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RELIGIÃO, ESPIRITUALIDADE, FENÔMENOS PSIQUICOS E ESPIRITUAIS

Resumo

Denise de Assis

Fenômenos de transcendência, visões de anjos, experiências de plenitude e completude

são algumas características ligadas aos fenômenos espirituais que marcaram a história

segundo

relatos

daqueles

que

foram

considerados

santos

para

a

Igreja.

Com

o

teocentrismo

dando

lugar

ao

período

renascentista,

foram

vários

os

avanços,

principalmente na ciência: o homem passou a ser o centro do universo e a busca pela

experiência com Deus, se não foi esquecida, foi relegada a outro plano. Com o

surgimento da psiquiatria, aos poucos, o que poderia ser considerado como experiência

de êxtase na Idade Média cedeu espaço aos diagnósticos psiquiátricos. Mas, a partir de

1900, com a inauguração da Psicanálise e os estudos do inconsciente surgiu a

possibilidade de verificar a diferença existente entre as experiências espirituais e os

fenômenos psicóticos. Avançando um pouco mais no tempo, desde o fim do século XX,

a Física vem se interessando pelos processos mentais e muitas de suas conclusões se

aproximam do inconsciente freudiano, permitindo uma interação entre estas duas

ciências para abordar as questões ligadas aos fenômenos psíquicos e espirituais. Temas

que apontam para uma nova perspectiva na qual a busca pela espiritualidade ultrapassa

as fronteiras dos padrões religiosos.

Palavras

Chave:

Inconsciente.

Espiritualidade,

Transcendência,

Cultura,

Religião,

Física,

2

Em O Futuro de Uma Ilusão 1 , Freud argumentou que as ideias religiosas

surgiram pela necessidade de defesa contra as forças esmagadoras da natureza. Além

disso, elas se configuravam em uma das tentativas de retificar as deficiências da

civilização. Assim, a civilização forneceria ao indivíduo as ideias religiosas já prontas,

constituindo assim, a herança de muitas gerações. A forma de apresentação destas ideias

passou a fazer parte de sistemas religiosos que procuraram manter-se ignorando o

desenvolvimento histórico, apesar das modificações dos povos e suas diferenças no

decorrer das diversas épocas e civilizações. Além disso, questionamentos a respeito de

sua autenticidade seriam suficientes para a aplicação das mais duras punições. Para

Freud,

mesmo

com

o

passar

do

tempo,

a

sociedade

continuou

olhando

com

desconfiança quaisquer tentativas de contra argumentar tais ideias.

Segundo o autor, a civilização ergueu-se sobre as doutrinas da religião e caso

tais ideias deixassem de ser aceitas, os homens se sentiriam isentos de toda e qualquer

obrigação de obedecer aos preceitos da civilização, seguiriam suas pulsões associais e

egoístas, procurando exercer o seu poder; e o caos que fora banido por milhares de anos

de trabalho civilizatório, retornaria. Neste sentido, a religião contribuiu muito, mas não

o suficiente, pois embora tenha dominado a sociedade por milhares de anos, não

conseguiu tornar mais feliz a maioria da humanidade, confortando-a e reconciliando-a

com a vida. Assim, a religião perdeu parte de sua influência sobre as massas pelo efeito

dos progressos da ciência 1 .

Diante das colocações de Freud a respeito da religião, destacamos o fato de que

a sociedade começou a questionar os padrões religiosos que foram impostos por várias

gerações, quando não havia espaço para que se levantassem dúvidas sobre seus dogmas.

Esta característica, tornou-se evidente dado o crescimento do chamado grupo dos ‘sem-

1 Freud, Sigmund, “O Futuro de Uma Ilusão”, Imago, Freud - Obras Completas. Vol. XXI. Rio de Janeiro: 2000[1927], Edição Eletrônica (s/numeração).

3

religião’. Segundo Dalgalarrondo 2 , em pesquisa divulgada pelo IBGE, em 1980, este

grupo representava 1,6% da população e no ano 2000, passou a 7,3%. Tais evidências

não foram constatadas apenas no Brasil, mas em todo o mundo.

Parte do grupo de pessoas que se declara ‘sem-religião’, embora negue qualquer

tipo de conexão com associações religiosas, entende a espiritualidade como algo

inteiramente individual. Desta forma, segundo

Koenig 3 , a palavra espiritualidade

ganhou um novo significado em detrimento do original, inicialmente relacionado às

religiões. De acordo com o autor, formular uma definição para espiritualidade tornou-se

uma tarefa difícil. Ao contrário da religião, que é considerada, ao lado de seus efeitos

positivos,

como causadora de conflitos, guerras e fanatismo, a espiritualidade é

considerada sob um ponto de vista pessoal. Algumas definições colocam-na como livre

de regras e responsabilidades associadas à religião 3 .

Segundo o teólogo Philip Sheldrake, na Idade Média, uma pessoa ‘espiritual’ era

alguém que possuía o “Espírito de Deus”. Este termo, geralmente era utilizado como

referência aos membros da Igreja Católica. No Segundo Conselho do Vaticano, este

termo foi redefinido, e relacionado à teologia ascética e mística. Estabeleceu-se, então,

uma distinção entre pessoas consideradas espiritualizadas e pessoas religiosas, sendo

que estas seguiam, em seu estilo de vida, os ensinamentos de sua fé tradicional 4 . Assim,

alguns exemplos de pessoas consideradas espiritualizadas, mais do que religiosas

seriam: Teresa de Ávila, João da Cruz, Siddhārtha Gautama, Madre Teresa e Ghandi 3 .

2 Dalgalarrondo, Paulo, Religião, Psicopatologia & Saúde Mental. Porto Alegre: Artmed. 2008, pp.131.

3 Koenig, Harold, Research on Religion, Spirituality and Mental Health: A Review”, Canadian Journal of Psychiatry(2008), in press, pp.4-5.

4 Sheldrake, Philip, A Brief History of Spirituality. Boston: Blackwell Publishing, 2007, pp.3.

4

O interesse sobre este tema no meio acadêmico surgiu devido a resultados de

pesquisas relacionadas a crenças, práticas, experiências religiosas e espirituais que vêm

chamando a atenção da comunidade científica por sua ligação com o bem estar e

melhora na qualidade de vida, entre outros fatores. No entanto, é importante considerar

que os mesmos fenômenos podem ter efeitos negativos, por exemplo, gerar fanatismos e

intolerâncias, conflitos na família ou transtornos mentais 5 .

