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LITERATURA BRASILEIRA I
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LITERATURA BRASILEIRA I

PRESIDENTE DA REPÚBLICA Luiz Inácio Lula da Silva

MINISTRO DA EDUCAÇÃO Fernando Haddad

SECRETÁRIO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Carlos Eduardo Bielschowsky

UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO DO SUL

REITORA Célia Maria da Silva Oliveira

VICE-REITOR João Ricardo Filgueiras Tognini

COORDENADORA DE EDUCAÇÃO ABERTA E A DISTÂNCIA - UFMS COORDENADORA DA UNIVERSIDADE ABERTA DO BRASIL - UFMS Angela Maria Zanon

COORDENADOR ADJUNTO DA UNIVERSIDADE ABERTA DO BRASIL - UFMS João Ricardo Viola dos Santos

COORDENADORA DO CURSO DE LETRAS: PORTUGUÊS E ESPANHOL (MODALIDADE A DISTÂNCIA) Damaris Pereira Santana Lima

Obra aprovada pelo Conselho Editorial da UFMS - Resolução nº

CONSELHO EDITORIAL UFMS

Dercir Pedro de Oliveira (Presidente) Antônio Lino Rodrigues de Sá Cícero Antonio de Oliveira Tredezini Élcia Esnarriaga de Arruda Giancarlo Lastoria Jackeline Maria Zani Pinto da Silva Oliveira Jéferson Meneguin Ortega Jorge Eremites de Oliveira José Francisco Ferrari José Luiz Fornasieri Jussara Peixoto Ennes Lucia Regina Vianna Oliveira Maria Adélia Menegazzo Marize Terezinha L. P. Peres Mônica Carvalho Magalhães Kassar Silvana de Abreu Tito Carlos Machado de Oliveira

CÂMARA EDITORIAL

SÉRIE

Tito Carlos Machado de Oliveira CÂMARA EDITORIAL SÉRIE Angela Maria Zanon Dario de Oliveira Lima Filho

Angela Maria Zanon Dario de Oliveira Lima Filho Damaris Pereira Santana Lima Carina Elizabeth Maciel Magda Cristina Junqueira Godinho Mongelli

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Coordenadoria de Biblioteca Central – UFMS, Campo Grande, MS, Brasil)

de Catalogação na Publicação (CIP) (Coordenadoria de Biblioteca Central – UFMS, Campo Grande, MS, Brasil)

SUMÁRIO

Introdução

05

CAPÍTULO I

Quinhentismo

11

CAPÍTULO II

Barroco

19

CAPÍTULO III

Arcadismo

29

CAPÍTULO IV

Romantismo

35

INTRODUÇÃO

Leitura

Uma proposta pedagógica não se reduz à simples discussão do método, n em a um rol de atividades e novidades, nem mesmo a uma relação de conteúdos. Ela deve ser mais radical no sentido primeiro da palavra, ou seja, deve atingir a raiz, o cerne da questão.

Lydia Bechara

Em âmbito escolar, pode-se observar que o gosto pela leitura se constrói, por meio de um longo processo. Para que esse gosto seja despertado, o próprio aluno precisa se ver como um sujeito-leitor, desafiado diante dos “objetos de leitura”.

Como sujeito, ele, leitor, sabe que precisa superar uma visão utilitarista da linguagem em que se privilegia apenas o domínio técnico da leitura. Para tanto, é preciso discutir o papel da escola na formação do leitor. Este livro pretende favorecer a literariedade presente nos poemas, contos, romances que fazem parte de um acervo cultural criado há várias décadas.

É importante destacar que o texto literário favorece a formação do leitor, pois lhe permite vivenciar a história e as emoções por meio da imaginação, desenvolvendo, assim, uma visão mais crítica do mundo.

1) O que é leitura?

uma visão mais crítica do mundo. 1) O que é leitura? (CLUBE DA MAFALDA. Disponível em:

(CLUBE DA MAFALDA. Disponível em: http://clubedamafalda.blogspot. com/2006_01_01_archive.html. Acesso em maio. 2010).

A leitura é um processo de instauração dos sentidos, determinado histórica e ideologicamente, relacionado à vida intelectual, à época e ao contexto social em que se vive. Nesta aula, tem-se consciência de que não há leitura ingênua, pré-cultural, longe de qualquer referência exte- rior a ela. A leitura produz jogos de conotações, pois exige um sentido de conjunto, uma globalização e uma articulação aos sentidos produ- zidos pelas sequências. Também não se concebe ler como encontrar o sentido desejado pelo autor, o que implicaria deduzir que o prazer do texto se originaria na coincidência entre o sentido desejado e o sentido percebido. Ler não é reconstituir um sentido, mas constituir.

Na leitura, o leitor realiza um processo de compreensão abrangente de diferentes tipos de linguagem, cuja dinâmica, segundo Maria Helena Martins (1989, p.58), envolve componentes sensoriais, emocionais, intelectuais, fisiológicos, neurológicos, bem como culturais, econômicos e políticos. Enfim, trata-se de uma perspectiva de caráter cognitivo-sociológico, em que o leitor participa com uma aptidão que não depende basicamente de sua capacidade de decifrar sinais, mas sim de sua capacidade de atribuir sentido a eles, de compreendê-los.

A leitura literária e a sua função humanizadora

Abordando esse assunto, Antonio Candido, no texto A Literatura e a formação do homem, apresenta algumas considerações significativas sobre a função humanizadora da literatura. Chega a enfatizar a “função psicológica” atribuída à literatura. Segundo seu encaminhamento, o homem, no momento de fruição, precisa da fantasia, da ficção, como uma necessidade elementar. De acordo com Candido:

as criações ficcionais e poéticas podem atuar de modo subconsciente

e inconsciente, operando uma espécie de inculcamento que não percebemos. Quero dizer que as camadas profundas da nossa

personalidade podem sofrer um bombardeio das obras que lemos

e que atuam de maneira que não podemos avaliar (CANDIDO, 1999, p. 84).

No mesmo texto, Candido chama nossa atenção para o fato de que a literatura tem uma função formativa que se afasta do “ponto de vista estritamente pedagógico”, na medida em que ela mexe com as nossas “camadas profundas”. Segundo Candido:

A literatura pode formar, mas não segundo a pedagogia oficial, que

costuma vê-la ideologicamente como um veículo da tríade famosa, - o Verdadeiro, o Bom, o Belo, definidos conforme os interesses dos grupos dominantes, para reforço da sua concepção de vida. Longe de ser um apêndice da instrução moral e cívica (esta apoteose matreira do óbvio, novamente em grande voga), ela age com o impacto indiscriminado da própria vida e educa como ela, com altos e baixos, luzes e sombras. (CANDIDO, 1999, p. 84).

O que leva os alunos a rejeitarem a leitura?

Entendendo texto como objeto de criação, interessa, na sala de

aula, que os alunos o percebam como reflexão sobre a experiência

e experiência de reflexão. A rejeição por determinadas obras ou determinados autores por parte dos alunos deve-se ao fato de

ignorarem, porque não explicitado, o diálogo existente entre textos de diferentes autores em diferentes épocas. O trabalho com textos, em sala de aula, objetiva a atribuição de sentidos numa perspectiva dinâmica e dialética, capaz de interpretar não apenas o ponto de vista que o autor manifesta, mas também fazer variar esse ponto de vista, construir outros textos e produzir conhecimento. A exposição

a diversos tipos de texto é, portanto, necessária para que o aluno aprenda a ler, desenvolva uma atividade léxica, pratique, enfim, atos de leitura.

O aluno passa a compreender esses múltiplos significados que

existem dentro de um mesmo texto e fora dele, quando em relação dialógica com outros. Ao refletir sobre o conhecimento e ao controlar os seus processos cognitivos, o aluno coloca em ação todo seu sistema de valores, crenças e atitudes que revelam o grupo social em que foi criado. Segundo Vitor Manuel de Aguiar e Silva, a arte literária não reproduz o real, o concreto, ela se preocupa em criar um mundo verossímil, ou seja, o que pode acontecer, o que parece verdade.

Neste volume, relacionado à disciplina Literatura Brasileira I, você, aluno da EAD, vai entrar em contato, dentro de uma sequência cronológica, com obras literárias que representam o cânone, textos que foram consagrados em seus contextos de produção. O livro tenta resgatar textos expressivos, a começar pela carta do navegador português Pero Vaz de Caminha, autor do nosso Quinhentismo, até chegarmos à prosa romântica, adotando como eixo a sequência cronológica das escolas literárias, a periodização.

O que é verossililhança?

O

critério da periodização

O

critério de divisão periodológica da literatura pelos movimentos

e estilos sempre ocupou, como método, um papel importante nas

concepções de críticos e historiadores que se dedicaram, mais precisamente a partir da segunda metade do século XIX, ao estudo das correntes estéticas e literárias.

Sabemos que tais críticos estabeleceram várias sequências cronológicas, enumerando elementos históricos, sociais e biográficos que permeavam escolas, autores e obras. Muitas vezes tais critérios foram questionados pela própria crítica por terem uma

fisionomia reducionista, ou acusados de arbitrários na medida em que a concepção geral, o espírito da época, o zeitgeist e outros condicionamentos históricos acabaram por abafar o sentido estético da obra literária.

Ao refletir sobre os primórdios da periodização, Vitor Manuel de Aguiar e Silva, no livro Teoria da Literatura, assinala que Petrarca (1304-1347), no Ocidente, foi o primeiro a exprimir de forma clara a consciência de que existe alternadamente um “ciclo de decadência” e um “ciclo de esplendor”. Em outra formulação, o crítico português chega a revelar que a ideia do “círculo” se reveste também de significados simbólicos, metafísicos e míticos. Analisando tais significados, o professor salienta que “a idéia da recorrência e da circularidade dos fenômenos culturais e artísticos inscreve-se sempre numa concepção dual, maniqueísta, da história humana (luz/ treva, positivo/negativo, norma/transgressão”. Baseada nesse perfil dicotômico, que aponta para o eterno contraste entre o Clássico e o Romântico, a periodização, muitas vezes encarada como um sistema de normas estanques, tem merecido, ao longo do tempo, algumas críticas exatamente por apresentar paralelismos forçados.

A obra de arte e a dimensão individual do escritor

O o Maria Carpeaux, em História da literatura ocidental, rejeita com veemência tal mecanismo ao assinalar que o homem barroco, o homem romântico “seriam mudos e, por conseqüência, esquecidos, se certos entre eles não tivessem o dom individual da expressão artística”.

Além do ponto de vista de cada período, de cada escola, seja ela barroca ou renascentista, a obra de arte é determinada pelo ponto de vista individual do seu criador. No caso específico da literatura, como vimos na apreciação de O o Maria Carpeaux, a obra de arte resguarda a dimensão individual do escritor, ao observar que este tem suas especificidades, sua autonomia, considerando que ele, escritor, pode ter inclusive uma visão destoante da visão de mundo do seu tempo.

LITERATURA BRASILEIRA I
LITERATURA BRASILEIRA I

Neste material didático, você terá contato com a literatura brasileira. Conhecerá os principais textos e autores desde o início do período colonial, que tem como marco inicial a carta de Pero Vaz de Caminha, até o século XIX, com o Romantismo. Há também algumas atividades para você aprofundar seu conhecimento literário por meio da leitura das obras sugeridas e por meio de questões que enfocam, principalmente, o aspecto da construção literária.

EaD • UFMS Quinhentismo Capítulo I 11 Quinhentismo Querelas do Brasil   Aldir Blanc [
EaD • UFMS Quinhentismo Capítulo I 11 Quinhentismo Querelas do Brasil   Aldir Blanc [
EaD • UFMS Quinhentismo

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Quinhentismo

Capítulo I

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Quinhentismo

EaD • UFMS Quinhentismo Capítulo I 11 Quinhentismo Querelas do Brasil   Aldir Blanc [ ]

Querelas do Brasil

 

Aldir Blanc

[

]

O

Brasil, não conhece o Brasil

O

Brasil, não merece o Brasil

O

Brasil, nunca foi ao Brasil

O

Brasil, tá matando o Brasil

Tapi, Jabuti, Liana Alamandra, Alialaúde Piau, Ururau, Aquiataúde Pia, Carioca, Porêca, Metran Jobim Akarore, Jobim Açu Oh! Oh! Oh!

Gereba, Saci, Caandra

Desmunhas, Ariranha, Aranha Sertões, Guimarães Bachianas, Águas

E Marionaíma, Ariraribóia

Na aura das mãos do Jobim Açu

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12 LITERATURA BRASILEIRA I EaD • UFMS LITERATURA INFORMATIVA “Senhor, Posto que o Capitão-mor desta Vossa
12 LITERATURA BRASILEIRA I EaD • UFMS LITERATURA INFORMATIVA “Senhor, Posto que o Capitão-mor desta Vossa

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LITERATURA BRASILEIRA I EaD • UFMS

LITERATURA INFORMATIVA

“Senhor,

Posto que o Capitão-mor desta Vossa frota, e assim os outros capitães escrevam a Vossa Alteza a notícia do achamento desta Vossa terra nova, que se agora nesta navegação achou, não deixarei de também dar disso minha conta a Vossa Alteza, assim como eu melhor puder, ainda que — para o bem contar e falar — o saiba pior que todos fazer!

