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TV DESTINO

14/01/2009
Central Destino de Produção Cap. 08

FOGO SOBRE TERRA


Novela de
Walter de Azevedo

Inspirada no original de
Janete Clair
Colaboração de
Eduardo Secco

Direção
Claudio Boeckel e Marco Rodrigo

Direção Geral
Luiz Fernando Carvalho

Núcleo
Luiz Fernando Carvalho
Personagens deste capítulo

CHICA DELEGADO AMARO PEDRO


NARA CABO ANACLETO HEITOR
BRISA ZÉ MARTINS CELESTE
NILO SANDOVAL LUZIA
JULIANO RITA EDUARDA
BICHO-BRABO ARTHUR ANDRÉ
DIOGO PADRE LUÍS
CHRISTIANE DONANA
VIVI HILDA

Atenção
“ Este texto é de propriedade intelectual exclusiva da TV DESTINO LTDA e por conter informações confidenciais, não
poderá ser copiado, cedido, vendido ou divulgado de qualquer forma e por qualquer meio, sem o prévio e expresso
consentimento da mesma.No caso de violação do sigilo, a parte infratora estará sujeita às penalidades previstas em
lei e/ou contrato.”
FOGO SOBRE TERRA Capítulo 08 Pag.: 2

CENA 01. FAZENDA DE JOÃO. SALA. INTERIOR. NOITE

CONTINUAÇÃO. CHICA, NARA E BRISA ESTÃO SEGURANDO AS ESPINGARDAS.

CHICA — Ocês tão comigo ou não tão?

BRISA PARECE UM POUCO ASSUSTADA, MAS CONCORDA COM UM MOVIMENTO DE


CABEÇA.

NARA — Ocê tá pensano em fazê o quê?

CHICA — Nóis vai pra janela e enchê eles de chumbo. Nóis tá protegida aqui
dentro e eles tão em campo aberto.

BRISA — Mas e o Bicho?

CHICA — Pra nóis i até ele, precisa tirá esses hóme da fazenda. Nóis tem que
botá eles pra corrê pra pode i lá fora e vê como o pobre tá.

NARA — Então é melhó nóis andá logo, Chica. Bicho num vai dura muito tempo
se fica lá. (p) Isso se ele ainda tivé vivo.

CHICA — Então vâmo!

CHICA VAI ATÉ A JANELA, A ABRE COM FORÇA E COLOCA A ESPINGARDA PRA FORA.

CHICA — Ocês fica uma em cada janela e trata de se protegê.

NARA E BRISA FAZEM O QUE CHICA MANDOU.

CHICA — Ocês num devia de tê vindo aqui, cambada de bicho safado!

CHICA DISPARA, LOGO ACOMPANHADA POR NARA E BRISA.

CORTA PARA:

CENA 02. FAZENDA DE JOÃO. EXTERIOR. NOITE

OS HOMENS SE ABAIXAM, PROTEGENDO-SE DOS DISPAROS.

NILO — Abaixa! Abaixa todo mundo!

OS HOMENS FAZEM O QUE NILO MANDOU.

NILO — Isso é coisa da Chica Martins! É essa mardita que tá atirando!

CAPANGA — Têm mais! Num é uma pessoa só não!

A TOMADA MOSTRA OS TIROS SAINDO DE TRÊS JANELAS DA FAZENDA.


FOGO SOBRE TERRA Capítulo 08 Pag.: 3

NILO — Se é o que elas querem. Todo mundo atirando!

NILO E OS OUTROS HOMENS COMEÇAM A ATIRAR EM DIREÇÃO À FAZENDA.

CORTA PARA:

CENA 03. FAZENDA DE JOÃO. SALA. INTERIOR. NOITE

CHICA, NARA E BRISA SE PROTEGEM, FICANDO AO LADO DAS JANELAS. OS TIROS


ATINGEM COISAS DENTRO DA CASA.

BRISA — Eles tão atirano na gente, Chica!

CHICA — E por acaso ocê acho que eles iam ficá quieto?

NARA — Ocês tome cuidado!

QUANDO OS TIROS DIMINUEM, CHICA VOLTA A ATIRAR, ASSIM COMO NARA E BRISA.
ELAS ATIRAM E SE PROTEGEM.

CHICA — Pelo jeito isso aqui vai dura é tempo.

BRISA — Num póde, Chica! Nóis precisa sarvá o Bicho!

AS TRÊS VOLTAM A ATIRAR.

CORTA PARA:

CENA 04. FAZENDA DE JOÃO. EXTERIOR. NOITE

UM DOS HOMENS É ATINGIDO NO OMBRO. OS OUTROS O ARRASTAM PARA LONGE.


NILO ESTÁ NERVOSO.

NILO — Não acredito! Ocês continuem atirando!

HOMEM — Elas tão protegida e nóis em campo aberto! Vão acertá todo mundo!

ALGUNS HOMENS VÃO SE AFASTANDO. O GADO JÁ DEBANDOU.

NILO — Num queria tê de fazê isso, mas ele tá com a razão. Aqui nóis somo
alvo fácil. (p) Vamo embora! Todo mundo embora!

OS HOMENS COMEÇAM A SAIR, ATIRANDO PARA COBRIR SUA FUGA. NILO SEGURA
UM DOS HOMENS.

NILO — Ocê fica dando cobertura pra gente. Se alguém saí daquela casa, eu
quero que ocê mate! Me entendeu?!

O HOMEM CONFIRMA COM A CABEÇA E NILO COMEÇA A SAIR JUNTO COM OS


OUTROS.
FOGO SOBRE TERRA Capítulo 08 Pag.: 4

CORTA PARA:

CENA 05. FAZENDA DE JOÃO. EXTERIOR. NOITE

A FAZENDA ESTÁ EM SILÊNCIO. UMA NÉVOA COBRE A VARANDA. A PORTA SE ABRE


E BRISA SAI. DÁ ALGUNS PASSOS, MAS O SOM DE UM TIRO ECOA. ELA É ATINGIDA
BEM NO PEITO. EM CÂMERA LENTA, ELA CAI, ATÉ SEU CORPO JAZER SEM VIDA NO
CHÃO.

CORTA PARA:

CENA 06. CASA DE JULIANO. INTERIOR. NOITE

JULIANO ACORDA ASSUSTADO. A CENA DE BRISA SENDO BALEADA FOI APENAS UM


PESADELO. O BEATO ESTÁ SUANDO FRIO. LEVANTA E TOMA UM POUCO DE ÁGUA.

JULIANO — Diacho de sonho ruim!

JULIANO VAI ATÉ A JANELA PARA APANHAR UM POUCO DE AR.

JULIANO — Num gosto de sonho assim. Têm cheiro de aviso. Aviso de desgraça.

JULIANO SE RECORDA DA CONVERSA QUE TEVE COM BRISA EM FLASHBACK

BRISA — Tá na minha hora. Ainda preciso arrumá as minhas coisa pra i passá a
noite na fazenda. Pedro vai viaja e pediu pra eu mais Chica passá a noite
lá com Nara. Só passei aqui mêmo pra vê como o senhor tava.

