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Geomorfologia da plataforma continental do Estado de São Paulo Emb.

Teórico

2. EMBASAMENTO TEÓRICO

2.1. Feições de plataforma continental associadas à variação do


nível do mar

O
regime de variação do nível do mar produz, em plataformas
continentais, uma série de estruturas referentes à migração
da zona costeira ao longo de seu perfil longitudinal. Pode-se
considerar que a forma do substrato é fruto destes processos, associados e
modificados pela dinâmica de sedimentação marinha posterior. Eventos
climáticos globais ocorridos ao longo do Quaternário têm um papel
fundamental nas mudanças relativas do nível do mar.

Segundo Swift (1976), plataformas passivas, cujo relevo apresenta


irregularidades estiveram submetidas à exposição sub-aérea pré holocênica.
Deve-se salientar, porém, que elementos de origem erosiva de menor escala,
como vales fluviais, pequenas bacias e cuestas tendem, em geral, a serem
modificados por processos transgressivos posteriores. Por outro lado feições
de maiores dimensões, embora também possam ser modificadas e
retrabalhadas, tendem a se manterem relativamente inalteradas, podendo ser
apontadas como indicadores de paleo-ambientes. Os maiores exemplos
deste tipo de relevo, segundo o autor, estão relacionados a formações
carbonáticas como recifes de coral, construções de algas carbonáticas e
arenitos praiais (beach rocks), já que estes são muito mais resistentes à
destruição durante a passagem da linha de costa.

Além das formas ligadas a relevos carbonáticos, há três tipos


principais de feições tipicamente ligadas a variações do nível do mar: os
sistemas de terraços e escarpas, que são associados a feições praiais
reliquiares relativas à estabilização de linha de costa e vales submersos que,
de maneira geral, estão associados ao entalhamento sub-aéreo de superfície

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(paleo-drenagem). Uma vez identificadas, tais feições podem ser


correlacionadas espacialmente e associadas a posições do nível marinho.

Além dos eventos regressivos, outros processos podem determinar as


características morfológicas da região da margem continental. A presença de
correntes geostróficas e eventos de alta energia, associados a tempestades,
podem exercer um papel determinante na morfologia de fundo e na
distribuição sedimentar e via de regra, todos estes processos combinam-se,
tornando necessário o estudo de fatores presentes e pretéritos, de modo a
exercer uma análise satisfatória da geomorfologia da plataforma continental e
talude (Faugeres & Stow, 1993).

O sistema climático do Quaternário, principalmente dos últimos


900.000 anos (ou 900 quiloanos – Ka), apresentou mudanças consideráveis,
gerando períodos de glaciação intercalados com períodos interglaciais. Tais
variações estão relacionadas a sistemas de ciclos astronômicos e planetários
com frequências distintas que são denominadas "Ciclos de Milankovitch",
baseados na combinação de uma série de variáveis astronômicas que
controlaria o regime climático da Terra em baixas freqüências. Dessas
variáveis, as mais representativas referem-se a diferenças da excentricidade
da órbita da Terra (em períodos de aproximadamente 100ka), variações no
eixo de rotação da Terra (obliquidade da eclíptica - período de
aproximadamente 40ka) e a variação no plano de rotação da Terra
(precessão dos equinócios - período de 21ka) (Pillans et al. 1998).

Esses ciclos fizeram com que o nível do mar respondesse a estas


mudanças climáticas de maneira característica, uma vez que o
aprisionamento de grandes quantidades de água nas calotas polares, em
peíodos frios, faz com que o volume de água líquida nas bacias oceânicas
diminua, produzindo um abaixamento no nível do mar. Este mecanismo,
chamado de glaciostasia, pode ser considerado como o principal fator global
de variações do nível marinho ao longo do Quaternário.

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A resposta do nível marinho para mudanças climáticas pode ser


estimada pelo modelo de Lambeck e Chappel, (2001). Numa primeira
aproximação, o volume de gelo equivalente à variação do nível do mar
∆ζ (t ) é dada por:
e

ρi 1 dVi
∆ζ (t ) = − dt (2.1.)
e ρ A (t ) dt
o t o

em que Ao(t) é a área superficial do oceano e ρi e ρo são as


densidades do gelo e do oceano respectivamente. Esta equação representa
a variação eustática, se não houver outros fatores influenciando o volume do
oceano.

Além da glaciostasia, considera-se como principais causas de


variações do nível do mar, a variação no tamanho da bacia (tectonoeustasia)
e as mudanças na superfície equipotencial gravitacional (geoidoeustasia).

Este cenário de causalidade guiou, durante muito tempo, o estudo de


padrões e registros geológicos em plataformas continentais. Neste contexto,
surgiram uma série de curvas globais de variações do nível do mar, como
resposta direta aos ciclos astronômicos. Durante as últimas décadas do sec.
XX, com a obtenção de dados mais precisos de indicadores de paleo-níveis
marinhos, uma série de ambigüidades e dúvidas surgiram questionando a
idéia de que ciclos globais e periódicos determinavam, de maneira absoluta,
as relações entre mudanças climáticas globais guiadas por ciclos de
Milancovitch e variações eustáticas em sitios tectonicamente estáveis. Nos
últimos anos, novas idéias surgiram sustentando que, além desses ciclos de
baixa frequência, há uma série de ciclos de frequências maiores que
determinam consideráveis variações, dentro do mesmo ciclo de Milankovich.

Tais variações de menor frequência não parecem ter relação direta


com sistemas astronômicos e, possivelmente, estão ligadas a dinâmica

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atmosférica e oceânica em escalas regionais, não apresentando uma


ciclicidade tão pronunciada (Heinrich, 1988). Estudos recentes mostram que
tais variações foram mais preponderantes ao longo do último ciclo glacial e
seriam causadas por fatores como mudanças no padrão de circulação do
Atlântico Norte, variações na concentração de CO2 na atmosfera, variações
na reflectibilidade do planeta (albedo), aumento na concentração de vapor de
água na atmosfera, mudanças na concentração de material particulado na
atmosfera e mudança na intensidade de insolação (Broecker,1998 ;
Taylor,1997 e Adams et al.,1999) (figura 2.1.).

