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M.

SOUZA E MELLO, PORTUGUESE STUDIES REVIEW 13 (1) (2005) 1-16

Desvendando outras Franciscas: Mulheres cativas e as


ações de liberdade na Amazônia colonial portuguesa

Marcia Eliane Alves de Souza e Mello


Universidade Federal do Amazonas, Brazil

O presente artigo visa a compreender primeiramente as formas de acesso


à justiça colonial utilizadas pelos índios com a finalidade de livrar-se da
condição de cativeiro. Concentra-se particularmente na análise das petições
e ações movidas a favor da liberdade encaminhadas às Juntas das Missões
na primeira metade do século XVIII, enfatizando, dentre os processos, aque-
les que envolviam mulheres indígenas e/ou suas descendentes, que teriam
sido injustamente escravizadas na Amazônia colonial portuguesa.
Pretende também ampliar a discussão acerca da questão das alforrias dos
índios, cujo tema foi pouco debatido pela historiografia até o presente mo-
mento. David Sweet, em um ensaio pioneiro, tratou como um aconteci-
mento excepcional o caso de uma escrava índia chamada Francisca que
1
havia solicitado às autoridades coloniais a sua liberdade . Porém, a partir da
análise ata das Juntas das Missões, foi possível perceber indicações precisas
de outras ações de liberdade postas em curso pelos indígenas, sendo que a
grande maioria das petições e apelações de sentenças de liberdade eram en-
caminhadas por mulheres que se encontravam cativas. Até o presente mo-
mento de nossa investigação, de um total de 36 indicações de Processos de
Liberdade, 28 envolviam mulheres e apenas 10 citavam homens; e de 29
Petições e Requerimentos dos quais encontramos referência, as mulheres
apareciam em 20 deles e os homens em 9. Assim, este artigo pretende
demonstrar que o episódio da índia Francisca, longe de ser uma ocorrência
independente como se pensou a principio, fazia parte de um fenômeno
mais amplo, em que índios e índias cativos lutaram pela sua liberdade.
A documentação na qual fomos buscar o material de nossa discussão
consiste basicamente dos registros das sessões (Termos) das Juntas das
Missões, guardados nos arquivos públicos do Pará e do Maranhão. Esses
documentos correspondem a registros das decisões das Juntas, tribunal no

1
David G. Sweet, “Francisca: Indian Slave,” em David G. Sweet and G. B. Nash, eds.,
Struggle and Survival in Colonial America (Berkeley: University of California Press, 1981),
274-91.

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qual eram julgados os casos acerca da liberdade dos índios, e apenas recu-
peram sumariamente informações concernentes às etapas anteriores do
processo. O uso dessa documentação constitui o meio possível de recuperar
tais histórias , uma vez que os processos na íntegra, os denominados Autos
de Liberdade, foram extraviados, com exceção do auto referente ao caso da
índia Francisca, o qual se encontra na Biblioteca Nacional de Lisboa.
Antes, porém, de adentrarmos nessa documentação, fazem-se necessárias
algumas considerações preliminares acerca dos aspectos legais da escravidão
indígena na América portuguesa. A legislação indígena colonial sofreu
sucessivas alterações ao longo do século XVII. Ora os colonos leigos contro-
lavam o sistema de trabalho, ora este passava ao controle dos colonos
missionários. A concepção tradicional de alguns estudos avaliava a legislação
indigenista como contraditória e oscilante, quando observada no seu con-
junto, por às vezes apresentar a defesa incondicional da liberdade indígena
(Alvará de 30 de junho de 1609 e a Lei de 1º de abril de 1680), às vezes
permitir o cativeiro dos índios (Lei de 10 de setembro de 1611, Lei de 9 de
abril de 1655 e Alvará de 28 de abril de 1688). Tal concepção foi recen-
temente revista por novos estudos, que ao analisarem em detalhe a legisla-
ção observaram que esta não se refere indistintamente a todos os índios,
mas que, na realidade, os textos legais distinguem duas categorias de índios
na América portuguesa: os índios amigos dos portugueses, que estavam
aldeados, e os índios inimigos, que habitavam os novos territórios que avan-
2
çavam para o interior da colônia, os chamados “sertões.”
Observando dessa forma a legislação indigenista da América portuguesa,
Beatriz Perrone-Moisés avalia que ela já não aparece como “uma linha tor-
tuosa crivada de contradições, e sim duas, com oscilações menos funda-
3
mentais.” Uma linha que se aplica aos índios aldeados e aliados e outra
que se aplica aos inimigos, princípios estes que seriam conservados durante
toda a colonização. E quando, nas grandes leis de liberdade, se anulava a
distinção entre aliados e inimigos, as duas políticas se sobrepunham.
Devemos considerar que a legislação indigenista vigente no período
assinalado deste estudo, finais do século XVII e primeira metade do século
XVIII, previa duas modalidades principais de escravizar os índios: os resgates
e a guerra justa.