O FLASBACK TERMINA E JULIANO FAZ UMA EXPRESSÃO ASSUSTADA.

JULIANO — Será que... Será que isso num foi só um sonho? Será que a Brisa e as
ôtra tão correno perigo?

JULIANO PENSA POR ALGUNS SEGUNDOS. DEPOIS SE VESTE E SAI.

CORTA PARA:

CENA 07. FAZENDA DE JOÃO. SALA. INTERIOR. NOITE

BRISA, NARA E CHICA ESTÃO PRÓXIMAS AS JANELAS, PRESTANDO ATENÇÃO NA


MOVIMENTAÇÃO. CHICA DÁ MAIS UM TIRO, MAS NÃO TÊM RESPOSTA.

CHICA — Parece que nóis conseguiu. Eles tão ino embora.

NARA — Nem atirano mais, tão.

BRISA — Será que nóis já pode i vê o Bicho?

CHICA — Carma, Brisa. É melhor esperá um pouco.


FOGO SOBRE TERRA Capítulo 08 Pag.: 5

NARA — Brisa, ocê vorta pro telefone e tenta falá com o delegado de novo.
Nóis tem de consegui avisá ele do que tá aconteceno.

CHICA — É, mas não fica com o cabeção levantado que eles pode tá de tocaia
esperano pra atirá.

BRISA VAI MEIO AGACHADA ATÉ O TELEFONE E TENTA LIGAR. NARA PUXA CHICA
PARA PERTO DA PORTA.

NARA — Eu vô saí.

CHICA — Ocê tá doida?!

NARA — Se Bicho tivé vivo, deve de tá muito mau. Nóis precisa de socorre o
pobre.

CHICA — Mas é arriscado demais Nara. Eles deve de tá lá fora ainda.

NARA — Eu acho que não. Pararam de atirá e os boi já desembestou pelo pasto.
Num tem mais nada aqui que eles querem.

CHICA — Eu acho melhor...

NARA — Vamô fazê o seguinte: Eu vô e ocê me dá cobertura.

CHICA FICA INDECISA.

CHICA — Eu acho perigoso.

NARA — Eu também, mas não tem ôtro jeito.

AS DUAS SE OLHAM, NARA ABRE A PORTA E SAI.

BRISA — Aonde essa doida vai?

CHICA — Ocê continua aí ligando.

CHICA FICA COM A PORTA ENTREABERTA, OBSERVANDO NARA.

CORTA PARA:

CENA 08. FAZENDA DE JOÃO. EXTERIOR. NOITE

NARA SAI CAUTELOSAMENTE DA CASA. NA FRENTE, LOGO DEPOIS DAS ESCADAS,


ESTÁ BICHO-BRABO, DESACORDADO. NARA VEM CARREGANDO SUA ESPINGARDA E
OLHANDO PARA A ESCURIDÃO, PARA VER SE PERCEBE ALGUMA MOVIMENTAÇÃO. A
ÍNDIA SE APROXIMA DE BICHO-BRABO E AJOELHA AO SEU LADO.

NARA — Bicho-Brabo?
FOGO SOBRE TERRA Capítulo 08 Pag.: 6

BICHO NÃO RESPONDE. ESTÁ DESMAIADO.

NARA — O pobre tá se esvaindo em sangue.

NARA TIRA UM PANO QUE TEM AMARRADO EM SUA CINTURA E TENTA ESTANCAR O
SANGUE QUE SAI DO FERIMENTO. ELA DEPOSITA A ESPINGARDA NO CHÃO.
PRÓXIMO AO CURRAL, O HOMEM QUE NILO DEIXOU DE GUARDA APANHA SUA
ARMA E COMEÇA A ANDAR SORRATEIRAMENTE EM DIREÇÃO À ÍNDIA.

CORTA PARA:

CENA 09. CAMPO. EXTERIOR. NOITE

JULIANO VEM ANDANDO RÁPIDO PELO PASTO. QUASE CORRENDO.

JULIANO — Que Deus me ajude. Que me ajude e que aquilo tudo tenha sido só um
sonho mesmo.

CORTA PARA:

CENA 10. FAZENDA DE JOÃO. EXTERIOR. NOITE

NARA CONTINUA TENTANDO ESTANCAR O SANGUE E NÃO PERCEBE O CAPANGA A


MENOS DE CINQUENTA METROS. O HOMEM PREPARA A ESPINGARDA, MIRA EM
NARA E, APÓS ALGUNS SEGUNDOS DE SUSPENSE, É ATINGIDO POR UM TIRO NO
PEITO, CAINDO NO CHÃO. NARA SE ASSUSTA, VÊ O HOMEM CAÍDO E OLHA PARA A
VARANDA. CHICA AINDA ESTÁ SEGURANDO A ESPINGARDA NA POSIÇÃO DE TIRO.

CHICA — Ele ia lhe matá.

NARA VOLTA A OLHAR, SURPRESA, PARA O CAPANGA CAÍDO NO CHÃO.

CORTA PARA:

CENA 11. CAMPO. EXTERIOR. NOITE

NILO E OS HOMENS SE AGRUPAM NO LUGAR AONDE HAVIAM PREPARADO O


ATAQUE.

NILO — Não deu pra pega quase nada dos boi! Desgraça!

HOMEM — O que nóis faz?

NILO — Ocês pega esse caminhão e some daqui!

JULIANO CHEGA E SE ESCONDE ATRÁS DE ALGUNS ARBUSTOS. FICA OUVINDO A


CONVERSA.

HOMEM — Mas e o que ficou lá?


FOGO SOBRE TERRA Capítulo 08 Pag.: 7

NILO — Depois ele alcança ocês. O que interessa é ocês sumirem. O Lucena
providencia o resto do pagamento.

HOMEM — Sim senhor.

OS HOMENS VÃO EMBORA, ASSIM COMO O CAMINHÃO, LEVANDO UMA PARTE DO


GADO. NILO ESTÁ NERVOSO, APREENSIVO. JULIANO COMEÇA A SAIR
SORRATEIRAMENTE, MAS PISA EM UM GRAVETO. NILO OLHA NA DIREÇÃO DO SOM.

NILO — Quem tá aí?!

JULIANO FICA PARADO, EM SILÊNCIO. NILO TIRA O REVÓLVER DA CINTURA E VAI


EM DIREÇÃO AO LUGAR DE ONDE VEIO O BARULHO. ELE VÊ JULIANO, O SEGURA A
FORÇA PELO BRAÇO E O TIRA DO MATO.

NILO — Então é ocê, seu beato maluco.

JULIANO — Me sorta, Nilo!

NILO — Não vô soltá nada! O que ocê tá fazeno por aqui a essa hora?

JULIANO — Nada.

NILO — Nada?

NILO ENCOSTA A ARMA NA CABEÇA DE JULIANO.