[

]

A feição deles é serem pardos, um tanto avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem cobertura alguma. Nem fazem mais caso de encobrir ou deixa de encobrir suas vergonhas do que de mostrar a cara. Acerca disso são de grande inocência.”

O texto acima mostra o interesse do cronista Pero Vaz de Caminha, escrivão da frota de Cabral, em descrever lentamente o que se passa no território ainda virgem.

Escrita no último ano do século XV, a carta redigida por Caminha é o primeiro documento relacionado ao Brasil, apresentando a visão do europeu ao se confrontar com as terras dos trópicos, com sua população autóctone, vivendo em harmonia com a natureza: os índios e suas pinturas com elementos extraídos da própria terra, seus instrumentos de caça e pesca, e talvez aquilo que tenha causado um choque maior nos habitantes de um continente frio e civilizado: a falta de vestes dos nossos nativos.

Este texto marca o início do Quinhentismo, período iniciado em 1500 e que teve seu término no ano de 1601 com a publicação da Prosopopéia de Bento Teixeira.

Os escritos literários dessa época fazem parte da literatura de viagens do Renascimento.

Antonio Candido, no livro Iniciação à Literatura Brasileira, destaca que os primeiros escritos feitos aqui mostram o intuito pragmático dos colonizadores que queriam compreender a terra para melhor dominá-la e dela tirar proveito.

As obras que se ocuparam da descrição dos costumes da nova terra são importantes enquanto fontes documentais para o estudo da colonização.

EaD • UFMS Quinhentismo Veja a relação de algumas obras: 13 “ Tratado da Terra
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Veja a relação de algumas obras:

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Tratado da Terra do Brasil e Histórias da Província de Santa Cruz”, do autor português Pero de Magalhães Gândavo

(1576)

Tratado descritivo do Brasil”, de Gabriel Soares de Sousa

(1587)

Do ponto de vista estilístico, os portugueses trouxeram formas literárias refinadas devido à influência do Renascimento. Essa linguagem culta pode ser notada em vários textos. Vejamos o exemplo abaixo, extraído do Tratado da terra e gente do Brasil, do Pe. Fernão Cardim:

“Todos andam nus assim homens como mulheres, e não têm gênero nenhum de vestido e por nenhum caso verecundant (latim:

envergonham-se), antes parece que estão no estado de inocência nesta parte, pela grande honestidade e modéstia que entre si guardam, e quando algum homem fala com mulher viram-lhe as costas.”

Afrânio Coutinho revela, no livro A Literatura no Brasil, que os primeiros documentos, os roteiros de viagem de autores como Pero Vaz de Caminha, Pero Lopes de Sousa, Nóbrega, Rocha Pita e tantos outros estão mais ligados à história e à sociologia.

Atividade 1

Leia os trechos a seguir para responder às questões:

Trechos da Carta, de Pero Vaz de Caminha

“E assim seguimos nosso caminho, por este mar de longo, até que terça-feira das Oitavas de Páscoa, que foram 21 dias

de abril, topamos alguns sinais de terra, estando da dita Ilha

– segundo os pilotos diziam, obra de 660 ou 670 léguas – os

quais eram muita quantidade de ervas compridas, a que os mareantes chamam botelho, e assim mesmo outras a que dão

o nome de rabo-de-asno. E quarta-feira seguinte, pela manhã, topamos aves a que chamam furabuchos.

Neste mesmo dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra!

A saber, primeiramente de um grande monte, muito alto e redondo; e de outras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos; ao qual monte alto o capitão pôs

o nome de O Monte Pascoal e à terra A Terra de Vera Cruz!”

Sobre o autor

Sobre o autor (1890 – 1954) Um dos principais intelectuais brasileiros da primeira metade do século

(1890 – 1954) Um dos principais intelectuais brasileiros da primeira metade do século XX, juntamente com Mário de Andrade e outros artistas da época idealiza e realiza a Semana de 1922, marco do Modernismo no Brasil.

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14 LITERATURA BRASILEIRA I EaD • UFMS “Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem
14 LITERATURA BRASILEIRA I EaD • UFMS “Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem

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“Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem novinhas e gentis, com cabelos muito pretos e compridos pelas costas; e suas vergonhas, tão altas e tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as nós muito bem olharmos, não se envergonhavam.”

A descoberta, de Oswald de Andrade

“Seguimos nosso caminho por este mar de longo Até a oitava da Páscoa Topamos aves

E houvemos vista de terra

os selvagens

Mostraram-lhes uma galinha Quase haviam medo dela

E

não queriam por a mão

E

depois a tomaram como espantados

primeiro chá

Depois de dançarem Diogo Dias Fez o salto real

as meninas da gare

Eram três ou quatro moças bem moças e bem gentis Com cabelos mui pretos pelas espáduas

E suas vergonhas tão altas e tão saradinhas

Que de nós as muito bem olharmos

Não tínhamos nenhuma vergonha.”

Os dois primeiros trechos pertencem à carta que o escrivão da frota de Pedro Álvares Cabral escreveu ao rei de Portugal, contando sobre a nova terra. O texto A descoberta pertence ao escritor Oswald de

Para saber mais

Intertextualidade:

Andrade, um dos idealizadores da Semana de Arte Moderna no início de 1922, em São Paulo. Trata-se de um poema que estabelece uma relação intertextual com a Carta de Caminha. A partir do exposto e da leitura dos textos, responda às questões abaixo:

a. Quais as principais semelhanças entre os textos?

b. E as diferenças? (Não se esqueça de observar tanto a temática quanto a forma, a estrutura dos textos).

EaD • UFMS Quinhentismo O filme O povo brasileiro discute o conceito de miscigenação, conforme
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EaD • UFMS Quinhentismo O filme O povo brasileiro discute o conceito de miscigenação, conforme sinalizações

O filme O povo brasileiro discute o conceito de miscigenação, conforme sinalizações teóricas do professor Darcy Ribeiro. Para entender melhor a formação da população brasileira no período colonial, não deixe de assistir a ele.

LITERATURA FORMATIVA

Outra característica da produção escrita no Brasil do Quinhentismo era o caráter de formação, entendendo aqui como a catequese dos nativos. Os responsáveis por tal formação eram os jesuítas. O principal jesuíta no território brasileiro foi o Padre José de Anchieta, chamado pelos índios de “grande piahy” (‘supremo pajé branco’).

de “grande piahy ” (‘supremo pajé branco’). Nascido em Tenerife, Canárias, em 1534, chegou ao Brasil

Nascido em Tenerife, Canárias, em 1534, chegou ao Brasil em 1553, fundando no ano seguinte um colégio que seria o embrião da futura cidade de São Paulo. Faleceu em 1597, no Espírito Santo.

Entre suas obras estão a Arte de gramática da língua mais usada na costa do Brasil, a primeira gramática do tupi- guarani; vários autos (peças teatrais) de natureza medieval, lembrando Gil Vicente ao misturar a moral católica aos

costumes dos indígenas, sempre procurando pôr em evidência os extremos Bem e Mal, Anjo e Diabo de maneira maniqueísta, com o Bem sempre derrotando o Mal; e peças poéticas, de caráter sacro e didático, com a simplicidade poética da Idade Média. Vejamos um de seus poemas:

A Santa Inês

Cordeirinha linda, como folga o povo porque vossa vinda lhe dá lume novo!

Cordeirinha santa, de Iesu 1 querida, vossa santa vinda o diabo espanta.

1 Jesus em latim

Por isso vos canta, com prazer, o povo, porque vossa vinda lhe dá lume novo.

Nossa culpa escura fugirá depressa, pois vossa cabeça vem com luz tão pura.

Vossa formosura honra é do povo, porque vossa vinda lhe dá lume novo.

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16 LITERATURA BRASILEIRA I EaD • UFMS Virginal cabeça pola fé cortada, com vossa chegada, já
16 LITERATURA BRASILEIRA I EaD • UFMS Virginal cabeça pola fé cortada, com vossa chegada, já

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Virginal cabeça pola fé cortada, com vossa chegada, já ninguém pereça.

Vinde mui depressa ajudar o povo, pois, com vossa vinda, lhe dais lume novo.

Vós sois, cordeirinha, de Iesu formoso, mas o vosso esposo já vos fez rainha.

Também padeirinha sois de nosso povo, pois, com vossa vinda, lhe dais lume novo.

Conforme se pode perceber, trata-se de um poema em redondilhas menores, versos de cinco sílabas, comum na produção da Idade Média; as estrofes possuem rimas e alguns versos apresentam-se com função de refrões, como em “lhe dá lume novo” e “porque vossa vinda”, acentuando o caráter medieval da construção.

ATIVIDADE 2

O fragmento abaixo pertence à obra do Padre José de Anchieta. A

partir de sua leitura, responda às questões:

Compaixão da Virgem na morte do filho

“Por que ao profundo sono, alma, tu te abandonas, e em pesado dormir, tão fundo assim ressonas? Não te move a aflição dessa mãe toda em pranto, que a morte tão cruel do filho chora tanto?

O seio que de dor amargado esmorece,

ao ver, ali presente, as chagas que padece? Onde a vista pousar, tudo o que é de Jesus, ocorre ao teu olhar vertendo sangue a flux. Olha como, prostrado ante a face do Pai, todo o sangue em suor do corpo se lhe esvai.”

a. Mesmo tendo sido escrito em pleno Renascimento, com seu antropocentrismo e racionalismo marcantes, o trecho mostra uma profunda religiosidade. Comente sobre a temática do poema, levando-se em conta o contexto em que foi produzido.

b. Quais os recursos formais utilizados por Anchieta? Utilize elementos do texto para justificar sua resposta.

Utilize elementos do texto para justificar sua resposta. c. O texto apresenta uma descrição e narração

c. O texto apresenta uma descrição e narração dos sofrimentos causados ao filho de Maria, Jesus Cristo. Compare as imagens criadas pelo poema e a composição escultórica La Pietà, de Michelangelo. Discorra sobre como um mesmo fato pode ser representado artisticamente pelas várias linguagens existentes.

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Fique atento!

Literatura Informativa: tem a finalidade de informar sobre as características físicas da nova terra;

Literatura Formativa: voltada para a catequese dos índios.

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Capítulo II

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Barroco

UFMS Barroco Quinhentismo Capítulo II 19 19 Barroco “Incêndio em mares d’água disfarçado, Rio de neve

“Incêndio em mares d’água disfarçado, Rio de neve em fogo convertido.”

Gregório de Matos

CONTEXTO HISTÓRICO

Alocalização histórica do Barroco se dá entre o Renascimento e o Arca- dismo, dois períodos que apresentam similaridades temáticas e estilísticas, pois ambos tiveram como origem ou matriz a poesia grega e latina da Antiguidade, que defendia o predomínio da clareza e do equilíbrio.

O Barroco, ao contrário, inspirado pelos princípios da Contra- Reforma, notabilizou-se pelo excesso, pela exuberância. No lugar da harmonia Renascentista, o movimento privilegiou a visão conflituosa.

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20 20 LITERATURA BRASILEIRA LITERATURA BRASILEIRA I I EaD • UFMS EaD • UFMS É importante
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LITERATURA BRASILEIRA

LITERATURA BRASILEIRA I

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LITERATURA BRASILEIRA LITERATURA BRASILEIRA I I EaD • UFMS EaD • UFMS

É importante lembrar que, no início do século XVI, Martim

Lutero contestou os dogmas da igreja católica abrindo espaço para o protestantismo. A Contra- Reforma vem a ser a reação da igreja aos valores do protestantismo.

A escultura representada na abertura deste capítulo, de Jesus

Cristo segurando a cruz, mostra-nos a riqueza de detalhes das imagens sacras produzidas no Brasil, principalmente nos estados de Minas Gerais e Bahia, nas primeiras décadas do século XVII.

O estilo Barroco chegou ao Brasil pelas mãos dos colonizadores

portugueses e espanhóis, leigos e religiosos. A igreja católica, de um

modo geral, teve um papel fundamental como mecenas na arte colonial. Segundo apreciação de Afrânio Coutinho, em Introdução à literatura no Brasil, o estudo da época colonial oferece maior interesse para a compreensão da cultura brasileira, e de como passaram a ser definidas as formas de organização social e a constituição de costumes.