Durante o período que sucedeu o último máximo glacial, o


aquecimento global foi extremamente rápido, com a subida do nível do mar
refletindo esta condição. Durante a ascensão do nível marinho houve,
entretanto, uma série de períodos de relativa estabilidade ou mesmo
retrações do nível do mar acompanhando condições climáticas mais frias,
reflexo de eventos de alta frequência anteriormante citados (Lehman, 1996;
Bond et al., 1997).

Figura 2.1. - Fatores que determinam a variação


relativa do nível do mar. (Morner, 1980)

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Estes eventos, aparentemente, foram mais pronunciados no hemisfério


norte, sendo que os melhores indicadores encontram-se, principalmente, em
testemunhos de gelo do Atlântico Norte (Groenlândia). Dentre estes eventos,
três são mais pronunciados e englobam um maior conjunto de evidências. O
evento mais conhecido e descrito, aparentemente teve uma ocorrência
pronunciada em todo planeta e é chamado de Younger Dryas. Ocorreu entre
12,9 e 11,5 ka e, tal como nas frequências maiores de glaciações, constituiu-
se de um periodo relativamente longo de esfriamento seguido por
aquecimento abrupto, em pulsos (Lambeck & Chappel, 2001). Outros dois
eventos descritos em literatura e cujas evidencias apresentam-se de maneira
mais generalizada, ocorreram entre 17 e 15 ka e entre 7 e 10 ka
respectivamente. Localmente, entretanto, há evidências que tais períodos
ocorram com uma frequência consideravelmente maior. Bound et al., op cit,
sustentam a ocorrência de periodicidades médias de 1500 anos durante o
Quaternário tardio.

2.1.1. Sistemas de terraços e escarpas em Plataforma Continental

Estudos mostram que períodos de estabilização do nível do mar


produziram, na plataforma continental, uma série de feições morfo-
sedimentares, principalmente relativos à paleo-sistemas costeiros, com a
preservação de barras arenosas submersas e terraços erosivos e
deposicionais.

Swift (1976), relaciona a presença de terraços, basicamente com


estruturas erosivas referentes a terraços de abrasão por ondas (wave cut
terraces) e secundariamente a terraços de contruções por ondas (wave built
terraces), abandonados na retaguarda do sistema costeiro em nível do mar
ascendente. Segundo o autor, feições acima do nível da zona de surf seriam
erodidas e retrabalhadas durante o processo trangressivo (figura 2.2.). Esta
explicação é derivada da premissa de que o nível marinho esteve estabilizado
por um tempo necessário para formar tais feições e de que a sua posterior
ascenção foi suficientemente rápida preservando a superfície de abrasão

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(terraço). Em subidas mais lentas a evolução do perfil inicial ao perfil


resultante seria gradativa.

TERRAÇO

Figura 2.2.- Formação de escarpa por ascenção marinha


(Froidefond, 1982)

Esta mudança do perfil, além de produzir feições de terraços, interfere


na declividade média da plataforma, devido ao déficit no balanço sedimentar
provocado por tal processo (Trenhaile, 2001). Modelos numéricos de
evolução de terraços em nível do mar ascendente, prevêem uma diferença de
até 2% no perfil médio resultante de uma plataforma sujeita a passagem do
nível marinho, desde que o aporte de sedimento não seja suficiente para
realimentar o perfil.

Inman et al. (2002), desenvolveram um modelo numérico de simulação


em uma plataforma em nível do mar ascendente constante em 100 cm por
século. Tal ascenção é interrompida por um período de 1000 anos de
estabilidade em um ponto e o processo de ascenção é retomado. Observou-
se que houve a construção de um terraço de abrasão de, aproximadamente,
100 metros de largura com uma escarpa associada de 2 metros de amplitude.
Este modelo, embora generalize condições como energia de ondas, fatores
meteorológicos espasmódicos (tempestades) e aporte de sedimentos,
apresenta resultados que condizem com observações de plataformas
continentais passivas (Inman et al. 2003) (Figura 2.3.).

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FIGURA 2.3. Modelo numérico de construção de terraços/escarpas em seqüência de


transgressão/estabilização/transgressão (Inman et al., 2002 com modificações).

Terraços deposicionais, associados à construção por ondas (wave built


terraces) geralmente estão associados a eventos mais energéticos e são
depositados nas porções à retaguarda (off-shore) dos terraços de abrasão.
Podem ser eventualmente preservados embora normalmente sejam mais
facilmente erodidos, visto a condição não coesiva dos sedimentos
depositados. Chiocci e Orlando (1996), Identificaram terraços associados à
estabilização de níveis marinhos em ilhas do Mediterrâneo e os relacionaram
com formações de construção. Tais feições apresentam estruturas
características, identificáveis através de análises de perfis sísmicos de alta
resolução. Ao contrário de terraços de abrasão, que são marcados por

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apresentar descontinuidades erosivas, os terraços de construção apresentam


estruturas deposicionais, principalmente do tipo retrogradante.

De maneira geral, a presença de escarpamentos lineares paralelos à


linha de costa são associados a tais períodos e ocorrem em um mesmo
intervalo de profundidades, embora com certas diferenças locais. No caso da
plataforma continental atlântica norte americana, por exemplo, estas feições
são chamadas de “Paleo-costas de Franklin” (Franklin Paleo-shores) e
apresentam profundidades de aproximadamente 20, 45 e 100 metros,
respectivamente e, geralmente, apresentam estruturas erosivas (Duncan et
al., 2000).

Wagle e Weerayya (1996), identificaram feições de cristas arenosas


submersas de origem deposicional que, segundo os autores, são associadas
à períodos de estabilizações na plataforrma continental da região de
Bombaim, India, nas profundidades de 75, 80-95 e 100 metros.