NILO — Escuta aqui, velho. Ocê num me pego numa boa noite. Meu dedo tá
coçando pra apertá um gatilho. Acho bom ocê me conta por que tá
andando pelos mato a essa hora.

JULIANO ESTÁ ASSUSTADO, MAS MANTÉM A POSE.

JULIANO — Num tô fazeno nada demais, Nilo. Tô só andando. De vez em quando


eu faço isso.

NILO — Faz tempo que ocê tava amoitado aí?

JULIANO — Não. Acabei de chegá.

NILO FICA OLHANDO PARA JULIANO, SEM ACREDITAR NO QUE O BEATO FALA.

NILO — Num sei por que, mas eu num tô acreditando nessa sua história. Beato
num devia mentir. Num é pecado?

JULIANO — Eu num tô mentindo, Nilo.


FOGO SOBRE TERRA Capítulo 08 Pag.: 8

NILO — Acho bom que num teja mesmo. (p) Num vô mais perde tempo aqui
com ocê Juliano. Só vô lhe dizê uma coisa. Ocê nunca me viu aqui,
entendeu? Nunca!

JULIANO NÃO RESPONDE.

NILO — Porque se ocê abri essa boca, num me custa nada fecha ela pra sempre.
E num é só ocê que tem a perdê, não. (p) Como eu sei que ocê é tão
ligado em Deus, num deve de tê medo de morrê. Só que ocê num é
sozinho nesse mundo.

JULIANO OLHA APREENSIVO PARA NILO, QUE SORRI.

NILO — Já entendeu o que eu tô querendo dizê, né? É isso mêmo, velho. Se eu


soube que ocê abriu esse bico, a sua mãe, a índia, e a Brisa, que ocê gosta
como se fosse filha, vão pagá pela sua falação.

JULIANO — Ocê num ousa chegá perto delas!

NILO — Ah, ouso sim. Mas depende de ocê. Ocê fica quieto e eu não faço nada
com elas. (p) Tamo entendido?

JULIANO CONCORDA COM UM MOVIMENTO DE CABEÇA.

NILO — Ótimo. Então agora vai embora daqui. (p) Vai velho!

JULIANO VOLTA A ENTRAR NA MATA, DEPOIS DE OLHAR NILO COM RAIVA.

NILO — Eu tô ficando frôxo. Em ôtras época eu já tinha feito esse beato se


encontra com Deus.

CORTA PARA:

CENA 12. FAZENDA DE JOÃO. EXTERIOR. NOITE

CHICA E NARA ESTÃO AGACHADAS AO LADO DE BICHO-BRABO, JULIANO SE


APROXIMA. CHICA OUVE O BARULHO E PEGA A ESPINGARDA, APONTANDO PARA
FRENTE.

JULIANO — Calma, Chica! Sou eu, Juliano.

CHICA — Graças a Deus que o senhor chegou. Foi Deus quem lhe mandou.

JULIANO VÊ O CAPANGA CAÍDO NO CHÃO E CONFERE QUE ELE ESTÁ MORTO.

JULIANO — Esse hóme tá morto.

CHICA — Eu sei. Ele ia matá Nara. Fiz o que foi preciso.


FOGO SOBRE TERRA Capítulo 08 Pag.: 9

JULIANO SE APROXIMA DAS DUAS.

JULIANO — É o Bicho-Brabo! Ele tá morto?

NARA — Ainda não, mas vai morrê se nóis num fizé arguma coisa.

JULIANO SE AJOELHA PARA VER O FERIMENTO.

JULIANO — Mas isso tá feio demais.

BRISA SAI CORRENDO DA CASA E VAI AO ENCONTRO DOS TRÊS.

BRISA — Eu consegui falá com o delegado. Ele tá vindo aí com os hóme dele.
Também tá trazeno a ambulância do hospital. (p) Como é que tá o Bicho?

CHICA — Ele tá ruim, Brisa. Tá muito ruim.

BRISA OLHA COM PENA PARA BICHO-BRABO.

CORTA PARA:

CENA 13. AVIÃO. INTERIOR. NOITE

DIOGO ESTÁ SENTADO EM SUA POLTRONA NO AVIÃO. O RAPAZ LÊ UMA REVISTA,


DEPOIS A FECHA E TIRA OS ÓCULOS. FICA OLHANDO PELA JANELA, LEMBRANDO DO
PASSADO. ENTRA O FLASHBACK DA CENA DO CAPÍTULO 02, ONDE ELE E PEDRO
CONVERSAM NO QUARTO.

DIOGO — Você acha que eu não queria estar na nossa casa agora, com a Nara?
Acha que eu gosto de vir pra casa dessa mulher que não quer a gente por
aqui? Claro que não. Mas agora a gente precisa usar a cabeça. Não
adianta ficar fazendo birra. A nossa vida mudou e a gente agora tá
sozinho.

PEDRO — Não. A Nara tá do nosso lado.

DIOGO — Eu sei que tá, mas tem coisa que a Nara não pode fazer, Pedro. Eu sei
que ela quer a gente com ela, mas não dá. A gente precisa aceitar isso. E
quanto mais a gente fizer, mais ela vai sofrer. (p) Você já pensou se ela
tivesse usado aquela espingarda? Ela pode querer fazer alguma doideira
só pra proteger a gente.

OS DOIS IRMÃOS SE OLHAM POR ALGUM TEMPO.

DIOGO — Somos só nós dois agora Pedro. A gente só tem um ao outro nesse
mundo.

PEDRO PARECE SE SENTIR DERROTADO. O MENINO COMEÇA A CHORAR ENQUANTO


DIOGO OBSERVA.
FOGO SOBRE TERRA Capítulo 08 Pag.: 10

PEDRO — Eu quero o pai e a mãe, Diogo. Eles não iam deixar isso acontecer
com a gente. Eu quero eles.

COM PENA, DIOGO ABRAÇA O IRMÃO E OS DOIS FICAM ASSIM. O FLASHBACK


TERMINA E A CENA MOSTRA DIOGO NOVAMENTE NO AVIÃO. A LEMBRANÇA PARECE
TER LHE INCOMODADO. NOVO FLASHBACK, MOSTRANDO AS RECORDAÇÕES DE
DIOGO, DESSA VEZ DE CENAS DO CAPÍTULO 03.

PEDRO — Se ocê quisé ir embora, vai! Eu não me importo! Ocê disse que agora a
gente só tinha um ao outro, mas ocê tá querendo ir embora. Vai Diogo.
Eu não preciso de ocê!

DIOGO — Calma Pedro. Eu não quero brigar com você. Me escuta.

PEDRO — Eu não quero escutar nada! Vai embora! Vai pra onde ocê quisé, mas
me dêxe. Meu lugar é em Divinéia!

A CENA VOLTA PARA DIOGO. ELE DEITA A CABEÇA NO ENCOSTO DO BANCO,


PENSATIVO.