Neste sentido, não se pode negar que a discussão sobre temas ligados às

experiências espirituais, ou a fenômenos de transcendência, estados alterados de

consciência, visões, curas e milagres, ao longo da história, sempre foi contraditória,

oscilando entre explicações relacionadas a fenômenos sobrenaturais e a diagnósticos

psiquiátricos.

Por exemplo, Segundo Roudinesco & Plom 6 , no início da história do Espiritismo

na Europa, capacidades extrassensoriais eram estudadas por diferentes profissionais.

Com o nascimento da psiquiatria dinâmica no fim do século XVIII, tornaram-se objetos

de estudo da psicopatologia. Mulheres que apresentavam estes fenômenos, depois de

terem sido princesas de um reino das trevas ou soberanas de um mundo imaginário,

fundamentado na magia, se tornaram loucas, histéricas, agitadas ou esquizofrênicas

em suma, doentes mentais”.

Pouco antes do ano 2000, o assunto começou a conquistar mais espaço no meio

científico,

em

parte

pela

constatação

de

que

determinadas

práticas

e

crenças

relacionadas à espiritualidade exercem influência significativa na saúde física e mental.

5 Koenig, Harold, “Religion, Spirituality and Medicine: Research Findings and Implications for Clinical Practice”, Southern Medical Journal (2004), 97:12 pp. 1195-1196.

6 Roudinesco, Elisabeth & Plon, Michel, Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998, p.188.

5

Além disso, as descobertas da Física a respeito da realidade da matéria, entre outras,

vêm tornando possível discutir o tema cientificamente.

Tais

constatações

permitem

argumentar,

por

meio

da

correlação

entre

a

Psicanálise e a Física, a respeito da distinção entre fenômenos psíquicos que no senso

comum são classificados como espirituais e o que poderia caracterizar uma experiência

de transcendência, denominada por Jacques Lacan 7 de fenômeno(s) místico(s).

Com

base

nestas

duas

ciências

e

o

contexto

histórico

envolvendo

as

investigações de Freud sobre o inconsciente e os estudos de Lacan sobre a psicose,

apresentaremos algumas considerações sobre o assunto.

Freud e a Psicologia Científica

Inicialmente, para fundamentar esta aproximação entre a Física e o inconsciente

freudiano, faz-se necessário destacar o fato de que Freud, no início de sua carreira,

visava construir uma psicologia científica. Ao formular os comentários introdutórios do

que chamou de Metapsicologia, referiu-se ao campo das ciências da natureza. Tais

ciências representavam naquele momento histórico, os modelos teóricos incontestáveis

do que deveria ser considerado como ciência 8 .

A Física se destacava como a configuração teórica por excelência do que poderia

ser chamado de modelo científico. A partir deste pressuposto, Freud passou a tecer seu

argumento epistemológico. No entanto, ao avançar em seus estudos deparou-se com as

questões relacionadas ao inconsciente, abandonando sua proposta inicial e inaugurando

a Psicanálise com a obra A Interpretação dos Sonhos, em 1900.

7 psiquiatra e um dos continuadores da obra de Freud

8 Assis, Denise. Transmissão Psíquica: Uma Conexão entre a Psicanálise e a Física. Disponível na Internet :

<http://www.uva.br/mestrado/dissertacoes_psicanalise/transmissao-psiquica-uma-conexao-entre-a-

psicanalise-e-a-fisica.pdf > (06/06/2012), pp.20.

6

Nesta mesma ocasião, surgiram grandes descobertas na Física que desencadearam

grandes mudanças, inclusive na maneira de pensar. Einstein deu os primeiros saltos ao

propor a Teoria da Relatividade e em seguida, Max Planck com a Teoria Quântica.

Assim como Newton, na Idade Média, inaugurou a Física Clássica, responsável por

mudanças em várias áreas, inclusive sociais, Einstein, Planck e outros cientistas fizeram

o mesmo ao iniciarem o estudo das micropartículas.

A partir do final do século XX, a Física começou um processo de investigação a

partir do pressuposto de que a vontade do observador interfere no resultado da

experiência. E assim como Freud iniciou sua investigação a partir da Física, esta ciência

começou a levantar questões com relação aos processos mentais que em muito se

aproximam

dos

conceitos

psicanalíticos 9 .

Tal

aproximação

permite

avançar

nas

investigações a respeito de processos psíquicos e auxiliar na compreensão de outros

fenômenos que podem estar relacionados às experiências espirituais 10 .

Fenômenos Psíquicos comumente Classificados como Espirituais Em 1847, uma família de Nova Iorque começou a ouvir batidas nas portas,

ruídos, camas movendo-se, móveis arrastando, entre outros fenômenos. Nesta casa, as

duas irmãs Margareth e Kate Fox conseguiram fazer diálogo com “um espírito” que se

manifestou a elas. A partir desta experiência surgiu o espiritismo 11 que se espalhou por

toda a Europa 12 .

9 Idem, ibidem, pp.51.

10 Idem, ibidem,pp.106.

11 é importante distinguir Espiritismo de Espiritualidade. No Brasil, é comum a confusão entre os dois termos.

O

Espiritismo recebeu o status de religião. O médico Arthur Conan Doyle denominou-o

“Religião Psíquica”.

O

termo Espiritualidade é mais abrangente não tendo necessariamente relação direta com as religiões.

12 Doyle, Arthur Conan. História do Espiritismo. São Paulo: Editora Pensamento-Cultrix Ltda., 2004, pp.49.

7

Segundo Roudinesco & Plon 13 , o Espiritismo foi adotado por inúmeros estudiosos

europeus do século XIX. Todos buscaram um meio de atingir o outro lado da

consciência em cujo funcionamento se pensava em termos de automatismo mental ou

psicológico.

Neste

contexto

histórico

e

no

meio

de

tantas

descobertas

a

respeito

do

inconsciente, Freud deparou-se com as questões ligadas aos chamados fenômenos

ocultistas ou neo-espiritualistas: por exemplo, a transmissão de pensamentos. Somado à

influência de Jung, Ferenczi, às experiências de alguns pacientes levadas ao setting

analítico 14 e a polêmica semelhante que envolvia a Psicanálise e o movimento ocultista,

começou a investigar o assunto 15 .

Carl Gustav Jung começou a estudar medicina em 1895 e em 1900 tornou-se

assistente de Bleuler 16 17 . Dois anos depois defendeu sua tese de doutorado sobre o caso

de uma jovem médium intitulada Psicologia e Patologia dos Chamados Fenômenos

Ocultos 18 .