Diversos outros trabalhos correlacionam feições de escarpamento em


plataforma continental, tanto erosivos quanto deposicionais, a períodos de
estabilização ou regressões pontuais durante o período pós Último Máximo
Glacial (UMG). Podem ser citados os trabalhos de Chiocci e Orlando (1996)
na região do Mediterrâneo, Nodder (1995) na Nova Zelândia, Collina-Girard
(1999a e1999b) na região da Provença, França, Ergin, et al. (1996), no mar
de Marmara, entre outros.

No Brasil, o primeiro trabalho que relacionou a presença de terraços e


rupturas de relevo associadas à posição de níveis de estabilização foi
Kowsmann et al.,(1977), que identificou a ocorrência níveis topográficos a
110 e 60 metros de profundidade. Kowsmann & Costa (1979) determinaram
seis níveis de estabilizações, baseados, além da presença de
terraços/escarpas, na presença de zonas ricas em componentes terrígenos
na fração grossa. Tais estudos estabeleceram uma correlação cronológica
das posições das escarpas com períodos de estabilização, a saber:

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a) -130 metros, datado por C14 e locado comparativamente com a


curva de Millimann & Emery (1968) em 15.000 anos A.P.

b) -110 metros, datado por C14 em 14.000 a 13.000 anos A.P. e


constituídos por sedimentos terrígenos, escarpas de face praial e terraços
erosivos.

c) -90 metros e -75 metros, datado comparativamente com a curva de


Milliman & Emery (op. cit.) em 12.000 a 11.000 anos A.P. e constituído por
terraços erosivos;

d) -60 metros, datado por C14 em 11.000 anos A.P. e constituído por
sedimentos terrígenos, terraços erosivos e a paleo-laguna de Abrolhos
(Vicalvi et al., 1975 apud Kowsmann & Costa, 1979);

e) -40 metros, datado comparativamente com a curva de Milliman &


Emery (op. cit.), em 9.000 anos A.P. e constituído por terraços erosivos e
escarpas.

Costa et al. (1988), identificaram, na plataforma continental de São


Paulo, três escarpas em 130, 110 e 60 metros de profundidade. Os trabalhos
de Corrêa et al. (1979), Corrêa et al. (1991) e Corrêa (1996) também
identificaram faixas de ruptura de relevo associadas à níveis de estabilização
na plataforma do Rio Grande do Sul, Paraná e São Paulo, a partir de uma
série de perfís batimétricos, em que são mais marcadas as feições de 20, 32,
60 e 75 metros de profundidade.

Para o Estado de São Paulo, Furtado et al. (1992), baseados na


análise de 16 perfís batimétricos transversais à linha de costa, observaram a
presença de um conjunto de terraços e zonas de escarpamento associadas
com profundidades médias1 em 130, 90, 60, 30 e 20 metros.

Percebe-se, a partir de tais trabalhos que, embora as feições de


estabilizações variem localmente, possuem uma coincidência grande em

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termos de profundidade. Faixas em profundidades como 120/130m, 60m, e


25m, por exemplo, são comuns na maioria dos trabalhos tanto no Brasil,
quanto em outras partes do mundo, indicando prováveis níveis marcados de
eventos de estabilizações (figura 2.4.).

Terraços em profundidades inferiores a 25 metros, embora possam


também ser indicativos de processos de estabilizações eustáticas, devem ser
criteriosamente avaliados, uma vez que a dinâmica atual pode ser
responsável pelo retrabalhamento, ou mesmo formação destas feições
(Figueiredo et al. 1981). Alguns autores sugerem que pode haver uma
remobilização efetiva em corpos arenosos em até, aproximadamente, 40
metros de profundidade (Snedden et al. 1999).

0
-20
profundidade (m)

-40 Kosmann et al. (1977)


kosmann e Costa (1979)
-60
Costa et al, (1988)
-80
Correa (1996)
-100 Furtado et al (1992)
-120

-140
5000 10000 15000 20000
anos ap

Figura 2.4. Posição das feições de terraços/escarpamentos em trabalhos no


Brasil

Outro fator que se deve levar em conta na análise da gênese e


evolução de terraços e escarpas associados ao regime de variação do nível
do mar, refere-se à preservação de sistemas de ilhas barreiras e bancos
arenosos submersos. Estes, em um regime transgressivo, podem ficar

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Em todos os trabalhos baseados em perfís batimétricos, a profundidade das faixas variam de perfil
para perfil, sendo os valores apresentados como médios, ou mais frequentes nos perfis.

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preservados, um vez que o processo de lavagem (overwash), seria sucedido


de uma ultrapassagem da linha de costa. Tal construção é marcada por
estruturas de soterramento de níveis lamosos lagunares por depósitos
arenosos transgressivos e, geralmente, apresentam-se em escalas regionais,
da ordem de dezenas de quilômetros (Lessa et al. 2000). Este processo
também é similar em overwash de construções de recifes de coral, em
regimes transgressivos (Semeuniuk, 1995).

Tendo em vista os diferentes processos genéticos de terraços


submersos, sua correlação com níveis de estabilização não deve ser direta,
dependendo do processo gerador, da energia das ondas durante sua
formação e da quantidade de sedimento transgressivo depositado
posteriormente, a relação entre terraços e o nível do mar, ocorre em
diferentes posições. No caso de terraços erosivos, a posição da superfície
erosiva encontra-se, normalmente, em até 10 metros abaixo do nível de
estabilização, podendo chegar a mais em terraços deposicionais. Tal
diferença pode ser compensada por posterior deposição transgressiva. A
profundidade do terraço, deste modo, não é um indicativo direto da posição
do nível do mar, mas sim do nível da superfície de abrasão pelo sistema de
ondas.