2
Nádia Farage, As muralhas dos sertões. Os povos indígenas no rio Branco e a
colonização (Rio de Janeiro: Paz e Terra/Anpocs, 1991).
3
Beatriz Perrone-Moisés, “Índios livres e índios escravos. Os princípios da legislação
indigenista no período colonial,” em Manoela Carneiro da Cunha, ed., História dos Índios
do Brasil (São Paulo: Companhia das Letras, 1992), 117.
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No que diz respeito ao cativeiro obtido através dos resgates, este era fun-
damentado em regras jurídicas e aceito como forma lícita de escravização
até por defensores da liberdade indígena, como o Padre Antônio Vieira, por
pressupor que a alma do resgatado estaria salva do destino cruel que teria
caso permanecesse em poder do seu capturador. O método consistia basica-
mente na compra pelos portugueses de índios que se encontravam prisio-
neiros de outras tribos indígenas, como resultado de guerras entre elas ou
“presos à corda” para serem comidos por tribos antropófagas. Ao serem
resgatados de seus captores, os índios passavam a ter a obrigação de traba-
lhar para seu comprador como forma de pagar por sua salvação e posterior
liberdade. O tempo estipulado de cativeiro variava conforme o preço pago
pela compra, sendo as regras desse sistema adaptado ao longo do período
4
colonial.
A guerra justa também era uma forma legítima de escravização, funda-
mentada em regras de Direito que tornavam lícito o cativeiro dos índios
capturados em guerra. A lei de 9 de abril de 1655, sobre os cativeiro dos
índios, apresentava dois tipos de guerra justas: a defensiva e a ofensiva. A
principal distinção entre os dois casos estava na autoridade de quem
5
poderia declarar as guerras.
Mesmo sendo aceitas como modalidades lícitas de adquirir índios para
o trabalho escravo na América portuguesa, houve determinados momentos
em que a legislação indigenista proibiu todas as formas de cativeiro dos
índios, tanto por meio de resgates quanto por guerra justa, como rezava o
texto da lei de 1º de abril de 1680. Entretanto, não paravam de chegar à
6
Corte pedidos dos moradores do Estado do Maranhão e Grão-Pará para
que se retornassem os resgates, sob várias alegações, sendo então, oito anos
mais tarde, restabelecido o cativeiro dos índios naquela região, por ocasião
dos resgates e das guerras justas, o que se anunciou pelo Alvará de lei de
7
28 de abril de 1688.

4
Perrone-Moisés, “Índios livres e índios escravos,” 127-8.
5
“Lei de 09/04/1655,” Anais da Biblioteca Nacional (ABN) 66 (1948): 25-8. Cabia ao
governador determinar a guerra defensiva, enquanto a ofensiva só poderia ser declarada
pelo rei, não tendo o governador autonomia para fazer a guerra sem autorização régia.
6
Em 1621, foi criado o Estado do Maranhão, uma unidade administrativa separada
do Estado do Brasil e ligada diretamente a Portugal, constituído das capitanias do
Maranhão, do Pará e do Ceará. Reintegrado ao Estado do Brasil, em 1652, mas
recuperando a sua autonomia em 1654, passou a denominar-se Estado do Maranhão e
Grão Pará, compondo-se de capitanias hereditárias e reais. Manteve essa designação até
1751 quando foi extinto e recriado com a denominação de Estado do Grão-Pará e
Maranhão.
7
Arquivo Distrital de Évora, Códice CXV/2-12, 20-26, Alvará de 28/04/1688.
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No tocante aos resgates, o Alvará de 1688 introduziu uma novidade na


condução do processo: os resgates seriam feitos por conta da Fazenda Real
e por meio de tropas oficiais expedidas para esse fim, com saídas todos os
anos e para todos os lugares do interior da colônia. Contudo, a permissão
dos cativeiros feitos por intermédio da Tropa oficial não impediu que con-
tinuassem as escravizações privadas ilegais. No Estado do Maranhão e Grão-
Pará, muitos moradores, quando iam aos sertões retirar produtos da
floresta—como cravo ou cacau, as chamadas “drogas do sertão”—, apro-
veitavam para comprar ou seqüestrar alguns índios que traziam como escra-
8
vos. Não desprezamos o fato de que a crescente necessidade da mão-de-
obra indígena tornou cada vez mais necessário penetrar os sertões do rio
Amazonas em busca dos índios, aumentando os custos da viagem e despesas
com o deslocamento. A falta de Tropas de resgates mais regulares nas pri-
meiras décadas do século XVIII, que suprissem os moradores com índios
cativos, e a alta mortalidade dos índios foram alguns dos motivos que
9
impeliram os moradores para os cativeiros clandestinos. Realmente, nesse
período cresceram as denúncias de aprisionamentos ilegais, assaltos ao sertão
e várias arbitrariedades. A tal ponto que a Coroa foi obrigada a enviar um
desembargador sindicante, Francisco da Gama Pinto, para proceder a uma
10
devassa geral sobre os cativeiros injustos.
A Coroa portuguesa se mostrava impotente para punir os violadores de
suas leis, restando como solução reforçar as instituições coloniais que pu-
dessem coibir os abusos na própria região. Dentre os organismos coloniais
que tratavam de assuntos ligados à administração dos índios, o mais impor-
tante, sem dúvida, foram as Juntas das Missões, compostas pelas principais
autoridades coloniais civis e religiosas (Governador, Bispo, Ouvidor e Pre-
lados das Ordens religiosas) e atuantes, entre 1681 e 1757, nas duas grandes
divisões administrativas da América Portuguesa (Estado do Brasil e Estado
11
do Maranhão e Grão-Pará).