Segundo Roudinesco & Plon 17 , em 1905, em contato com Bleuler, Jung

experimentou o teste de associação verbal que o levou à Psicanálise. No ano seguinte,

enviou a Freud os seus Estudos Diagnósticos de Associação, estabelecendo-se a partir

daí uma relação que abriu para a Psicanálise o “novo continente” das psicoses.

13 Roudinesco, Elisabeth & Plon, Michel, Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998,

pp.188.

14 Idem, ibidem, pp.555, 752.

15 Freud, Sigmund, “Psicanálise e Telepatia”, Freud - Obras Completas. Vol. XVIII, Rio de Janeiro: Imago, 2000[1921], Edição Eletrônica (s/numeração).

16 Psiquiatra suíço que cunhou o termo esquizofrenia.

17 Roudinesco, Elisabeth & Plon, Michel, Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998,

p.421.

18 Carl Gustav Jung Page, A Jungian Perspective on The Dissociability of The Self. 2006. Disponivel em

Acesso

em

8

Jung era homem de uma poderosa inteligência, possuía um mundo interior feito

de sonhos, de introspecção, de busca por si mesmo. Possuía muito interesse pelo oculto,

pelos espíritas, loucos, marginais e excêntricos (personagens fora do comum). Em 1909,

demonstrou a Freud seus talentos de ilusionista e durante algum tempo, Freud tentou

imitá-lo, mas esqueceu do episódio. Um ano depois, o assunto voltou à tona após

conhecer Sandor Ferenczi 19 .

Sandor Ferenczi foi um médico húngaro, oriundo de uma família de judeus

poloneses imigrantes. Segundo Roudinesco & Plon,

além de ter sido o discípulo

preferido de Freud, foi o clínico mais talentoso da história psicanalítica. Através dele, a

escola húngara de Psicanálise produziu uma admirável filiação. Melanie Klein e

Michael Balint formaram-se nesta escola, além de Ernest Jones, que posteriormente

tornou-se

seu

perseguidor 20

21 .

Ferenczi

contribuiu

desenvolvimento e divulgação da Psicanálise.

significativamente

para

o

O primeiro artigo de Ferenczi, Spiritismus 22 foi publicado em 1899 e abordava

os fenômenos inconscientes e questões ligadas à pesquisa do ‘oculto’, que eram os

temas em evidência até então. Entre 1897 e 1899, participou de algumas sessões

espiritualistas

sobre

o

budismo.

Seu

artigo

descrevia

as

chamadas

experiências

espirituais e a discordância entre os que defendiam e os que refutavam o tema,

mantendo

a

postura

de

que

este

assunto

deveria

ser

estudado

cientificamente.

Preconizou uma rigorosa metodologia e era muito cético em relação aos livros que

19 Roudinesco, Elisabeth & Plon, Michel, Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998, p.421.

20 Idem, ibidem, p.232. 21 Casonato, Marco, Ferenczi's Preanalytic Writings (18991908)A Listing. Contemporary Psychoanalysis (1993), 29:4, pp.736.

22 Ferenczi, Sandor & Fodor, Nandor, “Spiritism”, Psychoanal. Rev., 50A, 1963[1899], pp.139-144.

9

tratavam do assunto. Seu objetivo era incluir o tema do ‘oculto’ nos estudos da

psicologia 21 .

A defesa de Ferenczi de que o assunto deveria ser tratado cientificamente indica

em seu artigo que os chamados fenômenos ocultos estariam ligados ao inconsciente.

Este artigo foi escrito antes da inauguração da psicanálise, mas suas ideias se

aproximavam bastante da teoria freudiana 23 .

Em 1905, Ferenczi conheceu Jung em um congresso na cidade de Budapeste e

ouviu falar pela primeira vez sobre a Psicanálise.

Encontrou-se com Freud em 1908,

aderindo imediatamente ao estudo da Psicanálise 24 .

Freud e a Telepatia

Neste contexto histórico, Freud decidiu pesquisar o assunto e suas conclusões

foram registradas em três textos de sua obra: Psicanálise e Telepatia (1921), Sonhos e

Telepatia (1922) e Sonhos e Ocultismo (1933).

Nos artigos, Freud analisou relatos de seus pacientes e de outras pessoas que lhe

escreveram pedindo uma possível explicação para algumas experiências atribuídas, na

época, ao ocultismo. Os casos analisados por Freud, entre outros, tratavam da notícia de

morte de entes queridos recebida telepaticamente por seus parentes, ou seja, antes do

recebimento da comunicação oficial.

Em um dos relatos analisados, um homem contou o caso do falecimento do

irmão mais moço há 25 anos. Antes de abrir a carta que daria a notícia da morte, teve o

seguinte pensamento: “é para dizer que meu irmão morreu”. Este irmão era o mais

23 Ferenczi, Sandor and Fodor, Nandor, Spiritism”, Psychoanal. Rev. (1963[1899]), 50A, pp.139-144.

24 CASONATO,

Psychoanalysis, pp.742.

10

jovem e o único que havia ficado em casa, pois ele e os três irmãos já haviam partido.

Por ocasião da visita dos irmãos, a conversa girou em torno desta experiência e os

outros irmãos confirmaram a mesma impressão. O homem não soube dizer se o

processo se deu da mesma maneira para os demais irmãos, mas todos disseram ter tido a

certeza da morte do irmão mais novo antes de receberem o comunicado oficial 25 .

Em outro relato, uma mulher de 37 anos também contou ter pressentido a morte

do irmão antes do comunicado oficial. Ele estava na guerra e no dia 22 de agosto de

1914 às 10:00 horas da manhã, ela ouviu a sua voz, chamando: ‘Mãe! Mãe!’. Dez

minutos

depois,

a

experiência

se

repetiu.

Quando

isto

aconteceu,

esta

mulher

encontrava-se longe da casa dos pais. Dois dias depois, ao voltar para casa, a mãe

contou que, no dia 22, pela manhã, tinha ouvido o irmão chamar: ‘Mãe! Mãe!’, o que a

deixou preocupada.

A filha acalmou-a, mas não contou que passou pela mesma

experiência. Três semanas depois a família recebeu um cartão escrito pelo irmão no dia

22 de agosto, entre

9 e 10 horas da manhã. Ele havia falecido logo após ter enviado o

cartão para a família 25 .

Diante destes e de outros casos analisados, Freud concluiu que pessoas que

possuem uma intensa ligação afetiva entre si podem ter acesso quase ao mesmo tempo,

ao conhecimento de um acidente, morte ou alguma outra notícia relacionada a alguém

com quem estejam ligados. Isto pode ocorrer por meio de uma percepção visual ou

auditiva 26 .

