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E O ROMANCE CONSTRÓI O GÊNERO:

UMA ANÁLISE DA REVISTA O IDÍLIO 1

GENDER BUILDING ROMANCE:AN ANALYSIS OF O IDÍLIO

Adelaine LaGuardia*

Renan Reis Fonseca**

Resumo

Este artigo tem como objetivo geral recuperar a memória cultural brasileira ligada à construção do gênero por meio da análise da revista O Idílio,“uma revista em quadrinhos com histórias de amor romanceadas”, dedicada a moças e rapazes, que circulou no Brasil a partir de setembro de 1948 até meados de 1977. Partindo dos conceitos de “gênero”, propostos por Joan Scott (1992, 1994), e de “representação”, presente na leitura da obra de Louis Althusser feita por Stuart Hall (2003), a pesquisa, voltada para as fontes primárias, visa a compreender também como o elemento romântico é articulado na construção de um imaginário popular sobre o gênero na revista.

Palavras-chave: Revista O Idílio, Gênero, Romance, Histórias em Quadrinhos.

Abstract

The aim of this paper is to recover the Brazilian cultural memory related to gender construction in a magazine entitled O Idílio,“a comic book with romantic love stories”, dedicated to young women and men, which was published in Brazil from September 1948 to 1977. Based on the concepts of “gender”, as proposed by Joan Scott (1992, 1994), and “representation”, as discussed by Stuart Hall (2003) in his readings of Louis Althusser, this study also endeavors to comprehend how the romantic element is articulated in the construction of a popular imaginary related to gender in the magazine.

Key words: O Idílio, Gender, Romance, Comics.

1 Introdução

Durante muitos anos, principalmente nos Estados Unidos, onde tiveram grande divulgação e

importância, as chamadas pulp magazines 2 tinham como alvo principal o público masculino. Enxurradas de revistas de ficção científica, horror, suspense etc. eram distribuídas em todo o país semanalmente. No entanto, após a Segunda Guerra Mundial, tanto as pulp magazines quanto as revistas que publicavam somente histórias em quadrinhos, voltaram seu interesse especialmente para o público feminino. É a partir desse período que o gênero romântico ganha força e começa a abarcar considerável parcela do mercado consumidor sob a forma de revistas em quadrinhos, fotonovelas, revistas de contos etc.

Tomando como objeto a revista O Idílio, publicada no Brasil a partir de 1948, e entendendo o texto não apenas como representação da “vida real”, mas como um conjunto de narrativas imaginativas construídas sobre a vida cotidiana das mulheres e dos homens no contexto do pós-guerra no Brasil, a presente análise busca compreender como se dão ali as representações de gênero. Para tanto, valemo-nos das abordagens feministas sobre “gênero”, buscando situar essa questão no contexto do mercado editorial dos quadrinhos no Brasil. O corpus da pesquisa compõe-se dos cinco primeiros exemplares da primeira série publicada, edições que abrangem os meses de setembro de 1948 até fevereiro de 1949.

Por se tratar de uma pesquisa em fontes primárias, o presente trabalho busca recuperar a memória cultural brasileira ligada à construção de gênero no imaginário popular. Essa recuperação contribui para as mais diversificadas frentes: estudos de gênero, estudos sobre histórias em quadrinhos (as quais vêm sendo resgatadas e estudadas com maior intensidade nos últimos anos) e um maior conhecimento sobre a constituição do mercado editorial brasileiro dos quadrinhos e suas publicações. Para melhor respondermos a esse desafio, propomos alguns desdobramentos. Na perspectiva dos estudos em fontes primárias, os objetivos específicos buscam responder a indagações relacionadas ao aspecto da produção da revista, tais como: que condições permitiram a emergência de revistas como O Idílio no Brasil? Como se compõe materialmente a revista?

Já na perspectiva dos estudos feministas, busca-se compreender como se dão as representações e

as relações de gênero na revista. Segundo Joan Scott (1994), o gênero traduz um saber acerca das

diferenças sexuais e diz respeito à compreensão cultural que se tem sobre as relações humanas na

sociedade, mais especificamente as relações entre homens e mulheres. Esse saber, segundo a

autora, é sempre relativo:

Ele é produzido de maneira complexa no interior de epistemes que têm, elas próprias, uma história autônoma (ou quase). Seus usos e significados nascem de uma disputa política e são os meios pelos quais as relações de poder – de dominação e de subordinação – são construídas. O saber não se refere apenas a ideias, mas a instituições e estruturas, práticas cotidianas e rituais específicos, já que todos constituem relações sociais. O saber é um modo de ordenar o mundo e, como tal, não antecede a organização social, mas é inseparável dela (p. 12-13).

O saber a que Scott se refere é construído, reproduzido e reforçado pelos/nos discursos do senso

comum e também nas práticas cotidianas de instituições como a família, a escola e a igreja,

envolvendo rituais e práticas de convivência entre os sexos, como o namoro ou casamento.Assim,

o saber de gênero que acumulamos revela nada menos que o funcionamento ideológico e, como

tal, está intimamente ligado à distribuição do poder entre homens e mulheres ou à organização

social dos sexos. Segundo Stuart Hall (2003), esse saber, intimamente ligado ao funcionamento

ideológico, está impresso no senso comum, nas práticas e rituais cotidianos, ou é gerado dentro

daquilo que Louis Althousser denominou “aparelhos ideológicos de Estado”.Além disso, esse saber

ou essas ideias não surgem espontaneamente das mentes dos indivíduos, mas da linguagem,

compreendida como “práticas significativas que envolvem o uso de signos, bem como, no domínio

semiótico, o domínio do significado e da representação” (Hall, 2003, p. 173). Essas práticas

significativas é que permitirão que os sujeitos se reconheçam na ideologia enquanto homens,

mulheres, homossexuais, heterossexuais etc. e se expressem como tais.