2.1.2. Sistemas de paleo-vales em plataforma continental.

Os paleo-vales escavados são feições comumente encontradas em


plataformas continentais, na medida em que estas estiveram expostas a
escavação sub-aérea em períodos regressivos, recorrentes durante o
Quaternário. Tal como no caso das feições de terraços de estabilização, há
duas questões principais a serem estabelecidas na análise destas estruturas
geomorfológicas: sua origem e sua preservação ou retrabalhamento em
períodos transgressivos posteriores.

Os sistemas de paleo-vale são bons geoindicadores de processos


quaternários, uma vez que refletem uma série de condições ambientais de
seu período de estabelecimento. Deve-se, entretanto, ao analisar tais feições,

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estabelecer uma conceituação básica por se tratar de diferentes sistemas e


estruturas, nomenclatura esta ainda não completamente normalizada na
literatura.

A primeira diferenciação conceitual é a noção de vales e canais. Em


termos geomorfológicos, consideram-se canais como feições escavadas,
profundos e largos o suficiente para transportar água e sedimento a ele
fornecido, enquanto um vale pode conter mais de um canal e ter uma
dimensão e profundidade maior do que uma unidade de canal (Wescott,
1993). Embora esta definição seja estabelecida, para o caso das plataformas
continentais, a identificação e análise destes sistemas de (paleo) canais e
(paleo) vales torna-se mais problemática, devido ao afogamento,
retrabalhamento e recobrimento das estruturas.

Considerar-se-á, neste trabalho, o termo paleo-canal como referente


às estruturas de corte e preenchimento da superfície erosiva, ocorrentes em
sub-superfície e identificadas em perfis sísmicos e paleo-vales, os sistemas
identificados a partir da modelagem da topografia do substrato. O termo
paleo-vale, no caso, engloba tanto as feições geomorfológicas de
estabelecimento de um ou mais canais, como também os sedimentos
estuarinos transgressivos posteriormente depositados, desde que se
configurem como uma depressão inclinada em uma direção. É de se esperar
que, na maior parte dos casos, seja possível identificar ambas as feições
(paleo-canais e paleo-vales) associadas. Neste caso, é proposta a
nomenclatura « sistemas canal/vale » ou SCV para a descrição do conjunto
de feições de superfície e sub-superfície, que identificam processos de
escavação fluvial e sua posterior remobilização e preservação.

Os processos de ascensão e descida no nível marinho fazem com que


a dinâmica fluvial na planície costeira e plataforma continental, apresentem
uma considerável mudança, visto o deslocamento do nível de base dos
sistemas de drenagem. Os vales escavados, encontrados atualmente em
plataforma continental são, portanto, fruto de um balanço entre a dinâmica
erosiva de incisão de canais em períodos de nível do mar baixo e do

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processo de deposição estuarina e marinha (ravinamento) em nível do mar


ascendente. A configuração destas estruturas depende, deste modo, de
fatores como o suprimento de material sedimentar, a energia do fluxo
(dependente da configuração da superfície), tipo e posição do nível de base
(Miall, 1991).

Koss et al. (1994), a partir de um modelo físico em escala, mostrou


que além da posição do nível de base (nível do mar), o regime de escavação
de canais e o estabelecimento de vales é, também, influenciado pela
velocidade da regressão ou transgressão marinha, já que o tempo de
estabilização de um perfil de equilíbrio é um fator decisivo para compreensão
dos tipos de feições geradas. Segundo o autor, a evolução de sistemas fluvio-
deltáicos, em regime de variações do nível do mar, pode ser generalizada a
partir de um modelo de estágios, baseados no aporte de sedimentos e
velocidade dos processos eustáticos.

Em um nível do mar estável por determinado tempo, há um acúmulo


de sedimento transportado à porção mais distal da planície costeira, fazendo
com que se estabeleça uma zona de baixa energia (baixa declividade) na
porção junto à linha de costa. A dimensão deste “prisma litorâneo” será
função da disponibilidade de material e tempo de residência do nível marinho
nesta posição, tal crescimento se dá tipicamente por progradação em
processos fluvio-deltáicos.

Com um abaixamento lento do nível marinho, há uma gradual


exposição desta feição, fazendo com que haja erosão na parte côncava e
deposição na parte convexa. A manutenção do perfil de equilíbrio durante a
progradação da linha de costa é realizada pelo processo de sedimentação
nas desembocaduras dos canais principais e tributários, sendo a taxa de
progradação função, basicamente, do aporte de sedimentos. Nesta situação,
há um crescimento dos deltas e um estabelecimento de poucos canais
principais (geralmente um único), que escavam os deltas anteriores à medida
que o nível do mar baixa.

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Por outro lado, se a queda do nível de base se der rapidamente, o


aporte de sedimentos não é suficiente para manter o perfil de equilíbrio. As
feições deltáicas crescem rapidamente (em espessura), diminuindo as
incisões fluviais nas porções inferiores das planícies, ou seja, há um
espalhamento da drenagem superficial fazendo com que apareçam uma série
de canais laterais, tendendo a um sistema de canais anastomosados. Nesta
condição, quase todo o sedimento fica retido na planície costeira, sendo que
o aporte residual para a plataforma continental se dá, apenas, por fluxo em
suspensão.

Em uma posterior transgressão marinha ocorre o recuo da linha de


costa em direção às estruturas depositadas na planície costeira. Os vales são
afogados mas tendem a manter sua morfologia. Processos de erosão de
flanco (valley wall slumping) são mais intensos em transgressões rápidas,
fazendo com que haja um alargamento das feições e estas podem,
eventualmente, servir de agente de exportação deste material para a
plataforma adjacente (cross shelf by-pass valley), principalmente se forem
vales principais (reativação de vales em queda lenta de nível do mar). Neste
caso, há uma menor taxa de recobrimento de vales por processos estuarinos
(ravinamento), e seu preenchimento se dará primordialmente, por processos
marinhos.

Este modelo explica, de certo modo, como os SCV são preservados.