CORTA PARA:

CENA 13. APARTAMENTO DE DIOGO. SALA. INTERIOR. NOITE

CHRISTIANE ESTÁ SENTADA, REMOENDO SUA RAIVA E TRISTEZA. VIVI BRINCA EM


UM CANTO DA SALA.

VIVI — Mamãe, vem ver o que eu desenhei.

CHRISTIANE NÃO REPONDE.

VIVI — Mamãe! (p) Mamãe, a senhora...

CHRISTIANE — O que é, Viviane?! Será que eu não posso ter um minuto de sossego?

VIVI FAZ UMA EXPRESSÃO TRISTE.

VIVI — É que eu queria... Eu queria que a senhora visse o meu desenho.

CHRISTIANE ESTÁ IMPACIENTE.

CHRISTIANE — Tá bem. Traz esse desenho aqui.

VIVI LEVA O DESENHO ATÉ A MÃE, QUE O OBSERVA SEM MUITA ATENÇÃO.

CHRISTIANE — Tá lindo o seu desenho. Maravilhoso. Agora deixa a mamãe sozinha,


vai.

VIVI APANHA O DESENHO DA MÃO DE CHRISTIANE.


FOGO SOBRE TERRA Capítulo 08 Pag.: 11

VIVI — A senhora tá triste?

CHRISTIANE — Não, Viviane. Eu não estou triste.

VIVI — Mas então por que a senhora...

CHRISTIANE — Ai Viviane! Que coisa mais chata! Pára de ficar fazendo pergunta! Não
tá vendo que eu não quero falar? Que eu não tô com a menor paciência de
responder?

VIVI FICA SEM AÇÃO.

CHRISTIANE — Vai pro seu quarto. Vai desenhar, fazer o seu dever. Vai fazer qualquer
coisa, mas me deixa aqui sozinha, pelo amor de Deus!

VIVI SAI CORRENDO PARA O QUARTO. CHRISTIANE VOLTA AOS SEUS


PENSAMENTOS, SEM NEM MESMO TER NOTADO QUE MAGOOU A FILHA.

CORTA PARA:

CENA 14. APARTAMENTO DE DIOGO. QUARTO DE VIVI. INTERIOR. NOITE

VIVI ENTRA CORRENDO NO QUARTO E SE JOGA NA CAMA CHORANDO. FICA ASSIM


POR ALGUM TEMPO.

CORTA PARA:

CENA 15. FAZENDA DE JOÃO. EXTERIOR. NOITE

NARA E CHICA ESTÃO CONVERSANDO COM O DELEGADO AMARO. O CABO


ANACLETO E MAIS DOIS POLICIAS OLHAM TODO O LOCAL. O COPO DO CAPANGA
ESTÁ COBERTO COM UM PANO.

AMARO — Então, pelo que vocês tão me dizendo, foi um assalto.

NARA — Foi sim, Delegado. Eles vieram pra roubá os boi.

CHICA — Pois é. Ai o pobre do Bicho-Brabo foi tentá impedi e deu no que deu.

AMARO — Nessas horas a gente não deve reagir. Eu canso de falar.

CHICA — E o senhor queria que ele ficasse parado vendo aqueles bandido levá
tudo?

AMARO — Se tivesse ficado, a essa hora não tava no hospital entre a vida e a
morte. Ele deu é sorte. Podia ter acabado que nem aquele outro ali.

O DELEGADO APONTA O CAPANGA MORTO COM UM MOVIMENTO DE CABEÇA.

CHICA — E como é que eu fico nessa história, Delegado? Eu... Eu vô se presa?


FOGO SOBRE TERRA Capítulo 08 Pag.: 12

O DELEGADO SORRI.

AMARO — É claro que não, Chica. Você vai ter que responder a um processo.
Isso não têm como evitar. Mas você matou o homem pra se defender, não
foi?

CHICA — Pra defendê a Nara. Ele ia matá ela.

NARA — É verdade, Delegado. Eu tava abaixada tentano ajudá o Bicho-Brabo e


não vi aquele porquêra chegano.

AMARO — Então você não precisa se preocupar, Chica.

CABO ANACLETO SE APROXIMA.

ANACLETO — Dá licença. Delegado, aqui já tá tudo certo. Já tão vindo pegá o


defunto.

AMARO — Não é defunto que se fala, Anacleto. É cadáver.

ANACLETO — Tá certo, doutor. O cadáver. O morto.

AMARO — Se vocês quiserem ir pro hospital, ver como está o Bicho-Brabo, por
mim estão liberadas. Só quero que amanhã vocês passem na delegacia pra
prestar depoimento.

CHICA — Pode dexá que nóis passa lá, Delegado. Vamo Nara.

NARA — Vamo.

CHICA E NARA SAEM.

AMARO — Quem diria, Anacleto. A violência chegando aqui em Divinéia.

ANACLETO — E até parece que é o primeiro rôbo de gado que têm por aqui. E morte
têm sempre. O que não farta nessas banda é jagunço. O senhor sabe disso.
Já ficô um monte de caso por resorve porque o senhor não conseguiu...

AMARO — Eu já entendi, cabo Anacleto! Eu já entendi. (p) O senhor fica aí


cuidando do... Cadáver, que eu vou voltar pra minha casa. Já tava no
terceiro sono quando me chamaram. Você cuida de tudo.

AMARO VAI EMBORA.

ANACLETO — O pior sempre acaba sobrando pra mim.

CORTA PARA:

CENA 16. HOSPITAL. RECEPÇÃO. INTERIOR. NOITE


FOGO SOBRE TERRA Capítulo 08 Pag.: 13

BRISA ESTÁ DE PÉ, PREOCUPADA. A MOÇA VAI ATÉ A RECEPCIONISTA.

BRISA — Ocê já tem notícia do Bicho-Brabo? Sabe como ele tá?

RECEPCIONISTA — Não. Assim que eu souber de alguma coisa, lhe aviso.

BRISA — Brigada.

BRISA VOLTA A ANDAR PELA RECEPÇÃO. ZÉ MARTINS ENTRA AFOBADO.

ZÉ MARTINS — Brisa, minha filha!

BRISA — Ô pai!

BRISA CORRE E ABRAÇA O PAI.

ZÉ MARTINS — Como ocê tá, minha filha?

BRISA — Eu tô bem.

ZÉ MARTINS — Quando Juliano passô lá em casa e me contô o acontecido, quase


morri de preocupação. Ocês podia de tê morrido!

BRISA — Mas eu tô bem. Chica mais Nara também. (p) O coitado do Bicho é
que tá morre, num morre.

ZÉ MARTINS — Juliano me disse. Ocê num sabe como ele tá?

BRISA — Essa moça aí disse que ainda num sabe dele. O médico me falô que ele
ia precisá operá. A coisa é feia, pai. (p) Tô cum medo que Bicho... Tô
cum medo que Bicho morra.

ZÉ MARTINS ABRAÇA A FILHA.

ZÉ MARTINS — Assussega o seu coração. A virgem não ia dexá acontecê uma coisa
dessas com ele. Bicho-Brabo é moço. É forte. Ele há de sai dessa.

