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DOSSIÊ PARCERIA EM GRUPOS DE PESQUISA

Consciência e
memória como
objetos da
comunicação: o
approach de
Marshall Introdução

McLuhan* OS TEMAS DA MEMÓRIA e da consciência den-


tro do campo da comunicação vêm ganhan-
RESUMO do expressão em diferentes publicações que
O estudo analisa como o tema da memória comparece articu- tratam, particularmente, de como os novos
lado ao da consciência e ao do avanço e desenvolvimento das meios, ao tecerem suas dinâmicas comuni-
tecnologias da comunicação na obra do pensador canadense cacionais, afetam a cultura. A simples idéia
Marshall McLuhan. Busca-se definir os sentidos de memória e de rede, como um gigantesco banco de
de consciência no referido autor, recorrendo a esses conceitos dados disponível em boa parte a qualquer
como estratégia para se pensar novos objetos de estudo dentro um que possa se conectar com o mesmo, já
do campo da comunicação contemporânea - reconhecidamente recolocou a questão da memória no centro
marcado por condicionantes tecnológicos - e, assim, reconsi- das reflexões sobre os processos de comu-
derar a importância de McLuhan, ainda hoje, na análise dos nicação contemporâneos. Por outro lado,
fenômenos e dinâmicas comunicacionais. bastaria checar todos aqueles autores que
dedicam parte das suas reflexões investi-
ABSTRACT gando as possibilidades de uma afetação
This study analises the concepts of memory and conscience das subjetividades contemporâneas a partir
and their relationship with advances in the new tech-nologies dos mesmos novos meios, para comprovar
of communication, according to McLuhan’s ideas. a entrada da consciência como um novo
objeto dos estudos de comunicação relacio-
PALAVRAS-CHAVE (KEY WORDS) nados às novas tecnologias informacionais.1
- Consciência (Conscience) A proposta deste artigo é pensar, portan-
- Memória (Memory) to, os temas da consciência e da memória
- McLuhan em um autor que, embora considerado
um clássico no que tange aos estudos dos
meios de comunicação, dificilmente seria
reconhecido como estudioso dos temas em
questão. A proposta é, ainda, demonstrar a
validade de McLuhan ainda hoje, como um
estudioso avant la lettre de temas que hoje se
inserem como novos objetos no campo da
comunicação.