impresso.
8
David G. Sweet, “A Rich Realm Destroyed: The Middle Amazon Valley, 1640-1750,”
Ph. D. Thesis, University of Wisconsin (1974), 468.
9
A última tropa foi expedida oficialmente no ano de 1713. E somente a partir da
década de 1720 as Tropas de resgates passaram a ser um pouco mais freqüentes.
10
Foram ouvidos no processo 121 moradores do Estado do Maranhão. Cf. Arquivo
Histórico Ultramarino (AHU), Maranhão, cx. 13, doc.1332 “Auto de devassa de Francisco
da Gama Pinto sobre o cativeiro de índios no Maranhão, 1722-1723.”
11
Criada em 1655, em Lisboa, a Junta Geral das Missões era um organismo ligado
à administração central que tratava exclusivamente das questões referentes às missões
nos domínios portugueses. Somente em 1681, foram criadas as primeiras Juntas das
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As Juntas das Missões passaram a desempenhar um papel cada vez mais


relevante no desenvolvimento da política indigenista empreendida pelo
Estado português, visto estarem enquadradas na estratégia de submissão dos
povos indígenas, atuando como reguladoras de todas as operações de cati-
12
veiro, julgamento e distribuição da mão-de-obra indígena.
Eram as Juntas das Missões solicitadas a dar seu parecer sobre questões
específicas relativas aos índios, tais como: os meios mais adequados para
promover o descimento dos índios para os aldeamentos missionários; exa-
minar a legitimidade dos cativeiros dos índios; emitir parecer sobre as pro-
postas de guerras ofensivas ou defensivas feitas aos índios; arbitrar sobre a
permissão dos “resgates” feitos por tropas específicas; e julgar como
instância final às apelações das ações de liberdade dos índios, além de
outros assuntos de sua competência.
Nas primeiras décadas do século XVIII, encontramos as Juntas das
Missões sediadas na América portuguesa mais independentes da instituição
metropolitana a qual eram subordinadas, funcionando como verdadeiras
instituições políticas locais, não obstante o seu caráter religioso. Na presi-
dência dessas Juntas ultramarinas, o Governador Geral, representante do
poder secular, conferiu e ampliou esse caráter político e, no exercício de sua
autoridade, utilizou-se da Junta como instrumento de poder para arbitrar
a favor de demandas coloniais relativas ao controle da mão-de-obra indí-
gena.
Ao tratar da escravidão indígena em São Paulo, o historiador John
Monteiro chamou a atenção para o fato de que, embora a questão da liber-
dade indígena tivesse sido amplamente discutida pela historiografia, princi-
palmente no seu aspecto legislativo, pouco havia sido debatido sobre a
13
questão das alforrias dos índios.
Alguns anos antes, um ensaio de David Sweet tratou do episódio da
índia Francisca, que, em 1739, solicitou a sua liberdade às autoridades colo-

Missões no ultramar, subordinadas à Junta Geral, em diferentes localidades do domínio


português (Angola, Goa, Maranhão, Pernambuco e Rio de Janeiro). Posteriormente,
foram instituídas outras Juntas no Brasil, nomeadamente na Bahia (1688), no Pará
(1701) e em São Paulo (1746).
12
Marcia E. A. Souza e Mello, “Pela propagação da fé e conservação das conquistas
portuguesas. As Juntas das Missões. Séculos XVII-XVIII,” Ph.D. Thesis, Universidade do
Porto (2002).
13
John Monteiro, “Alforrias, litígios e desagregação da escravidão indígena em São
Paulo,” Revista de História 120 (1989): 45-57.
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niais no Pará, como um caso excepcional de lei, “an exceptional case at


14
law.” Os estudos, até aquele momento, dizia o autor, indicavam que

Most Indians slaves, in Amazonia and elsewhere in colonial America, lived


lives that were so severely constricted by hunger, ignorance, disease and harsh
discipline that they had no opportunity for such exercises. They died within
a few months or years of their captivity; and for most of them there was
15
little question of striving for an improvement in social status.

16
Avaliando Francisca como uma “mulher mais tenaz do comum” (sic)
por haver lutado pela sua liberdade, Sweet considerou que o litígio da índia
Francisca contra sua patrona D. Ana Ponte, era um caso isolado.
Os estudos de John Monteiro apontam para outra direção. Na busca de
superar a lacuna historiográfica acima apontada, o autor propôs através do
estudo dos inventários e cartas de liberdade, examinar as formas pelas quais
os índios cativos adquiriam a sua liberdade. Suas análises demonstram que
os índios desenvolveram várias estratégias para enfrentar a dominação
portuguesa. Dentre elas estava a utilização de meios legais para alcançar
maior autonomia ou mesmo a liberdade. Referindo-se a São Paulo, o autor
afirma que os índios, no final do século XVII, passaram a se conscientizar
das vantagens do acesso à justiça colonial, principalmente com respeito a
17
sua liberdade. Com a presença permanente do representante da justiça
metropolitana na região, os índios vêem a ser autores mais freqüentes de
18
petições e litígios em busca da libertação.
No que compete ao tratamento dispensado aos índios pela justiça colo-
nial, elas gozavam de um regime diferenciado da justiça propriamente dita.