No caso de processos de regressão marinha lenta seguida por transgressão
rápida (como ocorreu durante o último ciclo glacial) há uma tendência de que
se desenvolvam poucos vales e estes tendem a serem pouco retrabalhado e
preservados, como verifica-se em boa parte das plataformas continentais.
Durante eventos eustáticos de maiores frequências, entretanto, pode haver
uma reativação de processos de incisão de vales, porém em menor escala
temporal e espacial (Hu & Lee, 2002).

Não obstante este modelo explique muitos fatores envolvidos na


origem e evolução dos SCV, ainda há uma série de pontos controversos
relativos a estas questões. Estudos recentes revelam que a presença e

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Geomorfologia da plataforma continental do Estado de São Paulo Emb. Teórico

geometria de sistemas canal/vale em plataformas continentais e a posição


das drenagens atuais podem não apresentar uma relação direta. Algumas
dessas questões são abordadas em Ciocci (2002).

A primeira questão abordada refere-se à relação entre os SCV e a


posição atual dos rios. Há uma série de casos em que as paleo-drenagens
não possuem uma relação direta com o sistema de drenagens atuais. Em
alguns casos há um incompatibilidade espacial (deslocamento dos paleo-
vales em relação à desembocadura dos rios) ou dimensional (diferença de
tamanho dos rios atuais em relação aos paleo-vales). Alguns exemplos
destes tipos de incongruências referem-se aos rios Gironde, na França
(Lericolais et al., 2001), Danúbio, no Mar Negro (Popescu et al. 2001 e
Winguth et al, 2000), além de drenagens de menores dimensões na região
do Mediterrâneo (Chiocci et al. 1997). Outra questão ainda em aberto refere-
se ao problema da profundidade máxima de incisão. Em praticamente todo o
planeta, o nível do mar, ao longo do último período glacial, esteve a
aproximadamente 120 metros abaixo do atual, expondo boa parte das
plataformas continentais ao regime de incisão fluvial, entretanto, na maior
parte das plataformas continentais, os registros de SCV (principalmente
paleo-canais), cessam perto da isóbata de 70 metros (Talling, 1998). Mesmo
com tais questões controversas, ou não completamente compreendidas, o
estudo da configuração dos sistemas de paleo-vales em plataformas
continentais, representa um dos principais subsídios na análise da evolução
destes ambientes.

2.2. Sedimentação em Plataformas Continentais e feições


marinhas (atuais):

Além das estruturas morfológicas associadas à variação do nível do


mar, a dinâmica moderna de sedimentação também pode ser considerada
um agente geomórfico importante na configuração da topografia de PCs. Em
geral, tais feições apresentam um caráter local, refletindo condições
hidrodinâmicas específicas e cuja análise é feita, normalmente, em escalas
da ordem de 1:10.000 ou mais.

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Geomorfologia da plataforma continental do Estado de São Paulo Emb. Teórico

Segundo Swift (1976) o regime de variação morfológica de uma região


de plataforma continental clástica, em margens passivas, é determinado
segundo a relação:

SG R
− ∝T
E L
(2.2)

Em que S corresponde ao aporte de sedimentos para o sistema, G as


características granulométricas e mineralógicas dos sedimentos, E a taxa de
aporte de energia no sistema, R a variação relativa do nível marinho, L a
declividade e T a variação morfológica da plataforma.

Considerando a variação do nível do mar nulo (R = 0), o aporte de


sedimento e suas características são os principais agentes de formação de
estruturas morfo-sedimentares. Dependendo da intensidade da relação
“SG/E” considera-se uma plataforma morfologicamente ativa (ou alóctone) ou
inativa (autóctone).

O fator S é diretamente ligado à zona costeira e plataforma continental


interna adjacente, já que esta tende a funcionar como um “filtro
hidrodinâmico” na exportação de material terrígeno para áreas mais
profundas. A modelagem da capacidade de exportação de sedimentos ou
“permeabilidade sedimentar” da zona costeira foi estudada a fundo e um
grande número de modelos estabelece, para cada tipo de ambiente, esta
informação. A maioria deles opera sobre variáveis morfológicas e
hidrodinâmicas, onde a exportação de material se dá em forma de transporte
hidráulico (by-pass) através de correntes associadas a desembocaduras
fluviais e correntes de retorno (rip currents), ou por exportação de material em
eventos de alta energia (tempestades).

De um modo geral, este processo de exportação de sedimentos da


zona costeira para a plataforma continental se dá em quatro estágios (Wright
e Nittrouer, 1995). Tais estágios podem ocorrer em escalas temporais e

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Geomorfologia da plataforma continental do Estado de São Paulo Emb. Teórico

espaciais distintas e, dependendo do caso, outros fatores podem estar


envolvidos. O primeiro estágio envolve o espalhamento (spreading) e
decantação dos sedimentos carreados por fontes ligadas à drenagem
continental (plumas), o estágio II representa a deposição inicial ao largo do
estuário ou zona costeira e ocorre concomitantemente ao estágio I. Padrões
de barras associadas a estuários e padrões de progradação em plataforma
interna e média estão relacionados a este estágio (Wright, 1995). O estágio III
refere-se à re-suspensão dos sedimentos e transporte por tração por
correntes de fundo (bed stress), associado a fatores que envolvem correntes
de maré, ondas e correntes geradas por vento. À medida que tais agentes
perdem a competência de transporte, ocorre outra fase de deposição (estágio
IV). Pelo fato deste estágio ocorrer em áreas de menor dinâmica (plataforma
média e externa), está menos susceptível a mudanças em curto espaço de
tempo (Wright e Nittrouer, 1995).

Dependendo da dinâmica costeira local, do aporte e do tipo de


sedimento, pode ocorrer uma sensível mudança neste padrão. A presença de
um aporte fluvial de grandes dimensões pode fazer com que os estágios I e II
tornem-se predominantes e com uma continuidade em direção a quebra de
plataforma, como no caso da foz do rio Amazonas (Allison et al., 1995 e
Nittrouer, 1995). Por outro lado, se a dinâmica costeira for intensa e houver a
presença de correntes de retorno (rip currents), pode ocorrer a ausência dos
estágios II e III localmente, ou a migração desses em direção à plataforma
média e externa (Gruszczynski, 1993 e Brander, 1999).