Em sua leitura de Althusser, Hall (2003) chama atenção ainda para a definição de ideologia

enquanto “sistemas de representação” feita pelo filósofo francês em sua obra intitulada A favor de

Marx.Tais sistemas seriam compostos por conceitos, ideias, mitos ou imagens nos quais os homens

e as mulheres viveriam suas relações imaginárias com as suas reais condições de existência.Ao

designar as ideologias como “sistemas de representação”, Hall (2003) reconhece o seu caráter

eminentemente discursivo e semiótico. Em outras palavras, são “sistemas de significado pelos quais

nós representamos o mundo para nós mesmos e os outros” (p. 179) por meio de práticas

envolvidas na produção de significado. Embora todas as práticas estejam inscritas na linguagem e,

portanto, sejam ideológicas, algumas delas estão mais intimamente ligadas à produção de

representações ideológicas, como é o caso da mídia. Daí, a importância de se analisarem os produtos midiáticos, e especialmente para o nosso fim, aqueles produtos midiáticos que produzem e refletem “saberes”, ideias e práticas ligadas à organização dos sexos, como é o caso da revista O Idílio.Assim, o conceito de representação, ou de “sistemas de representação”, nos auxilia na compreensão de como se (re)produzirá o “gênero” na medida em que se expressarão na revista ideias, conceitos, imagens, estereótipos capazes de expressar “valores”, os quais, por sua vez, irão (re)produzir as hierarquias entre os sexos e (re)inscrever ou perpetuar (ou não) relações assimétricas entre eles. Portanto, observar como se dá a produção de significados, por meio dos enredos das histórias em quadrinhos que compõem a revista O Idílio e das imagens ali retratadas, esclarecerá como se dá o funcionamento ideológico ou a distribuição do poder entre os sexos, sendo esse o objetivo último que orienta a presente análise.

2 Os Quadrinhos e o Mercado Editorial Brasileiro do Pós-guerra

Desde o século XIX, o Brasil produz caricaturas, cartuns e charges, essas últimas sendo conhecidas

em grande parte devido ao trabalho de Ângelo Agostini 3 (1843-1910). No entanto, como aponta Gonçalo Silva Júnior (2004), foi somente no início da década de 1930 que o Brasil viu as modernas histórias em quadrinhos se popularizarem. Durante viagem aos Estados Unidos, o jornalista Adolfo Aizen (1907-1991) tomou conhecimento das tiras publicadas diariamente nos jornais americanos que faziam grande sucesso junto ao público.Ao retornar ao Brasil,Aizen criou, em 1934, o Suplemento Infantil – que se apresentava como parte integrante do jornal A Nação –, no qual passou

a publicar as comic strips 4 , seguindo o modelo estadunidense. Foi a partir desse momento que o mercado editorial de histórias em quadrinhos no Brasil começou a ganhar forma.Ainda durante a década de 1930, outro personagem importante entrou na disputa: Roberto Marinho (1904 – 2003), que, em 1937, lançou O Globo Juvenil, visivelmente inspirado nos moldes do Suplemento de Aizen.

Ainda em 1934, animado pelo sucesso do Suplemento Infantil,Aizen se desvinculou do Jornal A Nação e criou o Grande Consórcio de Suplementos Nacionais, que passou a editar e publicar o Suplemento Infantil sob novo nome: Suplemento Juvenil. Em 1939,Aizen lançou duas novas revistas:

Mirim e O Lobinho. Para fazer frente à revista Mirim, Roberto Marinho publicou O Gibi – também em

1939.

Em 1944, passando por dificuldades financeiras,Aizen se viu obrigado a vender o Grande

Consórcio para o governo. Foi com a nova editora de Adolfo Aizen, Editora Brasil-América (EBAL),

que o país testemunhou um crescimento efetivo no mercado das histórias em quadrinhos.A EBAL,

em seus dois primeiros anos, funcionou principalmente como editora de livros e só em 1947

lançou sua primeira revista em quadrinhos: O Herói.Assim, tivemos uma empresa de quadrinhos

nos moldes do mercado norte-americano que perdurou até o início da década de 1990 e

introduziu no Brasil os comic books.

O período de maior importância para a presente pesquisa é aquele do pós Segunda Guerra

Mundial. Esse período foi marcante para as histórias em quadrinhos, uma vez que estas foram

frequentemente utilizadas com propósitos ideológicos, principalmente pelos Estados Unidos. O

pós-guerra foi um período de reconstrução e reestruturação social, no qual se assistiu a um boom

das revistas em quadrinhos (Patati e Braga, 2006, p. 108).