14
Sweet, “Francisca: Indian Slave,” 274.
15
“A maioria dos escravos índios, na Amazônia ou qualquer outro lugar na América
Colonial, vivia vidas que eram tão restritas pela fome, ignorância, doença e severa
disciplina, que eles não tinham nenhuma oportunidade para tais exercícios. Eles
morriam em poucos meses ou anos de cativeiro e para a maioria deles o esforço para
melhoria de status social era talvez inconcebível.” Sweet, “Francisca: Indian Slave,” 275.
16
David G. Sweet, “Francisca: Escrava da terra,” Anais da Biblioteca and Arquivo
Públicos do Pará 13, (1983), 287. Esta corresponde à versão em português, ligeiramente
modificada, do artigo originalmente publicado em inglês e acima citado.
17
John Monteiro, “Escravidão indígena e despovoamento na América portuguesa: São
Paulo e Maranhão,” em Jill R. Dias, ed., Nas vésperas do mundo moderno. Brasil (Lisbon:
Comissão dos Descobrimentos Portugueses, 1991), 148.
18
John Monteiro, “Alforrias, litígios e desagregação da escravidão indígena em São
Paulo,” em Jill R. Dias, ed., Nas vésperas do mundo moderno. Brasil (Lisbon: Comissão
dos Descobrimentos Portugueses, 1991), 54.
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Segundo Serafim Leite, os índios foram colocados sob uma forma de tutela,
onde se restringia a sua personalidade e sua responsabilidade, sendo consi-
19
derados em estado de menoridade. Portanto, necessitavam os índios de um
intermediário que servisse de porta-voz de suas demandas, sendo então
criado o cargo de Procurador dos Índios, ofício introduzido em finais do
século XVI, cuja finalidade era proteger os indígenas. Dele se encarregava
um morador, que atuava como advogado e auxiliar dos índios, assumindo
os seus interesses perante as autoridades coloniais. Não exercia nenhuma
função jurisdicional, se limitava a recomendar e a encaminhar protestos à
20
instância competente, ou seja, ao Governador e Ouvidor Geral.
Face às dificuldades dos índios em recorrer à justiça, tendo tão somente
os Procuradores dos Índios para encaminhar seus pleitos, foram nomeados
por ordem régia, em 1700, os Ouvidores Gerais das capitanias de Pernam-
buco e do Rio de Janeiro como “Juízes privativos das causas de liberdade
dos índios,” para que pudessem breve e sumariamente deferir sobre tais cau-
sas, verificando se as ordens régias concernentes aos índios estavam sendo
cumpridas.
Contudo, em 1730, avaliando a Junta das Missões de Pernambuco que
havia dificuldades na execução das ordens reais, devido às grandes distâncias
entre as capitanias subordinadas a Pernambuco, enviou ao rei as seguintes
propostas: que fossem também nomeados os ouvidores das demais capi-
tanias a fim de que, indo os ouvidores em correição, fizessem averiguação
sumária quanto à justeza ou não da liberdade dos índios que se achavam
cativos, os quais, pela sua pobreza, não conseguiam se defender da forma
ordinária; em conseqüência disso, as apelações e os agravos deveriam correr
21
pela Junta das Missões do distrito correspondente.
A questão foi apreciada no Conselho Ultramarino, onde as opiniões se
dividiram. Apontando, uns conselheiros, que fossem as apelações dire-
tamente para a Relação da Bahia, sem passar pelo julgamento da Junta das
Missões, pois essa não era formada por doutos em direito civil; enquanto
outros conselheiros defendiam que a apelação devia correr primeiro pela
Junta e só depois pela Relação. Entretanto, a decisão régia foi enfática: as
apelações da sentença do ouvidor seriam apenas endereçadas à Junta das

19
Serafim Leite, “As raças do Brasil perante a ordem teológica, moral e política
portuguesa nos séculos XVI-XVIII,” Sciencia Jurídica XIII (70) (1964): 531-51.
20
Georg Thomas, Política indigenista dos portugueses no Brasil (São Paulo: Edições
Loyola, 1981), 97-8.
21
AHU, Pernambuco, cx. 40, doc. 3667 (Carta do governador de 20/08/1730 e cópia
da carta régia de 05/11/1700).
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Missões do respectivo distrito e sua decisão seria final, não cabendo


22
apelações de sua decisão. De tal sorte que, em 1733, foram expedidas pro-
visões aos ouvidores do Estado do Brasil para que se cumprisse a decisão
23
régia, e dois anos mais tarde, estendida essa ordem ao Estado do Mara-
24
nhão e Grão Pará, atendendo à solicitação do Pe. Jacinto de Carvalho,
Procurador Geral das Missões da Companhia de Jesus no Estado do
Maranhão, visto que, naquele Estado concorriam as mesmas razões para que
nele fosse observada a mesma ordem passada aos ouvidores do Estado do
25
Brasil.
Desta forma, estava criado o “Juízo das Liberdades,” ligado às Ouvidorias,
que funcionava como um foro de primeira instância por onde corriam as
causas da liberdade dos índios, examinadas e julgadas pelo ouvidor, também
denominado de “Juiz das Liberdades.” Ficando a Junta das Missões fun-
cionando como um tribunal de segunda instância, considerado Juízo supe-
rior onde se interpunham os recursos das ações de liberdade.
Podemos perceber, baseados nos documentos compulsados, que as ações
de liberdade dos índios eram mais freqüentes do que se supunha.
Utilizando-se dos instrumentos e instituições disponíveis, os índios reque-
riam a condição de “forro,” alegando a injustiça do seu cativeiro, uma vez
que juridicamente eram livres pelas leis portuguesas (salvo exceções para
cativos de resgate ou de guerra). No Estado do Maranhão e Grão-Pará, na
primeira metade do século XVIII, essa estratégia foi bastante empregada
pelas índias e seus descendentes.
No estágio atual de nossas pesquisas, podemos distinguir pelo menos
duas formas pelas quais os índios recorriam à justiça contra o seu cativeiro.
Em alguns casos, requeriam os índios diretamente à Junta das Missões,
mediante uma petição encaminhada pelo próprio índio ou pelo Procurador
dos índios em seu nome. Na própria Junta eram julgados os argumentos
dos peticionários e chamadas para depor, caso fosse necessário, as partes
envolvidas nas ações; no final, era emitido um parecer favorável ou não ao
pleito. Em outros casos, utilizavam os índios o Juízo das Liberdades, quando
era formado um processo denominado “autos de liberdade,” encaminhado
ao Ouvidor da capitania para proferir sentença sumária. E se uma das