Estas e outras investigações de Freud sobre o assunto (entre 1920 e 1933)

surgiram com toda sua força no momento em que a Psicanálise estava a um passo de

25 Freud, Sigmund, Sonhos e Telepatia”, Freud - Obras Completas. Vol. XVIII. Rio de Janeiro: Imago 2000[1922], Edição Eletrônica(s/numeração).

26 Id. Sonhos e Ocultismo”, Freud - Obras Completas. Vol. XXII, Rio de Janeiro: Imago, 2000[1933], Edição Eletrônica(s/numeração).

11

atingir o ideal de institucionalizar seus princípios e ser aceita como ciência 27 . Neste

contexto, o autor passou a defender a existência da telepatia e junto com sua filha, Anna

e seu colaborador, Sandor Ferenczi participou de experiências de transmissão de

pensamentos, desempenhando o papel de médium e analisando suas associações

verbais. Ernest Jones e Max Eitingon, membros da Associação Internacional de

Psicanálise naquele período, dissuadiram-no de perseguir este tema, argumentando que

a comunidade científica poderia associar a obra freudiana à obra de um charlatão. Com

isto, Freud impediu Ferenczi de apresentar em um congresso uma comunicação sobre

suas experiências, mas em 1921, porém, retomou o assunto, redigindo um artigo sem

título. Novamente, por interferência de seus colaboradores, o artigo não foi publicado na

ocasião. O artigo só foi publicado em 1941 (20 anos depois) recebendo o título de

Psicanálise e Telepatia 27 .

Com relação ao resultado de suas pesquisas, torna-se importante ressaltar que no

início do século XX, por falta de recursos científicos que pudessem explicar

a

constatação e o espanto diante de tais fenômenos, Freud supôs que este tipo de

comunicação se daria como uma espécie de telefone sem fios28 .

As colocações de Freud puderam ser comprovadas 54 anos depois (em 1987),

pelo neurofisiologista mexicano Jacobo-Grinberg Zylberbaum que publicou resultados

significativos de sua pesquisa sobre padrões de correlação inter-hemisféricos entre

humanos no International Journal of Neuroscience 29 .

27 Roudinesco, Elisabeth & Plon, Michel, Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998, p.753.

28 Id.

Edição Eletrônica (s/numeração).

“Sonhos e Ocultismo”, Freud - Obras Completas. Vol. XXII, Rio de Janeiro: Imago, 2000[1933],

29 Zylberbaum, Jacobo. Grinberg & Ramos, Julieta. “Patterns of Interhemispheric Correlation During Human Communication”, International Journal of Neuroscience (1987), 36:1, pp.41-53.

12

Nos experimentos de Zylberbaum foram obtidos padrões de correlação de

atividade medidos por eletroencefalograma (EEG) em adultos e as condições para

comprovar sua teoria eram semelhantes às descritas por Freud a respeito da transmissão

de pensamentos: em estado passivo e receptivo. Os padrões do EEG de um sujeito

foram comparados a outro em duas situações: sem comunicação verbal e com estímulo

de comunicação. Para que a experiência fosse realizada, alguns voluntários foram

instruídos a permanecerem relaxados em um local de penumbra, em silêncio, com os

olhos fechados e separados por uma distância de 50 centímetros. A maior parte das

experiências foi feita em dupla. Ao todo, foram 13 pares e 4 grupos de 3 pessoas. Neste

experimento houve a constatação de que os padrões de correlação inter-hemisférica para

cada sujeito, ao serem observadas, eram similares durante as sessões de comunicação,

se comparadas com as situações de controle. A conclusão de Zylberbaum foi que este

tipo de comunicação pode ocorrer sem a necessidade de verbalização ou contato físico

ou visual 30 .

Os resultados de Zylberbaum, bem como as conclusões de Freud encontram

fundamento na propriedade de nãolocalidade da Física. Ou seja, em certas condições,

partículas que estão a distâncias infinitas uma da outra, possuem a propriedade de serem

afetadas entre si 31 . Assim, torna-se possível e importante

perceber que as experiências

de Zylberbaum 32 , que comprovaram a Teoria do Campo Neuronal de cérebros em

correlação, indicavam que as pessoas que participaram da experiência entraram em

30 Idem, ibidem, pp.41.

31 Bohm, David, “A New Theory of the Relationship of Mind and Matter”, Philosophical Psychology (1990), 3:2, 1990, pp.273.

32 Zylberbaum, Jacobo. Grinberg. & Ramos, Julieta, Patterns of Interhemispheric Correlation During Human Communication, International Journal of Neuroscience (1987), 36:1, pp.41-53.

13

sintonia diante de uma atitude passiva, receptiva ou de repouso, assim como Freud

descreveu em seus artigos, mesmo estando distantes ou isoladas umas das outras.

Tais experiências demonstraram que o fenômeno conhecido como entanglement

ou

entrelaçamento

quântico,

que

o

físico

francês

Alain

Aspect

comprovou

em

laboratório no ano de 1982 a respeito da correlação entre fótons 33 também se referia aos

padrões neuronais.

O entrelaçamento quântico diz respeito à correlação de objetos ou

micropartículas que estejam a infinitas distâncias, mas que são afetados mutuamente por

estarem em correlação. Assim, ao avaliar as experiências de Zylberbaum 32 e Alain

Aspect 34 , o físico Amit Goswami 35 , da Universidade de Oregon, EUA, apontou que a

grande semelhança entre os cérebros e os fótons correlacionados está clara, mas há uma

grande diferença. A semelhança entre os casos é que, em ambos, a correlação inicial foi

produzida por alguma “interação”. No caso dos fótons, a interação é puramente física.

Mas no caso dos cérebros, existe uma correlação mantida ao longo da experiência ligada

à intenção.

Neste

sentido,

a

Psicanálise

pode

contribuir

com

a

Física,

a

partir

das

experiências de Freud, avançando na proposta de que a correlação acontece por

identificação 36 ou por emoções pertinentes ao Complexo de Édipo 37 , ou seja, entre

pessoas que possuem ligações afetivas, desejos ou elementos

conscientes quanto inconscientes.

em comum,

tanto

33 “Átomos de Luz”, chamados de fótons em 1926 pelo físico americano Gilbet Lewis. (Fonte: Gleiser, Marcelo, A Dança do Universo, São Paulo: Cia. Das Letras, 2003, pp.286).

34 Aspect, Alain. et.al. “Experimental Test of Bell’s Inequalities Using Time-Varying Analyzers, The American Physical Society: Physical Review Letters (1982), 49:25, pp.1804-1807.