3 Manuais de Conduta

Durante o pós-guerra, o Brasil passou por um período de industrialização crescente, marcado,

também, pelo fim do Estado Novo e de uma aproximação cada vez mais forte com a política norte-

americana. Nesse contexto conturbado, a família brasileira, assim como toda a sociedade, se

encontrava em processo de reestruturação, buscando uma adequação aos novos modos de vida e à

estrutura política, econômica e social capitalista. Durante períodos como esse, surgem os manuais

de conduta que visam a orientar a população e a controlar seus excessos. Segundo Magaldi (2007),

esses manuais

[s]e inscrevem em uma linhagem de textos que abarca, desde as várias expressões da chamada literatura de civilidade que circulou na Corte ao longo do século XIX, até as atuais modalidades de literatura de aconselhamento e de autoajuda, representadas por uma enorme variedade de publicações, entre as quais se incluem as revistas e seções de jornais dedicadas à mulher e à família (p. 33).

A hipótese que orienta este trabalho reside na ideia de que revistas como O Idílio funcionaram

como fonte de instrução e controle da conduta moral e de iniciação aos ritos amorosos para

aqueles que as liam. Selma Oliveira (2007) argumenta que os quadrinhos, sendo um produto de

massa, têm o intuito de legitimar discursos – por exemplo, o de gênero – e formar opiniões, ou

seja, servir como manuais de conduta social e moral.

4 A Revista O Idílio e Sua Composição Material

Segundo Ezequiel de Azevedo (2007), O Idílio foi a quarta revista lançada pela EBAL. Esta possui três

séries que foram lançadas em formato americano (aproximadamente 18,5 x 26,2 cm).A revista era,

provavelmente, editada por Cláudio Hasslocher, que trabalhou por um longo período na EBAL. Seu

nome aparece na tradução dos contos, um dos quais é de sua autoria. Possivelmente, Hasslocher

também é o “Tio Germano”, o conselheiro amoroso da seção de cartas.

A temática romântica nos quadrinhos tornou-se um gênero bastante popular nos Estados Unidos

do pós-guerra, atribuindo-se a Joe Simon e Jack Kirby o seu surgimento. 5 De acordo com Ezequiel

de Azevedo (2007), em 1959 a EBAL publicava os seguintes títulos que exploravam a temática

romântica:“Cinemin, Cowboy Romântico, O Idílio, Rosalinda, Seleções de Idílio, Star Álbum, Bonita” (p. 22).

Essa profusão de títulos nos leva a suspeitar que houvesse um mercado rentável de revistas

românticas voltadas para ambos os sexos, mas que tinham pretensões de abarcar, principalmente, o

público feminino. Sobre essas revistas, Gerard Jones (2006) comenta que:

As adolescentes e as jovens estavam carentes de histórias que mergulhassem de forma implacável e consistente nas contradições entre desejo, dever, liberdade e solidão que o amor do pós-guerra e o casamento acarretavam. Não demorou para que surgissem dezenas de quadrinhos românticos (p. 295).

Segundo Gonçalo Silva Júnior (2004), o lançamento da revista O Idílio se deu em um momento

conturbado da história do mercado editorial brasileiro, no qual as histórias em quadrinhos sofriam

forte repressão de setores conservadores da nossa sociedade, havendo, ainda, a escassez de papel,

por decorrência da guerra, o que limitava o número de publicações. Mesmo assim, a revista O Idílio

ingressou de forma positiva no mercado brasileiro, chegando a picos de 150 mil exemplares

mensais. Essa tiragem impressiona, uma vez que a Revista Feminina, por exemplo, que circulou entre

1914 e 1936, “alcançou uma tiragem de até 25 mil exemplares por mês” (Maluf e Mott, 1998, p.

639-640) 6 , o que era considerado um número expressivo.

As histórias em quadrinhos publicadas n’O Idílio originavam-se do mercado estadunidense, assim

como grande parte das demais revistas e histórias em quadrinhos publicadas no Brasil à época. Isso

se devia ao fato de os syndicates 7 terem alcançado grande popularidade e revenderem por preços módicos a produção feita por artistas contratados.A dificuldade em determinar a origem das histórias da revista O Idílio é consequência de esta não apresentar qualquer referência ao seu

desenhista ou roteirista. 8

Analisando a composição material da revista, é possível perceber que, exceto o primeiro volume, todos os exemplares contêm quatro histórias em quadrinhos que geralmente apresentam como protagonista uma mulher. Invariavelmente, as temáticas giram em torno de namoros, traições, ciúmes, triângulos amorosos, ou seja, os velhos clichês românticos. No entanto, para sua época e por se tratar de um produto de massa, a revista levanta alguns temas pouco discutidos, como a emancipação feminina, o trabalho feminino e os problemas nas antigas formas de organização social e familiar.

Além das histórias em quadrinhos, a revista apresenta ainda seção de cartas, contos em alguns números, enquetes e uma seção intitulada “Com bons olhos te vejo”, na qual fotos dos olhos dos interessados em trocar informações com outros leitores eram publicadas.Algumas capas foram desenhadas por Monteiro Filho, outras por Antônio Euzébio; já as contracapas apresentam fotos de astros de Hollywood.

5 Representações de Gênero

5.1 O Idílio e a Imprensa Conselheira

A seção de conselhos amorosos do Tio Germano apresenta, nos volumes estudados, 80

“problemas”, sendo que 46 cartas são de mulheres e 34 de homens. O que se pode inferir de tais

números é que os homens, contrariamente ao senso comum, também tinham preocupações

amorosas com as quais não sabiam lidar.A revista se apresenta como espaço de aprendizado e de

iniciação amorosa para esses jovens e como tal abre caminho para investigações em torno da

temática do gênero. Compreender como os homens entendiam e vivenciavam o amor é relevante,

uma vez que é a partir desses dados que se compreende como se davam as relações de gênero.