Para Coutinho, no Brasil dos séculos XVII e XVIII, a impregnação barroca na cultura brasileira foi forte. Podemos comprovar essa afirmação a partir da imagem exposta abaixo, imagem que nos revela o caráter moralizador e religioso do BARROCO no Brasil.

o caráter moralizador e religioso do BARROCO no Brasil. O termo Barroco surgiu apenas no século

O termo Barroco surgiu apenas no século XVIII, denominação

utilizada pelos classicistas para designar algo irregular, extravagante, confuso, referindo-se ao estilo literário predominante no século XVII. Caracterizado pela ausência de clareza das idéias e pelo uso abusivo de ornamentos, contrapondo-se à sobriedade Renascentista, o Barroco prioriza o excesso de detalhes e o rebuscamento. Lígia Cademartori, em Períodos literários, estabelece uma série de oposições entre a estética Barroca e os preceitos da arte Renascentista. Vejamos o quadro abaixo:

uma série de oposições entre a estética Barroca e os preceitos da arte Renascentista. Vejamos o
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ASPECTOS ESTILÍSTICOS

“A serpe, que adornando várias cores, Com passos mais oblíquos que serenos, Entre belos jardins, prados amenos, É maio errante de torcidas flores”

O poema acima, do autor Manuel Botelho de Oliveira, exprime

emoções intensas e nos dá pistas para entendermos melhor tal estética. Como já foi dito em vários livros teóricos, o Barroco valoriza os apelos cromáticos, as metáforas e antíteses que aparecem dentro de um

trabalho engenhoso. Existe, na verdade, a proliferação de figuras.

De um modo geral, o Barroco utilizou duas vertentes básicas: o cultismo e o conceptismo.

duas vertentes básicas: o cultismo e o conceptismo. A vertente cultista, que tem como principal representante

A vertente cultista, que tem como

principal representante o poeta espanhol Luís de Gôngora, priorizava as metáforas, comparações e analogias. Quando se descreve a beleza física de uma musa, por exemplo, o brilho do sol é associado ao brilho do cabelo da mulher descrita.

A vertente conceptista trabalha com conceitos metafísico-

religiosos e seus argumentos são estruturados por meio das antíteses,

silogismos, o jogo das ideias.

Para saber mais

Aspectos

estilísticos::

O BARROCO NO BRASIL

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No Brasil, tem-se o ano de 1601 como marco inicial do Barroco, quando da publicação de Prosopopéia, de Bento Teixeira. Obra construída em decassílabos heroicos para exaltar o capitão donatário de Pernambuco, Jorge Albuquerque Coelho, que no texto aparece como figura mais valorosa que todos os heróis da mitologia greco- romana juntos. No Brasil houve ecos do Barroco europeu, isto é, os autores repetiam motivos e formas do barroquismo ibérico.

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Na imagem acima, você visualiza um dos doze profetas (1800-1805), estátua esculpida em pedra sabão, disposta nas escadarias da igreja de Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas do Campo, Minas Gerais. No lugar da simetria clássica, a obra valoriza as linhas curvas.

Em 1974, o também baiano Caetano

Veloso, no CD Transa, musicou Tris-

te Bahia. Vale a pena você, aluno da

EAD, ouvir a música.

te Bahia. Vale a pena você, aluno da EAD, ouvir a música. Triste Bahia Caetano Veloso

Triste Bahia Caetano Veloso Gregório de Ma os

Triste Bahia, oh, quão

dessemelhante…

Estás e estou do nosso antigo estado

Pobre te vejo a ti, tu a mim

empenhado

Rico te vejo eu, já tu a mim

abundante

Triste Bahia, oh, quão

dessemelhante

A ti tocou-te a máquina mercante

Quem tua larga barra tem entrado

A mim vem me trocando e tem

trocado

Tanto negócio e tanto negociante

© Editora Gapa / Domínio público

61664847 BRMCA7200154 Ficha técnica da faixa voz: Caetano Veloso

GREGÓRIO DE MATOS GUERRA

Alfredo Bosi, na sua História Concisa da Li- teratura Brasileira, faz um breve comentário de um dos poemas mais notáveis do sátiro baiano. Segundo Bosi, no poema “Triste Bahia”, Gregó- rio se identifica com a sua terra espoliada pelo negociante português, o sagaz “brichote”.

Sua produção literária pode ser dividida a partir de dois gêneros: lírico e satírico. Vamos iniciar o estudo a partir de alguns textos:

Quem foi Gregório de Matos?

Uma das figuras mais expressivas do Barroco no Brasil, Gregório de Matos nasceu em

Salvador em 1633 e morreu (?) – Terminar!

A Maria dos Povos, sua futura esposa

Discreta, e formosíssima Maria, Enquanto estamos vendo a qualquer hora, Em tuas faces a rosada Aurora, Em teus olhos e boca o Sol, e o dia:

Enquanto com gentil descortesia O ar, que fresco Adônis te namora, Te espalha a rica trança voadora, Quando vem passear-te pela fria:

Goza, goza da flor da mocidade, Que o tempo trota a toda ligeireza, E imprime em toda flor sua pisada.

Oh não aguardes, que a madura idade, Te converta essa flor, essa beleza, Em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada.

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O soneto acima expressa algumas especificidades temáticas e

estilísticas típicas da sua lírica amorosa. Na primeira estrofe, o autor descreve a beleza física da musa Maria por meio de adjetivos (discreta, formosa) e de metáforas (rosada Aurora).

A aparente tranquilidade da primeira estrofe passa a ser

quebrada no primeiro verso da terceira estrofe no momento em que o autor recomenda de forma brusca que Maria deve, o quanto antes, aproveitar sua juventude. A sonoridade aparece através das rimas e do uso da aliteração; no verso “Que o tempo trata a toda ligeireza”, por exemplo, percebemos como o recurso da repetição de sons oclusivos - como o [t] - faz lembrar o som do galope do cavalo que transporta o tempo, reforçando na expressividade aquilo que o conteúdo apresenta; no verso seguinte temos a imagem de uma frágil flor que fora acompanhada pelo tempo.

No último verso, a imagem da flor é retomada. Símbolo de beleza, a flor também representa a efemeridade, o que é confirmado com o último verso em expressões como cinza, pó, sombra e nada. Chega-se, assim, ao fim último das coisas vivas: a morte. O texto é trabalhado de forma a iniciar-se com a Aurora, concluindo com o nada, os dois extremos da vida, ou seja, a dualidade que persegue todas as criaturas, vida e morte, e que é marca do período Barroco.

A poesia de Gregório de Matos pode ser didaticamente dividida em quatro tipos básicos:

Lírico - Religioso

Neste tipo de composição o poeta trabalha com a dicotomia pecado-perdão. Geralmente, num primeiro momento, por meio de antíteses e paradoxos, ele se confessa um pecador para em seguida pedir clemência a Deus. Vamos ao texto que ilustra bem essa “malandragem” poética atribuída ao autor:

Meu Deus, que estais pendente de um madeiro

Meu Deus, que estais pendente de um madeiro, Em cuja lei protesto de viver, Em cuja santa lei hei de morrer, Animoso, constante, firme e inteiro:

Neste lance, por ser o derradeiro, Pois vejo a minha vida anoitecer;

É,

A brandura de um Pai, manso Cordeiro.

meu Jesus, a hora de se ver

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Mui grande é o vosso amor e o meu delito; Porém pode ter fim todo o pecar,

E não o vosso amor que é infinito.

Esta razão me obriga a confiar, Que, por mais que pequei, neste conflito Espero em vosso amor de me salvar.

Lírico - Amoroso

A D. Ângela

Anjo no nome, Angélica na cara! Isso é ser flor e Anjo juntamente:

Ser Angélica flor e Anjo florente, Em quem, senão em vós, se uniformara?

Quem vira uma tal flor que a não cortara De verde pé, da rama florescente;

E quem um Anjo vira tão luzente

Que por seu Deus o não idolatrara?

Se pois como Anjo sois dos meus altares, Fôreis o meu Custódio e a minha guarda, Livrara eu de diabólicos azares.

Mas vejo, que por bela, e por galharda, Posto que os Anjos nunca dão pesares, Sois Anjo que me tenta, e não me guarda.

dão pesares, Sois Anjo que me tenta, e não me guarda. Hácomposições,comoveremosnopoemaabaixo,emqueoautorinova

Hácomposições,comoveremosnopoemaabaixo,emqueoautorinova

ao destacar uma certa tropicalidade, ou um sentimento de brasilidade.

Minha rica mulatinha, desvelo e cuidado meu, eu já fora todo teu,

e tu foras toda minha;

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Juro-te, minha vidinha, se acaso minha qués ser, que todo me hei de acender em ser teu amante fino pois por ti já perco o tino,

e ando para morrer.

ATIVIDADE 3

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Leia o soneto de Gregório de Matos para responder as perguntas:

Inconstância dos bens do mundo

Nasce o Sol, e não dura mais que um dia, Depois da Luz se segue a noite escura, Em tristes sombras morre a formosura, Em contínuas tristezas a alegria.

Porém, se acaba o Sol, por que nascia? Se é tão formosa a Luz, por que não dura? Como a beleza assim se transfigura? Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no Sol, e na Luz falte a firmeza, Na formosura não se dê constância,

E na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo enfim pela ignorância,

E tem qualquer dos bens por natureza

A firmeza somente na inconstância.

a. Neste texto, Gregório discorre sobre o quão efêmero são os bens do mundo. Para tanto, utiliza-se de uma linguagem rica em figuras próprias do período Barroco, dentro da chamada linguagem cultista. Identifique tais figuras e comente sobre seu valor para a construção do sentido no poema.

b. Na última estrofe o poeta conclui sua exposição, dizendo que a ignorância está na origem de tudo. Tendo em vista o contexto do homem barroco, comente essa passagem.

Padre Antônio Vieira

Um dos grandes oradores da língua portuguesa, foi pregador e conselheiro de D. João IV, embaixador na França e na Holanda. No Sermão da Sexagésima, uma de suas principais obras, Vieira

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condena os exageros do estilo cultista, que ele considera obscuro, para defender o estilo claro. Vejamos um pequeno trecho do sermão:

“O estilo culto não é escuro, é negro, é negro boçal e muito cerrado. É possível que somos portugueses, e havemos de ouvir um pregador em português e não havemos de entender

o que diz ? ”

Sermão do bom ladrão

“Levarem os reis consigo ao Paraíso ladrões não só não é companhia indecente, mas ação tão gloriosa e verdadeiramente real, que com ela coroou e provou o mesmo Cristo a verdade

do seu reinado, tanto que admitiu na cruz o título de rei. Mas o que vemos praticar em todos os reinos do mundo é tanto pelo contrário que, em vez de os reis levarem consigo os ladrões ao Paraíso, os ladrões são os que levam consigo os reis ao inferno. E se isto é assim, como logo mostrarei com evidência, ninguém me pode estranhar a clareza ou publicidade com que falo e falarei, em matéria que envolve tão soberanos respeitos, antes admirar o silêncio, e condenar a desatenção com que os pregadores dissimulam uma tão necessária doutrina, sendo

a que devera ser mais ouvida e declamada nos púlpitos. Seja,

pois, novo hoje o assunto, que devera ser muito antigo e mui freqüente, o qual eu prosseguirei tanto com maior esperança de produzir algum fruto, quanto vejo enobrecido o auditório presente com a autoridade de tantos ministros de todos os maiores tribunais, sobre cujo conselho e consciência se costumam descarregar as dos reis.”

Fonte: http://objdigital.bn.br/Acervo_Digital/livros_eletronicos/

sermoes_vol_iii.pdf

“’Padre António Vieira foi o português mais fracassado de todos os tempos. Nada do que sonhou se cumpriu, todas as suas profecias se frustraram, todos os seus planos políticos se goraram e toda a sua glória foi póstuma.’Assim definem Filomena Oliveira e Miguel Real, em poucas palavras, o destino de um

homem que se viu, até ao fim dos seus dias, apreciado como orador, apesar de votada a sua obra e o seu papel na sociedade ao esquecimento. Tendo sido o mais famoso pregador religioso português, homem de muitos ofícios – missionário, diplomata, político, orador, escritor –, a sua imaginação social e as suas práticas religiosas, sociais e políticas são indispensáveis à compreensão do

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século XVII. A construção de uma sociedade livre, sem fronteiras, era apregoada através de uma retórica única em que o sermão, os bons exemplos e as boas práticas sociais vigoravam. ‘Padre António Vieira nunca recuou perante os aleijões do seu tempo e nunca deixou de denunciar os poderosos que se alimentavam do trabalho alheio’, acrescentam Filomena Oliveira e Miguel Real.

A denúncia social contra o tratamento dos negros ou a explora- ção e escravização dos índios no Brasil fizeram dele um visionário, aquele que acreditou também na ressurreição de reis, e num Império Mundial sediado em Lisboa. Convicções que o levaram a ter de se confrontar com a Inquisição. Vieira arriscou tudo mas profetizou a utopia, não apenas enquanto quimera, mas como acto realizável.”