22
Documentos Históricos, Rio de Janeiro 100 (1953): 87-8 (Consulta do Conselho
Ultramarino de 09/10/1732).
23
AHU, Ceará, cx. 2, doc. 140 (Provisão Régia de 13/03/1733).
24
“Provisão Régia de 31/03/1735,” ABN 67 (1948): 259.
25
AHU, Maranhão, cx. 22, doc. 2236 (Requerimento ant. 29/03/1735).
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partes ficasse insatisfeita com o resultado, podia então recorrer à Junta das
Missões como instância de apelação da sentença do ouvidor.
Em 1726, valendo-se da primeira forma de reclamar sua liberdade, encon-
tramos várias petições de “gentios da terra” apresentadas à Junta das
Missões do Maranhão. Em reunião da Junta, realizada em 11 de julho de
1726, o Procurador dos índios Manoel da Silva, apresentou diversas petições
cujo teor reclamava a liberdade de algumas índias sob a alegação de serem
injustamente mantidas cativas. Dentre elas, destacamos a demanda da índia
Cecília. Dizia a petição do Procurador dos índios, em nome da índia Cecília,
que, falecendo seu protetor, o Padre José Teixeira, foram a índia e seus
filhos apreendidos e vendidos como escravos em praça pública, sem haver,
“por sua pobreza e miséria,” quem os defendessem, e sem averiguação ou
prova de seu cativeiro. Requeria a índia a sua liberdade e pedia para ser
colocada sob a guarda do Procurador dos índios até que aqueles que
reivindicavam a sua posse apresentassem na Junta das Missões os registros
legítimos de sua escravidão, que, conforme o Alvará de 28 de abril de 1688,
somente podiam ser apontados por tropa de guerra ou de resgates. Con-
cordando com a petição, resolveram os ministros da Junta das Missões
solicitar ao Provedor dos Defuntos e Ausentes que procedesse na forma
referida na petição, ou seja, que apresentasse os registros citados para que
26
se comprovasse ou não a legitimidade do cativeiro.
Muito embora a petição direta fosse a forma empregada habitualmente
por índios e índias—como atestam inúmeros casos apresentados às Juntas
do Pará e Maranhão—, ela continuou a ser encaminhada à Junta das
missões mesmo depois de criado o Juízo das Liberdades em 1735.
Exemplo disso é o caso da índia Antônia, trazida dos “sertões” do rio
Amazonas contra sua vontade por Diogo Freire, morador da cidade de São
Luís do Maranhão, onde foi reduzida a um injusto cativeiro. Depois de
alguns anos foi vendida a Antônio Vieira, morador da vila de Tapuitapera,
no Maranhão, em cujo poder se conservou a índia “sem repugnância pelo
bom tratamento que ele lhe dava.” Sendo novamente vendida a outro
morador da mesma vila, passou a ser maltratada por este, quando então
decidiu Antônia buscar a sua liberdade enviando uma petição à Junta do
Maranhão, apreciada na reunião de junho de 1739. Foram ouvidos todos os
envolvidos na Junta e não apresentando Diogo Freire um título legítimo