Entre os problemas mais citados pelo suposto “sexo forte” estão a timidez, a dúvida acerca do

amor da parceira e as atitudes pretensamente apropriadas ao sexo masculino, como demonstra a

pergunta de um jovem de Curitiba:“Que devo fazer para conquistar a moça a quem amo? Ela é

muito bonita, mas eu não sou correspondido

pareciam pouco confiantes e não compreendiam as novas formas de relacionamento que se

instituíam no período.

”(Revista

O Idílio, v. 3, 1948, p. 43). 9 Os homens

A imprensa conselheira fez muito sucesso à época, o que comprova a necessidade de

“direcionamento” das condutas e comportamentos da população. Esse mercado era orientado

principalmente às mulheres: tanto às senhoras casadas quanto às moças.“As revistas femininas

tinham então um papel modelar no que dizia respeito à vida amorosa. Revistas como Querida,Vida

Doméstica,Você, Jornal das Moças ou sessões femininas n´O Cruzeiro tinham um tremendo impacto

como formadores de opinião” (Del Priore, 2006, p. 283).

Há que se ter em mente ainda que, no pós-guerra, o discurso da política norte-americana

estimulava as mulheres a retornarem ao lar após terem contribuído com a guerra pelo trabalho

nas indústrias das mais variadas, em especial a bélica.A partir dos meios da cultura de massa essa

moral foi disseminada. Enquanto os homens lutavam bravamente na guerra contra o terror nazista,

a mulher contribuía à sua maneira, e agora lhe estava sendo dada a “recompensa” de viver

novamente em paz,“no aconchego do lar”, podendo servir ao marido, herói de guerra e defensor

da família. À mulher restava assumir novamente seu posto de dona-de-casa, mãe e esposa

carinhosa. Segundo Del Priore (2006):

Em meados do século XX – segundo a historiadora Carla Bassanezi, que estudou as revistas e as relações entre homens e mulheres dessa época – continuava-se a acreditar que ser mãe e dona-de-casa era o destino natural das mulheres, enquanto a iniciativa, a participação no mercado de trabalho, a força e o espírito de aventura definiriam a masculinidade (p. 284).

Tais características – atribuídas mediante o que Pierre Bourdieu denomina “violência simbólica” –

eram desejadas pelos homens e também ambicionadas por muitas mulheres.Afinal,

a violência simbólica se institui por intermédio da adesão que o dominado não pode

deixar de conceder ao dominante (e, portanto, à dominação) quando ele não dispõe, para pensá-la e para se pensar, ou melhor, para pensar sua relação com ele, mais que de instrumentos de conhecimento que ambos têm em comum e que, não sendo mais que a forma incorporada da relação de dominação, fazem esta relação ser vista como natural (Bourdieu, 1999, p. 47).

Se as mulheres foram e continuam sendo vítimas desse sistema pela submissão, de certa forma os

homens também o são, já que existe uma obsessão pela reafirmação constante da virilidade, sendo

que esta depende da aprovação/validação dos outros homens. Por isso, como vimos, há nos

problemas colocados pelos homens nas cartas direcionadas ao conselheiro amoroso uma

necessidade de que este validasse/apoiasse suas atitudes.

De acordo com Mary Del Priore (2006), os meios que reproduziam personagens do cinema, como

a revista O Idílio, foram de grande relevância para a vida e organização social no período do pós-

guerra:

o cinema e seus subprodutos na forma de revistas, clubes de fãs e coleções de fotos,

ajudavam a reforçar uma ideia de que existiam dois tipos de mulher: a boa e a má.A primeira, identificada com o casamento e com a felicidade.A outra para “usar e jogar fora” (p. 277).

As histórias de O Idílio reforçam claramente essa dicotomia.

Um tema recorrente representado pela revista é o do trabalho feminino.Algumas histórias mostram mulheres trabalhadoras, realizadas e relativamente bem-sucedidas em suas profissões, embora a divisão sexual do trabalho seja bastante clara: a elas cabem os empregos nos escritórios ou no comércio. Raramente, ocupam posições de liderança.Assim, a temática do trabalho feminino revela os limites dentro dos quais a mulher podia atuar na vida pública. Como prova disso, na seção de cartas, o conselheiro amoroso condena aquelas que trabalham contra a vontade dos pretendentes, namorados ou maridos.Vejamos um exemplo de um problema levantado por um leitor:

Por mais que eu me opusesse, minha namorada aceitou, há um ano, um emprêgo (sic) que lhe foi oferecido. Cumprindo a ameaça que lhe fizera, rompi com ela. Desde então ela continua a trabalhar, e eu a amá-la. Que me aconselha,Tio Germano? (v. 3, p. 2).

Embora não veja como legítimo o direito da mulher ao trabalho, o homem demonstra hesitação ao questionar o que deve fazer, deixando claras as incertezas que regem as relações. O conselheiro, por sua vez, responde da seguinte maneira:

Procure outra! Se ela gostasse mesmo de você, Santo, já teria abandonado o emprego.