BRISA — Tomara, pai. Tomara.

CORTA PARA

CENA 17. CASA DE SANDOVAL. QUARTO. INTERIOR. NOITE

SANDOVAL ESTÁ DEITADO NA CAMA RONCANDO. RITA, DEITADA AO LADO DELE,


LEVANTA LENTAMENTE, TENDO CUIDADO PARA NÃO ACORDÁ-LO. ELA APANHA
UMA MUDA DE ROUPA E SAI DO QUARTO.

CORTA PARA:

CENA 18. CASA DE SANDOVAL. SALA. INTERIOR. NOITE


FOGO SOBRE TERRA Capítulo 08 Pag.: 14

RITA JÁ ESTÁ VESTIDA COM A ROUPA QUE TROUXE DO QUARTO. ELA PASSA O
BATOM E COLOCA UM POUCO DE PERMUFE, QUE TIRA DE DENTRO DE UMA GAVETA.
DEPOIS SE OLHA NO ESPELHO, SORRI SATISFEITA COM A SUA APARÊNCIA E SAI.

CORTA PARA:

CENA 19. FAZENDA DE ARTHUR. EXTERIOR. NOITE

RITA VEM ANDANDO PELO PASTO E SE APROXIMA DA CASA DA FAZENDA DE


ARTHUR. SOBE EM UM PEDAÇO DE MADEIRA E ENTRA PELA JANELA.

CORTA PARA:

CENA 20. FAZENDA DE ARTHUR. SALA. INTERIOR. NOITE

RITA ENTRA PELA JANELA. TOMA CUIDADO PARA NÃO FAZER BARULHO, TIRANDO
AS SANDÁLIAS. A MOÇA ANDA NA PONTA DO PÉ E VAI NA DIREÇÃO DO CORREDOR,
MAS PERCEBE UMA LUZ POR BAIXO DA PORTA DO ESCRITÓRIO. VAI ATÉ LÁ, OLHA
PELO BURACO DA FECHADURA E SORRI. RITA ABRE A PORTA E ENTRA.

CORTA PARA:

CENA 21. FAZENDA DE ARTHUR. ESCRITÓRIO. INTERIOR. NOITE

ARTHUR ESTÁ SENTADO BEBENDO. RITA ENTRA E FECHA A PORTA.

RITA — Tava ino direto pro seu quarto, mas vi a luz debaixo da porta.

ARTHUR — Você é louca?

ELA SORRI E SE APROXIMA DE FORMA SENSUAL.

RITA — Ocê sabe que eu sô.

RITA SE SENTA NO COLO DE ARTHUR, VIRADA DE FRENTE PARA ELE.

RITA — Sô loca por ocê, meu Coroné.

OS DOIS SE BEIJAM COM MUITA PAIXÃO.

ARTHUR — E o seu marido?

RITA — Tá durmino em casa.

ENQUANTO FALA, RITA VAI BEIJANDO O PESCOÇO, O ROSTO E A BOCA DE ARTHUR, E


DESABOTOANDO SUA CAMISA.

ARTHUR — E se ele acorda?


FOGO SOBRE TERRA Capítulo 08 Pag.: 15

RITA — Eu invento uma discurpa. Num ia aguenta esperá o nosso encontro. Tô


sentino muita farta docê.

ARTHUR SEGURA OS CABELOS DE RITA COM FORÇA E FICA OLHANDO PRO ROSTO
DELA.

ARTHUR — Fala que eu sou seu homem.

RITA — Ocê é meu hóme.

ARTHUR — Seu Coronel.

RITA — Meu Coroné. Ocê é meu Coroné.

ARTHUR BEIJA RITA COM MUITA PAIXÃO. ELE LEVANTA A MOÇA E A COLOCA SOBRE
A MESA. ELA ENLAÇA A CINTURA DE ARTHUR COM AS PERNAS ENQUANTO ELE
BEIJA SEU CORPO. RITA SORRI.

CORTA PARA:

CENA 22. FAZENDA DE ARTHUR. QUARTO. INTERIOR. NOITE

A MENINA ESTÁ DEITADA NO QUARTO, AINDA ILUMINADA PELA LUZ DA LUA.


COBERTA E EM POSIÇÃO FETAL, ELA CHORA.

CORTA PARA:

CENA 23. DIVINÉIA. EXTERIOR. MANHÃ

AO SOM DA MÚSICA “DIVINÉIA” DE EUSTÁQUIO SENA, ENTRAM VÁRIAS TOMADAS


MOSTRANDO O AMANHECER NA CIDADE. O PADRE ABRE A IGREJA E AS PESSOAS
COMEÇAM A CIRCULAR PELA PRAÇA.

CORTA PARA:

CENA 24. HOSPITAL. RECEPÇÃO. INTERIOR. MANHÃ

BRISA E ZÉ MARTINS ESTÃO SENTADOS EM CADEIRAS, MAS PEGARAM NO SONO. O


MÉDICO SE APROXIMA DOS DOIS.

MÉDICO — Brisa?

BRISA ACORDA. PRIMEIRO PARECE NÃO SABER ONDE ESTÁ, MAS DEPOIS LEMBRA E
CUTUCA ZÉ MARTINS, QUE TAMBÉM ACORDA. OS DOIS SE LEVANTAM.

BRISA — Pode falá, dotô. Como é que tá o Bicho? O senhor não vai me dizê que
ele...

ZÉ MARTINS COLOCA A MÃO NO OMBRO DA FILHA. O MÉDICO SORRI.


FOGO SOBRE TERRA Capítulo 08 Pag.: 16

MÉDICO — Ele está bem.

BRISA RESPIRA ALIVIADA E ZÉ MARTINS SORRI.

BRISA — Graças a Deus.

ZÉ MARTINS — Eu sabia! Sabia que ele ia resisti. Bicho-Brabo num ia se entregá desse
jeito!

BRISA — Mas fala tudo, dotô. Explica pra nóis tudo direitinho.

MÉDICO — Foi muito sério. Ele poderia mesmo ter morrido, mas nós conseguimos
salvá-lo. Ele agora precisa de repouso. Está dormindo e vai demorar um
pouco pra acordar, mas é melhor assim.

BRISA — Muito obrigado, dotô. Muito obrigado mesmo. Deus lhe pague.

MÉDICO — Só fiz o meu trabalho. Se vocês me dão licença, agora eu vou pra
minha casa, que essa noite não foi fácil.

ZÉ MARTINS — Tá certo, doutor. Bom descanso.

O MÉDICO VAI EMBORA E BRISA E ZÉ MARTINS SE ABRAÇAM.

ZÉ MARTINS — Eu num falei pra ocê que ele ia aguentá? Num falei?

BRISA — Graças à Deus. Graças à Deus e à Virgem. (p) Falano em Virgem, eu


vou lá na Igreja. Chica e Nara foram pra lá pra móde reza. Eu disse que
tava fechada, mas num adiantô.