26
Arquivo Público do Pará (APP), códice 10, Termo de Junta de Missões do
Maranhão (11/07/1726).
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do cativeiro da índia Antônia, esta foi considerada pela Junta “forra e livre
27
de cativeiro.”
Semelhante requerimento foi proposto à Junta do Pará, em 1751, desta
feita pelo Procurador dos índios, Manoel Machado, em nome da índia Espe-
rança, da aldeia de Mortigura, que solicitava ser retirada do poder de
Sebastião Gomes, alegando ser constrangida a servi-lo e de ser maltratada
por ele. Comparecendo Sebastião Gomes à Junta, afirmou ter comprado a
índia de um soldado de nome Protásio do Rosário, sem que lhe fosse apre-
sentado o registro de cativeiro pelo vendedor, ficando com sua posse apenas
pelo ajuste que fizera com o dito soldado. Considerou a Junta que era a
índia livre de escravidão, por não possuir Sebastião Gomes um título de seu
28
justo cativeiro.
Nos dois casos acima citados, das índias Antônia e Esperança, os maus
tratos foram os principais motivadores da busca de sua liberdade. Queriam
as índias, como forras e livres, conquistar o direito “de servir a quem
quisessem” e livrar-se, conseqüentemente, dos maus tratos que sofriam. Mas
também ocorria que, depois de proferida a sentença favorável à liberdade
dos índios, estes continuassem a servir como livres aqueles a quem haviam
denunciado por mantê-los em injusto cativeiro. Tal foi o caso da índia
Maria, que sendo considerada forra e livre na Junta do Maranhão, mas não
repugnando totalmente o serviço a D. Isabel Pereira de Menezes, aceitou
continuar a servi-la, sob o compromisso de dedicar-lhe bom tratamento e
29
de pagar-lhe um salário.
A segunda forma de recorrer à justiça colonial podia ser bem mais mo-
rosa e dispendiosa. Visto que as partes recorriam e embargavam o processo,
podia levar meses ou mesmo anos até ocorrer uma decisão final. Muitas
dessas ações de liberdade envolviam partilhas de herdeiros, e os índios
muitas vezes agiam contra seus novos donos, reclamando o direito de servi-
rem a quem quisessem, o que aponta para questões sociais mais profundas.
Um caso bem ilustrativo envolvendo partilha de herdeiros foi o processo
de liberdade movido pela índia Catarina e suas irmãs Teodora e Domingas.
Por volta de 1725, Martinho Lopes da Fonseca, marido da índia Catarina,
em seu nome e de seus filhos, enviou várias petições ao Governador do
Estado do Maranhão, João Maia da Gama (1722-1728), alegando que Cata-
27
Arquivo Público do Maranhão (APM), Códice 01. Termo da Junta das Missões do
Maranhão (08/06/1739).
28
James Ford Bell Library, University of Minnesota, Livro de Termos da Junta de
Missões, Termo da Junta das Missões do Pará (21/07/1751).
29
APP, códice 10. Termo de Junta de Missões do Maranhão (27/02/1726).
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rina e suas irmãs tinham sido de maneira injusta arroladas como escravas
30
em inventário e partilhas dos bens da defunta Ana Rodrigues Sameira.
A partir dessa questão litigiosa podemos considerar alguns aspectos inte-
ressantes da vida dessas mulheres indígenas. É possível observar, à primeira
vista, como eram tecidas as relações entre os moradores e seus servos
domésticos. Pelo relato de Martinho Lopes, ficamos sabendo que estas eram
descendentes da índia Maria, nascida livre nos sertões do rio Amazonas, de
onde foi trazida para a cidade de São Luís do Maranhão, onde passou a
trabalhar para Francisco Dias Deiró e sua mulher, Ana Roiz Sameira. Na
casa de seus patronos, a índia Maria deu à luz sua filha Cecília, que por sua
vez gerou e fez nascer nesta mesma casa às índias Catarina, Teodora e
Domingas. Foram aí todas criadas e doutrinadas, tanto por Francisco e Ana
como por sua filha Mônica de Assunção e seu marido Manoel Lopes de
Souza, sendo tratadas “com amor, como de seus pais,” sendo assistidas com
“vestimentas e medicamentos” e tidas como “forras e livres” sem a opressão
do cativeiro. Com o passar do tempo, as irmãs também se casaram e
tiveram seus filhos. Devido ao bom tratamento que lhes era dispensado por
todos da família, as índias serviam e prestavam assistência na dita casa com
“especial contentamento.” Contudo, com a morte de Ana Sameira, foram
as índias e seus filhos lançados como escravos na partilha dos herdeiros,
Mônica e José Pires Deiró, filhos de Ana Sameira, sem que houvesse, entre-
tanto um título que justificasse as suas escravidões.
O que chama a atenção num primeiro momento do processo é que as
índias Catarina, Teodora e Domingas não contradizem diretamente a
partilha do inventário. Elas desejavam servir aos herdeiros, por serem todos
da família da falecida Ana Sameira, e se sentiam obrigadas a servir-los em
troca dos benefícios recebidos e em gratidão e reconhecimento pela sua
criação e doutrina. Entretanto, o herdeiro José Pires fez cessão de seu
quinhão da herança a Manoel Gaspar Neves, no qual estava envolvida parte
das índias e seus filhos. Não reconhecendo no novo senhor a mesma razão
da referida obrigação de serviço, as irmãs indígenas saíram da casa de
Manoel Lopes de Souza, o genro da defunta, onde se encontravam, e foram
reclamar sua liberdade antes que Manoel Gaspar Neves tomasse posse delas.
Para tanto, endereçaram um requerimento ao Governador João Maia da
Gama, que foi favorável ao pedido. Dando portaria autorizando que fossem
encaminhadas ao Procurador dos índios, Manoel da Silva Andrade, sob a

30
AHU, Maranhão, cx. 15, doc. 1542 (Translado de vários documentos. 1725-1726).
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guarda de quem ficariam depositadas, enquanto o processo transcorresse na