Fonte: h p://www.teatro-dmaria.pt/media/pdf/JORNAL_19.pdf

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Capítulo III

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Arcadismo

Casa no campo

Elis Regina

Composição: Zé Rodrix e Tavito

Eu quero uma casa no campo Onde eu possa compor muitos rocks rurais

E tenha somente a certeza

Dos amigos do peito e nada mais Eu quero uma casa no campo

Onde eu possa ficar no tamanho da paz

E tenha somente a certeza

Dos limites do corpo e nada mais Eu quero carneiros e cabras pastando solenes No meu jardim Eu quero o silêncio das línguas cansadas Eu quero a esperança de óculos Meu filho de cuca legal Eu quero plantar e colher com a mão

A pimenta e o sal

Eu quero uma casa no campo Do tamanho ideal, pau-a-pique e sapé Onde eu possa plantar meus amigos Meus discos e livros

E nada mais

CONTEXTO HISTÓRICO

amigos Meus discos e livros E nada mais CONTEXTO HISTÓRICO No século XVIII nascem na Europa

No século XVIII nascem na Europa os princípios do liberalismo propiciados pelos iluministas, que, apoiados pela participação popular, promoveram a Revolução Francesa. Nesse contexto surge o Arcadismo, baseado na cultura Greco – romana, revelando uma série de convenções que deveriam ser seguidas pelos poetas que frequentavam as arcádias. Do ponto de vista estético, os iluministas “pregavam” que a poesia deveria ser nítida, clara e racional como a natureza.

Surgem nessa época as Arcádias, que divulgavam as ideias aristotélicas de que a poesia tinha que imitar o mundo. Apoiada na teoria poética de Aristóteles, a estética neoclássica, Arcadismo, considera o verossímil, o crível, o possível, o que parece verdade.

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LITERATURA BRASILEIRA

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Vamos enumerar as principais convenções utilizadas pelos poetas árcades ou neoclássicos:

Carpe diem: aproveitar o dia, a juventude, com a máxima intensidade, pois o tempo passa com muita rapidez;

Locus amoenus: lugar tranquilo, aprazível, bucólico;

Fugere urbem: os autores recomendam a fuga do espaço urbano, das cidades;

Inutilia truncat: cortar o inútil, valorizar uma linguagem simples, contrária aos exageros cultistas da escola Barroca;

Aurea mediocritas: o meio-termo é de ouro.

CARACTERÍSTICAS

Ao falar do processo estilístico, das questões da linguagem, Alfredo Bosi, em História concisa da literatura brasileira, salienta que se buscava uma linguagem musicalmente fácil, ajustada a temas bucólicos. Para Bosi, a verossimilhança e a simplicidade foram as notas formais prezadas pelos árcades. Busca-se, ao contrário do Barroco, um estilo racional, claro, regular. Os prados, os rios e os montes servem como pano de fundo para s inquietações amorosas de poetas como Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antônio Gonzaga.

Ainda segundo Alfredo Bosi, Gonzaga nada fica a dever aos autores europeus, pois suas liras são exemplos de aureas mediocritas que aparam as demasias do sentimento. Veremos na próxima unidade que esse sentimentalismo, a evasão, o sonho, são algumas tendências básicas do Romantismo.

o sonho, são algumas tendências básicas do Romantismo. Para você lembrar! ARCADISMO ou NEOCLASSICISMO:

Para você lembrar!

ARCADISMO ou NEOCLASSICISMO:

INFLUÊNCIA IDEOLÓGICA: enciclopedismo de Rousseau, Voltaire, Diderot; TENDÊNCIAS GERAIS: imitação dos clássicos; CARACTERÍSTICAS: evocação da vida pastoril, equilíbrio, presença da mitologia greco – latina.

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O ARCADISMO NO BRASIL

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O estudo da literatura brasileira do século XVIII, segundo Luiz

Roncari, no livro Literatura Brasileira, deve levar em consideração

dois fatos: a descoberta do ouro no Brasil e a profunda revolução, no mundo das ideias, vivida pela Europa, fato que convencionou chamar esse período de Século das Luzes. No Brasil, a descoberta do ouro na região de Minas Gerais fez os homens fundarem vilas e cidades. Com o ciclo da mineração no estado de Minas Gerais, a cidade de Vila Rica, hoje Ouro Preto, tornou-se o centro econômico e propiciou

o surgimento de uma sociedade mais culta, mais refinada.

Roncari argumenta que a “exploração do ouro abriu ao homem da

Colônia uma vida muito mais rica em contatos e possibilidades. Seus horizontes se ampliaram, não se restringindo mais aos do mundinho do engenho”. Assim, a obra dos poetas brasileiros do século XVIII, nomes como Tomás Antônio Gonzaga, Cláudio Manuel da Costa

e Alvarenga Peixoto, guarda uma íntima conexão com esse novo

mundo que se configurava, um mundo mais citadino, mais polido.

TOMÁS ANTÔNIO GONZAGA

Filho de um magistrado brasileiro, Gonzaga teve uma educação refinada, formou-se em Direito e escreveu quando jovem o Tratado de Direito Natural. Em 1792 chega a Vila Rica para exercer a procuradoria. Lutou contra a tirania do governador mineiro e seu principal desafeto político, Luis da Cunha Meneses, o fanfarrão minésio, que favorecia a exploração do ouro pelos colonizadores portugueses, principal assunto da sua produção satírica, as Cartas Chilenas, que circulavam no anonimato.

CARTAS CHILENAS:

São doze cartas de autoria de Gonzaga, que usava na época o pseudônimo de Critilo, e eram destinadas ao amigo Doroteu, Cláudio Manuel da Costa. O poeta tenta mostrar, num tom de denúncia, que

o Chile (Minas Gerais) vivia sempre à mercê dos desmandos do

fanfarrão. Observe, no exemplo abaixo, que o fio condutor da carta

é ideológico, uma denúncia social.

Amigo Doroteu, prezado amigo

Abre os olhos, boceja, estende os braços E limpa das pestanas carregadas

O pegajoso humor, que o sono ajunta.

Critilo, o teu Critilo, é quem te chama Ergue a cabeça da engomada fronha,

Acorda, se ouvir queres cousas raras

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MARÍLIA DE DIRCEU:

Considerada a obra mais importante do século XVIII, as liras

de Tomás Antônio Gonzaga revelam, principalmente no seu início,

a contenção e a simplicidade da poesia neoclássica. O leitor se

depara com os chamados lugares-comuns: a paisagem bucólica, a tranquilidade da vida campestre, um pastor que descreve sua pastora convidando-a para viver o dia, o carpe diem, porque a vida se mostra efêmera, passageira.

Ao analisar o poema de Gonzaga, Antonio Candido, no livro Na sala de aula, assinala que há no texto uma limpidez devido à ordem expositiva clara e direta, com raras inversões sintáticas. Segundo Candido, “habituado às neblinas da poesia contemporânea, o leitor fica meio perplexo com este discurso despojado e sem mistério”. Para ele essa simplicidade é fruto de uma contensão elaborada, não de uma tranquilidade real. O trecho a seguir exemplifica bem a limpidez e

a serenidade da poesia de Gonzaga:

LIRA XXXIV

(FRAGMENTO)

Minha bela Marília, tudo passa

A sorte deste mundo é mal segura

Se vem depois dos males a ventura Vem depois dos prazeres a desgraça [ ]

Ornemos nossas testas com as flores

E façamos de feno um brando leito;

Prendamo-nos, Marília , em laço estreito.

ATIVIDADE

LIRA I

Eu, Marília, não sou algum vaqueiro, Que viva de guardar alheio gado; De tosco trato, d’ expressões grosseiro, Dos frios gelos, e dos sóis queimado. Tenho próprio casal, e nele assisto; Dá-me vinho, legume, fruta, azeite; Das brancas ovelhinhas tiro o leite, E mais as finas lãs, de que me visto. Graças, Marília bela, Graças à minha Estrela!

Eu vi o meu semblante numa fonte, Dos anos inda não está cortado:

Os pastores, que habitam este monte,

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Com tal destreza toco a sanfoninha, Que inveja até me tem o próprio Alceste:

Ao som dela concerto a voz celeste; Nem canto letra, que não seja minha, Graças, Marília bela, Graças à minha Estrela!

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a. Que sentimentos o eu-lírico revela nas duas primeiras estrofes do livro Marília de Dirceu?

b. Transcreva dois versos que revelem traços do Bucolismo.

c. Como você observa, o eu-lírico dialoga com sua musa Marília, sua interlocutora. Com base no que você aprendeu nas aulas, quem era Marília e quem era Dirceu?

CLÁUDIO MANUEL DA COSTA

Entre os árcades, segundo Alfredo Bosi (BOSI, p.68), foi o mais acabado poeta neoclássico, dono de uma vasta cultura humanística. Adotou o pseudônimo pastoril de Glauceste Satúrnio e descreveu várias pastoras em geral inacessíveis.

Um dos elementos que diferenciam Cláudio Manuel da Costa de

outros do período árcade é o fato de manter características do estilo barroco, conservando em alguns textos o rebuscamento sintático por

meio de inversões.

Vejamos um exemplo desse procedimento:

Uma fonte aqui houve; eu não me esqueço De estar a ela um dia reclinado; Ali em vale um monte está mudado:

Quanto pode dos anos o progresso!

Transpondo os dois primeiros versos da estrofe para a ordem direta, temos: Houve uma fonte aqui; eu não me esqueço / de estar reclinada a ela um dia.

BASÍLIO DA GAMA

A obra mais conhecida de José Basílio da Gama (Minas Gerais, 1741

– Lisboa, 1795) é o Uraguai, poema épico em que mescla a louvação ao

Marquês de Pombal e o heroísmo indígena, restando aos jesuítas o papel de vilões. A obra é de escrita leve, construída com versos decassílabos

brancos. No poema se narra a história da luta entre os luso-castelhanos

e os missionários dos Sete Povos. Assim se inicia o poema:

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Fumam ainda nas desertas praias Lagos de sangue, tépidos e impuros, Em que ondeiam cadáveres despidos, Pasto de corvos.

Segundo Alfredo Bosi, o texto contém antecipação de figuras românticas, mostrando uma relação mais íntima dos sentidos com o mundo. Observe-se este fragmento:

Sete Povos das Missões ou Missões Orientais Conjunto de sete aldeamentos indígenas fundados por padres

Sete Povos das Missões ou Missões Orientais

Conjunto de sete aldeamentos indígenas fundados por padres jesuítas, localizado a leste do rio Uruguai no extremo sul do Brasil.

Medrosa deixa o ninho a vez primeira Águia, que depois foge à humilde terra, E vai ver mais de perto, no ar vazio, O espaço azul, onde não chega o raio.

Enfim, junto a um ribeiro, que atravessa, Sereno e manso, um curvo e fresco vale, Acharam, os que o campo descobriram, Um cavalo anelante e o peito e as ancas Cobertos de suor e branca espuma.

EaD • UFMS EaD • UFMS Romantismo Quinhentismo Capítulo IV 35 35 Romantismo Exagerado Cazuza
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Capítulo IV

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Romantismo

Exagerado

Cazuza

Composição: Cazuza / Ezequiel Neves / Leoni

Amor da minha vida Daqui até a eternidade Nossos destinos Foram traçados na maternidade Paixão cruel desenfreada Te trago mil rosas roubadas Pra desculpar minhas mentiras Minhas mancadas Exagerado Jogado aos teus pés Eu sou mesmo exagerado Adoro um amor inventado Eu nunca mais vou respirar Se você não me notar

inventado Eu nunca mais vou respirar Se você não me notar Eu posso até morrer de

Eu posso até morrer de fome Se você não me amar E por você eu largo tudo Vou mendigar, roubar, matar Até nas coisas mais banais Pra mim é tudo ou nunca mais Exagerado Jogado aos teus pés Eu sou mesmo exagerado Adoro um amor inventado

CONTEXTO HISTÓRICO

O Romantismo tem início oficial a partir da publicação de Os sofrimentos do jovem Werther, na Alemanha, pelo escritor Goethe, em 1774. Essa obra lança as bases para o sentimentalismo que iria prevalecer em muitas obras posteriores, adentrando o século XIX. Sete anos depois Schiller publica Os salteadores, com sua temática

de volta ao passado histórico, seguindo a esta a publicação da obra Guilherme Tell, personagem tratado como herói nacional na luta pela independência. Outra grande influência para gerações de românticos só surgiria nos primeiros anos do século XIX na Inglaterra. Trata-se de Lord Byron com sua poesia ultrarromântica. Dessa forma, temos a Alemanha e

anos do século XIX na Inglaterra. Trata-se de Lord Byron com sua poesia ultrarromântica. Dessa forma,
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a Inglaterra como as iniciadoras do Romantismo; mas é com a França,

principal divulgadora da estética, que o Romantismo terá seus ecos em terras tupiniquins.

Os últimos anos do século XVIII e os primeiros do século XIX marcam uma série de transformações na Europa e no mundo. É nesse período que temos a Revolução Francesa, influência para outras revoluções. Na América, temos a Independência Americana, as independências dos países sul-americanos, incluindo a do Brasil, em 1822. Ou seja, é um período em que começam a se consolidar os estados nacionais.