ZÉ MARTINS — Vai lá minha filha, vai. Elas vão ficá contente.

BRISA — Eu já vorto.

BRISA SAI, DEIXANDO ZÉ MARTINS SORRIDENTE.

CORTA PARA:

CENA 25. IGREJA. SACRISTIA. INTERIOR. MANHÃ

PADRE LUÍS E DONANA ENTRAM. ELE ACABOU DE REZAR A MISSA E ELA O AJUDA A
GUARDAR OS OBJETOS E ROUPAS USADOS.

PADRE — Eu ainda não consigo acreditar nisso, Donana. Uma violência dessas.
Isso não entra na minha cabeça.

DONANA — Isso sempre aconteceu por essas banda, Padre. Parece inté que o
senhor num tá lembrado.
FOGO SOBRE TERRA Capítulo 08 Pag.: 17

PADRE — Claro que eu me lembro. Já houve muitas mortes por essas terras aqui.
Uma barbárie. Mas fazia tempo que isso não acontecia.

DONANA — É, mas o pavio ainda tá aí. É só acendê que a coisa explode.

PADRE — Eu vou dar um pulo no hospital. Quero ver como está o Bicho-Brabo.

DONANA — Brisa passô aqui ventano e carregô Chica mais Nara com ela.

PADRE — Aquelas três foram muito corajosas. Corajosas, mas imprudentes. Eu


não gosto nem de pensar que, numa hora dessas, poderiam estar todos
mortos.

DONANA — Vira essa boca pra lá, Padre!

PADRE — Tem razão. No final, tudo acabou bem.

HILDA ENTRA.

HILDA — Eu posso saber o que acabou bem?

DONANA — Com certeza num foi o meu dia. (p) A senhora podia de tê me porpado
de lhe vê assim logo de manhã. Já estragô o resto do dia.

HILDA SORRI.

HILDA — Que bom. Adoro fazer coisas produtivas logo cedo.

PADRE — Dona Hilda. Donana. Por favor.

DONANA — O senhor não se preocupa, Padre. Eu já tô ino embora. Vô no hospital


e depois tenho o que fazê. Num sô que nem umas e ôtra aí que passa o dia
intero contando formiga no chão.

HILDA — Vai no hospital? Então você não atende mais os mortos de fome em
casa? É algum tipo de convênio? Convênio Parteira.

PADRE — Dona Hilda, por favor!

DONANA — Depois nóis se fala, Padre. Sua bença.

PADRE — Deus lhe abençoe, Donana. Deus lhe abençoe.

DONANA OLHA HILDA DE CIMA A BAIXO E SAI.

HILDA — Velha mequetrefe.

PADRE — Deixe a Donana, dona Hilda.


FOGO SOBRE TERRA Capítulo 08 Pag.: 18

HILDA — Eu deixo. Por mim, nem via mais essa criatura na minha vida. (p)
Quando eu entrei o senhor estava dizendo que tudo acabou bem.
Aconteceu alguma coisa?

PADRE — Aconteceu. Uma coisa muito séria.

HILDA — O quê?

PADRE — Ladrões de gado. Invadiram a fazenda do Pedro Azulão.

HILDA SE INTERESSA.

HILDA — Não me diga.

HILDA SE SENTA.

PADRE — Digo sim. Uma coisa horrível. Atiraram no Bicho-Brabo. A senhora


sabe quem é, não?

HILDA — Padre, o senhor olhe bem pra minha cara. Por acaso o senhor acho que
eu convivo com uma pessoa cuja alcunha é Bicho-Brabo? É óbvio que eu
não sei quem é essa criatura.

PADRE — Mas o rapaz trabalha na sua fazenda.

HILDA — É? Eu não sabia. Mas enfim, o que foi que aconteceu com esse...
Bicho-Brabo?

PADRE — Ele estava passando a noite na fazenda a pedido do Pedro, que está
viajando. Os ladrões chegaram e começou um tiroteio. Aí acertaram o
rapaz.

HILDA — E levaram tudo?

PADRE — Um pouco. Chica, Brisa e Nara revidaram o ataque de dentro da casa.


As três se entrincheiraram lá e trocaram tiros com os bandidos.

HILDA — Acertaram alguma delas?

PADRE — Não.

HILDA — Que pena.

PADRE — Dona Hilda!

HILDA — Mas eu estou mentindo? Esses ladrões são pessimamente preparados.


Com tantos alvos eles acertam logo no coitado do moço. Devem ser uns
incompetentes.
FOGO SOBRE TERRA Capítulo 08 Pag.: 19

O PADRE LANÇA UM OLHAR DE CENSURA PARA HILDA, QUE FINGE NÃO VER.

CORTA PARA:

CENA 26. HOSPITAL. RECEPÇÃO. INTERIOR. MANHÃ

DONANA, BRISA E NARA ESTÃO AFASTADAS CONVERSANDO, ENQUANTO CHICA E


ZÉ MARTINS FALAM COM SANDOVAL.

SANDOVAL — Quando nóis ficamo sabeno do acontecido, juntamo todos os hóme e


saímo nesses pasto procurando os boi de Pedro. Ocê sabe que todos os
peão aqui da região gosta dele.

CHICA — E ocês conseguiram, Sandoval?

SANDOVAL — Não muito, Chica. Achamo uns e ôtro, mas a maior parte eles levaram.
Ou então ainda tá perdido por aí.

CHICA — Coitado do Pedro. Ele precisava tanto desses boi.

SANDOVAL — Mas nóis vai continua procurano, Chica. Se ainda tivê um boi do
Pedro por esses pasto, nóis acha.

CHICA — Brigada, Sandoval. Nem sei como agradecê ocês.

SANDOVAL — Precisa não, Chica. Nóis tudo faz isso com gosto. Agora é melhor eu
vortá. Ocês dá licença.

CHICA — Mais uma vez, brigada, Sandoval. Agradece os ôtro peão por mim.

SANDOVAL VAI EMBORA.

CHICA — E agora, pai? Como é que o Pedro vai fazê?

ZÉ MARTINS — Ocê fica carma. Ele vai dá um jeito.

CHICA — Num agüento mais essas coisa que acontece aqui por Divinéia. É
mardade em cima de mardade. É por essas e outras que eu tenho vontade
de i me embora daqui. Começá a vida em ôtro lugar. Num basta sê essa
porquêra de lugar, ainda acontece essas coisa.

ZÉ MARTINS — Mas pra que raio de lugar ocê que i, Chica?

CHICA — Num sei. Cuiabá, São Paulo. Uma cidade grande. Um lugar que a
gente possa tê mais oportunidade.

ZÉ MARTINS — E por acaso ocê acha que seu noivo Pedro vai concordá com isso?
FOGO SOBRE TERRA Capítulo 08 Pag.: 20

CHICA — Não. Eu sei que não. (p) Mas pai, eu juro que vô tentá colocá isso na
cabeça dele. Juro!

ZÉ MARTINS – E se ele num quisé ir?