O sedimento disponibilizado para a plataforma continental, responde


às condições hidrodinâmicas locais. Em regiões com grande disponibilidade
da material, correntes barotrópicas podem gerar feições como dunas
submersas (sand waves) e bancos arenosos (open shelf ridges), cuja
orientação é ortogonal ao sentido do fluxo (Cabral, et al. 2000). Por outro
lado, se a disponibilidade de sedimento for baixa, a atuação de correntes
regionais tende a modificar as características texturais e granulométricas do

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Geomorfologia da plataforma continental do Estado de São Paulo Emb. Teórico

sedimento (Mahiques et al. 2002) ou reativar estruturas preexistentes como


terraços e paleo-vales.

2.3. Métodos de análise geomorfológicas em plataformas


continentais

As análises geomorfológicas em plataformas continentais são, na


maioria dos casos, adaptações e generalizações de técnicas originalmente
desenvolvidas para regiões emersas, onde as principais feições identificadas
e analisadas são funções de processos regressivos. Há, na literatura, uma
série de trabalhos envolvendo a relação entre feições submersas e processos
sub-aéreos, sendo que a maioria deles estabelece meios qualitativos
baseados, principalmente, na análise de dados primários de batimetria a
partir de cartas ou registros de sonar de varredura lateral como verificado por
Swift et al. (1984); Goff et al. (1999); Orange (1999) e Wagle & Veerayya
(1996), entre outros. Por outro lado, métodos de cunho quantitativo foram
desenvolvidos visando o estabelecimento de valores e dimensões, para as
feições batimétricas associadas a processos de variação do nível marinho.

Os primeiros trabalhos realizados nessa linha foram elaborados pela


escola francesa, principalmente por Proud´Homme (1970 e 1972), Naudin
(1971), Griboulard (1980), Griboulard & Proud´Homme (1985). A elaboração
destes produtos, relativos a morfologia do relevo, apresentam ligações diretas
com descontinuidades relacionadas à heterogeneidade do substrato. Estão
na forma de anisotropias sedimentares como planos de descontinuidade,
variações litológicas e faciológicas, ou na forma de anisotropias estruturais ou
tectônicas como falhas ou dobras que caracterizam eventos tectônicos locais
ou regionais. (Reis, 1996).

Tais técnicas baseiam-se na elaboração, a partir de cartas


batimétricas, de uma série de produtos interpretados como diretamente
ligados a processos erosivos/deposicionais pretéritos e atuais, que
determinam a fisiografia atual do relevo a partir da elaboração de:

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Geomorfologia da plataforma continental do Estado de São Paulo Emb. Teórico

Superfície teórica regional (STR) e carta de anomalias de relevo (AR) a ela


associada: A superfície teórica regional é um plano teórico isotrópico, em que
as isóbatas apresentam-se paralelamente e eqüidistantes de modo a formar
uma superfície homogênea, realizada a partir da suavização da configuração
real da batimetria. A partir da comparação desta superfície teórica com a
superfície real, é possível definir zonas de anomalias. Estas representações
serão interpretadas e traduzidas como indicativos de fenômenos
deposicionais (anomalias positivas) ou erosivos (anomalias negativas), ou de
fenômenos tectônicos e características litológicas (Griboulard, 1980).

Variação de pendente (declividades): Expressa o grau de variabilidade


espacial da batimetria sendo caracterizada pela distância entre as isóbatas,
ou seja, a primeira derivada da batimetria. Os valores de declividade são
diretamente relacionáveis com as características físicas do substrato e dos
processos físicos associados.

Vigor do Relevo: Expressa o grau de rugosidade de uma superfície


(substrato) indicando, principalmente, suas características lito-estruturais,
caracterizado pela sinuosidade das isóbatas (Hobson, 1972 apud Corrêa,
1990).

Este método foi amplamente utilizado em diversas partes do mundo,


trazendo resultados bastante satisfatórios. No Brasil, Corrêa (1979. 1990 e
1996) e Reis (1996) desenvolveram tais estudos para a plataforma
continental do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, respectivamente.

Outros métodos de estudo de morfologia e morfometria de plataformas


continentais, também derivados de métodos de análise desenvolvidos para
áreas emersas, baseiam-se em análises matemáticas da conformação
geométrica da superfície, permitindo aproximações e relações das
características do relevo com sua estrutura (litologia) e processos (regime de
variações do nível do mar e tectônica). Cinque et al. (1995) desenvolveram
um modelo de simulação relacionando a forma geométrica de perfís
batimétricos com características das posições de estabilização do nível do

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Geomorfologia da plataforma continental do Estado de São Paulo Emb. Teórico

mar (dimensões e período). Trabalhos envolvendo técnicas de modelagem


não lineares (ou Fractais) também têm sido utilizadas com bons resultados,
tanto no que se refere as análises morfológicas (Herzfeld & Overbeck, 1999,
Mandelbrot, 1988, Conti et al. 2002), quanto na relação processos/registros
geológicos geomorfológicos (Turcotte, 1997). Também na linha de
modelagens de superfícies, métodos de matemática e geometria
computacional têm sido utilizados para a modelagem da batimetria de
plataformas continentais, tais como métodos de Vöronoi e Thiessem (Gold &
Condal, 1995 e Gold, 2000).

Todos estes estudos se propõem a analisar, a partir da forma e textura


do relevo submerso, os processos envolvidos com a formação de plataformas
continentais. Sendo, no caso de margens continentais passivas, composto
por quatro tipos.