35 Goswami, Amit, A Física da Alma. São Paulo: Editora Aleph, 2005, pp.52-54.

36 Freud, Sigmund, Identificação, Freud - Obras Completas. Vol. XVIII, Rio de Janeiro: Imago, 2000[1925], Edição Eletrônica (s/numeração).

37 Id. Sonhos e Telepatia”, Freud - Obras Completas. Vol. XVIII. Rio de Janeiro: Imago, 2000[1922], Edição Eletrônica (s/numeração).

14

O físico David Bohm, por exemplo, concluiu que pensamentos, sentimentos,

desejos e impulsos que fluem de indivíduo a indivíduo e de certa forma os envolvem,

podem interagir de tal forma, tornando-se tão implícitos entre si que se tornam apenas

um 38 . Em O Universo Indivisível: uma Interpretação Ontológica da Teoria Quântica 39 ,

o físico afirmou que um fluxo constante de sentimentos, pensamentos que vêm e vão,

desejos, urgências e impulsos encontram-se interconectados e fluindo entre si: “Por

exemplo, podemos dizer que um pensamento está implícito no outro, ou ‘coberto,

envolvido pelo outro’; seriam as melhores palavras para descrever este processo”. Estas

conclusões de Bohm e também de outros físicos a respeito do assunto, em muito se

aproximam do inconsciente freudiano.

Fenômenos Psicóticos

Ainda

com

relação

à

abordagem

dos

fenômenos

psíquicos,

a

partir

dos

pressupostos apresentados, o que acontece na estrutura psicótica?

Se for possível ter

uma experiência visual ou auditiva sem necessariamente estar diante de alguém, por que

na estrutura psicótica este processo ocorre de forma tão particular e diferente dos casos

analisados por Freud em seus artigos?

Segundo Lacan, a família deve ser compreendida no âmbito da realidade

formada

pelas

relações

sociais:

a

espécie

humana

se

caracteriza

por

um

desenvolvimento singular das relações sociais. Este desenvolvimento é sustentado por

capacidades excepcionais de comunicação mental e sua conservação e progresso, por

dependerem de sua comunicação, configuram-se em obra coletiva e constituem a

38 Bohm, David, A New Theory of the Relationship of Mind and Matter, Philosophical Psychology (1990), 3:. 2, 1990, pp. 273.

39 Bohm, David & Hiley, Basil, The Undivided Universe: an Ontological Interpretation of Quantum Theory. New York: Routledge Ed., 1993, pp.397.

15

cultura. Da mesma forma, a família desempenha um papel primordial na transmissão da

cultura e preside os processos fundamentais do desenvolvimento psíquico, além da

organização de emoções segundo tipos condicionados pelo meio-ambiente. Em um

sentido mais amplo, transmite estruturas de comportamento e de representação “cujo

jogo ultrapassa os limites da consciência”. Deste modo, surge entre as gerações uma

continuidade psíquica cuja causalidade é de ordem mental 40 .

Com tantas ligações e conexões, que iniciam no núcleo familiar e ampliam-se

em direção às relações sociais, com relação à psicose, “os complexos familiares

desempenham um notável papel no eu, nesses diversos estágios em que a psicose o

detém, seja como motivos das reações do sujeito, seja como temas de seu delírio” 41 .

Assim, partindo destes pressupostos e avançando em suas pesquisas com o

objetivo de compreender a relação do psicótico com o Outro 42 , Lacan resgatou as duas

teorias da Idade Média que se referiam ao amor a Deus: a teoria física e a teoria

extática. A teoria física referia-se ao natural. Por ser a Física uma ciência natural, o

amor a Deus também seria. Além disso, segundo esta teoria, haveria um esforço em

proporcionar o bem no círculo de sua ação. Já a teoria extática estava relacionada à

experiência de êxtase, ao estar fora de si, aos fenômenos de transcendência 43 .

Ao analisar o caso Schreber 44 , Lacan percebeu que suas experiências com

relação a Deus se aproximavam mais de uma mistura do que de uma união com o Ser.

40 Lacan, Jacques. Os Complexos Familiares na Formação do Indivíduo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002[1938], pp.11-19

41 Idem, ibidem, pp.68.

42 Segundo Lacan, o outro (minúsculo), refere-se ao eue Outro (maiúsculo) é aquele de quem se fala. Roudinesco, Elisabeth & Plom, Michel, Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998, p.558.

43 Quinet, Antônio. Teoria e Clínica da Psicose. Rio de Janeiro: Editora Forense Universitária. Rio de Janeiro, 2003, pp.78-81.

44 Daniel Paul Schreber (1842-1911) provinha de uma família de burgueses protestantes, abastados e cultos, que já no século XVIII buscavam a celebridade através do trabalho intelectual. Muitos de seus

16

Experiências totalmente diferentes daquelas relatadas pelos místicos católicos. As

experiências de Schreber, em nada pareciam com a

Presença e o Júbiloque

iluminavam a experiência daqueles que buscavam a face de Deus, principalmente com

relação ao termo Tu, que era a forma utilizada como referência e reverência a Deus 45 .

Diante desta mistura, Lacan utilizou a expressão “inconsciente a céu aberto”,

com o objetivo de definir que os fenômenos característicos da estrutura psicótica,

envolvem além da alucinação, os distúrbios de linguagem. Nestes casos, o sujeito se

sente invadido o tempo todo, como se recebesse ordens externas e estivesse à mercê de

vozes ou de outros fenômenos 46 . Assim, segundo Lacan, os distúrbios de linguagem, na

psicose, seriam provenientes de uma fala para-além do sujeito 47 .

Com base nestas constatações de Lacan e retomando a correlação com a Física,

o psicótico é atravessado pelo fluxo constante de sentimentos, pensamentos, desejos,

urgências e impulsos que se encontram interconectados e fluindo entre si, fluxo definido

pelo físico David Bohm 48 . No entanto, o psicótico fica à mercê deste fluxo recebendo

todo tipo de informação sem conseguir elaborar um raciocínio coerente. Assim, para ele

não há escolha, pois sofre a influência de tudo o que trafega por este fluxo constante,

não só do ponto de vista auditivo, mas também com manifestações corporais de toda

antepassados deixaram obra escrita sobre Direito, Economia, Pedagogia e Ciências Naturais, onde são recorrentes as preocupações com a moralidade e o bem da humanidade. O caso Schreber tornou-se objeto de estudo de Freud e Lacan, a respeito dos mecanismos da psicose. Estes estudos foram realizados com base em sua história de vida e na autobiografia denominada Memórias de um Doente dos Nervos. Disponível em: http://www6.ufrgs.br/psicopatologia/schreber/index.html. (UFRS). Acesso em

29/03/2012

45 Lacan, Jacques, Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998[1966], pp.582.

46 Id. O Seminário, Livro 3: As Psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2002[1956], pp.133.

47 Id, Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998[1966], pp.581.

48 Bohm, David & Hiley, Basil. The Undivided Universe: an Ontological Interpretation of Quantum Theory. New York: Routledge Ed., 1993, pp.397.