Conhece aquele ditado:“quem não me quer, não me merece”? Trate de namorar alguém que o possa fazer feliz, pois é evidente que essa moça não tem o menor amor por você. Não há outra, mais merecedora de sua constância em toda a cidade? Não será muito difícil

(v. 3,

esquecer a primeira quando encontrar uma “substituta” à altura p. 2).

Experimente e verá

Nesse discurso claramente misógino, fica evidente que a mulher deve satisfazer, primeiramente, ao homem, aquele que afinal decide se ela deve ou não buscar autonomia pelo trabalho. E mais, se a mulher não acata a vontade masculina, ela pode ser substituída por outra, tal qual um objeto.

O

contraste percebido entre as mensagens de cunho emancipatório nas histórias em quadrinhos e

os

conselhos um tanto conservadores do Tio Germano brasileiro na referida seção poderia ser

explicado pela própria origem da revista.As histórias em quadrinhos eram provenientes de outra cultura, os Estados Unidos, onde grande parte da população feminina trabalhou fora de casa durante a guerra, o que não ocorreu na mesma proporção entre nós no Brasil.Apesar de no período referido a política americana ter estimulado o retorno das mulheres ao lar, o espaço alcançado por estas no ambiente de trabalho deixara reflexos irreversíveis naquela cultura. O conselheiro, por sua vez, segue a lógica cultural e econômica brasileira, na qual as mulheres ainda começavam a se inserir no mercado de trabalho. Esses primeiros passos causavam desconforto e insegurança à estrutura social brasileira, onde o patriarcalismo se fazia sentir com maior força.

Os enredos das histórias em quadrinhos, de maneira geral, procuram frisar certos aspectos recorrentes nas relações de gênero. Entre eles, a crença generalizada de que a mulher não deve “ceder à tentação”. Esse aspecto diria respeito à ameaça de “se perder”, ou seja, adquirir má fama caso se entregasse irrestritamente aos relacionamentos amorosos ou à prática sexual livre, o que afastaria um bom casamento. E em segundo lugar, a história deve “servir de lição”, como um manual

de conduta.Apesar de em algumas delas o homem errar e assumir sua culpa, mais frequentemente,

aliado ao final feliz, há o arrependimento das mulheres por terem sido ingênuas ou o perdão ao erro do homem, demonstrando, assim, a submissão feminina irrestrita.

As histórias apresentam um padrão ideal de beleza feminina e masculina.As moças são, na maioria das vezes, jovens, belas, magras e elegantes, o mesmo padrão valendo em geral para os homens. O

bem é sinalizado pela boa conduta, ou seja, a mulher deve prezar pela decência, fugir do caminho

do “mal” e da “perdição” – a perda da tão cultuada pureza e inocência, que tinham como meta a

preservação da virgindade.As histórias apresentam o “bom partido”, visto pela ótica feminina, como sendo aquele que possui atributos morais e materiais, como o carro (instrumento de poder e afirmação da virilidade).Além disso, esse tipo masculino ideal é bonito, tem caráter heroico e “provedor” e comumente age de forma agressiva, afirmando, assim, tanto sua força moral quanto física. Já a segunda imagem de homem bom está associada ao que o senso comum compreende como correto.Trata-se daquele que a princípio pode parecer arrogante, mas que afinal revela não sê-lo. Isso se deve ao seu caráter discreto e impoluto, que o leva a sacrificar-se pela mulher, mesmo que esta seja uma “perdida”. Contudo, via de regra, as histórias tratam os homens como sendo “naturalmente” aproveitadores em relação às mulheres, cabendo a estas serem sensatas e saberem manter-se “puras”. Caso isso não ocorra, a culpa recai invariavelmente sobre a mulher. Isso

reafirma o que Bourdieu (1999) salienta:

é preciso assinalar não só que as tendências à “submissão”, dadas por vezes como pretexto para “culpar a vítima”, são resultantes das estruturas objetivas, como também que essas estruturas só devem sua eficácia aos mecanismos que elas desencadeiam e que contribuem para sua reprodução (p. 52: grifos no original).

Entre os desvios de conduta sublinhados na revista, estão aqueles relacionados ao comportamento

de mulheres que se enquadram nas seguintes categorias: frequentadoras da noite; que passeiam de

carro; as separadas; e principalmente aquelas que não são virgens.Ao investir na sexualidade, a

mulher se desvirtua de seu caminho e abre espaço para que os homens possam abusar de sua tão

enfatizada “inocência”, o que no final prejudica tão somente a ela, que se torna estigmatizada,

enquanto o homem apenas exerce sua natural virilidade.

Há uma contradição evidente entre o discurso das histórias em quadrinhos e as representações

visuais. O primeiro constantemente impõe e reafirma o valor da moral feminina, enquanto que a

representação visual privilegia a sensualidade e a sedução: as personagens femininas exibem corpos

esculturais, trajam roupas sensuais, beijam ardentemente etc.Assim, as mensagens são carregadas

de ambiguidade, pois a mulher ideal retratada é, ao mesmo tempo, recatada e sensual.

Já os encontros amorosos/sexuais são mostrados na revista como fato natural na vida dos homens.

Sair com diferentes mulheres, mesmo tendo algum compromisso/ relacionamento, é algo aceitável

e compreensível entre eles – a promiscuidade, a perdição e a vulgaridade nunca são associadas ao

homem.A mulher, nesses casos, é apenas um objeto de diversão, destinada a satisfazer os instintos

naturais do homem.