Figura e fundo

McLuhan sempre chamou atenção para o


fato de que toda e qualquer investigação
Vinícius Andrade Pereira**

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deveria desviar o olhar fixo do objeto que se seus principais temas sob aspectos, quem
busca apreender, focando o fundo adjacente sabe, ocultos da maioria dos seus leitores e
ao objeto, pois este fundo seria capaz de comentadores.
revelar novas facetas do objeto em questão. A memória e a consciência na obra de
Esta seria uma estratégia para apreender de McLuhan, assim, serão entrevistas quando
maneira mais ampla as possíveis relações se realiza uma dobra no pensamento de
do objeto de estudo com acontecimentos McLuhan, aplicando-o sobre si mesmo, es-
outros que, não raramente, são difíceis de tendendo-o.
serem percebidas. Tais relações, quando
reveladas, podem dar novos significados
ao objeto e ao contexto no qual aquele está Figuras mcluhanianas: meios e
inserido. Aposta-se, assim, com tal meto- extensões tecnológicas
dologia, na impossibilidade de se separar
rigidamente sujeito, objeto e contexto, ou, Pensar um tema ou objeto principal na obra
simplesmente, figura e fundo. de McLuhan pode parecer tarefa simples,
Quando fala sobre o automóvel, por exem- uma vez que suas principais idéias já foram
plo, McLuhan chama a atenção para o fato alardeadas sob a forma de divisas, cujas
de que o automóvel traz consigo toda uma mais famosas, sem dúvida alguma, são: o
reestruturação das cidades, bem como uma meio é a mensagem e as tecnologias são exten-
série de bens e serviços tais como postos de sões do homem. Daí, poder-se-ia apostar que
gasolina, pistas de alta velocidade, fábricas os objetos de estudo de McLuhan seriam
e companhia de petróleo, sem os quais toda idéias tais como o meio, a mensagem, as tec-
a complexa relação que envolve as pessoas nologias, a idéia de extensões humanas, dentre
e os carros não pode ser plenamente apre- algumas outras possíveis.
endida. Ocorre, porém, que, se há diferentes
Para McLuhan, o homem letrado, vi- figuras/McLuhan sobrepondo-se umas às ou-
sual por excelência, que tende a fragmentar tras -, na forma de um pensador complexo
e compartimentalizar todas as coisas a fim e, não raramente, contraditório -, também
de melhor controlá-las, ao confrontar-se os seus objetos de estudos assim o farão,
com quaisquer objetos que queira apreen- transformando-se ao longo de todo o per-
der, com freqüência ignora o rico tecido que curso do autor, como ocorre, aliás, na obra
liga figura e fundo, fixando o olhar apenas de tantos outros pensadores prolíficos.
no objeto, a figura destacada de um fundo Dentro desta perspectiva, buscar os
opaco. objetos primeiros abordados por McLuhan
A princípio, a memória não faz parte implica reconhecer que no jogo contínuo
do conjunto de objetos explícitos com os de rebatimento entre figura e fundo alguns
quais McLuhan trabalha. Como pôde, en- desses objetos sofrerão alargamentos con-
tão, surgir a proposta de tomá-la, junto com ceituais, o que exigiria que os mesmos fos-
da idéia de consciência, como um dos temas sem considerados em progressão, em dife-
mcluhanianos, propondo-se, ainda, a par- rentes momentos, abordagem esta que não
tir destas idéias, retomar McLuhan para a será empreendida no presente artigo, tendo
leitura das dinâmicas contemporâneas de em vista as limitações editoriais do mesmo.2
comunicação? A resposta a tal questão esta- Feita a ressalva, indaga-se novamente,
rá na adoção da metodologia sugerida por quais seriam, então, os temas principais, os
McLuhan, aplicada a ele próprio. Trata-se, objetos de estudo, por excelência, tratados
então, de explorar McLuhan buscando fazer por McLuhan? É o próprio autor quem
emergir um fundo para as principais figuras responde a esta questão, escrevendo expli-
tratadas por ele, a fim de encontrar uma li- citamente sobre este ponto, em uma carta
nha de fuga a partir da qual se possa rever enviada a Robert Fulford, no ano de 1964:

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complementaridade que existe entre ambas
‘’My main theme is the extension of as temáticas será trabalhada de diferentes
the nervous system in the electric age maneiras ao longo de toda a produção de
and thus the complete break in 5000 McLuhan. É evidenciada, por exemplo, no
years of mechanical technology. This I trecho seguinte:
state over and over again’’.3
‘’(...) the medium is the message. This
Mas o que seria esta extensão do sistema is merely to say that the personal and
nervoso na era elétrica? social consequences of any medium
Com McLuhan deve-se interpretar a — that is, of any extension of our-sel-
idéia das extensões, sempre sob a ótica da ves — result from the new scale that
lógica complementar do processo figura/ is introduced into our affairs by each
fundo, como a idéia de que uma tecnolo- extension of ourselves, or by any new
gia de comunicação, ao vir à tona, não ser technology’’.5
considerada apenas como a chegada de um
dispositivo técnico, com o qual se atende a A idéia de meio, portanto, em uma das
uma demanda funcional, especificamente acepções propostas por McLuhan se apre-
requerida por uma determinada sociedade. senta como sinônimo de extensão tecnológi-
Uma extensão tecnológica deve ser entendi- ca.6
da, principalmente, como um novo modelo
gramático a propor padrões de organização
e de disponibilização de informações, qual Fundos mcluhanianos: consciência e
uma linguagem. É, novamente, o próprio memória
autor quem pode explicitar ainda melhor
este ponto: Como um desdobrar do entrecruzamento
das temáticas das extensões e do meio, surge
‘’I have insisted that any new structure uma outra, trazida pelas temáticas anterio-
for codifying experience and moving res, e muito importante em todo o traba-
information, be it alphabet or photo- lho de McLuhan. A idéia de uma extensão
graphy, has the power of imposing its da consciência que será conquistada não
structural character and assumptions apenas com o contínuo acúmulo de conhe-
upon all levels of our private and cimento ao longo da história, mas, princi-
social lives - even without benefit of palmente, com as novas possibilidades de
concepts or of conscious acceptance... rearranjar tais conhecimentos, através das
That’s what I’ve always meant by “the mídias eletrônicas.
medium is the message”.4 Neste ponto, deve-se retomar, pois, à
questão há pouco anunciada: o que seria a
Na perspectiva trabalhada por Mc- idéia de extensão do sistema nervoso na era
Luhan, uma extensão tecnológica pode ser elétrica, afirmada pelo próprio Mc-Luhan
pensada, então, como um meio e um meio como seu tema principal de trabalho?
como uma extensão tecnológica. E ambos po- McLuhan sugere, ao longo dos seus
dem ser tomados como linguagens. Lingua- textos, que alterações quanto às tecnologia
gem como uma lógica que operando sobre de comunicação proporcionariam novos
signos produz mensagens. Assim, chega-se modelos de subjetividade, como um todo,
à frase mais famosa de McLuhan, o meio é e de consciência, em particular. Com a en-
a mensagem. A temática das extensões tec- trada em cena dos meios eletrônicos, então,
nológicas pode ser tomada, assim, como novas formas de perceber, de processar e de
sinonímia da temática do meio/mensagem. estocar informações levariam a uma nova
Esta relação de absoluta cumplicidade e forma de consciência.7