Feições estruturais pré-quaternárias – Relacionadas com os eventos


de formação da plataforma continental e do oceano Atlântico. Podem se
apresentar como afloramento do embasamento, áreas de dobras ou falhas
não recobertas por sedimento. Em geral, são facilmente identificadas pelo
alto grau de rugosidade, geralmente altas declividades e por não
apresentarem, necessariamente, uma continuidade lateral muito embora, em
zonas de fraqueza estrutural, tendam a apresentarem-se alinhadas.

Feições erosivas quaternárias – Derivadas principalmente de


processos erosivos subaéreos, dentre os quais destacam-se redes de
entalhes associados a paleo-drenagens. Estas feições, embora apresentem
um variável grau de preservação à processos erosivos transgressivos
posteriores, tendem a apresentar continuidade espacial em direção a quebra
da plataforma.

Feições deposicionais quaternárias – Relacionada principalmente a


feições do tipo terraços/escarpas associados a estágios de estabilização do
nível do mar. Tendem a apresentar forte continuidade lateral e identificável

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Geomorfologia da plataforma continental do Estado de São Paulo Emb. Teórico

por correlação com outras áreas. Podem, em alguns casos, estar


relacionados com depósitos carbonáticos.

Feições modernas – Relativas a processos atuais como incisão


associada a correntes, estuários ou correntes de retorno. Associadas a estas
formam-se, também, estruturas deposicionais de progradação (em direção à
quebra da plataforma).

2.4. Técnicas digitais de análise geomorfológica


(geoprocessamento)

As técnicas morfométricas, aplicadas a plataformas continentais,


carecem de uma metodologia voltada às técnicas digitais de análise. Tal hiato
é bastante crítico, uma vez que os trabalhos com este cunho elaborados
manualmente, a partir de cartas, demandam um tempo e trabalho
consideravelmente maior do que aqueles realizados por computadores. Além
da economia de tempo, as análises geográficas baseadas em sistemas
digitais, possuem um grau de subjetividade nulo e permitem efetuar
operações que não seriam possíveis, ou proibitivamente trabalhosas, se
realizados através de métodos tradicionais.

Muitos estudos têm sido feitos para melhorar e aumentar a capacidade


de aplicações destas técnicas em ambientes marinhos e oceânicos. No que
se refere, especificamente, às análises geomorfológicas em escalas regionais
há, porém, relativamente poucos estudos que se propõe a estabelecer uma
metodologia e rotina de trabalho para o mapeamento de plataformas
continentais. Os impedimentos para um maior desenvolvimento não são
apenas tecnológicos, mas também conceituais. A falta de um completo
entendimento sobre a natureza espacial e temporal dos dados marinhos, em
especial os geológicos, continua a obstruir soluções para sua manipulação
em ambiente digital (Wright, 2003).

Muito do desenvolvimento atual da aplicação de geotecnologias, em


Oceanografia Geológica aplicadas a plataformas continentais, veio através do

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Geomorfologia da plataforma continental do Estado de São Paulo Emb. Teórico

projeto STRATAFORM (STRATA FORmation of the Margins), levado a cabo


na plataforma continental da California E.U.A.. Este projeto rendeu os
principais trabalhos sobre integração de informações geológicas /
geomorfológicas em banco de dados geográficos e aplicações de
geoprocessamento. Destaca-se, entre eles, os trabalhos de Nittrouer (1999),
Lee et al. (1999), Goff et al. (1999), Fonseca et al. (2003).

A idéia da utilização de técnicas de geoprocessamento, em


geomorfologia de plataformas continentais, é baseada em dois tipos
principais de aplicação. O primeiro tipo refere-se à análise quantitativa da
topografia, através de técnicas de modelagem digital de terreno (MDT) e o
segundo tipo refere-se à integração de dados de diversas naturezas em
sistemas de informação geográfica (SIGs).

Modelagem digital de terreno

O processo de geração de um MDT pode ser dividido em 3 etapas:


aquisição das amostras ou amostragem, geração do modelo propriamente
dito ou modelagem e, finalmente, utilização do modelo ou aplicações.

A amostragem compreende a aquisição de um conjunto de amostras


representativas do fenômeno de interesse. Geralmente essas amostras estão
representadas por curvas de isovalores e pontos tridimensionais. A
modelagem envolve a criação de estruturas de dados e a definição de
superfícies de ajuste com o objetivo de se obter uma representação contínua
do fenômeno a partir das amostras. Essas estruturas são definidas de forma
a possibilitar uma manipulação conveniente e eficiente dos modelos pelos
algoritmos de análise. Os modelos mais utilizados são os de grade regular
retangular e os de grade irregular triangular. As aplicações são
procedimentos de análise executados sobre os modelos digitais. As
aplicações podem ser qualitativas, tais como a visualização do modelo
usando-se projeções geométricas planares ou quantitativas tais como
cálculos de volumes e geração de mapas de declividades (Felgueiras, 2002).

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Geomorfologia da plataforma continental do Estado de São Paulo Emb. Teórico

A utilização deste tipo de operação, em áreas marinhas ou submersas


carece de trabalhos sistemáticos, sendo que a maior parte dos filtros e
operadores matemáticos utilizados neste procedimento, foram projetados e
desenvolvidos visando a aplicação para áreas emersas, onde o
comportamento do relevo é consideravelmente diferente.

Para a utilização desses parâmetros em plataforma continental,


algumas considerações devem ser feitas afim de tornar a aplicabilidade desta
técnica satisfatória.

• Irregularidade e hiatos de informação. A obtenção de dados batimétricos é


um procedimento extremamente trabalhoso e demorado, normalmente
adquiridos através de levantamentos sonográficos. No caso do Brasil, a
maior parte das informações batimétricas são elaboradas pela Diretoria de
Hidrografia e Navegação ligada à Marinha Brasileira, com o objetivo de
gerar documentos cartográficos voltados a navegação. Em regiões
costeiras o recobrimento dos levantamentos é, portanto, muito maior do
que em áreas mais profundas, onde o interesse quanto a navegação é
limitado. Deste modo é necessário uma análise criteriosa quanto a
geração de um modelo, já que a heterogenidade na densidade de dados e
mesmo a falta deles, pode comprometer a confiabilidade do produto
gerado. Assim, análises geoestatísticas são necessárias para a escolha
dos parâmetro utilizados na confecção dos modelos.