5.2 A Mulher Emancipada

A Inimiga dos Homens”, parte da revista ora analisada, é uma história emblemática quando se

trata das representações de gênero. Nela, a protagonista Edith vive o papel da feminista que no

final sucumbe ao amor.A capa da história apresenta suas ideias:

Homem algum, jamais, haveria de me transformar naquele dócil animal doméstico, a

esposa carinhosa! Não

todos os pretendentes que me abordassem com pieguices

pensava

loucura de ser

eu conhecia de sobra o sexo masculino e saberia derrotar

Isso era o que eu só então reconheci a

até o dia em que travei relações com o Nelson

inimiga dos homens (v. 3, p. 35).

Apesar de a revista abrir espaço para a representação da mulher que ambiciona maior liberdade,

esta deve reconhecer que ser livre é um equívoco.A moral da história de Edith é explicitamente

colocada: as mulheres que almejam a emancipação e desejam superar os homens ou apenas se

igualar a eles estão equivocadas. É o amor que dita o modo de pensar das mulheres, e não a razão,

e quando Edith, a mulher emancipada, se apaixona de verdade, deve retornar ao padrão

comportamental da “esposa carinhosa” ditado pela doxa.

A conquista amorosa entre Edith e seu pretendente Nelson se dá como uma guerra entre os

sexos. O homem, ao ser desafiado, vence a mulher em uma competição. Isso, contudo, parece não

abalar a convicção de Edith de que ela não precisa do apoio masculino para ser feliz:“Não sou

dessas que precisam se apoiar no peito forte do primeiro homem que aparece” (v. 3, p. 38).

A

protagonista apresenta uma lógica que se enquadra dentro de um pensamento feminista, ou seja,

a

mulher fala a partir de seus próprios interesses e desejos, o que não está em conformidade com

o

senso comum. Dentre algumas passagens, podemos citar:“Não há razões para que os homens

sejam considerados superiores às mulheres” (v. 3, p. 36); “É intolerável ouvir as idiotices que jorram

sem cessar dos lábios dos que dizem pertencer ao ‘sexo forte’

ser domesticada! Vou formar-me e aposto ser tão bem sucedida como qualquer marmanjo” (v. 3, p.

36). Nesses discursos, podemos evidenciar o desejo feminino pela igualdade entre os sexos, bem

ao gosto de um “feminismo radical”. Outro ponto importante é a posição assumida pela

protagonista diante dos estudos e da carreira profissional, visto que a revista é de 1948, época em

que a inserção da mulher brasileira no mercado de trabalho ainda era tímida.

” (v. 3, p. 36); e “

eu me recuso a

A possibilidade de se apaixonar e ao mesmo tempo manter os sonhos profissionais é algo

impossível para Edith, pois amar representa resignar-se ao lugar passivo e inútil da esposa. Quando

Nelson pergunta para Edith o porquê de não assumir que é tão feminina quanto qualquer outra

mulher, ela responde:

Sou feminina sim! Mas quero a minha liberdade! Não desejo transformar-me em

capacho de qualquer sujeitinho que se julgue superior! Quero competir com os homens e derrotá-los em tudo que for considerado tipicamente masculino (v. 3, p.

39).

A mulher feminista, nessa versão, é destituída de feminilidade, deseja não apenas se opor aos

homens, mas também ocupar o lugar masculino, não coexistir, e, sim, dominar. O feminismo de

Edith é representado como algo desagregador, que pretende desestabilizar a ordem e o discurso

vigentes, e, por isso, precisa ser “contido”.A feminilidade na história muitas vezes se opõe

drasticamente à liberdade, já que ser feminina, para Edith, implica em sujeitar-se. Essa oposição

reforça o ideário de que a mulher tem que escolher entre ser esposa (submissa) e amar ou ser

livre (sozinha) e ter uma profissão.

Após assumir que está apaixonada, Edith acredita que somente humilhando Nelson deixará de

amá-lo e, assim, propõe-lhe um desafio. Nelson sofre um acidente, o que faz com que ela se sinta

culpada.Assim, Edith decide declarar seu amor:“Foi por minha causa

Nelson

poderia amar! Tenho sido uma boba

as mulheres lutarem por igualdade. Pontos que temos salientado são reforçados: mais uma vez a

mulher é ingênua e demonstra uma fraqueza de julgamento inerente à sua condição.

A

culpa é minha! Oh

fui eu quem fiz você cair

minha teimosia quase matou o único homem a quem eu

(v. 3, p. 41). Percebe-se, nesse discurso, que é uma “teimosia”

Nessa história, a redenção da mulher significa a renúncia da brutalidade associada ao desejo de

autoemancipação, o que a torna novamente um ser delicado e amável.Ao assumir que tem “sido

uma boba”, a protagonista reafirma a ideia de que o certo para a mulher é amar, sujeitar-se ao

homem e ambicionar o casamento, ou seja, é necessário que o homem venha a ser o seu amparo, o

seu “peito forte”. Edith se apaixona pelo único homem capaz de superá-la, e, como aponta

Bourdieu (1999), esta seria uma das condições para que a mulher, mesmo submetendo-se,

mantenha sua dignidade e justifique sua escolha.