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O ponto seria tentar entender o mo- ciência se exterioriza e assume dimensões
mento da passagem de uma forma de se transindividuais, isto é, assume a dimensão
adquirir conhecimento - que dentro do de subjetividades múltiplas, conectadas.
modo tradicional da escrita se dava pau-
latinamente, somando os conhecimentos ‘’In the electric age we see ourselves
fragmentados em um lento e sistemático being translated more and more into
processo - para um outro modo - possibili- the form of information, moving to-
tado por toda uma nova geração de meios, ward the technological extension of
do telégrafo ao computador -, cujas marcas consciousness. That is what is meant
seriam processos instantâneos, onde a apre- when we say that we daily know more
ensão das mensagens/informações se dá de and more about man. We mean that
forma imediata, muitas vezes no momento we can translate more and more of
mesmo em que os acontecimentos a serem ourselves into other forms of expres-
comunicados estariam ocorrendo. É isto que sions that exceed ourselves (...) With
McLuhan afirma ao escrever, por exemplo: the new media (...) it is also possible to
store and to translate everything;’’10
‘’Is that not what has happened in
physics as in painting, poetry, and O tema da mudança dos modos de
in communication? Specialized seg- consciência em McLuhan pode ser acompa-
ments of attention have shifted to total nhado em dois momentos distintos, dando
field...’’8 conta de três formas de consciência: 1º mo-
mento - a passagem das sociedades orais
‘’At electric speeds of data processing, para aquelas que dominavam a escrita, o
we become aware of environments for que McLuhan analisa, especialmente, no li-
the first time. (...) Electric technology vro The Gutenberg Galaxy.
offers, perhaps for the first time, a me- Momento no qual um modelo de
ans of dealing with the envi-ronment consciência tribal, coletiva, apta a lidar com
itself as a direct instrument of vision a simultaneidade, cede espaço ao compare-
and knowing’’.9 cimento de uma forma de consciência indi-
vidualizada, fragmentada, apta a lidar com
A idéia-chave, aqui, é a imposição de o seqüencial e analítico, trazida com a escri-
um novo padrão organizacional que rear- ta; 2º momento: a passagem das sociedades
ranja as informações disponíveis e, com fundadas em torno da escrita para uma
isso, permite a evidência de aspectos novos, sociedade em que se organiza em função do
outrora ocultos pelo formato com que as in- advento das mídias eletrônicas - momento
formações se organizavam. que McLuhan analisa, principalmente, em
Há, vividamente presente em Mc- Understanding Media e The medium is the
Luhan, a intuição de que mais do que sim- massage. Nesse momento McLuhan pontua
plesmente o acúmulo de informações, as a mudança de um modo de consciência
novas gerações experimentariam a emer- individual para um modo conectivo, esten-
gência de uma nova forma de consciência, dido, exteriorizado e não-linear, capaz de
em função de como as informações acumu- lidar com o simultâneo novamente, porém,
ladas podem ser acessadas. de forma ainda mais complexa se compa-
Quando esse conjunto informacional é rado com o modo de consciência típica das
disponibilizado instantaneamente, em volu- sociedades orais, pré-letradas.
me crescente, com a TV e com os computa- Considerando que o primeiro movi-
dores em rede, um processo de tradução das mento de mudança, das sociedades orais
culturas pode se dar como uma grande rede para as sociedades com escrita, foi bastante
holística, poliglota e instantânea. A cons- focado por autores com os quais McLuhan

