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Tomo para comparar duas comédias separadas por longo tempo mas que apresentam uma certa continuidade temática: “As Nuvens” de Aristófanes e “Arte” de Yasmina Reza. Se na peça grega a retórica aparece como ponto central da crítica que o autor direciona a sociedade ateniense, no texto da autora francesa a insuficiência das palavras como mecanismo de mascaramento de problemas é o que move a narrativa. “As Nuvens” se passa na Atenas do século V a.C., em uma rua que tem a casa do protagonista Estrepsíades vizinha ao Pensamental de Sócrates, e tem como personagens:

Estrepsíades, pai de Feidipides, Feidipides, jovem irresponsável, Xântias, escravo, Alunos de Sócrates, Sócrates, Coro das Nuvens, Corifeu, Filosofia (Pensamento Justo), Sofisma (Pensamento Injusto), Pásias, credor de Estrepsíades, Amínias, credor de Estrepsíades, Cairefonte, discípulo de Sócrates, Escravos, Estudantes, Testemunhas. “Arte” se passa em lugar e tempo indefinidos, mas numa década posterior à de 1970 e em três apartamentos diferentes pertencentes a cada um dos personagens. Sua primeira montagem se deu em 1995. Os personagens são: Sérgio, Marcos e Ivan. Entre os dois textos há diferenças marcantes na estrutura: enquanto o de Aristófanes tem estrutura bem definida com prólogo, ágon, parábase e êxodo, o de Reza tem um único ato, sem qualquer divisão. A presença do coro de Nuvens é também característica marcante da peça grega que não encontra paralelo na francesa. No prólogo de “As Nuvens”, Estrepsíades apresenta sua situação e seu plano tolo para ludibriar seus credores e evitar pagar as dívidas contraídas por conta das vicissitudes de seu filho Feidipides. É claro que o plano de Feidipides traz consigo alguma comicidade, afinal, trata-se de matricular seu filho no Pensamental de Sócrates visando não o desenvolvimento da virtude, mas o aprendizado e a maestria do vício. Em “Arte”, há também uma primeira informação destinada ao público, uma primeira fala do personagem Marcos em que se apresenta a situação que se encontrará, mas nesse caso não se trata de um antecedente: a fala de Marcos narra além do ponto onde a ação começará, além disso, os solilóquios são abundantes nesse texto de Yasmina Reza. O emprego de solilóquios cria diferentes camadas na narrativa, aprofundando as intrigas a partir das enunciações das personagens direcionadas ao público, também há o uso sucessivo desse recurso que apresenta sensações de diferentes personagens na mesma situação, o que reforça o efeito cômico dos mal-entendidos. Na peça de Reza, o discurso produz a trama; não se trata de convencimento, mas de

farpas dos discursos que geram conflitos voláteis que são expressão de um conflito muito anterior, coisas não ditas, há muito guardadas e que aproveitam a situação, transbordam. A palavra move a ação, em um certo sentido, é ação, não é o caso de a palavra se referir a algo que move a narrativa, mas da própria palavra como geradora de conflito: a palavra evoca muito mais do que o simplesmente dito, e as evocações das palavras, os mal-entendidos conduzem a narrativa. Situações são cômicas geradas por jogos de palavras e pelos desentendimentos criados por cada enunciado.

SÉRGIO (…) Tem visto o Marcos ultimamente? IVAN:

Não, ultimamente não. E você? Tem visto ele? SÉRGIO:

Faz dois ou três dias. IVAN:

E ele está bem? SÉRGIO:

Sim, mais ou menos. IVAN:

Como assim? SÉRGIO:

Não, está bem. IVAN Falei com ele por telefone semana passada, e parecia estar bem. SÉRGIO Sim, sim, está bem. IVAN Parece que você está insinuando que ele não estava bem. SÉRGIO Não, pelo contrário, eu disse que ele estava bem. IVAN Você disse ‘parecia bem’.

Na peça de Aristófanes, o discurso tem referente externo, é crítica, convencimento. O alvo principal do poeta grego é a transformação por que passa a cidade de Atenas em vários aspectos, desde a filosofia até a educação dos jovens. Diz o pensamento Justo ao Injusto:

Por tua culpa só e tão-somente As escolas de Atenas estão vazias. E por isso, ociosa e pervertida, Toda uma geração nas ruas vaga. Escuta o que te digo: no futuro Saberá a cidade o que fizeste:

Os seus filhos viris tu os tornaste Tolos e efeminados.

Aristófanes, homem de ideias conservadoras, personifica em Feidipides (filho de Estrepsíades) o novo homem ateniense que abomina: discípulo de Sócrates, imoral, gaiato. “As Nuvens” tem tom moralizante e um posicionamento bastante claro do autor segundo o qual a opção pelas regras morais frouxas resultantes da filosofia socrática conduz o homem a lascívia, e a sociedade à desagregação. De alguma maneira, Aristófanes deixa claro que apenas um homem muito ingênuo ou mal-intencionado – categorias em que Estrepsíades se enquadra simultaneamente – poderia fazer a opção de seguir os ensinamentos de um embusteiro como Sócrates. Ainda, o poeta evidencia que “o crime não compensa” e faz Estrepsíades arrepender-se perto do fim:

ESTREPSÍADES

Ó asno, ó toleirão desmiolado,

Ó imbecil que fui, deixando os deuses,

Para seguir a Sócrates! Cretino!

Logo depois, no final da peça, Aristófanes faz Estrepsíades atear fogo ao Pensamental com Sócrates e seus pupilos dentro, estes, fugindo do incêndio, são expulsos do palco a chicotadas por Estrepsíades e seus criados.

Em “Arte” não se percebe uma vontade de Yasmina Reza de posicionar-se sobre uma questão, seja a do quadro todo branco, ou a de o que é arte, ou mesmo sobre a amizade dos três personagens. O que se vê é a apresentação de uma situação patética e um convite a pensar sobre o quanto esse patético permeia nossas próprias relações de amizade. Aliás, é justamente à questão da amizade que a autora dedica as últimas linhas de seu texto, redimindo, pela boca de Marcos, o quadro, objeto de tanta polêmica.

MARCOS Debaixo das nuvens brancas, cai a neve. Não se vêm nem as nuvens brancas nem a neve. Nem o frio nem o resplendor branco do sol. Um homem só, de esquis, desliza. Cai a neve. Cai até que o homem desaparece e volta a sua opacidade. Meu amigo Sérgio, que é amigo meu desde há muito tempo, comprou um quadro. É uma tela de aproximadamente um metro e sessenta por um metro e vinte. Representa um homem que atravessa um espaço e desaparece.