CARACTERÍSTICAS

Na imagem que abre o capítulo, temos a reprodução de uma tela de Eugène Delacroix, pintor francês da estética romântica. A obra se chama A liberdade guiando o povo. Perceba como os traços são exagerados, movimentados, não são contidos ou planejados, características que também podemos encontrar em muitos textos desse período – como veremos mais adiante quando falarmos nas características do Romantismo.

O individualismo pode ser considerado o traço mais marcante da

literatura romântica, em oposição ao espírito de exatidão que marca

o período anterior. Como sabemos, o Romantismo legitima o desejo

de liberdade almejado pela classe burguesa. A partir do Romantismo, o homem do ocidente passa a ter noção da sua individualidade e passa a valorizar as emoções e sentimentos. Arnold Hauser destaca que essa atitude de fuga, de evasão, vem a ser um protesto contra a ordem social vigente.

Do ponto de vista da linguagem, o período buscou um estilo mais livre, mais solto, contra os princípios tradicionais predominantes na arte clássica. Podemos lembrar que os Árcades, voltados para a Antiguidade, ficavam presos às convenções formais, aos critérios objetivos de se produzir uma obra de arte. Veja as obras abaixo e tente estabelecer diferenças entre obras que revelam esse antagonismo entre o Clássico e o Romântico:

ROMANTISMO NO BRASIL

Na Europa, o surgimento do romance romântico está atrelado às mudanças ocorridas na primeira metade do século XIX, com o crescimento da classe burguesa e o considerável aumento do público leitor.

A vinda da Família Real Portuguesa para o Brasil, ante a iminência

da invasão de Lisboa pelas tropas de Napoleão Bonaparte, possibilitou mudanças no panorama sócio-cultural da então colônia.

EaD • UFMS EaD • UFMS Romantismo Quinhentismo 37 37 A transferência da corte no
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A transferência da corte no ano de 1808 alterou o nosso cenário sócio-cultural. A abertura dos portos, a criação dos museus viabilizava a criação de uma identidade cultural que ainda não tínhamos. Brasileiros fundaram em Paris, em 1836, a revista Niterói, que buscava promover a cultura brasileira. Para Antonio Candido, o Romantismo brasileiro foi, antes de tudo, escrever sobre as coisas locais.

A obra do poeta maranhense Gonçalves Dias, autor da singela Canção do Exílio e de I Juca Pirama, mostra bem esse sentimento de um nacionalismo ufanista, no qual o autor descreve uma natureza idealizada e configura o índio brasileiro como herói. Para Candido, a obra de Gonçalves Dias foi, no Brasil, depois dos árcades, a primeira de elevada qualidade estética. Vamos nos aproximar, no próximo tópico, das tendências temáticas e estilísticas desse autor.

Em seguida, levando em conta a produção da poesia romântica no Brasil, abordaremos questões ligadas à obra do poeta ultrarromântico Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1831-1852), escritor byroniano morto aos vinte anos, leitor precoce que demonstra em seus poemas, além da de Byron, uma forte influência de Shakespeare e de Musset.

Finalmente, ainda tratando da poesia romântica no Brasil, vamos conhecer um pouco sobre a poesia de Antônio de Castro Alves (1847- 1871), poeta que revela uma ampla visão social.

A POESIA ROMÂNTICA E SEUS AUTORES

ANTÔNIO GONÇALVES DIAS

( Caxias-Maranhão, 1823 / litoral maranhense, no naufrágio do “Ville de Boulogne”, 1864 )

Considerado pela crítica literária como o criador da poesia nacional, ao lado de Gonçalves de Magalhães, não se limitou apenas ao indianismo. A Canção do Exílio, sua obra mais conhecida nas antologias e nos livros didáticos, expressa sentimentos interiores e subjetivos do poeta sobre o mundo que o cerca. Como já dissemos antes, o subjetivismo é uma característica marcante do Romantismo de um modo geral.

Anatol Rosenfeld assinala que o que vale ”é a subjetividade do autor, ao lado de um eventual efeito de fascinação, um mágico encanto emocional que poderá prender em suas malhas a alma do receptor”. Leia atentamente o texto e perceba o contraste entre o (Brasil) e o aqui (Portugal), advérbios que dão ênfase ao sentimento de saudade da pátria distante, representada pelos elementos da fauna e flora.

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CANÇÃO DO EXÍLIO

Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá; As aves, que aqui gorjeiam, Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas, Nossas várzeas têm mais flores, Nossos bosques têm mais vida, Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite, Mais prazer encontro eu lá; Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores, Que tais não encontro eu cá; Em cismar - sozinho, à noite, Mais prazer encontro eu lá; Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra, Sem que volte para lá; Sem que desfrute os primores Que não encontro por cá; Sem qu’inda aviste as palmeiras, Onde canta o Sabiá.

Coimbra, julho 1843

O fragmento reproduzido abaixo, I Juca Pirama (aquele que deve morrer, em língua tupi) tem como temática central a saga de um índio tupi, último descendente da sua tribo, capturado e humilhado pelos inimigos, conforme revela a primeira parte do texto, por ter sido libertado por um cacique Timbira para cuidar do pai. Indignado com tal atitude, o velho pai exige o retorno do filho. No final, o jovem tupi, num ato de bravura, enfrenta e vence os inimigos timbiras.

Que tal fazer uma leitura em voz alta para perceber no poema os efeitos sonoros, o ritmo, as aliterações, o trabalho com a linguagem.

Gonçalves Dias – I Juca Pirama (canto I – Trecho)

No meio das tabas de amenos verdores, Cercadas de troncos – cobertos de flores, Alteiam-se os tetos d’altiva nação;

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Romantismo

Quinhentismo

São muitos seus filhos, nos ânimos fortes, Temíveis na guerra, que em densas coortes Assombram das matas a imensa extensão. São rudos, severos, sedentos de glória,

prélios incitam, já cantam vitória,

meigos atendem à voz do cantor:

São todos Timbiras, guerreiros valentes! Seu nome lá voa na boca das gentes, Condão de prodígios, de glória e terror!

As tribos vizinhas, sem forças, sem brio, As armas quebrando, lançando-as ao rio,

O incenso aspiraram dos seus maracás:

Medrosos das guerras que os fortes acendem,

Custosos tributos ignavos lá rendem, Aos duros guerreiros sujeitos na paz.

ATIVIDADE

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a. Procure no dicionário o significado da palavra exílio. Por que o poeta deu esse nome se ele não estava exilado?

b. Que características do Romantismo podemos notar nos versos de Gonçalves Dias?

c. Você já deve ter notado que a letra do Hino Nacional, composta por Osório Duque Estrada, dialoga com o poema de Gonçalves Dias, isto é, estabelece uma relação intertextual. Transcreva os versos do hino que nos remetem ao poema lido.

MANUEL ANTÔNIO ÁLVARES DE AZEVEDO

(São Paulo, 1831 – Rio de Janeiro, 1852)

Cursou humanidades no colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, em 1847. Foi aluno da Faculdade de Direito do Largo São Francisco em São Paulo. Teve uma vida boêmia, tornando-se um dos fundadores da sociedade epicureia (notívagos, amantes do vinho e das leituras de Byron).

Lira dos Vinte anos, sua obra mais importante, mostra duas fases distintas. De um lado, encontramos um poeta idealista, cantor das emoções individuais, em que o escritor manifesta forte vivência interior. Cria em torno de si uma atmosfera de presságios sempre dentro de uma atmosfera melancólica, um dos traços principais da poesia byroniana .

uma atmosfera de presságios sempre dentro de uma atmosfera melancólica, um dos traços principais da poesia
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No soneto abaixo, Pálida à luz, o eu lírico descreve, na primeira estrofe, uma mulher semimorta ( embalsamada) que, aos poucos, gradativamen- te, esboça movimentos e passa a ser vista dentro do plano erótico. No plano erótico, contudo, a única realidade é a virgem que ele sonhara:

Pálida à luz da lâmpada sombria, Sobre o leito de flores reclinada, Como a lua por noite embalsamada, Entre as nuvens do amor ela dormia!

Era a virgem do mar, na escuma fria Pela maré das águas embalada! Era um anjo entre nuvens d’alvorada Que em sonhos se banhava e se esquecia!

Era mais bela! o seio palpitando Negros olhos as pálpebras abrindo Formas nuas no leito resvalando

Não te rias de mim, meu anjo lindo! Por ti - as noites eu velei chorando, Por ti - nos sonhos morrerei sorrindo

Do outro lado, temos um poeta sarcástico, gozador,

Romantismo,

Cavalo:

que

como

inova

ao

fazer

paródia

no

do

próprio

podemos

observar

poema

Namoro

a

Eu moro em Catumbi. Mas a desgraça Que rege minha vida malfadada, Pôs lá no fim da rua do Catete

A minha Dulcinéia namorada.

Alugo (três mil-réis) por uma tarde Um cavalo de trote (que esparrela!)

Só para erguer meus olhos suspirando

À minha namorada na janela

Todo o meu ordenado vai-se em flores

E em lindas folhas de papel bordado,

Onde eu escrevo trêmulo, amoroso,

Algum verso bonito

mas furtado

Morro pela menina, junto dela Nem ouso suspirar de acanhamento Se ela quisesse eu acabava a história

Como toda a Comédia- em casamento

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Ontem tinha chovido

Eu ia a trote inglês ardendo em chama, Mas lá vai senão quando uma carroça Minhas roupas tafues encheu de lama

Que desgraça!

Eu não desanimei! Se Dom Quixote No Rossinante erguendo a larga espada Nunca voltou de medo, eu, mais valente, Fui mesmo sujo ver a namorada

Mas eis que no passar pelo sobrado, Onde habita nas lojas minha bela, Por ver-me tão lodoso ela irritada Bateu-me sobre as ventas a janela

O cavalo ignorante de namoros

Entre dentes, tomou a bofetada, Arrepia-se, pula, e dá-me um tombo Com pernas para o ar, sobre a calçada

Dei ao diabo os namoros. Escovado Meu chapéu que sofrera no pagode, Dei de pernas corrido e cabisbaixo E berrando de raiva como um bode.

Circunstância agravante. A calça inglesa Rasgou-se no cair, de meio a meio,

O sangue pelas ventas me corria

Em paga do amoroso devaneio!

Noite na taverna

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Além da poesia, Álvares de Azevedo escreveu o conjunto de contos intitulado Noite na taverna e a peça Macário. O que impressiona nesse poeta de apenas vinte anos é a sua agilidade verbal. No livro de contos Noite na Taverna, temos uma sequência de narrativas monstruosas em que Solfieri, Bertram, Gennaro, Claudius Herman e Johann, libertinos que frequentam uma pequena taverna, contam, cada qual por sua vez, histórias macabras.

Já em Macário, a história é a de um jovem estudante que, em meio

a alucinações ou sonhos, encontra-se com um estranho viajante,

que se revela ser satã. Após acordar, Macário percebe as pistas que revelam não ter sido um sonho. Em seguida, Satã leva Macário até um local onde ocorrem orgias regadas a muito álcool, local que lembra

o cenário de Noite na taverna.

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Noite na taverna mistura as narrativas daquele grupo de amigos que se encontra reunido numa taverna, bebendo vinho e contando suas estranhas aventuras amorosas. As narrativas dos jovens são misturadas com a própria narrativa que os reúne na taverna, como se não houvesse separação entre o tempo passado e o presente. A narrativa tem um desfecho surpreendente. Estão presentes histórias de traições, incestos, cemitérios, em meio à melancolia e morbidez características da produção dos segundos românticos.

Há quem diga que Noite na taverna seja uma espécie de continuação de Macário, em razão do desfecho deste último e encaixe com o início daquele. Na edição da Francisco Alves de Noite na taverna é inserido o final de Macário antes da narrativa propriamente dita, o que acentua o caráter de continuidade entre as duas obras. Vejamos:

“MACÁRIO – Onde me levas?

SATAN – A uma orgia. Vais ler uma página da vida, cheia de sangue e de vinho – que importa?

MACÁRIO – Eu vejo-os. É uma sala fumacenta. À roda da mesa

estão sentados cinco homens ébrios. Os mais revolvem-se no chão. Dormem ali mulheres desgrenhadas, umas lívidas, outras

vermelhas

Que noite!”

E como começa Noite na taverna:

“How now, Horatio? You tremble, and look pale. Is not this something more than fantasy? What think you on’t? (E agora, Horácio? Você treme e parece pálido. Não seria isso algo mais do que uma fantasia? O que o faz pensar que não?)”

Hamlet. Ato I. Shakespeare

Job Stern

Capítulo I – Uma noite do século

Bebamos! Nem um canto de saudade! Morrem na embriaguez da vida as dores! Que importam sonhos, ilusões desfeitas? Fenecem como as flores! José Bonifácio

— Silêncio, moços! Acabai com essas cantilenas horríveis! Não vedes que as mulheres dormem ébrias, macilentas como defuntos? Não sentis que o sono da embriaguez pesa negro naquelas pálpebras onde a beleza sigilou os olhares da volúpia?