O feminismo de Edith é, portanto, representado na revista de forma caricatural. Este se expressa

simplesmente como “competição” em relação ao homem (e como tal fadado desde sempre ao

fracasso) e resulta da simples repulsa ao sexo masculino, não sendo, portanto, expressão dos

anseios da mulher em relação à própria vida.A ideia subjacente é de que a mulher emancipada é

rebelde e incapaz de amar. No entanto, a temática feminista, ao ser colocada em questão, indica sua

pertinência no debate social da época, prenunciando os desdobramentos que se dariam nos anos

1960 e 1970.

6 Conclusões

A análise das histórias revela que as representações de gênero na revista O Idílio são muito bem

delineadas e seguem a dicotomia Homem vs Mulher, típicas do ideário patriarcal. Seria impensável,

por exemplo, encontrar algum tipo de representação homossexual, uma vez que esta fugiria à

divisão tradicional dos sexos que rege as construções de gênero expostas nas histórias analisadas.

Dentro destas, foi possível perceber um padrão de construção tanto do masculino quanto do

feminino. O primeiro, em sua forma ideal, é representado como viril, belo, conquistador por

natureza, dotado de um comportamento do tipo caçador, e que, em grande parte das vezes, precisa

agir como salvador da moral feminina ou o seu pilar. Às mulheres resta uma ideia historicamente

construída de fragilidade e fraqueza moral, tal como se dá com Eva na narrativa bíblica. Outros

“atributos” femininos recorrentes na revista seriam a ingenuidade, a ganância (só pensam em

dinheiro, automóveis, casa), a ambição pelo casamento – sendo que este delinearia toda a sua vida

futura e seus sonhos – e a necessidade de serem “domadas” pelo macho para compreender a vida

e não se desvirtuarem. Seguindo essa lógica, a liberdade feminina, de acordo com a revista analisada,

só pode ser encontrada no homem.

O fim último para a mulher é o casamento, que o homem lhe proporciona, dando-lhe, com isso, um

futuro. Bourdieu (1999) ressalta a importância do romance e do casamento para as mulheres

quando aponta que

se as mulheres se mostram particularmente inclinadas ao amor romântico ou romanesco, é sem dúvida, por um lado, porque elas têm nele particular interesse:

além do fato de prometer-lhes liberá-las da dominação masculina, ele lhes oferece, tanto em sua forma mais comum, como o casamento, pelo qual, nas sociedades masculinas, elas circulam em todos os lugares, como em suas formas extraordinárias, uma via, às vezes a única de ascensão social (p. 83).

Como ressaltam diversos comentários feitos na revista, os problemas de relacionamento se davam

devido a uma variedade de questões (econômicas, raciais etc.). O casamento libertava a mulher do

jugo patriarcal da família, o âmbito privado, contribuindo para inseri-la ou legitimar seu lugar na

vida em sociedade ou no âmbito público. No entanto, apesar de um aparente ganho, a dominação

do homem se fazia agora presente na figura do marido e das novas responsabilidades no lar.A revista não apenas parte do pressuposto de que o casamento é o melhor prêmio de vida a ser obtido por uma mulher, mas também reforça essa ideia com desfechos de cunho romântico, como se o enlace entre os amantes não fosse um começo ou processo, mas um fim a ser buscado.

A revista O Idílio, apesar de ter a proposta de inserir a mulher e seus interesses no ambiente público, abrindo espaço, por exemplo, para a troca de cartas, encontros, e por explorar uma

temática romântica, caminha contra a singularidade de cada mulher. Nela, o que temos são modelos de garotas bem comportadas, que ambicionam ser boas esposas e donas-de-casa – vigora, portanto, o que se denomina heteronormatividade. Nesse esquema romântico, não se enfoca a mulher mãe, seu envolvimento e responsabilidade com os filhos e a família estão ausentes, tampouco há conflitos conjugais.A imagem prevalente da mulher é aquela que está disponível para

o jogo amoroso (solteira), tem comportamento heterossexual e não sofre outros processos de

marginalização que não aqueles relacionados ao sexo.Assim, ficam de fora as mulheres de cor, as velhas, as provenientes de classes sociais desprivilegiadas e até mesmo aquelas já inseridas na

instituição matrimonial.

Sendo a revista O Idílio não apenas um produto cultural que se insere na esfera pública, mas que é capaz de invadir também o privado, ela apresenta a linguagem da conquista amorosa e elementos de iniciação sexual. No entanto, pelo que se pode perceber dos desfechos das histórias, a revista claramente tem pretensões de servir como um manual da moral, no qual são apresentadas as condutas e os comportamentos que deveriam ser adotados pelos jovens no que concerne ao amor e aos relacionamentos.

A ênfase simultânea na beleza feminina e na sensualidade nos parece paradoxal, uma vez que

contrasta com o intuito moralizante da revista, ao propor modelos de conduta principalmente para

a mulher.Tal como propõe Michel Foucault (2007), em História da sexualidade, o “dispositivo da

sexualidade” se faz sentir no discurso da revista e nas suas representações visuais que, muito mais do que reprimir o sexo, o coloca em discussão por meio dos vários enredos e a visualidade construída, como forma de regular especialmente a expressão da heterossexualidade.