Junta das Missões.
Contudo, o caso ganhou contornos inesperados. O novo ouvidor da capi-
tania do Maranhão, Mathias da Silva Freitas, aproveitando-se da ausência
do Governador, desconsiderou sua portaria e mandou que fossem as índias
e seus filhos, ao todo 12 pessoas, entregues a Manoel Gaspar Neves. Porém,
recusando-se o Procurador dos índios a entregá-las, este acabou preso e seus
bens penhorados.
De volta à capitania do Maranhão, em fevereiro de 1726, convocou o
Governador a Junta das Missões, fundamentando-se em ordem real que
concedia à Junta a faculdade de se reunir para tratar em todos os casos que
se julgassem necessários e urgentes, quando o assunto não pudesse esperar
por resolução do reino, mandando-se executar o que a Junta resolvesse. Foi
proposta na Junta a matéria sobre a liberdade da índia Catarina e de suas
irmãs, quando foram analisados diversos documentos e discutidos alguns
pontos propostos pelo Governador, os quais foram votados uniformemente
por todos os deputados. Uma das resoluções dizia que o Procurador dos
índios não deveria ser preso e ter seus bens executados por haver defendido
a liberdades dos índios, cuja autoridade pública tinha para fazê-lo. No que
concerne às índias que reclamavam a sua liberdade, determinava a Junta
que elas podiam defendê-la em qualquer tempo, sem prescrição desse
direito, mesmo que qualquer pessoa, herdeira ou cessionária, requeresse
antes a sua posse como cativas. Devendo-se manter no depósito sob a
guarda do Procurador dos índios até que fosse proferida sentença final
31
sobre sua liberdade ou cativeiro. Dois anos mais tarde, confirmou o rei,
em carta régia, a decisão supracitada da Junta. Reafirmando que eram livres
todos os índios que não fossem feitos legítimos escravos, por resgate ou
guerra justa, e estando na posse de um injusto possuidor, quando da sua
morte, não poderiam entrar os índios em inventário, nem em partilhas,
32
podendo servir aos herdeiros que quisessem como pessoas livres.
Contrariando o que determinava a decisão tomada na Junta e a despeito
da ordem real que a confirmava, o novo governador do Estado do Mara-
nhão, Alexandre de Souza Freire (1728-1732), mandou entregar as índias a
Manoel Gaspar Neves, retirando-as da casa do Procurador dos índios onde
se achavam depositadas. É possível explicar esse comportamento arbitrário

31
AHU, Maranhão, cx. 15, doc. 1542 (Cópia do Termo de Junta das Missões do
Maranhão. 27/02/1726).
32
ABN 67 (1948): 221-222 (Carta Régia de 12/02/1728).
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do governador, considerando o que afirmamos anteriormente a respeito do


poder exercido pelos governadores na Junta das Missões. Valendo-se de sua
autoridade como presidente da Junta, o governador utilizava-a como instru-
mento de poder. Dessa forma, inclinava-se a favor dos interesses dos colonos
quanto ao cativeiro dos índios em detrimento da liberdade a que tinham
direito. Ousava ainda alterar o que já havia sido julgado favorável na causa
da índia Catarina, por exemplo, contradizendo até mesmo as ordens vindas
33
da corte, para que fossem as índias recolocadas em depósito. Não podemos
ignorar também que Manoel Gaspar, como proprietário de uma fazenda de
gado e contratador dos subsídios da capitania do Maranhão, era um mora-
dor abastado e influente e que representava os poderosos interesses locais
em manter os índios como cativos e dispor deles como bem se entendesse.
Isto talvez tenha contribuído para atrair para a demanda de Manoel Gaspar
o apoio do governador.
Na luta por sua liberdade, as índias tiveram que se defrontar com vários
obstáculos que favoreciam aquele que as queria possuir como cativas.
Manoel Gaspar, valendo-se de sua amizade com o escrivão da ouvidoria,
teve acesso a vários documentos que acabaram ficando em seu poder,
dificultando assim o andamento da causa movida pelas índias. A tal ponto
que, em 1736, onze anos depois portanto, o caso continuava sem solução,
visto estarem desaparecidos os autos que moviam as índias contra Manoel
34
Gaspar—isto, curiosamente, depois de este ter solicitado vistas ao processo.
Numa última esperança, apelaram as índias para a proteção do rei,
enviando diretamente uma petição ao reino para que pudessem se
conservar na sua liberdade até serem convencidas de seu cativeiro (ou não)
e proferida sentença final no seu processo. O despacho régio encaminhou
o pedido para a apreciação do governador geral do Estado do Maranhão,
João Abreu Castelo Branco (1737-1747), para que, em Junta das Missões,
35
determinasse o que fosse lícito. Todavia, não encontramos nenhum
registro sobre o assunto nas atas da Junta das Missões desse período.
Nada mais sabemos sobre o destino das referidas índias. Suspeitamos
que, devido ao silêncio da Junta sobre o caso, mais uma vez, ficaram as

33
Em carta régia de fevereiro de 1729 foi o governador especificamente advertido
sobre este caso. Ordenava o rei que ele se abstivesse de agir com tanto excesso em
semelhante matéria e que estando esse caso determinado em Junta, e aprovado pelo rei,
não tinha jurisdição o governador para inovar ou alterar o que havia sido julgado. Cf.
AHU, Maranhão, cx. 17, doc. 1724 (Cópia de Carta Régia de 22/02/1729).
34
AHU, Maranhão, cx. 23, doc. 2333 (Requerimento ant. 28/01/1737).
35
AHU, Maranhão, cx. 23, doc. 2333 (Despacho de 06/02/1737).
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índias vulneráveis às ações de Manoel Gaspar, que em outras ocasiões já