(Trecho de Noite na taverna)

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Leia agora, o conto narrado por Solfieri:

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Capítulo II - SOLFIERI ( Baiano, observe os trechos assinalados com a interrogação, acho que está faltando um termo. )

Yet one kiss on your pale clay And those lips once so warm beart! my bears! my bears! BYRON – Cain

Sabeis-lo. Roma é a cidade do fanatismo e da perdição: na alcova do sacerdote dorme a gosto a amásia, no leito da vendida se pendura o Crucifixo lívido. É um requintar de gozo blasfemo que mescla o sacrilégio, a convulsão do amor, o beijo lascivo a embriaguez da crença! Era em Roma. Uma noite a lua ia bela como vai ela no verão por aquele céu morno, o fresco das águas se exalava como um suspiro do leito do Tibre. A noite ia bela. Eu passeava a sós pela ponte de ( ? ). As luzes se apagaram uma por uma nos palácios, as ruas se faziam ermas, e a lua de sonolenta se escondia no leito de nuvens. Uma sombra de mulher apareceu numa janela solitária e escura. Era uma forma branca. - A face daquela mulher era como a de uma estátua pálida ( ? ) a lua. Pelas faces dela, como gotas de uma taça caída, rolavam fios de lágrimas.

Eu me encostei na aresta de um palácio. A visão desapareceu no escuro da janela e daí um canto se derramava. Não era só uma voz melodiosa: havia naquele cantar um como choro de frenesi, um como gemer de insânia: aquela voz era sombria como a do vento à noite nos cemitérios cantando a nênia das flores murchas da morte.

Depois o canto calou-se. A mulher apareceu na porta. Parecia esprei- tar se havia alguém nas ruas. Não viu a ninguém - saiu. Eu segui-a.

A noite ia cada vez mais alta: a lua sumira-se no céu, e a chuva

caía a gotas pesadas: apenas eu sentia nas faces caírem-me grossas lágrimas de água, como sobre um túmulo prantos de órfão.

Andamos longo tempo pelo labirinto das ruas: enfim ela parou:

estávamos num campo.

Aqui, ali, além eram cruzes que se erguiam de entre o ervaçal. Ela ajoelhou-se. Parecia soluçar: em torno dela passavam as aves da noite.

Não sei se adormeci: sei apenas que quando amanheceu achei-me a sós no cemitério. Contudo a criatura pálida não fora uma ilusão - as urzes, as cicutas do campo santo estavam quebradas junto a uma cruz.

O frio da noite, aquele sono dormido, a chuva causaram-me

uma febre. No meu delírio passava e repassava aquela brancura de mulher, gemiam aqueles soluços e todo aquele devaneio se perdia num canto suavíssimo

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LITERATURA BRASILEIRA I

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Um ano depois voltei a Roma. Nos beijos das mulheres nada me saciava: no sono da saciedade me vinha aquela visão.

Uma noite, e após uma orgia, eu deixara dormida no leito dela a condessa Bárbara. Dei um último olhar àquela forma nua e adormecida com a febre nas faces e a lascívia nos lábios úmidos, gemendo ainda nos sonhos como na agonia voluptuosa do amor. - Saí.- Não sei se a noite era límpida ou negra - sei apenas que a cabeça me escaldava de embriaguez. As taças tinham ficado vazias na mesa: nos lábios daquela criatura eu bebera até a última gota o vinho do deleite.

Quando dei acordo de mim estava num lugar escuro: as estrelas passavam seus raios brancos entre as vidraças de um templo. As luzes de quatro círios batiam num caixão entreaberto. Abri-o: era o de uma moça. Aquele branco da mortalha, as grinaldas da morte na

fronte dela, naquela tez lívida e embaçada, o vidrento dos olhos mal

e aqueles traços todos me lembraram

uma idéia perdida. - Era o anjo do cemitério? Cerrei as portas da igreja, que, ignoro por que, eu achara abertas. Tomei o cadáver nos meus braços para fora do caixão. Pesava como chumbo.

Sabeis a historia de Maria Stuart degolada e o algoz, “do cadáver sem cabeça e o homem sem coração” como a conta Brantôme? Foi uma idéia singular a que eu tive. Tomei-a no colo. Preguei-lhe mil beijos nos lábios. Ela era bela assim: rasguei-lhe o sudário, despi- lhe o véu e a capela como o noivo as despe a noiva. Era uma forma puríssima. Meus sonhos nunca me tinham evocado uma estátua tão perfeita. Era mesmo uma estátua: tão branca era ela. A luz dos tocheiros dava-lhe aquela palidez de âmbar que lustra os mármores antigos. O gozo foi fervoroso - cevei em perdição aquela vigília. A madrugada passava já froixa nas janelas. Àquele calor de meu peito, à febre de meus lábios, à convulsão de meu amor, a donzela pálida parecia reanimar-se. Súbito abriu os olhos empanados. - Luz sombria alumiou-os como a de uma estrela entre névoa -, apertou-me em seus braços, um suspiro ondeou-lhe nos beiços azulados. Não era já a um desmaio. No aperto daquele abraço havia contudo alguma coisa de horrível. O leito de lájea onde eu passara uma hora de embriaguez me resfriava. Pude a custo soltar-me daquele aperto do peito dela. Nesse instante ela acordou…

apertados

Era uma defunta!

Nunca ouvistes falar da catalepsia? É um pesadelo horrível aquele que gira ao acordado que emparedam num sepulcro; sonho gelado em que sentem-se os membros tolhidos, e as faces banhadas de lágrimas alheias sem poder revelar a vida!

A moça revivia a pouco e pouco. Ao acordar desmaiara. Embucei- me na capa e tomei-a nos braços coberta com seu sudário como uma criança. Ao aproximar-me da porta topei num corpo; abaixei-me - olhei: era algum coveiro do cemitério da igreja que aí dormira de ébrio, esquecido de fechar a porta.

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Saí. - Ao passar a praça encontrei uma patrulha. - Que levas aí?

A noite era muito alta - talvez me cressem um ladrão.

— É minha mulher que vai desmaiada.

— Uma mulher! Mas essa roupa branca e longa? Serás acaso roubador de cadáveres?

Um guarda aproximou-se. Tocou-lhe a fronte - era fria.

—É uma defunta.

Cheguei meus lábios aos dela. Senti um bafejo morno. - Era a vida ainda.

—Vede, disse eu.

O guarda chegou-lhe os lábios: os beiços ásperos roçaram pelos

o punhal já estava nu

da moça. Se eu sentisse o estalar de um beijo em minhas mãos frias.

— Boa noite, moço: podes seguir, disse ele.

Caminhei. - Estava cansado. Custava a carregar o meu fardo: e eu sentia que a moça ia despertar. Temeroso de que ouvissem-na gritar

e acudissem, corri com mais esforço.

Quando eu passei a porta ela acordou. O primeiro som que lhe saiu da boca foi um grito de medo.

Mal eu fechara a porta, bateram nela. Era um bando de libertinos meus companheiros que voltavam da orgia. Reclamaram que abrisse.

Fechei a moça no meu quarto - e abri.

Meia hora depois eu os deixava na sala bebendo ainda.

A turvação da embriaguez fez que não notassem minha ausência.

Quando entrei no quarto da moça vi-a erguida. Ria de um rir convulso como a insânia, e frio como a folha de uma espada. Trespassava de dor o ouvi-la.

Dois dias e duas noites levou ela de febre assim. Não houve como sanar-lhe aquele delírio, nem o rir do frenesi. Morreu depois de duas noites e dois dias de delírio.

À noite saí - fui ter com um estatuário que trabalhava perfeitamente

em cera - e paguei-lhe uma estátua dessa virgem.

Quando o escultor saiu, levantei os tijolos de mármore do meu quarto, e com as mãos cavei aí um túmulo. - Tomei-a então pela última vez nos braços, apertei-a a meu peito muda e fria, beijei-a e cobri-a adormecida do sono eterno com o lençol de seu leito. - Fechei-a no seu túmulo e estendi meu leito sobre ele.

Um ano - noite a noite - dormi sobre as lajes que a cobriam. Um dia

o estatuário me trouxe a sua obra. - Paguei-lha e paguei o segredo.

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Não te lembras, Bertram, de uma forma branca de mulher que entreviste pelo véu do meu cortinado? Não te lembras que eu te respondi que era uma virgem que dormia?

— E quem era essa mulher, Solfieri?

— Quem era? Seu nome?

— Quem se importa com uma palavra quando sente que o vinho

lhe queima assaz os lábios? Quem pergunta o nome da prostituta com quem dormia e que sentiu morrer a seus beijos, quando nem há dele mister por escrever-lho na lousa?

Solfieri encheu uma taça - Bebeu-a. - Ia erguer-se da mesa quando um dos convivas tomou-o pelo braço.

— Solfieri, não é um conto isso tudo?

— Pelo inferno que não! Por meu pai que era conde e bandido,

por minha mãe que era a bela Messalina das ruas - pela perdição que não! Desde que eu próprio calquei aquela mulher com meus pés na sua cova de terra - eu vô-lo juro - guardei-lhe como amuleto a capela de defunta. - Ei-la!

Abriu a camisa, e viram-lhe ao pescoço uma grinalda de flores mirradas.

—Vede-la murcha e seca como o crânio dela!

ATIVIDADE

Álvares de Azevedo é considerado nosso maior poeta da segunda geração romântica. Entre suas obras, na poesia destaca-se a Lira dos vinte anos. Leia o poema abaixo, transcrito dessa obra, para responder às questões propostas.

Lembrança de morrer

Quando em meu peito rebentar-se a fibra Que o espírito enlaça à dor vivente, Não derramem por mim nem uma lágrima Em pálpebra demente.

E nem desfolhem na matéria impura

A flor do vale que adormece ao vento:

Não quero que uma nota de alegria Se cale por meu triste passamento.

Eu deixo a vida como deixa o tédio Do deserto, o poento caminheiro

– Como as horas de um longo pesadelo

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Que se desfaz ao dobre de um sineiro.

] [

Só levo uma saudade – é dessas sombras Que eu sentia velar nas noites minhas De ti, ó minha mãe, pobre coitada Que por minha tristeza te definhas!

] [

Se

uma lágrima as pálpebras me inunda,

Se

um suspiro nos seios treme ainda

É pela virgem que sonhei

que nunca

Aos lábios me encostou a face linda!

] [ Beijarei a verdade santa e nua,

Verei cristalizar-se o sonho amigo

Ó

Filha do céu, eu vou amar contigo!

minha virgem dos errantes sonhos,

Descansem o meu leito solitário Na floresta dos homens esquecida,

À

– Foi poeta – sonhou – e amou na vida.

sombra de uma cruz, e escrevam nela:

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Quais as principais características formais que podemos apontar neste poema? Justifique com passagens do texto.

Na quinta estrofe do texto aparece um dos motivos correntes da poesia da segunda geração romântica. Comente sobre ele.

O título do texto, acompanhado pela leitura do poema, lembra

uma longa carta de despedida. Apoiado nisso, e pela última estrofe apresentada, disserte brevemente a respeito da morte e de sua importância para a literatura romântica.

CASIMIRO JOSÉ MARQUES DE ABREU

(1839, Barra de São João – RJ/ 1860, Barra de São João, RJ)

Ao lado de Álvares de Azevedo, é um dos principais representantes da fase byroniana. Como o escritor de Lira dos vinte anos, teve uma morte prematura, vítima de tuberculose. As imagens da infância, a religiosidade cristã, o culto à pátria e a idealização do amor são os principais núcleos temáticos da sua poesia lírica. No poema abaixo, Meus oito anos, que já foi alvo de diversas paródias, o autor transfigura poeticamente a vida provinciana, que girava em torno das brincadeiras infantis:

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Meus oito anos

Oh! Souvenirs! Printemps! Aurores! V. Hugo.

Oh! que saudades que tenho Da aurora da minha vida, Da minha infância querida Que os anos não trazem mais!