CHICA – Então ele que me descurpe, mas por mais que me doa, eu largo ele e vô sozinha.

CORTA PARA:

CENA 27. POSTO DE GASOLINA. EXTERIOR. MANHÃ

PEDRO ESTÁ IRRITADO, FALANDO EM UM TELEFONE PÚBLICO.

PEDRO — Isso não pode sê verdade, Chica! Ocê só pode tá brincando comigo!
(p) Mas como é que foi acontecê uma coisa dessas? (p) E como ele tá?
(p) Graças a Deus que não aconteceu nada com vocês. Mas ele tá mesmo
fora de perigo? (p) Pelo menos isso. E os bois?

PEDRO FAZ UMA EXPRESSÃO DE DERROTA.

PEDRO — Levaram quase tudo, Chica? Não me diz uma coisa dessas. (p) Não.
Eu vou voltar pra Divinéia. Vou voltar agora mesmo. (p) Depois eu me
acerto com o seu Heitor. O que eu não posso e seguir nessa viagem
sabendo que tudo que é meu tá indo embora. (p) Tá. Eu vou ficar calmo.
(p) Também amo você. Toma cuidado aí.

PEDRO DESLIGA O TELEFONE. COMEÇA A TOCAR A MÚSICA “TOCANDO EM


FRENTE” DE MARIA BETHÂNIA. ELE SE CONTROLA UM POUCO, MAS DEPOIS
DESCARREGA SUA RAIVA CHUTANDO E DANDO SOCOS NO ORELHÃO.

CORTA PARA:

CENA 28. ESTRADA. EXTERIOR. MANHÃ

AINDA AO SOM DA MÚSICA DA CENA ANTERIOR, PEDRO SAI DO POSTO


CARREGANDO SUA MOCHILA. O RAPAZ CAMINHA ATÉ A ESTRADA E COMEÇA A
PEDIR CARONA. DEPOIS DE ALGUM TEMPO, UM CAMINHÃO PÁRA E ELE ENTRA.

CORTA PARA:

CENA 29. SÃO PAULO. EXTERIOR. MANHÃ

TOMADAS MOSTRANDO VÁRIAS CENAS DE SÃO PAULO DE MANHÃ, AINDA


EMBALADAS PELA MÚSICA DAS CENAS ANTERIORES.

CORTA PARA:

CENA 23. AEROPORTO DE SÃO PAULO. INTERIOR. MANHÃ


FOGO SOBRE TERRA Capítulo 08 Pag.: 21

HEITOR ESTÁ ESPERANDO DIOGO. CONFERE A HORA NO RELÓGIO E FICA OLHANDO


PARA AS PORTAS DE DESEMBARQUE. ELAS SE ABREM E, EM MEIO A OUTROS
PASSAGEIROS, DIOGO SURGE. HEITOR SORRI E ACENA PARA ELE. O RAPAZ SE
APROXIMA DO EMPRESÁRIO E OS DOIS SE ABRAÇAM.

HEITOR — Que bom ter você aqui de volta, meu filho.

DIOGO — Bom rever o senhor, tio.

CORTA PARA:

CENA 24. SÃO PAULO. EXTERNA. MANHÃ

AO SOM DA MÚSICA “AMARGO” DE ZECA BALEIRO, A CENA MOSTRA O CARRO DE


HEITOR EM MEIO AO TRÂNSITO DE SÃO PAULO. O VEÍCULO SE MOVE EM
VELOCIDADE POR UM VIADUTO.

CORTA PARA:

CENA 25. CARRO DE HEITOR. INTERIOR. MANHÃ

HEITOR ESTÁ DIRIGINDO O CARRO COM DIOGO SENTADO AO LADO. O RAPAZ OLHA
FELIZ PELA JANELA.

DIOGO — Já tava quase me esquecendo de como é isso aqui.

HEITOR — O que não deve ser difícil. Você lá, vivendo num país de primeiro
mundo, numa cidade linda. Esquecer isso aqui deve ser a coisa mais fácil
do mundo.

DIOGO — Não é não, tio. O senhor pode até não acreditar, mas eu sinto muita
falta do Brasil. Dessa loucura que é São Paulo. Desse nosso país meio
maluco. (p) É bom estar em casa de novo.

DIOGO SORRI PARA HEITOR, QUE RETRIBUI.

CORTA PARA:

CENA 26. APARTAMENTO DE HEITOR. SALA. INTERIOR. MANHÃ

CELESTE ESTÁ ABRAÇANDO DIOGO. HEITOR E LUZIA OBSERVAM.

CELESTE — Que bom ter você aqui de novo na nossa casa, Diogo.

DIOGO — Obrigado, tia.

CELESTE — Odeio quando você me chama de tia. Me sinto muito mais velha do
que eu sou.

TODOS RIEM.
FOGO SOBRE TERRA Capítulo 08 Pag.: 22

CELESTE — Luzia, por favor, leve a mala do seu Diogo pro quarto dele.

LUZIA — Sim senhora.

LUZIA PEGA A MALA E LEVA PARA O QUARTO.

HEITOR — Diogo, eu vou deixar você aqui com a Celeste. Tenho que voltar pro
trabalho. Você descansa um pouco e depois nós conversamos melhor.

DIOGO — Tá certo, tio. Obrigado.

HEITOR — Caso você tenha um tempinho, eu deixei algumas coisas no seu quarto
pra você ir examinando. É sobre o tal projeto da hidrelétrica. Como eu sei
que você quer voltar logo pro Canadá, achei melhor já adiantar tudo.

DIOGO — Eu vou examinar sim, tio. De noite nós conversamos.

HEITOR — Tá bem.

HEITOR VOLTA A ABRAÇAR DIOGO.

HEITOR — Mais uma vez, é muito bom ter você aqui com a gente.

DIOGO — Obrigado.

HEITOR SAI.

CELESTE — Agora nós vamos sentar aqui e conversar.

CELESTE E DIOGO SE SENTAM.

CELESTE — Como estão a Christiane e a Vivi?

DIOGO — Bem.

CELESTE — Não senti muito ânimo nesse bem.

DIOGO SORRI TRISTE.

CELESTE — Pelo jeito a Christiane continua do mesmo jeito, não é?

DIOGO — Continua. A senhora não imagina o drama que ela armou porque eu
vim pra cá.

CELESTE — Você sabe que eu sempre fui contra esse casamento. Não é que eu não
goste da Christiane, mas ela sempre teve esse jeito meio... Como eu vou
dizer?

DIOGO — Louco.
FOGO SOBRE TERRA Capítulo 08 Pag.: 23

CELESTE — Eu não ia usar esse termo.

DIOGO — Eu mudei pra Vancouver pra ver se nós dois conseguíamos nos acertar.
Quando a Vivi nasceu, achei que as coisas podiam melhorar, mas não. Ela
têm períodos ótimos, mas de vez em quando surta, que nem agora.

CELESTE — Posso te fazer uma pergunta?

DIOGO — Claro que pode.