17

ordem. Segundo Quinet 49 , a respeito dos fenômenos auditivos da psicose: “o que o

sujeito ouve são sons que lhe invadem”.

A história de vida, crenças adquiridas ao longo da história, principalmente com

relação à família e as impressões passadas de geração em geração, bem como a

influência cultural podem fazer com que esta mistura de sentimentos se configure em

um sistema bastante complexo, principalmente com relação aos fenômenos corporais.

Não se pode negar o fato de que alguns fenômenos ou manifestações psíquicas

são comumente vistos como espirituais e neste sentido, o trabalho de Lacan e de outros

pesquisadores que deram continuidade a este tipo de investigação podem contribuir

significativamente para as pesquisas sobre temas relacionados à psicopatologia e

conteúdos religiosos e espirituais no meio científico.

Fenômenos Místicos Com relação aos fenômenos místicos, uma das características marcantes daqueles que buscavam uma experiência com Deus referia-se ao fato de que também buscavam exercer o bem no círculo de sua ação (referência à teoria física), ou seja, por onde passavam e/ou atuavam. Embora não houvesse necessariamente uma ligação entre a teoria física e extática (experiência de êxtase), uma das características dos que buscavam a face de Deus demonstra que eles também exerciam o bem no círculo de sua ação. Mas para que pudessem discernir na maneira de proceder, já que de certa forma estavam fora dos dogmas impostos pelas instituições religiosas (muitas vezes das próprias instituições a que pertenciam), precisavam se retirar com o objetivo de ouvir a voz de Deus. Segundo Fuks, os místicos católicos,

foram procurar na separação, na solidão e no isolamento condições para

romper com o pensamento totalizante da Igreja Católica e experimentar Deus

direta e subjetivamente. Num gesto de oposição à maioria compacta, os

santos e místicos católicos procuravam, na errância e

na solidão, uma

49 Quinet, Antonio, Teoria e Clínica da Psicose. Rio de Janeiro: Editora Forense Universitária., 2003,

pp.112.

18

experiência espiritual fora dos quadros tradicionais da teologia dogmática. A

fala mística aparece desse modo, como um ponto de fissura no discurso dos

que pretendem ser iguais 50 .

A partir de suas experiências na solidão, ao retornarem, os místicos exerciam seu

trabalho de forma particular e por vezes, eram considerados loucos ou inconvenientes

aos olhos da maioria.

Assim, as colocações do físico David Bohm e do psiquiatra Jacques Lacan

permitem fazer uma análise da característica dos primeiros místicos que buscavam o

isolamento ou a solidão para viverem suas experiências espirituais.

Tais pressupostos permitem inferir que a solidão era a forma frequentemente

encontrada pelos místicos para se posicionarem externamente ao contexto em que se

encontravam. Contexto que envolvia tanto os complexos familiares quanto o âmbito

institucional e social. Os místicos buscavam no isolamento subsídios para serem

atuantes diante de seus desafios, quebrando dogmas e paradigmas, não se permitindo

influenciar pelo fluxo constante de emoções e sentimentos pelos quais todos somos

atravessados 51 . Neste sentido, segundo Einstein, “o indivíduo que teve experiência de

solidão não se torna vítima fácil da sugestão das massas” 52 .

Alguns exemplos de místicos que relataram várias de suas experiências de

transcendência, mas que atuaram diante dos desafios de sua época foram:

Na obra

O

Livro da Vida, Santa Teresa de Ávila relata várias de suas

experiências que chamou de arroubamentos e conta o quanto se sentia alheia durante o

50 Fuks, Betty, Freud e a Judeidade, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2000, pp.110

51 Bohm, David & Hiley, Basil. The Undivided Universe: an Ontological Interpretation of Quantum Theory. New York: Routledge Ed., 1993, pp.397.

52 Rohden, Huberto, Einstein, O Enigma do Universo. São Paulo: Martin Claret, 2008, pp.172-173.

19

período em que duravam 53 . Mesmo com suas experiências místicas, fundou o Convento

de São José, em Ávila, modificando o modelo de vida religiosa da época, que era de

refúgio (para quem desejava uma vida com menos dificuldades). Apesar de ter seu

projeto aprovado, Teresa foi muito criticada pelos nobres, juízes, pela camada popular e

até mesmo por suas companheiras religiosas. Mesmo assim, inaugurou dezesseis

conventos, sendo um deles masculino, com o apoio de São João da Cruz, que a

assessorava. Santa Teresa recebeu o título de Doutora da Igreja, tendo seu talento

reconhecido com uma inteligência fora do comum e uma sensibilidade extraordinária 54 .

São João da Cruz, auxiliar de Santa Teresa na reforma carmelita, segundo

Sciadini 55 , foi poeta, místico e um dos maiores e destemidos opositores da Espanha do

século XVI. Para São João, a Igreja precisava tanto de pessoas que agissem quanto de

pessoas que vivessem com convicção.

Da mesma forma, São Francisco de Assis combinou a vida contemplativa de

monge com a vida ativa de um pregador leigo. Ao mesmo tempo, trabalhou para a

reforma da Igreja e foi um exemplo de pobreza e humildade. Transformou-se em um

pacificador

dentro

de

uma

Igreja

que

na

época

se

encontrava

estagnada

e

era

fomentadora de guerra 56 . São Francisco desmobilizou as tropas papais, sem armas,

afirmando que Jesus proibia de matar 57 .

53 D’Ávila, Tereza, Livro da Vida. São Paulo: Editora Paulus, 1997[1562], pp.195

54 INFOESCOLA. Santa Teresa D’Ávila.

teresa-davila. Acesso em: 20/06/2011.

55 Sciadini, Patricio. São João da Cruz. São Paulo: Edições Loyola, 1995, pp. 19-20, 39, 74

56 McMichaels, W. Susan, Journey Out of the Garden: St. Francis of Assisi and the Process of Individuation. New Jersey: Paulist Press, 1997, pp.14-15

57 Dolto, Françoise & Sévérin, Gérard. A Fé à Luz da Psicanálise. Campinas: Verus Editora Ltda., 2010,

pp.36.