havia se aproveitado de atos suspensivos e retirado as índias do depósito em
que se encontravam e até vendido dois dos filhos da índia Domingas.
As ações de liberdade, após serem julgadas favoráveis pelo ouvidor,
podiam ter suas sentenças revogadas pela Junta das Missões justamente
pelos votos dos ministros religiosos, que em última instância deveriam
defender a liberdade e não a escravidão dos índios, como foi o caso da índia
Mônica.
A índia Mônica e suas três filhas, Maria, Marcelina e Ignácia Carneira,
moradoras no Maranhão, em 1733, proclamaram a sua liberdade através de
um auto de libelo no juízo da ouvidoria de São Luís contra Damaso
36
Ribeiro Viegas e sua filha Tereza Maria de Jesus. Alegaram as autoras no
processo que eram filha e netas da índia Sabina, a qual fora trazida, ainda
menina, da aldeia do Maracanã, pelo padre Pedro Gonçalves, para a cidade
de São Luís do Maranhão a fim de aprender o ofício de costureira para
depois retornar para sua aldeia. Precisando o Padre Pedro viajar para a
capitania de Pernambuco, deixou a índia Sabina na casa de seu tio, Antônio
Carvalho, a quem recomendou que a remetesse para a aldeia de origem
depois de terminado o aprendizado. Contudo, fazendo o contrário do que
havia prometido, tratou Antônio Carvalho de casar a índia Sabina com seu
escravo, o índio Alexandre. De tal união, nasceram vários filhos, incluindo
a citada Mônica.
Considerando o ouvidor José de Souza Monteiro, que as índias eram
descendentes de ventre livre e que os réus não apresentaram nenhum
registro de sua escravidão, sentenciou “por livres as autoras e seus produtos
para poderem viver com quem quisessem.”Todavia, apelando os réus contra
a sentença do ouvidor para a instância superior, qual seja, a Junta das
Missões do Maranhão, conseguiram reverter a sentença dada às índias.
Considerando os ministros da Junta que o processo não foi bem julgado
pelo ouvidor, declararam revogada a sentença em assento de junho de 1738
37
e as índias consideradas legítimas escravas.
A partir desta sentença proclamada na Junta, iniciou-se uma batalha
dentro e fora dela, que se arrastou por décadas. Como os embargos
impetrados pelas índias não foram aceitos pela Junta do Maranhão, elas
tentaram através de vários requerimentos endereçados ao reino passar em
36
AHU, Maranhão, Avulsos, ant. 13/04/1742 (Cópia da sentença do ouvidor de
04/12/1733).
37
AHU, Maranhão, Avulsos, ant. 13/04/1742 (Cópia do Termo de Junta de
14/06/1738).
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revista os autos na Relação de Lisboa, alegando que a causa fora iniciada


antes de 1735, ano em que a Junta passou a ser última instância de apelação
das ações de liberdade, “e sua decisão seria final, não cabendo apelações de
38
sua decisão,” não sendo deferido o pedido. Em 1753, enviam novo
requerimento ao rei D. José, desta vez, solicitando licença para poderem
apelar da sentença proferida pela Junta das Missões do Maranhão, pois se
39
consideravam inocentes, voltando a causa a ser apreciada em várias sessões
da Junta em 1755. Quando finalmente, em novembro de 1756, se declarou
por concluído o processo, assentou-se que “sem embargos dos embargos se
cumpra a sentença embargada,” mantendo-se a sentença a favor de Tereza
de Jesus, considerando Mônica e suas filhas como escravas.
Destino inverso teve a causa da índia Margarida e seus filhos. Utilizando
o recurso da apelação da sentença proferida no Juízo das Liberdades, em
dezembro de 1751, a índia Margarida recorreu à Junta das Missões do
Maranhão contra a viúva Maria Pereira, solicitando carta de liberdade. Mas
somente em outubro de 1752, depois de vários embargos impetrados pela
viúva Maria Pereira, pôde a Junta proferir o acórdão em que se concedia
40
liberdade à índia Margarida e aos seus filhos.
A título de conclusão gostaríamos de enfatizar alguns aspectos que
consideramos essenciais para a compreensão do tema. Muito embora a
Junta estivesse incumbida de julgar os casos acerca da liberdade dos índios
(nesse sentido a Junta das Missões era considerada um tribunal de defesa
da liberdade indígena), também passavam por ela todas as operações de
recrutamento da força de trabalho indígena—descimentos, resgates e guerras
justas—, bem como o julgamento da legalidade ou não dos cativeiros.
Engendrava-se assim uma contradição que a acompanhou durante toda a
sua existência e que se evidencia nos diferentes interesses dos agentes
coloniais que por ela transitavam. Na Junta, eram apreciadas demandas que
envolviam os interesses não só dos colonos leigos e missionários (exames da
legalidade do cativeiro dos escravos feitos no sertão, autorização para
resgates privados, descimentos para aldeias dos religiosos) como também dos
índios (petições de liberdade contra o cativeiro injusto, ajustes de acordos
de paz).
Por fim, ao analisarmos as ações de liberdade e suas apelações julgadas
pela Junta das Missões, foi possível perceber que outras índias e seus

38
AHU, Maranhão, Avulsos, ant. 13/04/1742 (Despacho de abril de 1743).
39
AHU, Maranhão, cx. 34, doc. 3420 (Requerimento ant. 07/08/1753).
40
APM, Códice 01. Termo da Junta das Missões do Maranhão (03/10/1752).
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descendentes, tal como a índia Francisca, estudada por David Sweet, se


revelaram através dos processos levados à apreciação da justiça colonial. Tais
ações funcionaram também como aberturas capazes de iluminar as
contradições que a sociedade colonial vivenciava. As ações de liberdade não
envolviam apenas os índios e aqueles que utilizavam seus serviços
diretamente, mas mobilizavam os interesses de toda a sociedade colonial.