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dialogou, principalmente por Eric Havelo- Dentre as muitas abordagens possíveis
ck, o seu interesse irá recair, sobretudo, no para o problema de se definir o que seja a
segundo movimento descrito, isto é, na pas- consciência, um ponto se afirma dentro das
sagem de um modo de consciência que se perspectivas contemporâneas: as diferentes
construiu aos poucos, de forma progressiva propostas conceituais a tomam, cada vez
e linear, com a escrita, para um modo holís- mais, como um processo, do que como uma
tico e instantâneo, típico dos meios eletrôni- faculdade cognitiva independente, fixa, lo-
cos. calizada em alguma região cerebral especí-
Esta associação, proposta por Mc- fica.
Luhan, entre tecnologia de comunicação e Para uma compreensão passível de ser
modelo de consciência pode ser lida, ainda, aplicada aos objetivos explícitos do percur-
como uma investigação, paralela, em torno so investigativo que ora se realiza, adotar-
das bases mnêmicas que servem a diferen- se-á a idéia de que a consciência seria uma
tes modalidades de consciência que se reve- propriedade que emerge no cérebro como
lam ao longo da evolução da humanidade. um efeito global, resultado das conexões
Observa-se, pois, como a memória entre diferentes formas de memórias - me-
comparece neste ponto, ainda que, qual mória de longo prazo, memória de curta
a questão da consciência, como um fundo duração ou recente, memória de trabalho,
dentro das temáticas mcluhanianas, como memória episódica e memória semântica12 -
uma idéia importante para se compreender e que tem como função básica costurar, em
os processos de traduções e de transforma- um todo, os diferentes sentidos que, ao lon-
ções subjetivas e culturais que McLuhan go da vida, se apresentam para as coisas e
explora ao longo de toda a sua obra. para si mesmo. Costura esta que resulte em
Considerando que esta questão da um sentido capaz de ser funcional, em ter-
articulação entre memória, meio e consci- mos de continuidade e em termos de orien-
ência constitui uma das relações possíveis tação no mundo, para quem a produz. Ou
dos jogos entre figura e fundo na obra de seja, há que se produzir, com tal experiên-
McLuhan, deter-se-á um pouco mais neste cia, um saber que responda, minimamente,
ponto.11 questões do tipo: o que se é? o que se busca?
por onde ir?...
Tal perspectiva, aliás, permite a ado-
Consciência como figura, memória ção da idéia de que seria a memória a es-
como fundo trutura a garantir uma identidade mínima
a um dado sistema13, entendendo, no caso, a
A palavra consciência, ao se confundir com consciência como a instância que responde
o indivíduo no século IV a.C., acabará por por uma certa noção de identidade em um
se aproximar de instâncias éticas e morais, sistema humano. A memória seria, assim, o
ganhando dentro das tradições filosófica e fundo da figura consciência.
religiosa ocidentais um estatuto equivalen- Se a consciência está diretamente rela-
te à idéia de humano. Ou seja, fortemente cionada com a idéia de uma identidade, no
marcados pelo legado cartesiano, muitos caso dos sistemas humanos esta identidade
reconheceriam e aceitariam de bom grado pode ser pensada como a noção de um eu e
a comparação que propõe que ser humano é bem possível que a idéia de eu, como algo
é ser consciente. Assim sendo, estes mes- distinto de um grupo social, tenha sido uma
mos não se sentiriam muito à vontade com evolução de uma outra forma de consciên-
idéias que atestam coisas do tipo a consciên- cia, coletiva, uma vez que a humanidade te-
cia é uma ilusão, sem com isso também expe- ria vivido um bom tempo da sua existência
rimentarem a idéia de falência do projeto prescindindo de um eu-indivíduo, conforme
humano. a tese defendida por McLuhan, junto com