• Forma e estrutura das feições de interesse. A maior parte das feições


geomorfológicas nas plataformas continentais, se apresenta bastante
suavizadas, em virtude da dinâmica desses ambientes. Feições como
incisões de paleo-drenagens, escarpas e terraços são, na maioria dos
casos, extremamente sutís, principalmente nos casos de plataformas
arenosas e tectonicamente estáveis. Deste modo, ao contrário de área
emersas, a identificação e análise dessas estruturas é precedida por uma
série de operações de realce e homogenização. Nota-se, também, que
devido a história evolutiva das plataformas continentais, modeladas por

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Geomorfologia da plataforma continental do Estado de São Paulo Emb. Teórico

processos marinhos e sub-aéreos, os processos atuantes podem


amplificar, suavizar ou mesmo cancelar suas formas, tanto genérica
quanto localmente, tornando a análise genética e evolutiva extremamente
complexa.

• Confiabilidade do modelo. Devido a grande dificuldade e, em certos


casos, impossibilidade de comprovação da precisão dos dados obtidos
diretamente, as informações geradas a partir da análise geomorfológica
de plataformas continentais, apresentam um grau de incerteza maior do
que em áreas emersas, onde o auxílio de técnicas diretas podem ser
fundamentais na comprovação e validação do modelo (através de
técnicas de sensoriamento remoto, ou mesmo registros in situ).

• Questão de escala. Quanto a escala de aplicação do modelo, é


necessário observar que os fatores morfodinâmicos modeladores de
plataformas continentais podem produzir feições de diversas dimensões,
sendo que para cada tipo de feição/processo/local/objetivo, há uma
determinada escala de trabalho adequada. A tabela 2.1 representa, em
linhas gerais, as características dimensionais típicas de feições
topográficas ocorrentes em plataformas continentais.

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Geomorfologia da plataforma continental do Estado de São Paulo Emb. Teórico

Processos Feições principais Genese Dimensões/ escala de


analise
Sub-aéreo • Ravinamento • Variação do nivel
• Leques marinho
Costeiro • Cordões • Variação do nivel
• Pontais (spits) marinho/ • < 1 km –detalhe–
• Terraços/escarpas • Dinâmica atual >1:10.000
(wave cut/build)
• Praias • 1 - 10km – local-
Marinho • Formas de fluxo • Dinâmica atual 1.10.000 –1.100.000
construtivas ( ex.
ripples, sand waves) • > 1km – regional –
• Formas de fluxo <1:100.000
erosivas (ex. rip
channels)
Estrutural • Afloramentos do • Tectônico
embasamento
• Falhas
Biogênico • Terraços de • Variação do nivel
construções por marinho/
algas/corais • Dinâmica atual
Tabela 2.1.- Natureza de feições morfológicas de plataformas continentais

Sistemas de Informação Geográfica

O termo Sistemas de Informação Geográfica (SIG) é aplicado para


procedimentos que realizam o tratamento computacional de dados
geográficos e recuperam informações, não apenas com base em suas
características alfanuméricas, mas também através de sua localização
espacial. Oferecem ao usuário uma visão inédita de seu ambiente de
trabalho, em que todas as informações disponíveis sobre um determinado
assunto estão ao seu alcance, inter-relacionadas com base no que lhes é
fundamentalmente comum: a localização geográfica. Para que isto seja
possível, a geometria e os atributos dos dados num SIG devem estar
georreferenciados, isto é, localizados na superfície terrestre e representados
numa projeção cartográfica (Dias e Câmara, 2003).

Os SIGs não são uma tecnologia emergente. São usados por uma
ampla gama de disciplinas técnicas e acadêmicas, não só pela necessidade
de interação multidisciplinar, mas também, pela capacidade de prover

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Geomorfologia da plataforma continental do Estado de São Paulo Emb. Teórico

ferramentas universais para manipulação de dados espaciais (Borrough e


Frank, 1994). São constituídos por uma série de programas e processos de
análise, cuja característica principal é focalizar o relacionamento de
determinado fenômeno da realidade com sua localização espacial. Permitem,
assim, a integração de dados gráficos (base cartográfica) e não gráficos
(atributos), obtidos diretamente de campo ou através de subprodutos gerados
a partir de sistemas aplicativos (Teixeira et al.,1992). A estrutura de um SIG é
compreendida por um módulo gráfico associado a um banco de dados
relacional. Deste modo, é possível estabelecer relações dos dados espaciais
em diversos níveis, segundo a sua localização, ditado por um sistema de
coordenadas, e as informações geográficas temáticas nele contidas.

A aplicação de SIGs em ambientes marinhos e oceânicos tem sido


cada vez mais incrementada, uma vez que a integração de dados e análises
multivariadas, ajudam a construção de um quadro ambiental mais completo e
assim auxiliam a pesquisa em diversos ramos da Oceanografia. Dentre as
principais aplicabilidades destas tecnologias destacam-se os estudos de
planejamento e manejo de reservas e santuários marinhos (Schiff et al., 2001,
Bushing, 1997 ; Reuss-Strenzel, 1997 entre outros), na caracterização de
aspectos ambientais em oceanografia biológica (Shick, 2002 ; Kracker, 1999,
Johnson e Gage, 1997 entre outros) e em arqueologia marinha (Cooper et al.,
2002, Chapman & Cheetham, 2002).

No caso do presente trabalho, os sistemas de informações geográficas


permitiram a utilização de uma série de dados com características e
estruturas distintas, como imagens de satélite, dados batimétricos,
sedimentares e geofísicos, na concepção de um modelo geomorfológico mais
completo e íntegro e espacialmente normalizado, ou seja, com uma estrutura
georreferenciada.

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