Que amor, que sonhos, que flores. Naquelas tardes fagueiras

À

Debaixo dos laranjais!

sombra das bananeiras,

ATIVIDADE

Doze Anos

Chico Buarque Composição: Chico Buarque

Ai, que saudades que eu tenho Dos meus doze anos Que saudade ingrata Dar banda por aí Fazendo grandes planos

E chutando lata

Trocando figurinha Matando passarinho Colecionando minhoca Jogando muito botão Rodopiando pião Fazendo troca-troca

Ai, que saudades que eu tenho Duma travessura Um futebol de rua Sair pulando muro Olhando fechadura

E vendo mulher nua

Comendo fruta no pé Chupando picolé

Pé-de-moleque, paçoca

E disputando troféu

Guerra de pipa no céu Concurso de pipoca

Fonte: h p://letras.terra.com.br/chico-buarque/45127/

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ANTÔNIO FREDERICO DE CASTRO ALVES

(Curralinho, atualmente Castro Alves, Bahia, 1847- Salvador, 1871)

Considerado pela crítica a expressão maior do Romantismo Condoreiro ou Hugoano, na medida em que lutou por causas sociais como a Proclamação da República e a Abolição dos escravos, assuntos diretamente ligados ao contexto sócio-político da época. No entanto, mesmo tendo um caráter de contestação, de luta política, não podemos considerar panfletária sua poesia, que tende a concentrar-se em imagens grandiosas por meio de hipérboles, metáfora e comparações, como podemos perceber no trecho a seguir do poema Vozes d`África:

Deus! ó Deus! onde estás que não respondes? Em que mundo, em qu’estrela tu t’escondes Embuçado nos céus? Há dois mil anos te mandei meu grito, Que embalde desde então corre o infinito Onde estás, Senhor Deus?

Qual Prometeu tu me amarraste um dia Do deserto na rubra penedia

— Infinito: galé!

Por abutre — me deste o sol candente,

E a terra de Suez — foi a corrente

Que me ligaste ao pé

O cavalo estafado do Beduíno

Sob a vergasta tomba ressupino

E morre no areal.

Minha garupa sangra, a dor poreja, Quando o chicote do simoun dardeja

O teu braço eternal.

A PROSA ROMÂNTICA BRASILEIRA

O romance romântico amplia a abrangência do público leitor,

ávido por histórias envolventes, de simples escrita, trama e leitura agradável. São comuns neste período as tramas urbanas, tendo a classe média como personagem corrente em várias obras. Alfredo Bosi afirma em História concisa da literatura brasileira que “o romance foi, a partir do Romantismo, um excelente índice dos interesses da sociedade culta e semiculta do Ocidente. A sua relevância no século XIX se compararia, hoje, à do cinema e à da televisão.” Comparação fundamentada inclusive pelo público envolvido, pois tanto a televisão, e aqui principalmente a telenovela brasileira, como o romance romântico são responsáveis por um número elevado de pessoas consumidoras das referidas produções. Nessa

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época, alguns romances, como a Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo e Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida, antes de saírem no formato do livro, foram publicados em folhetim.

JOAQUIM MANUEL DE MACEDO

( ( ? ) falta o nome do autor de O filho do pescador)

Em 1844 foi publicada a obra A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo, considerada o primeiro romance e primeiro best-seller brasileiro, numa época em que formávamos o nosso público leitor.

Antes dela, porém, fora publicado o romance O filho do pescador, de ( ?

autor), em 1843, o que colocaria este último como cronologicamente

o

primeiro. No entanto é com o texto de Macedo que o romantismo

brasileiro em prosa apresentará as características que viriam marcar as demais produções do período.

JoaquimManueldeMacedo nasceu no Rio de Janeiro em 1820 e, no mesmo ano em que se forma em Medicina, publica seu primeiro e mais conhecido romance, pelo qual é comumente lembrado. Sua prosa representa a classe

média da corte, com uma linguagem simples e fluida, representando os costumes da sociedade carioca. Suas tramas são fáceis, pequenas intrigas amorosas, um pouco de mistério, com a presença do final feliz,

marcado pela vitória do amor. Outras obras do autor são os romances:

O moço louro (1845); Os dois amores (1848); Rosa (1849); Vicentina (1853); O

FOLHETIM

Seção especial dentro de um periódico (jornal ou revista). Nele, como nas telenovelas atuais, o enredo é contado em partes, através de pequenos capítulos que entretinham o leitor. Uma das técnicas folhetinescas mais utilizadas era suspender a narrativa num momento instigante da história. O folhetim surgiu na França, nas primeiras décadas do século XIX.

surgiu na França, nas primeiras décadas do século XIX. forasteiro (1855), entre outros romances e peças

forasteiro (1855), entre outros romances

e peças teatrais.

O romance romântico A Moreninha, de Macedo, narra a vida do jovem Augusto, rapaz que aposta com amigos, inclusive com Felipe, que não se apaixonaria por mulher alguma.

Escrito na forma de folhetim, tem como ponto de partida essa questão da aposta. Augusto, que quando criança jurou amar eternamente uma menina, é estudante e colega de Felipe, cuja irmã é Carolina.

Quando no final Augusto e Carolina ficam noivos, ela primeiro manda-o casar-se com sua amada de infância e depois revela ser ela própria esta amada até então não revelada.

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Como se vê, Augusto, o protótipo do herói romântico, luta para ter o amor de Carolina, para isso ele precisa vencer obstáculos.

Os romances de folhetim, difundidos na Europa e no Brasil na primeira metade do século XIX, desenrolam-se a partir das dificuldades enfrentadas pelo herói. As novelas de folhetim criaram formas, modelos de entretenimento que hoje são incorporados pelas narrativas seriadas, minisséries, novelas, estratégias de entretenimento que pertencem ao mundo midiático em que vivemos. Uma das formas mais utilizadas pela novela atual, influência das narrativas folhetinescas, é o momento em que a narrativa é interrompida dentro de um momento de tensão, o chamado clímax que prende o telespectador.

Eis um fragmento retirado do livro A Moreninha, uma parte da trama puramente ficcional, que mostra os embates da paixão tão comuns às narrativas românticas.

(1970 - Brasil / São Paulo - 96 minutos - Comédia – Colorido). Direção, roteiro

(1970 - Brasil / São Paulo - 96 minutos - Comédia – Colorido). Direção, roteiro e montagem: Glauco Mirko Laurelli) – Filme baseado no romance de Joaquim Manuel de Macedo, com Sônia Braga e David Cardoso.

A MORENINHA

Capítulo I – Aposta imprudente (trecho)

“— Que vaidoso!

te digo eu, exclamou Filipe.

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— Ora, esta não é má! Então vocês querem governar o meu coração?

— Não; porém eu torno a afirmar que tu amarás uma de minhas primas durante todo o tempo que for da vontade dela.

— Que mimos de amor que são as primas deste senhor!

— Eu te mostrarei.

— Juro que não.

— Aposto que sim.

— Aposto que não.

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— Papel e tinta, escreve-se a aposta.

— Mas tu me dás muita vantagem e eu rejeitarei a menor. Tens

apenas duas primas: é um número de feiticeiras muito limitado. Não sejam só elas as únicas magas que em teu favor invoquem para me encantar. Meus sentimentos ofendem, talvez, a vaidade de todas as belas e todas as belas, pois tenham o direito de te fazer ganhar a aposta, meu valente campeão do amor constante!

— Como quiseres, mas escreve.

— E quem perder?

— Pagará a todos nós um almoço no Pharoux, disse Fabrício.

— Qual almoço! Acudiu Leopoldo. Pagará um camarote no

primeiro drama novo que representar o nosso João Caetano.

— Nem almoço nem camarote, concluiu Filipe; se perderes,

escreverás a história da tua derrota, e se ganhares, escreverei o triunfo da tua inconstância.

Aqui você visualiza a personagem sinhá moça filha do coronel Ferreira , o Barão de

Aqui você visualiza a personagem sinhá moça filha do coronel Ferreira , o Barão de Araruna e ferrenho escravocrata. Numa viagem de trem, quando volta de seus estudos, sinhá moça conhece o jovem Dr. Rodolfo Fontes, um ativo abolicionista republicano, filho do também abolicionista Dr. Fontes. A partir daí o casal enfrentará uma série de obstáculos que mostram confluências entre as narrativas folhetinescas e as telenovelas atuais.

— Bem, escrever-se-á um romance, e um de nós, o infe- liz, será o autor.

Augusto escreveu primeira,

segunda e terceira vez o termo da aposta, mas depois de longa

e vigorosa discussão, em que

qualquer dos quatro falou duas vezes sobre a matéria, uma para responder e dez ou doze pela ordem, depois de se

oferecerem quinze emendas e vinte artigos aditivos, caiu tudo por grande maioria, e, entre bravos, apoiados e aplausos, foi aprovado, salvo a redação,

o seguinte termo:

‘No dia 20 de julho de 18

na sala parlamentar da casa n.°

, sendo testemu-

nhas os estudantes Fabrício e Leopoldo, acordaram Filipe e Augusto, também estudantes, que, se até o dia 20 de agosto do corrente ano o segundo acordante tiver amado a uma só mulher durante quinze dias ou mais, será obrigado a

da rua de

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escrever um romance em que tal acontecimento confesse; e, no caso

contrário, igual pena sofrerá o primeiro acordante. Sala parlamentar,

20 de julho de 18

Salva a redação.’

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Como testemunhas: Fabrício e Leopoldo.

E eram oito horas da noite quando se levantou a sessão.”

Epílogo

“A chegada de Filipe, Fabrício e Leopoldo veio dar ainda mais viveza ao prazer que reinava na gruta. O projeto de casamento de Augusto e D. Carolina não podia ser um mistério para eles, tendo sido, como foi, elaborado por Filipe, de acordo com o pai do noivo, que fizera a proposta, e com o velho amigo, que ainda no dia antecedente viera concluir os ajustes com a senhora D. Ana; e, portanto, o tempo que se gastaria em explicações, passou-se em abraços.

— Muito bem! Muito bem!

Disse por fim Filipe; quem pôs

o fogo ao pé da pólvora fui

eu, eu que obriguei Augusto

a vir passar o dia de Sant’Ana conosco.

— Então está arrependido?

— Não, por certo, apesar de

me roubares minha irmã. Finalmente para este tesouro sempre teria de haver um ladrão: ainda bem que foste tu que o ganhaste.

— Mas, meu maninho, ele perdeu ganhando

— Como?

— Estamos no dia 20 de agosto:

um mês!

— É verdade! Um mês exclamou Filipe.

— Um mês!

e Leopoldo.

gritaram Fabrício

(1º de maio de 1829, Mecejana, CE – 12 de dezembro de 1877, Rio de

(1º de maio de 1829, Mecejana, CE – 12 de dezembro de 1877, Rio de Janeiro).

Filho de senador do Império, foi deputado e Ministro da Justiça. Grande proprietário de terras, era a favor da escravatura. Defendia o casamento do branco europeu com o índio brasileiro para a formação de uma identidade nacional, como vemos em Iracema.

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— Eu não entendo isto! Disse a senhora D. Ana.

— Minha boa avó, acudiu a noiva, isto quer dizer que, finalmente, está presa a borboleta.

— Minha boa avó, exclamou Filipe, isto quer dizer que Augusto deve-me um romance.

— Já está pronto, respondeu o noivo.

— Como se intitula?

— ‘A Moreninha’.”

JOSÉ DE ALENCAR

(Trecho de A moreninha)

O escritor José Martiniano de Alencar, cearense de nascimento, é o escritor que consolida o Romantismo brasileiro. Suas obras caíram no gosto popular. Deixa transparecer em seus textos alguns de seus posicionamentos políticos, como o nacionalismo e o monarquismo. Seus textos podem ser didaticamente divididos em cinco grupos:

Romances urbanos ou de costumes

Aqueles em que Alencar caracteriza a sociedade carioca do Segundo Reinado e em que se observam os costumes da classe burguesa, com tramas simples, assim como em Macedo, envolvendo pequenas intrigas, sempre com final feliz e a vitória do amor. Aqui encontramos Cinco minutos, A viuvinha, Sonhos d’ouro, Encarnação, e também Lucíola (história de uma prostituta que não se julga digna de um verdadeiro amor), Diva e Senhora (história de amor em que o dinheiro tem papel decisivo, sendo o principal motivador das ações das personagens. No fim, o amor, acima de tudo, vence).

“Há anos raiou no céu fluminense uma nova estrela. Desde o momento de sua ascensão ninguém lhe disputou o cetro; foi proclamada a rainha dos salões. Tornou-se a deusa dos bailes; a musa dos poetas e o ídolo dos noivos em disponibilidade. Era rica e formosa. Duas opulências que se realçam, como o raio do sol no prisma do diamante. Quem não se recorda da Aurélia Camargo, que atravessou o fir- mamento da corte como brilhante meteoro, e apagou-se de repente no meio do deslumbramento que produzira o seu fulgor?”

(Trecho de Senhora)

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EaD • UFMS EaD • UFMS Romantismo Quinhentismo Romances históricos 55 55 Neste grupo são considerados

Romances históricos

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Neste grupo são considerados principalmente os dois romances escritos sobre o período colonial brasileiro. São eles: As minas de prata

e A guerra dos mascates.

Romances regionais

Também em número de dois, os representantes deste grupo são O sertanejo e O gaúcho. Nos dois casos, Alencar traça um retrato idealizado tanto do habitante do Nordeste como do Sul do Brasil. Pautado pela ideia do “bom selvagem”, constrói personagens que mostram o íntimo relacionamento entre o homem e a terra.

