma líder

ambígua que deseja comandar o povo dos camundongos em troca do privilégio de não

trabalhar e, para isso, usa da chantagem de diminuir o seu canto, deixando de utilizar o que

ela chama de floreios, e quando este artifício não dá a ela o resultado esperado, se faz de

doente. Mas o povo não cede ao capricho dela, pois faz parte da sua tradição que cada um

participe da comunidade com sua cota de trabalho, como podemos ler nesse trecho:

Desde há muito tempo, talvez desde o início de sua carreira artística, Josefina luta para ser liberada de qualquer trabalho, em consideração ao seu canto; devia ser aliviada da preocupação com o pão de cada dia e de tudo o mais que está ligado à nossa luta pela

existência, (

entre nós não se conhece quem fuja ao trabalho. Assim por exemplo,

afirmou recentemente que, durante o trabalho, sofreu um ferimento no pé. Embora

somos um povo de trabalhadores e

manque e se faça apoiar pelos seus adeptos ( Josefina também faz parte dele. 84

)

)

Existe aqui nesse trecho uma tensão entre o desejo de Josefina e a realidade que lhe é

imposta pelo povo. De forma invertida, não é o líder quem exige que seus comandados

trabalhem para ele, e, sim, o povo que exige o trabalho do líder. É possível que nas narrativas

de Kafka esta seja a figura da revolução, pois segundo Adorno “Kafka não glorifica o mundo

submetendo-o a ele, mas resiste-lhe mediante a não violência. Perante esta, o poder tem de

confessar ser o que é.” 85 . Vejamos essa passagem:

Mas existe ainda alguma outra coisa que é mais difícil de explicar nesta relação entre o

povo e Josefina. ( econômica difícil. (

inclusive as falsas e as semi verdadeiras ela se levanta imediatamente, quando o seu

A cada má notícia e em certos dias elas se atropelam,

Seu canto supostamente nos salva de uma situação política e

)

)

84 KAFKA, op. cit., 1984, p. 52

85 ADORNO, op. cit., 1998, p. 258

67

costume é ficar deitada no chão, cansada; levanta-se estica o pescoço e procura abranger com o olhar o seu rebanho ( )

86

3.3. Convulsões políticas, novas fronteiras e a desumanização.

As razões que contribuíram para o êxito nazista na Alemanha são similares às do

fascismo na Itália, agravadas pela desastrosa derrota da Alemanha na Primeira Guerra

Mundial e pela humilhação resultante do Tratado de Versalhes. Com o final da guerra, o

regime dos kaisers alemães foi substituído pela República de Weimar (1918 1933), que já

surgiu marcada pela derrota, pela humilhação e pela crise socioeconômica. Às progressivas

dificuldades após Versalhes foram acrescidas as indenizações financeiras exigidas pelos

vencedores.

Em 1923, a República de Weimar resolveu cancelar tais pagamentos, que resultou na

invasão francesa do vale do Ruhr. Em contrapartida, os trabalhadores alemães desta região

entraram em greve, negando-se a trabalhar para os franceses, o que obrigou o governo alemão

a não abandoná-los, ampliando a emissão monetária para custear e manter a posição

estratégica e pára-militar destes trabalhadores. O resultado foi uma espiral inflacionária, que

chegou a atingir o índice absurdo de 32.400% ao mês. 87

Alguns anos antes, o Partido Nazista foi fundado na Baviera pelo ferroviário Anton

Drexler, com o nome de Partido Operário Alemão (Deutsche Arbeiter Partei). Adolf Hitler

compareceu a uma das suas primeiras reuniões como espião militar, e acabou aderindo ao

partido, desligando-se das Forças Armadas. Em fevereiro de 1920, Hitler já era o dirigente

responsável pela propaganda do partido e mudou-lhe o nome para Partido Operário Alemão

Nacional-Socialista (National-Sozialistiche Deutsche Arbeiter Partei). Como os socialistas

86 KAFKA, op. cit., p. 45 grifo nosso

87 VICENTINO, op. cit., 1997

68

(Sozialisten) eram popularmente chamados sozi, os nacional-socialistas passaram a ser

chamados de nazi (nazista). 88

As convulsões sociais atingiam como uma onda toda a Europa central e oriental no

final do século XIX e no alvorecer do século XX. E todos os movimentos de protesto contra a

dominação de Viena eram acompanhados por manifestações anti-semitas. Por exemplo,

durante a sublevação de Praga, em 1897, na queda do governo de Baden, Kafka tinha

quatorze anos e as disputas nacionalistas faziam estragos entre os estudantes. Ele freqüentava

a escola judaica da Cidade Velha e, ao lado, havia uma escola alemã. Certamente, Kafka,

como tantos outros alunos, foi alvo de agressões físicas e morais. Numa carta à Milena,

comenta que nessa época conheceu o nome que classifica o povo judeu nas ruas de Praga:

“raça sarnenta”. 89

O significado de sarna é bastante amplo: se encontra nos danos causados às oliveiras,

árvores típicas das regiões da Palestina, e numa doença que acomete os animais, sobretudo

aqueles que vivem nas ruas, e os homens, chamada escabiose*.

A comparação estabelecida por Kafka, na novela Josefina, a cantora ou O povo dos

camundongos, entre o povo dos camundongos e o povo judeu é notável, por vários aspectos.

Em primeiro lugar por destacar a capacidade de proliferação do rato, tão necessária a um povo

que vive disperso pelos quatro continentes, como o judeu, onde a maior quantidade de filhos é

bem-vinda, seja para assegurar a continuidade da família, seja para a melhor distribuição das

obrigações que cada um assume para o seu fortalecimento econômico e social. Em segundo

lugar pelo tema da salvação e da figura do salvador - um Messias que há de libertar seu povo

88 KONDER, Introdução ao fascismo. Rio de Janeiro: Graal, 1977 89 EISNER, Kafka. Buenos Aires: Editorial Futuro, 1959 (Coleção Eurindia). *Escabiose [Do lat. scabie, „sarna‟, + -ose 1 .] Substantivo feminino 1.Derm. Afecção cutânea contagiosa, parasitária, provocada no homem pelo Sarcoptes scabiei e nos animais, por ácaros que variam com a espécie. [Sin.: sarna e (bras., pop.) coruba ou curuba, já-começa, jareré, jereba, jereré, pereba, pira<