CELESTE — Você ainda gosta dela?

DIOGO DEMORA PRA RESPONDER.

DIOGO — Eu acho que sim.

CELESTE — Acha?

DIOGO — Não é uma boa resposta, não é?

CELESTE — Péssima.

OS DOIS SORRIEM.

DIOGO — Talvez o meu afastamento por esses dias seja bom pra nós dois. Ela
pode colocar a cabeça no lugar.

CELESTE — Tomara que você esteja certo, Diogo.

DIOGO — E a Bárbara?

CELESTE — Foi só falar em colocar a cabeça no lugar que você lembrou dela, não
é?

DIOGO RI.

CELESTE — Continua a mesma irresponsável de sempre. Agora mesmo tá aí


viajando pelo mundo. Ninguém sabe aonde.

DIOGO — A Bárbara não toma jeito.

CELESTE — Não. Dessa eu já desisti!

DIOGO SORRI PARA CELESTE.

CORTA PARA:

CENA 27. SÃO PAULO. EXTERIOR. MANHÃ

TOMADA MOSTRANDO O PRÉDIO DA CONSTRUTORA GONZAGA.


FOGO SOBRE TERRA Capítulo 08 Pag.: 24

CORTA PARA:

CENA 27. CONSTRUTORA. SALA DE PROJETOS. INTERIOR. MANHÃ

EDUARDA E ANDRÉ ESTÃO CONVERSANDO.

EDUARDA — E foi isso que aconteceu.

ANDRÉ — Então, pelo que o Bruno disse, o que aconteceu não vai te atrapalhar.

EDUARDA — Diz ele que não. Eu acredito. Em todo caso, o melhor agora é eu ficar
pianinho. Não me meter em mais confusão.

ANDRÉ — É. É melhor mesmo. (p) Posso... Posso te fazer uma pergunta


indiscreta?

EDUARDA RI.

EDUARDA — Você? Me fazer uma pergunta indiscreta? Isso não é do seu feitio.

ANDRÉ — Tem razão. Esquece.

EDUARDA — Tô brincando, André. Claro que você pode. A gente não é amigo?
Pergunta o que você quer saber.

ANDRÉ HESITA UM POUCO.

ANDRÉ — Se você não quiser responder, não precisa. Não é da minha conta.

EDUARDA — Pergunta logo! Para de enrolar.

ANDRÉ — Você e... Você e o Bruno? Vocês...

EDUARDA FICA OLHANDO PARA ANDRÉ E RI.

EDUARDA — Você tá querendo saber se eu e o Bruno... Se a gente ficou junto?

ANDRÉ FICA ENVERGONHADO.

ANDRÉ — É. Vocês ficaram?

EDUARDA — Não.

ANDRÉ SORRI, MAS DEPOIS DISFARÇA.

EDUARDA — Bem que ele tentou, insistiu, mas eu fiz jogo duro.

ANDRÉ — É, mas se você continuar nessa brincadeira, uma hora ele não vai mais
se conformar só com um jantar.
FOGO SOBRE TERRA Capítulo 08 Pag.: 25

EDUARDA — Quando isso acontecer eu já vou estar trabalhando na hidrelétrica. Vou


tá mostrando o meu potencial, e aí meu bem, eu me garanto. Duvido que
o Heitor me tire do projeto por causa de tesão acumulado do amiguinho
dele.

ANDRÉ — Eu ainda acho esse jogo perigoso. Você não precisa disso.

EDUARDA — Eu sei que não. Acontece que eu gosto desse clima de sedução, de
conquista. Gosto de saber que o Bruno faz o que eu quiser. Além do mais,
é sempre bom a gente ter uma carta na manga. Uma garantia pra amanhã.
O Bruno é a minha garantia.

ANDRÉ — Se você acha isso.

EDUARDA — Você não acha?

ANDRÉ — Não. Mas isso não é problema meu.

ANDRÉ SE SENTA EM SUA MESA E COMEÇA A TRABALHAR. EDUARDA ESTRANHA


UM POUCO A REAÇÃO DO AMIGO, MAS NÃO FALA NADA E TAMBÉM VOLTA AO
TRABALHO.

CORTA PARA:

CENA 28. SÃO PAULO. EXTERIOR. NOITE

CENAS MOSTRANDO O ANOITECER EM SÃO PAULO.

CORTA PARA:

CENA 29. APARTAMENDO DE HEITOR. QUARTO DE DIOGO. INT. NOITE

DIOGO ESTÁ DEBRUÇADO SOBRE VÁRIOS PAPÉIS, ANALISANDO TUDO O QUE


HEITOR LHE DEIXOU. ELE PARECE NÃO ENTENDER ALGUMA COISA. APANHA SUA
CALCULADORA E FAZ VÁRIAS CONTAS, DEPOIS VOLTA A CONFERIR OS MAPAS.

DIOGO — Isso aqui não pode estar certo. Deve ter algum engano.

CORTA PARA:

CENA 30. APARTEMENTO DE HEITOR. SALA. INTERIOR. NOITE

HEITOR ACABOU DE CHEGAR DO TRABALHO. LUZIA APANHA SUA PASTA E LEVA


PARA O QUARTO. CELESTE BEIJA O MARIDO.

CELESTE — Trabalhou muito?

HEITOR — Demais. Como sempre.

CELESTE SORRI.
FOGO SOBRE TERRA Capítulo 08 Pag.: 26

HEITOR — E o Diogo?

CELESTE — Dormiu um pouco, depois almoçou e passou a tarde inteira no quarto


examinando aquela papelada.

HEITOR — Ótimo. Eu preciso muito que ele se inteire do projeto. Eu ainda não
vou falar, mas quero que ele...

DIOGO ENTRA NA SALA.

HEITOR — Oi Diogo.

DIOGO — Tio, que bom que o senhor chegou. A gente precisa conversar.

HEITOR — Claro.

CELESTE — Eu vou deixar vocês à vontade. Vou até a cozinha ver como anda o
jantar.

CELESTE SAI.

HEITOR — Você... Você parece preocupado.

DIOGO — Tio, eu andei examinando aquilo tudo que o senhor me deixou. O


projeto.

HEITOR — Que bom. E o que você achou?

DIOGO — Aquilo só pode estar errado.

HEITOR — Errado? Como assim?

DIOGO — Errado. Só pode estar errado. (p) Tio, se o projeto for feito daquele
jeito que está nas plantas, depois que a barragem for construída, Divinéia
vai desaparecer. (p) Divinéia vai ser engolida pelas águas, tio. Vai acabar!

HEITOR OLHA PARA DIOGO UM POUCO SEM GRAÇA. A IMAGEM CONGELA E UMA
BARRAGEM DE HIDRELÉTRICA SE FECHA SOBRE ELA. A BARRAGEM SE ROMPE E
UMA INUNDAÇÃO TOMA CONTA DA TELA.

FIM DO CAPÍTULO
FOGO SOBRE TERRA Capítulo 08 Pag.: 27

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