Romances rurais

Embora não sendo totalmente desprovidas de caráter regionalista, as obras Til e O tronco do ipê são consideradas rurais por sua profunda identificação com a vida no campo, tendo como cenário duas fazendas, uma em São Paulo e outra no Rio de Janeiro, respectivamente.

Romances indianistas

Os romances deste grupo são os mais conhecidos. São três as

obras, Iracema, O guarani e Ubirajara. Como característica do período romântico, o índio transforma-se no herói nacional, construindo a identidade do país. Iracema, a índia dos lábios de mel, relaciona-se com Martim, o europeu, e dá à luz Moacir, o primeiro brasileiro – fruto do encontro do branco com o índio. Peri, índio europeizado,

é um super-herói em O guarani. Ubirajara representa o índio em

estado “puro”. Em todos, a natureza é exaltada e há a preocupação histórica e, claro, o nacionalismo.

A seguir, veja como a personagem Iracema é apresentada. Observe

os elementos com os quais a bela índia é descrita e sua interação com

a natureza que a rodeia. Ela é a mulher ideal, perfeita, em completa harmonia com a terra, com as aves e plantas.

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LITERATURA BRASILEIRA

LITERATURA BRASILEIRA I

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“Capítulo II

Além, muito além daquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu Iracema.

Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna, e mais longos que seu talhe de palmeira.

O favo da jati não era doce como seu sorriso; nem a baunilha recendia no bosque como seu hálito perfumado.

Mais rápida que a ema selvagem, a morena virgem corria

o sertão e as matas do Ipu, onde campeava sua guerreira tribo, da

grande nação tabajara. O pé grácil e nu, mal roçando, alisava apenas

a verde pelúcia que vestia a terra com as primeiras águas.

Um dia, ao pino do Sol, ela repousava em um claro da flores- ta. Banhava-lhe o corpo a sombra da oiticica, mais fresca do que o

orvalho da noite. Os ramos da acácia silvestre esparziam flores sobre os úmidos cabelos. Escondidos na folhagem, os pássaros ameigavam

o canto.

Iracema saiu do banho; o aljôfar d’água ainda a roreja, como

à doce mangaba que corou em manhã de chuva. Enquanto repousa,

empluma das penas do gará as flechas de seu arco; e concerta com o sabiá da mata, pousado no galho próximo, o canto agreste.

A graciosa ará, sua companheira e amiga, brinca junto dela.

Às vezes sobe aos ramos da árvore e de lá chama a virgem pelo nome; outras, remexe o uru de palha matizada, onde traz a selvagem seus perfumes, os alvos fios de crautá, as agulhas da juçara com que tece

a renda, e as tintas de que matiza o algodão.”

(trecho de Iracema)

Glossário extraído do que o próprio Alencar disponibiliza em sua

obra:

Iracema: em guarani significa ‘lábios de mel’ – de ira – mel e tembe – lábios. Tembe na composição altera-se em ceme; é também anagrama da palavra América. Jati: pequena abelha que fabrica delicioso mel. Ipu: assim chamam ainda hoje no Ceará a certa qualidade de terra

muito fértil, que forma grandes coroas ou ilhas no meio dos tabuleiros

e sertões, e é de preferência procurada para a cultura.

Tabajara: Senhor das aldeias, de taba – ‘aldeia’, e jará – ‘senhor’. Oiticica: árvore frondosa, apreciada pela deliciosa frescura que derrama sua sombra. Ará: periquito. Os indígenas, como aumentativo, usavam repetir a última sílaba da palavra e às vezes toda a palavra, como murémuré. Muré – ‘frauta’, murémuré – ‘frauta grande’. Arara vinha a ser, pois, o aumentativo de ará,

e significaria a espécie maior do gênero.

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Leia o trecho seguinte, no qual Iracema encontra Martim pela primeira vez, e responda as questões:

“Rumor suspeito quebra a doce harmonia da sesta. Ergue a virgem os olhos, que o sol não deslumbra; sua vista perturba-se.

Diante dela e todo a contemplá-la, está um guerreiro estranho, se é guerreiro e não algum mau espírito da floresta. Tem nas faces o branco das areias que bordam o mar, nos olhos o azul triste das águas profundas. Ignotas armas e tecidos ignotos cobrem-lhe o corpo.

Foi rápido, como o olhar, o gesto de Iracema. A flecha embebida no arco partiu. Gotas de sangue borbulham na face do desconhecido.

De primeiro ímpeto, a mão lesta caiu sobre a cruz da espada; mas logo sorriu. O moço guerreiro aprendeu na religião de sua mãe, onde a mulher é símbolo de ternura e amor. Sofreu mais d’alma que da ferida.

O sentimento que ele pôs nos olhos e no rosto, não o sei eu. Porém a

virgem lançou de si o arco e a uiraçaba, e correu para o guerreiro, sentida da mágoa que causara. A mão que rápida ferira, estancou mais rápida e compassiva o sangue que gotejava. Depois Iracema quebrou a flecha homi- cida; deu a haste ao desconhecido, guardando consigo a ponta farpada.

O guerreiro falou:

— Quebras comigo a flecha da paz?

— Quem te ensinou, guerreiro branco, a linguagem de meus irmãos?

Donde vieste a estas matas, que nunca outro guerreiro como tu?

— Venho de bem longe, filha das florestas.

Venho das terras que teus irmãos já possuí- ram, e hoje têm os meus.

— Bem-vindo seja o estrangeiro aos campos

dos tabajaras, senhores das aldeias, e à cabana de Araquém, pai de Iracema.”

a. Qual a primeira reação de Iracema ao encontrar-se com o estrangeiro Martim?

b. Com a obra Iracema, José de Alencar recria uma lenda da fundação do estado do Ceará. Comente como essa fundação pode ser representativa para a criação de uma possível identidade nacional. Utilize passagens do texto para ilustrar sua resposta.

Quebra a flecha: era entre os indígenas a maneira simbólica de estabelecerem a paz entre as diversas tribos, ou mesmo entre dois guerreiros inimigos. Desde já advertimos que não se estranhe a maneira por que o estrangeiro se exprime falando com os selvagens; ao seu perfeito conhecimento dos usos e língua dos indígenas, e sobretudo a ter-se conformado com eles a ponto de deixar os trajes europeus e pintar- se, deveu Martins Soares Moreno à influência que adquiriu entre os índios do Ceará.

(In: Notas ao romance Iracema)

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MANUEL ANTÔNIO DE ALMEIDA

(Rio de Janeiro, 1831 – Rio de Janeiro, 1861)

“Era a comadre uma mulher baixa, excessivamente gorda, bonachona, ingênua ou tola até um certo ponto, e finória até outro; vivia do ofício de parteira, que adotara por curiosidade, e benzia de quebranto; todos a conheciam por muito beata e pela mais desabrida papa-missas da cidade.”

O fragmento acima, retirado do romance Memórias de um Sargento

de Milícias, é sintomático, isto é, ao ler o trecho você percebe que alguma coisa mudou, a comadre, uma mulher do povo, baixa e gorda, é descrita dentro de uma outra visão. Ao invés da beleza, da idealização, nos deparamos com um retrato mais realista.

Nas Memórias, o personagem principal, Leonardinho, filho biológico de Leonardo Pataca e Maria da Hortaliça, desde criança apronta peripécias típicas de um anti-herói ou personagem pícaro como vimos, na literatura espanhola, o guia de cegos Lazarilho de Tormes. Nosso anti-herói cria situações constrangedoras, geralmente contornadas por quem vai criá-lo, o barbeiro.

O espaço físico apresentado na obra é a cidade do Rio de Janeiro

nas primeiras décadas do século XIX , momento que marca a chegada de D. João VI à cidade do Rio de Janeiro: “era no tempo do rei”. É importante frisar que o narrador retrata os costumes do Rio antigo.

“Ser valentão foi em algum tempo ofício no Rio de Janeiro; havia homens que viviam disso: davam pancada por dinheiro, e iam a qualquer parte armar de propósito uma desordem, contanto que se lhes pagasse, fosse qual fosse o resultado. Entre os honestos cidadãos que nisto se ocupavam, havia, na época desta história, um certo Chico-Juca, afamadíssimo e temível.”

Martins Pena

(Rio de Janeiro, 1815 – Lisboa, 1848)

Luís Carlos Martins Pena destacou-se no gênero dramático. Escre- veu principalmente comédias, com as quais colocava em cena sutis sátiras sociais, de caráter ingênuo, inaugurando no Brasil o gênero das comédias de costume. Desfilavam em suas peças os diversos tipos sociais, desde moças casadoiras até espertos estrangeiros e comerciantes inescrupulosos.

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Leia a seguir um trecho da obra Os dous ou O inglês maquinista:

Cena VII

Felício e Gainer

Felício – Estou admirado! Excelente idéia! Bela máquina!

Gainer, contente – Admirável, sim.

Felício – deve dar muito interesse.

Gainer – Muita interesse o fabricante. Quando este máquina tiver acabada, não precisa mais de cuzinheiro, de sapateira e de outras muitas oficias.

Felício – Então a máquina supre todos estes ofícios?

Gainer – Oh, sim! Eu bota a máquina aqui no meio da sala, mandar vir um boi, bota a boi na buraco da maquine e depois de meia hora sai por outra banda da maquine tudo já feita.

Felício – Mas explique-me bem isto.

Gainer – Olha. A carne do boi sai feita em beef, em roast-beef, em fricandó e outras muitas; do couro sai sapatas, botas

Felício, com muita seriedade – Envernizadas?

Gainer – Sim, também pode ser. Das chifres sai bocetas, pentes e cabo de faca; das ossas sai marcas

Felício, no mesmo – Boa ocasião para aproveitar os ossos para o seu açúcar.

Gainer – Sim, sim, também sai açúcar, balas da Porto e amêndoas.

Felício – Que prodígio! Estou maravilhado! Quando pretende fazer trabalhar a máquina?

Gainer – Conforme; falta ainda alguma dinheira. Eu queria fazer uma empréstima. Se o senhor quer fazer seu capital render cinqüenta por cento dá a mim para acabar a maquine, que trabalha depois por nossa conta.

(Para Gainer.) Não sabe quanto sinto

não ter dinheiro disponível. Que bela ocasião de triplicar, quadruplicar,

quintuplicar, que digo, centuplicar o meu capital em poucos! Ah!

Felício, à parte – Assim era eu tolo

Gainer, à parte – Destes tolas eu quero muito.

Felício – Mas veja como os homens são maus. Chamarem ao senhor, que é o homem o mais filantrópico e desinteressado e amicíssimo do Brasil, especulador de dinheiros alheios e outros nomes mais.

Gainer – A mim chama especuladora? A mim? By God! Quem é a atrevido que me dá esta nome?

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Felício – É preciso, na verdade, muita paciência. Dizerem que o senhor está rico com espertezas!

Gainer – Eu rica! Que calúnia! Eu rica? Eu está pobre com minhas projetos pra bem do Brasil.

Felício, à parte – O bem do brasileiro é o estribilho destes

(Para Gainer.) Pois não é isto que dizem. Muitos crêem

que o senhor tem um grosso capital no Banco de Londres; e além disto, chamam-lhe de velhaco.

Gainer, desesperado – Velhaca, velhaca! Eu quero mete uma bala nas miolos deste patifa. Quem é estes que me chama velhaca?

Felício – Quem? Eu lho digo: ainda não há muito que o Negreiro assim disse.

Vai ensina

ele

malandros

Gainer – Negreira disse? Oh, que patifa de meia-cara Ele me paga. Goddam!

Felício – Se lhe dissesse tudo a quanto ele tem dito

Gainer – Não precisa dize; basta chama velhaca a mim pra eu mata ele. Oh, que patifa de meia-cara! Eu vai dize a commander do brigue Wizart que este patifa é meia-cara; pra segura nos navios dele. Velhaca! Velhaca! Goddam! Eu vai mata ele! Oh! (Sai desesperado.)

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Referências

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AZEVEDO, Álvares de. Lira dos vinte anos. 2ª ed. São Paulo: Escala, 2008. (Coleção Grandes Mestres da Literatura Brasileira).

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Cultrix, s.d.

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CANDIDO, Antonio. A Literatura e a formação do homem. 1999.

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Descobrimento. h p://www.profze.blogger.com.br/descobrimento1.jpg

Cristo barroco. h p://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/primeiro-reinado/

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Profeta barroco (detalhe). h p://sobreouropreto.blogspot.com/2008/11/ arte-barroca.html

Informações sobre produções audiovisuais nacionais. Disponível em: h p:// www.cinemabrasileiro.net/cinedistri.html

Joaquim Manuel de Macedo. http://www.academia.org.br/abl/media/ joaquim_manuel_de_macedo.jpg

José de Alencar. h p://peregrinacultural.files.wordpress.com/2009/05/jose- de-alencar.jpg

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p://rederecord.r7.com/historia.html

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p://www.youtube.com/watch?v=4XnvpkfPMik&feature=related

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LITERATURA BRASILEIRA I

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