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Havelock. These Bardic songs were rhythmically
McLuhan irá notar que essa experiên- organized with great formal mastery
cia de comparecimento da consciência na into metrical patterns which insured
forma de um eu somente se dará quando that everyone was psychologically
a escrita emerge funcionando como uma attuned to memorization and easy re-
memória, permitindo um movimento recur- call. There was no ear illiteracy in pre-
sivo, de dobra sobre aquilo que se fala e que literate Greece’’.15
se apresenta no dia-a-dia da sociedade em
questão - o próprio corpo discursivo desta A entrada da escrita em cena, ao per-
sociedade -, permitindo, pois, que aquele mitir que se pudesse apreciar de fora todo o
que domine as letras se destaque deste cor- conjunto de saberes embutidos nas palavras
po discursivo, comparecendo como algo repetidas por todo um grupo, possibilita-
distinto e singular, capaz de analisar, a dis- ria um distanciamento crítico em relação a
tância, este próprio corpo discursivo. este mesmo grupo e, assim, possibilitaria,
Esta concepção já fora trabalhada por Ha- também, a emergência da experiência da
velock, para quem o aparecimento do pen- individuação. É o advento da Psyché, como
samento filosófico e, posteriormente, cientí- acepção grega para a idéia de uma alma,
fico, na acepção que a modernidade irá dar sede das ações morais e do conhecimento
a este termo, é resultado direto dos efeitos científico, não mais determinada pelo con-
da escrita sobre a sociedade grega do século junto de orientações postas exclusivamente
quarto a.C.14 pela cultura.
Havelock irá apontar a escrita como a Havelock aposta que a dialética platô-
tecnologia que teria conseguido iniciar um nica mais não teria feito do que se fiar nesta
corte dentro da tradição grega oral, manti- dinâmica intrínseca à própria tecnologia
da, particularmente, através de récitas como escrita, que veio permitir que qualquer pes-
a poética homérica, na qual os membros da- soa pudesse refletir sobre quaisquer idéias
quela sociedade eram arrastados no turbi- de maneira genuína, a partir de mensagens
lhão rítmico, sonoro, melódico e gestual das que podiam ser tomadas destacadas, tanto
palavras que recriavam as epopéias de seus de outras idéias que lhe fossem anteriores
heróis. quanto dos seus contextos e emissores ori-
A observação de Havelock recai sobre ginais, podendo, assim, serem dissecadas
o fato de a poesia funcionar como mnemo- em diferentes possibilidades reflexivas.
técnica a garantir a fixação de um conjunto Este exercício levaria, conforme Havelock, a
de referências simbólicas para um dado uma outra característica subjetiva caríssima
povo que, deste modo, garantiria a trans- ao Ocidente: a separação do conhecedor e
missibilidade dos valores gregos às gera- do objeto conhecido. McLuhan escreve a
ções futuras. Sobre este ponto específico, esse respeito:
McLuhan escreveu:
In the “Republic”, Plato vigorously
‘’Homer’s “Iliad” was the cultural attacked the oral, poetized form as
encyclopedia of pre-literate Greece, a vehicle for communicating know-
the didactic vehicle that provided men ledge. He placed for a more precise
with guidance for the mana-gement of method of communications and clas-
their spiritual, ethical, and social lives. sification (“The Ideas”), one which
All the persuasive skills of the poetic would favor the investigation of facts,
and the dramatic idiom were marsha- principles of reality, human, nature,
led to insure the faithful transmission and conduct’’.16
of the tradition from generation to ge-
neration. O que se pode ver aqui, ainda, é a