20

No Oriente, Mohandas Karamchand Gandhi buscou de maneira semelhante

conciliar sua vida de místico com a de pacifista. Era advogado, atendia a várias pessoas

da população e conseguiu que as tropas inglesas deixassem a Índia sem derramamento

de sangue. Era descendente de membros da casta sacerdotal, considerada a primeira

entre as quatro castas da sociedade hindu 58 . Desde sua infância frequentava lugares

sagrados e de prece. Buscava no silêncio e na meditação forças para continuar seu

trabalho 59 .

Outra figura de grande importância para a ciência e pouco conhecida pelo seu

lado místico foi Albert Einstein. Segundo o biógrafo Walter Isaacson 60 , Einstein

demorou para aprender a falar e tinha tanta dificuldade com a linguagem que membros

da família o rotularam de “quase retardado”. Ao crescer, atribuiu a formulação da teoria

da relatividade a sua infância, visto que se desenvolveu tão lentamente que começou a

pensar nas questões sobre espaço-tempo depois de adulto.

Quando criança, Einstein passou por uma fase de êxtase religioso; depois

rebelou-se contra ela, passando 30 anos sem abordar o assunto. No entanto, ao chegar

aos 50 anos, aos poucos começou a articular mais claramente a apreciação de sua

herança judaica e de sua crença em Deus, sob um ponto de vista impessoal e deísta 61 .

Em seu livro Como Vejo o Mundo 62 , chamou esta ligação com o Deus antropomórfico

de Religiosidade Cósmica:

Ora, os gênios-religiosos de todos os tempos se distinguiram por esta

religiosidade ante o cosmos. Ela não tem dogmas nem Deus concebido à

58 Brâmane. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Br%C3%A2mane. Acesso em 08/06/2012

59 Mahatma Gandhi. Disponível em: http://www.culturabrasil.org/gandhi.htm. Acesso em 08/06/2012

60 Isaacson, Walter, Einstein, sua Vida, seu Universo. São Paulo: Cia das Letras, 2007, pp.28.

61 Idem, ibidem, pp. 394, 395, 399

62 Einstein, Albert, Como Vejo o Mundo, Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1981[1953]. Tradução do original alemão H.P. de Andrade, pp.12-13

21

imagem do homem, portanto nenhuma Igreja ensina a religião cósmica.

Temos também a impressão de que os hereges de todos os tempos da história

humana se nutriam com esta forma superior de religião. Contudo, seus

contemporâneos muitas vezes os tinham por suspeitos de ateísmo, e às vezes,

também, de santidade. Considerados deste ponto de vista, homens como

Demócrito, Francisco de Assis, Spinoza se assemelham profundamente 62 .

Para Einstein, a crença em algo maior que ele mesmo se tornou um sentimento

definidor. Seu deslumbramento e humildade perante o universo formaram a base de seu

senso de justiça social.

Foi coerente ao rebater a acusação de ser ateu e se zangava

quando as pessoas usavam seu nome para apoiar tal argumento 61 .

Segundo Huberto Rohden, a experiência de Einstein com o Deus cósmico

tornava-o um homem profunda e silenciosamente feliz 63 . Sobre o contato com a solidão,

Einstein argumentava:

Penso noventa e nove vezes e nada descubro; deixo de pensar, mergulho

em profundo silêncio e eis que a verdade me é revelada. [

] Talvez algum

dia a solidão venha a ser adequadamente reconhecida e apreciada como

mestra da personalidade. Há muito que os orientais o sabem 64 .

Segundo Isaacson 65 , desde criança a curiosidade e imaginação de Einstein se

expressavam através de imagens e experimentos mentais e não verbalmente. Einstein

denominava este processo de iluminação súbita, quase um êxtase.

Diante de tais fatos, destacamos que Einstein possuía características comuns aos

místicos apresentados até aqui e sua dificuldade com a linguagem isolou-o do mundo

secular,

mas

ajudou-o

a

formular

uma

das

importantíssimas na ciência.

teorias

responsáveis

por

mudanças

63 Rohden, Huberto, Einstein, O Enigma do Universo, São Paulo: Martin Claret, 2008, pp.16, 27, 47

64 Idem, ibidem, 172-173.

65 Isaacson, Walter, Einstein, sua Vida, seu Universo. São Paulo: Cia das Letras, 2007, pp.558-559

22

Para a psicanalista Françoise Dolto 66 , a busca por ser santo 67 , no caso dos

místicos religiosos, e acrescentamos, pela solidão, no caso de Einstein, manifesta o

desejo

de

encontrar

algo

do

desconhecido,

do

invisível

situado

para

além

do

inconsciente. Para Dolto, tais experiências ultrapassam a linguagem 68 .

Assim, a retirada, o isolamento, a saída do fluxo constante, configura uma

escolha para uma busca, com o objetivo de ser atuante e/ou encontrar uma saída para as

questões que surgem, fato que não ocorre no caso dos psicóticos.

Logo, propondo uma distinção entre os fenômenos místicos e conforme a

denominação da psiquiatria, os sintomas psicopatológicos, em 1997, os pesquisadores

Jackson & Fulford 69 da Universidade de North Wales, Reino Unido, elaboraram um

quadro comparativo e diferencial. Segundo os autores, entre outras características, nas

experiências místicas as vivências são orientadas a outras pessoas buscando seu bem-

estar e nos sintomas psicopatológicos, as vivências são quase sempre orientadas para si,

como uma invasão.

Com base nestes argumentos, podemos pensar que o psicótico é atravessado pelo

fluxo constante de sentimentos, pensamentos, desejos, urgências e impulsos que se

encontram interconectados e fluindo entre si, conforme argumentou o físico David

Bohm 70 . Mas de maneira oposta ao místico, que exerce o poder de escolha pela solidão

e pelo isolamento, para voltar e ser atuante em seu meio, o psicótico fica à mercê deste

66 Dolto, Françoise & Sévérin, Gérard. A Fé à Luz da Psicanálise. Campinas: Verus Editora Ltda., 2010,

pp.129.

67 A etimologia da palavra santo vem do termo hebraico kadosh, que significa separado (Fonte: Fuks, Betty, Freud e a Judeidade. Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, RJ, 2000, pp.105)

68 Dolto, Françoise & Sévérin, Gérard. A Fé à Luz da Psicanálise. Campinas: Verus Editora Ltda., 2010,

pp.111.

69 Dalgalarrondo, Paulo, Religião, Psicopatologia & Saúde Mental. Porto Alegre: Artmed. 2008, pp.168-

170

70 Bohm, David & Hiley, Basil, The Undivided Universe: an Ontological Interpretation of Quantum Theory. New York: Routledge Ed., 1993, pp.397.