Como a mulher é geralmente retratada em sua fraqueza moral (inocência, inexperiência), supõe-se que sua sexualidade é potencialmente desordenada, impetuosa, daí a preocupação presente na revista em fazer desta o principal objeto de sua atenção e controle. O ciúme, a inveja e a

competitividade entre as mulheres surgem como “coisas de mulher” que a revista, ao reproduzir,

acaba reforçando. E especialmente se percebe no discurso da revista o temor diante da mulher

emancipada, vista como ser despido de sua natural “feminilidade” e uma possível ameaça à ordem

social heteronormativa.A mulher emancipada é, portanto, um ser ainda mais fraco e “infeliz” ao

negar o modelo de dependência emocional e submissão proposto pelas representações das

diversas heroínas das histórias.

A importância do resgate e análise dessas representações contribui não somente para a

compreensão do período em que foram produzidas, mas principalmente para percebermos que

muitas dessas representações e discursos delas provenientes se encontram enraizados em nossa

sociedade e podem explicar certos arranjos que, sob o manto romântico, constroem ainda hoje

com violência o gênero feminino.

Notas

[1] REVISTA O IDÍLIO. Rio de Janeiro: Editora Brasil-América. n. 1-5, set. a fev. 1948-1949.

2 De acordo com Gerard Jones (2006), as pulps eram revistas “

em tom marrom escuro, com centenas de páginas de ficção em cada número.As capas eram coloridas, pintadas para inspirar terror, excitação, desejo e curiosidade. Os enredos eram cheios de ”

brutamontes, orientais sinistros e namoradas seminuas de gângsteres

pouco conhecido no Brasil, no entanto, foi muito popular nos Estados Unidos, onde as pulp fiction magazines eram extremamente populares desde a década de 1920.A definição poderia ser aplicada ao caso da revista O Idílio, objeto desta pesquisa, que é constituída de forma variada, apresentando contos, histórias em quadrinhos, cartas de leitores em busca de conselhos – na maioria das vezes amorosos –, seção destinada à troca de cartas entre os leitores etc. Muitos quadrinhos publicados no Brasil durante as décadas de 1950/1960 se assemelham às pulps.

grossas e baratas, impressam [sic]

(p. 51). O termo pulp é

3 Artista italiano radicado no Brasil desde 1861, foi o criador da primeira manifestação do que se poderia chamar “quadrinhos brasileiros”.Apesar de estrangeiro,Agostini, nas suas ilustrações e charges, soube capturar com perfeição o espírito e a brasilidade tropical do nosso país, na época do Império e nos primeiros anos da República (Goidanich, 1990, p. 18-19). Deve-se destacar que Agostini foi renomado mundialmente por sua atuação na nona arte.

4 Segmento de uma história em quadrinhos, usualmente constituído de uma única faixa horizontal contendo três ou mais quadros (Ferreira, 2004, p. 1953).

A revista em questão é intitulada Young Romance e foi publicada em 1947. Foi possível identificar que quase todo o conteúdo da revista O Idílio é derivado da revista de Simon e Kirby.

5

6 Um esclarecimento sobre a indicação de página dessa citação: ela se encontra em uma nota de

fim no texto de Maluf e Mott (1998), publicado entre as páginas 367 e 422, parte do livro de Fernando Novais História da vida privada no Brasil. No entanto, as notas dos capítulos desse livro estão divididas por artigo e reunidas no final da obra. Por isso, na referência ao artigo consta a indicação de página inicial 367 e página final 422, mas a parte citada no texto figura nas páginas 639-640, onde se encontra a nota de fim em questão.

7 Os sindicatos, de acordo com Ezequiel de Azevedo (2007), são “órgãos de distribuição de quadrinhos, matérias e notícias para jornais e revistas. O maior syndicate americano foi o King Features Syndicate, ou KFS” (p. 7).

8 As histórias que pudemos identificar tiveram suas capas digitalizadas e disponibilizadas na

internet por colecionadores ou sites oficiais dos artistas em questão. Dessa forma, foi possível realizar a comparação da história publicada nos Estados Unidos e a publicada no Brasil, percebendo que estas são traduções literais das primeiras. Para uma visualização das capas digitalizadas, consultar os sites:

9 Doravante, as referências à revista O Idílio conterão apenas o número do volume e a página.

Referências

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2007.

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SILVA JUNIOR, Gonçalo.A guerra dos gibis: a formação do mercado editorial brasileiro e a censura aos quadrinhos, 1933-64. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

Dados dos autores:

*Adelaine LaGuardia

Doutora em Literatura Comparada, Professora Adjunta – DELAC/UFSJ – e Professora do Mestrado em Letras:Teoria Literária e Crítica da Cultura – PROMEL/UFSJ.

Endereço para contato:

Universidade Federal de São João del-Rei

Departamento de Letras,Artes e Cultura

Campus Dom Bosco

Praça Dom Helvécio, nº 74

36301-160 São João del-Rei/MG – Brasil

Endereço eletrônico: adelaine@ufsj.edu.br

**Renan Reis Fonseca

Graduado em História, Mestrando em Letras e Bolsista de Iniciação Científica – CNPq/UFSJ.

Endereço para contato:

Universidade Federal de São João del-Rei

Programa de Mestrado em Letras:Teoria Literária e Crítica da Cultura

Campus Dom Bosco

Praça Dom Helvécio, nº 74

36301-160 São João del-Rei/MG – Brasil

Endereço eletrônico: renanfonseca87@gmail.com

Data de recebimento: 29 maio 2010

Data de aprovação: 30 julho 2010