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idéia de que com a escrita toda uma reor- cesso também estarão novas possibilidades
denação de subjetividades, que inclui novas de consciência.
possibilidades de pensamento, tal como
a crítica, a lógica não contraditória e, em ‘’Shakespeare speaks of a world into
breve, o próprio discurso científico, estará which, by programming, as it were,
sendo implementada.17 one can play back the materials of the
O ponto a ser destacado aqui é a pre- natural world in a variety of levels
sença da função mnêmica na própria escri- and intensities of style. We are close
ta, possibilitando a fixação de conteúdos de to doing just this on a massive scale at
tal maneira que se pôde, de forma distancia- present time electronically.
da, se voltar sobre estes mesmos conteúdos (...) The poet Stéphane Mallarmé thou-
em análises e reflexões que possibilitaram a ght ‘the world exists to end in a book.’
emergência de um novo modo de processar We are now in a position to go beyond
informações e, com isso, uma nova modali- that and to transfer the entire show to
dade de consciência. the memory of a computer. For man,
as Julian Huxley observes, unlike me-
rely biological creatures, possesses an
Conclusão apparatus of trans-mission and trans-
formation based on his power to store
A idéia a ser destacada em toda essa refle- experience. And his power to store, as
xão é a de que, inerente aos próprios meios, in a language itself, is also a means of
como uma linguagem, a memória, em fun- transformation of experience...’’18
ção da estrutura do próprio meio em que
se dá, compõe subjetividades e pode fazer Assim, ao falar do computador e de
emergir formas de identidades complexas novas mídias, McLuhan irá falar, então, de
como a consciência - sendo que esta pode uma nova forma de consciência transindi-
variar em termos de como é caracterizada vidual, conectada, não mais referendada na
(racional, analítica e verbal, ou mítica, emo- tradição racionalista ocidental:
cional, paradoxal, não verbal...).
É neste sentido que McLuhan, ao ver ‘’The next medium, whatever it is - it
a escrita como uma linguagem, como uma may be the extension of conscio-us-
memória, como um meio - perpetuando ness... Survival now would seem to
um conjunto de mensagens, libertando o depend upon the extension of con-
homem do peso da tradição imposto pela sciousness itself as environment. This
cultura oral -, reconhecerá a emergência de extension has already begun with the
um novo modelo de consciência que pas- computer... It may be worth men-tio-
sa a marcar-se pela individualidade, pela ning the structural features of ana-
forma de percepção em recortes, típica da logy since with the computer there
visão analítica que separa todas as coisas has risen the possibility of extending
em fragmentos, gerando, pois, uma cultura consciousness itself as a technological
classificatória, analítica e enciclopedista. environment. If this is to be done, it
Compreende e reconhece, então, que com cannot be done on the basis of any
a entrada em cena dos meios eletrônicos, existing notion of rationality’’.19
bem como com o incremento destes meios,
através do computador, um movimento de Investigar a plausibilidade da emer-
superação quanto àquele modelo de memó- gência de novos modelos de consciência,
ria, em favor de uma memória complexa, garantidos por novos dispositivos mnêmi-
criativa, transformadora da experiência hu- cos, trazidos por meios/linguagens, como
mana, estará em processo e, assim, em pro- fatores interdependentes que ora soam

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como determinantes dos processos comu-
nicacionais, ora soam como determinados 4 McDonnell, T. P., apud McLuhan. Marshall McLuhan - The
por estes mesmos processos, é apenas um Man who infuriates the Critics. p. 32.
dos muitos desafios postos ao estudioso da
comunicação. Esta parece ser uma das mui- 5 McLuhan, M. The Medium is the massage, p. 23.
tas inquietações que o estudo da obra de
McLuhan pode revelar, possibilitando, ain- 6 A idéia de meio na obra de McLuhan é um daqueles con-
da, que se volte para as análises das dinâ- ceitos que, tal como mencionado, se transforma profun-
micas dos meios de comunicação hodiernos damente ao longo da produção acadêmica do autor. Para
com um olhar mais sensível ao contínuo uma apreensão em maior profundidade das diferentes
e sutil jogo das sobreposições de figuras e acepções que este termo ganha em diferentes fases da pro-
fundos, jogo este que tais meios parecem dução de McLuhan ver em Pereira, V. A, op. cit.
jogar com extrema mestria .
7 Observa-se que a palavra consciência em McLuhan, como
no presente texto, deve ser entendida distante de uma
Notas perspectiva ontológica, próxima de uma perspectiva histó-
rica, como um modo de perceber o mundo e a si mesmo. Dentro
* O presente texto é uma versão, com algumas modificações, da presente acepção, consciência se distancia, ainda, da
daquele apresentado no NP Tecnologias da Informação e da clássica perspectiva cartesiana, na qual é entendida como
Comunicação, na Intercom de 2003, cujo título original era o teatro mental que representa o mundo para um único
Consciência e Memória na Comunicação: o approach de Marshall espectador: o sujeito. Cf. in Dennett, D. Tipos de Mente. Esta
McLuhan. questão é desenvolvida em seguida.