23

fluxo recebendo todo tipo de informação e manifestação corporal, podendo agir de

forma destrutiva.

A Criação da Psicanálise e o Processo de Transcendência

Com relação ao processo de isolamento, a inauguração da Psicanálise remete à

influência da solidão vivida por Freud durante anos de exílio.

Segundo o Dicionário Aurélio 71 , transcendente significa: ultrapassar os limites da

experiência possível; aquilo que ultrapassa a nossa capacidade de conhecer; aquilo que

se eleva além de um limite ou de nível dado. O que queremos destacar aqui é a conexão

entre os processos de solidão e isolamento e o desenvolvimento de novas maneiras de

pensar, superando ou transcendendo padrões ou paradigmas e que por vezes impedem

novas descobertas e capacidades encobertas pelos processos inconscientes construídos e

marcados ao longo do tempo.

Tal constatação permite-nos considerar que enquanto as ciências tradicionais

buscavam na matéria a explicação para as questões da vida em todos os sentidos 72 ,

Freud foi além ao descobrir o inconsciente. Percebeu que o corpo simbolizava através

de sintomas algo que o sujeito reprimia: sintomas que nada tinham a ver com o

funcionamento biológico. Em um contexto onde as crises histéricas eram consideradas

fingimento, Freud decidiu investigar os sintomas. Assim, inaugurou a Psicanálise, indo

além do que era investigado apenas no âmbito da matéria e suas propriedades físicas e

químicas.

71 Holanda, Aurélio Buarque, Novo Aurélio: O Dicionário da Língua Portuguesa, séc.XXI, Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1999, p. 1985

72 a Física como ciência da excelência no sentido de estudar as propriedades da matéria e as leis que podem modificar seu estado ou movimento e a Biologia na busca pela origem do homem, suas relações com o corpo e a origem da vida.

24

Ao longo de sua construção, a Psicanálise dialogou com várias ciências e seu

fundador deixava claro que a Psicanálise achava-se sempre incompleta e sempre pronta

a corrigir ou a modificar suas teorias 73 . Segundo Fuks,

A Psicanálise não é, portanto, de ninguém, o que não quer dizer que não

possa ter as marcas de outros saberes. Mas a rigor deverá estar em qualquer

lugar e, ao mesmo tempo, buscar no exílio sua cidadania. Freud procurava

conferir uma mobilidade à psicanálise de tal modo que ela pudesse

transportar-se, bem como a seus conceitos, para outros campos do saber.

Preocupava-se com manter sua descoberta de como uma causa errante, ao

mesmo tempo em que estabelecia sua relação de proximidade com os outros

campos, para não condená-la à clausura 74 .

Em Freud e a Judeidade 74 , Fuks demonstrou que os traços de exílio e de êxodo

do povo judeu, e que fazem parte de sua história, desempenharam um papel essencial na

descoberta

do

inconsciente

freudiano.

As

discriminações

sofridas

por

Freud

contribuíram para que ele aprendesse a viver em “oposição à maioria compacta”; o

isolamento e a solidão dos anos de universidade tendo que encarar a perseguição aos

judeus contribuiu para que exercitasse a capacidade de pensar por si próprio. Desta

forma, a Psicanálise trouxe à tona algo que se move segundo outros critérios que

diferem das normas da consciência, tão exaltada pelo racionalismo. Em direção oposta

ao racional, a Psicanálise se configurou como um método de escuta do deformado, do

incoerente, do diferente.

O isolamento e o desenvolvimento da capacidade de pensar de forma diferente

remetem

ao isolamento

dos

místicos que

retornavam

de

suas

experiências

com

elementos que lhes permitiam contestar os dogmas e exigências impostos pelas

instituições religiosas.

73 Freud, Sigmund. Identificação, Freud - Obras Completas. Vol. XVIII. Rio de Janeiro: Imago, 2000[1925], Edição Eletrônica (s/numeração).

74 Fuks, Betty, Freud e a Judeidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2000, pp.29, 56

25

Avançando em nossa argumentação, outro ponto que indica uma relação entre a

criação da Psicanálise e o isolamento dos místicos, antes de retornarem e atuarem,

refere-se à história do povo judeu como povo separado, diferente e a influência que

Freud recebeu de sua cultura. Este povo escravo na terra do Egito, terra de vários deuses

para os mais diversos propósitos, passou por um exílio no deserto em direção à Terra

Prometida, guiado por um Deus sem nome e para o qual era proibida a reprodução em

imagem:

A estranheza assombrosa de um Deus feito de nada, sem conteúdo, sem nomeação e sem essência, é o escândalo da alteridade radical, de uma ausência sem limite de tempo, de ontem, de hoje e de sempre. Do mesmo modo, o Nome indizível da Bíblia hebraica é o fora-do-discurso radical, o que é da ordem da linguagem, mas não há como fixar, isto é, conter numa identidade 75 .

Neste sentido, as experiências dos místicos e de solidão parecem remeter a este

encontro com o inefável, com o inominável e que ser for nomeado passará a ser criação

humana, não mais ligado ao que está além.

Desta

forma,

a

procura

dos

místicos

pelo

inefável,

pelo

aparentemente

imperceptível indicava que buscavam escapar dos dogmas e imposições de suas

instituições e do meio em que estavam inseridos, inclusive a família, sentindo-se assim,

livres para atuar. De maneira semelhante, o isolamento de Freud, mesmo diferente da

forma espontânea com que os místicos buscavam, apontava para sua luta contra a força

coercitiva dos vínculos e modelos causadores de intolerância em qualquer comunidade:

“a religiosidade vivida como idolatria, isto é a impossibilidade de se reinventar como

judeu e assim deixar de poder sê-lo de novo, uma vez ainda, num processo infindável,

75 Idem, ibidem, pp.100

26

num devir”. Freud considerava o evitar deste movimento uma consequência de efeitos

maléficos do dogmatismo religioso 76 .

Tais argumentações permitem-nos concluir que existem mais elementos em

comum do que divergentes no que diz respeito aos fundamentos dos processos

psíquicos e transcendentes. Processos que vão muito além de dogmas e preceitos

religiosos estabelecidos ao longo da história. Questões que ultrapassam os limites

biológicos, sociais e culturais e apontam para a importância em considerarmos que

existem outros indicadores além da matéria que ampliam a capacidade do homem criar,

recriar, descobrir e potencializar sua capacidade, para além do tempo, do espaço, do

inconsciente e da linguagem.

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