** O autor é doutor em Comunicação e Cultura pela ECO/ 8 McLuhan, M. Understanding Media: The extensions of man; p.
UFRJ, professor adjunto do Departamento de Teoria da 28.
Comunicação e da linha Novas Tecnologias e Cultura, do
programa de pós-graduação da Faculdade de Comunica- 9 McLuhan, M., apud McLuhan, E. e Zingrone, F. In Essential
ção Social da UERJ; pesquisador associado do CiberIdea/ McLuhan. p. 275.
ECO/UFRJ e do McLuhan Program in Culture and Tech-
nology, Universidade de Toronto, Canadá. 10 McLuhan, M. Understanding Media: The extensions of man;
pp. 64-65
1 Neste caso pode-se citar desde os textos que rapidamente
se popularizaram entre os estudantes de comunicação 11 Para uma análise mais aprofundada deste ponto sugere-se
acerca das novas tecnologias de comunicação, como aque- ver em Pereira, V.A. op. cit.
les de Pierre Lévy, até todo um conjunto de reflexões de
autores tais como Muniz Sodré, Derrick de Kerckhove, 12 As diferentes memórias irão variar conforme as proposições
Margareth Wertheim, Sherry Turkle, Joshua Meyrowitz, de diferentes autores. A distinção, por exemplo, entre me-
Ken Hillis, dentre tantos outros, que abordam o tema da mória episódica e semântica é proposta do neuro-psicólogo
consciência e das mudanças subjetivas a partir das novas canadense Endel Tulving. Para uma consideração ampla
tecnologias de comunicação. sobre as diferentes formas de memória, ver em Psicologia
Cognitiva, uma excelente obra escrita por Robert Sternberg
2 Para uma reflexão mais aprofundada de todo o conjunto sobre as principais tendências em estudos psiconeurais na
de objetos que o presente artigo aborda ver Pereira, V.A. contemporaneidade.
Comunicação e Memória Estendendo McLuhan. Tese de douto-
rado em Comunicação e Cultura, ECO/UFRJ, RJ/2002. 13 A idéia de que uma memória é a condição mínima para a
manutenção de uma identidade sistêmica encontra acolhi-
3 McLuhan, M. ‘’Carta de McLuhan a Robert Fulford, 1º de da dentro das ciências da comunicação, por exemplo, no
junho de 1964’’; In Letters of McLuhan; p. 300. Editado por pensamento de Norbert Wiener. Cf., Wiener, N. Cibernética
Molinaro, M., McLuhan, C. e Toye, W. Toronto, 1987. e Sociedade.

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McLUHAN, M.; Fiore, Q. The Medium is the Massage: An Inven-
14 Cf. Havelock, E. Preface to Plato. tory of Effects. New York: Bantam Books, 1967.

15 McLuhan, M. The medium is massage, p. 113 ORNSTEIN, R. A Evolução da Consciência: de Darwin a Freud, a
origem e os fundamentos da Mente. São Paulo: Best Seller, 1991.
16 McLuhan, M., apud. McLuhan, E. e Zingrone, F. In Essential
McLuhan, p. 299. ______. A Mente Oculta: Entendendo o Funcionamento dos Hemis-
férios. São Paulo: Summus, 1998.
17 Para todas as idéias de Havelock mencionadas ver, na obra
citada, particularmente os capítulos 11 e 12. PEREIRA, Vinícius A. Comunicação e Memória: Estendendo
McLuhan. Tese de doutorado em Comunicação e Cultura.
18 McLuhan, M. Understanding Media: The extensions of man; p. ECO/UFRJ. Rio de Janeiro, 2002.
79.
STERNBERG, R. J. Psicologia Cognitiva. Porto Alegre: Artes
19 McLuhan, M., apud. McLuhan, E. e Zingrone, F., op. cit. p. Médicas, 2000.
296.
WIENER, N., Cibernética e Sociedade - O uso humano de seres
humanos. São Paulo: Cultrix, 1968.
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Revista FAMECOS • Porto Alegre • nº 24 • julho 2004 • quadrimestral 157